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Frygtelig Lykkelig – Terribly Happy Novembro 19, 2009

Posted by Alessandra in Cinema, Cinema europeu, Crítica de filme, Filme premiado, Movie, Oscar 2010.
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Os policiais, ultimamente, não estão passando por seus melhores momentos no cinema. Depois dos filmes coreanos Chugyeogja e Madeo, recentemente comentados por aqui no blog, o dinamarquês Frygtelig Lykkelig conta uma história em que as autoridades responsáveis pela segurança dos cidadãos derrapam em suas funções. Mas desta vez, em lugar da incompetência vista nas outras produções, nos deparamos com o descontrole e com uma rede de situações que vão piorando os primeiros erros do protagonista. Indicado pela Dinamarca para representar o país na próxima disputa por um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Frygtelig Lykkelig é um policial cheio de sarcasmo ambientado em uma comunidade do interior, onde predomina a “lei” alternativa de seus habitantes.

A HISTÓRIA: A lenda sobre uma vaca que afundou na lama e desapareceu ilustra as características do vilarejo de Skarrild, situado no interior da Dinamarca, local onde o policial Robert Hansen (Jakob Cedergren) vai parar. Levado pelo chefe de polícia de Tonder (Jens Jorn Spottag), Robert é logo recepcionado pelo Dr. Zerleng (Lars Brygmann), médico forasteiro que se adaptou ao sistema dos habitantes do pequeno vilarejo e que tenta dar alguns “conselhos” para o seu novo morador. Pouco depois, Robert conhece a Ingerlise (Lene Maria Christensen), uma mulher casada que tenta se divorciar do marido, o violento e briguento Jorgen Buhl (Kim Bodnia). Sem perceber, Robert é envolvido em um triângulo amoroso e em uma situação de prestação de contas do vilarejo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Frygtelig Lykkelig): O conto ilustrativo que abre o filme do diretor Henrik Ruben Genz revela uma pequena parte de toda a ironia do texto original, a obra homônima de Erling Jepsen. Seu livro, Frygtelig Lykkelig, aparentemente teve menos êxito que o filme. Genz, ao lado de Dunja Gry Jensen, adaptou o livro para o cinema e conseguiram, com seu trabalho, um resultado irregular.

Na maior parte do tempo, Frygtelig Lykkelig é um filme intricado para o seu protagonista, com um texto que flutua sempre entre o terrível e o engraçado mas que, ainda assim, se revela bastante morno. Contada de forma linear, esta história explora as peculariedades de uma comunidade interiorana da mesma forma com que revela um conto moral. Nele, é defendida a idéia de que a prática de um erro e o encobrimento deste podem tornar a vida de uma pessoa cada vez mais complicada, de uma forma crescente como a de uma bola de neve que desliza por uma encosta.

O melhor da produção, sem dúvida, é a forma com que o roteiro explora as “manias” do vilarejo para onde Robert é transferido. Todas as pessoas que moram naquele local sabem de cor os códigos de conduta e jogam seus papéis com perfeição. A pessoa que passasse um dia em Skarrild já saberia que tipo de ocorrências ocorriam ali, quem poderia ser achado em que local e as razões que faziam a filha do casal Buhl, Dorthe (Mathilde Maack) levar um carrinho de bebê para passear em muitas noites. Mais do que em outras partes, em cidades pequenas como a explorada por esta história os hábitos repetidos cotidianamente são a regra local.

Depois do conto sobre a vaca e seu bezerro demoníaco, o espectador percebe que o policial esconde algum segredo importante em seu passado. Ele participou de algum evento trágico em Copenhagem, onde morava e trabalhava anteriormente. Esse segredo será usado contra ele no ambiente cercados de regras invisíveis do vilarejo. Bonito, jovem e “urbano”, Robert não se adapta ao local e, ao mesmo tempo em que tenta conviver com seu passado, ele deve entender como funciona a pequena cidade para a qual ele foi designado. Mas, pobre Robert, ele não tem muito tempo para pensar e agir racionalmente.

Não sei vocês, mas me irritou um pouco a “inocência” do protagonista. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Afinal, ele cai como um patinho nos jogos de Ingerlise e de outros moradores locais. Claro que o filme não tem espaço para nos contar como era Robert antes de sua aparição em cena. Não sabemos se ele era um bom policial ou um desastre em sua profissão. Segundo este texto (em dinamarquês, o qual eu traduzi no Google Tradutor para entender algo) sobre a obra original, escrita por Erling Jepsen, Robert era sim um desastre. Destes homens que não conseguem viver muito longe da barra da saia da mãe e que, ao ser exposto a situações de estresse em sua profissão, chegam a vomitar pelo nervosismo. Sendo assim, se justifica a falta de preparo para o que irá acontecer no vilarejo.

Como tantas outras histórias do gênero, a situação de Robert vai piorando continuamente, pouco a pouco. Os habitantes de Skarrild, aparentemente “liderados” pelo médico, pelo padre e pelo comerciante local, tentam ensinar-lhe seus métodos. Robert faz alguns esboços para resistir, para atuar dentro da lei, mas quando ele percebe, está totalmente envolvido na história de Ingerlise. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para se proteger, lentamente Robert vai se adequando ao sistema de vida local e, como sugere a melhor sequência do filme, a que envolve uma partida de cartas no final, o policial acaba vendendo sua alma ao “diabo” (representado pelo trio de jogadores). A cena em que Robert percebe que ele não passou de uma engrenagem no jogo dos outros, que ele caiu como um patinho em seus planos, é o melhor de Frygtelig Lykkelig. Até chegarmos a este ponto, o espectador deve aceitar algumas sequências pouco críveis (como a da morte de Ingerlise) e a uma produção correta, mas nada excepcional.

A lição moral de Frygtelig Lykkelig também poderia ser menos evidente. Afinal, fica escancarada a idéia do filme de que uma pessoa, para não “vender sua alma ao diabo”, não deve nunca sucumbir ao primeiro ato de maldade. Quando Robert se deixa levar por seu primeiro erro e, sem conseguir encontrar uma saída “adequada” para ele, assume uma mentira após a outra, fica impossível encontrar alguma saída para o personagem. Pouco a pouco, revela esta história, uma pessoa que sucumbe ao mal vai aceitando os atos mais absurdos (e, muitas vezes, participa deles). A reflexão sobre este tema não deixa de ser interessante, mas no roteiro de Frygtelig Lykkelig ela se apresenta de forma maniqueísta. Na vida real, normalmente, as escolhas não levam a resultados tão matemáticos.

Ainda sobre a parte interessante do filme, não deixa de ter uma grande dose de verdade toda aquela ironia com o “modo de ser” do povo do lugarejo. Em cidades pequenas, nas quais “todos se conhecem”, a vida geralmente se restringe a alguma regras bem estabelecidas e seguidas por moradores que desempenham com perfeição os seus papéis no grupo. Sempre haverá espaço para o “encrenqueiro”, para o “louco”, para o “líder”, e assim por diante. Nestas relações, claro, haverá espaço para gestos de bondade, de auxílio aos demais, mas também para bizarrices e para resoluções “coletivas” dos problemas locais. O retrato de uma comunidade assim do interior da Dinamarca é o que Frygtelig Lykkelig tem de melhor para oferecer.

NOTA: 8,1.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Logo no início, percebemos duas grandes qualidades deste filme: a sua direção de fotografia e trilha sonora. Elas funcionam em duo com perfeição durante toda a produção. Ajuda muito também, para o caso da primeira, a “beleza rural” das paisagens dinarmarquesas. O diretor de fotografia Jorgen Johansson imprime um tom azulado/acizentado durante toda a produção, o que ressalta o tom “obscuro” da história. A trilha sonora de Kaare Bjerko, presente em momentos muito pontuais, aposta em guitarras e em uma levada moderna.

O elenco de Frygtelig Lykkelig funciona bem. Além dos atores principais já citados, vale comentar o trabalho de Anders Hove como Kobmand Moos, o comerciante local que se diverte prendendo garotos que tentam furtar algo de seu estabelecimento; Henrik Lykkegaard como o padre que aparece pouco, mas que visivelmente contribui com o tom moralista do vilarejo; Bodil Jorgensen como a mulher do bar, onde as pessoas se encontram para “confabular” sobre a vida pública local (e onde ocorre o duelo etílico entre Robert e Jorgen); e Peter Hesse Overgaard como Helmuth, um dos líderes do grupo que sempre está no bar e que “suja as mãos” para resolver os conflitos do vilarejo.

Frygtelig Lykkelig estreou em julho de 2008 no Festival de Karlovy Vary. Daquele dia para cá, o filme participou ainda de pelo menos outros seis festivais. Nesta sua trajetória, ele acumulou 19 prêmios e outras 10 indicações. Entre os prêmios que levou para casa estão o de melhor filme, melhor ator para Jakob Cedergren, melhor atriz para Lene Maria Christensen, melhor ator coadjuvante para Kim Bodnia, melhor direção de fotografia e um prêmio especial para Kaare Bjerko no Prêmio Bodil, entregue em Copenhagem, na Dinamarca; melhor roteiro nos festivais internacionais de cinema de Tróia e de Valladolid; e os prêmios de melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor atriz, melhor direção de fotografia, melhor roteiro e melhor música (para Riders of the Freeway, de Kira Skov) no Robert Festival, o “Oscar do cinema dinamarquês”.

Praticamente nada comentado pela crítica internacional – o site Rotten Tomatoes, por exemplo, não abriga nenhuma crítica para o filme – Frygtelig Lykkelig registra a nota 7 pela votação dos usuários do site IMDb.

Li em algum lugar na internet – infelizmente não lembro em que site – uma comparação entre este filme e Fargo, dos irmãos Coen. A comparação tem sentido. Frygtelig Lykkelig lembra um pouco ao excelente Fargo, especialmente pelo humor “macabro” (e/ou trágico) de sua história. Mas, para o meu gosto, ele fica muito abaixo da premiada produção dos Coen.

O cartaz de Frygtelig Lykkelig sugere que o filme caminha pelo terreno das produções de suspense e/ou terror. Ainda que tenha algum crime e um clima um pouco macabro, esta produção dinamarquesa não chega nem perto do segmento de terror. Não custa alertar aos fãs do gênero que podem se interessar pelo filme graças ao seu cartaz.

CONCLUSÃO: Um filme interessante sobre a tentativa de um policial em reconstruir a sua vida e que, ao se deparar com as regras muito peculiares de um pequeno vilarejo, se vê envolvido em uma intricada rede de interesses e disputas. Com uma direção de fotografia muito bonita e um roteiro que segura o interesse do espectador, o dinamarquês Frygtelig Lykkelig se mostra um entretenimento de qualidade. Mesclando em uma proporção de dois para um a ironia/sátira com crimes e um clima mórbido, este filme trata de traições, adultério e violência doméstica como panos de fundo para uma história sobre adaptação e comprometimento de um indivíduo em uma comunidade estranha e com seus próprios atos.

PALPITE PARA O OSCAR: Principal premiado em dois dos festivais mais importantes da Dinamarca, Frygtelig Lykkelig se credenciou para representar o país na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2010. Mesmo tendo recebido tantos prêmios, não vejo nesta produção a qualidade e a força necessárias para que ela esteja entre as finalistas da mais conhecida premiação norte-americana. Seria um milagre Frygtelig Lykkelig aparecer na lista dos cinco finalistas – especialmente pelo fato de que a imprensa internacional praticamente ignorou a sua existência. De qualquer forma, mesmo que ele chegue até esta cobiçada lista de indicados, não acredito que ele possa ganhar de Un Prophète ou Das Weisse Band.

De Ofrivilliga – Involuntary – Involuntário Novembro 15, 2009

Posted by Alessandra in Cinema, Cinema europeu, Crítica de filme, Filme premiado, Movie, Oscar 2010.
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Um filme bem diferente dos padrões usuais do cinema. E não apenas daquele produzido em Hollywood. De Ofrivilliga, o representante da Suécia na disputa por uma vaga no próximo Oscar, foge da obviedade do cinema médio ao apresentar uma série de histórias aparentemente desconexas. Mas, ultrapassada a barreira do visual, o espectador pode compreender a inteligência do trabalho do diretor e roteirista Ruben Östlund. Seu filme apresenta uma série de situações que refletem um bocado o comportamento de diferentes pessoas em nossa sociedade “pós-moderna”. Como a narrativa segue uma linha muito natural e propositalmente sem enquadramentos clássicos, a interpretação do que está ocorrendo fica totalmente nas mãos dos espectadores. Por esta e por várias outras razões, é o típico filme “de arte” (ou “cult”) que não deve agradar a muita gente.

A HISTÓRIA: Ao som de uma valsa, a lente da câmera vai acompanhando o trajeto de um veículo pelas ruas de uma moderna cidade da Suécia. Corta. O casal Lola (Lola Ewerlund) e Villmar (Villmar Björkman) recebem amigos em casa para celebrar o aniversário da anfitriã. Depois de um dia de celebrações, à noite, no grande momento da queima de alguns fogos no jardim, Villmar se fere ao se aproximar de uns fogos que não haviam explodido. Esta é a apenas uma das cinco histórias centrais do filme, que conta ainda a viagem de ônibus de uma conhecida atriz; o trabalho de uma professora do ensino primário e suas divergências com os colegas de trabalho; as travessuras perigosas de duas adolescentes e o reencontro de um grupo de amigos que resolve passar alguns dias apenas entre homens.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a De Ofrivilliga): Fiquei intrigada com este filme desde a sua sequência inicial. Me chamou a atenção o “contraponto” entre a valsa, uma manifestação artística originária do século 19 (aqui algumas informações a respeito da valsa), e as imagens noturnas de uma rua de uma cidade urbana qualquer dos nossos dias. Uma curiosa escolha de repertório e imagens. Mas esta seria apenas uma introdução para o que o diretor Ruben Östlund iria nos apresentar em seguida. Durante todo o filme, ele desconstrói conceitos e surpreende o espectador com sua abordagem de “desenquadramento” (falarei mais disto no final deste texto).

As imagens, parece nos dizer Östlund durante todo o filme, tem e ao mesmo tempo não tem importância alguma. Sua câmera está sempre fixa, em algum ponto decisivo para a narrativa – ainda que, como é costume no desenquadramento, muitas vezes a ação ocorra à margem do campo visual. Esse recurso não é novo – foi utilizado inúmeras vezes anteriormente, inclusive no recente 4 Luni, 3 Saptamâni si 2 Zile, do diretor Cristian Mungiu. Ainda assim, ele parece conseguir uma força ainda maior em De Ofrivilliga. Mas esta câmera estática, que muitas vezes deixa “escapar” a ação dos atores, provavelmente será um dos pontos difíceis de “engolir” pela maioria dos espectadores – afinal, estamos todos condicionados aos enquadramentos “usuais”, ou seja, no uso das câmeras para acompanhar sempre o melhor da ação.

Se o espectador conseguir vencer esta sua “resistência” a uma nova forma de narrar um filme, ele poderá, finalmente, se lançar nas histórias contadas pelo roteiro escrito por Östlund e por Erik Hemmendorff. Com um narrador “ausente” (ou “invisível”), De Ofrivilliga busca romper aquela interpretação “falsa” que toda pessoa parece assumir frente a uma câmera. Desta forma, o espectador parece “invadir” a intimidade das diferentes realidades mostradas pelo filme. Algumas vezes, esta invasão causa desconforto. Em outras, excitação. Desta forma, muito natural, Östlund vai conduzindo os espectadores por acontecimentos que fazem refletir sobre como as pessoas podem passar dos limites, de como um grupo deve sempre anular um indivíduo.

A primeira história, do casal Lola e Villmar, parece a menos “chocante” do filme. De fato, ela é a menos interessante. Ainda assim, guarda alguns aspectos curiosos – e que ajudam a reforçar a reflexão da força do “grupo” sobre o indivíduo proposta pelo diretor/roteirista. (SPOILER – não leia, a partir daqui, os próximos parágrafos se você não assistiu ao filme). Depois de um dia inteiro bebendo e confraternizando com amigos, Villmar passa dos limites e toma uma atitude totalmente “burra” ao tentar se aproximar dos fogos de artifício que não haviam explodido. Seu ato contínuo é ignorar os seus ferimentos para continuar com a festa. Afinal, o que importa é manter as aparências e ficar bem “socialmente”. Enquanto as mulheres parecem se preocupar com o anfitrião ferido, os convidados masculinos insistem em assumir a sua posição de “machos” e, assim, negar a vulnerabilidade de Villmar – e, por consequência, deles próprios.

Esta “diferença” entre homens e mulheres parece estar presente em várias histórias do filme. Para ser mais específica, na do grupo de amigos que resolve passar alguns dias juntos e na da professora que “enfrenta” o seu colega de trabalho. Mas logo falaremos destas histórias… O importante comentar é que esta “diferença” entre homens e mulheres ganha, no próprio De Ofrivilliga, um contraponto bastante curioso: o das personagens de Linnea (Linnea Cart-Lamy) e Sara (Sara Eriksson). As “barbies” adolescentes que parecem não ter limites assumem, em boa parte do filme, o papel que seria, normalmente, de rapazes de suas idades. O que pode levar a uma reflexão interessante sobre a busca de parte das mulheres por interpretar o rol dos homens na nossa sociedade “pós-moderna”.

Mas voltando aos “causos” do filme. Depois de Lola e Villmar, o espectador é apresentado a personagem de Maria (a veterana Maria Lundqvist), uma conhecida atriz que tem o “azar” de se encontrar com uma fã de seu trabalho durante uma viagem de ônibus para casa. No veículo, aliás, somos apresentados a três núcleos de personagens. Além de Maria e seu casal de fãs, o roteiro explora o “fundão” do ônibus, ocupado por um grupo de adolescentes “encrenqueiro” e, na posição oposta, na frente do veículo, ao motorista e sócio da empresa de transporte que passou recentemente por uma situação difícil após ser abandonado pela esposa. O “fundão” e a frente do ônibus acabam se enfrentando e Maria, a mulher que parece estar interpretando um papel durante todo o tempo, não tem a coragem de assumir as suas próprias responsabilidades.

Curioso o que ocorre naquele ônibus. Existe, como em praticamente todos os locais de nossa sociedade – e em diferentes histórias narradas pelo filme – um conflito entre diferentes comportamentos. Os adolescentes que ocupam o fundão do veículo tem um comportamento considerado inadequado pelos demais. Eles incomodam os passageiros adultos que, por sua vez – como no metrô, em uma sequência estrelada pelas amigas Linnea e Sara -, não se sentem confortáveis em revidar e invadir o “espaço” dos arruaceiros. Essa noção de espaço, aliás, tem peso de ouro em algumas sociedades – especialmente nas consideradas “mais desenvolvidas”. Em países como a Alemanha ou a Suécia o contato físico é restrito e o espaço de cada indivíduo, extremamente respeitado.

E a repetição deste conflito de comportamentos leva a uma estigmatização. Através dela, o motorista do ônibus, injustamente, acusa e “condena” os jovens do fundão. Eles, por sua vez, não cedem à chantagem do motorista. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Maria, a responsável pelo “ato de vandalismo” do banheiro – na verdade, um acidente – tem uma reputação a preservar. Como muitos artistas, ela veste as roupas e os trejeitos de um personagem que criou e, deste disfarce, ela não pode abrir mão. Ainda assim, fiquei chocada com a “resolução” do impasse. Infelizmente o menino que assume a culpa aprende, muito jovem, a mentir sob pressão para conseguir resolver um problema. Que lição ele terá deste evento?

Outra história explorada por De Ofrivilliga é a das amigas Linnea e Sara. Francamente, as melhores do filme. Adolescentes sem noção de perigo ou de limites, as duas “barbies” aparecem, primeiro, tirando fotos ousadas no computador. Provavelmente aquelas imagens iriam rodar o mundo, sugerindo cenas de lesbianismo – que, é quase certo, cairiam nas mãos de tarados de várias nacionalidades. Mas e quem se importa? Linnea e Sara certamente não. As meninas, junto com outros amigos e amigas, aproveitaram a ausência da mãe de Linnea para beberem muito além da medida. Primeiro em casa, depois no metrô e nas ruas.

Linnea e Sara são provocadoras e refletem o comportamento de muitos jovens nos dias atuais – de muitos mas, para nossa sorte, não de todos. A sequência no metrô, especialmente, me chamou muito a atenção. Ali, mais que em outras cenas, a dupla “dinâmica” assume o rol de rapazes de suas idades. Eu já vi garotos fazendo o mesmo que elas: bebendo álcool em garrafas improvisadas no metrô, falando alto, tentando aparecer e, se possível, provocando diretamente a algumas pessoas. Necessidade de protagonismo, certamente – efeitos, talvez, de uma sociedade onde a busca por “ser famoso” substitui a outros valores? Mas no lugar de rapazes, De Ofrivilliga nos oferece duas garotas. Interessante. Como na maioria das histórias do filme, elas ultrapassam o limite do razoável e, em certo momento, o espectador acredita que o pior está prestes a acontecer. Suspense em meio ao drama.

A quarta história explorada por Östlund é protagonizada pela professora Cecilia (a ótima Cecilia Milocco). Quando ela aparece em cena, sua turma está passando por um experimento emblemático – inclusive para se entender ao filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Através do exemplo da aluna que identifica a resposta correta mas que, sob a pressão da turma, orientada a sempre discordar dela, muda suas respostas escolhendo a opção errada, temos a resposta para o “enigma” desta produção. Um grupo, sempre, anula a capacidade de escolha do indivíduo – e, muitas vezes, o leva a fazer a escolha errada, mesmo quando ele sabe que poderia escolher o certo. A ironia do filme é que Cecilia acaba, em sua própria vida, tendo que sofrer as consequências de quem decide seguir a razão e fazer as escolhas certas, mesmo quando o grupo – neste caso, os outros professores – apontam para a direção contrária. Ela é, assim, uma das poucas que tem a coragem de trilhar o difícil – e muitas vezes solitário – caminho de se manter “limpa”.

O caso da professora também nos leva a refletir sobre a forma com que um grupo protege um de seus integrantes mesmo quando ele toma uma atitude errada. Neste caso, o problema reside no abuso do professor de artes Ulf contra o “aluno-problema” Axel. Como ocorre “no mundo real”, seus colegas usam argumentos para desqualificar a mãe da vítima e, assim, “justificar” o comportamento do professor. Revoltante – e, ao mesmo tempo, infelizmente, muito comum.

Finalizando as histórias apresentadas pelo filme, temos a do grupo de amigos liderado por Leif (Leif Edlund). Ainda vestindo roupas de trabalho, o grupo se encontra para passar alguns dias juntos, em um clássico “retiro de machos”. Nesta “recreação de adultos” um ingrediente fundamental é o excesso de bebidas. Permanentemente “embriados”, os amigos exageram nas brincadeiras e passam dos limites, em algumas situações, normalmente jogando com a questão sexual. Desejos reprimidos e homossexualidade são parte dos ingredientes deste conto.

Como em praticamente todos os grupos – especialmente o de homens -, há uma “estrela”. E ela, neste caso, se chama Leif. Ele é o personagem que provoca e que recebe todas as “avacalhações”. Visualmente, Leif se sente bem jogando este rol no grupo. O problema é que ele passa dos limites e abusa de um amigo, Olle (Olle Liljas) que, chocado, não sabe muito bem como reagir ao que aconteceu. As pessoas mudam com o tempo e, consequentemente, algumas amizades – e limites – também. Mas isso não parece ser passível de compreensão, especialmente para as pessoas que parecem não ter limites e que se sentem “invencíveis” dentro de um grupo.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: De Ofrivilliga é destes filmes que vai fazendo efeito com o tempo, depois que os créditos terminam de passar frente aos nossos olhos. Inicialmente, eu não sabia muito bem o que pensar a respeito desta produção. Mas, pouco a pouco, fui refletindo sobre aquelas histórias magistralmente narradas por Ruben Östlund e seus atores. E então elas foram fazendo sentido e ganhando novos contornos. Admiro cineastas que conseguem isso, provocar o espectador a ponto dele levar a sua obra para além do tempo que dura o filme.

Que ninguém se engane com este filme: ele não tem começo e nem fim, apenas “meio”. Em outras palavras, não somos apresentados ao contexto da vida de nenhum dos vários personagens mostrados por De Ofrivilliga. Apenas acompanhamos determinados capítulos de suas vidas e, como na realidade mesma, podemos utilizar estes episódios para aprender algo (ou não, como diria o Caetano).

No início, é um pouco difícil se acostumar com a técnica do desenquadramento utilizada por Ruben Östlund. Mas depois, quando o espectador deixa de esperar que lhe sejam mostrados sempre os “melhores ângulos” do que está acontecendo, outro efeito passa a figurar nesta experiência: o do uso da imaginação. Afinal, o que acontece no espaço em que a câmera não está filmando? Cada um terá que tirar as suas próprias conclusões – o que não deixa de ser um exercício provocativo e muito interessante.

Falando em desenquadramento, vou explicar um pouco melhor do que se trata este conceito. Segundo o livro Dicionário Teórico e Crítica de Cinema, de Jacques Aumont e Michel Marie, o desenquadramento é um efeito que parece “resultar de um movimento de excentramento, rejeitando para as bordas alguns dos elementos diegéticos principais”. Esse recurso teria sido “muito produzido em pintura, depois do choque da descoberta da arte da estampa japonesa”. Aumont e Marie revelam ainda que o desenquadramento, no cinema, se apresenta como “um aspecto de uma tensão mais fundamental entre a tendência à centralização, que resulta da assimilação do enquadramento a um olhar, e a tendência para salientar as bordas do quadro, que é marcada, em alguns cineastas, no mais das vezes, a partir de uma sensibilidade pictórica”. Em outra parte do livro, os autores comentam que “existem estilos fundados na recusa da centralização, em uma descentralização ativa e voluntária ou, de modo mais radical, um desenquadramento” – que é o que reflete De Ofrivilliga.

Reproduzo aqui a sinopse curiosa do material de divulgação do filme: “A influência do grupo sobre o indivíduo. O indivíduo que pensa muito sobre a sua própria imagem. O idiota que faz piadas sujas para divertir a sua galera, duas meninas que gostam de jogar, a professora zelosa que exagera com os seus colegas… justamente na hora em que decisões limites são tomadas. Um painel da sociedade sueca como você nunca poderia esperar”. E eu acrescento que o que vemos em De Ofrivilliga não reflete apenas a sociedade sueca, mas muitas outras.

No mesmo material de divulgação, há uma interessante entrevista com o diretor e roteirista Ruben Östlund. Ele comenta, por exemplo, sobre a origem da história desta produção. “No meu primeiro longa-metragem, Gitarrmongot, eu estava interessado no tema do indivíduo que está procurando o seu lugar na sociedade. Dos personagens que agem sem levar em conta o que o grupo ao seu redor vai pensar deles. No mesmo momento, eu me vi como testemunha de situações completamente opostas: o caso de pessoas que estavam desesperadas para evitar perder o seus espaços para outros. Gitarrmongot fala de sujeitos que não se importam com o que as pessoas pensam deles. De Ofrivilliga trata daqueles que são a fonte das atenções, que estão aterrorizados com a idéia de perder sua face”.

O diretor ainda cita como exemplo um caso que ficou conhecido em seu país: “Na Suécia, todos conhecem a história do engenheiro Andrea, que tentou chegar ao Pólo Norte em um balão, uma tentativa que terminou com a morte de sua tripulação. Lendo um jornal, uma reportagem revelou que ele não acreditava na viabilidade de seu projeto. Ele estava convencido a deixar esta idéia, mas este evento se tornou tão grande – quase toda a Suécia estava participando de uma forma ou de outra – que ele não podia voltar atrás. A aventura lhe levou ao desastre. Estou convencido de que os seres humanos são animais gregários. A influência do grupo sobre os indivíduos é muito forte, fundamental”.

Como eu comentei na minha crítica, o diretor também considera que a sequência da estudante que deve apontar as linhas mais longas em uma experiência de sua professora resume, na verdade, toda a idéia do filme. “Ela sintetiza a idéia de que o grupo tem um poder irresistível sobre o indivíduo, forçado a se adaptar para se integrar”, comenta Östlund. E uma curiosidade sobre esta cena: a idéia original da sequência foi inspirada na mãe do diretor/roteirista que, como professora, havia feito um experimento similar com seus alunos. No caso do filme, a garota que aparece em cena não sabia como deveria agir a respeito de suas indicações. Não estava estabelecido no roteiro que ela deveria mudar de opinião na terceira tentativa de acertar a resposta. Ainda assim, comenta Östlund, seis das 10 estudantes que participaram das filmagens-experimentos mudaram de opinião na terceira sequência de perguntas da professora.

Sobre o título do filme, “involuntário”, o diretor comenta que “estar sob a influência de um grupo pode nos privar do nosso livre-arbítrio, mas não podemos entregar para a maioria a nossa responsabilidade individual? Em cada história (do filme, ele se refere), os personagens sentem que não tem escolha, algo que é falso: eles simplesmente não aproveitam as oportunidades que lhes são dadas. No melhor dos mundos, uma pessoa não deixaria de aproveitar a oportunidade de agir da melhor forma possível. Mas na realidade, isto é outra história… Estou ciente de que na maioria dos casos as pessoas dirão que sua reação a um fato terá sido “involuntária”, mas este é um fenômeno que se repete incansavelmente”.

Depois de comentar sobre o caso da cortina danificada do ônibus, o diretor opina que está cada vez mais difícil as pessoas reconhecerem suas falhas porque, em muitos casos, elas terão que admitir que mentiram. “Isso é (provocado) menos pela influência do grupo sobre o indivíduo, mas o próprio indivíduo, em sua relação com o grupo, que se sente obrigado a agir de determinada maneira”. Östlund comenta, ainda, que dentro da lógica de um grupo, onde existem “vítimas” e “culpados” em um jogo muito pré-determinado, todos os atos dos indivíduos acabam sendo “involuntários”.

Ruben Östlund também confirma, no material de divulgação, que sofreu a influência de diretores como Michael Haneke, Ulrich Seidl e Roy Anderson. “Eu estava muito influenciado por seus filmes. Como espectador, quando tomo consciência que estou participando de um “roteiro” (uma narrativa linear, imagino, na qual o diretor “conduz” o seu público pelas mãos), eu começo a me aborrecer. Se o público permanece focado em situações de seu cotidiano muito familiares como aquelas do meu filme, ele se sente desorientado, não percebe o enredo, não sabe muito bem aonde está. Quando você está confuso, tenta ver se está entendendo o que acontece, há mais concentração. (…) Como espectador, gosto de me sentir ativo, de que o diretor me deixe fazer parte de seu trabalho. Como cineasta, este engajamento é o que eu quero propor para o público. Este era um slogan durante as filmagens: fazer o espectador se tornar ativo. Encontrar uma linguagem visual que cresce continuamente ao perguntar “onde estou?”, “quem é este?”, “o que está acontecendo?”. Eu gosto do estilo voyeurista (…)”.

Aliás, esta é uma característica interessante do filme De Ofrivilliga. Quando ele termina, o espectador fica com um gostinho de “quero mais”. A mesma sensação despertada pelos “reality shows” que exploram ao máximo o nosso desejo de “invadir a vida alheia”, de “espiar” o que acontece no ambiente privado dos demais. Ou, como bem definiu o diretor, este estilo “voyeurista” de seu filme.

O limite entre ficção e realidade permeia toda a produção. Inclusive em detalhes, como o fato de que todos os atores interpretam personagens que tem o seu próprio nome e a ironia sobre a personagem da atriz Maria Lundqvist. Conhecida por participar de quase 30 produções para o cinema e para a televisão, Maria também é mãe de quatro filhos, assim como a sua personagem em De Ofrivilliga.

De Ofrivilliga foi escrito e dirigido por Ruben Östlund que, ainda, acumula a função de editor desta produção. O impecável trabalho da direção de fotografia é assinado por Marius Dybwad Brandrud (eita nominho complicado!).

O segundo drama dirigido por Östlund estreou, em maio de 2008, no Festival de Cannes. De lá para cá, De Ofrivilliga participou de vários outros festivais. Nesta sua trajetória, ele ganhou nove prêmios e foi indicado ainda a outros seis. Entre os que levou para casa estão o de melhor diretor no Geneva Cinéma Tout Ecran; o prêmio especial do júri do Festival de Cinema de Mar del Plata; o FIPRESCI do Festival de Cinema de Miami; uma menção especial no Festival de Cinema de Milão; e os prêmios da audiência e o de melhor roteiro do Festival de Cinema de Estocolmo.

Os usuários do site IMDb deram a 7,2 para o filme – achei um pouco baixa demais, mas algo previsível, especialmente pelo tipo de filme do qual estamos falando.

O diretor Ruben Östlund nasceu na Suécia em 1974. Amante das pistas de esquis antes de ser um apaixonado pelo cinema, Östlund teria se inspirado no tipo de filmes feitos sobre este esporte. Desta forma, lhe interessa as filmagens de longa duração, nas quais seria “impossível” dissimular qualquer ação. Seu primeiro longa-metragem de drama – antes ele havia dirigido a dois documentários -, o filme Gitarrmongot, ganhou o prêmio FIPRESCI no Festival Internacional de Cinema de Moscou, em 2005.

CONCLUSÃO: Um filme inteligente e nada óbvio. Difícil de cair no gosto de muita gente. Mas para os que ousarem assistir a um filme que quebra o nosso costume por sermos levados “pelas mãos” dos diretores – e seus enquadramentos ágeis -, De Ofrivilliga pode surpreender por seus conceitos e por seu conteúdo crítico sobre a influência dos grupos sobre os indivíduos. Com uma câmera colocada sempre na posição de um “observador” displicente (ou seria ausente?), este filme resgata o nosso gosto pelo voyeurismo na mesma medida em que “incomoda” por não nos mostrar todos os detalhes da ação – deixando, assim, muito a cargo da imaginação do espectador. De forma muito natural e com planos longos de enquadramentos estáticos, De Ofrivilliga explora cinco histórias em que ocorrem diferentes formas de “ultrapassar os limites”. Uma produção curiosa, instigante e que passa a ter mais sentido depois que aparecem os seus créditos finais.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Ainda que De Ofrivilliga merecesse estar entre os cinco finalistas ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro do próximo Oscar, infelizmente eu acho muito difícil este filme sueco chegar tão longe. Primeiro, porque ele não é destas produções que devem cair fácil no gosto popular. Muito pelo contrário. Consequentemente, De Ofrivilliga não foi feito para o Oscar, onde predominam os filmes que tem forte apelo comercial. Uma pena, porque pela proposta artística de Ruben Östlund ele merecia chegar entre os finalistas. Ganhar, claro, é algo impossível. Filmes como Un Prophète ou Das Weisse Band tem muito mais força que De Ofrivilliga. O que apenas comprova que, nem sempre, os melhores ganham mais espaço ou prêmios. (Dito isso, quero comentar que ainda acho Un Prophète, até o momento, o melhor filme entre os indicados).

Max Manus Novembro 12, 2009

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Os acontecimentos envolvendo a 2ª Guerra Mundial não páram de render filmes – em Hollywood e em outras indústrias pelo mundo. Em 2008, Defiance foi lançado dentro de uma “onda” de revisão histórica ao mostrar um aspecto pouco conhecido da guerra: a resistência de judeus aos nazistas. Max Manus, produção de 2008 que chegou apenas este ano no mercado internacional, segue a mesma linha de revisão histórica. Menos “heróico” que Defiance, o filme norueguês dirigido por Joachim Ronning e Espen Sandberg destaca o heroísmo e a fragilidade de um líder que, ao perder seus amigos, questiona a validade de seus próprios atos. Um filme menos hollywoodiano e mais realista, ainda que ele só cresça realmente muito perto do final.

A HISTÓRIA: Através da reprodução de reportagens em diferentes jornais desde 1923, o filme reproduz alguns dos fatores que antecederam a chegada dos nazistas ao poder na Alemanha. O mesmo recurso é utilizado para mostrar a invasão da Polônia e a consequente declaração de guerra da França e do Reino Unido contra Hitler. Mas a ação propriamente dita começa com o protagonista Max Manus (Aksel Hennie) luta do lado dos finlandeses durante a invasão russa no país vizinho. Manus começa sua trajetória na guerra em março de 1940 como um dos voluntários noruegueses na frente de batalha finlandesa. Apenas três meses depois, ele e um grupo de amigos conversam em Oslo, capital da Noruega, sobre a importância de criarem um grupo de resistência em seu próprio país – que havia sido invadido pelos nazistas nos meses precedentes. A partir deste momento, o espectador é apresentado a história deste grupo de resistência que atuou até o final da guerra.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Max Manus): Sempre que uma leva de produções trata, basicamente, do mesmo assunto, o espectador fica um tanto “cansado” e com a sensação de “mais do mesmo”. Não sendo o promeiro filme dentro da lógica de “revisão histórica” da 2ª Guerra Mundial, Max Manus sofre um pouco com esta impressão. Mas o filme, pouco a pouco, vai se mostrando diferente dos demais. Para começar, ele se mostra importante para a cultura de seu país de origem.

Apenas o tempo pode nos fazer olhar de maneira diferente para um fato determinado. Lá pelas tantas na história de Max Manus, o protagonista comenta, ao ler uma notícia em um jornal, como os “vitoriosos” em uma guerra podem, rapidamente, transformar “patriotas” em “terroristas”. Seu melhor amigo, Gregers Gram (Nicolai Cleve Broch), confirma que sim, e continua escrevendo um manifesto dos chamados “terroristas/patriotas” em resposta a esta versão oficial nazista. Uma das contribuições interessantes do filme é esta reflexão sobre a importância, na mesma proporção, da ação e do discurso para que um ideal revolucionário tenha êxito. Afinal, quem pretende mudar um sistema ou uma realidade deve saber que, quem está no poder, também utiliza estes meios para conseguir sua supremacia.

Mas a questão da propaganda, seja nazista ou revolucionária, é um dos assuntos secundários do filme. O núcleo narrativo do roteiro de Thomas Nordseth-Tiller gira em torno das ações da 1ª Companhia Norueguesa Independente, treinada na Escócia, e que atuou especialmente em missões de sabotagem contra o comando nazista em seu país invadido. Max, Gregers e outros homens passaram a investir contra os invasores de seu país. A partir de abril de 1943, com o apoio de seu grupo de amigos em Oslo, Max e Gregers deram início a suas missões.

A história do grupo liderado por Max Manus é interessante e, realmente, heróica. Imagino que os noruegueses sentiram uma emoção especial ao assistir a esse filme – o que justifica, também, a sua indicação para a disputa na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no próximo Oscar. Mas além de contar uma história de resistência e que tem importância para os noruegueses, Max Manus se revela um filme muito bem acabado tecnicamente.

O espectador conhece paisagens simplesmente belíssimas através de uma direção de fotografia impecável de Geir Hartly Andreassen. A trilha sonora de Trond Bjerknes também é perfeita e muito bonita, trabalhando todo o tempo para ressaltar os momentos mais dramáticos do roteiro. Através da história do grupo de resistência norueguês o público confere algumas das paisagens mais bonitas daquele país e da Escócia. A narrativa de Max Manus é linear, mas intercalada por alguns flashbacks do protagonista que parece “assombrado” (ou seria “inspirado”?) por sua experiência no campo de batalha finlandês. Merece destaque também o figurino assinado por Manon Rasmussen.

Ainda que centrado em um personagem, o que dá nome ao filme, Max Manus abre muito espaço para os demais participantes do grupo de resistência contra os nazistas. O contraponto ao “herói norueguês” que apenas quer o seu “país de volta” é o oficial nazista Siegfried Fehmer (Ken Duken) que, desde a corajosa fuga de Manus do hospital em que ele estava internado, empreende uma caçada contra o líder da resistência. Como em Defiance, no filme de Ronning e Sandberg há espaço para o romance. Manus conhece, através de seu amigo Gregers, a Tikken (Agnes Kittelsen), uma funcionária do consulado britânico em Estocolmo – para onde os amigos se dirigem sempre que completam uma missão.

Baseado em fatos reais, Max Manus esclarece, nos créditos finais, o que aconteceu com seus principais personagens após o fim da guerra – um recurso conhecido e quase “obigatório” em histórias do gênero. Sabemos, graças a ele, que o romance entre Manus e Tikken foi real – o que não impede, como ocorreu antes com Defiance, que esta história de amor se torne um bocado deslocada do restante da narrativa. Por outro lado, algo importante, como a influência determinante dos ingleses neste movimento de resistência norueguês ganha pouco espaço e é abordado de forma bastante superficial pelo roteiro de Nordseth-Tiller. Algo comprensível, já que estamos falando de um filme que ajuda no resgate do “orgulho norueguês” durante a 2ª Guerra Mundial.

A maior parte do tempo, Max Manus se mostra apenas correto – e envolvente, ao ter sua história bem narrada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas o que torna este filme diferente de outras produções do gênero é a sua reflexão perto do final, quando o protagonista não sabe o que fazer de sua vida depois de ter “vencido” a guerra. Sozinho em um salão de festas, ele percebe que perdeu praticamente todos os seus amigos e que não tem com quem celebrar a queda dos nazistas. A sequência que começa com Manus visitando ao prisioneiro Fehmer e que termina com sua conversa com Tikken é realmente de arrepiar. O grande momento do filme, sem dúvida, e que faz com que o mesmo valha a pena. Afinal, de que serviu tantas batalhas se as pessoas que eram importantes para ele haviam morrido? Claro que a história não termina ali e, com o tempo, Manus perceberá que sim, o esforço teve um significado maior.

NOTA: 8,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo interessante de Max Manus é que ele não procura transformar os seus personagens em heróis instantâneos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Claro que Manus, em especial, é visto como um sujeito valente e destemido mas, desde o início, do outro lado da balança destas suas qualidades, fica muito evidente que ele era um rapaz jovem, descuidado e um tanto inconsequente. Manus tinha menos ideais (e/ou visão política) que seu amigo Gregers Gram. Sujeito simples, sem uma formação intelectual mais densa, Manus queria que tudo voltasse a como era antes da invasão nazista. Empolgado com a insatisfação de seus amigos, ele viu na resistência uma oportunidade de ser útil e, ao mesmo tempo, lutar ao lado dos garotos com quem cresceu. Mas ao mesmo tempo em que ele era capaz do gesto mais heróico, era capaz também de atirar em si mesmo – em um acidente que foi decisivo para seu grupo. O filme mostra, assim, como normalmente os “heróis” de cada país não passam de sujeitos comuns que souberam, sob determinadas circunstâncias, ter uma atitude correta.

Como comentei rapidamente antes, o movimento de resistência à invasão nazista na Noruega recebeu uma influência e um apoio decisivos do Reino Unido. Para os ingleses, a Noruega era um ponto estratégico na guerra contra os nazistas, especialmente devido a sua proximidade com a costa britânica.

Interessante que aqui é possível encontrar várias informações sobre a Noruega, em um portal do país feito para o Brasil por sua embaixada. Por ali é possível saber um pouco mais sobre o Rei Harald, atual líder do país, que segue o regime de monarquia constitucional.

Para os interessados neste capítulo da 2ª Guerra Mundial, deixo aqui um link para um texto interessante de um portal específico sobre aquele período histórico.

Pelo roteiro de Max Manus, parece um tanto “forçada” a relação entre o oficial nazista Siegfried Fehmer e a norueguesa Solveig Johnsrud (Viktoria Winge). Mas a verdade é que ela se mostra condizente com o que ocorreu na época. Segundo esta reportagem da BBC, durante a guerra “os nazistas incentivavam uniões entre soldados alemães e mulheres norueguesas como parte do plano para criar uma raça superior ariana, com bebês de olhos azuis e cabelos loiros para o Reich de Mil Anos”.

Todo o elenco de Max Manus está bem – ainda que, pessoalmente, eu não tenha visto nenhum grande destaque. Além dos atores já citados, vale a pena destacar o trabalho de Mats Eldoen como Edvard Tallaken, um dos envolvidos no movimento de resistência norueguesa e que foi condecorado com a Cruz de Guerra; Kyrre Haugen Sydness como Jen Christian Hauge, o contato de Manus e de seus amigos com o governo inglês; Christian Rubeck como Kolbein Lauring, um dos sobreviventes do grupo inicial formado por Manus; e Knut Joner como Gunnar Sonsteby, participante da resistência como articulista.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para o filme. Os críticos foram mais generosos com a produção. O site Rotten Tomatoes, que divulga links para diferentes críticas disponíveis na internet, por exemplo, revela 12 críticas positivas e apenas duas negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 86%.

Uma das críticas positivas para Max Manus foi escrita por Peter Brunette, conhecido articulista da Hollywood Reporter. Neste link é possível ler seu texto original, no qual ele comenta que o filme segue uma linha “clichê-normal” de histórias do gênero. Para Brunette, Max Manus consegue, basicamente, duas coisas: se aproximar do padrão de Hollywood em relação a uma qualidade de produção elevada (o que garante cenas de ação interessantes e repetitivas) e, perto do final do filme, apresentar um desânimo profundo de seu protagonista quando, finalmente, ele toma uma pausa em suas ações para dar-se conta de que perdeu todos seus amigos. O crítico avalia que o filme sempre se mostra interessante, e ressalta o interesse na discussão entre a eficácia da propaganda para “ganhar a opinião pública” e as ações diretas contra os nazistas que resultam na morte de vários civis. Brunette resume, no final: “nada disto é novo, mas funciona”.

Outro comentário positivo para o filme (que pode ser lido neste link) foi publicado no The Sun Online. O texto ressalta que Max Manus é um bom filme de guerra à moda antiga no qual se destaca a escolha por uma trama tensa de espionagem em lugar de cenas de batalha em que predomina o recurso da computação gráfica. A crítica destaca ainda o trabalho do ator Aksel Hennie, que dá a profundidade exata para o protagonista – diferente de outros atores que primam por uma interpretação superficial, como Ken Duken e seu nazista Siegfried Fehmer (que acaba ficando estereotipado, segundo o The Sun).

Max Manus estreou na Noruega em dezembro de 2008. Este ano, o filme participou de três festivais, incluindo o de Toronto, e estreou no circuito comercial de três países. Em 2010 ele chegará até a Dinamarca e a Alemanha.

Até o momento, o filme ganhou sete prêmios e foi indicado ainda a outros quatro – todos no Amanda Awards, o principal prêmio de cinema da Noruega. Max Manus recebeu, no Amanda de agosto deste ano, os prêmios de melhor filme, melhor ator para Aksel Hennie, melhor direção de fotografia, melhor roteiro, melhor atriz coadjuvante para Agnes Kittelsen e melhor direção de som.

Uma curiosidade da produção: para as cenas em que apareciam soldados nazistas foram utilizados até 1,8 mil figurantes.

Max Manus custou 50 milhões de Krone norueguês – o que equivaleria a quase US$ 9 milhões. Depois de estrear nas salas de seu país, Max Manus se tornou o recordista nas bilheterias em sua semana de estréia: ele foi visto por 184,2 mil espectadores, superando a marca conquistada anteriormente por Kautokeino-opproret.

Pouco depois de Max Manus estreiar na Noruega, o roteirista Thomas Nordseth-Tiller foi diagnosticado com câncer. Ele morreu vítima da doença em maio deste ano.

Ah, e depois de assistir a este filme, me vejo obrigada a diminuir um pouco a nota de Defiance. Para ser mais justa. ;)

Max Manus é uma co-produção da Noruega, da Dinamarca e da Alemanha.

CONCLUSÃO: Inspirado em fatos reais do movimento de resistência norueguês durante a ocupação nazista daquele país, Max Manus é um filme mais realista do que Defiance. Nele, é possível perceber como os “heróis” da história são sujeitos comuns que valorizam a liberdade de seu país na mesma medida em que defendem os laços de amizade de seu grupo. Com belíssimas paisagens, uma trilha sonora envolvente e um roteiro e uma direção corretos, Max Manus contribui para a recente revisão histórica dos fatos envolvendo a 2ª Guerra Mundial. Narrado de forma linear, com algumas inserções de flashbacks do protagonista, o filme só peca por deixa suas reflexões mais importantes restritas aos minutos finais – em uma busca, provavelmente, por seu “grand finale”. Ainda assim, é uma história interessante de ser conhecida.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Sucesso na Noruega, Max Manus dificilmente terá o mesmo apelo em outros países. Por isso mesmo, e por se tratar de uma história um tanto “repetitiva”, dificilmente esta produção conseguirá figurar entre as cinco finalistas para o próximo Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Mas, se acaso ela chegar até lá, não acredito que terá a força para vencer a “favoritos” como Un Prophète ou Das Weisse Band.

Madeo – Mother Novembro 10, 2009

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Do que uma mãe é capaz para proteger o seu filho? Para alguns, não existe amor maior do que o de mãe. Madeo, novo filme do badalado diretor Bong Joon-ho, explora ao máximo a capacidade do amor materno em um inusitado filme de suspense e investigação policial. Como no recentemente comentado aqui no blog Chugyeogja, em Madeo a polícia se mostra incapaz de resolver satisfatoriamente qualquer investigação. A impressão que temos é que os coreanos estão perdidos com a sua polícia local. Representante da Coréia na disputa por uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro no próximo Oscar, Madeo respeita a tradição recente da boa safra vinda daquele país em uma história cheia de reviravoltas e drama. Desta vez, em lugar de vários crimes e cenas de violência, há mais emoção em cena.

A HISTÓRIA: Uma mulher caminha por um campo seco. Não sabemos se ela está fugindo ou procurando algo. De repente, ela começa a fazer movimentos compassados, como se dançasse. Ela se emociona e, quando está anoitecendo, coloca a mão dentro de seu casaco, repetindo um gesto que se tornou famoso na figura de Napoleão. Ela estaria louca? A cena é cortada. A mesma mulher, agora, pica em uma guilhotina ervas medicinais. Dentro de sua loja, ela acompanha com o olhar ao filho, Yoon Do-joon (Won Bin), que brinca com um cachorro do lado de fora. O rapaz, que sofre com uma doença mental, acaba sendo atropelado por um carro. Com o amigo Jin-tae (Jin Goo), Do-joon segue para um campo de golfe com a intenção de “se vingar” dos ricaços que o atropelaram. Eles acabam parando na delegacia, onde a mãe (Kim Hye-ja) de Do-joon aparece para levar o filho para casa. Na noite seguinte, após esperar o amigo Jin-tae em um bar durante muito tempo, Do-joon segue a Moon Ah-jeong (Moon Hee-ra) no caminho de volta para casa. A garota aparece morta na manhã seguinte e Do-joon é preso sob a acusação de assassinato. Mas a mãe dele, certa de que o filho é inocente, faz de tudo para libertá-lo da prisão.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER -aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Madeo): Joon-ho Bong é um sujeito curioso. Ele consegue, como poucos, extrair suspense de situações banais do cotidiano. O argumento de Madeo é dele, e o roteiro, uma parceria do diretor com Eun-kyo Park. Bong retoma a figura do protagonista “um tanto lento demais”, vista anteriormente no megasucesso Gwoemul. Mas em Madeo, mais do que o personagem de Do-joon e seu problema mental, rouba a cena uma mulher forte, obstinada e que não sabemos, até que ponto, também não sofre com algum distúrbio mental.

Possivelmente muitos irão descordar de mim. Podem enxergar na protagonista do filme apenas a figura de uma mãe superprotetora e desesperada por ter um filho. Mas não sei, por várias revelações que Madeo nos traz sobre o passado e novas atitudes desta mulher, eu tenho dúvidas se ela também não apresenta algum distúrbio psicológico grave. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). É impressão minha ou ela tem mudanças de humor muito repentinas? Talvez ela sofra com um transtorno bipolar… ou, frente a tantos problemas com o filho, ela tenha desenvolvido uma depressão crônica. Ou ainda sejam apenas manifestações da menopausa. ;)

O problema de Do-joon também pode render debates. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Alguns críticos afirmaram que ele sofreria de autismo. Será? Não sou formada na área de psicologia ou psiquiatria, por isso não vou me arriscar a diagnosticá-lo (mas se algum especialista quiser contribuir neste sentido, será bem/vindo(a). Inicialmente, achei apenas que ele sofria de um certo “retardo mental” mas, lendo um pouco mais a respeito, também acho possível que ele sofra com esquizofrenia ou com uma psicose maníaco-depressiva. Acho estas últimas duas alternativas mais viáveis do que o autismo – afinal, ele não parece tão isolado do mundo assim.

Estas questões psicológicas são importantes para o filme porque explicam, como no caso de Gwoemul, as razões de muitas escolhas dos protagonistas que parecem equivocadas. No caso de Madeo, mãe e filho são extremamente co-dependentes um do outro – ainda que Do-joon tente, pouco a pouco, almejar uma vida um pouco mais independente. Mas a mãe de Do-joon quis tanto ter o filho que foi capaz de ingerir ervas para ajudar-lhe a engravidar e, depois que ele nasceu, fazer de tudo para protegê-lo deste “mundo vil”. (Ainda que, como a personagem de Medeia, ela tenha pensado/tentado acabar com a vida de seu rebento quando criança).

Aliás, mais uma vez, pela ótica do diretor, vivemos em uma sociedade que não respeita as diferenças e que tem, até que se prove o contrário, uma grande aversão aos “retardatários”, aos que não podem se destacar por sua inteligência, poder ou talento. Do-joon e sua mãe são vistos, não apenas pelos policiais, pelo advogado ou pelos professores que aparecem no filme como “gente de segunda categoria”. Em geral, até mesmo o “amigo” de Do-joon, Jin-tae, parece considerá-los dignos de piadas e de desrespeito. A sociedade, vista pelo diretor, é um celeiro de exclusão, de atos bárbaros e egoístas.

Madeo surpreende por nos contar uma história de investigação policial muito diferente dos padrões. Para começar, a protagonista e “detetive” deste roteiro é uma mulher simples, com pouca cultura e pobre. A protagonista “corta um dobrado” para cuidar do filho e sobreviver. Além de vender ervas, ela pratica a acumputura de forma ilegal. E estas suas agulhas… rendem alguns momentos de tensão no filme. Voltando ao que eu dizia, Bong tem a arte de exprimir tensão e suspense das situações mais simples. Seja através das agulhas de Hye-ja, do uso de uma pequena guilhotina ou na queda de uma garrafa de água, as lentes do diretor sempre estão a postos para exprimir os detalhes de momentos e expressões cruciais.

Em Madeo, como na maioria dos filmes de suspense e/ou terror recentes da filmografia coreana, predominam também as reviravoltas do roteiro. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Honestamente, no início, eu pensei: “Do-joon ter recomeçado a andar depois de terem jogado aquela imensa pedra não quer dizer nada. Ele pode ter dado meia volta e matado a menina”. Mas, francamente, a atuação de Kim Hye-ja é tão convincente, assim como o permanente estado de ausência da realidade com alguns rompantes de extrema lucidez de seu filho que fui sendo levada pelo roteiro.

Acreditei na versão de ambos de que o rapaz era inocente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim, fui fisgada pelas quatro grandes surpresas da reta final desta produção. Primeiro, a descoberta do verdadeiro criminoso pela mãe de Do-joon. Depois, a manobra desesperada, que resulta em um novo crime, para encobrir a verdade; a culpa de permitir que um inocente respondesse pela morte de Moon Hee-ra e, finalmente, a queda da última máscara. A partir da visita da protagonista ao catador de lixo o filme ganha em suspense, velocidade e força. E, para ser franca, fiquei muito surpresa com as reviravoltas da história… quando o espectador pensa que tudo terminou, que as surpresas terminaram, aparecem novos golpes. Para mim, o maior deles foi quando a mãer de Do-joon permitiu que JP fosse preso pela morte de Hee-ra.

(SPOILER – não leia… você sabe). Com estas reviravoltas finais, Madeo muda totalmente de sentido. A mãe dedicada e capaz de fazer tudo pelo filho, a virtual segunda “vítima” desta história – depois do “inocente” Do-joon acaba se revelando, na verdade, a grande culpada pelo drama e pelos crimes do roteiro. O assassinato de Hee-ra passa pela educação que a mãe deu para o filho, ensinando-o a revidar sempre que fosse agredido. Aliás, eis em Madeo uma prova de que a violência nunca é a melhor resposta contra a ignorância ou o desrespeito. Depois, o homicídio do catador de lixo é provocado diretamente pela protagonista. Sem contar o absurdo de permitir que outra pessoa respondesse pelo crime inicial. A mãe, no fim das contas, é a grande vilã desta história – algo totalmente impensável, no início. Esta grande reviravolta na história e na “alma” do filme só comprova o talento de Joon-ho Bong como contador de histórias. Ele merece a fama que tem.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A interpretação de Kim Hye-ja é simplesmente inebriante. A atriz rouba a cena sempre que aparece na frente das lentes de Bong Joon-ho. Ela mostra, na medida certa, determinação, fragilidade e loucura. Um desempenho que merecia, sem dúvida, alguns prêmios.

Como geralmente acontece no caso dos filmes coreanos, Madeo teve um orçamento relativamente baixo – pelo menos para os padrões hollywoodianos: US$ 5 milhões. Certamente, pelo sucesso que o diretor Bong Joon-ho tem em seu país de origem e em toda a Ásia, o filme deve conseguir um bom lucro.

Além de ter sido indicado para o próximo Oscar, Madeo concorre na categoria de Melhor Filme do Festival de Cinema de Mar del Plata, que começou a ser celebrado no último sábado e segue até o dia 15 na Argentina. Antes, Madeo estreou em outro festival, o de Cannes, em maio deste ano. O filme participou ainda de nove outros festivais pelo mundo – inclusive as últimas edições do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Crítica e público demonstram que estão gostando de Madeo. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para o filme, enquanto que os críticos que tem textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 13 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção – o que lhe garante uma aprovação importante de 93%.

Para quem não entendeu a minha piada lá encima sobre Napoleão, quero relembrar que o poderoso governante ficou conhecido, através de um quadro, por uma pose ereta na qual ele mantinha uma de suas mãos dentro do casaco, na altura do estômago. Neste texto curto do site da Mundo Estranho eles trazem algumas explicações para a pose no quadro do pintor Jacques-Louis David.

Na cobertura de Cannes, a crítica Maggie Lee escreveu este texto para a Hollywood Reporter sobre Madeo. Interessante quando ela comenta que Bong Joon-ho confirma o seu talento prodigioso em subverter qualquer gênero para que ele sirva para “sua própria visão idiossincrática”. Para Lee, Madeo marca um trabalho muito mais autoral do diretor – se comparado ao comercial Gwoemul -, o que deve resultar em algum sucesso de público e, especialmente, um importante respaldo da crítica. E ela está certa. Madeo tem menos apelo popular porque se mostra muito mais complexo do que o grande êxito anterior de Joon-ho. Curioso também que Lee classifica Madeo como um filme com um “roteiro de detetitive habilmente traçado que é acelerado como um thriller de suspense de Hitchcock”.

Gostei, no texto de Maggie Lee, especialmente dos trechos em que ela analisa a técnica de Bong Joon-ho neste seu último filme. A crítica comenta, por exemplo, como os longos closes da expressão da protagonista servem tanto para “hipnotizar como para enervar” o espectador. Em outros momentos, comenta Lee, as lentes do diretor mostram aquela mãe em campos infinitos ou em quadros com montanhas enevoadas, o que tornaria a sua personagem praticamente uma mancha na paisagem. Isso revelaria, simultaneamente, a insignificância e a ligação daquela mãe com a Natureza. Bem analisado. Lee ressalta ainda que em nenhuma cena são enquadradas mais do que duas pessoas, e que o uso de uma paleta de cores primárias com o predomínio de um “triste esfumaçado azul e de um vermelho enferrujado petulante” criam um modo sustentado de “claustrofobia e desconforto”. Maravilhosa a crítica, para resumir.

Outro crítico, Derek Elley, da revista Variety, classificou como injusta a ausência de Madeo entre os competidores de Cannes. Neste texto, Elley destaca como Joon-ho Bong subverte os filmes sobre mães do cinema asiático, deixando para trás a idéia de produções onde predomina a “fortaleza feminina, a devoção de irmãos e a sacarina”. O crítico também revela que, para o público coreano, Madeo subverte em outro sentido: ao modificar, radicalmente, a figura da atriz Kim Hye-ja, uma “lenda doméstica” construída durante 30 anos no sentido de interpretar mães amorosas(especialmente em papéis para a TV).

O crítico da Variety destaca o trabalho do elenco, chamando o elenco de um time de “craques”. E ele está certo. Além da já citada/elogiada Kim Hye-ja, se destacam nesta história o “ídolo teen irreconhecível”, na opinião dos críticos, Won Bin. Ele consegue uma interpretação natural e que foge da caricatura através do inconstante personagem de Yoon Do-joon. Jin Goo faz o papel de viril da história, protagonizando algumas das sequências mais tensas de Madeo. Merecem menção ainda Yoon Je-moon, que intepreta o investigador policial Je-moon; Jeon Mi-seon como Mi-seon, uma das vizinhas da protagonista que frequenta suas sessões de acupuntura e que, sem querer, acaba dando uma pista importante para a investigação da mãe de Do-joon; Lee Yeong-seok que, mesmo aparecendo pouco, faz um trabalho muito sensível como um catador de lixo; e Cheon Woo-hee, que interpreta Mi-na, a namorada de Jin-tae que fascina também a Do-joon.

Da parte técnica do filme, merecem destaque o diretor de fotografia Hong Kyung-pyo (chamado também de “alex”), a trilha sonora de Lee Byeong-woo, a edição de Moon Sae-kyoung e a edição de som de Choi Tae-young (seu trabalho tem uma importância fundamental para o filme).

Algo que achei interessante neste filme é como ele consegue misturar o “antigo e o moderno” no cotidiano dos sul-coreanos. Madeo se passa em um pequeno vilarejo onde convivem pessoas como a protagonista, que mantêm costumes milenares, como o uso de ervas e a aplicação da acumputura para resolver problemas de saúde, e estudantes como Moon Ah-jeong. A turma desta última era um celeiro de ousadia e contravenções. Sua amiga, Hyung-teo (Lee Mi-do) se “especializou” em alterar celulares para convertê-los em “câmeras de espiãs”. Outros estudantes, como Kkang-ma (Jeong Yeong-gi) ou Ddung-ddung (Ko Gyoo-pil) se divertiam com a idéia de explorar sexualmente meninas fragilizadas, não pensando duas vezes em usar a violência para encobrir os seus deslizes. Uma nova geração que, por isso e muito mais, se mostra o oposto daquela da protagonista – e o curioso é que Madeo apenas esboça o choque cultural entre estas realidades.

Para os interessados no site oficial do filme, por enquanto só estão disponíveis as versões em coreano e japonês. Se alguém puder entender algo… ;)

Para escrever esta crítica, foi fundamental para mim a consulta ao banco de dados de filmes coreanos Hancinema. Muito bom o site, aliás. Recomendo.

CONCLUSÃO: A nova investida do badalado diretor coreano Joon-ho Bong demonstra como ele se especializou em subverter gêneros e conceitos estabelecidos. O realizador brinca com a figura de dois atores conhecidos na Coréia do Sul ao levá-los a assumir papéis muito diferentes do que o público está habituado. Misturando drama e suspense policial, Madeo segue a trilha de roteiros bem costurados e cheios de reviravoltas da safra recente do cinema coreano. Com interpretações impecáveis e uma direção inspirada, este filme desconstrói as relações de dependência entre mãe e filho, alternando o entendimento entre loucura e sanidade. Impecável tecnicamente e surpreendente no enredo, Madeo ainda aborda a ineficácia da polícia e a falta de respeito da sociedade com os que fogem de seus padrões ideais. Um filme de respeito, com alguma dose de violência e algumas surpresas que podem provocar indignação.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Representante da Coréia na disputa para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro para a próxima edição do Oscar, Madeo dificilmente conseguirá uma vaga entre os finalistas. Digo isso não porque ele não mereça. Mas é que o estilo e a ousadia de Joon-ho Bong não me parecem adequados para os padrões dos votantes da Academia. Posso estar enganada, claro. Kim Hye-ja e o roteiro de Bong mereciam uma indicação. Como isso é praticamente impossível de acontecer, pelo menos o filme poderia ficar entre os cinco selecionados na categoria de produção estrangeira. O problema é o que o Oscar tende a selecionar filmes menos “obscuros” ou, vendo por outra ótica, mais “comerciais”. Madeo foge destes padrões. Mesmo merecendo estar entre os cinco – pelo menos por enquanto, analisando os filmes que já assisti e que concorrem a uma vaga nesta categoria -, para mim, ele ficará de fora da disputa.

Saw VI – Jogos Mortais 6 Novembro 8, 2009

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O terror de Jigsaw voltou a dar as caras com Saw VI. Divulgado como sendo o filme mais violento da série, esta nova produção repete boa parte da fórmula utilizada até aqui – no quesito sanguinolência e gosto por torturas e mortes brutais – ao mesmo tempo em que lança novas luzes sobre o idealizador dos jogos macabros. Deve agradar, por tudo isso, aos fãs de Jigsaw que acompanharam todas as produções até agora. Da minha parte, admito, não assisti a todos os filmes anteriores. Mas até que gostei desta nova produção, especialmente porque ela tenta se aprofundar nas motivações de Jigsaw mais do que simplesmente ocupar o tempo do espectador com novos aparatos de morte.

A HISTÓRIA: Uma mulher desperta com um estranho e pesado aparato metálico preso na cabeça. À sua frente, Eddie (Marty Moreau), seu parceiro em um negócio de agiotagem. Simone (Tanedra Howard) sabe, imediatamente, em que jogo macabro eles estão metidos e, por isso, tenta impedir que Eddie se movimente. Mas em vão. Quando ele levanta da cadeira, uma nova cilada de Jigsaw começa a correr no cronômetro. Com esta introdução cheia de automutilação e sangue o espectador é inserido em mais um conto estrelado por Jigsaw/John (Tobin Bell) que, mesmo morto, continua fazendo as suas vítimas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só contineu a ler que já assistiu a Saw VI): Serei honesta. Não tenho muita paciência com a série de filmes Saw. Assisti aos dois primeiros, mas depois me cansei. Diferente dos antigos filmes estrelados por Jason Voorhees ou Freddy Krueger que eu gostava de assistir nas sessões de madrugada, Jigsaw é um “astro” dos filmes de terror muito mais sanguinolento e sádico. Um pouco acima do tom, para o meu gosto. Digo isso porque, ao receber a “missão” de assistir a esta sexta produção estrelada pelo “assassino justiceiro”, eu tive que buscar críticas dos filmes anteriores para entender tudo o que se passava. Primeira dica: para entender completamente o que ocorre em Saw VI, só tendo assistido a todas as produções anteriores.

Diferente de outras produções lançadas sobre um mesmo personagem, Saw VI exige que os espectadores estejam bem familiarizados com a história. Do contrário, fica difícil acompanhar o roteiro de Marcus Dunstan e Patrick Melton. Mas, ao mesmo tempo, esta escolha dos produtores da série faz com que o filme não perca tempo explicando o que os fãs já sabem. Quem estava ansioso, por exemplo, para saber o conteúdo da caixa entregue para Jill (Betsy Russell) como herança de John no filme passado, terá a sua curiosidade saciada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como era de se esperar, a tal caixa trazia novos alvos para os jogos mortais.

A vítima principal, desta vez, foi William Easton (Peter Outerbridge), vice-presidente da Umbrella Health, uma seguradora que determina quem “vive ou morre” através de uma fórmula que calcula os riscos de cada plano de saúde. Claro que tal fórmula, criada por Easton, sempre privilegia a empresa – nunca o segurado. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Entre outras “vítimas” da Umbrella Health estava o rico John que, mesmo podendo pagar do próprio bolso o seu tratamento, não se conforma com a política antiética de Easton. Não podendo se vingar em vida, John cuida para que seu alvo passe por longas provações através de outras mãos.

Como ficou evidente no filme anterior, o cúmplice de Jigsaw em seus planos de vingança é o detetive Hoffman (Costas Mandylor). A cena em que ele se livra do agente especial Peter Strahm (Scott Patterson) volta a ser repetida após os créditos iniciais do novo filme. Saw VI, aliás, é cheio de cenas de flashback e de vídeos gravados por John – graças a eles que o personagem se torna tão presente na nova trama. O roteiro de Melton e Dunstan corre, paralelamente, em três direções: nas investigações sobre o novo crime que repete o “modus operandi” de Jigsaw; no novo plano de vingança de John e na revelação de novos detalhes sobre a relação que o protagonista mantinha com Jill e Hoffman.

Em meio a “tanta história”, como é costume nos filmes da grife Saw, o espectador é “brindado” por várias cenas de assassinato e tortura estreladas por diferentes aparatos criados para estes fins. Neste quesito, sobra pouco para ser inventado – afinal, este é o sexto filme que tenta trazer novidade neste sentido. Ainda assim, Saw VI deve agradar aos fãs da grife por suas sequências com jogos mortais e, especialmente, por trazer um roteiro que se aprofunda um pouco mais nas motivações e na “filosofia justiceira” de John Kramer.

Agora, uma pequena reflexão sobre o sucesso da série Saw. Sei que vocês podem comer o meu fígado por isso (não literalmente, eu espero… hehehehehehe), mas acho, honestamente, que a série desperta no público uma certa “saciedade” do gosto pela punição dos aproveitadores, dos que não tem caráter e daqueles todos que não parecem ter um senso mínimo de moral. Pelo menos é isso o que sugere Jigsaw e seu espírito vingador e, ao mesmo tempo, que tenta “despertar o gosto pela vida” de quem parece não ter apreço por ela. Seria a série Saw uma forma das pessoas verem a sua própria necessidade por “justiça” saciada? É uma forma de ver este fenômeno… Ainda que eu ache que é preciso ter um bom gosto mórbido para curtir tantas cenas de violência e mutilação.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Certamente, muitos leitores deste blog devem ficar surpresos com as notas que eu tenho dado recentemente para alguns filmes. Como, por exemplo, dedicar uma nota 8,5 para Saw VI. Quero deixar claro – ainda que eu já tenha falado disso anteriormente – que eu avalio os filmes dentro de seus próprios contextos. Ou seja: nunca poderei comparar jabuticaba com mamão. Em outras palavras, é impossível medir com o mesmo peso e a mesma medida uma comédia romântica, um filme de terror ou uma animação – só para citar as últimas críticas. Avalio, sempre, os filmes dentro do que eles se propõe e dentro, principalmente, da história de cada gênero. Certo? Por isso eu posso sim dar uma nota maior para um filme totalmente “interesseiro” como Saw VI do que para uma produção “artística” como De Profundis. Espero que eu tenha me feito entender – e se não fiz, sinto muito aos que acompanham o blog. :)

Comentei, recentemente, sobre Saw VI no Pílulas Vermelhas. Como eu dizia por ali, realmente, eu não tinha intenção de falar sobre este filme aqui no blog… mas a notícia da “censura” espanhola me chamou a atenção. E, como ocorreu com outros filmes que eu comentei recentemente aqui no blog, só assisti a nova produção estrelada por Jigsaw pela força dos compromissos. Me pediram uma crítica sobre o filme e… voilà, eu o assisti. Mas, francamente, este e outros filmes que comentei recentemente não estariam nem entre as 10 próximas produções escolhidas para ocupar meu tempo. Mas paciência… trabalho é trabalho. ;) E até que, algumas vezes, nos surpreendemos positivamente com algumas encomendas como estas.

Falando em “censura” do Ministério da Cultural espanhol, agora que eu assisti a Saw VI posso afirmar sem sombra de dúvidas: foi um exagero deles terem classificado este filme na categoria X. Lembrando – para os que não leram o meu comentário no Pílulas Vermelhas – que Saw VI foi o primeiro filme de terror a receber a classificação X, até então restrita aos filmes pornô, na história da Espanha. O ministério definiu esta classificação alegando que o filme fazia “apologia da violência”. Francamente, se era para dar esta classificação para Saw VI, todos os filmes anteriores da grife mereciam o mesmo “selo”. E não apenas eles, mas outras produções que exploram detalhes de assassinatos e torturas – a lista é um bocado grandinha nestes termos.

Vários personagens importantes para a “saga” de Jigsaw voltam à cena. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Entre eles, Amanda Young (Shawnee Smith), a agente Perez (Athena Karkanis) e Lynn (Bahar Soomekh). Muitos deles, claro, aparecem apenas através de flashbacks – afinal, eles estão mortos. Um dos acertos do novo roteiro é o de lançar novas informações sobre o final de Saw III – os filmes, os fãs da série sabem, não seguem, necessariamente, uma ordem sequencial.

O diretor Kevin Greutert, editor dos outros cinco filmes da grife Saw, faz um bom trabalho com esta nova entrega. Na verdade, ele faz um trabalho correto, mas pouco inventivo. O filme caminha bem graças ao roteiro da dupla Dunstan e Melton que, inclusive, está escalada para o próximo filme sobre Jigsaw. Mas um problema de Saw VI, para mim, foi a acelerada que a produção dá no final, com uma edição cheia de cortes rápidos um pouco exagerados. Esta parte destoa demais do restante do filme – mas deixa claro, para o espectador, que haverá uma nova produção com jogos mortais.

Falando no próximo filme, Saw VII está, atualmente, em fase de pré-produção. Mas os produtores já adiantaram que ele será dirigido por David Hackl, o homem por trás de Saw V – o que, para muitos fãs, não é exatamente uma boa referência. Existe a possibilidade do filme ser feito em 3D. Se confirmada esta hipótese, ele talvez não fique pronto para o Halloween em terras estadunidenses de 2010 – época em que ele tem sido lançado desde o segundo filme da “saga de Jigsaw”. Além do protagonista interpretado por Tobin Bell, está confirmado o nome de Tanedra Howard para o próximo lançamento – a mulher sem braço poderá buscar vingança após sair do hospital? É uma hipótese…

Ainda é cedo para saber o quanto Saw VI irá faturar nas bilheterias dos Estados Unidos e dos demais países. Mas sabemos que, apenas em duas semanas em cartaz na terra do Tio Sam, o filme arrecadou pouco mais de US$ 22,5 milhões. Uma marca importante – e que demonstra como a fórmula ainda não está totalmente desgastada.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para o novo filme de Jigsaw – a melhor avaliação desde Saw II. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 24 críticas positivas e 30 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 44%.

Uma curiosidade: Saw VI é uma co-produção dos Estados Unidos, do Canadá, do Reino Unido e da Austrália – o primeiro filme, dirigido por James Wan, tinha recursos apenas do primeiro e do último país citado.

CONCLUSÃO: O mais novo filme sobre Jigsaw mistura trama policial, drama e novos jogos mortais para agradar em cheio aos fãs da grife. O resultado é um filme que se aprofunda nas motivações e na “filosofia vingadora” de John Kramer na mesma medida em que revela o conteúdo da caixa deixada por ele como herança para sua parceira Jill. Saw VI começa com cenas fortes de mutilação e sanguinolência para, depois, desacelerar o ritmo e, como pede uma narrativa clássica, voltar a acelerar sua narrativa perto do final. Para o que este filme se presta, ele é bem feito e envolvente. Recomendado, especialmente, para quem assistiu aos filmes anteriores da série.

De Profundis Novembro 8, 2009

Posted by Alessandra in Animação, Cinema, Cinema espanhol, Cinema europeu, Crítica de filme, Movie.
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Sempre que um cinema não é acostumado a produzir determinado tipo de filme, o desafio se torna ainda maior para seus realizadores. A Espanha, por exemplo, não tem uma grande tradição em filmes de animação. De Profundis, obra escrita e dirigida por Miguelanxo Prado, por isso mesmo ganha certa importância na filmografia espanhola. Esta produção nasceu cheia de boas intenções e, francamente, com algumas imagens e uma trilha sonora belíssimas. Mas seu principal problema é a sua duração. O trabalho de Prado e do compositor e músico Nani Garcia não sustenta os aproximadamente 70 minutos de duração do filme. De Profundis seria muito mais interessante se durasse metade deste tempo.

A HISTÓRIA: Em uma casa em meio ao mar, existe um estúdio com algumas obras que projetam a vida nas profundezas das águas. Peixes coloridos, sereias e um barco estilizado são alguns dos protagonistas daqueles quadros. Abaixo, nas escadarias da casa que vão dar no mar, uma violoncelista de cabelos vermelhos toca uma música encantadora a espera de seu amado. Ele, o artista dos quadros, passa perto da casa. Viajando junto à pescadores da região, o artista busca na lida dos trabalhadores do mar a inspiração para suas obras. Mas um acidente irá levá-lo para lugares que ele nunca imaginou visitar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a De Profundis): A intenção dos realizadores deste filme resume bastante o produto final que o espectador pode assistir. De Profundis, claro está, não foi planejado para chegar ao grande público ou para ser um fenômeno nas bilheterias. Miguelanxo Prado tinha claro, quando pensou em um projeto como este, que ele cairia no gosto de poucos. E isso se deve, basicamente, pelo caráter artístico de sua obra.

Para começar, é preciso comentar que De Profundis é um filme sem diálogos e que, basicamente, é narrado por suas imagens e pela música. A intenção de Prado e do compositor Nani Garcia era a de criar um “poema visual”. Para conseguir tal feito, o diretor utiliza técnicas de animação digitais em 3D aplicadas sobre a base de 15 mil desenhos feitos por ele a lápis de cor e também em óleo, aquarelas e pinturas nas quais foram utilizadas técnicas mistas. Para realizar esta produção, uma das únicas do gênero no mundo, Prado levou quatro anos de trabalho – dois para as pinturas e desenhos e outros dois para o restante do processo.

O resultado deste trabalho é um filme envolvente, na maior parte do seu tempo, e que apresenta uma profusão de cores e, principalmente, de nuances de azul para os espectadores. Somos convidados a mergulhar junto com o protagonista desta animação pelas águas mais profundas e misteriosas, conhecendo uma versão muito particular de Prado dos seres que habitam (de forma real ou ficcional) aquele entorno marinho. Como a base do filme são as obras do diretor, para dar “cadência” para a história Prado utiliza técnicas de movimento secundárias e terciárias, como a aproximação de quadros, closes, panorâmicas, entre outros recursos que buscam exprimir movimento de imagens estáticas. Esta característica do filme ganha interesse do espectador durante parte da história – mas, lá pelas tantas, a narrativa da produção fica tão morna e um tanto repetitiva que chega a cansar.

De Profundis conta uma história de amor entre um artista e uma música e, também, um conto de amor do artista para com sua arte e seu objeto de admiração, o mar. Lírico e bem desenhado, o filme merece uma chance – mas é bom que o público esteja preparado para o que irá assistir. Segundo seus produtores, De Profundis é voltado para o público jovem e de adultos – crianças, na verdade, dificilmente aguentariam esta obra de arte sem diálogos. A intenção de Prado, volto a dizer, é muito boa, mas sua história acaba sendo singela demais para sustentar 70 e tantos minutos de projeção. Faltou, talvez, um pouco mais de ousadia ou de surpresas na própria narrativa.

Como qualidades deste filme, destaco o tom onírico de parte da obra de Prado. O artista mistura cenas da vida mais simples, da lida de homens com o mar, com imagens de sonho e de arte. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sabemos, por exemplo, até que ponto aquela viagem do artista pelo “fundo do mar” não é, nada mais, nada menos, que sua passagem da vida para a morte. Curiosamente, todas as cenas que ele presencia depois do acidente de barco refletem a sua própria visão do fundo do mar – seria coincidência ou uma projeção de Paraíso que ele próprio criou? Esta talvez seja a reflexão mais interessante que este filme provoca.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: De Profundis seria perfeito como um curta-metragem. Mas, no caso de seu realizador achar que um curta não seria suficiente para contar esta história, ela deveria ter, no máximo 40 ou 35 minutos de duração.

Esta animação teria custado econômicos 1,5 milhão de euros, desembolsados por uma produtora espanhola e por uma produtora portuguesa. As duas contaram com o apoio de diferentes organismos públicos e privados da Galícia, território limítrofe entre os dois países situado nas terras do Rei Juan Carlos.

Curioso que De Profundis nasceu de uma conversa de seu diretor com Nani Garcia em um restaurante. Prado desenhou, na cobertura da mesa daquele estabelecimento, a imagem de um homem submergindo no mar. Este homem, ao mesmo tempo em que flutuava na água, contemplava uma baleia. A partir desta imagem, Prado começou a criar outros desenhos que contassem a história daquele homem que vivia em sintonia plena com o mar e seus seres.

Miguelanxo Prado nasceu em A Coruña e se tornou, a partir dos anos 1980, um dos nomes mais importantes da Espanha no segmento de histórias em quadrinhos e de ilustrações. Ele acumulou, neste tempo, variados prêmios por seus trabalhos, que incluem ainda incursões em pinturas e desenhos animados para a televisão. De Profundis marca a estréia de Prado na direção de uma animação convencional para os cinemas.

Em entrevistas para diferentes jornais espanhóis, Prado comentou que seu filme, por se tratar de um poema visual, necessita das imagens na mesma medida que precisa da música. Mais que a história, comenta o diretor, para De Profundis o que interessa é são as reações que as imagens e a música podem provocar nos espectadores. “Esta é uma proposta poética, mais que narrativa”, sentencia Prado.

O parceiro de Prado neste projeto, o compositor espanhol Nani Garcia, se formou musicalmente na Suécia. Músico de jazz, produtor musical, compositor e regente, Garcia tem em seu currículo pouco mais de 50 trabalhos feitos para longas, séries de TV, peças de teatro, espetáculos de balé, documentários e exposições. Com o grupo Clunia, na Espanha, ele ganhou vários prêmios.

Criada por Garcia, a trilha sonora do filme é executada pela Orquestra Sinfônica da Galícia e tem participações, em algumas músicas, do Coro Cantabile e da cantora Ainoha Arteta.

De Profundis estreou, oficialmente – antes ele teve uma rápida participação no Festival de Sitges – no Palácio da Ópera de La Coruña, com o acompanhamento, ao vivo, da Orquestra Sinfônica da Galícia. Certamente, foi uma ocasião inesquecível.

Nesta matéria, Prado definiu seu filme como “um passeio onírico de um personagem através de uma história de amor alterada por seu mundo criativo. E é uma homenagem ao mar, nossa reserva de vida e esperança, e símbolo de nossos pesadelos e sonhos”.

Para os interessados em saber um pouco mais sobre o filme e seu autor, recomendo esta entrevista de Miguelanxo Prado para o jornal Público. Nela, ele comenta, entre outros detalhes, como sua obra, que classifica como “pintura animada”, não se aproxima em nada dos filmes da Disney ou da Pixar. Uma de suas intenções com De Profundis, ele comenta, foi a de “manter no filme uma série de coisas que desaparecem na animação tradicional, como é o caso da textura, da matéria, o traço pessoal do autor, o trabalho com a cor completa e não cores planas, etc.”.

Não há informações sobre o resultado nas bilheterias do filme, mas Prado afirma que ele não perdeu dinheiro ao entrar no circuito comercial de algumas salas de cinema na Espanha.

Nesta entrevista para o jornal El País, Prado comenta que havia pensado, inicialmente, no filme como uma obra para adultos, mas que se surpreendeu como crianças de 5 ou 6 anos haviam gostado do filme – mesmo não entendendo todas as suas nuances. Para o autor, sua obra é recomendada para os que não tem pressa. Outros detalhes sobre esta produção podem ser vistos nesta reportagem do jornal El Mundo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para De Profundis. O Rotten Tomatoes, por enquanto, abriga apenas uma crítica. Positiva, inclusive, e assinada por Jonathan Holland, da Variety.

De Profundis é uma co-produção espanhola e portuguesa.

CONCLUSÃO: Uma animação muito diferente do que estamos acostumados a assistir. De Profundis é uma obra de arte animada, produzida de forma muito autoral por seu criador, roteirista e diretor, o espanhol Miguelanxo Prado. Sem diálogos, este filme foi planejado como um “poema visual” que joga com as noções de amor, sonho, arte e criatividade. Uma grande homenagem ao mar e aos detalhes de um trabalho artístico, no qual ressaltam as texturas, o uso de luz e de variados nuances de cores. Mesmo abrigando imagens belíssimas, é um filme que cansa um pouco por sua duração. Ele poderia, definitivamente, ser mais curto. Recomendado apenas para quem poderá resistir a um ritmo muito diferente das produções comerciais da Disney, da Pixar e de outros estúdios onde predomina o cinema dependente de efeitos de computador. De Profundis nada contra esta corrente e investe em desenhos e pinturas, em um trabalho muito artesanal.

(500) Days of Summer – 500 Dias com Ela Novembro 8, 2009

Posted by Alessandra in Cinema, Cinema norte-americano, Crítica de filme, Movie.
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A fórmula das comédias românticas estava, há algum tempo, bastante desgastada. As produções do gênero sempre giravam em torno de uma história na qual um garoto se apaixonava por uma menina (ou vice-versa) e, depois de vários percalços, eles conseguiam ficar juntos. Ou então um casal que estava junto no início e que acabava se separando, passando por diversas provações até que, por fim, se unia novamente. Como ocorre com qualquer fórmula desgastada, de tempos em tempos, alguns roteiristas e diretores se unem para trazer novos ventos para um gênero. (500) Days of Summer aparece como mais um projeto bem-sucedido neste sentido. O filme apresenta um roteiro inteligente, que faz referência a uma série de “ícones” da cultura pop moderna, e um casal encantador e talentoso. Uma produção perfeita para agradar ao público feminino, espectador cativo das comédias românticas e, porque não, até mesmo ao público masculino por inverter alguns papéis tradicionais e resgatar o rock inglês dos anos 1980.

A HISTÓRIA: Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt) e Summer Finn (Zooey Deschanel) estão sentados lado a lado no banco de um barque parque. No calendário do relacionamento deles, este é o dia 488. Voltamos então para o primeiro dia desta história, quando o arquiteto Tom, que trabalha em uma empresa que cria e lança cartões para diferentes datas, conhece a Summer, a nova secretária de seu chefe, Vance (Clark Gregg). O narrador conta como Tom cresceu acreditando que jamais seria feliz, até que conhecesse “a” garota – tudo culpa do pop britânico e do filme The Graduate. Summer, por outro lado, nunca superou totalmente a separação dos pais e não acreditava na felicidade em um relacionamento duradouro. Mas Tom acredita que Summer é a “a” garota de sua vida e, por 500 dias, ele segue alimentando a crença de que existe apenas um grande amor em sua vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a (500) Days of Summer): Adoro roteiros inteligentes e com ótimas sacadas. E o trabalho de Scott Neustadter e Michael H. Weber neste filme é repleto destas qualidades. Para começar, com o jogo feito com o título. Como na maioria das músicas do pop rock inglês dos anos 1980 – algo fundamental para esta história -, o título original tem parte da informação entre parênteses e joga com o duplo sentido. (500) Days of Summer pode ser entendido como o período em que Tom ficou obcecado pela garota, Summer, ou pelo conceito de “dias de Verão” – que, para muitos, é o auge da adolescência e da descoberta amorosa. Bem sacado! E este é apenas um de inúmeros detalhes desta produção.

Não sei vocês, mas eu vinha de uma tendência a estar cansada de comédias românticas. A razão, é muito simples (e comentei sobre ela antes): ultimamente, as produções do gênero pareciam sempre “mais do mesmo”. Mas para a sorte de quem gosta de um bom filme, nos últimos tempos produções como He’s Just Not That Into You (comentada antes aqui no blog) e esta (500) Days of Summer têm aparecido para dar um novo ânimo às comédias românticas ao jogar com seus conceitos mais fundamentais – e tirando sarro deles, em muitas ocasiões. E isso, pelo menos para o meu gosto, é ótimo.

Os roteiristas e o diretor Marc Webb brincam com o conceito espaço e, principalmente, tempo neste filme com o super afinado e carismático casal vivido por Joseph Gordon-Levitt e Zooey Deschanel. Utilizando técnicas diversas, que vão desde a inserção de “vídeos” ao estilo caseiro até depoimentos que parecem fazer parte de um documentário e o recurso da tela dividida em narrativas diferentes e que correm paralelas, Webb se lança na procura de diferentes plataformas para prender a atenção do espectador. E o melhor é que cada mudança destas funciona por se justificar perfeitamente na história – elas estão, literalmente, colocadas na hora e no local adequado.

Mas para o grande público, que não se interessa tanto pelas características técnicas de cada produção, um dos detalhes que deve cair direto no seu gosto é a trilha sonora de (500) Days of Summer. Para o deleite de quem viveu os anos 1980 – ou quem, pelo menos, se interessa por esta época -, há uma profusão de música oitentista. A trilha começa por The Smiths, The Clash, e segue por Black Lips, Regina Spektor e, até uma aparentemente deslocada Carla Bruni. Tudo, absolutamente, funciona bem na levada musical desta produção. The Smiths, aliás, ganha um apelo todo especial nesta história porque, afinal, graças a banda de Morrissey é que Tom e Summer se aproximam.

O roteiro envolvente, cheio de referências e sacadas, também segura a onda em seu constante vai-e-vem temporal. Sempre com a ajuda de um estilizado contador de tempo, acompanhamos o fim do relacionamento de Tom e Summer e, depois, basicamente, o processo de conquista da garota e a dor de cotovelo do rapaz. (500) Days of Summer deve cair no gosto das meninas porque ele traz uma série de momentos “bonitinhos” – o sempre maravilhoso auge do amor – e, especialmente, um casal encantador.

Mas o curioso deste filme é que ele pode, também, cair no gosto dos meninos – que, normalmente, curtem este tipo de filme mais para acompanhar as suas namoradas e mulheres do que por uma escolha própria. Digo isso no geral, claro, sabendo que existe uma infinidade de exceções. Mas voltando ao que eu dizia… até o público masculino deve gostar deste filme porque, afinal, quem nunca se decepcionou no amor? (500) Days of Summer inverte os papéis tradicionais da “garota-que-acredita-no-amor-eterno” e do “rapaz-que-não-quer-compromisso”, inversão essa que talvez seja mais comum nos nossos tempos do que gostaríamos de admitir e, também por isso, deve agradar aos meninos.

A tentativa de Tom e seus melhores amigos, McKenzie (Geoffrey Arend) e Paul (Matthew Gray Gubler) em entender Summer e, de quebra, as mulheres, também deve agradar aos rapazes. Esse recurso é bem batido, é verdade, mas mesmo isso não atrapalha ao filme. Outro recurso muito conhecido é o de utilizar uma menina bem mais nova, no caso, uma pré-adolescente, para dar conselhos para o “marmanjo” do protagonista. Quem assume esta posição em (500) Days of Summer é a atriz Chloe Moretz, que interpreta a Rachel Hansen, que dá um baile de ironia e maturidade no seu irmão, Tom.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Uma curiosidade da história escrita por Neustadter e Weber é que ela toca em uma situação até que bastante comum na vida real: garotas (e também garotos) que tem uma certa resistência em se comprometer seriamente e que, depois de namorar por bastante tempo com uma pessoa, terminam esse relacionamento e, não muito tempo depois, conhecem outra pessoa com quem, finalmente, aceitam se casar. Isso é algo curioso e que realmente acontece. A questão é que, como Tom aprenderá com a experiência com Summer, cada um tem o seu tempo e a sua própria experiência em um relacionamento. Algumas vezes, simplesmente, a segurança necessária para se lançar em algo mais sério não aparece da mesma forma para um casal.

Além de todas as qualidades comentadas anteriormente, é importante dizer que (500) Days of Summer ganha o espectador pelos detalhes. Por exemplo, na inserção de esquemas e desenhos para explicar parte do que acontece com Tom ou Summer. A ligação destes traços visuais com a história tem a ver com a vocação de Tom, que se formou arquiteto. Gostei muito também das referências que o filme faz a outras produções. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mais do que citar/mostrar The Graduate, (500) Days of Summer brinca com o cinema “mais sensível e de arte” das escolas francesa e sueca, por exemplo – com homenagens escancaradas a Persona e Det Sjunde Inseglet, assim como para Star Wars (em uma genial inserção de uma cena de Han Solo) e Song of the South, quando da aparição do pássaro azul da sequência à la musical. Simplesmente genial e delicioso!

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Mesmo tendo uma coleção de momentos deliciosos, (500) Days of Summer poderia ter evitado alguns recursos que, para mim, estão batidos demais. Por exemplo, as linhas iniciais de “apresentação” do filme, que reforçam a idéia de “dor-de-cotovelo” dos realizadores. Convenhamos: tudo isso é forjado. Apenas um recurso a mais para ganhar a simpatia do público masculino. Se essa fosse a primeira vez que alguém utilizasse esse recurso em um filme, tudo bem. Mas desde os geniais do Monty Python o uso subversivo de mensagens em créditos iniciais ou finais não é mais novidade.

Apesar destes créditos iniciais “capengas” (por serem manjados), o filme logo convence com uma ótima edição e um texto do narrador que serve como introdução para o ótimo roteiro de Scott Neustadter e Michael H. Weber. Mas o filme “me ganhou” realmente nos créditos iniciais, com a tela dividida meio a meio apresentando supostos “vídeos caseiros” que mostravam a evolução dos protagonistas da infância até a adolescência. Perfeito – e totalmente pop! Aliás, merece destaque a ótima edição de Alan Edward Bell. Ele acerta na mosca, também, quando narra, novamente em uma tela dividida ao meio, a realidade e a expectativa de Tom sobre uma noite em que Summer lhe convida para uma festa.

Todos os atores estão muito bem neste filme. Mas admito que fiquei encantada com os protagonistas, excelentes, e com a menina Rachel, interpretada pela ótima Chloe Moretz. Ela, como em Little Miss Sunshine e outros filmes recentes com uma personagem do tipo, tem algumas da melhores linhas do roteiro para si. Sarcasmo e maturidade prematura no tom exato.

Marc Webb destila algumas das sequências de comédia romântica mais bacanas feitas recentemente – com especial destaque para o momento “compras” na loja da Ikea e para a sequência em que eles estão indo de carro para o cinema.

Uma observação consumista: adorei a parte em que Tom e a irmã estão jogando uma partida de tênis em uma Wii. Me deu saudades da minha… ;) E isto prova como este filme, mais do que a média dos últimos tempos, abriga alguns dos conceitos e dos produtos mais representativos do nosso tempo.

Totalmente recomendável aos que não assistiram a The Graduate, um dos melhores filmes deste gênero de todos os tempos, que o assistam. Sem dúvida, ele deixará mais claro alguns conceitos da relação de Tom e Summer – eu, inclusive, fiquei com vontade de assistir novamente a The Graduate.

Merece menção o trabalho de Mychael Danna e Rob Simonsen com a trilha sonora e o de Eric Steelberg na direção de fotografia.

(500) Days of Summer teria custado US$ 7,5 milhões e arrecadado, até o dia 1 de novembro, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 32,2 milhões. Um pequeno fenômeno de bilheteria que, certamente, chegou a esta multiplicação de lucros graças a boa e velha propaganda boca-a-boca. Merecido.

Como os bons filmes independentes fazem, (500) Days of Summer estreou no Festival de Sundance deste ano, em janeiro. Depois disto, ele participou de 21 festivais. Uma marca impressionante. Ainda assim, ele não ganhou prêmio algum até o momento.

Este filme conseguiu uma boa cotação entre público e crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para (500) Days of Summer, enquanto que os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 159 críticas positivas e 24 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 87%. A revista Empire, por exemplo, considerou o filme como um dos mais originais de seu gênero este ano.

E uma curiosidade: o filme favorito do roteirista Scott Neustadter é… adivinhem? The Graduate, é claro. ;)

CONCLUSÃO: Uma comédia romântica saborosa e inventiva. (500) Days of Summer brinca com o gênero ao qual pertence e destila uma série de referências da cultura pop, do rock inglês dos anos 1980 até várias produções do cinema. Bem escrito, com uma direção cuidadosa e uma dupla de protagonistas encantadora, este é, sem dúvida, uma das boas surpresas do gênero este ano. Por inverter alguns papéis tradicionais no jogo da conquista – algo que, novamente, reflete a nossa época -, este filme deve agradar tanto ao público feminino quanto ao masculino.

Das Weisse Band – The White Ribbon – A Fita Branca Novembro 4, 2009

Posted by Alessandra in Cinema, Cinema alemão, Cinema europeu, Crítica de filme, Filme premiado, Movie, Oscar 2010.
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A maldade surge e se espalha no silêncio, entre cúmplices e em uma comunidade que permite a sua presença. Das Weisse Band, o premiado filme do diretor alemão-austríaco Michael Haneke, é uma das produções mais apontadas para figurar no próximo Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro. Gostei dele, mas não tanto quanto dos outros dois concorrentes que comentei anteriormente aqui no blog. Filmado em preto-e-branco, Das Weisse Band é uma alegoria. Ele revela, através de estranhos e infames acontecimentos em um pequeno povoado alemão, como uma nação pode sucumbir à maldade e, ao mesmo tempo, acreditar que determinadas pessoas merecem ser punidas – em outras palavras, explica a origem do fascismo. Religião, exploração do trabalho alheio, traições, violência contra crianças (e feita por elas também), diferentes tipos de dominação são parte do repertório deste drama celebrado pela crítica.

A HISTÓRIA: O narrador do filme comenta que irá contar uma história que não sabe, até que ponto, é verdadeira. Muito do que o espectador verá não foi presenciado pelo narrador, que apenas “ouviu falar” sobre alguns dos fatos mostrados. Ainda assim, ele acha importante contar o que ocorreuem sua pequena aldeia como forma, talvez, de revelar parte do que aconteceu com seu país. Assim, sua narrativa começa com um acidente envolvendo o médico da aldeia (Rainer Bock). Um dia, voltando para casa de um adestramento na casa do Barão (Ulrich Tukur), ele foi pêgo em uma armadilha colocada no jardim de sua residência. Um arame esticado entre uma árvore e uma cerca derrubou o cavalo do médico e o tirou de circulação por alguns meses. Mas este seria apenas o primeiro de vários eventos marcantes na aldeia, que passaria ainda por outros acidentes, atos de vingança e tortura.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Das Wesse Band): Junto ao título original deste filme, segue a frase “Eine deutsche Kindergeschichte”, que significa “uma história do alemão para crianças”. Como eu disse no início deste texto, Das Weisse Band é uma alegoria sobre o fascismo na Alemanha. Através da história do povoado do professor/narrador (Christian Friedel), o espectador é apresentado a uma série de conceitos que permitiram que aquele país se tornasse decisivo nas 1ª e 2ª Guerra Mundiais. E que seu líder, Adolf Hitler, superasse os ensinamentos fascistas de Mussolini.

Uma das características interessantes do filme é que ele não pretende desvelar uma história, explicando com clareza o que ocorreu em determinado tempo e espaço. Não. Michael Haneke elaborou um roteiro que se baseia no testemunho de um homem bom, curioso e, por sua posição social, um dos mais preparados da aldeia mas que, ainda assim, se mostrou “cego” em relação aos problemas que ocorriam ao seu redor. Provavelmente através da figura do professor/narrador, Haneke fez a sua crítica para a “intelectualidade” alemã naquele período e na fase posterior da vida pública do país, quando eles permitiram que o fascismo crescesse e se multiplicasse – e, junto com ele, as variadas ações de “escolha dos melhores” para a sociedade alemã.

Mas voltando ao filme… não deixa de ser curioso como vamos nos enredando em histórias menos importantes até que, no final, Haneke segura nosso rosto em direção ao que deveríamos ter percebido desde o início. Algo de muito errado estava acontecendo naquele local, mas histórias como a do professor e de sua amada Eva (Leonie Benesch) nos desviam a atenção – como, certamente, boa parte da população alemã teve sua atenção desviada dos horrores das guerras em outras direções, como das conquistas nos esportes, pela propaganda nazista e pelo crescimento da economia. Sem dúvida uma das histórias mais impressionantes envolve a família do pastor (o veterano premiado Burghart Klaussner). Seus filhos, Klara (Maria-Victoria Dragus) e Martin (Leonard Proxauf) estão envolvidos no centro da trama.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pode incomodar a muita gente o fato de que Das Weisse Band não coloca um pingo final e conclusivo na história. Afinal, foram mesmo as crianças e jovens da aldeia que provocaram o acidente com o médico e a tortura do filho do Barão e de Karl (Kai-Peter Malina), filho da parteira da aldeia (Susanne Lothar)? Tudo leva a crer que sim, especialmente pela reação do grupo na primeira e na última situação, quando eles atuaram em conjunto para “silenciar” quem poderia ir contra eles. Mas e se não foram as crianças e jovens os causadores daqueles atos?

De qualquer forma, o importante desta história é a forma com que os habitantes da aldeia reagiram frente a estes fatos. (SPOILER – não leia… você sabe). Mesmo tendo ficado “perplexos”, desconfiados e sentindo-se ameaçados – segundo o narrador da história -, os moradores da aldeia não ousaram investigar o que havia ocorrido ou, sabendo de algo, acusar aos culpados. Como ocorreria no país pouco depois, durante as guerras, os alemães preferiram silenciar e encobrir os criminosos e seus delitos. Provavelmente porque concordavam com suas práticas, acreditavam que haviam pessoas que deveriam ser excluídas do convívio social de “pessoas superiores”. Desta forma, eles se tornaram coniventes com tudo o que ocorria ao seu redor.

Esta talvez seja a principal reflexão do filme. Outra importante é a forma com que a violência e a maldade podem ser encobertas pelos bons modos e pela educação de uma sociedade “desenvolvida”. Das Weisse Band revela como desejos sexuais reprimidos acabam sendo saciados de alguma forma – muitas vezes torta, através de adultério e pedofilia, por exemplo. E quando não são saciados, podem resultar em mais violência – como nas reações do pastor e de seu filho Martin. Das Weisse Band resume, para os que não estão familarizados com a cultura alemã, muito dos conceitos e valores que formam este povo. Achei especialmente impactante o momento em que o véu das aparências cai por terra e que o médico confronta a  parteira, dizendo para ela tudo o que tinha reprimido por anos de convívio. Haneke, neste momento, destila alguns dos diálogos mais violentos dos últimos tempos.

Vale a pena citar também a simbologia da “fita branca” que dá título a esta produção. Segundo “ensina” o pastor e pai de Klara e Martin, ela deve ser utilizada para recordar as pessoas o valor da inocência e da pureza. Conceitos estes que, claramente, estão ausentes da vida dos personagens citados e, em geral, da população daquela aldeia. Os que querem preservar esta inocência e pureza devem, a exemplo da baronesa e de seus filhos, deixar o local antes de serem contaminados. A fita branca, naquela realidade, era apenas um pedaço de pano sem um valor real – como a maioria dos símbolos adotados sob pressão.

NOTA: 9 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A história ficcional narrada por Michael Haneke começa um ano antes do assassinato de Francisco Ferdinando em Saravejo que, por sua vez, desencadearia a declaração de guerra da Áustria contra a Sérvia (acontecimento este que resultaria na 1ª Guerra Mundial). Quatro dias depois, a Alemanha declararia guerra contra a Rússia e, dois dias mais tarde, contra a França, mudando a história do país para sempre. Para os que não lembram os antecedentes e os fatos que cercaram este primeiro grande conflito mundial, recomendo este texto curto e bem resumido sobre o conflito que colocou em choque os dois blocos de países europeus no início do século passado. Para os que não lembram, exatamente, o que significa o termo “fascismo”, aqui é possível encontrar uma rápida definição.

A história de Das Weisse Band se passa na “aldeia” de Eichwald. De fato, existe um vilarejo com este nome, na Alemanha, localizada na região de Brandenburg. O aeroporto mais próximo da cidade fica em Dresden, distante 56 quilômetros de Eichwald.

O filme de Michael Haneke foi o grande vencedor deste ano do Festival de Cannes. A produção levou três prêmios do evento: a Palma de Ouro como melhor filme; o Prêmio FIPRESCI conferido pela imprensa internacional e o Prêmio de Cinema do Sistema Nacional de Educação Francês. Para muitos críticos que estiveram presentes no festival, a Palma de Ouro foi entregue para o diretor austríaco graças à uma campanha, nos bastidores, feita pela presidente do júri, a atriz Isabelle Huppert, uma fã declarada de Haneke e com quem trabalhou em La Pianiste e Le Temps du Loup. Das Weisse Band foi premiado ainda pela FIPRESCI do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, na Espanha, como o melhor filme do ano.

Entre os críticos, o filme é um fenômeno. Enquanto os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para a produção, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram para o filme 18 críticas positivas. E isto é tudo. Não há nenhum texto negativo para Das Weisse Band. Até o momento, o filme de Haneke consegue uma impressionante – e rara – unanimidade no site.

Um dos textos que exalta o trabalho de Haneke é assinado por Peter Brunette, do Hollywood Reporter (disponível aqui, em inglês). Em sua crítica, Brunette afirma que Das Weisse Band é o melhor título da filmografia do diretor alemão-austríaco. Ele destaca a diferença entre os personagens adultos e infantis da história: os primeiros, normalmente identificados por suas posições na sociedade, enquanto os segundos por seus nomes. A idéia da hierarquia predomina no filme, para Brunette, assim como um código moral que deve ser imposto para as gerações mais jovens. As crianças são constantemente punidas, “tanto física como psicologicamente” por causa da menor infração – assim como as mulheres, que também são brutalizadas.

Nesta entrevista para o jornal El País, da Espanha, Michael Haneke, 67 anos, comenta que Das Weisse Band surgiu de sua vontade por filmar uma história que mostrasse como “todo ideal se perverte”. Nascido em Munique em 1942, Haneke adquiriu a nacionalidade austríaca e, com este filme, voltou ao seu país de origem para lançar um olhar sobre a geração que, pouco depois, abraçaria o nazismo. O título do filme, segundo o cineasta, faz referência ao “distintivo de pureza” que, na prática, não deixa de ser uma peça de ficção.

Logo na primeira pergunta, o cineasta mostra toda a clareza de suas intenções com Das Weisse Band: “Naquela época, o protestantismo religioso era muito rígido e a educação muito estrita. As autoridades eclesiásticas e os progenitores incucavam às crianças um rigor moral que não eram aplicados a seus próprios atos. As crianças se converteram em justiceiros porque acreditavam ser a mão direita de Deus. Isso ocorreu na Alemanha, e esta geração, 20 anos depois, criou o nazismo. Este filme não é apenas sobre as origens deste movimento, mas também sobre todos os terrorismos ideológicos, políticos ou religiosos. Esse é um problema que afeta a toda a humanidade, porque isto pode ocorrer em qualquer lugar do planeta e em qualquer época da história”. Perfeito, não?

Na mesma entrevista, Haneke afirma que se sente obcecado pela idéia de filmar a culpabilidade. Achei especialmente curioso o fato de que o cineasta montou uma coleção de manuais de educação dos séculos 18, 19 e 20 em sua biblioteca. Esta coleção serviu de inspiração e apoio para o roteiro de Das Weisse Band, especialmente no que se refere aos diálogos do filme.

Da parte técnica do filme, merece destaque, sem dúvida, a belíssima fotografia em preto-e-branco de Christian Berger. A edição, de Monika Willi, antiga colabora de Haneke, também se revela importante para a qualidade da obra.

Das Weisse Band teria custado aproximadamente 12 milhões de euros para ser produzido.

CONCLUSÃO: Um filme inteligente sobre a sociedade alemã no período pré-Primeira Guerra Mundial. O diretor e roteirista premiado Michael Haneke destila um texto potente que, de forma linear, conta a história da origem do fascismo entre os alemães. Neste seu conto, ele não poupa adultos ou crianças. Todos fazem parte de um “acordo” de “surdos, cegos e mudos” para que a maldade e a violência se criem e se disseminem. Filmado em preto-e-branco e narrado por uma testemunha ocular bastante omissa, Das Weisse Band provoca reflexão e repúdio. Mas por deixar muitas dúvidas no ar, esta produção pode incomodar uma parte do público. Da minha parte, não gostei do tom extremamente frio da história que, comparado a outras produções pré-candidatas ao Oscar de filme estrangeiro, se revela mais sombrio e com precisão cirúrgica do que o desejado. Ainda assim, Das Weisse Band toca em temas fundamentais e muito atuais, especialmente no que toca o extremismo religioso, ideológico e político, tão presente – e temido – em diferentes realidades.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Por enquanto, é difícil dizer, com certeza, se Das Weisse Band estará entre os cinco finalistas na categoria de melhor filme estrangeiro no próximo Oscar. Suas chances, contudo, são muito altas. Dos três filmes pré-candidatos que assisti até o momento, ele é o que tem a minha cotação mais baixa. Ele é bom, inteligente, bem filmado e bem escrito. Tudo isso é verdade. Mas, para o meu gosto, falta emoção nesta história. Talvez eu não aprecie histórias frias e calculistas como esta. Prefiro, por exemplo, a reflexão e o trabalho passional de Un Prophète, ou a singularidade da história de La Teta Asustada (ambos comentados aqui no blog, anteriormente). Ainda assim, não seria uma surpresa se Das Weisse Band vencesse seus concorrentes. É preciso esperar – e assistir aos demais concorrentes – para ver.

Un Prophète – A Prophet – O Profeta Outubro 31, 2009

Posted by Alessandra in Cinema, Cinema europeu, Crítica de filme, Filme premiado, Movie, Oscar 2010.
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Um homem é definido por suas circunstâncias. Mas não apenas por elas. Un Prophète abre a temporada de críticas das produções que disputam uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro do Oscar 2010 com maestria. Perfeito em cada detalhe, especialmente em seu roteiro, direção e no trabalho de seus atores, o representante francês para uma vaga no próximo Oscar mereceu os prêmios recebidos até agora – e os que virão. Un Prophète é um filme potente e possivelmente um dos mais realistas sobre a escola do crime chamada cadeia. Mas paralelo a esse tema, acaba ganhando protagonismo na história conceitos como perseverança, honra, conflitos raciais e de minorias, marginalização social, luta pela sobrevivência, entre tantos outros. Um filme complexo, crítico e sensível ao mesmo tempo.

A HISTÓRIA: O jovem Malik El Djebena (o fantástico Tahar Rahim) acompanha, na delegacia de polícia, a chegada revoltada de mais um preso. Ele acaba de ser informado por seu advogado (Rabah Loucif) que terá que cumprir uma condenação de seis anos de prisão. A caminho da penitenciária, ele guarda no velho tênis um bilhete de dinheiro e vê, pelo vidro do veículo, as últimas paisagens a que terá direito de vislumbrar por muito tempo. Chegando na prisão, ele vive sozinho, até que o grupo liderado por César Luciani (o excelente Niels Arestrup) lhe coloca contra a parede em um plano de homicídio dentro da penitenciária. Sendo obrigado a se aproximar dos bandidos da Córsega, Malik é visto pelos árabes, sua etnia de origem, como traidor. Para sobreviver dentro da prisão, ele se submete às ordens de Luciani, mas insiste em dizer que trabalha para si mesmo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Un Prophète): Este filme impressiona pela maneira natural e “simples” com que trata o drama do protagonista. Não há pirotecnia e nem exageros na direção, nos efeitos visuais ou especiais. Não. O que interessa ao diretor e roteirista Jacques Audiard é assumir a posição de uma testemunha ocular invisível da história de Malik. A câmera está sempre próxima do protagonista, presente o tempo suficiente para registrar seus diferentes momentos de tensão, medo, vergonha, dúvida e satisfação. Mas não assumimos os olhos de Malik, a narrativa não é feita em primeira pessoa – ainda que ela esteja centrada no rapaz preso aos 19 anos que vai se tornando um criminoso pior a cada momento de sua condenação. As câmeras de Audiard estão sempre próximas e, em alguns momentos, chegam até a revelar os sonhos e a imaginação do protagonista. Um trabalho que se aprofunda no cotidiano, na imaginação e nos desejos de um rapaz que não tem família ou perspectivas, mas que é colocado à prova constantemente.

Há muito tempo eu não assistia a um filme que questionasse de forma tão potente a questão das circunstâncias, do “destino” e da capacidade do homem em sempre fazer as suas escolhas – mesmo quando tudo pareça ir contra a sua própria autonomia. Malik tenta, a todo custo, fugir da “missão” imposta por Luciani de matar Reyeb (Hichem Yacoubi), um preso que tenta um acordo judicial em troca de dedurar os seus comparsas. Como praticamente todos os bandidos, Luciani também obedece a um superior. No caso de Un Prophète, o nome do “chefe” de Luciani é Jacky Marcaggi, que pede a cabeça de Reyeb. Sem querer arriscar um de seus homens, Luciani vê no isolado árabe Malik sua arma perfeita.

Não vou estragar as surpresas do filme, porque isso seria um pecado, mas queria comentar como Malik impressiona por sua paciência em esperar o momento certo para tudo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Inicialmente, ele tenta denunciar a coação de Luciani para o diretor do presídio, mas ele logo percebe que o chefe de detenção (Frédéric Graziani) come nas mãos do bandido corsário. No melhor estilo “ou mata, ou morre”, ele extermina Reyeb em uma sequência de forte impacto e verdade. E a partir deste momento, em uma de várias escolhas líricas dos realizadores deste filme, a vítima de Malik passa a conviver com ele. Em sua solidão, o “fantasma” de sua primeira vítima fatal lhe acompanha como seu único parceiro fiel. Culpa e absolvição estão em jogo, e não apenas neste caso.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De qualquer forma, Malik sabe os momentos certos de se submeter aos desejos e desígnios impostos por Luciani da mesma forma com que aprende muito rápido os caminhos para fazer os seus próprios negócios e alianças. O rapaz impressiona por sua perspicácia e, com suas atitudes, demonstra como mesmo no pior dos cenários e sob as mais duras circunstâncias o indivíduo ainda pode fazer o seu próprio caminho. Que este não fosse o caminho ideal ou desejado no início, mas pelo menos ele foi diferente do que os outros, que se sentem donos do destino de alguns, haviam traçado. Claro que Malik não havia planejado se tornar um assassino ou um traficante antes de entrar no presídio. Mas levado pelas circunstâncias, ele fez o que era necessário para sobreviver e, por mais absurdo que isso pareça, sair “limpo” desta experiência. E ele aprendeu muito no caminho.

Curioso como o protagonista, até entrar no presídio, não tinha uma ligação muito forte com suas origens. Não sabemos com detalhes as razões que o levaram a ser preso, nem sabemos muito sobre sua vida anterior, fora do crime. Mas no momento em que ele dá entrada no presídio, somos apresentados a algumas pistas importantes – que ganham mais detalhes quando ele se inscreve na escola da instituição. Tudo indica que ele foi abandonado pelos pais ou deixou a família muito cedo. Crescendo nas ruas, ele aprendeu a se virar muito rápido, cometendo pequenos crimes e estudando em um reformatório até os 11 anos. Quando passa pela triagem no presídio, fica subentendido que ele foi condenado por agredir a policiais – provavelmente após ter se envolvido em algum crime pequeno. Mesmo sendo de origem árabe, ele não seguia nenhuma religião. Por isso, não tinha problemas em comer carne de porco ou em ficar em uma ala em que não se previa orações pontuais como é costume entre os árabes.

Curioso como, ao ficar isolado do mundo, Malik se viu obrigado a olhar para si mesmo. Pouco a pouco ele foi aprimorando a própria capacidade de observação, aprendendo mais sobre suas origens árabes, seus costumes e religião. Também aprendeu sobre os corsários e sentiu na pele o preconceito que muitos árabes sofrem na França. Como nos morros dominados por traficantes, ele serviu como uma ferramenta para os poderosos – prestando serviços cada vez mais complexos para sobreviver. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Autodidata, ousado e inteligente, ele aproveitou o tempo que passou na cadeia para aprender a língua dos corsários, assim como aprendeu a ler e escrever corretamente. Ousado, ele se aproximou de pessoas que não faziam parte do círculo de Luciani, como o árabe Ryad (Adel Bencherif), que conhece nas aulas do presídio; e o traficante Jordi – O Cigano (Reda Kateb). Com eles, Malik consegue estabelecer parcerias que acabam sendo sua alternativa para sobreviver.

Un Prophète é um filme excepcional. Bem dirigido, com um roteiro perfeito e atores muito, muito competentes, não há o que questionar desta produção. Ela funciona com perfeição em cada detalhe. Gosto da levada sombria e acizentada da direção de fotografia de Stéphane Fontaine, por exemplo. A permanente sensação de que algo de muito ruim vai acontecer com Malik a qualquer momento mantêm o clima tenso da história – e o interesse do espectador. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O que irá acontecer com o protagonista depois que ele deixa a prisão, não sabemos. Mas o importante de Un Prophète não é apresentar um personagem perfeito ou que não irá sucumbir nunca mais ao crime. O que interessa desta história é a capacidade de Malik em sobreviver, em seguir vivo da melhor forma possível e, ao mesmo tempo, buscando a sua própria verdade.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Un Prophète mostra uma direção cuidadosa e inspirada de Jacques Audiard. A câmera orquestrada pelo francês está permanente em busca das imagens que expliquem, sem palavras, o que está acontecendo. Assim, temos closes das mãos de Malik quando ele dobra, cuidadosamente, a desgastada nota de dinheiro quando está indo para o presídio; ou os detalhes de como os presos fazem mercadorias ilegais entrarem no local de segurança pública através da cozinha ou da lavanderia. Malik vira “porteiro” na prisão e, assim, percebe a aprende com os detalhes do que acontece ao seu redor. Audiard está atento a cada um destes pequenos detalhes e, ao mesmo tempo, às nuances interpretativas de seus atores.

Para dar força a esta história, Audiard contou com o excelente trabalho de edição de Juliette Welfling. A sequência em que Malik incorpora a função de “olhos e ouvidos” de Luciani, ou quando o protagonista entra em ação em cenas de brutalidade e assassinato, revelam a importância de uma boa edição e da segurança do diretor neste filme. A verdade é que Audiard se cercou de profissionais muito competentes, o que fica evidente pela qualidade técnica vista nesta produção.

O roteiro de Un Prophète é assinado por Audiard e por Thomas Bidegain. Eles trabalharam sobre o texto original de Abdel Raouf Dafri e Nicolas Peufaillit, o primeiro, um dos novos expoentes do cinema francês. Misturando uma narrativa em certos momentos um tanto pop – com a já tradicional pausa para a inserção dos nomes de alguns personagens importantes – com uma levada essencialmente crua, Un Prophète segura o interesse do público em pouco mais de duas horas e meia graças, principalmente, ao trabalho do diretor e do ator principal, Tahar Rahim.

Ainda que pouco presente na produção, a trilha sonora de Alexandre Desplat se mostra fundamental em determinados momentos da história – como deveriam ser todas as trilhas sonoras de filmes.

Não deixa de ser curiosa a “população presidiária” mostrada pelo filme. Quando Un Prophète inicia, domina o cenário os presos políticos ligados à Frente de Libertação Nacional da Córsega – conhecida também como Armata Corsa. Segundo este breve texto da Wikipédia, o movimento político que defende a independência da Córsega frente ao domínio francês foi criado em 1976 e é conhecido por utilizar métodos similares ao da máfia italiana – o que fica evidente no filme. Mas, pouco a pouco, conforme os anos dentro da prisão vão passando, começa a crescer no presídio a população de muçulmanos, o que reflete a realidade da população carcerária francesa.

Segundo este texto de 2004, mais de 50% dos presos na França naquele ano eram muçulmanos. O intelectual Tahar Ben Jelloun comenta, nesta entrevista, por exemplo, que na maior prisão de Marselha (uma das cidades importantes para a história de Un Prophète), em 2002, quase 70% da população carcerária era de origem não-francesa. Estes são detalhes que tornam a narrativa do filme ainda mais realista, especialmente porque o tema de origem étnica e das diferenças religiosas e culturais joga um importante papel na história.

Un Prophète estreou no Festival de Cannes em maio deste ano. Ele não saiu com o prêmio principal do evento, mas garantiu o Grande Prêmio do Júri para o diretor Jacques Audiard. Este mês, a produção francesa se consagrou com o prêmio de melhor filme do 53º Festival de Cinema de Londres. Na ocasião, a atriz Anjelica Huston, presidente do júri, considerou Un Prophète um filme perfeito, acrescentando que ele tem a “ambição, a pureza de visão e a clareza de propósitos que o tornam um clássico instantâneo”.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para o filme. Até o momento, a crítica internacional falou pouco da produção. O Rotten Tomatoes, por exemplo, registra apenas uma crítica sobre Un Prophète. Assinada por Liam Lacey, do Globe and Mail, a crítica destaca a direção “sensacional” de Audiard e o “desempenho convincente” de Rahim como elementos fundamentais para que a audiência mantenha o interesse na história. O crítico também afirma que a história se mostra, algumas vezes, “desconcertante ao traçar as complexas alianças e rivalidades entre as gangues e seus chefes” no presídio.

Para o crítico Richard James, neste texto do In The News, Un Prophète apresenta um ritmo de ação “implacável” e, sobretudo, um drama sobre crimes “verdadeiramente original”, com um personagem principal que apresenta uma profundidade real. Estou totalmente de acordo com James, que ainda classifica as interpretações de Rahim como “soberba” e a de Arestrup como “fantástica”.

Um detalhe sobre Un Prophète: apesar de ser uma produção essencialmente francesa, o filme também recebeu dinheiro da Itália. No roteiro, são faladas três línguas: a francesa, a árabe e a corsa (que se assemelha ao dialeto toscano, tendo como base o idioma italiano).

CONCLUSÃO: Um filme potente e que busca o realismo no cotidiano de uma prisão francesa. Un Prophète se lança no árduo caminho de se aprofundar nos sentimentos e nas motivações de um jovem de 19 anos que cai em um presídio e se torna, pouco a pouco, um homem formado no mundo do crime. Com uma direção primorosa e um protagonista impecável, Un Prophète ganha destaque entre as produções do gênero pelo realismo e pela profundidade com que trata o seu personagem principal, como já foi citado. Mas, especialmente, este filme se destaca por equilibrar os elementos anteriores com um olhar sensível sobre a realidade, as fantasias, a imaginação e a capacidade de se conectar com o que acontece ao seu redor por parte do protagonista (ou, para alguns, pela forma com que seu sexto sentido é mostrado pela história). Como os grandes filmes do gênero, Un Prophète apresenta algumas cenas muito duras, inclusive de violência, mas todas perfeitamente justificadas. Uma grande história sobre valores e a incapacidade do sistema prisional em “reformar” criminosos especialmente bem contada.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Ainda é cedo para lançar um palpite certeiro sobre o futuro de Un Prophète no próximo Oscar – afinal, ainda tenho que assistir aos outros 63 pré-candidatos (porque La Teta Asustada eu já vi). ;) Mesmo assim, não tenho medo de arriscar: o candidato francês à estatueta mais cobiçada da grande indústria do cinema deve estar entre os cinco finalistas. Também acho que ele corre, desde já, como um dos grandes favoritos.

Em outras palavras, ele tem boas chances de ganhar. Quer dizer, isso se ele vencer outros candidatos muito fortes, como o alemão Das Weisse Band (o próximo na minha lista para ser assistido), o iraniano Darbareye Elly, o italiano Baaria, o coreano Madeo, o inglês Afghan Star e, (admito que essa é uma torcida minha), quem sabe, até mesmo o peruano La Teta Asustada. Este último, aliás, comentado aqui no blog. Não sei se a produção francesa terá forças para ganhar o Oscar de filme estrangeiro, mas acho que seria uma injustiça se ele ficasse de fora da lista dos finalistas.

Dance Flick – Ela Dança com meu Ganso Outubro 26, 2009

Posted by Alessandra in Cinema, Cinema norte-americano, Crítica de filme, Movie.
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Tem filmes que, muito antes de assistí-los, sabemos que será um desperdício de tempo. Mas somos levados a conferir estas produções por diferentes razões. Eu sabia que Dance Flick era a nova investida dos irmãos Wayans, os criadores da “onda besteirol” lançada com os dois primeiros Scary Movie. Então fui preparada para assistir a esta paródia dos musicais. Francamente, como muitos dos filmes da “nova geração” de musicais é mais do mesmo e apresenta uma história fraquinha, eu até achava que eles mereciam uma tiração de sarro. Mas, desta vez, os Wayans ficaram muito abaixo do que se esperava e conseguiram apenas fazer uma salada de frutas de referências de musicais com pouca carga prática de humor. O filme se mostra um bocado arrastado, com cenas de “dança” um pouco longa demais e, como qualidade, apenas algumas boas tiradas espalhadas pela produção aqui ou ali.

A HISTÓRIA: Em um ringue de dança, dois grupos se enfrentam. De um lado, a turma de Thomas (Damon Wayans Jr.) e A-Con (Affion Crockett), de outro, o grupo 409, liderado por Truck (Craig Wayans). Um acidente acaba dando a vitória para o 409. Com a derrota, Thomas e A-Con devem prestar contas para o mafioso viciado em comida Sugar Bear (David Alan Grier). Enquanto não aparece a oportunidade da dupla tentar uma revanche na dança, Thomas conhece a Megan (Shoshana Bush), uma garota do interior que vai morar com o pai alcóolatra depois que a mãe morre em um acidente de carro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Dance Flick): Como eu disse em repetidas vezes anteriormente, aqui mesmo no blog, as expectativas são fundamentais na nossa vida e na impressão que acabamos tendo da arte – e dos filmes, em particular. Grandes expectativas, normalmente, são ruins – exceto no caso de obras-primas. Dance Flick, claro, não me despertava nenhuma expectativa. Melhor dizendo, eu esperava ver a uma bomba. Talvez por isso, até eu não tenha considerado este filme um lixo assim tão monumental.

A verdade é que ele começa chato. Não sei vocês, mas achei aquela sequência inicial – e que, infelizmente, praticamente se repete no final, com pouca variação – muito chata e longa. Ok, eles querem exagerar nas coreografias para mostrar o absurdo que são estas sequências de “duelo” artísticos nos musicais… entendi a piada, mas ela podia ser mais curta e ligeira. Depois deste começo “descerebrado”, o roteiro escrito por cinco Wayans (comento sobre cada um deles mais abaixo, na seção “obs de pé de página”) parte para a apresentação da “heróina” da trama, a encantadora, ambiciosa e desajeitada Megan. Neste ponto o filme começa a melhorar.

A primeira grande sequencia do filme, para mim, foi o acidente com a mãe de Megan. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Muito boa a sacada do acidente de trânsito sugerir a participação de pessoas como Lindsay (Lohan, atriz), Brandy (cantora) ou Halle (Berry, atriz, que aparece como Mulher-Gato), celebridades envolvidas em casos recentes de violência no trânsito. Sim, o humor deles, algumas vezes, é pesado. Algo visto antes na filmografia dos irmãos Shawn e Marlon Wayans, criadores do Scary Movie.

Os irmãos, aliás, foram muito inteligentes. Eles começaram esta década tirando sarro dos filmes de terror, que voltaram no final dos anos 1990 e nestes últimos anos com força total, e fecharam os anos 2000 fazendo paródia de outro fenômeno deste período: os musicais. Na verdade, a tentativa deles era a de repetir o sucesso de Scary Movie – mas eles ficaram muito distantes disto. Primeiro, porque os nove anos que separam estes dois filmes (Dance Flick e Scary Movie) foram forrados de filmes do gênero “comédia-escrachada-e-autorreferenciada-no-cinema”. Depois, porque eles simplesmente não conseguiram manter a qualidade de seu roteiro.

Mas voltando a Dance Flick. O filme faz paródia de exatamente 23 cenas de dança e/ou personagens de diferentes filmes (não apenas musicais). O problema desta grande quantidade de referências é que há personagens colocados no meio da história sem qualquer lógica, como no caso de Ray (George Gore II), uma claríssima referência à premiada interpretação de Jamie Foxx no filme homônimo sobre Ray Charles. Em Dance Flick, ele aparece em cenas desastradas e que não tem nenhuma serventia para a história central. Por outro lado, a personagem de Tracy Transfat (Chelsea Makela), claramente inspirada na Tracy Turnblad interpretada por Nikki Blonsky no filme Hairspray é pouco explorada pela história dos Wayans.

O casal de protagonistas vive o clássico papel de “estudantes-de-origens-muito-diferentes-que-acabam-ficando-juntos-apesar-dos-pesares” e, claro, como em 99% dos musicais estrelados por jovens, por causa da dança. Shoshana Bush e Damon Wayans Jr. são bons atores, mas não tem a química adequada para convencer como o casal principal de Dance Flick. Apesar disto, individualmente, eles se saem bem. Mas o problema desta produção, além dos fatos já comentados, é que suas piadas são previsíveis e bobas demais, na maior parte das situações, e também por seus personagens, na maioria, caricatos demais. Um dos mais irritantes, para mim, é o do “mafioso” Sugar Bear que faz piadas, essencialmente, com seu peso e sua tara por qualquer tipo de comida. Um bocado patético.

Como passatempo, o filme talvez agrade aos que procuram mais argumentos para fazer piada dos musicais. Afinal, há piadas que fazem referência a clássicos como West Side Story, de 1961, ou Fame, de 1980, até filmes bem mais recentes, como a conhecidíssima cena da protagonista de Little Miss Sunshine, de 2006. Os Wayans atiram para todos os lados. E não deixa de ser um passatempo curioso encontrar, além das homenagens escancaradas, as outras 17 referências a filmes e séries de TV feitas no roteiro – e que vão de Edward Scissorhands até Brokeback Mountain. Dance Flick, aliás, resgata todas as categorias de piadas “infames” do mercado, apontando a metralhadora dos roteiristas para negros e brancos (e suas diferenças), alcóolatras, obesos, homossexuais e o estereótipo do adolescente norte-americano. Mas claro, ninguém esperava nada diferente de um filme como este.

NOTA: 4,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Dance Flick ficou léguas distante do megasucesso inesperado de Scary Movie. O filme do ano 2000 que tornou os irmãos Wayans conhecidos custou, na época, US$ 19 milhões e faturou, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 157 milhões. Um fenômeno. Dance Flick, por sua vez, teria custado aproximadamente US$ 25 milhões e faturado, entre os norte-americanos, pouco mais de US$ 25,6 milhões. Ou seja, ele mal se pagou.

Um acerto do filme, na minha opinião, é que ele segue um bocado a linha dos musicais – e de muitos filmes pornôs. Ou seja: o que menos interessa é a história central. Tudo que vemos em tela é uma desculpa para coreografias de dança (no caso do pornô, para cenas de sexo, evidente). E, claro, no caso de Dance Flick, a história do filme também serve como “desculpa” para as sequências de humor – ainda que boa parte das piadas tenha pouca graça.

Além dos atores já citados, ganha destaque neste filme o trabalho de Essence Atkins como Charity, irmã de Thomas e amiga de Megan; Christina Murphy como Nora, a “super-rival” da protagonista; e Brennan Hillard como Jack, um estudante gay que é o sonho de consumo de Tracy.

Como prometi anteriormente, vou comentar sobre os cinco roteiristas deste filme. Os irmãos Shawn e Marlon Wayans foram os responsáveis por Scary Movie. Junto com eles, assina o roteiro de Dance Flick: Keenen Ivory Wayans, irmão de Shawn e Marlon; Craig Wayans, primo do trio citado; e o diretor Damien Dante Wayans, sobrinho de Shawn, Marlon e Keenen.

Para completar o “filme em família”, fazem parte da produção Damon Wayans Jr., que interpreta o protagonista, sobrinho de Keenen, Shawn e Marlon; Kim Wayans, que interpreta a Ms. Dontwannabebothered, irmã do trio citado; Cara Mia Wayans, irmã de Damon W. Jr., que faz uma ponta como uma garota no clube; sem contar que Shawn, Marlon e Keenen ainda aparecem no filme em papéis secundários. Uma produção familiar, sem dúvida.

Dance Flick registra avaliações péssimas de público e crítica. Os usuários do site IMDb, por exemplo, deram a nota 3,2 para a produção. O Rotten Tomatoes, por sua vez, abriga links para 66 críticas negativas e 15 positivas – o que lhe garante uma aprovação de 19% ou, o que é o mesmo, uma reprovação de 81%.

CONCLUSÃO: O subgênero de filmes que tiram sarro de outras produções parece, realmente, não ter fim. Desde Scary Movie, a cada ano, é lançado um novo produto nesta linha. Mas Dance Flick, para mim, mostra um pouco o cansaço da fórmula. Isso fica evidente não apenas pela bilheteria minguada – se comparada com a produção que tornou os Wayans famosos no ano 2000 – assim como pela pequena quantidade de grandes sacadas dos roteiristas. Parece que a fonte está secando. Mesmo sofrendo com cenas de dança longa demais e com o excesso de personagens secundários, Dance Flick apresenta algumas grandes e raras tiradas geniais. Recomendado para os que não tem absolutamente outra opção melhor para assistir – e, preferencialmente, espere para que o filme chegue à TV. Não vale a pena desembolsar dinheiro para assistí-lo.