Iron Man – Homem de Ferro Maio 25, 2008
Posted by Alessandra in Cinema, Cinema norte-americano, Crítica de filme, Movie.17 comments
Como falei há pouco tempo na coluna Em Foco, que mantenho no site DVD Magazine, em 2008 os fãs de heróis dos quadrinhos e de personagens de desenhos animados terão alguns filmes interessantes para assistir nos cinemas. O primeiro a estrear desta “nova leva” foi Iron Man, dirigido pelo nova-iorquino Jon Favreau. Para os seguidores do herói nos quadrinhos é um alívio saber que desta vez Hollywood acertou a mão em uma adaptação para o cinema. O filme está bem equilibrado entre ação, drama e crítica ao uso de armas como “defesa” de um status quo norte-americano que defende a idéia de “polícia mundial”, apaziguador de guerras – quando, na verdade, contribui decisivamente para que muitas delas existam. Mas o bom mesmo é que o filme não exagera em nenhuma dose. Também respeita as característica do personagem que originou o filme, ou seja, mostra um Tony Stark um bocado temperamental, excêntrico e intempestivo.
A HISTÓRIA: O filme conta a história de Tony Stark (Robert Downey Jr.), o herdeiro de um conglomerado de alta tecnologia especializado na indústria armamentista. Logo conhecemos a sua veia “bon vivant”, habituado a ter as mulheres mais lindas – e descartá-las depois -, amante do que de melhor uma grande fortuna e o poder de ser o principal fornecedor do Exército dos Estados Unidos pode oferecer a uma pessoa. Mas sua vida muda de rumo quando ele é raptado por terrorista depois de apresentar o seu último armamento de destruição. Ameaçado de morte, ele dissimula que está construindo o novo míssel para os terroristas enquanto utiliza seu tempo no cativeiro para construir a primeira roupa do Homem de Ferro.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER: aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Iron Man): Um dos pontos interessantes do filme é que ele mostra a mudança que ocorreu com Tony Stark tal qual ocorreu no gibi, mas sem exagerar na mensagem de “mudança radical”. Ou seja: sim, ele percebe o risco que suas armas provocam em mãos erradas e decidi mudar de rumo, produzindo uma roupa incrível que poderá ser utilizada por ele para o “bem”, mas ainda assim ele não muda radicalmente ao ponto de deixar de ser temperamental ou excêntrico. Não, Tony Stark continua sendo Tony Stark. E o bacana do filme é que ele termina justamente quando o personagem recebe outra lição: que mesmo a sua “boa intenção” de construir um traje para o “bem” pode ser manipulada e utilizada para outros interesses se parte da tecnologia utilizada por ele cair em mãos erradas.
Um dos pontos interessantes do filme é justamente este: de que não interessa a intenção que você possa ter ao inventar ou fazer algo, porque nunca terás total controle sobre isso. Ou seja: o conhecimento traz responsabilidades, porque ele pode servir para usos muito distintos do que originalmente foram planejados. Um dos exemplos clássicos disto foi o uso da descoberta da fissão nuclear, pelos alemães Otto Hahn, Lise Meitner e Fritz Strassmann, para a posterior elaboração das bombas atômicas que mataram milhares de pessoas no Japão. E ninguém pode se dizer “inocente” totalmente pelo uso indevido do conhecimento que ajuda a produzir. Afinal, o estudo da História e um pensamento crítico e dialético dela nos ensina que as inovações são absorvidas – ou tentam ser, pelo menos – pelo mercado mais cedo ou mais tarde. Como diria um professor meu do doutorado, Miguel Angel Sobrino, quem produz conhecimento tem que cuidar para saber que as inovações podem ser instrumentalizadas pelo sistema e utilizadas contra os “interesses originais” de quem encontra o conhecimento. E daí é preciso saber e definir “de que lado você está” ou prever os efeitos bons e ruins que o conhecimento pode trazer.
Mas voltando ao filme: Iron Man ganha pontos ao mostrar um Tony Stark imprevisível, temperamental, um sujeito que cresceu em um sistema de vida – cheio de grana – que o deixa um bocado distante do “mundo real” ou, digamos, pelo menos lhe deixa ignorante a respeito de boa parte do que existe fora do seu quintal de fartura. Ele acaba conhecendo um pouco do que existe além do seu “charco” e resolve mudar um pouco de postura – até porque se sente responsável por alguns absurdos que encontra no caminho. Ainda assim, não muda radicalmente. Não vira um “homem generoso” que distribui seu dinheiro para os pobres. Não, ele continuará multimilionário e poderoso, é claro. Ainda que realmente siga com a idéia de que sua Indústrias Starke deixe de fabricar armas.
No geral o filme é muito bem conduzido pelo diretor Jon Favreau, com uma competente edição de Dan Lebental e uma direção de fotografia equilibrada de Matthew Libatique. O criador do personagem, Stan Lee, faz mais uma de suas aparições à la Hitchcock – desta vez, cercados de mulheres. hehehehehehehe. Robert Downey Jr. mostra que é um grande ator – algo que já podia ser conferido em A Guide to Recognizing Your Saints, entre outros. Terrence Howard está bem no papel do coronel James “Rhodey” Rhodes, personagem que faz o elo de ligação entre o Exército e Tony Stark – e que acaba sendo mais do que um contato, mas um verdadeiro amigo do excêntrico industrial. Jeff Bridges mudou bastante para encarnar bem Obadiah Stane, o “braço-direito” do pai de Stark e que sigue sendo “o segundo homem no comando” da empresa depois que ela passa para Tony. Para ser franca, ele me irritou um pouquinho no final, porque me pareceu muito maniqueísta, mas tudo bem. Acho que o problema não foi tanto do ator, mas do roteiro mesmo, que deu uma certa “derrapadinha” no desfecho – me refiro a parte da explosão do reator. Gwyneth Paltrow está razoável – como sempre, aliás. No mais, sem nenhum outro destaque – talvez Faran Tahir como Raza, líder dos terroristas; e o inglês Shaun Toub como o prisioneiro médico que ajuda Stark no cativeiro, Yinsen.
NOTA: 9.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Prestando atenção nos créditos do filme é que percebi que o diretor faz uma “ponta” como Hogan “Happy”, ex-boxeador que nos quadrinhos é motorista e assistente de Tony Stark – e que, no futuro, chegou a virar até um dos vilões nas HQs do Homem de Ferro, chamado de Freak, depois de ter sido exposto a um poderoso raio de cobalto.
Para quem não sabe, o Homem de Ferro foi publicado pela primeira vez em abril de 1963, criado por Stan Lee, Larry Lieber, Don Heck e Jack Kirby. O personagem de Tony Stark foi inspirado na figura excêntrica do empresário e cineasta Howard Hughes (retratada em vários filmes, incluindo o filme de Martin Scorsese, The Aviator/O Aviador). Nas palavras de Stan Lee, produtor executivo do filme Iron Man, Hughes era “um inventor, aventureiro, multimilionário, galanteador e também um doido”.
O filme tem um roteiro escrito a oito mãos: por Mark Fergus, Hawk Ostby, Art Marcum e Matt Holloway. Por coincidência, o mesmo número de pessoas responsável pela criação do personagem para os quadrinhos. Da trupe responsável pelo roteiro, os mais “conhecidos” são Mark Fergus e Hawk Ostby, responsáveis por roteiros como o de Children of Men (Filhos da Esperança) e First Snow (Marcas do Passado). Uma curiosidade: Art Marcum e Matt Holloway são os responsáveis pelo roteiro de outra adaptação dos quadrinhos prevista para estreiar este ano, a de Punisher: War Zone, que traz para as telonas novamente o personagem de Frank Castle/O Justiceiro. Mais uma vez eles assinam o roteiro ao lado de outras duas pessoas: Nick Santora (conhecido por ser co-produtor e um dos roteiristas de Prison Break) e Kurt Sutter (também co-produtor e um dos roteiristas da série The Shield).
Iron Man está se saindo muito bem tanto no quesito bilheteria quanto nas críticas. O filme, que teria custado aproximadamente US$ 140 milhões, arrecadou, apenas nos Estados Unidos e até o dia 18 de maio pouco mais de US$ 223 milhões. Apenas na primeira semana, sendo exibido em 4.105 salas de cinema, ele arrecadou pouco mais de US$ 102 milhões. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 8,2 para o filme, enquanto que o Rotten Tomatoes publica 183 críticas positivas e apenas 14 negativas.
Com certeza, tanto pelo sucesso de crítica quanto de bilheteria e, claro, pela maneira com que o filme termina, este será apenas o primeiro de muitos da grife Homem de Ferro. Que os próximos sejam tão bons quanto.
O diretor Jon Favreau consegue dar um bom “salto” na carreira com este Iron Man. Afinal, antes ele não tinha feito nenhum filme de destaque. Na sua filmografia, consta Zathura: A Space Aventure (Zathura: Uma Aventura Espacial); Elf (Um Duende em Nova York); e Made (Crime Desorganizado).
Para os fãs “extremistas” dos quadrinhos talvez possa incomodar um pouco a “adaptação” das origens do personagem. Não acho que seja o caso, afinal, não tem mais muito a ver contar o “nascimento” do Homem de Ferro ambientado na idéia anticomunista original, mostrando Tony Stark sendo capturado durante uma visita ao Vietnã. Até porque atualmente o vilão da “vez” do público estadunidense é outro “ismo”: tiraram de cena o já “vencido” comunismo para colocar na mente geral o medo ao terrorismo. Tempos modernos, meu caro leitor (ou seriam pós-pós-modernos? ultra-modernos?).
Para quem gosta de saber das locações, Iron Man foi rodado em Los Angeles; em Playa Vista, Lone Pine, Olancha e Rosamond, todas cidades na Califórnia. As cenas do cativeiro e que dão a idéia de uma parte do Afeganistão foram feitas em estúdio.
A armadura final do Homem de Ferro que aparece no filme foi inspirada nas ilustrações de Adi Granov da recente série do personagem chamada Extremis.
O vilão que o Homem de Ferro enfrenta neste primeiro filme tem o nome de Monge de Ferro. Ele mede três metros de altura e pesa aproximadamente 360 quilos. Segundo os produtores do filme, foi preciso o trabalho de cinco pessoas para operá-lo.
CONCLUSÃO: Uma interessante e bastante fiel adaptação dos quadrinhos para o cinema, a primeira que transporta o personagem do Homem de Ferro para a tela grande. Bem equilibrado entre ação, drama e suspense, o filme também questiona o uso da tecnologia, da ciência e do conhecimento de maneira diferente a aquela inicialmente planejada. Vale pelo conjunto da obra e pela interpretação inspirada de Robert Downey Jr.










