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The Great Buck Howard – A Mente Que Mente Julho 29, 2009

Posted by Alessandra in Cinema, Cinema norte-americano, Crítica de filme, Movie.
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O desejo irrefreável de acreditar que os acontecimentos ocorrem por uma razão e de que cada um de nós tem um espaço definido no mundo. Tal desejo é a espinha dorsal do filme The Great Buck Howard. Esta produção, encabeçada por nomes como John Malkovich e Tom Hanks (que, na verdade, faz apenas uma ponta no filme), também se debruça sobre o “showbusiness” e sobre o tema dos “artistas marginais”. Ainda assim, meus caros leitores, não se enganem: The Great Buck Howard segue a linha de produções que tentam ser mais do que realmente são. Bastante lento, previsível e sem muitos atrativos além de Malkovich, este é um filme que acaba dando sono. E preguiça (até para escrever sobre ele). Claro que se ele for espremido, até solta algum suco interessante. Mas como entretenimento, The Great Buck Howard é muito fraquinho.

A HISTÓRIA: Os três primeiros minutos do filme contam, de forma acelerada, como Troy Gable (Colin Hanks) resolveu dar uma reviravolta em sua vida. Deixando para trás tudo o que seu pai (Tom Hanks) tinha planejado para ele, Troy abandona a faculdade de Direito depois de dois anos e resolve não fazer nada. Pelo menos até que ele encontre a sua verdadeira vocação – começando com a tentativa de ser escritor. Mas como o dever das contas chama, Troy se aventura a buscar um emprego. Lendo os classificados do jornal ele decide trabalhar como assistente pessoal e coordenador de turnês do “famoso” Buck Howard (John Malkovich) – alguém de quem ele nunca tinha ouvido falar. A partir daí, acompanhamos as aventuras de Troy e de Buck Howard em uma turnê pelo interior dos Estados Unidos e pela busca do artista em voltar a ter destaque na mídia nacional.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Great Buck Howard): O começo do filme, ainda que nada inovador, parece promissor. Uma boa edição e a escolha acertada das imagens nos leva a crer que veremos um filme criativo pela frente. Ledo engano. Para começar, pelo ritmo que o filme escrito e dirigido por Sean McGinly toma depois, não entendo o porque de tanta aceleração narrativa naqueles 3 minutos de largada. A história chega a ter nuances tediosos lá pelas tantas… assim sendo, aquela introdução sobre a vida e as intenções do protagonista poderia ter sido um pouquinho mais extensa. Se isso fosse feito, pelo menos não correríamos o risco de achar que o resto do filme seguiria a mesma linha de edição criativa e narrativa acelerada – o que não ocorre, está claro.

Comentada essa diferença brutal entre o que o filme “sugere” nos minutos iniciais e o que ele nos apresenta no restante de seu tempo, vamos ao que interessa: o que The Great Buck Howard quer nos dizer. Para começar, se fôssemos buscar uma “moral da história”, ela nos falaria sobre a necessidade de corrermos atrás dos nossos sonhos, sobre a magia que a vida deveria ter e sobre como podemos aprender com os exemplos de vida mais inusitados/pouco valorizados. Certo, todas estas mensagens são bacanas e necessárias. O problema é que McGinly erra a mão na forma – e não no conteúdo. Assim sendo, além de nos apresentar um filme bastante arrastado e lento, em muitos momentos, o diretor e roteirista tenta nos convencer de uma história bastante surreal, pouco engraçada (sendo que a produção é classificada como comédia) e que emociona mais pelo uso da trilha sonora no final do que por outros recursos.

Sem contar o uso dos estereótipos como principal recurso para dar “profundidade” (leia-se isso com ironia) para os personagens do filme. Vejamos: Troy é o típico rapaz boa-praça que, sem ter muito rumo na vida, decide acompanhar um artista cheio de manias e gênio “complicado” como forma de se inspirar para seu sonhado trabalho como escritor. Ao ler os créditos do filme é que me dei conta de que Colin Hanks não apenas tentava seguir os passos do “eternamente boa-praça” Tom Hanks… sendo filho do astro de Forrest Gump, entende-se como ele se parece tanto com o pai (nos trejeitos e na aparência física). Sendo assim, fica evidente a “forçada de barra” para que um cara um tanto sem graça como Troy consiga “se dar bem” com a única mulher bonita da história, Valerie Brennan (Emily Blunt). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Vamos combinar que nunca, na vida real, um “casinho” de final de semana de turnê no interior dos Estados Unidos entre um cara como Troy e uma garota como Valerie seria levado a sério depois, quando os dois se encontrassem em Los Angeles. Apenas nos filmes do(s) senhor(es) Hanks.

Seguindo com os estereótipos: o artista tão admirado pelas pessoas simples do interior dos Estados Unidos, que ainda guardam na memória suas antigas aparições na tevê, tem que ser um purgante instável, cheio de altos e baixos, muquirana, “duas-caras” (uma para o público, outra para a intimidade) e com um certo problema em “ver a realidade”. Seu empresário, que lhe acompanha há muitos anos, Gil Bellamy (Ricky Jay) é o típico cara que sabe que seu artista está “por baixo”, que não interessa a mais ninguém da mídia, na mesma medida em que tem a noção de que não deve jamais falar sobre isso com ele. Gil não investe mais na carreira de Buck porque sabe que não há muito que fazer com um artista que parece ter “parado no tempo”.

Mr. Gable, o pai de Troy, veste a roupa do “homem de família” que desaprova qualquer manobra do filho por terrenos perigosos – como é o caso de empregos que não tenham um cartão-ponto para ser batido no final do expediente. E Valerie é a típica “mulher moderna” que trabalha em um ambiente competitivo, dominado por homens, que bebe sempre que não está trabalhando, vive sua “liberdade sexual”… em outras palavras: parece imitar os passos de seus “competidores” masculinos. Fora estes personagens principais, temos a Doreen (Debra Monk) e seu irmão Kenny (Steve Zahn), mais dois estereótipos do que seriam as pessoas “do interior” dos Estados Unidos – neste caso, de Cincinnati. Doreen e Kenny são dois interioranos loucos para estar perto do “astro” que saiu na tevê e, no caso de Debra Monk, a atriz ainda explora o estereótipo da mulher que jura (e quer demonstrar) que tem talento artístico. Certo que os estereótipos normalmente trabalham com idéias reais, mas o problema quando um filme se limita apenas a eles é que tudo fica mais pobre de sentido e significado – sem contar que tais idéias, que não são as únicas da realidade, se tornam ainda mais reforçadas.

Mas para não dizer que tudo em The Great Buck Howard se resume a problemas, a reflexão e a ironia do filme em relação ao showbusiness é algo interessante. A necessidade de Buck em seguir o seu trabalho e sua preocupação em voltar a sair na mídia são aspectos realistas da vida de artistas que não aparece muito nos filmes. Acompanhamos apenas o resultado do trabalho de assessores de imprensa, empresários e especialistas em marketing através da mídia, mas ficamos sabendo pouco sobre a luta das personalidades que não conseguem esse espaço.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei especialmente interessante o momento em que Buck Howard deixa de ser um “artista decadente” para ser o novo “queridinho da América”. O que muitos artistas não percebem – e digo isso porque estive “do outro lado” da questão, trabalhando na mídia – é que ninguém aparece sem ter uma novidade para contar. Howard passou grande parte de sua carreira fazendo o mesmo show, sem nenhuma mudança ou inovação. Como ele esperava ser convidado para os principais programas da televisão sem ter nada de novo para contar? Sem nenhum “interesse” por parte do público, que cada vez mais tem uma nova celebridade para acompanhar, Howard não conseguiu ressurgir mesmo quando fez um número novo e excepcional. Mas ao entrar em colapso, virou notícia na “sociedade do espetáculo”. E como um canal de televisão puxa ao outro, o artista virou a “nova antiga celebridade” do momento. Interessante reflexão.

Também achei interessante a homenagem do diretor e roteirista para os artistas que buscam colocar um pouco de “magia” e mistério na vida de seu público. Nos créditos finais de The Great Buck Howard, McGinly cita nominalmente a O Incrível Kreskin, autoproclamado o “mais conhecido mentalista” do mundo. Bonito. Kreskin, nascido nos Estados Unidos em 1935, se tornou muito popular através de um programa na TV norte-americana na década de 1970. Também interessante a idéia mantida pelo filme de que os artistas que fazem essa “magia” continuar maravilhando ao público não são aqueles que aparecem constantemente nos programas de Conan O’Brien, Regis Philbin, Jon e Martha Stewart ou Jay Leno. E sim os que percorrem quase anonimamente as cidades de todo um país, algumas vezes se apresentando para um grande público, outras vezes, para poucas pessoas. Esta homenagem vale o filme, assim como a interpretação normalmente magnética e excepcional de John Malkovich.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os créditos deste filme são gigantescos. Além dos atores e das personalidades da tevê citadas anteriormente, há muitos outros na lista. Como The Great Buck Howard é praticamente um “road movie” artístico, ele está cheio de coadjuvantes e de pequenas pontas. Além dos atores já citados, queria comentar sobre a participação de Adam Scott como Alan, o assistente de Buck Howard antes de Troy; Patrick Fischler como Michael Perry, um dos empresários de Las Vegas interessado no show do artista; Don Most como o produtor do programa Tonight Show; e Griffin Dunne como Jonathan Finerman, um conceituado roteirista e apresentador de tevê. Menção especial para a divertida aparição do ator George Takei, conhecido pelo personagem de Sulu em Star Trek e, recentemente pela série Heroes, na história.

Gostei bastante da trilha sonora de Blake Neely. Ela acaba sendo fundamental para conduzir o filme, especialmente nos momentos em que o roteiro e até os atores parecem um tanto incapazes de dar a devida “emoção” para a história. O trabalho de Neely acaba fazendo isso por eles – inclusive no “grand finale”. Também achei interessante a apresentação do Clap Your Hands Say Yeah (aqui a página deles no MySpace) no filme. Ficou bacana – e reforçou a idéia de “artistas que se apresentam em qualquer lugar por amor à arte”. Na parte técnica, gostei ainda dos trabalhos do diretor de fotografia Tak Fujimoto e da edição de Myron I. Kerstein.

Como a história mesmo sugere, The Great Buck Howard foi filmado nas cidades de Los Angeles, Nova York e Las Vegas.

O quinto filme no currículo do diretor Sean McGinly estreou em janeiro de 2008 no Festival de Sundance. De lá para cá, ele participou de outros dois festivais e estrou, de maneira limitada, nos cinemas dos Estados Unidos em março de 2009. Sua carreira, pelo visto, ficará mais restrita ao mercado do DVD. A bilheteria do filme comprova as apostas baixas que ele recebeu: nos Estados Unidos, até o início de julho, ele tinha arrecadado pouco mais de US$ 748 mil – nada para os padrões de Hollywood.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7 para o filme – nota essa com a qual eu estou de acordo, ainda que, admito, fiquei entre as notas de 6,5 e 7,5 na cabeça desde que os créditos terminaram. Por sua vez, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos com a produção. Eles dedicaram 63 críticas positivas e 24 negativas para The Great Buck Howard, o que lhe garante uma aprovação de 72% – bastante boa para a média do site.

Ah sim, e o papai do protagonista, Tom Hanks, foi tão bacana que, além de fazer uma ponta importante no filme, ainda ajudou a produzí-lo. Isso que se pode chamar de “empurrãozinho” para a carreira do filhão, hein?

CONCLUSÃO: Uma comédia que aposta mais no talento de John Malkovich do que em um roteiro engraçado ou envolvente. Cheio de “boas intenções”, este filme peca por uma introdução totalmente descolada do restante da narrativa – o que cria falsas expectativas. Se visto com paciência, pode agradar aos que buscam histórias “bonitinhas” e sem muita criatividade. Além de um John Malkovich se “sentindo em casa” em mais um papel de “sujeito estranho” que parece viver sobre os “próprios louros”, o filme vale pela trilha sonora fundamental, que dá o tom dramático e envolvente para o filme que a direção e o roteiro não conseguem garantir. O filme deve valer a pena como curiosidade sobre os bastidores do showbusiness e se for encarado como um conto a respeito da busca pelo próprio talento. Mas isso vai depender do gosto – e do tempo – de cada um.

[rec] – [REC] Julho 28, 2009

Posted by Alessandra in Cinema, Cinema espanhol, Cinema europeu, Crítica de filme, Filme premiado, Movie, Sugestão de leitores.
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Não é nada simples para um diretor que resolve se dedicar aos filmes de terror verdadeiramente surpreender ao seu público. O mais comum é que as novas produções do gênero garantam alguns sustos, alguma diversão, mas dificilmente alguém “reinventa a roda”. Afinal, quase tudo já foi explorado sobre os temas dos vampiros, zumbis e mortos-vivos, epidemias e demais assuntos que povoam o imaginário dos roteiristas e público dos filmes de terror. Mas, algumas vezes, aparece no mercado um filme excepcional sobre algum destes temas. O espanhol [rec] é um destes filmes.

A HISTÓRIA: A jornalista Ángela Vidal (Manuela Velasco) acompanha, junto com o cinegrafista Pablo (Pablo Rosso), um plantão noturno de um grupo de bombeiros de Barcelona. Simulando uma reportagem para a tevê sem edição com tudo o que ela tem direito, como podem ser erros de gravação, comentários entre os jornalistas e tudo o mais, o filme segue a idéia de “ficção realista/documental” explorada em outras produções. Desta forma, presenciamos desde o teste do vestuário dos bombeiros, feito por Ángela, até a rotina deles no jantar, nas brincadeiras na quadra de basquete, até que soa o alarme e os jornalistas saem junto aos bombeiros Manu (Ferran Terraza) e Álex (David Vert) para atender a um chamado. No local da ocorrência, um prédio residencial, eles se encontram com um grupo de vizinhos assustados por gritos de uma “velha louca” e, pouco depois, acabam ficando isolados sob um risco de surto epidemiológico.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue lendo quem já assistiu a [rec]): Fiquei impressionada com esta produção espanhola. Tinha ouvido falar muito bem do filme mas, ainda assim, a expectativa por ver algo bom não jogou contra a minha impressão final. Pelo contrário. Para mim, [rec] faz pelos filmes de zumbi/mortos-vivos o mesmo que Lat Den Rätte Komma In fez, em 2008, pelos filmes de vampiro. Em outras palavras, ele trouxe um frescor totalmente inesperado para o gênero.

Muitas pessoas, certamente, vão dizer que [rec] segue os mesmos passos que o filme The Blair Witch Project, lançado há exatos 10 anos. De fato, mas apenas em partes. Para começar, [rec] convence mais que o projeto original de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez. Há momentos também de câmera tremida, falta de foco, registro de pés, chão e demais imagens “acidentais”, mas na maior parte do tempo [rec] nos mostra cenas que seriam, realmente, produto do trabalho de um cinegrafista profissional. Essa narrativa jornalística do que acontece é um dos grandes achados do filme e o que pode aproximá-lo muito mais do gosto popular do que o “amadorismo” extremo projetado por The Blair Witch Project. Mérito dos diretores Jaume Balagueró e Paco Plaza.

Outro grande acerto de [rec] é o roteiro elaborado pelos dois diretores junto com Luis Berdejo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início, nem sonhamos que esta história vai terminar com uma série de assassinatos provocadas por mortos-vivos e que tudo começou com um caso (pouco explorado) envolvendo uma tentativa mal-sucedida de exorcismo. O final do filme, aliás, deixa uma série de perguntas sem respostas – o que vai lhe garantir uma continuação, claro! Mas isso não se torna um incômodo para o espectador em momento algum. Mesmo que [rec] 2 seja uma bomba, o filme original é uma obra que pode ser vista isoladamente. Um produção muito bem acabada e envolvente.

Como um bom filme de terror exige, a narrativa de [rec] vai crescendo em tensão pouco a pouco. O roteiro e a atuação dos atores acabam sendo fundamentais para que a história convença. Quem já assistiu algo da televisão espanhola deve concordar comigo quando afirmo que Ángela Vidal e Pablo atuam como é esperado pelos profissionais do ramo naquele país. Com uma pitada de humor fundamental, [rec] “amacia” o espectador o suficiente para que, na hora que os sustos começam, estejamos realmente vulneráveis a eles. Francamente fiquei tensa e me assustei com este filme em muitos momentos. E o melhor: sem os famosos sustos “gato-pula-na-frente-da-câmera”, e sim com uma tensão construída de forma realista.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muito bacana o recurso da “câmera da verdade” escolhido pelos roteiristas e diretores como forma de narrativa do filme. A idéia de que o trabalho dos jornalistas Ángela e Pablo deveria servir como testemunho do que estava acontecendo naquele plantão dos bombeiros acaba justificando cada trecho do filme, que se torna bastante rico com a variedade de recursos “jornalísticos” dos protagonistas. Destaque para as entrevistas que eles fazem com os vizinhos do edifício aonde se desenvolve o principal da história, as “passagens” feita pela repórter e, principalmente, a ótima reação de todos os atores e coadjuvantes conforme a história vai se desenvolvendo.

No quesito atuação, todos os participantes estão muito bem, mas merecem uma menção especial pelo carisma e pelo envolvimento de seus atores com a história Manuela Velasco (a repórter Ángela), Ferran Terraza (o bombeiro Manu) e o ator de quem não consegui saber o nome e que interpreta a Miguel, um praticante de enfermaria que mora no edifício para onde os bombeiros são chamados. Outros nomes do elenco são: Jorge Serrano como o policial que fica responsável pela segurança dentro do edifício; o veterano Vicente Gil como o policial que começa na liderança da operação, mas que logo é atacado pela “velha maluca”; Martha Carbonell interpreta a Sra. Izquierdo, justamente a “velha louca”; María Teresa Ortega é a “avó” que gostaria de trocar de roupa, mas que está impossibilitada de ir até o seu apartamento, onde vive com o marido (Manuel Bronchud); Akemi Goto interpreta a japonesa que não sabe falar espanhol direito; Chen Min Kao é o marido da japonesa; e Maria Lanau interpreta a mãe revoltada de Jennifer (Claudia Font).

No material de divulgação de [rec], os diretores comentam que quiseram, com o filme, “encontrar a chave para construir um pesadelo o mais verossímel possível, uma experiência de terror que pudesse ser vivida com uma maior intensidade do que as propiciadas pelas habituais convenções do cinema”. Por isso que eles teriam decidido pela história com cara de reportagem televisiva, “como uma gravação transmitida ao vivo onde o terror acontece na frente dos nossos olhos em tempo real, sem a possibilidade de ser interrompido ou manipulado”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei interessante este “tratado de intenções” dos diretores, mas devo discordar de que o material que vemos seria como uma transmissão ao vivo. Pelas interrupções da narrativa e pelo formato do programa apresentado pelo filme, o mais provável é que a gravação que vemos teria sido recuperada depois do massacre que aconteceu. Aquele tipo de programa não é transmitido ao vivo – e sim gravado para depois ser editado pela emissora.

Os diretores, que são os grandes responsáveis pela qualidade do filme, disseram ainda no site oficial de [rec] que eles se esforçaram em “evitar os mecanismos do suspense e da narração cinematográfica, deixando que a ação se desenvolvesse frente aos olhos do espectador como se ela fosse real, sem possibilidade de ser parada. Como se estivesse viva”.

Da equipe técnica do filme, destaco o trabalho exemplar do diretor de fotografia Pablo Rosso, que interpreta ao personagem do cinegrafista. Ele consegue o tom exato de iluminação artificial, muitas vezes feito apenas pela luz da suposta câmera do canal de tevê ou através da luz de lanternas. Muito bom! Também gostei muito da edição de David Gallart.

[rec] foi um sucesso de público e crítica. Tanto que rendeu, já em 2008, uma refilmagem nos Estados Unidos: Quarantine. É certo que o filme mistura uma série de referências de outras produções – desde o “realismo ficcional” do já citado The Blair Witch Project até a “base para o terror” lançada em clássicos como o de Night of the Living Dead, lançado há 41 anos por George A. Romero (e recriado tantas vezes depois em filmes do próprio diretor ou de outros que o “seguiram”).

O filme de Plaza e Balagueró recebeu 16 prêmios e foi indicado ainda a outros cinco. Entre os prêmios que levou para casa, destaque para os de melhor atriz revelação para Manuela Velasco e para melhor edição nos Prêmios Goya; e cinco prêmios no Sitges – Festival Internacional de Cinema da Cataluña, incluindo os prêmios da audiência, o de melhor atriz e o de melhor diretores.

No site IMDb [rec] registra a nota 7,8, enquanto que o Rotten Tomatoes tem arquivadas 20 críticas positivas e apenas uma negativa para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 95%.

Não consegui informações sobre a bilheteria que o filme conseguiu mundo afora, mas pude conferir o seu baixíssimo orçamento: esta produção teria custado a “bagatela” de 1,5 milhão de euros.

Como já era esperado depois de um sucesso desses, os diretores Jaume Balagueró e Paco Plaza estão preparando uma continuação – que desta vez conta com a participação, no roteiro, de Manu Díez. [rec] 2 já tem até o site oficial com um “countdown” que revela que o novo filme deve estrear dentro de pouco mais de dois meses – mais precisamente, na primeira quinzena de outubro. Pelo trailer que podemos assistir neste site, a narrativa de [rec] 2 deve começar logo depois do término do primeiro filme. (SPOILER – não leia se você não quiser saber mais sobre a nova produção). Tudo indica que um esquadrão especial vai invadir o prédio até então isolado para “dizimar” as criaturas que ameaçam a segurança pública da cidade. Como bem resume a frase do final do trailer, “se acabó la comedia”. Ou seja: [rec] 2 não terá espaço para o humor visto no primeiro filme. Parece mesmo que a nova história vai se debruçar sobre a idéia de um ataque de zumbis do início ao fim.

(SPOILER – não leia se você não quiser estragar surpresas do novo filme). Algo certo, pelo menos pelas informações divulgadas no site IMDb, é de que personagens como Ángela, Manu, Álex e a “garota colombiana” voltarão a aparecer nesta nova história – todos, provavelmente, como zumbis. Ah, e um adendo: explorando o site do filme – muito bom, aliás -, descobri a sinopse de [rec] 2 em um quarto do segundo andar do prédio e ela revela que a história começa apenas alguns minutos depois que as “autoridades” da cidade perderam contato com as pessoas que estavam dentro do edifício. E vendo a fotografias do filme, percebe-se que ele terá vários personagens novos. Em um quarto do primeiro andar, no site, é possível consultar a “ficha artística” da nova produção. Por ali sabemos, por exemplo, que aparecerá em cena o pai de Jennifer, interpretado por Pep Molina; e personagens como Dr. Owen (Jonathan Mellor), Larra (Ariel Casas), Martos (Alejandro Casaseca) e Rosso (Pablo Rosso, que no filme anterior interpretava o cinegrafista Pablo e que aqui deve repetir o papel de “cinegrafista” da história). E uma dica para quem vai explorar o site: existe um link para um site chamado Yodecido, criado pela Filmax, que tem alguns trechos do making of do novo filme.

CONCLUSÃO: Um grande filme de terror e suspense. Envolvente, bem dirigido e com um roteiro criativo, [rec] recria um tipo de filme do gênero que carecia de idéias criativas. Lembrando em partes a inovação lançada há uma década por The Blair Witch Project, esta produção reforça a idéia de que um baixo orçamento pode render um belo filme. Indicado especialmente para as pessoas que gostam de narrativas diferenciadas e que podem resistir a sustos dos bons. Além das qualidades já comentadas, o filme se destaca pela ótima interpretação da protagonista, vivida por Manuela Velasco, e por outras pessoas do elenco que sabem dar o tom exato para seus personagens colocados em um situação de altíssima tensão.

SUGESTÕES DE LEITORES: Mais uma vez assisti a um grande filme graças a uma indicação de um leitor deste blog. [rec] estava na minha lista pessoal para ser assistido há tempos, mas ele só passou a frente de tantas outras produções recentes porque estou tentando colocar a minha lista de dicas recebidas por aqui em dia. E foi o Bernardo que indicou [rec] (assim como os primeiros quatro filmes da série Saw) por aqui em novembro do ano passado. Demorei para assistir ao filme, Bernardo, mas finalmente fiz isso e gostei do que vi. Obrigada por tua indicação. Espero que apareças por aqui, inclusive para falar mais sobre este filme, comentar tuas expectativas sobre a continuação dele e, quem sabe, indicar outros filmes bons do gênero.

Sunshine Cleaning Julho 26, 2009

Posted by Alessandra in Cinema, Cinema norte-americano, Crítica de filme, Movie.
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Imagine uma família de gente ferrada, o que nos Estados Unidos se popularizou como “losers”. A cada novo acontecimento, parece que as coisas se complicam, mas isso não deixa nenhum deles deprimido ou derrotado. Pelo contrário. As dificuldades acabam sendo encaradas com criatividade, ousadia e com um bocado de tropeços que parecem unir ainda mais as pessoas dessa família. Sunshine Cleaning, novo filme dos produtores do sucesso do cinema independente Litte Miss Sunshine, repete um bocado a fórmula do título anterior. Mas quem se importa? Descontadas as repetições de algumas idéias, Sunshine Cleaning acaba se mostrando mais denso e mais “dark” que seu predecessor. E ainda que ele lembre bastante a Little Miss Sunshine, quero deixar claro que não se trata de nenhuma continuação ou algo do gênero.

A HISTÓRIA: Rose Lorkowski (Amy Adams) é uma mãe solteira que ganha a vida limpando casas. Ela olha para garotas da sua idade curtindo festas e vivendo em grandes propriedades com piscina e pergunta a si mesma o que ela fez de errado para ter uma vida tão diferente. Sua irmã mais nova, Norah (Emily Blunt) vive com o pai, Joe (Alan Arkin) e trabalha como garçonete – mas odeia o que faz. Quando o filho de Rose, Oscar (Jason Spevack), tem mais um problema de comportamento na escola pública em que estuda, Rose resolve tirá-lo de lá. Para pagar as contas de uma escola particular ela convoca a irmã, que recentemente perdeu o emprego, para que as duas comecem a trabalhar no ramo de limpar propriedades onde pessoas foram encontradas mortas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Sunshine Cleaning): Logo mais vou listar todas as características que fazem Sunshine Cleaning se parecer com Litte Miss Sunshine (que chamarei pelas iniciais LMS). Mas antes, quero comentar sobre seus diferenciais. Para começar, Sunshine Cleaning vai muito mais fundo no tema da morte. No aspecto em que o trabalho das irmãs Rose e Norah é visto por elas com certa “vergonha” e receio no início, o filme me lembrou um pouco a Okuribito. Mas pouco, claro, porque a produção japonesa que ganhou o Oscar de 2009 como melhor filme estrangeiro é muito mais profunda e poética que Sunshine Cleaning. Ainda assim, a produção com roteiro de Megan Holley se debruça sobre o tema da perda de pessoas que amamos de maneira interessante.

Demora, contudo, para que o tema da morte ganhe protagonismo no filme. Inicialmente, esta história parece tratar das relações de uma família bem diferente dos padrões tradicionais. E da maneira com que cada um dos adultos desta família enfrenta as dificuldades para conseguir dinheiro para pagar as contas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Diferente de LMS, os protagonistas desta história fogem do padrão de avô, pai, mãe e filhos. Joe, o patriarca da família, é viúvo. Rose é mãe solteira, nunca se casou, e vive uma relação adúltera há muito tempo com o ex-namorado, Marc (Steve Zahn). Norah é solteira e ainda vive com o pai. Em momento algum o filme mostra uma “família feliz” tradicional – o único casal que aparece em cena, Marc e Heather (Amy Redford), vive uma relação abalada pela infidelidade.

Outra característica que distancia Sunshine Cleaning de LMS é que o filme tem um roteiro bem mais “pesado” que a produção de 2006. (SPOILER – você já sabe). Para dar a largada, o filme começa com um suicídio. Pouco depois, as imagens mostram a vida dura e frustrada das irmãs Rose e Norah. A diferença principal entre elas é que Rose se sente responsável pela irmã e, claro, pelo filho. A personagem de Amy Adams literalmente faz o que é necessário para que ela e Oscar vivam razoavelmente bem – endividados, mas pelo menos com comida no prato. Norah, por outro lado, tenta fazer as pazes com o passado e descobrir o que ela vai fazer da vida. Busca fazer o certo, como quando se aproxima de Lynn (Mary Lynn Rajskub) para contar-lhe sobre a morte da mãe. Na trajetória destas irmãs e do pai delas, vemos cenas de adultério, ralação, alguns cenários de morte, decepções amorosas e financeiras. Sem dúvida um roteiro muito mais denso do que o de LMS.

Agora, vamos falar sobre as várias características que fazem Sunshine Cleaning ser bem parecido com Little Miss Sunshine:

1) Um personagem fundamental do filme é uma criança “esquisita”, destas que parecem não se encaixar em turminha alguma da escola porque tem um comportamento fora dos padrões. Em LMS tínhamos a uma garotinha, brilhantemente interpretada por Abigail Breslin. Em Sunshine Cleaning o papel de “criança esquisita” é personificado por Jason Spevack, um garoto que faz muito bem o seu papel – a sequência em que ele fica sob os cuidados do vendedor de loja de produtos químicos Winston (Clifton Collins Jr.) e aquela outra em que ele tenta um contato “com os Céus” são dois momentos marcantes da história. A grande diferença entre os dois filmes é que em LMS a menina tinha um papel muito mais importante na história do que o desempenhado por Spevack em Sunshine Cleaning – ainda que ambos, indiretamente, desempenham o papel de estopim para as mudanças na vida dos personagens retratados;

2) A tal criança “esquisita” tem como principal aliado o avô – interpretado, nos dois filmes, por Alan Arkin. Até o fato do patriarca das famílias ter o mesmo intérprete torna ainda mais inevitável fazer a relação das duas produções. Mas, claro, os personagens vividos por Arkin são um bocado diferentes – e tem um final distinto também;

3) Nos dois filmes os personagens centrais da história estão tentando encontrar o seu lugar “ao sol” ou, de outra forma, tentando se encaixar em alguma parte da sociedade moderna – que vende a idéia de ser bastante variada e receptiva, mas que normalmente quer mesmo que seus padrões aceitáveis sejam repetidos e mantidos incólumes;

4) As duas produções utilizam a palavra Sunshine – sempre ligada a esperança e/ou ao afeto – no título.

Para o deleite de quem gosta de boas atuações, Amy Adams dá um show no papel da mãe solteira bastante alternativa que não sabe muito bem como lidar com seus problemas. Repetindo mantras de “auto-ajuda” colados no espelho, ela tenta ser sempre a “garota cheia de esperança” da história. Ao seu lado, como o contraponto da balança, ela tem a sorte de ter a Emily Blunt, sua parceira ideal de cena. Blunt desempenha o papel “dark” da história acertando em sua interpretação por pouco – até porque ela tem um risco muito maior de parecer exagerada do que Adams. Mas ela se sai bem. O curioso é que todas as pessoas da família Lorkowski são do tipo “underground”, o que reforça a idéia de LMS de que não é preciso seguir os padrões para ser feliz ou, no caso de Sunshine Cleaning, buscar um sentido um pouco maior para as vidas das pessoas que não são conhecidas como “os vencedores”.

Muito bonitos, em especial, os momentos em que as irmãs Rose e Norah conseguem quebrar um certo um certo “estado de ânimo” de suas vidas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No caso de Rose, essa quebra se dá com o momento em que ela diz basta para o caso sem futuro com Mac – depois que ela percebe que ela estava apenas tentando perdurar uma sensação de “estrela” do colegial que não existia mais. Esse “choque” com a realidade para ela se deu com seu encontro com ex-colegas de turma. Não importa o que ela fizesse, ela seria sempre vista como a garota “que no passado foi tudo e que hoje é uma coitada” – idéia com a qual ela não se conformava.

Norah, por sua vez, acaba encarando o suicídio da mãe de frente e parte, como em LMS, em uma viagem simbólica para descobrir o que era importante para sua vida. Ela rompe com aquela situação montada na família em que ela seria sempre a “menina dependente” de atenção e cuidados. Interessante. No fundo, ainda que mais denso, Sunshine Cleaning repete a fórmula de LMS em misturar humor satírico, drama e personagens “extravagantes” em uma história otimista sobre a coragem de viver e sobre a capacidade das pessoas em se descobrirem e se recriarem pelo caminho.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sunshine Cleaning deixa claro, logo no cartaz do filme, que os produtores de Little Miss Sunshine são os mesmos deste novo filme. Mas além deles, apenas o ator Alan Arkin aparece nas duas produções. O trabalho de direção, desta vez, fica por conta de Christine Jeffs, que faz um trabalho competente, sempre em busca do melhor ângulo para valorizar o trabalho dos atores. O principal aliado da diretora (há cinco anos sem filmar) neste novo filme é o diretor de fotografia John Toon, que utiliza cores de matiz alaranjada que acabam dando uma aura permanente de “realidade saturada” e/ou envelhecida para a história.

Mas a responsabilidade maior pelo filme parece ter caído mesmo no colo da roteirista Megan Holley. Ela acerta e se equivoca ao tentar reproduzir a fórmula de LMS. Claro que sempre é mais fácil seguir uma conhecida linha de sucesso. A sensação que temos, ao terminar de ver a Sunshine Cleaning, é que Holley consegue apenas em parte nos apresentar uma história emocionante e com conteúdo sem copiar demais ao colega Michael Arndt (que teve a seu favor o “ineditismo” do enfoque de LMS). O filme deve agradar especialmente as pessoas que não assistiram a LMS ou, no caso das que assistiram, aos que não se importam em ver muitas variações sobre os mesmos temas.

Um grande achado do filme, sem dúvida, é a ironia de Holley com os estereótipos de “chefe de torcida” (cheerleading) e “capitão do time de futebol americano”. Um pouco que seguindo a idéia de “como seriam os superheróis quando eles se tornassem velhos?”, a roteirista brinca com o futuro de ídolos de uma geração que acabam chegando aos 30 e tantos anos sem se destacarem na sociedade em que vivem. O galã estudantil se casa com outra pessoa e acaba “perdurando” sua juventude ao manter um caso com a antiga chefe de torcida. Ambos sobrevivem em empregos comuns, sem desempenharem mais nenhum protagonismo social. Curiosa e divertida ironia e reflexão, especialmente para quem se sente “perseguido” por complexos ou “êxitos” de uma época tão distante como o colegial ou o primário.

Sunshine Cleaning foi filmado na cidade de Albuquerque, Novo México. Segundo as notas de produção do filme, esta cidade foi escolhida por abrigar um cenário propício para a história, algo que mesclava o clima árido do deserto com uma paisagem privilegiada. A diretora do filme também ressaltou o olhar cuidadoso de Toon com os atores, em uma busca permanente para que a câmera se tornasse “íntima” dos personagens.

O produtor Peter Saraf destacou, neste mesmo material de divulgação do filme, que em nenhum momento a câmera mostra os crimes que depois acabam sendo fonte de trabalho para as protagonistas. Saraf ressalta, ainda, que Sunshine Cleaning é um “maravilhosa metáfora sobre a limpeza no final da vida de alguém enquanto as suas próprias vidas são uma bagunça total”, e que as personagens acabam se dando conta, lá pelas tantas, que devem fazer uma limpeza também em suas próprias vidas.

As atrizes Amy Adams e Emily Blunt teriam passado alguns dias trabalhando em cenas de crime reais, como pesquisa para suas personagens.

Outros profissionais importantes na equipe técnica do filme são Michael Penn, responsável pela trilha sonora, e Heather Persons, que assina a edição de Sunshine Cleaning.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para o filme. Por sua vez, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 103 críticas positivas e 38 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 73%. Um destes raríssimos exemplos de um empate técnico entre a opinião de público e críticos.

Depois de estrear no Festival de Sundance de 2008, Sunshine Cleaning passou por outros três festivais e dois mercados de distribuição de filmes antes de estrear de maneira limitada nos Estados Unidos em março deste ano. Até o momento, o filme não recebeu nenhum prêmio – ainda que tenha sido indicado em Sundance, mas perdeu na categoria de Grande Prêmio do Júri para Frozen River.

Nas bilheterias, o filme teve um desempenho um tanto fraco: conseguiu, até o dia 9 de julho deste ano, pouco mais de US$ 12 milhões. Achei pouco levando em conta que ele foi vendido como uma produção na linha de Little Miss Sunshine e por ter duas atrizes “vendáveis” como Amy Adams e Emily Blunt como protagonistas. Apenas para comparar, LMS conseguiu quase US$ 60 milhões apenas nos Estados Unidos.

Preste atenção especialmente nas cenas da “aventura” noturna sob o trilho de trem e na sequência em que, finalmente, a mãe das protagonistas aparece em cena.

Sunshine Cleaning só comprova o grande ano que Amy Adams teve em 2008. Além deste filme, ela estrelou Doubt e Miss Pettigrew Lives for a Day, ambos comentado aqui no blog. Este ano, logo mais, ela poderá ser vista em Julie & Julia, filme dirigido por Nora Ephron em que ela repete a dobradinha vista em Doubt com Meryl Streep.

CONCLUSÃO: Um filme denso sobre a bagunça que pode ser a vida de algumas pessoas e sobre as medidas que elas tomam para resolvê-la. Produzido pelas mesmas pessoas responsáveis por Little Miss Sunshine, este filme segue a mesma linha de colocar como protagonistas da trama pessoas comuns ou, para alguns, verdadeiros “losers”. Com atuações realmente muito boas, especialmente das atrizes Amy Adams e Emily Blunt, que encarnam personagens diferentes do que o público está acostumado a ver, Sunshine Cleaning segue a linha de “narrativa de envolvimento crescente”. De história bastante ordinárias partimos para reflexões um tanto filosóficas e profundas, como a de que a escolha do que fazemos para viver pode determinar bastante o nosso grau de sensibilidade com os nossos problemas (e dos demais) e dos mecanismos que desenvolvemos para a resolução dos mesmos. Mais sombrio que Litte Miss Sunshine, este filme deve ser visto como uma interessante tentativa de entretenimento um tanto denso e que privilegia personagens à margem na sociedade norte-americana.

Disturbia – Paranóia Julho 22, 2009

Posted by Alessandra in Cinema, Cinema norte-americano, Crítica de filme, Filme premiado, Movie, Sugestão de leitores.
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Imagine um sujeito que é obrigado, por alguma razão, a não sair de casa por um longo tempo. Sem nada de muito interessante para fazer, ele resolve, com um binóculo, espionar os vizinhos. Assim, ele acaba sabendo de quase tudo que se passa nas vidas alheias, até o momento em que ele começa a acreditar que um de seus vizinhos é um assassino. Você lembrou de Janela Indiscreta (Rear Window) clássico de Alfred Hitchcock lançado há 55 anos? Pois quase… esta premissa, adaptada para os anos 2000 substituindo o jornalista de meia idade de Hitchcock por um adolescente entendiado é a mola propulsora de Disturbia. Dirigido por D.J. Caruso, Disturbia lançou para o estrelato Shia LaBeouf, que só depois desta produção estrelaria Transformers, Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull e que voltaria, em Eagle Eye, a trabalhar com Caruso.

A HISTÓRIA: O jovem Kale (Shia LaBeouf) passa uma tarde relaxante com o pai, o escritor Daniel Brecht (Matt Craven). Longe da civilização, eles se divertem fazendo um programa que parece “típico de pai e filho estadunidense”: percar em um rio. Na volta para casa, Kale é fechado por um veículo em alta velocidade e, dirigindo distraído, acaba se envolvendo em um grave acidente. Um ano depois, ele agride o professor de espanhol da escola, o Señor Gutierrez (Rene Rivera) e, como penalidade, acaba sendo condenado a ficar três meses em regime de prisão domiciliar. A detetive Parker (Viola Davis, antes de ser indicada ao Oscar por Doubt) explica que o jovem será monitorado 24 horas por dia através de um sensor preso na perna. Com sua conta do videogame, do iTunes e da TV à cabo no quarto bloqueadas pela mãe, Julie (Carrie-Anne Moss), e sem poder sair de casa, Kale acaba dedicando seus dias a espionar os vizinhos – especialmente uma garota que se mudou recentemente, Ashley (Sarah Roemer). Mas sua rotina divertina muda de figura quando ele passa a desconfiar do Mr. Turner (David Morse), que tem um perfil parecido com o de um assassino em série que está sendo procurado pela polícia.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Disturbia): Francamente, não acho um problema este filme “beber” tanto da fonte do clássico Rear Window. Na verdade, acho até bacana a idéia do roteirista Christopher B. Landon em “adaptar”, por assim dizer, aquela premissa original para os dias atuais. Sim, porque idéia original mesmo, ele não teve – impossível alguém que vive no ramo do cinema não conhecer o clássico de Hitchcock. Mas acho bacana esse tipo de “homenagem” aos clássicos – acho melhores do que uma simples (e normalmente mal feita) refilmagem.

Dito isso, quero salientar também que Disturbia apenas utiliza o conceito de “voyeurismo” dos vizinhos visto anteriormente em Rear Window. O restante do filme é original, traz idéias novas para a história. Começando, por exemplo, por colocar um adolescente estadunidense como protagonista. Uma das partes mais interessantes do filme é ver como todas as ações de Kale são perfeitamente justificadas pelo fato dele ter 17 anos e ter perdido o pai recentemente – em um acidente do qual, o filme não deixa claro, mas provavelmente ele se sente um pouco culpado. Um bocado “revoltado”, crianção e com os hormônios nas alturas, Kale avacalha com a rotina de casa e, claro, acaba desta maneira transformando a sua própria vida em um “pequeno inferno” – entendendo isso como ficar sem o Xbox 360, sem acesso ao iTunes ou aos canais pornôs da TV à cabo.

Entediado e com um limite para se locomover que termina no jardim de casa, Kale agradece aos céus quando tem o colírio de uma nova vizinha para observar. Todo esse enredo de “azaração” e esta coleção de “gostos juvenis” deve ter caído como uma luva entre o público jovem. E todos nós sabemos que a identificação entre público e personagens é meio caminho andado para um êxito de bilheteria. Pois bingo! Um grande acerto dos roteiristas Landon e Carl Ellsworth em explorar este filão. E a verdade é que este enredo, somada a direção bastante ágil e acertada de D.J. Caruso, fazem o filme ter o ritmo certo.

Outra característica interessante de Disturbia, em relação ao clássico de Hitchcock, é que no filme de 2007 as novas tecnologias acabam tendo um papel fundamental na história. Kale e seu melhor amigo – e ajudante de espionagem – Ronnie (Aaron Yoo) não utilizam apenas diferentes binóculos para espionar. Desta vez eles fazem uso de câmeras de vídeo e celulares conectados a distância. Até mesmo Ashley acaba aderindo à brincadeira e, em uma das melhores sequências do filme, espiona Turner em uma loja de conveniências. Muito interessante a maneira com que Caruso trabalhou a conexão através de celulares, computador e câmeras de vídeo entre Kale, Ashley e Ronnie naquele momento.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O único “porém” de Disturbia, para o meu gosto – além de alguns momentos em que o crianção do protagonista chega a irrita com sua imaturidade – é que ele acaba sendo previsível demais. Certo que lá pelas tantas, como qualquer filme de suspense, o roteiro tenta nos convencer de que tudo não passa de uma neurose da cabeça do entediado Kale – velha artimanha empregada por produções do gênero. Mas esta “reviravolta” do roteiro é tão previsível que, quando ela acontece, já sabemos o que virá depois. Sim, Disturbia tem que ter o seu herói e seu psicopata de plantão. Do contrário, o que seria do filme? Bem, poderia ser outra coisa… surpresas são raras em Hollywood, mas as exceções estão aí para comprovar que elas são possíveis. O que não é o caso de Disturbia. Ele é um bom filme, mas não surpreende.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não sei vocês, mas eu achei o Shia LaBeouf “grandinho” demais para encarnar um garoto imaturo de 17 anos. Certo que ele tem aquela cara de “bom moço” e um pouco de “neném”, mas tive que me esforçar para pensar que estava vendo um estudante de segundo grau na minha frente. Lembrando que em 2007, quando o filme foi lançado, LaBeouf tinha 21 anos. Agora, alto lá! Espero que ninguém me entenda mal. Achei a interpretação dele muito, muito boa. Carismático, talentoso, ele dá o tom exato para o personagem. Foi por mérito que ele conseguiu a projeção que teve depois deste filme.

E falando em carisma… gostei muito da “química” entre LaBeouf e a atriz Sarah Roemer. Os dois acabam dando um “tempero” importante para a história – e, como em um filme de Hitchcock, parece que o contato físico entre eles tem que ser adiado quase até o final, em uma sucessão de interrupções que, Freud explica, adia o prazer e cria tensão suficiente para que a platéia torça pelo casal e se identifique com eles.

Outra característica que faz Disturbia ser diferente do clássico de Hitchcock é que o filme de Caruso é muito mais “direto” nas cenas de violência. Que ninguém se engane: há momentos de tensão, socos, sangue e gente morta.

Disturbia reflete menos que Rear Window a questão da paranóia urbana. Mas o tema está ali, presente. Especialmente nas vezes em que o policial Gutierrez (Jose Pablo Cantillo) se vê obrigado a atender aos alarmes falsos do protagonista. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Chega aquele momento da história em que todos desacreditam a Kale, acreditando que ele está exagerando, que ele virou paranóico e que está vendo um assassino em uma pessoa comum. Como o cartaz do filme sugere, é fato que todos os psicopatas são vizinhos de alguém. Mas é igualmente verdadeiro que se começamos a vigiar os demais, nos tormamos paranóicos e, provavelmente, veremos cabelo em ovo na maioria das vezes. Bom senso, como sempre, é a melhor pedida. Ou, em outras palavras, o ideal é você não fechar os olhos para comportamentos sinistros na mesma medida em que aposta em preservar a privacidade dos demais.

Tecnicamente, Disturbia é muito bem dirigido por Caruso, como comentei antes, e tem uma direção de fotografia bastante correta de Rogier Stoffers. O diretor de fotografia garante que as cenas noturnas, que ocupam uma parte considerável do filme, sejam ao mesmo tempo convincentes e claras o suficiente para dar protagonismo aos atores. A trilha sonora de Geoff Zanelli, como em 99% dos filmes de suspense, está planejada para nos “assustar” nos momentos cruciais da história. Por ser voltado para o público jovem, Disturbia também conta com um trilha voltada para este público, com a escolha de System of a Down, Kings of Leon, Countdown, entre outros, para o repertório. Completando a equipe técnica principal, merece uma menção o trabalho do editor Jim Page, o grande responsável, junto com Caruso, pelo ritmo acertado do filme.

Disturbia foi um sucesso de bilheteria. A produção, que teria custado aproximadamente US$ 20 milhões, faturou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 80 milhões. Um belo lucro, não? Eu gostaria de ser uma das produtoras do filme para levar o meu “quinhão” nesta bolada. ;)

Para completar o quadro perfeito de qualquer produtora em Hollywood, Disturbia ainda abocanhou alguns prêmios pelo caminho. No total, o filme ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros três. Dos que levou para casa, destaque para os prêmios de Melhor Filme de Terror/Thriller e outros dois para o ator Shia LaBeouf no Teen Choice Awards de 2007 – premiação em que o público jovem escolhe os melhores do ano.

No site IMDb o filme registra uma respeitável nota 7. Na média, os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes também aprovaram Disturbia: pelo site é possível acessar a 112 críticas positivas e 54 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 67%.

CONCLUSÃO: Um filme de suspense envolvente que moderniza a idéia da paranóia/voyeurismo do clássico de Hitchcock lançado há 55 anos. Estrelado por um Shia LaBeouf sedento por mostrar trabalho – o que ele efetivamente consegue -, Disturbia acaba sendo uma interessante reflexão sobre o comportamento juvenil e das famílias que vivem nos espaços urbanos atuais. Se bem que a última intenção do filme é a de fazer refletir – o que Disturbia busca, realmente, é entreter. A tecnologia e os gostos juvenis ganham certo protagonismo no filme, assim como a capacidade das pessoas em manterem-se normalmente isoladas – a idéia é que em suas propriedades pode acontecer quase de tudo. Bem dirigido, com um ritmo adequado, o filme apenas peca por seguir em um caminho bastante conhecido pelos fãs do gênero – ou seja, conta com reviravoltas e um desenlace previsíveis. Mas como entretenimento, vale a pena. Agora, se você ainda não assistiu ao clássico de Hitchcock, Rear Window, está é a hora!

SUGESTÕES DE LEITORES: Como ocorreu antes e vai acontecer muitas vezes ainda, dou uma pausa na minha lista de filmes mais “novinhos” a serem assistido para me lançar a alguma produção que todos ou quase todos já assistiram – menos eu. Isso para atender às dicas – sempre muito boas – dos leitores deste blog. Desta vez, a minha motivação para assistir a Disturbia partiu de um comentário feito pela Isa em novembro de 2008. Bem bacaninha este filme, viu, Isa? Gostei!! E tenho outros filmes que você comentou na lista para assistir… pouco a pouco, vou colocando a minha “tarefa de casa” em dia. ;) Obrigada pela sugestão e vê se aparece, para comentar sobre este e outros filmes!

The Girlfriend Experience – Confissões de Uma Garota de Programa Julho 20, 2009

Posted by Alessandra in Cinema, Cinema norte-americano, Crítica de filme, Movie.
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Tem filmes que são exatamente aquilo que eles prometem ser. Outros, nem chegam a satisfazer a expectativa criada pelo trailer ou por outras formas de propaganda. E existe ainda aquela categoria de filmes que vai além das aparências. The Girlfriend Experience, novo filme do diretor Steven Soderbergh, criou reboliço por ter uma atriz pornô como protagonista. A produção também chamou as atenções por narrar o cotidiano de uma “acompanhante de luxo” que vive em uma Manhattan nas vésperas de eleições presidenciais de 2008. Mas francamente The Girlfriend Experience é muito mais que umas “confissões de uma garota de programa”, como quer resumir o título escolhido para o Brasil. Ele é um grande exercício narrativo de Soderbergh que demonstra, com apuro técnico e inspiração, como um contador de histórias pode transformar o que parecia ser uma narrativa banal em uma pequena e preciosa pérola do cinema.

A HISTÓRIA: Um jovem casal acaba de sair do cinema e, dentro de um táxi, falam de suas impressões sobre o filme. Depois, eles jantam em um restaurante intimista e, ao chegarem em seu apartamento, Philip (Philip Eytan) conta a Chelsea (Sasha Grey) sobre os empréstimos que tem feito para um amigo que parece não saber a hora de parar de pedir favores. Depois eles namoram no sofá. No dia seguinte, ele pede um café da manhã para os dois e ela vai embora. O que parece uma noite romântica e uma manhã normal de um casal qualquer com um certo padrão de vida em Nova York é, na verdade, o trabalho de Chelsea (que se chama, na verdade, Christine). Acompanhante de executivos, roteiristas e demais homens de dinheiro, ela narra seu cotidiano em uma época de incertezas nos Estados Unidos – e no mundo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Girlfriend Experience): Um filme pode ser interessante de maneira óbvia ou fugindo dos padrões. Este novo filme de Soderbergh, com um ótimo roteiro de David Levien e Brian Koppelman é tudo, menos tradicional. Para começar, ele muitas vezes insinua ser algo, mas acaba sendo outra coisa totalmente diferente. Por exemplo, a questão da narrativa. Aparentemente, The Girlfriend Experience nos mostra o cotidiano de Chelsea/Christine de forma linear. Ledo engano. O único fio condutor “linear” desta história é a entrevista da garota com um jornalista (Mark Jacobson). O restante do filme é contado em um vai-e-vem entre o passado e o presente da protagonista.

Essa “complexidade” do roteiro, provavelmente, passará desapercebida de muita gente. Assim sendo, boa parte dos espectadores ficará em dúvida sobre o que aconteceu com Chelsea e seu namorado, Chris (Chris Santos). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Se a história fosse contada de forma linear, a impressão que temos é que Chris se mandou para Las Vegas e que Chelsea quebrou a cara com seu novo cliente, levando um bolo no final de semana que tinha sido motivo de uma briga dela com o namorado. Mas é justamente a entrevista com o jornalista que nos revela a “cilada” do roteiro. Vou dar a dica para vocês: lá pelo no minuto 53 do filme, Chelsea conta como determinados livros de personalogia são importantes para o seu trabalho, para o momento em que ela aceita ou não sair com algum cliente novo.

No final deste trecho, o jornalista pergunta para ela como ela lidou com um cliente (David, interpretado por David Levien, co-roteirista do filme) pelo qual ela tinha se interessado (e o qual tinha se interessado por ela) e Chelsea revela que ainda estava lidando com o caso. Outras cenas também comprovam que ela não se encontrou apenas uma vez com David – o que a cena seguinte, quando ela informa para Chris que vai passar o final de semana com tal cliente, insinua. Se comparamos também a sequência do minuto 34 (quando “pegamos o bonde andando”) com a que ocorre logo após a pergunta-chave do jornalista, pelo minuto 54, fica comprovado como a história não é linear. E isso faz toda a diferença na hora de entender ou não ao filme.

Mas as aparências não enganam apenas na forma com que o roteiro é desenvolvido. Cada escolha de cena feita pelo diretor Steven Soderbergh reforça a idéia de que tudo o que parece fútil e conversa vazia é, na verdade, um jogo de cena. Quando o diretor tira o foco dos atores para mostrar o cenário, a cidade, o “alto nível” de restaurantes e apartamentos de luxo, ele nos faz refletir sobre a importância que aquele momento histórico dá para as pessoas e para as “coisas”. Todos vivem em um momento de neurose coletiva, alimentada por uma “crise financeira mundial” que domina as conversas das pessoas – mesmo quando o tema parece ser as eleições entre Barack Obama e John McCain.

As conversas sobre a crise e as eleições são como uma cortina de fumaça de algo maior, que é a histeria coletiva. Todos correm para mudar de vida, para se “aprimorar” como resposta ao medo que a tal crise provoca. Isso vale para a “garota de programa” de luxo, para seu namorado, um atlético preparador físico de uma academia, para os executivos, comerciantes, roteiristas de cinema, atores de tevê e demais clientes de Chelsea. Esta talvez seja a grande tacada de mestre de Soderbergh que, ao narrar um curioso e um pouco “picante” cotidiano de uma “garota de programa”, acaba fazendo uma crônica visual, mais que verbal, sobre as características da sociedade dos Estados Unidos atual.

De quebra, os roteiristas ainda insinuam que existe pouca diferença entre os que votam em democratas ou republicanos em solo estadunidense. Todos, no fundo, querem saber de ganhar dinheiro e de manter o seu alto padrão de vida. Cada cliente de Chelsea fala da crise e da necessidade de superação para enfrentar os “novos tempos”, mas ninguém deixa de pagar altas quantias por uma acompanhante, nem de frequentar os melhores restaurantes ou, no caso dos “novos amigos” de Chris, de viajar com um jatinho particular para passar um final de semana de festas em Las Vegas. A crítica nas entrelinhas à hipocrisia do discurso vigente é um dos pontos altos do filme.

Sou suspeita para falar, mas achei a direção de Steven Soderbergh em The Girlfriend Experience, uma das mais interessantes dos últimos tempos. Alguns afirmam que este é um grande exercício de cinema experimental. Concordo que o diretor roça neste tipo de cinema. Mas ele não faz manobras endiabradas com a câmera. Pelo contrário. Cada escolha de foco ou de plano para a câmera é feita de forma premeditada. A exemplo de Cristian Mungiu em 4 Luni, 3 Saptamâni si 2 Zile, a escolha mais frequente é a da câmera parada, com um plano aberto, mantendo certa distância e “imparcialidade” sobre a narrativa que está se desenvolvendo.

Mas Soderbergh vai um pouco além desta escolha feita por Mungiu e outros cineastas anteriormente. Como esboçou em filmes que precederam The Girlfriend Experience, Soderbergh se debruça em elementos de beleza urbana. Lhe interessa, igualmente, as letras de uma vitrine ou a iluminação diferenciada de um restaurante. A beleza dos detalhes ganha protagonismo na visão do diretor, mais que alguns momentos de interpretação dos atores. Mas isso não significa que ele não dê a devida atenção para o que os protagonistas falam ou como eles agem. Não. Nos momentos decisivos – e até nos mais inusitados, como em algumas “corridas” de táxi – a lente de Soderbergh está atenta para revelar as melhores expressões de seus atores.

E falando neles… que grande e grata surpresa esta Sasha Grey. Belíssima, charmosa, a atriz equilibra no tom exato as idéias de sensualidade, superficialidade, fragilidade, um misto de pessoa comum com mulher “extraordinária” e, ainda, elegância. Juro que se eu não tivesse lido que Sasha Grey é (ou era?) uma atriz pornô, jamais pensaria em algo assim. Há um tempinho eu não via um “rosto desconhecido” comunicar tanto apenas com o olhar e com o sorriso quanto esta garota. Ela carrega o filme, sem dúvida. Os demais atores – talvez a exceção seja David Levien -, inclusive Chris Santos, estão apenas razoáveis.

Outro ponto que chamou muito a minha atenção neste filme é a excelente trilha sonora assinada por Ross Godfrey, do Morcheeba. Além de ter escolhas perfeitas para cada momento do filme, esta trilha sonora é utilizada de uma forma bastante curiosa pelo diretor. Em muitos momentos, ela entra para tomar conta da história e marcar uma quebra narrativa como poucos filmes fizeram anteriormente. É como se não existisse espaço, neste mundo repleto de iPods e demais aparelhos que tocam MP3, para o silêncio. Em The Girlfriend Experience ou as pessoas estão falando qualquer coisa – muitas vezes palavras “vazias” – ou a música está tocando a todo volume. Seja o som produzido por artistas de rua – existe um contraponto maior que eles para a nossa protagonista? – ou uma escolha pontual de Godfrey que “ocupa” a cena. De qualquer forma, aqui temos uma trilha sonora para escutar independente do filme.

Sei que já escrevi demais, mas ainda há um outro ponto de The Girlfriend Experience que fez com que eu ficasse fascinada pelo filme: sua reflexão sobre as “companhias aparentes” e a solidão crônica destes últimos tempos. Parte da conversa de Chelsea com o jornalista é muito reveladora. Especialmente nos pontos em que ele pergunta sobre a “Chelsea real”, sobre a possibilidade dela deixar ser vista por uma fresta em sua (necessária) armadura.

Mais no início do filme, ela responde que se os homens quisessem que ela fosse ela mesma, não estariam pagando para sair com ela. Mas depois, quando Chelsea admite que pode deixar-se conhecer por um de seus clientes, a resposta sobre o “tipo de homem” que seria capaz disto fica, propositalmente, sem resposta. Desta maneira, The Girlfriend Experience demonstra que vivemos em uma era de mudanças cada vez mais constantes. Uma relação “duradoura”, como a que Chelsea/Christine mantêm com Chris, pode estremecer ou evaporar por uma impressão, pelo que um livro que cruza datas de aniversário sugere. As “companhias aparentes” não se estabelecem apenas entre homens que pagam por uma noite com uma bela garota, mas também em relações vazias mantidas mais pelo costume que pelo olhar atento para o outro.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Parece evidente, mas não custa comentar: este filme não tem cenas de sexo explícito mas, ainda assim, deve ser considerado inadequado para crianças. Sasha Grey aparece nua em algumas cenas, mas o que pode ferir a sensibilidade de algumas pessoas é mesmo o linguajar do roteiro, recheado com alguns detalhes um pouco “picantes”/fortes da protagonista.

Uma dica para quem quer acompanhar a narrativa não-linear do filme sem se perder muito: preste atenção no vestuário da protagonista. Inicialmente, parece dispensável quando Chelsea anota em sua “agenda” de clientes detalhes sobre os encontros como a roupa com que ela estava vestida. Mas, na verdade, isso acaba sendo fundamental para ela – porque Chelsea não pode repetir figurinos em seus encontros – e para nós, que através do belo figurino escolhido por Christopher Peterson, podemos nos situar melhor na história.

Não falei antes da direção de fotografia, precisa, limpa e acertadíssima. Mas isso porque ela também é de autoria de Steven Soderbergh – que assina o trabalho com o codinome de Peter Andrews. Como venho falando desde o início, a escolha de cada cena é um trabalho muito autoral do diretor. Soderbergh ainda é o responsável pela edição do filme.

Em algumas versões do filme, foi colocada uma cena extra com a atriz Sasha Grey e um de seus “clientes” após os créditos finais. Mas esta cena está disponível em apenas algumas versões – oficialmente a produção tem 77 minutos de duração.

The Girlfriend Experience foi uma das sensações do Festival de Sundance em fevereiro deste ano. Depois de passar por ali, o filme compareceu ainda nos festivais de Tribeca, Cannes (foi comercializado no mercado do evento), Sydney e Edinburgh.

De super baixo orçamento, esta produção teria custado US$ 1,7 milhão. Quem dera que mais cineastas de renome como Soderbergh se aventurassem, de tempos em tempos, em fazer filmes no estilo. O problema é que, mesmo tendo custado tão pouco, o filme não deslanchou nas bilheterias dos Estados Unidos. Depois de estrear em um circuito limitadíssimo – não chegou a 50 cinemas – no dia 24 de maio, The Girlfriend Experience conseguiu pouco mais de US$ 677 mil até o dia 12 de julho.

O filme não conseguiu um desempenho muito bom na avaliação do público e da crítica. No site IMDb ele ostenta apenas uma nota 6,2. Por sua vez, os críticos que tem textos enlaçados no Rotten Tomatoes dedicaram para o filme 43 críticas positivas e 32 negativas, o que lhe garante uma aprovação de 57%. Achei as avaliações de ambos, público e crítica, muito baixas.

O título original do filme, The Girlfriend Experience, faz referência ao tipo de acompanhante de luxo enfocado pela história. Ou seja, garotas de “alto padrão” como Chelsea não são vistas “apenas” como garotas de programa ou putas. Elas cobram bem para, em troca, proporcionarem uma “experiência” como a de namoradas para seus clientes. Daí o termo “girlfriend experience”.

No material de divulgação do filme, The Girlfriend Experience é apresentado como um “drama sobre a relação entre nossa vida profissional e nossa vida pessoal na era da pós-crise do capitalismo”. Eu acrescentaria que este filme é um ensaio crítico sobre os valores dominantes da nossa época – ou, para alguns, da falta deles. Outras curiosidades: o filme narraria cinco dias na vida de Chelsea, que cobra US$ 2 mil por hora de seus clientes, nas semanas que antecederam as eleições dos Estados Unidos em 2008.

Neste mesmo material, fiquei sabendo que Sasha Grey tem 21 anos e que, além de atriz, é escritora, fotógrafa, estrela pornô, uma “artista transgressora” e música experimental. Segundo o texto, ela tem um forte interesse pelos filmes da nouvelle vague e, antes de adotar o nome artístico de Sasha Grey, ela utilizava o de Anna Karina – em homenagem a ex-mulher de Jean-Luc Godard. Sua escolha por Grey teria sido motivada por duas razões: pelo personagem Dorian Grey, criado por Oscar Wilde, e como referência a escala da sexualidade de Kinsey. Não é fraca essa menina! Ah, e o texto ainda comenta que ela tem um “enorme apetite sexual” e que ela considera o seu trabalho no cinema pornô como “performance art”. Seu gosto por tal arte fez com que ela estrelasse mais de 80 filmes pornô. :) Além da página oficial da atriz, divulgada antes, ainda deixo por aqui, para os fãs, seu MySpace.

Chris Santos, por outro lado, estréia nos cinemas neste filme – agora se explica porque ele é um tanto “fraquinho”. Segundo as notas de produção de The Girlfriend Experience, Santos utilizou sua experiência como instrutor atlético e como triatleta para interpretar o personagem de Chris. Mark Jacobson, que entrevista Chelsea no filme, é jornalista há mais de 35 anos, com textos publicados na New York Magazine, na National Geographic, na Rolling Stone e em outras publicações. Pelo visto, Soderbergh pinçou as pessoas “mais condizentes” com seus papéis, ou seja, as que tinham experiência fora das telas parecidas (ou iguais) com as que viviam seus personagens.

CONCLUSÃO: Um filme de baixíssimo orçamento do premiado diretor Steven Soderbergh que resolve fazer uma crônica sobre o estado de ânimo do mundo atual. Filmado nas vésperas das eleições dos Estados Unidos do ano passado, The Girlfriend Experience traça o perfil de uma sociedade de consumo, onde jogam as moedas da aparência, da superficialidade, do medo e da busca por sensações de prazer e de segurança fáceis. Estrelado por uma estrela do cinema pornô, este filme surpreende pela narrativa nada linear (que pode deixar muita gente perdida) e pelas escolhas do diretor. Um trabalho bastante autoral que mexe em dois temas que parecem ser fundamentais para a sociedade contemporânea: dinheiro e sexo (algo que Gay Talese havia revelado há quase três décadas em A Mulher do Próximo/The Neighbor’s Wife). Enfocando muitas vezes o cenário de Manhattan em detrimento das pessoas, Soderbergh deixa claro sua crítica ao protagonismo das “coisas” em lugar do indivíduo. Um filme que provavelmente não vá agradar a todos – seja porque alguns ficarão perdidos nas “mensagens”, seja porque outros não encontrarão as cenas “picantes” que gostariam -, mas que traz uma importante brisa de frescor para o cinema feito nos Estados Unidos.

Knowing – Presságio Julho 18, 2009

Posted by Alessandra in Cinema, Cinema europeu, Cinema norte-americano, Crítica de filme, Movie.
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Pegue a numerologia e a vocação de Nostradamus para prever o futuro, misture tudo com uma trilha sonora exagerada e um roteiro um tanto lento demais e você terá como resultado um filme como Knowing. Para mim, esta produção estrelada por Nicolas Cage é daquelas que entram no grupo de “boas idéias que acabam sendo desperdiçadas”. Certo, talvez nem a idéia original seja tão boa assim… mas o pior mesmo é como ela vai se desenvolvendo e, claro, seu “grand finale” – que de grande não tem nada, convenhamos. Ainda assim, algo eu tenho que admitir: este filme tem uns efeitos especiais de cair o queixo. Realmente muito bem feitos e bacanas. Pena que eles, os efeitos especiais, já não valem tanto para que alguém gaste seu dinheiro em um filme.

A HISTÓRIA: A Escola Elementar William Dawes está prestes a construir sua nova estrutura e, para marcar esta data tão especial, promove um concurso entre os estudantes. A melhor idéia para celebrar tal evento parte da estudante Lucinda Embry (Lara Robinson), que sugeriu que os estudantes desenhassem sobre o futuro e que seus trabalhos fossem depositados em uma “cápsula do tempo”. Este objeto, nada mais que um cilindro, acaba sendo enterrado na frente da escola para que ele seja reaberto 50 anos depois. Em 2009, Caleb Koestler (Chandler Canterbury) e os outros estudantes da escola ganham envelopes com os trabalhos dos colegas de 1959. Desta forma, cai nas mãos do cientista e professor universitário John Koestler (Nicolas Cage), pai de Caleb, o enigma numérico escrito por Lucinda Embry que revelou os principais desastres do mundo em cinco décadas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte da crítica à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Knowing): Como eu disse recentemente no texto sobre o filme Wall-E, não é exatamente nova a idéia de reunir objetos de uma época ou projeções sobre o futuro para depositá-los em uma “cápsula do tempo”. Segundo esta notícia, em 2005, por exemplo, encontraram uma cápsula do tempo enterrada em 1872 pelo rei Kamehameha V, autoridade suprema, naqueles tempos, do Havaí. E até Campinas seguiu a idéia de reunir trabalhos de alunos das séries iniciais em uma cápsula do tempo – como conta esta reportagem (mal escrita, diga-se). Enfim… sejam reis do passado ou administrações do presente, muitas cabecinhas “iluminadas” já pensaram em fazer o mesmo gesto que dá largada para Knowing.

Até aí, como se pode notar, nenhuma grande novidade. Mas o curioso mesmo ocorre quando, 50 anos depois da estudante Lucinda escrever aquela lista de números enigmática, esta lista começar a fazer sentido. Alguém já disse antes que profecias ganham lógica depois que os eventos já ocorreram. Mas desde o tempo em que os profetas eram respeitados quase como santos – algo que foi consagrado pelas profecias bíblicas -, as pessoas querem, mais que nada, saber sobre o futuro. Delas, da humanidade, dos povos. Não é por acaso que Knowing cita a Bíblia e… bem, termina da maneira que termina.

Seguindo a linha de filmes-catástrofe, ou seja, de produções que narram o fim do mundo e dos tempos, Knowing capricha em cenas de destruição cheias de efeitos especiais. Admito que a cena dos três desastres previstos pela “mais jovem Nostradamus”, ou seja, por Lucinda Embry, que ocorrem enquanto acompanhamos a história de John Koestler e cia. são impressionantes. Provavelmente, é o que vale o seu tempo gasto com este filme. Porque o restante… O roteiro de Ryne Douglas Pearson, Juliet Snowden e Stiles White, baseado na história original de Pearson, é óbvio demais e bastante fraquinho. Além de beber em fonte bíblica, ele joga com figuras estranhas que aparecem para “nos assustar” e para dar um tom sobrenatural para a história. Como o roteiro deste trio e a direção de Alex Proyas parecem não convencer, deixando o filme em um tom morno permanente, o compositor Marco Beltrami parece ter exagerado na dose “dramática” de sua trilha sonora. Esta é uma das poucas produções que eu vi recentemente em que a trilha sonora parece deslocada, literalmente, em várias partes da narrativa.

Sinceramente, acho que nada funciona bem nesta história. Quer dizer, até o minuto 43 do filme, mais ou menos, tudo ocorre de maneira meio arrastada, mas ainda interessante. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Mas quando os seres “estranhos” começam a aparecer de forma mais frequente na história, inclusive mostrando para o chatinho do Caleb uma cena típica do “fim dos tempos”, o filme se perde um bocado. Afinal, estamos assistindo a uma história sobre presságios, profecia, ou sobre seres sobrenaturais? E quando a resposta vem no final, em uma mescla entre alienígenas e anjos, temos a nossa resposta definitiva. Knowing é mais bíblico do que muitos gostariam de imaginar. E não sei vocês, mas não era isso que eu esperava deste filme. Se eu quero ver uma história sobre as profecias bíblicas ou de Nostradamus, bem, meus amigos, vou atrás de um filme do gênero, certo? Não gostei, definitivamente, deste cordeiro vestido em pele de lobo.

Algo fundamental em um filme, para mim, é a lógica do roteiro. Nem todos precisam ser lógicos mas, pelo menos, devem convencer um pouquinho. O texto de Knowing, por exemplo, começa bem quando o professor John Koestler abre um questionamento ao apresentar as perspectivas do determinismo e da aleatoriedade. Perspectivas estas que, logo mais, vamos descobrir como fundamentais inclusive na vida pessoal do personagem, que se afastou do próprio pai, que é pastor, porque não concordava com sua visão “determinista”. Ou seja, o velho embate entre a fé e a ciência/lógica. Nesta busca por respostas sobre o que está determinado e o que pode ser mudado se resume a trajetória do filme e do nosso “herói”. Muito bem. Seria interessante se as dúvidas continuassem mais tempo na história, mas não. Knowing não deixa margem à dúvidas.

Mas voltando a questão da lógica do roteiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, para que tanta intervenção dos “seres estranhos” nesta história, que aparecem para deixar uma pedra negra para Caleb, depois surgem do lado de fora da antiga casa de Lucinda e etcétera se, no fim das contas, as crianças deveriam estar no ponto de saída das “naves espaciais” em determinado dia e hora? Para que todos aqueles sinais, aquela carta com todas as datas de desastres e atentados, se tudo isso deveria ocorrer de qualquer forma (porque é muito fácil sequestrar crianças)? Aliás, aquelas datas que Caleb começava a escrever em um papel, inspirado “pelas vozes dentro de sua cabeça”, projetavam desastres, acidentes e atentados para o novo mundo que logo começaria a ser habitado pela humanidade? Se isso é verdade, para que todo aquele desenho exagerado do Paraíso das cenas finais? Acho que os roteiristas exageram um pouco na dose bíblica, não? Também acho que John deveria ter deixado o filho levar aquela bendita folha de papel com ele… assim ele teria garantido o posto de profeta em seu novo mundo. No fim do filme, apenas pensei: “Ok, tanto barulho por nada”.

NOTA: 4,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Depois de alguns filmes vendo a Nicolas Cage e seu cabelo estranho, posso dizer que quase me acostumei com ele. Ainda assim, tem momentos em que é inevitável para mim pensar se não existe uma alternativa para o ator. Não sei, quem sabe deixar a cabeça sempre raspada, como fez Bruce Willis. Acredito que uma alternativa é sempre melhor do que aquilo.

Fora o protagonista, os demais atores do filme são muito, mas muito fraquinhos. Talvez Rose Byrne como Diana, a filha de Lucinda Embry, esteja um pouco melhorzinha. Mas o garoto que faz Caleb… nossa, que irritante e ruinzinho aquele Chandler Canterbury! Se no filme inteiro ele parece mais uma pedra no sapato de Nicolas Cage, no final mesmo… quando ele se despede do pai, salta aos olhos o quanto o garoto é ruim. E mesmo Lara Robinson, que faz o papel duplo de Lucinda e de sua neta, Abby, não tem muito tempo de mostrar trabalho. Como Lucinda, ela está exageradamente “estranha” – algo do qual ela não tem culpa, é claro, porque isto estava definido pelo roteiro. E quando interpreta Abby, coitada, praticamente ela não tem falas. Ainda assim, se sai melhor que o “parceiro” de cena, Canterbury.

Bastante bíblico, este filme cita nomes sem deixar muito claro as razões para isso. Para começar, o nome de Caleb. Como resume este texto, Caleb é um nome de origem hebraica que significa “fiel como cão”. Caleb teria sido aquele que “chegou na Terra Prometida com Josué”. Certo. Mais uma maneira dos roteiristas reafirmarem que as crianças estavam chegando ao Paraíso, certo? E Abby? Bem, Abby, segundo este texto, tem origem latina e significa “líder do mosteiro”. Este outro site, contudo, aponta Abby como de origem hebraica, derivativa de Abigail, que significaria “a alegria do meu Pai”. Outra vez, uma referência bíblica. Abby também pode ser vista como um novo Josué. ;)

Mas não terminam aí as “pílulas” bíblicas lançadas por Knowing. Quando John e Diana estão para entrar na casa que era de Lucinda, eles percebem que a mãe de Diana havia escrito as letras EE ao contrário no papel que deixou para ser descoberto no futuro. Depois, eles descobrem uma reprodução de uma das passagens do livro de Ezequiel, que é apontada como uma das principais referências da Bíblica sobre o fim dos tempos. Este texto resume as passagens de Ezequiel, mostrando como ele tratou de profecias de destruição e restauração.

Procurando sobre Ezequiel e o “fim dos tempos”, encontrei este site que traz referências de estudos sobre o tema baseados na Bíblia – caso alguém tenha interesse. Também achei interessante este texto assinado por Márcio Souza que faz referência a Darwin e, principalmente, a Erich von Däniken, que publicou em 1968 o livro conhecido no Brasil como Eram os Deuses Astronautas? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei interessante citar Däniken porque, ao analisar a sua teoria de que o desenvolvimento da humanidade passou por uma influência alienígena, se entende melhor as razões dos “seres estranhos” do final do filme parecerem um híbrido entre alienígenas e anjos.

E falando neles, nos aliens, alguém mais achou aquela professora primária de 1959 um tanto alienígena? Não sei, mas basta para mim ver a Danielle Carter interpretando a Miss Taylor para que eu me lembre de um extraterrestre “invasor de corpos”. hehehehehehehehehehe. E falando de atores secundários, nunca é demais citar D. G. Maloney como o líder dos “estranhos” que volta e meia visitam a Caleb e Abby; Nadia Townsend como Grace, irmã de John Koestler; Alan Hopgood como o reverendo Koestler, pai de John e Grace (aliás, outros nomes “bíblicos”); Alethea McGrath como a Miss Taylor do ano 2009; e Ben Mendelsohn como Phil Beckman, aparentemente o melhor amigo (e colega) de John.

Segundo as notas de produção do filme, Knowing demorou oito anos para ser desenvolvido. Ou seja, levou todo esse tempo para os produtores transformarem a idéia original de Ryne Douglas Pearson em algo concreto. Para o diretor Alex Proyas, o melhor de Knowing é que o filme tem um “fundo de emoções e de interação humana”. “Esta é uma história bastante real que trata de coisas que realmente poderiam acontecer. Tudo o que mostramos no filme poderia estar acontecendo”, afirma o diretor no material de divulgação de Knowing.

Neste mesmo material de divulgação, Nicolas Cage ressalta as qualidades do filme e chega até a comentar que acredita que Knowing pode mudar a forma das pessoas pensarem (sério mesmo?). “As pessoas pensam sobre o fim do mundo. De fato, nós mesmos poderíamos destruir a Terra. Mas a questão é ‘O que devemos fazer com esta responsabilidade?”, questiona o ator. Ok, mas o problema é que Knowing não lança nenhuma luz neste sentido. Em momento algum, vamos!

E uma curiosidade desta produção: ela foi filmada em Melbourne, na Austrália, cidade que acabou se passando por Boston, local em que se desenvolve a ação de Knowing. Um dos principais desafios do desenhista de produção Steven Jones-Evans foi o de transformar o cenário de Melbourne, que havia passado por um período de seca de cinco anos, em uma verdejante cidade de Boston. O truque chegou ao ponto de sua equipe ter que pintar o gramado da Universidade de Melbourne, que se passou pelo MIT – a grama estava queimada e precisou ficar verdinha.

Segundo as notas de produção do filme, Knowing é um dos primeiros filmes rodados com a câmera Red One, o último estágio em “tecnologia digital leve de alta resolução”. O diretor de fotografia Simon Duggan destaca que este modelo de câmera abre um “novo mundo de possibilidades” para os realizadores, porque os “tons de pele ficam suaves”, propiciando que quase “não exista ruído e nem granulações nas imagens”, o que, segundo Duggan, aproxima a qualidade destas imagens ao bom e velho celulóide.

Os responsáveis pelo material de divulgação do filme fizeram uma brincadeira com os atores principais do filme, perguntando para eles o que eles meteriam em uma cápsula do tempo. Nicolas Cage disse que “Seria muito divertido colocar este filme na cápsula porque isso seria um lance muito cubista. Não digo mais nada”. Hummmm… que filosófico o Sr. Cage! A atriz Rose Byrne disse que colocaria “um diário, algo com umas boas fofocas, com muitos segredos, para que a pessoa que o encontrasse se divertisse”.

Lara Robinson, a garotinha que faz um papel duplo no filme, foi mais prolixa: “Eu colocaria as minhas músicas favoritas. Também algo de música clássica, um pouco de jazz e música moderna. Colocaria também fotos de nossos computadores e da tecnologia atual, para que as pessoas pudessem ver se elas mudaram muito. Colocaria também o diário de um ano da minha vida e fotos dos lugares mais característicos da Austrália. Também um mapamundi… por se acaso as coisas mudam muito. E para terminar, um livro da Austrália. Eu colocaria tudo isso em uma cápsula durante cem anos para ver como está tudo um século depois”. Ficou evidente que a menina é australiana, não é mesmo? ;)

Algo estranho no material de divulgação do filme: nele, o diretor Alex Proyas consta também como roteirista do filme. Algo que não vemos nem nos créditos do filme e nem mesmo no site IMDb – que considero a “Bíblia digital” do cinema.

Falando no site IMDb, ele registra a nota 6,6 para Knowing. Achei um nota bem razoável para esta produção fraca, bem fraquinha. Por outro lado, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais “duros” com o filme: dedicaram a ele 104 textos negativos e 49 positivos, o que lhe rendeu uma aprovação de 32% – menor que a minha. ;)

Nas bilheterias o filme foi razoável: arrecadou pouco menos de US$ 80 milhões nos Estados Unidos. Ainda assim, ele conseguiu se pagar – Knowing teria custado US$ 50 milhões.

Seguindo a linha de filmes sobre o fim do mundo, logo mais teremos a 2012, baseado nas profecias maias – quem tiver interesse, pode ler este texto curioso sobre o tema. Esperamos que o filme de Roland Emmerich – experiente em filmes-catástrofe como Independence Day e The Day After Tomorrow – seja melhor que este Knowing.

Este filme é uma co-produção entre Estados Unidos e Inglaterra.

CONCLUSÃO: Um destes filmes sobre o “fim dos tempos” que exagera na dose bíblica e que se perde pelo caminho. Estrelado por um Nicolas Cage que tenta desesperadamente encarnar a figura do “bom pai”, Knowing joga com uma série de imagens pré-concebidas sobre videntes e sobre o que acontecerá quando o mundo acabar. O roteiro não convence, assim como a direção um tanto “formal” de Alex Proyas – diretor de I, Robot. Mas para não dizer que o filme inteiro é dispensável, ele tem algumas cenas muito bem filmadas e, principalmente, bem recheadas de efeitos especiais – com especial destaque para a queda do avião. Agora, francamente, existem no mercado filmes melhores sobre o mesmo tema.

Wall-E Julho 17, 2009

Posted by Alessandra in Animação, Cinema, Cinema norte-americano, Crítica de filme, Filme premiado, Movie, Oscar 2009, Sugestão de leitores.
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Eis aqui um dos poucos filmes que ganharam e/ou concorreram ao último Oscar ao qual eu ainda não tinha assistido. Isso aconteceu pela mesma razão que me faz ser uma das poucas pessoas – acredito – a não ter assistido, até agora, a The Dark Knight ou Watchmen: perco um bocado a vontade quando a “hora H” para fazer isso já passou. Ou, em outras palavras, me desinteresso em assistir a um filme quando todos parecem já ter falado dele. Só que no caso de Wall-E, a tão celebrada, elogiada e premiada animação dos estúdios Pixar e Disney, não me arrependo de ter visto ao filme, mesmo “atrasada”. Bem feito, divertido, com algumas cutucadas das boas em certas tendências da nossa “evolução humana”, Wall-E é, ainda, um belo exemplo de homenagem ao próprio cinema. Há referências para todos os gostos e idades, mas as mais óbvias são mesmo as de 2001: A Space Odyssey e a homenagem declarada para Hello, Dolly!, de 1969 – sem contar uma dinâmica que relembra aos filmes mudos.

A HISTÓRIA: Enquanto a música Put On Your Sunday Clothes reverbera pelo espaço, passeamos por arranha-céus desertos, muitos deles feitos de lixo prensado por Wall-E. Este robô, criado para auxiliar a humanidade a se livrar das montanhas de sujeira que começavam a ocupar muito espaço na Terra – e torná-la insuportável para a vida humana – passa seus dias solitário (apenas na companhia de uma barata sobrevivente). Mas a rotina destes dois seres muda quando chega à Terra Eve, uma ultramoderna criação robótica que tem como missão encontrar algum tipo de vegetação na Terra – o que possibilitaria o retorno da espécie humana para o planeta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Wall-E): Falar deste filme, hoje, é quase o mesmo que comentar sobre qualquer clássico do cinema ou blockbuster recente. Acredito que praticamente tudo já foi dito sobre Wall-E. Então vou comentar os aspectos do filme que mais me interessaram.

Como manda o figurino das produções da Pixar, a qualidade dos detalhes desta animação são impressionantes. Um grande trabalho do diretor Andrew Stanton e da equipe de animadores dos estúdios. Merece uma menção especial o trabalho da coordenadora de produção do departamento artístico Becky Neiman. Impressionante como eles configuraram o cenário desolado da Terra, assim como a beleza sideral e a tecnologia que beira o absurdo da nave Axiom. Tecnicamente falando, o filme é perfeito.

Comentei antes que a dinâmica de Wall-E relembra muito a dos filmes mudos. E isso se explica: nosso “herói” vive solitário na Terra até que conhece Eve. Eles trocam as primeiras palavras a partir do minuto 22 do filme. Até ali, apenas os efeitos sonoros e algumas músicas do filme Hello, Dolly! E mesmo depois que os robôs começam a se comunicar, muitas cenas relembram as comunicações não-verbais de clássicos de Charles Chaplin, Buster Keaton, entre outros. Aliás, estes dois ídolos da época do cinema mudo, segundo as notas de produção de Wall-E, teriam sido fundamentais na pesquisa do diretor Andrew Stanton e da equipe do estúdio Pixar. Eles teriam assistido a todas as produções de Chaplin e Keaton durante um ano e meio para apurar a forma narrativa de Wall-E.

Então, mais que um filme divertido e que traz a mensagem da importância do amor e da esperança, Wall-E é uma bela homenagem para o próprio cinema. Além das referências conceituais ao cinema mudo, fica mais que evidente, na parte da nave Axiom, a homenagem para filmes como Star Wars e, principalmente, 2001. AUTO, o “vilão” da história, é uma interessante recriação de HAL-9000. Outra homenagem evidente do filme é feita para os musicais, para muitos o suprasumo do romantismo de Hollywood, aqui representado pelo clássico de 1969 dirigido por Gene Kelly e ganhador de três Oscar.

Além de ser um filme moderno por fazer autoreferências ao cinema, Wall-E é uma produção que brinca com uma série de conceitos aceitos abertamente neste nosso recém-iniciado século 21. Para começar, a “nova” ordem mundial do consumismo, do desperdício, assim como a tendência a um isolamento cada vez maior provocado pelas facilidades da comunicação através das novas tecnologias. Tudo isso é elevado algumas potências nesta produção, que nos mostra uma humanidade que assumiu como normal o cúmulo da imobilidade. Chegamos, junto com Wall-E e Eve, a uma nave Axiom repleta de humanos obesos que parecem ter saído todos de uma fábrica de clones. Todos praticamente iguais, habituados a enxergar a realidade com um monitor na frente de suas cadeiras flutuantes. Eis aqui uma das maiores críticas do filme – que, além de engraçado e romântico, é sim bastante ácido.

O equilíbrio entre estes elementos é o que faz desta animação algo especial. Méritos de Andrew Stanton, que também escreveu a história e o roteiro do filme. A idéia original de Wall-E partiu de Stanton e de Pete Docter. E o roteiro, escrito a partir desta idéia, foi assinado pelo diretor e por Jim Reardon. Para mim, Wall-E é o melhor trabalho de Stanton até agora – ele foi o responsável, anteriormente, pelos longas A Bug’s Life e Finding Nemo – percebe-se sua preocupação com a Natureza, não?

Mas voltando ao ponto em que eu comentava no que o filme me chamou mais a atenção… Para começar, a curiosíssima coleção que Wall-E foi acumulando com o passar do tempo. Muitos já especularam o que resumiria a nossa capacidade inventiva. Que objetos, que livros, que invenções refletiriam de forma mais honesta a humanidade. Por isso mesmo não deixa de ser engraçadíssimo que Wall-E, um robô com inteligência artificial, selecione objetos como um iPod, isqueiros, lâmpadas, duendes, talheres e uma fita de vídeo (alguém quer algo mais antigo do que uma fita de vídeo na era do Bluray e similares?), entre outros, como os mais curiosos de uma civilização que não habita mais a Terra.

Muito interessante também que Wall-E, como uma criança, aprende sobre o amor – e outros conceitos – por imitação. Assistindo a um filme, por exemplo. E como sua vida, que se resumia apenas a trabalho e uma coleção de objetos gigantesca, muda totalmente de sentido quando ele encontra uma “companhia” – ainda que ela seja tão diferente dele. Aliás, Eve chega a ser irritante, no início, por seu comportamento altamente competitivo, destrutivo e, porque não, até um bocado carregado de soberba. Mas nada, é claro, que não vá mudando com o passar do tempo – e com o aprendizado além das “diretrizes”. Aliás, isto poderia bem se aplicar a nós, humanos, tão concentrados em nossas diretrizes, objetivos, metas… e tão pouco abertos a aprender algo novo, a nos deixar surpreender e revolucionar pelas surpresas e, sim senhores, pelo amor. ;)

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para quem ficou interessado em saber o que significa as siglas do filme, Wall-e e EVE tem significados específicos. WALL-E é a sigla para Waste Allocation Load Lifter – Earth Classe, algo como Localizador e Coletor de Lixo – Classe Terrestre; e EVE é a sigla para Extra-terrestrial Vegetation Evaluator, ou algo como Exploradora de Vegetação Extraterrestre (o que não deixa de ser curioso, porque a tal exploração se deu exatamente na Terra, e não fora dela… ou eles consideravam a “Terra” a tal nave Axiom? que confusão!!).

Irônico também o momento em que a descoberta de EVE chega até a nave Axiom: no aniversário de 700 anos da saída do cruzeiro espacial que deveria durar, originalmente, cinco anos. Ou seja: naquela nave nasceram gerações e gerações de humanos que foram alterando a sua estrutura óssea e comportamento por não conhecerem nada além da alta tecnologia como aliada para sobreviver. Curioso. Vale a pena assistir os desenhos que aparecem durante os créditos finais e que simulam a nova civilização que será originada na Terra, em uma utópica relação de aprendizado mútuo entre homens e máquinas.

E falando em diretrizes, não deixa de ser curioso o debate entre as idéias de “obrigação” e de “missão cumprida” levantadas pelo filme. Isso se aplica a EVE e ao robô M-O (sigla para Microbe Obliterator). Este último, que tem como “missão” a de acabar com os “contaminantes externos”, acaba acompanhando os nossos heróis por boa parte de suas aventuras na nave Axiom. Quando ele finalmente cumpre a sua missão, sente uma certa “liberdade” – encarnada no filme por Wall-E -, a ponto de ajudar os nosso heróis. Outra lição do filme é esta, a de que o trabalho deve ser encarado como uma competição por aprimoramento e por “aperfeiçoamento pessoal”, nunca como uma desculpa para tornar o cotidiano uma batalha pessoal contra outra pessoa (ou, neste caso, máquina).

As vozes de Wall-E, M-O, entre outros, foram criadas por Ben Burtt, considerado um “mago” na criação de efeitos sonoros. Elissa Knight é a responsável pela voz de EVE. E uma curiosidade: a atriz Sigourney Weaver, conhecida especialmente pelo clássico Alien, empresta sua voz para o computador de bordo da nave, naquela parte em que o capitão pede definições seguidas de conceitos como Terra, mar, baile, etcétera.

A trilha sonora de Wall-E, maravilhosa – como a maioria dos filmes de animação -, leva a assinatura do veterano premiado Thomas Newman. Colaborou com o compositor para a trilha sonora do filme o indicado ao Oscar Peter Gabriel, que compôs a música Down to Earth.

Wall-E consegue aliar um roteiro inteligente com um dos personagens mais “vendáveis” dos filmes de animação dos últimos anos. Com uma expressão que muitas vezes lembra a de um cão carente, o robô Wall-E deve ter virado o sonho de consumo de muita gente. Efetivamente foram lançados brinquedos do personagem, assim como de EVE – como não? Ainda que critique a veia consumista moderna, o diretor e os demais envolvidos fazem parte de uma indústria que vive justamente deste consumismo. O que não deixa de ser bastante irônico – e um pouco hipócrita? O filme também tem uma veia bastante pegajosa, com aquela repetição infindável – e que não deixa de ser bonitinha – dos nomes de Wall-E e EVE… a voz de cada um deles chamando pelo outro ficará ecoando por seus ouvidos por um bom tempo, mesmo depois do filme acabar. Acostume-se!

Segundo as notas de produção do filme, em seus 700 anos de solidão, Wall-E desenvolveu uma “anomalia em seu sistema” que permitiu que ele desenvolvesse sua própria personalidade.

Em sua trajetória, Wall-E colecionou impressionantes 43 prêmios e outras 36 indicações. Entre os prêmios que levou para casa, destaque para o Oscar de Melhor Animação de 2009; o BAFTA, o Globo de Ouro e o National Board of Review na mesma categoria.

Wall-E pode ser considerado também uma unanimidade entre o público e a crítica. Tanto que ele registra uma importante nota 8,6 na votação dos usuários do site IMDb e, ainda, coleciona 213 críticas positivas e apenas nove negativas no Rotten Tomatoes – o que garante para este filme uma aprovação impressionante de 96% dos críticos.

Nas bilheterias o filme também foi muito bem. Para uma produção que teria custado US$ 180 milhões, Wall-E saiu lucrando (ainda que relativamente baixo): arrecadou pouco mais de US$ 223,8 milhões apenas nos Estados Unidos. Um de seus concorrentes diretos no ano, a animação Kung Fu Panda, conseguiu uma margem de lucro melhor: o filme que teria custado US$ 130 milhões arrecadou, apenas no país do Tio Sam, pouco mais de US$ 215,3 milhões. Mas o outro concorrente do ano, Bolt, se saiu pior: faturou menos que os US$ 150 milhões que teria gasto para ser produzido.

CONCLUSÃO: Um filme de animação inteligente e com personagens principais bastante carismáticos – especialmente o robô que dá título ao filme. Elaborado para todas as idades, deve cair no gosto de crianças e adultos por diferentes razões. Tecnicamente perfeito e elaborado de forma bastante criativa, Wall-E é um destes filmes que agrada pelas mensagens diretas e indiretas. Os pequenos devem adorar a parte da aventura e a história de amor entre Wall-E e EVE. Os adultos encontrarão outros significados no enredo, que aproveita para questionar os rumos da nossa civilização – consumista, pouco preocupada com a Natureza e a sustentabilidade da vida na Terra. Um filme bacana inclusive para inserir temas como ecologia, tecnologia, consumismo e similares entre os mais jovens – seja no ambiente escolar ou em casa. Para os fãs de cinema, Wall-E ainda nos presenteia com várias referências à Sétima Arte. Resumindo: é um destes filmes que vale a pena ser assistido, tanto pela diversão quanto pelas reflexões que ele provoca.

OSCAR 2009: Wall-E foi indicado a seis prêmios pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Destes, saiu vencedor apenas na categoria de Melhor Animação. Merecedíssimo, eu diria – ainda que não tenha assistido aos outros concorrentes, citando Bolt e Kung Fu Panda.

SUGESTÕES DE LEITORES: Assistir Wall-E agora faz parte da minha meta de ir colocando, pouco a pouco, a minha lista de filmes “pendentes” em dia. Lista essa que sempre tem como prioridade as sugestões de filmes feitas pelos leitores deste blog. Pois bem, Wall-E surgiu nesta lista graças a um comentário do Vander há bastante tempo… mais precisamente, em 11 de agosto de 2008. Na época, o Vander comentava que tinha assistido a Wall-E com seus sobrinhos pequenos e que eles não tinham gostado do filme. Nem ele, o Vander, tinha curtido muito… e ele me perguntava a minha opinião sobre isso. Olha Vander, eu também acho que ouvi comentários um pouco “exagerados” sobre Wall-E. Alguns, afirmando que este seria o melhor filme do ano – não apenas a melhor animação. Acho que não é para tanto. Wall-E é um filme bacana e tudo o mais, mas admito que assisti a outras animações e filmes que me impressionaram mais.

Agora, por que este filme talvez não agrade tanto aos mais pequenos? É fato que ele não segue a cartilha mais comum das animações. Só pelo fato dele ter poucos diálogos, de lembrar em muitas partes filmes do cinema mudo… bem, atualmente, tenho certeza, o cinema mudo é para poucos. Nem todo mundo tem a paciência de assistir a algo sem som, não é verdade? Acredito que vivemos em uma era muito, talvez demasiado sonora – vide a poluição deste tipo da qual é difícil escapar. Enfim… as pessoas caminham pelas ruas habituadas a escutar seus iPod’s e similares. Neste cenário, filmes com poucos diálogos são quase uma ousadia. Talvez isso, ou  talvez o fato de que Wall-E tenha uma história um tanto “crítica demais” e nem tão óbvia pode não agradar aos mais pequenos… não sei. Infelizmente não tenho ninguém nesta idade para comparar. Mas estas são algumas hipóteses. De qualquer forma, acho que o restante do texto demonstra a minha opinião sobre o filme – que não é a melhor animação de todos os tempos mas que, nem por isso, deixa de ser bacana e recomendável.

Powder Blue Julho 16, 2009

Posted by Alessandra in Cinema, Cinema norte-americano, Crítica de filme, Movie.
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Por pura casualidade eu assisti a dois filmes do gênero “histórias-de-pessoas-tão-diferentes-que-se-cruzam”. Mas, nem por isso, eles são produções parecidas. Historias Mínimas, o filme recentemente comentado, narra vidas simples, de pessoas que moram no interior da Patagônia argentina e que tem a televisão como recurso mais “usual” para quebrar o tédio do cotidiano. Powder Blue, por sua vez, conta parte da trajetória de um grupo de pessoas solitárias em uma grande cidade. E não uma grande cidade qualquer, mas um dos ícones do sonho americano: Los Angeles. Solitárias, desesperadas, ferradas, acostumadas a um ambiente de morte e de perigo. O cenário em que elas vivem é exponencialmente contrário ao de Historias Mínimas. E ainda que Powder Blue tenha alguns elementos de outros filmes, como Magnólia e o anteriormente comentado neste blog The Air I Breathe, ele se mostra um filme diferenciado dos demais. Com um elenco estelar, que resgata atores importantes até em pontas, esta produção é uma daquelas que todos adoram atacar mas que, além disso, ela talvez seja mais simbólica e interessante do que uma análise apressada possa revelar.

A HISTÓRIA: Um homem com o corpo quase todo tatuado toma um banho de mar inesquecível. Outro dirige até sua casa e, ao chegar lá e recordar cenas do amor de sua vida no passado, aponta uma arma para si mesmo através do espelho. Uma mulher sai de um restaurante para ligar para o filho, enfeitando um encontro romântico que está próximo do fim. Um jovem dirige um carro funerário quando atropela um cachorro. Sentindo-se culpado, ele socorre o animal e leva-o para casa. Todas estas pessoas vivem momentos decisivos em suas vidas. Solitárias, elas buscam algum milagre, redenção ou, pelo menos, o fim de suas dores. Algumas delas terão seus caminhos cruzados na parte mais obscura e cínica de Los Angeles.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue lendo quem já assistiu a Powder Blue): Propositalmente eu fiz um resumo do filme bastante vago. Afinal, um dos pontos fortes de Powder Blue é a maneira com que seus personagem vão se revelando pouco a pouco. Nesta crítica, mais que em outras, fará uma diferença brutal você ler o texto antes de ver ao filme. Sinceramente, não recomendo. Por deixar isso muito claro logo aqui, no início, desta vez não vou repetir a informação de que existem SPOILERs neste texto. Isso está subentendido e evidente. Avisados estais! Quem quiser passar direto pelo texto “estraga prazeres”, deve seguir direto até a nota e o que etiver abaixo dela.

Desde Short Cuts, Magnólia, Traffic, Babel e similares, todo filme que traz à cena diferentes personagens que tem suas vidas entrelaçadas recebe o mesmo tipo de análise. O melhor mesmo, algumas vezes, é não comparar tanto as produções – exceto quando o caso se revela o de uma cópia mal feita do original. Esta não é a situação de Powder Blue. Ainda que ele siga a mesma linha dos anteriores, ele se difere por algo sutil: todos seus personagens são colocados no mesmno plano arrativo e de importância. Não existem bandidos, nem mocinhos. Não fica claro, em momento algum, quem são as vítimas ou os predadores. Powder Blue escapa destas ciladas narrativas – vistas em muitas outras histórias do gênero – e mergulha em uma realidade que parece sempre desgraçada.

A carga do filme não é pequena. De Rose até Qwerty, passando por Charlie, Jack, Sally, Randall ou Velvet Larry, todos estão passando por dificuldades, carregam nas costas um grande peso do passado ou do presente. São pessoas que se arrastam pelas ruas de Los Angeles sobrevivendo, na face mais obscurado do “american way of life”. Esta característica da história, que foge dos estereótipos mais comuns, foi uma das que mais me interessou. Mas a primeira característica que me chamou a atenção no filme a direção de fotografia de Jonathan Sela e a presença em cena densa do ator Ray Liotta – juro que pensei, logo na sequência da praia, “Será este filme um The Wrestler para a carreira dele?” (ou seja, será que Powder Blue faria para Liotta o mesmo que The Wrestler fez para Mickey Rourke?). Claro que esta idéia evaporou logo que eu percebi que o filme teria vários personagens no mesmo patamar de protagonistas – o que impede que Ray Liotta brilhe mais.

Como manda o figurino dos filmes com vários personagens principais, os primeiros minutos de Powder Blue nos apresentam seus personagens. Como chegamos de “paraquedas” em suas vidas, não sabemos nada sobre o caminho que levou cada um deles a atual situação de desespero. Mas por mais ferrados que cada um deles esteja, o curioso deste filme “carregado de esperança” é que nenhum dos personagens centrais desta história perdeu as esperanças. Isso desde o primeiro minuto da história. Por isso, no momento em que Powder Blue dá uma guinada para o lado do “tudo dará certo” e para uma sequência de “finais felizes” (dentro do que isso pode significar para os distintos gostos), a verdade é que esta “mudança de rumos” não é tão radical assim… desde o início Powder Blue investia nesta idéia de que “nem tudo está perdido” e de que sempre existirá uma saída para os problemas, por maior que eles sejam.

Mas o bacana do filme, para mim, é que mesmo os “finais felizes” são um bocado tristes. (SPOILER – não leia para não estragar o final do filme). De uma maneira bastante simbólica, por exemplo, Rose Johnny (Jessica Biel) perde, em uma mesma noite, o pai e o filho. Neste momento, ela se torna tão “solitária” quanto Qwerty Doolittle (Eddie Redmayne), um rapaz que deve enfrentar o mundo por sua conta – como, agora, Rose. Sem laço algum, nem com o passado e nem com o futuro, os dois se lançam em uma união singular. Curioso. E mesmo Charlie (Forest Whitaker) reencontra a fé perdida depois de passar por um momento trágico – os anjos não salvam ninguém. A morte, aliás, está sempre rondando os personagens – como na vida mesma, digamos. Este fator de tensão, assim como o fato da história não evitar a tragédia e nem a felicidade/esperança na mesma dose, faz deste filme algo diferente dos demais que bebem da mesma fonte.

A direção de Timothy Linh Bui é muito, muito boa. Este diretor vietnamita de 39 anos mostra firmeza e inspiração na condução da história, que foi escrita por ele e por Stephane Gauger. Bui valoriza cada personagem e faz uma escolha acertada do uso de closes, panorâmicas, travelling’s, plongée e afins. Cada cena dá a impressão de ter sido cuidadosamente planejada e estudada antes de ser, efetivamente, executada. Gostei. E assim como a direção de fotografia que dá o clima perfeito (geralmente obscuro) para a história, a trilha sonora acaba sendo fundamental nos momentos de maior carga dramática – um bom trabalho do compositor Didier Rachou. Tecnicamente, para resumir, o filme é bem acabado e, no quesito direção, um bocado inspirado.

Os atores, em geral, estão muito bem. Forest Whitaker, como sempre, rouba a cena quando aparece. Com uma grata surpresa “reencontrei” o ator Eddie Redmayne, que já havia me surpreendido um pouco em Savage Grace. Mais uma vez, ele está encantador, frágil e enigmático na medida certa. Mas a grande surpresa do filme, para mim, foi a interpretação da atriz Jessica Biel. Cacilda!! Não é nada fácil para uma atriz segurar um papel como o de Rose Johnny, tão carregado de desafios e de dramas pessoais, sem contar no esforço físico que deve ter significado fazer as cenas no clube de streptease. E que porreta as cenas de dança… muito bem coreografadas, executadas e filmadas. Certo que Marisa Tomei caminhou com a mesma ousadia em The Wrestler, mas dela já se esperava algo assim… ;) Não é um filme dos mais fáceis de ser assistido, especialmente porque ele não economiza nas cenas de nudez, violência e no linguajar. Mas tudo justificado pelo cenário e pelos personagens da história. Para mim, especialmente por ainda ter na lembrança o fraquíssimo (para não dizer ruim) The Air I Breathe, este filme foi uma grande e boa surpresa.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Três características do cartaz de Powder Blue me levaram a recorda de The Air I Breathe: a lista de nome de atores famosos; a participação de Forest Whitaker no elenco e o uso da cor azul como “protagonista”. Mas, para minha alegria, o filme dirigido e escrito por Timothy Linh Bui se mostrou sensivelmente melhor que o comandado por Jieho Lee. O segredo talvez tenha sido o de contar uma história de maneira gradativa, focada nos detalhes, e pouco preocupada em “surpreender” a cada segundo – ou em parecer mais do que era.

Powder Blue é bastante carregado de simbologias. Do cachorro que serve de elo de ligação entre Rose e Qwerty (e que representa, por sua vez, desespero e reconforto, respectivamente) até a “neve azul” que cai sobre Los Angeles no momento decisivo para quase todos os personagens. Alguns devem se desconectar do cordão umbilical que os prendiam à dor e a falta de esperanças; outros se encontram com a própria e solitária redenção. Nem sempre é a vida que nos ensina, mas especialmente a morte. Powder Blue trata de muitos temas, mas especialmente, acredito, sobre a fragilidade humana – seus erros, acertos e o caminho que escolhemos para encarar tudo isso. Mesmo sendo um filme inventivo e com alguns acertos, é claro que ele não escapa de alguns lugares-comum e da “releitura” de velhas cenas batidas do cinema – do “passeio romântico” em um carrinho de compras até a “despedida” no hospital, tudo já foi visto antes, de outra forma.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Lisa Kudrow como Sally, a garçonete que acaba simbolizando a esperança para o desacreditado Charlie; Patrick Swayze impressiona em sua ponta como Velvet Larry, o gerente e/ou proprietário do clube de streptease em que Rose se apresenta; o veterano Kris Kristofferson em uma super-super-ponta como Randall, um antigo parceiro de crime de Jack Doheny (Ray Liotta) que dá a dica certeira para que o “amigo” se reencontre com o próprio passado; e o menos conhecido Alejandro Romero, que faz um papel difícil como Lexus mas que, com talento, dá conta do recado.

Como eu havia “sugerido” antes, Powder Blue foi alvo de uma saraivada de críticas negativas. Para começar, ele não ostenta uma nota muito boa no IMDb: apenas um 6,5. Mas são os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes que “detonaram” mais a este filme: eles dedicaram seis críticas negativas e apenas uma positiva para Powder Blue, o que lhe garante uma aprovação de apenas 14% do total. Bem ruim este desempenho…

Não existem dados ainda sobre a bilheteria do filme.

Uma curiosidade: Forest Whitaker é o único dos quatro atores principais do filme que não tem olhos azuis. Hummm… seria este mais um simbolismo da história? Coincidência, certamente, não deve ser. Será que a “ótica azul” neste caso se refere aos personagens que mantêm a esperança mesmo em meio às trevas, algo que o personagem de Charlie só vai encontrar quando percebe o “azul” da neve – um “chamado divino” para que ele despertasse? Enfim, algumas idéias do filme dão pano pra manga…

Nas notas de produção do filme, o diretor Timothy Linh Bui comenta que, depois de fazer dois filmes sobre o nascimento do país chamado Vietnã, ele queria continuar “contando histórias que fossem significativas pessoalmente, ainda que entendidas de forma universal”. Buscando inspiração, ele teria passado “inúmeras” horas em várias livrarias, até que encontrou, em uma delas, um livro de Carl Jung. Nele, Bui leu o trecho que fala que o encontro de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas, no qual se houver alguma reação entre estas personalidades, as duas serão transformadas. Com esta idéia na cabeça e a vontade de contar uma história sobre Los Angeles – a parte que não está revestida de brilho e glamour – é que o diretor se enfiou no Saharan Motel localizado em Sunset Blvd. para escrever a história de Powder Blue.

Na definição do diretor, Powder Blue é um filme “sobre o amor como o fundamento da vida”. E ele continua: “O amor é uma aspiração de vida universal difícil de encontrar e muito mais difícil de sustentar. Powder Blue é sobre tentar novamente e tentar de forma ainda mais difícil. Trata-se de redenção e perdão, sobre culpa e desespero, sobre encontrar o amor nas sombras e no interior dos corredores de uma cidade. Powder Blue é uma história de amor…”, resume Bui no material de divulgação do filme.

E como na maioria dos casos, não recomendo que ninguém assista ao trailer antes de ver ao filme – nele, aparecem mais cenas do que o desejado. O trailer, aliás, traz uma coleção de cenas bastante “óbvias” de Powder Blue – que chega a ser previsível em vários pontos, é bem verdade.

CONCLUSÃO: Um filme bem dirigido e bem escrito sobre conceitos que permeiam a vida de qualquer pessoa, como a morte, a violência, a falta de esperança, a busca pelo amor e pela solução dos nossos problemas. Focado no lado mais obscuro da vida em Los Angeles, Powder Blue é um filme que não economiza nas cenas fortes e sensuais, mostrando parte do cinismo, da solidão e degradação de uma grande metrópole. De lambuja, esta produção nos traz um elenco estelar, com especial curiosidade para a exposição de alguns atores, como é o caso de Jessica Biel, Ray Liotta e Patrick Swayze. Dê especial atenção para algumas escolhas do diretor vietnamita Timothy Linh Bui, para o uso da cor azul em detalhes significativos e para o tom de esperança que permeia toda a história – mesmo que ele esteja frequentemente ameaçado pelo lado obscuro da mesma. Para resumir, este é um exemplo de filme envolvente, com bons personagens, atores competentes e equipe técnica à altura. Não revoluciona a vida de ninguém mas traz, de maneira quase casual, qualidade e temas interessantes de maneira simbólica para uma noite de cinema.

Historias Mínimas – Histórias Mínimas Julho 9, 2009

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Um filme para ser belo e profundo não precisa tratar de questões atípicas. Não faz falta que ele mostre um herói em sua saga pessoal ou reconstrua os desafios de uma época. Historias Mínimas demonstra tudo isso através de uma direção cuidadosa, de um texto inspirado – inspiradíssimo, eu diria – e de um grupo de atores que prima pela busca do tom mais natural possível para seus personagens. Me desculpem, mas nesta crítica farei uso, mais do que nunca, de lugares-comum. Começo afirmando que Historias Mínimas revela, como poucos filmes até hoje, como o mais importante não é a chegada, o resultado final de uma trajetória, mas o caminho, a forma com que cada pessoa escolhe traçar a linha por baixo de seus pés.

A HISTÓRIA: Don Justo Benedictis (Antonio Benedicti) faz um exame oftalmológico para renovar sua carteira de motorista. Mas ele se sai mal, muito mal. Corta. Uma mulher (Mariela Díaz) se apressa pelo terreno árido local para avisar sua amiga, María Flores (Javiera Bravo), de que ela foi chamada para participar de um programa de tevê. As duas se dirigem até o armazém local, o Ramos Generales “California”, criado por Don Justo, para ligar para o canal televisivo e saber que tipo de prêmio está em jogo. Pouco depois, Don Justo recebe a informação de que seu cachorro desaparecido, Malacara, foi visto na cidade de San Julián, distante 300 quilômetros dali. Don Justo resolve ir atrás de Malacara, mesmo contra a vontade do filho e da nora. A cidade para a qual ele quer viajar é a mesma que chama a María Flores e a Roberto (Javier Lombardo), um revendedor de produtos para emagrecer que está encantado por uma de suas clientes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Historias Mínimas): A primeira característica do filme que me chamou a atenção foi a maneira inusitada do diretor, o fantástico porteño Carlos Sorin, nos mostrar uma simples consulta oftalmológica. Apenas aquele começo é um indicativo de que algo bom viria por ali. Depois, achei impressionantes a trilha sonora e a direção de fotografia do filme. Estes dois elementos, por assim dizer, “saltam aos olhos”. Tornam o filme ainda mais belo – isso porque, apenas a sua história e a maneira com que ela foi contada já bastariam para que ele assim fosse classificado. Mas não… para completar o nosso deleite sensorial, ainda somos brindados com uma trilha sonora impecável de Nicolás Sorin, filho do diretor, e com uma direção de fotografia belíssima de Hugo Colace. Se bem que, convenhamos, o cenário da Patagônia argentina, por si só, era quase impossível de não ficar belo em um filme. Mas a escolha certa das lentes e dos ângulos acaba sendo fundamental para capturar aquela beleza natural bruta.

Mas ok, vamos deixar o meu estado maravilhado com estes elementos técnicos para lá. Não demora muito para Historias Mínimas se mostrar mais uma produção ao estilo “histórias-que-se-cruzam-e-se-perdem”. Pois sim… outras produções, inclusive anteriores, como é o caso de Short Cuts e Magnólia, exploravam esta vertente de “colcha-de-retalhos-humanista”. E ainda que eu gosto dos filmes citados, vejo em Historias Mínimas um nível de sensibilidade e, porque não dizer, beleza, mais significativos. Aqui, como em tantos filmes de Robert Altman e de outros diretores, a “gente ordinária” é protagonista. No melhor estilo de “as coisas simples são as que valem mais” – eu avisei que iria resgatar um monte de lugares-comum! -, este filme de Sorin nos mostra que são os pequenos gestos de generosidade, os atos de bravura cotidianos, que realmente fazem a diferença no final das contas.

Algo muito acertado no excelente texto de Pablo Solarz é o fato de que ele não mostra apenas o “lado feliz” da vida. Não. A família de Don Justo, María Flores e todas as pessoas que moram na pequena cidade de Fitz Roy tem uma vida dura, com pouquíssimas perspectivas ou oportunidades no horizonte. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Naquele cenário de cidades isoladas na distante Patagônia, as pessoas vendem seus prêmios e seus cães por 50 pesos porque esse dinheiro lhes faz uma falta brutal. Nesta história, existem pessoas como a encantadora Julia (Julia Solomonoff), que dá uma carona para o “avôzinho” que está andando na beira da estrada, assim como existem aproveitadoras como a Sra. Gladys do programa de televisão, que engana María Flores para conseguir o seu tão sonhado prêmio. A verdade é que estes dois personagens centrais, Don Justo e María Flores, poderiam ter se dado muito mal em suas aventuras. Mas eles tiveram sorte de encontrar pessoas boas pelo caminho – outro que merece ser citado é o personagem de Fermín (Aníbal Maldonado), um chefe-de-obras que deveria ser clonado.

Outro acerto do roteiro é não tornar estas histórias “mínimas” (gigantes, na verdade) um dramalhão. Na verdade, o filme tem muitos momentos de pura comédia – especialmente na saga de Roberto e seu bolo. Pablo Solarz consegue juntar em seu roteiro os variados elementos da vida mesma, ou seja, comédia, drama, uma certa carga de suspense, de tensão e de aventura. Seu texto também trata de família, busca por oportunidades, vulnerabilidade, firmeza de caráter, enfim… poderia passar horas – e parágrafos – falando de cada aspecto do filme. Mas o melhor mesmo é descobrí-lo. Agora, um aparte nesta história: acho incrível como algumas pessoas, no caso específico do filho de Don Justo, podem ser tão egoístas. O que custava à aquele homem ajudar o pai a realizar o desejo/sonho de conseguir o seu antigo cão, companheiro de boa parte de sua vida, de volta? Vaya!! Nestas horas penso que tem pessoas que realmente não percebem o que é importante nesta vida.

Outra reflexão interessante do filme é a de que ninguém, por mais próximo que seja de uma pessoa, pode saber tudo a seu respeito. (SPOILER – não leia… vc já sabe). Os três personagens principais do filme sentem e passam por situações que ninguém, além deles mesmos, pode entender. Don Justo acredita que o acidente que ele causou lhe define mais do que outras ações e gestos conhecidos por seus familiares e amigos. Carregado de culpa, ele acredita que apenas Malacara o conhece de verdade. Roberto, como um bom vendedor, sabe convencer os demais para que eles façam o que ele deseja. Ele veste uma armadura e interpreta um papel em todo e qualquer encontro mas, em uma lanchonete ou em um quarto de hotel, sozinho, ele se revela (para ninguém). María Flores também deixa ser vista pela televisão, “por todo o mundo”, mas apenas ao se olhar no reflexo de um espelhinho é que percebemos o quanto ela é maior do que os minutos que os produtores deste filme deram para ela.

E se Historias Mínimas inteiro é bem escrito e bem dirigido, o final dele é o que nos provoca uma reflexão ainda mais importante, e de forma muito natural. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não importa se o cachorro encontrado por Don Justo não era o seu Malacara. Não vem ao caso se a idéia de surpresa romântica de Roberto não se concretizou. Pouco importa se o que María Flores traz para casa é um multiprocessador todo “moderno” ou um kit de maquiagens que parece ter sido feito para crianças. O importante em cada uma destas “chegadas” foi o caminho percorrido por seus personagens. Ou, em outras palavras, o que interessa é que Don Justo encontrou o seu perdão; que María Flores realizou o sonho de ser vista por “todo o mundo” pela televisão; e que Roberto conseguiu o seu quinhão de esperança. Humanista, sensível e otimista, Historias Mínimas é um destes filmes que deveria ser obrigatório.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Me desculpem os nossos “hermanos” argentinos, mas é MUITO estranho ouvir a maneira deles falarem. Claro que cada país de língua espanhola tem a sua forma de falar, mas ainda assim… Sinto muito, mas o idioma que eles falam é o “argentino” (sic), porque o castellano, ou seja, o idioma dos colonizadores, aquele que é utilizado na Espanha, é outro. Totalmente. Pessoalmente, gosto mais do castellano do que do espanhol falado pelos argentinos.

Eu gostei de todos os atores do filme, mas tem um que, sem dúvida, merece cada segundo em que ele aparece em cena: Antonio Benedicti. Que monstro, este homem! Sua expressividade, especialmente pelo olhar, é magnífica. De tirar o chapéu, realmente. Outras que conseguem “hipnotizar” enquanto estão em cena são as atrizes Julia Solomonoff e Mariela Díaz.

Na parte técnica do filme, além dos profissionais já citados, vale a pena comentar o trabalho preciso do editor Mohamed Rajid.

Historias Mínimas é um dos grandes êxitos do cinema argentino. Em sua trajetória, este filme de 2002 abocanhou 22 prêmios e foi indicado ainda a outros sete. Entre os prêmios que ganhou, destaque para o de Melhor Filme Estrangeiro em Língua Espanhola dos Prêmios Goya; duas menções especiais e um prêmio especial do júri do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián – as maiores premiações da Espanha; e outros dois prêmios para Carlos Sorin no Festival de Havana.

O filme também se saiu muito bem na opinião do público e da crítica. No site IMDb ele conquistou a nota 7,6. O Rotten Tomatoes abriga 23 críticas positivas e apenas duas negativas, o que garante para Historias Mínimas uma aprovação de 92%.

Nas bilheterias Historias Mínimas foi razoavelmente bem: arrecadou pouco mais de 282 mil pesos na Argentina e, nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 102 mil.

Um detalhe chamou bastante a minha atenção no filme: os bastidores do programa de TV no qual María Flores vai tentar a sua sorte. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Muito interessante a maneira com que os estereótipos e a imagem distorcida que a personagem, representando todas as espectadoras viciadas nesse tipo de programa – de prêmios, sorteios e desafios – vão sendo tratados pelo filme. María Flores sai maravilhada desta experiência, diferente de nós, que percebemos com um bocado de ironia e cinismo o tipo de ambiente improvisado daquele programa. Uma das partes mais cômicas e irônicas do filme, sem dúvida.

Enquanto as histórias do filme vão se desenvolvendo, fica a impressão que muitas pessoas que aparecem em papéis secundários são “gente comum”. E não é por menos: Sorin realmente utilizou pessoas daquela região que não eram atores para fazer papéis pequenos no filme. O que, evidentemente, só aumenta um pouco mais o tom “realista” da história.

Lançado em 2002, Historias Mínimas é uma co-produção da Argentina e da Espanha.

CONCLUSÃO: Um filme sensível e belo em cada detalhe, que revela histórias “simples” e cotidianas carregadas de humor, drama, desafios e pequenas conquistas. Como a vida mesma, alguns diriam… Produção argentina que deveria constar na lista básica de filmes feitos na América Latina que devem ser vistos. Além de apresentar um roteiro coerente e envolvente, Historias Mínimas revela um cenário lindo: o da parte menos “glamurosa” da Patagônia argentina. Sem esconder a pobreza local e nem os desafios de seus personagens, esta produção acaba sendo realista e, ao mesmo tempo, otimista. No fim das contas, nos deixa o sabor de que a vida é feita de momentos de felicidade, conquistas singelas, em meio a um cotidiano muitas vezes de desafios, tédio e poucas oportunidades. Grande trabalho do diretor Carlos Sorin e do roteirista Pablo Solarz. Mas nada disso funcionaria tão bem sem a interpretação emocionada e hipnotizante de Antonio Benedicti. Para quem gosta de filmes desta estirpe, não haverá erro.

SUGESTÕES DE LEITORES: Eis aqui um filme que foi indicado por um leitor deste blog há séculos atrás e, só agora, consegui assistí-lo. Aliás, comento que neste momento, sem nenhuma “série de filmes” para serem assistido e nem nada, voltarei a consultar a minha lista de produções que foram citadas ou sugeridas aqui no blog e… dá-lhe! Pouco a pouco assistirei a todos. Há muito tempo algumas pessoas com quem eu já troquei idéias sobre cinema – e elas foram/são muitas – haviam me falado de Historias Mínimas. Mas, definitivamente, foi o comentário de Tony Freitas, no dia 28 de julho do ano passado – puf! há quase um ano! – que me fez ir atrás deste filme. Aliás, Tony, você nunca mais voltou aqui no blog. Espero que retornes, inclusive para falar de outros filmes. Na época do teu comentário, me perguntavas porque não era possível encontrar Historias Mínimas no Brasil. Pois, boa pergunta. Eu consegui assistir a este filme através de um amigo argentino – que há tempos tinha feito a propaganda desta produção. Mas reparei que realmente ele não está à venda no Brasil. Se não tens um amigo/a argentino/a para te emprestar o filme, a única maneira que eu vejo é importá-lo… se queres mesmo assistí-lo. Na Amazon.com, por exemplo, ele está sendo vendido entre US$ 14 e US$ 22,56. É uma saída… mas se optares por importá-lo, fica de olho na região que corresponde ao DVD.

Wendy and Lucy Julho 7, 2009

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Um drama lírico, bonito, que traz uma história singela que provoca, me desculpem os sensíveis, um certo grau de raiva. Wendy and Lucy, filme independente protagonizado por Michelle Williams, narra a trajetória de uma garota em trânsito. Ela saiu do Estado de Indiana, no Centro-Oeste dos Estados Unidos, em direção ao distante Alaska, apenas acompanhada de sua cadela, Lucy. No melhor estilo de narração naturalista, o filme previlegia o cotidiano de Wendy e as relações que ela desenvolve na cidade em que está provisoriamente. A raiva surge pela inocência (ou burrice) da personagem, que toma as decisões mais equivocadas possíveis – e que também, convenhamos, é atrapalhada por uma aparente onda de azar e pela frieza das pessoas modernas, mais preocupadas com o próprio umbigo do que com alguém que passe ao lado.

A HISTÓRIA: Wendy (Michelle Williams) passeia com sua cadela, Lucy, perto de um trilho de trem. Lá pelas tantas, Lucy desaparece. Wendy busca sua companheira até encontrá-la junto a um grupo de moradores de rua. Destemida, ela se aproxima calmamente e consegue recuperar a cadela. Pouco depois, as duas dormem no carro de Wendy em um estacionamento vazio. Pela manhã cedo, o vigia do local (Wally Dalton) acorda as duas e avisa que elas devem sair dali. A partir deste momento, uma maré de azar e de decisões equivocadas de Wendy vai separar ela de sua cadela mais uma vez – e, desta vez, por muito mais tempo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Wendy and Lucy): Sempre é um prazer encontrar um filme que nada contra a corrente. Especialmente quando isso significa não ter pressa em contar uma história e, principalmente, demonstrar o apreço pela beleza das imagens, mais do que a necessidade de impressionar o espectador com cortes rápidos ou movimentos de câmera frenéticos. Não é nada comum apreciar, no cinema made in Estados Unidos, este tipo de cinema – que talvez seja muito mais característico no cinema japonês. Apenas por trazer esta “brisa” diferente para o cinema estadunidense, Wendy and Lucy se justifica. Mas é uma pena que a beleza da direção e o cuidado em narrar esta história não seja acompanhado pela história em si.

A verdade é que Wendy dá nos nervos. Me desculpem os fãs da personagem, mas eu admito que tive vontade de entrar na história, muitas vezes, e dar uma bela chacoalhada na figura – no melhor estilo de The Purple Rose of Cairo. :) Eu não entendo se ela é burra ou inocente demais, mas o fato é que Wendy semeia seu azar ao vento – e, claro, acaba colhendo parte de seus frutos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Entendo que ela quisesse economizar cada centavo de seu dinheiro porque, afinal de contas, faltava muita estrada ainda para percorrer até o Alaska. Certo. Mas será mesmo que ela não pensou que tipo de consequencia ela poderia ter roubando um par de produtos no supermercado local? Se fosse só ela, ainda vá lá… mas Wendy tinha a Lucy sob sua responsabilidade. Também não entendi porque ela não negociou com o dono da loja, garantindo que iria pagar por aqueles produtos.

Essa sua atitude é a primeira de uma série de erros que desencadeiam no final de, admito, cortar o coração. Final esse também que não concordo, porque me pareceu uma baita covardia – alguém talvez pense o contrário, que se tratou de um ato de coragem. Bem, logo mais falaremos disso. A impressão que eu tenho de Lucy é que ela é um tanto “limitada” intelectualmente. Sem dúvida ela não tem a malandragem que, acredito, a maioria dos brasileiros parece ter. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quem, hoje em dia, viajaria por milhares de quilômetros dormindo, a cada noite, dentro de um carro? E pior, quem, ao não ter o carro disponível para dormir, escolheria um terreno próximo a um trilho de trem para passar a noite? Detalhe: essa pessoa sendo uma mulher bonita e com todo o naipe de ser anônima no local. Por esse tipo de atitude da protagonista, estamos sempre esperando que o pior aconteça com Wendy.

Narrado de uma maneira linear e cuidadosa pela diretora Kelly Reichardt, Wendy and Lucy mostra os perigos, o azar e a sorte que uma garota sem passado e sem futuro claros/conhecidos pode encontrar pelo caminho. (SPOILER – não leia… você sabe). O momento mais tenso do filme é aquele em que um protótipo de serial killer encontra Wendy dormindo no terreno próximo as linhas de trem. O que acontece a partir daquele momento resulta no ápice da interpretação de Michelle Williams. Mas se existe gente ruim e desequilibrada no mundo, talvez na mesma medida exista gente do bem, pessoas generosas, como é o caso do vigia interpretado por Wally Dalton. Ele não faz nenhum grande gesto de sacrifício, mas tem a atitude do olhar e do cuidado para com o próximo que deveria ser mais comum no nosso mundo. Talvez essa reflexão seja o melhor do filme.

No mais, Wendy and Lucy revela os percalços da protagonista para resolver problemas “simples” – uma dificuldade que talvez seja mais comum atualmente do que gostaríamos de admitir. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Entre eles, o conserto do carro para que ela possa continuar viajando; a busca por Lucy; e a busca por locais relativamente seguros para passar a noite e fazer sua higiene básica de cada dia. Alguns podem achar o filme entediante, muito lento… bem, sem dúvida esta produção é uma forma diferenciada de contar uma história. Ele lembra algumas produções francesas, japonesas ou de outros países europeus – guardadas as devidas proporções, é claro. Um acerto do roteiro é nos deixar em dúvida sobre o perfil de Wendy – aquilo de não sabermos se ela é despreparada para a vida, inocente demais ou burra mesmo, sem contar o fato de que desconhecemos seu passado.

E o final… me deixou ainda mais irritada com a personagem. (SPOILER – bem, vocês já sabem). Cacilda, será que ela não consegue pensar nunca em uma saída relativamente inteligente para seus problemas? Primeiro, ela não consegue evitar a própria prisão por um motivo estúpido. Depois, não pensa em vender o carro sem conserto para pagar o restante da viagem. Alguns podem ver sua atitude com Lucy como algo corajoso, que demonstra o quanto ela era desprendida e “pensava o melhor para sua cadela”. Pois eu vejo como mais um sinal de burrice. Afinal, sempre existem outras saídas. O abandono é sempre a última alternativa. E que dó eu tive da pobre Lucy… ;)

NOTA: 7,8 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Admito que fazia muito tempo que eu queria ver a este filme e que, talvez por esta relativamente alta expectativa, ele tenha se saído pior do que eu esperava. Ele é bonito, Michelle Williams e a cadela Lucy estão bem (hehehehehehehe, não consegui evitar a piada) e tudo o mais, mas não sei… acho que faltou um pouco mais de conteúdo. Ou eu não cheguei ao fundo da questão, não entendi a história.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Se ela é uma reflexão sobre a fragilidade e a “insignificância” de uma vida em trânsito… bem, ok. Não deixa de ser interessante assistir a um filme que mostra que toda e qualquer pessoa tem os seus desafios, seus amores, problemas, sonhos e tudo o mais, independente se é uma pessoa desconhecida ou familiar. Independente se conhecemos o seu passado, suas motivações, ela tem importância/desimportância, dependendo de cada ótica. Agora, como falei anteriormente, um dos acertos de Wendy and Lucy é não explicar muito bem o passado e nem o futuro da nossa protagonista. Não sabemos, realmente, se ela está indo para o Alaska atrás de trabalho ou se ela tem outras razões para fazer uma viagem tão longa. Que tipo de relações ela tem com o cunhado e a irmã – parece que Wendy tem uma história mal resolvida nas costas. Bem, nada disso, saberemos ao certo. Tudo acaba em conjecturas.

Este é o sexto filme no currículo da diretora Kelly Reichardt. Ela faz um trabalho muito bom, inspirado, em Wendy and Lucy. A sequência inicial, em que sua câmera praticamente faz as vezes de um voyeur, é muito boa. Uma sequência bastante promissora. Outras que sucedem essa primeira, com a eleição de planos de câmera que privilegiam os personagens e a cidade em que a história está sendo contada, caminham com a mesma qualidade. O problema é que a adaptação da diretora, feita juntamente com Jon Raymond, autor do conto que originou o roteiro, Train Choir, se mostra um tanto descompassada em relação a narrativa das imagens. Parece que faltam diálogos e acontecimentos mais interessantes para fazer companhia com a escolha de imagens inspirada. E falando nelas, merece uma menção especial o trabalho do diretor de fotografia Sam Levy.

Além dos atores já citados, vale comentar as “pontas” de Will Patton como o dono da oficina mecânica em que Wendy leva seu carro; Larry Fessenden como o homem do parque que eu chamei carinhosamente de “protótipo de serial killer”; e Ayanna Berkshire como a atendente do abrigo para animais.

Até o momento, Wendy and Lucy ganhou quatro prêmios e foi indicado a outros cinco. Entre os que levou para casa, estão o de melhor atriz para Michelle Williams e o de melhor filme atribuídos pela premiação da Associação de Críticos de Cinema de Toronto, no ano passado. Williams ainda recebeu o prêmio de melhor atriz no Prêmio da Sociedade de Críticos de Cinema Online; e Kelly Reichardt recebeu o Russell Smith no Prêmio da Associação de Críticos de Cinema de Dallas-Fort Worth.

Wendy and Lucy conseguiu uma nota muito boa para os padrões do site IMDb: 7,3. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes também foram generosos com o filme, dedicando-lhe 117 textos positivos e apenas 22 negativos, o que lhe garante uma aprovação de 84%.

Depois de estrear no Festival de Cannes de 2008 e de passar por outros 20 festivais – uma marca impressionante! -, o filme chegou aos cinemas dos Estados Unidos conseguindo, até o dia 26 de abril deste ano, uma bilheteria de quase US$ 857 mil. Depois desta estréia em solo norte-americano, a produção ainda passaria por seis festivais este ano.

Um ponto interessante do filme, do qual não falei antes, é que ele mostra a vida em uma cidade do Oregon para ilustrar o cotidiano de muitas outras cidades dos Estados Unidos. Por este lado, o filme tem seu interesse. Especialmente porque o que vemos é um cenário de certa desolação, com poucas opções de trabalho, falta de perspectivas para as pessoas – incluídos os jovens. Uma América muito diferente do que a maioria está acostumada – maioria essa que, certamente, não assistiu ao interessante (e importante) documentário de Michael Moore, Roger & Me, filmado em Flint, no Estado de Michigan.

Nas notas de produção do filme, fica claro que a intenção de Wendy era buscar trabalho em uma das fábricas de conserva de peixes no Alaska, durante a “lucrativa temporada de verão”. O carro dela quebra no Oregon, distante aproximadamente 4 mil quilômetros de seu destino final – segundo o Google Maps.

Em uma entrevista para o material de divulgação de Wendy and Lucy, a diretora Kelly Reichardt comentou que dois elementos estavam no conto original de Raymond e no roteiro que eles produziram depois: o cachorro e a economia. Cada um deles trabalhou um período no roteiro, deixando ainda os atores confortáveis para contribuirem, eles mesmos, com o texto final. Achei bacana a diretora destacar o talento de Raymond em transformar a paisagem em que suas histórias se desenvolvem em um personagem a mais. Foi essa a impressão que eu tive também.

Críticos como Wesley Morris, do The Boston Globe, destacaram a interpretação de Michelle Williams e uma das mensagens do filme: a convicção de sua personagem por ser uma pária social. Ou seja, por revelar-se uma excluída da sociedade consumista atual – ela se recusa a pagar por uma lata de comida para cachorro, não tem cartão de crédito ou celular. Neste texto (em inglês), Morris faz um paralelo entre Reichardt e Gus Van Sant, afirmando que a primeira é mais reflexiva que o segundo. Ele destaca, por exemplo, como os dois últimos filmes da diretora – Wendy and Lucy e Old Joy – refletem sobre os limites do idealismo. É uma forma interessante de ver o seu trabalho. Admito que, encarando por esta ótica, o filme merece uma nota um pouco maior.

Gostei também desta leitura feita pelo Bruno Carmelo do blog Nuvem Preta, que considera Wendy and Lucy inclassificável.

CONCLUSÃO: Um filme que lembra, em determinados aspectos, algumas produções européias, mais especificamente francesas, ou mesmo do cinema japonês. Contado sem pressa, em um tom naturalista/minimalista, ele destaca as interpretações dos atores e o ambiente em que a história se passa. Mas se Wendy and Lucy acerta na direção e nos detalhes, erra na ligeireza de sua história. Fraco em conteúdo, ele termina sem dizer muito bem ao que veio. Pode ser visto como uma crítica a nossa sociedade consumista, que cobra um alto valor das pessoas simples. Ou pode ser entendido como uma crônica sobre as consequências de uma série de escolhas erradas de um indivíduo. Vale como curiosidade e como exercício de um cinema independente produzido nos Estados Unidos. Chega a emocinar. Provoca diferentes reações no espectador durante a sua projeção. Mas sua validade termina aí. Uma pena para uma produção que começa com uma sequência ao melhor estilo voyeur, mas que termina sem nenhum suspense ou complexidade.