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Burn After Reading – Queime Depois de Ler

29 de março de 2009 4 comentários

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Os irmãos cineastas Ethan e Joel Coen não são bem certos da cabeça. Isso eles já comprovaram em mais de um filme de suas carreiras e, novamente, reafirmam esta característica com Burn After Reading. Afinal, hoje em dia, não pode ser muito “certo da cabeça” quem faz um humor ácido, que trata de mortes e da violência como consequências lógicas de uma sociedade desumanizada e que gasta zilhões de dólares a cada ano com espionagem, segurança e formas variadas de controle social. Apenas eles – e alguns outros cineastas atualmente – podem fazer um filme que trate destes temas sem parecerem caricatos ou ridículos. Não. Pelo contrário. Burn After Reading apenas reforça a idéia das pessoas que admiram esta dupla pelo que ela explora visivelmente e, em especial, nas entrelinhas de seus filmes.

A HISTÓRIA: O consultor da CIA Osbourne Cox (John Malkovich) é afastado de seu trabalho e recomendado para um posto “menor” fora da instituição – mas, revoltado com a decisão de seu superior, Palmer Smith (David Rasche), ele resolve dizer adeus definitivamente ao trabalho. Em casa, ele comunica a nova realidade para a mulher, Katie (Tilda Swinton), que fica preocupada com as finanças domésticas. Ao mesmo tempo, farta do marido e querendo assumir o relacionamento com o amante, Harry Pfarrer (George Clooney), ela pensa em pedir o divórcio. Enquanto isso, Osbourne começa a trabalhar em um livro com tons autobiográficos que pretende revelar os bastidores do trabalho de um consultor da CIA. Aconselhada pelo advogado, Katie faz uma cópia dos arquivos do marido que, por acidente, acaba caindo nas mãos de Chad Feldheimer (Brad Pitt) e Linda Litzke (Frances McDormand), empregados de uma academia de ginástica que acabam enxergando no texto de Osbourne Cox uma oportunidade de conseguirem dinheiro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Burn After Reading): Os irmãos Coen são ótimos no que fazem. Não apenas na direção, com a escolha acertada de planos de câmera exatos e pelo talento de guiar os atores pelos caminhos corretos de suas interpretações, mas sobretudo pelo roteiro que eles costumam lapidar com cuidado em cada linha. Burn After Reading, como muitos filmes da dupla, nos apresenta personagens incríveis jogados em situações igualmente peculiares. Quem mais, hoje em dia, conseguiria justificar tantos palavrões falados por minuto por uma figura como John Malkovich do que os Coen? Ou quem conseguiria pensar em um personagem tão irritante e desastrado para o galã George Clooney do que eles? Difícil dizer quem é o melhor neste elenco de astros afinados que assume a pele de personagens cômicos e, ao mesmo tempo, realisticamente incômodos.

Vamos começar falando de John Malkovich e da neura que circula ao redor dos agentes da CIA. Mesmo mal sofrido pelo personagem de George Clooney, que faz parte dos “federais” – ou, mais precisamente, do “U.S. Marshals Service”, que tem um artigo bem esclarecedor sobre como essa agência funciona aqui. Os dois, Malkovich e Clooney, a sua maneira, interpretam personagens enlouquecidos pela segurança – deles próprios e de suas famílias, mais que nada. Poderíamos classificá-los praticamente como neuróticos. No caso de Osbourne Cox, ele está mais interessado na tranquilidade de sua aposentadoria do que em controlar os carros que passam em sua rua. Mais “pavio curto” que Harry Pfarrer, por outro lado, ele não mede as palavras para desqualificar quem ouse afrontá-lo. Poucas vezes vi um ator como John Malkovich proferir tantos palavrões em tão pouco tempo. hehehehehehehehehe. Perfeito em seu papel descontrolado, ele está para tirar o chapéu neste filme. Curioso perceber que, por mais “valentão” que ele possa ser, Osbourne encontra uma queda-de-braço singular na própria casa, na figura da ambiciosa e um tanto “fria” esposa.

E George Clooney… inicialmente fiquei um pouco nervosa com aquele jeito dele irritante. A cena em que Harry Pfarrer se exibe no jantar oferecido pelos Cox, cuspindo comida enquanto fala, é de rachar o bico. Só por esta cena o ator merece aplausos. Mas depois ainda virá mais… como nos outros filmes em que trabalhou com os Coen, Clooney se revela em Burn After Reading. Se fosse analisar apenas esta intepretação, eu diria que o ator francamente topa tudo, deixa o ego para trás e se coloca na pele do personagem. Pena que não é todos os dias que Clooney se entrega assim a um personagem – ou o problema esteja na falta de papéis desta natureza para ele… vai saber. De qualquer forma, além da cena do jantar, a sequência do pavor dele pela invasão de um homem na casa da amante e a mesma reação no parque ao saber da ligação entre Linda e Chad valem o salário milionário do ator – e o tempo que gastamos por vê-lo neste filme.

Mas além de Malkovich e Clooney, o filme conta com uma outra grande interpretação masculina: Brad Pitt como o desmiolado Chad. Dei muitas risada com ele, porque Pitt está simplesmente incrível e perfeito. Outro ator que deixou o ego de lado para interpretar este papel, e sem cair no erro que seria fácil de cometer em uma interpretação do gênero, que é o do estereótipo. Ele e os outros atores comprovam que existe uma diferença clara entre fazer uma comédia e/ou sátira sobre determinadas “idéias préconcebidas” das pessoas e a prática de simplesmente assumir estas idéias como realidade – ou vestir estereótipos. 

As mulheres desta história são as únicas, digamos, mais “plausíveis”. Pelo menos a ambiciosa personagem de Tilda Swinton. A interpretada por Frances McDormand também é um pouco exagerada, a exemplo dos homens da trama, mas nada que não possa ser visto como um exagero crítico. E Burn After Reading é bastante crítico, meus amigos. A sua maneira, os irmãos Coen abrem a artilharia contra a sociedade das aparências, do culto exagerado ao corpo – e não ao intelecto -, na mesma medida em que metralha instituições de “inteligência” como é o caso da CIA e dos U.S. Marshals. Na ótica divertida e exagerada de Joel e Ethan, o culto ao corpo chega ao extremo de justificar crimes e organizações de “inteligência” servem apenas para alimentar neuroses, manias de perseguição e o gasto de recursos e energias para apagar os incêndios que elas mesmas provocam. Não é todos os dias – e nem qualquer diretor – que nos apresentam questionamentos como estes. Palmas para os Coen!

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além das estrelas do filme já citadas, que ocupam grande parte do interesse dos diretores, vale citar o papel secundário vivido pelo ótimo ator Richard Jenkins. Nesta história ele interpreta a Ted Treffon, o chefe apaixonado de Linda e supervisor de Chad na academia. Nesta história ele não tem o protagonismo de The Visitor, por isso ele acaba meio que “desaparecendo” atrás dos atores principais – ainda que ele tenha pelo menos um grande momento nesta história, quando confronta a Osbourne Cox.

Outros atores que participam em papéis secundários: Elizabeth Marvel como Sandy Pfarrer; J.K. Simmons como o superior de Palmer Smith na CIA; Olek Krupa como o russo Krapotkin; e J. R. Horne como o advogado contratado por Katie Cox para o divórcio.

Para quem gostou da fotografia do filme – que é bem feita, mas nada excepcional -, o responsável por ela é Emmanuel Lubezki. A trilha sonora leva a assinatura de Carter Burwell, e a edição, dos irmãos Coen. 

Burn After Reading recebeu a nota 7,3 dos usuários do site IMDb. Achei baixa. Merecia mais – prova disso é a nota que eu dei para o filme. ;) Certo que não precisava tanto, mas acho que pelo menos um 8,5 ele merecia. Os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 161 avaliações positivas e 47 negativas para a produção – o que lhe garantiu uma aprovação de 77%. Melhor que o IMDb.

Para constar: o filme é uma co-produção Estados Unidos, Inglaterra e França. 

Em sua trajetória, Burn After Reading concorreu a nove prêmios – incluindo dois Globos de Ouro -, mas não ganhou nenhum deles.

De bilheteria ele foi bem, obrigado. Mas não tão bem quanto algumas pessoas deveriam imaginar… afinal, esse foi o filme seguinte dos premiados com o Oscar imãos Coen. Mas ele se pagou, pelo menos. Burn After Reading teria custado aproximadamente US$37 milhões e faturou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 60,3 milhões. 

hahahahahahhahahahahahahaha. Agora que reparei um detalhe de um dos cartazes do filme… “Intelligence is relative”. Melhor impossível, vai. Grande sacada – e com duplo sentido, como o filme pede.

CONCLUSÃO: Uma comédia bastante cínica e crítica dos irmãos Ethan e Joel Coen que não poupa ninguém em um raio de quilômetros que abrange agentes secretos da CIA e agências afim e enlouquecidos por academias de ginástica. Diretores, roteiristas e editores desta história lançada depois do quatro vezes premiado com o Oscar No Country for Old Men, os irmãos Coen volta a brincar com os estereótipos vigentes na sociedade sobre diferentes personagens para contar uma história de traição e de disputa, onde o sexo, o dinheiro e o jogo pelo poder dominam o cenário apesar das aparências de futilidade. Uma produção que garante algumas boas risadas ao mesmo tempo em que joga pitadas de ácido em alguns dos produtos mais importantes do atual Estados Unidos da América. Receitado para quem enxerga o que vê e um pouco mais.

Barfuss

27 de março de 2009 Deixe um comentário

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Um filme pode começar bem, muito bem. Um plano-sequência perfeitamente filmado e que capta os pés descalços de uma moça – o que, saberemos depois, simboliza sua necessidade por liberdade e revela a estranha realidade vivida por ela até então. Barfuss tem uma direção de fotografia belíssima e uma trilha sonora muito acertada, assim como um casal de protagonistas bastante carismáticos – e belos. Mas… existe um imenso mas nesta história, e ele se chama roteiro. Mas poderia ser confundido também com direção. A verdade é que estes dois últimos elementos tornam uma história que poderia ser inovadora e bacana em algo muito parecido a um videoclipe e/ou uma história romântica exagerada no tom. 

A HISTÓRIA: Leila (Johanna Wokalek) vive em uma instituição para doentes mentais. Tímida e assustada, ela se mantêm calada nas sessões coletivas coordenadas pela médica Blöchinger (Imogen Kogge). Por seu lado, Nick Keller (Til Schweiger) é o típico ovelha negra da família… demitido de todos os empregos nos últimos anos e parecendo sem rumo, ele é empurrado para a vaga de servente na instituição em que Leila está internada. Esta será a sua última oportunidade, deixa claro o assistente social (que lhe atende. Nick se sai muito mal no primeiro dia de trabalho, mas acaba salvando a vida de Leila, que a partir daí passa a seguir o rapaz recentemente demitido.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Barfuss): O melhor do filme, para mim, é a direção de fotografia de Christof Wahl. Todas as cenas estão embebidas em lentes em tom pastéis e/ou alaranjados, o que torna o filme, ao mesmo tempo, acolhedor e um pouco “envelhecido”. Alguns podem entender como uma “aura irreal” que acompanha a história do iníco até o final – o que eu acho bastante coerente com o roteiro um bocado flutuante. De qualquer forma, para os planos de câmera escolhidos pelo diretor, roteirista e ator Til Schweiger, a direção de fotografia funciona a perfeição.

Aliás, devo admitir que demorou para cair a minha ficha sobre os “cabeças” deste filme. Só agora, ao escrever esta crítica, que reparei que o protagonista bonitão é, também, o diretor e roteirista. Huuuummmmm… Til Schweiger ganhou uns pontos comigo quando eu me dei conta disso. E não porque ele tenha feito um roteiro bacanérrimo. Pelo contrário. O texto escrito por ele, ao lado de Jahn Preuss, Nika von Altenstadt e Stephen Zotnowski é o ponto fraco de Barfuss. E a direção, exceto algumas cenas bastante inspiradas, também não é nada primorosa. Na verdade, o tom “a la videoclipe” do filme é um dos pontos que mais me irritou. Achei a verve pop de Barfuss desnecessária e pobre. A premissa do filme merecia outra levada – e um roteiro poderia ser um pouquino melhor também. Mas a cada dia me convenço mais de que vários roteiristas trabalhando em um mesmo filme, em praticamente todos os casos, resulta em um filme estranho – algumas vezes mal costurado, outras vezes apenas pobre de espírito.

Barfuss é um destes filmes com grande potencial. Tecnicamente bem feito e com uma história que poderia render uma grande produção, ele acaba ficando menor do que o esperado. Fatores que me incomodaram (além dos já citados): algumas “caras e bocas” dos protagonistas, que parecem estar se preocupando mais com o efeito da beleza deles do que com a interpretação. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um exemplo categórico é a sequencia em que Nick é preso. Os closes dele e de Leila, ambos estampando expressões forçadas, lembra um filme de quinta ou uma propaganda de algum produto qualquer. O roteiro, por sua vez, meio que “descamba” depois que Leila foge do hospício. Quem acreditaria, realmente, que Nick levaria a garota até o casamento do irmão, Viktor (Steffen Wink) com sua ex-namorada, Janine (Alexandra Neldel). Ainda que ele quisesse provocar “ciúme” ou qualquer coisa parecida na ex ou no irmão, para isso ele se valeria de uma garota que ele não conhece e que é desequilibrada? Difícel engolir, não?

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas mais difícil de aceitar ainda é a “crise” que ele tem na frente de vários executivos e do padrasto, Heinrich Keller (Michael Mendl), e a declaração que ele faz de que os dias que passou com Leila foram os “melhores da sua vida”. Certo. Então ele viveu vários anos com a ex-namorada que agora se casou com Viktor, teve outras mulheres várias e, justamente com a “louquinha-que-não-usa-sapatos” ele vive os melhores dias de sua vida? Detalhe: em uma viagem com cenas muito bonitas, devo admitir, mas que também se mostra bastante desastrosa. Tudo bem de Leila, que nunca tinha tido um namorado e que por 19 anos ficou prisioneira da própria mãe, falar isso, que teve “os melhores dias” de sua vida ao lado de Nick. Mas ele dizer o mesmo? Ah, não, me desculpem românticos de plantão, mas não dá para engolir. E tudo isso fez o filme perder pontos comigo, porque eu acho que ele não precisa dessa “exagerada” no roteiro, nem de um tom pop-videoclípito permanente para convencer. Menos, como quase sempre, teria valido mais.

Mas fora estes detalhes importantes, o filme é bacaninha. Tem um bom ritmo, belas cenas, um casal de protagonistas bastante simpático e um final, para não desmerecer o restante da história, absurdo e exagerado. (SPOILER – não leia, repito, se você ainda não assistiu ao filme). Em que país do mundo as pessoas fazem compras jogando direto no carrinho legumes e demais produtos que precisam ser pesados? Nenhum, né, meus amigos. Pois é… então Til Schweiger ou um dos outros roteiristas achou engraçada a piada do ovo mas, para mim, ela foi apenas idiota. Menos, meus amigos, menos…

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Agora, independente dos vários defeitos que eu apontei neste filme, algo é preciso admitir: os atores ganham o espectador pelo sorriso. Pelo menos eu, que sou apaixonada por sorrisos, fiquei encantada com Til Schweiger e Johanna Wokalek. 

Gostei de duas participações meio que “especiais” nesta produção – ou, em outras palavras, duas pontas de atores importantes no cenário de filmes alemães: Jürgen Vogel interpretando o “chefe” de Nick no manicômio; e Armin Rohde como Penner. Além deles, gostei da interpretação de Nadja Tiller como a mãe de Nick e de Viktor – ainda que, como a maioria dos personagens desta história, ela também se mostrou compreensiva demais, em um tom bastante irreal. Os rapazes devem gostar da provocadora Sarah Sommer, interpretada por Janine Kunze, uma atriz realmente muito bonita – mas “competitiva” demais nesta história.

Anteriormente eu comentei que Barfuss foi escrito por quatro pessoas, incluindo o diretor. Mas um dos roteiristas, Stephen Zotnowski foi quem teve a idéia original do filme – sobre a qual foi construído o roteiro.

Além da direção de fotografia inspirada, o filme se mostra interessante pela trilha sonora assinada por Max Berghaus, Stefan Hansen e Dirk Reichardt. O tom “modernete” do filme fica por conta de nomes como Dido, com sua “Don’t Leave Home”; Madrugada com “Electric”, e Leonard Cohen com a potente canção “Hallelujah”, interpretada por Ray Garvey.

Imagino que o galã e diretor Til Schweiger deve ter sonhado algumas noites com aquela “reviravolta” e correria automobilística protagonizada por ele… ;)

Na sua época – o filme foi lançado em 2005 -, Barfuss recebeu dois prêmios e foi indicado a outros três. Entre os que levou para casa estão um “Bambi” do Bambi Awards para Til Schweiger e o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante para Alexandra Neldel no austríaco Undine Awards.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para o filme. No Rotten Tomatoes existem apenas dois textos para “Barefoot” – título no mercado internacional -, ambos positivos. 

CONCLUSÃO: Um filme bastante absurdo sobre uma garota que ficou isolada do mundo por 19 anos e um rapaz que não se encaixa nos padrões sociais de homem bem-sucedido. Estes dois “patinhos feios” se encontram e vivem situações impossíveis na vida real, mas que rendem algumas cenas muito bonitas e alguma piada interessante. Exagerado no tom, Barfuss vale pelos intérpretes (que, na maior parte do tempo, estão bem), pela direção de fotografia e pela trilha sonora. Mas exageradamente no estilo videoclipe, deve ser visto como tal, ou seja, para passar o tempo com uma historinha bonitinha. Nada demais.

SUGESTÕES DE LEITORES: Ainda na minha “cruzada” por assistir bons filmes alemães, cheguei a Barfuss através da indicação do leitor Leandro Soares. Este filme foi melhor que o anterior, hein? Melhor que Mein Führer… mas ainda está abaixo dos outros títulos alemães que vi recentemente. Ainda assim, gostei de ter visto. Pelas características que eu citei acima. O próximo da lista – e prometo que não vou demorar muito para terminar com ela – será um filme mais antiguinho, de um dos grandes diretores do cinema alemão. Logo mais falo se o homem acertou a mão ou exagerou na dose. Devo assistir ainda, no máximo, nove títulos alemães, e daí vou partir para a lista de filmes que fui deixando para trás (incluindo outras sugestões de leitores). Vários abraços para quem está acompanhando esta saga alemã. ;)

Be Kind Rewind – Rebobine, Por Favor

19 de março de 2009 9 comentários

 

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Por ironia, assisti duas comédias em seguida. A primeira, comentada há pouco, filmada na Alemanha. E esta segunda, Be Kind Rewind, com direção e roteiro de Michael Gondry, um dos franceses mais badalados de Hollywood – especialmente desde que filmou Eternal Sunshine of the Spotless Mind. Novamente Gondry acerta a mão ao dosificar as piadas em meio a uma forma de direção que funciona, equilibrando inovações narrativas e valorizando o trabalho dos atores. Para alguns, Be Kind Rewind pode ser visto como uma grande homenagem ao cinema como arte e ao antigo jeito de curtir os filmes – levando para a frente das telas uma videolocadora que ainda aluga fitas VHS e que não se importa em preservar em seu acervo filmes que praticamente não tem saída. 

A HISTÓRIA: Elroy Fletcher (Danny Glover) é o proprietário da videolocadora Be Kind Rewind onde, segundo suas histórias, teria vivido o ídolo do jazz Thomas “Gordo” Waller. Localizada na esquina de um antigo prédio, alvo da prefeitura para um projeto de modernização do bairro, a videolocadora é freqüentada por poucos clientes e por Jerry Gerber (Jack Black). Jerry é o melhor amigo de Mike (Mos Def), que cresceu trabalhando para Fletcher na videolocadora e que acaba ficando responsável pelo negócio quando o patrão sai de viagem. Por acidente, Jerry acaba apagando todas as fitas de vídeo da locadora. Para não serem descobertos, Mike e Jerry começam a fazer suas próprias versões dos filmes, o que acaba virando, posteriormente, uma alternativa para que eles não tenham que deixar o prédio.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Be Kind Rewind): A grande qualidade de Be Kind Rewind é a sua criatividade. Quem imaginou um louco como Jerry Gerber sendo eletrocutado em uma tentativa de sabotagem e, depois, apagando todas as fitas de vídeo da locadora cuidada pelo amigo Mike? Demais!!! E melhor ainda a “saída” para o problema… uma nova versão dos filmes para “enganar” as pessoas. Claro que ninguém é idiota e eles percebem que os autores dos filmes são os amigos Mike e Jerry que, aqui outra surpresa, se tornam os ídolos da galera. Muito boa a idéia do diretor e roteirista.

Achei o filme, por tudo isso, uma grande homenagem ao cinema e ao que os filmes nos provocavam antigamente. Sem ser saudosista, Michael Gondry brinca com o prazer que era buscar uma videolocadora antigamente, percorrer as filas das fitas VHS e encontrar alguma produção clássica ou menos conhecida – diferente das locadoras padronizadas de hoje, que tem dezenas de filmes “blockbuster” para alugar e pouquíssimas produções que não sejam de fácil saída no mercado. Como bem constata Fletcher em sua “pesquisa de mercado”, os empregados das locadoras de hoje em dia não precisam entender sobre filmes, ter conhecimento específico. Basta saberem localizar as seções na locadora e cuidar para que o cliente alugue o que ele deseja – nem que para isso seja preciso apenas fazer uma pesquisa no computador da locadora. 

Pode parecer besteira, mas perdi bastante do interesse em ir ao cinema depois que eles todos migraram para shopping centers e para grandes complexos de negócios. Tenho saudades dos cinemas que existiam em prédios específicos, que passavam filmes comerciais mas que, também, exibiam produções não tão óbvias. Mas enfim… temos que nos adequar ao que existe hoje em dia – e nem que essa adaptação passe por transformar nossa casa em cinema e, finalmente, escolher o que queremos ver.

Mas Be Kind Rewind não homenageia apenas aos velhos negócios que apostavam no amor de seus donos e empregados pelo cinema. O filme também mostra a importância do envolvimento das pessoas nas filmagens de uma produção. Literalmente com “uma idéia na cabeça e uma câmera na mão”, Jerry, Mike e Alma (Melonie Diaz) vão convencendo as pessoas a participarem de seus filmes – que acabam virando a nova sensação da cidade. Com uma criatividade e uma memória para lembrar dos filmes – aos quais eles não podem rever antes de fazerem suas “versões” – que beira ao absurdo, eles vão refazendo alguns dos filmes mais famosos da história do cinema. Não importa o gênero e nem o orçamento que resultou na qualidade dos originais. Todos eles rendem uma versão toda especial e que acaba tendo bastante procura entre os espectadores.

Bem filmado e com atores que fazem um trabalho bastante competente, Be Kind Rewind é carismático e, para os amantes do cinema, uma comédia curiosa. Pena que o filme tenha “adaptações” apenas de filmes estadunidenses – não vi nenhuma refilmagem de filmes europeus ou latinos, por exemplo. Mas ok, se entendem as razões para isso… se o filme quer ser reconhecido pelo grande público, ele deve fazer referências a filmes conhecidos mundialmente – e não existe berço melhor para isto do que Hollywood. 

O que me irritou um pouco no filme foi Jack Black e sua eterna interpretação do mesmo personagem. Não importa o filme em que ele esteja, a impressão que eu tenho é que ele está interpretando sempre uma única persona. Enfim… mas ele está engraçado, como sempre – ou seja, nada excepcional. Agora, o bom mesmo foi ver a Danny Glover e a Mia Farrow em cena. Ela interpreta Miss Falewicz, uma antiga amiga de Fletcher que vira a guardiã da videolocadora enquanto o amigo está fora. Gostei destes dois veteranos em papéis que, aparentemente, fizeram eles viverem bons momentos.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para mim, foi inevitável não lembrar do tempo da faculdade, quando eu cheguei a acompanhar um grande amigo, o Fernando, dirigindo alguns de seus curtas. Na época, também criamos um projeto que incentivava as pessoas a criarem seus roteiros e fazerem curtas… foi bem bacana. E a verdade é que para filmar produções bacanas não é preciso muito mais do que criatividade, uma boa idéia na cabeça e vontade de sair filmando. Por esse lado, o filme trouxe boas recordações. Sem contar os clássicos do cinema que ele vai “parodiando/homenageando” no caminho.

Alguns podem achar incrível, mas o filme concorreu a dois prêmios: Melhor Filme no Golden Trailer do prêmio homônimo e Melhor Ator no prêmio Black Reel – mas, no fim das contas, não ganhou nenhum dos dois.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 6,6 para Be Kind Rewind. Quase um empate técnico com a opinião dos críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes: eles dedicaram 82 críticas positivas para o filme, contra 39 críticas negativas (o que lhe garante uma aprovação de 68%).

Achei curioso que a atriz Kirsten Dunst estava negociando o papel de Alma, mas acabou pulando fora do projeto do dia para a noite… acho que ela teria se dado bem com aquela personagem. 

Na questão de faturamento, o filme não foi bem. A produção, que teria custado aproximadamente US$ 20 milhões faturou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 11,1 milhões. Certamente ficou beeeeeem abaixo do esperado pelos produtores. 

Pessoalmente, adorei o termo “sweded” para designar uma “obra feita por encomenda”… algo vindo da Suécia só podia ser artístico, não é mesmo? hehehehehehehehe. Essa foi uma sacada genial. Agora, algo que eu não sabia é que este termo surgiu graças a decisão do governo da Suécia em permitir o livre intercâmbio de arquivos pela internet – o que anda na contracorrente de todas as linhas de “perseguição” à pirataria mundo afora. 

Além dos atores já citados, vale a pena comentar os desempenhos de Irv Gooch como Wilson, um mecânico que acaba virando integrante fundamental nas filmagens “suecadas” dos amigos em apuros; Sigourney Weaver em uma superponta como Ms. Lawson, a mulher que preserva os direitos autorais das grandes companhias e destrói o trabalho do pessoal da Be Kind Rewind; e Chandler Parker como Craig, o sobrinho “perigoso-maloqueiro” de Miss Falewicz.

Da parte técnica do filme, gostei especialmente do trabalho complicadinho da diretora de fotografia Ellen Kuras e da edição equilibrada de Jeff Buchanan. A trilha sonora de Jean-Michel Bernard também merece ser citada.

Certo que o filme pode ser meio sem graça em alguns momentos, mas há de se convir de que ele aproveita uma época genial para ser lançado. Acredito que nunca antes foi tão fácil para as pessoas, com celulares, câmeras de foto e de vídeo baratas e que filmam com qualidade, fazerem suas próprias versões “toscas” de filmes conhecidos. E a prova disto está no Youtube ou em outros sites do gênero. Dizem, inclusive, que Be Kind Rewind reacendeu um hábito que já existia nestes sites, de serem “lançadas” versões caseiras de alguns filmes de Hollywood. Boa sacada do diretor a respeito.

Falando em sacadas, gostei também do título do filme… não sei se todos que lêem este blog são do tempo da fita VHS, mas era engraçado ouvir, às vezes, as reclamações dos proprietários de algumas videolocadoras que ficavam indignados com as pessoas que não rebobinavam os filmes. O problema chegou a tal nível que, lá pelas tantas, eles começaram a cobrar multas de quem não rebobinava. hehehehehehe. Divertidos aqueles tempos. E eu confesso: tenho um verdadeiro acervo de fitas VHS em casa. Eu gosto delas – ainda que faz tempo que não veja a nenhuma. ;)

CONCLUSÃO: Um filme divertido sobre dois amigos que se deparam com um grande pepino nas mãos: manterem o negócio de uma videolocadora sem nenhum filme que preste no acervo. A solução para o problema deles é das mais criativas – e rende momentos de puro deleite para os fãs do cinema, com a “releitura” de alguns dos filmes mais bacanas e/ou famosos produzidos em Hollywood. Belo roteiro que esbarra, algumas vezes, na repetição e em interpretações um tanto “preguiçosas” – como a de Jack Black, que parece interpretar o mesmo personagem filme após filme. Mas no geral, achei uma boa diversão – superior às comédias que tenho visto ultimamente.

Mein Führer: Die Wirklich Wahrste Wahrheit Über Adolf Hitler

18 de março de 2009 2 comentários

 

meinfuhrer41

Eu gosto de filmes de comédia, ainda que eles não sejam o meu forte. Por indicação, cheguei até Mein Führer: Die Wirklich Wahrste Warheit über Adolf Hitler. A produção é uma paródia do 3º Reich e, principalmente, da figura de Adolf Hitler. Até um certo ponto, me pareceu interessante – especialmente no que se refere ao cuidado da produção, com o envolvimento de centenas de figurantes e com uma reconstrução de época importante para a história bastante esmeirada. Mas a qualidades terminam por aí… o protagonista (que não é Hitler, mas Adolf Grünbaum) faz um trabalho muito bom, respeitável, mas os demais atores e, principalmente, o roteiro, são por demais maniqueístas e sofrem de um humor escrachado que roça o lado infantil do espectador. Achei bastante fraquinho, para resumir.

A HISTÓRIA: Dr. Joseph Goebbels (Sylvester Groth) está preocupado com o seu Führer. Em dezembro de 1944, ele tira da cartola um plano ousado que envolve a aproximação de um judeu, o professor Adolf Israel Grünbaum (Ulrich Mühe), com Adolf Hitler (Helge Schneider). A idéia é que Grünbaum retome a energia dos discursos do Führer de 1939 para, novamente, incendiar os alemães – fragilizados com uma guerra que começa a cobrar um preço grande das cidades daquele país.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mein Führer): O filme começa bem. A abertura que mostra Hitler desfilando no dia 1º de janeiro de 1945 até o momento de seu discurso e a apresentação de Adolf Grünbaum – a primeira parte, resgate de filmes originais, a segunda, encenação – foi bastante acertada. Mas a partir daí o filme cai de qualidade. A retirada do judeu que vira alvo de um plano mirabolante de Goebbels se mostra razoável, especialmente na piada sobre a exigência dos famosos formulários para justificar cada uma das ações mais significativas envolvendo o prisioneiro.

O problema começa quando Grünbaum encontra Hitler e os dois começam a se relacionar. Ainda que o ator que interprete o chefe supremo do nazismo seja muito bom, sua caracterização exagerada não esconde a intenção do diretor e roteirista, Dani Levy, em querer ridicularizar aquela figura histórica. Talvez para alguns o recurso funcione, mas para mim, pareceu apenas ridículo. A parte cômica da ridicularização não me atingiu, apenas a outra parte… ;)

Toda a côrte que circula ao redor de Hitler e que acompanha aqueles cinco dias de trabalho do ator tomou, na minha opinião, muito tempo do filme para quase nada. Certo que o diretor/roteirista queria mostrar que Hitler não era o único que mandava por ali e etcétera e tal, mas tanto “controle” nos bastidores acabou não levando a lugar algum, praticamente. Eu cortaria praticamente metade das cenas em que aparecem aqueles militares e ministros de primeira grandeza do regime nazista. E o maniqueísmo chega até a família de Grünbaum, que se mostra bastante valente nos discursos e pouco efetiva na prática – o que segue uma idéia pré-concebida de que os judeus são pouco combativos. 

Enfim… um filme que pretende ser uma grande comédia de erros sobre o sistema nazista, especialmente no que se refere a época de seu crepúsculo, mas que acaba se resumindo a uma série de idéias bastante exploradas sobre os “problemas” familiares e sexuais de Hitler e demais conceitos que tornam os personagens simplórios e pouco complexos. E essa série de idéias acaba sendo repetida pelo roteiro até que elas virem praticamente verdades. Dani Levy explora bastante os “complexos” de Hitler, como a violência da qual ele teria sido vítima quando era criança, provocada por um pai que sempre lhe agrediria – e por uma mãe conivente.

O ditador é mostrado ainda como um homem que tem um certo complexo de perseguição, achando que a qualquer momento ele pode ser vítima de um golpe. A parte de “frustração” amorosa é pouco mostrada, mas quando Hitler aparece com Eva Braun (Katja Riemann) na única sequencia do filme em que os dois aparecem juntos, ele se mostra incapaz de ter uma ereção. Certo. Até chega o “humor” do roteirista. Mas se descontamos essa necessidade gritante de Levy em ridicularizar a Hitler – não entendi, até agora, muito o porquê – o que, convenhamos, é o principal do filme, sobra pouca coisa. Mas o que sobra é a parte da “técnica dramática” de Grünbaum, que desenvolve conceitos interessantes para o “ator” trabalhar com seus sentimentos primários na hora de “encarnar um personagem”. Esta parte do filme vale a pena, assim como a “reconstituição” de uma Berlim destroçada no final da guerra. Mas isso é tudo. O restante é apenas um lixo travestido de comédia.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O grande nome do filme, não há dúvida, é o ator Ulrich Mühe, que ficou conhecido por seu papel no ótimo Das Leben der Anderen. Depois de Mein Führer, o ator contracenou em apenas mais dois filmes e em uma série de TV antes de falecer, no dia 22 de julho de 2007. Grande ator, ele me pareceu o único a não cair em uma interpretação maniqueísta ou simplória neste filme. Para infelicidade dos amantes do cinema, Ulrich Mühe foi vítima de um câncer de estômago que o matou jovem, aos 54 anos de idade.

Além dos atores já citados, vale comentar as atuações de Adriana Altaras como Elsa Grünbaum; Stefan Kurt como Albert Speer; Ulrich Noethen como Heinrich Himmler; Lambert Hamel como Obergruppenführer Rattenhuber; Udo Kroschwald como Martin Bormann; e Ilja Richter como Kurt Gerheim.

Os usuários do site IMDb deram uma nota baixa para o filme: 5,5. Talvez eu empatasse com eles na avaliação. ;) No Rotten Tomatoes existe apenas uma crítica para o filme, e ela é negativa.

A única “sacada” inteligente do filme ocorre quando o amigo de Adolf Grünbaum comenta que eles deveriam encenar a peça Othelo, de William Shakeaspeare, quando eles se encontrassem após a (falsa) libertação dos prisioneiros do campo de concentração onde estavam há poucos dias. A mensagem é clara, porque Othelo trata, basicamente, da fraqueza humana e da ira – a mensagem foi o suficiente para Grünbaum saber que estava sendo enganado.

Em sua trajetória, Mein Führer foi indicado a três prêmios, saindo vencedor de um deles: o de melhor ator para Ulrich Noethen no prêmio da German Film Critics Association

CONCLUSÃO: Uma comédia que mistura o escracho com o drama sobre um plano mirabolante que teria aproximado um famoso ator judeu de Adolf Hitler. Pela reconstrução de época, o filme se mostra bastante competente. Mas o problema está no roteiro e na direção um tanto preguiçosos, que se resumem a tirar sarro de Hitler e de alguns de seus homens de primeira grandeza no comando. Talvez ele pareça engraçado com suas piadas pueris para muita gente, mas para mim, elas não fizeram nem cócegas. Pareceram, apenas, insultantes a uma figura histórica já bastante combatida. Nada mais. Ainda assim, talvez valha ser visto por se tratar de uma das últimas interpretações do grande ator Ulrich Mühe.

SUGESTÕES DE LEITORES: Dentro da série de filmes da Alemanha que estou vendo, motivada pelo resultado da primeira enquete deste blog, assisti a este por indicação do Leandro Soares, que recomendou uma série de filmes bem bacanas. Bem, Leandro, este primeiro eu não gostei muito, mas tenho certeza que tem outros que você indicou e que vou assistindo aos poucos dos quais vou gostar mais. Ainda assim, obrigada pela indicação – ele não estava na minha lista de filmes para ver até então -, especialmente porque pude ver, mais uma vez, Ulrich Mühe em cena.

The Duchess – A Duquesa

15 de março de 2009 9 comentários

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Filmes de época, normalmente, são bacanas. Porque sinalizam um grande investimento – de recurso e de talentos – em reconstruir um tempo que ficou no passado e porque, claro, revelam uma parte da história que nos trouxe até aqui. Sempre acho curioso ver como “vivíamos” tempos atrás – sejam séculos ou décadas. Então, em teoria, filmes assim me agradam – ainda que, admito, eu não sofra de nenhuma fixação que me faça correr atrás de cada título do gênero. Mas acho bacana, no geral. Só que talvez por ter assistido a tantos filmes considerados “de época” até hoje eu, atualmente, exija algo mais. Um pouco mais de qualidade ou de criatividade, pelo menos. E sei lá, acho que ainda tenho na lembrança o comentado por aqui The Other Boleyn Girl… Só sei que assisti a este The Duchess e gostei, certo… mas não cai de amores pelo filme de jeito maneira.

A HISTÓRIA: O Duque de Devonshire (Ralph Fiennes) está buscando uma jovem mulher para lhe dar um herdeiro. Visitando Lady Spencer (Charlotte Rampling) ele se decide pela filha da aristocrata, Georgiana (Keira Knightley). A garota fica empolgada, ainda que, pouco antes, estivesse em um de seus jogos com conotação um tanto amorosa com Charles Grey (Dominic Cooper) e demais integrantes da aristocracia inglesa. Transformada em Duquesa, Georgiana percebe que o marido é rude e nada interessado nela ou nas filhas que o casa vai tendo. Afinal, o “contrato matrimonial” deles previa um garoto, um herdeiro. Para complicar a situação, a Duquesa convida para sua casa Bess Foster (Hayley Atwell), uma aristocrata que foi abandonada pelo marido e que acaba se tornando amiga de Georgiana em uma festa. 

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Duchess): Toda vez que um filme começa com “baseado em uma história real” eu fico com o pezinho atrás. Sei lá… para mim isso é uma senha dos produtores para tentar emocionar as pessoas mais do que o necessário logo de cara. Afinal, cada acontecimento “terrível” que aconteça acaba se tornando muito mais forte porque “realmente aconteceu”. Isso é bem relativo, porque sabemos que a maioria dos filmes “baseados em histórias reais” mudam um pouco essa tal de história real. Então prefiro as produções que não falam isso logo no início, mas no final, por exemplo, como é o caso de Into the Wild.

Então The Duchess começa com essa informação, de que é um filme “baseado em uma história real”. Certo. A partir daí, mergulhamos em parte dos bastidores da vida da aristocracia inglesa do século XVIII, incluindo políticos que circulam ao redor do Duque de Devonshire (neste link existe uma história desta rama familiar). A história é meio óbvia (pelo menos para quem já assistiu a alguns filmes do gênero): existe os interesses dos monarcas e a subjugação das mulheres – ou, em outras palavras, uma diferença brutal entre os direitos de uns e outros; a necessidade proeminente da realeza em continuar com o nome de sua família ou, para resumir, a obrigação da mulher em gerar um filho homem; disputas pelo poder, frieza no trato humano, e demais efeitos que são gerados por estes elementos. Ah, claro que existem traições do monarca e um amor impossível e verdadeiro em jogo. Enfim, aquelas história que estamos tão acostumados a ver.

Para ser franca, o único “acerto”, por assim, dizer, do roteiro de Jeffrey Hatcher, Anders Thomas Jensen e do diretor Saul Dibb foi mostrar um pouco da vida fora da côrte. Acabamos por assistir, ainda que como pano-de-fundo da história, a idolatria do povo daquele época para com os monarcas – seria uma prévia da atual fascinação das pessoas por estrelas de Hollywood, “heróis” dos esportes e celebridades em geral? – e, o que foi mais interessante, parte da criação teatral e dos bastidores políticos da época. Pena que estes três elementos, fascínio do povão pela monarquia, esforço criativo dos autores teatrais e os laços que uniam políticos e monarcas seja tratado de forma tão ligeira pelo filme. Para mim, estes pontos poderiam ter feito da produção algo melhor. Mas enfim…

Vale citar que os três roteiristas se basearam na obra “Georgina, Duchess of Devonshire”, escrita por Amanda Foreman. Aliás, achei curiosa a polêmica que esta autora causou na Inglaterra. Segundo este texto no blog Recanto das Palavras, ela teria posado nua, tampando suas partes “íntimas” com exemplares do livro de Georgina, como uma forma de autopromoção que foi condenada por colegas biógrafos. Vendo a foto, eu diria que o gesto dela foi, no mínimo, ridículo – e despropositado, vamos! Afinal, não seria mais fácil ela posar diretamente para a Playboy? Não precisaria, para isto, ter feito um doutorado ou ter pesquisado para escrever um livro. :)

Ainda que eu tenha achado o filme fraquinho, ele é muito bem feito, claro. Tem uma direção de fotografia, figurinos e direção de arte impecáveis. Como 99,9% dos filmes de época, convenhamos. ;) Ainda assim, vale citar o trabalho do húngaro Gyula Pados na fotografia, de Michael O’Connor nos figurinos e de Karen Wakefield na direção de arte. O’Connor, aliás, ganhou merecidamente o Oscar deste ano por seu trabalho. Ainda assim, de todos os elementos técnicos, o que eu acho que verdadeiramente se  vê em evidência por sua qualidade (além dos figurinos) é a trilha sonora, assinada por Rachel Portman. Achei ela belíssima, além de um elemento importantíssimo para a história – como deve ser uma trilha sonora. Grande trabalho de Portman.

No mais, os atores estão bem. Keira Knightley é (e está) belíssima. E dá conta do recado, com bastante coerência. Ralph Fiennes, Charlotte Rampling e Dominic Cooper também fazem seus papéis de forma ajustada. Para mim, se destacou mais que eles – em um empate com Keira Knightley – a atriz Hayley Atwell. As duas chegam um passo à frente de seus colegas de cena, ainda que ninguém faça nada excepcional. Ouvi em alguma parte burburinhos de pessoas que acreditavam que Ralph Fiennes merecia uma indicação ao Oscar pelo seu desempenho como o Duque deste filme. Não acho. Ele está bem, mas não para receber um prêmio – e nem ser indicado ao Oscar.

Sobre a história, convenhamos que era mais que previsível que Georgina se casasse com um duque nada amoroso, mais chegado em ser bacana com as amantes do que ela – afinal, ela era sua mulher, feita para procriar e não para ter ou dar prazer – e mais afetuoso com os cães do que com pessoas. Neste cenário, até que ela soube se fazer bastante presente, em uma época em que a mulher não tinha voz e nem voto. Em tempos modernos, ela seria o que muitos chamam de uma “mulher à frente do seu tempo”. Quer dizer, até certa medida. Porque ela leva para casa uma mulher que certamente viraria amante do marido – e, por mais que o filme sugira o contrário, tenho minhas dúvidas se ela não fez isso propositalmente para ser menos “procurada” na cama pelo duque. Então, honestamente, não sei até que ponto ela realmente gostava do amante e queria viver uma vida alternativa com ele. Talvez a Duquesa soubesse de seu poder e gostasse dos seus seguidores mais do que de uma liberdade idealizada. 

E antes que me esqueça de falar sobre isso (mais uma vez, porque esta é a segunda atualização do texto): achei especialmente emblemática a cena em que o Duque olha para os filhos, brincando no jardim do palácio da família, e comenta de como seria bom ter aquela liberdade. Para mim, essa cena quer dizer muita coisa. Imagino que ele pensou o mesmo de Georgina, quando a viu pela janela “brincando” com damas e cavalheiros da nobreza, e sentiu um bocado de inveja daquilo. Na impossibilidade de viver algo assim, ele quis ter parte daquilo para ele – uma juventude que ele não tinha mais. E, de quebra, ele cuidou de terminar com a liberdade e aquele prazer de jogar que a esposa tinha até então. Egoísta e ridículo, ainda que igualmente vítima de um sistema de castas e de poder absurdo e que não deveria existir em tempos modernos – mas que ainda é preservado em locais como Espanha e Inglaterra, onde perdura a monarquia.

NOTA: 6,5. 

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como acontece com muitos filmes de época, especialmente sobre a nobreza, os personagens em tela aparecem um bocado “suavizados”. Afinal, aparentemente, “vende mais” ou dá melhor ibope as boas e velhas histórias de amor do que uma produção que tente tocar um pouco mais fundo nos bastidores da nobreza. No caso de Georgina, por exemplo, existe uma teoria de que ela seria bem mais “liberal” do que a imagem que aparece no filme. Envolvida com artistas e políticos – influente por isso e por seu estilo, que verdadeiramente inspirava as mulheres na época -, ela foi tema de muitos pintores e desenhistas da época. Um deles, Thomas Rowlandson, segundo este artigo da Wikipedia, teria desenhado uma sátira da Duquesa em que ela trocava beijos por votos nas eleições de 1784, com a finalidade de eleger Charles James Fox – que viria a se seu amante. Possivelmente ela fosse mais classuda e, ao mesmo tempo, mais “libertina” do que a imagem que o diretor Saul Dibb nos apresenta em The Duchess.

O diretor, aliás, é um bocado “novato”. The Duchess é o seu segundo filme nos cinemas. Ele dirigiu em 2004 a Bullet Boy, um drama inglês sobre a bandidagem na Londres moderna. Além de Bullet Boy, ele se envolveu, até agora, em dois projetos para a TV. Nada mais. 

Até agora, a produção ganhou quatro prêmios – incluindo o Oscar mencionado para o figurino – e recebeu outras 14 indicações. Todos os prêmios que recebeu, sem exceção, foram para o trabalho de Michael O’Connor. 

Os usuários do site IMDb foram um pouco mais generosos do que eu com o filme… lhe dedicaram a nota 7. Os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes, por sua vez, publicaram 92 críticas positivas e 62 negativas para a produção, o que lhe garantiu 60% de aprovação. Totalmente sem querer, mas acabei ficando no meio termo entre público e crítica. hehehehehehehehe. Pior que, logo que terminei de ver o filme, veio a nota 7 ou 6,5 na minha cabeça, mas preferi a segunda ao relembrar a avaliação que eu tinha feito de The Other Boleyn Girl. Não tenho dúvidas que gostei mais daquele filme do que deste – assim como apreciei mais o trabalho de Natalie Portman do que de Keira Knightley, ainda que a segunda tenha uma presença muito maior em termos de “realeza” e, quem sabe, de beleza mesmo. Mas o que me interessa é o talento.

The Duchess é uma co-produção entre Inglaterra, Itália e França.

Mas para não dizer que o filme é completamente previsível, admito que me surpreendi um pouco com a reação do Duque lá pelas tantas. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Afinal, não era todo nobre da época que admitia uma traição. Acredito que o mais previsível seria esperar que ele matasse o oponente ou a mulher, para ficar com a amante, mas não… William Cavendish até aceita que Georgiana tenha uma filha bastarda do amante. Incrível, eu diria. Mais um sinal de que a mulher deveria ser muito porreta naquela época – para ter tanta moral de se manter viva mesmo com essa “pisada na bola”. No fundo, acho que ela deveria merecer uma interpretação menos calcada na beleza e mais na perspicácia – quem sabe uma Cate Blanchett ou outra atriz desta envergadura?

E não sei se toda a mulher teria a resposta certeira que teve Georgiana. Não sou mãe ainda, admito que isso possa afetar meu julgamento… mas será mesmo que eu preferiria abrir mão do amor da minha vida para ficar em uma história infeliz por causa de meus três filhos? Provavelmente sim, mas não sei… é um preço bem alto para se pagar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Também achei a “química” entre Knightley e Atwell forte desde a primeira vez que elas se encontram. Até aquela cena no quarto. Daí pensei: “Uau, vamos partir para algo novo! Uma relação bissexual durante a inglaterra de três séculos atrás…”. Mas que nada! Foi apenas uma sugestão besta no meio do filme. Que pena. ;)

Agora, fiquei especialmente indignada ao pesquisar um trailer do filme para colocar aqui no blog quando encontrei uma versão de trailer que foi veiculada na Inglaterra para promover o filme. Neste trailer – que me recusei a linkar por aqui, é claro -, os produtores comparam a “heroína” de The Duchess com a Lady Di… ah, me poupem, vai!!! A que ponto chegamos…

CONCLUSÃO: Um filme bem acabado sobre a aristocracia inglesa do século XVIII. Como praticamente todos os filmes do gênero, ele apresenta uma fotografia, um figurino, uma direção de arte e uma trilha sonora perfeitos e primorosos, mas sofre com pouca inventividade. Deixa de ousar, como muitos filmes sobre aquele cenário, apresentando a mesma história de subjugação feminina, abusos de poder, traições e jogos de interesses. Poderia ter se aprofundado mais em outros aspectos da história da duquesa, como seu envolvimento com a jogatina, os artistas e os políticos da época. Resumindo, é bem feito, tem atuações convincentes, mas deixa a desejar no roteiro e em uma exploração mais aprofundada dos personagens. Deve cair bem no gosto dos fãs dos atores e atrizes.

Das Leben ist Eine Baustelle – A Vida é um Canteiro de Obras

14 de março de 2009 1 comentário

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O diretor Wolfgang Becker é um dos grandes nomes do cinema alemão moderno. Ele ficou conhecido pelo filme Good Bye Lenin!, que realmente é muito bom e eu recomendo. Mas, até agora, acredito que este filme era o único que eu tinha assistido do diretor. Pois resolvi ver algo mais antigo dele… foi aí que cheguei a este Das Leben ist Eine Baustelle, que no Brasil recebeu o legítimo nome de A Vida é um Canteiro de Obras. Pelo título, podemos presumir uma das mensagens desta produção de 1997 – lançada cinco anos antes de Good Bye Lenin! O filme se mostra interessante, tocando em temas como o problema das pessoas em se comprometerem e o medo da Aids em uma sociedade movimentada pelo rock’n roll e pelas manifestações de rua. E de quebra, ele apresenta uma história de amor acidentada com um duo de atores bastante carismáticos – Jürgen Vogel e Christiane Paul, que voltariam a fazer um casal no recentemente comentado Die Welle.

A HISTÓRIA: A polícia entra em confronto com manifestantes nas ruas de Berlim no mesmo instante em que Jan Nebel (Jürgen Vogel) tenta transar com Sylvia (Andrea Sawatzki), uma mulher que, junto com a irmã dele, Lilo (Martina Gedeck) promove “festinhas” sensuais. Ele não consegue nada naquela noite e volta para casa frustrado, quando leva um esbarrão de uma garota que está fugindo da polícia. Sem saber, ele agride os policiais e foge com ela, mas termina sendo preso. Depois de faltar no trabalho alguns dias, ele é demitido – mas antes ele conhece um novo colega de trabalho, o “rocker” Buddy (Ricky Tomlinson). Outros problemas graves acabam acontecendo na vida de Jan, ao mesmo tempo em que ele reencontra e começa a ter um romance com a garota daquela noite em que ele foi preso, a enigmática Vera (Christiane Paul).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso eu recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Das Leben ist Eine Baustelle): Em uma primeira análise, Jan é um ferrado. Quanto mais a história vai passando, o espectador tem mais oportunidades de ver que a vida dele está indo cada vez mais para um caminho complicado e de pedreira. Mas como muito bem sugere o título do filme, a vida de ninguém é apenas desastre. E se de um lado da balança temos uma série de motivos para sair berrando com um cachorro bravo, como em uma cena do filme, de outro lado da mesma balança existem razões para sair correndo vestidos de pato atrás do nosso grande amor.

Das Leben ist Eine Baustelle é um filme muito, mas muito bem escrito. Mérito dos diretores e roteiristas Wolfgang Becker e Tom Tykwer – dois nomes importantes do atual cinema alemão. A dupla consegue colocar em um mesmo balaio uma forte dose de humor e de temas sérios, de drama e de beleza. Vemos a uma Alemanha de subúrbios, de pessoas um bocado perdidas e “ligadas” através das televisões, do telefone e dos bares. Não existem paisagens bonitas. O cenário é a urbe, sua sujeira, sua adrenalina e suas cores algumas vezes violentas. Conseguir emprego não é fácil, assim como é complicado ter dinheiro para qualquer coisa – seja pagar uma dívida com a polícia ou um exame para saber se uma pessoa é HIV positivo. Mas e quem se importa? Afina, a nossa vida é o que fizermos com ela. Nossa história vai depender dos tijolos e do cimento que colocarmos um sobre o outro.

Uma das grandes mensagens do filme, para mim, foi justamente esta: de que nenhuma história foi traçado do início ao fim, sem possibilidade de mudanças. (SPOILER – realmente não leia se você ainda não assistiu ao filme). Quando Vera fala para Julian que vai deixá-lo e ele afirma que “achava que éramos diferentes”, fica comprovado que nenhuma certeza pode ser gravada no mármore. Certo que algumas se mostram verdadeiras até o fim da vida, mas outras não. E a vida está aí para ser construída, escolha após escolha. Para ser franca, me surpreendeu um pouco o fato de Vera morar com outro cara… quando ela vai buscar o músico pela primeira vez no bar, cheguei a pensar que ele fosse o pai dela. Talvez eu quisesse, naquele momento já, um final feliz. ;)

Bastante “despretensioso”, o filme fala de forma bastante natural sobre o encantamento entre pessoas que se encontram “do nada” na mesma medida em que trata da falta de intimidade e proximidade entre pessoas de uma mesma família. Jan vive na casa da irmã e do cunhado, Harri (o ótimo Armin Rohde), junto com a sobrinha Jenni (Rebecca Hessing). Ele é apegado à menina, mas mantêm uma distância salutar do pai, que mora sozinho, e deixa de falar com a mãe por telefone que, segundo ele, “nunca a escuta”. Raízes é algo que realmente os filhos daquele casal não tem. E cada um busca se virar na vida da melhor forma – com ou sem êxito.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Até que Buddy solta uma das grandes falas do filme, depois que o pai de Jan é levado da casa. Na mesa em que ele foi encontrado morto, Buddy comenta sobre os planos que uma pessoa faz e que, quando percebe, não concretizou porque ela deixou, simplesmente, a vida passar. O tempo corre e, quando percebemos, o que de fato conseguimos de tudo aquilo que planejávamos ou sonhávamos? O filme não é filosófico – pelo menos não tem essa cara -, mas solta algumas pérolas destas.

Outro tema bacana de Das Leben ist Eine Baustelle é o de que não importa o quanto você estiver ferrado, isso não é motivo para não ajudar uma outra pessoa que está pior. Maravilhoso o gesto de Jan que leva, para a casa que ele está dividindo com Buddy, a grega Kristina (Christina Papamichou), perdida na Alemanha em busca de seu irmão desaparecido. Muito bacana o gesto e a mensagem dos roteiristas.

NOTA: 9 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Nos quesitos técnicos do filme, gostei especialmente da trilha sonora assinada por Jürgen Knieper e por Christian Steyer e da edição de Patricia Rommel.

Até buscar mais informações sobre o filme, eu não tinha certeza sobre a cidade em que a história se passava. Mas tudo acontece realmente em Berlim.

Das Leben ist Eine Baustelle ganhou sete prêmios e foi indicado a outros cinco em sua época. Um dos prêmios que ele levou para casa foi uma menção honrosa para Wolfgang Becker no Festival Internacional de Cinema de Berlim, graças ao seu “retrato humorístico e irônico das mudanças que estão ocorrendo em Berlim” (isso em 1997, claro). O filme ainda ganhou os prêmios de melhor ator para Jürgen Vogel, melhor atriz coadjuvante para Martina Gedeck e para Meret Becker (que interpretou Moni), e o Film Award in Silver no German Film Awards;  o prêmio de Melhor Filme pela Associação de Críticos de Cinema Alemães; e o de Melhor Diretor Revelação no Festival Internacional de Cinema de Valladolid.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme. Achei um pouco baixa – ele merecia pelo menos um 8, vai!

Achei curioso que todos os personagens deste filme vivem na dureza. Até a garotinha, sobrinha do protagonista, é amarrada e sacaneada por dois garotos um pouco maiores que ela. Não existe muito espaço para quem está distraído por aquelas bandas… (e estas também, diga-se).

E o filme tem verdadeiras sequências geniais. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Uma das melhores, para mim, é quando Vera descobre a morte do pai de Jan e quando ele corre atrás dela com aquela roupa de pato cômica. Momentos ótimos, realmente. E os protagonistas são muito, muito bons. Especialmente Christiane Paul, que tem muito carisma.

CONCLUSÃO: Um filme sobre o lado difícil da vida mostrado de forma bastante bem humorada e até um bocado cínica. Um roteiro com muita qualidade e com atores que correspondem ao desafio de seus papéis. A história toca em temas importantes na Alemanha em 1997 e que seguem atuais até hoje, como a questão do desemprego, da violência urbana, da perda (ou busca) dos valores morais e a pressão do perigo de contrair o HIV. Mais uma bela mostra do cinema alemão moderno, dirigido por um de seus principais expoentes – e com roteiro dele e de outro nome importante daquele cenário. Deve ser visto de forma descompromissada – porque é menos “sério” que os outros filmes alemães recentemente comentados.

SUGESTÕES DE LEITORES: Mais um filme da minha listinha de produções feitas na Alemanha e que foi motivada pelo resultado da primeira enquete proposta neste blog. Esta é a quarta produção desta safra germânica – ainda falta assistir a algumas outras produções clássicas e outras contemporâneas.

ATUALIZAÇÃO (15/03): Resolvi dar uma “abaixadinha” na nota do filme porque, pensando bem, ainda que ele tenha muitas qualidades, vendo o trailer dele agora percebo que a produção acaba sendo uma mistura de “comédia de erros” com um bocado daqueles filmes meio “porno-chiques” da Alemanha antiga e que ganhou nova roupagem… bem, ele não apenas isso, mas também pode se dizer que é isso, então resolvi abaixar um pouco a nota – até para que eu tenha direito de dar a nota que vou dar para o próximo filme.

Wanted – O Procurado

11 de março de 2009 16 comentários

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Resolvi dar “um tempo” nos filmes sérios e ver algo para me divertir. Wanted é um desses filmes que você sabe exatamente para que ele serve. Cheio de tiroteiros, pancadaria, cenas de ação e alguma piada interessante jogada aqui e ali, ele é feito para você relaxar um pouco dos compromissos cotidianos e dos “papos sérios”. Claro que para as pessoas que não gostam de sangue e nem de violência, ele não serve. Provavelmente para estas pessoas um paralelo no sentido “descompromisso” devem ser os filmes extra-água-com-açúcar. Francamente? Ainda prefiro um filme como Wanted para relaxar. Afinal, ele é bem mais cinema do que os filmes extra-água-com-açúcar. Exige mais talento, técnica, perfeição tecnológica e de equipe para funcionar. E ele funciona.

A HISTÓRIA: Wesley Gibson (James McAvoy) é um administrador contábil que odeia a sua chefe, é traído pela namorada com quem divide um apartamento, Cathy (Kristen Hager), com seu melhor amigo, Barry (Chris Pratt), e precisa tomar remédios para segurar as pontas. Com praticamente nenhum dinheiro no banco e sentindo-se um perdedor, em uma certa noite Wesley vê sua vida mudar radicalmente quando fica no meio de um tiroteio entre Fox (Angelina Jolie) e Cross (Thomas Kretschmann). Sequestrado por Fox, ele é apresentado a Sloan (Morgan Freeman) e a uma organização de assassinos profissionais conhecida como A Fraternidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Wanted): Antes de mais nada, aviso para as pessoas que não gostam de violência, de pancadaria, de tiros e de cenas impossíveis de serem reproduzidas no mundo real para ficarem longe desse filme. Afinal, ninguém quer ouvir o velho papo de “Ah, mas que filme absurdo!”. Claro que é um filme absurdo. Como a maioria dos filmes de ação do mercado. 

Dito isso, vamos ao que interessa: Wanted e suas “gozações”. Sim, porque só pode ser piada dos roteiristas Michael Brandt, Derek Haas e Chris Morgan toda aquela idéia de “sociedade secreta de assassinos” que dependem de uma antiga máquina de tecelagem para criar uma lista de alvos, não é mesmo? Eu achei uma piada e por isso dei risada quando o Sr. Morgan Freeman vai mostrar para o ótimo James McAvoy o “segredo” do grupo. Para mim, foi a maneira dos roteiristas dizerem: “Ei, tanto faz a origem desta lista de alvos, ninguém precisa de algo lógico para fazer um filme de ação”. Como piada, foi uma ótima sacada. Ainda mais porque o “sistema” funciona com o mesmo código binário no qual a alta tecnologia atualmente se baseia – seria, além de tudo, uma crítica a essa “nossa” confiança tão grande nos computadores e demais plataformas tecnológicas? Talvez…

Mas ok, se a “fonte” dos atos da organização é cômica de tão absurda, ela nos revela um pouco também sobre os “alicerces” da maioria das sociedades secretas que existiram e ainda perduram até hoje. A maioria delas (para não dizer que todas) se baseiam muito mais em dogmas, em gestos que viram tradições e são seguidos a risca do que em atitudes realmente válidas ou efetivas nos dias atuais. Existe em seus “modos de atuar” muito tradicionalismo e pouca autocrítica. Mas enfim… certamente este não é um tema do filme – ainda que tenha me feito pensar. 

Não sei vocês, mas desde o início eu achei que Wanted não deixa claro quem é o bandido e quem é o mocinho do filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Por isso que quando a “máscara cai” e ficamos sabendo que Cross é o mocinho da história e o verdadeiro pai de Wesley, juro que não me surpreendi. Então este filme não é um daqueles que vai te deixar “de cara”, surpreendido, abismado com a reviravolta da história e fascinado com a surpresa final. As cenas de ação valem o filme – e desde a “captura” de Wesley por Fox com o carro, meio que no início do filme, você já sabe que muitas dela serão absurdas, irreais e impossíveis na vida real. Mas quem se importa? O que interessa é que neste filme, sem grandes surpresas e com grandes atores em tela, não faltam tiroteios, socos na cara, tortura, facadas, mais tiroteios, perseguições de carro, mais tiroteios, e por aí segue.

Não foi por acaso que Wanted recebeu duas indicações técnicas no último Oscar – nas categorias de Melhor Edição de Som e Melhor Mixagem de Som. O filme funciona a perfeição em suas múltiplas cenas de ação. Merecem destaque neste processo os trabalhos do diretor de fotografia Mitchell Amundsen, a excelente trilha sonora de Danny Elfman, o minucioso trabalho do editor David Brenner e, claro, as dezenas de profissionais que trabalharam nos efeitos especiais e de som neste filme.

E merece uma menção especial a direção precisa e inspirada de Timur Bekmambetov (que tem um blog em russo…) – que desde os filmes Nochnoy Dozor e Dnevnoy Dozor (este último comentado aqui no blog), de 2004 e 2006, respectivamente, entrou na lista dos grandes diretores da atualidade. O homem, nascido na antiga União Soviética, merece respeito. Como diretor, Bekmambetov tem talento, criatividade, e um senso apurado para equilibrar ação e dinâmica entre atores. Sem dúvida, é um nome para ficarmos atentos. Levado para Hollywood, além de dirigir Wanted, ele terá financiamento da Fox para terminar a sua trilogia de ficção conhecida como Night Watch (as duas outras partes eu citei anteriormente). Twilight Watch, último capítulo da trilogia, está previsto para ser lançado ainda este ano.

Pessoalmente, não tenho um gosto especial por armas – não tenho nenhuma e nem penso em ter. Mas cá entre nós: que armas lindas que foram escolhidas para esse filme! Só imagino o êxtase da homarada com esse filme… afinal, ele tem cenas de ação geniais, armas incríveis, carros idem e, de quebra, Angelina Jolie. hehehehehehehehehehehe

Mas para não dizer que o filme é perfeito, me cansou um bocado aquela idéia de “Ei cara, você também pode sair da sua vida medíocre e se tornar “O CARA”…”. Certo. Para isso basta ser encontrado por uma organização secreta que tem mil anos de história, passar por seis semanas de treinamento porrada e tudo beleza. Ah, meus amigos, aquela frase final e, principalmente, essa idéia de “qualquer pessoa pode se tornar o máximo” foi totalmente fora de tom, vai. Podíamos ter passado sem essa. 

NOTA: 7,7 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como falei anteriormente, Wanted foi indicado a dois Oscar’s – e perdeu ambos. Em sua trajetória por prêmios, ele foi indicado a outros sete, mas não conseguiu abocanhar nenhum. Ainda que seja tecnicamente muito bem acabado, parece que este filme é daqueles para fazer bilheteria – e não para ganhar prêmios.

Achei curioso que Wanted é um filme dirigido por um russo, com elenco de várias partes do mundo e com investimento dos Estados Unidos e da Alemanha. Ainda que seja financiado pelos germânicos, não vou acrescentá-lo na minha lista de filmes alemães da atual safra, ok? ;)

Como sempre acontece com os filmes do diretor Timur Bekmambetov, o material de divulgação do filme é muito bacana. Os cartazes são ótimos.

De crítica o filme não foi muito bem – como quase sempre quando o filme é de ação. Os usuários do site IMDb deram uma nota 6,9 para a produção, enquanto que os críticos do Rotten Tomatoes foram um pouco mais bondosos: dedicaram 135 textos positivos e 52 negativos para o filme, o que lhe garantiu uma aprovação de 72%. Nas bilheterias ele já foi melhor… faturou pouco mais de US$ 134,2 milhões nos Estados Unidos. Saiu bastante no lucro, já que ele teria custado aproximadamente US$ 75 milhões. 

Gostei que o diretor levou o protagonista de sua trilogia Night Watch para Wanted. Konstantin Khabenskiy pode ser visto como o “cara da enfermaria”. Seu papel é pequeno e ele não tem muito tempo de mostrar o bom ator que ele é, mas tá valendo. Merecem ser citados ainda os atores Terence Stamp como o fabricante de armamentos Pekwarsky; Common como o “armeiro”; Marc Warren como “o cara dos reparos”; David O’Hara em uma superponta como Mr. X; Dato Bakhtadze como “o açougueiro” (mestre das facas); e Lorna Scott como a insuportável Janice, chefe de Wesley.

Falando no Mr. X, algo que me incomodou um pouco foi a repetição do estilo Nochnoy Dozor neste novo filme do diretor. Ok, o recurso esse pode até ser entendido como uma “marca registrada” de Timur Bekmambetov, mas acho que ele tem que inovar um pouco mais. Do contrário, ele ficará repetitivo e chato muito rapidamente. Também achei desnecessária aquela história da “motivação” da Fox, com um flashback de sua triste história de infância. Enfim, esse último momento e a frase final do filme não o estragam, mas poderiam ter sido cortados, na minha opinião.

E para quem não sabe – eu, ao menos, não sabia – Wanted é mais uma adaptação do universo dos quadrinhos para o cinema. O filme é inspirado livremente – alguns dizem que “bem livremente” – na HQ de Mark Millar e J. G. Jones. Lendo um pouco mais a respeito, percebi melhor o sentido da história ao confirmar uma suspeita: a obra é uma sátira ao universo típico dos superheróis de editoras como Marvel e DC. Justo o que eu comentei antes sem saber… Só gostaria de saber a opinião dos fãs deste HQ sobre a adaptação dele para o cinema. Quem tiver lido os quadrinhos pronunciem-se, por favor.

Mas algo que eu posso adiantar – mesmo sem ter lido os HQ’s de Wanted – é que Mark Millar aprovou algumas mudanças da adaptação de sua obra para os cinemas e desaprovou outras. Segundo esta matéria, ele gostou, por exemplo, de que os personagens não aparecem no filme com uniformes – uma idéia que ele tinha tido para os HQ’s mas que, depois, teria “esquecido”. Por outro lado, ele não aprovou a idéia de transformar os personagens principais em pessoas comuns. Nos quadrinhos o grupo era formado por super-vilões com seus respectivos poderes. 

E se alguém ainda tinha dúvidas, agora não existe mais espaço para nenhuma delas no que se refere ao ator James McAvoy: sem dúvida ele é um dos novos queridinhos de Hollywood – com razões, diga-se.

CONCLUSÃO: Um filme de ação dos bons, perfeito tecnicamente falando e com um roteiro que deve ser encarado um pouco como uma “paródia” dos filmes do gênero, brincando com a idéia das sociedades secretas de assassinos e seus métodos. Com um elenco de estrelas e um diretor russo conhecido por suas invenções em filmes de ficção, Wanted deve ser visto sem pretensões. Como outras produções do gênero, ele é absurdo, ignora a física e a lógica, mas quem se importa? Recomendado para quem não se importa com sangue e pancadaria e para os que querem ver algo distante léguas de qualquer filosofia ou “conceito”. Divertido e bem feito, o que um filme do tipo deve ser.

SUGESTÃO DE LEITORES: Na verdade, Wanted poderia ser classificado como “contra-indicado” por leitores. hehehehehehe. É que em agosto de 2008 o Marco citou este filme dizendo que não tinha gostado dele. O classificou como uma mistura pobre entre Matrix e Clube da Luta. ;) Certo, o filme não é nada assim excepcional, mas achei ele bonzinho. E a Angelina Jolie anoréxica… bem, a mulher se preocupa realmente com a linha. Não lembro dela nunca ter um corpo mais “cheinho” do que esse que ela exibe no filme. Vide Gia (em que ela está ótima) e Girl, Interrupted, entre outros. A mulher é magra assim mesmo, que fazer? (comento isso porque o Marco achou ela anoréxica… hehehehehe).

ATUALIZAÇÃO (15/03): Gente, resolvi dar uma diminuida na nota deste filme (também). É que hoje assisti a um filme do qual falarei em breve e para o qual, logo que terminei de assistí-lo, pensei em uma nota. E eu ia achar injusto dar a nota que estou pensando para ele tendo deixado Wanted com a nota antiga, assim como o último filme alemão que eu vi. Então diminui a nota de ambos para que ficasse tudo mais justo. O povo que achou que eu tinha sido muito generosa agora pode dar um sorrisinho de canto de boca. hehehehehehehe. ;)

Kirschblüten Hanami – Cherry Blossoms – Flores de Cerejeira

9 de março de 2009 6 comentários

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O cinema alemão vem me surpreendendo. Mais uma vez, assisti a um filme extremamente bonito e cuidadoso sobre as relações humanas, especialmente a vida de um casal e sua maneira de lidar com os filhos – e os filhos, com este casal. A exemplo de Away from Her, Kirschblüten – Hanami também trata da questão da morte e de como uma das pessoas do casal apaixonado e cúmplice há tanto tempo lida com a separação forçada (e inevitável) do outro. Bacana também assistir a uma declaração de amor ao Japão, como é o caso deste filme. Para quem gosta das culturas alemã e japonesa, terá um pouco da mescla do estilo de vida de ambas, na atualidade, nesta produção.

A HISTÓRIA: Trudi Angermeier (Hannelore Elsner) recebe uma notícia devastadora dos médicos de seu marido: ele tem uma doença grave que pode demorar um tempo para manifestar-se, mas que será fatal. Os doutores que falam com Trudi (interpretados por Gerhard Wittman e Veith von Fürstenberg) sugerem para que o casal faça uma viagem marcante ou algo inusitado, para aproveitarem o tempo. Mas Trudi conhece bem o marido, e sabe que Rudi (Elmar Wepper) quer tudo, menos fugir da vida de sempre, do ir e vir do trabalho para casa e vice-versa. Ela sempre sonhou em conhecer o Japão, ver o Monte Fuji de perto, mas sem ele, não pensa em fazer isso. No final das contas, sem falar nada para o marido sobre sua doença, ela lhe convence a visitarem dois dos três filhos, que moram em Berlim. Mas uma mudança inesperada do destino fará com que Rudi se aventure em terras muito mais distantes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Kirschblüten Hanami): As semelhanças deste filme alemão com Away from Her terminam rapidamente. Certo que ambos falam do amor incondicional e belíssimo de um casal que vive junto há muito tempo, assim como tratam de uma doença que vai separá-los. Mas isso é tudo que os une. Kirschblüten – Hanami entra de forma muito mais profunda em outras questões, como a estranheza entre pais e filhos e a falta de capacidade, da maioria das pessoas, de perceber que o que elas tem não deve ser tratado nunca como eterno – ou, em outras palavras, que elas pensem sempre que terão tempo de fazer o que mais desejam. Porque, como disse antes em outro lugar, nós somos tudo, menos senhores do tempo.

Um filme para ser belo, verdadeiramente belo, deve ter alguns elementos. Em primeiro lugar, uma fotografia cuidadosa e potente, que valorize as cores, as paisagens, os ambientes e as texturas – inclusive as expressões dos atores. Hanno Lentz faz um trabalho exemplar como o diretor de fotografia desta produção alemã. Junto com ele, merece mérito pela escolha das cenas e dos enfoques, claro, a diretora e roteirista, Doris Dörrie. Ela, sem dúvida, é responsável pelos outros dois elementos fundamentais de um belo filme: o texto que conduz a história e as falas dos atores e, claro, a dinâmica do que vemos em tela. Dörrie faz um trabalho exemplar, ainda que simplifique um pouco as coisas, em certos momentos – mas algo que pode ser compreendido, já que ela abre mão de tornar a história mais complexa para dedicar aquele tempo a torná-la mais bela. Definitivamente é uma escolha da autora.

Kirschblüten – Hanami trata, essencialmente, do “espírito alemão” ou, em outras palavras, do jeito com que a maioria dos alemães lida com seus sentimentos e com as pessoas próximas. Ainda que o filme revele uma certa paixão dos personagens pela cultura japonesa, não percebemos muito os costumes daquele povo – exceto pela personagem Yu (Aya Irizuki) que, francamente, foge um bocado do que seria o padrão moderno japonês. Ainda assim, quem sabe, a diretora e roteirista queira justamente valorizar um estilo de vida menos ligado ao “ganhar dinheiro e subir na vida”, que parece ser o lema vigente há algum tempo. Querendo ou não, Dörrie faz uma obra que valoriza a arte e um modo de vida menos acelerado e superficial – seja pela personagem de Trudi, seja pela de Yu. 

Outro elemento que faz um filme ser acima da média e belo é o trabalho dos atores. E os intérpretes de Kirschblüten – Hanami nos apresentam um verdadeiro baile de competência e emoção. Especialmente o casal principal se revela. O sentimento contido – mas que acaba transbordando involuntariamente – de Trudi, que vive intensamente o que considera os últimos momentos com seu amor, só demonstram a qualidade da atriz Hannelore Elsner. Independente da frieza e estranheza dos filhos e dos netos, ela revela o seu afeto e seu amor, tentando um equilíbrio entre os diferentes “mundos” formados pelos filhos e pelo marido. Como Rudi comenta em uma certa altura, se referindo aos filhos: “Eu não os entendo. Eles não me entendem”. E essa condição que parece imutável – mas que não é – acaba definindo as relações entre eles. Algo que Trudi tenta quebrar, mas que não consegue fazer sozinha. E percebe-se que os filhos, Karolin (Birgit Minichmayr) e Klaus (Felix Eitner) se dão melhor com a mãe do que com o pai, pelo simples fato de que ela se mostra mais carinhosa e, ao mesmo tempo, mais maleável. 

Mas o que importa no roteiro de Dörrie, mais que tudo, é o amor verdadeiramente incondicional que une Trudi e Rudi. Eles chegaram ao ponto máximo do companheirismo e da cumplicidade que apenas os casais de longa data parecem serem capazes de atingir. Mais que outros filmes que rolam por aí, este é uma grande história de amor, realmente. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Mas para surpresa geral da nação, quem morre primeiro é Trudi. E com sua morte, Rudi perde totalmente o chão. Desiste de seguir sua vida tão regrada e previsível e resolve partir para a viagem dos sonhos da mulher, acreditando que, por sentí-la com ele, em sua alma e em seus poros, ela também está indo com ele. Rudi viaja para o Japão não apenas porque não consegue superar a morte da mulher (e existe algo que possa ser superado?), mas porque acredita que deve “levá-la” a realizar o que ele nunca lhe deixou fazer. 

A vida pode ser longa, mas muitas vezes o tempo é curto. Rudi é um exemplo de atitude de quem se fixa muito em suas tradições e convicções e deixa de perceber os desejos da pessoa que mais ama. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois que aquela pessoa se foi, alguns tentam reaver o tempo perdido – mas, obviamente, isto é impossível. Alguns certamente vão assistir a Kirschblüten – Hanami e pensar: “Mas como ele não foi capaz de superar a morte da mulher? A vida continua…”. Bem, como Rudi mesmo diz para o filho Karl (Maximilian Brückner) lá pelas tantas, tudo que ele não quer escutar é isso. Cada um lida com a perda e a dor de uma maneira, e realmente não existe uma fórmula única sobre o certo e o errado nesta questão. Rudi decide não aceitar viver sem a mulher, e alimenta, a cada minuto, mesmo depois da morte dela, a relação que eles tinham. Ele quer preservar o máximo que ele pode a sua presença, a sensação de que ela faz parte de seu mundo ainda – até porque ele parece incapaz de projetar um “outro mundo” em que ela possa estar. É uma questão de fé, mas é uma questão de apego e de amor também. Ninguém pode dizer que ele esteja certo ou errado. São maneiras de encarar o inevitável.

Então ele viaja para o Japão e se esforça, mesmo sem entender ou falar nada do idioma, em fazer roteiros que a mulher gostaria. Muitos vão achar absurdo, mas ele precisa de algo material para reforçar a idéia que a mulher lhe acompanha – sem dúvida ele é um materialista – e, por isso, veste algumas das roupas de Trudi. Algumas pessoas talvez achem as cenas engraçadas… eu apenas achei elas compreensíveis, tristes e belas ao mesmo tempo. Não deve ser nada fácil, com aquela idade e tendo vivido tanto, se sentir sozinho no mundo. Em sua caminhada, ele conhece Yu motivado pela paixão de Trudi pelo Butoh – uma dança típica japonesa que, segundo Yu, pode ser definida como a dança da sombra. Interessante o conceito de que uma pessoa morta pode estar com a dançarina enquanto ela baila – algo que acaba fascinando Rudi e explicando bastante sobre o final desta história. E com Yu, que se mostra incrivelmente fora dos padrões, simples e compreensiva, ele vai descobrir o lugar tão desejado por Trudi: o monte Fuji. Uma história belíssima e muito bem contada.

Um ponto que me chamou bastante a atenção neste filme é a diferença de relações e de diálogo (ou da falta dele) entre pais e filhos e pessoas “desconhecidas”. É inquestionável que Trudi e Rudi se dão melhor com a nora deles, casada com a filha Karolin, do que com ela própria. Franzi (Nadja Uhl) trata muito melhor aos pais de Karolin do que ela mesma consegue “lidar” com eles. Da mesma forma, Yu é muito mais receptiva e compreensiva com Rudi, realmente interessada pelo que ele possa lhe contar, do que o “filho preferido” de Trudi e Rudi, Karl. Os filhos todos tratam com indiferença, um tanto de frieza e dificuldade os pais. Aparentemente, eles são os “vilões” da história.

A verdade é que onde existe muita intimidade e muitas “histórias” parece ser mais difícil a compreensão. Algumas vezes o trato entre estranhos, que verdadeiramente “abaixam a guarda” para se conhecerem, parece ser mais simples do que aquelas relações em que está sedimentada a idéia que se tem da outra pessoa. Acho que está é uma das grandes questões do filme, bem tratada pela diretora – ainda que achei que ela tratou os filmes demais como “vilões” quando, certamente, a idéia de “imutabilidade” das relações por parte dos pais também tornava tudo difícil como se percebe nesta história. Algumas vezes parece que para os pais é mais fácil se dar bem com desconhecidos do que com os próprios filhos. Acredito que para todos continuarem “se entendendo”, como sugere Rudi, é preciso boa vontade e, mais que tudo, a capacidade de entender que ninguém é o mesmo para sempre. As pessoas mudam, passam por situações diversas e aprendem coisas com a vida na mesma medida em que as relações entre os indivíduos também se alteram. Pensar que um adulto é uma versão crescida da criança que você gerou e criou é pura ilusão. É verdade que alguns ensinamentos permanecem da infância até a velhice, mas tudo o mais muda. Inexoravelmente.

NOTA: 9,6. 

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei muito da forma com que a diretora e roteirista valorizou parte da cultura japonesa. Assim, vemos um pouco do espetáculo que é a época do Hanami – o costume de apreciar as flores, especificamente a floração das cerejeiras, que dá nome ao filme – e, também, a beleza do Butoh. Vale citar o nome do dançarino de Butoh que é visto em um espetáculo por Trudi e, no Japão, por Rudi na televisão: Tadashi Endo.

Dos atores em cena, gostei em especial de Hannelore Elsner (volto a dizer, maravilhosa, muito expresiva), Elmar Wepper (genial, bastante técnico, preciso e emocionante), Aya Irizuki (ótima dançarina e intérprete) e Nadja Uhl (linda e talentosa). Para mim, eles são o destaque do elenco. Além deles, merece menção na parte técnica do filme a trilha sonora de Claus Bantzer e a edição de Frank C. Müller e Inez Regnier

Para completar a lista dos atores, vale citar as crianças um bocado insuportáveis – e até certo ponto, bem realistas – que interpretam os netos de Trudi e Rudi: Celine Tanneberger interpreta Celine e Robert Döhlert interpreta Robert. 

O filme conseguiu uma boa avaliação dos usuários do site IMDb: 7,8. Um empate, pode se dizer, com a média das críticas publicadas no Rotten Tomatoes, onde foram divulgados 25 textos positivos e sete negativos para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 78%.

Para quem ficou interessado pelas locações do filme, ele foi rodado na cidade de Allgäu, na Bavária; em Berlim e Ostsee, na Alemanha e, claro, em Tokyo e no Monte Fuji, em Shizuoka, no Japão. 

Em sua trajetória, Kirschblüten – Hanami ganhou seis prêmios e foi indicado a outros sete. Entre os que levou para casa estão o de Melhor Filme no “Golden Space Needle Award” do Festival Internacional de Cinema de Seattle; os prêmios de melhor ator para Elmar Wepper no German Film Awards e no Bavarian Film Awards, entre outros.  

Para os interessados em um dia curtir o Hanami no Japão, a temporada de floração das cerejeiras, segundo este site, é o início de março, nas regiões mais quentes do país, como o sul de Kyushu; em abril em Tokyo e maio na região de Hokkaido.

A diretora Doris Dörrie tem uma bela trajetória anterior a este filme. Ela começou sua carreira em 1976 com o documentário Ob’s stürmt oder Schneit e, de lá para cá, ela sempre intercalou projetos para o cinema com trabalho para a TV. Em sua carreira, ela recebeu sete prêmios e foi indicado a outros seis. 

Algo que achei curioso: o filme mostra o segundo casal de mulheres que eu vi recentemente. Sei que é apenas uma coincidência, mas achei interessante a forma com que o cinema alemão trata de maneira bacana a vida em comum entre mulheres, revelando suas relações de forma sensível e sem partidarismos.

CONCLUSÃO: Um filme bastante sensível sobre a morte de uma pessoa que é considerada fundamental e sobre as relações entre pais, filhos e “desconhecidos”, sobre a capacidade das pessoas aprenderem e se surpreenderem mesmo tendo vivido bastante e, além disso, sobre a escolha de caminhos diferentes do que socialmente é “estabelecido”. De quebra, uma produção que se debruça sobre alguns costumes do povo alemão – como o de valorizar o trabalho, os costumes, a tradição e as aparências familiares – e do povo japonês (como a contemplação da natureza e a loucura moderna embalada por sexo e tecnologia). Mas mais que tudo, é um filme belíssimo, pela fotografia e pela condução desta história de amor e de fidelidade. 

SUGESTÃO DE LEITORES: Este é o terceiro filme da leva do cinema alemão que estou assistindo como resposta a enquete que fiz antes do Oscar. Os leitores deste blog escolheram o cinema feito na Alemanha como meu próximo foco e, só pelos três filmes que vi até agora, devo agradecer por esta sugestão. Grandes filmes, realmente, da “nova safra” do cinema alemão. Filmes que merecem ser vistos. Logo mais vou partir para alguns clássicos… Inté.

Across the Universe

7 de março de 2009 8 comentários

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Na época em que Across the Universe foi lançado, como uma boa mortal que vive neste planeta, eu ouvi falar de todo o burburinho sobre esta “linda história de amor basada na obra dos The Beatles“. Mas, como muitos filmes que vou deixando para depois, ele ficou para trás. Resolvi resgatá-lo para honrar meu desafio de assistir a todos os filmes indicados por leitores deste blog. E gostei do que eu vi. Claro que o melhor do filme, não há dúvida, é a sua trilha sonora. E a sacada do roteiro em “ligar” as várias canções dos The Beatles para contar uma história de amor. No mais, Across the Universe tem alguns momentos dispensáveis e um roteiro um bocado previsível, o que não desmerece o filme, claro. 

A HISTÓRIA: Jude (Jim Sturgess) é um rapaz típico do suburbano de Liverpool. Sem espaço para dedicar-se a sua vocação de artista plástico e designer, ele trabalha, como praticamente todos os homens da região, em uma fábrica naval. Mas ele sonha em viajar para a América em busca de um futuro melhor e do pai que nunca chegou a conhecer. Chegando na Universidade de Princeton, Jude encontra o pai, o professor West Hover (Robert Clohessy) e se torna amigo muito próximo do aloprado Max Carrigan (Joe Anderson). Quando viaja com Max para a casa da família, onde passa o Dia da Ação de Graças, Jude conhece Lucy (Evan Rachel Wood), de quem ele se apaixona – deixando na Inglaterra sua mãe e uma namorada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Across the Universe): O início do filme me fez lembrar demais os clipes de James Blunt, do Coldplay ou de outro alguém do gênero. ;) Me desculpem os superfãs do filme, mas foi inevitável fazer esse paralelo um tanto satírico. Bem, mas fora o início de Across the Universe, o restante do filme me pareceu menos “clipe” feito para a MTV. Ainda que se trate de um musical, ele não me pareceu uma sequencia de clipes de vídeo – como alguns “musicais” modernos parecem ser. 

Existe inteligência no roteiro. Ainda que, não vou mentir, tudo que você vai assistindo é esperado, em maior ou menor medida. Mas acho que ninguém também estava esperando algo muito surpreendente, não é mesmo? O grande, grande mérito do filme é mesmo a idéia de costurar as músicas dos The Beatles para contar uma história. A idéia partiu da diretora, Julie Taymor, junto dos roteiristas Dick Clement e Ian La Frenais. Eles conseguiram, além de fazer dita costura, resgatar boa parte da “alma” da banda inglesa mais famosa de todos os tempos. Então no filme estão temas como o amor, a luta contra a guerra, a contracultura – pensamento libertário com direito a “liberação” da mente através de alucinógenos, a aposta pela arte e o berço ligado ao “operariado” inglês, e por aí vai.

Gostei muito da direção de Julie Taymor, conhecida antes por seu excelente trabalho em Frida. Depois de Across the Universe, onde ela comprova mais uma vez talento no uso da câmera e de efeitos especiais para dar um toque mais “artístico” ao seu trabalho, devemos esperar para este ano seu novo trabalho: The Tempest (do qual falo mais na sessão seguinte deste post). Acredito que apenas ela e o diretor Baz Luhrmann – de Moulin Rouge! – poderiam conseguir aliar de forma tão precisa o lado “comercial” e artístico de uma produção, garimpando um musical de forma com que ele não se torne chato, garantindo um bom ritmo de narrativa com câmeras ágeis ou belas tomadas de plano que valorizam paisagens, personagens e os ambientes em que eles estão imersos. 

Falando em Baz Luhrmann, outra referência impossível de lembrar ao assistir a Across the Universe é o filme Romeu + Juliet, uma releitura que o diretor australiano fez de uma das obras principais de Shakespeare com Claire Danes e Leonardo DiCaprio como protagonistas. Para mim foi inevitável relembrar do ritmo daquele filme e da “história de amor” vivida pelos dois de uma forma “modernete” ao assistir o casal principal de Across the Universe. Com isso não quero dizer que um seja cópia ou inspirado no outro, afirmo apenas que é impossível não lembrar de outras referências “pop”. Afinal, Across the Universe é muito, muito pop.

Mas algumas coisas no filme eu achei estranhas… certo que a história se passa no final dos anos 60 e início dos 70, quando a contracultura estava em sua maior fase, junto com a liberação feminina, mas então alguém pode me explicar porque a coitada da Prudence (interpretada pela T. V. Carpio) não conseguiu se dar bem no filme? Bem, até que lá pelas tantas ela aparentemente tinha conseguido uma “companheira”, mas não rolou nenhum beijo no filme ou qualquer coisa do gênero. Isso até me lembra as novelas da Globo. hehehehehehehehehe. Mas fora a piada, para um filme que mostra um bocado de “viagens lisérgicas” e do lema “paz & amor” comunitário – explorado pela “comunidade” formada ao redor da cantora Sadie (Dana Fuchs) -, eu acho que podia ter rolado uma liberação para a Prudence. ;)

Fora isso, achei um bocado viagem aquela sequência do espetáculo do Mr. Kite (Eddie Izzard). Certo que os bonecos do circo são bacanas e tal, mas achei uma parte chatinha. Também achei desnecessária a sequencia dos soldados nos leitos da enfermagem – exceto pela seringa com uma “dançarina” dentro que me lembrou as aberturas de James Bond. ;) Mas sei lá, eu teria cortado fora estas duas sequencias. Para mim, nem uma, nem outra, acrescentou nada para o filme. 

Por outro lado, poderiam ter valorizado mais a parte “artística” do nosso herói – gostei muito das sequências em que ele se tranca no quarto para criar com um bocado de “raiva” depois que Lucy chega em casa, tarde da noite, acompanhada do “vilão” da história, o revolucionário que se mostra bem mais radical em certa parte do filme – como praticamente todos os revolucionários que ainda não aprenderam que não é com violência que se ganha guerra alguma. Ou poderiam ter dedicado mais tempo mostrando a contracultura da época ou a idéia de “faça amor, não faça guerra”. Mas ok, o filme é o que é. E ele não deixa de ser uma bela diversão, disso não há dúvida. 

Por mais que ele seja bem ruinzinho como ator, mas gostei do Bono Vox como Dr. Robert. Esta é a parte mais psicodélica do filme – bem bacana. Um outro trecho do qual gostei muito – e que me fez lembrar Frida – foi aquele em que quatro dos personagens principais de Across the Universe cantam para fazer Prudence sair do banheiro e se animar um pouco. A verdade é que fora os dois momentos que eu citei como desnecessários, todos os outros desta história foram muito bem planejados e executados. Mérito da diretora e, devo citar, um belíssimo trabalho do diretor de fotografia Bruno Delbonnel e da edição de Françoise Bonnot. Estes três nomes, mais a excelente trilha sonora de Elliot Goldenthal merecem aplausos. 

No final das contas, é um filme divertido e um tanto “ousado” para os padrões de romancezinhos-que-ganham-as-telas-em-Hollywood, com direito a posicionamento contra guerras e contracultura – o que não traz exatamente algo de inédito, mas pelo preserva algumas das características dos The Beatles, no qual o filme é inspirado. Mas, sem dúvida alguma, a melhor coisa de Across the Universe é essa “viagem” por parte da trilha sonora dos garotos mais famosos de Liverpool. Vale por isso e pela “química” dos atores principais.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A escolha dos atores do núcleo central do filme foi bastante acertada. Afinal, quem melhor que Dana Fuchs poderia encarnar uma cantora descaradamente inspirada em Janis Joplin que recebe no filme o nome de Sadie? Não vejo ninguém melhor que ela para o papel. Gostei muito também de Martin Luther como Jo-Jo, o guitarrista talentoso que é “deixado” para trás pelo sonho de fama da namorada e que depois vê a garota se dando conta da furada em que se meteu. Merecem ainda menções os atores Dylan Baker como o pai de Lucy; Linda Emond como a mãe da heroína; Bill Irwin em uma superponta como o tio Teddy (que apelido mais infame, mas tudo bem); e James Urbaniak como o empresário que acaba “conquistando” Sadie. Falando neste último, acheu um bocado “simplista” o encanto e o desencanto da cantora com a fama… me pareceu muito artificial. E sobre pontas, devo citar Salma Hayek fazendo uma superponta na sequencia em que Max está delirando em um leito de enfermaria após participar da Guerra do Vietnã.

Na parte técnica do filme, merecem ser mencionados Albert Wolsky, responsável pelo figurino do filme – um trabalho bastante cuidadoso; Peter Rogness pela direção de arte do filme e Ellen Christiansen pela decoração dos sets. Três profissionais que fizeram bem o seu trabalho.

Lembro que na época em que Across the Universe foi lançado, ele conseguiu um bom resultado de crítica e nas bilheterias. Um feito a mais no currículo de Julie Taymor, que além de Frida, foi responsável por diversos musicais da Broadway, incluindo o premiado O Rei Leão

Para quem adorou a trilha sonora, além de Bono Vox, ela tem a participação mais que especial de Joe Cocker na música Como Together (que me fez lembrar de The Doors pelo “clima” das imagens) e, para surpresa de muita gente – inclusive minha -, boa parte das outras canções são mesmo interpretadas pelos atores que aparecem na telona. Impressionante! Os atores até ganharam um conceito melhor depois que eu soube disso. :) E fiquei impressionada também com o fato – isso se é fato… pelo menos é o que os produtores do filme divulgaram – de que 90% das canções foram gravadas no estúdio, sem precisar que os intérpretes fizessem o trabalho depois em estúdio. Incrível, realmente, porque a qualidade da trilha sonora é muito, muito boa.

Para quem gostou da trilha sonora, eis a lista de músicas que fazem parte do filme: Girl (interpretada por Jim Sturgess), Helter Skelter (por Dana Fuchs), Hold Me Tight (por Sturgess, Evan Rachel Wood e Lisa Hogg), All My Loving (por Sturgess), I Want to Hold Your Hand (por T. V. Carpio), With a Little Help from My Friends (Joe Anderson, Sturgess e o grupo Dorm Buddies), It Won’t Be Long (por Wood), I’ve Just Seen a Face (por Sturgess), Let It Be (por Carol Woods e Timmy Mitchum),  Come Together (por Joe Cocker e Martin Luther), Why Don’t We Do It In The Road (por Fuchs), If I Fell (por Wood), I Want You (She’s So Heavy, por Joe Anderson), Dear Prudence (por Fuchs, Sturgess, Wood e Anderson), Flying, Blue Jay Way e I Am The Walrus (as três por Elliot Goldenthal e o grupo The Secret Machines), Being for the Benefit of Mr. Kite (por Eddie Izzard), Because (por Carpio, Wood, Sturgess, Anderson, Fuchs e Luther), Something (por Sturgess), Oh Darling (por Fuchs e Luther), Strawberry Fields Forever e Revolution (ambas por Sturgess),  While My Guitar Gently Weeps (por Luther), Happiness Is a Warm Gun (por Anderson), Blackbird (por Wood), Hey Jude (por Anderson), Don’t Let Me Down (por Fuchs), All You Need Is Love (por Sturgess e Fuchs), Lucy in the Sky with Diamonds (por Bono Vox), A Day in the Life (por Jeff Beck), Across the Universe (por Sturgess) e She Loves You (por Anderson).

Como eu ia comentando antes, para este ano está previsto o lançamento de um novo filme da diretora Julie Taymor. The Tempest, atualmente em fase de pós-produção, conta no elenco com Djimon Hounsou, Helen Mirren, Alan Cumming, Alfred Molina, Chris Cooper, David Strathaim, entre outros. O filme é nada mais, nada menos, que uma releitura da peça de William Shakespeare The Tempest (conhecida em português por A Tempestade/A Comédia dos Erros), uma comédia bastante típica e conceituada do maior ator inglês de todos os tempos. Para as pessoas que gostam de obras fielmente adaptadas, a diretora já começou fazendo uma mudança radical na história original… transformou o personagem central, Próspero, em mulher. Então, em seu filme, temos a Próspera (Helen Mirren, ótima atriz), como a figura muito poderosa que acaba sendo isolada em uma ilha, junto com a filha Miranda (Felicity Jones), após ser vítima de uma traição política. Ariel, figura-chave na história de Shakespeare, é interpretado no filme por Ben Whishaw; enquanto que Djimon Hounsou interpreta a Caliban, um escravo de Próspera que é uma figura forte e “disforme”. Shakespeare sempre merece ser adaptado, mas é esperar para ver o que sairá da cabeça da diretora.

Na avaliação dos usuários do site IMDb, Across the Universe mereceu a nota 7,6. Os críticos, por sua vez, foram mais “duros” com o filme… bem, na verdade, houve quase um equilíbrio nas opiniões das pessoas que tem textos publicados no site Rotten Tomatoes: 78 críticas foram positivas para o filme e 66, negativas. 

Pessoalmente, tenho uma curiosidade sobre o que os fãnáticos dos The Beatles acharam do filme. Se um de vocês ler esta crítica, por favor, fale nos comentários o que acharam de Across the Universe.

Em sua trajetória, este filme ganhou um prêmio apenas e foi indicado a outros oito – incluindo uma indicação para melhor figurino no Oscar do ano passado (ele perdeu para Elizabeth: The Golden Age). O único prêmio que ele recebeu foi para o diretor de fotografia Bruno Delbonnel no Camerimage.

Na questão de bilheteria, o filme foi relativamente bem. Conseguiu pouco mais de US$ 24,3 milhões nos Estados Unidos. Podia ter faturado mais – especialmente porque ele deve ter saído caro -, mas não está mal para uma produção sem “estrelas” no elenco.

Esqueci de falar antes… Evan Rachel Wood estrelou, no mesmo ano que este Across the Universe, ao já comentado neste blog The Life Before Her Eyes (que é bem interessantezinho, diga-se). Depois, ela participou do também comentado The Wrestler, como a filha do personagem principal vivido por Mickey Rourke, e neste ano vai aparecer no novo filme de Woody Allen. Nada mal, hein? Whatever Works, escrito e dirigido por Allen, foi finalizado e tem estréia prevista no Festival de Cinema de Tribeca em abril. No filme, Wood interpreta Melodie. No elenco, ainda estão Patricia Clarkson, Henry Cavill, entre outros. Jim Sturgess, por sua vez, estrelou em 2008 o filme The Other Boleyn Girl – comentado neste blog, onde o ator faz um belo trabalho. Depois, estrelou 21 – que eu ainda não assisti, mas que está minha “listinha” para ser visto – e Fifty Dead Men Walking. Este ano ele poderá ser visto em Crossing Over (com a brasileira Alice Braga e Harrison Ford) e em Heartless

CONCLUSÃO: Um filme no melhor estilo “paz e amor” ou “faça amor, não faça guerra” que retoma uma parte importante das canções da banda inglesa The Beatles para contar uma história de amor e de uma época. Para quem sempre pensou em “falar o que estava sentindo através de músicas que adora”, este é o melhor exemplo de que isso é possível. ;) Bem feito e com um elenco que surpreende pelo talento dramatúrgico e, especialmente, vocal, este é daqueles filmes para assistir sem culpa – e também sem grandes expectativas. Ninguém vai achar algum grande “sentido” em Across the Universe, e nem algum questionamento importante. O filme é, na melhor concepção possível, um belo entretenimento. 

SUGESTÃO DE LEITORES: Across the Universe foi sugerido, há muito, muito tempo atrás, pelo estimado leitor Zeus. Que, aliás, anda bastante sumido… Pois finalmente, Zeus, assisti a esse filme. Como você e os demais leitores deste blog podem perceber, pouco a pouco vou indo atrás de todos os filmes sugeridos por aqui. Em seguida, me espera outro filme alemão… e vamos que vamos!!!

Auf der Anderen Seite – The Edge of Heaven – Do Outro Lado

4 de março de 2009 9 comentários

aufderanderen22

Existem filmes ótimos. Um bocado. Mas existem filmes que vão um passo à frente. São estes que, quando você pensa sobre “notas” para classificar os filmes, fazem você querer abaixar as notas de todos os outros para poder valorizá-lo melhor. São as produções que classifico como excepcionais, ou o que os franceses chamam de “crème de la crème”. Auf der Anderen Seite é um destes filmes. Eu poderia passar horas escrevendo sobre ele, sobre seus variados aspectos, sentidos, “morais”, temas, qualidades, etcétera. Mas vou me conter. Desta vez, melhor do que em outras, este é o típico filme que precisa ser visto, simplesmente.

A HISTÓRIA: Um filme sobre duas mortes. E entre uma história e outra, conflitos familiares, a busca pelo amor, diferenças culturais e o perdão. A primeira pessoa que vemos nesta história é Nejat Aksu (Baki Davrak), que faz uma viagem em busca de algo que ainda não sabemos – e que talvez seja difícil de resumir em uma palavra-conceito. Pouco tempo depois dele aparecer na tela, acompanhamos a tentativa de seu pai, Ali (Tuncel Kurtiz) em conseguir aliar amor, desejo, sexo e dinheiro com a presença de Yeter (ou Jessy, interpretada por Nursel Köse). Como as coisas não saem bem, Nejat assume a missão de buscar uma certa redenção, voltando para a Turquia em busca da filha de Yeter, Ayten Öztürk (ou Gül, interpretada por Nurgül Yesilçay), uma moça que, a exemplo de Nejat, se desencontra e logo consegue encontrar outra vez as suas raízes – ainda que de uma forma nada idealizada.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Auf der Anderen Seite): Difícil fazer um resumo que seja pelo menos justo com este filme. Assim como será complicado falar apenas de alguns aspectos dele. Talvez por isso eu esteja escrevendo esta crítica apenas três dias depois de vê-lo (bem, também foi falta de tempo, mas não apenas isso). Como jornalista, passei por isso algumas vezes. Por essa dificuldade de escrever sobre algo tão peculiar, interessante, que você fica com medo de fazer comentários “abaixo” do que a produção merecia. Bem, mas como estou na chuva…

Escolhi Auf der Anderen Seite graças ao resultado da primeira enquete que fiz neste blog. Tinha ouvido falar muito bem do diretor Fatih Akin mas, até então, não tinha visto a nenhum filme dele. E que maravilha começar com este Auf der Anderen Seite. Fatih Akin não apenas dirigiu com mãos habilidosas e olhar cuidadoso este filme, mas escreveu cada linha deste roteiro, desta história incrivelmente profunda e ampla.

Um dos primeiros temas do filme é a aproximação/distanciamento entre as culturas alemã e turca – a primeira representa uma das principais economias da União Européia, a segunda tenta entrar no “universo europeu” há muitos anos, sem sucesso até agora. Eles ainda não podem ser considerados todos europeus. E não são, desde logo, iguais. Pelo contrário… o filme mostra o quanto eles são diferentes – ainda que muitos turcos tenham migrado para a Alemanha com o fim da Segunda Guerra Mundial, como os próprios pais do diretor.

Mas além destas questões, uma das grandes mensagens do filme é de que, descontadas as influências de criação e do “entorno” de cada um, todos nós estamos unidos pelos mesmos sentimentos de compaixão, dor, busca pelo amor e/ou felicidade, desejo de superação e de buscar um sentido maior do que o da nossa reles existência. Não importa se você é turco, alemão, japonês ou brasileiro… temos mais em comum do que muitas vezes gostaríamos de admitir – dificuldade essa que normalmente cria muitos problemas e incompreensões.

Então como pano de fundo de uma história sobre família e alguns aspectos da nossa condição humana, Auf der Anderen Seite coloca a questão política e de resistência a padronização das pessoas. Isso se pode perceber pelo simbolismo das duas manifestações urbanas que o diretor recria – uma na Alemanha e outra na Turquia – e por toda a perseguição que sofre mãe e filha neste filme. Por um lado, Yeter é perseguida por ser de origem turca por alguns de seus compatriotas que não admitem que ela tenha caído na “libertinagem” em um país estrangeiro, como é o caso da Alemanha. De outro lado, Ayten é perseguida por discordar do governo turco e de seus “abusos”, por ser uma espécie de terrorista e, quando resolve cuidar da própria vida ao invés de se tornar uma peça a mais da “resistência”, ela é vista com reprovação pelos antigos aliados. Ninguém parece ter liberdade para realmente pensar por sua conta – algo muito usual no mundo atual, em que os que discordam de algo ou buscam um caminho diferente são vistos quase como aberrações.

Mas fora estas questões menos “evidentes”, Auf der Anderen Seite trata de questões muito fortes em um nível de relações pessoais. O tema da família é o mais potente. Somos apresentados às necessidades e aos erros dos pais – curioso que nenhuma das famílias protagonistas está completa, sempre está formada por apenas uma das pessoas do casal -, assim como ao “outro lado” da moeda, ou seja, às necessidades e aos erros dos filhos. Existem mancadas que são praticamente impossíveis de serem perdoadas. Mas Auf der Anderen Seite comprova, por A + B, que mesmo estas são passíveis de redenção.

Fatih Akin faz um filme essencialmente esperançoso – pelo menos no meu ponto de vista. Existe ignorância e violência no mundo? Algumas vezes as pessoas que mais amamos são capazes das piores coisas? Existe desigualdade entre sociedades e repressão entre os indivíduos? Ok, tudo isso é verdade e existe na prática, mas como encaramos a vida e estes fatos define muito sobre nós e sobre nossa capacidade de contemplar a paisagem que temos pela frente. A esperança do diretor e roteirista reside justamente em seu voto de confiança nas pessoas, que são capazes de errar, decidir pelos piores caminhos, mas que também são capazes de perdoar e de escolher novas direções – e o mesmo vale para suas vítimas.

Um dos aspectos mais interessantes deste filme, diferentes de outros que eu já vi, é que ele não é linear e que, até onde se pode ver, ele não faz muita questão de explicar isso. (SPOILER – não leia o resto desse parágrafo se você ainda não assistiu ao filme). Então, no início de Auf der Anderen Seite, você ainda não sabe que aquele começo é, na verdade, o fim do filme. E que as histórias de Yeter e Ayten as quais somos apresentados, que parecem ser separadas pelo tempo, na verdade ocorreram simultaneamente. Essa é uma grande sacada do diretor/roteirista, porque com essa forma de narrar esta história ele nos deixa estupefatos, de forma natural, sobre os desencontros que a vida pode nos propiciar. E eles ocorrem, quase que diariamente. Então outro tema desta produção é este, o dos encontros (como o de Nejat e Lotte) e dos desencontros (de Yeter e Ayten) incríveis que a vida pode provocar. E não adianta fazer torcida ou pensar que podia ter sido diferente… o que aconteceu é simplesmente o que aconteceu.

Como comentei rapidamente antes, algo curioso de Auf der Anderen Seite é que nenhuma família retratada está “completa”. Temos as histórias do aposentado Ali e seu filho professor universitário Nejat – que perdeu a mãe quando ainda era criança; da prostituta viúva Yeter e sua filha revolucionária Ayten – que, aparentemente, foi criada distante da mãe e sem a figura paterna; e de Charlotte Staub, conhecida também por Lotte (interpretada por Patrycia Ziolkowska), que vive com a mãe, Susanne (Hanna Schygulla), e sem o pai – que está vivo, mas que aparentemente não se dá bem com a ex-mulher. Então, nesta história, todos os filhos cresceram sem uma das figuras familiares por perto – ou pai, ou mãe – e, como é inevitável, seus pais enfrentaram dificuldades para conseguir educá-los ou, pelo menos, buscar o melhor para seus rebentos. São histórias de gente que passa ou passou por dificuldade e que não tem, exatamente, grandes perspectivas pela frente – até devido a algumas escolhas erradas que fizeram. 

Mas Auf der Anderen Seite tem espaço para todas as visões e para os momentos de contemplação. Há tempos – talvez apenas em Üç Maymun – eu não via a uma direção de fotografia tão inspirada e maravilhosa. Mérito do diretor de fotografia Rainer Klausmann, o mesmo do recentemente comentado Etz Limon, assim como do candidato ao Oscar 2009 pela Alemanha, Der Baader Meinhof Komplex. A trilha sonora, mais que na média das produções atuais, também ganha outro nível de importância nesta história. O trabalho que permite o casamento perfeito entre imagens, música e sentimentos é assinado por Shantel

As paisagens maravilhosas do filme são uma carta de amor de Fatih Akin ao país de seus familiares. Nascido em Hamburgo em 1973 – ele é bastante jovem -, o diretor é filho de turcos que emigraram para a Alemanha na década de 60. Talvez por isso ele possa contar, de foma tão interessante, o que significa essa ligação de amor e de interesse dos descendentes turcos mostrados em Auf der Anderen Seite. O diretor gasta o tempo exato mostrando parte da riqueza visual da Turquia no mesmo passo em que mostra as paisagens urbanas da Alemanha. O ambiente não é meramente acessório, ele é ilustrativo. Momentos especialmente interessantes são os que mostram o “quadrado” limitado que acaba sendo a vista de Ali por algum tempo na prisão (janela esta pela qual não somos lançados, mas que imaginamos ao nos colocarmos no lugar do personagem) e, depois, o contraste com a imensidão do mar na qual ele se lança – “junto” com o filho. Bastante interessante. Porque isso não significa apenas uma escolha de paisagem no filme, mas especialmente de significado.

Algo curioso do roteiro de Akin é que ele claramente divide esta história em três atos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um inominado, que acontece antes e depois da marcação dos atos que tem nome; e dois que definem a morte de personagens fundamentais nesta história. Acredito que apenas eu não me dei conta que Yeter iria morrer… talvez pelo fato dela ter se apresentado antes como Jessy. Não sei. Só sei que foi uma surpresa quando ela é morta. Depois, quando é “anunciada” a morte de Lotte, eu estava mais esperta. Ainda assim, e isso que me chamou a atenção, o fato de nos adiantar a morte das personagens não torna menos surpreendente o que acontece com elas. Um mérito importante do filme, que mostra que as mortes, não importa o quanto a imprensa e as pessoas queiram nos fazer acreditar, jamais poderão ser consideradas banais. Por mais que elas sejam “anunciadas”.

A produção ainda toca em um assunto sempre muito presente na vida de qualquer pessoa: a sexualidade. Temos, por um lado, Nejat e sua aparente capacidade de “abstrair” do sexo, talvez até como resposta ao caráter mais “aberto” (alguns podem tachar de “libertino”) do pai – que não teme em levar uma prostituta para viver com ele. Do outro lado, temos a Ayten e Lotte, que chocam alguns conservadores com seu amor ainda um tanto difícil de ser aceito por todos da sociedade. Ayten, inicialmente, tão segura na luta política e no amor, parece buscar o caminho oposto da mãe, que aparentemente seria “submissa” e pouco libertária – ela se inclinou pela prostituição não por gosto, mas por necessidade, por exemplo.

Os filhos parecem querer nadar em direção contrária de seus progenitores, mas é Lotte quem resume tudo ao declarar, em seu diário, que talvez a incompreensão de sua mãe, Susanne, venha justamente do fato de ser tão difícil para ela aceitar que a filha esteja seguindo seus passos. Parece que existe aí uma lógica proporcional: por mais que uma pessoa tente negar as suas origens e fazer o contrário de seus pais, mais ela se aproxima deles. Talvez o melhor caminho para não fugir e nem seguir os mesmos passos seja, justamente, o de saber que somos capazes de fazer ambas coisas ao mesmo tempo. Ter consciência disso já é muita coisa.

Mas no fim desta história, entre outras coisas, Auf der Anderen Seite é um grande filme sobre o autoconhecimento, a busca por seus valores, raízes, por aquela mola que nos impulsa e, sobretudo, sobre o perdão. E não apenas o perdão para com os outros, para com a pessoa que nos fez mal – e que nos formou e com a qual sempre nos espelhamos -, mas especialmente sobre o perdão para nós mesmos. 

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Auf der Anderen Seite, conhecido por muitos como The Edge of Heaven, merecidamente ganhou 18 prêmios em sua trajetória – até poderiam ter sido mais -, além de ter sido indicado a outros oito prêmios. Entre os que foi indicado, mas não ganhou, estão o de Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2007; o César de Melhor Filme Estrangeiro no festival homônimo francês; e o de Melhor Filme Europeu nos Prêmios Goya, em solo espanhol. Mas na lista dos prêmios que venceu estão títulos importantes, como o de Melhor Direção, Melhor Edição, Melhor Roteiro e Melhor Filme no German Film Awards de 2008; o de Melhor Roteiro nos Prêmios César e no Festival de Cannes; e os de Melhor Diretor, Melhor Edição, Melhor Ator Coadjuvante (para Tuncel Kurtiz) e de Melhor Atriz Coadjuvante (para Nursel Köse) no Festival de Cinema “Antalya Golden Orange“, que é promovido anualmente na cidade de Antalya, na Turquia.  

Além de prêmios, o filme acumula uma boa avaliação do público. Pelo menos se levarmos em conta a opinião dos usuários do site IMDb, que conferiram a nota 8 para Auf der Anderen Seite. Não está mal, mas poderia ser maior. ;)

Os atores, acho que eu nem precisava falar, estão excepcionais neste filme. Especial destaque para Hanna Schygulla, atriz de vários filmes do também alemão Rainer Werner Fassbinder (que também estará nesta minha “retrospectiva” do cinema alemão), que faz uma interpretação verdadeiramente inspirada. A cena em que ela esbraveja contra a vida em seu quarto de hotel vazio é maravilhosa.

Além dos outros aspectos técnicos mencionados, vale destacar o trabalho de edição feito pelo londrino Andrew Bird. Sem aqueles cortes justos e aquela montagem dos acontecimentos, o filme não teria parte de sua potencia narrativa.

Não tinha comentado antes, mas acrescento esta informação agora. Auf der Anderen Seite conseguiu uma bilheteria baixa nos Estados Unidos: pouco mais de US$ 741,2 mil. Não por acaso não existe críticas dele no Rotten Tomatoes – sinal de que pouca gente viu o filme na terra do Tio Sam.

CONCLUSÃO: Um filme que precisa ser visto. Muito bonito visualmente e por sua trilha sonora, ele se destaca especialmente pelo roteiro e pela direção cuidadosa do alemão de origem turca Fatih Akin. Questões familiares estão no centro da história, que trata também dos encontros e desencontros da vida, sobre o amor, o sexo, as paixões que nos movem (sejam políticas, humanistas ou por outras pessoas) e nossa capacidade de perdoar. Ainda assim, o filme não se exime de tratar de questões políticas, do respeito pelas origens e da busca por caminhos mais amplos e melhores. De quebra, esta história nos mostra que estes caminhos, talvez, não sejam exatamente os mais óbvios.

SUGESTÕES DE LEITORES: Lembrando que este filme é o segundo de uma lista de produções de origem alemã que eu estou comentando aqui no blog como resultado da enquete que foi proposta por aqui e que terminou no dia do Oscar. Ainda vou comentar algum filme mais “novinho” da safra, mas garanto também que logo vou partir para “clássicos” do cinema da Alemanha – ou, pelo menos, para filmes importantes de diretores que se tornaram referência daquele cinema europeu.

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