Last Night

6 de maio de 2012 1 comentário

Resista. O início de Last Night parece uma discussão de relacionamento (a famosa DR) interminável. Mas passados aqueles 20 minutos iniciais, o filme começa a esquentar. E se você tem algum interesse pela velha discussão do que, afinal, é a fidelidade ou a infidelidade, eis um filme interessante a este respeito. Há algumas sequências deliciosas, e os atores estão bem sintonizados no texto e em suas interpretações. Vale uma conferida – mas com uma boa dose de paciência.

A HISTÓRIA: Joanna (Keira Knightley) e Michael Reed (Sam Worthington) voltam para casa, de táxi, olhando, cada um, para um lado. Eles não se falam. Desta cena, do final da noite, voltamos para o início de tudo, quando o casal preparava-se para sair de casa. Atrasados, eles se falam como um casal que vive a rotina. Mas chegando a uma festa, Joanna fica incomodada com a relação entre o marido e sua nova colega, Laura (Eva Mendes). Em uma crise de ciúmes, ela pressiona o marido, até que ele confessa estar atraído pela colega. Joanna dorme na sala mas, na madrugada, Michael se aproxima, faz comida para eles e a paz parece voltar a vigorar. No dia seguinte, Michael viaja à trabalho, e Joanna encontra, de forma inesperada, uma antiga paixão, Alex Mann (Guillaume Canet). A partir daí, o casal vai viver muitas provações.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Last Night): O que me chamou a atenção neste filme, logo no início, foi a sua dinâmica diferenciada. O tempo é fundamental, para entender a dinâmica da história, mas só vamos entendê-lo aos poucos. Não é difícil perceber que a cena inicial, do casal de protagonistas olhando para lugares opostos no táxi, marca o final daquela noite, e que depois voltamos para o seu início. Mas não é desse tempo a que me refiro.

O tempo importante para Last Night está naquele que marca as diferentes relações. Há quanto tempo Joanna e Michael estão casados? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Há quanto tempo Joanna não encontra a Alex, e quando eles tiveram uma relação? Há quanto tempo Laura trabalha com Michael? Quando Joanna começou a ter bloqueio criativo? Quando Michael começou a achar o próprio cotidiano como algo sem muitos atrativos?

Porque quando alguém está tentado a pular a cerca, a trair, isso não acontece assim, sem mais. Com isso não quero dizer que toda traição é justificada. Não é isso. Sempre podemos escolher, entre fazer ou não. Last Night explora muito isso. Porque tentações sempre existem. Mas ceder a elas é uma questão de escolha. Este filme mostra bem os perigos do flerte, de dar corda, de “deixar rolar”. Quanto mais se deixa a corda solta, mais fácil é para alguém ser enforcado com a própria brincadeira.

Mas o que eu falava antes é que isso não acontece do dia para a noite. Seja a rotina, sejam os desentendimentos, ou a leitura equivocada da pessoa com quem estamos junto, há vários elementos que podem levar alguém a jogar com outra pessoa. Flertar é algo maravilhoso, não há dúvida. Mas casar é uma escolha. E quando se decide por algo, se abre mão de outras possibilidades. Como quando alguém escolhe um emprego, e não outro. Vai ter que abraçar a essa decisão e crescer profissionalmente antes de pensar em pular de galho. Do contrário, a chance é grande de ser visto como um(a) inconstante.

E ninguém gosta de pessoas que vivem pulando de galho. Seja na profissão, seja na vida pessoal. Alguma constância é preciso ter. O problema reside que tudo flui, inclusive as pessoas. E quem você era há algum tempo atrás, já não é mesma pessoa que você é agora. E como lidar com isso? Daí entra outra questão interessante levantada por Last Night: é possível realmente conhecer a uma pessoa? Inclusive nós mesmos?

Acho que estamos permanentemente tentando nos conhecer, entender. Ou deveríamos, pelo menos. Esse exercício é fundamental. Até para saber o que escolher, quando uma nova escolha tiver que ser feita. E a vida é feita delas. De portas abertas, de janelas fechadas, e vice-versa. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Então achei de suprema ironia e elegância o momento em que “lemos” o bilhete de Joanna. Ela diz que conhece o marido. Mesmo? Não, claro que não. Assim como Michael não conhece a Joanna. Na verdade, ninguém conhece a ninguém.

O máximo que podemos querer, nesta vida, é roçar a parte do conhecimento da personalidade das pessoas que amamos, e das quais somos mais próximas. Fora isso, conhecermos o máximo possível a nós mesmos – mas, dificilmente, na totalidade. Por essas e tantas outras que, mais do que nós sabemos, é importante termos em mente tudo o que desconhecemos. Até para que a pressão por respostas e resultados não seja tão pesada, e injusta.

Last Night, devido ao ótimo roteiro e direção de Massy Tadjedin, acaba sendo isso. Muito mais do que as aventuras de um dia e noite de “folga” de um casal. Não importa tanto o que Joanna e Michael resolveram fazer naquela bendita noite de liberdade. Importa muito mais o que virá depois daquilo. O que cada um decidirá aceitar ou negar sobre o outro e, especialmente, sobre os próprios sentimentos. Quem disse que filmes sobre relacionamentos, flertes e traições precisa ser raso? Last Night está aí para provar que é possível fazer algo além do óbvio.

Os únicos problemas do filme são aquele início, que é ruim, porque nunca é fácil começar a assistir a um filme com uma grande DR e uma crise de ciúme de uma mulher insegura; e a falta de química entre os protagonistas. Keira Knightley e Sam Worthington são lindos, estão bem em seus papéis, mas não tem sintonia – talvez até isso seja proposital. Para a satisfação de todos nós, isso muda completamente, em relação à Keira, quando aparece em cena o encantador Guillaume Canet. Ele salva o filme, muitas e muitas vezes.

O mesmo – ainda que sem tanta química ou carisma – pode se dizer de Eva Mendes. Analisando apenas pelo corpo, não há dúvidas que Michael tem razões para estar tentado. Há um abismo separando a silhueta de Eva e de Keira – com vantagem para a primeira, é claro. Os quatro atores estão muito bem em seus papéis, com um destaque gritante para o desempenho de Keira e Guillaume, a partir do momento que eles começam a dividir a cena.

Agora, sobre a polêmica que talvez se crie sobre quem traiu ou deixou de trair, neste filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Pela visão dos homens, tanto Joanna quanto Michael traíram – ainda que de forma diferente. Para as mulheres, que acreditam que existe diferença entre “consumação carnal” ou não, talvez apenas Michael tenha traído a Joanna. Francamente, acho que estar em uma relação gostando daquela pessoa e, ao mesmo tempo, de outra, é uma forma de traição. Que é o que acontece. Mas será possível, um dia, gostar de apenas uma pessoa? Exclusivamente, e pra sempre? Se isso é impossível, também é impossível ser fiel. Cada um tem a sua própria história pessoal para servir como exemplo – e não, não existe uma única e certeira resposta.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Last Night marca a estreia na direção da iraniana Massy Tadjedin. Antes de escrever e dirigir a esta história, ela havia escrito o roteiro e produzido ao filme Leo, de 2002, e escrito o roteiro de The Jacket, de 2005. Eis um nome que talvez seja interessante acompanhar.

Além dos atores principais, vale citar o trabalho dos coadjuvantes Griffin Dunne, como Truman, amigo de Alex e curioso de plantão; e Daniel Eric Gold como Andy, que trabalha com Michael.

Ótima a direção de Tadjedin. Atenta aos detalhes das cenas, focando objetos e as expressões dos atores quando elas poderiam ser o diferencial de cada momento. Um olhar cuidadoso, típico de uma mulher, para os detalhes. Para que o resultado seja bom, contribuiu muito para ele o trabalho do diretor de fotografia Peter Deming.

Bastante pontual e “classuda” a trilha sonora de Clint Mansell, bastante baseada no uso do piano.

Last Night estreou em setembro de 2010 no Festival de Toronto. Depois, ele participou de outros sete festivais, entre eles o de São Paulo, em outubro de 2011. Nesta trajetória, ele foi indicado a um prêmio, mas não levou nada para casa.

Não há informações sobre o quanto Last Night teria custado. Mas o filme, que estreou em apenas seis salas de cinema dos Estados Unidos no dia 15 de maio de 2011, conseguiu quase US$ 100 mil nas bilheterias daquele país até junho do mesmo ano – sim, mil e não milhões. No restante do mercado internacional, contudo, Last Night teria conseguido pouco mais de US$ 7,6 milhões. Pouco.

Uma curiosidade: como a história sugere, Last Night foi totalmente rodada na cidade de Nova York.

Antes falei da importância do tempo para esta história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pouco a pouco, vamos conhecendo a história de Joanna, Michael e Alex. Ela e Michael namoram desde o tempo da faculdade. Se casaram três anos antes da noite em que acompanhamos. Joanna e Alex conheceram-se há quatro anos, e encontraram-se, pela última vez, dois anos antes. Joanna decidiu apostar na história com Michael, e tudo indica que teve um relacionamento com Alex quando ela tinha se desentendido com Michael. Mesmo mais “mexida” por Alex, ela preferiu apostar na segurança do relacionamento com Michael, voltando para ele e casando com o namorado de tempo de faculdade. Então, na prática, ela não traiu o marido desde que resolveu ficar com ele. Só a dúvida se fez a escolha certa é que perdurou. Isso acontece. Mais do que gostaríamos.

Ah sim, e aquela DR inicial, com a Keira Knightley em mais uma atuação irritante – ainda bem que, depois, para a nossa sorte a personagem dela embarca em uma versão mais “leve” -, só reforçou uma teoria que existe e na qual eu acredito cada vez mais: que toda pessoa ciumenta tem os seus “pitis” porque, no fundo, está traindo, já traiu ou está pensando em trair. Normalmente estas pessoas não tem elementos concretos para desconfiar. Mas projetam na outra pessoa do casal a culpa que ela mesma está sentindo – o famoso espelhismo. Em The Night, mais um caso destes.

E a Keira Knightley parece se dar muito melhor em papéis leves. Porque neste filme e no anterior que eu vi dela, A Dangerous Method, ela chega a irritar com o exagero da interpretação dos “momentos difíceis” de suas personagens. Agora, neste filme, quando entra em ação Alex, ela se solta, explora a própria beleza, charme e carisma e daí tudo muda de figura. Aliás, ela e Guillaume Canet passam a ser os nomes do filme a partir do encontro dos dois em cena.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para Last Night. Não é uma nota ruim, levando em conta o padrão do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais duros com esta produção, dedicando 30 críticas negativas e 29 positivas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 49% e uma nota média de 5,3.

CONCLUSÃO: Provocante e cheio de insinuações, Last Night tem gente bonita e cheia de tentações na mira. Os flertes e as conquistas permeiam toda a história. Mas Last Night é um filme verbal, diferente de Shame, que explora a alta sexualidade visualmente. O início chega a cansar, dar sono, mas vencida aquela primeira parte, a mais chata, a história vai ganhando outros contornos mais interessantes. No final, o que é trair, ou ser fiel? Aparentemente a mentira ou, pelo menos, a dissimulação parece fazer parte de qualquer casamento. Esse filme explora bem isso. Assim como esta incapacidade nossa de realmente conhecer a alguém – afinal, conhecer a nós mesmos, em plenitude, já é uma tarefa complicada, quanto mais acreditar que conhecemos a outra pessoa. E esse conhecimento é fundamental. Ou a aceitação da ignorância. Por incrível que pareça, Last Night roça nestas questões. E de forma eficaz, sem discursos – exceto aquele inicial -, mas com muito flerte.

The Conspirator – Conspiração Americana

5 de maio de 2012 Deixe um comentário

Uma nação forte pode ser consolidada sobre uma mentira? A justiça pode ser massacrada em momentos de conflito com a justificativa de que isso será feito para um “bem maior”? Robert Redford segue a sua jornada em busca de uma visão crítica dos Estados Unidos ao retomar uma história pouco conhecida de seu país neste The Conspirator. O filme mistura crime, drama, política e conflitos de tribunal. É uma história interessante, curiosa, e que ajuda a fazer uma revisão histórica das origens dos EUA.

A HISTÓRIA: Soldados mortos, caídos no chão. Um sobrevivente daquele campo de batalhas conta para um outro sobre a história de dois homens que chegaram às portas do Paraíso. O capitão Frederick Aiken (James McAvoy) está ferido, mas tenta distrair o amigo Nicholas Baker (Justin Long), que está tendo convulsões. Quando o socorro chega, Frederick ordena que Nicholas seja levado primeiro. Dois anos depois, no dia 14 de abril de 1865, os amigos estão juntos para comemorar a vitória dos estados do Norte dos Estados Unidos na Guerra Civil Americana. William Hamilton (James Badge Dale) questiona se o grupo não está comemorando antes do tempo, mas Nicholas afirma que o general Lee rendeu-se ao general Grant, e que isso deveria ser comemorado. Naquela noite, no Teatro Ford, o presidente Abraham Lincoln (Gerald Bestrom) sofreria um atentado. Mais tarde, Frederick, que é advogado, seria chamado pelo senador Johnson (Tom Wilkinson) a defender uma das acusadas pela conspiração contra o presidente, a dona de um albergue Mary Surratt (Robin Wright).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Conspirator): Robert Redford é conhecido pelo olhar crítico. Ele não apenas fez alguns filmes com esta levada, como também criou um festival – o Sundance – para fomentar olhares múltiplos sobre a realidade dos Estados Unidos e de outros países. Tentando fugir um pouco das “cartas marcadas” de Hollywood.

Em The Conspirator o diretor narra, junto com os roteiristas, um episódio pouco conhecido da história dos Estados Unidos. Ele mostra como as leis, constituições e valores defendidos por um país podem ser modificados e deturpados dependendo da interpretação de quem está no comando.

Situações de guerra e conflito são diferentes daquelas vividas em um ambiente de paz, é verdade. Mas The Conspirator sugere – e c0m razão – que estes argumentos não são suficientes para legitimar injustiças. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A mensagem mais bacana do filme, além de uma revisão histórica rara, é de que o caso de uma mulher, apenas, pode ser suficiente para que mudanças importantes aconteçam. Algumas vezes alguns justos precisam ser sacrificados para que paradigmas equivocados que foram estabelecidos sejam modificados.

The Conspirator acerta no início, ao ir direto ao que interessava. Mas não deixa de ser um pouco curioso o corte seco que Redford faz do campo de batalha para a noite do atentado ao presidente dos EUA. (SPOILER – não leia… bem você já sabe). Parece que ele não quer perder tempo com o conflito. Talvez para não dar pano pra manga. Para que não haja espaço para justificar o absurdo que vamos assistir, que é o julgamento forjado de uma mulher que, efetivamente, não contribuiu para o assassinato do presidente.

Normalmente, Redford é mais cuidado no contexto histórico. Isso é algo em que The Conspirator falha. O roteiro de James D. Solomon, inspirado em uma história escrita por ele e por Gregory Bernstein, ignora o clima tenso e de divisão entre o Norte e o Sul dos Estados Unidos. Sabemos que há um conflito, que o Norte está ganhando e que há insatisfeitos no Sul, mas a insatisfação ou o apoio das ruas para Lincoln, por exemplo, não é mostrado neste filme.

A história gasta mais tempo no desinteressante relacionamento do protagonista com Sarah Weston (Alexis Bledel) do que mostrando o ambiente que cercava aquela decisão judicial. Ok, entendo que os roteiristas queriam mostrar todas as “pressões” e oportunidades que Frederick poderia perder ao insistir em defender Mary Surratt, mas a escolha deste foco não ajuda o filme. Pelo contrário, acaba tornando ele mais raso do que ele poderia ser.

O espectador também fica um pouco confuso sobre o atentado ao presidente e tem dificuldade de identificar os seus culpados. Eles aparecem apenas no momento da ação e, depois, não tem as suas histórias contextualizadas. O “vilão” principal, por exemplo, o ator responsável por atirar em Lincoln, John Wilkes Booth (Toby Kebbell) aparece poucas vezes e, normalmente, de forma tão obscura que até fica difícil identificá-lo depois, quando ele está sendo perseguido.

O mesmo acontece com os outros acusados pela conspiração, David Herold (Marcus Hester), Lewis Payne (Norman Reedus), George Atzerodt (John Michael Weatherly), Michael O’Laughlen, Edman Spangler (James Kirk Sparks), Samuel Mudd e Samuel Arnold (Jeremy Tuttle). Não percebemos qual foi a participação deles nos crimes porque tudo acontece muito rápido, e sem explicar a origem do plano ou o desenvolvimento dele. Algo que não ajuda o filme.

Claro que um bom embate de tribunal é sempre interessante. O duelo entre Frederick, que acaba assumindo o caso quando o senador percebe que será pior se ele continuar defendendo a dona da pensão, e o promotor Joseph Holt (Danny Huston) tem alguns bons momentos, mas o melhor deles – e que realmente vale todo aquele jogo de cena – só acontece na argumentação final. Até lá, o filme parece um pouco arrastado.

A ideia de resgatar um episódio importante para os Estados Unidos e pouco conhecido tem o seu mérito. Assim como os cuidados com a reprodução daquela época, tanto nos figurinos como na direção de arte e tudo o mais. Mas o problema de The Conspirator é que ele fica mais no discurso morno do que na ação ou no drama que provoquem o espectador, que façam ele reagir à história que está assistindo.

O resultado é que ficamos perplexos em saber que os Estados Unidos, que orgulha-se tanto de sua Constituição e da preservação dos direitos dos cidadãos, começou a sua história como nação unida contradizendo tudo isso. Mas isso é tudo. E essa perplexidade ganha força na parte final do filme. Antes, há confusão, um repasse rápido da conspiração que não ajuda a contar a história, e muitas sequências de tribunal – e seus bastidores.

Um elemento que deveria ajudar na tensão do filme é a de Frederick estar “dividido”. Afinal, ele é um herói de guerra, que defendia, justamente, aquela ideia de nação perfeita, mas também um advogado que é chamado a honrar o juramento que fez. Aos poucos, e ao defender Mary Surratt, ele percebe o que todos nós aprendemos com o passar dos anos: que a vida não é tão preto & branco como imaginávamos quando éramos crianças, ou adolescentes.

Ele percebe, isso sim, que há muitos nuances de cinza. E que há graus decisórios que estão além do nosso alcance. Ainda assim, não devemos desistir. E mesmo que tudo mostre que a derrota é inevitável, é preciso continuar defendendo os valores que nos ensinaram e que são justos, corretos.

Por isso, e pelo resgate histórico de um episódio pouco conhecido, é que dedico a nota abaixo. Como filme, The Conspirator mereceria uma avaliação mais baixa. Mas pelas intenções dele… sejamos um pouco “generosos”. Sempre vale assistir a um diretor e seu trabalho feitos para provocar reflexão nas pessoas. Este é um caso destes.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os atores estão bem, mas nenhum deles merece uma reverência. Algumas vezes, James McAvoy parece um pouco deslocado, assim como Justin Long. Kevin Kline, figura importante no filme e para a história, porque ele interpreta ao secretário de guerra Edwin Stanton, aparece pouco, e parece sempre estar desconfortável. Desempenho abaixo do desejável, para resumir. Robin Wright tem uma interpretação linear, conseguindo destacar-se da média geral apenas algumas vezes. Outros que estão bem são Evan Rachel Wood, que interpreta a Anna Surratt, filha de Mary; Tom Wilkinson, acima da média; e o veterano John Cullum como o juiz Wylie, em uma superponta.

A produção de The Conspirator é uma das maiores qualidades do filme. Um ótimo trabalho de pesquisa de figurinos de Louise Frogley, da direção de arte de Mark Garner e do design de produção de Kalina Ivanov. Ajuda a “climatizar” a história a direção de fotografia “terral” que dá a impressão de “envelhecida” de Newton Thomas Sigel. Um estilo previsível, é verdade, mas, ainda assim, eficaz.

O veterano Mark Isham faz mais um bom trabalho na trilha sonora, que segue uma linha clássica, reforçando o drama e alguns momentos de “suspense”. Mas o melhor do filme, em termos de música, está reservado para os créditos finais: Empty, canção de Ray Lamontagne. Bela escolha. E, para mim, uma bela descoberta. O refrão dela resume bastante do que Redford quer expressar com este filme: “Will I always feel this way/ so empty, so estranged”. Aqui, um vídeo com a canção.

Segundo este texto, a Guerra da Secessão, como ficou conhecida a guerra civil entre “nortistas e sulistas” nos Estados Unidos entre 1861 e 1865, teria provocado pelo menos 600 mil mortes. Um número impressionante – especialmente para um conflito civil do século 19. Ainda de acordo com o texto, esta teria sido a primeira guerra moderna da história, na qual foram utilizados fuzis de repetição e trincheiras, recursos que marcariam, depois, a Primeira Guerra Mundial.

Quem tem interesse de saber mais sobre o episódio contra Lincoln, este é um texto interessante para começar a pesquisa. Curto, direto e com algumas curiosidades. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Lincoln foi o primeiro presidente dos EUA morto enquanto exercia a sua função como maior mandatário do país. Depois dele, seriam assassinados os presidentes James Garfield (por Charles Guiteau, em 1881), William McKinley (por Leon Czolgosz, em 1901) e John Kennedy (por Lee Harvey Oswald, em 1963).

Vale dar uma conferida nesta página da Veja com informações e fotos históricas da Guerra Civil Americana. E neste link, um resumo sobre alguns personagens importantes daquele momento histórico.

The Conspirator estreou em setembro de 2010 no Festival de Toronto. Depois, o filme passou por outros cinco festivais. Nesta trajetória, foi indicado a dois prêmios, mas não levou nenhum deles para casa.

O filme foi mal nas bilheterias. Para uma produção que custou cerca de US$ 25 milhões, faturar pouco mais de US$ 11,5 milhões nos Estados Unidos é muito pouco. Redford fracassou, desta vez, apesar das boas intenções.

E uma curiosidade sobre esta produção: ela é a primeira da The American Film Company. A produtora foi criada com o objetivo de viabilizar filmes que façam um resgate crítico do passado dos Estados Unidos. Agora, outro detalhe histórico (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme): Mary Suratt foi a primeira mulher da história a ser executada pelo governo dos EUA.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para The Conspirator. Uma boa avaliação, levando em conta o histórico do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes não gostaram tanto da produção. Eles dedicaram 92 críticas positivas e 73 negativas para The Conspirator, o que lhe garante uma aprovação de 56% e uma nota média de 6,1.

CONCLUSÃO: Algo que o cinema dos Estados Unidos tem, como qualidade, é a coragem de focar episódios polêmicos de sua história sem puritanismo. O diretor Robert Redford contribui para a saudável revisão histórica do cinemão de seu país com este The Conspirator. Faz um filme bem dirigido e narrado, mas The Conspirator perde um pouco de força conforme avança porque as dúvidas sobre a protagonista não duram muito tempo. Logo o público sabe o que está acontecendo, e a tensão resume-se apenas à disputa de tribunal. E daí surge o segundo problema: fica evidente, e muito cedo, qual será o resultado daquela queda de braços com cartas marcadas. O resgate histórico crítico é bacana, mas faltou alimentar um pouco mais de dúvidas e tensão durante a história. Um bom filme, ainda que pouco vigoroso. Mas que vai agradar aos que gostam de saber um pouco mais sobre episódios históricos pouco conhecidos.

Contraband – Contrabando

29 de abril de 2012 Deixe um comentário

Um garoto faz uma grande bobagem. Se mete em algo que não conhece e se dá mal. Na sequência, ele é cobrado por isso. Para sua sorte, ele tem na família um especialista no assunto. Ok, já conhecemos essa história. E nem por isso Contraband não apresenta, com honestidade e sem enrolação, o que o espectador quer ver em um filme de ação. De quebra, o serviço se torna um pouco mais complicado, e a história não economiza em ameaças e alguma pancaria.

A HISTÓRIA: Noite. Um barco desliza pelas águas, e um helicóptero faz o mesmo pelos ares. Enquanto o helicóptero se aproxima do barco, duas lanchas ajudam a fechar o cerco. A luz do helicóptero ilumina a cabine onde está Andy (Caleb Landry Jones), e ele sai correndo. Acorda Walter (Jason Mitchell) no caminho para livrar-se das drogas. Mesmo com o alerta da polícia para não se mexer, Andy consegue jogar a bolsa com a mercadoria nas águas. Enquanto isso, em uma festa de casamento, Chris Farraday (Mark Wahlberg) faz um brinde em homenagem aos recém-casados. Na festa, Chris ouve comentários sobre o tempo em que era um mestre no contrabando, e recebe uma proposta para voltar ao ramo. Ele resiste à ideia, porque agora tem mulher e dois filhos pequenos. O problema é que Andy é o irmão mais novo de sua esposa, Kate (Kate Beckinsale) e, mesmo sem querer, Chris acaba tendo que ajudá-lo a sair de uma dívida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Contraband): O roteiro não é nenhum primor em originalidade. Mas isso não torna Contraband, exatamente, previsível. Aquela premissa básica, citada no início deste post, de fato é conhecida. Mas o desenvolvimento da trama, especialmente as saídas criativas do protagonista para os problemas que vão surgindo e o pouco tempo para solucioná-los, torna a produção envolvente.

Eis um filme de ação clássico. Há a pressão da família envolvida, e a necessidade de um proteger o outro para sobreviver, assim como as forças contrárias a isso. Também faz parte do enredo corrupção, redes internacionais de contrabando e criminalidade, traições, perseguições e alguma pancadaria.

Pouco antes de Contraband chegar na metade, ele já nos apresenta algo elementar em qualquer filme com elementos fortes de suspense: sabemos de algo que o protagonista não sabe. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Neste caso, que o melhor amigo dele, Sebastian Abney (Ben Foster), é o maior interessado em que Chris não apenas resolva o problema de Andy, mas que ele também viaje trazendo uma encomenda de drogas – o que ele, por princípios e para não ter a vida mais complicada, caso seja necessário, se recusa a fazer. Abney é o sujeito que manda no “vilão conhecido”, Tim Briggs (Giovanni Ribisi). Colocar o espectador nesta “posição privilegiada”, de saber disto, enquanto Chris não tem esta informação, serve apenas para tornar o filme mais tenso.

O diretor Baltasar Kormákur faz um belo trabalho. Ele conduz bem a história, especialmente nas cenas de ação inteligente. Porque há perseguições e brigas, mas o elemento principal de Contraband são as saídas criativas do protagonista, comparado com Houdini, ilusionista conhecido mundialmente por enganar a todos e por não revelar os seus segredos. Conhecer os métodos de Chris é um dos atrativos da história.

O roteiro de Aaron Guzikowski acerta na dosagem da ação com as histórias pessoais dos personagens. Afinal, há intriga, disputa, ciúme, fidelidade e traição em jogo. E isso torna o filme mais completo e denso, não apenas uma simples história de ação. Interessante que Contraband é uma refilmagem do islandês Reykjavík Rotterdam, e que o ator principal desta produção, Baltasar Kormákur, foi justamente o diretor da produção hollywoodiana. Os responsáveis pelo roteiro da produção islandesa foram Arnaldur Indrioason e Óskar Jónasson, citados nos créditos de Contraband.

Ainda que o roteiro de Contraband seja competente ao traçar as cenas de ação, ele tem alguns probleminhas que acabam atrapalhando ao filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por exemplo, por mais que o protagonista seja conhecido como o “Houdini do contrabando”, algumas saídas dele acabam sendo mais interessantes pela falta de tempo para solucionar os problemas do que pela genialidade das soluções. Mas o que incomoda, realmente, é a parte final da produção. Como a tensão é resolvida de forma simples e um tanto difícil de engolir – especificamente o resgate de Kate.

Os atores tem desempenhos diferentes em Contraband. Mark Wahlberg está bem, assim como Ben Foster, mas Kate Beckinsale tem um desempenho sofrível. Fora a sequência em que ela apanha na saída da loja, nas demais ela parece ter as emoções neutralizadas. Não absorve a tensão de uma mãe de família em situação tão extrema – na qual estão em risco o irmão, os filhos e o marido.

Mas se há elementos que não funcionam muito bem em Contraband, algo se destaca do início ao fim da produção: a trilha sonora de Clinton Shorter. Eletrizante, pop e pesada em alguns momentos, a trilha revela-se fundamental para dar ritmo ao filme. Belo trabalho.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: As cidades em que se passa a história deste filme acabam sendo personagens de Contraband. New Orleans, que ficou conhecida pela devastação do furacão Katrina, e a Cidade do Panamá, serviram de cenário para a história. Cada uma delas, com suas características, influenciam nas escolhas dos personagens. Um acerto do roteiro, que não torna o ambiente como algo secundário, mas importante para o desenvolvimento da trama.

Da parte técnica do filme, merecem ser destacados, além da trilha sonora, a edição de Elísabet Ronaldsdóttir e a direção de fotografia bem feita de Barry Ackroyd, que consegue manter a tensão nas cenas noturnas sem fazer a qualidade das imagens cair.

Do elenco, vale citar o bom trabalho de Lukas Haas como Danny Raymer, braço direito de Chris durante a operação; Lucky Johnson como Tarik, e Ólafur Darri Ólafsson como Olaf, ambos integrantes do grupo de contrabandistas; J.K. Simmons como o chefe do navio; e Diego Luna como o “maluqueiro” criminoso Gonzalo.

Contraband estreou no dia 12 de janeiro em mercados de pouco peso para a bilheteria mundial, como o Cazaquistão, a Rússia e Cingapura. No dia seguinte ele chegou aos Estados Unidos, Canadá, Bulgária e Paquistão.

O filme, que teria custado aproximadamente US$ 25 milhões, arrecadou pouco menos de US$ 66,5 milhões nos Estados Unidos até o dia 11 de março. Um bom resultado, especialmente porque a crítica não gostou da produção. O interessante é que, logo na estreia, Contraband conseguiu US$ 28,5 milhões nas bilheterias norte-americanas. Ou seja, o filme conseguiu se pagar nos primeiros dias. O que revela a força dos filmes de ação – e do elenco que encabeça esta produção.

Contraband marca a estreia do islandês Baltasar Kormákur como diretor em Hollywood. O primeiro filme dirigido por ele foi 101 Reykjavík, lançado no ano 2000, e que contou com recursos de cinco países europeus. Depois, ele dirigiu a outros cinco longas. O mais conhecido deles foi A Little Trip to Heaven, produção islandesa com co-produção dos Estados Unidos e estrelado por Forest Whitaker, Jeremy Renner, Julia Stiles e Peter Coyote.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para Contraband. Nota baixa, mas melhor que a dada pelos críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes. Eles dedicaram 77 críticas positivas e 73 negativas para o filme, o que lhe garantiu uma aprovação de 51% e uma nota média de 5,4.

Não assisti ainda a Reykjavík Rotterdam, mas fiquei com vontade de conferir o original por trás de Contraband. Especialmente pelo fato dele ter uma nota melhor no IMDb: 6,8. E também porque as produções originais tendem a ser melhores, não é mesmo?

CONCLUSÃO: Um filme de ação que fala sobre o inevitável caminho que a dívida no caminho do crime deve percorrer. Ainda que conheçamos a lógica deste caminho, sempre podem ocorrer imprevistos. Contraband segue o padrão de filmes do gênero até um ponto, mas também inova. A principal vantagem do filme, talvez, seja o trabalho do diretor, que não deixa fios soltos. Os diálogos convencem, não parecem ter saído de um manual de roteiristas. E o elenco masculino está muito bem, só Kate Beckinsale que tem muitos altos e baixos. Para quem gosta de filmes mais “realistas”, talvez a generosidade com o protagonista decepcione um pouco. Mas ele também sabe justificar o apelido de Houdini – famoso ilusionista capaz de escapar dos desafios mais complicados. Contraband pode não ser inesquecível, mas cumpre o seu papel de entretenimento. Para um filme do gênero, tão habituado a fórmulas, não é pouco.

The Rum Diary – Diário de Um Jornalista Bêbado

12 de abril de 2012 Deixe um comentário

Diz a lenda que todo jornalista que se preze tem que ser bom de copo. Em outras palavras, deve beber bem – ou fumar, pelo menos, porque algum vício básico o jornalista deve ter. The Rum Diary resgata esta lenda e se aprofunda nela através da história do jornalista Paul Kemp, interpretado por Johnny Depp. Quem acompanha a carreira do ator verá muitos pontos em comum entre The Rum Diary e o ótimo Fear and Loathing in Las Vegas, de 1998, dirigido por Terry Gilliam. Algo explica essa lembrança evidente: The Rum Diary é inspirado no livro de Hunter S. Thompson, o mesmo autor da obra que inspirou Gilliam. O problema deste novo filme de Depp é que ele não é melhor que o filme de Gilliam. Só mesmo os jornalistas para se identificarem com esta produção e achá-la (talvez) interessante acima da média.

A HISTÓRIA: Um avião de acrobacias vermelho percorre o céu de Porto Rico, em 1960. Ele carrega uma faixa que dá as boas vindas para a Union Carbide. O jornalista Paul Kemp (Johnny Depp) acorda com o barulho do avião no hotel em que está hospedado, recebe o café da manhã e sai para falar com o editor chefe do jornal San Juan Star, Edward J. Lotterman (Richard Jenkins). Mesmo não causando uma boa impressão, Kemp é contratado. Sua primeira missão é escrever o horóscopo diário do jornal. Pouco a pouco, ele vai adentrando na realidade de Porto Rico, mesmo sem falar espanhol, e é convocado pelo consultor de relações públicas Hal Sanderson (Aaron Eckhart), a emprestar o seu talento literário para um projeto de convencimento social de grupos imobiliários poderosos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Rum Diary): Não tenho dúvidas que este filme afetará os seus distintos públicos de maneiras muito diferentes. Terá um impacto para os jornalistas, especialmente os da “velha guarda”. E terá um efeito muito mais suave para os que não vivem os prazeres e agruras desta profissão.

The Rum Diary, como o nome sugere, mostra a rotina de pessoas habituadas a beber muito. De entornar copos e copos – de cerveja e, principalmente, de rum. Afinal, estamos falando de Porto Rico, um país que é considerado um “Estado livre associado”, ou seja, não é totalmente independente e nem mesmo uma parte integral dos Estados Unidos (em outras palavras, não é um dos estados dos EUA).

A história conta que Porto Rico foi conquistado pela Espanha em 1493. Em 1898, o país foi cedido para os Estados Unidos. Cem anos depois, um referendo decidiu que Porto Rico seguiria no meio do caminho entre ser independente e fazer parte integralmente dos Estados Unidos. Desde 1917, quem nasce no país é considerado cidadão estadunidense. Mas pelo fato de Porto Rico não fazer parte da União de estados do país, seus cidadãos não podem votar para presidente, mas podem ajudar a eleger os vencedores das eleições primárias. Confuso, não?

Pois The Rum Diary mostra esta confusão entre uma identidade própria de Porto Rico e sua forte dependencia dos Estados Unidos – ao ponto do país ser visto como um reduto de férias para os aposentados da classe média dos EUA.

Predomina no país, segundo este texto, uma forte presença bélica estadunidense – com sete bases militares, no total. E, desde os anos 1960, muitas empresas multinacionais começaram a investir no país estabelecendo indústrias farmacêuticas, de eletrônicos, têxteis, petroquímicas e, recentemente, de biotecnologia. Em paralelo a estes investimentos, intensificaram-se as apostas no mercado imobiliário.

Neste cenário que se desenvolve a história de The Rum Diary. Além de abordar a rotina de um grupo de jornalistas – mais precisamente, de um trio -, que adora beber e observar o cotidiano para contá-lo nas páginas de um jornal, o filme trata da dependência de Porto Rico em relação aos Estados Unidos, e de como os interesses financeiros ditam as regras de um ambiente em que predomina a desigualdade social, a falta de oportunidades e de recursos próprios de um país.

Os jornalistas vão gostar e aplaudir alguns diálogos, especialmente entre os personagens de Kemp e Lotterman. A ironia relacionada com a profissão começa com o editor chefe do jornal colocando a nova promessa da empresa para escrever o horóscopo diário. Depois, Lotterman diz que está procurando alguém com entusiasmo, com energia, “sangue novo” que aporte qualidade para o jornal.

O problema é que ele não está interessado em quem faça isso com faro jornalístico. Porque o que importa, de verdade, é que a pessoa escreva apenas o lado “agradável” de Porto Rico, ressaltando temas que sejam de interesse do estadunidense médio, que sonha em gastar o dinheiro que economizou a vida toda para desfrutar uma pequena parte da realidade vivenciada por pessoas que tiveram êxito e sucesso.

A parte irritante da produção, além dela lembrar demais a Fear and Loathing in Las Vegas, é a forma com que o protagonista é “fisgado” por Chenault (Amber Heard). Muito previsível e recorrente aquela forma de apresentação da personagem e de fascínio em relação a ela. Sabemos em que lugar aquilo vai dar, desde o princípio. E a falta de novidades neste filme é o seu principal problema.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Brigas de galo, bebida com altíssimo teor alcóolico, dinheiro comprando praias que deveriam ser públicas, ilhas que são de domínio militar sendo negociadas por baixo dos panos com grandes corporações imobiliárias. The Rum Diary toda em temas diversos, mas nada que torne a história realmente fascinante. Jornalistas bêbados e o carisma de Johnny Depp parecem ser o grande chamariz da produção. Nada inovador.

As paisagens, quando elas são exploradas, são lindas. E contrastam, propositalmente, com a sujeira e a decadência das casas, rinhas de galo, bairros e ruas da periferia da cidade enfocada.

A trilha sonora é uma das qualidades desta produção. Um trabalho excelente, diversificado e envolvente de Christopher Young.

O diretor e roteirista Bruce Robinson faz um bom trabalho, inspirado no livro de Hunter S. Thompson. O escritor e jornalista ficou conhecido pela obra Medo e Delírio em Las Vegas. Ele segue o estilo de jornalismo gonzo, no qual não existe separação entre autor e personagem, ficção e não-ficção. Uma prova disso é que Hunter mudou-se para Porto Rico em 1960, tal qual o personagem de The Rum Diary. A diferença é que ele foi para lá para trabalhar em uma revista esportiva. Mais informações sobre ele neste link.

Mas Robinson acerta mais na direção do que no texto, que acaba sendo bem previsível e que não ultrapassa o grau de “curioso”. Mantendo a câmera normalmente próxima do protagonista e dos demais personagens, ele produz um filme muito dependente do trabalho dos atores, que estão bem, mas não fazem nada excepcional, e desperdiça a oportunidade de focar mais o ambiente e suas distintas matizes.

Outros da equipe técnica que fazem um bom trabalho: o diretor de fotografia Dariusz Wolski, a editora Carol Littleton, o designer de produção Chris Seagers e a figurinista Colleen Atwood.

Do elenco, além de Johnny Depp, que aparece como um eco dele próprio do filme de Terry Gilliam, merecem destaque Aaron Eckhart, o sedutor e enigmático Sanderson; Michael Rispoli como o fotógrafo Bob Sala, que vira o melhor amigo do protagonista; Richard Jenkins, dando um show como Lotterman; Giovanni Ribisi como o sempre “over” Moberg e Bill Smitrovich como Art Zimburger, ex-fuzileiro naval e contato de Sanderson para fazer um grande empreendimento imobiliário.

The Rum Diary estrou em outubro de 2011 em uma premiere em Los Angeles. Uma semana depois, o filme entrou em cartaz na Rússia e nos festivais Gent, na Bélgica, e Austin, nos EUA.

Esta produção, rodada nas cidades de San Juan e Vega Baja, em Porto Rico, não custou barato: US$ 45 milhões. E arrecadou, até agora, muito pouco, cerca de US$ 13,1 milhões nos Estados Unidos.

Mesmo faltando originalidade para o filme, ele tem elementos para virar “cult” em algumas rodas – especialmente de jornalistas. Mesmo sem fazer muito sucesso entre a crítica, ele conseguiu um prêmio até o momento: o de trabalho excepcional de Amber Heard conferido pelo Hollywood Film Festival.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para o filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram ainda mais duros com a produção, dedicando exatas 77 críticas negativas e 77 positivas para The Rum Diary – o que lhe garante uma aprovação de 50% e uma nota média de 5,6.

CONCLUSÃO: Os jornalistas vão gostar. Especialmente os mais velhos, que tem as suas próprias histórias de bebedeiras para contar. Mas os jovens da profissão, que não fazem mais o perfil de jornalistas beberrões ou fumantes, vão dar menos importância para The Rum Diary, assim como a maioria do público. Esta é uma produção interessante, que mostra como os desejso de quem tem dinheiro predominam em diversas realidades – especialmente em países menos desenvolvidos. Também trata dos bastidores de um jornal, e de parte da realidade de Porto Rico nos anos 1960. Tem um bom resgate de época, e atuações condizentes, mas lembra demais ao filme de Terry Gilliam – e é mais fraco que o original também estrelado por Johnny Depp. Vale como passatempo, mas não é indispensável.

À Margem do Lixo

8 de abril de 2012 Deixe um comentário

Orgulhosos de seus trabalhos, organizados e militantes. À Margem do Lixo mostra uma ótica diferente dos catadores de materiais recicláveis de São Paulo. Sem narrador – o que reforça ainda mais a ótica dos realizadores – ou dados que revelem a importância daquele coletivo, o filme segue uma linha purista de documentário. Daquelas que conhecemos muito bem: o diretor e o roteirista assumem uma verdade e a perseguem até o final. Um filme interessante, que mostra parte da realidade. Como todo documentário, aliás.

A HISTÓRIA: Barracões. Um catador percorre o caminho entre eles, com o seu carrinho, enquanto um trem passa próximo. Depois, um catador corre e pasa por baixo de uma ponte, mas tem que parar para deixar o trem passar. Corta. A câmera agora mostra catadores com seus carrinhos cheios andando em meio ao trânsito de São Paulo. Eles se arriscam, mas seguem puxando quantidades incríveis de papelão e de outros produtos recicláveis. Faça chuva, faça sol. Para alguns motoristas, eles são apenas empecilhos, estorvos no trânsito já naturalmente complicado. Eles aparecem também caminhando por calçadas. Pouco a pouco, começando pelo catador conhecido como Bispo, o documentário vai contando a história destas pessoas, homens e mulheres, com um filme totalmente narrado por eles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu ao filme À Margem do Lixo): Uma realidade pode ser contada de muitas e muitas maneiras. Ainda que qualquer documentário registre o que acontece da forma mais verdadeira possível, sem artifícios, ele se torna apenas um documento de parte de uma realidade mais ampla.

À Margem do Lixo é um filme panfletário. E isso não é ruim. Claramente esta produção defende a categoria dos catadores de lixo, primeiro mostrando a dureza de seu trabalho. Depois, a dignidade daquelas pessoas e o orgulho que elas sentem pelo que fazem. Finalmente, enfoca a organização e as discussões deles como grupos em busca de condições mais dignas.

Entre um argumento e outro, a produção também descola o “trabalho humano” dos catadores daquele “trabalho de máquinas” do processamento daquele material recolhido pelos heróis desta história. De um lado, gente em busca de dignidade. De outro, indústrias sem trabalhadores. Fica evidente a defesa dos realizadores de que há algo errado nestes extremos. De que falta um pouco de equilíbro na equação, e de repartir mais aquelas “riquezas”. O dinheiro parece ser feito por máquinas, em um lirismo mecânico descolado do fim humanitário de todo aquele processo, que deveria ser o de dar oportunidades, comida e estudo para pessoas batalhadoras.

O diretor Evaldo Mocarzel, responsável pelo roteiro junto com Willem Dias, faz escolhas interessante. Constrói o seu discurso de forma programática, começando pelo sacrifício dos catadores de materiais recicláveis – e que eles mesmos reconhecem que a maioria das pessoas chama de lixo – e chegando até a mobilização deles com a lógica industrial. Um dos líderes de uma das cooperativas faz um discurso com alta carga política e ideológica, encerrando a produção com uma reflexão interessante.

Afinal, o único caminho possível, já que todos nós integramos um sistema baseado no capitalismo, na livre concorrência, na globalização e tudo o mais que vem na rasteira disso, é seguir a mesma lógica? Adequar-se para sobreviver? Certamente não dá para nadar sozinho contra a maré. Mas encontrar alternativas sem repetir as mesmas fórmulas de exploração e de desumanização parece ser mais legítimo, especialmente para coletivos muitas vezes marginalizados, do que seguir repetindo velhas fórmulas.

Mocarzel e os diretores de fotografia Gustavo Hadba e André Lavenère fazem um grande trabalho na captação do cotidiano daqueles trabalhadores. Eles focam a realidade de alguns deles, tentando aprofundar em suas visões de mundo. Pena que muito do documentário fique restrito apenas ao trabalho. Fora a história da mulher que leva e busca a filha da escola todos os dias, antes e depois do trabalho como catadora, os demais tem pouco da vida pessoal mostrada pela produção.

Claramente À Margem do Lixo não está preocupado em resgatar as histórias de vida e o cotidiano daquelas pessoas de uma maneira mais ampla. Claro que é um acerto da produção colocá-los para comentar as suas próprias cenas. Ao invés de termos um narrador “onipresente”, dos roteiristas chamarem alguém para falar sobre aquela realidade e aquelas cenas, assistimos aos “atores” que vivem na pele aquele cotidiano falando sobre ele. Bacana.

Só que senti falta de conhecer mais sobre eles. Além do momento da narração. De saber o que eles fazem antes de pegarem o carrinho ou o caminhão para catar os materiais por São Paulo. E o que eles fazem depois? Descontado o caso da mulher com a filha, que também tem a intimidade pouco mostrada, do restante sabemos quase nada. Desta forma, o documentário não se aprofunda naquelas pessoas que, muitas vezes, nem são identificadas. Essa é uma carência da produção.

Por outro lado, ela deixa evidente a vontade de mostrar como as cooperativas funcionam. Logo após a história do Bispo, que emociona por revelar em detalhes a força que ele tem que fazer, seus sacrifícios e o orgulho que ele sente do que faz, assistimos às primeiras cenas das reuniões de lideranças das cooperativas.

Essas discussões permeiam todo o filme, assim como cada etapa da produção é cortada por imagens de máquinas processando todo aquele material. Belo trabalho, nestas sequências, tanto do diretor quanto do editor, Willem Dias. Eles fazem a “trilha sonora” destas sequências com os barulhos das máquinas – sob a batuta dos músicos Thiago Cury e Marcus Siqueira.

No total, são sete personagens que vão nos contando essa história através de seus exemplos. Conscientes, eles sabem como ninguém por que dificuldades passaram e, mais que isso, o que falta ser feito para que o trabalho deles, importante para a sociedade, seja mais valorizado. Há frases e discursos muito sábios neste filme, assim como outros um pouco datados – como aqueles que tratam de problemas pontuais que os grupos estão vivendo na cidade de São Paulo, sem a possibilidade de se encontrarem com o prefeito, e com o risco de ver os seus trabalhos privatizados e executados por grandes empresas.

Mesmo com os problemas citados anteriormente, À Margem do Lixo é um documentário importante, que dá voz para pessoas que tem o que falar. Emociona, ao evidenciar a luta deles, e provoca reflexão em vários sentidos. Por exemplo, em uma crítica recorrente de alguns daqueles catadores de que eles não devem ser tratados como “coitadinhos” e serem conduzidos por entidades – ONGs ou grupos associados à igrejas. Mas que eles querem ter apenas a oportunidade de trabalhar dignamente, com respeito. Cada vez mais conscientes e mobilizados, aqueles grupos parecem preparados para brigarem por melhores condições.

Se este documentário ajudar para que estas pessoas deixem de ser “invisíveis” nas ruas, calçadas e demais espaços urbanos, ele já terá feito o seu papel. Começando pelos motoristas, que devem esquecer um pouco a pressa e entender que a rua é feita para todos. Especialmente para quem está trabalhando. Belo trabalho, com uma lógica bem definida e que constrói bem a sua narração a partir destas convicções. Para ficar melhor, faltou uma aprofundada maior na vida daquelas pessoas, dar nome para eles – não é porque a sociedade os ignora que os realizadores também precisam torná-los “sem identidade” – e mostrar alguns números que contextualizariam este tipo de trabalho.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme, propriamente, merecia uma nota menor que essa. Talvez um 8, ou 7,8. Mas por ser tão cheio de boas intenções, resolvi melhorar um pouco o conceito que eu daria para a produção. Evaldo Mocarzel merece ter o trabalho acompanhado. E as pessoas retratadas neste filme, ter suas vidas retratadas e difundidas.

Falando em divulgação, vale comentar como cheguei a este filme. Uma cópia dele foi enviada para a redação do Diário Catarinense, onde eu trabalho. E como estou contribuindo como crítica de cinema para o jornal, passaram ele para mim. À Margem do Lixo faz parte de um projeto muito bacana, chamado Cine Mais Cultura. Através dele, o filme será distribuído, a partir deste mês e até maio, a 1109 cineclubes de quase 700 cidades de todos os estados do país.

De acordo com o material que acompanha o filme, participarão desta distribuição os filiados ao Conselho Nacional de Cineclubes, entidade da sociedade civil que representa os cineclubes brasileiros, e contemplados do Programa Cine Mais Cultura, do Ministério da Cultura, uma ação que disponibiliza por meio de editais equipamentos de projeção digital, obras brasileiras do catálogo da Programadora Brasil e oficina de capacitação cineclubista, atendendo prioritariamente periferias de grandes centros urbanos e municípios em vulnerabilidade social. Muito bacana!

À Margem do Lixo integra uma tetralogia que foi iniciada pela produção À Margem da Imagem, de 2003, que “discute a estetização da miséria e o roubo da imagem de quem está na exclusão social mais absoluta”, seguida de À Margem do Concreto, de 2005, que trata dos sem-teto de São Paulo. Ainda falta a produção que irá fechar este ciclo.

No material de divulgação deste filme, o diretor Evaldo Mocarzel explicou desta forma esta produção: “O documentário tenta focalizar a indústria da reciclagem a partir do catador. O Brasil é líder mundial da reciclagem de alumínio. 87% do alumínio produzido é reciclado. A lucratividade desta indústria é sustentada de muitas maneiras pela economia informal e pela miséria destes catadores”.

Jornalista, Mocarzel enfatizou a diferença entre uma reportagem e um documentário: “No documentário, você pode fazer uma imersão em um tema e não tem que ouvir todos os lados. Se eu colocasse um dono de fábrica (de reciclagem de materiais), eu estaria criando uma armadilha ética condenável. Eu queria um filme que falasse sobre o trabalho. Eu queria um cinema de propaganda da luta e da militância”. Sem dúvida alguma ele conseguiu fazer isso. Gostar ou não é uma tarefa para o espectador.

Lançado em novembro de 2008 no Festival de Brasília, À Margem do Lixo estreou em poucos cinemas do país, em circuito comercial, três anos depois, em novembro do ano passado. Agora, chega até os cineclubes, como comentei antes.

Segundo o site IMDb, À Margem do Lixo teria custado cerca de R$ 500 mil para ser produzido. Praticamente desconhecido, ele não foi avaliado pelo site e nem por qualquer crítico linkado no Rotten Tomatoes.

Até o momento, À Margem do Lixo ganhou cinco prêmios. No 41º Festival de Brasília, entregue em 2008, recebeu o Prêmio Especial do Júri, o de Melhor Filme pelo Júri Popular, o Prêmio Aquisição TV Brasil e o de Melhor Fotografia. No 12º Festival Internacional de Cine de Derechos Humanos, promovido na Argentina, recebeu o prêmio de Melhor Documentário.

CONCLUSÃO: Um filme interessante, que evidencia os rostos e as vozes de gente importante e normalmente esquecida pelas câmeras. Ainda assim, À Margem do Lixo peca por não se aprofundar. Faltaram dados, ou um pouco mais de contexto sobre a importância daqueles homens e mulheres. Algo que fizesse este filme chegar ao nível de outras produções que ganham projeção mundial. Com isso não quero dizer que o diretor deveria abrir mão de sua argumentação – pelo contrário. Mas sair do simples registro da realidade – ainda que feito de uma forma maravilhosa e bela – para dimensionar com informações o que aquelas pessoas estavam dizendo, tornaria o filme mais interessante. Da forma com que ficou, é apenas mais um documentário sem grande projeção. Um documento histórico, mas que não transcende o nosso tempo.

The Grey – A Perseguição

4 de abril de 2012 3 comentários

O que pode ser pior do que trabalhar em um local inóspito, gelado, cheio de neve por todos os lados e cercado por sujeitos durões, que curtem um bar e uma briga? E se na saída deste local, o avião em que você está cair, em local ainda mais inóspito? The Grey mostra que realidades complicadas podem sempre ficar ainda mais complicadas. No melhor estilo de “nada que está ruim não pode piorar”. Um filme angustiante, com um grande ator à frente do elenco, e que segura a tensão até o final. Belo trabalho do diretor Joe Carnahan, que tem um estilo seco e direto. Como uma história assim exige.

A HISTÓRIA: Cenário com montanhas geladas e trilha sonora composta de uivos. Instalações fumegantes, e a voz grave de Ottway (Liam Neeson) fala sobre um trabalho no fim do mundo. Ele se define como “um matador assalariado de uma grande companhia petrolífera”. No início, você pensa que ele está fazendo uma fina ironia mas, de fato, ele é um matador. De lobos. Ottway cuida da segurança dos funcionários da companhia, eliminando os animais ferozes quando eles se aproximam demais. Sujeito cheio de arrependimentos, Ottway segue o seu caminho meio que por inércia, até o dia em que eles tem que sair às pressas do local antes da chegada de uma tempestade de gelo. Eles embarcam em um avião, que sofre um acidente. A partir daí, Ottway e os sobreviventes terão que enfrentar as piores condições e perigos na busca pela sobrevivência.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Grey): Poucos tem a coragem do diretor e roteirista Joe Carnahan para fazer um filme como este. Porque, pela densidade e desesperança convicta desta produção, ela pode ser tudo, menos um projeto que renderá uma grande bilheteria. As pessoas não querem saber de filmes como este. Querem assistir a fantasias, ou comédias escrachadas e repetitivas. Tudo que lhes faça esquecer um pouco da dureza de suas próprias realidades. Prova disso são as últimas grandes bilheterias de Hollywood.

Então é preciso ter coragem para fazer um filme como The Grey. Porque ele não alivia. Pelo contrário. Vai ficando cada vez mais tenso e forte conforme a história se desenvolve. E a beleza desta produção é que ela não é apenas isso. Um filme sobre situações extremas e o choque entre o homem racional e a sua parte irracional e/ou primitiva.

O protagonista, por exemplo, não é apenas uma figura dura, mas também um homem adulto que é capaz de olhar para o passado e citar a poesia do pai, ter foco em saídas corajosas no presente enquanto ele lembra da voz doce da amada perdida. E não é apenas ele que tem a história destrinchada. Outros personagens que o acompanham também tem suas memórias, temores e momentos de valentia. Esses elementos fazem toda a diferença em The Grey.

O cenário do filme parece impossível para qualquer ser humano. E, ainda assim, aquelas pessoas insistem em buscar a vida por lá. Contra todas as adversidades. Essa teimosia mostra a valentia do espírito daquelas pessoas, ou apenas uma falta extrema de alternativas? As duas respostas são válidas.

Porque os personagens de The Grey mostram valentia e ao mesmo tempo desespero. Eles estão naquela parte do mundo porque o homem é ambicioso. Porque aqueles sujeitos “desprezados” em qualquer socidade “desenvolvida” acabam sendo convocados por uma companhia que quer faturar alto explorando o petróleo, esse líquido negro tão valioso. Claro que eles não são, apenas, vítimas. Muitos deles tem um passado de delitos, ou de equívocos. Ninguém para em um lugar como aquele se não tem algumas cicatrizes espalhadas pelo corpo e pela alma.

Até o nome do filme parece nos dar uma dica sobre a essência da história. Certo que, em certo momento, o “assado” de um lobo explica um pouco do “cinza” do título. Mas não acredito que seja apenas isto. The Grey revela que a vida não é preto no branco, ou simples de elucidar. Homens “brutos” também amam, já revelaria um clássico do cinema. Não apenas Ottway tem memórias calorosas e apaixonadas para revisitar. Cada um daqueles homens teve uma namorada, uma mulher ou filhos que lhes fazem resgatar forças para seguir, ainda que o caminho adiante pareça cada vez pior.

Os personagens desta história podem parecer renegados, brutos, sempre próximos de algum gesto descontrolado – especialmente após alguns tragos. Mas eles também são capazes dos melhores gestos de irmandade, de bravura – além daquele estágio de pura luta pela sobrevivência. Nem sempre, mais uma vez, é possível resumir as situações em preto ou branco. A vida, talvez em grande parte do tempo, esteja mais para tons de cinza.

Além destas questões filosóficas e de “fundo”, The Grey se revela um ótimo filme de ação. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Há cenas impressionantes, como aquela do acidente de avião, e outras de perseguição e ataque dos lobos. Claro que algumas sequências deixaram a desejar – especialmente algumas envolvendo efeitos especiais relacionados com as feras. Mas, na maior parte do tempo, Carnahan soube equilibar, junto com o roteirista Ian Mackenzie Jeffers, autor do conto Ghost Walker, no qual o filme é inspirado, os momentos de tensão, suspense, ação e de aprofundamento/proximidade em relação aos personagens.

Como argumentei lá no início, incrível como o pior dos cenários pode ficar ainda mais complicado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Trabalhar e viver no ambiente mostrado no início de The Grey já é algo difícil. Para piorar, aqueles homens sofrem um acidente de avião. Estão perdidos no gelo, suscetíveis à tempestades, sem comida, sem perspectiva de serem resgatados. E ainda há a ameaça, não apenas pela noite, mas também durante o dia, de uma matilha de lobos furiosos. Caramba! Este aumento da tensão e as perdas que vão se acumulando, elevam a tensão. O filme acerta ao não aliviar.

Liam Neeson está matador. A voz dele, densa, encorpada, não poderia ser substituída por nenhuma outra. Seu olhar e atitude, que lembram a dos lobos que ele combate desde o início, dão o tom exato para o personagem – criando legitimidade e, ao mesmo tempo, ainda mais tensão para esta história. Brilhante. Os demais atores estão bem, ainda que nenhum tenha o mesmo destaque que Neeson.

O roteiro está muito bem escrito, mas para não dizer que ele é perfeito, ele demora um pouco para engrenar e tem algumas participações um tanto mal construídas. Por exemplo, o personagem de Flannery (Joe Anderson), que morre logo no início. Todos sentem muito a perda dele, mas isso não afeta aos espectadores, porque não sabemos nada a seu respeito. Faltaram umas linhas e/ou um pouco mais de tempo para mostrar a importância dele para aquele grupo. Algo similar acontece com Burke (Nonso Anozie). Um pouco mais de elementos sobre os personagens não faria mal para o filme.

Outros elementos importantes para o filme funcionar bem são a direção de fotografia de Masanobu Takayanagi, a trilha sonora marcante de Marc Streitenfeld e a edição da dupla Roger Barton e Jason Hellmann.

E algo que o filme faz pensar e que vale o ingresso: o que as pessoas normalmente pensariam após sobreviver a uma queda de avião como aquela? Que Deus tem um plano maior para elas, certo? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E eis uma das sacadas do roteiro. Lá pelas tantas, em desespero – e com razões para isso -, Ottway chega a pedir uma explicação sobre o que está acontecendo para Deus. Mas eis a questão, não existe nenhum plano superior. Aqueles homens não foram “poupados” porque vão ajudar a mudar o mundo. Mas no tempo que eles ganharam, eles tem a oportunidade de aprender algumas coisas.

De aprender com o sofrimento e com o medo. Com a dor e a proximidade de pessoas que eles não imaginariam conhecer mais de perto. Assim como com uma rápida olhada para o passado e para o amor que os une a pessoas que não estão ali. Mas Deus não fará um milagre e soltará raios para exterminar as ameaças. Os homens devem lutar por suas vidas, fazer a parte que lhes deve. Talvez essa seja uma das grandes reflexões da história. Viva ou morra hoje. Isto pode acontecer em um dia, para qualquer um de nós. Mas lutar até o fim é que nos faz maiores. The Grey mostra isso.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: The Grey foi totalmente rodado no Canadá. Mais precisamente nas cidades de Edmonton, Smithers, Vancouver e Whistler. Em outras palavras, sim, na neve. Essa era uma dúvida que eu tinha. Se aquela equipe e atores tinha realmente penado no gelo ou a maioria das cenas tinham sido apenas simuladas em estúdio – o que parecia ser difícil de fazer, pela maioria dos cenários serem abertos. Mas nunca se sabe, com a alta tecnologia de efeitos especiais…

De fato, lendo sobre as notas da produção, vi que o ator Liam Neeson comentou que, na maioria das cenas, rodadas em Smithers, a sensação térmica era de – 40ºC. Sim, 40 graus NEGATIVOS. Honestamente, eu nem consigo imaginar como é caminhar, quanto mais trabalhar – leia-se atuar – nesta temperatura. Impressionante.

As cenas de tempestade de neve foram reais – nada forjado com equipamentos do cinema. Incrível. Mais alguns argumentos para que Neeson seja, finalmente, indicado e/ou vencedor de algum prêmio importante, como o Oscar. Interpretar com tanta convicção o personagem dele sob condições reais como aquelas não é para qualquer um. Eu diria que nem 10% dos astros de Hollywood encarariam algo assim.

Para se preparar para este papel, Neeson também consumiu carne de lobo – isso que eu chamo de “entrar” no personagem. :)

Há uma cena rápida, após os créditos finais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas ela não ajuda muito a “matar a charada”. Nesta imagem final, o lobo alfa aparece ofegante, e a cabeça de Ottway está repousada sobre o estômago do lobo. Não fica claro quem venceu a disputa. Ou se houve vencedor. Claro que a imagem remete a uma cena mais no início do filme, em que Ottway repousa a mão sobre o estômago do lobo que ele abateu. Mas no final, não se sabe se, novamente, ele espera o último suspiro do lobo ou se ele também está dando o último suspiro. Nunca saberemos. E é bom assim. Cada um faz a sua aposta e tem a sua resposta – e todas são válidas.

The Grey teria custado US$ 25 milhões. Não é uma cifra desprezível, mas podemos dizer que os recursos foram bem gastos – levando em conta as condições e locais em que o filme foi rodado. Para a minha satisfação, esta produção não apenas se pagou, mas está dando lucro. Até o dia 25 de março, o filme tinha faturado pouco mais de US$ 51,3 milhões apenas nos Estados Unidos. Vida longa para ele, pois.

Os usuários do site IMDb gostaram do filme. Eles garantiram a nota 7,1 para The Grey – bela avaliação, para os padrões do site, e especialmente porque este não é um filme para “grandes públicos”. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes também aprovaram a produção, dedicando a ela 135 textos positivos e 37 negativos – o que lhe garante uma aprovação de 78% e uma nota média 6,8. Achei a nota dos críticos um pouco baixa, mas paciência.

The Grey estreou nos Estados Unidos em um circuito fechado no dia 11 de dezembro, mas entrou em cartaz pra valer em seis países no final de janeiro. Até o momento, o filme foi indicado apenas a um prêmio, o de melhor filme de terror/thriller na premiação da Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films dos Estados Unidos.

Este é o sétimo trabalho do diretor Joe Carnahan. Antes ele dirigiu a Narc, Smokin’ Aces e The A-Team.

CONCLUSÃO: Você tem as piores condições possíveis e imagináveis para seguir vivo e, ainda assim, você continua seguindo. Isso porque, não muito tempo antes, você tinha pensado em desistir de tudo. The Grey fala da força da natureza, e do esforço do homem em tentar controlá-la, superar os seus próprios limites e tudo o mais que vem ao seu encontro. O homem também é feito de instinto, e desta vontade incontrolável para seguir vivo. The Grey trata destas forças e desejos, assim como faz um resgate interessante de um grupo de homens que, normalmente, não aparece no centro de uma história de Hollywood. Mais um grande trabalho de Liam Neeson, e de um diretor que não pensa duas vezes em se arriscar em uma história selvagem e dura. Bela surpresa – especialmente se você gosta de filmes diretos e que não buscam uma solução simples para realidades complicadas.

Haywire – À Toda Prova

31 de março de 2012 Deixe um comentário

Alguns diretores são interessantes. Eles se esforçam para desenvolver uma linguagem própria, um estilo diferenciado, apresentar uma cereja em cada bolo (leia-se filme) que entregam. Steven Soderbergh é um destes nomes. Em seu novo filme, Haywire, o diretor volta a apostar em uma forma diferenciada de fazer cinema. A proposta é boa, até um determinado momento do filme. Mas joga contra o diretor um roteiro fraco e uma atriz sem expressividade alguma. Mais uma vez, Soderbergh aposta em uma garota desconhecida para estrelar um filme seu. Desta vez, ele errou na escolha, ainda que Gina Carano seja ótima nas cenas de ação, na interpretação ela é péssima.

A HISTÓRIA: Uma garota olha com capuz olha fixo para um café de estrada. Ela entra, tira a mochila e senta em uma mesa. Tira o casaco, toma um chá e olha um grupo de amigos em uma mesa próxima. Vê a chegada de um carro, e não fica satisfeita ao ver quem saiu dele. Ela se prepara, e começa uma conversa truncada com Aaron (Channing Tatum). Ele pede para Mallory Kane (Gina Carano) facilitar e acompanhá-lo até o carro, mas ela se nega. Depois de brigarem, Mallory foge no carro de um dos rapazes que estava no café, Scott (Michael Angarano). Enquanto dirige e pede para ele fazer um curativo em seu braço, Mallory explica porque está sendo perseguida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Haywire): A primeira parte deste filme é muito, muito interessante. O estilo de Haywire lembra demais os grandes filmes de ação dos anos 1960. Não apenas o estilo de direção, que foca os atores em um estilo que lembra algumas vezes o documentário, algo mais cru e naturalista, mas também pela presença marcante da trilha sonora. Ela parece onipresente, e um elemento fundamental para marcar o ritmo do filme.

O elemento novo, conquistado principalmente a partir dos anos 1980, são as lutas perfeitamente coreografadas. A violência come solta, nestes momentos – e há um bocado de pancadaria em Haywire. E se o início do filme já mostra algo fundamental para a produção, que é a beleza e a alta limitação interpretativa da atriz Gina Carano, logo de cara, ele também deixa claro, nos primeiros minutos, a escolha por ter filmes antigos como referencial principal do diretor.

Steven Soderbergh é um sujeito que conhece bem o seu ofício. Um diretor que procura fazer um trabalho diferenciado do “balaio” dos cineastas que fazem filmes de ação. Muitas vezes ele acerta, mas em outras ele erra. Depois de “descobrir” Sasha Grey, uma atriz de pornô, e decidir que ela seria a estrela de The Girlfriend Experience, Soderbergh resolveu destacar a novata Gina Carano em Haywire.

Nos dois casos, o principal predicado de escolha foi a beleza, não há dúvidas. As duas são garotas lindas. Como eu escrevi nesta crítica, acho que Grey se saiu bem no filme mais sério que ela já estrelou na vida por uma simples razão: ela conhece bem aquele tipo de papel, de mulher-objeto. Mas Carano não se sai tão bem. Ela é linda, é verdade, correu e bateu muito bem. Mas Haywire exigia para o papel principal uma atriz que conseguisse expressar alguma emoção mínima em determinados momentos. E ela não consegue isso.

Neste ponto, é possível ver um paralelo entre Carano e Arnold Schwarzenegger. Digamos que ela é um Schwarzenegger de saias. :) Ambos se dão (no caso dele, se dava) muito bem em filmes de ação, batendo, assustando, fazendo caras de gente malvada. Mas isso é tudo. Há um momento em que Carano deve parecer muito sensual e provocante em Haywire. Não acho que ela convenceu neste papel. Não achei ela provocante, apenas bonita. Faltou encontrar uma atriz que pudesse servir de alvo para outro herói dos filmes do gênero, o personagem James Bond. Qualquer “bondgirl” convenceria masi que Carano.

Falei tanto da atriz porque ela é fundamental para Haywire. A história gira em torno dela. Mas algo que não funciona muito bem neste filme é, também, o roteiro de Lem Dobbs. Ele escolheu um dos caminhos clássicos do gênero: entrega uma pílula da história quando ela já está avançada, em um momento fundamental da “fuga”, e depois, a partir de um conflito, investe no recurso do flashback – pontuado, como manda a regra, volta e meia por alguma cena do momento presente.

Certo, recurso batido. Mas ele existe por uma razão simples: que o momento presente seja explicado e “complicado”, pouco a pouco, pela explicação do que levou os personagens até aquele ponto. O problema é que o flashback não dialoga bem com o presente. E quando digo isso, não quero dizer que existam falhas na condição da história, mas que simplesmente o presente não torna o flashback mais tenso ou vice-versa. E sem essa tensão, o recurso se esvazia.

Lá pelas tantas, a história segue a rota linear. Ou seja, sae de cena o flashback e tudo o que acontece é no momento presente. Aí sim o roteiro mostra o quanto ele é batido, fraco, e como o final será previsível. Evidente que a direção de Soderbergh é a melhor parte do filme.

O diretor acerta no resgate do estilo cru de filmes como o clássico Bullitt, e de filmes do James Bond estrelados por Sean Connery, para citar dois exemplos. As cenas de pancadaria muito bem encenadas e filmadas, é o que o filme tem de melhor. Assim como as outras de perseguições – pelas ruas, correndo, ou em prédios, como se fazia antigamente, antes da ação se resumir a carros e tiroteios – são bem feitas. Mas isso é tudo. E é muito pouco.

O final é decepcionante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, toda aquela simulação para culpar a protagonista foi feita tendo como motivação dinheiro e uma certa “dor de cotovelo” do ex-chefe e amante, Kenneth (Ewan McGregor). E mais uma neurose de Rodrigo (Antonio Banderas), que se sentiu exposto por ela em uma negociação. Argumentação bem fraquinha, convenhamos. Haywire não vale o ingresso, apesar de sempre ser interessante ver um diretor como Soderbergh tentando acertar.

NOTA: 5,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Steven Soderbergh é, provavelmente, junto com Quentin Tarantino, o sujeito que melhor sabe aproveitar as referências dos filmes do passado, especialmente os de ação, e escancará-las em uma releitura mais modernete. A linguagem de Haywire lembra totalmente a de filmes históricos do gênero. Além dos filmes já citados, me lembrei de The French Connection, Shaft (o original, de 1971), Mean Streets, e de um clássico que ainda estou para ver: Faster, Pussycat! Kill! Kill!, dirigido por Russ Meyer e considerado, por nomes como John Waters, com o melhor filme de todos os tempos.

Nada em Haywire supera espécimes do gênero feitas anteriormente. E daí vem aquela pergunta básica: então para que gastar US$ 23 milhões em uma produção que não agrega nada? Pois é, eis uma boa pergunta. Acho que um filme como este só se justifica pela preguiça das pessoas em buscarem filmes melhores no passado. Porque há pessoas – e conhece algumas – que acham que não há nada de bom no cinema mudo ou naquele anterior aos anos 1980 ou 1990.

Que pena que muitos pensem assim. Alguns dos melhores filmes de ação de todos os tempos são, justamente, dos anos 1960 e 1970. Por isso acho que diretores como Soderbergh e Tarantino se dão tão bem. Eles fazem filmes para quem não conhece os originais e, consequentemente, vê muitas novidades nestas versões “cheias de homenagens” – para não dizer cópias.

Se o roteiro de Haywire é fraco e a direção de Soderbergh tem seus momentos interessantes, e se a atriz principal é só bonita, mas o elenco de “apoio” é formado por nomes de respeito, temos que admitir que algumas figuras da equipe técnica merecem alguns aplausos.

Para começar e, principalmente, a trilha sonora de David Holmes. Grande trabalho – e principal trunfo do filme. Outro que faz a sua parte com excelência é Soderbergh na direção de fotografia. Acertadas as escolhas de cores, tons e os momentos em que o filme fica em preto e branco. Ele sabe trabalhar bem com o visual.

O filme está centrado em Gina Carano. Mas há um elenco de “apoio” importante, e com nomes que já mostraram um excelente trabalho em outros filmes – mas que aqui, como Carano, parecem muito anestesiados. São eles: Channing Tatum como Aaron, parceiro de Mallory em missões encomendadas e bem pagas; Ewan McGregor como Kenneth, o chefe da agência de espiões; Antonio Banderas como Rodrigo, o homem por trás da “genial” ideia que irá resolver os problemas de alguns poderosos – ele incluído; Michael Douglas como Coblenz, um cara do governo dos Estados Unidos que gosta de Mallory; Michael Fassbender como Paul, um agente secreto inglês; Mathieu Kassovitz como Studer, o sujeito rico que está por trás de toda essa história; Bill Paxton como John Kane, pai de Mallory; e Anthony Brandon Wong como Jiang, o “sequestrado” que é resgatado por Mallory e equipe e que não tem uma fala no filme, mas que é importante para a história. Um baita elenco, mas que não tem espaço para aprofundar a história de nenhum de seus personagens. Todos muito rasos e superficiais.

Francamente? A minha vontade era dar uma nota ainda menor para este filme. Mas em respeito ao “virtuosismo” da direção de Soderbergh, resolvi elevar um pouco o conceito. Não porque o filme seja bom, mas porque ele se esforçou para fazer algo diferente.

Haywire estreou no Festival AFI em novembro de 2011, mas entrou em cartaz, comercialmente, apenas em janeiro deste ano nos Estados Unidos e em outros 16 países. Até o dia 18 de março, o filme havia acumulado pouco mais de US$ 18,9 milhões nos Estados Unidos. Como ele custou, pelo menos, US$ 23 milhões, pode-se dizer que ele não está no caminho do sucesso.

Antes de estrelar este filme, a texana Gina Carano havia participado da série de TV Fight Girls, em 2006, feito um papel no game Command & Conquer: Red Alert 3 e um papel em Blood and Bone. E só. Agora, pós Haywire, ela vai estrelar o thriller In the Blood, atualmente em pré-produção e que será dirigido por John Stockwell.

Algumas outras pessoas que merecem palmas por este filme são Jonathan Eusebio, J.J. Perry, Don Tai e Jon Valera. Eles atuaram como coreógrafos das lutas. Sem dúvida, a melhor parte de Haywire são aquelas cenas de pancadaria muito bem planejadas. Além de criativas, elas vendem bem a ideia de serem plausíveis – ainda que a protagonista pareça demais uma Mulher Maravilha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para o filme. Achei uma boa nota. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram bem mais generosos, dedicando 129 críticas positivas e 32 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 80% e uma nota média de 6,8.

Haywire foi filmado em Dublin, na Irlanda, e em Los Alamos, nso Estados Unidos – com algumas cenas simulando locais de Nova York. Esta é uma co-produção Estados Unidos e Irlanda.

CONCLUSÃO: Uma pena quando um filme tem uma proposta bacana, mas não consegue sustentá-la até o final. Gina Carano é muito fraca. Ótima na corrida e na pancadaria, mas péssima em qualquer momento em que ela precisa repassar o mínimo de emoção que deveria estar sendo vivida por sua personagem. E quando um filme tem uma atriz no foco o tempo todo, como é o caso de Haywire, ele acaba sendo muito prejudicado com uma intérprete fraquinha. Este é um dos problemas fundamentais deste filme. Mas não é o único. O estilo do filme, que relembra a alguns clássicos antigos de ação, acaba cansando lá pelas tantas. Especialmente da metade para a frente, quando o filme da uma certa “reviravolta”. A “surpresa” não cria realmente tensão – a trilha sonora é mais eficaz que o roteiro neste ponto. E todos sabemos o que vai acontecer até o final, o que mata o filme antes dele terminar – afinal, o elemento surpresa já era. Fora isso, esta é mais uma produção cheia de estilo e experimental de Soderbergh. Mas ele já fez melhores. Quem sabe no próximo ele acerte a mão? Ou segue apresentando trabalhos que, ao apostar tanto em uma linguagem mais dinâmica e diferenciada, se esquecem de elementos básicos, como um roteiro melhor acabado e uma atriz principal decente. Não foi desta vez, com Haywire, que ele conseguiu o equilíbrio.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 548 other followers