Sudoeste
Sempre fui da opinião que se é para fazer algo parecido com algo que já foi feito, que seja feito, pelo menos, algo melhor. Ou então, que se faça diferente. E foi este segundo caminho que o diretor Eduardo Nunes escolheu ao fazer o filme Sudoeste. Eis uma produção diferenciada, que resgata algumas das qualidades de clássicos do cinema nacional e que, mesmo assim, ainda apresenta uma identidade interessante. A história, em si, acaba sendo um tanto óbvia demais. Mas o filme é belíssimo e tem na qualidade das imagens e do estilo o seu principal trunfo.
A HISTÓRIA: Em primeiro plano, mato. Na sequência da imagem, parece que existe uma estrada. Ouvimos o som da Natureza, ao mesmo tempo que começa a se solidificar o barulho do que parece ser uma carroça. A imagem vai deslizando para a direita até que vemos, de fato, uma carroça se aproximando. Nela, está a parteira, também chamada por alguns de bruxa, Darci (Léa Garcia). Ela é chamada para atender a uma mulher que está dando a luz em uma pensão. Só que Darci chega tarde, e Clarice (Simone Spoladore) morre antes de sua criança nascer. Mas a história dela não termina ali.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes da história, por isso sugiro que só continue a ler quem já assistiu a Sudoeste): A primeira característica que me chamou a atenção neste filme foi a escolha do diretor em contar a história utilizando longos planos de câmera, uma vista panorâmica dos diferentes locais por onde esta história se passa. Até porque, tudo indica, o cenário é fundamental. Para entender como vive aquela gente, e que tipo de (falta de) perspectiva e limites eles tem acessíveis.
Gostei daquela significação em cada plano, em cada escolha de ângulo e do ritmo. Com bastante frequência a câmera do diretor Eduardo Nunes percorre a tela sem interrupção, mas de forma muito lenta, tanto para dar ritmo para o filme quanto para nos mostrar que o tempo não passa com rapidez naquele cenário que poderia compor diversos lugares do interior brasileiro. O gesto de guiar o olhar do espectador para a direita ou para a esquerda, lentamente e em um movimento contínuo, dá ritmo para o filme e também serve de fio condutor para diferentes cenas, ajudando a montar a identidade desta produção.
Depois, me chamou a atenção a escolha do diretor do que filmar. Na primeira cena do filme, mas em outros momentos de Sudoeste também, aparentemente enxergamos um elemento pouco significativo – seja o mato, no início, seja as pás de um catavento, em outro momento. Um recurso interessante porque estimula o espectador a utilizar outros sentidos que geralmente ficam em segundo plano no momento de assistir a um filme, como a audição.
Se o que aparece em primeiro plano é menos significativo do que aquilo que ouvimos, nossa atenção parte para identificar o som antes de dar importância para a imagem. Assim, Nunes nos mostra que nem tudo que é visível, de fato, é importante. Ou, como diria uma certa canção, que as aparências enganam, tanto àqueles que amam quanto aqueles que odeiam. Neste filme, o elemento predominante é o amor. Ainda que a raiva e a indignação estejam presentes – não, neste caso, no enredo, mas na possível reação do público.
Nem tudo que se vê é real. Esta afirmação acaba sintetizando a experiência de Clarice. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois de morrer, antes de dar a luz a sua primeira e única filha, a personagem vivida pela atriz Simone Spoladore “renasce” na figura de sua filha. Em um dia, ela acaba passando de bebê até uma senhora idosa que ela não chegou, de fato, a vivenciar. Nesta trajetória, ela se reencontra com a própria família e com outras pessoas para relembrar pelo que passou. É como se esse fosse um rito de passagem dela para a morte. Uma forma de encarar a própria trajetória e, ao mesmo tempo, se despedir das pessoas que amava antes de partir definitivamente deste plano para outro.
Não vou discutir aqui as diferentes crenças religiosas. Até porque, e os leitores que me acompanham há mais tempo sabem disso, este não é o propósito deste blog. Ainda assim, Sudoeste segue a linha de várias doutrinas. Especialmente aquelas que acreditam que alguém, quando morre de forma trágica – o que é o caso de Clarice -, precisa de um “tempo” e/ou de um rito de passagem para entender porque deixou a vida de forma tão prematura.
O que eu achei mais interessante neste filme, além do estilo da direção e do virtuosismo da direção de fotografia de Mauro Pinheiro Jr., foi a reação dos vivos à presença de Clarice. A família dela, certamente, não a enxergou de forma realista. Do contrário, não teria reagido tão bem ao seu “retorno” à vida. Na fase dela como menina, interpretada pela ótima atriz Raquel Bonfante, até podemos imaginar que a garota não seguiu a mesma fisionomia da Clarice real. Mas depois, quando ela é interpretada por Simone Spoladore novamente, não deixa de ser curioso como as pessoas reagem à ela de forma natural – quando todos sabem que ela morreu.
Uma outra forma de justificar essa naturalidade com que os familiares tratam o retorno da garota ao seu convívio é que nada daquilo, de fato, aconteceu. Ou seja, que ao invés de encarar a passagem de Clarice como sendo uma “despedida” de seus familiares e a adaptação do espírito dela antes de sua partida para outro plano, ver que aquela experiência de “uma vida em um dia” foi vivida por ela sozinha. Talvez até antes de morrer – sua experiência de projeção mental ocorreu sem a respectiva interação com aquelas pessoas. É outra forma de explicar o que Sudoeste explora.
Independente de uma interpretação ou outra, esta produção conta a história de uma garota sofrida, que teve um destino trágico por causa do pai, Sebastião (Julio Adrião). (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como acontece em tantas partes do interior do país, meninas e moças são estupradas por seus pais e não encontram espaço para falar deste abuso com ninguém. A mãe de Clarice, Luzia, interpretada com perfeição e profundidade pela atriz Mariana Lima, assume a pele de muitas mulheres submissas deste país. Que ignoram os abusos do marido por duas razões, basicamente: por amor, por uma parte, e por dependência financeira, por outra. Sem perspectivas e sentindo-se dependentes dos maridos abusivos, elas sofrem diariamente, mas não conseguem romper com aquela dependência e por fim aos abusos e crimes dos homens que elas escolheram para casar.
Desta forma, Sudoeste trata de uma realidade nacional que segue sendo válida em várias latitudes do país. O cenário é agreste, mas esta mesma história poderia ter sido contada em um ambiente urbano. E acredito que não apenas no Brasil, mas em outras parte do mundo também. Infelizmente. Este filme, além de belo nas imagens e com estilo na narrativa, trata de um tema universal e muito duro. Fala sobre abuso sexual, mas também sobre falta de perspectivas, relações desiguais de poder, família e necessidade de compreensão da própria realidade e de perdão. Porque nem sempre é possível perdoar um agressor, mas é preciso desculpar a si mesmo e às pessoas que estavam perto, mas que não sabiam de nada ou que, mesmo sabendo, foram incapazes de agir de outra forma.
NOTA: 9,3.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Filme em preto e branco e com um ritmo muito diferente daquele que as pessoas acostumadas ao cinemão comercial – seja brasileiro, seja de Hollywood – estão habituadas a assistir. Sudoeste pode não ser um filme fácil para a maioria dos perfis de espectadores. Mas honestamente eu espero que as pessoas dêem uma chance para ele. Afinal, este é o estilo de cinema nacional que foge da preocupação com a bilheteria e tenta produzir algo diferenciado e com estilo. Existe vida inteligente e que foge dos padrões no Brasil. Graças a Deus!
Com Sudoeste, sigo a minha promessa de abraçar a uma série de filmes brasileiros. Resultado de uma votação feita aqui no blog, na qual eu pedia para vocês indicarem que país da América do Sul deveria ser foco de uma série de críticas. Não tenho previsão de até quando vou com esta série de críticas. Mas tenham certeza que a vontade é que a lista siga forte por muito tempo. Só devo intercalar estes textos sobre filmes nacionais com outros lançamentos, para não ignorar boas produções que vão aparecer nos cinemas nos próximos meses.
Sudoeste faz referência a vários filmes nacionais. A mais evidente, especialmente quando Darci coloca o bebê no barco, é feita para o clássico Limite, uma das produções que marcaram a história do cinema brasileiro.
Duas atrizes roubam a cena nesta produção: Simone Spoladore e Mariana Lima, respectivamente filha e mãe. Elas convencem e, mais que isso, comovem com as suas interpretações sensíveis e sofridas. Mas vale destacar outras participações. Como Dira Paes na pele de Conceição, uma mulher que tem um caso com Sebastião e que acompanha Clarice em sua fase de isolamento e gravidez quase secreta. Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Everaldo Pontes como o comerciante Malaquias – que defende “a bruxa” Darci, sem sucesso.
Falando na personagem de Darci, eis um ponto curioso do roteiro desta produção. Mulher forte e que vive isolada, ela sintetiza muitas brasileiras que, no interior ignorante de várias latitudes do país, tem conhecimento sobre a vida que outros não tem e, por isso, é vista com ressalvas pelas pessoas que tem medo de tudo aquilo que elas desconhecem. Além de parteira, Darci é um tipo de curandeira – em outras palavras, alguém que domina as propriedades de diferentes tipos de plantas. Ela ajuda a trazer pessoas para a vida e a curar quem precisa. Desta forma, é vista com respeito e com temor pelas pessoas. Vira alvo de brincadeiras de desafio entre as crianças, assim como de ataques dos adultos. Como todas as bruxas que já foram combatidas na história da Humanidade, Darci é poderosa porque sabe muito sobre o que a maioria desconhece. Segue a própria intuição e sabe perceber os sinais que estão em todas as partes.
Gostei do roteiro de Guilherme Sarmiento e do diretor Eduardo Nunes, especialmente pela imersão dele em um estilo de Brasil que eu gostaria que fizesse parte apenas de obras de ficção. O texto equilibra a dura realidade com a fantasia. Isso é bacana e funciona. Mas só achei o “grande segredo” da produção muito previsível. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas para mim ficou logo evidente que o pai da criança que matou Clarice era o próprio Sebastião. As falas dele, ao saber da morte da filha, praticamente terminam com o mistério. Uma pena. O filme seria mais interessante se a informação chocante, de fato, chegasse no momento certo e de forma estratégica.
Da parte técnica do filme, vale citar o ótimo trabalho do editor Flávio Zettel e a trilha sonora de Leandro Lima e Gabriel d’Angelo.
Sudoeste estreou nos cinemas brasileiros em outubro do ano passado. Antes, ele participou do Festival Internacional de Cinema de Rotterdam, na Holanda, em janeiro de 2012; foi exibido, em maio, no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, na França e, em setembro, participou do Festival de Cinema Independente Katowice, na Polônia. O filme participaria, ainda, dos festivais de cinema de Thessaloniki, na Grécia, e do Mar del Plata, na Argentina. Nos Estados Unidos, a produção estreou em janeiro deste ano.
Nesta trajetória, Sudoeste ganhou sete prêmios e foi indicado a outros quatro. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Contribuição Artística no Festival de Cinema de Havana para Eduardo Nunes; os prêmios de Melhor Filme Latino-Americano, Melhor Fotografia e Prêmio Especial do Júri no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro; Melhor Fotografia e Melhor Diretor pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA); e o Melhor Longa Metragem no Vitória Cine Video. Bastante premiado, pois, entre os anos 2011 e 2013.
Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para esta produção. Uma bela avaliação, especialmente porque este filme foge dos padrões mais comuns do cinema comercial. Apenas dois críticos relacionados no Rotten Tomatoes dedicaram textos para esta produção. O texto do Stephen Holden, do New York Times, elogia a produção brasileira, enquanto o crítico Tomas Hachard, da Slant Magazine, não gostou do que assistiu.
Algo curioso sobre Sudoeste: ao procurar a página oficial do filme, não consegui encontrá-la. Por outro lado, encontrei a página do filme no Facebook. Sinal dos tempos?
Sem dúvida a fotografia deste filme está entre as melhores que eu já vi no cinema nacional. E entre as melhores que eu assisti nos últimos tempos no cinema mundial. Grande trabalho!
CONCLUSÃO: Beleza, disse um dia o poeta, é fundamental. E Sudoeste é um filme duro, árido, triste, lírico, mas também muito belo. As principais qualidades dele estão, em ordem de importância, na direção de fotografia, na direção e no trabalho dos atores. Longos planos de câmera, perspectivas estendidas, e a dinâmica própria da produção, que estimula o espectador primeiro a ouvir, depois a ver e, por fim, a entender, tornam esta produção diferenciada. Um belo trabalho do diretor Eduardo Nunes e que merece ser descoberto. Com fotografia preto e branco e com um estilo muito diferente do que as pessoas estão acostumadas a ver, seja nas novelas brasileiras, seja nos filmes de Hollywood, Sudoeste pode demorar um pouco para fazer sentido para você. Mas se deixe levar por um projeto que beira o experimental e abra os sentidos. A história, dura, poderia ter alguns elementos menos previsíveis. Mas nada que tire os méritos da produção.
Somos Tão Jovens
Um filme planejado, em todos os detalhes, para agradar a uma legião de pessoas. Somos Tão Jovens não traz nenhuma novidade para os fãs de Renato Russo e da Legião Urbana, que conhecem cada detalhe da história do ídolo e da banda e vão perceber algumas “licenças poéticas” na produção. Mas para mim, que sou uma destas fãs, este filme revelou-se um verdadeiro alívio e uma revisita interessante ao passado. Como o próprio ator Thiago Mendonça, que interpreta a Renato Russo definiu, na pré-estreia da produção, na noite de quarta-feira, Somos Tão Jovens é um “filme de turma”. Que não lembra, muito, para meu alívio, a Malhação. Mas que tem o espírito da amizade como o seu principal foco. No fim das contas, o que fica é a poesia e a força das músicas do Aborto Elétrico, do Trovador Solitário e da Legião. Por isso mesmo, este filme funciona.
A HISTÓRIA: Várias fotos de Renato Russo, desde a infância, até a adolescência, passando por Brasília e o Brasil que se despedia da ditadura e dos tempos de mercado fechado. Logo após a vinheta, que termina com as assinatura de Renato Russo e a famosa expressão “Força sempre”, mergulhamos em imagens reais e históricas de Brasília. A produção é ambientada na capital federal entre 1976 e 1982. Naquela cidade, vemos a um Renato Russo (Thiago Mendonça) empolgado, que pedala em uma bicicleta com um violão nas costas e o uniforme do Colégio Marista sentindo o ar passar pelo seu rosto e entrando em seus pulmões. Até que ele cai e é levado para o hospital. Lá, os pais de Renato Manfredini Jr., Renato (Marcos Breda) e Carminha (Sandra Corveloni) descobrem que o filho foi operado e ganhou três pinos na perna por ter epifisiólise. A partir daí, conhecemos a história da transformação de Manfredini Jr. em Russo, e da formação de várias bandas naquele cenário de juventude entediada e inspirada no movimento punk. Eles criariam grupos que impulsionariam o Rock Brasilis, com a Legião Urbana como o seu principal expoente.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Somos Tão Jovens): Enquanto esperava para entrar no cinema, eu tive medo. Ao ver a um dos cartazes do filme, pensei: “Será possível que transformaram a história controvertida de Renato Russo e seu início na música em um capítulo estendido de Malhação?”. Na foto do cartaz, Mendonça aparece cantando em alto e bom som cercado por jovens que parecem ter sido escalados para uma propaganda de refrigerante.
Depois, dentro da sala de cinema, esperando pela inédita transmissão de um lançamento de filme nacional simultâneo em nove cidades do país começar, ouvi parte da trilha sonora da produção. Percebi que Mendonça, de fato, tinha um tom parecido com Renato Russo. Mas, claro, não era ele. Mesmo esforçado, Mendonça não tinha a potência vocal ou as nuances da voz do ídolo sensível e atormentado. O que me restava era esperar. Para ver o tamanho do desastre quando o filme começasse.
Para a minha grata surpresa, Somos Tão Jovens não é um desastre. Pelo contrário. Apesar de várias licenças poéticas e de tornar a história mais leve do que ela realmente foi, esta produção dirigida com muita inteligência por Antonio Carlos da Fontoura se mostra bastante honesta e com um propósito louvável: o de homenagear, segundo palavras do próprio diretor, Renato Russo e aquela turma que inesperadamente revolucionaria o país a partir de Brasília.
E é exatamente isto que Somos Tão Jovens faz. Uma homenagem que, como qualquer produto com esta característica, ignora os pontos polêmicos e controversos e se centra apenas na parte bonita e heróica da história. Não por acaso, a família Manfredini foi consultada e serviu como consultora para esta produção. Assim como diversos amigos de Renato Russo e integrantes das bandas que formaram o cenário do Rock Brasilis.
Na apresentação do tapete vermelho no Cine Odeon, na noite do dia 24, quando o filme teve pré-estreia em 12 salas de cinema do país com transmissão ao vivo direta do Rio, enfatizaram a data como um encontro para “comemorar o movimento cultural” surgido no final dos anos 1970 em Brasília.
Somos Tão Jovens busca contar a origem deste movimento. Como as principais figuras do rock nacional se conheceram, se relacionaram e montaram bandas como Aborto Elétrico, Plebe Rude, Capital Inicial, Dado e o Reino Animal e Legião Urbana. Estas foram as únicas bandas citadas na produção, mas que representaram todas as demais, como Paralamas do Sucesso (Herbert Vianna, interpretado por Edu Moraes, aparece em dois momentos na produção, mas sem citar a banda), Caos Construtivo, Blitz 64, Vigaristas de Istambul, XXX, Escola de Escândalo, entre outras.
A maioria daquelas bandas, que trocavam de integrantes quase como quem troca de roupa, não tinha qualidade ou se levava o suficientemente a sério para persistir no caminho. O que torna a figura de Renato Russo ainda mais impressionante. Ele poderia ter apenas “curtido” um tempo aquela transgressão, ter feito barulho e ter mudado de direção, como foi sugerido por seus pais. Mas não, insistiu em fazer música e mudar a vida de tanta gente com poesia e atitude. A persistência dele e dos irmãos Fê e Flávio Lemos são bem exploradas pelo filme de Fontoura.
O diretor paulistano de 74 anos, idade completada em janeiro deste ano e com uma filmografia que inclui documentários, curtas e filmes de diferentes gêneros, soube conduzir muito bem esta produção. Ele valorizou o trabalho dos atores, manteve a câmera nervosa nos momentos em que ela deveria seguir esta linha – especialmente nas festas e nas apresentações das bandas – e procurou belas cenas assim que possível. Há sequências memoráveis, embaladas por uma ótima trilha sonora – e haveria melhor do que as letras do Renato Russo? – e com a ajuda fundamental do diretor de fotografia Alexandre Ermel, que captou muito bem todas as cores do dia e da noite das cidades pelas quais a equipe do filme passou.
O roteiro foi muito bem escrito e consegue o propósito de qualquer realizador: faz as pessoas rirem e também se emocionarem. Percebi isso na sala de cinema, na pré-estreia do filme. Ainda que tenha me incomodado um pouco o fato de que as pessoas riram muito mais do que deveriam – e em momentos em que o propósito não era esse, como quando Renato Russo aparece mal por causa da morte de John Lennon.
O texto de Marcos Bernstein, escrito com a colaboração do diretor Fontoura e de Luiz Fernando Borges e Victor Atherino, tem ritmo, busca traçar um rápido retrato das contradições de Renato Russo, abre espaço para alguns personagens secundários daquele cenário de rock adolescente e, segundo o próprio Fontoura, trata do “rito de passagem” do Renato Manfredini Jr. para o ídolo Renato Russo.
Os fãs de RR e da Legião Urbana não vão assistir nada de novo. Pelo contrário. Vão perceber, aqui e ali, algumas “licenças poéticas” dos roteiristas que poderão desagradar aos mais fanáticos. Há vários episódios que podem ser questionados, mas eu destacaria dois, em especial: o acidente de bicicleta que começa o filme e que seria a razão para Renato e sua família descobrirem que ele tinha epifisiólise, e a primeira ruptura entre Fê Lemos e RR que teria colocado fim ao Aborto Elétrico.
De fato, RR foi diagnosticado com epifisiólise, teve três pinos colocados na perna e passou muito tempo em casa, sem poder sair do quarto. Depois de ficar na cama por seis meses, ele teria ficado outros seis meses em uma cadeira de rodas antes de ficar outros seis andando com muletas. Evidentemente que alguém que tinha tido a cartilagem da perna dissolvida pela doença não poderia andar de bicicleta, correto? A imagem inaugural do filme é muito bonita, e emblemática, mas não poderia ser mais fora da realidade. E outro detalhe: de acordo com o roteiro, ela acontece em 1976 mas, na verdade, a descoberta ocorreu um ano antes, quando RR tinha 15 anos.
Depois, chega a incomodar a explicação sobre a primeira ruptura do Aborto Elétrico. Segundo o roteiro de Somos Tão Jovens, RR bebeu o dia inteiro por causa da morte de John Lennon. Ao chegar bêbado para uma apresentação com o Aborto Elétrico, ele foi confrontado por Fê Lemos. No início do show, ele erra a música Veraneio Vascaína, o que faz Lemos atirar uma baqueta nas costas do vocalista, que para o show anunciando o fim da banda.
Segundo a biografia de RR escrita por Arthur Dapieve, a história foi bem diferente. Primeiro, que o tal show na cidade satélite de Cruzeiro Velho teria ocorrido no dia 8 de dezembro de 1981, um ano depois da morte de John Lennon. Depois, RR teria se atrapalhado com Veraneio Vascaína no meio do show, e não no início. Ele também não teria abandonado a apresentação logo depois de ter recebido a baqueta. O Aborto Elétrico tocou até o final, e não houve discussão no palco.
Estes são apenas dois pequenos exemplos do quanto Somos Tão Jovens não se preocupou tanto com os detalhes da história real. O objetivo do filme era outro. Contar a história menos conhecida de Renato Russo para todos aqueles que não conhecem todos os detalhes. Ajudar os pais dos fãs daquela época e, principalmente, os seus filhos, que cresceram nos últimos 17 anos, período sem Renato Russo, a entender como tudo surgiu. De quebra, temos um pouco do cenário do país no final dos anos 1970 e início dos anos 1980 sob uma ótica pouco explorada no período, o da juventude.
Além das licenças poéticas do roteiro, admito que me incomodei um pouco com o politicamente correto exagerado da produção. Ela suaviza os dilemas e as inquietudes da época, mostrando algum álcool e maconha aqui e ali – mas muito, muito menos do que realmente foi consumido. Renato Russo aparece bebendo pra valer em apenas um dia – aquele em que, supostamente, John Lennon morreu. Mas o fato é que ele bebia doses cavalares com muito mais frequência. Um filme que procura respeitar tanto a família e a memória de RR se permitiu mostrar, apenas, esta fragilidade em um “dia especial”. Mas nem sempre eles foram necessários para que RR passasse dos limites.
Também senti falta do filme mostrar pelo menos um beijo gay. Afinal, por que o Renato Russo de Somos Tão Jovens pode ser mostrado na cama com a personagem ficcional Aninha, dando um educado beijo na boca dela, e não pode fazer o mesmo com Carlinhos (Antonio Bento)? Me parece que os realizadores seguiram a mesma teoria das novelas produzidas no país, de que o brasileiro ainda não está preparado para um beijo gay. Será mesmo? E quando, finalmente, estaremos preparados a conviver pacificamente com todas as nossas diferenças? Respeitando todas as pessoas, como pedia o próprio RR?
Tudo isso deixa ainda mais evidente que Somos Tão Jovens procurou ser uma grande homenagem a RR. Não lembra em quase nada, por isso mesmo, a sua vida real. Porque, afinal de contas, a história verdadeira do ídolo é cheia de controvérsias, de muitos altos e baixos e de uma parte triste e complicada que muita gente não quer enxergar. Mas este conhecimento da complexidade do ídolo só pode fazer bem. Ajuda a perceber a complexidade de todos nós e da própria vida. Somos Tão Jovens seria um filme adulto, se ousasse entrar nesta seara. Mas não. Ele é, de forma objetiva e planejada, um filme adolescente. Com toda a sua inocência, espírito naif e força transformadora.
No fim das contas, todas as licenças poéticas da produção e sua falta de ousadia pouco importam. O que fica, realmente, é a homenagem para a obra de Renato Russo, desde os tempos do Aborto Elétrico, passando pelo Trovador Solitário e até o início da Legião Urbana.
O filme dá bastante espaço para as músicas dele, bem interpretadas pelos atores que ficaram quatro meses em convivência diária e conseguiram, neste período, desenvolver covers bastante honestos dos ídolos nacionais. A força da dedicação deles, especialmente de Thiago Mendonça, que emociona na interpretação de RR, carregando o filme nas costas, resulta em músicas bem executadas e potentes. Mendonça não tem a potência vocal de RR, mas faz um belo trabalho. E os demais lhe seguem bem. Somos Tão Jovens é tão bom exatamente por isso. Porque fala de amizade, coragem, foco em objetivos ousados e de uma obra que segue inspiradora. Mesmo que o tempo tenha passado, a obra de RR e de seus colegas segue atual.
Da minha parte, como uma fã original da Legião Urbana e de Renato Russo – destas que ganhou ou comprou os discos originais, antes deles serem remasterizados, e que sempre buscava uma camiseta nova da banda nas lojas de discos -, me senti aliviada no final de Somos Tão Jovens. Não estragaram a história, transformando-a em uma releitura da origem de Renato Russo sob a ótica de uma produção a la Malhação. Ao mesmo tempo, me emocionei ao me transportar no tempo, resgatando sentimentos de um passado que ficou em seu devido lugar. Apesar da música de RR seguir sempre fazendo sentido. E ouví-la em alto e bom som, no cinema, foi gratificante. E será para você também.
NOTA: 9,7.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: O cinema nacional está preocupado com a pirataria. Na pré-estreia de Somos Tão Jovens, todas as pessoas tiveram que sacar os seus celulares e smartphones para que os aparelhos fossem colocados em pacotes para serem lacrados. Quando chegou a minha vez, perguntei se a medida era para evitar que as pessoas tuitassem durante a produção. Brinquei se era para evitar que elas contassem o final do filme.
Apesar da brincadeira, de verdade, eu não tinha pensado que a medida era para evitar que alguém filmasse dentro do cinema e alimentasse a pirataria. Sei lá, vai ver que é porque eu tenho um celular dos antigos, incapaz de filmar qualquer coisa. Ou porque eu jamais pensaria em algo assim. Me surpreendi quando, antes da transmissão ao vivo do Cine Odeon começar, os organizadores pediram para ninguém usar o celular no cinema para evitar filmagens ou reproduções vetadas. Santa inocência, Batman!
Achei muito interessante a iniciativa da Imagem Filmes, da Fox, RioFilme, Canto Claro e da Petrobras, que apresentam Somos Tão Jovens, em promover uma pré-estreia em nove cidades do país na noite de quarta-feira com uma transmissão ao vivo simultânea do evento promovido no Cine Odeon, no Rio de Janeiro. Foi bacana por oferecerem o mesmo conteúdo de informações para públicos de diferentes locais do país. Espero que este exemplo seja seguido em outros lançamentos do cinema nacional.
O ator Thiago Mendonça dá um show em Somos Tão Jovens. Ele tentou emular não apenas a voz, mas a atitude e os trejeitos de Renato Russo. O perigo era grande dele ter uma interpretação caricatural. Mas, na minha análise, ele conseguiu flertar com a caricatura e ignorá-la de forma inteligente.
Mendonça se entregou ao personagem, fazendo o público rir e se emocionar. Carrega, como eu disse antes, o filme nas costas. Com uma ajuda importante Laila Zaid, que dá um show como Ana Cláudia, a personagem ficcional que incorpora muitas amigas reais de Renato Russo em uma única persona. Tanto Mendonça quanto Zaid tem carisma e seguram bem os seus respectivos personagens. O mesmo não pode ser falado sobre outros atores e não-atores que aparecem em papéis menores e que não tem o mesmo destaque. Mas eles conseguem o fundamental: se sair bem na hora de formar uma banda e tocar pra valer no filme. Afinal, é a música o que realmente importa na produção.
No tapete vermelho da pré-estreia do filme, Laila Zaid destacou como o elenco viveu intensamente a experiência. No blog do filme, é possível saber que o trabalho de filmagem começou em maio de 2011 e que exigiu quatro meses de convivência diária do elenco principal. Zaid disse que a sua personagem “centra várias meninas que passaram pela vida de Renato Russo” e que ela fez um trabalho de mergulho intuitivo, seguindo os passos de Mendonça e “colando” em sua interpretação. Na opinião da atriz, que disse que é de uma geração posterior ao sucesso da Legião, faltam pessoas como RR atualmente, que façam crítica social.
Depois de Laila Zaid, foi a vez de Fontoura falar sobre o filme. O diretor disse que a produção homenageia Renato Manfredini Jr., um rapaz que saiu de uma quadra de Brasília para se tornar “um mito eterno do Brasil”. Ele disse que a Legião Urbana é universal, o equivalente a um The Beatles brasileiro. “Todo mundo gosta da Legião”, enfatizou.
Fontoura justificou a escolha pelo começo da carreira do ídolo afirmando que tratar da vida inteira de Renato Russo, em um filme, ficaria “muito corrido”. Além disso, ele disse sempre ter se interessado por começos, e que achou interessante contar o rito de passagem e a história de como Renato Manfredini Jr. “inventou” o Renato Russo. Finalmente, o diretor confirmou que chamava Thiago Mendonça de Renato, porque, afinal de contas, ele era o RR.
Bem vestido, Thiago Mendonça foi o terceiro a falar no tapete vermelho. Ele brincou que se inspirou no The Killers para escolher o terninho com o que foi na festa de lançamento do filme. Mendonça destaca a capacidade de Renato Russo em “associar a delicadeza da poesia com a força do rock”. Afirma que o país continua uma vergonha, como na época em que o filme é ambientado, e que é preciso ter mais gente com atitude como RR.
Mendonça destaca que a obra de RR e da Legião permanece, e que ele só acreditou que tivesse um timbre parecido com o do ídolo após a aposta e a confiança do assistente de direção musical Fernando Morello, que também atuou na preparação vocal e nos arranjos do filme, e do diretor musical Carlos Trilha. Para o ator principal deste filme, cantar significa “coragem e muita doação”. Ele destacou que Somos Tão Jovens é um “filme de turma”, e que incentiva o “do it yourself”, lema do punk que significa “faça você mesmo”.
Na sequência, o ator Cauã Reymond aparece em cena, dizendo que não era tão próximo da Legião, e sim de uma geração que acompanhou mais Caetano Veloso e Lulu Santos. Ele admitiu que estava ali por causa de uma parceria com a Imagem Filmes, que vai coproduzir o seu próximo filme, Língua Seca, um “road movie e thriller de ação”. Não disse nada demais, apenas que acredita nesta nova fase do cinema nacional, que poderá logo andar por suas próprias pernas, sem tanto financiamento, e ótimas produções que custam entre R$ 800 mil e R$ 2 milhões. Mesmo sem falar nada demais sobre a Legião ou RR, Reymond arranca reações emocionadas de parte da plateia feminina.
Dado Villa-Lobos e Nicolau, seu filho, surgem na sequência para falar como o jovem interpretou o próprio pai no filme. Nicolau brinca que teve 25 anos de laboratório em casa para saber como assumir o papel de Dado, por isso não precisou pedir dicas ou se informar sobre o período do início de tudo, em Brasília. Ele apenas pediu algumas dicas de música e para tocar guitarra, já que tudo foi “a vera no filme” – ou seja, todas as músicas que aparecem sendo executadas na produção, de fato, foram tocadas pelos atores que, segundo Nicolau, saiam das filmagens e iam para casa ensaiar aquelas músicas. Para Dado, é sempre muito bom prestar atenção nos filhos, e a sua geração de filhos teria produzido “muita coisa positiva”. A mensagem do filme, segundo Dado, é que os jovens devem juntar os seus amigos, sair de casa e fazerem alguma coisa. Para ele, Renato era “maluco, transgressor e agregador”.
Em seguida, entrou em cena Marcelo Bonfá e Conrado Godoy, que lhe interpreta na produção. Godoy explica que é amigo de João, filho de Bonfá, há muito tempo, e que eles tiveram muito material – desde fotografias até reportagens e muito material de vídeo e áudio – para consultarem quando começaram a trabalhar no projeto. E que isso foi fundamental para a imersão nos personagens e naquele tempo. Bonfá comentou que é bom rever aquele período, passado tanto tempo, porque eles viveram um “momento muito sério” na adolescência, quando tudo era “muito sério”. O músico explicou que o seu filho, João, inicialmente iria interpretá-lo, mas que ele não pode porque teve problemas na época. Godoy então comentou que o amigo achou bom que ele fizesse o papel do pai, e teria afirmado: “Melhor você do que alguém que eu não conhecesse”.
O ator Bruno Torres, que interpreta a Fê Lemos, possivelmente o maior papel depois de RR e Aninha, destacou o tamanho do lançamento de Somos Tão Jovens, que chegará aos cinemas com 600 cópias. Ele também disse que por “Renato ser um domínio público da sociedade, ele precisava ter um filme” como esse, porque ele conta uma história que as pessoas aindam não sabem a respeito do ídolo. Meia verdade, eu diria. Parte das pessoas não conhecia esta história. Torres disse que conversou com Fê Lemos por telefone, para saber de alguns detalhes da época, e que esteve várias vezes na casa dos pais dele.
Em seguida, apareceram em cena Carmem Teresa Manfredini e a atriz Bianca Comparato, que interpreta a irmã de Renato Russo no filme. A jovem intérprete disse que trocou muitas ideias com Carmem, que foi uma das idealizadoras do projeto, e que este contato lhe deu muita segurança para saber que eles estavam seguindo o caminho correto. Carmem disse que a atriz se saiu muito bem ao mostrar como ela “enchia o saco” do irmão mais velho, que era um verdadeiro exemplo para ela – que também é cantora.
Na sequência das entrevistas ao vivo, a plateia que viu a pré-estreia assistiu a um vídeo tipo trailer que apresentava a essência do projeto. Finalmente, os discursos finais, com destaque para a fala da produtora Letícia Fontoura, esposa do diretor, e que agradeceu ao apoio da família Manfredini, que esteve ao lado dos realizadores durante todo o tempo. Ela destacou, também, a “garra e a perseverança” de Fontoura.
Somos Tão Jovens envolveu uma equipe imensa. Apenas uma terceira parte – algumas dezenas – apareceu no Rio de Janeiro, no evento do Cine Odeon, segundo Fontoura. Dois anos depois das filmagens começarem, em Brasília, o filme chega ao público. E tenho certeza que fará muito sucesso. Porque tem méritos para isto.
Eu gostei do roteiro de Bernstein, apesar daquelas “licenças poéticas” citadas anteriormente. Mas ele escreveu um texto inteligente, engraçado, com algumas sacadas muito bacanas. Bernstein e Fontoura souberam escolher os momentos certos de fazer rir, emocionar, e inserir as canções de RR não apenas em apresentações na telona, mas também em momentos de intimidade do ídolo. Bom trabalho.
Thiago Mendonça faz um trabalho excepcional. Dos atores secundários, além do carisma de Laila Zaid, destaco a segurança e tranquilidade nas interpretações dos veteranos Sandra Corveloni e Marcos Breda, como os pais de RR, e a interpretação emocionada de Sérgio Dalcin como “Petrus”, apelido para André Petrorius, o filho do embaixador da África do Sul no Brasil que RR achava parecido com Sid Vicius e com quem ele formaria o Aborto Elétrico.
Entre as ausências deste filme, e que não são poucas, achei muito estranho a produção ignorar completamente a figura de Renato Rocha, conhecido também como Negrete ou Billy. Ele era conhecido da turma da Colina e formaria o quarteto que levaria a Legião para shows fora de Brasília e gravaria os primeiros CDs da banda. Ico Ouro Preto até aparece na história, mas praticamente some no filme – e ele também teve um bocado de protagonismo na turma.
Outros atores que vale citar: Daniel Passi como Flávio Lemos; Ibsen Perucci como Dinho; Olivia Torres como Gabi – aparentemente uma das poucas amigas que entendia o RR; Kotoe Karasawa como Suzy; Nathalia Lima Verde como Helena, namorada de Dinho; Rene Machado como Ico Ouro Preto; e Leonardo Villas Braga como Hermano Vianna, que colocaria a Legião na estrada. A maioria deles aparece pouco, quase em pontas.
Por ser um filme com alta carga musical, é de tirar o chapéu para Carlos Trilha, responsável pela direção musical. Trilha conheceu muito de perto Renato Russo, com quem trabalhou na Legião Urbana e como produtor de seus discos solo. Ninguém melhor para assumir esta função em um filme com este propósito.
Da parte técnica de Somos Tão Jovens, vale também destacar o belo trabalho de direção de arte de Waldy Lopes Jr e os figurinos de Verônica Julian.
Não sou de assistir filmes uma segunda vez. Algumas vezes abro excessões, especialmente depois de muito tempo após ter assistido a uma produção pela primeira vez. Mas, no caso de Somos Tão Jovens, eu o assistiria novamente no cinema logo.
Meus bons leitores deste blog, com Somos Tão Jovens eu iniciou um período de críticas sobre filmes brasileiros. Estou atendendo a um pedido de vocês, que votaram na enquete aqui do blog para que eu dedicasse um tempo para os filmes nacionais. Então vambóra! Estou apenas começando a lista com Somos Tão Jovens.
Muito bom o trabalho da equipe envolvida com este filme em todos os detalhes. E para a minha sorte, apenas um dos três cartazes que eu vi do filme passavam a ideia de algo no estilo Malhação. Os outros trabalhos passam mais a ideia de um filme menos enlatado. Ainda bem.
Gostei muito do site criado para falar do filme. Especialmente pelo formato de blog. Há muita informação bacana por ali. Vale conferir.
Até a tarde de hoje, por ainda não ter estreado em circuito comercial, Somos Tão Jovens não apresentava nota no site IMDb.
CONCLUSÃO: Um filme politicamente correto sobre uma galera que rompeu barreiras, padrões e que bradou a transgressão em um país que saia da ditadura militar e que clamava por mudanças. Somos Tão Jovens foi planejado para agradar a dois públicos principais: o dos fãs de Renato Russo e da Legião Urbana, ávidos por assistir a história de seus ídolos na telona; e o da nova geração adolescente que não conviveu com esta história enquanto ela acontecia. O diretor Antonio Carlos da Fontoura conduz a história com inteligência, valorizando o trabalho dos atores, que conviveram intensamente e de forma comunitária por mais de um mês.
O resultado é que eles conseguiram imergir nos personagens baseados em ídolos reais e as pessoas de seu entorno. Os atores que interpretam os integrantes das bandas Aborto Elétrico e Legião Urbana, em especial, conseguiram fazer covers bem decentes. Um ponto fundamental para o filme dar certo. No fim das contas, descontadas as licenças poéticas e o excesso de politicamente correto, Somos Tão Jovens é tão bom porque valoriza o que deveria valorizar: o trabalho diferenciado, ao mesmo tempo corajoso, poético e atemporal de Renato Russo. O filme funciona. Tanto para quem já conhecia a história, como para quem ainda sabia pouco sobre a gênesis do Rock Brasilis. E é isso que importa, no final, não? Que o filme tenha uma bilheteria estrondorosa e que a obra de RR e de sua Legião cheguem a muito mais gente. Tenho certeza que Somos Tão Jovens vai ajudar neste sentido.
The Master – O Mestre
Todos servem a algo ou a alguém. Essa afirmação foi cantada por Bob Dylan em 1979 na música Gotta Serve Somebody. E eu sempre lembro dela, nos momentos mais diferentes. Afinal, por mais independente e esperto que alguém se imagine, uma hora ou outra ele vai servir a alguém. The Master trata um pouco sobre isto. De como as pessoas precisam de lideranças e de crenças. Elas vão seguir e servir a alguém. E elas tem o poder de escolher a quem.
A HISTÓRIA: O mar. Águas azuis. Um marinheiro olha para o horizonte e sente o sol. Depois, em um coqueiro, ele retira alguns cocos com um machado, e bebe aquela água com um aditivo. Este cidadão é Freddie Quell (Joaquin Phoenix), que faz parte de um grupo de marinheiros em tempo de guerra que encontra tempo para lutar como “gladiadores” na areia e para fazer imagens de mulheres nuas na praia. Com o fim do conflito, Quell volta para os Estados Unidos, onde passa por um tratamento psiquiátrico. Liberado, ele vai trabalhar como fotógrafo, na colheita de verduras, mas sempre se envolve em algum conflito. Até que entra no barco de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), conhecido como Mestre, e fazer parte do grupo de seguidores de sua filosofia chamada A Causa.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Master): A música no início do filme fala muito a respeito do que vamos assistir a seguir. Porque ela é estimulante e ajuda a estarmos, ao mesmo tempo, atentos e inquietos. E este é apenas o começo. Outro elemento também logo fica evidente: que Joaquin Phoenix carrega o filme sozinho. Ele é a parte mais perturbadora da história, porque tem um desempenho visceral que impressiona.
The Master é um destes filmes curiosos do senhor Paul Thomas Anderson. O diretor assina também o roteiro da produção, que mergulha em elementos conhecidos do público estadunidense, como os traumas de um pós-guerra e a difícil experiência de integração dos ex-soldados a uma sociedade que não viu ou sentiu o que eles passaram em ambientes de batalha, tédio, espera e tensão. Mas o filme também inova ao mostrar uma seita, baseada em “ciência”, mas que trata de questões quase (ou que podem ser consideradas) religiosas.
Por todas as partes, os elementos dominantes deste filme são a dominação e a submissão. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não percebemos no início, mas teremos certeza apenas no final, que Freddie Quell e Lancaster Dodd estão em uma permanente queda de braços. Para Dodd, líder de uma seita que busca consolidar-se e crescer, Quell é um belo experimento. Um desafio que, se superado, vai ajudar-lhe a ganhar ainda mais fama. Quell, por sua vez, perdido e solitário, sem amigos ou o amor verdadeiro, fica fascinado com a persuasão de Dodd, com o grupo que circula ao redor dele, e com a aparente confiança que o “guru” deposita nele, um pária social.
A todo o momento, esperamos que alguma catástrofe aconteça. Não sei vocês, mas eu aguardava a hora em que Quell pegaria uma mulher contra a sua vontade, talvez até a “bastante acessível” Peggy Dodd (Amy Adams). Isso porque ele é inconstante e imprevisível. Ainda que, conforme o filme passa, começamos a ter um quadro um pouco mais aprofundado do personagem, o opositor perfeito para o equilibrado e calculista Lancaster Dodd.
A grande questão levantada por The Master é de quem, afinal, acaba tendo mais poder? O sujeito inteligente, determinado, manipulador e cheio de seguidores, que tenta convencer as pessoas com sua doutrina e lógica, ou a força destrutiva, independente, anárquica e fora dos padrões do sujeito que flerta com a loucura e brinca com os padrões sociais? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por boa parte do filme, o primeiro tenta domar, compreender e subjugar o segundo. Acreditando que ele precisa ser “salvo” e domesticado. O segundo joga este jogo do subjugado por um tempo, mas resiste. E surpreende. A cena final entre os gigantes Phoenix e Hoffmann é de arrepiar, e só revela, mais uma vez, como este é o trabalho da vida de Joaquin.
O final deste filme pode levantar muitos debates – como a produção inteira, inclusive. O que eu achei dele? Bueno, primeiro, que os métodos de Dodd não eram tão eficazes assim – o que acaba sendo uma ironia interessante sobre qualquer figura que, como ele, tenta ser um messias misturando religião com ciência. Depois, que há casos de psoturas anarquistas e que fogem da lógica predominante que vencem qualquer tentativa de “conversão”. E terceiro que, mesmo que o objetivo “total” de Dodd não tenha sido realizado, de subjugar Quell, ele serviu como inspiração para o ex-militar, que seguiu adotando algumas das técnicas de Dodd a sua própria maneira.
E eis a ironia final de The Master. Porque por mais que algumas pessoas resistam a certa dominação, elas acabam cedendo a parte delas e/ou a suas influências mesmo sem querer. No fim, sempre que duas pessoas se encontram e se relacionam pra valer, elas se modificam mutuamente. Seguem suas trajetórias, após este encontro, tendo algum hábito ou forma de atuar diferente, influenciada pela pessoa que encontraram.
The Master trata desta história. Com interpretações dedicadas, especialmente de Joaquin Phoenix, e uma direção que valoriza estas interpretações, este é um filme de atores. E que ironiza sobre alguns mestres e seus seguidores, e sobre a validade e eficácia de suas doutrinas. Esta produção segue a lógica de uma extensa sessão de psicanálise. Por isso, tem momentos angustiantes, de puro desabafo e de alguma chatice. A parte que pode render algum bocejo envolve os “exercícios” e “provações” que Quell passa sob a batuta de Dodd. Mas nada que torne a aventura insuportável. Até porque Paul Thomas Anderson sabe o momento de virar o disco. E faz isso sempre no momento certo.
NOTA: 9,2.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Difícil terminar de escrever este texto. Por uma razão bem simples: assisti a este filme, acredito, ainda em fevereiro. Após o Oscar. Na sequência, comecei a escrever este texto. Mas pela correria que tive no meu trabalho, salvei ele nos rascunhos e só voltei a completá-lo hoje. Final de abril, mais ou menos dois meses depois. Então ficou difícil de relembrar de todas as minhas impressões sobre o filme. Por isso, peço desculpas para vocês. Esta crítica ficou mais “fria” do que eu gostaria.
Muito se falou que The Master seria “livremente” inspirado na história de L. Ron Hubbard, o polêmico, admirado e criticado “mestre” da cientologia. Honestamente? Vejo muitos pontos em comum e acredito, francamente, que Paul Thomas Anderson quis dar uma cutucada na cientologia sim. Para os curiosos sobre este assunto, eis aqui um texto, em inglês, assinado por Marc Headley que faz uma comparação interessante entre o filme, Lancaster Dodd, L. Ron Hubbard e a cientologia.
Paul Thomas Anderson faz mais um belo trabalho aqui, mas não considero este o seu melhor filme. Ainda prefiro Magnolia e There Will Be Blood. Neste momento, o diretor está trabalhando em seu décimo sexto título, Inheret Vice, ambientado na Los Angeles dos anos 1960 e protagonizado, mais uma vez, por Joaquin Phoenix.
Para mim, e volto a repetir isto, este é o trabalho mais impressionante de Phoenix. Ele domina e carrega o filme. E olha que ele tem, ao seu lado, o ótimo Philip Seymour Hoffmann e a sempre competente Amy Adams. Ainda assim, eles ficam eclipsados por Phoenix.
Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Jesse Plemons como Val Dodd, filho do Mestre; Ambyr Childers como Elizabeth, a filha de Dodd; Rami Malek como o marido dela, Clark, que acaba desafiando o protagonista em diversos momentos; e Laura Dern como Helen Sullivan, uma das “crentes” da doutrina de Dodd.
Da parte técnica do filme, vale comentar sobre a trilha sonora fundamental, e algumas vezes irritante, de Jonny Greenwood; e a direção de fotografia de Mihai Malaimare Jr., que valoriza a luz, algumas vezes parece “superexposta” e, consequentemente, nos ajuda a nos transportar para os Estados Unidos do período pós-Segunda Guerra Mundial.
Este foi o primeiro filme de Anderson sem o diretor de fotografia Robert Elswit – que tinha se comprometido a filmar The Bourne Legacy.
E uma curiosidade sobre The Master: ele tem uma forte influência estilística do documentário Let There Be Light, de John Huston, lançado em 1946.
A cena em que Freddie retira etanol de um torpedo para “envenenar” uma de suas bebidas foi baseada em fatos reais contados por Jason Robards para o diretor.
Na cena da destruição da cela na prisão, Phoenix realmente quebra o vaso sanitário. Ele fez isso no improviso. Outra sequência de improviso é aquela que abre o filme, com Freddie falando na praia.
The Master foi indicado a três Oscar‘s, mas não levou nenhuma estatueta para casa. Mesmo saindo de mãos vazias da premiação máxima de Hollywood, ele foi bem reconhecido em outras partes. No total, até o momento, ele recebeu 60 prêmios, a maioria deles entregue por associações de críticos. Preciso destacar, entre este total, os prêmios de melhor Diretor e melhores Atores para Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman no Festival de Veneza.
Esta produção recebeu a nota 7,2 pelos usuários do site IMDb. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 189 críticas positivas e 31 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 8,1. Especialmente a nota é muito boa, levando em conta a média do site.
Meus bons leitores/seguidores deste site, peço desculpas pela ausência desde o último Oscar. Mas é que vivi meses complicados, de muito trabalho fora do blog. Mas prometo que a partir desta semana eu voltarei a publicar com mais frequência, combinado? Obrigada a quem seguiu visitando este espaço e para quem fez comentários por aqui no período.
Em breve, começo a cumprir a promessa da última enquete neste site. A maioria de vocês pediu para que eu comece a falar de filmes nacionais. Muito bem, vou começar a fazer isto. Amanhã, vou assistir ao filme Somos Tão Jovens, um belo recomeço para as críticas de filmes nacionais aqui no blog. Sou convidada do Cinemark do Floripa Shopping. E na sequência, falo tudo sobre esta produção, que certamente vai mexer comigo – depois conto as razões -, para vocês. Inté breve!
CONCLUSÃO: Paul Thomas Anderson é um diretor diferenciado. E isso é o que eu mais gosto nele. Anderson fez um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, Magnolia. E em todas as suas produções, ele apresenta esta forma de fazer cinema que não se parece com a de nenhum outro diretor de sua geração. The Master é mais um filme potente de sua filmografia, que flerta com questões importantes para a psicologia, mas que vai além. Trata de seitas, religiões e da ciência – cada uma com muitas aspas. Aborda os desejos reprimidos, a parte racional e animal de cada indivíduo e, principalmente, a nossa necessidade de acreditar e seguir certas ideias e pessoas. Um filme tão interessante que, certamente, pode render horas de debates. Por tratar de certas datas e locais, The Master foi apontado como uma produção que trata da cientologia e de seu fundador. De fato, há muitas semelhanças entre o roteiro e a história real, o que alimenta, ainda mais, os debates e a polêmica. Um filme perturbador, em vários sentidos, mas muito bom.
OSCAR 2013: The Master foi indicado a três estatuetas do Oscar deste ano. E não levou nenhuma. O que não é surpreendente, porque este não é um filme fácil para Hollywood.
As indicações foram para três atores. Algo justo, porque esta é uma produção que destaca o trabalho do ator. Assim, Joaquin Phoenix foi indicado como Melhor Ator; Philip Seymour Hoffman foi indicado como Melhor Ator Coadjuvante; e Amy Adams foi indicada como Melhor Atriz Coadjuvante.
De fato, acho que Christoph Waltz e Anne Hathaway tiveram interpretações mais impactantes em seus respectivos filmes do que os sempre competentes Hoffman e Adams. Agora, Phoenix… ele está tão entregue a seu papel e faz uma interpretação tão impactante e alucinante, que ouso dizer que ele merecia mais a estatueta que Daniel Day-Lewis.
Claro que ninguém duvida que Day-Lewis merecia ser o primeiro ator a receber três estatuetas pela categoria principal para homens do Oscar. Mas, desta vez, Phoenix fez um trabalho superior. Mas para quem acompanha a Academia, faz parte também saber que ela é política, e gosta de criar os seus mitos. Day-Lewis foi alçado a esta posição. Com méritos.
E o Oscar 2013 foi para… (cobertura online da premiação)
Boa noite, pessoal!!!
E aqui estamos nós outra vez. Firmes e fortes na cobertura do Oscar, desta vez ano 2013, a principal e mais badalada premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.
Tudo indica que teremos uma noite com os principais astros em cena, desfilando no tapete vermelho e depois, durante a premiação. Agora, 20h20min, no horário de Brasília, o canal E! está transmitindo a chegada dos astros. Em breve a TNT começa a transmissão, as 20h30.
Jessica Chastain, uma das duas favoritas da noite para o Oscar de Melhor Atriz, arrasou com um vestido cor pele. Linda, deslumbrante, perfeita para receber a estatueta por Zero Dark Thirty. Francamente, estou na torcida por ela.
A minha previsão é que o Oscar deve manter a sua tradição. Ou seja: deve premiar Argo ou Lincoln, na categoria principal, sem surpresas – porque todas as premiações pré-Oscar apontam para eles, especialmente Argo.
Além disso, não devemos ter surpresas nas categorias principais. Prevejo que três filmes devem dividir a maior parte das estatuetas: Argo, Lincoln e Life of Pi. O último, pode predominar nas categorias técnicas. E os dois primeiros, nas principais. Logo veremos…
Agora, 20h34min, no tapete vermelho o fenômeno Quvenzhané Wallis, a mais jovem atriz indicada a um Oscar. Tudo indica que ela só conseguiu sorrir depois de fazer o filme Beasts of the Southern Wild.
Quem assistiu ao filme, sabe do que estou falando.
Reese Whiterspoon, com vestido e joias Louis Vuitton, disse que a filha de 13 anos a ajudou a escolher o vestido. Mas para mim, até agora, a mais linda a desfilar no tapete vermelho foi Samantha Barks, que interpretou a Éponine em Les Misérables. Ela e Jessica Chastain estão inacreditáveis…
No Oscar deste ano, sou franca em dizer, os meus favoritos correm por fora. Então minha “torcida” está menor. Mas, de fato, tivemos uma safra muito boa. Ainda que poucos filmes tenham sido, de fato, “arrebatadores”.
Amanda Seyfried, também de Les Misérables, também está linda. Vestindo Alexander McQueen. Jennifer Lawrence é outra que chegou bem. Esta noite, sem dúvida, será uma das mais interessantes em termos de astros e estrelas talentosos e muito bem vestidos.
Servidos? Como estou com fome, sem dúvida eu encararia vários destes “Oscar’s”.

Jennifer Lawrence, a outra favorita para o Oscar de Melhor Atriz, acaba de dizer que não teve tempo de comer, e que está com fome. Pois somos duas… mas o meu problema eu vou resolver em breve. hehehehe
Ela está linda. Mas ainda sou mais a Jessica Chastain. Tanto para o Oscar como com o modelito da noite.
Até o momento, o predomínio no tapete vermelho foi feminino. Não vi muitas beldades entre os atores. As lentes estão ignorando eles ou será que todos vão chegar mais tarde?
Mestre Dustin Hoffman é um dos primeiros grandes a chegar no tapete. Agora, Norah Jones, bem diferente do que estamos acostumados. São 21h02min e o E! segue indo muito bem, enquanto a TNT está muito morna.
Pela quantidade de gente que disse que vai cantar no Oscar nesta noite, teremos uma edição muito musical. Começando pelo apresentador, o relativamente “desconhecido” Seth MacFarlane, diretor de Ted, que muitos dizem que foi escolhido mais pelo ótimo tom e afinação ao cantar do que pelo carisma. Logo mais veremos como ele vai se sair em cena.
Anne Hathaway, mais uma grande concorrente da noite, aparece agora, 21h15min, em cena no tapete vermelho. Está menos exuberante que outras de suas colegas. Mas não consegue estar feia, né?
Agora sim, Christoph Waltz em cena. Grande, grande! Estou na torcida por ele também. Bem simples, discreto. Genial. Anne Hathaway dando entrevista, disse que está vestindo um Prada, e que escolheu o modelito, que evidencia os seus seios, três horas antes de ir para a cerimônia.
Bradley Cooper, mais barbudo, com muito gel no cabelo e com gravata borboleta. Acompanhado da mãe, que dá no ombro dele, que afirma estar pela primeira vez no Oscar. E para ver ao filme indicado como Melhor Ator. O que, por si só, é muito surpreendente.
Naomi Watts é outra que merece menção. Para mim, uma das mais bem vestidas da noite, em um vestido de alto risco, lindo, ousado e perfeito para ela. Dior dominando a cena.
Passei para a TNT, porque o início da cerimônia se aproxima… impressionante a Nicole Kidman. Sempre linda e escolhendo muito bem os vestidos do Oscar. São 21h40min e ela me espanta pela altura e pela silhueta. A Adele, por outro lado… está sendo um bocado “detonada” pelos comentaristas do Oscar. Ela realmente ficou estranha.
Até agora, algumas mulheres dominaram a cena. Especialmente Naomi Watts e Jessica Chastain. Entre os homens, o maior frisson parece ter sido com Bradley Cooper.
Faltando 39 minutos para a cerimônia começar, as 21h50min, Hugh Jackmann e a esposa… lindos. Muito elegantes e tranquilos, sem exagerar na dose e até bem simples. Ele, lindo. E, para mim, um dos melhores apresentadores recentes da premiação.
Depois de Chris Evans, é a vez de Robert De Niro. Concorrente da noite, figuraça. Ele destaca o trabalho de elenco de Silver Linings Playbook. Na votação dos melhores vestidos da noite, pela TNT, Jennifer Lawrence aparece em primeiro lugar, com Jessica Chastain em segundo. Lawrence virou, realmente, a última “queridinha da América”.
Jennifer Aniston, de vermelho estonteante by Valentino, diz que vai a apenas algumas festas na noite, porque são muitas… êêê sorte! Falando nos homens da noite, pouco focados pela TV até agora, Ben Affleck, que pode ser um dos grandes vencedores da noite com Argo, está muito bem. Melhor que a esposa, Jennifer Garner, um tanto estranha.
Uau! Halle Berry maravilhosa, mais uma vez! E ela reforça a lista de atrizes com cabelos beeeeem curtos. No caso dela, algo tradicional. Para outras, uma novidade. Engraçado como todas da fila, que passam atrás da Halle Berry, ficam babando nela. O público vai entrando lentamente, e esticando o pescoço para as estrelas.
Agora sim, uma miragem para as meninas… George Clooney e sua mais nova namorada, muito bem vestida. E ele… sem comentários. Fantástico! E poderá sair da noite com uma estatueta se Argo ganhar como Melhor Filme, porque ele é um dos produtores da produção.
Faltando 16 minutos para a premiação começar, Anne Hathaway brinca que o seu vestido é “business” na frente e diversão – porque é bastante aberto – atrás. Ela também revela que, como vem de Nova York, ela está usando um lindo colar da Tiffany.
Jamie Foxx, muito elegante, está ao lado da filha, com todo o jeito de modelo, de 19 anos, linda. E o ator confidencia que veio no carro falando com a filha sobre a faculdade e amores, já que eles tem pouco tempo para conversar. Muitos astros com mães e filhas. Oscar bem família.
E o grande Daniel Day-Lewiss, favoritíssimo ao Oscar de Melhor Ator. Bastante discreto e simples, ao lado da mulher. Ele é assim mesmo… low profile. Concentrado na carreira e não no showbusiness, tão diferente de Clooney e Affleck, por exemplo.
Agora sim, pontualmente as 22h30min, começa a premiação do Oscar. O comediante Seth MacFarlane entra em cena. Ele fala dos vários filmes maravilhosos do ano, e começa destacando Argo. Um indicativo interessante…
MacFarlane brinca que o Oscar é importante para a carreira de qualquer um da indústria. E cita, com ironia, Jean Dujardin, que ganhou no ano passado, e que agora “está em todas as partes”. A verdade é que o inverso aconteceu. Depois ele destaca Amour e Daniel Day-Lewis. Depois ele fala de Django Unchained, brincando sobre a violência da produção. Comenta sobre Jennifer Lawrence, que teria brincado com a ausência de Meryl Streep entre as indicadas.
E então William Shatner, o histórico Kirk de Star Trek, interrompe a cerimônia para tentar “impedir” MacFarlane a fazer a pior apresentação de todos os tempos do Oscar. A tentativa da Academia em tirar sarro de si mesma é boa, mas de fato o apresentador é muito fraquinho. Sem dúvida ele tem um efeito muito maior nos Estados Unidos do que para o resto do mundo.
Em seguida, e aí sim valeu o primeiro minuto da noite, Channing Tatum entra em cena, com Charlize Theron, para dançarem uma música clássica imitando Fred Astaire e Ginger Rogers. Depois Daniel Radcliffe e Joseph Gordon-Levitt dançam sobre o palco, com o apresentador cantando. Certo, já entendemos o esforço do Oscar em tentar ser engraçado e mudar o apresentador, mas não está funcionando. Apresentação chata, e o tal MacFarlane se esforçando demais para agradar, sem conseguir.
Finalmente, começa o que interessa. Viola Davis Octavia Spencer apresenta os indicados a Melhor Ator Coadjuvante. Só feras entre os indicados: Alan Arkin, Robert De Niro, Philip Seymour Hoffman, Tommy Lee Jones e Christoph Waltz. E o Oscar foi para… Christoph Waltz. Grande! Adorei. Estava torcendo por ele. Francamente, gosto muito dos outros. Mas ele rouba a cena em Django Unchained. Tarantino aparece todo feliz, e bem no canto do teatro. Curioso… Waltz agradece muito a ele e a vários nomes do elenco e da produção. Para fechar, ele usa palavras de seu personagem no filme, o Dr. King Schultz. Primeiro prêmio e já gostei. Este é o segundo Oscar de Waltz, que merece. OBS: Falha minha. Estava distraída e confundi Spencer com Davis. Eita! Mas foi Octavia Spencer mesmo quem apresentou.
E o Oscar de Melhor Curta de Animação foi para Paperman, um filme da Disney todo em preto e branco. Não assisti, mas parece interessante. O diretor John Kahrs agradece à Academia. Em seguida, são anunciados os concorrentes a Melhor Filme de Animação. E o Oscar foi para… Brave, dirigido por Mark Andrews e Brenda Chapman, com co-direção de Steve Purcell. Não assisti a nenhum dos concorrentes, algo raro, já que gosto dos filmes de animação. Mas parece que Brave era o mais popular, não?
Na sequência, Reese Whiterspoon apresenta três dos indicados a Melhor Filme. Ela apresenta a ousadia das produções Les Misérables, Life of Pi e Beasts of the Southern Wild. Impressão minha mas o Oscar está correndo com as premiações? Não com as piadas, meio xaropes, mas com a entrega dos prêmios. Estão cortando o lado errado.
Agora, os indicados a Melhor Fotografia. E o Oscar foi para… Life of Pi. Grande! Merecidíssimo. Só podia dar ele mesmo. Fotografia maravilhosa. O grande Claudio Miranda sobe no palco e fala do quanto difícil e incrível foi fazer aquele filme. Um dos grandes trabalhos da vida dele, sem dúvida.
Os atores de The Avengers, Robert Downey Jr., Jeremy Renner, Chris Evans, Mark Ruffalo e Samuel L. Jackson apresentam, na sequência, o segundo Oscar da trupe nesta noite, o de Melhores Efeitos Visuais. E o Oscar foi para… Life of Pi. Mega merecido novamente. Era esperado, eu estava na torcida, e tiro o meu chapéu.
Na volta do intervalo, Jennifer Aniston e Channing Tatum apresentam o Oscar de Melhor Figurino. Eles fazem muitas gracinhas sobre estes profissionais que ajudam a melhorar o trabalho de qualquer ator, preparando-os para a cena. E o Oscar foi para… Jacqueline Durran por Anna Karenina. Nesta categoria, eu poderia opinar pouco, porque só assisti a Lincoln e Les Misérables. Estava na torcida pelo segundo mas, parece, Anna Karenina mereceu.
Em seguida, a dupla de atores apresenta o Oscar de Melhor Maquiagem e Cabelo. E o Oscar foi para… Les Misérables. Boa! Que bom que este filme não vai sair no zero a zero. Lisa Westcott e Julie Dartnell fizeram um grande trabalho com este filme. De arrepiar o resultado que elas conseguiram.
Na sequência, a estonteante Halle Berry, aparecendo como uma bond girl. Ela apresenta uma homenagem aos filmes de 007, que completam 50 anos. Bela edição de imagens dos filmes que fizeram a história do personagem. Edição moderna, valorizando o estilo das cores que marcaram Bond e aquela trilha sonora deliciosa que todos nós conhecemos. Fechando a homenagem, Shirley Bassey canta um clássico da trilha de Bond. Bacana. Funcionou bem.
Após o intervalo, Jamie Foxx e Kerry Washington, o casal de Django Unchained. Eles apresentam o Oscar de Melhor Curta de Ficção. E o Oscar foi para… Curfew, dirigido por Shawn Christensen. Segundo os atores, esta foi a primeira vez que todos os integrantes da Academia puderam votar nos curtas. Bela valorização. Passava da hora, aliás. Christensen agradece demais aos seus familiares, e a outras pessoas que participaram da produção.
A dupla de atores apresenta o Oscar de Melhor Curta Documentário, que foi para… Inocente, dos diretores Sean Fine e Andrea Nix Fine. Eles são bem aplaudidos. Andrea agradece a várias pessoas que participaram do curta, na equipe de filmagem, e Sean valoriza a artista que é o foco do documentário.
Na sequência, Liam Neeson apresenta outros três indicados ao Oscar de Melhor Filme: Argo, Lincoln e Zero Dark Thirty. Como na apresentação anterior, o público assiste a um trailer que junta as três produções. Os dois primeiros são os favoritos mas, francamente, meu voto iria para o terceiro. E as piadinhas do apresentador… chaaatas. Mas bueno.
Depois entra em cena Ben Affleck. Ele apresenta os indicados ao Oscar de Melhor Documentário: 5 Broken Cameras, The Gatekeepers, How to Survive a Plague, The Invisible War e Searching for Sugar Man. E o Oscar foi para… Searching for Sugar Man, dirigido por Malik Bendjelloul.
Agora, francamente, ooohhh apresentador chato! Eu preferia mil vezes o Hugh Jackman apresentando ao Oscar do que este Seth MacFarlane. Ele não consegue quebrar o gelo.
Voltando do intervalo, Jennifer Garner e a maravilhosa Jessica Chastain. Elas apresentam os indicados ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira: Amour, Kon-Tiki, No, A Royal Affair, War Witch. Na torcida por Amour, claro. E o Oscar foi para… Amour. Oh yeah!! O grande Michael Haneke vai até o palco para receber a merecida estatueta. Nos agradecimentos, muito fofos, achei especialmente tocante a fala dele para a mulher, que lhe acompanha há mais de 30 anos, e o agradecimento para os grandes atores Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant. Bacana. Primeiro Oscar para este grande diretor.
John Travolta sobe ao palco para falar dos musicais. E homenageá-los. Um clipe apresenta alguns dos melhores dos últimos tempos, quando Chicago e tantas outras produções resgataram o gênero. E sobre o palco, Catherine Zeta-Jones arrasou. No vocal e na dança. Dominou o palco. Começou cantando, mas depois foi para o playback. Mas dançou bem. Ela foi seguida pela homenagem para Dreamgirls, com Jennifer Hudson cantando e gritando no palco. Desta vez pra valer. E aí veio Les Misérables… e Hugh Jackman, que deveria estar apresentando este Oscar, cantando maravilhosamente. Grande! Em seguida, a genial Anne Hathaway, seguida de Amanda Seyfried, Eddie Redmayne, Samantha Barks, Aaron Tveit e o restante do elenco deste grande filme. Russell Crowe, que não tem voz para cantar, nem mesmo no filme, teve que usar um microfone discreto.
Zoe Saldana e Chris Pine voltam após o comercial para destacar os prêmios científicos, que destacam os avanços tecnológicos que servem ao cinema. O apresentador chato chama os astros de seu “esforço medíocre”, Mark Wahlberg e Ted, do filme Ted… sono! Eles apresentam os indicados para Melhor Mixagem de Som. E o Oscar foi para… Andy Nelson, Mark Paterson e Simon Hayes pelo filme Les Misérables. Bacana. Fico feliz que esta produção está sendo lembrada durante a noite.
A dupla de Ted segue apresentando o Oscar. Desta vez, os indicados a Melhor Edição de Som. E o Oscar foi para… que surpresa, um empate! A primeira estatueta vai para Paul N. J. Ottosson, por Zero Dark Thirty. Legal. Gostei muito deste filme. E o segundo Oscar nesta categoria foi para Per Hallberg e Karen Baker Landers por Skyfall.
Na sequência, mais uma piada idiota com a família Von Trapp. Melhor que o apresentador sem graça, Christopher Plummer, um veterano dos bons, sobe ao palco para apresentar o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante: Amy Adams, Sally Field, Anne Hathaway, Helen Hunt e Jacki Weaver. Minha torcida para Hathaway. E o Oscar foi para… Anne Hathaway. Legas! Elegante, Anne Hathaway agradece a Academia por ter indicado ela junto com as outra atrizes, que lhe inspiram. Ele agradece a Hugh Jackman e a várias pessoas da equipe de Les Misérables. Em um discurso emocionado, ela agradeceu também aos amigos, familiares, fez uma declaração de amor fofa para o marido – eles são recém-casados – e disse que espera que um dia as dores e mazelas de sua personagem Fantine façam parte apenas da ficção, e não mais da realidade de ninguém. Foi muito bem. Indicada para dois Oscars antes, mas sem nunca ter recebido nenhuma estatueta, chegou a hora dela. Merecido. Ela faz uma das melhores interpretações de sua vida em Les Misérables.
Até agora, fora o empate, surpresa alguma. Fora o apresentador, horrível, e a dinâmica desta premiação, bem mal planejada, estou gostando da distribuição de estatuetas. Filmes que eu gostei muito estão levando os seus merecidos Oscars.
Sandra Bullock entra após mais uma fala idiota do apresentador para apresentar os indicados ao Oscar de Melhor Edição: Argo, Lincoln, Silver Linings Playbook e Zero Dark Thirty. E o Oscar foi para… William Goldenberg, de Argo. Era bola bem cantada. Argo, de fato, tem uma ótima edição.
Depois, Jennifer Lawrence, em seu vestido tão comentado, introduz Adele, que canta a música Skyfall, do filme homônimo de 007. A canção é dela e de Paul Epworth e está concorrendo na categoria Melhor Canção Original. Essa sim, sabe soltar a voz. E só daí, com o telão borbulhando em brilhos, que eu entendi o vestido dela… tipo uma continuidade das “estrelas” do fundo. Melhor só escutar do que vê-la em uma roupa que não a favoreceu em nada.
Agora, depois de nos acostumarmos com o visual, foi legal ver ela se soltando, inclusive com dancinha. Possivelmente a pessoa que mais se soltou na noite. Grande!
Pois é, meus bons leitores. Só amando muito o cinema e o Oscar para aguentar a premiação deste ano. Chata, chata! Só o povo que faz Hollywood e o cinema pelo resto do mundo e que está presente para fazer a noite valer a pena.
No retorno do comercial, Nicole Kidman apresenta outros três indicados na categoria Melhor Filme: Silver Linings Playbook, Django Unchained e Amour. Achei a Nicole meio “passada”… parecia que tinha bebido. Por isso mesmo, engraçada. Depois, o tradicional trailer com estas três produções.
Na sequência, Kristen Stewart e Daniel Radcliffe apresenta os indicados a Melhor Design de Produção. E o Oscar foi para… Rick Carter no design de produção e Jim Erickson na decoração de set de Lincoln. Fiquei surpresa. Esperava que a estatueta fosse para Life of Pi ou Les Misérables.
Após uma rápida piada idiota sobre atores que não são compreendidos – por serem gringos – do apresentador, Salma Hayek apresenta os Oscars honorários e humanitários para D.A Pennebaker, George Stevens Jr., Hal Needham e Jeffrey Katzenberg.
No retorno de mais um comercial, George Clooney apresenta o in memoriam do cinema, que começa com Ernest Borgnine, passou por Michael Clarke Duncan, Tonino Guerra, Herbert Lom, Tony Scott, Nora Ephron e terminou com Marvin Hamlisch, homenageado por Barbra Streisand. Sono e sono!
Senti que o apresentador mala está mais “contido”. Alguém deve ter contado pra ele que o Oscar de chato da noite vai pra ele. Na sequência, alguns dos atores principais de Chicago, Renée Zellweger, Catherine Zeta-Jones, Queen Latifah e Richard Gere apresentam os indicados a Melhor Trilha Sonora. E o Oscar foi para… Mychael Danna por Life of Pi. Legal. Gostei muito da trilha deste filme. Peça fundamental para o conjunto da obra.
Na sequência, o mesmo grupo de atores de Chicago relembra os indicados a Melhor Canção Original. Além daqueles que se apresentaram na noite, eles apresentam as composições de Chasing Ice e Life of Pi. Fechando a lista, Norah Jones subiu ao palco para interpretar a Everybody Needs a Best Friend, do filme Ted. E o Oscar foi para… Adele e Paul Epworth por Skyfall, do filme de 007. Gostei. Ainda que estivesse torcendo para a música de Les Misérables, gostei de ver Adele ser reconhecida. Ela é genial.
No retorno dos comerciais, serão entregues os principais prêmios. Life of Pi não deve ganhar mais nada. E o que falta ser entregue tem grandes chances de ser repartido por três ou quatro produções. 1h20min da manhã de segunda-feira e o Oscar manteve o seu padrão. Distribuindo prêmios, e com um apresentador surpreendentemente chato.
Na sequência, Charlize Theron e Dustin Hoffman sobem ao palco, para o nosso deleite, e apresentam os indicados ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Grandes concorrentes. Eu votaria em Life of Pi. Mas deve ganhar Argo. Veremos. E o Oscar foi para… Chris Terrio por Argo. Previsível. A verdade é que o roteiro deste filme é muito bom. Mas eu acho que tivemos outros exemplares mais complicados de adaptar, como Life of Pi. Paciência. Agora Argo vai começar a levar algumas estatuetas.
A mesma dupla de atores apresenta os indicados na categoria Melhor Roteiro Original. Talvez a categoria mais disputada da noite. Só filmes geniais estavam concorrendo. E o Oscar foi para… Quentin Tarantino! Uau! Genial. Django Unchained não é o melhor roteiro dele, mas como a Academia devia há tempos uma estatueta para esse cara genial, fiquei feliz. Depois de ganhar por Pulp Fiction, este é o segundo Oscar da carreira do diretor e roteirista.
No retorno do comercial, 1h32min, Jane Fonda e Michael Douglas, dois monstros do cinema, caminham com toda a elegância sobre o palco para apresentar os indicados a Melhor Diretor. E o Oscar foi para… Ang Lee. Uauuuu! Fiquei surpresa. Achei que ia dar o Steven Spielberg. Mas Lee foi supermerecido. Ele fez um trabalho primoroso com Life of Pi. E ele foi aplaudido de pé pelo público. Um grande reconhecimento, e bastante raro na noite. Ele agradeceu a todos que acreditaram no projeto, às mais de 3 mil pessoas que trabalharam no filme e a Suraj Sharma, que “levou o filme”. Ele tem razão. Fico especialmente feliz por ser um diretor estrangeiro sendo reconhecido pela Academia. Especialmente ele, com uma filmografia tão boa.
O simpático, carismático e lindo (me perdoem os sensíveis, hehehehe) Jean Dujardin aparece sobre o palco para apresentar as indicadas a Melhor Atriz: Jessica Chastain, Jennifer Lawrence, Emmanuelle Riva, Quvenzhané Wallis e Naomi Watts. E o Oscar foi para… Jennifer Lawrence. Uau!! Agora ninguém mais segura ela, que já é a queridinha da América. De tão emocionada, ela caiu ao subir aos degraus. No discurso, o que achei o máximo, ela brincou que o povo estava aplaudindo ela de pé porque havia caído. Ela agradeceu ao elenco, à equipe, deu os parabéns para Emmanuelle Riva, que estava de aniversário. Figura.
Na sequência, a grande, insuperável Meryl Streep. Ela apresenta aos indicados na categoria Melhor Ator: Bradley Cooper, Daniel Day-Lewis, Hugh Jackman, Joaquin Phoenix e Denzel Washington. E o Oscar foi para… Daniel Day-Lewis. Era a bola mais cantada da noite, sem dúvida. E Meryl Streep foi a mais rápida no anúncio. Como Jennifer Lawrence, ele foi aplaudido de pé. Mas por muito mais tempo. Ovacionado, na verdade. Bacana. Ele brinca que não sabe como aquilo aconteceu… porque ele gostaria de ter interpretado a Margareth Thatcher. Uma piada com Meryl, que ele disse que foi a primeira escolhar para Lincoln. Ele brinca que a mulher dele casou com um homem estranho há 16 anos. Foi muito bem no discurso. A música não tocou pra ele… e após agradecer a muita gente, ele dedicou o prêmio para a mãe. Fofo!
E para fechar a noite, Jack Nicholson. Figuraça. Andando bem estranho. Ele brinca que escolheram alguém bem confuso para apresentar o prêmio. E depois, chama a primeira dama dos EUA ao vivo da Casa Branca, Michelle Obama. Estranho foi ver as pessoas atrás dela com um olhar de admiração mega exagerado. Nicholson volta para nominar os concorrentes a Melhor Filme: Amour, Argo, Beasts of the Southern Wild, Django Unchained, Les Misérables, Life of Pi, Lincoln, Silver Linings Playbook e Zero Dark Thirty. E o Oscar foi para… Argo. Anunciado por Michelle Obama. Deu o previsto. Com Ben Affleck com aquela cara de surpresa que ninguém mais acredita. Apesar disto, o discurso dele foi bacana. Nervoso, fez uma revisão de sua carreira, e de como ele mesmo se surpreendeu com ela.
Francamente? Um Oscar bem político. Em todos os sentidos. Não apenas por Michelle Obama, mas pela repartição de prêmios, no estilo “vamos tentar agradar um pouquinho a todo mundo”. Das indicações até os premiados foi assim. Agora, um ano em que um filme como Argo é considerado o melhor… não acho ele ruim. É interessante, bem construído e narrado. Mas o melhor do ano? Sério? Pufff… Oscar político. Que pena. Mas valeu. No ano que vem tem mais.
Abraços para quem acompanhou a premiação por aqui. Seguimos na luta, pois! Inté!
Life of Pi – As Aventuras de Pi
Se você assistiu a Life of Pi, certamente nunca mais vai esquecer de Richard Parker. Este nome vai ficar ressoando na sua lembrança por muito tempo. A história sobre ele é grande, mas demorei para assisti-la porque estava com preguiça. Admito que não foi por acaso que deixei este filme como o último para assistir da lista dos melhores indicados para o Oscar 2013. Eu sabia que Life of Pi trazia a história de um garoto e um certo tigre. E me deu preguiça. Porque achei que seria uma daquelas histórias de amizade entre “pessoas e bichinhos selvagens”. Ledo engano. E uma grande e boa surpresa.
A HISTÓRIA: Em um belo jardim, uma girafa come algumas folhas em uma árvore. Na sequência, um desfile de belos e diferentes bichos aparecem na tela. Quando os créditos e a música terminam, Pi Patel (Irrfan Khan) começa a contar a sua história para o escritor (Rafe Spall) que vai visitá-lo por indicação de um grande amigo do pai (Adil Hussain) de Pi, Mamaji (Elie Alouf). Ele conta que nasceu em Pondicherry, uma parte francesa da Índia, e que foi criado em um zoológico mantido por sua família. Procurando uma boa história para contar, o escritor comenta que Mamaji disse que Pi poderia lhe inspirar com o que havia acontecido em sua vida, e que comprovaria que Deus existe. Mergulhamos nesta história.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Life of Pi): O início deste filme me fez acreditar, por alguns minutos, que a minha resistência à ele poderia ser justificada. Por uns 200 segundos, assistimos a um desfile de diferentes animais na telona. Enquanto eles iam se sucedendo, apesar das belas imagens, eu pensava: “será mesmo que teremos um filme gracinha sobre bichos?”. Ainda bem que não.
Logo entra em cena o fantástico personagem de Pi Patel, interpretado, quando adulto, pelo carismático Irrfan Khan. A escolha do ator foi perfeita. Ele passa legitimidade como contador de história. E mesmo que apareça muito menos que o jovem Suraj Sharma, que vive Pi na juventude, Khan é fundamental para esta história. Ele nos fascina como narrador da mesma forma com que impressiona ao escritor estrangeiro interpretado por Rafe Spall.
Aliás, não sei quanto o roteiro de David Magee é fiel ao livro de Yann Martel. Mas posso dizer que é uma grande sacada da história o personagem do escritor gringo. Porque ele, no fundo, somos todos nós, “ignorantes” na cultura e nas peculiaridades dos indianos. Olhamos para aquela realidade, a exemplo de Slumdog Millionaire, com admiração e fascínio. Afinal, é uma cultura muito diferente da nossa e, ao mesmo tempo, ela guarda certas semelhanças com a diversidade e os contrastes do Brasil.
Enquanto o grande Slumdog explora mais a música, o ritmo acelerado da narrativa e os contrastes da Índia, Life of Pi mergulha mais na tradição e nos costumes daquele “sempre exótico país”. Então a minha primeira impressão positiva foi a escolha acertada dos atores e da “posição” dos personagens: o escritor gringo, que representa o espectador que vê tudo aquilo com surpresa, e o personagem principal, com uma história engraçada, curiosa e fascinante.
O segundo ponto que me fascinou na história foi a sua ideia de diálogo religioso. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não demora muito para Pi nos ensinar que todas as religiões são válidas porque todas, a sua maneira, tratam de devoção, respeito a uma (ou mais de uma) divindade(s) e de amor. Mas ao invés de igualar todas as religiões, o protagonista deste filme mostra as diferenças entre elas, e como cada uma pode tornar o homem melhor de uma maneira diferente. Assim, Pi segue o hinduísmo, como qualquer indiano, encarando os seus diversos deuses como super-heróis; fica fascinado com o cristianismo, admirando a história de doação de Jesus; e também conhece Deus através do islamismo, quando percebe como a religião pode ser sentida fisicamente e dar paz de espírito. Nas palavras de Pi, ele conheceu a fé pelo hinduísmo, o amor de Deus pelo cristianismo e a serenidade e a irmandade pelo islamismo.
Belo exemplo. De como a curiosidade pacífica pode levar uma pessoa a conhecer o melhor das diferentes religiões e, desta forma, entender melhor os seus irmãos. O curioso é que, em casa, Pi tinha um pai ateu e uma mãe que não era muito religiosa, mas apegada ao hinduísmo como um último elo de ligação com as suas origens. Com isso, nosso personagem mostrava caráter e independência na forma de pensar. Algo que lhe acompanharia para o resto da vida. Essa reflexão, jogada tão cedo na telona, me fascinou. E para fechar, Pi ensina que há muitas dúvidas para quem acredita, mas que isso é importante quando a fé é vista como algo algo vivo. E aí vem outro ponto interessante da história.
Pi aprende, com Mamaji, que o medo paralisante ou desesperador poderiam ser os seus principais inimigos. Assim, ele não aprende apenas a lidar com a água, mas também a ter um grande fascínio pelos animais. Especialmente por Richard Parker, um tigre de bengala que faz parte do zoológico da família. Ele respeita o tigre e tem uma grande admiração por ele. Mas aprende, com o pai, que deve temê-lo, e encará-lo como um animal cruel. Qualquer ligação afetiva que Pi possa acreditar que existe, ao olhar no olho do tigre, ensina Santosh Patel, deve ser vista pelo filho como um reflexo de suas próprias expectativas.
Esta é uma forma de olhar para um tigre e para a Natureza. Mas há outras. E grande parte de Life of Pi vai tratar desta segunda maneira de encarar a Natureza. Ela é fascinante, e podemos aprender muito com as características de cada animal. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Assim, quando Pi está sozinho com quatro tipos de bichos em um bote após o naufrágio do navio que está levando ele e a família para o Canadá, ele observa as características essenciais de cada um deles. Aprende a entendê-los, respeitá-los e temê-los. Mas depois, quando fica sozinho com Richard Parker, percebe o quanto o “diálogo” entre eles é o que garantirá a sua própria sobrevivência.
Até perto do final, fiquei apenas fascinada com as belas imagens conquistadas pelo excelente diretor Ang Lee e pelo excepcional trabalho do diretor de fotografia chileno Claudio Miranda. Life of Pi é de encher os olhos. O visual é fantástico, e a trilha sonora de Mychael Danna ajuda a embalar a história e torná-la ainda mais emotiva e dinâmica. O aprendizado de Pi com Richard Parker e vice-versa é pura fantasia e, para pessoas que não se importam com histórias assim, um verdadeiro deleite.
Mas aí que o filme nos dá uma rasteira e revela, perto do fim, toda a sua grandiosidade. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a esta produção). Afinal, ser apenas uma história difícil de acreditar, mas fascinante, da sobrevivência de um jovem de um naufrágio junto a um tigre, não tornaria Life of Pi grande. Seria, apenas, interessante, bem feito, bonito. Mas quando descobrimos, como o escritor que escuta este conto, que esta história é uma grande parábola para o protagonista lidar com a própria dor e com aquela situação traumatizante, percebemos o quanto Yann Martel realmente escreveu uma grande história. Ao pensar em tudo que acontece após o naufrágio com pessoas específicas no lugar dos animais, Life of Pi ganha outra dimensão.
As pessoas são, muitas vezes, muito mais cruéis que qualquer “animal selvagem”. Somos capazes das maiores brutalidades, das ações mais inacreditáveis – para o bem e para o mal. Life of Pi trata um pouco sobre isso. Nos aproxima das nossas origens, animais, mas revela, também, como podemos superar estas origens para darmos exemplos de grandeza. De valentia, coragem, generosidade e amor. Os japoneses, que sabem como poucos lidar de forma lírica com a dor e a perda, conhecem bem a força de uma parábola. De uma história fantástica para tratar de sentimentos importantes. Não por acaso, são japoneses que escutam Pi e fazem um relatório final que ajuda a consolidar a sua história.
Bem pensado, e muito relevante, a pergunta que Pi faz para o escritor – que somos nós – no final. Qual história nós preferimos, levando em conta que nenhuma delas explica o naufrágio e nem elimina a dor e as perdas que ele sofreu? Fica a critério de cada espectador fazer a sua escolha. Mas evidente que esta é uma alegoria, uma forma poética de encarar uma realidade que foi muito mais cruel. Belo ensinamento, em todos os sentidos. Muito bem administrado desde o princípio, este filme ganha uma outra dimensão no final. Para a nossa sorte.
NOTA: 10.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Life of Pi é um filme lindo. Muito bem acabado, visualmente. Para isso acontecer, pelos ambientes em que a produção se passa, é fundamental não apenas o ótimo trabalho do diretor Ang Lee e do diretor de fotografia Claudio Miranda, mas também o trabalho competente de David Gropman no design de produção; a direção de arte de Al Hobbs, Ravi Srivastava, James F. Truesdale e Dan Webster; o departamento de arte comandado por Wylie Griffin; os efeitos especiais da equipe de Zong-Se Wei e Shang-Mong Wu; e, principalmente, pelos efeitos visuais da equipe que parece não ter fim (vide a lista gigante no site IMDb) coordenada por Oscar Velasquez e que teve a liderança de Manasi Ashish, Ronn Brown, John Kent Jr. e Masahito Yoshioka. Todo este coletivo é responsável pelo apelo visual da produção. E, sem dúvida, grande parte da verba do filme foi gasta com os efeitos visuais.
Outro nome importante para Life of Pi funcionar é o do editor Tim Squyres. Ele teve trabalho, com Life of Pi. Para que tudo esteja no lugar certo, em um filme que consegue ter bastante ritmo, apesar de grande parte dele se passar ao redor de um barco salva-vidas à deriva no mar.
Do elenco, merecem um aplauso especial a dupla que encarna o protagonista. Tanto Suraj Sharma quanto Irrfan Khan dão um show. Ambos são carismáticos e ambos dominam a cena de forma impressionante. Convencem, e com naturalidade.
Além deles, que roubam a cena, e dos atores já listados, vale citar a atriz Tabu como Gita Patel, a mãe tranquila e amorosa de Pi; Gautam Belur como o garoto Pi aos cinco anos de idade; Ayush Tandon como Pi quando ele tinha 11 e 12 anos – aliás, este garoto rouba a cena quando aparece; Ayan Khan em uma ponta como o irmão de Pi, Ravi Patel, quando ele tinha sete anos de idade; Mohd Abbas Khaleeli como Ravi dos 13 para os 14 anos, também como ponta; Vibish Sivakumar como Ravi entre os 18 e os 19 anos; Gérard Depardieu em uma superponta como o cozinheiro grosseiro do navio que leva a família Patel; James Saito e Jun Naito como a dupla de investigadores japoneses que procura saber como o navio naufragou; Andrea Di Stefano como o padre que ensina sobre Cristo para Pi; e Shravanthi Sainath como a primeira paixão de Pi, a jovem indiana aluna de dança Anandi.
Agora, uma curiosidade sobre esta produção: até um certo ponto, M. Night Shyamalan tinha sido cotado para dirigir e escrever o roteiro deste filme. Sem dúvida, teríamos sido apresentados a uma forma muito diferente de narrar a história se isso tivesse acontecido.
De fato existe uma Piscine Molitor na França. Segundo esta história, o protagonista recebeu o nome de Piscine Molitor Patel por causa de uma piscina francesa. A piscina existe perto do Parque Bois de Boulogne, entre o estádio de Roland Garros e o Parc des Princes. Em 1990 ela foi considerada um patrimônio histórico, após ter caído em desuso e ter sido fechada em 1989.
Só depois de assistir a Life of Pi é que fiquei sabendo sobre a “polêmica” (bem entre aspas mesmo) envolvendo a obra de Yann Martel e o livro de Moacyr Scliar. Sou franca em dizer que não li a nenhuma das duas obras. Mas pelo que eu entendi, o livro de Scliar conta a história de um garoto que cruza o Oceano Atlântico em um bote junto com um jaguar. Quem assistiu a Life of Pi – e imagino que o filme seja bem fiel à obra de Martel – sabe que o “espírito” da obra deste autor é muito diferente do conceito de Scliar. Não vejo, de fato, um plágio aí. Mas admito que só poderei opinar com toda a propriedade recomendada após ler aos dois livros.
Em nenhum momento o ator Suraj Sharma contracenou com um tigre de verdade no barco. Apenas algumas cenas em que o animal nada na água, durante a história, foram feitas com um tigre de verdade. Para ser mais precisa, 86% das cenas em que o tigre aparece, ele não passa de efeitos especiais. Em apenas 23 cenas, ou 14% do tempo em que o animal aparece, se trata de um tigre de bengala real.
O estreante Suraj Sharma não tinha feito planos para estrelar este filme. Na verdade, ele foi descoberto ao acompanhar o irmão para uma audição. Sem pretender, ele superou 3 mil candidatos para o papel. E se saiu muito, muito bem.
Life of Pi custou impressionantes US$ 120 milhões. Mas ao assistir ao filme, entendemos como este dinheiro foi gasto. Principalmente com efeitos especiais e visuais. A parte técnica, sem dúvida, consumiu grande parte dos recursos, especialmente porque esta é uma produção sem atores muito conhecidos.
Até o dia 17 de fevereiro, Life of Pi tinha arrecadado quase US$ 111,4 milhões apenas nos Estados Unidos. Juntando a bilheteria no resto do mundo, certamente ele não dará prejuízo.
Esta produção estreou em setembro no Festival de Cinema de Nova York. Depois, ele passaria por outros três festivais, nenhum de grande peso. Até o momento, Life of Pi ganhou 26 prêmios e foi indicado a outros 56, além de ter recebido 11 indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Filme do Ano na AFI Awards; Melhor Direção de Fotografia e Melhores Efeitos Visuais no BAFTA Awards; Melhor Roteiro Adaptado no Satellite Awards; e Melhor Trilha Sonora Original no Globo de Ouro.
Para quem gosta de saber o local em que os filmes foram rodados, Life of Pi foi filmado em Taiwan, na Índia e no Canadá. Sem dúvida estas locações também ajudaram a elevar o custo da produção.
Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta a média do site. Os críticos que tem o seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 190 textos positivos e 25 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 88% e uma nota média 8.
Life of Pi é uma produção dos Estados Unidos e de Taiwan.
Há tempos eu não tinha dificuldade em escolher o cartaz do filme que eu estava comentando aqui no blog. Mas com Life of Pi, fiquei muito na dúvida… os três cartazes que eu escolhi eram muito bonitos. Mas acabei decidindo por este, possivelmente o mais clássico deles.
CONCLUSÃO: Nada como ser surpreendida positivamente, não é mesmo? Eu não gosto de filmes que forçam a barra para tornar a relação entre animais e pessoas ultra sentimentais. Afinal, nossas relações com os bichos são suficientemente passionais. Não preciso de histórias que levem esta relação ao extremo. Para minha surpresa, Life of Pi não chega nem perto desta vertente de filme. Eis aqui uma história interessante e diferenciada, rara no cinema atual. Um filme que fala como as parábolas fazem sentido. Como é belo pensar em uma forma diferente de encarar a dor, e de enfrentar situações que não deveriam ter acontecido. A perda e a dor podem ser embaladas de uma forma diferente para conseguirem ser levadas adiante. Lindo visualmente, Life of Pi é ainda mais bonito na mensagem. Vença o seu preconceito, como eu venci o meu, para surpreender-se também. Sem dúvida, um dos grandes filmes desta safra recente que chegou até o Oscar.
PALPITE PARA O OSCAR 2013: Life of Pi foi um dos filmes que mais recebeu indicações no Oscar deste ano. Foram 11, no total, a maioria em categorias técnicas. O que é justo, evidentemente, porque esta é uma produção bem acabada, com uma produção impecável e que segue a linha da fantasia, do surreal.
Entre as indicações em categorias técnicas, estão as de Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção Original, Melhor Design de Produção, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som e Melhores Efeitos Visuais.
Não assisti a todos os concorrentes destas categorias, mas posso dizer que Life of Pi tem ótimas chances de ganhar as estatuetas de Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora, Melhor Design de Produção e Melhores Efeitos Visuais. Em Melhor Edição de Som, ele tem fortes concorrentes, como 007 Skyfall, que não assisti, mas que sei que tem um trabalho ótimo em edição de som e, principalmente, Zero Dark Thirty. Igualmente, podem vencer Argo ou, até mesmo, correndo por fora, Django Unchained. Categoria bem equilibrada e difícil de acertar. Meu voto estaria entre Life of PI e Zero Dark Thirty. E em Melhor Mixagem de Som a disputa é boa também. Acho que os grandes concorrentes voltam a ser 007 Skyfall, Argo e Les Misérables. Meu voto estaria entre Les Misérables e Life of Pi.
Além das categorias técnicas, Life of Pi está concorrendo em três categorias principais: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado. Em todas estas categorias a disputa é acirrada, com grandes produções concorrendo a cada estatueta. E com alguns favoritos já anunciados pelos prêmios que antecedem ao Oscar.
Os grandes concorrentes de Life of Pi em Melhor Roteiro Adaptado são Argo e Lincoln. Como Melhor Diretor, a queda de braço está forte, com algumas surpresas nas indicações, como o novato Benh Zeitlin, de Beasts of the Southern Wild, e veteranos que há tempos estão cotados para receber uma nova estatueta, como Steven Spielberg e Michael Haneke. Francamente, acho que Ang Lee tem poucas chances, e que a Academia deve reconhecer Spielberg. Mas surpresas podem acontecer.
Analisando o trabalho de diretor, deixando para lá a verve de roteirista, meu voto iria para Ang Lee, Benh Zeitlin ou Michael Haneke. Finalmente, a categoria de Melhor Filme… tudo indica que Life of Pi não terá chances frente a Argo e Lincoln. No fim das contas, o filme de Ang Lee deve levar algumas estatuetas em categorias técnicas. Tem potencial para umas quatro ou cinco estatuetas. Seria merecido.
Django Unchained – Django Livre
É difícil para um diretor que fez filmes incríveis seguir com a mesma batida a cada nova produção. E mesmo que muita gente diga que Quentin Tarantino não consegue mais reprisar a força de Reservoir Dogs e Pulp Fiction, por exemplo, é inevitável tirar o chapéu para Django Unchained. Claro que ele não faz o filme definitivo de faroeste. E nem chega a resgatar o gênero – que já passou por um resgate fundamental com Unforgiven – e todos os filmes que viriam depois deste clássico de Clint Eastwood. Mas ele consegue nos conquistar logo no início com um roteiro incrível e algumas sacadas que só ele é capaz de ter. Pena que ele perde um pouco a mão na duração do filme, que poderia ter meia hora a menos, pelo menos. Mas ele segue sendo bom, muito acima da média.
A HISTÓRIA: Cenário desértico. A câmara abaixa, e vemos uma fileira de homens negros com machucados graves de chicotadas nas costas. Tempos depois, em uma noite escura, eles estão andando com cobertas nas costas porque o cenário está gelado. Esta história está ambientada em 1858, dois anos antes da Guerra Civil dos Estados Unidos. O grupo está sendo guiado pelos comerciantes de escravos chamados de irmãos Speck (James Remar e James Russo) por algum lugar no Texas, até que Dicky Speck para o grupo ao avistar uma carroça se aproximando. Nela está o Dr. King Schultz (Christoph Waltz) e seu cavalo Fritz. Ele procura pelos Speck e pelos escravos que eles compraram em Greenville. Entre eles está um escravo que trabalhou nas plantações Carrucan. Ele está sendo procurado porque poderá ajudar Shultz em uma missão. E este homem é Django (Jamie Foxx). A partir daquele momento, Schulz e Django desenvolvem uma parceria que vai levá-los longe, em um caminho de justiceiros.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Django Unchained): Os primeiros 50 minutos deste filme é o que ele tem de melhor. Tarantino consegue ganhar a plateia logo no início, com aquela agilidade de roteiro e de sacadas que lhe tornou famoso. Os diálogos, a trilha sonora e a preocupação dele com o tempo e o ângulo da câmera fazem toda a diferença na parte inicial da produção. Mas depois o diretor gasta tempo demais na Candyland.
O filme não chega a ficar arrastado, ou chato. Até porque Tarantino sabe muito bem fazer o seu ofício. Tanto como diretor, como como roteirista. E ele sabe, na mesma medida, escolher os seus atores. E a dupla Jamie Foxx e Christoph Waltz segura todas as pontas, fazendo um dueto ajustado e que funciona com precisão. O mesmo não pode ser dito dos atores Leonardo DiCaprio e Samuel L. Jackson.
O primeiro interpreta ao rico fazendeiro Calvin Candie. Na primeira parte de sua aparição, especialmente na cena do escravo com os cães, ele está bem. Um pouco over, mas ainda bem. Agora, quando se encontra com Samuel L. Jackson, que interpreta ao escravo Stephen, um tanto “mandão” e over demais, DiCaprio acompanha ao ritmo e também fica um pouco acima da nota adequada. Sem dúvida, tirando um pouco de lenga-lenga daquela apresentação de Django, Schulz e Candie, e também da enrolação da proximidade um tanto forçada entre Candie e Stephen, o filme ganharia.
Achei uma ótima sacada de Tarantino, logo após o sucesso de Inglorious Basterds, não apenas recuperar a ótima fase do ator Christoph Waltz mas, e principalmente, colocá-lo na pele de um alemão. Que, como era de se esperar, não entendia aquela infâmia chamada escravidão nos Estados Unidos. E a exemplo do filme anterior, Tarantino fez questão de não se ater a uma história real. Ou a amarrar a história a fatos muito concretos. Apesar disso, e por ser um grande interessado pela Segunda Guerra Mundial e pelo tema da escravidão, ele pode escrever dois roteiros cheios de realismo. Aquele realismo fantástico que o caracteriza.
E é assim que assistimos à perplexididade das pessoas, sejam brancos ou negros, com a relação entre Schultz e Django. O fantástico Christoph Waltz leva com muita propriedade o seu personagem do início até o fim. Ele não entende a escravidão, por isso trata Django como um sujeito igual a ele, oferecendo uma parceria desde o princípio. Correto, como todo alemão, ele logo coloca sobre as mesas as cartas que possui e que está disposto a oferecer. E Django embarca em sua proposta por causa disso. Pelo respeito e pela consideração que ele nunca tinha recebido. E que merecia receber, é claro.
E os dois fazem uma parceria incrível como caçadores de recompensas. Que outra mente além de Tarantino poderia colocar nesta posição um ex-dentista e um escravo alforriado? Grande sacada. O melhor do filme está nesta parceria entre os dois e na trilha que eles percorrem até a casa de Calvin Candie. A partir dali, apenas a cena do encontro de Schultz com Broomhilda von Schaft (Kerry Washington) vale a nossa atenção completa.
Há algumas outras pérolas jogadas até o final, claro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como o grand finale de Candie e a aparição de Tarantino como um dos empregados da temida The LeQuint Dickey Mining Company. E, claro, aquele “eterno retorno” de Kill Bill com a cena derradeira na casa grande. Uma vingança que se preze tem que ter uma sequência ciranda como aquela, segundo Tarantino. A marca dele está ali, assim como em todas as outras partes deste filme que trata sobre amor, fidelidade, respeito e uma época em que absurdos aconteciam sob a proteção da lei. Não é o filme definitivo sobre western mas, sem dúvida, é um exemplar interessante do gênero. Como tudo em que Tarantino se mete. A verdade é que o diretor e roteirista não consegue fazer um filme ruim. Ele até pode agradar mais aqui do que ali, mas nunca nos decepciona.
NOTA: 9,5.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Totalmente uma obviedade dizer isso, mas a trilha sonora de Django Unchained é maravilhosa. Mais um trabalho excepcional de Tarantino que tem como uma de suas marcas registradas fazer uma trilha digna de ser comprada. Entre as ótimas escolhas, o mestre Ennio Morricone; várias músicas de Luis Bacalov; a ótima Freedom de Elayna Boynton, Kelvin Wooten e Anthony Hamilton; RZA e o grande Johnny Cash. Só para citar alguns.
Muito interessante, ainda falando da trilha sonora, de como Tarantino resgatou músicas de vários outros filmes. Como, por exemplo, várias músicas do filme I Crudeli, de 1967, dirigido por Sergio Corbucci; e outras canções de Two Mules for Sister Sara, de 1970, dirigido por Don Siegel; de I Giorni Dell’Ira, de 1967, do diretor Tonino Valerii; de Batoru Rowaiaru, de 2000, dirigido por Kinji Fukasaku; Lo Chiamavano King, de 1971, do diretor Giancarlo Romitelli; e de Città Violenta, de 1970, dirigido por Sergio Sollima. Esta é uma das formas de Tarantino de sugerir ótimos filmes para as pessoas fascinadas não apenas pelo cinema que ele faz mas, especialmente, pelo próprio cinema.
O ator Franco Nero merece um crédito especial no início do filme. E não é por menos. Ele é um veterano e um ícone dos filmes de faroeste. E aparece, em Django Unchained em uma superponta, como Amerigo Vessepi, o italino que aposta contra Calvin Candie em uma luta na noite em que os protagonistas chegam ao local.
Django Unchained custou a barbaridade de US$ 100 milhões. Digo barbaridade porque acabo de assistir a Beasts of the Southern Wild, comentado aqui no blog, que teria custado cerca de US$ 1,8 milhão e que, igualmente, chegou a ser indicado como Melhor Filme no Oscar deste ano. Brincando brincando, o dinheiro gasto com Django poderia ter garantido a produção de 55 filmes como Beasts of the Southern Wild. Claro, vocês vão dizer, os padrões são muito diferentes. Mas mesmo assim… muitos faroestes foram feitos com baixo orçamento. E, francamente, Django não precisava gastar US$ 100 milhões. Certamente custou tudo isso porque os atores pesaram no orçamento.
Até o momento, apenas nos Estados Unidos, Django faturou pouco mais de US$ 150,9 milhões. Obviamente ele se pagou. Ainda assim, tem um potencial muito menor de lucro do que um filme de baixo orçamento.
Django Unchained estreou no Canadá em dezembro de 2012. Depois, ele foi entrando nos outros circuitos comerciais e, até o momento, não participou de nenhum festival de cinema. Mesmo sem concorrer nestes locais, ele já faturou 19 prêmios e foi indicado a outros 38, além de ser indicado a cinco Oscar’s. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Filme do Ano no Prêmio da AFI; o Melhor Ator Coadjuvante para Leonardo DiCaprio e um Top Films do National Board of Review; e os Globos de Ouro de Melhor Roteiro e de Melhor Ator Coadjuvante para Christoph Waltz.
Os usuários do site IMDb deram a nota 8,6 para esta produção. Uma avaliação muito boa, levando em conta o padrão exigente do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 201 críticas positivas e 26 negativas para Django Unchained, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média 8.
Vocês notaram que demorei para assistir a este filme, não é? Admito que eu perdi a estreia dele no Brasil. E que, depois, preferi me jogar em outras “novidades” destacadas pelo Oscar antes de ver a este filme. Afinal, sempre me desmotiva um pouco quando “todos” já assistiram a algo. Mas o bom é que, apesar de tanta gente ter dito que tinha gostado de Django Unchained, isso não me impediu de assistí-lo sem estar contaminada. E agora, só falta um para fechar a lista dos nove indicados ao Oscar principal. Bóra lá!
CONCLUSÃO: Tarantino adora histórias de vingança. Destas que fazem a plateia torcer pelo mocinho que foi sacaneado. Django Unchained muda apenas o gênero de filme, e a paisagem, mas segue a mesma linha de outras produções recentes do diretor. Desta vez, ele faz a mistura inusitada entre faroeste e escravidão, e o resultado, como não poderia deixar de ser, é pop. Para quem não gosta de sangue, esta não é uma boa pedida. Porque não há tiro jogado fora neste filme. Todos acertam algum alvo e, a cada acerto, o sangue jorra. Tarantino parece cada vez mais propenso a fazer isto acontecer. Ele chegou perto de tornar o recurso over, mas o roteiro, especialmente os diálogos, tão bem escritos, ainda fazem a balança pender para o bom gosto. Django Unchained poderia ser mais curto, sem prejuízo para a história. Mas graças ao roteiro e aos atores principais, não sofremos com a vontade de Tarantino em utilizar o tempo que ele acha adequado para nos levar pela mão em mais um conto de vingança. Com aquela trilha sonora impecável. Ele segue bem. E mereceu estar no Oscar.
PALPITE PARA O OSCAR 2013: Django Unchained foi indicado a cinco Oscar’s. Conseguiu emplacar as indicações de Melhor Filme, Melhor Fotografia, Melhor Edição de Som, Melhor Ator Coadjuvante para Christoph Waltz e Melhor Roteiro Original.
Francamente, pela ousadia que Tarantino segue tendo ao trilhar seu próprio caminho e filmografia autoral, Django merece ter sido indicado como Melhor Filme. Até como incentivo para que outros autores sigam fazendo isso, independente se o tema ou a condução do filme segue a cartilha do politicamente correto ou do que Hollywood quer pregar no momento.
Apesar de merecer estar entre os nove melhores filmes do ano, segundo o Oscar, Django não tem chances de ganhar dos favoritos Lincoln, Argo ou, correndo por fora, até de Zero Dark Thirty. Mas em outras categorias ele tem chances reais de levar a estatueta.
Não assisti ao trabalho de Philip Seymour Hoffman em The Master, mas conferi o trabalho dos demais concorrentes nesta categoria. E acho que Christoph Waltz está melhor que Alan Arkin, Robert De Niro (muito caricato e repetitivo) e Tommy Lee Jones em seus respectivos filmes. Claro que o Oscar pode premiar Arkin ou Jones para consagrar ainda mais a Argo ou Lincoln, respectivamente. Mas seria muito justo Waltz levar esta estatueta.
Django pode faturar também Melhor Edição de Som, ainda que ele tenha em Zero Dark Thirty um concorrente fortíssimo. Em Melhor Fotografia, fica difícil de opinar porque só assisti a Lincoln, do restante da lista, mas acredito que Life of Pi seja o grande concorrente desta categoria.
Em Melhor Roteiro Original a parada volta a ser duríssima. Sou suspeita para falar… gosto demais do roteiro de Moonrise Kingdom. Mas Zero Dark Thirty também ganharia, fácil, o meu voto, assim como Amour. Eita categoria difícil! E Django Unchained ainda se junta a eles. Dificile. Todos os roteiros muito bons. Mas eu acho que ficaria entre Zero Dark Thirty e Django. Para resumir, qualquer um que vencer terá sido por méritos.
Resumo da ópera: Django Unchained pode sair de mãos vazias deste Oscar, ou levar uma ou duas estatuetas. Entre as que tem mais chance, estão a de Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Original e Melhor Edição de Som. Especialmente o de ator.
Beasts of the Southern Wild – Indomável Sonhadora
O homem perdeu a intimidade que um dia ele teve com a Natureza. Cada vez mais a correria do dia a dia, as pressões do cotidiano e as preocupações que ocupam tanto do nosso tempo parecem aumentar esta desconexão. Beasts of the Southern Wild trata de uma comunidade e, especialmente, de uma menina, que rompem com esta lógica de concreto, progresso e evolução. Eles são anarquistas, vivem em um lugar considerado condenado, e insistem em um modo de vida há muito tempo desprezado.
A HISTÓRIA: Barulho de vento. Uma luz se acende em uma casa precária montada sobre alicerces altos. Venta forte. Hushpuppy (Quvenzhané Wallis) molha um monte de barro e coloca, sobre aquela espécie de ninho, um passarinho que ela tinha encostado no ouvido. De dia, ela caminha fora da casa e escuta o coração dos bichos. Ela tenta decifrá-los. Enquanto ela escuta um destes corações, vê o pai, Wink (Dwight Henry) jogando uma garrafa de bebida por um buraco na parede. Mais tarde, ele chama ela para comer. Mas eles não comem juntos. Vivem em casas separadas, e tem pouco contato direto. Mais tarde, eles observam uma gigantesca barragem, que separa as pessoas “em segurança” daquele pai, filha, e de toda uma comunidade que vive na “banheira”, uma localidade marginalizada e ameaça de desaparecer quando as grandes inundações começarem.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Beasts of the Southern Wild): Eles vivem de maneira diferente. Não se importam com as regras, com o progresso, com a preocupação dos que estão em local seguro de que boa parte da Terra vai sumir quando as geleiras derreterem. Como em tantas outras histórias, os personagens de Beasts of the Southern Wild são apegados a um determinado pedaço de terra. E resistem para ficar ali.
Este filme do nova-iorquino Benh Zeitlin, com roteiro dele e da autora do livro no qual esta produção foi baseada, Lucy Alibar, que escreveu Juicy and Delicious, aborda de uma maneira diferenciada esta preocupação de um novo “fim do mundo”. Logo de cara, o tema da separação entre o homem e a Natureza está presente. Mas outros assuntos vão surgindo aos poucos. Por exemplo, a relação um tanto estranha de Wink com a filha Hushpuppy. É evidente que ele gosta dela, mas que ele faz um esforço gigantesco para tratá-la com certa “brutalidade”. Como acontece com tantas espécies na Natureza, o que ele está fazendo é preparando a menina para ela ser independente. Para ser atenta aos pequenos sinais, para pensar e agir por conta própria, com bravura. Em resumo, para sobreviver.
Aos poucos vamos descobrindo as razões que movem Wink. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, ele sabe que está morrendo. Doente, alivia a dor e um inconfessável medo da morte com a bebida. E tenta esconder da filha o que está acontecendo. Hushpuppy, por sua vez, começa a viver o que muita gente vai experimentar bem mais tarde: o desejo de encontrar as suas próprias origens. Desde o princípio a protagonista demonstra sentir falta da mãe que desapareceu e com a qual ela nunca teve intimidade. Esta busca parece inevitável, e de fato acontece. Nunca saberemos se a mulher que ela encontra era, de fato, sua mãe. Ou a carne de crocodilo foi uma grande coincidência. Mas pouco importa. E esta é uma das várias lições que Hushpuppy vai aprender nesta história.
Porque não interessa onde a mãe dela foi parar. Hushpuppy tem um legado para respeitar. Essa herança que ela recebeu do pai, a quem respeita até o final, mesmo muitas vezes não o compreendendo. Ela sabe qual é o lugar dela, e resiste bravamente em seguir nele. Muito jovem a protagonista desta história desenvolve uma conexão invejável com o restante dos seres vivos do mundo. Ela se sente parte deste conjunto, mesmo se sentindo pequena, compreende também a própria força e grandeza. Porque todos nós somos assim, justamente. Grandes e minúsculos ao mesmo tempo.
Naquela comunidade da Ilha Charles Doucet, conhecida como “a banheira”, as pessoas vivem sob as suas próprias regras, se alimentam do que plantam e dos animais que alimentam. Como diz Hushpuppy logo no início do filme, eles têm mais férias ali do que no resto do mundo. Porque vivem sem agendas, compromissos com horário marcado. E a menina e seu pai, especialmente, vivem de uma forma muito livre, sem muitas regras além de cada um manter a sua independência.
Hushpuppy vai para a escola e aprende com outras crianças alguns ensinamentos de Miss Bathsheba (Gina Montana), como a de que todos nós e os demais animais somos carne, que alimenta a outros animais. Com ela Hushpuppy fica sabendo da história dos bisões, animais gigantescos e que passam a simbolizar a força da Natureza nesta produção – e na cabeça de Hushpuppy. Eles simbolizam a supremacia de animais fortes, que buscam a sobrevivência, e que desapareceram da face da Terra após uma ruptura provocada pela Natureza. Mesmo risco que paira sobre a cabeça do homem.
Aquelas pessoas da “banheira” sabem que há o risco iminente de tudo ser inundado e deles terem que sair dali. Mas eles resistem. E Wink chega a demonstrar até certa arrogância ao dizer, sempre, que tem tudo “sob controle”. Quando sabemos que nós temos, no máximo, controle apenas sobre os nossos atos. De quase todo o resto, não temos controle algum. Talvez, alguma influência. Mas Beasts of the Southern Wild defende esta teoria, de que tudo está conectado e que qualquer falha, por pequena que seja, pode ter repercussões gigantescas em todas as partes.
Estes são os temas fundamentais desta produção. Junto com um outro: a necessidade humana de perdurar, apesar da consciência de sua impermanência. Desde cedo, e Hushpuppy simboliza isto, aprendemos que a morte é algo inevitável. Ainda assim, como ela, queremos deixar uma marca, algum registro de que estivemos aqui. De que fizemos parte de um grupo, de que tivemos relações, aspirações, amores e realizações. Hushpuppy batalha por isso, nem que for desenhando em uma caixa de papelão. Ela tem confiança que, no futuro, as pessoas vão saber sobre a sua existência, e sobre “a banheira”. Todos querem isso, mesmo que nem todo mundo consiga.
Os temas abordados pelo roteiro de Lucy Alibar e Benh Zeitlin são fascinantes. E a forma com que o diretor encontrou de narrar esta história também é interessante. Afinal, ele logo nos situa naquela ambiente e na problemática daquele grupo. Só achei que ele gastou muito tempo, no início, abordando aquela relação estranha entre pai e filha. Até a nossa ficha “começar a cair”, passa um bocado de tempo, e a história deixa o espectador um pouco perdido. Isso conta contra a produção. Mas depois que ela engrena e começa a fazer sentido, cria o impacto necessário.
Gostei da câmara livre do diretor, e da edição precisa de Crockett Doob e Affonso Gonçalves. Esse trio é fundamental para que a produção tenha a dinâmica “naturalista” e ao mesmo tempo fluida, uma proposta ajustada com a história. Gostei muito, também, da trilha sonora de Dan Romer e Benh Zeitlin. Aliás, chama a atenção como o diretor é multifacetado. Uma qualidade interessante e que tem sido cada vez mais rara. E a trilha sonora, nesta produção, acaba sendo fundamental.
Eis um filme independente, de baixo custo, e que trata alguns temas já abordados em outras produções mas, aqui, de forma diferenciada. Das raras produções que começaram a sua carreira premiada no Sundance e que chegam até o contrário do festival criado por Robert Redford, que é o Oscar. Pelo estilo deste filme, chega a ser surpreendente a sua presença no Oscar. Mas ele mereceu. E a chegada dele comprova que Hollywood vive uma nova fase. Está preocupada com outros temas, e não está mais imune à qualidade de produções que não tiveram um grande produtor por trás ou envolvido, pelo menos, na distribuição do filme. Este fenômeno começou há alguns anos, mas perdura este ano com Beasts of the Southern Wild. O filme é o patinho feio deste Oscar. Não deve ganhar nada, mas merece estar lá.
NOTA: 9.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Beasts of the Southern Wild é um filme de pai e filha, basicamente. Quvenzhané Wallis é a estrela inegável desta produção. Ela assusta, em alguns momentos, porque parece um adulto já vivido. Em outros, irrita um pouco – especialmente quando grita. Mas ela é a alma da produção. Junto com ela, está Dwight Henry, que faz um trabalho muito justo, levando em conta a característica de seu personagem. Os demais atores são, todos, sem exceção, coadjuvantes.
Entre os atores com menos importância, vale destacar o trabalho da já citada Gina Montana como Miss Bathsheba, a professora da comunidade; Lowell Landes como Walrus, o velho amigo de Wink, e a pessoa que ele pensa que pode cuidar da filha, quando algo não der certo; Henry D. Coleman como Peter T, que ajuda Wink na operação da barragem; Pamela Harper como Little Joe, a mulher de Wilrus; Levy Easterly como Jean Battiste, que tenta ensinar Hushpuppy a comer um caranguejo; e Jovan Hathaway como a cozinheira que recebe Hushpuppy no restaurante flutuante.
Da parte técnica do filme, vale citar o bom trabalho do diretor de fotografia Ben Richardson e o design de produção de Alex DiGerlando. Eles são responsáveis, junto com Zeitlin, por algumas sequências belíssimas.
Uma curiosidade sobre esta produção: mais de metade do elenco de Beasts of the Southern Wild, incluindo a protagonista, vieram das áreas inundadas de Louisiana. Ou seja, estão acostumados a viver em casas do tipo palafitas, e a comerem peixes, crustáceos e similares.
Beasts of the Southern Wild foi financiado com um orçamento de US$ 1,3 milhão pela organização sem fins lucrativos de Nova York Cinereach. Este foi o primeiro de 13 projetos planejados pela organização.
Depois de realizado, Beasts of the Southern Wild foi vendido para a Fox por US$ 2 milhões.
A mãe de Wallis mentiu sobre a idade da filha. Ela disse que a menina tinha seis anos, a idade solicitada para a audição. Mas, na verdade, ela tinha apenas cinco. Segundo os realizadores, a menina conseguiu superar outras 4 mil crianças que tentaram o papel de protagonista.
Oprah Winfrey apresentou este filme na TV durante uma hora. E disse, na ocasião, que ficou sabendo do filme através do presidente Barack Obama. Isso que eu chamo de uma baita propaganda.
Ao ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz deste ano, Quvenzhané Wallis, aos nove anos de idade, tornou-se a mais jovem concorrente a uma estatueta. Antes dela, o recorde era de Keisha Castle-Hughes, que foi indicada quando tinha 13 anos.
Beasts of the Southern Wild teria custado US$ 1,8 milhão. Uma miséria, para os padrões dos filmes dos Estados Unidos. Até o dia 3 de fevereiro, apenas nos Estados Unidos, esta produção tinha arrecadado pouco mais de US$ 11,8 milhões. No restante do mundo, até 26 de janeiro, ele tinha embolsado outros US$ 11,5 milhões. Belo lucro, pois.
Esta produção estreou no Festival de Sundance em janeiro de 2012. De lá para cá, o filme participou de outros 26 festivais. Um número impressionante. Até o momento, ele ganhou 50 prêmios e foi indicado a outros 60, além de quatro Oscar’s. Número fantásticos, especialmente para um filme de baixo orçamento.
Entre os prêmios que Beasts of the Southern Wild recebeu, destaque para o de Filme do Ano no AFI Awards; quatro prêmios dos jurados do Festival de Cannes; Melhor Estreia na Direção e o Top Films no National Board of Review; Melhor Estreia de Diretor no Festival de Estocolmo; e o Grande Prêmo do Júri e Melhor Fotografia no Festival de Sundance.
Beats of the Southern Wild foi totalmente rodado em Louisiana.
Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para esta produção, e os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 155 textos positivos e 25 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 8,1.
Beats of the Southern Wild é o primeiro longa da carreira de Zeitlin. Antes deste filme, ele havia dirigido três curtas. O primeiro, em 2005, chamado Egg. Nada mal, para um diretor com tão pouco tempo de carreira, ter sido indicado para um Oscar, não?
CONCLUSÃO: Beasts of the Southern Wild tem um estilo muito diferente de narrar uma história que explora, essencialmente, três aspectos: a anarquia de quem decide viver de forma diferenciada, marginalizada, e em permanente conexão com a Natureza; a busca de uma criança por suas origens; e a necessidade do indivíduo de ser maior que a própria vida. O filme demora para decolar, apesar de ter um roteiro interessante desde o início. O texto da menina é interessante e começa a dar o recado logo no princípio, mas demoramos para perceber que toda aquela falta de afetividade do pai dela é parte fundamental da “alma” desta produção. Ele sabia que não estava bem, há tempos, mas mais que isso, ele acreditava que seria muito mais efetivo ensinando a filha a ser forte do que a ser amorosa. Ela tinha todo o espaço para ser criança, mas não tinha o afeto que consideramos normal. Assim, ela aprendeu, de fato, não apenas a ser forte, mas a se conectar com todos os seres que encontrou pelo caminho. Bela história, contada de uma maneira fora do convencional, e que apenas cansa um pouco porque demora para decolar. Mas esta produção faz muito sentido, e permanece no pensamento e na imaginação um bocado de tempo depois de terminar.
PALPITE PARA O OSCAR 2013: Esta produção conseguiu uma proeza. Com um baixíssimo orçamento, e sem nenhum nome conhecido ou de peso por trás ou na frente das câmeras, ser indicado a quatro Oscar’s, sendo um deles o mais importante da noite.
Beasts of the Southern Wild já ganhou alguns prêmios importantes, como vocês puderam ler acima. Mas sem dúvida ele está ganhando outra projeção ao chegar ao Oscar com indicações como Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado. Querendo ou não, ele foi indicado a quatro dos principais Oscar’s da noite.
E provavelmente deverá contentar-se com isto. Com as indicações. Porque seria uma grande zebra Beasts of the Southern Wild levar qualquer uma destas estatuetas. Para o Oscar principal, ele tem pelo menos quatro ou cinco produções que levam muita vantagem na disputa. Apesar de ser a força motriz desta produção, Quvenzhané Wallis não deve desbancar Jessica Chastain, Jennifer Lawrence ou aquela que provavelmente seria o meu voto, Emmanuelle Riva. Estas são as favoritas, nesta ordem.
A indicação de Benh Zeitlin como Melhor Diretor foi, sem dúvida, uma das grandes surpresas deste ano. Ele desbancou grandes nomes como Tom Hooper, Quentin Tarantino e mesmo Ben Affleck. Essa cadeira roubada é tudo que ele tem, porque certamente ele não vai conseguir tirar a estatueta de Steven Spielberg ou mesmo de David O. Russell ou Michael Haneke. Para mim, Spielberg leva grande vantagem, desta vez.
Finalmente, em Melhor Roteiro Adaptado, não vejo chances deste filme vencer aos favoritos Argo, Lincoln ou mesmo Silver Linings Playbook. Digo pela questão do lobby e, um pouco também, por mérito. Para o meu gosto, sem dúvida Argo é melhor. Mas em segundo lugar, talvez, estaria Beasts of the Southern Wild. De qualquer forma, acho que Zeitlin e equipe devem ficar bem satisfeitos com as indicações. Porque as chances são mínimas para qualquer estatueta.













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