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Reservation Road – Traídos pelo Destino Março 30, 2008

Posted by Alessandra in Cinema, Cinema norte-americano, Crítica de filme, Movie.
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Tem alguns filmes que eu fico “alimentando” a curiosidade para vê-los há algum tempo. É como um bom feijão que você prepara… tem que primeiro escolher bem os ingredientes, depois preparar tudo e cozinhar lentamente. Pois quando um projeto me chama a atenção, fico com ele ali, guardado na memória, para quando estiver disponível eu assistí-lo com “fome”. Não sei exatamente o porquê, mas isso aconteceu com esse Reservation Road. Tinha ouvido falar do projeto há muito tempo e me interessei. Talvez pela Jennifer Connelly, que adoro, ou pelo Joaquin Phoenix ou pelo Mark Ruffalo, dois atores que eu passei a admirar com o tempo, conforme eles iam “amadurecendo” nas suas respectivas carreiras. Ou talvez porque tinha curiosidade de ver o novo trabalho do diretor irlandês Terry George, que fez antes Hotel Ruanda. Não sei exatamente a razão. O que eu sei é que eu vi o filme hoje e que gostei muito do que eu vi. O tema não é novo – claro -, mas o tratamento que foi feito dele e, principalmente, as interpretações do trio de atores principais é algo impressionante.

A HISTÓRIA: O casal Ethan (Joaquin Phoenix) e Grace Learner (Jennifer Connelly) assistem, ao lado da filha Emma (Elle Fanning), orgulhosos a apresentação do filho Josh (Sean Curley) em um concerto ao ar livre promovido pelo colégio em que eles estudam. Ao mesmo tempo, Dwight Arno (Mark Ruffalo) assiste a uma partida do Red Sox com o filho Lucas (Eddie Alderson). Enquanto a família Learner passa um dia divertido e tranquilo junto a colegas do colégio de Emma e Josh, Dwight começa a se estressar com as ligações insistentes da ex-mulher, Ruth Wheldon (Mira Sorvino), que está preocupada com o filho e quer saber porque eles estão se atrasando. Na volta para casa, a família Learner para em um posto de gasolina e Josh sai do carro para soltar uns vaga-lumes, quando Dwight perde o controle do carro depois de uma curva e atropela o garoto. Depois da morte de Josh, Ethan, Grace e Dwight vêem as suas vidas mudarem radicalmente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – Aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Reservation Road): O diretor e roteirista Terry George realmente faz um trabalho meticuloso e impressionante. Cada cena, cada ângulo e cada posição de câmera é planejado com uma idéia muito clara de efeito dramático. O diretor cuida para o filme ser, essencialmente, belo. Ainda que seja triste e duro, muitas vezes, mas é um filme belo. Pelo menos nas imagens e no cuidado técnico.

A história já vimos antes: um homem normal, como tantos por aí, acaba provocando um acidente fatal. Ele destrói a vida de uma família e, de quebra, a sua própria. Por outro lado, o casal que perde o filho se vê dividido entre o desafio de “seguir adiante”, tendo que cuidar de uma filha menor, e o pesadelo de ver que ninguém será responsabilizado pela morte anti-natural de “seu garoto”. Lá pelas tantas, o pai do menino acaba desconfiando da polícia e da aplicação da lei e resolva, por conta própria, buscar o culpado. E quanto mais o tempo vai passando, mais ele vai se enchendo de ódio e se aproximando da figura do justiceiro.

Mas o diferente de Reservation Road com relação a outras histórias similares é que o filme não deixa a “peteca” cair em nenhum momento. Pelo contrário. De maneira muito natural ele vai fazendo a narrativa crescer cada vez mais até o ponto do espectador ficar aflito esperando “algo ruim acontecer”. Parece quase inevitável que a tragédia inicial da morte daquele menino não seja a única da história. Além do roteiro do diretor junto com John Burnham Schwartz (também autor do livro em que a história é baseada) ser muito responsável por esse ritmo potente do filme, as interpretações dos atores são fundamentais para isso.

Eu ouso dizer que Joaquin Phoenix nunca esteve tão bem em um papel quanto neste filme. Sim, ele já fez grandes trabalhos antes, mas não vi uma interpretação tão poderosa quanto como Ethan Learner. Natural, sem vestir estereótipos, ele vai se transformando com o tempo de uma maneira incrível e perfeitamente compreensível. Jennifer Connelly também está maravilhosa em seu papel, ainda que o filme seja realmente dos dois atores principais. Mark Ruffalo chega a dar nervoso no papel de um pai que luta para viver os primeiros momentos bons ao lado do filho enquanto se vê corroído pela culpa. Tem horas que você tem vontade de bater nele por sua covardia e tem horas que você entende pelo que ele está passando. A atriz Elle Fanning acaba aparecendo pouco na história, mas também faz um belo trabalho. Aliás, a menina, que logo mais, dia 9 de abril, completará 10 anos, para mim é uma das melhores trabalhando no cinema na sua idade. Todos os filmes que ela fez até agora ela consegue uma interpretação emocionante e equilibrada. Ah, e para quem pensou, “Mas ela é parente da Dakota Fanning, a menina de Man on Fire (Chamas da Vingança) e Hide and Seek (O Amigo Oculto)?”, sim ela é a irmã mais nova de Dakota.

Todos os demais atores no filme são coadjuvantes, incluindo Mira Sorvino. Ainda que todos os demais sejam eclipsados pelos atores principais, ela e o menino que interpreta o seu filho, Eddie Alderson, estão bem.

O que eu achei impressionante do filme é como ele não escapa do que é mais viável em histórias assim: um atropelamento fatal com fuga dificilmente tem solução. Exceto, claro, se alguém tem tempo de anotar a placa ou o tipo certo do carro. No caso desta história, o fato do motorista ser um advogado habituado a processos criminais o ajudou a “acobertar” a única evidência que poderia denunciá-lo: seu automóvel. Ainda que ele tenha dado várias pistas de insegurança e ter ameaçado se entregar, a verdade é que ele não seria descoberto nunca se não fosse a casual proximidade de sua ex-mulher com a outra família – no caso a personagem de Mira Sorvino era professora de piano de Emma e se aproximou mais do outro casal após a perda de seu filho. Impressionante o final.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como disse anteriormente, quase todos os outros atores do elenco, com exceção de Phoenix, Connelly e Ruffalo são coadjuvantes. Ainda assim, destaco a interpretação de Antoni Corono como o Sargento Burke, aparentemente eficiente, controlado e, como quase todos os policiais, um pouco cínico. Também está bem em seu pequeno papel Gary Kohn como o marido de Ruth, Norris Wheldon. A hora que ele recebe Dwight em casa na noite em que eles estão fazendo uma festa chega a te dar coceira, porque você só fica esperando a hora da “confusão”. hehehehehehehe

Como falei antes, gostei do cuidado técnico do filme. Por isso destaco a direção de fotografia muito competente de John Lindley e a trilha sonora precisa de Mark Isham. A edição de Naomi Geraghty também merece crédito.

A história se passa em Connecticut, onde o filme realmente foi rodado – mais precisamente nas cidades de Easton, Fairfield e Stamford. Para quem achou interessante o parque que aparece na produção, ele se chama Lake Compounce Family Theme Park e fica em Bristol, Connecticut.

Nas bilheterias o filme teve um desempenho fraco. Ficou em cartaz apenas duas semanas nos Estados Unidos e conseguiu pouco mais de US$ 121,9 mil.

Os usurários do site IMDb conferiram a nota 7 para o filme, enquanto que o Rotten Tomatoes registra 36 críticas positivas e 63 negativas de jornalistas que tem seus textos publicados no site.

Aqui encontrei uma pequena crítica sobre o livro. O trabalho de Schwartz realmente parece interessante.

Não sei, mas toda vez que um filme começa e vejo aquela abertura da produtora Focus Features eu tenho esperanças de algo bom que vem por aí. Nunca falo de produtoras, mas aí está uma que eu gosto.

CONCLUSÃO: Um potente filme sobre a perda de um filho e a culpa que o culpado acaba carregando por ter provocado um acidente fatal. Bem filmado e com um roteiro que não deixa a história cair até o final tem, mais que tudo, grandes interpretações, especialmente de Joaquin Phoenix. Contudo, pelas críticas que li, parece mais um destes filmes “ame ou odeie”, porque arranca ao mesmo tempo efusivos elogios e críticas pesadíssimas. Para mim é um belo filme sobre como lidamos com a perda e a culpa.

Slipstream – Um Sonho Dentro de Um Sonho Março 29, 2008

Posted by Alessandra in Cinema, Cinema norte-americano, Crítica de filme, Filme premiado, Movie.
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Acho interessante quando um ator conhecido resolve arriscar-se na direção. Existem por aí inúmeros bons exemplos de atores que se tornaram interessantes diretores, desde Clint Eastwood, Robert Redford até Denzel Washington e Sean Penn. A lista é grande, na verdade. Mas existem também tentativas de atores assumirem a direção de um filme que, digamos, não dá muito certo. Fiquei curiosa para ver o que Anthony Hopkins queria nos contar na direção e com o roteiro deste Slipstream. Em sua carreira, é o terceiro filme que dirige – fez 11 anos antes August (1996) e, em 1990, filmou Dylan Thomas: Return Journey. Nenhum dos filmes anteriores ficou conhecido. E algo me diz que este Slipstream vai seguir o caminho dos anteriores. Gostei da “ousadia” de Hopkins em fazer este filme nonsense e/ou surrealista, mas para mim foi inevitável ficar lembrando, quase durante os 96 minutos do filme, dos trabalhos de Spike Jonze, para dar um exemplo mais recente de um cineasta com a digital de fazer “filmes malucos” ou cheios de uma mistura entre realidade e sonho. O problema é que diretores como Spike Jonze acabam se mostrando realmente melhores e mais criativos do que figuras como Anthony Hopkins. Realmente o ator inglês que completou 70 anos em 2007 parece ser melhor interpretando do que dirigindo.

A HISTÓRIA: Cenas cortadas rapidamente e logo assistimos a Bette Lustig (Fionnula Flanagan) falando ao telefone. Ela comenta sobre algo trágico que aconteceu com seu amigo, Felix Bonhoeffer (Anthony Hopkins), e sobre a viagem que fará na manhã seguinte para Las Vegas com Gina (Stella Arroyave). Em seguida, imersos em uma cena que aparece na TV, passamos para a vida de Felix – ou o que parece ser sua vida. Aos poucos, contudo, a história vai se confundindo cada vez mais entre a realidade, o sonho e as memórias do roteirista Felix Bonhoeffer.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – Aviso aos navegantes que boa parte do texto a seguir conta trechos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Slipstream): Claro que o filme de Hopkins tem uma narrativa própria. E que até se demonstra interessante. Não dá, exatamente, para comparar com Spike Jonze, ainda que eu tenha lembrado muito do diretor e seu Being John Malkovich por toda a premissa de “entrar na cabeça de alguém criativo” e pela mescla entre realidade-sonho-e-imaginação. Mas as coincidências terminam aí. Porque o filme de Hopkins é bem mais fragmentado, com cenas “acidentais” bem planejadas e imersas no meio da realidade/sonho, lembranças de discursos de Nixon, de guerras, de parte da história que marcou os Estados Unidos e o mundo nas últimas décadas. Ok, essas imersões de cenas são interessantes. Pena que o resto da história seja um tanto “fraca”.

O filme, na verdade, funciona bem até pouco depois de 30 minutos. Mais precisamente, até toda a sequência da lanchonete na beira-da-estrada protagonizada por Ray (Christian Slater, ótimo no seu papel) e por Geekman (Jeffrey Tambor). Depois que Ray tem um colapso e entra em cena toda a produção do “filme dentro do filme”, a história fica meio chata. Especialmente porque acaba sendo uma crítica aos bastidores do cinema – com todo o jogo de egos entre produtores, diretores, atores e demais pessoas da produção – mais do que um filme sobre a crise de identidade de um artista (no caso o roteirista) ou a dualidade entre realidade e sonho. Acho que acaba ficando meio chato e até meio “pueril” todo o debate sobre quem é mais importante no filme: o diretor, o produtor, o roteirista ou os atores… quem tem o direito de criar e quem não tem, etc. Oras bolas, o que me importa esse jogo de cena e essa disputa entre egos por detrás de uma produção? Ok, a muita gente lhes interessa – basta olhar o sucesso das revistas de fofocas -, mas o que eu acho que realmente importa é o resultado final e não a vida pessoal das pessoas envolvidas em uma produção ou os bastidores das histórias que querem nos contar.

Mas ok, o filme acaba indo, a partir da meia hora inicial, para este caminho de bastidores do cinema. Tem algumas partes engraçadas e que são interessantes, como todo o descontrole e autoritarismo do produtor principal Harvey (John Turturro em um papel em que ele não para de gritar um segundo, mas em que está muito bem). Os diálogos de Harvey com o diretor Gavin (Gavin Grazer) realmente são ótimos. Mas o filme faz pouco mais que isso, uma crítica aos bastidores das produções hollywoodianas. Como eu disse, tem alguns acertos no jogo de cenas, especialmente quando trata mais de flertar com o sonho dentro do sonho ou, em outras palavras, com o sonho dentro da fantasia do escritor em crise e sob pressão. As cenas de sua memória e de suas referências na formação de sua personalidade jogadas no meio da narrativa são interessantes, mas só. No final das contas, o filme acaba sendo meio arrastado e repetitivo, meio chato na tentativa de ser “autoral” demais. Nem tudo que parece ser muito criativo ou arte realmente é o que pretende ser.

Ainda assim, acho bacana atores como Anthony Hopkins se arriscarem, fazerem cinema além de trabalharem como intérpretes em histórias alheias. Mais por isso que por outra coisa é que dou a nota a seguir para o filme.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Slipstream é uma produção de baixo orçamento do ator. Basicamente, Hopkins se valeu da sua amizade e da “moral” que conquistou nestes anos todos de cinema para contar a história que quis com pessoas muito interessantes no elenco. Por isso é que, além dos atores já citados, o filme conta com interpretações interessantes de Michael Clarke Duncan, Christopher Lawford (como o engraçado Lars), Camryn Manheim (como Barbara), Lisa Pepper (como Tracy, uma atriz que, em uma das cenas iniciais do filme, com Anthony Hopkins em um restaurante à céu aberto, protagoniza um dos melhores diálogos da história), Scott L. Treger (Scott e também o cozinheiro da lanchonete na beira-da-estrada) e a russa Lana Antonova (Lily, a garçonete que aspira ser uma estrela do cinema).

No ano passado, Slipstream concorreu a dois prêmios no Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça – as duas indicações para Anthony Hopkins. Ele perdeu o prêmio principal, o “Leopardo de Ouro”, mas ganhou o prêmio do júri jovem. A primeira exibição de Slipstrem foi feita há um ano, no Mercado Europeu de Filmes na Alemanha. Depois esteve, em maio, no Festival de Cannes – fora da competição – e no Festival Internacional de Cinema de Seattle. Em outubro, antes de estrear com cópias limitadas nos Estados Unidos, participou do Festival Internacional de Cinema de Chicago. Até agora foi um filme pouco visto e pouco comentado. E deve seguir assim. Talvez tenha um desempenho um pouco melhor quando sair em DVD.

Para quem gosta de saber as locações dos filmes, Slipstream foi todo filmado na Califórnia, incluindo Los Angeles, Palm Desert e Yucca Valley.

No site IMDb ele ganhou a nota 5,9 dos usuários, enquanto que no Rotten Tomatoes ele recebeu nove críticas positivas e 28 negativas.

De todas as atuações, gostei em especial de Anthony Hopkins (ainda que eu ache que ele parece excessivamente “perdido” durante todo o filme), da colombiana Stella Arroyave (surpreendente em seu papel), de Slater e Turturro, de Fionnula Flanagan e de Lisa Pepper. Um bom grupo em cena.

Ah, e antes que me esqueça: o filme também acaba se parecendo muito a Mulholland Dr. (Cidade dos Sonhos), filme de David Lynch que também faz uma mistura de sonho, fantasia e realidade, com direito a crítica aos bastidores e ao “glamour” do cinema. Mas, mais uma vez, recomendo mais o filme de Lynch que o de Hopkins. Tudo bem que faz tempo já que “nada se cria, tudo se copia”, mas ainda assim acho que existem boas e novas idéias no mercado e que não faz falta tantas idéias repetidas como este Slipstream.

CONCLUSÃO: Um filme que mescla imaginação, lembranças, sonho e realidade. Até a primeira meia hora, se mostra uma história interessante e instigante, mas depois acaba caindo em vários lugares-comum de outros filmes do gênero – de diretores como Spike Jonze e David Lynch que, para mim, fizeram trabalhos melhores. A partir dos 34 minutos iniciais o filme acaba caindo demais em uma “sátira” dos bastidores do cinema e fica chato, arrastado e perde boa parte do seu interesse. O final também acaba sendo meio frustrante. Os atores, no geral, estão bem, mas nada que faça o filme ser recomendado – tem vários outros mais interessantes no mercado. Ainda assim, vale pela curiosidade de ver Anthony Hopkins assinando direção e roteiro.

Mongol Março 23, 2008

Posted by Alessandra in Cinema, Cinema do mundo, Cinema europeu, Crítica de filme, Filme premiado, Movie, Oscar 2008.
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Gosto de filmes que contam histórias reais ou a saga de um povo em determinado momento da História. Dependendo do número de pessoas envolvida no projeto (geralmente se pensa no número de figurantes) ou do tempo histórico da narrativa, as pessoas costumam classificar filmes assim de “épicos”. Eu sempre acho um perigo chamar um filme de épico, porque ele parece meio “deslocado” no tempo ou até meio chato quando leva esse título. Ao menos para mim. Por isso não vou chamar Mongol de épico, mas de um grande filme histórico sobre a formação daquele povo como sociedade organizada e que dominou boa parte do mundo no final do século XII e início do século XIII. Mongol concorreu ao Oscar 2008 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, mas perdeu a disputa para o austríaco Die Fälscher (que está na minha lista de filmes para assistir há tempos). Ainda assim, o representante do Cazaquistão dirigido pelo russo Sergei Bodrov representou com muitos méritos e honra os países que o produziram na disputa.

A HISTÓRIA: Mongol começa com um homem preso recebendo a notícia de que o monge que enviou para saber de sua mulher está morto. O ano é 1192. Então voltamos duas décadas na história para conhecer a história de Temudjin (interpretado quando criança por Odnyam Odsuren e, quando adulto, por Tadanobu Asano), o filho do khan (chefe de uma tribo) Esugei (Ba Sen). Aos nove anos de idade, ele viaja com o pai para escolher a sua mulher na tribo dos Merkit. Muitos anos antes, Esugei havia roubado a sua mulher desta tribo e, agora, com o casamento do filho com uma de suas meninas, ele pretende selar um acordo de paz. No caminho, contudo, eles param no acampamento de Dai-Sechen (He Qi), um amigo de Esugei. Ali Temudjin conhece a Börte (interpretada quando criança por Bayertsetseg Erdenebat e, adulta, por Khulan Chuluun) e decide casar-se com ela. Pouco depois, na volta para casa, Esugei é morto por uma tribo rival. Temudjin e família são rechazados pelos demais de sua tribo e o garoto sobrevivo a duras penas. Até que adulto ele volta para casar-se com Börte. Os dois juntos vão consolidando o poder de Temudjin até que ele consegue, em 1206, unir todas as tribos mongóis sob uma mesma lei, ordem e sob seu comando.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta partes importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mongol): No resumo acima eu não quis comentar algo que talvez muitos saibam, mas que eu só fiquei sabendo no final do filme – uma surpresa que eu acho bacana (NÃO LEIA se não assistiu a Mongol): que Temudjin é o nome de batismo do personagem mundialmente conhecido Genghis Khan. Juro que não sabia que esse era o nome dele… por isso gostei de só saber no final que aquela história toda de sofrimento, perspicácia e luta era, na verdade, a história de um dos grandes líderes que o mundo já teve – e que, para muitos, foi o grande conquistador da História. Bacana saber disso só no final.

O filme é muito bem feito em vários sentidos. O roteiro do diretor Sergei Bodrov com Arif Aliyev equilibra bem os aspectos humano e histórico do personagem principal. Gosto de filmes “épicos” que fazem isso, se centram nos dilemas e decisões que fizeram pessoas “comuns” tornarem-se excepcionais. Um exemplo clássico de um filme assim é Spartacus, do mestre Stanley Kubrick, que conta com maestria a história do escravo que virou gladiador, sem nunca perder todas as tintas humanas de sua história. Pois Mongol faz o mesmo com Genghis Khan. Claro que depois fui atrás de mais informações e há partes do filme que podem ser questionadas, historicamente, mas quem disse que um filme como este precisa ser 100% fiel à História? Até porque a história mesma está sempre em discussão, com vários pesquisadores discordando entre si e “puxando a sardinha” mais para um lado ou para outro.

Gostei, então, primeiramente do roteiro. Acho que ele valoriza o papel da mulher na história – algo que a maioria das biografias de Genghis Khan ou mesmo de textos sobre o povo mongol não trata -, o que é algo muito bacana. Também valoriza muito a “quebra de paradigmas” que Temudjin estabelece no seu povo. Se alguns dizem “mas isso sempre foi feito assim”, ele diz: “sim, mas podemos fazer diferente e melhor”. Claro que eu acho que a história suaviza bastante a parte “bárbara” do personagem. Afinal, ele foi um dos grandes assassinos da história. E pelo que eu fiquei sabendo através de alguns textos sobre ele e os mongóis (cito como exemplos este e este), na verdade Genghis Khan não perdôo nenhum inimigo – inclusive Jamuha (quando criança interpretado por Amarbold Tuvshinbayar e, quando adulto, pelo ótimo Honglei Sun). Se no filme Jamuha acaba sendo libertado por Temudjin, na vida real ele foi morto pelo outro líder khan antes dele se tornar Genghis. E descobri também que Jamuha era, na verdade, um grande amigo de Temudjin com quem ele havia feito um “pacto de sangue” quando criança, mas que na prática eles não eram filhos da mesma mãe, não tinham laços familiares realmente. Detalhes, claro. Nada que desmereça o filme. Ainda assim, Mongol suaviza muito a figura de Temudjin que, na verdade, pelo que contam os historiadores, era um homem sábio, justo e um grande estrategista, verdade, mas que também foi bem cruel e vingativo – esses últimos pontos o filme não mostra.

Gostei muito dos atores em geral. Todos estão muito bem. Com destaque, claro, para o casal protagonista, o japonês Tadanobu Asano – fiquei louca para ver os outros filmes dele – e a atriz Khulan Chuluun. Asano, por incrível que pareça, tem apenas 35 anos… sinal que a equipe de maquiagem de Mongol fez um excelente trabalho de caracterização do personagem, especialmente quando ele está preso. Gostei muito do garoto Odnyam Odsuren, que interpreta o Temudjin jovem. Na verdade, todos estão muito bem. Além dos atores já citados, destaco a interpretação de Aliya como Oelun, a mãe de Temudjin; de Amadu Mamadakov como Tarugai, o homem que persegue Temudjin quando ele é criança e que maltrata a sua família; e de Sun Ben Hon como o Monge que ajuda Temudjin.

Além do elenco em geral, o filme se destaca por uma fotografia deslumbrante. As paisagens na China e no Cazaquistão, na verdade, ajudam muito. heheheheehehehheehehe. Ainda assim, claro, não deixa de ser um belo trabalho dos diretores de fotografia Rogier Stoffers e Sergei Trofimov. Muito boa também a trilha sonora do finlandês Tuomas Kantelinen.

Ah, já ia me esquecendo: outro ponto “falho” do roteiro é que ele só mostra os adultérios de Börte para ajudar Temudjin e para que ela conseguisse sobreviver sem ele, mas não mostra os vários filhos que ele teve fora do casamento – algo que a História comprova. Resumindo: Mongol é um grande filme, mas falha um pouco ao mostrar só as qualidades de Genghis Khan, sem enfocar o personagem em toda a sua complexidade – incluindo os defeitos, é claro. Na verdade, parece mais um filme encomendado pelo governo da Mongólia do que um filme que busca resgatar a história de um grande líder histórico.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como eu disse antes, o filme começa no ano de 1192, quando Temudjin está preso, e depois volta 20 anos… no final, a história segue até 1206, quando o personagem é eleito como Genghis Khan e une, pela primeira vez na história daquele povo, todas as tribos sob um mesmo governo e um mesmo sistema. Aliás, os mongóis só dejam de ser tribos nômades com poderes isolados depois que a figura de Temudjin aparece na história. Sob seu comando eles chegariam a dominar grande parte do mundo conhecido na época, ampliando muitíssimo o que era o território original do povo mongol.

O filme foi indicado, até agora, a um total de 10 prêmios. Destes, ganhou dois: melhor figurino para Karin Lohr e melhor som para Stephan Konken no Prêmio Golden Eagle, na Rússia. Mas para a grande mídia, ele realmente recebeu destaque após ser indicado ao Oscar como Melhor Filme Estrangeiro. Há poucos dias, mais precisamente em 17 de março, o filme ganhou no Asian Films Awards, em Hong Kong, o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para o chinês Honglei Sun. Atualmente o filme concorre em seis categorias no Nika Awards, um dos mais importantes – se não o principal – prêmio de cinema na Rússia. Levando em conta que o diretor e roteirista é russo, eu diria que ele tem boas chances de ganhar alguns prêmios… hehehehehehehehehehehe

Falando no diretor, Sergei Bodrov é considerado na Rússia um dos grandes nomes do cinema moderno naquele país. O filme mais conhecido dele, antes de Mongol, foi Nomad, que também conta uma história do Cazaquistão.

Mongol registra a nota 7,5 no IMDb, além de acumular duas críticas positivas no Rotten Tomatoes – e só isso! Parece que os críticos não viram ao filme indicado ao Oscar… heheheheheheheheehehe.

O filme teria custado aproximadamente US$ 20 milhões – se fosse uma produção de Hollywood, por toda a “engenharia” que o filme pede, com certeza teria custado pelo menos cinco ou seis vezes mais.

Mongol é uma co-produção do Cazaquistão, Rússia, Mongólia e Alemanha.

CONCLUSÃO: Um filme competente sobre a história do povo mongol se transformando de tribos isoladas para uma sociedade organizada que seria responsável pela dominação de grande parte do mundo no início do século 13. Na verdade o filme conta a história de Temudjin, o homem que foi responsável por este feito. Bem dirigido, com um roteiro competente – ainda que deixe boa parte da História de lado -, uma equipe de atores afinada e uma fotografia impressionante, é um filme que tenta resgatar a história humana e social daquele povo mas que, também, tem várias cenas de violência e de batalhas sanguinolentas. Interessante.

Youth Without Youth – Uma Segunda Juventude Março 21, 2008

Posted by Alessandra in Cinema, Cinema europeu, Cinema norte-americano, Crítica de filme, Movie.
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Francis Ford Coppola, um dos grandes nomes do cinema dos Estados Unidos, ficou oficialmente 10 anos sem filmar. Uma década de ausência deste gênio do cinema – que faz parte, junto com Steven Spielberg, George Lucas e Martin Scorsese do grupo que formou o “novo cinema de Hollywood” a partir dos anos 60 e 70 – é muito tempo. Digo que ele ficou oficialmente fora da direção porque ele participou, ainda que sem fazer parte dos créditos, das filmagens de Supernova, produção do ano 2000. O filme anterior, o que ele filmou por último oficialmente, foi The Rainmaker (O Homem que Fazia Chover), em 1997. Exatamente 10 anos antes deste Youth Without Youth. Fiquei louca ao saber de sua volta como diretor e estava sedenta para ver este filme. Vale dizer, claro, que nestes 10 anos Coppola não ficou afastado dos cinemas. Pelo contrário. Como produtor ele trabalhou muito. Foi responsável por nada menos que 18 produções para os cinemas (entre elas os filmes de sua filha, Sofia Coppola), seis filmes para a TV e três séries televisivas – inclusive quatro episódios de The 4400. Mas o fato é que, independente do trabalho como produtor, há dez anos ele não escrevia um roteiro ou coordenava todo o trabalho que envolve um filme, atuando como diretor de atores e condutor de uma narrativa. Sei que para um gênio do cinema como ele é quase um “sacrilégio” dizer algo assim, mas na verdade a sua volta como diretor é frustrante. Talvez Youth Without Youth agrade em cheio a muita gente, mas para mim pareceu um filme de David Lynch feito por alguém que não é David Lynch. Ou seja: um filme destes que tu fala “que loucura”, “que viagem”, durante o tempo em que estás vendo a história, e que te deixa com um monte de dúvidas até que tu vai juntando todas as peças do quebra-cabeças. O que não é um problema, mas quando o diretor por trás disso é David Lynch. O problema é quando alguém como Coppola tenta fazer algo assim… e não consegue. O resultado acaba sendo um quebra-cabeças meio falso, meio chato, que se explica demais e que não deixa os “fios soltos” como deveria. Uma pena.

A HISTÓRIA: Dominic Matei (Tim Roth) é um professor universitário na cidade de Piatra Neamt, na Romênia, atormentado com a lembrança de um amor antigo, Laura (Alexandra Maria Lara), que ele perdeu quando era ainda jovem. Ele já passou dos 70 anos de idade e continua vivendo em Piatra Neamt, sua cidade-natal. Enquanto lembra de sua antiga paixão, ele também luta para continuar sua grande obra, um livro que busca as origens da fala, da comunicação e do pensamento humano. Cansado de sua rotina e se vendo incapaz de terminar o livro, em uma noite de Natal em que sofre com a insônia, ele resolve fazer uma viagem até Bucarest na Páscoa, onde ele poderá tomar uma atitude definitiva em sua vida. Só que logo depois de chegar na cidade ele é acertado por um raio ao atravessar uma rua. Ao invés de morrer, ele acaba passando por uma experiência incrível: começa a rejuvenescer e a assumir capacidades sobre-humanas. Com a ajuda do médico Professor Stanciulescu (Bruno Ganz), ele recupera a sua saúde e começa a empreender uma fuga dos nazistas que cada vez mais dominam a Europa e que estão interessados em seu caso raro. Depois de passar por diversas experiências e cidades, escondendo-se como um espião, ele encontra, nas montanhas de Ticino (próximo da cidade de Pavia, na Itália), a Veronica (Alexandra Maria Lara), que parece ser a reencarnação de seu antigo amor.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que grande parte do texto à seguir conta partes importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Youth Without Youth): Antes que alguém me entenda mal, quero explicar o que eu quis dizer com a introdução ali de cima. Eu não acho que um diretor tem que fazer o mesmo sempre, seguir uma “mesma linha” e que ele não pode fazer algo totalmente diferente lá pelas tantas. Acho sim que inovações e lances ousados são bem-vindos. Mas o que eu acho também é que cada um tem as suas identidades, as suas peculariedades, e que quando se arrisca a fazer algo que “não é o seu” pode acertar ou errar feio. No caso de Coppola, eu acho que ele tenta fazer algo bem diferente do que já vimos ele fazendo até aqui, como diretor, e não se sai bem.

O filme aborda vários temas e usa diferentes recursos para contar a história de Dominic Matei. Mas entre os recursos está a distorção de imagens, cenas invertidas e demais elementos que nos remetem a cenas “oníricas” (de sonho e/ou ilusão, delírio), diálogos entre o personagem principal e sua outra personalidade – ou entidade, como preferirem; entre outros. Acho que o jogo de realidade e ficção em uma narrativa para o cinema já foi usada muitas vezes de maneira mais convincente. Antes citei a David Lynch, para mim um mestre em confundir e em fazer filmes que “brincam” muito com os conceitos de realidade, fantasia, ilusão, múltiplas interpretações e etc. O problema é que Coppola tenta isso aqui e, infelizmente, não funciona. Uma das razões principais, para mim, é o que pode justamente agradar a muita gente: Coppola se explica demais. Enquanto Lynch pouco se importa se o espectador vai entender o seu filme de uma maneira ou outra – afinal, todas as maneiras de entender uma obra estão certas -, Coppola se preocupa em mostrar várias cenas “desnecessárias” para, afinal, explicar o seu filme.

Vejamos: quando Dominic chega na cidade de Bucarest, um close no jornal da vendedora na saída da estação nos revela a data precisa de sua viagem – 24 de abril de 1938. Depois que ele é atingido pelo raio e pelas outras notícias que vemos nos jornais, se “justifica” a ascensão dos nazistas na Europa e a “pressão” cada vez maior em buscar o homem que “rejuvenesceu” e que, tudo indica, parece ter adquirido poderes após uma forte descarga elétrica. Quando Dominic regressa à sua cidade-natal, Piatra Neamt, no final do filme, aparece no quadro de fora da estação de trem a data 20 de dezembro de 1969. Então quando Dominic, utilizando o nome de Martin Audricourt, registra-se no hotel perto do Cafe Select, faltam poucos dias para começar a década de 70 na Romênia. Praticamente na cena final, quando um desconhecido pega o passaporte de Dominic para ver a identidade do homem deitado na neve, conseguimos ler (com a ajuda de um “pause”, é claro) que o passaporte da República de Honduras – falso, é claro – leva o nome de Martin Audricourt e sua data de nascimento: 24 de abril de 1938. Detalhe: os “amigos” que Dominic encontra no Cafe Select insistem com ele que todos estão vivendo a noite do dia 20 de dezembro de 1938.

Por que comentei todas estas datas, nomes e fatos? Simples: para mostrar como Coppola se preocupou em explicar o seu filme. Até que alguém perceba estes detalhes o filme pode ser entendido, basicamente, de duas maneiras: 1) Dominic viaja até Bucarest e lá, depois de ser atingido por um raio, ele vai para um hospital e, milagrosamente, começa a se recuperar e a rejuvenescer. Aos poucos ele também vai descobrindo alguns “poderes”, como o controle de objetos ao seu redor – como na roleta do cassino – ou de vontades alheias (como na cena com o perseguidor nazista). Depois de reencontrar seu grande amor reencarnada em Veronica, ele consegue perdê-la mais uma vez e, retornando à sua cidade-natal, “mata” a sua outra personalidade/anjo da guarda. Ao visitar o Cafe Select, ele “encontra” em sonho seus antigos amigos para, em seguida, envelhecer rapidamente e morrer na neve com mais de 100 anos de idade – e com um passaporte falso com o qual vivia sendo encontrado no seu bolso; 2) Dominic viaja até Bucarest e lá, depois de ser atingido por um raio, ele vai para um hospital onde é tratado dos ferimentos. Durante o tempo de recuperação, ele sonha com uma outra realidade, na qual ele rejuvenesce, viaja pela Europa com várias identidades, é perseguido por nazista e acaba encontrando a Laura outra vez, desta vez com o nome de Veronica. Depois de passar por esta experiência “onírica”, ele volta no dia 20 de dezembro de 1938 – quase depois de oito meses – para a sua cidade-natal, onde hospeda-se em um hotel e reencontra, no Cafe Select, a vários amigos. Na saída do café ele perde todos os dentes e acaba morrendo antes de chegar no hotel.

Até que Coppola mostra em close as várias “coincidências” de datas e nomes – como a data de “nascimento” de Martin Audricourt ser a mesma do acidente com o raio -, você tem basicamente dois caminhos a seguir: ou acredita que tudo o que o filme mostra realmente aconteceu, ou seja, que Dominic rejuvenesceu e adquiriu superpoderes depois de ser atingido por um raio; ou acredita que toda a parte posterior ao raio e até a sua ida ao Cafe Select no final seja fruto de sonhos e de sua imaginação delirante e um pouco senil. Só que Coppola não nos dá o “gostinho” de ter dúvidas, de poder concordar ou discordar um dos outros – o que Lynch, ainda bem, sempre faz. Coppola, ao mostrar o passaporte de Audricourt no final, nos diz: sim, este homem foi encontrado caído na neve aparentando ter muito mais de 70 anos, em 1969, mas com um passaporte no bolso com data de nascimento de 1938. Ou seja: impossível, se não fosse pelo fato daquele homem realmente ter rejuvenescido de maneira inexplicável e de ter permanecido jovem até aquela data.

Eu quase preferia, na verdade, que tudo tivesse sido um sonho de Dominic. Me explico: a razão dele ter morrido foi um pouco ridícula. Afinal, só porque ele quebrou o espelho em que sua outra personalidade estava refletida, simbolicamente o “matando”, ele também morreu? Algo meio “O Retrato de Dorian Gray” mas sem a lógica do livro de Oscar Wilde? Hummmmmm… odeio “cópias” ou “homenagens” mal explicadas. Também acho deprimente o fato de que Dominic, ao ter uma segunda chance com o seu grande amor, ter sido, mais uma vez, incapaz de amá-la, incapaz de conseguir viver este grande amor – o que, justamente, era o que ele mais lamentava no início do filme. Ok, que ele lamentava isto e também não terminar o seu livro… mas o que acontece com ele depois é a prova de que o egoísmo fala mais alto que o amor. Porque ele acaba preferindo “evoluir” com a sua obra do que cuidando de Veronica/Laura, do que vivendo a sua grande história de amor. Acho triste isso, um homem com mais de 70 anos não ter aprendido ainda o que realmente vale a pena.

Além do mais, ele arrogante grava fitas para a posteridade, para a “era pós-guerra nuclear”… pretensioso, ele crê que pode dar “esperança” para as gerações futuras, sobreviventes de uma época de desilusão e de catástrofe. Sinceramente? O exemplo dele; de um homem que consegue poderes sobre-humanos e que não os utiliza para o bem de ninguém além do seu próprio, que vive mais preocupado em descobrir os seus “novos talentos” do que em agir de alguma maneira para mudar a realidade absurda que o cerca – durante a Segunda Guerra Mundial -, que acaba preferindo fazer mal para a mulher que ama apenas para conseguir alguma informação para a sua obra inacabada; não serve para ninguém.

Outro ponto um pouco absurdo é que achei muito fácil o processo de “evolução” humana… afinal, bastou um sujeito de pouco mais de 70 anos levar um raio na cabeça para conseguir rejuvenescer e adquirir superpoderes! Fácil, não? O pior é que Deus jogou suas fichas no sujeito errado. hehehehehehehehehehehe

Tirando todos estes elementos que me incomodaram, o filme até que tenta tratar de vários assuntos interessantes. Tem como pano de fundo o início da Segunda Guerra Mundial e o crescimento do poder nazista na Europa do final dos anos 30 e início dos 40; trata do tema da reencarnação, assim como do retrocesso à vidas passadas (ainda que involuntário ou, de outro ponto de vista, da possessão de um corpo por uma entidade antiga); e da busca pela origem da linguagem, da comunicação e de como isto define todo o pensamento humano. São três temas interessantes que foram, contudo, tratados um pouco “correndo” pelo roteirista. Falando nele, vale lembrar que Coppola se baseou no livro de Mircea Eliade para escrever o roteiro de Youth Without Youth.

Um tema que seria interessante refletir, se não fosse a decisão de Coppola em nos “explicar” o filme através dos detalhes, é o de como agimos quando vemos próximos o nosso fim. Podemos, como Dominic no início do filme, pensar em tudo o que deixamos de viver e fazer, por nossa incapacidade, ou podemos “sonhar” com uma realidade diferente, nos permitindo viver histórias impossíveis que gostaríamos que fossem realidade. Acho que seria mais bacana pensar em toda a história que vimos como uma fantasia, como um sonho de Dominic, uma manifestação da sua vontade de ter uma “segunda chance”. Só acho uma pena que ele não tenha aproveitado esta oportunidade… o que pode levar a outra tema: que talvez nós, realmente, sejamos incapazes de mudar algo que já aconteceu. E que existem possibilidades, histórias que realmente não devem acontecer. Mas isso seria papo para outro filme, uma história que nos deixasse a interpretação aberta. O que não é o caso deste filme.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: No final das contas, achei Youth Without Youth um filme cheio de fantasia distorcionada, de histórias frustadas e de contra-exemplos. Não é um filme bonito, não é um filme que inspira. Além disto, achei o Tim Roth muito fraco na pele do personagem principal. Alexandra Maria Lara está lindíssima e encantadora, como sempre, mas até ela “escorrega” em algumas cenas – como na despedida de Veronica e Dominic. Bruno Ganz está bem, como sempre. André Hennicke como o nazista Josef Rudolf parece caricatural. Enquanto isso, Alexandra Pirici está bem no papel da “mulher do quarto 6″. Ela tem charme e tem o peso certo para cada cena.

Uma curiosidade: a ótima atriz Anamaria Marinca, protagonista de 4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile (4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias) faz uma ponta no final do filme como a recepcionista do hotel em que se hospeda Audricourt. Aliás, falando no hotel: o fato de Dominic se hospedar em um hotel com sua identidade falsa na volta de Bucarest só reforça a idéia de que ele volta para a sua cidade 31 anos depois de ter saído dali. Afinal, se ele ainda tivesse a casa em que vivia, ele não precisaria ficar em um hotel, não é mesmo?

Youth Without Youth recebeu a nota 6,7 dos usuários do site IMDb. Os críticos que tem suas opiniões publicadas no Rotten Tomatoes conferiram 63 críticas negativas e 24 positivas para o filme. Parece que, sem querer, meu comentário segue a maioria – hehehehehehhehehehe. Juro que não tinha lido estas notas antes de escrever meu comentário. Aliás, eu geralmente escrevo o que eu penso e só depois vou atrás de mais informações para colocar aqui como curiosidades – para tirar dúvidas de quem possa se perguntar sobre minhas influências, hehehehehehehehe.

O filme estreou nos Estados Unidos no dia 16 de dezembro de 2007. Até o dia 24 de fevereiro ele tinha conseguido uma bilheteria de pouco mais de US$ 239,4 mil. Pouco, muito pouco. Pelo jeito ele será meio que um fracasso.

Falando em fracasso… achei horrível o cartaz do filme. Brega, digamos. Aliás, a questão das rosas vermelhas jamais é explicada na história. Afinal, por que Dominic tinha tanto fascínio por estas flores? Eu não sei, pelo menos. Ah, e alguém pode dizer que o cartaz segue a mesma idéia da abertura do filme, com aquele resgate das antigas aberturas de Hollywood. Ok, até que a idéia de Coppola com a abertura “das antigas” ficou legal, mas já o cartaz… achei feio mesmo!

O filme realmente foi feito na Bulgária e na Romênia. No primeiro país a equipe de filmagens trabalhou em Balchik. Na Romênia eles já filmaram em várias partes, incluindo Bucarest e Neamt (na Moldávia).

Algo curioso de Youth Without Youth é que o filme reúne na mesma produção, ainda que eles não contracenem em nenhum minuto, aos atores Bruno Ganz e Alexandra Maria Lara – os dois ficaram internacionalmente conhecidos por seus excelentes trabalhos em Der Untergang (A Queda – As Últimas Horas de Hitler), de 2004.

Depois deste filme, Coppola começou a trabalhar em Tetro, um filme previsto para 2009. Desta vez, mais uma vez, ele será responsável pelo roteiro e pela direção. As informações preliminares é de que fazem parte do elenco Matt Dillon, Rodrigo de la Serna (o parceiro de Gael García Bernal em Diários de Motocicleta) e Maribel Verdú (a madrileña talentosa de El Laberinto del Fauno). Parece um projeto interessante – e esperamos que produza um filme melhor que este Youth Without Youth. Além deste filme, Coppola está trabalhando como produtor de On the Road, o esperado novo filme de Walter Salles baseado na obra e Jack Kerouac.

Buscando mais informações depois de ver o filme, descobri que Mircea Eliade, o autor da obra que inspirou Coppola, foi um escritor rumano que viveu de 1907 até 1986 e é considerado um dos mais importantes historiadores das religiões. Uma curiosidade a respeito dele: apesar de ter nascido na Romênia, ele fez faculdade na cidade de Bucarest – onde se passa uma parte importante da história de Youth Without Youth. Ele também viveu na Índia – para onde o filme nos transporta lá pelas tantas. Depois de começar a ler sua biografia, lembrei que já li alguns trechos de seus livros. Como muito bem comenta este texto, na volta da Índia ele começou a escrever livros de dois tipos, basicamente: estudos rigorosos do fenômeno religioso em diversas culturas; e obras com base autobiográfica nas quais recriava de maneira “fantástica” as experiências espirituais que havia vivido. Ele falava oito idiomas: rumano, francês, alemão, italiano, inglês, hebraico, persa e sânscrito. Uau!!! Mas algo curioso: no período em que deu aulas em Bucarest, de 1932 a 1940, ele colaborava com jornais de extrema direita e mantinha vínculos com o movimento fascista. Sinistro!

Ah, e já ia me esquecendo de um detalhe: o ator Matt Damon, conhecido por interpretar o “mestre” da espionagem Jason Bourne, faz uma ponta como um repórter da revista Life interessado em “colaborar” com Dominic. Só achei a passagem dele totalmente “deslocada” na história e sem grande sentido, mas tudo bem. Foi curioso ver ele no “outro papel”, assediando a um homem que tenta manter a sua identidade falsa a qualquer custo.

O filme é uma co-produção dos Estados Unidos com a Alemanha, Itália, França e a Romênia. Durante a história são faladas seis línguas: inglês, sânscrito, alemão, francês, italiano e rumeno.

CONCLUSÃO: Primeiro filme com roteiro e direção de Francis Ford Coppola em uma década, fica abaixo da média deste grande nome do cinema dos Estados Unidos. Confuso, irregular, o filme que poderia deixar muitas leituras em aberto para o espectador se apressa em “explicar” o que é real ou fantasioso. Um desperdício. Além do mais, tem um ator principal com desempenho fraco. Fica muito abaixo do que se podia esperar de um filme baseado em alguma obra de Mircea Eliade.

Margot at the Wedding – Margot e o Casamento Março 19, 2008

Posted by Alessandra in Cinema, Cinema norte-americano, Crítica de filme, Movie.
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Eu tenho uma verdadeira admiração pelo trabalho de algumas atrizes. Dentre muitas delas, incluo na lista Nicole Kidman e Jennifer Jason Leigh. E foi por elas que eu assisti a Margot at the Wedding. Depois é que fiquei sabendo que se trata de um filme com direção e roteiro de Noah Baumbach, o homem que impressionou a muitos com o seu The Squid and the Whale (A Lula e a Baleia). Eu assisti ao filme com Jeff Daniels e Laura Linney e gostei do que vi. Quando soube que se tratava do mesmo cérebro por detrás dos dois filmes, entendi muita coisa. Afinal, Margot at the Wedding “sofre” com o mesmo “excesso” de realismo e de franqueza que se percebe em The Squid and the Whale. Mas, para mim, esse novo título é ainda melhor que o anterior. Ou, pelo menos, é diferente. Ainda que guarde várias semelhanças, é claro. Mas de fato gostei mais deste último, com um trabalho incrível das atrizes mencionadas e, para minha surpresa, do ator Jack Black – que prova que pode fazer um trabalho mais denso do que as comédias que estamos acostumados a ver, ainda que seu papel seja um pouco cômico.

A HISTÓRIA: Margot (Nicole Kidman) viaja com o filho Claude (Zane Pais) para o casamento da irmã Pauline (Jennifer Jason Leigh). As duas não se falam há algum tempo, mas Margot diz que é importante a presença dela e do filho para apoiá-la neste momento. Detalhe: Margot não entende, em nenhum momento, como Pauline irá se casar com um homem como Malcolm (Jack Black), um sujeito sem trabalho definido que já foi músico e que atualmente divide o tempo escrevendo cartas para jornais e revistas e pintando algumas obras. Chegando na casa de Pauline, Margot revela que terá em poucos dias um compromisso profissional, uma conversa em uma livraria com leitores de sua última obra. Aos poucos as diferenças familiares vão aflorando, assim como a relação conflituosa entre Margot e seu marido Jim (John Turturro) e a relação dúbia dela com o também escritor Dick Koosman (Ciarán Hinds).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Margot at the Wedding): Noah Baumbach mostrou, com seu filme anterior, uma peculariedade: o talento para escrever roteiros muito, mas muito bons, e para sacar grandes interpretações de seus atores. Também demonstrou que tem uma mão certeira para “desvelar” os bastidores das famílias com um certo “nível cultural” nos Estados Unidos. E, claro, esta radiografia não se aplica apenas àquele país, mas acho que pode ser plausível em qualquer classe média ou média-alta com um certo “nível” de apreço pela cultura e/ou formada por gente com talento para as artes em qualquer parte do mundo – incluindo no Brasil.

Pois o diretor e roteirista sigue destilando a sua crítica ácida e realista deste tipo de família em Margot at the Wedding. Só que agora o foco sai um pouco do “casal e seus filhos”, ponto central de The Squid and the Whale, e se amplia para uma relação centrada em duas irmãs e suas respectivas famílias. Então aqui também se percebe de maneira muito forte a relação pais e filhos, assim como a decadência da instituição família com a presença sempre “ameaçadora” da infidelidade, mas o foco se amplia para a relação de intimidade, competição, amor e repulsa entre irmãs e, em paralelo, com a vizinhança.

Como no filme anterior de Baumbach, o carro-chefe aqui é realmente o roteiro. Ao invés de um casal de escritores com talento e com ego em conflito, visto em The Squid, aqui a personagem-título é uma escritora de talento que vive uma crise existencial sem se dar conta. Antes de ser confrontada com a realidade, ela se sente na posição de julgar a tudo e a todos. Critica a irmã, o futuro marido, os vizinhos deles, o próprio filho… A metralhadora giratória não poupa ninguém. Gosto de gente sincera, mas Margot chega a ser cruel. Ela não tem, muitas vezes, aquele senso crítico de saber quando ficar calada… não. Ela segue como uma criança que fala absolutamente tudo o que pensa, não importando o quanto isso pode machucar uma outra pessoa por nada, sem nenhuma razão prática ou sentido de “ajuda”. Mas claro, não apenas Margot é assim. O seu filho Claude, criado com o lema de “nada a esconder”, segue a mesma tendência. A verdade é que a maioria dos personagens do filme são assim. Não por acaso você espera, durante toda a história, que alguma merda aconteça a qualquer momento.

O filme trata de muitos temas, mas um me chamou a atenção em especial: de como podemos ser, ao mesmo tempo, tão próximos e tão estranhos de pessoas que amamos. No caso de Margot e da irmã Pauline, elas dividem uma série de vivências, segredos e mantêm um elo de ligação que apenas podemos nutrir com irmãos ou com amigos com quem crescemos juntos. É uma espécie de comunicação e de “sentir” que não precisa de palavras. Mas, ao mesmo tempo, elas viveram histórias e passaram por situações diferentes e que não foram compartilhadas entre as duas. O resultado é que estas experiências e sensações diferentes as separam, porque ajudaram a formá-las de maneira distinta, da mesma forma que as situações que elas compartilharam e que criaram o elo que as une. O interessante deste tema é que o mesmo acontece com todas as pessoas deste mundo, incluindo eu e você. Temos pessoas que amamos muito e com quem compartilhos uma intimidade e uma “sintonia” incrível e, ainda assim, somos estranhos em vários sentidos para estas mesmas pessoas. Isso porque compatilhamos muitas coisas, mas outras não. Outras são impossíveis de compartilhar, praticamente. E neste espaço sem compartir é que pode ser criado uma série de sentimentos de descompasso. Como no caso de Margot e de Pauline, em que não sabemos até que ponto existe a vontade de proteger ou de competir, até onde vai o amor ou o ódio, a verdade ou a mentira.

Uma das primeiras – de muitas – cenas fortes e interessantes do filme é quando Claude caminha até a parte que separa os vagões do trem em que viaja com a mãe e começa a gritar. Essa vontade de gritar, de extravasar uma angústia reprimida, poderá ser sentida depois em quase todos os personagens. Pelo menos nos centrais: Margot, Pauline e Malcolm. É a velha história da briga entre a sinceridade e o jogo social de manter-se controlado. Todos são muito sinceros no filme, chegando, como eu disse antes, até ao ponto de serem algumas vezes cruéis – especialmente Margot. Mas, ao mesmo tempo, aos poucos vamos vendo como todos também dissimulam o que sentem, disfarçam, jogam “o jogo” que se espera que as pessoas joguem na sociedade.

Outro tema importante no filme é a dificuldade das pessoas em manter relações de dependência ou “para a vida inteira”. Margot sofre com isso, intensamente. E vamos percebendo aos poucos, especialmente com a pergunta de Dick na livraria. No final, ela gostaria de fazer o que vimos antes em The Hours… O bacana é que o filme não cai no óbvio, mesmo aí, e nos mostra que uma coisa é certa: sempre, sempre mesmo, nós temos escolhas.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei lá no início, me impressionou com a interpretação de Jack Black. Para muitos ele talvez esteja fazendo o de sempre: o papel de um “loser” (perdedor) um pouco cômico. Mas para mim ele atingiu um outro nível de interpretação neste filme. Achei que ele sim mantêm o estilo loser-paranóico-engraçado que já fez antes, mas com uma dose maior de inconstância e de realismo, sem ser tão estereotipado como em outros filmes. Gostei.

Nicole Kidman e Jennifer Jason Leigh estão escandalosamente naturais e perfeitas em seus papéis. Acho que são duas grandes intepretações, merecedoras de prêmios. Falando nisso, até agora Margot at the Wedding foi indicado a seis prêmios, mas não ganhou nenhum. Duas indicações foram para o filme. As outra quatro para o elenco – sendo duas para Jennifer Jason Leigh, uma para Nicole Kidman e a outra para todo o grupo de atores.

Margot at the Wedding custou US$ 10 milhões e arrecadou, até 31 de janeiro, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 1,9 milhões. Algo baixo, muito baixo, especialmente pelos atores conhecidos que fazem parte do elenco e pelo diretor, que ficou meio que “queridinho” no meio depois de The Squid.

Para quem, como eu, gosta de saber das locações dos filmes, comento que Margot foi todo filmado no Estado de Nova York, em diferentes locais, como o Bronx e Long Island.

Gostei muito da direção de fotografia assinada pelo nova-iorquino Harris Savides.

O garoto que interpreta Claude, Zane Pais, faz aqui a sua estréia nos cinemas. E o faz muito bem! Ainda que em um papel muito menor, está bem a atriz Flora Cross como Ingrid, a filha de Pauline que anda em uma fase de descoberta sexual e de curiosidade por possíveis gays que a rodeiam. Merece citação também Halley Feiffer como Maisy Koosman, a filha de Dick que trabalha como babá esperádica de Ingrid na casa de Pauline e Malcolm. Interessante como toda vez que ela aparece no filme ela literalmente rouba a cena.

Uma curiosidade: o diretor Baumbach é casado com a atriz Jennifer Jason Leigh. Eu não sabia disso até ver uma foto deles com as mãos dadas na divulgação do filme. hahahahahahahahaha. Os dois se casaram em setembro de 2005, mas estavam juntos há quatro anos antes da cerimônia oficial.

No site IMDb o filme registra a baixa nota 6,4, enquanto no Rotten Tomatoes ele acumula 79 críticas positivas e 74 positivas. Parece que realmente é um filme que agrada as pessoas na mesma medida que as desagrada. hahahahahahaha

Outro tema que eu achei interessante do filme (NÃO LEIA se você não assistiu a Margot ainda): como pessoas talentosas como Margot, muito seguras de si, que buscam a sinceridade e a transparência constantemente, podem ser tão cínicas e tão inconstantes. Ao mesmo tempo em que ela critica a irmã por não contar a filha e ao noivo que ela está grávida, ela é incapaz de falar para o filho que está prestes a deixar o marido para ficar com o amante. Como alguém pode ser tão hipócrita. E, ao mesmo tempo, eu diria, tão humana? Afinal, ela é a prova de quem somos cada um de nós para apontar para o outro e criticá-lo, já que temos os mesmos defeitos ou, se não os mesmos, outros distintos. Ela é ótima para apontar os defeitos alheios, mas age muito mal quando tem que aceitar os seus próprios. Interessante. Para refletir. Outro ponto que achei interessante foi o que ela se cobra muito e cobra dos demais também, assim como o fato dela ter a consciência de que está perdendo a sua humanidade, algumas vezes – como na sequência do cão atropelado. Mas, no fundo, ela não sabe o que fazer com tudo isso, porque está dividida, está perdida. Uma interessante crônica sobre algumas crises que afetam a tantas pessoas na nossa sociedade atual.

Levando em conta as notas no IMDb e no Rotten Tomatoes eu acho que será o típico filme que não irá agradar, MESMO, a gregos e troianos. Pelo contrário. Parece que será o típico filme do “ame ou deixe-o”. No meu caso, estou para o lado dos que gostaram.

Ainda assim, tenho que admitir que o filme tem algumas cenas infames. Por isso dei a nota que dei para ele… entre elas, menciono a de Malcolm analisando os seus órgãos genitais e fazendo comentários deles na frente do espelho e o momento em que Pauline faz cocô nas calças… realmente são duas cenas e algumas frases no roteiro que eu achei por demais escatológicas.

CONCLUSÃO: Filme potente e que alguns podem considerar muito cínico ou forte sobre algumas questões muito comuns na nossa sociedade pós-moderna, como a difícil relação entre pais e filhos, entre dependência emocional/afetiva e a busca da independência, entre a prática do “jogo social” e o que alguns buscam praticar como “sinceridade extrema”. Bem dirigido e com um roteiro interessante, tem grandes interpretações do seu elenco, em especial de Nicole Kidman e Jennifer Jason Leigh.

The Air I Breathe – Ligados pelo Crime Março 16, 2008

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O filme parecia interessante por vários aspectos. Começando pelo título – algo como “O Ar que eu Respiro” -, seguindo pelo elenco (fantástico, diga-se!) e terminando pelo pôster. Quando vi uma arma com uma borboleta, pensei: “Hummmmm, que interessante antítese entre a violência e a liberdade…”. Então comecei a assistir a The Air I Breathe e logo me deparei com Forest Whitaker em uma vida ferrada, sem perspectivas, mas que muitos veriam como uma “vida padrão”. Em teoria ele tem tudo para ser feliz: trabalho, casa… mas, ainda assim, ele não quer esta vida. O começo é promissor. Nesta primeira parte, denominada “Happiness” (Felicidade), vemos pouco disto em cena… afinal, nada mais contraditório para a cena dele com uma arma na mão. Mas o problema é que o filme começa promissor, mas vai se mostrando vazio… algumas vezes, bem “fake” (falso), um tanto descompassado entre o que pretende ser e o que realmente consegue.

A HISTÓRIA: O filme conta quatro histórias que se entrelaçam. A primeira parte se chama Happiness/Felicidade, e conta a história de um bancário farto da sua vida “padrão” (Forest Whitaker) mas que, para muitos, tem uma “vida feliz”: com trabalho, dinheiro, perspectivas de futuro. Mas no fundo ele vê sua realidade como um grande vazio. Em seu trabalho ele acaba conhecendo um homem com muita sorte nos investimentos, na bolsa, um homem que sempre acerta em tudo – como se pudesse ver o futuro (Brendan Fraser). Depois da parte da Felicidade, assistimos o segundo trecho, “Pleasure”/Prazer, centrado justamente neste homem bom nos investimentos. Descobrimos que ele realmente consegue ver o futuro e que ele trabalha para Fingers/Dedos (Andy Garcia), um mafioso habituado a lidar com apostas, proteção de estabelecimentos comerciais, dinheiro, dívidas e violência. Logo Fingers e seu “capanga” que vê o futuro terão seus interesses postos em conflito quando aparece em cena uma ascendente estrela pop (Sarah Michelle Gellar). A história dela começa a ser contada com maior “profundidade” na terceira parte do filme, denominada “Sorrow”/Tristeza. Nesta parte que ficamos sabendo do passado trágido da jovem artista que acaba virando “moeda” de troca de seu agente com dívidas. O bancário vivido por Whitaker, o capataz do mafioso e a artista pop buscam, cada um a sua maneira, mudar as suas vidas, enfrentar o destino e alcançar a liberdade. A última parte do filme, denominada “Love”/Amor, conta a história de um médico (Kevin Bacon) devotado a salvar vidas, decidido, que rompe com o que parecia inevitável para mudar a história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto a seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Air I Breathe): Inicialmente o site IMDb me enganou… ali eles colocam o nome dos quatro atores principais como Happiness, Pleasure, Sorrow e Love. Na verdade, buscando mais informações, descobri que em momento algum o diretor do filme ou os roteiristas colocam estes nomes nos personagens. Na verdade, cada um destes atores interpreta pessoas “inominadas”, sem nome. Exceto por Trista, o nome da artista, nenhum dos outros é chamado pelo nome. E detalhe: sabemos que o nome dela é falso. Ou seja: os roteiristas cuidaram de não colocar em nenhum deles um nome – talvez para significar que eles podem ser qualquer um de nós. Mas o fato é que os “sentimentos” Felicidade, Prazer, Tristeza e Amor estão ali para demarcar rupturas na narrativa, mas não para definir personalidades.

Depois também fiquei sabendo que o diretor e roteirista Jieho Lee se inspirou em um antigo provérbio chinês que diz que a vida está dividida entre estes quatro sentimentos. Não por acaso ele coloca, no início do filme, a frase do teólogo libertário e abolicionista Henry Ward Beecher: “Nenhuma emoção, tal como uma onda, consegue manter por muito tempo a sua forma individual”. Uma coisa é certa: The Air I Breathe quer bater muito na tecla de que todas as pessoas estão conectadas – seria a razão do “ar que eu respiro” do título? – e que cada “modo de viver” influi no do outro.
O filme escrito por Lee e Bob DeRosa tem várias sequências muito boas, assim como sacadas inteligentes. Mas também tem muitos “espaços vazios” de sentido, com boas frases jogadas no meio de uma série de afirmações dispensáveis. Como eu disse lá no início, ele realmente começa muito bem, promissor, mas depois termina com um grande “e daí?”. No fim das contas, dois dos nossos quatro personagens principais morrem e dois sobrevivem. Não entendi muito bem porque, em um filme em que nenhum dos quatro personagens principais tem um nome conhecido, existe tanta curiosidade sobre o verdadeiro nome de Tristan. E daí se ela se chama Patrícia, Isabela ou Joana? Ok, talvez seja uma maneira do diretor dizer que o nome é uma das nossas principais identidades e que descobrir o verdadeiro “nome das coisas” é a melhor maneira de conhecer a sua verdadeira essência – fazendo referência a Fernando Pessoa.

Mas vamos falar de acertos do filme: gostei de cada um dos “retrocessos” na vida dos personagens principais. Tecnicamente falando, o filme é muito bom. Especialmente pela fotografia cuidadosa de Walt Lloyd e da edição feita por Robert Hoffman. Eu diria que a fotografia e a edição, assim como a trilha sonora original de Marcelo Zarvos são os pontos altos do filme. Os atores também estão bem, no geral, ainda que, muitas vezes, eles pareçam muito caricaturais. Nenhum deles me convenceu de todo. Mas eu acho também que o roteiro contribuiu com isso, com algumas falas e algumas cenas desnecessárias ou “forçadas”.

O diretor faz um bom trabalho, ainda que a cena em que o médico salva a jovem artista pop tenha sido muito, mas muito “fake”. Alguém realmente acredita que uma pessoa normal falaria o que ele fala para ela, com aquela tranquilidade, se segurando com apenas um braço e sustentando o peso de um outro corpo com apenas o braço que sobrou? Aaaaaaaahhhhhhhh, por favor! O filme estava sendo tão “realista” até ali – com destaque para aquela ótima cena da moto na fuga super bem filmada do bancário. O diretor nova-iorquino (sim, ele é estadunidense… e eu pensando que, pelo nome, ele fosse chinês! hehehehehehe) realmente tem grande potencial. Só espero que ele capriche um pouco mais no roteiro do próximo projeto ou, talvez, pegue um bom trabalho de outro roteirista pela frente.

No fim das contas, fiquei pensando sobre a arma com uma borboleta na ponta… se a borboleta simboliza liberdade e a “mudança” de um estágio de “feiura para beleza”, como mesmo comenta o personagem de Whitaker no início, porque ela está pousada sobre a arma? Será que o filme, por tudo que ele mostra, quer dizer que a transformação e a liberdade só podem surgir como resultado da violência? Ou ele seria uma ode ao conceito que de toda a violência que existe no mundo será transformada em beleza? Eu diria que esse pensamento, de que a beleza ou a transformação ou a liberdade serão frutos da violência é um tanto quanto assustador e perigoso. Eu acho que a borboleta existe antes da arma e continuará existindo – se não acabarmos com todas as espécies antes – depois que todas as armas forem jogadas fora.

NOTA: 6,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além dos atores já citados, participam do filme ainda Julie Delpy como Gina, o último amor do médico; Clark Gregg como Henry, o marido de Gina; Emile Hirsch como Tony, o sobrinho “descerebrado” e aloprado de Fingers; Taylor Nichols como o pai da jovem artista pop; e Victor Rivers como Eddie, um dos capatazes maus de Fingers.

Falando em Fingers, fazia tempo que eu não assistia a Andy Garcia em cena. Pena que ele caiu justamente em um papel tão estereotipado. Algumas vezes ele chega a ser até irritante. Por outro lado Julie Delpy está muito bem. Emile Hirsch, coitado, caiu em um papel horrível… ainda assim, é sempre bom vê-lo em cena. Acaba sendo engraçada a sua interpretação como o descerebrado Tony – tão contrastante com o seu Alexander Supertramp de Into the Wild!!! Brendan Fraser está bem, consegue uma interpretação realista e equilibrada. Forest Whitaker, como sempre, ótimo – ainda que eu tenha achado meio que um “deslize” a sua sequência com o Fingers e a última com o “capataz” que vê o futuro. Sarah Michelle Gelar também está muito bem, ainda que a sequencia da morte do seu novo amor tenha sido também bem “fake”. Kevin Bacon, como eu disse antes, é o que melhor convence, ainda que a sequência em que ele salva a artista pop tenha sido ridícula. Mas tudo bem, a culpa não foi dele. hehehehehehehe

O filme estreou nos Estados Unidos no dia 27 de janeiro e faturou, no lançamento, pouco mais de US$ 19,4 mil – algo insignificante mas, convenhamos, compreensível para uma estréia em apenas sete salas.

A trajetória do filme está sendo, inicialmente, em festivais. Ele participou em abril do ano passado do festival de Tribeca, nos Estados Unidos; depois, em maio, esteve no mercado do Festival de Cannes – onde os filmes tentam ser bem comercializados; e, em dezembro, participou do Noir in Festival, na Itália. O interessante é que, desde fevereiro deste ano ele está sendo lançado, em alguns mercados, já em DVD. Tudo indica que ele chegará apenas neste formato no Brasil. Pelo visto é o típico “filme independente” que será conhecido só na propaganda boca-a-boca. O curioso é que o filme é uma produção da NALA Films com o Paul Schiff Productions. Ok que o último só produziu antes a You Are Here, um filme desconhecido, assim como Numb – este com Matthew Perry. Mas NALA Films foi responsável por pelo menos um filme mais conhecido: In the Valley of Elah – ok que co-responsável, ao lado de outros estúdios pequenos e com a Warner como distribuidora. Ainda assim acho que a NALA Films poderia ter conseguido mais “vitrine” para este The Air I Breathe, especialmente pelo elenco que aparece em tela.

Uma curiosidade, para quem gosta de saber de locações: The Air I Breathe foi todo filmado na Cidade do México.

Algo que só agora me dei conta: no cartaz do filme não colocaram a foto do Kevin Bacon, um dos quatro personagens centrais da história… no lugar dele, aparece Andy Garcia. Ok que este ator deve, em teoria, atrair mais pessoas que o Kevin Bacon, mas o ator que interpreta o médico merecia, por sua interpretação, estar no lugar de Garcia.

Como eu disse antes, a história seria baseada em um antigo provérbio chinês que diz que a vida está dividida em quatro pedras angulares: felicidade, prazer, tristeza e amor. Ah, ok… então a história nos mostra estas diferentes “pedras angulares” representadas por quatro modos de vida diferentes… mas no final, qual é o ponto? Qual é a mensagem? Afinal, um filme cheio de tantos “significados” não pode ter nenhuma grande conclusão, não é mesmo? E o que eu vi foi justamente isso, uma série de histórias entrelaçadas com toques de violência e busca de realidades diferentes que, no fundo, não chegam a lugar algum. Ou melhor: duas mortes, uma fuga e uma continuação da rotina. Nada mais, nada menos. Acho que é o típico caso de “muito barulho por nada”. Agora, se você ignorar toda a pretensão do filme, pode até achar um passatempo… na melhor das hipóteses, vai. Também vale pelos atores, é claro.

No site IMDb o filme conseguiu uma nota 8 dos usuários, enquanto no Rotten Tomatoes ele registra três críticas positivas e 18 negativas.

O filme é uma co-produção Estados Unidos e México.

CONCLUSÃO: Um filme com um grande elenco em cena, muito bom tecnicamente falando – especialmente na direção de fotografia, edição e trilha sonora – mas que, infelizmente, sofre com um roteiro fraco. Para mim, mais um exemplo de filme pretensioso, ou seja, que tenta ser mais do que realmente é… em outras palavras: ele tem boas intenções e um bom pano de fundo, mas não chega a dizer ao que veio. Não convence. Como passatempo, contudo, pode interessar. Mas não busque grandes sentidos na história porque, pelo que parece, ela realmente não os tem.

Walk Hard: The Dewey Cox Story – A Vida é Dura Março 15, 2008

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Uma série de filmes recentes tratou da vida de músicos e, especialmente, de ícones do rock dos Estados Unidos. O primeiro deles em evidência foi Walk the Line (Johnny e June), que conta parte da trajetória de Johnny Cash e June Carter. O filme foi indicado a cinco Oscar e ganhou o de melhor atriz para Reese Witherspoon. Dirigido por James Mangold (que filmou depois o bacana 3:10 to Yuma), realmente é um filme bem interessante. Um ano antes, em 2004, Jamie Foxx ganhava o Oscar por seu impressionante desempenho em Ray, filme sobre a vida de Ray Charles. O filme seria indicado ainda a outros cinco Oscar, ganhando ainda o de melhor edição de som. Em 2005, o premiado Martin Scorsese lança o documentário No Direction Home: Bob Dylan sobre a vida do “trovador” estadunidense. Em 2007, apareceram na telona vários filmes sobre conhecidos artistas da música: Control, sobre a vida de Ian Curtis, o líder da banda Joy Division; I´m Not There, sobre o multifacetado Bob Dylan; e La Môme ou La Vie en Rose, sobre Edith Piaf; só para citar alguns. Pois Walk Hard: The Dewey Cox Story aparece neste cenário para satirizar todos estes filmes e muitos outros. John C. Reilly mostra mais uma vez sua versatilidade e, aqui, todo seu repertório de caras e bocas para assumir a identidade de Dewey Cox, um fictício artista que “surpreende” a todos com o seu talento e, de quebra, nos conta de maneira engraçado tudo que aconteceu no cenário musical dos Estados Unidos desde a década de 50.

A HISTÓRIA: O filme conta a vida de Dewey Cox, um garoto (interpretado por Conner Rayburn nesta fase) que cresceu em uma cidade no interior do Alabama na década de 40 e que, em 1946, perde o irmão “gênio” Nate (Chip Hormess/Jonah Hill) em um acidente que ele mesmo provoca. Renegado pelo pai (Raymond J. Barry), ele encontra alguns artistas negros tocando blues e decide que será músico. Em 1953, aos 14 anos, ele participa de um show de talentos e provoca reações extremas da platéia, incluindo seu pai, com quem acaba discutindo feio. Então ele decide sair de casa e vai trabalhar em um bar onde tocam músicos negros muito bons. Ali ele consegue um espaço em uma noite em que o artista principal não consegue tocar e, após se apresentar, consegue um contrato com uma gravadora de judeus. A partir daí ele consegue emplacar suas músicas nas principais listas de sucessos e conhece figuras como Elvis (Jack White, do The White Stripes), os Beatles, entre outros.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto a seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Walk Hard: The Dewey Cox Story): Como se pode presumir do resumo do filme logo acima, o diretor e roteirista Jake Kasdan pega todas as referências das “cinebiografias” de músicos conhecidos desde The Doors (filme clássico de Oliver Stone de 1991) e faz uma salada de referências e de ironias, inclusive com raças e seus pré-conceitos, com especial destaque para negros e judeus. Claro que no meio alguns podem ver piadas “incorretas” com alguns deles. E pode até existir, mas o que eu vejo em Walk Hard é uma paródia escrachada de tudo, com um humor que chega a ser quase infantil. Também percebo no roteiro de Kasdan com Judd Apatow uma alta dose de exagero mesmo, de escracho, como eu disse antes, aumentando as “tintas” de todas as interpretações e dos “momentos decisivos”, como todas as vezes em que Dewey Cox entra em um “vício” novo.

John C. Reilly para mim é o grande nome do filme. Ele consegue exagerar em todas as cenas, fazendo comédia sem emitir uma palavra, apenas com suas expressões e gestuais. A relação mal resolvida com o pai e a “tragédia” que lhe persegue por toda a vida – a morte do irmão – são motores de cenas “dramáticas” geniais, que tiram sarro de todo o drama de filmes “sérios” do gênero. Achei genial a mudança pela qual vai passando o artista conforme as décadas vão seguindo… sua “crise” nos anos 60, em especial, vale o filme. Quando ele pergunta aos jornalistas se não seria Bob Dylan uma cópia dele. hahahahahahaha. E seus shows “engajados” pelos anões… uma comédia! Aliás, para não dizer que os roteiristas tiram sarro só de negros e judeus, eles também satirizam com os anões – talvez os públicos mais óbvios para se fazer uma piada, não é mesmo?

Mas ninguém pode levar a sério Walk Hard. O filme é escrachado, é besta, tem um humor super infantil. E, ainda assim, vale algumas risadas muito francas, tem “sacadas” muito boas… e, ao mesmo tempo, muitas piadas idiotas. Achei meio “besta” ou fraquinha toda a sequência com os Beatles, por exemplo. Ainda que seja, justamente aqui, que se registrem as “pontas” mais rápidas e de gente “famosa” do filme, com Paul Rudd interpretando John Lennon, Jason Schwartzman interpretando Ringo Starr, Jack Black como Paul McCartney e Justin Long fazendo as vezes de George Harrison. Mas, fora a questão curiosa da cena, achei ela muito fraquinha.

Por outro lado, o encontro de Dewey Cox com Elvis – interpretado por Jack White – foi ótimo. Assim como os diálogos sem sentido com Buddy Holly (Franke Muniz, em outra ponta de “luxo”). O filme, como se pode perceber, é recheado de pontas de gente interessante.

Achei muito boa a mudança de visual e de “problemática” do personagem conforme os tempos vão mudando, as décadas vão seguindo… nos anos 70, por exemplo, ele se muda para Malibu, na California, e passa por uma crise de identidade gigantesca, assim como não consegue mais criar nada. A saída será ele criar um programa de TV. hahahhahahahha. Muito bom! Genial também a “repaginada” com gosto de “homenagem” e/ou referência que o rapper Lil’ Nutzzak (Jacques Slade) faz da música de Dewey Cox, trazendo ele novamente à ativa. Querendo ou não o filme é uma grande crítica feita com humor aos modismos na música e a exploração que é feita dos artistas pelas gravadoras e pelo mercado. Sátiras sempre são bem-vindas quando feitas com certa inteligência. O que é o caso deste filme.

Ah, e o filme me fez lembrar muito daquela frase de Waly Salomão: “A memória é uma ilha de edição”. Também me fez lembrar do filme Le Scaphandre et le Papillon, recentemente comentado aqui, quando Bauby comenta que a memória e a imaginação é que sobra a todos nós… Porque claro que toda autobiografia é uma história contada em parte, porque nossa memória mesmo “corrompe” e modifica o que aconteceu, seleciona as informações dentro do que foi realidade. O que lembramos e, principalmente, da forma com que lembramos nem sempre é toda a verdade – sei que é difícil admitir isso, mas é assim.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além dos atores já citados, destaco as participações de Raymond J. Barry como Pa Cox, o pai comicamente “carrasco” do artista; Margo Martindale como Ma Cox, a mãe superprotetora e amorosa do personagem principal; Jenna Fischer como Darlene Madison, a mulher que faz as vezes de “June Carter”, ou seja, a artista que se apaixona por Dewey Cox, termina com o casamento dele com Edith (Kristen Wiig), mãe de seus primeiros filhos, e que acaba sendo o “amor de sua vida”; Harold Ramis como L’Chai’m, o judeu da gravadora que acaba descobrindo e protegendo o seu “jovem” talento; e o trio de músicos que “aguenta” Cox – Tim Meadows como Sam (para mim, o melhor deles, especialmente nas cenas das “drogas”, hehehehehehehe), Matt Besser como Dave e Chris Parnell como Theo.

Estou dando essa nota para o filme porque realmente gostei muito de várias sacadas e de Reilly, mas também acho que ele perde muito do seu potencial com piadas manjadas e um certo humor meio “pueril”. A parte dos exageros de interpretação eu gostei, afinal, os filmes “sérios” do gênero também exageram muito nas doses – mas parecem “bons” porque são “sérios”. Só achei que Walk Hard tira muito sarro de Walk the Line. Acaba sendo quase que uma paródia do filme do Johnny Cash. Tentando seguir a linha deste filme acho que ele perde várias oportunidades de ser mais ousado e engraçado.

O filme foi indicado a quatro prêmios, inclusive dois Globos de Ouro, mas só ganhou o de melhor música no Sierra Award, prêmio conferido pela Sociedade de Críticos de Las Vegas. Fiquei curiosa em ver o filme quando John C. Reilly foi indicado como ator em comédia no Globo de Ouro.

Walk Hard custou aproximadamente US$ 35 milhões e faturou, em menos de um mês em cartaz nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 18,3 milhões. Deve se pagar e conseguir faturar um pouco. Não muito.

A produção inteira foi filmada em Los Angeles, na California.

Os usuários do site IMDb deram nota 7 para o filme, enquanto os críticos do Rotten Tomatoes lhe conferiram 94 textos positivos e 32 negativos. Diria que está um pouco equilibrado o termômetro de público e crítica.

O diretor Jake Kasdan é “especializado” em comédias… nenhuma, até hoje, de grande destaque. Antes ele fez The TV Set com David Duchovny e Sigourney Weaver; Orange County (Correndo atrás do Diploma) com Jack Black e Schuyler Fisk; e Zero Effect, com Bill Pullman e Ben Stiller. Por sua parte, o outro roteirista de Walk Hard, Judd Apatow, é responsável por outras comédias, como as recentes Knocked Up (Ligeiramente Grávidos), Fun with Dick and Jane (As Loucuras de Dick e Jane) e The 40 Year Old Virgin (O Virgem de 40 Anos) – se percebe que ele gosta de um escracho, não é mesmo?

CONCLUSÃO: Um filme engraçado que tira “sarro” das principais cinebiografias musicais desde The Doors. Segue basicamente a linha de Walk the Line – inclusive com seus principais temas -, mas também vai “um pouco além” ao provocar o encontro do personagem principal com ícones como Elvis e The Beatles. Tem uma boa dose de humor pastelão e “pueril” e interpretações propositalmente exageradas. Vale especialmente pela “linha do tempo” satírica e crítica da música nos Estados Unidos desde a década de 50, com todas as suas “ondas” e modas.

Curtas de animação indicados ao Oscar – Peter & The Wolf e Madame Tutli-Putli Março 1, 2008

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Pouca gente fala ou assisti aos curtas que concorrem ao Oscar. Isso vale tanto para os de animação quanto para os documentários. Meu problema sempre foi a falta de acesso a eles – nunca faltou vontade. O bacana dos curtas em geral é que eles mostram como é possível contar grandes e belas histórias em pouco tempo. É um bom treino para os cineastas – ou para quem está seguindo está direção – e para nós, admiradores do cinema. Poder de síntese é algo em falta no mercado. Este ano eu resolvi ir atrás dos curtas indicados na categoria animação. E com a ajuda da internet – do YouTube e demais recursos -, consegui assistir a alguns dos principais concorrentes do ano. Comento cada um a seguir.

I MET THE WALRUS – O curta utiliza a entrevista feita por um garoto de 14 anos com John Lennon em 1969 para criar uma narrativa através de desenhos sobre a sociedade contemporânea. A partir do que o garoto canadense vai perguntando e, principalmente, do que Lennon vai respondendo, os artistas James Braithwaite (traços de caneta) e Alex Kurina (ilustração digital) vão criando a animação. A direção é feita por Josh Raskin, e a produção é de Jerry Levitan – o garoto que em 1969 entrou no quarto de hotel de Lennon em Toronto para fazer esta entrevista para a escola. Gostei da “simplicidade” do filme, que utiliza técnicas limpas, tradicionais ou “modernas” para criar sobre a verborragia de Lennon. Aqui você pode assistir ao trailer do curta estadunidense.

MADAME TUTLI-PUTLI: Eu admito que fiquei alucinada quando assisti ao trailer deste filme no YouTube. Aí tive que ir atrás até que consegui ver a animação inteira. E ela é maravilhosa! Excepcionalmente bem feita tecnicamente e com uma narrativa muito curiosa. Fiquei impressionada com estes vídeos com os cineastas canadenses Chris Lavis e Maciek Szczerbowski contando como foi feita a animação. Eles utilizam a conhecida técnica stop motion (que filma movimento por movimento dos bonecos e depois os une em forma de animação) com uma novidade: a utilização do que eles chamam de “olhos compostos” para os bonecos desenvolvido pelo artista Jason Walker. Por isso que você assiste a uma animação com tanta emoção e vivacidade, já que os olhos de cada personagem passaram por um tratamento especial – diferente do que se consegue tradicionalmente com o stop motion. Eu adorei a história e adorei o resultado que eles conseguiram. Claro que para conseguir a qualidade que se vê eles também utilizaram efeitos feitos por computador. O curta conta a viagem de trem da mulher que dá título para a animação. Assim, acompanhamos a viagem da Madame Tutli-Putli em um cobiçado e sinistro trem. Para fazer este curta Lavis e Szczerbowski dedicaram quase cinco anos de suas vidas com a parte da animação. O curioso é que eles passaram duas semanas vivendo a bordo do trem The Canadian para recompilar histórias de passageiros e seus “trejeitos”. Maravilhoso curta! Para mim, deveria ter levado o Oscar – ainda que o ganhador, Peter & The Wolf, seja também muito bom. Aliás, a alta qualidade dos curtas é uma característica deste ano. Nestes links você pode assistir ao curta pelo YouTube (primeira e segunda parte) e, também por este site, pode encontrar vários vídeos sobre como foi feita a animação do curta, de como surgiu a personagem, assim como o making off (bastidores) das filmagens. Realmente um trabalho interessante do The National Film Board of Canada que possibilita muitas informações e detalhes deste lindo curta. Altamente recomendado. Detalhe: este curta estadunidense ganhou o prêmio da semana da Crítica em Cannes em 2007.

MÊME LES PIGEONS VONT AU PARADIS: Interessante trabalho do diretor Samuel Torneaux tanto na parte técnica quanto na narrativa. O curta conta a história de um sacerdote que vive ao lado da Morte. Em uma noite, ele ouve o chamado para que ela (a Morte) atenda ao Sr. Moulin, um velhinho que guarda uma boa quantia de dinheiro e que tem uma lista boa de pecados colecionados durante a vida. O sacerdote literalmente dá uma rasteira na Morte e consegue chegar antes na casa do Sr. Moulin para tentar vendê-lo uma máquina esquisitíssima com a promessa de que ela lhe garantirá sua “viagem ao Paraíso”. Uma enganação, claro. Muito divertida e bem contada a história. Tem uma boa velocidade e usa a técnica da animação feita por computador. Neste link você pode assistir ao curta francês inteiro – e o melhor, para quem não fala francês: com legenda em inglês! hehehehehehehe

MOYA LYUBOV (MY LOVE): Eu sei que o filme tem uma técnica dificílima e que é uma “peça de arte” mas, ainda assim, é um dos que eu menos gostei entre os indicados deste ano. Tem uma parte deste curta que eu achei arrepiante, pela velocidade e pelo onírico e surrealista da narrativa, mas para o meu gosto boa parte do curta do premiado diretor russo Alexander Petrov é lento demais, “arrastado” também. Sei que talvez eu esteja sendo muito exigente, afinal, é um grande curta. Mas realmente não caiu no meu gosto. Petrov, que ganhou antes o Oscar de animação por seu belíssimo The Old Man and the Sea, de 1999, conta em Moya Lyubov a descoberta do amor por um jovem russo no início do século 20. A técnica utilizada por Petrov é a mesma do filme de 1999: aquarela em vidro. Isso mesmo! Tudo o que você vê narrado em movimento é uma sequencia de pinturas, de arte pura e simples. Realmente impressionante o trabalho dele. Tão impressionante que ganhou vários prêmios mundo afora, incluindo os de melhor curta de animação nos festivais de Hiroshima, Dresden, Melbourne, Teheran, Sant Petersburg e no Anima Mundi. Uma curiosidade: o filme é baseado em Uma História de Amor, escrita por Iván Shmelyov. Para fazer este curta, Petrov dedicou três anos de sua vida. Nestes links é possível assistir ao curta inteiro (parte 1, parte 2 e parte 3). E, mais uma vez, para quem não fala russo, com subtítulos em inglês – pena que, desta vez, com várias falas faltando… mas já é algo.

PETER & THE WOLF: Eu admito que, inicialmente, fiquei na dúvida sobre a técnica utilizada nesta animação. Isso porque não sabia se era computação gráfica, feita em computador, ou stop motion. Depois que o curta ganhou o Oscar de Melhor Curta de Animação deste ano é que fui tirar a dúvida e descobri que a base dele é, na verdade, o bom e velho trabalho de stop motion com marionetes (como Madame Tutli-Putli). Os recursos em computador são utilizados apenas para dar o “acabamento”, os efeitos. É uma bela animação, disto não tenho dúvidas. O trabalho da diretora estadunidense Suzie Templeton é muito bom. Mais que tudo, ela resgata a fábula clássica de Sergei Prokofiev – Pedro e o Lobo – e a conta com nova “roupagem”, humor e sensibilidade. Para quem não lembra, Peter & The Wolf conta a aventura de um garoto que sempre foi proibido de sair do quintal de casa pelo medo que seu avô tem de que ele possa ser atacado por algum lobo. Tem uma parte da história que também reflete sobre a mentira, já que Pedro sempre “brincava” com todos sobre a chegada do lobo até o dia em que ele realmente aparece e ninguém acredita nele. Mas está parte de “moral” da história de Prokofiev foi deixada de lada por Suzie Templeton. A diretora acertadamente ressalta o contato com a natureza de Pedro, assim como a vida selvagem e a sobrevivência – ou ganância, quando se trata dos humanos – de cada espécie. Um filme sem falas – como Madame Tutli-Putli – e com uma trilha sonora belíssima. Me chamou a atenção os detalhes dos cenários, especialmente, assim como a edição e o ritmo da narrativa. Muito bom, realmente. Infelizmente, depois que o curta ganhou o Oscar, ele foi retirado do YouTube. Antes ele estava inteiro lá, dividido em três partes. Agora é possível assistir a esse vídeo com o making off da animação e a este outro com detalhes sobre a pós-produção do curta. Vale a pena ser visto também.

Doutores da Alegria Março 1, 2008

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Sempre gostei de documentários. Assim como gosto de biografias. Acho que o que as pessoas fazem com esse tempo que nos é dado – algumas vezes conquistado – para viver define muitas coisas. Define, por exemplo, qual é a magia de toda essa história chamada vida. Para que, afinal, você vive? Mas documentários, claro, não tratam apenas da vida das pessoas, mas de realidades pelas quais elas passam – voluntariamente ou não. Gosto de filmes sobre realidade que “simplesmente” mostra o que acontece, no melhor sentido de “documentar” os fatos. Mas, claro, sabemos que qualquer narrativa é uma eleição… sendo assim, mesmo o mais “fiel” dos documentários significa apenas uma parte da verdade, uma forma de narrar o que acontece – assim como o jornalismo. Gosto também de filmes que declaradamente fazem um “discurso” crítica da realidade – como os do Michael Moore – ou que, de outra forma, nos interpretam uma realidade que parecia já devidamente contada (mas, agora, com outra ótica). É difícil um documentário qualquer não me fascinar. Realmente gosto do gênero. Mas tem filmes que vão um pouco além da média e realmente emocionam, marcam, fazem pensar sobre as escolhas que as pessoas fazem e como isso pode “modificar” o mundo – nem que for, pelo menos, o “interno”. Um filme já meio “antiguinho” e que vi só agora fez isso comigo: Doutores da Alegria. Uma bela peça documental e de cinema.

A HISTÓRIA: A diretora e roteirista Mara Mourão e sua equipe contam a história do projeto Doutores da Alegria Brasil, formado por atores e coordenado por Wellington Nogueira. As filmagens foram realizadas durante sete semanas em diversos hospitais de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde o projeto está sendo desenvolvido por mais tempo, além de distintos cenários destas cidades durante a fase de entrevistas. Doutores da Alegria existe no Brasil desde 1991 por iniciativa de Nogueira, que trouxe a idéia “importada” de Nova York, onde morava e trabalhava como ator na Broadway e demais espaços para a arte naquela cidade. O filme conta a história de como o projeto “migrou” para o Brasil e de como os atores desenvolvem seu trabalho nos hospitais, lidando diariamente com crianças doentes – algumas em estado terminal -, com seus familiares, médicos e equipe de enfermagem. Mais que mostrar o projeto, o filme reflete sobre a figura do palhaço, o trabalho do ator, a improvisação, a vida e a morte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Doutores da Alegria): Criança em filme normalmente emociona. Criança sofrendo, por doença ou outra forma de “punição”, ainda mais. Se isso é uma regra para filmes em geral, se torna especialmente verdade quando falamos de documentários. Mas o que realmente emociona em Doutores da Alegria não é tanto as cenas com crianças – ainda que isto é o que ocupa a maior parte do tempo da produção -, mas as histórias que aqueles atores nos contam, suas reflexões e suas inquietudes. Assim como sua alegria por fazer um trabalho tão bonito. Algo contagiante, realmente.

Digo isso tudo porque é CLARO que algumas cenas com crianças emocionam, e muito. Mas eu ouso dizer – não me joguem pedras! – que estas cenas são de “emoção fácil”, como quando cai uma bomba em determinado bairro judeu que mata um menino que estava, até aquele momento, jogando bola na igreja semi-destruída. Ok, é o “ápice” da história, a hora em que você “deve” chorar. Mas e todos e os outros momentos do filme? O que eu gostei em Doutores da Alegria é que o filme não foge de cenas realmente impressionantes com crianças, como aquela do menino sentado na cama que dança junto com os palhaços perto do final e, ainda assim, ele se torna realmente emocionante por aquilo que as pessoas dizem, sobre o que elas pensam e sentem sobre aquilo que se vê.

Me emocionei com muitas cenas. Desde aquela em que Wellington Nogueira fala de seu pai e do seu “mérito”, até a história do duende e do menino ou da despedida de um pai de seu filho. Amei muitos depoimentos de atores/palhaços, mas em especial as falas de alguns. Fiquei arrepiada com o poder transformador que eles tem e com a sensibilidade de seus olhares. E acho, de verdade, que qualquer pessoa com amor e vontade pode fazer isso na profissão que for – ou, se você é um técnico em física quântica e não vê como pode ajudar as pessoas com isso, pelo menos pode reservar parte de seu tempo livre para fazer algo por alguém.

O bacana do filme, como eu disse antes, é que ele não fala apenas do projeto – ou seja, do trabalho de levar humor para crianças doentes nos hospitais. Mas ele trata, especialmente, sobre o olhar diferenciado destes atores e atrizes para com a arte, para com as crianças, para com a vida e a morte. Pela primeira vez tive uma visão ampliada do que é o trabalho de um palhaço – ou “clown”, como muitos gostam de citar no filme.

De todos os depoimentos, gostei de alguns em especial. Entre eles, o comentário de Paola Musatti (Dra. Manela) sobre os “tentáculos” que um palhaço precisa ter. Em outras palavras: como ele deve estar ligado em tudo o que acontece ao seu redor, conectado com todos os movimentos e com tudo que acontece para, daí sim, poder improvisar, fazer rir ou emocionar em conexão com o mundo ao redor que, nestes casos, parece contribuir para o seu trabalho – ou, como disse a atriz Danielle Barros (Dra. Leonoura), nestas horas o “universo” parece conspirar a favor do palhaço. E acho que isso não é por acaso… quando fazemos o bem sem esperar nada em troca, quando estamos atentos e com os tentáculos “espalhados” por aí, acho mesmo que o universo conspira a nosso favor. Isso vale para o trabalho dos Doutores da Alegria e para muitas outras partes da nossa vida.

Aliás, essa possibilidade de assistir o filme e ver um paralelo com a vida de qualquer um de nós é superinteressante. Realmente acho que muitas das reflexões que estão ali sobre o improviso, sobre a capacidade que as crianças e os palhaços tem de ver além do óbvio, sobre o uso de máscaras e demais histórias, podem sim ser aplicadas fora daquela experiência.

Ainda sobre o trabalho dos atores, achei interessante a fala de Luiz Fernando Bolognesi (Dr. Comendador Nelson) sobre a necessidade do “vazio” para poder criar – e o quanto isso é difícil de conseguir. A necessidade do vazio é muito interessante, porque no nosso modo de vida moderno atual é difícil conseguir isso, o “vazio” de idéias, sentimentos e afins. Mas para quem quer estar conectado com o que acontece ao redor, fatos e energias, sentimentos e possibilidades, é preciso treinar o vazio. Inclusive para sentir as demandas dos demais e conseguir responder a elas da melhor forma. Além das nossas próprias, é claro.

A atriz Thais Ferrara (Dra. Ferrara) teve algumas falas muito interessantes. Entre elas, a necessidade do ator em dar uma “rasteira no próprio ego” para poder fazer um trabalho realmente bom – importando-se menos com o seu “virtuosismo” e sua capacidade de improvisar e/ou criar e mais com a criança ou o adulto que tem na sua frente -; assim como quando comenta sobre a busca deles de uma “qualidade do riso” – ao invés do riso fácil, conseguido muitas vezes à custa da agressão ou da chacota.

Gostei quando a atriz Beatriz Sayad (Dra. Valentina) comenta que tudo para o doente é forçado, mas que o palhaço não pode e não deve ser… ou seja: que mais que todos ele deve saber ouvir um “não” e respeitá-lo. A vontade da criança está acima, novamente, de seu “virtuosismo”. Também gostei quando ela fala que eles buscam aprender a “subverter” o mundo com as crianças – quem dera que todos nós conseguíssemos fazer mais isso. Amei a sua versão de que o palhaço é aquele que não busca ter respostas, mas que se “contenta em brincar com as perguntas” – outra lição que eu e você deveríamos praticar mais.

Wellington Nogueira tem muitas declarações muito interessantes e bonitas. Destaco aquela em que ele fala sobre sobre o que une o palhaço e a criança: nenhum dos dois está limitado “a lógica ou a razão”… neste ponto eles falam sobre como nós, adultos, perdemos a capacidade de ver além do olhar. Para nós, cada vez mais o que vemos primeiro é o que vale. Enquanto para a criança e para o palhaço aquilo que se vê não é tudo… pode ser muito mais. O limite é a imaginação de cada um. Isso me fez pensar muito… sobre como a gente realmente vai ficando mais sério, vai perdendo o humor… como vai julgando e sendo julgado pela aparência, pelo que acredita ser a verdade através da imagem que se apresenta na nossa frente. Mas e quem disse que os olhos captam só a verdade? Ou toda a verdade? E os outros sentidos? E o que está além dos sentidos? Deveríamos reaprender a “olhar” de maneiras múltiples, ao invés de olharmos de forma tão básica. Eu tento fazer isso diariamente, mas nem sempre consigo.

Outra frase de Nogueira que eu gostei é de que os palhaços trabalham em parceria com os médicos. Enquanto os últimos olham para o lado ruim, para aquilo que precisa ser “curado” fisicamente no doente, os palhaços olham para o “lado bom que precisa ser incentivado”. Acho que isso é outro ponto de reflexão para a vida de qualquer um de nós. Quantas vezes eu e você não olhamos para tudo aquilo que nos falta, para o que está errado ao nosso redor, enquanto o que deveríamos realmente fazer é olhar para o “lado bom que precisa ser incentivado”.

A atriz Marina Quinan (Dra. Quinan) faz uma leitura bem interessante sobre o olhar do palhaço – que é o seu nariz vermelho – e sobre a “fabricação” destes olhares. Fala, na verdade, sobre como algumas máscaras estão aí só para chamar a atenção para pontos que queremos enquanto que, para os que olham atentamente, tudo o demais é o que importa – a máscara também serve para nos libertar. Ela também comenta como é importante a pessoa estar inteira “para trocar”, que não se pode ser desequilibrado ou louco para conseguir trocar experiências boas com alguém. Isso vale não apenas para os palhaços/atores do filme, mas para todos os encontros que temos durante a vida. Só existem boas trocas quando as pessoas estão com vontade e equilibradas para isso. Uma frase de Nogueira que achei ótima: “Em todos os lugares que seja preciso rever a nossa relação com o mundo um palhaço estará lá”. Tomara mesmo! Afinal, sobram lugares em que é preciso rever a nossa relação com o mundo.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O documentário foi filmado em vários hospitais e institutos, citando: Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; Hospital da Criança; Hospital do Mandaqui; Hospital Cândido Fontoura; Hospital Albert Einstein (todos em São Paulo); IPPMG – Hospital do Fundão (Rio de Janeiro).

Uma curiosidade: Doutores da Alegria teve as entrevistas filmadas em Super 16 mm e as demais cenas, ou seja, todas aquelas passagens nos hospitais e institutos, em DV Cam (ou seja, em formato digital).

Algo que me impressionou: a equipe de produção filmou nada mais, nada menos que 130 horas!!! Ou seja: eles tem um material bruto gigantesco sobre o trabalho dos Doutores da Alegria. E tudo isso para gerar pouco mais de 1 hora e meia de filme.

A trilha sonora do filme, lindíssima, é de autoria do músico e compositor Arrigo Barnabé.

O filme ganhou poucos prêmios – levando em conta que merecia muitos outros mais: foi o principal vencedor do (desconhecido) Festival de Cinema Brasileiro de Nova Iorque/Brazilian Festival of NY; ganhou os prêmios Especial do Júri e o do Júri Popular no Festival de Cinema de Gramado; e, para finalizar, o prêmio de Melhor Documentário no Paraty Cine.

Doutores da Alegria consumiu 33 dias de filmagens nos hospitais e outros 16 para as entrevistas com atores e médicos.

O projeto do Doutores da Alegria Brasil atualmente está imerso em 16 hospitais e institutos nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Belo Horizonte. Além destes 16 locais, eles já trabalharam em outros oito hospitais – incluindo um em Campinas. Para saber mais sobre o trabalho deles, acesse seu site oficial.

Tecnicamente falando, gostei em especial do trabalho da diretora e roteirista Mara Mourão – que, quem diria, antes tinha dirigido o chato e previsível Avassaladoras -, que teve um olhar cuidadoso, atento e uma narrativa exata do projeto, equilibrando desde as informações sobre a arte como sobre a vida, assim como o humor e o drama. Aqui ela fala um pouco sobre o trabalho com o filme. Colaborou com ela no roteiro do filme Fernando Bolognesi. Também gostei muito do trabalho de montagem de Rodrigo Menecucci e da direção de fotografia de Helcio Alemão Nagamine. Um detalhe: em algumas cenas do filme dá para perceber como a equipe se “disfarçou” para conseguir um resultado mais realista nos hospitais. Eles se disfarçavam de palhaços também, assim como cobriam as câmeras com bonecos.

Para quem gosta de saber o nome de todos do elenco, aí segue os participantes por ordem alfabética: Morgana Masetti (psicóloga), Ângelo Brandini (Dr. Zorinho), Beatriz Sayad (Dra. Valentina), César Gouvêa (Dr. Cizar Parker), Cláudia Zucheratto (Dra. Zuzu), Danielle Barros (Dra. Leonoura), Ésio Magalhães (Dr. Zabobrim), Fernando Escrich (Dr. Escrich), Flávia Reis (Dra. Nena), Heraldo Firmino (Dr. Severino), Juliana Gontijo (Dra. Dona Juca Pinduca), Kleber Montanheiro (Dr. Krebs Croc), Luiz Fernando Bolognesi (Dr. Comendador Nelson), Marcio Ballas (Dr. João Grandão), Marina Quinan (Dra. Quinan), Paola Musatti (Dra. Manela), Pedro Pires (Dr. Dog), Raul Figueiredo (Dr. Lambada), Sávio Moll (Dr. Clóvis Socó), Soraya Saide (Dra. Sirena), Thais Ferrara (Dra. Ferrara) e Vera Abbud (Dra. Emily).