Der Baader Meinhof Komplex – O Grupo Baader Meinhof Abril 30, 2009
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Não é nada comum a história de um grupo político extremista, posteriormente considerado terrorista, virar filme. Muito menos uma superprodução. Então por que o grupo RAF (de Rote Armee Fraktion, ou Fração do Exército Vermelho) rendeu o indicado ao Oscar e, de quebra, o filme mais caro da história da Alemanha, chamado Der Baader Meinhof Komplex? Uma das razões principais é que a Alemanha é um dos únicos países que verdadeiramente discute e expõe as suas chagas. Depois, porque o RAF marcou nada menos que três décadas da história do povo alemão. O resultado da adaptação de sua história para os cinemas é um filme de ação repleto de mortes, explosões e drama psicológico, com um roteiro que vai fundo nos bastidores do grupo. Mas este roteiro, como consequência de um enfoque maior nos integrantes da “primeira geração” do grupo, deixa um bocado de uma possível contextualização histórica de fora. Além de compreensível, achei a escolha necessária – afinal, o cinema não está aí para ser didático.
A HISTÓRIA: Narra a conduta dos movimentos de resistência à política alemã nos anos 60 e 70, partindo dos discursos de Ulrike Meinhof (Martina Gedeck) até a ação de “guerrilha urbana” comandada pelo casal Andreas Baader (Moritz Bleibtreu) e Gudrun Ensslin (Johanna Wokalek). O corte histórico vai desde as férias da família Meinhof na ilha de Sylt, em junho de 1967, até o assassinato do empresário Hanns Martin Schleyer (Bernd Stegemann) na fronteira da Bélgica com a França em 1977. Neste corte de uma década, acompanhamos as mudanças no movimento que surgiu com alta dose de ideologia e terminou com a execução de diferentes crimes e, de quebra, conhecemos alguns dos personagens do que foi considerado duas das três gerações da RAF.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Der Baader Meinhof Komplex): Andei lendo um ou outro texto por aí que critica o tom “hollywoodiano” desta superprodução alemã. Como se todo filme com explosões, bombas e assassinatos em primeiro plano fosse coisa do cinema estadunidense – falta de informação ou memória história do cinema, eu diria. Como, afinal, alguém pensava em contar uma história sobre atentados a bomba e crimes variados sem mostrá-los, sem fazer um filme que roçasse, pelo menos em parte, no gênero da ação?
Não acho que o problema de Der Baader Meinhof Komplex esteja em suas cenas de violência, crimes e explosões. Afinal, tudo isso fez parte da trajetória deste grupo chamado RAF – e que no filme e na História propriamente dita, devo salientar, muda de nome várias vezes. O problema do filme, como muitas histórias “baseadas em fatos reais” – ainda que esta linha não apareça em momento algum na tela – é que ele recria a “verdade” deixando muitos elementos de fora. E se ele sofre de alguma característica negativa do cinema hollywoodiano é o de um roteiro raso, que dedica muito mais tempo – e close de câmera – em tiros na cabeça do que em explicar o que está acontecendo dentro de um contexto e com informações realmente precisas (como o número de mortes em cada atentado do RAF, por exemplo, ao invés de sugerir várias mortes sem fixar o valor exato).
Longe de mim defender a conduta de um grupo que, em 28 anos de atividade, matou 34 pessoas. Mas, convenhamos, que imagem o filme dirigido por Uli Edel, com um roteiro de Bernd Eichinger (com ajuda do diretor) inspirado no livro do jornalista Stefan Aust nos passa? A impressão que temos, especialmente com os ataques do grupo contra embaixadas e de mais pontos estratégicos dos Estados Unidos em solo alemão, é de que eles fizeram muito mais do que 34 vítimas pelo caminho. Tanto que chega-se, lá pelas tantas, ao absurdo de comparar os atentados com bomba do grupo com cenas de guerras.
Claro que o assassinato de quem quer que seja não se justifica nunca, mas é comparável 34 mortes em 28 anos de atividades de um grupo contrário ao apoio que o governo dava para os Estados Unidos, com as mortes, neste período, provocada pelos ianques de milhares de pessoas em conflitos como a Guerra do Vietña? A história revela que apenas nesta guerra – repudiada pelo grupo responsável pelo surgimento da RAF – foram mortos mais de 3 milhões de vietnamitas – o número exato deste “mais”, como sempre, não se sabe. Isso para citar apenas esta guerra, sem contar as pessoas que foram mortas dentro da Alemanha durante os anos de “estado policial”, como definiu Ulrike Meinhof.
Por tudo isso, é importante dar a mão a palmatória que poucos países como a Alemanha tratam de forma tão aberta as chagas de sua história recente ao mesmo tempo em que é fundamental saber de que forma estes assuntos são tratados. Seria muito inocente da minha parte assistir a Der Baader Meinhof Komplex e simplesmente fazer uma reverência aos seus autores. Recomendo a busca de mais informações para os interessados, seja em sites que tratam da história da RAF (como este link da Deutsche Welle, que faz uma retrospectiva de reportagens sobre o grupo; ou este texto interessante do blog Ops!) ou naqueles que contam um pouco dos “bastidores” da época. Ou seja, que contextualizam o movimento – algo que o filme não faz. Ou melhor, faz de maneira ligeira e um bocado irresponsável.
Se formos olhar apenas pela ótica de Aust, Eichinger e Edel, o grupo de esquerdistas que vira um grupo de “terroristas” – adjetivos financiados pelos governos, sempre – parece um bocado utópico e até infantil. Afinal, eles chamam os policiais de “porcos” e defendem o assassinato de todas as pessoas que são a favor dos capitalistas ianques. Certo que a maioria do – para não dizer todo – discurso panfletário parece exatamente isso: simples textos repletos de palavras de ordem que, no fim das contas, parecem infantis e irresponsáveis. Mas fora uma pequena parte do discurso de Meinhof – que era o cérebro da organização -, especialmente no final de sua vida, que realmente parece exagerada e pueril, o essencial de seus questionamentos eram e ainda são válidos. O problema é que o movimento da RAF, assim como todos os outros que existiam no afã de buscar um “mundo mais igualitário e justo”, se mostrou inócuo e incapaz de perdurar. Até porque eles usaram de um recurso que jamais teria êxito – pela desigualdade de forças: o da violência.
Mas deixando a questão do roteiro – que, baseado no livro de Stefan Aust, cai nos mesmos erros que o original – de lado por um tempo, vamos falar da qualidade técnica de Der Baader Meinhof Komplex. Não por acaso o filme se tornou um dos mais caros da história do cinema alemão – digo um dos mais porque Perfume, por exemplo, que é co-produzido pela Alemanha, custou mais que ele. Der Baader Meinhof Komplex consumiu nada menos que 20 milhões de euros. E, para a sorte de seus produtores, acabou se pagando – apenas na Alemanha, até novembro de 2008, ele havia faturado pouco mais de US$ 21,3 milhões.
A reconstrução de época – anos 60 e 70 – é perfeita, com a filmagem de cenas difíceis, como o conflito entre estudantes, manifestantes e policiais durante a visita de Farah Pahlavi, imperatriz do Irã (última da Pérsia), à Alemanha, feita de forma exemplar. Uli Edel mostra punho firme, visão de conjunto e talento narrativo nesta e em outras cenas do filme. Por outro lado, se lança ao recurso fácil da “contextualização histórica” da época com um videoclipe regado a rock’n roll pelos minutos 19 e 20 do filme. Algo rápido e ligeiro, afinal, é preciso dar mais espaço para as “loucuras” dos terroristas sanguinários do RAF. Quero deixar claro que não estou defendendo ninguém, mas é que chega a ser cômica a escolha dos narradores desta produção. Para resumir, achei muito, mas muito desigual o tratamento que é dado para fatos mais ou menos importantes.
A direção de Edel é competente, para resumir, ainda que o material com o qual ele trabalha – e que ajudou a lapidar – seja fraco, partidário e inacabado. As cenas magistralmente filmadas – especialmente as de ação e de “aprofundamento psicológico” dos personagens – devem muito ao trabalho do diretor de fotografia veterano Rainer Klausmann. Gostei também do trabalho do editor Alexander Berner, que garante um ritmo acelerado para quase todo o filme – ainda que, admito, os quase 150 minutos da produção me cansaram um pouco. A trilha sonora, assinada por Peter Hinderthür e Florian Tessloff, por sua vez, é perfeita – incluindo canções que marcaram a época de “resistência” retratada. A direção de arte e a equipe responsável pelos figurinos também fizeram um trabalho competente.
Mas um dos grandes méritos do filme, para mim, foi o de reunir um elenco feminino de primeiríssima linha. Ouso dizer que Der Baader Meinhof Komplex nos apresenta o melhor grupo de intérpretes da atualidade – pelo menos no que se refere às novas gerações. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Tanto isso é verdade que o filme se dá ao luxo de ter Alexandra Maria Lara em uma ponta – ela aparece, praticamente, apenas para morrer. Nadja Uhl, Hannah Herzsprung e Katharina Wackernagel também não aparecem muito – ainda que mais que Maria Lara. E as estrelas do filme… Martina Gedeck e Johanna Wokalek dão um show e mostram porque são dois dos nomes centrais do cinema alemão atualmente.
Do lado masculino, além do já citado Moritz Bleibtreu, o veterano Bruno Ganz em um papel secundário, assim como Stipe Erceg (de Edukators), o inspirado Vinzenz Kiefer, Tom Schilling (que interpretou Adolf Hitler no ainda inédito Mein Kampf), e os competentes Sebastian Blomberg, Hans Werner Meyer e Simon Licht. Ainda que o filme seja mais feminino que masculino – basta perceber o tempo em que cada personagem ganha de destaque na história.
NOTA: 8.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Dei a nota acima para o filme mais pela qualidade técnica e pelas interpretações do elenco do que pelo roteiro – que, insisto em afirmar, simplificou demais a história do grupo. Certo que seria impossível contextualizar o que aconteceu de principal nas conturbadas décadas de 60 e 70, mas acho que um pouco mais de cuidado em mostrar a base do discurso do grupo não faria mal para ninguém. Certo que ninguém, atualmente, quer saber das motivações dos extremistas e/ou terroristas – ainda que, para mim e para o personagem de Bruno Ganz na história, essa compreensão deveria ser vista como fundamental. Uma coisa são os loucos que dão tiros nos outros motivados por uma frustração mal resolvida internamente – e que usam a desculpa da “manipulação da mídia” para ter idéias de assassinato -, outra bem diferente são os grupos que partem para a violência depois de serem motivados por causas políticas. A estes últimos é preciso, penso eu, dar atenção e agir com parcimônia e autocrítica.
Um dos principais erros da Alemanha, assim como de tantos outros países naqueles anos de “caça aos comunistas”, foi o de silenciar por meio de tiros as pessoas que eram contrárias a suas políticas. Um Estado policial não existiu apenas na Alemanha, naqueles anos. E algo que me incomodou nesta história foi mostrar o governo alemão, normalmente, como “bonzinho”, como vítima de um grupo de “porraloucas” – como, muitas vezes, é retratada a RAF. Ou alguém vai me dizer que o governo alemão não torturava e prendia pessoas que eram contra suas políticas, como ocorria no Brasil? Duvido muito que 25% dos alemães chegaram a apoiar a RAF por pura demagogia ou “insanidade coletiva”, como havia ocorrido anteriormente com o regime nazista. Sempre acho que é preciso olhar para quadros como este com maior atenção, para saber o que faz com que tanta gente apoie algo que, inicialmente, é absurdo.
(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei interessante esta entrevista com Stefan Aust que compara o Outono Alemão, em 1977 – período em que foi sequestado o empresário Schleyer, o avião da Lufthansa e quando alguns dos líderes da RAF cometeram suicídio na prisão -, com o 11 de setembro dos Estados Unidos – fazendo referência ao impacto que os fatos tiveram para a memória dos alemães e dos norte-americanos. Ele diz ainda que muita gente, atualmente, na Alemanha, ainda trata a RAF como um grupo de “heróis revolucionários”. E que a intenção de seu livro e do filme é a de trazer “o grupo de volta para a terra. Fazer deles humanos e mostrar o que eles realmente fizeram. Porque terrorismo é terrorismo e as pessoas às vezes esquecem-se disso”. Certo. Agora entendi, ainda mais, porque Der Baader Meinhof Komplex chegou entre os finalistas ao Oscar 2009 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Ainda que ele fosse violento demais para ganhar a estatueta, ele chegou até lá por deixar claro essa mensagem de combate aos terroristas, tão importante nos dias atuais.
Aproveitando que estou falando em prêmios… Der Baader Meinhof Komplex ganhou dois prêmios e foi indicado a outros seis em sua trajetória até o momento. Os únicos que ele venceu foram secundários… o de melhor produção para Bernd Eichinger no Bavarian Film Awards e o Bronze Frog para Rainer Klausmann no Camerimage. Nada significativo, para resumir.
Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,4 para o filme – um bocado generosa, para os padrões do site. Enquanto isso, os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 17 análises positivas e cinco negativas para a produção – o que lhe garantiu uma aprovação de 77%.
Mesmo não sendo muito justo com a história, o filme parece acertar em alguns pontos. Como mostrando que os terroristas da RAF atacavam, essencialmente, alvos estratégicos – exceto na fase final, quando começaram a visar inclusive alvos civis. Por isso, talvez, irritavam tanto o governo alemão, que perdeu alguns nomes importantes da época. Também acerta ao mostrar um certo despreparo – ou seria conivência – do governo em enfrentar os terroristas, facilitando, ao que tudo indica, as suas mortes na prisão. Dez anos depois do final do grupo – que terminou, oficialmente, em 1998 -, o filme foi lançado e, com ele, reapareceram uma série de dúvidas e perguntas na sociedade alemã sobre aqueles anos em que a RAF esteve atuante. Reportagens como esta lançam dúvidas sobre erros do serviço secreto e da Justiça alemães – como a acultação de informações para que inocentes fossem condenados e para que culpados ganhassem indultos.
Um detalhe: este é um filme produzido pela Alemanha, França e República Checa.
CONCLUSÃO: Uma superprodução do cinema alemão que tenta contar, em pouco menos de duas horas e meia, dez anos de atividade do grupo RAF, responsável por 34 mortes em 28 anos de existência. Sem contextualizar a história do grupo de esquerdistas que acaba se transformando em “terroristas” na visão do governo alemão, o filme perde em legitimidade. Mas, mais que isso, ele abre mão de contar em detalhes sobre a vida de alguns dos envolvidos, incluindo os integrantes da RAF e, principalmente, de suas vítimas. No fim das contas, somos apresentados a um recorte superficial da vida dos líderes do movimento e a praticamente informação alguma de seus alvos. Tecnicamente bem feito e com um elenco feminino de primeira grandeza, é o típico filme que se perde em um roteiro fraco e relapso.
SUGESTÕES DE LEITORES: Der Baader Meinhof Komplex acabou entrando na minha lista de filmes alemães para serem assistidos depois que este país foi escolhido pelos leitores do blog para uma série de críticas no site. Mas, devo comentar, que eu estava de olho nele desde o final de 2008 – afinal, eu vinha acompanhando a “polêmica” que a produção estava levantando na Alemanha. E minha curiosidade aumentou ainda mais quando ele foi pré-selecionado para o Oscar deste ano – ainda que eu já soubesse que ele praticamente não tinha chances de ganhar a estatueta. Foi bom ter assistido ao filme, ainda que ele tenha ficado muito abaixo do que eu esperava. Não gosto de filmes que procuram ser sérios demais e que não conseguem chegar nem perto de contar uma história legítima.
Okuribito – Departures – A Partida Abril 20, 2009
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A maioria dos apostadores do Oscar 2009 errou na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Poucos acertaram a vitória de Okuribito, representante do Japão na disputa. Mas ao assistí-lo, esta noite, percebi as razões que fizeram os votantes da Academia escolherem esta produção no lugar de outras que eram consideradas favoritas. Okuribito é um filme lindíssimo, um dos mais bonitos – se não, o mais – que eu já assisti sobre o tema da morte. Sem contar o restante do temário do filme, como a quebra de preconceitos, a mudança de rumos que uma pessoa pode ter na vida e, o principal, o amor que acaba sendo maior que tudo, maior que mágoas, que abandonos ou diferenças de opiniões. Belíssimo, no melhor estilo do cinema japonês, que preza pelos gestos, expressões, detalhes e o silêncio – um prêmio para as pessoas cansadas da verborragia de outras produções.
A HISTÓRIA: Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki) vive com a mulher Mika (Ryoko Hirosue) em Tóquio. Ele saiu de uma pequena cidade no interior do Japão para buscar o seu sonho de ser um violoncelista em uma orquestra na cidade grande. Endividado por seu sonho, ele decide voltar atrás quando a orquestra da qual ele faz parte é dissolvida. Mika aceita a idéia sem pestanejar, e eles voltam a morar em Yamagata, onde o casal não precisa pagar aluguel porque Daigo herdou uma casa da mãe, morta dois anos antes. Procurando trabalho, ele encontra uma oportunidade incrível em um jornal, sem saber que será aceito em um emprego considerado tabu na sociedade local.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Okuribito): Como tantos outros filmes que nos “ensinam” histórias edificantes, Okuribito começa com uma importante reviravolta na vida do protagonista. Afinal, nunca é fácil aceitar que aquele “sonho” que se tinha quando alguém era criança, na prática, se tornou inviável. Ou, como o próprio Daigo admite logo no início, que talvez seu talento não chegue tão longe quanto ele – e outras pessoas, como a imponente ainda que ausente figura paterna – gostariam. Então ele se desfaz do violoncelo que lhe tirava o sono – poucas coisas podem deixar um japonês mais inquieto do que uma dívida – e, de quebra, de um sonho de vida que ele não sabe muito bem se era seu ou do pai que lhe abandonou criança. Mas este primeiro corte na vida do personagem é apenas o estopim de partida de Okuribito. O que vem depois é muito, mas muito mais interessante.
Os japoneses, para quem não sabe muito sobre sua cultura e seu “modo de vida”, prezam muito a questão da honra e da família, o respeito pelos mortos e a idéia de que a morte é apenas uma “partida”, ou seja, a saída desta vida para outra mais plena – os orientais acreditam que a morte seja apenas um renascimento. Neste link do blog Micropolis vocês podem encontrar um texto curioso sobre celebrações para os mortos e outros detalhes sobre como o assunto é tratada nas culturas orientais. Sabendo de tudo isso, é fácil entender o repúdio que muitos japoneses sentem com as pessoas que “lucram” com a morte dos outros ou, pior, tratam os entes queridos das pessoas quando mortos como se fossem apenas um “objeto” que precisa ser colocado em um caixão. E um homem sensível, um músico como Daigo, se surpreende sendo contratado justamente para executar rituais de “passagem”, ou seja, de preparação dos mortos para que eles sejam cremados – no Japão as pessoas não são mais sepultadas.
Daigo se sente envergonhado de trabalhar em algo assim – porque sabe que esta profissão é mal vista por sua sociedade. Mas ele não abandona seu trabalho, inicialmente, pela bela remuneração que começa a receber – e com pagamentos diários. Como sempre, serviços que a maioria das pessoas não quer fazer, seja na sociedade ocidental ou oriental, são muito bem pagos. Assim sendo, Daigo fica no trabalho, mas escondendo o que ele realmente faz da esposa, Mika – que, como toda mulher oriental, “não se mete demais” na vida do marido, sabendo o momento de perguntar e o de ficar calada (muito diferente de nós, mulheres ocidentais). Aliás, Okuribito é um filme bem bacana também para mostrar como são as relações na sociedade japonesa, tanto na questão de “castas sociais” como na das relações pessoais, entre indivíduos de uma mesma família ou nos ambientes de trabalho.
Mas voltando a história de Daigo… como acontece com quase todos os preconceitos que existem em uma sociedade, ele também sente ojeriza, inicialmente, ao trabalho que acabou assumindo por necessidade. Mas, pouco a pouco, ao ver a poesia que existe e, principalmente, o respeito e o amor que representam os gestos do seu chefe e mentor, Ikuei Sasaki (o ótimo Tsutomu Yamazaki), em todas as cerimônias de preparação dos mortos na frente de seus familiares, Daigo perde suas idéias preconcebidas e deixa o preconceito de lado. De forma ainda mais especial quando ele assume o posto de Ikuei naquele trabalho. É verdadeiramente emocionante as cenas das preparações e o desempenho dos atores neste processo.
Mas além da quebra de preconceitos, Okuribito trata do tema do respeito e do amor que todas as pessoas sentem em relação ao seus entes queridos que um dia, inevitavelmente, irão morrer. O processo da partida é doloroso, não importa o quanto preparadas ou “resolvidas” estejam as pessoas que ficam vivas e acompanham a cerimônia de despedida de quem está partindo. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Okuribito, indiretamente, também trata das entranhas de diferentes famílias e suas formas de enfrentar a morte de um ente querido, como quando ocorre a inesperada perda da batalhadora e simpática Tsuyako Yamashita (Kazuko Yoshiyuki), a proprietária da casa de banhos frequentando há décadas pelas famílias da pequena cidade. Até a véspera de sua morte, Tsuyako defendia com unhas e dentes o seu negócio, resistindo aos apelos do filho (o ótimo Tetta Sugimoto) em vender a casa de banhos.
Super emocionante a “ponta” do ator Takashi Sasano como Shokichi Hirata, um dos mais fiéis e simples clientes de Tsuyako que nos dá uma grande lição no final do filme. E falando em papéis “secundários”, merece uma menção toda especial a atriz Kimiko Yo, que interpreta Yuriko Kamimura, a secretária de Ikuei e sua fiel amiga (e admiradora) há muitos anos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando Daigo descobre que seu pai (Tôru Minegishi) morreu e reluta em viajar para se “despedir” dele, Yuriko nos dá outra grande lição sobre amor, afeto e as barreiras que o orgulho (e a vergonha) podem formar para separar durante uma vida – pelo menos a terrestre – as pessoas que se amam. Lindo. Bem, acho que sou suspeita para falar, mas achei este filme uma verdadeira obra de arte, belíssimo, delicado e inspirado.
NOTA: 10.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Volta e meia, nos textos aqui do blog, eu destaco as trilhas sonoras e as direções de fotografia dos filmes. Mas poucas vezes eu achei tão digna de menção e de aplausos uma trilha sonora de uma produção cinematográfica quanto desta vez, com Okuribito. Achei verdadeiramente impecável o trabalho de Joe Hisaishi – digo isso para os que não tem coceira ao ouvir música clássica, é claro. Também bastante competente o diretor de fotografia Takeshi Hamada, que nos brinda com cenas belíssimas, tanto exteriores quanto interiores, em diferentes residências japonesas.
O filme, no geral, é bastante bem acabado e cuidadoso nos detalhes. Desde o trabalho de maquiagem dirigida por Iaso Tsuge até o design de produção de Fumio Ogawa. O diretor Yôjirô Takita, que fez um discurso bastante engraçado no Oscar – ele estava visivelmente bastante surpreso em ganhar o prêmio -, fez o seu trabalho com primazia, orquestrando o trabalho dos outros profissionais competentes que ele conseguiu reunir, junto com os produtores, para o projeto. E claro, merece grande parte do crédito deste filme o roteirista, Kundo Koyama – que escreveu uma história e alguns diálogos perfeitos.
Não sei, realmente, se todas as pessoas que assistirem ao filme ficarão tão tocadas por ele quanto eu fiquei. Mas sou suspeita para falar, porque eu sempre fui apaixonada por música, especialmente por violinos e violoncelos, assim como pela cultura japonesa e pelo tema da separação que a morte provoca entre as pessoas que se amam. Então, já viram… juntando tudo isso, não tinha como eu não adorar ao filme.
Okuribito, como dito anteriormente, ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2009, deixando para trás favoritos como Vals Im Bashir e Entre Les Murs. Mas além do maior prêmio da indústria cinematográfica ocidental, este filme levou outros 27 para casa, incluindo 10 conferidos pela Academia de Artes Cinematográficas japonesa – prêmio que seria o equivalente ao Oscar no Japão -, entre eles, o de melhor filme, diretor, roteiro, ator, ator e atriz coadjuvantes. Fora das terras orientais, Okuribito foi agraciado ainda com dois Prêmios da Audiência: como melhor narrativa no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs e como melhor produção no Festival Internacional de Cinema do Hawaii. Ele levou, ainda, fora do Japão, o Grande Prêmio das Américas no Festival Internacional de Montreal. Sem contar outras três indicações a prêmios para os quais acabou perdendo. Nada mal, hein? E muito justo, eu diria.
Os usuários do IMDb conferiram a nota 8,4 para o filme – a maior entre os concorrentes ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2009. O site Rotten Tomatoes, que abriga críticas de diversos veículos de comunicação, têm dois textos positivos e um negativo para a produção. Um dos textos que elogiam a produção é do crítico Eddie Cockrell, da Variety, que destaca a estréia do roteirista televisivo Kundo Koyama no cinema elogiando seu texto detalhista na descrição de personagens.
Okuribito conseguiu uma bilheteria respeitável no Japão: arrecadou, até março deste ano, pouco mais de US$ 53,5 milhões. No Brasil, o filme está previsto para estreiar agora, dia 24 de abril – antes que na França, na Argentina, na Holanda e em outros países.
(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não comentei antes, por puro esquecimento, mas além de todas as temáticas anteriormente citadas, Okuribito ainda aborda um assunto importante na cultura japonesa e na ocidental: a nossa capacidade de perdoar. Achei, neste aspecto, um filme especialmente belo, ao mostrar como Daigo acaba sendo confrontado com a figura paterna desaparecida e, ao perdoá-lo, consegue fazer as pazes consigo mesmo e com seu passado, entendendo de forma muito mais ampla e completa a sua trajetória e a de seus pais, seus sonhos, expectativas e frustrações. Não adianta. Por mais que nademos algumas vezes contra a corrente, mas nada é mais importante do que estarmos em paz conosco e com nossos pais e antepassados. Só assim, acredito, é possível realmente caminhar com segurança e com perspectivas de futuro.
CONCLUSÃO: Um filme bem lapidado sobre as reviravoltas que a vida e a morte podem dar nos rumos das pessoas. No melhor estilo do cinema japonês – ou de parte dele, pelo menos -, Okuribito coloca em primeiro plano a importância do silêncio e da contemplação, da vivência do amor e de demais sentimentos importantes sem a expressão ou manifestação escancarada deles. Bem dirigido e com um roteiro elaborado, atores afinados e uma trilha sonora de arrepiar, é um filme vencedor de diferentes prêmios mundo afora, incluindo o último Oscar de filme estrangeiro. Com um roteiro bastante complexo e amplo, esta produção trata de maneira genérica e, ao mesmo tempo particular, aspectos que definem a cultura japonesa. Entre eles, a importância que eles dão para as relações familiares e para a morte de entes queridos, assim como para o trabalho e suas noções de fracasso, sucesso e de comunidade. Poético, com uma fotografia cuidadosa e inspirada e uns atores de tirar o chapéu, é um destes filmes mais que recomendados.
Der Amerikanische Freund – O Amigo Americano Abril 16, 2009
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É impossível falar do cinema alemão sem citar alguns diretores. Wim Wenders é um destes nomes obrigatórios. Demorei um pouco para falar dele nesta sequência de filmes alemães porque eu já havia assistido algumas de suas obras-primas. Vale citar (e recomendar): Paris, Texas (de 1984), Der Himmel über Berlin (1987), In Weiter Ferne, So Nah! (1993), entre outras produções. Então fui atrás de algum filme mais antigo do diretor ao qual eu não tivesse assistido. E dei de cara com esta preciosidade chamada Der Amerikanische Freund, com dois atores soberbos – e bastante jovens: Dennis Hopper e Bruno Ganz. Só para citar os protagonistas, porque há outros atores fantásticos nesta história de ambição, intriga, assassinatos e uma dose de humanidade comum no cinema europeu, mas bastante ausente naquele que é feito em Hollywood. Uma bela peça de cinema, sem dúvida.
A HISTÓRIA: Tom Ripley (Dennis Hopper) é um negociante de obras de arte que nunca aparece. Ele faz a ponte entre artistas como Derwatt (o ótimo diretor Nicholas Ray) e os leiloeiros que estão ganhando alto com os estrangeiros que começam a viver com a especulação da arte. Sem uma profissão que pode ser definida, Ripley é considerado um bon vivant neurótico, que vive sozinho em uma mansão e que tem como amigos pessoas perigosas como Raoul Minot (o francês Gérard Blain). Apresentado por casualidade ao artesão Jonathan Zimmermann (Bruno Ganz) após um leilão, Tom vê em seu novo “amigo” a pessoa ideal para assumir, em seu lugar, o papel de assassino.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Der Amerikanische Freund): Uma das grandes qualidades do diretor Wim Wenders é a sua percepção para os detalhes da história e, principalmente, pelos efeitos da dualidade humana. Em seus filmes, dificilmente, encontramos como óbvios os papéis de “bandidos” e “mocinhos”. O mais comum é nos depararmos com personagens que vivem sobre a linha que separa os conceitos de bem e mal, algumas vezes parecendo uma coisa, outras vezes, o oposto. A fragilidade e os dilemas humanos, com especial atenção para o nosso carácter de “sermos capazes de quase tudo”, está presente em muitas de suas obras. E nesta, Der Amerikanische Freund, essas características do diretor ficam ainda mais evidentes.
Apenas quase no final do filme, quando é citado o nome completo do personagem de Dennis Hopper, é que eu fiquei com uma pulga atrás da orelha. Seria o personagem de Der Amerikanische Freund o mesmo vivido por Matt Damon em The Talented Mr. Ripley? Mas não pode ser… afinal, eles são tão diferentes! Mas é claro, eles são – e não são, ao mesmo tempo – os mesmos. Me explico: Tom Ripley é uma criação da escritora Patricia Highsmith, uma estadunidense morta em 1995 que ficou conhecida por “reinventar” o gênero de ficção criminal, como define este artigo. Ripley foi o protagonista de cinco livros da escritora – logo, ele poderia assumir “personalidades” muito diferentes, dependendo de que livro foi adaptado para o cinema e, claro, das intenções do roteirista que o adaptou. No caso de Der Amerikanische Freund, Wim Wenders deu um toque todo especial no personagem – como o chapéu de “cowboy” que até vira motivo de piada entre Ripley e Derwatt.
Esclarecido que sim, o personagem de Dennis Hopper é o mesmo de Matt Damon, mas baseado em outra obra da escritora, vamos ao que interessa deste filme de Wim Wenders: a manipulação das pessoas e os dilemas morais que cercam qualquer um de seus personagens. Do “invisível” Tom Ripley até o pintor Derwatt, do comum Jonathan Zimmermann até a sua esposa Marianne (Lisa Kreuzer), todos passam por dilemas morais e acabam sucumbindo ao lado “obscuro” de suas personalidades. Derwatt e Marianne se esforçam para ignorar de que forma suas vidas estão sendo usadas de forma maléfica por outras pessoas. Ripley age como um “diretor invisível” ou um titeteiro que manipula sua marionete Jonathan Zimmermann. O manipulado, por sua vez, sucumbe com uma certa facilidade à manipulação graças a sua própria cobiça – ainda que revestida de medo e altruísmo, (SPOILER – não leia se você ainda não viu ao filme) na busca por deixar uma vida melhor para sua família já que ele passa a acreditar que pode morrer em breve.
O roteiro escrito por Wim Wenders, livremente adaptado do terceiro livro de Patricia Highsmith sobre Tom Ripley, tem várias surpresas pelo caminho. Eu diria que pelo menos duas grandes surpresas e/ou reviravoltas: a primeira, quando Ripley “suja suas mãos” para ajudar (?) Jonathan no segundo assassinato de sua “carreira”; a segunda, o próprio final.
(SPOILER – não leia se você não viu ao filme, porque vou estragar as surpresas). Depois de ser vítima de uma “grosseria” de Jonathan quando foi apresentado a ele, Ripley fica sabendo que o antigo restaurador de obras de arte sofre de uma doença grave e sem cura – que, mesmo sem ser nominada, se trata de leucemia (ainda que, atualmente, poderia ser a AIDS, por exemplo). E quando é pressionado por um gângster ao qual deve favores, que sugere que ele execute um ou dois alvos, Tom não pensa duas vezes e entrega de bandeja o “desafeto” que não agiu como um cavalheiro com ele. Por isso mesmo é tão surpreendente quando ele resolve ajudar Jonathan no segundo crime, no trem – há quem diga que Ripley estivesse apenas com “saudade” de colocar, ele mesmo, a mão na massa. Depois, o final… quando Jonathan resolve dar um “chapéu” no “amigo” – que, como sempre, se safa mais uma vez. E o final depois daquela cena marcante na praia, é ainda mais impressionante. No filme de Wim Wenders e nas histórias de Tom Ripley não adianta torcer para o “mocinho” ou contra o bandido, porque escapa quem deve escapar. (O mais forte e/ou o mais preparado, segundo a lei da sobrevivência?)
Além de uma história interessantíssima, com boas reviravoltas e surpresas, o filme apresenta uma direção e um roteiro no melhor estilo de Wim Wenders, com seus típicos momentos de “introspecção” da narrativa intercalados com um estilo de ação bastante direta. Em outras palavras, se vemos sequências de puro “suspense hitchcockiano”, como aquelas cenas nas estações de metrô parisienses, também presenciamos momentos de pura reflexão e contemplação dos personagens, especialmente de Jonathan (em mais de uma sequência em sua casa, contemplando a paisagem exterior do apartamento e a vida que mantinha com a família, a mulher e o filho) e de Tom (seus momentos de solidão um tanto incômoda em sua mansão sem mais habitantes). A verdade é que este trabalho do diretor/roteirista acaba aproximando os personagens de Tom e Jonathan, divididos entre o que parece ser suas vidas “oficiais”, aparentes, públicas, e suas vidas particulares, repletas de dilemas e de um sofrimento que não pode ser compartilhado.
Der Amerikanische Freund é, por tudo isso, uma interessantíssima história sobre uma “amizade” inusitada, cercada por interesses e por uma proximidade de vivências que seria difícil de ser percebida por alguém que conhecesse os personagens diretamente – afinal, ninguém parece ser mais diferente do que o refinado Tom Ripley e o simplório homem de família Jonathan Zimmermann. Mas além do roteiro, o filme apresenta uma direção de fotografia, assinada por Robby Müller, muito interessante e que destaca uma Alemanha um tanto “decadente” e, ao mesmo tempo, bela em seu lado “sujo”. Paris, por sua vez, é vista com um filtro muito mais “progressista” e desenvolvido – uma autocrítica dos autores que pode não ser tão evidente, mas que está ali. Gostei muito também da trilha sonora de Jürgen Knieper, que faz um trabalho importante de marcação da história – e mesmo separada do filme, imagino que a trilha seja bacana de apreciar.
NOTA: 9,5.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para quem quiser saber mais sobre o personagem de Tom Ripley, criado pela escritora Patricia Highsmith, recomendo este comentário e, especialmente, este artigo do New York Times em que consta a informação de que ele estaria próximo de completar 80 anos – se fosse real, é claro.
O filme de Wenders seria uma adaptação da obra Ripley’s Game, publicada em 1974. Em uma entrevista para a TV britânica nos anos 80, a criadora do personagem Tom Ripley reprovou a interpretação de Dennis Hopper em Der Amerikanische Freund – ela disse preferir a de Alain Delon, que interpretou o personagem em 1960 no filme Plein Soleil. Depois de procurar bastante, achei esta crítica (em inglês) que faz um bom resumo do que é a obra original adaptada por Wenders.
O filme propriamente dito talvez merecesse a nota 10. Mas, para ser franca, não gostei de alguns detalhes da adaptação de Wim Wenders. Certo que qualquer “leitura” de um romance e sua adaptação para o cinema não precisa ser fiel ao original, mas achei exagerada pelo menos uma grande mudança nesta história. Tudo certo na escolha do diretor em levar a narrativa do livro de Patricia Highsmith da França para a Alemanha. Nenhum grande problema também na diferença da caracterização de Tom Ripley, que seria um homem muito mais refinado do que aquele que vemos encarnado por Dennis Hopper. O problema mesmo está, para o meu gosto, no fato de que Ripley virou um homem solitário e um tanto paranóico no filme de Wenders, muito diferente do homem que está casado e vive paparicado por uma empregada, segundo o romance de Highsmith. Achei que a “adaptação” de Wenders procura tornar Tom Ripley mais “vulnerável” e até objeto de pena, algo que era desnecessário.
Além da participação do importante diretor de cinema Nicholas Ray no papel do pintor Derwatt, existem outras duas pontas curiosas neste filme. A primeira, do também ótimo diretor Samuel Fuller como o Gângster Americano que vira um dos alvos de Jonathan; e a segunda do próprio Wim Wenders, como a “figura cheia de curativos” que está na ambulância pouco antes do final do filme. Ou seja: três grandes diretores de cinema fizeram a festa neste Der Amerikanische Freund.
Lançado em 1977, o filme recebeu, em sua época, quatro prêmios e foi indicado a outros dois – incluindo, entre as indicações, a Palma de Ouro em Cannes e o César de Melhor Filme Estrangeiro. Mas o que conta mesmo são os prêmios que ele recebeu… o prêmio de “melhor performance estrangeira” para Bruno Ganz no Sant Jordi Awards e três prêmios – incluindo direção e edição – no German Film Awards.
Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,2 para o filme – acho que nem preciso dizer que achei ela muito, mas muito baixa, não é mesmo? Por sua vez, os críticos que tem textos publicados no site Rotten Tomatoes dedicaram 15 críticas positivas e duas negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 88% – um bocado melhor que o IMDb.
Para quem gostou das locações do filme, vale citar que ele foi rodado em Hamburgo e em Munique, na Alemanha; em Paris, na França; e também em Nova York.
E não sei vocês, mas eu fiquei muito satisfeita em ver a Bruno Ganz dando o show de interpretação que ele dá. E Dennis Hopper também… em um de seus grandes trabalhos na vida, acredito.
Um ponto que eu já ia me esquecendo: o caráter curioso da figura do “estrangeiro” nesta história. Afinal, Tom Ripley está na Alemanha, mas se comunica mal no idioma de Goethe. Jonathan, por sua vez, viaja para Paris sem saber comunicar-se em francês. A impressão que estes personagens – entre outros no filme – nos dão é que um estrangeiro, deslocado de sua terra natal, parece ser capaz de atos que não teria se estivesse em solo conhecido. Para alguns, esta é uma crítica do autor (ou seria dos autores, incluindo Highsmith?) ao que os estrangeiros fizeram em sua Alemanha natal. Pode até ser. Mas o fato é que esta “coragem” que toma conta da pessoa deslocada territorialmente pode ser realmente um fenômeno real – e bastante compreensível, afinal, o indivíduo vive uma falsa ilusão de que ninguém o conhece e que, assim, ele está livre de julgamentos.
CONCLUSÃO: Uma das obra-primas do respeitado e talentoso diretor Wim Wenders, que faz aqui uma adaptação bastante livre de um dos livros da escritora estadunidense Patricia Highsmith – conhecida por sua obra de ficção criminal. Anterior a clássicos como Paris, Texas e Der Himmel über Berlin, Der Amerikanische Freund trata de diversos dilemas morais, da figura “invisível” de um homem que manipula outros para conseguir seus objetivos e da conivência de algumas pessoas para que ele consiga os seus fins. Um grande trabalho do então jovem ator Bruno Ganz – conhecido recentemente pelo magistral trabalho como Hitler em Der Untergang. Na verdade, o filme todo está cercado por grandes atores, assim como por uma direção de fotografia inspirada e cuidadosa e por uma trilha sonora exemplar. Bastante recomendado.
SUGESTÕES DE LEITORES: Este filme faz parte de uma série de produções alemãs que estou assistindo motivada pelo resultado da primeira enquete feita neste blog, que foi encerrada em fevereiro. A Alemanha foi o país campeão na votação dos leitores, e por isto estou assistindo uma série de filmes originados daquele país – seja a produção inteira feita lá, ou pelo menos o seu diretor tendo origem germânica.
Como falei no início deste texto, Wim Wenders tem uma série de filmes de primeiríssima qualidade no currículo. Para mim – e para quase todos -, ele é um nome impossível de evitar quando se fala do cinema alemão. Além dos filmes aqui citados – já assisti a todos, por isso os recomendo -, nunca é demais continuar acompanhando este diretor, que há algum tempo já vêm se dividindo entre produzir filmes na Alemanha, França (e algum outro país europeu) e Estados Unidos. Agora falta menos para terminar a minha lista de filmes alemães…
Nick and Norah’s Infinite Playlist – Uma Noite de Amor e Música Abril 12, 2009
Posted by Alessandra in Cinema, Cinema norte-americano, Crítica de filme, Movie.9 comments
Para dar uma contrabalanceada na sequência de filmes de terror e suspense recentes, resolvi assistir a esta que parecia “mais uma comédia romântica com/para adolescentes”. Mas Nick & Norah’s Infinite Playlist, ainda que não seja algo totalmente novo, se revela um bocado diferente do lugar mais comum que se poderia prever deste gênero. Ainda que as cenas iniciais lembrem Juno – me refiro àquelas que mostram a típica casinha de subúrbio nos Estados Unidos -, o único elo de ligação entre os filmes é a vontade dos seus roteiristas em mostrar o lado mais escrachado dos adolescentes. No mais, Nick & Norah’s é um filme muito mais leve e rockeiro que Juno, e menos ousado também. Um romancezinho bacana, com um casal de protagonistas bastante carismático e uns amigos gays do “herói” do filme bacanas, descolados e divertidos.
A HISTÓRIA: Nick (Michael Cera) liga pela enésima vez para a ex-namorada Tris (Alexis Dziena) chorando suas pitangas e querendo conversar. Ao mesmo tempo, ele grava mais um CD da série “você-quebrou-meu-coração-mas-eu-continuo-te-amando”. A sequencia melodramática juvenil é quebrada pela chegada dos amigos gays de Nick, os divertidos e rockeiros Thom (Aaron Yoo) e Dev (Rafi Gavron), que insistem com Nick para que eles toquem naquela noite, mesmo sem um baterista em sua banda. No colégio, Tris tira sarro do ex-namorado com a amiga Caroline (Ari Graynor) que, estupefata, vê sua outra amiga, Norah (Kat Dennings) capturando no lixo o último CD gravado por Nick que acabou de ser jogado fora. Em busca da idolatrada banda Where’s Fluffy, estes e outros personagens desta história aloprada, juvenil e rock’n roll vão se encontrar na noite de Nova York.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que algumas partes do texto à seguir contam momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Nick & Norah’s Infinite Playlist): Parece algo óbvio de se comentar, mas a trilha sonora de Nick & Norah’s é o ponto alto do filme. Como bem definiu um leitor do site IMDb, esta produção é uma gostosa aventura noturna pelo cenário musical de Nova York. No “playlist” dos jovens protagonistas, encontramos desde Devendra Banhart (mais conhecido por ter namorado a atriz Natalie Portman), até Shout Out Louds, Bishop Allen, The Dead 60s, Vampire Weekend, até The Submarines, Hot Chocolate, The Pinker Tones e We Are Scientists. A lista é bem grande, na verdade – e pode ser vista inteira aqui -, e tem um pouco de tudo, incluindo Spice Girls. Mas a essência, tenham certeza, é rockeira.
Então, retomando a definição citada anteriormente, o filme é nada mais, nada menos, que uma aventura pelo cenário rockeiro nova-iorquino como pano-de-fundo e, em primeiro plano, o encontro (e desencontros) dos jovens um tanto desiludidos amorosamente Nick e Norah. Os atores que interpretam o inusitado casal são conhecidos do público jovem – especialmente Michael Cera, astro de Juno e Superbad, só para citar seus dois maiores êxitos. E mesmo Kat Dennings, que não é tão famosa quanto o seu par romântico no filme, talvez seja conhecida por muita gente por seu papel bacana no recentemente comentado por aqui Charlie Bartlett. Os dois atores, jovens e talentosos são, mais que nada, carismáticos. Basta sorrirem e pronto, o espectador está ganho.
Mas além de ser um filme sobre o cenário rockeiro e sobre a paixão repentina de dois jovens que se encontram em uma noite movida a música, Nick & Norah’s Infinite Playlist é uma divertida comédia sobre os excessos que os jovens – ou nem tão jovens assim – fazem às vezes em suas “baladas”. A personagem de Caroline rende algumas cenas absurdamente hilárias sobre a “falta de noção” de gente que bebe além da conta – e que, normalmente, precisa de alguém sóbrio por perto para cuidar dessa pessoa. Não vou estragar a surpresa, mas uma sequência em um banheiro feminino deve render momentos de puro nojo em alguns.
Mas que atire a primeira pedra quem nunca passou mal depois de uma noite de “exageros”. Mas a falta de controle, no filme, não é apenas etílica. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Afinal, Tris é o protótipo da mulher que quer ter e controlar tudo. Não aceita que o ex-namorado, que até aquela manhã continuava correndo atrás dela e levando foras, possa se interessar justo pela garota que ela despreza (provavelmente por despeito). Da mesma forma, Tal (Jay Baruchel) também se excede na ânsia por sucesso ao se relacionar com Norah por interesse, tentando promover a sua banda as custas da filha de um importante dono de estúdio.
A galera se excede, mas todos saem vivos e bem no final desta história – ainda que, em certo momento, a roteirista Lorene Scafaria nos pregue uma boa peça. Nesta parte do filme, certamente, todos pensaram “Não acredito que eles vão cair nos mesmos velhos erros de sempre”. Bem, por pouco. Mas Scafaria, baseada no livro de Rachel Cohn e David Levithan, nos comprova que uma única noite – ou um dia, em outras situações – pode ser suficiente para se livrar de velhas amarras e para se lançar em um caminho de pura esperança e excitação.
NOTA: 8.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: A nota acima, antes que alguém me pergunte, se deve muito a levada bacana, ritmada e descompromissada do filme. A história é bacaninha, divertida, com uma trilha sonora muito boa e atores simpáticos e competentes. Não chega a ter nenhuma grande sacada – por isso fica abaixo de Juno, por exemplo -, mas é divertido.
Uma sacada divertida do filme é o encontro de Dev com o “Beefy Guy” (Jonathan B. Wright). Os dois se encontram no bar depois do show da banda de Dev, Thom e Nick e o rapaz “inominado” acaba se jogando na noite junto com os demais, no furgão aloprado dos amigos gays. Típica brincadeira com os encontros furtivos – e interessantes – que os gays tem em uma noite qualquer, em que o interesse e a atração contam mais que as “amarras sociais”. Só senti falta deles darem algum amasso em algum momento no filme – ausência essa que deixa ainda mais claro o caráter “certinho” do filme, indicado para os ortodoxos estadunidenses. Mas uma frase ótima, logo no início da história, é dita por Nick… ao responder para os amigos porque não queria sair de casa, depois de levar repetidos foras da ex, ele diz que eles não sabem o quanto é horrível ser heterossexual. Hahhahahahahahhahaha. Genial. E uma frase bastante certeira, em muitíssimos casos (afinal, me desculpem os heteros, mas alguns dos homens mais interessantes que eu já conheci na vida são gays).
A trilha sonora bem bacana do filme é assinada por Mark Mothersbaugh. A direção de fotografia, competente e que capta as nuances de parte da noite de Nova York, é de Tom Richmond. A direção, bem equilibrada e envolvente, destacando sempre as interpretações dos atores e o cenário da cidade nas cenas externas, do nova-iorquino Peter Sollet.
O usuários do site IMDb conferiram a nota 6,9 para o filme, enquanto que os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 116 textos positivos e 45 negativos para a produção – o que lhe garantiu uma aprovação de 72%. Me surpreendeu um pouco o fato dos críticos gostarem mais de Nick & Norah’s do que o público, já que o filme me pareceu o típico caso em que a história agradaria mais a grande audiência.
O diretor, Peter Sollet, havia dirigido anteriormente apenas dois curtas-metragens e um longa, este último intitulado Raising Victor Vargas, um drama de 2002. Atualmente ele está envolvido com a série State of Romance.
Até agora o filme foi indicado a nove prêmios, mas não ganhou nenhum.
Nas bilheterias ele foi muito bem, obrigado. Para uma produção que teria custado aproximadamente US$ 9 milhões, ele faturou, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 31,5 milhões, o que lhe torna um sucesso de bilheteria, sem dúvida.
Apenas um rápido comentário: ainda que eu ache ele muito simpático, mas acho que Michael Cera sempre fará este personagem de “nerd-que-procura-se-dar-bem-com-as-mulheres-(e-o-consegue)”, não é mesmo? Parece até a mesma sina do Jack Black, que sempre interpreta desmiolados ou loucos-exagerados.
CONCLUSÃO: Uma comédia juvenil que tem como foco principal a redescoberta do amor por dois adolescentes recentemente desiludidos em suas relações. História essa praticamente toda narrada por uma trilha sonora de rock da parte underground de Nova York – no melhor estilo “a-trilha-sonora-de-nossas-vidas”. Para as pessoas que curtem rock e a noite (e não se importam de reviver momentos da adolescência), é uma perdida certeira para umas boas risadas. Sem nenhum grande achado ou questionamento, contudo, deve ser visto dentro da “tradição” de filmes sobre adolescentes, ainda que inclua no seu repertório personagens não muito comuns – como amigos gays e um grupo de figuras alternativas que aparecem de forma secundária. Divertido, com bom ritmo e algumas cenas absurdas (e nojentas), não deve ser levado a sério – ainda que valha a pena por seus atores principais (leia-se os protagonistas e os seus amigos gays).
Rohtenburg – Butterfly: A Grimm Love Story – O Canibal Abril 9, 2009
Posted by Alessandra in Cinema, Cinema alemão, Cinema europeu, Crítica de filme, Filme premiado, Movie, Sugestão de leitores.add a comment
Eu gosto de filmes de terror e de suspenses bem feitos. Normalmente, gosto ainda mais quando se trata de “terror psicológico”. Mas o que acontece quando um diretor e um roteirista resolvem fazer um filme “muito sério” e/ou que tem a pretensão de “dissecar” uma história real? Hummmm… para mim, só podem existir dois resultados possíveis: ou a produção será uma grande obra de cinema ou será uma verdadeira bomba. Rohtenburg está mais para o segundo time. Pretensioso demais, óbvio e longo demais, o filme é um verdadeiro tiro no escuro que acaba acertando o próprio pé dos realizadores. Francamente? A história contada no filme poderia ser narrada em um curtametragem, mas não em um longa. Fraco, chato, ele só não é totalmente desaconselhável porque ele acaba abrigando algumas poucas cenas de terror bem feitas e boas atuações do elenco.
A HISTÓRIA: O filme, da grife “baseado em uma história real”, é narrado pela investigadora Katie Armstrong (Keri Russell), que está escrevendo uma tese sobre a história de um canibalismo que chocou a Alemanha. O roteiro muda o nome dos envolvidos, identificando o canibal como Oliver Hartwin (Thomas Kretschmann), um homem que cresceu sob forte pressão psicológica e controle da mãe, Viktoria (Angelika Bartsch). Depois da morte da sua progenitora, Oliver busca na internet um homem para devorar – e encontra no problemático Simon Grombeck (Thomas Huber) a pessoa que lhe diz “sim”. Katie Armstrong se debruça nos transcritos do processo que garantiu a condenação de Oliver e vai atrás de detalhes da vida do algoz e de sua vítima, visitando inclusive os lugares em que eles cresceram e onde Oliver estudou.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Rohtenburg): Vez ou outra aparece na imprensa um caso impressionante de barbárie. Seja um estudante transtornado que invade uma escola ou universidade e sai atirando para todos os lados, ou um homem que foi descoberto por ter cometido uma série de crimes contra mulheres. No ano passado, por exemplo, o alemão Josef Fritzl chocou o mundo ao admitir que tinha mantido presa em casa sua filha por 24 anos e que, neste período, teve sete filhos com ela. Rohtenburg trata, de forma bastante direta – e sem dissimular praticamente em momento algum – outro crime que marcou a história da Alemanha: o canibalismo praticado por Armin Meiwes em 2001. Como bem define Bernardo de Gregório, na “cultura ocidental moderna o canibalismo é um dos últimos tabus ainda vigentes”. Por isso a história de Meiwes e sua vítima chocou tanto. Aliás, achei interessante o artigo inteiro do Bernardo, que pode ser lido através deste link.
Certos de que uma adaptação da história do “canibal de Rohtenburg” para o cinema seria sinônimo de sucesso, o diretor Martin Weisz e o roteirista T.S. Faull mandaram ver em um roteiro que beira o documentário e busca ser realista. Os nomes dos envolvidos na história real foram modificados, mas todo o restante, do título original do filme até os detalhes de como o criminoso conheceu e interagiu com sua vítima, não deixam dúvidas sobre a origem da narrativa. Particularmente, achei que o filme teria se dado melhor se fosse um documentário do que uma “obra de ficção”. Entendo que o roteirista e o diretor queriam “chocar” o público ao mostrar uma virtual “reprodução” do tão famoso vídeo que serviu de prova para a defesa no julgamento de Meiwes, mas isso poderia ter sido perfeitamente incluído em um documentário – dramatização de fatos reais bastante usada em outras produções, como de forma exemplar pelo comentado aqui Man on Wire.
O fato é que, mesmo que a atriz Keri Russell seja competente e simpática, ela ficou praticamente “enchendo linguiça” nesta história. Além disso, me incomodou um pouco o fato dela estar sempre “maquiada de maneira mórbida” – como se ela, estudante em fase de investigação doutoral, precisasse se “transfigurar” em uma figura mais sombria para adentrar “as profundezas” da parte mais sinistra da alma humana. Hummmm… achei forçado esse aspecto do filme. Também me pareceu que Rohtenburg parece se justificar, a cada minuto que passa, pela promessa do “gran finale”, ou seja, pela reprodução do tão desejado e desesperador vídeo que mostra o crime. O problema é que, quando chegamos ao tal “gran finale”, ele fica bem abaixo do esperado – especialmente para quem já assistiu a algum filme Saw, Cube ou outro título do gênero. Então, nem na parte “terror sanguinolento” este filme se justifica.
Será que ele vale a pena então pela questão do “terror psicológico”? Não, acho que não. Para que um terror psicológico realmente funcione, precisa existir de maneira bastante potente na história o fator suspense. E isso não acontece com Rohtenburg. A história é narrada de tal forma “natural” que não levamos nenhum susto ou mesmo passamos por aquela sensação de “temer pelo que virá”. O roteiro de T.S. Faull deixa claro, desde o princípio, que a “heroína” Katie não poderá ser ameaçada pelo canibal, que está preso. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). O único risco aparente é o dela ficar “louca” ao se aproximar tão profundamente da psicose do canibal e de sua vítima que, tudo indica, consentiu em ser comida. Mas ela realmente se aproxima tanto do perfil psicológico de ambos? Não achei. O que ela “descobriu” e nos conta é o mesmo que qualquer pessoa, na época da prisão e do posterior julgamento de Armin Meiwes, descobriria através dos jornais e da televisão na Alemanha. Na verdade, o roteiro de Faull não consegue ir fundo nas questões que podem (ou puderam) estar envolvidas em um crime daquela natureza.
Por tudo que comentei antes, achei o roteiro bastante superficial e fraco. Faull busca o caminho de “terror psicológico” mais do que – e isso sim daria trabalho – o de suspense com carga dramática, o que significaria entrar “na mente” dos envolvidos no crime. O problema é que o roteirista se esquece que para existir um terror psicológico é preciso ser possível um novo crime, é necessário que algum personagem central da história esteja ameaçado – e, ainda que seja “plantado” um momento em que a protagonista “pode ser atacada” lá pelas tantas na história, fica evidente que isso não vai acontecer porque um ataque como este está fora dos objetivos da produção. E mesmo a idéia de “dissecar” a vida do canibal e sua vítima passa longe de ser concretizada porque, volto a dizer, o que descobrimos sobre eles é muito raso e incompleto.
Esta produção não deve agradar nem aos fãs do terror – que apenas no final do filme assistem alguma sequência envolvendo mutilações e canibalismo – e nem aos que procuram encontrar algum “sentido” nos atos de criminosos e vítimas deste tipo. Questões que seriam interessantes de explorar no filme, como o uso da internet para encontrar vítimas e o fetiche masoquista como elemento fundamental da história, foram tratadas de maneira muito ligeira pela produção. De todo o roteiro, gostei especialmente destes dois tópicos, ainda que eles sejam secundários na história.
NOTA: 4,5.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Procurando mais informações sobre o filme – especialmente sobre o caso real que inspirou esta história – encontrei o título que ele recebeu em Portugal: Amor Sinistro. Hummmm… Com este nome a distribuidora do filme estava sugerindo que os personagens de Oliver e Simon viveram, na verdade, um caso de amor? Ok que Simon era um gay assumido, mas esta produção, em momento algum, realmente sugeriu ou deixou claro que Oliver também seria gay. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aliás, algo que me incomodou um pouco no filme, foi o uso um tanto exagerado de um “amigo imaginário” de Oliver na história. Não li muitos detalhes do processo envolvendo o canibal de Rohtenburg, mas em parte alguma nas matérias que eu encontrei é citado que o condenado Armin Meiwes (o homem que inspirou o filme) falava de conviver com um amigo imaginário… achei uma viagem isso na história “ficcional”.
Como eu disse lá no início, para não dizer que o filme é um completo desperdício, eu gostei do trabalho dos atores – que, coitados, fizeram um verdadeiro milagre com o roteiro fraquinho que eles tinham em mãos. Keri Russell está bem em interpretar uma estudante um bocado “intoxicada” pelo lado sombrio da alma humana – ainda que, volto a dizer, achei a sombra dela sempre carregada um tanto desnecessária. Mas o destaque mesmo são os atores Thomas Kretschmann e Thomas Huber, respectivamente o canibal e a vítima de Rohtenburg. Ambos interpretam de maneira bastante sensível seus personagens complexos. Kretschmann, por exemplo, interpreta um homem que não parece realmente um “monstro” ou um grande vilão. Assim como Huber dá o tom exato de um homem que não conseguia, aparentemente, se perdoar e que buscava, a todo custo, sua destruição através da dor e da mutilação. Ambos demonstram segurança na hora mais difícil da interpretação, quando é concretizado o fetiche mortal. Pelos atores, o filme valeria a pena – pena que todo o resto, incluindo roteiro e direção, se mostrem tão fracos e pobres.
Apenas para citar, outros atores que participam do elenco: Rainier Meissner como o jovem Oliver; Nils Dommning como Karl, o amigo “imaginário” de Oliver; o bonitão Marcus Lucas como Felix, namorado de Simon; Pascal Andres como o jovem Simon; Helga Bellinghausen como a mãe suicida de Simon e Stefan Gebelhoff como o pai do garoto.
Procurando mais informações sobre o filme, fiquei surpresa ao saber que o assassino Armin Meiwes, conhecido como “canibal de Roteburgo”, conseguiu proibir a estréia de Rohtenburg na Alemanha em 2006 – mais detalhes nesta matéria publicada pela UOL Últimas Notícias. Na época, o Tribunal Territorial de Frankfurt considerou que os direitos do criminoso pesavam mais do que a liberdade de expressão da arte e do cinema. O juiz declarou que por mais que o caso do canibalismo alemão tenha chamado a atenção da imprensa, a história de Meiwes não deveria ser transformada em “tema para um filme de terror”. O curioso deste debate é que ele coloca em cena o direito e a utilidade da imprensa e da arte em explorar casos reais de criminosos. Como jornalista, já me perguntei muito sobre o quanto a divulgação de crimes hediondos não pode estimular ou incentivar pessoas desequilibradas a fazerem o mesmo. O debate sobre o quanto uma produção de ficção ou uma reportagem na mídia pode incentivar criminosos é longo e ainda sem uma resposta conclusiva.
Segundo a mesma matéria citada anteriormente, o produtor de Rohtenburg tentou defender o filme dizendo que ele teria sido apenas “inspirado” na história de Meiwes. Oras, está comprovado que o produtor usou apenas uma figura de linguagem, já que Rohtenburg reproduz praticamente de forma literal o processo que causou a condenação de Meiwes a oito anos e meio de prisão em 2004. A reportagem cita ainda que o assassino, com 44 anos em 2006, não foi julgado por canibalismo, já que esta “prática não é caracterizada como crime na Alemanha”. Ele foi condenado mesmo por homicídio, depois de ter confessado que matou, mutilou e comeu parte de sua vítima, o berlinense Bernd Jürgen Brandes, que tinha 43 anos. Nesta matéria do site Omelete há outras informações sobre a decisão da Justiça alemã em proibir a estréia do filme.
Nesta reportagem da BBC News de dezembro de 2003, quando Meiwes estava sendo julgado, existem mais informações sobre a infância e as fantasias do canibal do que no filme inteiro Rohtenburg. No texto, por exemplo, comenta-se que Meiwes fantasia, quando era criança, com seus amigos de escola sendo devorados por ele. Com 41 anos na época do julgamento – ele tinha 39 quando matou sua vítima -, o técnico de informática se mostrava sorridente e tranquilo, afirmando que com o crime ele havia, finalmente, cumprido sua fantasia. O que chamou bastante a atenção das pessoas, na época, é que Bernd-Jürgen Brandes teria consentido com sua morte, ao responder um anúncia que Meiwes havia publicado na internet em março de 2001.
Segundo os investigadores, o canibal buscava pela internet homens magros e loiros, de preferência – o que não era o caso de Brandes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O restante dos “detalhes” do crime batem com o roteiro do filme – incluindo a cena em que o canibal serve o pênis da vítima para os dois “comerem” o órgão juntos e a mutilação de Brandes com vários golpes no seu pescoço. O que eu achei especialmente impressionante na matéria da BBC é que os advogados de defesa do canibal alegavam que, levando em conta o fato de que Brandes se “ofereceu” para o abate, sua morte não teria sido um crime (leia-se assassinato). Ah tá… então porque eu digo que quero ser atropelada por um caminhão, o gesto de um caminhoneiro passar por cima de mim propositalmente não significa que ele me matou? Isso seria o que, então? Me poupem!
Outro dato curioso é que o canibal teria duas horas de filmagens de seu crime… fiquei me perguntando o que mais ele teria registrado. Detalhes do esquartejamento? Cenas dele comendo a carne da vítima? Sinistro, muito sinistro. Este homem era realmente louco, desequilibrado, doente ou maníaco, nem sei como classificá-lo. Na época do julgamento, Meiwes disse que pretendia passar o tempo que teria de pena, na prisão, escrevendo suas memórias. Jesus! O homem quer virar um popstar!!
Fiquei especialmente admirada em saber que este filme recebeu nada mais, nada menos que nove prêmios em diferentes festivais pelo mundo afora. Claro que todos eles em festivais “menos importantes” ou que, pelo menos, não ganham tanta projeção quanto os que todos nós conhecemos. Entre os prêmios que levou para casa estão o de melhor ator para Thomas Huber e Thomas Kretschmann no Sitges – Festival Internacional de Cinema da Catalunya (na Espanha), e os prêmios de melhor filme europeu de fantasia nos festivais Sweden Fantastic Film Festival e no Cinénygma – Luxembourg International Film Festival.
Os usuários do site IMDb conferiram a nota 5,2 para o filme – pessoalmente, eu estava em dúvida entre dar-lhe 4,5 ou 5. No Rotten Tomatoes, Rohtenburg tem registradas apenas duas críticas, sendo uma delas positiva e a outra, negativa.
Rohtenburg é uma produção alemã, mas falado em inglês. O diretor, Martin Weisz, nasceu em Berlim em 1966. Além de Rohtenburg, ele dirigiu 60 Seconds (com o qual ele estrou no cinema), o supercriticado The Hills Have Eyes II e, atualmente, está envolvido com o filme Clock Tower.
CONCLUSÃO: Um filme de terror que procura contar de forma bastante fidedigna e “legítima” detalhes de um crime de canibalismo que escandalizou a Alemanha em 2002, quando foi preso um técnico de informática acusado de ter matado e devorado um homem de 43 anos. Tentando seguir um caminho entre o terror psicológico e o drama que “disseca” a vida de um assassino e de sua vítima, Rohtenburg se perde no caminho. Primeiro, porque ele se prende demais aos fatos do crime no qual ele teria sido apenas “inspirado”. Depois, porque na prática ele não se debruça realmente sobre as vidas e as motivações de nenhum dos envolvidos no crime. Acabamos acompanhando apenas uma história superficial sobre aquele ato de canibalismo, sem nenhum grande momento de tensão e suspense. Fraquinho, em resumo. Tanto por tratar de forma pouco aprofundada as questões sociais e psicológicas dos envolvidos, como por não mostrar, para os fãs do terror, cenas realmente fortes do que aconteceu.
SUGESTÕES DE LEITORES: Rohtenburg é mais um filme da série de produções alemãs que estou vendo ultimamente. A escolha da Alemanha para uma série de críticas foi feita pelos leitores deste blog, que escolheram o país em uma enquete feita antes do Oscar deste ano. Queria comentar que me chamou a atenção Rohtenburg porque ele seria um filme “polêmico” (bem entre aspas mesmo!) por ter tido sua estréia proibida na Alemanha em 2006. Mas, no fim das contas, me arrependi um pouco de ir atrás dele. De qualquer forma, aqui está a crítica desta produção. Agora falta menos para terminar minha listinha de filmes alemães…
Transsiberian – Expresso Transiberiano Abril 6, 2009
Posted by Alessandra in Cinema, Cinema alemão, Cinema do mundo, Cinema espanhol, Cinema europeu, Crítica de filme, Filme premiado, Movie.6 comments
Transsiberian é um daqueles filmes que eu queria assistir há tempos… ontem, finalmente, tomei coragem e deixei todos os outros filmes da sequência esperando para assistí-lo. E gostei do que vi, ainda que algumas coisas parecem não ter funcionado nesta história. Mas algo bacana no filme, além do roteiro e da direção (geral e de fotografia), foi a atuação do elenco. Todos muito bem – exceto por um ou outro que apenas confirmam a regra. Uma história de suspense destas que começa de um jeito e termina de uma maneira totalmente diferente do esperado. Quer dizer… lá pelas tantas, até você adivinha um pouco qual será o local em que a carruagem vai parar, mas até chegar no fim da linha, o roteiro do diretor Brad Anderson com Will Conroy vai dando várias voltas e mudando um bocado de direção. Um bom passatempo, especialmente para quem curte histórias de suspense em um ambiente como é o da viagem em um trem.
A HISTÓRIA: O casal Roy (Woody Harrelson) e Jessie (Emily Mortimer) decidem sair do cotidiano de suas vidas confortáveis nos Estados Unidos para se lançarem em um projeto de ajuda humanitária na China. Involucrados nesta ação através da Igreja na qual frequentam, eles buscam, indiretamente, resolver os problemas que começam a atrapalhar sua união. Na volta para casa, eles resolvem viajar pela famosa linha transiberiana, que percorre parte da China, da Rússia e que chega até o “mar do Japão” – uma verdadeira aventura. O que seria uma viagem curiosa se torna um tanto complicada com a chegada de outro casal, Carlos (Eduardo Noriega) e Abby (Kate Mara), que parecem estar escondendo algum segredo importante.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Transsiberian): Os russos são uns sujeitos maus. E os americanos, meio bocós. Essa é a dicotomia que resumiu por muito tempo a visão “estigmatizada” geral sobre as pessoas que integravam os países da antiga Guerra Fria. Transsiberian reproduz este estigma ao contar a história de um casal de estadunidenses um bocado “inocentes” que acabam caindo em duas ciladas em uma mesma viagem. Primeiro, ao se envolverem com um casal suspeito que divide a cabine do trem com eles. Depois, aos se enfiarem em um problema muito maior quando Jessie insiste em mentir para o investigador policial Grinko (Ben Kingsley). Mentir para um policial qualquer já é burrice, pior ainda quando se tratam de russos, não é mesmo?
O que eu achei interessante do filme, além de alguns momentos de “não-sei-o-que-vai-acontecer-agora”, é a idéia de que nada é perfeito no reino da Dinamarca. Ou melhor dizendo, que quando retiramos o verniz que embeleza todas as relações humanas, existem muitos problemas embaixo da superfície. Então o lindo casal de altruístas Roy e Jessie guarda para si uma série de problemas para resolver, incluindo a dúvida se devem seguir uma relação segura – e que parece asfixiar, em muitos momentos, a aventureira Jessie – ou de se lançarem para um mundo de possibilidades (inclusive sexuais) enquanto ainda há tempo. Outra questão do casal é a pergunta fundamental se os dois verdadeiramente confiam um no outro e no relacionamento que eles dizem ter. Por sua vez, Grinko não se mostra tão correto como os fãs de Ben Kingsley gostariam de acreditar, e o papel de “vilã/o” e “mocinha/o” na união de Carlos e Abby não é tão evidente quanto alguns poderiam supor.
Certo que as aparências enganam – aos que odeiam, e aos que amam, já cantava antigamente Elis Regina. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). E certo também que, quando aparece em cena Carlos e Abby, todos nós sabemos que algo de muito ruim vai acontecer – provavelmente um homicídio. Mas juro que me surpreendi um pouco com a vítima da história – pelo menos a fatal, porque quase todos acabam sendo vítimas em um momento ou outro. Os russos pegam muito pesado – como praticamente todos os que se envolvem com o tráfico de drogas. e sobra tortura, ameaças e porrada para praticamente todos os lados. Aliás, o filme não explora muito o lado tenebroso do ser humano – exceto por uma sequência em todo o roteiro, a da tortura de Abby. No mais, ele deve passar como bem levinho para o gosto dos fãs do terror. Não adianta, Transsiberian é “apenas” um suspense.
Mas ele tem um bom ritmo. Ainda que clássico. Afinal, claramente acompanhamos a “apresentação dos personagens” e, depois, a “complicação” da trama, com a praticamente inevitável disputa sexual entre os casais, a hora em que a música anuncia um crime e o resultado de algumas decisões erradas dos protagonistas. Ainda que tenha uma ou outra surpresa, na verdade Transsiberian não está na lista de filmes ousados, isso porque ele segue uma linha clássica de suspense. Falando na música… a trilha sonora de Alfonso Vilallonga é bacana, mas anuncia demais as “surpresas” da história – que, claro, com aquela trilha de “agora-vai-acontecer-algo-trágico”, deixam de ser surpresas. Esse é um ponto negativo do filme, e que poderia ter sido evitado.
Outro fator que me incomodou um pouco foi o personagem de Kolzak, interpretado pelo ator Thomas Kretschmann. Coitado… ele acaba tendo o clássico desempenho “entro-mudo-e-saio-calado”. Certo que os roteiristas queriam vender a idéia de “russos maus”, mas podiam ter exagerado um pouco menos a dose com o personagemd e Kolzak, não? Para o meu gosto, Kretschmann poderia ter falado algumas frasesinhas mais.
Falando em russos, achei bacana o filme mostrar um “pouco” da realidade decadente que tomou conta da Rússia e de outros países que faziam parte da antiga União Soviética depois que o grande oponente dos Estados Unidos se diluiu. Não conheço o país e nunca vi o que se passa ali in loco, mas as histórias que chegam por aqui realmente contam que o povo por lá passa por privações e apertos – e que seu passado foi marcado por muitos assassinatos motivados por razões políticas.
Mas vamos ser francos, Transsiberian não é um filme crítico ou com uma verve política. Ainda assim, indiretamente, ele dá suas pitadas de visão crítica um tanto ácida. Vejamos: mesmo sem deixar descarado, mas os roteiristas questionam um pouco o “altruísmo” das pessoas que se envolvem em projetos sociais e de ajuda humanitária em comunidades “desfavorecidas” mundo afora. Os protagonistas Roy e Jessie – mais ela do que ele, na verdade – são motivados essencialmente por um desejo de participarem juntos de algo que nunca fizeram para, quem sabe com isso, voltarem aquele sentimento de que eles são um casal. Ao mesmo tempo, eles fazem um papel de “típicos estadunidenses”, um tanto “frouxos”, bobos – especialmente Roy – e deslumbrados. Uma crítica ao padrão de ignorância norte-americano, certamente. Mas existe também disparos contra os russos, afinal, segundo o filme, eles são brutos, frios, corruptos, e só conseguem resolver os seus problemas com uma certa violência. Tirando esses detalhes, o filme é uma história de ciladas do destino, de crimes – incluindo homicídios e tráfico de drogas – e de uma aventura pouco planejada que quase termina mal para os “inocentes turistas” estadunidenses.
Ainda que não seja nenhum grande achado do cinema, Transsiberian se mostra um filme competente, bem dirigido por Anderson, com um bom ritmo de roteiro e atuações convincentes. A fotografia de Xavi Giménez também impressiona, especialmente por mostrar, com uma certa paciência – mas sem que isso fique evidente, o que é o mais difícil -, parte da paisagem e das pessoas que compõe a rota da ferrovia transiberiana. O importante é que os pequenos defeitos do filme não atrapalham o conjunto da obra.
NOTA: 8,5.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei curioso que Transsiberian é uma co-produção do Reino Unido, da Alemanha, da Espanha e da Lituânia. Me chamou a atenção este fato porque, afinal de contas, o elenco é formado basicamente por figuras conhecidas no cenário de Hollywood e o diretor e roteirista Brad Anderson é estadunidense… ou seja, tudo levava a crer que era uma produção hollywoodiana. Ledo engano.
Falando no diretor, é importante citar que ele tem um bocado de experiência, aos 45 anos de idade, com filmes para o cinema e na direção de episódios de séries televisivas como Fringe e The Wire. O filme anterior dele foi El Maquinista, uma produção bastante elogiada com Christian Bale.
Eu gosto do espanhol Eduardo Noriega, mas achei que o papel de “conquistador latino” ficou muito pobre para o ator. Por outro lado, gostei bastante da “complexidade” das personagem de Emily Mortimer – para mim, o principal nome do filme – e da “simplicidade” enganosa do papel vivenciado pela atriz Kate Mara (que tem bastante potencial para despontar no cinema em breve).
Em sua trajetória, Transsiberian foi indicado a 10 prêmios e ganhou outros dois. Os que venceu foram dados “em casa”, no Prêmio Gaudí, onde foram premiados os espanhóis Alain Bainée (pela direção de arte) e Jaume Martí (pela edição).
Segundo as notas de produção do filme, ele foi rodado na China, na Lituânia e na Espanha. E um dado curioso sobre o diretor Brad Anderson: atualmente ele estaria trabalhando em dois projetos, um suspense “paranóico” chamado Lucid e um musical com o sugestivo título Non Stop to Brazil. O que será que virá deste último? Que meda!
Transsiberian conseguiu um feito não muito comum: dividir radicalmente público e crítica. Isso pode ser um pouco medido através do desempenho que a produção teve nas votações dos sites IMDb e Rotten Tomatoes. No primeiro, em que pode votar qualquer pessoa cadastrada no site – por isso vejo ele sempre como uma medida do “gosto popular”, do público em geral -, o filme conseguiu a nota 6,9. Um pouco baixa, para meu gosto. Mas no segundo site, especializado em abrigar textos de críticos que tem uma certa relevância no cenário internacional, o filme foi alvo de 65 críticas positivas e apenas sete negativas, o que lhe garante uma aprovação de 90%. Bela diferença, não?
Mas se esta produção caiu no gosto da crítica, seu desempenho nas bilheterias também demonstra como faltou para Transsiberian cair no gosto do público. O filme, que teria custado aproximadamente US$ 15 milhões, faturou nos Estados Unidos pouco mais de US$ 2,2 milhões – não tenho os números na Europa, mas pelo visto ele foi bem fraquinho no cômputo geral.
CONCLUSÃO: Um suspense no melhor estilo road movie – mas com um trem como cenário – em que as aparências se mostram bastante enganosas. Forjado por um bom ritmo narrativo e com algumas “surpresas” interessantes no meio do caminho, Transsiberian demonstra que pode ser visto como um competente passatempo. Mostrando cenários tão diferentes como os que emolduram parte da rota de trem transiberiana, ele confronta “estilos de vida” tão diferentes como podem ser os estereótipos dos estadunidenses e dos russos, em uma história de homicídios e tráfico de drogas. Bacana, bem feito e nada revolucionário – e quem disse que os filmes precisam ser assim? Alguns até podem, mas a maioria já faria um grande favor sendo apenas competente.
Die Ehe der Maria Braun – O Casamento de Maria Braun Abril 5, 2009
Posted by Alessandra in Blogs sobre cinema, Cinema, Cinema alemão, Cinema europeu, Crítica de filme, Filme premiado, Movie, Sugestão de leitores.4 comments
Um dos grandes clássicos do cinema alemão, Die Ehe der Maria Braun mostra o cineasta Rainer Werner Fassbinder em sua melhor forma. Ambientado no período da Segunda Guerra Mundial, o filme mostra o que uma mulher, naquela época, precisava fazer para sobreviver. Hanna Schygulla, musa do cineasta, estrela de Lili Marleen, entre outras produções, revela aqui parte de seu potencial. (Detalhe: comentei recentemente no blog um dos últimos filmes da atriz, o ótimo Auf der Anderen Seite). Ela literalmente vai de 8 a 80 na história de Maria Braun, uma mulher apaixonada que acaba virando o protótipo de mulher moderna calculista e ambiciosa por contingência do destino. Com uma direção cuidadosa e com a câmera implantada entre as pessoas – especialmente os figurantes -, Fassbinder nos aproxima de uma realidade pouco contada pelo cinema: dos que sofreram com a guerra pelo lado alemão.
A HISTÓRIA: Maria (Hanna Schygulla) se casa com Hermann Braun (Klaus Löwitsch) em um dia comum na Alemanha, em meio a bombardeios provocados pela Segunda Guerra Mundial iniciada por aquele país. Corta a narrativa. A cena seguinte é a da mãe (Gisela Uhlen) de Maria molhando pedaços de pães envelhecidos para conseguir devorá-los. A época é de pobreza, de falta de comida, e Maria volta para casa depois de passar adiante o seu vestido de noiva e conseguir, em troca, alguma comida para a família. Além de lutar pela sobrevivência, ela também não desiste de buscar o marido, desaparecido pouco depois do casamento. Diariamente ela ruma para a estação de trem da cidade com um cartaz no qual pergunta se alguém conhece a Hermann Braun. Sem uma resposta positiva para sua pergunta, ela busca um emprego e, através dele, descobre os caminhos para conseguir melhorar a sua vida e de seus familiares – e neste caminho está incluído o relacionamento com outros homens.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a assistir quem já assistiu a Die Ehe der Maria Braun): Como qualquer filme já produzido, Die Ehe der Maria Braun deve ser visto de forma contextualizada. Parte de uma trilogia do diretor sobre diferentes trajetórias femininas, ele foi lançado em 1979, um ano sem grandes marcos na história alemã, mas que finalizou uma década bastante produtiva para o polêmico Fassbinder. Versátil como poucos cineastas de sua – ou de outras gerações -, ele mostrou de forma assustadora, para o crítico Joe Ruffell, do site Senses of Cinema, a realidade de uma sociedade “que permite que o materialismo se torne mais importante do que os seus habitantes”.
Die Ehe der Maria Braun é um bom exemplo desta visão crítica de Fassbinder que, de uma maneira muito peculiar, trouxe as influências do cinema “sentimental” de Hollywood para o cenário alemão, criando uma obra inovadora. A história de Maria e Hermann Braun, seus encontros e desencontros e a insistência um tanto mecânica de ambos em manter um relacionamento – existia mesmo amor, no fim das contas? – mostra um bocado da Alemanha que surgiu durante e depois da segunda grande guerra mundial. Os sentimentos, naquele contexto, pareciam ser apenas agregados de um cotidiano em que outros valores (como o dinheiro, o poder e a sobrevivência) contavam muito mais. Uma sociedade materialista, como foi citado anteriormente.
Outro elemento que chama muito a atenção neste filme é o da noção de “comprometimento” das pessoas umas com as outras. Mais que uma relação de afeto, muitos dos personagens parecem nutrir, uns pelos outros, mais um sentimento de obrigação. Além disso, podemos questionar o amor que unia o casal Braun… no fim das contas, Hermann abre mão de ficar com a mulher para conseguir, como ela, dinheiro para sustentá-los. Uma questão de orgulho, está claro. Algo curioso para um homem que não se importava com as traições da mulher – talvez porque se sentisse um pouco responsável pela vida “degradante” que ela acabou assumindo depois que ele sumiu do mapa.
Enfim, o filme trata tão bem de questões pessoais como a traição, a fidelidade, a culpa e o afeto quanto dos dilemas morais de uma Alemanha próxima de se encontrar com sua própria decadência – e ressurgimento. Além da direção cuidadosa de Fassbinder, merecem aplausos o roteiro com tintas de realismo “nu e cru” do próprio diretor com Pea Fröhlich e Peter Märthesheimer. Para quem gostou da direção de fotografia, ela é obra do excelente Michael Ballhaus. A trilha sonora, importante para a história, é de autoria de Peer Raben. A edição, de Fassbinder – que utiliza o pseudônimo de Franz Walsch, em homenagem a um de seus ídolos, Raoul Walsh – e Juliane Lorenz (com quem o diretor foi casado).
E ainda que Die Ehe der Maria Braun não toque no “polêmico” tema dos casais homossexuais, ele aborda outras questões espinhosas – especialmente para a sociedade alemã. Como, por exemplo, o envolvimento da mulher de um soldado alemão desaparecido na guerra – e tido como morto – com um soldado norteamericano e, pior, negro. Todos sabem que muitos alemães tem um verdadeiro preconceito racial contra negros – algo que acabou sendo bastante diluído com o passar do tempo. Mas a questão racial está em jogo neste filme, ainda que de forma indireta. Assim como a “liberação sexual” de pessoas mais velhas, como é o caso da mãe de Maria que, no mesmo passo em que a filha vai se tornando uma figura importante e que consegue colocar mais dinheiro em casa, consegue também um namorado – depois de muitos anos sem um parceiro. O foco do diretor não é nem a questão racial e nem a da liberação sexual, mas estes temas também fazem parte desta obra.
NOTA: 9,7.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para Rafael Morata Cantón, do site “Rainer Werner Fassbinder, el genio alemán” (o qual eu recomendo), Die Ehe der Maria Braun seria a terceira produção do cineasta dentro de uma corrente de “identidade e história” da Alemanha. Segundo Cantón, as filmagens de Die Ehe der Maria Braun foram realizadas nos primeiros meses de 1978, quando o diretor já se encontrava “imerso” na preparação de um projeto ambicioso, a série para a TV Berlin Alexanderplatz, um projeto com 15 horas e meia de duração.
Pelo texto de Cantón, a história de Maria Braun começa em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, e termina em 1954, com a cena filmada na casa da protagonista depois da morte de Karl Oswald (Ivan Desny, ótimo ator). Hermann se casa com Maria sabendo que teria que retornar logo em seguida para a frente da batalha. O corte na história nos mostra a realidade dela e de sua família logo após o fim da guerra. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Quando Hermann sai da prisão, depois de se declarar culpado de um crime para livrar a esposa, ele viaja para o Canadá, cumprindo um contrato que havia estabelecido com Oswald na prisão – não era isso que eu tinha entendido quando assisti ao filme, para ser franca, mas agora a história (especialmente o final) faz muito mais sentido.
Como bem define Cantón, esta história se mostra uma parábola do Milagre Econômico Alemão, ocorrido após o fim da guerra. Esta nação no pós-guerra “aparece tranvestida em uma mulher livre, inteligente e poderosa que, no final, é superada em suas estratégias porque não foi mais que um objeto de troca entre dois homens, uma transação mais neste mundo feito para o negócio e a especulação e não para o amor”. Ótima análise. Na época, Fassbinder comentou que o que aparentemente parecia ser um filme que “falava a favor da instituição do casamento” se mostra, na verdade, uma história de quanto ódio, hipocrisia e destruição existe na vida conjugal. Uma bela síntese, eu diria. Complementada pela seguinte declaração de princípios do diretor: “Eu quero que a audiência rompa com seus rituais (do casamento) e ponha ponta final ao estilo de vida burguês”.
Uma interessante declaração do homem que ficou conhecido por seus dois casamentos – com mulheres – e por seus diversos amantes (homens). O tema da homossexualidade, aliás, foi tratado pelo cineasta em vários de seus filmes – normalmente em segundo plano, com casais gays como coadjuvantes, até que filmou Querelle, em 1982, um marco por colocar o tema no primeiro plano. Nascido na cidade de Bad Wörishofen, na Bavária, no dia 31 de maio de 1945, ele viria a morrer aos 37 anos depois de uma overdose de cocaína e da ingestão de pílulas para dormir. Mesmo morrendo tão jovem, ele deixou um legado de 44 produções finalizadas em 16 anos – segundo o IMDb. Na sua época, ele declarava que “podia dormir quando estivesse morto” – uma frase repetida mundo afora sem que seja conhecida, muitas vezes, sua real autoria.
Para muitos, Die Ehe der Maria Braun acabou se tornando o filme de Fassbinder que teve maior êxito (pelo menos internacional, já que na Alemanha muitos torceram o nariz pelo retrato mordaz que o diretor estampou em película de seu país no pós-guerra). Além do reconhecimento do público, através das bilheterias, a produção foi merecedora de 12 prêmios e de duas nominações – incluindo um Globo de Ouro. Entre os prêmios que levou para casa, se destaca o de Melhor Atriz para Hanna Schygulla no Festival de Berlin e o de Melhor Filme Estrangeiro conferido pelo Círculo de Críticos de Cinema de Londres. Com a morte do diretor, os críticos consideraram que o Novo Cinema Alemão, do qual ele era figura central, havia também morrido.
Die Ehe der Maria Braun recebeu a nota 7,8 pelos usuários do site IMDb. Os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 13 críticas positivas e apenas uma negativa para o filme – o que lhe rende uma aprovação de 93%.
Para quem gostou das “paisagens” que o filme mostra – ele tem poucas cenas externas, na verdade -, vale citar que esta produção foi rodada em Berlim e na cidade de Coburg, na Bavária.
Achei curioso que o final do filme realmente reproduz, em sete minutos, o final da Copa do Mundo que garantiu, para a Alemanha, o título de campeã. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). No site de Cantón, ele analiza este final trágico e apoteótico ao mesmo tempo como uma ironia entre a “vida privada que se destrói e a pública que dá gritos de júbilo pela vitória”, no que ele considera como a evidência da visão do diretor de que estava ocorrendo o “fim de uma utopia íntima que se transforma em cinzas e escombros frente a arrogância de uma nação que celebra o lema de ‘voltamos a ser alguém’”.
Para quem quiser saber mais sobre Fassbinder, indico esta matéria do site do jornal Deutsche Welle; este texto do site CinePlayers; o ótimo trabalho de Rafael Morata Cantón com o site “Rainer Werner Fassbinder, el genio alemán” (em espanhol); este texto muito bom do site Senses of Cinema (em inglês) e este artigo da Wikipédia.
E um comentário sobre a nota que dei para o filme: não dei um valor maior por algo simples… acho que o filme acabou perdendo parte da sua força com o passar do tempo. Ainda que continue sendo um grande filme, mesmo 30 anos depois de ter sido lançado, acredito que ele tenha “envelhecido” um pouco especialmente por sua edição – e algumas partes da dinâmica do roteiro. Ainda assim, por se tratar de uma peça importante da obra de quem ele é fruto, merece todo o respeito e a nota acima.
Além dos atores principais já citados, vale comentar as atuações de Elisabeth Trissenaar como Betti Klenze, amiga de infância de Maria; Gottfried John como Willi Klenze, marido de Betti e soldado que vai para a guerra e volta dela antes de Hermann; Hark Bohm como Senkenberg, braço direito e homem de confiança de Karl Oswald; George Eagles como Bill, o militar estadunidense que cai nos encantos de Maria quando ela trabalhava em um bar da cidade em que eles viviam; Claus Holm como o doutor que acompanha Maria em suas desventuras; Anton Schiersner como o “avô” Berger; e Günter Lamprecht como Hans Wetzel.
No geral, todos os atores estão muito bem, mas fiquei impressionada, em especial, pelo desempenho das atrizes Hanna Schygulla e Gisela Uhlen, que fazem um trabalho muito técnico e, ao mesmo tempo, inspirado. O ator Ivan Desny também se sobresai.
Ui, esqueci de comentar antes… Die Ehe der Maria Braun é seguido de outros dois filmes da trilogia sobre a Alemanha do pós-guerra: Lola, de 1981, e Die Sehnsucht der Veronika Voss, de 1982.
CONCLUSÃO: Um marco do chamado Novo Cinema Alemão, se trata de uma das obras-primas do premiado cineasta Rainer Werner Fassbinder. Com roteiro e edição do próprio diretor, o filme é um belo documento crítico da Alemanha nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial e, principalmente, da fase seguinte vivida coletivamente pelos alemães – em busca de uma ascensão econômica forte que, em muitos sentidos, desprezava as relações pessoais entre os indivíduos. Colocando a câmera sempre próxima dos atores, Fassbinder valoriza as interpretações e o ritmo da narrativa, se ausentando da posição de testemunha “ocular” da história apenas quando chega o derradeiro final – o que pode demonstrar, apenas, sua vontade de voltar as costas para o que vemos na tela, uma forma de desprezo pela falta de sentimentos em cena. Inovador dos créditos iniciais até os que encerram esta história, Fassbinder demonstra – através de seu filme e de sua vida – uma vontade imensa de ir contra os discursos vigentes de sua época, conclamando as pessoas a viverem o seu tempo de maneira crítica e inconformada.
SUGESTÕES DE LEITORES: Desde que a Alemanha ganhou na votação do blog que decidiu os próximos filmes que eu comentaria por aqui, penso em que filme assistir do tão comentado diretor Rainer Werner Fassbinder. Ao lado de Wim Wenders e Werner Herzog, este cineasta é apontado como um dos principais responsáveis pela divulgação do cinema alemão no mercado internacional. E mesmo admitindo que faltam muitas produções suas para assistir ainda, ouso dizer que ele chegou a este posto por seus méritos e talento. Um grande nome a ser descoberto por mim em sua plenitude ainda – tarefa que vou deixar para o futuro deste blog.
















