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Fail Safe – Código de Ataque (2000)

27 de fevereiro de 2009 5 comentários

 

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Um projeto verdadeiramente interessante. Inicialmente, ele me lembrou uma peça de teatro. Mas depois, com o recurso de closes, especialmente, e de vários cenários sendo intercalados em sequência – o que possibilita os tradicionais cortes das produções cinematográficas -, Fail Safe se mostrou realmente um belo exemplar de cinema. Grande indicação do Giancarlo, leitor deste blog, há muito e muito tempo atrás. Este é o típico filme que, sem uma indicação, dificilmente o veria. E valeu muito a pena tê-lo assistido. Acho que um belo exemplar para eu começar a minha sequência de colocar as dicas dos leitores deste espaço em dia. 

A HISTÓRIA: O General Warren Black (Harvey Keitel) acorda cedo para um dia que ele sabe que será pesado, afinal, terá que enfrentar “grandes tubarões” em uma reunião no Pentágono. Paralela a essa reunião, o General Bogan (Brian Dennehy) apresenta para o congressista Raskob (Sam Elliot) como funciona a segurança aérea dos Estados Unidos diretamente na fronteira com o inimigo, a União Soviética. Tudo segue a normalidade até que uma falha no sistema aciona o código de ataque nuclear que leva a equipe liderada pelo Coronel Jack Grady (George Clooney) a se lançar contra Moscou. Entra em ação o presidente dos Estados Unidos (Richard Dreyfuss) que tenta de tudo para impedir uma guerra nulclear desastrosa para a Humanidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Fail Safe): Como eu dizia inicialmente, o começo de Fail Safe – a versão do ano 2000 e não a de 1964, atenção! – me lembrou uma peça de teatro. Harvey Keitel seguia os trejeitos de um ator que encena em tempo real e sem cortes para uma platéia. A justificativa é óbvia: Fail Safe é um filme e, ao mesmo tempo, quase uma peça teatral. Isso porque, como bem confirma Walter Cronkite no início do filme, se trata de um projeto ousado da rede de televisão CBS que transmitiu, ao vivo, a “encenação” deste filme – experiência única na história da emissora em 39 anos de existência.

A idéia não era exatamente original. Pelo menos na questão de filmagem. Alfred Hitchcock já havia ousado desta maneira antes com o filme Rope, que foi rodado em um único cenário e praticamente de forma contínua – praticamente porque, na verdade, o filme foi feito em tomadas de 10 minutos que, depois editadas, deram a impressão de serem uma única tomada sequencial. Mas a exibição de Fail Safe foi algo realmente inédito na TV. Até então, nunca se havia feito um “filme” de forma contínua e que fosse exibido ao vivo – algo comum e diferente eram os “teleteatros”, ou seja, encenações dramáticas exibidos ao vivo. Então, claro que se justifica aquela sensação de “estou vendo uma peça teatral?” que volta e meia sentimos com Fail Safe. Só que o interessante é que a direção competente de Stephen Frears consegue dar ritmo para o filme e nos fazer esquecer, volta e meia, que estamos vendo uma sequencia de filmagens sem interrupção. Um dos grandes trabalhos do diretor, sem dúvida.

Mas para mim o grande nome deste filme é o de Richard Dreyfuss. Há tempos eu não assistia a uma interpretação tão impactante deste ator. Ele e Harvey Keitel mostram que dominam a interpretação como poucos no ramo. Os demais atores, em geral, também estão bem – de George Clooney a Brian Dennehy, passando por Noah Wyle e Sam Elliott -, mas ninguém se destaca mais que Dreyfuss. Sua interpretação é digna de aplausos. 

Um filme interessante por sua dinâmica e pela história, é claro. Uma crítica feroz aos avanços da tecnologia como armas para a guerra. (SPOILER – não leia se não assistiu ao filme ainda). A decisão do presidente em explodir Nova York como maneira de “apaziguar” os ânimos do presidente russo para evitar uma guerra nuclear que praticamente dizimaria a Humanidade é de matar. Necessária, mas impactante. A verdade é que quando fica evidente que nenhuma manobra será capaz de impedir o desastre, o filme ganha em força e em crítica. A que ponto quase chegamos? É a pergunta que fica no ar. E como bem denuncia a produção no final, o risco de absurdos ainda existe – afinal, atualmente, nove países tem controle de bombas nucleares. 

Dispositivos de segurança são suscetíveis a defeitos e problemas, como denuncia a obra de Eugene Burdick e Harvey Wheeler. E vivemos cada vez mais afundados em uma era tecnológica – pouco questionada, diga-se. Então quanto tempo vai demorar para que um problema “técnico” nos coloque em um verdadeiro caos? Esta é uma resposta que ninguém parece ter, mas que não custa indagar. A verdade é que hoje, mais do que em 1964 ou no ano 2000, os questionamentos de Fail Safe são importantes. Ok, não estamos mais em uma Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética não ficam mais medindo quem tem o porrete maior. Mas onde existe dinheiro existe busca por poder, e onde existe esse tipo de busca há também perigo.

A qualidade de Fail Safe em sua época foi questionar o que era inquestionável: a corrida armamentista e a confiança de Estados Unidos e União Soviética na alta tecnologia para “mediar” decisões vitais para a Humanidade. Hoje esta obra serve como um alerta para a segunda questão, o uso massificado e poderoso da tecnologia no mundo moderno. 

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O projeto filmado para a TV e transmitido ao vivo no ano 2000 é uma refilmagem do material que originou o elogiado filme homônimo dirigido por Sidney Lumet em 1964. No original, fazia parte do elenco Henry Fonda (como o Presidente), Walter Matthau (como o professor Groeteschele), Dan O’Herlihy (como o General Warren A. Black) e Frank Overton (como o General Bogan), entre outros. Filmado também em preto-e-branco, Fail Safe de 1964 tinha roteiro de Walter Bernstein, inspirado no livro dos escritores Eugene Burdick e Harvey Wheeler. Em sua época, o filme concorreu a três prêmios, um no BAFTA e dois no extinto Laurel Awards.

Além dos atores já citados, Fail Safe (2000) conta com a participação de Noah Wyle como Buck, o tradutor que acompanha as negociações entre os presidentes dos Estados Unidos e da União Soviética; James Cromwell como Gordon Knapp, o “tecnólogo” que explica como uma máquina pode ter causado todo aquele caos; John Diehl como o Coronel Cascio, que reluta em atender as ordens superiores para matar compatriotas seus; Hank Azaria como o Professor Groeteschele, um maluco que tenta vender a idéia no Pentágono de extermínio dos russos – depois de dizer que eles se “entregariam” por saber que os ianques eram superiores; Norman Lloyd como o Secretário de Defesa Swenson, que tenta ser o “equilibrado” na questão; Bill Smitrovich como o General Stark; Don Cheadle como Jimmy Pierce, o homem que “cavalga” para a morte junto com Grady, entre outros.

A versão de 2000 de Fail Safe conseguiu a nota 7,1 pelos usuários do site IMDb. Por seu lado, o site Rotten Tomatoes abriga apenas cinco críticas sobre o filme – todas positivas. Ou seja: Fail Safe, versão ano 2000, tem 100% de aprovação dos críticos. Para David Cornelius, do DVDTalk.com, este é um dos “projetos para a televisão mais notáveis” que ele tem registrado em sua “memória recente”.

Fail Safe, na versão para a televisão, ganhou três prêmios e foi indicado a outros seis – incluindo um Globo de Ouro. Entre os prêmios que ganhou estão dois Emmy’s para a equipe técnica e um Saturn Award pela Academia de Ficção Científica, Fantasia e Horror.

Fail Safe, dirigido por Stephen Frears, foi exibido ao vivo pela CBS no dia 9 de abril de 2000.

CONCLUSÃO: Um filme rodado ao vivo para a televisão que trata de um texto muito bem produzido sobre os absurdos que a disputa pelo poder entre nações podem provocar – assim como do tema da tecnologia como algo que pode causar danos irreversíveis. Bem dirigido e com atuações muito boas – e uma excepcional, a de Richard Dreyfuss -, é um filme que lembra um pouco a dinâmica do teatro mas que, ao mesmo tempo, consegue trabalhar com planos de câmera (especialmente o uso de closes) que caracterizam o cinema. Um belo exemplo de um ótimo filme produzido para a TV. Vale ser visto tanto pela experiência inovadora que ele significou no ano 2000 como pelo resultado em si.

SUGESTÃO DE LEITORES: Como eu disse lá no começo, este filme foi sugerido pelo leitor Giancarlo – que, aliás, anda bastante sumido, hein? Por onde andas?? Demorei um bocado para assistí-lo, primeiro porque quase não tinha tempo de ver a filmes, depois porque fazia críticas um pouco “encomendadas” para um site do qual participava como colaborada – por isso alguns filmes eram “datados” graças a lançamentos nas videolocadoras – e, depois, por causa do Oscar. Mas agora que estou “livre, leve e solta”, vou colocando em dia a lista de filmes indicados por vocês, meus bons leitores do blog. Muito obrigada, Giancarlo, porque sem a sua sugestão eu não teria descoberto este filme verdadeiramente interessante.

Die Welle – The Wave – A Onda

25 de fevereiro de 2009 51 comentários

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Uma das perguntas sem resposta de The Reader pode ter a sua contestação em Die Welle: afinal, como foi possível a ditadura de Hitler? E mais: ela poderia se repetir hoje em dia? A juventude atual, especialmente na Alemanha, rechaça a idéia de virar uma “massa de manobras” de um ditador. Inicialmente muita gente pode não entender como isso foi possível, mas o bem acabado filme alemão Die Welle mostra que a manipulação de grupos não é nada assim tão complexo. Basta usar um conceito bem em voga ultimamente, da ação participativa, além de observar com atenção as demandas de uma massa descontente e desunida. Com um roteiro escrito com esmero e uma direção dentro da escola do “novo cinema alemão”, Die Welle é um destes bons exemplos de filmes que podem ser feitos sobre temas bastantes atuais e que se originam da Europa.

A HISTÓRIA: O professor Rainer Wenger (Jürgen Vogel) queria dar uma classe de anarquia para seus alunos do ensino médio, mas foi “obrigado” por um colega e pela diretora da escola a preparar aulas de autocracia. Inicialmente ele fica surpresa com a sala cheia – provavelmente boa parte dos alunos está mais interessado no professor “rock’n roll” do que no tema em si, já que a maioria nem sabe do que se trata autocracia -, com um número de alunos que só aumentaria graças a sua maneira “diferente” de lecionar. Impelido por um questionamento em sala de aula e pela vontade de mostrar trabalho para os demais colegas, Rainer começa um experimento em classe que vai mudar a vida de seus alunos e criar perplexidade na comunidade local.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Die Welle): A manipulação das massas ou, em outro grau, dos indivíduos, não é algo novo. Também não é uma prática que foi abolida com o fim dos sistemas totalitário. Parece um papo chato, mas a verdade é que diariamente várias fontes e correntes estão agindo para manipular você e eu. Seja para o consumo ou para apoiar uma forma de atuar – e condenar outras; ou para apoiar umas idéias em detrimento de outras. Não importa. Diariamente somos manipulados – ou estamos sujeitos a isso.

Mas uma coisa é ser manipulado para fazer algo “inofensivo”, como comprar um produto que você não tem nenhuma necessidade, outra é ser impelido a formar um grupo fechado que exclui tudo e todos que não estiverem de acordo com seus preceitos. Sobre isso e outras “coisitas” é que trata Die Welle. No melhor estilo de experimentação em sala de aula, Rainer Wenger quer demonstrar, durante a semana de aulas de seu curso de autocracia, como é possível o surgimento de movimentos ditatoriais. Impressionante como os jovens “avoados”, desunidos e individualistas aderem a um movimento que prima pela disciplina e pela padronização dos indivíduos.

Inicialmente o que era uma “brincadeira” ganha traços de seriedade e, como pode ocorrer em qualquer situação – com ou sem experimento em sala de aula -, sai do controle através de mãos de extremistas desequilibrados. Acredito que os jovens que o filme mostra começaram a aderir as propostas do professor um pouco por “coña”, ou seja, na brincadeira. Mas depois, ao sentirem suas opiniões sendo escutadas no conjunto de um processo de “construção” do grupo, assim como de se sentirem protegidos por pessoas daquela “irmandade”, cada aluno também se sentiu forte e valorizado – coisa que muitos deles não sabiam o que era, em uma comunidade competitiva onde interessa sua origem (classe social e raça) mais do que sua capacidade individual -, transformando aquela brincadeira em algo muito sério e real.

A situação saiu do controle e o professor, avesso ao que acontecia fora da sala de aula, não se deu conta disso até que fosse tarde demais. Claro que a ânsia dele em ser valorizado e levado a sério como professor – mesma angústia daqueles jovens desorientados – ajudou em sua cegueira. A verdade é que experimentos como esse deveriam ser muito melhor controlados – e, preferencialmente, explicados. Não adianta apenas experimentar, é preciso providenciar “legendas” sobre o que se está fazendo, deixando claro motivos e riscos. Do contrário, uma idéia legítima de “apropriação” do conhecimento pode se transformar em um palco para a exposição de patologias e/ou descontroles. Como no caso do que se vê em Die Welle.

O filme, dirigido com bastante ritmo e cuidado pelo jovem Dennis Gansel, trata de vários assuntos em paralelo. Ao mesmo tempo que fala sobre a manipulação das pessoas, trata da falta de sentido e de orientação na vida dos jovens – um tema atual há algumas décadas e que algumas vezes parece apenas ter piorado. Mas ele trata também da responsabilidade dos “mestres” e da busca por valores que sejam legítimos. Mas, mais que tudo isso, Die Welle trata da capacidade do ser humano em fazer absurdos quando pode se esconder “atrás do coletivo”. Brigas de torcidas de futebol, linchamentos públicos, entre outros exemplos nos mostram de tempos em tempos que este tipo de comportamento “animal” insiste em perdurar. Pessoas “esclarecidas” e letradas se comportam como bestas quando tem ao seu lado o apoio de pessoas igualmente “cheias de razão” (estou sendo irônica, claro).

E como é inevitável, o filme mostra que existem dois lados da moeda chamada “autocracia”. Se em uma face do experimento de Rainer Wenger vemos a jovens se sentindo “poderosos” enquanto grupo unido em uma mesma “ideologia”, de outro contemplamos a exclusão sumária de qualquer forma de pensamento contrário. Não existe espaço para dúvidas ou para idéias diferentes daquela que a gestão autoritária do grupo dominante prega. Isso pode ser visto em sistemas autocratas mais óbvios, como o de uma ditadura, e até mesmo em formas “prioritárias” de pensamento em sociedades democráticas como a nossa – quem hoje em dia questiona o capitalismo, o livre consumo, o uso da internet em todos os cantos? O pensamento crítico, geralmente, não é bem visto ou considerado de “bom tom”. Mesmo na tão proclamada democracia.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Die Welle é baseado em uma história real. Mas diferente do que o filme mostra, a história que inspirou o escritor nova-iorquino Todd Strasser – e, posteriormente, o trabalho dos roteiristas Peter Thorwarth e Dennis Gansel (diretor do filme) – ocorreu nos Estados Unidos. Mais precisamente na classe do professor Ron Jones, que resolveu fazer um experimento chamado de “Terceira Onda” com os alunos da escola onde lecionava em 1967, a Cubberley High School em Palo Alto – região que ficou famosa pela corrente crítica da comunicação surgida na década de 1940.

Incialmente, parece que o roteiro do diretor e de Peter Thorwarth ambientam o filme em uma cidade comum da Alemanha nos “dias atuais”… Se é bem verdade que um experimento como o da “Terceira Onda” poderia perfeitamente ser tentado hoje na Alemanha – ou em qualquer país do mundo, praticamente -, alguns detalhes do filme deixam em dúvida sobre a intenção dos realizadores em datar esta história. Digo isso porque, apesar da cara de século 21, o filme mostra carros que expõe o prefixo BE que, segundo o site IMDb, deixaram de ser usados em 1975. Curioso, não?

Die Welle é mais um bom exemplo do novíssimo cinema alemão. Uma forma de fazer filmes que prima pelo dinamismo, pela câmera acelerada, por temáticas contemporâneas tratadas de forma crítica e que, muitas vezes, enfocam a juventude daquele país. Bons exemplos deste cinema são Lola Rennt; Goodbye, Lenin! e Die Fetten Jahre sind Vorbei (ou The Edukators), só para citar alguns dos que eu já vi e recomendo.

Outro tema que o filme trata é sobre a dificuldade dos professores hoje em dia em conseguirem ensinar algo… antes do experimento de Rainer começar, praticamente todos os alunos estavam desinteressados no tema e no que a aula podia render. Só quando ele começou o experimento e, com ele, a revelar o conhecimento através da “participação” dos alunos é que a classe ganhou outra dinâmica. Os jovens se sentiram interessados e motivados para aprender, afinal, trouxeram para a sua vida cotidiana idéias que tinham em sala de aula. Este tipo de aula atualmente é praticamente considerada “padrão” nas escolas, quando professores são incentivados a dar classes de intercâmbio constante entre ensinamentos do professor e dos alunos – vide Paulo Freire e sua concepção que ganhou admiração mundial. Ou seja: o que se vê ali não é de todo absurdo, o problema é a forma com que a idéia cresceu e perdeu o controle. O que faltou, para mim, foi a contextualização e as explicações dos objetivos e do sentido por parte do professor. Mas algo é fato: definitivamente não é fácil ser professor hoje em dia.

O elenco todo, formado basicamente por jovens, está muito bem. Destaco, do núcleo principal da história, Frederick Lau como Tim Stoltefuss, o garoto que leva mais a sério o experimento da “Onda” (e que demonstra, para mim, propensão ao desequilíbrio e ao extremismo desde o início, levando muito a sério a brincadeira); Max Riemelt como Marco, um dos líderes da juventude local e namorado de Karo, interpretada por Jennifer Ulrich, uma das duas vozes dissonantes do “movimento”; Christiane Paul como Anke Wenger, professora e esposa de Rainer; Jacob Matschenz como Dennis, um dos garotos que procura defender o movimento até depois que ele já se mostrou desastroso.

Também destaco a brasileira (pois sim!!) Cristina do Rego como Lisa, amiga de Karo que acaba mudando totalmente seu comportamento quando ganha “força” através do grupo; Elyas M’Barek como Sinan, o jogador de pólo aquático que era um bocado desprezado por suas origens até o movimento começar; Maximilian Vollmar como Bomber, um dos “guardas” da Onda que acaba ficando perplexo com seu desfecho; Max Mauff como Kevin, o dissidente do movimento no início, um bocado “do contra”, e que acaba sendo “levado” pelos colegas para dentro da Onda; Amelie Kiefer como Mona, amiga de Karo que também fica contra o movimento; e por aí eu seguiria… No geral, os atores fizeram um belo trabalho.

Mas ainda que eu destaque todos os atores citados anteriormente, os grandes nomes do elenco são mesmo Jürgen Vogel e Frederick Lau. Ambos fazem papéis difíceis sem cairem no extremismo que seria “compreensível”. Em lugar disso, apresentam seus personagens de maneira bastante verossímel. Também gostei muito da atriz Christiane Paul, competente e muito bonita. E, quem diria, temos até a uma brasileira em um dos papéis principais!! 

Die Welle teria custado € 5 milhões (de euros) e faturado, apenas na Alemanha, pouco mais de US$ 20 milhões – não me perguntem porque eles não calcularam a bilheteria também em euros… isso é uma incógnita para mim. O filme foi realmente um sucesso comercial no país que viu o nazismo tomar conta da sociedade há 70 anos.

O filme tem uma trilha sonora muito boa – especialmente para os que gostam de rock’n roll – assinada por Heiko Maile. Entre os destaque, clássicos como Rock ‘n’ Roll High School, dos Ramones, que abre o filme a todo volumen na apresentação do professor Rainer Wenger (que também veste uma camiseta da banda); Rock & Roll Queen, do grupo The Subways, entre outros grupos “rockzeira”.

Da equipe técnica do filme, vale a pena destacar o trabalho do diretor de fotografia Torsten Breuer e do editor Ueli Christen

Em sua trajetória, Die Welle ganhou dois prêmios e foi indicado a outros seis. O filme mereceu, segundo os críticos, o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para Frederick Lau no German Film Awards, assim como, na mesma premiação, o produtor Christian Becker levou o bronze na categoria de Melhor Filme. O filme ainda foi indicado no Festival de Sundance na categoria “World Cinema – Dramatic”, mas perdeu na disputa para Ping-pongkingen.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,5 para o filme – para os padrões do site, está bem. Como é de costume no Rotten Tomatoes, site que abriga textos de críticos dos Estados Unidos, existem poucos textos sobre o filme alemão – exceto pelos ganhadores de Oscar e premiações afins, os críticos de lá não costumam assistir a muitos filmes estrangeiros. Ainda assim, o site abriga oito críticas positivas e quatro negativas para Die Welle – o que significa uma aprovação de 67%.

CONCLUSÃO: Um bom exemplo do “novíssimo” cinema alemão, Die Welle trata da possibilidade do ressurgimento de movimentos totalitários e excluentes, inspirado em uma história real de experimento em sala de aula feito nos Estados Unidos em 1967. O filme tem um ritmo veloz, bem dirigido, com um roteiro que consegue segurar a atenção e manter um certo suspense – sem transformar a história em algo pesado ou fictício demais – e, para fechar a regra de um bom filme, com interpretações bastante convincentes. Uma história curiosa sobre a manipulação de pessoas, a falta de rumo e de valores de uma sociedade consumista e individualista e os rumos que ela pode tomar. Bacana por ser crítico e, principalmente, bem narrado. E, para nossa surpresa, com uma brasileira entre as atrizes principais.

SUGESTÃO DE LEITORES: Este é o primeiro filme de uma série que vou assistir do cinema alemão. Afinal, foi a Alemanha o país que ganhou na enquete que eu propus aqui no blog durante algumas semanas. A idéia é assistir a filmes recentes e a alguns “clássicos” que eu ainda não vi do cinema daquele país. Mas vou avisando que filmes como os que eu citei neste texto e que eu já vi não pretendo ver novamente… mas vou, sempre que possível, citando algumas produções excelentes da Alemanha que eu já tenha visto – sempre que elas tiverem algo a ver com o filme que estou comentando. Também aceito sugestões… como sempre.

Também queria registrar que esse filme foi indicado, há muito tempo atrás, por minha amiga e leitora deste blog, Vanessa. Humpf!!! Finalmente assisti ao filme, hein? E gostei muito do que eu vi. É o típico filme “pop” crítico bacana de se ver. Obrigada pela sugestão.

Os premiados do Oscar 2009 – Avaliação

23 de fevereiro de 2009 20 comentários

Como promessa é dívida… ontem à noite, dia 22 de fevereiro, eu acompanhei online os premiados do Oscar 2009 e, agora, dou uma “melhorada” no que publiquei durante a noite/madrugada. Ontem fui escrevendo aqui, na ordem em que iam saindo os vencedores, a lista de premiados com alguns comentários.

Gostei desta lista como foi publicada, ou seja, deixando alguns dos prêmios mais importantes para o final. Como muita gente já deve saber, Slumdog Millionaire (no Brasil, Quem Quer Ser um Milionário?) foi o grande, grande vencedor da noite. A produção relativamente “independente” abocanhou oito das nove estatuetas pelas quais estava concorrendo. Para mim foi uma alegria, porque estava na torcida por ele. E, no geral, Slumdog conseguiu passar o rodo… fazia tempo que um filme não chegava tão perto de conseguir 100% de aproveitamento ao ser indicado em tantas categorias.

Como era esperado, se houve um grande vencedor, do outro lado da moeda teve que existir um grande perdedor. Esta foi a situação de The Curious Case of Benjamin Button (O Curioso Caso de Benjamin Button), indicado a 13 prêmios e premiado com apenas três - e todos em categorias técnicas, ou seja, que tem pouco (ou nenhum) apelo ao público. Outros perdedores importantes da noite foram: Doubt (Dúvida no Brasil), que saiu da premiação com as mãos abanando, depois de ter sido indicado em quatro categorias (e ter cinco chances de premiar alguém); Frost/Nixon, que também ficou a ver navios, depois de ter sido indicado a cinco prêmios; e Vals Im Bashir, filme israelense considerado por muitos o favorito (eu era uma voz dissonante deste côro) e que perdeu seu posto de melhor do ano em língua não-inglesa para o japonês Okuribito (Departures para o mercado internacional).

Bom, mas deixando de enrolação, vamos ao texto que eu publiquei na noite de domingo e madrugada de segunda (praticamente inalterado, apenas acrescentei os demais concorrentes em cada categoria que acabaram sendo subjugados):

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Prometo que amanhã (segunda-feira) vou melhorar a edição desta página… mas, enquanto isso, vamos comentando por aqui, assim meio “brutalmente”, sobre os premiados da noite do Oscar.

maisonenpetit2Não deu outra no Melhor Curta de Animação, hein? Foi Kunio Kato mesmo quem levou para casa a estatueta, com seu La Maison en Petits Cubes. Como eu tinha comentado antes no post específico desse tema, mesmo assistindo apenas o trailer no Youtube, parecia que ele era um dos dois favoritos. Parabéns!! Ainda que eu tenha gostado tanto de Lavatory-Lovestory… ;)

Outros indicados: Lavatory – Lovestory, Oktapodi, Presto, This Way Up. Observação: (existe um texto específico sobre os indicados aqui no blog).

E a bendita Penélope Cruz levou para a Espanha mesmo a estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante… ¡vaya! Parabéns para ela. Ainda que eu ache que, realmente, ela não merecia. Ela está linda em Vicky Cristina Barcelona? Ok, ela está. Tem momentos em que ela está bem no papel. Sim, também. Mas não o suficiente para ganhar de Amy Adams ou de Marisa Tomei. Mas enfim, a Academia quis premiá-la, paciência. Agora é aguentar (se bem que eu agora mesmo não preciso mais… hehehehehehehe) toda a comemoração ufanista dos espanhóis…

As outras indicadas: Viola Davis e Amy Adams por Doubt; Taraji P. Henson por The Curious Case of Benjamin Button; Marisa Tomei por The Wrestler. Observação: todos os filmes desta categoria foram comentados no blog.

Na categoria roteiros… Slumdog Millionaire levou para casa o primeiro de vários prêmios que deve receber nesta noite. Ganhou na categoria Melhor Roteiro Adaptado. Estatueta merecedíssima para Simon Beaufoy. Alguns devem ter se surpreendido com Milk ter levado em Melhor Roteiro Original… afinal, a maioria dos palpiteiros apontavam para Wall-E. Como eu não assisti a animação, quero registrar minhas palmas para Milk. Verdadeiramente foi um grande trabalho do roteirista Dustin Lance Black.

Os outros indicados em Melhor Roteiro Adaptado: Doubt, The Curious Case of Benjamin Button, Frost/Nixon, The Reader. E os indicados em Melhor Roteiro Original: Milk, Wall-E, In Bruges, Happy-Go-Lucky, Frost Riven. Observação: quase todos os filmes indicados têm críticas específicas aqui no blog (exceto por Wall-E e Happy-Go-Lucky).

Ah, e claro, falando nele… Wall-E ganhou como Melhor Animação do ano. Prêmio esperadíssimo – e, dizem, super merecido. Tenho ainda que assistí-lo.

Os outros indicados: Kung Fu Panda, Bolt.

thecuriouscase31O Curioso Caso de Benjamin Button levou dois prêmios super esperados: Melhor Direção de Arte e Melhor Maquiagem. Este segundo, cá entre nós, não tinha nem o que duvidar. Exceto os super fãs de Batman que torciam para o filme ganhar tudo em que concorria, os demais mortais sabiam que esta era uma categoria certeira para Benjamin Button. Provavelmente o filma ficará com estas duas estatuetas na noite e nada mais.

Os outros indicados em Melhor Direção de Arte: Changeling, Revolutionary Road, The Dark Knight, The Duchess. E em Melhor Maquiagem: The Dark Knight, Hellboy 2.

GRANDE Slumdog Millionaire!!! Levou para casa o Oscar de Melhor Fotografia! Uma estatueta muito, mas muito merecida para Anthony Dod Mantle… algo me diz que está será a noite deste filme (oba!!).

Os outros indicados: Changeling, The Dark Knight, The Reader, The Curious Case of Benjamin Button.

A Duquesa levou o Oscar na categoria Melhor Figurino. Por se tratar de um filme de época – ainda não o assisti -, também era algo previsível. Filmes de época sempre levam uma vantagem nesta categoria – por motivos óbvios.

Os outros indicados: Australia, The Curious Case of Benjamin Button, Milk, Revolutionary Road.

O alemão Jochen Alexander Freydank levou a estatueta de Melhor Curta-metragem com seu Spielzeugland (Toyland).

Os outros indicados: Auf der Strecke (On the Line), Manon on the Asphalt, New Boy, The Pig.

Puxa, puxa… que dó não ver ao próprio Heath Ledger subir ao palco do Kodak Theater para receber o seu tão merecido Oscar. O ator, como esperado por 10 em 10 apostadores, foi reconhecido como o Melhor Ator Coadjuvante do ano. Pena que ele tenha partido tão cedo…

Os outros indicados: Josh Brolin por Milk; Robert Downey Jr. por Tropic Thunder; Philip Seymour Hoffman por Doubt; Michael Shannon por Revolutionary Road.

Era esperado também que Man on Wire levasse a estatueta de Melhor Documentário. Grande trabalho do diretor inglês James Marsh comentado aqui neste blog anteriormente. Com um cuidado técnico belíssimo, o filme mistura fotografias e vídeos antigos de Philippe Petit e de seus amigos com recriações muito poéticas feitas com atores. Um belo filme, realmente.

Os outros indicados: The Betrayal (Nerakhoon), Encounters at the End of the World, The Garden, Trouble the Water. Observação: o documentário vencedor têm crítica neste blog.

O trabalho de Megan Mylan intitulado Smile Pinki ganhou como Melhor Documentário em Curta-metragem. Eu tinha buscado mais informações sobre este curta há algum tempo atrás e tinha encontrado o seu trailer. Ele conta a história de uma menina indiana que nasceu com uma fenda palatina e que, por ser pobre, busca a ajuda de um médico voluntário. Parece interessante.

Os outros indicados: The Conscience of Nhem En, The Final Inch, The Witness – From the Balcony of Room 306.

Slumdog Millionaire ainda levou os prêmios em Melhor Mixagem de Som – achei que nesta ele perderia para The Dark Knight. Mas tudo certo para Batman, porque ele levou a estatueta em uma categoria “meio-irmã”: Melhor Edição de Som.

Os outros indicados em Melhor Mixagem de Som: The Curious Case of Benjamin Button, The Dark Knight, Wall-E, Wanted. E em Edição de Som: Iron Man, Wall-E, Slumdog Millionaire, Wanted. Observação: o único Oscar “perdido” por Slumdog foi nesta última categoria, Melhor Edição de Som. Em todas as outras em que estava concorrendo, ele venceu.

Benjamin Button conseguiu mais um prêmio técnico: Melhores Efeitos Especiais. Outra em que eu achava que The Dark Knight se sairia melhor.

Os outros concorrentes: The Dark Knight, Iron Man.

slumdog2Mais uma para o grande Slumdog: Melhor Edição. Bem, nesta categoria nem tinha o que dizer. Um dos grandes méritos do filme é justamente a sua edição, um trabalho de primeiríssima de Chris Dickens. Merecedíssimo! E pelo jeito será uma noite de lavada do meu filme preferido na premiação… Slumdog acaba de receber o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original para o indiano A. R. Rahman. Muito bem!

Os outros concorrentes em Melhor Edição: The Curious Case of Benjamin Button, The Dark Knight, Frost/Nixon, Milk. E em Melhor Trilha Sonora Original: The Curious Case of Benjamin Button, Defiance, Milk, Wall-E.

Opa! E mais uma para Slumdog… para minha surpresa, ele levou ainda em Melhor Canção Original. A premiada foi Jai Ho. E vamos que vamos passando o rodo!

Os outros concorrentes: Down to Earth, de Peter Gabriel, por Wall-E; O Saya, de A. R. Rahman e Maya Arulpragasam, por Slumdog Millionaire.

E me desculpem todos os que adoraram o filme Vals Im Bashir, mas quem levou a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro este ano foi o Japão. Parabéns para Departures – logo que puder, vou assistí-lo e comentar sobre esta produção por aqui. De qualquer forma, repito o que eu disse antes: não achava que o filme de Ari Folman merecesse ganhar. E ainda que a comunidade judaica nos Estados Unidos – especialmente em Hollywood – tem força, muita força, gostei de ver que no lugar do lobby feito pelo filme ganhou outro em seu lugar. E a escola japonesa merece respeito!

Os outros concorrentes: The Baader-Meinhof Komplex, Entre Les Murs, Revanche, Vals Im Bashir.

ESTOU SOLTANDO FOGOS!!! Grande Danny Boyle!!! O cérebro de Slumdog Millionaire acaba de “embolsar” a sua estatueta como Melhor Diretor. Nada mal para este inglês ousado e maravilhoso.

Os outros concorrentes: Stephen Daldry por The Reader; David Fincher por The Curious Case of Benjamin Button; Gus Van Sant por Milk; Ron Howard por Frost/Nixon. Observação: o trabalho de todos os concorrentes foi comentado neste blog nas críticas de seus respectivos filmes.

E não teve para ninguém: Kate Winslet levou a estatueta de Melhor Atriz por seu trabalho em The Reader. Outro prêmio muito merecido, porque esta atriz literalmente foi crescendo praticamente trabalho após trabalho. Sem contar que ela veio de duas grandes interpretações: uma em The Reader e a outra em Revolutionary Road.

As outras concorrentes: Meryl Streep por Doubt; Anne Hathaway por Rachel Getting Married; Angelina Jolie por Changeling; Melissa Leo por Frost River. Observação: o trabalho de todas as concorrentes foi comentado neste blog nas críticas de seus respectivos filmes.

Mas na categoria onde existia alguma dúvida… a de Melhor Ator… deu mesmo Sean Penn na cabeça. Merecedíssimo, vamos! Ele está fantástico em Milk. Ainda que, eu admito, se Mickey Rourke tivesse ganho eu também ficaria feliz. Mas Penn, por seu trabalho como ator, diretor, produtor e etcétera (de outros filmes, me refiro), merecia levar uma estatueta para casa. Boa!! Além do mais, se Rourke realmente está “ressurgindo” das cinzas, ele terá outras oportunidades de levar um prêmio deste para casa.

Os outros concorrentes: Mickey Rourke por The Wrestler; Frank Langella por Frost/Nixon; Richard Jenkins por The Visitor; Brad Pitt por The Curious Case of Benjamin Button. Observação: o trabalho de todos os concorrentes foi comentado neste blog nas críticas de seus respectivos filmes.

E, finalmente, o prêmio mais importante e esperado da noite… Melhor Filme para Slumdog Millionaire! Bravo, bravíssimo!! Dos filmes concorrentes, verdadeiramente era o melhor. Parabéns para Danny Boyle, Simon Beaufoy, a co-diretora Loveleen Tandan (que ajudou a filmar na Índia), aos atores, especialmente Dev Patel, Freida Pinto, e todos os garotos que participaram deste projeto. Filmaço recomendado para qualquer pessoa. E algo que vi hoje e que me deixou feliz: ele voltou a estar entre a lista dos cinco filmes mais assistidos nos Estados Unidos. Até o momento, faturou pouco mais de US$ 88 milhões nos Estados Unidos – e com os oito Oscar’s da noite, só deve aumentar esta cifra. Vai que é sua, Slumdog!!

Os outros concorrentes: Milk, The Curious Case of Benjamin Button, The Reader, Frost/Nixon. Observação: todos os concorrentes têm críticas específicas publicadas aqui no blog.

Charlie Bartlett – Charlie, Um Grande Garoto

22 de fevereiro de 2009 Deixe um comentário

 

charliebartlett7

Os filmes sobre os colegiais norte-americanos cansam. Normalmente, basta você ver dois deles para ter “visto todos”. Apenas com algumas exceções a regra de histórias e “universo” repetido se quebra. Do contrário, as histórias sempre giram em tornos de grupos rivais muito bem estabelecidos – normalmente os “jogadores de futebol” versus os “nerds”, mais “garotas gostosas” versus “garotas estranhas”, e por aí vai – e de uma mesma “busca” dos garotos e garotas por festas, liberdade e sexo. Certo. Mas para a alegria dos que gostam de cinema, volta e meia, aparece um filme que tira sarro de tudo isso… este é o caso de Charlie Bartlett. Ainda que ele faça isso, contudo, não se trata de um daqueles filmes escatológicos e com cara de “vamos nos portar como colegiais e sacanear os filmes alheios” (como é o caso da grife Scary Movie ou de Superhero Movie). Não. Charlie Bartlett é um filme “sério” que brinca com estereótipos na mesma medida em que promulga mensagens para a garotada.

A HISTÓRIA: Charlie Bartlett (Anton Yelchin) escuta mais uma conversa da mãe, Marilyn (Hope Davis) com o diretor de sua escola. E, mais uma vez, ele constata que foi expulso do local justamente na época em que ele começava a conseguir o que mais queria: popularidade. Marilyn, se sentindo um bocado perdida e culpada pelo desempenho do filho, resolve colocá-lo em uma escola pública – até porque não resta nenhuma particular para ele se matricular (ele foi expulso de todas). Desta maneira ele deixa a bolha de vidro em que vivia, estudando e convivendo com pessoas de alta classe como ele, para sentir um pouco da “realidade” de jovens que estudam em colégios públicos. Ali ele encontra um celeiro de histórias diferentes que lhe fazem virar o psicólogo da garotada – em mais uma busca por popularidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto a seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler esta parte quem já assistiu a Charlie Bartlett): Este filme é daqueles para “chocar” pais e mães. Afinal, eles pensam que estão dando autorização para seus jovens filhos para assistir a “mais um” filme destes juvenis e, quando se dão conta, percebem que deixaram o povo assistir a história de um garoto capaz de quase tudo para se tornar popular. Ele falsifica carteiras de motorista para os colegas, receita remédios de “tarja preta”, ou seja, de uso bastante controlado, para os adolescentes em crise, entre outras “coisitas”. Lendo assim, parece até absurdo. O cara é um “contraventor” (como gostam de falar os policiais). Mas o que se vê na superfície é apenas isso, a superfície. 

Charlie Bartlett, o filme, consegue captar o que para mim é uma das essências da juventude: a constatação de que estamos perdidos. No sentido de que, nesta época da vida, as certezas da infância caem por terra e as pessoas começam a perceber a complexidade do mundo e da vida. Ainda que depois, na fase adulta, muitos esqueçam todo esse “choque” de realidade e voltem a aceitar uma vida de certezas e conformidade, mas digamos que a adolescência é a fase decisiva do início (e pode ser fim) dos conflitos internos.

E Charlie Bartlett (o personagem) percebe isso muito cedo, quando se confronta com as realidades bem diferentes de um colégio público – acredito que na vida das escolas particulares a conduta das pessoas seja tão mais “uniformizada” quanto as suas roupas, no geral. E resolve, em busca de sua tão sonhada popularidade (a cena inicial, em que ele é aclamado em um palco como em um concerto de rock, é genial e resume bastante o desejo deste e de muitos jovens), agir.

Com a facilidade de quem é herdeiro de uma família rica e que tem uma história complicada na bagagem, ele recorre ao seu psicólogo particular – e a vários outros – para conseguir um arsenal de medicamentos para quase todos os tipos de doenças psicológicas. Mas antes, é claro, ele se afunda em livros de psicologia e se arma de argumentos para lidar com personagens como o valentão Murphey Bivens (Tyler Hilton), que lhe recepcionou no colégio com pancadaria. A cena em que Charlie “rapta” o valentão com a ajuda do amigo “retardado” (ou usando o termo politicamente correto, deficiente mental) Len Arbuckle (Dylan Taylor) é exemplar sobre a perspicácia do garoto. No melhor estilo “se você não pode vencê-los, junte-se a eles”, Charlie traz para o seu lado o valentão – e, com isso, deixa de ser seu novo saco de pancadas. De quebra, ele ajuda Murphey a resolver os seus problemas. Nada mal.

Fora a questão de Charlie ser realmente um “criminoso”, por vender remédios que ele não poderia e de “exercer a profissão” (entre aspas, realmente) de psicólogo/psiquiatra sem ter credenciais para isso, o garoto mostra a inteligência de quem pode se tornar, no futuro, um Bill Gates da vida. Explico: como poucos (poucos mesmo!) ele percebe oportunidades de negócio em praticamente todos os lugares à sua volta. Isso não é fácil. Esse talento, acredito, poucos tem. Mas Charlie é assim. Do problema psicológico do depressivo Kip Crombwell (Mark Rendall) ele vê um filão de negócios: o tratamento dos seus jovens colegas em um consultório-banheiro do colégio. Depois, quando uma nova crise de Kip faz Charlie repensar a venda dos remédios, ele encontra na peça escrita pelo colega uma oportunidade de valorizar o talento de pessoas como Murphey e Susan Gardner (Kat Dennings), filha do diretor Nathan (Robert Downey Jr.), com quem ele namora. E, de quebra, claro, “limpar” a sua barra. Genial esse garoto!

Toda a parte em que Charlie encarna um psicólogo/psiquiatra achei ótima. No WC ao lado desfilam jovens com problemas de afirmação como garotas que não sabem se colocam silicone nos seios ou não; problemas de aceitação – normalmente envolvendo os pais ou os colegas; dúvidas sobre a própria sexualidade, sobre escolhas futuras, etcétera, etcétera. Em poucos minutos vemos uma lista de alguns dos principais questionamentos dos adolescentes – e de muitos adultos – passarem pela telona. E este é apenas um dos méritos do ótimo roteiro de Gustin Nash.

Outro ponto que me chamou a atenção é a constante “queda-de-braço” entre o diretor da escola, Nathan Gardner, e o jovem e recém-incorporado aluno Charlie Bartlett. Entram em jogo não apenas a questão da autoafirmação de um e de outro – ambos buscam o respeito alheio ou, em algumas situações, serem “populares” -, mas também a “disputa” pela encantadora Susan, que é filha de um e namorada do outro. Freud explicaria estas questões. E eu acrescentaria algo: o curioso do filme é que ele mostra como Nathan e Charlie são mais parecidos do que o primeiro gostaria de admitir. Afinal, ambos agem como adolescentes, em muitos momentos – e não apenas agem, mas pensam como tal.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A diferença se percebe no final do filme, quando Nathan responde para Charlie o que é mais importante do que “ser popular”: “é o que você faz com essa popularidade”. Boa. Com essa resposta, Nathan também revela o que ele deixou escapar… afinal, como professor, ele era popular. Mas ao assumir uma posição ascendente, de maior responsabilidade, ele perdeu a “mão” e o respeito dos alunos. Aprendeu que não bastava ser popular – e que essa “posição” pode ser perdida muito facilmente. O importante era realmente fazer o certo na hora devida. E muitas vezes, afinal de contas, a popularidade não tem nada a ver com o mérito.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma das coisas bacanas deste filme é que ele é divertido do início ao fim. Desde a cena a cena do delírio de Charlie Bartlett até a sua nova tentativa de “abraçar uma oportunidade”, transcorrem uma série de histórias e de sacadas muito boas. E sem nenhuma forçada de barra. O mérito principal é do roteirista Gustin Nash e do diretor Jon Poll. Sem contar os atores, claro. Aliás, muito, muito bons. Bastante acima da média. O protagonista, vivido por Anton Yelchin, encanta e surpreende. Gostei muito do garoto. Robert Downey Jr. comprova, mais uma vez, que voltou com tudo nos últimos anos. Está muito bem. Hope Davis, em especial, faz uma mãe incrivelmente humana, complexa e de humor variável – e sem ter uma interpretação “forçada”. Para mim, ela é um dos destaques e das boas surpresas do filme. Kat Dennings, que interpreta Susan, também está ótima, mostrando bastante carisma e um bocado de talento. No geral, todos estão muito bem. 

E falando no destaque do garoto Anton Yelchin… fiquei surpresa em saber que ele é russo. Pois sim. Nasceu na antiga Leningrado, atualmente St. Petersburgo, na Rússia. Depois de Charlie Bartlett, ele filmou nada menos que seis filmes. Pois sim, o garoto que no próximo dia 11 de março completa 20 anos andou trabalhando bastante! Primeiro, fez um papel secundário no filme You and I, do diretor Roland Joffé. Depois, interpretou Dorian Spitz, ao lado de Susan Sarandon e Eva Amurri, em Middle of Nowhere. Fez parte do elenco de um dos “curtas” que compõe o filme New York, I Love You; e ainda participou do elenco dos esperados Star Trek e Terminator Salvation. Segundo alguns rumores, teria filmado ainda Memoirs of a Teenage Amnesiac.

Falando em elenco, vale citar outros nomes “secundários”: Megan Park como Whitney Drummond, a menina que “deu” para quase todo o time de futebol americano e que é a paixão do encrenqueiro Murphey; Derek McGrath como o superintendente Sedgwick, o chefe incrédulo de Nathan Gardner; Stephen Young como o ótimo Dr. Stan Weathers, psicólogo de Charlie; Jake Epstein como Dustin Lauderbach, líder do grupo de teatro e do movimento contra as câmeras de vigilância na escola; e Jonathan Malen como Jordan Sunder, o “pau-mandado” do valentão Murphey.

Agora, algo que achei curioso: certo que o diretor Nathan Gardner não tinha mais “moral” ou respeito dos seus comandados, mas o que justificaria a falta de atitude dele com os alunos em geral? Por exemplo, o que impedia o diretor de ter uma atitude razoável de repressão contra o valentão Murphey? Medo de apanhar? Pode até ser. Mas se ele levasse na cara, como de fato levou lá pelas tantas, não seria razoável dar queixa na polícia e resolver o caso definitivamente? Não entendi porque ele realmente deixou tudo sair do controle daquela forma. Certo que a exposição da filha Susan, aluna da mesma escola, devia lhe “segurar” um bocado, mas curioso que este fato não prejudicou suas ações contra Charlie… eu diria que este é um dos poucos pontos questionáveis do roteiro – até aqui, ótimo. Também não gostei muito da parte em que Charlie diz quase choramingando “sou apenas um garoto”. Certo. Podíamos ter passado sem essa. Logo mais ele não terá essa desculpa – vide sua versão crescida, Nathan Gardner. 

O filme é recheado de frases ótimas, tanto no roteiro quanto no material que “acompanha” esta história. Desde a frase que aparece na camiseta de Charlie durante uma das consultas com o seu psicólogo (“Pessoas como você são a causa de pessoas como eu precisarem de medicação”) até a que acompanha o material de divulgação do filme (“Popularidade é um estado da mente”). Digamos assim que Charlie Bartlett é uma produção um bocado anarquista. ;)

Ah, e algo que esqueci de comentar antes: um dos conceitos bacanas do filme é o de que todos, sem exceção, tem seus problemas, seus dilemas e dúvidas. Não importa se o cara é o capitão do time de futebol americano, ou se a garota faz sucesso entre os caras, todos tem algo que não funciona em suas vidas. Esta é uma das mensagens da história. Outra é que ninguém precisa de um líder… que todos são capazes de seguirem seus caminhos por suas próprias pernas, basta acreditarem um pouco em seus potenciais. Prova disso é o que conseguem fazer Dustin e Kip. 

Algo curioso: o diretor Jon Poll, que também é produtor e editor, dirigiu apenas um filme antes de Charlie Bartlett – The Tree, de 1982, que também tem o seu roteiro. Depois de Charlie Bartlett, de 2007, ele trabalha neste ano na direção de Something Borrowed, atualmente em fase de pré-produção. Por sua vez, o roteirista de Charlie Bartlett, Gustin Nash, estreou nos cinemas com este filme. Antes, ele havia escrito parte do roteiro da série animada Da Mob. Em 2009, como Poll, ele volta a trabalhar em um novo projeto: Youth in Revolt, dirigido pelo portoriquenho Miguel Arteta, atualmente em fase de rodagem. Vale a pena conferir o que esses dois estão aprontando.

Charlie Bartlett conseguiu uma nota razoável para os padrões do site IMDb: 7,2. Por sua vez, os críticos que tem textos publicados no site Rotten Tomatoes foram menos efusivos do que eu ou do que os usuários do IMDB: eles dedicaram 67 críticas positivas e 56 negativas para o filme. Praticamente um empate técnico – o filme recebeu uma aprovação de 54%, para ser precisa. O problema principal do filme, para os críticos, é que ele trata de assuntos interessantes e começa bem, mas depois se perde. Não concordo, mas respeito a opinião deles. :)

Este filme não concorreu a prêmio algum, mas conseguiu uma bilheteria razoável para uma produção sem grande orçamento: quase US$ 4 milhões nos Estados Unidos. Um número que não deve ser desprezado – ainda que esteja distante anos-luz dos “blockbusters” da vida.

Gosto do Oscar e tudo o mais, mas devo ser franca: ainda bem que a premiação é hoje e que eu poderei, a partir de agora, me dedicar apenas a assistir aos filmes do país escolhido na enquete, aqueles que foram indicados pelos leitores deste blog e, claro, parte da minha “pequena listinha” de filmes menos óbvios dos que estes do Oscar. ;)

CONCLUSÃO: Um filme sobre colegiais que aposta em altas doses de psicoanálise e um bocado de anarquia. Politicamente incorreto em vários pontos, (até por isso) não deixa de ser divertido ao contar as desventuras de um adolescente que cresceu cercado de muito dinheiro e sem uma família estruturada. Ainda assim, com muita responsabilidade: tendo que cuidar da mãe e de sua carência afetiva – projetada na necessidade de se sentir popular na escola. Em pouco mais de uma hora e meia de filme entramos “fundo” nos complexos do garoto e de seus colegas adolescentes, sem que isso se transforme em algo didático ou chato. Com um bom elenco, um ótimo roteiro e uma direção competente, Charlie Bartlett é um destes filmes despretensiosos que vale a pena assistir para dar umas risadas e ver como a vida pode ser complicada ou simples, dependendo do ponto-de-vista.

Vicky Cristina Barcelona

20 de fevereiro de 2009 6 comentários

 

vickycristina1

Demorei para assistir a esse filme propositalmente. Afinal, me deixava um pouco com o pé atrás dois fatos: primeiro, o filme ser uma homenagem a Barcelona; segundo, ter Penélope Cruz em um desempenho digno de Oscar (na opinião de muitos). É que estas duas afirmações me causam estranheza… sempre acho que a homenagem de um diretor a uma cidade pode ser desastrosa – ou, no mínimo, mentirosa. Depois, nunca vi Penélope Cruz como uma atriz merecedora de qualquer prêmio, muito menos o Oscar. Mas agora que assisti ao filme, posso admitir que é uma história bacana, curiosa, bem ao estilo Woody Allen. Além do mais, para a sorte do espectador, Vicky Cristina Barcelona mostra mais as duas amigas norte-americanas e o espanhol conquistador do que a louca espanhola vivida por Penélope.

A HISTÓRIA: Vicky (a londrina Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) são melhores amigas desde o colegial. Ainda que coincidam suas opiniões e gostos em quase tudo, do amor elas esperam coisas muito diferentes. Movidas também por interesses distintos elas resolvem passar as férias de Verão na Espanha, sendo hospedadas mais precisamente na casa de familiares de Vicky em Barcelona. Elas chegam na melhor época do ano, quando as cidades espanholas fervilham (literalmente). Neste cenário elas vão reavaliar suas convicções amorosas ao conhecerem o pintor Juan Antonio Gonzalo (Javier Bardem) e sua ex-mulher, também artista, Maria Elena (Penélope Cruz).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Vicky Cristina Barcelona): Woody Allen é aquele sujeito que todos conhecem – que adora falar de sexo, amor, mulheres e cidades. Novamente aqui ele faz o que sabe melhor: equilibrar ironia com uma visão um bocado cínica sobre os relacionamentos e o amor. A diferença é que em lugar de Nova York, sua cidade natal e que ele adora homenagear, agora ele escolheu a Barcelona, uma das cidades européis pela qual ele se diz encantado.

Retomando o que eu dizia lá no início desta crítica, sempre que um diretor resolve homenager uma cidade, seu trabalho pode sair desastroso ou, pelo menos, ser mentiroso. Essa “máxima” vale especialmente para os diretores que falam das cidades que não conhecem tão a fundo, ou seja, quando tentam entender a “essência” de um lugar no qual não viveram tempo suficiente para nem mesmo tocá-la.

Bacana Woody Allen se interessar por Barcelona, especialmente porque ele se esforça em mostrar o que a cidade tem de melhor: a arquitetura de Antoní Gaudí e algumas obras de Joan Miró. Também pareceu interessante a forma com que ele mostrou a “boemia” das noites de Verão espanhol em Oviedo – gostei do fato dele ter migrado durante parte do filme para outra cidade que não fosse Barcelona. Até aí, tudo bem. Mas como praticamente toda homenagem a um determinado lugar, a visão da Espanha de Woody Allen é um bocado simplista. Por sua ótica, por ali é fácil se viver em contato direto com a natureza e de maneira verdadeiramente libertária e artística. 

Talvez em algumas rodas muito específicas isso seja possível – ainda que eu ache difícil isso ocorrer como se mostra em Barcelona, uma das principais cidades do país, considerada por muitos a capital espanhola da arte, onde os espaços são cada vez mais disputados e escassos. Exceto se os personagens moram em “las afueras” de Barcelona, ou seja, em algum “pueblecito” que está próximo da capital da Cataluña. Também, pelo filme de Woody Allen, todos parecem serem muito “prafrentex” em terras espanholas… todos são bacanas, interessantes, divertidos. E o resto das variações que por lá existem? Ficam de fora da história, claro.

Mas ok, sabemos que o cinema não é nenhum tratado realista. Ainda bem. ;) Então o filme é bacana sim por mostrar lugares que não são conhecidos por todos, pontos turísticos e lugares mais inusitados em Barcelona, Oviedo e Ávila (onde mora Julio Josep, interpretado por Josep Maria Domènech, pai do pintor Juan Antonio). Agora, só achei um bocado “rasos” os personagens espanhóis – todos são muito passionais para o meu gosto. Certo que muitos espanhóis tem esse estilo “à flor da pele”, mas seria um pouco de exagero pensar que a maioria é assim. Mas para Woody Allen os homens e mulheres de lá são artísticos e podem ser vistos como um apaixonado e galanteador (Don?) Juan e por sua ainda mais passional e um tanto tresloucada ex-mulher Maria Elena.

Aliás, achei a personagem interpretada por Penélope Cruz uma versão um tanto mais enlouquecida de uma tentativa de Frida Kahlo… seria saudade daquela mulher realmente trangressora, artista e visionária? E que, aliás, não era espanhola, mas mexicana. ;) De qualquer forma, Woody Allen me pareceu em busca de uma mulher com aquele perfil – só que tudo que ele conseguiu foi uma versão fora de controle interpretada por Penélope Cruz. Certo que existe um ou outro momento em que a atriz está bem, mas no geral… achei, como sempre, bem fraquinha. Mediana, talvez. Mas longe de merecer um prêmio como o Oscar por sua interpretação. Mas é até natural ela ter sido indicada – primeiro porque é do interesse da Academia valorizar talentos “latinos”, depois porque este ano foi realmente fraco no quesito intérpretes femininas.

Mas se descontamos os exageros de Woody Allen em simplificar a história e parte dos personagens, o que se vê é mais um de seus contos saborosos sobre uma revisão de conceitos referentes ao amor. Sim, porque Vicky Cristina Barcelona, além de ser uma boa desculpa para o diretor filmar na Espanha, é uma história engraçadinha sobre essa busca infindável do amor – da qual o próprio Allen é a encarnação – e, principalmente, sobre como nossas certezas sobre este e outros conceitos podem (e devem) mudar com o tempo. E isso independente se essas mudanças vão provocar rupturas ou não em nossas vidas.

A única personagem que parece verdadeiramente confortável no final é a de Cristina, porque ela está convencida que nenhuma relação com “amarras” pode lhe completar e, sabendo isso, ela parte para mais uma fase de “solteirice” até que ela encontre um novo (e fugaz) amor. Ou, quem sabe, um dia ela refaça essas suas convicções? O que de fato acontece com Vicky e com Judy Nash (Patricia Clarkson), mulher de Mark (Kevin Dunn), os anfitriões que recebem as amigas em Barcelona.

Judy vê em Vicky a sua chance de redenção – algo que acaba não ocorrendo. Ela tem essa visão porque a jovem garota, recém-casada, se confessa apaixonada por um amor de Verão – algo idealizado que, certamente, com o tempo, se mostraria ilusório. E aqui se encontra mais uma crítica mordaz do diretor e roteirista: afinal, os amores idealizados nunca podem dar certo – ainda que a idéia deles seja predominante no mundo moderno. E o mais curioso: mesmo os casamentos “realistas”, como o de Vicky e Doug, não parecem a solução. Nesta história, pelo menos, Woody Allen ironiza os casais em geral e a instituição casamento especificamente – como ele sempre faz, aliás. Nada mal para um homem que aos 73 anos tem três casamentos no currículo – o último e atual, com Soon-Yi Previn, 38 anos mais jovem que ele, lhe rendeu dois filhos. 

O importante, no final, parece ser realmente a ironia e nossa capacidade de rir dos nossos próprios erros, acertos, equívocos, dúvidas e certezas. Talvez esta seja a grande mensagem do filme e da obra de Woody Allen.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo que achei realmente curioso: se Vicky era uma pessoa tão racional e que sabia o que esperar do amor, como ela foi cair de forma tão fácil na conversa do galanteador Juan Antonio? Não parecia óbvio que ele sabia o que fazer para conquistar uma mulher como ela, agindo na medida certa, calculando os passos, para conquistá-la? No melhor estilo Don Juan, com Cristina ele sabia que tinha que agir de forma diferente – o que realmente fez. De qualquer forma, seja com uma ou com outra, Juan Antonio tinha claro como deveria agir para conseguir o que queria. Mas era óbvio que ele não poderia ser aquele homem “apaixonado” e ideal que Vicky colocou na cabeça. Contos de fadas não existem, ela deveria saber – se fosse realmente tão racional como o narrador nos fala no início do filme. E aí está o golpe de mestre de Woody Allen: ninguém é exatamente o que o narrador comenta ou, melhor dizendo, aquilo que aparenta ou que quer fazer os outros acreditarem que seja.

A música espanhola é realmente maravilhosa e apaixonante. Para quem ficou interessado em saber mais sobre os artistas que aparecem tocando violão no filme, os nomes deles são Juan Quesada (em Barcelona) e Emilio de Benito (em Oviedo), os dois músicos profissionais e relativamente bem conhecidos em solo espanhol – ambos originários do flamenco, que é uma delícia (eu diria que se trata da “alma” espanhola).

Aos interessados na história das cidades e nos locais que são mostrados no filme, recomendo estes links – sobre Barcelona, este e este; e sobre os locais revelados por Woody Allen em Oviedo e Ávila, este. Gostei de saber que a imagem do Cristo crucificado que aparece no filme está localizada na Igreja San Julián de los Prados, construída no estilo pré-românico e que, segundo a prefeitura de Oviedo, se trata do último exemplar daquele estilo artístico na Europa. 

Achei um bocado unidimensional (também) o personagem de Doug (Chris Messina), o noivo e depois marido de Vicky. Certo que o cara podia ter complexidade zero, como aparece no filme, mas sei lá… acho difícil acreditar que alguém virtualmente tão inteligente quanto Vicky se interessaria por um cara tão “raso”. Mais um personagem da história que parece ter sido simplificado ao máximo para “casar” melhor com a história que o diretor queria contar. O ator, por sua parte, faz um belo trabalho, assim como Rebecca Hall, que me surpreendeu bastante positivamente, e Scarlett Johansson. Javier Bardem e Penélope Cruz estão bem como “encarnações” da paixão espanhola, ainda que seus personagens acabem sendo um tanto que rasos demais.

A nota que eu dei tem mais a ver com a beleza e o charme espanhol retratados em tela do que com a história propriamente dita. Se fosse levar em conta apenas o roteiro, a nota seria menor. Mas a virtude dos protagonistas, a direção segura de Woody Allen e a homenagem para meu “segundo país” valem uma nota melhorzinha. ;)

Nada como uma cena lésbica para incendiar os corações masculinos, não? Achei especialmente curiosa a ironia do diretor/roteirista com a reação de “interesse contido” do tradicionalista Doug. O rapaz só não propõe um relacionamento à três com Vicky e Cristina com medo de receber uma cortada definitiva da mulher – ou talvez porque ele não se sinta especialmente atraído pela amiga dela.

Acho mais certo que sua preocupação em estar sempre enquadrado nos padrões sociais ter sido o principal freio para conter aquele interesse visível na história de Cristina com Maria Elena. Ou, talvez, ele tenha mesmo repúdio a idéia de compartir a mulher com outra pessoa. Independente de qual seja a resposta, fica clara a provocação de Woody Allen para com os padrões sociais aceitos e aqueles que são reprimidos – vide Freud e a noção de libido. Mas claro, tudo isso é estritamente “pincelado” pelo diretor que larga muitas cores sobre a tela, mas não faz questão de explicar a sua arte. Acho que essa característica também faz o filme merecer uma nota um pouquinho melhor – ignorando o “raso” que são quase todos seus personagens.

Vicky Cristina Barcelona foi bem na avaliação do público e da crítica – especialmente da crítica. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,5 para o filme, enquanto que os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 148 críticas positivas e 32 negativas para o filme – em uma aprovação de 82%, nada mal. 

O filme teria custado aproximadamente US$ 15,5 milhões e faturado, até o dia 8 de fevereiro, quase US$ 23,2 milhões apenas nos Estados Unidos. Woody Allen deve estar feliz que esse seu último filme se pagou – algo que, aparentemente, o anterior (Cassandra’s Dream) não conseguiu. Dos oito filmes dirigidos e escritos por Woody Allen nos anos 2000, aparentemente apenas Scoop e Match Point conseguiram se pagar e ainda fazer uma “caixinha” para o diretor.

Até agora Vicky Cristina Barcelona recebeu 14 prêmios e foi indicado a outros 26. A maioria deles foi ganho por Penélope Cruz, que pouco a pouco foi colecionando troféus como melhor atriz coadjuvante do ano em festivais e em círculos de associações de críticos. Além dos prêmios para a intérprete espanhola, se destacam o Globo de Ouro ganho pela produção como a melhor do ano na categoria “comédia ou musical” e o de melhor filme em língua não-catalã no festival Gaudí – declaradamente pró-Cataluña. Entre os importantes prêmios ganhos por Penélope Cruz estão o BAFTA e o National Board of Review

Algo que eu não tinha deixado tão claro antes – na primeira versão deste texto: a trilha sonora do filme é uma delícia, especialmente pela música Barcelona, interpretada por Giulia y los Tellarini, que abre e fecha a produção. E no meio se escuta ainda o clássico Granada, de Isaac Albéniz, tocado no violão por Emilio de Benito, além de Paco de Lucía com sua Entre Dos Aguas. Uma delícia. Ah, e outro clássico no violão de Juan Quesada: Asturias, composta também por Isaac Albéniz. 

Sei que várias pessoas não enxergam muita lógica na comparação, mas sim, eu prefiro Madrid que Barcelona – pelo menos para viver (além do link anterior, deixo este e este sobre Madrid). E para os curiosos, de verdade julho e agosto são os melhores meses para conhecer a Espanha – ainda que sejam, também, dois dos mais concorridos e dos mais caros, especialmente porque todos os espanhóis que podem tentam sair de férias em agosto, o que faz tudo ficar ainda mais disputado.

CONCLUSÃO: Um filme no melhor estilo Woody Allen de ironizar o amor e os jogos românticos, tem como vantagem mostrar parte da cultura espanhola – seja para o bem ou para o mal. Acerta em alguns pontos, como na escolha do elenco e na eleição dos locais focados pela câmera, mas erra na simplificação dos personagens e na construção de um estereótipo nada sutil ou original do “sangue latino” incorporado pelos espanhóis. Se mostra interessante pelas ironias e pelo questionamento das certezas/escolhas no campo amoroso – algo que, digamos, é um pouco de lugar-comum na obra de Woody Allen. Ainda assim, se trata de um filme mais popular, ou seja, trabalhado de forma que pode cair melhor no gosto do público do que outras obras menos “fáceis” do diretor. Vale como passatempo – e por mostrar parte da cultura espanhola, como obras de Gaudí e Miró, a boemia e a música daquele país.

PALPITE PARA O OSCAR: Seria perfeitamente previsível se Penélope Cruz ganhasse o Oscar de atriz coadjuvante este ano. Afinal, sempre é bem-vinda a premiação de uma atriz latina – obviamente pela grande massa de “hablantes hispanos” nos Estados Unidos. Além do mais, sempre vale a pena aproximar Hollywood da Europa – ainda que de uma maneira um tanto contida, afinal, se trata de escolas e mercados diferentes. Mas ao mesmo tempo seria perfeitamente compreensível se ela perder a estatueta para atrizes como Amy Adams ou (com menos chances) Marisa Tomei.

Pessoalmente, depois de ter assistido a todas as interpretações que valeram as indicações ao Oscar, prefiro realmente Amy Adams. Ainda que eu ache que a disputa este ano está um tanto “fraquinha”, a atriz de Doubt parece fazer um trabalho mais técnico e maduro que o das concorrentes. Se bem que eu acho igualmente interessante o desempenho de Marisa Tomei. Acredito que existe um empate técnico entre as duas. Sendo assim, meus votos seriam, na ordem, para Adams e Tomei e, em seguida, para Penélope Cruz. Ficariam de fora da disputa Viola Davis e Taraji P. Henson.

Rachel Getting Married – O Casamento de Rachel

16 de fevereiro de 2009 8 comentários

 

rachelg1

Eu admiro o Sr. Jonathan Demme. Ele é um destes sujeitos que faz filmes em Hollywood no que se popularizou como sendo o “cinema autoral”. Demme foi o responsável por dois filmes espetaculares: The Silence of the Lambs e Philadelphia. Mas depois deles, parece que o diretor não voltou a fazer nada tão próximo da perfeição. E por mais que Rachel Getting Married seja um filme interessante, ele se mostra, mais uma vez, “menor” dentro da filmografia do diretor. Demme utiliza uma câmera um tanto vertiginosa e uma narrativa que busca o realismo em uma história claramente fictícia. Digo isso porque parece evidente que aquele enredo não aconteceria daquela forma, ainda que seja bem construído e interessante. Mas, na essência, ele é artificial. Alguma engrenagem não se encaixa no processo. O bom mesmo desta história são as interpretações de Anne Hathaway – merecidamente indicada ao Oscar por seu papel – e de Rosemarie DeWitt.

A HISTÓRIA: Kym (Anne Hathaway) espera o pai, Paul (Bill Irwin), do lado de fora da clínica de desintoxicação. Mais uma vez a cena se repete, já que não é a primeira vez que a garota passa pelo mesmo ciclo de descontrole-tratamento-volta para casa. Só que desta vez algo especial está acontecendo na casa da família: Rachel (Rosemarie DeWitt), a irmã mais velha de Kym, vai se casar. A participação de Kym neste momento parece crucial ao mesmo tempo que se mostra bastante conflitiva, despertando sentimentos antigos de rejeição e de conflito entre os familiares, incluindo a mãe das garotas, Abby (Debra Winger). 

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Rachel Getting Married): Eu queria assistir a este filme há bastante tempo já, mas até ontem eu não tinha conseguido vê-lo. Talvez (e só talvez) a expectativa por assistí-lo tenha contribuído um pouco para que eu o achasse abaixo da média. Ou pode ser que ele realmente seja. 

Gostei da abertura do filme, com aquela forma despretensiosa – e um tanto irônica – do diretor começar sua obra. Mas depois esta “ânsia” de contar a história como se a câmera fosse uma “intrusa imperceptível” nas entranhas daquela família estadunidense me incomodou um pouco. Afinal, vamos ser francos, ninguém acredita que aquilo seria mesmo uma “invasão de privacidade”. Até porque a família retratada parecia não ter muitos pudores em exibir a sua dor – exceto pela mãe, interpretada por uma Debra Winger muito diferente daquela que eu tinha lembranças.

Além do mais, não me pareceu exatamente realista o retrato desta família – muitas vezes me pareceu que eles estavam, todos, encenando uma peça de teatro. E isso, para uma história como esta, é um tiro no pé, uma armadilha. Ou, em outras palavras, é uma forma de desacreditar a história que estamos assistindo. Os culpados disto? Um pouco a roteirista, Jenny Lumet, que escreveu alguns diálogos um bocado difíceis de se encaixar no enredo; um pouco o diretor, que insistiu naquela câmera-na-mão em busca da “verdade” e da essência das interpretações que não chegaram a atingir o nível técnico esperado; e mais um pouco dos atores – especialmente de Tunde Adebimpe, que interpreta Sidney, o noivo de Rachel, e do próprio Bill Irwin, que interpreta o pai das garotas – ele é amável, amoroso e preocupado, mas algumas vezes parece uma peteca parada no solo depois de ter sido jogado de um lado para o outro pelas filhas. Para ser franca, por mais que eu tenha gostado de Rosemarie DeWitt, há momentos em que eu acho a sua interpretação um pouco “over”, exagerada. 

Agora, vamos fazer justiça com Anne Hathaway: ela realmente está perfeita no papel de Kym. Do elenco, ela foi a única que entendeu o “espírito” do trabalho do diretor e assumiu com naturalidade o seu complexo papel. Como li em uma revista há pouco tempo, a atriz parece ter atingido a maturidade interpretativa. Realmente. Aqui ela mostra que pode assumir o papel complexo que quiser e se sobressair. Alguns dos momentos mais importantes do filme se sustentam por causa dela, como em sua “confissão” na reunião dos adictos e no confronto com a mãe em busca de respostas.

A história de Kym é pesada e difícil de ser resolvida – porque passa por uma rejeição que ela mesma ainda não começou a trabalhar. Mas com a ajuda da irmã, que acaba sendo cruel em muitos momentos, ela começa a enxergar que o caminho para sua felicidade é possível, mas que será muito doloroso e difícil. No fim das contas, ainda que se trata de um filme “pesado”, Rachel Getting Married é uma obra esperançosa e que aposta em uma solução para os problemas – sem aforismos ou embelezamentos irreais.

Gostei também do que o filme mostra como “pano-de-fundo” (ainda que seja um tema totalmente presente, do início ao fim): parte do drama de adictos e seus familiares. Realmente não é fácil para nenhuma parte mas, sem dúvida, é muito mais difícil para as pessoas que vivem e que são a “causa” do problema. Ou seja, é muito mais difícil para aquele que tem que se manter equilibrado e, de quebra, evitar o agente que lhe vai desestabilizar fatalmente (e que seu corpo inicialmente exige e depois pede continuamente). Em relações como estas normalmente circulam “ad infinitum” sentimentos de culpa, de carência afetiva, de dedicação exagerada e/ou de desprezo sentimental.

Uma qualidade do roteiro – sim, porque ele não tem apenas defeitos – é mostrar os problemas sem muita maquiagem. Existem quedas no meio do processo, as pessoas passam por mil desafios e provas, e os que resistem, são realmente heróicos. Para ninguém essa situação é fácil, e talvez todos tenham parte da culpa (se é que ela existe) do problema – e da resolução complicada dele. Mas uma reflexão interessante do filme é que algumas vezes a pessoa que parece cruel e egoísta, como é o caso de Rachel, seja justamente a peça que faltava para incentivar uma solução verdadeira para o problema. A preocupação amorosa e muitas vezes superprotetora do pai, Bill, e a indiferença e aparente incapacidade de amar verdadeiramente as filhas da mãe, Abby, certamente não ajudam Kym a sair de seu círculo de autoflagelação. Algumas vezes é preciso realmente fazer o que é preciso, ainda que seja dolorido para todos.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Mather Zickel como Kieran, um dos padrinhos dos noivos que também é adicto e que acaba se envolvendo com Kym (o rapaz realmente tem carisma e merece ser acompanhado); o de Anna Deavere Smith como Carol, a segunda esposa de Paul, que procura se manter um tanto imparcial nos problemas da família (mas ainda assim demonstrando mais preocupação e carinho do que a mãe das meninas); e o de Anisa George como Emma, a melhor amiga da noiva – e um bocado irritante, algumas vezes, em uma competição um tanto ridícula pela atenção de Rachel.

Não sei vocês, mas chegou um momento que eu me irritei um pouco com aquele excesso de música no filme. Certo que as famílias dos noivos eram de verdadeiros amantes da música, mas acho que eles exageraram um pouco na dose… me colocando no lugar de Kym, não sei como ela suportou tudo aquilo. hehehehehehehehe. E até o “nosso” samba caiu na história, não é mesmo? Só as “mulatas” que eles escolheram eram meio fraquinhas. Deviam ser “mulatas made in USA”. ;)

Eu admito que me irritou um pouco o personagem semi-mudo do noivo. Ele podia ter participado um pouco mais da história, não acham? Ainda que se tratasse basicamente de um drama familiar, mas sei lá… O mesmo vale para Andrew, o marido de Abby, interpretado pelo ator Jerome Le Page. Ele praticamente entra mudo e sai calado. Coitados.

Agora, algo que eu tenho que admitir sobre o roteiro também: ainda que em muitas partes ele abra espaço para interpretações um tanto “teatrais”, ele no geral é bastante direto e ácido, com algumas “alfinetadas” entre os personagens realmente porretas. Os “sensíveis” devem se acostumar a muitos “fuck you” e expressões do gênero.

Outro tema que o filme trata e que me parece especialmente interessante: o quanto as pessoas podem assumir o papel de vítima. Certo que não é fácil para Kym sair da clínica e cair em uma realidade da qual ela parece não fazer parte. Este sentimento de “deslocada” é perfeitamente normal. Mas as pessoas podem sempre enfrentar isto até conseguir ver além do seu problema ou assumir todo o tempo a sua condição de “coitadas”. Rachel Getting Married trata um bocado sobre isso, na essência, o que é bem interessante – e deveria ser percebido pelas pessoas que vivem um tanto “isoladas” em seus próprios problemas. A vida, meus caros, é feita deles, mas não – essencialmente não – só deles.

O filme conseguiu uma nota razoável na votação dos usuários do site IMDb: 7,4. Na opinião dos críticos a produção vai melhor. O site Rotten Tomatoes abriga 146 críticas positivas e apenas 23 negativas para o filme, o que lhe dá uma aprovação de 86%. Nada mal.

Mesmo se tratando de um filme difícil, Rachel Getting Married conseguiu uma bilheteria respeitável nos cinemas dos Estados Unidos – levando em conta seu caráter um tanto “independente”: até o dia 8 de fevereiro deste ano ele tinha arrecadado pouco mais de US$ 11,8 milhões.

Até o momento, a produção ganhou nove prêmios e foi indicada a outros 19. A maioria deles para Anne Hathaway. Entre os prêmios que a atriz levou para casa, estão o de melhor intérprete pelo National Board of Review e pela Broadcast Film Critics Association. Outros premiados foram o diretor Jonathan Demme, pela Associação de Críticos de Cinema de Toronto; a roteirista Jenny Lumet, que levou o prêmio também da associação de críticos de Toronto e ainda da associação de críticos de Nova York; e Rosemarie DeWitt, que levou para casa o prêmio de atriz coadjuvante no Satellite Awards e na premiação dos críticos de Toronto.

Até ler as notas de produção do filme eu não havia me dado conta que este é o trabalho de estréia da roteirista Jenny Lumet – antes ela havia dedicado seu tempo a carreira de atriz. Como o nome sugere, Jenny é filha do diretor Sidney Lumet e de Gail Lumet Buckley.

Segundo o material de divulgação de Rachel Getting Married, a trilha sonora do filme foi sendo feita pelos músicos profissionais que aparecem nele conforme esta história ia sendo rodada. Não deixa de ser interessante – ainda que me cansei um pouco, como havia dito antes.

Jonathan Demme também comenta, neste material de divulgação, que Rachel Getting Married é um pouco sua homenagem a “mestres” como Robert Altman. Realmente, pensando agora nesta comparação, o cineasta bebeu bastante da fonte de seu homenageado. O que é bacana, neste prisma, porque Robert Altman foi um grande cronista da vida desastrosa de muitas famílias.

Algo curioso desse filme é o seguinte: inicialmente você não sabe a importância de algumas cenas. Como quando Kym entra no quarto do irmão, logo no começo da história. Só muito tempo depois, quando sabemos o que aconteceu realmente com aquela família, sabemos o impactante que são aqueles segundos de silêncio e perplexidade/contemplação. 

Os produtores gostam de ressaltar o trabalho do diretor de fotografia Declan Quinn e sua equipe, que estiveram o tempo todo com câmeras nas mãos captando o que acontecia com aquela família e seus convidados nos dias que antecederam o casamento de Rachel. Através do material de divulgação que eu soube que algumas câmeras foram colocadas realmente na mão dos atores, como Gonzales Joseph, que fazia o primo militar do noivo; Jimmy Joe Roche, o cinegrafista contratado para filmar o casamento (e que acabou contribuindo com imagens, como os demais, para o filme); e dois outros “convidados do casamento” que ficaram registrando acontecimentos sem que a gente se desse conta – ninguém mais, ninguém menos que o genial Roger Corman, um dos mentores de Jonathan Demme, e Charlie Libin. Isso sim eu achei incrível.

Para Anne Hathaway foi incrível a experiência de não saber exatamente onde a câmera estava colocada. Por esta categoria, ela disse que todos os atores tiveram que trabalhar muito focados nos personagens e em suas emoções. Para ela, Rachel Getting Married se trata de uma história sobre a comunicação (entre as pessoas, certamente) e o amor.

Entre os músicos convidados por Demme para participar do filme, estão o jazzman Donald Harrison Jr. e o músico de origem palestina virtuoso Zafer Tawil.

Uma curiosidade: em certo momento, Anne Hathaway estava tentando se concentrar em uma cena complexa dentro da casa enquanto os músicos não paravam de tocar do lado de fora – como havia sido pedido pelo diretor e os produtores do filme. Sendo informado disso, Demme pediu para a atriz fazer algo a respeito. E foi aí que ela, dentro de seu papel, pediu para os músicos “darem um tempo” – cena que está no filme. 

Esta maneira declarada de Demme e da roteirista em deixar a história ser um tanto que “improvisada”, não apenas no quesito dos músicos, mas das próprias atuações, conseguiu alguns bons momentos no filme, na mesma medida em que provocou outras ocasiões em que os atores pareceram um tanto teatrais ou perdidos. Esse é o risco que se corre.

Como eu imaginava, as cenas do programa dos “12 passos” envolvem pessoas reais. No site do filme existe inclusive um mapa das pessoas que fizeram parte daquelas cenas, assim como um plano de onde ficaram as pessoas durante o casamento. Presidia as reuniões o conhecido pastor Melvin Jones e, ao seu lado, Darrell Larson. Curioso que no casamento estava sentada, entre os convidados, a roteirista, Roger Corman, entre outras “celebridades”. 

Não sei vocês, mas eu achei o cartaz do filme bem feinho…

CONCLUSÃO: Um filme que segue a linha de “semi-documentários”, ou seja, produções ficcionais que tem como base o “cinema-verdade”. Neste caso, o diretor colocou na mão de alguns coadjuvantes umas câmeras que registraram cenas que depois entraram no filme e, como pano-de-fundo, convidou amigos músicos para fazerem uma trilha sonora espontânea e original. A experimentação ficou interessante, ainda que algumas vezes o improviso acabou transformando os diálogos em algo um tanto teatral ou deslocado. No geral, é uma história interessante sobre as dificuldades que circulam um adicto e sua família, na busca por respostas e por soluções. Ainda que tenha uma carga de drama potente, este filme não deixa de ser uma peça de esperança com algumas pitadas de sarcasmo – especialmente da personagem de Anne Hathaway, realmente impecável neste trabalho. 

PALPITE PARA O OSCAR: Anne Hathaway mereceu ser indicada ao Oscar. A atriz faz um trabalho verdadeiramente maduro e competente. Através dele, ela garantiu a única indicação do filme ao prêmio máximo de Hollywood. Para mim, ela estaria entre as três melhores do ano – e na disputa. Ficaria um pouco atrás, correndo por fora na disputa Melissa Leo e Angelina Jolie. As favoritas são realmente Kate Winslet, Meryl Streep e Hathaway, nesta ordem. Ainda acho que se for feita justiça nesta premiação, a estatueta ficará mesmo com Kate Winslet, que fez dois grandes trabalhos em 2008 – The Reader e Revolutionary Road.

Revanche

15 de fevereiro de 2009 8 comentários

revanche1

Volto a assistir a alguns dos filmes que me faltavam para ver da lista de candidatos deste ano ao Oscar. Agora foi a vez do austríaco Revanche, um dos cinco selecionados para concorrer na categoria de melhor filme estrangeiro. Francamente? Achei a indicação dele supervalorizada. O filme não é tão bom para tirar outros títulos como To Verdener, Gomorra ou mesmo Üç Maymun do páreo. Tecnicamente falando ele é “correto”, tem uma fotografia linda – ainda que pouco complicada de se fazer -, uma direção acertada, interpretações coerentes. Mas nada, absolutamente nada fora do normal.

A HISTÓRIA: Alex (Johannes Krisch) trabalha para um cafetão chamado Konecny (Hanno Pöschl) e mantêm um namoro secreto e proibido com uma de suas prostitutas, Tamara (Irina Potapenko). Ex-presidiário, ele sonha com o roubo de um banco e a consequente fuga dele com Tamara para a Espanha, onde abriria um negócio com um amigo. Sentindo-se cada vez mais pressionada por Konecny para virar uma prostituta de luxo, Tamara decide acompanhar Alex em seu plano de roubo a banco. Quando as coisas saem mal, ele pensa em se vingar do policial Robert (Andreas Lust), mas acaba sendo surpreendido por acontecimentos que ocorrem no interior local, quando passa a viver com o avô (Johannes Thanheiser).

VOLTANDO À CRITICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Revanche): Certo que os atores são muito bons e que tecnicamente o filme é bem feito. Mas achei o roteiro do também diretor Götz Spielmann um bocado fraquinho… (SPOILER – realmente não leia se você não assistiu ao filme). No final das contas, o resumo dos 121 minutos do filme é o seguinte: “Ninguém é culpado pelos seus atos a não ser você mesmo”? Porque é isso que me pareceu. Ao mudar para o interior em busca de vingança, Alex acaba conhecendo “de perto” a sua virtual vítima e se dá conta, lá pelas tantas, que ninguém a não ser ele mesmo pode ser culpado pelo que saiu de errado. Certo. Até que conceitualmente essa idéia é boa, mas achei que ela foi pouco explorada – ou que, talvez, o filme poderia ter de 30 minutos a uma hora a menos de duração. ;)

Algo curioso dessa história é que ela é dividida, literalmente, em dois atos. O primeiro mostra a vida suburbana de Viena, capital austríaca, em tudo que ela tem de moderna e suja. Nesta parte, o ambiente que interessa para o diretor e roteirista Götz Spielmann é o da prostituição e o da criminalidade. Ali conhecemos dois dos nossos personagens principais, um casal que se fortalece na esperança de fugir. Através de Tamara, Alex acredita que seja possível recomeçar a sua vida. Apaixonado, ele quer mostrar que pode ser mais do que aquele homem que as pessoas que lhe conhecem e lhe desprezam um dia puderam projetar.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O problema é que o tal roubo a banco dá errado e Tamara, que tinha medo do que pudesse acontecer com ele, se torna a única vítima (pelo menos fatal) daquela história. Digo única vítima fatal porque, no fim das contas, Alex e o policial Robert acabam sendo vítimas “colaterais” daquele lance infeliz. E para que não existam dúvidas de que “todos estamos no mesmo barco”, uma das grandes conclusões de Revanche é que as aparências enganam e que nem todos que parecem felizes estão, na verdade, isentos de culpa, de angústia e da infelicidade. Ao aproximar-se de Robert para fazê-lo “pagar” pela morte de Tamara, Alex descobre que o policial já tinha o seu próprio calvário para enfrentar. Não apenas a culpa pela morte da garota não-identificada, mas também o peso de não conseguir dar um filho para a esposa, Susanne (a ótima Ursula Strauss).

No fim das contas, Alex tem uma certa dose de vingança de Robert – Freud explicaria com gosto esse “revide”. E ao conseguir essa vingança ele acaba se dando ainda mais conta do “miserável” que ele se tornou por conta de escolhas erradas que teve. Mas descobre, ao mesmo tempo, que aquela paisagem bucólica do interior austríaco, tão desprezada por ele antigamente, pode ser o lugar perfeito para que este sujeito passe os dias com a mente ocupada no trabalho – e tentando ver beleza onde antes só existia tédio. Um recomeço, afinal de contas. Muito diferente das cores e do calor de Ibiza, na Espanha, mas ainda assim um recomeço.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Revanche é um filme correto, mas que não passa disso. A história não surpreende grande coisa – para não dizer que nada. Ele tem uma direção de fotografia bacana, assinada por Martin Gschlacht e um elenco reduzido que realmente sabe exercer a sua profissão muito bem – até porque todos os atores tem um bom tempo de estrada. Mas perto de outros filmes que estavam concorrendo a uma vaga entre os cinco finalistas ao Oscar, volto a repetir, ele se mostra pequeno. Gostaria de saber de quem foi o mérito de conseguir colocá-lo ali, entre os cinco melhores do ano na opinião da Academia.

Os usuários do site IMDb deram uma nota bastante boa para o filme: 7,5. Acho que este é um dos raros exemplos que os internautas daquele site foram mais generosos do que eu. ;) No Rotten Tomatoes não existe praticamente críticas sobre o filme – apenas duas. Ambas positivas.

Até agora Revanche abocanhou 14 prêmios conferidos por diferentes festivais e associações de críticos. Entre eles, estão incluídos três prêmios no Festival de Berlim do ano passado: um da mostra Panorama, outro para o design de produção de Maria Gruber e, o terceiro, o “Label Europa Cinemas” para Götz Spielman. Revanche ainda recebeu o prêmio de melhor filme estrangeiro do Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

O filme participou da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2008, assim como de vários outros festivais importantes mundo afora no ano passado. A previsão de estréia dele nos Estados Unidos é para o próximo mês.

No material de divulgação desta produção, o diretor e roteirista comenta que Revanche é, mais que tudo, uma história que segue a sua linha de interesse artístico de tocar em questões existenciais. “Essa é a minha paixão, é como fagulhas para a minha curiosidade, o que me motiva: detectar a substância da vida, a essência mais profunda que guardamos”. Segundo Spielmann, em seus filmes ele sempre mostra uma fagulha de otimismo ou, em suas palavras, “a convicção de que a vida não é um erro, e que tudo faz sentido de alguma forma”. Certo. Pena que eu não vi toda essa “profundidade” de sentido ou de narrativa no filme dele.

Ah, e para os sensíveis: sim, o filme tem várias cenas de nudismo e de sexo. E elas não são gratuitas, se justificam plenamente na história.

CONCLUSÃO: Um filme bem dirigido e com atuações bastante convincentes que trata das escolhas erradas que algumas pessoas tomam na vida e de como elas lidam com as consequências destas ações. Trata também do tema vingança – como parecia óbvio – e da “tomada de consciência” sobre quem são os verdadeiros culpados de grande parte de nossos problemas. É um bom filme, ainda que ele fique bastante abaixo de outras produções muito boas feitas em diferentes países no ano passado. Pessoalmente, acho que ele não deveria ter chegado a ser um dos cinco finalistas ao Oscar. Falta-lhe qualidade de roteiro, mais que tudo.

PALPITE PARA O OSCAR: Como eu acho que já deixei claro logo ali em cima, Revanche não deveria nem estar entre os cinco finalistas ao prêmio máximo da indústria de Hollywood. Mas ok, já que ele chegou até lá… não vejo que esta produção tenha chances de ganhar dos demais concorrentes. Isso porque não vi três dos cinco títulos que estão na disputa. Ainda assim, comparando Revanche apenas com Vals Im Bashir, posso dizer que a animação israelense é a favorita. Mesmo não sendo também um filme excepcional, Vals Im Bashir ainda é melhor que o concorrente austríaco.

DESEMPENHO NO OSCAR: Revanche perdeu na disputa para o filme japonês Okuribito (Departures no mercado internacional). (Atualizado em 28/02/2009).

Etz Limon – Lemon Tree

13 de fevereiro de 2009 6 comentários

lemontree1

Uma parábola de primeira grandeza. Etz Limon pega uma história “simples”, de uma mulher e sua plantação de limões, para falar de uma série de conceitos fundamentais não apenas no conflito entre palestinos e israelenses mas, sobretudo, sobre os valores que fazem tantas guerras, conflitos e pessoas moverem-se mundo afora e por gerações. O direito a propriedade ou a prerrogativa da segurança. O amor à terra e às plantas, a escolha por uma vida simples, contra a sede pelo poder e pela projeção de um cargo público importante. E a solidão que une as pessoas que estão do lado oposto da cerca de segurança. Etz Limon trata de tudo isso e de muito mais. Como uma grande metáfora, ele nos fala um pouco sobre tudo o que poderíamos ser e que, por desperdício do nosso potencial, terminamos por perder pelo caminho.

A HISTÓRIA: Salma Zidane (a magnífica Hiam Abbass, do recentemente comentado The Visitor) vive tranquilamente de sua plantação de limões na fronteira da Cisjordânia com o Estado de Israel. Tudo vai bem até que chega o caminhão de mudanças de Mira Navon (Rona Lipaz-Michael), que ela logo vai descobrir ser a esposa do novo ministro da Defesa israelense, Israel Navon (Doron Tavory). Mais que novos vizinhos, Salma ganha inimigos. Isso porque o serviço secreto israelense considera sua plantação de limoeiros um campo aberto para terroristas tentarem atacar o ministro e sua esposa. Quando é decretada a derrubada de suas árvores, Salma pede ajuda para todos que ela conhece, inclusive os filhos, e acaba encontrando no advogado Ziad Daud (Ali Suliman) um importante aliado para sua luta judicial contra a decisão do Estado de Israel.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Etz Limon): Difícil resumir em uma crítica todas as nuances deste filme. Ele trata não apenas do conflito que parece insolúvel entre palestinos e israelenses. Ele vai muito mais fundo nas questões que separam os dois povos. Certo que entra no meio política, religião, luta pelo poder, costumes seculares. Mas além disso tudo, a mensagem que fica mais forte – ou uma das, pelo menos – é a de que existem mais elementos que unem aquelas pessoas do que os que as separam. 

A solidão, por exemplo. Ou a diferença no trato entre homens e mulheres. Salma e Mira são lados opostos de um conflito que parece sem solução. Ambas são mulheres que, por viverem onde vivem, são tratadas como “seres inferiores”. E ambas vivem solitárias. Salma porque é viúva e porque tem todos os filhos longe de si. E ainda que ela tenha ao seu lado o fiel Abu Hussam (Tarik Kopty), que a ajudou a criar e que trabalhava originalmente com seu pai na plantação de limões, ela está sozinha. Sente falta de afeto, de carinho, de alguém que pareça se importar. Do lado oposto da fronteira e das cercas que separam as propriedades, está Mira, uma mulher que vê o marido ascender socialmente e, cada vez mais, ficar distante. Física e filosoficamente. 

Uma das narrativas mais bonitas do filme – e que acontece paralela a outras – é a da aproximação destas duas mulheres. Salma e Mira não falam o mesmo idioma mas se olham profundamente nos olhos e se reconhecem. Se entendem. De uma maneira que jamais os homens destas história parece serem capaz de um dia fazer. Porque para Israel Navon e para o advogado Ziad Daud só existe espaço para a disputa, para a queda-de-braço para saber quem é o mais forte. Não importam as “boas intenções” de um ou de outro. Ambos querem provar quem é o “animal dominante”. Ninguém parece capaz de ceder ou de deixar espaço para a compreensão do outro.

Assim parece que este filme acaba sendo “feminista”, não é mesmo? Mas acho que em parte ele realmente é feminista. Porque será que se as guerras fossem decididas por mulheres, existiriam tantas barbáries ou tanta disputa pelo poder? Certo que muitas mulheres hoje em dia querem seguir os mesmos passos dos homens e, assim, assumem os mesmos trejeitos deles. Mas acredito que somos muito mais propensas ao diálogo do que a maioria dos homens. Enfim… o filme não trata exatamente disto, mas também sobre.

Um dos outros grandes temas de Etz Limon é a coragem de algumas pessoas em buscar a Justiça, não importa o preço que elas tenham que pagar nesta busca. Salma, por exemplo, acaba sendo bastante critica e praticamente marginalizada pelos demais palestinos daquela comunidade. Não recebe apoio dos filhos – que estão também em situação de lutar para sobreviver – e nem é ouvida pelas autoridades locais (israelenses, é claro). Mira, por sua parte, nunca apoiou a conduta do marido no que diz respeito à vizinha, mas agiu pouco sobre o tema – exceto pela parte final, belíssima.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O filme tem várias sequencias primorosas, como quando Salma vai regar as árvores que estão definhando ou quando ela resolve enfrentar os “ladrões” que estão buscando os raros limões que ainda perduram para a festa do ministro da Defesa israelense. Mas uma cena especialmente bonita e emocionante é aquela que mostra Mira escapando dos agentes de segurança e indo até a casa de Salma para prestar a sua solidariedade. Lindo, realmente maravilhoso. Este filme tem verdadeiramente momentos deliciosos. Outro que me tocou bastante foi aquele do depoimento de Abu Hussam no Supremo Tribunal. Sua declaração de amor aos limoeiros é algo inesquecível, digno de ser publicado e distribuído em praça pública.

Outro ponto curioso do filme é sobre os interesses que movem as pessoas. Salma luta por continuar o legado que recebeu do pai, valorizando o suor e o sacrifício de um homem que lutou para torná-la uma mulher digna depois que a sua mãe morreu. Além disso, ela luta por seu modo de vida, por aquelas plantas que significam muito mais do que uma herança – são seres vivos, como bem afirma Hussam. Por sua vez, o advogado Ziad Daud é motivado inicialmente pela beleza e pela força desta mulher – até acredito que em algum momento ele realmente se apaixonou por ela. Mas, mais que isso, ele é um homem ambicioso e vê neste caso um trampolim para sua vida depois que ele volta da Rússia.

Enquanto isso, o ministro da Defesa Israel Navon encara a situação como uma pedra no seu sapato. Inicialmente, ele vê no campo de limões uma paisagem qualquer que, se o serviço secreto acredita que pode ser uma ameaça, ele deve ser destruído. Quando o tema vai parar na Justiça e, em um segundo momento, vira assunto para a imprensa (inclusive mundial), Navon encara a briga como uma questão de honra. Afinal, ele não pode voltar atrás em um assunto que envolve uma palestina. E não importa se com isso ele se contradiz – maravilhosa a cena em que Mira observa o marido fazendo uma declaração sobre a defesa de oliveiras. O importante é que ele se mantenha firme em suas decisões, não importando o quanto absurdas elas possam ser. Verdadeiramente repugnante.

Não vou falar sobre o final do filme… porque nunca sei quando os meus queridos leitores lêem os SPOILERS mesmo eu avisando para não fazerem isso. hehehehehehehehe. O que eu posso adiantar é que poucas vezes eu vi um final tão emblemático e tão bem sacado. Ele mostra o quão absurdo pode ser o uso de viseiras. O quão absurdo pode ser a cegueira dos extremistas (e que, normalmente, se dizem vítimas da sociedade ou de algum outro grupo). O final é de matar, ao mesmo tempo que é uma das declarações mais bonitas dos últimos tempos sobre como o ser humano é capaz de errar feio e, ainda assim, seguir adiante. Não importar a que custo. Certo que existem dois lados daquele muro e que um deles pode ainda ser muito feliz. Mas tudo que eu vejo ali é um campo desolado. 

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Etz Limon foi filmado, como ele mesmo deixa claro no início da projeção, na fronteira entre Israel e a Cisjordânia. Sei que a questão de palestinos e israelenses é muito complicada e coisa e tal, mas sinceramente? Estava mais que na hora dos benditos israelenses admitirem que os palestinos tem direito a um território só deles. Neste link da Wikipédia que conta a história da Cisjordânia e de toda aquela região, por exemplo, fica claro que a supremacia monetária e de armamentos de Israel acabou por massacrar os palestinos até agora. E me desculpem a inocência, mas duvido que os ataques contra Israel não diminuiriam radicalmente ou até terminariam se finalmente fosse criado o Estado Palestino como foi determinado pelas Nações Unidas.

O grande mérito deste filme é do brilhante diretor Eran Riklis, que antes havia filmado a The Syrian Bride – muito bom, também. Ele escreveu o roteiro de Etz Limon junto com Suha Arraf e declarou, no material de divulgação do filme, que considera esta sua nova produção como “um passo à frente” no que diz respeito as suas visões sobre aquela parte do mundo. Além do trabalho de Riklis, gostei muito do desempenho do diretor de fotografia Rainer Klausmann. Verdadeiramente maravilhosa a fotografia do filme. 

Segundo uma nota de Eran Riklis no material de divulgação de Etz Limon, o território da Cisjordânia parece estar constantemente em mudança, mas talvez não seja assim. “Esperança, otimismo, pessimismo, avanços, novos horizontes, um novo dia, o futuro, o passado – todas essas palavras são usadas frequentemente para descrever a situação em uma região que já viu de tudo”, ele comenta, para depois complementar que as árvores neste cenário são testemunhas mudas do que a Humanidade anda fazendo. E para mudar ainda mais a ótica do que é contado sobre aquela parte do mundo, ele escolheu limoeiros no lugar das oliveiras, que normalmente são vistas como as árvores daquela região. “(…) essa história fala de uns limoeiros que são considerados uma ameaça para a segurança nacional, algo que os limoeiros não estão acostumados…”. Seriam aquelas árvores o símbolo das pessoas comuns? Eis uma boa questão sem uma resposta clara (ainda bem).

O diretor ainda comenta que pensava ter saciado o seu desejo de falar sobre a loucura que acontece na Cisjordânia com seu filme anterior até que ele percebeu que aquelas questões continuavam a assombrá-lo. Foi então que Riklis decidiu escrever a história da guerra particular de Salma. Ele acredita que este filme “possivelmente acaba com todos os (demais) filmes” no que diz respeito as opiniões dele sobre o tema – ainda que ele não goste de dizer que nunca mais poderá tratar do assunto. Mas, de fato, parece que Etz Limon lhe “desafogou” por um bom tempo. 

Como o diretor e roteirista comenta em seu depoimento no material de divulgação de Etz Limon, por mais que sua declaração anterior pareça pretensiosa, seu filme realmente conta uma história simples. Trata-se de um conto sobre pessoas que combatem por questões que elas acreditam ser importantes enquanto tudo poderia ser resolvido de uma forma simples e calmamente se estes indivíduos apenas “escutassem uns aos outros”. “Mas as expectativas, por muito simples que sejam, sempre são difíceis de cumprir, como já se pode ver em muitas regiões do mundo. Além disso, nessa região em especial, elas se vêm aumentadas pelo peso da história, do sangue, da religião e de outros assuntos eternos que não ajudam as coisas a serem mais simples…”.

Achei curioso que o diretor comenta que, apesar do respeito que ele tem aos temas que comentou antes, seu filme realmenta trata da solidão daquelas duas mulheres… que bacana! E olha que eu li a “carta” dele só depois de escrever o meu texto. ;) Com isso acho que posso dizer que entendi o filme. hehehehehe. Mas fora a brincadeira, o que eu achei legal da declaração dele é que ele diz que a solidão delas é individual e que representa, ao mesmo tempo, a solidão daqueles dois países que elas representam. Bacana.

A idéia de um novo filme sobre a questão palestina e israelense surgiu para o diretor logo depois que ele terminou The Syrian Bride. Riklis disse que tinha claro que queria fazer outro filme com Hiam Abbass, desta vez como protagonista, e de que precisava ir mais fundo no conflito entre aqueles dois povos – lembrando que ele é israelense. Foi aí que ele começou a buscar histórias de palestinos que haviam levado o Estado de Israel para os tribunais. Para ele, ao mesmo tempo que existe esta idéia de “justiça” pelo fato de que os palestinos podem questionar Israel em seu Supremo Tribunal, existe uma profunda sensação de injustiça depois de tantos anos de ocupação israelense. “Os dois lados fizeram coisas deploráveis, nada é preto ou branco, mas a história de uns limoeiros que se transformaram em ameaça para a segurança nacional apenas porque tiveram a má sorte de estar ao lado da casa da pessoa encarregada de dita segurança, me pareceu o marco perfeito para o que eu queria contar”, comentou o diretor.

O filme é uma co-produção de Israel, da Alemanha e da França, e é falado em árabe, hebraico e inglês. 

O elenco em geral está fantástico. Gostei de todos os atores principais, especialmente das magníficas Hiam Abbass e Rona Lipaz-Michael. Além de mulheres belíssimas, elas tem uma força de expressão e uma interpretação especiais. Ali Suliman também mostrou carisma e talento. Tarik Kopty aparece pouco, mas arrasa em cada momento de interpretação. Também vale citar o trabalho de Amos Lavi como o comandante Jacob; de Amnon Wolf como Leibowitz; de Smadar Jaaron como Tamar Gera; de Danny Leshman como o soldado Itamar, chamado pelo apelido de Quickie; de Makram Khoury como Abu Kamal, o líder palestino local; e de Ayelet Robinson como Shelly, uma suspeita secretária do ministro (suspeita de ser sua amante).

Etz Limon conseguiu uma nota razoável no site IMDb: 7,2. Na opinião dos críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes o filme recebeu uma aprovação de 88% – motivando 14 textos favoráveis e dois negativos. Em sua trajetória o filme recebeu dois prêmios e foi indicado a outros oito. Ele garantiu o prêmio de melhor atriz para Hiam Abbass conferido pela Academia de Cinema de Israel e o prêmio Panorama dado pela audiência do Festival de Berlim do ano passado.

CONCLUSÃO: Um filme sobre uma história simples que ganha proporções bastante profundas conforme vai esmiuçando a relação conturbada entre palestinos e israelenses em uma região de conflito. Ainda que Etz Limon não mostre nenhum ataque ou violência, ele trata dos absurdos de uma disputa que parece não ter fim – mas que deixa marcas na vida de pessoas comuns. Além de uma história sobre as diferenças entre os dois povos, ele trata, essencialmente, sobre a solidão e sobre valores que acabam unindo (mais do que separando) as pessoas. Entre eles, a busca pela Justiça e pela dignidade. O filme se destaca também pela importância que ele dá a Natureza como testemunha dos passos em falso dos homens pensantes. Uma história simples e bastante complexa ao mesmo tempo, com uma fotografia e uma direção de primeira linha, assim como atuações bastente convincentes.

Lat Den Rätte Komma In – Let the Right One In – Deixe Ela Entrar

11 de fevereiro de 2009 11 comentários

 

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Esqueça o charme dos vampiros de outrora. A imagem de Brad Pitt e de Tom Cruise em Interview with the Vampire ou do Dracula de Bram Stoker na versão de Francis Ford Coppola. Um dos filmes sobre vampiros mais elogiado – com razão – dos últimos tempos mostra o desafio de uma garota com aparência de 12 anos para sobreviver nos dias atuais, em um local tão rude para se viver no Inverno como pode ser a Suécia. Neve por todos os lados e uma frieza no trato da juventude que está mais interessada em brigar com os estranhos do que em entendê-los. Esta é parte da realidade de Låt den Rätte Komma In (Let the Right One In para o mercado internacional), um filme de terror de primeira sobre como seria a realidade de uma jovem vampira na sociedade em que vivemos.

A HISTÓRIA: Oskar (Kåre Hedebrant) tem 12 anos e está vivendo o que acreditar ser uma das piores fases de sua tenra vida. Como todos sabem, crianças e jovens podem ser bem cruéis… e no meio desta “crueldade” vive Oskar, que se tornou o saco de pancadas e de chacotas de Conny (Patrik Rydmark) e seu grupo de amigos/comparsas. A vida de Oskar parece gris e sem amizades, restrita apenas aos pais separados e a um álbum com recortes de jornais sobre crimes até que aparece na vizinhança Eli (Lina Leandersson), uma garota tão “estranha” quanto ele. Os dois se familiarizam logo de cara, mas ela vai logo avisando que eles não podem ser amigos. A razão é muito simples (ainda que ela não lhe revele este fato assim, facilmente): Eli é uma vampira.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lat Den Rätte Komma In): Certamente boa parte das pessoas que estão lendo este texto lembraram ou estão fazendo uma comparação dele com Twilight, o filme-sensação de 2008. Quero dizer logo de cara que ainda (reafirmo: ainda) não assisti a Twilight – mas ele está na minha lista para ser visto. Sendo assim, não posso comparar os dois, mesmo sabendo que Twilight seria uns “passos seguintes” a Lat Den Rätte Komma In – pelo menos no que se refere a idade dos protagonistas. Só que mesmo sem assistir a Twilight, algo me diz que ele é mais uma “história de amor” padrão do que o filme sueco dirigido por Tomas Alfredson.

Lat Den Rätte Komma In não tem nada de Hollywood. Pelo contrário. Ele é o avesso dos filmes hollywoodianos que, normalmente, não suportam o silêncio – já notaram que sempre alguém precisa estar falando ou algo precisa estar acontecendo em uma história hollywoodiana, com algumas exceções? Ele segue o “filão” europeu e não tem pudor algum em mostrar personagens “estranhos”, deslocados em suas realidades. Aliás, essa característica é fundamental para que Oskar e Eli se reconheçam logo no início – e cada vez mais. Afinal, os dois são “estranhos” naquela realidade. E nada como o reconhecimento mútuo de marginalizados para unir duas pessoas.

Mesmo se unindo, contudo, fica difícil para Eli contar a Oskar sobre sua verdadeira natureza. Afinal, como alguém hoje em dia admite para outro que é um vampiro e que precisa de sangue humano para sobreviver? Digamos que seria algo realmente sinistro para se confidenciar… ;) (SPOILER – não leia se não assistiu ao filme). Pois apenas perto do final Oskar acaba realmente descobrindo, por lógica, que a sua primeira namorada e amiga não é exatamente igual a ele como ele imaginava. Ainda assim, Eli acaba mostrando como, na essência, eles são mais parecidos do que alguns gostariam de admitir – e que por um “controle social” talvez ele não atuasse como ela. Nesta parte o filme abre uma pergunta interessante: quem pode ser considerado um monstro atualmente? Os que praticam um ato reprovado socialmente por necessidade ou por puro prazer? Se matasse fosse necessário para a sobrevivência de alguém, isso seria mais legítimo do que matar pelo desejo de vingar-se? Basta olhar para as leis de vários países para saber a resposta. O que não deixa de ser curioso.

Para muitos, o grande mérito de Lat Den Rätte Komma In é o de mostrar a vida “real” de uma vampira pré-adolescente, com todos seus problemas e pequenas alegrias. Realmente o filme se diferencia dos demais justamente por isso. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Para mim, um dos “dilemas” mais fortes da produção é vivido por Håkan (Per Ragnar), o pai de Eli. Ele ao mesmo tempo sente a responsabilidade de ajudar a filha e a aflição por ter que, para isso, matar pessoas. Não sei ao certo se ele é desastrado por natureza ou se, cansado daquela vida de fugas e de crimes sem chegar a  uma solução para o “problema” (porque ele simplesmente não tem solução), ele simplesmente “dá mole” para ser pego. Acredito que seria mais o caso da segunda opção. As cenas dele atacando jovens para conseguir o sangue que a filha precisa é de matar – algumas das mais fortes e angustiantes do filme. Realmente muito boas.

Aliás, vou avisando aos que tem um certo problema em ver sangue que este filme não chega a ser uma carnificina vampiresca, como outros do gênero, mas que ele também não evita a cor vermelha sobre o branco do gelo daquela paisagem. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). E se Håkan é bastante desastroso como provedor da “comida” em casa para a filha, ela mesma tem que partir para o ataque. E dá-lhe mais sangue quando ela parte para cima de Jocke (Mikael Rahm), um dos moradores mais queridos da vizinhança. Como parece ser inevitável, a morte de Jocke desperta muita atenção na comunidade local e, claro, coloca em risco Eli e sua condição vampiresca. 

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei do filme tanto pelo ritmo dele – sem pressas ou “fogos de artifício” -, garantido bastante pela direção “naturalista” de Alfredson, quanto pelo roteiro cheio de questionamentos de John Ajvide Lindqvist. O roteirista, aliás, fez com este filme a adaptação de sua obra homônima. Outro fator importantíssimo no filme acaba sendo a trilha sonora de Johan Söderqvist e a direção de fotografia de Hoyte Van Hoytema.

Os atores em geral estão muito bem – especialmente o trio de protagonistas, os jovens atores que interpretam Eli e Oskar (que conseguem um tom naturalmente estranho para seus personagens nada fácil de conseguir) e o veterano ator que interpreta o pai da vampira. Além deles, vale destacar o trabalho de Peter Carlberg como Lacke, o amigo de Jocke que fica inconsolável depois da morte misteriosa do colega de bebedeiras; o de Ika Nord como Virginia (ou apenas “Ginia”), a namorada de Lacke que acaba sendo mordida e infectada por Eli; e de Karl-Robert Lindgren como Gösta, o homem que vive solitário com seus vários gatos e que acaba sendo testemunha ocular dos acontecimentos estranhos que passam a assolar a vizinhança. Os três realmente fazem um trabalho incrível. Vale citar como uma das cenas mais “porreta” do filme o ataque dos gatos de Gösta contra Ginia… me lembrou os melhores filmes B – ou até mesmo The Birds, do mestre Alfred Hitchcock. Realmente excelente. ;) Chocante também o “desfecho” dela no hospital. Grandes momentos do filme.

Lat Den Rätte Komma In arrasou no ano passado pela avaliação dos críticos. Até agora o filme acumulou 23 prêmios – além de ter sido indicado a outros três. Entre eles, se destacam quatro prêmios conferidos pelo Fant-Asia Festival: de melhor filme, diretor, fotografia e ainda o de melhor filme na categoria que premia produções do Norte europeu/da América do Sul. Ele levou para casa ainda o prêmio da audiência para o melhor filme no Toronto After Dark Film Festival; o de melhor narrativa no importante Tribeca Film Festival; na mesma categoria pelo opinião da audiência no Woodstock Film Festival, entre outros prêmios em festivais e por diferentes associações de críticos. 

Aparentemente o público também gostou do filme. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 8,2 para ele. O site Rotten Tomatoes, que divulga críticas de diferentes jornalistas e especialistas dos Estados Unidos e de outros países e que serve de “termômetro” para o que “a crítica” pensa dos filmes, fez reverências para Lat Den Rätte Komma In. Em sua premiação anual, o Rotten Tomatoes conferiu o terceiro lugar para a produção sueca na categoria de filmes estrangeiros – e ainda o sexto lugar no ranking dos filmes “limited release” (ou seja, que tiveram sua estréia nos cinemas dos States limitada a 500 cópias ou menos). Lat Den Rätte Komma In conseguiu uma aprovação de 97% entre os críticos que publicam seus textos no site – ou seja, ele recebeu 98 críticas positivas e apenas três negativas.

Segundo as notas de produção do filme, o diretor se apaixonou pelo livro de Lindqvists em um certo Verão e decidiu que deveria filmá-lo – história similiar a de quase todas as adaptações de um livro para o cinema. Tomas Alfredson chega a comparar Lindqvists com Charles Dickens, ao afirmar que percebe na obra do primeiro a mesma dinâmica entre um pano-de-fundo obscuro e um primeiro plano luminoso que caracterizou o trabalho do segundo. Interessante comparação – ainda que, admito, não conheço Dickens o suficiente para afirmar se ele está certo ou não.

Já o escritor e roteirista elogiado pelo diretor comenta que sua obra fala sobre a capacidade do amor tirar alguém das sombras. Ele complementa: “(a história é) sobre alguém que está por baixo e repentinamente é resgatado por uma mão que lhe auxilia. Uma mão de ajuda totalmente inesperada”. Provavelmente ele se refere aos dois personagens, Oskar e Eli – afinal, ambos são “milagrosamente” resgatados.

Lindqvist também ressalta o título de sua obra e, por consequência, do filme: “O título toca em uma questão que eu acredito ser a mais interessante em se tratando do aspecto moral dos vampiros. Eles precisam ser convidados para estar com você…”. O autor comenta ainda que seu trabalho é uma tentativa, mais que nada, de descrever como as pessoas reagem quando enfrentam o Desconhecido. “Nossa realidade é mutável e frágil. Nós vivemos nossas vidas buscando a felicidade. E ao mesmo tempo… uma vaga sensação de que tudo pode ser tirado de nós, a qualquer momento. Um véu muito fino nos separa da queda, do monstro, da treva definitiva. Ou do amor. Do Desconhecido.  O que acontece quando isso entra nas nossas vidas? O que nós fazemos?”. Fiz questão de reproduzir literalmente o que ele falou porque me pareceram questionamentos muito interessantes – inclusive pelo que o filme nos mostra.

Até ler as notas de produção eu não havia me dado conta que a história de Lat Den Rätte Komma In se passava no subúrbio de Blackeberg, em Estocolmo, no ano de 1982. O livro de Lindqvist foi publicado inicialmente em 2004. O autor, até lançar esta obra e vê-la entrar na lista de bestsellers de seu país, vinha da carreira de comediante, mágico e escritor de roteiros para a TV.

CONCLUSÃO: Um filme europeu sobre uma vampira pré-adolescente que se debruça sobre o cotidiano do que seria a vida de uma criatura que depende de sangue humano na nossa sociedade atual. Bem dirigido, com uma fotografia e uma trilha sonora de primeira, Lat Den Rätte Komma In ajuda a reinventar o gênero do terror com vampiros ao tratá-los sem glamour ou romantismo. Nesta história, a frágil/forte garota vampira que vive sozinha com o pai em um ciclo nômade acaba sendo tratada como mais um indivíduo em busca da sobrevivência – como todos os demais humanos que a circundam. Seres “imortais” e fascinantes, os vampiros aqui se tornam mais “mortais” e solitários do que nunca. Um grande filme, com várias leituras possíveis. Indicado – pela quantidade razoável de sangue que mostra – para os fãs do gênero.

Taken – Busca Implacável

7 de fevereiro de 2009 6 comentários

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Toda vez que um filme começa com uma cena antiga de uma festa infantil, é batata: algo de ruim vai acontecer. Não existe outra possibilidade, vamos! Então Taken começa desta forma, óbvia e previsível. E o que nos resta é esperar a hora em que acontecerá algo de ruim com aquela inocente menininha do passado – agora uma adolescente que está perto de completar 18 anos. E, ainda que tenha essa idade, ela continua sendo tratada como a “menininha do papai”, interpretado aqui por um Liam Neeson da pesada. O filme acaba sendo interessante pelo ator e por algumas cenas de ação, mas no demais, é muito óbvio para o meu gosto.

A HISTÓRIA: Bryan Mills (o irlandês Liam Neeson) é o típico homem que dedicou a sua vida à profissão e, lá pelas tantas, descobriu que não consegue manter uma relação próxima com a ex-mulher e, principalmente, a filha do casal. Agora aposentado – antes ele trabalhava para o governo em algo parecido com a espionagem -, ele resolve se aproximar da filha, Kim (Maggie Grace). Mas para isso ele deve enfrentar uma certa resistência da ex-mulher, Lenore (a holandesa Famke Janssen) e a inevitável competição com o rico homem de negócios que é seu atual marido, Stuart (Xander Berkeley). A aproximação dele com a filha vai de forma regular até o momento em que ela pede uma autorização para viajar com uma amiga para Paris. Bryan cede, mesmo a contragosto, e acaba vendo seus temores se tornarem realidade quando Kim é raptada por um perigoso grupo de albaneses especializados no tráfico de mulheres.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – avisos aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Taken): Admito que os filmes de ação não precisam ser, digamos assim, inovadores. Ou mesmo surpreendentes. Talvez 80% deles tem como uma de suas características a previsibilidade. Mas, nem por isso, eu me conformo em ver algo tão óbvio quanto este Taken. Aliás, só não dou uma nota mais baixa para ele justamente porque estou analizando-o como um filme de ação. Se fosse para analisá-lo no “conjunto” dos filmes que pululam por aí, eu seria ainda mais cruel na hora de dar-lhe uma nota.

Sabemos que a filha do herói da história passará por maus bocados. Também sabemos que o pai vai conseguir resgatá-la. Mas o que acontece entre um ponto e outro da história é o que me incomodou um pouco neste filme. Afinal, Bryan podia ser um pouquinho menos Rambo, como um dos amigos lhe chamou uma certa hora, não? Certo que Liam Neeson realmente fica muito bem naquela roupa de “cara-que-faz-tudo-pela-filha-e-mata-quem-aparecer-pela-frente”. Suas linhas expresivas um tanto “duras” dão ainda mais legitimidade para o que ele vai fazendo – extermínio puro e simples. Mas ele podia ser menos “intocável” ou um pouco mais aberto a erros… sei lá, cansei já de ver caras durões, intocáveis e exterminadores – acho que esse é um problema de quem já assistiu a muitos filmes.

Taken também tem alguns elementos, aqui e ali, que me pareceram referências um tanto estranhas. Vejamos: é inevitável não lembrar do líder dos zapatistas quando nosso “herói” está no meio dos bandidões perguntando quem é o tal de Marco. Cada um do grupo responde que é Marco, (o que talvez seja) uma alusão ao anonimato que o Subcomandante Marcos, dos zapatistas, sempre pregou em seus textos (“todos somos Marcos”). Certo. Mas o que isso tem a ver exatamente com albaneses que atuam na Europa sequestrando turistas para depois prostituí-las ou vendê-las como uma mercadoria? Não entendi, eu juro.

Aliás, nunca Paris foi tão perigosa quanto em Taken. hehehehehehehehehehe. Certo que existe o tráfico de mulheres na Europa – e em outras partes. Mas alguém realmente acredita que é feito daquela maneira? Não, né? Pois então… uma forçada de barra do roteiro dos senhores Luc Besson (francês) e Robert Mark Kamen (responsável anteriormente pelo péssimo Bandidas). O mesmo assunto foi tratado antes em Trade, mas de maneira um bocado melhor trabalhada. No mais, a direção do francês Pierre Morel é competente, transforma um roteiro fraquinho em algo que não nos cansa tão facilmente. Se dependesse apenas do ritmo do filme, tudo bem. O problema é o recheio – ou, em outras palavras, o roteiro e o argumento. 

O elenco está bem, ainda que ninguém se saia melhor que Liam Neeson. Sempre pensei nele em um papel mais “intelectual”, mas aqui ele prova que pode ser bom na pancadaria. Maggie Grace e Famke Janssen fazem os seus papéis de forma regular, na média, sem grandes rompantes de talento ou de mediocridade – até porque suas personagens não permitiam muito além do que elas fizeram. Do elenco, vale citar ainda Arben Bajraktaraj como Marko; Katie Cassidy como Amanda, a amiga maluquete que leva Kim para Paris; Nicolas Giraud como Peter, o homem que seleciona as vítimas na saída do aeroporto; Nabil Massad em uma aparição relâmpago como o Sheik Raman, o homem que acaba comprando Kim para o seu harém particular; Olivier Rabourdin como Jean-Claude, o negociante de mulheres parisiense; e principalmente Leland Orser como Sam, o amigo do peito de Bryan que acaba lhe fornecendo informações primordiais para que o pai chegue até a filha.

NOTA: 6,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Resolvi começar a “dar um tempo” naquela sequencia de filmes que estão concorrendo ao Oscar. Primeiro porque eu já vi todos os principais. Segundo que os que faltam não me atraem tanto assim – como Vicky Cristina Barcelona e Happy-Go-Lucky, entre outros. Vou assistí-los, claro, mas devagarinho. ;) Aproveito também para começar a ver os filmes todos que eu tenho na minha big lista e, claro, dentre eles, os que os leitores deste blog foram me indicando com o passar do tempo. Passado o Oscar também eu quero ver uma sequência de filmes do país escolhido por vocês, meus bons leitores – aliás, aproveito para incentivá-los a votar!

Algo muito, mas muito estranho nesse filme: Bryan Mills é um cara durão, capaz de matar dezenas de bandidos fuzilados em uma sequência, mas na hora que Peter é amassado por um caminhão, nosso “herói” vira o rosto. Hummmmm… curioso, não? Quer dizer que ele é sensível para acidentes de trânsito? hehehehehehehehe

Se grande parte do filme é previsível – tanto na sequência de fatos quanto em várias das cenas de perseguições e mortes -, devo admitir que um ou outro momento da produção são realmente muito bons. Por exemplo a sequência em que os bandidos invadem o apartamento onde Kim e Amanda estão e a garota começa a narrar tudo para o pai, que lhe ajuda dos Estados Unidos. Vale a pena este momento do filme principalmente no diálogo deles quando ela vai para o quarto e no discurso dele para Marco no final da cena. Também achei bem feita a sequência em que o protagonista contrata um tradutor e coloca uma escuta em um dos integrantes da rede de prostituição – e a subsequente chegada dele no “antro” das prostitutas mantidas como reféns próximas de uma obra. 

Um tema paralelo ao filme é o da espionagem e da contribuição entre as diferentes nacionalidades no trabalho de “vigiar” possíveis inimigos e alvos. Também entra no jogo a corrupção policial – que, convenhamos, não é algo específico de Brasil ou França, certamente existe nos Estados Unidos e em todos os lugares em que a ambição não encontra nos “meios legais” os recursos suficientes de seu desejo.

Taken estreou antes no Brasil e em quase todos os países do mundo – exceto pelos Estados Unidos. O filme chegou apenas no dia 1 de fevereiro para os norte-americanos. E chegou arrasando, conquistando a primeira posição nas bilheterias. Em apenas uma semana ele arrecadou impressionantes US$ 24,7 milhões. Segundo os produtores, Taken custou US$ 30 milhões. Ou seja: vai se pagar rapidinho e começar a lucrar bem.

Até o momento a produção conseguiu uma nota muito boa pela votação dos usuários do site IMDb: 8,0. 

Uma curiosidade: Taken é um filme francês. Pois sim! Isso realmente me surpreendeu. hehehehehehehehehe. Primeiro porque ele tem um elenco essencialmente norte-americano. Depois porque ele literalmente detona a França. ;) O diretor, talvez para fazer as pazes com os conterrâneos, está trabalhando em um projeto chamado From Paris with Love. E outro detalhe: novamente neste filme um espião americano faz estripulias na capital parisiense. Será alguma obsessão do diretor com este tema e essas nacionalidades? Ou vai ver que é o roteiritas… porque From Paris with Love tem roteiro de Luc Besson (mais uma vez).

CONCLUSÃO: Um filme de ação no melhor estilo pai-ausente-que-vê-a-filha-ser-raptada e que acaba fazendo de tudo para resgatá-la. Uma mistura de Charles Bronson, Duro de Matar e algo mais do gênero. Ainda assim, não deixa de ter algumas qualidades, como uma direção competente e um ritmo muito bom de narrativa – ainda que o roteiro seja bem fraco. Simplifica bastante o papel de “bandidos” e de “heróis”, como geralmente os filmes de ação fazem. Tem uma esforçada interpretação de Liam Neeson, que surpreende pelo pique e pela seriedade com que veste a carapuça do personagem. Podia ser um pouco mais original, mas na falta disso, pelo menos é um filme de ação com boas cenas de pancadaria – bem coreografadas e que misturam técnicas utilizadas por Bruce Lee e por militares ingleses e estadunidenses. E se você pensar: “Eu já assisti esse filme antes?”, posso te dizer que sim.

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