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We Own the Night – Os Donos da Noite

27 de novembro de 2007 14 comentários

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Volta e meia Hollywood apresenta algum filme sobre bandidos e mocinhos na noite de uma grande cidade dos Estados Unidos. E os bandidos esses normalmente são traficantes de drogas e os mocinhos, normalmente também, policiais ou detetives ou CIA/FBI e tal. Seguindo essa onda, We Own the Night parece um pouco “mais do mesmo”, ainda que o filme do diretor James Gray respeite o bom gosto visual e tenha bons atores no elenco. Fora isso, não há muita novidade no front.

A HISTÓRIA: O filme se passa no conhecido bairro do Brooklyn, na Nova York de 1988. Ali, Robert “Bobby” Green (Joaquin Phoenix) trabalha como o gerente de uma badalada boate. Ele é querido entre os principais clientes, tem uma namorada estonteante – Amada Juarez (Eva Mendes) – e é o preferido do dono do lugar, Marat Buzhayev (Moni Moshonov). O problema é que ele só tem tanto êxito em seu negócio como gerente de uma danceteria como essa – onde rolam drogas e, por baixo do pano, grandes negócios do tráfico liderados pelo sobrinho de Buzhayev, Vadim Nezhinski (Alex Veadov) – porque ninguém sabe de sua verdadeira história, ou seja, ninguém sabe que ele é filho do chefe da polícia Albert “Bert” Grusinsky (Robert Duvall) e irmão do recém-promovido capitão Joseph “Joe” Grusinsky (Mark Wahlberg). A atividade do irmão começa a afetar a Bobby quando, querendo mostrar trabalho, Joe lidera uma batida policial no clube em que Bobby é o responsável. Pouco depois, quando Joe sofre uma tentativa de assassinato, a dupla identidade de Bobby e a vida de cada integrante da família é posta em jogo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que comento à seguir partes importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a We Own the Night): Lendo o resumo o filme até parece interessante. E, na verdade, ele até passa por entretenimento. Mas eu achei a história toda muito arrastada, culpa talvez do texto meio óbvio demais do roteirista e diretor James Gray. Aliás, ele demonstra com o filme ser melhor diretor que escritor… realmente achei muitos diálogos muito fracos e o filme um pouco arrastado. Ainda assim, claro, tem bons momentos de tensão, especialmente na sequencia final, da perseguição de Nezhinski e de Buzhayev.

Também achei o filme interessante por mostrar a realidade da polícia no final dos anos 80. Fora isso, para ser franca, a história não conta nada de novo. Tem o tradicional “embate” entre irmãos – um querendo fazer tudo o que o pai manda e o outro sendo sempre o rebelde que “faz tudo conforme lhe dá na veneta” -, a relação pai e filhos, a busca por vingança, etc. Ou seja: nada de novo no reino de Abrolhos. Como falei em uma crítica anterior, de Trade, em que “sobrava” a história do gatinho, aqui vejo como totalmente desnecessária a “ajoelhada” de Buzhayev. Desnecessária e absurda, convenhamos.

NOTA: 6,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para não dizer que tudo no filme é fraco, Joaquin Phoenix está bem no papel de Bobby. Enquanto isso, achei Mark Wahlberg e o “monstro-sagrado” Robert Duvall apenas medianos. Eva Mendes faz o que sabe melhor: mostrar o corpo – o que deve agradar os marmanjos de plantão. E, nada mais.

No site IMDb o filme apresenta a nota 7,4, enquanto no Rotten Tomatoes ele registra 59 críticas positivas e 49 negativas.

Para mim, um dos pontos positivos do filme é o seu cartaz. Gostei do trabalho em preto e branco sobre os dois irmãos.

We Own the Night teria custado aproximadamente US$ 21 milhões – provavelmente um bocado desse dinheiro foi gasto na cena de perseguição de carros. Na bilheteria dos Estados Unidos, em três semanas, o filme faturou US$ 27,6 milhões. Nada mal! Conseguiu se pagar em apenas três semanas.

No Brasil o filme estreou no dia 15 de novembro – foi o sexto país a estrear We Own the Night, saindo na frente de 16 outros países, incluindo França, Inglaterra, Holanda, Alemanha e Espanha, onde ele vai estrear muito depois.

O filme tem pelo menos um grave erro de continuidade: na cena em que os irmãos Bobby e Joe estão frente aos chefes da polícia e em que Joe está meio “abalado” ainda, meio “perdido”, a câmera mostra Mark Wahlberg em pé e, no take seguinte, já sentado… erro de continuidade total.

PALPITE PARA O OSCAR: Não acho que We Own the Night concorra a nenhuma categoria principal. Talvez, se tiver sorte, pode chegar a concorrer em categorias técnicas, como efeitos sonoros, direção de fotografia, efeitos especiais ou algo do tipo. Não acho que ganhe nada.

CONCLUSÃO: Filme sobre o combate ao tráfico de drogas em Nova York no final dos anos 80 tendo uma família dividida entre policiais e um “dono da noite” no foco principal. Pode ser visto por curiosidade, mas não traz nenhum elemento novo que qualquer outro filme do gênero já não tenha mostrado – e, possivelmente, melhor.

Dogme XII – Italiensk for Begyndere – Italiano Para Principiantes

26 de novembro de 2007 Deixe um comentário

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Sempre achei interessante o cinema que não faz uso de grandes artimanhas para contar uma boa história. Desde os filmes menos produzidos de Hitchcock, ou os filmes noir dos anos 40 e 50, filmes-B de terror, um pouco do “cinema novo” brasileiro… até a política do Dogma 95 (achei um interessante artigo a respeito aqui), criada por um grupo de diretores dinamarqueses (os mais conhecidos desta corrente são Lars von Trier e Thomas Vinterberg). Pois eu já assisti a vários filmes interessantes frutos desta idéia, em que se preza menos os artifícios e mais a história e a naturalidade do que se está narrando. Pois agora assisti a Dogme XII ou Italiensk for Begyndere, um filme do diretor Lone Scherfig. Gostei dele, ainda que essa produção esteja “abaixo” de outras produzidas por essa corrente (como Festen ou Idiotern). Mas é um filme divertido e com boas atuações, que é o que importa.

A HISTÓRIA: Em uma pequena cidade da Dinamarca, várias histórias se cruzam. Começando pela chegada no local do padre Andreas (Anders W. Berthelsen), que está começando o ofício enquanto busca superar a recente morte de sua esposa. Enquanto o reverendo Wredmann (Bent Mejding) não deixa o local, Andreas se hospeda no hotel onde trabalha Jorgen Mortensen (Peter Gantzler), um grande admirador e amigo de Hal-Finn (Lars Kaalund), um ex-jogador de futebol que trabalha atualmente na lanchonete do estádio próximo. Jorgen e Hal-Finn frequentam classes de italiano. O curso chama a atenção de Olympia (Anette Stovelbaek), uma atendente de padaria que foi abandonada pela mãe e que vive com o pai doente (Jesper Christensen). Jorgen recebe a missão de demitir Hal-Finn, mas ao invés de fazer isso, ele recomenda que o amigo corte o cabelo. Desta maneira o ex-jogador conhece a Karen (Ann Eleonora Jorgensen), a cabelereira local que sofre com uma mãe enferma (Lene Tiemroth). Na lanchonete em que Hal-Finn trabalha, Jorgen conhece a italiana Giulia (Sara Indrio Jensen). Todos vão acabar se conhecendo e tendo as histórias interlaçadas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que no texto à seguir conto partes importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Italiensk for Begyndere): Como se pode ter uma idéia lendo o resumo deste filme, ele trata de vidas comuns, histórias “ordinárias” mas que, por isso mesmo, são interessantes. Afinal, são as histórias comum que guardam algumas das lições mais bacanas da vida.

Em Italiensk for Begyndere, por exemplo, um dos temas mais fortes e presentes é o de “como recomeçar”, seja depois de se ter perdido nossa âncora com o mundo – como um pai, uma mãe (ou ambos) ou nosso(a) companheiro(a) -, seja ao deixar para trás uma função social que parecia nos “defenir” – como é o caso da mudança no trabalho de Jorgen ou da demissão de Hal-Finn. Pois, o que você faz quando algo assim acontece com você? Os personagens da nossa história acabam um pouco que se “agarrando” uns aos outros e, para surpresa deles mesmos, se sentem mais fortalecidos, mais protegidos, até descobrindo novas relações e amores. Gostei do filme por isso. É um bom questionamento esse da perda e o roteiro, de maneira simples e tranquila, desenvolve com naturalidade o que seria uma das respostas.

A verdade é que a vida está cheia de surpresas e que é sempre possível recomeçar. Basta a pessoa estar disposta a ser “desafiada” pelo novo, pelo desconhecido, e mergulhar… mesmo em experiências ruins se pode tirar ouro, ou quase.

As interpretações dos atores são bem bacanas, competentes. Todos tem o tom exato em seus papéis. Gostei da direção de Lone Scherfig. O diretor dinamarquês faz um trabalho muito bom.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme, do ano 2000, ganhou um impressionante número de 19 prêmios e ainda foi indicado para outros 20.

Nos Estados Unidos o filme até que foi bem… faturou em 2002 pouco mais de US$ 4,4 milhões. Na Alemanha o filme também conseguiu uma boa cifra: pouco mais de € 4,7 milhões. Na Espanha, onde estreou em 2003, faturou outros € 1 milhão. Para uma produção com baixo custo, não está nada mal.

Italiensk for Begyndere foi filmado na cidade de Hvidovre, na Dinamarca, e em Venice, na Itália.

O filme segue todos os preceitos do Dogma 95, entre eles o de não permitir a câmera sobre tripés (tudo é filmado com a câmera na mão ou sob o ombro do cinegrafista); o de utilizar apenas iluminação natural (sem os conhecidos “holofotes” de Hollywood e demais escolas “tradicionais”);

No site IMDb o filme contabiliza a nota 7,2, enquanto no Rotten Tomatoes ele registra 71 críticas positivas e 11 negativas.

CONCLUSÃO: Um filme leve, divertido, ainda que trate de temas difícieis, como a morte de pessoas queridas e a perda de emprego. Vale por fazer parte da filosofia Dogma 95 mais que pelo resultado final em si.

Trade – Desaparecidos

26 de novembro de 2007 7 comentários

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O tráfico de mulheres e crianças para a prostituição é um problema grave e real, muito real. Quem vive fora do Brasil ou já viveu algum período de sua vida fora acompanha, uma vez ou outra, notícias a respeito de quadrilhas presas por esse tipo de crime. No Brasil os jornais também publicam algo a respeito, mas o destaque é menor. Afinal, no próprio país se sofre com esse tipo de crime sem ele ser, exatamente, de “exportação”. Sem contar o fato que nos países europeus, nos Estados Unidos ou Canadá o tema ganha maior “importância” porque estes locais são os “alvos” de destino de mulheres, crianças e homens que acabam sendo vendidos como antigamente se fazia com escravos. Como disse Antonio María Costa, diretor-executivo do Escritório das Nações Unidas para as Drogas e o Crime, “o tráfico de seres humanos é a escravidão dos nossos dias”. Pois justamente sobre esse tema que trata Trade, uma produção com algumas falhas mas com grande boa vontade e, porque não dizer, com grandes qualidades.

A HISTÓRIA: Adriana (Paulina Gaitan) celebra o aniversário de 13 anos com suas amigas quando chega em casa o seu irmão, Jorge (Cesar Ramos) com uma bicicleta. Para a menina, esse presente inesperado é muito mais do que ela poderia imaginar ganhar – Adriana vive com a mãe e o irmão em um bairro pobre da Cidade do México. Enquanto isso, chega no aeroporto Weronika (Alicja Bachleda-Curus), uma polonesa que comprou um pacote turístico para o México. Enquanto Jorge engana turistas que falam inglês na cidade, Adriana sai para estrear a sua bicicleta e é sequestrada por uma quadrilha que leva mulheres e crianças para os Estados Unidos para depois vendê-las através de um site. Antes de ser levada como mercadoria para fora do México, Adriana conhece a Weronika, também sequestrada pelo mesmo grupo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que o texto a seguir conta partes importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Trade): Um ponto positivo do filme é que ele começa bem, muito bem. Afinal, o tipo de mentira que pregam em Weronika é bem verdade. Há muitas empresas por aí que vendem “pacotes turísticos” ou “visados de trabalho” e, no fundo, tudo isso é nada mais que escravidão. Digo isso porque essas mulheres que saem de países pobres com tais promessas chegam no outro país e viram escravas, normalmente da prostituição. Direto se lê matérias a respeito aqui na Espanha, por exemplo. Os países do Leste europeu e da América Latina (especialmente o Brasil) são os principais alvos destas quadrilhas para trazer as mulheres e crianças. Também foi realista – ainda que menos – o sequestro de Adriana em uma rua da periferia do México. Se sabe que muitas quadrilhas realmente sequestram crianças e jovens em locais muito podres (isso quando não “compram” as pessoas de seus pais) para depois traficá-los como mercadoria.

Os problemas do filme começam, na minha opinião, depois do sequestro de Adriana. Afinal, como o irmão dela, Jorge, tem sorte, não? Fico impressionada. Por duas vezes, pelo menos, ele tem uma sorte fantástica! Vejamos: Cidade do México é uma metrópole, uma cidade gigantesca. E ele tem a sorte do garoto que pega a bicicleta da irmã passar justamente por ele pouco depois dela ser sequestrada! Uau!! Na vida real isso seria quase impossível, convenhamos. Além disso, quando o carro que ele está usando para seguir a quadrilha enguiça sem gasolina, outra vez ele tem uma sorte fantástica… depois de correr e chegar a um pequeno vilarejo, ele descobre que perdeu o rastro do caminhão. Mas, pouco depois, ele olha para o lado e… voilà, lá está o caminhão. Outra vez impressionante. Alguém pode dizer: “Ah, mas você está pedindo demais ao exigir lógica de um roteiro de Hollywood”. Não se trata disso. Em filmes menos “sérios”, como suspenses, filmes de terror ou ação, eu já vejo a falta de lógica como um ingrediente quase básico. Mas em um drama como Trade, com o roteiro de Jose Rivera (indicado ao Oscar anteriormente pelo roteiro de Diários de Motocicleta) baseado em um artigo premiado do jornalista Peter Landesman, não aceito esse tipo de “facilidade” do roteirista… ou seja: já que é para ser realista, porque não cuidar dos detalhes? Ainda que tenha essas pequenas falhas, Trade merece ser visto, claro.

Além de tratar de um tema importante – e pouco tratado no cinema – como é o tráfico de mulheres e crianças para a prostituição, Trade é uma história interessante sobre a busca por justiça e por fazer a diferença para uma pessoa que seja. O conto dos irmãos Jorge e Adriana também torna a história forte e bonita. Interessante a busca do policial Ray Sheridan (Kevin Kline) por sua redenção pessoal. E, no final, ele descobre que pode fazer a diferença de outro modo… e, ao invés de se acomodar ou de assumir uma postura de “vamos olhar para todo o quadro”, que é a postura dos responsáveis pela lei em Nova Jersey (cidade para onde as garotas são levadas), ele resolve salvar ao menos aquela família de mexicanos que ele tem à sua frente. É um grão de areia no deserto? Pode até ser, mas mostra como um grão de areia faz toda a diferença.

Fora os pequenos deslizes, gostei do roteiro de Jose Rivera e da direção do alemão Marco Kreuzpaintner. Aliás, essa última, para mim, foi exata, como um cálculo matemático. O diretor, com apenas 30 anos, não exagerou no drama e cuidou de manter uma câmera firme, um olhar quase documentarista do que estava acontecendo – sem grandes “rebuscadas” de estilo e sem cair no fácil recurso de “dramatizar” demais as cenas, o que poderia ter sido feito com extensos closes nas vítimas e tal.

Os atores estão bem, no geral. Além dos já mencionados, destaco a atuação dos vilões: Pavel Lychnikoff como Vadim Yochenko; Zack Ward como Alex Green e, principalmente, Marco Pérez como Manuelo. Falando nesse último, só achei a parte do filme próxima da conclusão também fora da realidade. Afinal, mesmo que tivesse toda a culpa do mundo, o personagem de Manuelo na vida real jamais ajudaria a salvar Adriana, ainda mais que, naquela situação, estava claro que ele iria se ferrar – morrer ou ser preso, pelo menos. Ah, mas o maior erro (ou exagero absurdo do roteiro) na minha opinião é o lance do gatinho no carro de Ray no final. Tudo bem que Jorge conseguisse deixar o dinheiro no carro, depois da operação policial, mas daí a conseguir um gato é um pouco demais. Totalmente absurdo e desnecessário – não fazia falta um gatinho na história, né?

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A história de Trade é baseada no artigo do jornalista Peter Landesman publicado no dia 25 de janeiro de 2004 no jornal New York Times Magazine. Em seu texto, Landesman trata da escravidão sexual de mulheres e crianças, denunciando a chegada de mexicanos para os Estados Unidos.

Entre as interpretações, destaco o grande trabalho de Alicja Bachleda-Curus, Paulina Gaitan e Cesar Ramos. Os três estão realmente perfeitos. Kevin Kline merece elogios por ter se envolvido no projeto – querendo ou não, por ser um nome mais conhecido, ele atrai público e interesse para o filme, o que é muito positivo.

Trade ganhou dois prêmios no Festival de Berlin: um especial, chamado Bernhard Wicki para o diretor Marco Kreuzpaintner e outro, chamado CineMerit, para o ator Kevin Kline.

A nota 9 para o filme se deve mais ao tema proposto, às interpretações e à direção do que ao roteiro em si. O roteiro é bom, quero deixar registrado, mas os “erros” que eu comentei antes acabam dando uma nota menor para o filme. No site IMDb Trade leva a nota 7,6. No Rotten Tomatoes o filme registra 13 críticas positivas e 39 negativas – os críticos, realmente, não gostaram da produção.

Gostei de dois dos cartazes do filme. Especialmente do que traz um código de barras sobre o corpo de uma menina. Mas já os cartazes dos personagens principais são bem ruinzinhos…

Admiro o ator Kevin Kline há bastante tempo já, mas ele ganhou vários pontos positivos com Trade. Não apenas por entrar no projeto – que não é nenhuma superprodução – mas também, e principalmente, por se envolver na divulgação do filme e do seu tema. Ele inclusive foi na ONU falar sobre o tema. Bacana.

Trade teria custado aproximadamente US$ 12 milhões e faturou, em três semanas nos Estados Unidos pouco mais de US$ 214 mil… ou seja: está indo muito mal na bilheteria. Talvez pelo relativamente baixo número de cópias nos cinemas: o filme estrou com 90 cópias no dia 30 de setembro e foi diminuindo para 33, 5 e 1 (!!) cópias até o dia 21 de outubro. Assim fica difícil faturar, ou não?

O filme é uma co-produção dos Estados Unidos com a Alemanha.

CONCLUSÃO: Um importante filme sobre o tráfico de mulheres e crianças para a exploração sexual. Tem várias falhas e exageros no roteiro, mas vale por mostrar parte da realidade das vítimas e dos algozes desta exploração moderna de pessoas. Vale ser visto.

Rendition – O Suspeito

23 de novembro de 2007 14 comentários

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Digam o que disserem a respeito de Hollywood, mas algo que eles tem de vantagem em relação a maioria das produções cinematográficas espalhadas pelo mundo – inclusive a brasileira – é a coragem de seus melhores roteiristas e diretores em falar de temas da atualidade. E temas delicados. No Brasil, por exemplo, alguém tem coragem de falar da corrupção política em um bom filme? Ou sobre a falta de distinção entre as lideranças de direita e de esquerda? Não, ninguém fala a respeito. E isso porque estou citando apenas dois temas atuais. Ok que Tropa de Elite é uma exceção, porque trata da violência no Rio, sobre corrupção policial e narcotráfico. Mas no demais, no Brasil parece que se vive em uma “censura” permanente, em uma ditadura que não terminou. Enquanto isso, nos Estados Unidos, se faz muito filme ruim e/ou de entretenimento apenas, é verdade. Mas também se produz filmes maravilhosos, alguns que são apenas entretenimento e outros que são um bocado filosóficos, mas existem outros que mexem em verdadeiros vespeiros. Rendition é um destes últimos. Ele não vai muito fundo no debate, eu admito. Mas ele conta uma história que incomoda, ainda que não seja baseada em fatos reais – mas que poderia ser. Parte do que se vê, afinal, é verdade.

A HISTÓRIA: O filme começa com a saída de Anwar El-Ibrahimi (o egípcio Omar Metwally) de um hotel no Sul da África. Pouco antes de entrar no carro, ele recebe uma chamada no celular. Sem saber quem lhe ligou, ele faz uma chamada para sua mulher, Isabella Fields El-Ibrahimi (Reese Witherspoon), que está na casa deles, em Chicago, brincando com o filho de seis anos, Jeremy (Aramis Knight). Em seguida, acompanhamos um dia normal na vida do agente da CIA Douglas Freeman (Jake Gyllenhaal) no Norte da África. Ele sai de casa para ir ao trabalho junto ao seu chefe imediato, William Dixon (David Fabrizio) mas, no caminho, eles presenciam um ataque terrorista na praça central da cidade. Com a morte de Dixon, Freeman assume o seu lugar e conhece o lado “obscuro” das investigações do governo norte-americano. Sob a ordem da senadora Corrine Whitman (Meryl Streep), Anwar é preso ao desembarcar nos Estados Unidos por ser suspeito de ter envolvimento com terroristas. Ele é torturado continuamente enquanto sua mulher viaja a Washington atrás de respostas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta partes importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Rendition): Mais uma vez tentei narrar o menos possível sobre o filme no resumo para não estragar surpresas. O que eu gostei nele, para começar, foi a incerteza que ele nos deixa sobre o envolvimento de Anwar no ataque terrorista. A dúvida persiste quase até o final – ainda que, no fundo, como acontece com o personagem de Douglas Freeman, nos parece que tudo que ele confessar nas condições em que está será para terminar com a tortura e com a dor pela qual está sendo submetido. Mas o roteirista Kelley Sane não se faz de rogado e nos deixa na dúvida até perto do desfecho.

Falando no roteiro, realmente acho que ele poderia receber uma indicação ao Oscar. Especialmente pela “jogada” de mestre de Sane em contar duas histórias aparentemente simultâneas mas que, depois descobrimos, não são simultâneas. (REALMENTE SÓ LEIA SE JÁ ASSISTIU AO FILME). Aliás, tenho certeza que algumas pessoas não vão entender isso muito bem e ficarão em dúvida. Mas eu vi o filme inteiro e, depois, revi algumas partes e, realmente, o roteirista não deixou nenhum ponto sem nó. Parece que as histórias da prisão e interrogatório de Anwar, assim como da investigação de Douglas Freeman e de Abasi Fawal (o ótimo Yigal Naor) sobre o ataque terrorista são simultâneas à história de amor entre Fatima Fawal (Zineb Oukach) e Khalid (Moa Khouas), mas não são. A esperança que se mantêm até o final de que a investigação poderá impedir um novo ataque terrorista – que é o que parece indicar a trajetória de Khalid – termina quando descobrimos a verdadeira história do ataque à praça da cidade. Descobrimos, então, que a história de Khalid e Fatima são anteriores ao restante da narrativa e, na verdade, são a explicação para tudo o que aconteceu. Bem interessante o trabalho do roteirista nesse sentido.

O filme me pareceu muito interessante por questionar a política dos Estados Unidos adotada depois dos ataques ao World Trade Center em 11 de setembro de 2001. A partir daí, realmente, o governo norte-americano adotou uma postura que possibilita que absurdos como o visto no filme possam acontecer. Claro, como diz a senadora Corrine Whitman no filme, foi através de tortura e prisão arbitrária que eles conseguiram “salvar 7 mil vidas em Londres” (se referindo ao ataque terrorista na cidade que não deu certo), mas e todas as injustiças que foram praticadas em nome dessa segurança? E a morte sumária e injusta do brasileiro Jean Charles na mesma Londres? Eu aposto meus poucos euros que tenho no bolso como muitos e muitos descendentes de árabes que vivem nos Estados Unidos há muito tempo, como Anwar, passaram por situações como a que vemos no filme, sendo torturados e/ou afastados de sua família apenas por suas origens.

Ok, alguém pode dizer que no caso de Anwar ele tinha recebido ligações no celular do homem que havia assumido o ataque terrorista. A verdade é que ele estava recebendo chamadas de um número desconhecido – quantos de nós já não recebemos chamadas assim? – e que isso, convenhamos, não é prova e nem justificativa para ele passar pelo que passou. Além do mais, o que me deixa admirada, é que ele estava fazendo negócios no Sul da África quando o ataque terrorista no Norte do país foi praticado. O simples fato dele estar no mesmo país e de ser egípcio lhe torna terrorista? Os Estados Unidos realmente estão muito equivocados.

Gostei da direção do sul-africano Gavin Hood. Acho que ele realmente mantêm o tom exato de ação e de drama, sem pender demais para um lado ou para outro. O filme tem bom ritmo e algumas sequências muito boas, com um cuidado técnico importante. Gostei especialmente do momento em que o personagem de Douglas Freeman questiona Abasi sobre a eficácia da tortura e pergunta se ele pode provar que cada pessoa que passa por experiência semelhante não alimenta 10, 100 ou mil novos inimigos para o seu governo. É a pura verdade. Ainda que nada justifique a violência, na minha opinião, mas se pode entender alguns atos extremistas quando se vê o abuso da outra parte.

Os atores estão bem, no geral, mas sem nenhum grande destaque. Meryl Streep faz quase uma participação especial no filme – seu papel é muito pequeno, realmente -, assim como Alan Arkin como o Senador Hawkins. O ator Peter Sarsgaard tem um papel um pouco maior como Alan Smith, o amigo desde o tempo da universidade de Isabella que tenta ajudá-la a saber sobre o seu marido.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A nota que dei para Rendition tem mais a ver com a coragem de tocar nessa ferida que é o tema da política norte-americana pós-11 de Setembro do que pelo desempenho do elenco ou outro fator. Também gostei muito do roteiro, o que lhe rende a nota comentada.

No site IMDb o filme recebeu a nota 6,5 – achei baixa, muito baixa. Pelo Rotten Tomatoes ele recebeu 73 críticas negativas e 61 positivas. Realmente o filme parece não ter agradado nem a crítica e nem o público.

Quanto a bilheteria, o filme teve um desempenho razoável… conseguiu pouco mais de US$ 9,2 milhões em duas semanas nos cinemas dos Estados Unidos.

Para quem gosta de saber das locações dos filmes (como eu), Rendition foi filmado em Los Angeles e em Anaheim, ambos na Califórnia; em Washington; em Cape Town, no Sul da África e em Marrakech, nos Marrocos.

O filme criou um burburinho na imprensa não por seu roteiro ou qualquer outro carácter técnico, mas por um suposto romance que teria sido originado em seus bastidores entre os atores Jake Gyllenhaal e Reese Witherspoon. Detalhe: os dois não contracenam em nenhum momento no filme. Ainda assim, segundo a imprensa, eles teriam começado um romance e terminado com ele pouco depois.

Achei curioso um fato. Buscando informação sobre o roteirista, vi que o último trabalho dele foi há 10 anos atrás, quando escreveu o roteiro e dirigiu o filme Franchesca Page, cotado com a péssima nota 3,6 no site IMDb.

O filme é uma co-produção dos Estados Unidos e da África do Sul.

PALPITE PARA O OSCAR: Pode ser indicado na categoria de roteiro ou em alguma outra técnica, mas não deve ganhar nada.

CONCLUSÃO: Um filme interessante por questionar a política estadunidense de prender sumariamente a suspeitos de terrorismo ou de ter alguma ligação com atividades terroristas. Bom roteiro, interpretações medianas, direção competente. Vale dar uma conferida.

A Guide to Recognizing Your Saints – Santos e Demônios

23 de novembro de 2007 Deixe um comentário

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Tem alguns filmes que apresentam uma intensidade que só um fator pode explicá-los: quem conta a história tem conhecimento total de causa. A Guide to Recognizing Your Saints é um destes filmes. Só o nome original já tinha me chamado a atenção faz tempo (algo como “Um Guia para Reconhecer seus Santos”). Na versão brasileira o filme ganhou o nome de Santos e Demônios – nem preciso dizer que prefiro o original, né? Mas ok, eu sempre discordando dos títulos adaptados… hehehehehehe. Mas como eu ia dizendo, o filme só apresenta a força que apresenta porque é dirigido por Dito Montiel, o mesmo homem que escreveu o livro homônimo e que, como já era de se esperar, viveu tudo o que narra na tela. Gostei demais. Tanto que lá vou eu quebrar pela segunda vez a hegemonia de American Gangster… hehehehehehe

A HISTÓRIA: O filme começa com Flori (Dianne Wiest), mãe do escritor Dito (Robert Downey Jr.), ligando para ele para avisar que seu pai, Monty (Chazz Palminteri) está muito doente e precisa ser hospitalizado. Em seguida, vemos a Dito sendo recebido com admiração em uma noite na Califórnia. Pouco depois, a história volta para o bairro do Queens, em Nova York, em 1986, quando somos apresentados ao Dito jovem (Shia LaBeouf). A partir daí, o filme conta a história de Dito e de seus amigos em uma cidade que já vivia a violência, o racismo, a falta de trabalho e as drogas nos anos 80, e de como ele lidou com tudo isso e o que fez de sua vida quase 20 anos depois, quando volta para o local.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto a seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu A Guide to Recognizing Your Saints): Tentei falar o menos possível do filme no resumo porque eu acho que ele realmente vale a pena ser visto e, como a maioria dos filmes do gênero, quanto menos se sabe antes, melhor.

Desde o princípio eu fiquei impressionada com a técnica do diretor e roteirista, Dito Montiel. Realmente ele tem talento. E o melhor é que o filme só vai melhorando. O começo, em que aparece Robert Downey Jr. fumando e lendo parte de seu livro, é brilhante. Assim como a narrativa da vida do garoto em 1986, quando o ator Shia LaBeouf fala para a câmera que ele vai abandonar a todos que aparecem no filme. O roteiro realmente é muito bom. Gostei tanto das intercaladas da “história real” do Queens anos 80, contando a vida de Dito, até a “revisão”, por assim dizer, desta história com ele adulto. Além disso, a técnica de utilizar uma ou outra vez o ator falando diretamente com a câmera ficou bem interessante. Diferente de outros filmes, esse recurso ficou perfeitamente casado com a história e não pareceu forçado. O mesmo com o uso das músicas… há pelo menos dois momentos chaves da história em que ela conta o sentimento do narrador e adianta o que vai acontecer ou, em outro sentido, une os vários personagens em uma mesma “aura”.

Fiquei impressionada também com o elenco. Não há, realmente, um ator ou atriz que destoem ou que esteja mal. Todos estão muito naturais em seus papéis – algo que parece mais “fácil” quando se tem talento mas, mais que isso, quando o roteiro é realmente verossímel – e imprimem uma força muito interessante ao filme. Além de Robert Downey Jr. (para mim em uma das grandes interpretações da sua carreira) e do garoto Shia LaBeouf, destaco Melonie Diaz, a garota que interpreta a jovem Laurie, paixão de juventude de Dito; Channing Tatum como o jovem Antonio (esse garoto realmente tem um estilo bem interessante de interpretar e faz um bom trabalho em um papel difícil); Chazz Palminteri como Monty, o pai de Dito (o ator está simplesmente fantástico); Dianne Wiest como Flori, mãe de Dito (também em uma interpretação primorosa e comovente); e Rosario Dawson como Laurie (ela tem a sorte de ter algumas das melhores falas do filme). Esses são apenas os que mais me chamaram a atenção, mas ainda vale citar o bom trabalho de Julia Garro como Diane, Adam Scarimbolo como Giuseppe, Peter Anthony Tambakis como o jovem Nerf, Scott Michael Campbell como Nerf adulto e Eric Roberts como Antonio adulto.

O mais interessante do filme é que ele trata de muitos temas. Mas talvez os mais fortes sejam a amizade, o amor entre pais e filhos – e os problemas que derivam deste amor quando a comunicação é impossível de fluir entre as pessoas -, a busca por uma vida melhor, os laços que nos unem às pessoas, a culpa, o sentimento de pertencer a um lugar ou a um grupo, só para citar alguns. O filme realmente me tocou por dois pontos: a relação de Dito com o pai e a sua dúvida em sair de casa para buscar algo melhor e deixar as pessoas que lhe configuravam como indivíduo para trás.

No caso de Dito e o pai, acho muito interessante como a história mostra a falta de comunicação entre eles. É como se cada um falasse um idioma diferente. Monty está sempre dizendo o que sente sem que Dito lhe escute e Dito está sempre dizendo ao pai o que deseja, anseia e sente sem que Monty lhe escute. O que acontece com eles é quase asfixiante e tão real. Se isso não acontece entre um pai e um filho ou filha, pode acontecer entre uma mãe e um filho ou filha ou entre um marido e uma mulher… enfim. Mas acontece.

O outro tema, do quanto Dito se sente dividido e, no futuro, culpado por escolher o caminho de sair de perto das pessoas de quem gosta e se preocupa também é muito forte. Afinal, o que nos faz sermos o que somos? Muitas coisas, é claro. Mas algo muito forte são os laços de amizade e amor que construímos quando somos jovens, seja com família ou com amigos. E abandonar tudo isso para buscar uma vida melhor ou uma vida fora da loucura que achamos que nos rodeia é muito difícil. Dito teve essa coragem mas, ao rever a sua história com esse filme, ele se culpa muitíssimo. Não concordo com ele de que ele abandonou a todos e que ninguém o abandonou. Com seu livro (que ainda não li, mas pretendo) e seu filme, ele comprova que nunca abandonou a ninguém.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Se o mundo fosse um lugar justo, A Guide to Recognizing Your Saints seria indicado ao Oscar. E a mais de um. Mereceria indicações para roteiro, pelo menos, e para Robert Downey Jr. Quem sabe até para Chazz Palminteri como coadjuvante. Mas isso se o mundo fosse justo. Como o filme não tem nenhum grande estúdio para fazer o seu lobby, acho mais provável que não seja indicado a nada – talvez a roteiro, apenas, e isso se ainda pode ser indicado.

No site IMDb o filme contabiliza a nota 7. Por outro lado, no site Rotten Tomatoes, ele registra 63 críticas positivas e 22 negativas. Está comprovado que é o tipo de filme que agrada mais os críticos que o público. Uma pena, porque isso pode ser entendido como algo ruim – só que, nesse caso, os críticos estão mais certos que o grande público. Aliás, acho que várias vezes isso é verdade.

Nas bilheterias o fime teve um desempenho muito ruim. Arrecadou nos Estados Unidos pouco mais de US$ 516 mil – algo justificado também pelo baixo número de cópias distribuídas do filme: 8 na primeira semana, do dia 1 de outubro de 2006, chegando ao máximo de 60 nas últimas duas semanas daquele mês. Realmente, com esse número de cópias e com uma divulgação baixíssima, não tem como esperar que ele fosse bem de bilheteria. Uma pena, porque é um filme que merece ser visto.

Independente do Oscar, o filme já ganhou o reconhecimento de prêmios importantes. No Festival de Sundance (um dos que mais admiro e que realmente premia filmes muito bons e independentes) ele levou o prêmio de melhor direção de drama para Dito Montiel e levou ainda um prêmio especial do júri para o seu elenco. No Festival de Veneza o filme arrebatou dois prêmios para Dito Montiel. O elenco também recebeu o prêmio máximo do Festival de Gijón, na Espanha.

Uma dica: veja o filme até depois dos créditos finais. Há um trecho de um depoimento do pai de Dito no final. Falando no diretor, que tem 37 anos, ele já está trabalhando em um novo projeto: Fighting. Outra vez ele contará para nós uma “história das ruas”.

CONCLUSÃO: Filme sensível, bem dirigido e com um elenco afinadíssimo que conta a história real de um grupo de jovens e seu entorno no Queens de Nova York nos anos 80. O diretor e roteirista acerta no tom dramático e nos conta uma bonita história de redenção pessoal e de reencontro com a sua identidade.

Zuzu Angel

22 de novembro de 2007 6 comentários

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Tinha ouvido falar desse filme brasileiro há algum tempo, mas só agora consegui assistí-lo. Um amigo falou bem dele e pronto, o assisti. Zuzu Angel, vale ressaltar, é uma produção da Globo Filmes, braço para o cinema da Rede Globo – eternamente líder de audiência na televisão do país. A Globo Filmes já propiciou o lançamento de filmes muito bons, como O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias (nosso candidato ao Oscar), Cartola, Lisbela e o Prisioneiro, Casa de Areia (para mim um dos melhores filmes brasileiros dos últimos anos), O Caminho das Nuvens, O Homem que Copiava, entre outros, mas também é uma das responsáveis por filmes ruins e irritantes, como Olga, Redentor, Acquária (um dos piores de todos os tempos), Deus é Brasileiro, etc. Fiz essa relação de filmes, bons e ruins, porque é muito fácil dizer “ah, é um filme da Globo, deve ser ruim”. Esse discurso que se disfarça de esquerdista (só disfarça) para ser contra por ser contra eu acho uma piada. O filme é o que ele é não por mérito ou desmérito da Globo Filmes, mas pelo trabalho de seu diretor, roteiristas e elenco.

A HISTÓRIA: O filme conta a história da estilista Zuzu Angel durante os duros anos da ditadura militar no Brasil nos anos 60 e 70. Desde o princípio a história deixa clara as diferenças ideológicas e de ação entre Zuzu (Patrícia Pilar) e seu filho Stuart Angel (Daniel de Oliveira). Os dois ficavam muito tempo sem se ver ou se falar, com ele vivendo na clandestinidade enquanto ela prosseguia trabalhando para sustentar a família. Mas no dia em que recebe um telefonema anônimo dizendo que seu filho tinha sido preso pelos militares, Zuzu muda de postura completamente e começa a enfrentar a realidade do país de outra maneira.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto a seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Zuzu Angel): Para ser franca, eu já tinha escutado falar – é claro! – de Zuzu Angel, especialmente porque ela é um nome que já foi mencionado e homenageado muitas vezes por diferentes artistas, com especial destaque por Chico Buarque, de quem era amiga. Mas, meu conhecimento a respeito dela era muito restrito. Sabia que tinha sido uma mãe que lutou para saber do filho morto pelos militares, mas não sabia, por exemplo, que ela própria tinha sido assassinada pelo governo. Só pelo fato de resgatar a sua história eu acho que filme tem seus méritos.

Aliás, quero comentar que falta no Brasil uma produção ainda maior e mais crítica sobre o tempo da ditadura. Ok, existem os relativamente recentes O Que é Isso, Companheiro? e Ação Entre Amigos, para citar dois, mas ainda assim é pouco. Também sofremos com poucas “cinebiografias”… existe Lamarca, Cazuza e alguns outros, mas também é pouco. Por tudo isso, acho que Zuzu Angel tem o seu mérito.

Quanto ao filme em si, admito que ele tem alguns problemas. Começando pelos exagero dramático em algumas cenas, como quando Zuzu Angel recebe a carta contando da morte do filho e, depois, quando tem confirmado o fato através do tenente que virou seu aliado (Aramis Trindade). Também acho que o roteiro do diretor Sergio Rezende junto a Marcos Bernstein peca ao quase “santificar” a Zuzu, retratando a relação dela com o filho como perfeita. Eles nunca brigam, nunca discutem… ainda que tenham visões diferentes de mundo, o máximo que eles passam é uma “briguinha” aqui e outra ali. Na prática, duvido que foi desta maneira que tudo aconteceu. Achei que, a exemplo de Cazuza, a história de mãe e filho foi suavizada para ser “imortalizada” como quase perfeita.

No mais, acho o filme competente. Sergio Rezende tem uma direção firme e o seu roteiro, junto a Bernstein, consegue contar de forma criativa e com muitos cortes temporais uma história que poderia ficar arrastada. Em termos de interpretação, todos os atores, para mim, são medianos. Ninguém se destaca. No elenco, além dos já citados, estão Alexandre Borges (como Fraga, advogado e amigo de Zuzu), Luana Piovani (como Elke, modelo e amiga da estilista), Leandra Leal (como Sônia, mulher de Stuart e militante política também assassinada), Angela Vieira (Lúcia, amiga de Zuzu), Flávio Bauraqui (capitão Mota), Regiane Alves (Hildegard Angel, filha da estilista), Fernanda de Freitas (Ana Angel, também filha de Zuzu), Othon Bastos (como um brigadeiro), Caio Junqueira (como Alberto, amigo de Stuart e militante político), Nelson Dantas (sapateiro e pai de Lamarca, em sua última interpretação antes de morrer de câncer em 2006 no Rio de Janeiro), Paulo Betti (Lamarca), entre outros.

Buscando informações sobre a verdadeira Zuzu Angel descobri que depois do fim da ditadura ficou comprovado que ela realmente foi morta pelo sistema, assim como seu filho, Stuart. Li uma crítica ao filme que achei muito inocente ao dizer que o filme enaltece uma mulher burra (porque foi buscar ajuda com o inimigo, o governo dos Estados Unidos) e supérflua (porque usou a moda para manifestar seu repúdio a um sistema que matou o filho). A crítica também comentava que achava absurdo fazer um filme sobre uma mulher que nunca deu bola para a ditadura e que só resolveu se mexer quando o filho foi morto – e, ainda assim, tratava a luta dele como algo “juvenil” e não como algo necessário.

Eu discordo dessa crítica por uma única razão: a minha verdade não é a única verdade que existe. Stuart Angel estava certo em lutar contra o sistema arbitrário da ditadura? Claro que estava. Ele tinha a força da juventude – digam o que disserem mas a juventude tem mais força do que as outras fases da vida de qualquer pessoa – a seu favor e a indignação como combustível. E Zuzu Angel estava certa ao dizer para o filho que a luta dele era absurda? Sim, estava. No caso dele, como mãe, ela estava mais preocupada com a vida do filho do que em mudar o país. Além do fato de ser mãe, no fundo no fundo ela parecia achar absurdo o filho de um americano chamar todo e qualquer sinal vindo dos Estados Unidos como algo mau. Se fosse assim mesmo, ele não deveria expulsar ou matar o próprio pai, um elemento desse sistema de dominação que ele tanto combatia? Pode parecer exagero, mas não é. Zuzu Angel, muitas vezes, na verdade, questionava o filho sobre os seus discursos porque via, com a idade que tinha, que a realidade é diferente dos sonhos. Ainda assim, claro, é preciso sonhar. Tanto que ela, depois que perdeu o filho, não descansou na busca por saber a verdade e por divulgá-la para quem lhe desse espaço para ouvir.

Sobre ela ter sido inocente ao buscar “ajuda com o inimigo”. Na verdade, para mim, ela fez o certo. Afinal, se no Brasil ela não podia ser ouvida – a imprensa estava amordaçada e não lhe dava ouvidos -, o que lhe restava de oportunidade era fazer barulho fora do país. E quer lugar melhor do que no próprio país em que o governo, por debaixo do pano, alimentava a idéia das ditaduras na América Latina? Afinal, digam o que disserem, naquela época os Estados Unidos vivia uma época de imprensa livre, e Zuzu Angel se aproveitou de sua relativa fama como estilista para aparecer na imprensa de lá. Depois disso, conseguiu ser ouvida até certo ponto pelos políticos norte-americanos – com seu tema sendo exposto até no Congresso dos Estados Unidos. Para a época não foi pouca coisa. Ela não conseguiria maior efeito se divulgasse o que estava acontecendo na Europa. Como estilista, ela utilizou as armas que conhecia para fazer barulho e ser ouvida. O trágico é que na época, realmente, a ditadura mandava e desmandava e podia calar a quem quisesse, como fez com essa mãe em busca de verdade.

Gostei da história e, ainda que com alguns problemas, gostei do filme. Ainda assim, claro, ele poderia ser menos emotivo e mais realista. Teria ganhado pontos. Gostei, em especial, da abertura do filme, com um belo trabalho de arte sobre fotos da época. O cinema brasileiro precisa escavar mais nos porões da ditadura e nos contar histórias que por muito tempo foram proibidas. Só temos a ganhar.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: No Brasil o filme faturou nas bilheterias pouco mais de R$ 4,6 milhões segundo o site IMDb. Falando no meu banco de dados preferido sobre cinema, os usuários do site deram nota 7,2 para Zuzu Angel.

O filme foi rodado em Juiz de Fora, Minas Gerais, e no Rio de Janeiro.

CONCLUSÃO: Cinebiografia de Zuzu Angel a partir do momento em que ela descobre sobre o desaparecimento do filho, Stuart, durante a ditadura militar no Brasil. Vale pelo resgate histórico e pela narrativa que “respeita” as diferentes visões de mundo de mãe em filho, mas peca na dose de drama e em alguns exageros do roteiro.

El Orfanato – O Orfanato

22 de novembro de 2007 42 comentários

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Sigo com o meu desafio de assistir aos possíveis concorrentes ao Oscar 2008 como melhores filmes estrangeiros – desafio que fiz a mim mesma e que comentei antes aqui no blog. Desta vez assisti a El Orfanato, o filme selecionado pela Espanha para representar o país no maior prêmio da indústria cinematográfica mundial. Antes de prosseguir, quero dizer que é com dor que escrevo esse texto, porque eu tinha escrito uma crítica gigantesca antes e o meu excelentíssimo editor de WordPress deu um sumiço inexplicável para o que eu tinha escrito. Então, ao invés de quebrar o computador ou deixar de escrever algo a respeito de El Orfanato, vou me esforçar para escrever algo e terminar o mais rápido possível. Nem preciso dizer o indignada que fiquei, não é?

Bom, no texto anterior eu comentava que El Orfanato pode ser considerado uma superprodução espanhola. Realmente é um filme que cuida dos detalhes e da qualidade técnica. Não por acaso ele conseguiu arrecadar algo como € 20,4 milhões em pouco mais de um mês, apenas na Espanha, e se tornar o terceiro filme mais assistiu do ano aqui – só perdendo para Piratas do Caribe 3 e Shrek 3. Também é o quarto filme espanhol com melhor bilheteria já registrado – perde apenas para Os Outros, La Gran Aventura de Mortadelo y Filemón e Torrente. Os produtores do filme, em especial a “major” Warner – com subsede na Espanha – estão contentíssimos, é claro. No quesito qualidade o filme realmente pode chegar a ser finalista ao Oscar… agora, para ganhar a cobiçada estatueta El Orfanato precisará de muito lobby e, principalmente, vencer o perfil tradicional de Hollywood.

A HISTÓRIA: A história começa mostrando a pequena Laura brincando com seus amiguinhos do Orfanato Bom Pastor. Em pouco tempo ela terá que se despedir deles, porque será adotada por uma família. O tempo passa e, muitos anos depois, Laura (Belén Rueda) volta para o local junto do marido, Carlos (Fernando Cayo) e do filho Simón (Roger Príncep). O casal está reformando a casa com o objetivo de transformá-la em um abrigo para crianças com dificuldades para se locomover ou com problemas mentais. Mas antes de concretizarem os seus planos, Laura e Carlos devem lidar com a imaginação fértil do filho Simón, com estranhos acontecimentos na casa e com a inesperada e ameaçadora visita de Benigna (Montserrat Carulla). A situação piora quando Simón desaparece.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir contas momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a El Orfanato): Como comentava antes, o filme prima pela qualidade técnica. Realmente o diretor Juan Antonio Bayona e equipe fazem um bom trabalho narrativo utilizando efetivos e pontuais efeitos especiais. Nada é usado em exagero, mas apenas para dar força às cenas. O roteiro de Sergio Sánchez também me pareceu competente, especialmente porque ele faz o que se espera de uma boa história de suspense: começa morno, apresentando os personagens e seu contexto, para em seguida ir em um crescente dramático até o ápice da história. Ainda assim, o filme tem alguns falhos – que comento mais adiante.

As intepretações são competentes, com especial destaque para a participação pequena mas intensa de Geraldine Chaplin como a vidente Aurora. Para mim a sua presença no filme é um dos melhores momentos de El Orfanato. No mais, Belén Rueda, por exemplo, está bem, ainda que algumas vezes me parece que ela está mais preocupada em como vai “aparecer” frente às câmeras do que em realmente “vestir” a pele de sua personagem. Ainda assim, ela tem uma presença magnética em tela e, realmente, é uma mulher muito bonita. O drama da busca por seu filho realmente convence.

Como eu dizia, o roteiro é competente, ainda que ele “force uma barra” no final. (REALMENTE NÃO LEIAM DAQUI POR DIANTE SE NÃO VIRAM AO FILME). Ninguém me convence, afinal, da maneira com que Simón foi morto. Vejamos: se ele tivesse morrido na gruta perto do mar ou se tivesse, por exemplo, caído em um “poço no jardim”, eu até poderia aceitar. Mas ele “desaparecer” em um porão na casa dos pais, sendo procurado por meses e meses, e ninguém ter se dado conta? Primeiro, acho difícil eles não procurarem o garoto naquele local – afinal, procuraram em todos os cantos da casa e em diferentes cidades e estados. Depois, mesmo que eles “desconhecessem” o porão, alguém vai me convencer que o menino, passando sede e fome, não chamaria por ajuda? E, chamando por ajuda, não seria escutado? Então, realmente, o desfecho é de matar. Também acho que o fato da mãe ter matado o filho acidentalmente e, depois, ter se matado para “acompanhá-lo” não é o tipo de história que a Academia premiaria. Cá entre nós, acho que o nosso representante brasileiro tem muito mais chances que El Orfanato – ainda que não tenha a força do lobby de uma Warner a seu favor.

O diretor Juan Antonio Bayona, como eu disse antes, faz um bom trabalho. Gostei, especialmente, da sequencia em que ele “acompanha” Laura na cadeira-de-rodas em busca de seu filho, pelo corredor da casa. Ele realmente tem algumas sequencias de câmera bem interessantes, ainda que dirija um filme que lembre muito a tantos outros sobre “casas assombradas” e “espíritos que não descansam depois de sofreram mortes violentas e/ou injustas”. O diferencial de seu filme, talvez, seja o fato de misturar elementos “tão batidos” com uma releitura de Peter Pan, de fantasia e da vontade de ser “jovem para sempre” – o que, no caso das crianças, passa pela morte.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Dei a nota 8,5 para o filme em respeito ao 9 que tinha dado antes a XXY – que achei um filme mais sensível e mais interessante que El Orfanato. Ainda que a produção espanhola tenha muitas e muitas qualidades técnicas, é claro. Como entretenimento, é um filme competente.

No site IMDb, meu banco de dados preferido de cinema na net, El Orfanato ganhou a nota 7,8. Por outro lado, os críticos do site Rotten Tomatoes conferiram 13 críticas positivas para o filme e 5 negativas. El Orfanato ainda não chegou aos cinemas norte-americanos – por isso também o “baixo” interesse da crítica a seu respeito. Ele apenas estreou no dia 29 de setembro no Festival de Cinema de Nova York. Nos cinemas comerciais ele estréia apenas no dia 28 de dezembro, e ainda com poucas cópias, nos cinemas estadunidenses.

Para quem gostou das locações do filme, comento que ele foi filmado na costa de Llanes, perto de Oviedo, Astúrias, e também em Barcelona.

O filme é uma co-produção da Espanha e do México.

PALPITE PARA O OSCAR: Pela qualidade técnica do filme e pelo poder de barganha da Warner El Orfanato pode chegar a ser selecionado como um dos finalistas para o Oscar. Ainda assim, acho difícil que ele ganhe o prêmio, especialmente porque segue uma temática que não é uma das preferidas da Academia.

CONCLUSÃO: Como suspense é um filme que passa por bom entretenimento, especialmente porque cuida dos detalhes técnicos e porque tem uma boa direção. Tenta ser uma mescla de terror com fantasia, o que pode ser interessante e, ao mesmo tempo, perigoso – ou poético, depende do ponto de vista.

ATUALIZAÇÃO (SPOILER – aviso que o texto à seguir conta a última versão sobre o final do filme, por isso recomendo que não continue a ler quem ainda não assistiu a El Orfanato): Como falei lá embaixo, nos meus comentários, eu tenho que admitir que errei. Escrevo esta atualização só agora porque, finalmente, consegui rever o filme. E agora, assistindo novamente ao final dele, devo concordar com os leitores deste blog André Feltrin, Rogério Silva, Lucas Rosa e Bean. Como todos eles disseram nos comentários ali embaixo também – muito obrigada a todos e cada um de vocês! -, Simón morreu logo após entrar no porão. Na primeira vez que vi ao filme me confundi com a hora em que Laura encontra o “espírito” de Simón longe da escada e não reparei, depois, quando ela encontra o cadáver do filho, de que ele está logo abaixo do lugar em que o corrimão da escada está quebrado. Revendo o filme ficou claro, ao menos para mim, que ele morreu ao cair e que, por isso, não pôde pedir socorro e, consequentemente, ser ouvido pelos pais. Com isso, Laura não foi a “culpada” por ter trancado o menino e por ter matado o próprio filho, como eu tinha entendido, mas trancando a saída ela apenas evitou dele ter sido encontrado antes.

XXY

19 de novembro de 2007 7 comentários

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O filme argentino XXY só comprova uma teoria minha: quanto menos você sabe sobre uma história, melhor. Talvez até eu já tivesse lido algo a respeito dele antes, mas na hora de assistí-lo, não me lembrava de nada. E foi muito melhor assim. Comento também que começo com XXY a busca pelos nossos “concorrentes” ao Oscar. Coloco concorrentes entre aspas porque, afinal, não sabemos ainda se O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias, escolhido pelo Brasil para concorrer ao prêmio mais cobiçado da indústria do cinema, chegará até lá… ou seja, ainda não sabemos se ele realmente será indicado ao prêmio. O que é certo é que o filme de Cao Hamburger foi pré-selecionado junto a outros nove filmes latino-americanos e junto a outros 53 filmes do resto do mundo para o prêmio. Agora, se chegará mais longe, é uma dúvida ainda no ar. Certamente não conseguirei assistir aos 62 filmes pré-selecionados para o Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro, mas não custa tentar assistir ao máximo possível. O desafio começa com XXY.

A HISTÓRIA: Os pais de Alex (Inés Efron) vivem afastados de vizinhos em uma pequena vila de pescadores no Uruguai. O pai da garota, agora com 15 anos, trabalha com a preservação de tartarugas marinhas. Ele e a mulher, Suli (Valeria Bertuccelli) levam uma vida simples e, ao mesmo tempo, cheia de cuidados com Alex – que toma vários tipos de homeopatia e é considerada uma menina meio “fora do comum”. A rotina deles muda quando Suli recebe um casal de amigos e seu filho vindos de Buenos Aires em casa. Alex logo se aproxima de Alvaro (Martín Piroyansky), o filho adolescente do médico Ramiro (Germán Palacios) e de sua mulher, Erika (Carolina Pelleritti). Uma recente agressão de Alex contra seu até então melhor amigo, Saul (Lucas Escariz), e a chegada dos amigos de Suli a casa da família até então isolada modificam o cotidiano de Alex e de todos ao seu redor, em um momento em que ela está descobrindo a sua sexualidade e tomando suas próprias decisões dentro do processo de amadurecimento típico de sua idade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que o texto a seguir conta fatos importantes do filme, por isso recomendo que REALMENTE só continue lendo quem já assistiu a XXY): O filme vai contando aos poucos e, melhor, naturalmente, o que acontece com Alex. Por isso eu acho interessante não saber nada a respeito antes de ver o filme. Para mim foi uma surpresa saber que ela era uma hermafrodita ou, como se denomina atualmente, uma adolescente com “estado intersexual”. Ok, eu tinha já ligado o título XXY com a questão genética – quem lembra ainda das aulas de biologia sabe que o X determina o sexo feminino e o Y o masculino, para ser simplista. Pois bem, até aí eu tinha chegado, mas não sabia que a síndrome em questão era caracterizada pela presença do XXY e que isso significava o tal “estado intersexual”. Mas foi bom não saber antes, porque a história é mais interessante e mais surpreendente assim. Ainda assim, há médicos que questionam o título do filme, afirmando que a história retratada não tem nada a ver com a síndrome de Klinefelter, caracterizada pelo tal XXY.

O que eu pensava, desde o princípio, é que Alex realmente tinha algum problema. Ela parecia mais sofrer de autismo, porque vivia muito no “seu mundo”, por assim dizer. Mas com a chegada de Alvaro ela se aproxima, começa a se expor – e a enredá-lo. O garoto, muito tímido e que também vive um bocado “em seu mundo” – vive ouvindo música e desenhando sozinho -, encontra em Alex, para sua surpresa, mais familiaridade do que ele esperava. E os dois vivem uma rápida e intempestiva história de amor – o que me lembra um pouco os “amores de Verão”, ainda que não pareça que eles estão vivendo nessa estação.

O filme trata de vários temas, como a relação pais e filhos, a descoberta da sexualidade, o jogo de poder entre as pessoas – exercido algumas vezes entre pais e filhos, outras entre pessoas da própria idade -, a relação nossa e dos demais com o que é diferente e desconhecido. Gostei do filme. Acho que a direção e o roteiro de Lucía Puenzo estão muito bem trabalhados – em especial a direção, com vários toques sensíveis e detalhes de percepção e mirada para o mundo de conflitos retratado. Falando no roteiro, ele é inspirado na história Cinismo do escritor Sergio Bizzio. Gostei também da atuação de todos os atores, com destaque para os jovens Inés Efron (para mim, fantástica) e Martín Piroyansky (muito sensível em seu papel). Gosto muito do ator Ricardo Darín, para mim um dos melhores que o cinema argentino já teve, mas nesse filme ele está meio “vencido” pelo personagem. Digo isso porque o pai de Alex é totalmente irreal. Ou alguém realmente acha que um pai normal nunca brigaria com a sua filha, como ocorre no filme? Ainda que ela tenha uma “condição especial” e precise de cuidados e que o pai seja muito, mas muito sensível, ele é o pai de uma adolescente e, uma hora ou outra, irá brigar com ela para que ela aceite o seu ponto de vista. No filme isso não ocorre, o que eu achei uma falha. O personagem de Kraken, para mim, acaba sendo o mais caricatural do filme.

Falando em caricatura, achei o personagem de Kraken também bem machista – algo forte na cultura latino-americana, percebi chegando em Madrid e convivendo com várias pessoas daí que estão aqui. Digo isso porque ele parece o tempo todo preferir que sua filha seja filho, que decida ser homem – enquanto sua mulher, Suli, parece ter uma “leve” preferência para que ela tenha uma filha, ou melhor, que “siga” tendo uma filha. Além disso, a reação de Kraken com a cena que presencia entre Alex e Alvaro só comprova que tudo bem “se for no dos outros”, literalmente. Não acho que seria o mesmo se a posição fosse a inversa. Ainda que os dois ajam mais inclinados para uma ou outra posição, contudo, o discurso de ambos é de aceitar a filha como ela é. Mas é aquela velha história: uma coisa é o discurso, outra é o que as pessoas percebem que as outras realmente querem.

Mas mais que os temas que eu comentei que XXY trata, para mim o mais interessante foi o de como estamos sempre seguindo padrões e “classificando” as pessoas. A exemplo dos pais de Alex, estamos sempre esperando que alguém decida o que quer. E se a pessoa não quiser escolher? E se quiser viver tudo, como Alex pretende? A sociedade não está preparada para pessoas assim, que não são facilmente classificadas. Afinal, se espera que Alex decida ser homem ou mulher, mas ninguém parece estar preparado para ela viver os dois papéis, viver em sua plenitude os dois sexos com os quais nasceu. Nesse ponto, Alex está sendo transgressora e ousada, ao não querer decidir nada e viver tudo com intensidade. Me fez pensar porque a maioria das nossas escolhas são produtos sociais, pressões exteriores. Por que temos que escolher entre uma carreira ou uma pessoa? Ou entre seguir sempre uma mesma linha – sermos coerentes para os outros e não para nós mesmos? Achei interessante essa reflexão e acho, realmente, que a pressão social faz as pessoas escolherem, quando talvez a resposta mais pessoal de cada um seria não escolher nada e simplesmente viver a sua maneira. A questão de Alex também me fez pensar que é muito mais “aceita” no mundo contemporâneo a pessoa que se classifica como heterossexual ou homossexual do que aquela que é bissexual ou que não tem definido de quem gosta. Mais uma vez, a sociedade busca padrões e classificações. Realmente me parece verdade, tanto por XXY quanto por exemplos reais.

Outro ponto interessante do filme é que, no fundo, Alex e Alvaro passam por momentos difíceis e que podem determinar o que serão no resto de suas vidas. Alex logo terá que enfrentar a resposta de toda a sociedade, ao pretender tornar pública a sua “condição”. Por outro lado, Alvaro tem que aceitar o que o seu pai lhe diz, em um dos diálogos mais fortes e chocantes do filme, e decidir o que fazer com isso. Aceita e supera a opinião do pai, mostrando para si mesmo que pode ter talento e que pode chegar aonde quiser, ou vive o resto da vida sentindo-se rejeitado e tentando provar para o seu progenitor que ele está errado.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme ganhou, além do Oscar, 5 outros prêmios importantes como melhor filme. Entre eles, o dos festivais de Atenas e Bangkok, e outros dois por parte da crítica do Festival de Cannes.

XXY foi todo filmado na cidade de Piriápolis, no Estado de Maldonado, no Uruguai.

Este filme é a estréia na direção de Lucía Puenzo, conhecida pelos roteiros de filmes como A través de tus Ojos e La Puta y la Ballena, além de escrever para séries de televisão como Hombres de Honor e Sol Negro.

No site IMDb o filme contabiliza a nota 7,6 – achei pouco.

No Brasil o filme passou pela primeira vez no dia 25 de setembro no Festival do Rio. Ele fará uma série de participações em festivais mundo afora antes de estrear com algumas cópias em cada país.

O filme é uma co-produção da Argentina, França e Espanha.

PALPITE PARA O OSCAR: Acho que XXY não tem chances de ganhar o prêmio de melhor filme estrangeiro. Claro que digo isso sem ter assistido aos outros concorrentes – exceto pelo filme brasileiro, que acho divino. Contudo, ele pode até chegar a ser selecionado entre os finalistas. Repito, digo isso sem ter visto os demais. Mas ganhar mesmo, acho que não, porque não vejo nele uma força e uma qualidade para ganhar um Oscar e nem mesmo vejo o tipo de tema que a Academia gosta de premiar.

CONCLUSÃO: É um filme que vale ser visto, especialmente pelo tema delicado sendo tratado de maneira tão corajosa e aberta, sem preconceitos. Também vale pela atuação do elenco, ainda que os nomes realmente a destacar sejam dos jovens atores. Destaco ainda a direção de fotografia, o trabalho da diretora Lucía Puenzo e o roteiro.

Das Leben der Anderen – The Lives of Others – A Vida dos Outros

18 de novembro de 2007 2 comentários

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O filme Das Leben der Anderen estava na minha lista para ser visto faz muito tempo. Mas ainda não tinha conseguido vê-lo, até três dias atrás. Ele chegou até mim com várias e várias recomendações e comentários positivos, além do peso do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2007. Dito isso, admito que tinha grandes expectativas a respeito. E digo que, apesar dessas grandes expectativas, eu gostei muito do filme. Ele não apenas segue a escola alemã de cinema, muitas e muitas vezes caracterizada pela qualidade de roteiro e de direção mas, mais que isso, pela “veia filosófica” de suas produções, como também traz mais uma contribuição para a lista de filmes alemães que toca em pontos importantes e chagas não-curadas do que faz a Alemanha ser o país que é hoje. Como 79 am DDR (ou Good Bye Lenin!) e outros filmes recentes, Das Leben der Anderen conta uma história contemporânea alemã, narrando um pouco da vida na Alemanha do Leste – também conhecida como RDA (República Democrática Alemã) ou sua versão em alemão, DDR – Deutsche Demokratische Republik – antes da queda do Muro de Berlin. Mas, diferente de 79 am DDR, que conta um pouco da vida de pessoas comuns, Das Leben der Anderen toca em uma chaga ainda aberta: o trabalho de vigilância, censura, tortura, repressão e controle que a chamada Agência de Segurança Nacional seguia fazendo mesmo depois da queda do regime nazista – com técnicas que lembram alguns abusos do tempo da ditadura alemã.

A HISTÓRIA: Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) dá aulas em uma universidade de Berlin, no ano de 1984, sobre técnicas de interrogatório utilizadas pela Agência de Segurança Nacional – para a qual já trabalhou. No final de uma de suas aulas, ele recebe a visita de um antigo colega de trabalho, Anton Grubitz (Ulrich Tukur), atualmente um importante membro da Agência de Segurança Nacional. Grubitz convida Wiesler para assistir a uma peça de teatro naquela noite, em que estará presente o Ministro das Artes, Bruno Hempf (Thomas Thieme). A peça em questão é de utoria de Georg Dreyman (Sebastian Koch), e estrelada por Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck). Nessa noite, Grubitz pede ajuda a Wiesler para vigiar o casal Dreyman e Sieland, buscando provas para incriminá-lo por subversão e por oposição ao atual governo, enquanto o ministro tenta por todas as maneiras manter um caso com a famosa atriz.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto a seguir narra trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Das Leben der Anderen): O filme, como se pode presumir do resumo acima, trata de parte da história da Alemanha no pós-guerra. Claro, nesse caso está, que ele se dedica a mostrar um pouco da realidade da Alemanha do Leste, a DDR que aparece em comum nos dois filmes. A Alemanha Oriental fica fora da história.

Para mim foi muito interessante acompanhar o estado de permanente vigilância em que vivem as pessoas daquela Alemanha. Mas Das Leben der Anderen não trata apenas da “Alemanha como ela era”, mas questiona também o poder da arte e sobre o que uma pessoa “comum” – nesse caso um artista que produz uma peça de teatro – pode fazer para mudar a sua realidade, para contribuir para modificar um sistema com o qual não está de acordo. É fato que os intelectuais e os artistas de cada país são os primeiros a sofrer quando surge uma ditadura ou uma forma “democrática” de poder que não deixa vez para as opiniões dissonantes. Mas também mostra como uma pessoa comum, no caso o personagem de Gerd Wiesler, pode estar dentro do sistema e, ainda assim, mudá-lo a sua maneira -nem que seja impedindo que alguns inocentes morram ou sejam mortos. Ou seja: não interessa em que lugar você esteja, mas de que lado você está. E podes estar em um lugar que parece ser o errado mas, ainda assim, sempre se pode escolher que caminho seguir. Essa para mim é uma das importantes questões do filme.

Os atores do filme realmente estão afinadíssimos e conseguem um desempenho digno de prêmios. Fiquei fascinada especialmente por Ulrich Mühe e por Sebastian Koch, assim como por Martina Gedeck. A direção e o roteiro de Florian Henckel von Donnersmarck também merecem aplausos – especialmente o seu roteiro, com algumas “reviravoltas”, surpresas e com um final de arrepiar – sem contar que ele consegue evitar todos os clichês do gênero.

Das Leben der Anderen nos faz refletir sobre a possibilidade das pessoas mudarem. Eu, que normalmente sou um pouco resistente a idéia de que as pessoas realmente podem mudar – em pequenos graus sim, mas não na essência – admito que o filme me fez pensar. Ainda que eu ache que, no caso de Wiesler, sua natureza não seja da violência ou da maldade, mas por um tempo ele cedeu ao fascínio de interrogar, vigiar e tudo o mais porque parecia “a coisa certa a fazer” e porque, talvez naquele contexto, essa era sua melhor alternativa. Mas quando o tempo passa e ele vai mudando – especialmente, na minha opinião, quando ele entra no mundo acadêmico, campo fértil de questionamentos -, não consegue mais fazer o que fazia antigamente. Sem contar que, no caso do filme, tanto a música quanto o teatro, ou seja, a arte, faz com que essa mudanaça seja ainda mais profunda.

Gostei muito e recomendo. Um bom texto, uma grande direção e ótimas interpretações em uma história corajosa sobre uma Alemanha que os alemães ainda lembram – e do qual não querem esquecer.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2007 e outros 42 prêmios – um desempenho excepcional, eu diria.

Das Leben der Anderen é todo filmado em Berlin.

A produção comprova que filmes de “baixo” orçamento podem ser muito, mas muito bons e bem sucedidos. Das Leben der Anderen teria custado US$ 2 milhões e arrecadou, somente nos Estados Unidos, mais de US$ 11,2 milhões.

Este filme é o primeiro longa-metragem do diretor Florian Henckel von Donnersmarck, que antes tinha filmado quatro curtas-metragens. Ele tem 34 anos e nasceu em Cologne, na Alemanha.

No site IMDb o filme contabiliza um importante 8,5, enquanto no Rotten Tomatoes ele mantêm 129 críticas positivas e apenas 9 negativas.

CONCLUSÃO: Um filme importante por contar uma parte da história alemã que não é tão conhecida, além de ser uma bela peça de cinema – une com perfeição um bom trabalho técnico e um belo trabalho de interpretação e de bom texto. Especialmente interessante por fugir da maioria dos clichês – quando você acredita que algo vai acontecer por ser a resposta mais óbvia ou “esperada”, o filme te mostra outra possibilidade. Recomendo.

Things We Lost in the Fire – Coisas Que Perdemos pelo Caminho

15 de novembro de 2007 9 comentários

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Eu sei que a lei universal mais certa de todas é que um dia todos nós vamos morrer. Sei que todos aprendemos, ainda muito jovens, que todas as pessoas morrem e que um dia perderemos aqueles que mais amamos. Mas nenhuma conciência disso ou reafirmação destas palavras realmente conforta quando algo trágico acontece. Recentemente falei de alguns filmes aqui que tratam da perda – desde o comentado neste blog The Brave One, até os anteriores Entre Quatro Paredes e etc. -, mas realmente esse Things We Lost in the Fire me impressionou. Nem tanto pela história em si, mas pela maneira com que ela foi contada. Desde já a diretora dinamarquesa Susanne Bier entrará na minha lista de pessoas a ter em conta e prestar a atenção. Me impressionou a sua delicadeza e esmero nesta produção.

A HISTÓRIA: Audrey Burke (Halle Berry) está preparando a casa para receber as pessoas para o funeral do seu marido, Steven (David Duchovny). Então ela se lembra que precisa avisar Jerry Sunborne (Benicio Del Toro) de que Steven morreu. Ninguém entende muito bem as razões de querer avisar a esse tal de Jerry, isso porque ninguém sabe que ele é o melhor amigo de Steven. Viciado em heroína, Jerry sempre foi mantido à distância da família. Mas logo Audrey e Jerry unem forças para lidar com seus piores medos e com a perda, enquanto os filhos de Audrey e de Steven, Harper (Alexis Llewellyn) e Dory (Micah Berry), enfrentam a sua maneira tudo o que está acontecendo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que o texto a seguir conta partes importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Things We Lost in the Fire): O que é ter força ou coragem nesta vida? O que é sentir com até o último músculo do corpo e neurônio da mente a vontade de gritar ou de sair correndo e não poder sair do lugar? Os filmes de Hollywood e as propagandas de comercial – ou as frases feitas em livros espalhados nas livrarias desta vida – nos dizem que ter força ou coragem é enfrentar com bravura e honradez as provas mais difíceis. É defender alguém que está sendo agredido na rua, como fez Steven Burke. Ou é ficar do lado da justiça mesmo quando todos estão apontando para outro lado.

Pois nesse filme, em um certo momento, Howard Glassman (John Carroll Lynch, em uma segunda boa intepretação em filmes recentes – a outra foi em Zodiac), vizinho e amigo do casal Burke, comenta com Jerry que lhe admira pela força que este tem para enfrentar o que tem que enfrentar. O outro só repete o elogio. Força? De que mesmo? Acho que esse filme fala de uma maneira delicada mas, ao mesmo tempo, de maneira muito direta e marcante que a pessoa mais forte do mundo é aquela que segue em frente, que aposta na vida, que continua vivendo. A escolha por viver, muitas e muitas vezes, é a mais difícil. Para mim essa mensagem, além de outras, é claro, fez valer cada centímetro desta película.

O filme também toca em outros temas, como a projeção para o outro das nossas expectativas e carências. Esse é outro assunto que acho muito interessante, e de faz tempo. O mais comum é as pessoas realmente atuarem assim, jogando no outro – parceiro ou parceira, amigo ou amiga, mãe ou pai, filho ou filha – as frustrações, desejos, carências e demais sentimentos que não conseguem resolver por si mesmas. Temos exemplo disso no filme. Alguns provisórios e compreensíveis, outros a longo prazo e “covardes”. Coloquei a palavra entre aspas propositalmente por uma razão: cada vez mais acho difícil julgar as pessoas. Cada vez mais acho tudo humano, demasiado humano. E, por isso, compreensível, muito compreensível. Mas, claro, é muito diferente compreender e aceitar. Ainda não aceito muitíssimas coisas. Mas isso é papo para outro dia.

Como eu ia dizendo, Things We Lost in the Fire trata basicamente do tema da perda, de como lidamos com nossos maiores medos ou desejos. Enfim, o que fazemos quando temos muita vontade de sair correndo e escapar e não podemos. Ou o que fazemos quando podemos, mas não queremos ou não suportamos mais. A vida realmente é feita de escolhas… e algumas vezes de difíceis escolhas. Algumas vezes, a mais difícil é a escolha de justamente continuar vivendo quando tudo parece ter perdido o sentido. Mas daí temos que pensar que a vida se vive um dia de cada vez e que, como nos ensina Things We Lost in the Fire, algumas vezes o que precisamos é aceitar o bom. É possível o outro? Sim, claro. Talvez seja o mais fácil. Mas por que não aceitar o bom? Sei de pessoas que não conseguem. Mas podemos tentar, pelo menos?

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ok, eu sei que eu comentei antes que eu tinha baixado a nota de todos os filmes, mesmo os que já tinham ganhado 10, porque eu queria que só American Gangster tivesse esta nota neste blog. Mas eu me rendo! Eu realmente gostei demais desse filme. A nota 10 única para American Gangster durou pouco. hehehehehehehe

Também sei, e admito, que Things We Lost in the Fire não deve ganhar muitos prêmios nem nada – coisa que eu acho que American Gangster vai ganhar e colecionar. Mas acho, também, que Things We Lost in the Fire (o título em inglês é melhor do que Coisas que Deixamos pelo Caminho, porque esse último realmente corrompe o sentido lírico e poético que o original quer significar) tem boas chances de concorrer e, talvez, ganhar alguns prêmios importantes – comento mais a respeito logo abaixo, no tópico “Palpites para o Oscar”.

Sei que tem outros filmes de que já falei aqui neste blog que mereciam um capítulo a parte sobre a trilha sonora, mas admito que as músicas de Things We Lost in the Fire me pareceram perfeitas. Ouvimos desde Sweet Jane do The Velvet Underground até The Little House I Used To Live In do Frank Zappa, passando por vários outros sons muito bacanas.

Para variar, nem sempre bons filmes merecem boas notas ou conseguem boa bilheteria. Things We Lost in the Fire estreou nos Estados Unidos no dia 21 de outubro e arrecadou, até o dia 4 de novembro, pouco mais de US$ 3,2 milhões. Pouco, pouquíssimo. Detalhe: o filme teria custado aproximadamente US$ 16 milhões. Talvez ele seja descoberto se for indicado a algum prêmio “gordo”, como o Oscar.

No Brasil o filme tem estréia prevista para o dia 18 de janeiro.

No site IMDb a produção ganhou a nota 7,5, enquanto pelo Rotten Tomatoes o filme recebeu 67 críticas positivas e 38 negativas.

Quem assistiu a série Californication não consegue evitar de acompanhar a perfomance de David Duchovny como um pai esforçado com vontade de rir. Não sei os demais, mas eu fiquei o tempo todo esperando ele falar algum palavrão ou alguma besteira, como em Californication. hehehehehehe. Também não sei vocês, mas eu fiquei acompanhando as caras que faz Benicio Del Toro no início, em toda a sequência do funeral, e lembrei muito as caras de Brad Pitt em boa parte de seus filmes… aquela testa franzida não me engana! hehehehehe

O filme é uma co-produção dos Estados Unidos e da Inglaterra.

PALPITE PARA O OSCAR: Acho que o filme pode tranquilamente render uma indicação ao Oscar, por exemplo, para o roteirista Allan Loeb. Também acho que podem ser indicados ao Oscar de melhor atriz e ator Halle Berry e Benicio Del Toro. Os dois, para mim, estão excepcionais em seus papéis. A diretora Susanne Bier merece também todos os louros, porque sua visão poética através da câmera dos detalhes das interpretações, como olhos, mãos, etc., é o que faz o filme ser o que é, uma peça bonita de cinema. Ainda assim, mesmo que mereçam – acho, por exemplo, que Halle Berry mereceria mais uma indicação ao Oscar por esse filme do que Angelina Jolie por A Mighty Heart -, no final das contas parece que o filme realmente não chegará a ser indicado as categorias principais do Oscar. Pelo menos é isso que as indicações ao Globo de Ouro e demais prêmios têm sugerido. Ou seja: no final das contas, Things We Lost in the Fire parece mesmo que não ganhará nada da indústria – talvez algum prêmio independente (OBS: este post foi atualizado em 19 de dezembro, depois das indicações ao Globo de Ouro).

CONCLUSÃO: Um filme poético e filmado com calma e precisão, indicado para quem não vê problemas em acompanhar longos planos de câmera ou que tem paciência para ser envolvido por uma história que foi muito bem escrita. Mais que isso, é um filme que prima pelos detalhes e que salienta o talento de Halle Berry e Benicio Del Toro.

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