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Un Prophète – A Prophet – O Profeta
Um homem é definido por suas circunstâncias. Mas não apenas por elas. Un Prophète abre a temporada de críticas das produções que disputam uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro do Oscar 2010 com maestria. Perfeito em cada detalhe, especialmente em seu roteiro, direção e no trabalho de seus atores, o representante francês para uma vaga no próximo Oscar mereceu os prêmios recebidos até agora – e os que virão. Un Prophète é um filme potente e possivelmente um dos mais realistas sobre a escola do crime chamada cadeia. Mas paralelo a esse tema, acaba ganhando protagonismo na história conceitos como perseverança, honra, conflitos raciais e de minorias, marginalização social, luta pela sobrevivência, entre tantos outros. Um filme complexo, crítico e sensível ao mesmo tempo.
A HISTÓRIA: O jovem Malik El Djebena (o fantástico Tahar Rahim) acompanha, na delegacia de polícia, a chegada revoltada de mais um preso. Ele acaba de ser informado por seu advogado (Rabah Loucif) que terá que cumprir uma condenação de seis anos de prisão. A caminho da penitenciária, ele guarda no velho tênis um bilhete de dinheiro e vê, pelo vidro do veículo, as últimas paisagens a que terá direito de vislumbrar por muito tempo. Chegando na prisão, ele vive sozinho, até que o grupo liderado por César Luciani (o excelente Niels Arestrup) lhe coloca contra a parede em um plano de homicídio dentro da penitenciária. Sendo obrigado a se aproximar dos bandidos da Córsega, Malik é visto pelos árabes, sua etnia de origem, como traidor. Para sobreviver dentro da prisão, ele se submete às ordens de Luciani, mas insiste em dizer que trabalha para si mesmo.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Un Prophète): Este filme impressiona pela maneira natural e “simples” com que trata o drama do protagonista. Não há pirotecnia e nem exageros na direção, nos efeitos visuais ou especiais. Não. O que interessa ao diretor e roteirista Jacques Audiard é assumir a posição de uma testemunha ocular invisível da história de Malik. A câmera está sempre próxima do protagonista, presente o tempo suficiente para registrar seus diferentes momentos de tensão, medo, vergonha, dúvida e satisfação. Mas não assumimos os olhos de Malik, a narrativa não é feita em primeira pessoa – ainda que ela esteja centrada no rapaz preso aos 19 anos que vai se tornando um criminoso pior a cada momento de sua condenação. As câmeras de Audiard estão sempre próximas e, em alguns momentos, chegam até a revelar os sonhos e a imaginação do protagonista. Um trabalho que se aprofunda no cotidiano, na imaginação e nos desejos de um rapaz que não tem família ou perspectivas, mas que é colocado à prova constantemente.
Há muito tempo eu não assistia a um filme que questionasse de forma tão potente a questão das circunstâncias, do “destino” e da capacidade do homem em sempre fazer as suas escolhas – mesmo quando tudo pareça ir contra a sua própria autonomia. Malik tenta, a todo custo, fugir da “missão” imposta por Luciani de matar Reyeb (Hichem Yacoubi), um preso que tenta um acordo judicial em troca de dedurar os seus comparsas. Como praticamente todos os bandidos, Luciani também obedece a um superior. No caso de Un Prophète, o nome do “chefe” de Luciani é Jacky Marcaggi, que pede a cabeça de Reyeb. Sem querer arriscar um de seus homens, Luciani vê no isolado árabe Malik sua arma perfeita.
Não vou estragar as surpresas do filme, porque isso seria um pecado, mas queria comentar como Malik impressiona por sua paciência em esperar o momento certo para tudo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Inicialmente, ele tenta denunciar a coação de Luciani para o diretor do presídio, mas ele logo percebe que o chefe de detenção (Frédéric Graziani) come nas mãos do bandido corsário. No melhor estilo “ou mata, ou morre”, ele extermina Reyeb em uma sequência de forte impacto e verdade. E a partir deste momento, em uma de várias escolhas líricas dos realizadores deste filme, a vítima de Malik passa a conviver com ele. Em sua solidão, o “fantasma” de sua primeira vítima fatal lhe acompanha como seu único parceiro fiel. Culpa e absolvição estão em jogo, e não apenas neste caso.
(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De qualquer forma, Malik sabe os momentos certos de se submeter aos desejos e desígnios impostos por Luciani da mesma forma com que aprende muito rápido os caminhos para fazer os seus próprios negócios e alianças. O rapaz impressiona por sua perspicácia e, com suas atitudes, demonstra como mesmo no pior dos cenários e sob as mais duras circunstâncias o indivíduo ainda pode fazer o seu próprio caminho. Que este não fosse o caminho ideal ou desejado no início, mas pelo menos ele foi diferente do que os outros, que se sentem donos do destino de alguns, haviam traçado. Claro que Malik não havia planejado se tornar um assassino ou um traficante antes de entrar no presídio. Mas levado pelas circunstâncias, ele fez o que era necessário para sobreviver e, por mais absurdo que isso pareça, sair “limpo” desta experiência. E ele aprendeu muito no caminho.
Curioso como o protagonista, até entrar no presídio, não tinha uma ligação muito forte com suas origens. Não sabemos com detalhes as razões que o levaram a ser preso, nem sabemos muito sobre sua vida anterior, fora do crime. Mas no momento em que ele dá entrada no presídio, somos apresentados a algumas pistas importantes – que ganham mais detalhes quando ele se inscreve na escola da instituição. Tudo indica que ele foi abandonado pelos pais ou deixou a família muito cedo. Crescendo nas ruas, ele aprendeu a se virar muito rápido, cometendo pequenos crimes e estudando em um reformatório até os 11 anos. Quando passa pela triagem no presídio, fica subentendido que ele foi condenado por agredir a policiais – provavelmente após ter se envolvido em algum crime pequeno. Mesmo sendo de origem árabe, ele não seguia nenhuma religião. Por isso, não tinha problemas em comer carne de porco ou em ficar em uma ala em que não se previa orações pontuais como é costume entre os árabes.
Curioso como, ao ficar isolado do mundo, Malik se viu obrigado a olhar para si mesmo. Pouco a pouco ele foi aprimorando a própria capacidade de observação, aprendendo mais sobre suas origens árabes, seus costumes e religião. Também aprendeu sobre os corsários e sentiu na pele o preconceito que muitos árabes sofrem na França. Como nos morros dominados por traficantes, ele serviu como uma ferramenta para os poderosos – prestando serviços cada vez mais complexos para sobreviver. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Autodidata, ousado e inteligente, ele aproveitou o tempo que passou na cadeia para aprender a língua dos corsários, assim como aprendeu a ler e escrever corretamente. Ousado, ele se aproximou de pessoas que não faziam parte do círculo de Luciani, como o árabe Ryad (Adel Bencherif), que conhece nas aulas do presídio; e o traficante Jordi – O Cigano (Reda Kateb). Com eles, Malik consegue estabelecer parcerias que acabam sendo sua alternativa para sobreviver.
Un Prophète é um filme excepcional. Bem dirigido, com um roteiro perfeito e atores muito, muito competentes, não há o que questionar desta produção. Ela funciona com perfeição em cada detalhe. Gosto da levada sombria e acizentada da direção de fotografia de Stéphane Fontaine, por exemplo. A permanente sensação de que algo de muito ruim vai acontecer com Malik a qualquer momento mantêm o clima tenso da história – e o interesse do espectador. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O que irá acontecer com o protagonista depois que ele deixa a prisão, não sabemos. Mas o importante de Un Prophète não é apresentar um personagem perfeito ou que não irá sucumbir nunca mais ao crime. O que interessa desta história é a capacidade de Malik em sobreviver, em seguir vivo da melhor forma possível e, ao mesmo tempo, buscando a sua própria verdade.
NOTA: 10.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Un Prophète mostra uma direção cuidadosa e inspirada de Jacques Audiard. A câmera orquestrada pelo francês está permanente em busca das imagens que expliquem, sem palavras, o que está acontecendo. Assim, temos closes das mãos de Malik quando ele dobra, cuidadosamente, a desgastada nota de dinheiro quando está indo para o presídio; ou os detalhes de como os presos fazem mercadorias ilegais entrarem no local de segurança pública através da cozinha ou da lavanderia. Malik vira “porteiro” na prisão e, assim, percebe a aprende com os detalhes do que acontece ao seu redor. Audiard está atento a cada um destes pequenos detalhes e, ao mesmo tempo, às nuances interpretativas de seus atores.
Para dar força a esta história, Audiard contou com o excelente trabalho de edição de Juliette Welfling. A sequência em que Malik incorpora a função de “olhos e ouvidos” de Luciani, ou quando o protagonista entra em ação em cenas de brutalidade e assassinato, revelam a importância de uma boa edição e da segurança do diretor neste filme. A verdade é que Audiard se cercou de profissionais muito competentes, o que fica evidente pela qualidade técnica vista nesta produção.
O roteiro de Un Prophète é assinado por Audiard e por Thomas Bidegain. Eles trabalharam sobre o texto original de Abdel Raouf Dafri e Nicolas Peufaillit, o primeiro, um dos novos expoentes do cinema francês. Misturando uma narrativa em certos momentos um tanto pop – com a já tradicional pausa para a inserção dos nomes de alguns personagens importantes – com uma levada essencialmente crua, Un Prophète segura o interesse do público em pouco mais de duas horas e meia graças, principalmente, ao trabalho do diretor e do ator principal, Tahar Rahim.
Ainda que pouco presente na produção, a trilha sonora de Alexandre Desplat se mostra fundamental em determinados momentos da história – como deveriam ser todas as trilhas sonoras de filmes.
Não deixa de ser curiosa a “população presidiária” mostrada pelo filme. Quando Un Prophète inicia, domina o cenário os presos políticos ligados à Frente de Libertação Nacional da Córsega – conhecida também como Armata Corsa. Segundo este breve texto da Wikipédia, o movimento político que defende a independência da Córsega frente ao domínio francês foi criado em 1976 e é conhecido por utilizar métodos similares ao da máfia italiana – o que fica evidente no filme. Mas, pouco a pouco, conforme os anos dentro da prisão vão passando, começa a crescer no presídio a população de muçulmanos, o que reflete a realidade da população carcerária francesa.
Segundo este texto de 2004, mais de 50% dos presos na França naquele ano eram muçulmanos. O intelectual Tahar Ben Jelloun comenta, nesta entrevista, por exemplo, que na maior prisão de Marselha (uma das cidades importantes para a história de Un Prophète), em 2002, quase 70% da população carcerária era de origem não-francesa. Estes são detalhes que tornam a narrativa do filme ainda mais realista, especialmente porque o tema de origem étnica e das diferenças religiosas e culturais joga um importante papel na história.
Un Prophète estreou no Festival de Cannes em maio deste ano. Ele não saiu com o prêmio principal do evento, mas garantiu o Grande Prêmio do Júri para o diretor Jacques Audiard. Este mês, a produção francesa se consagrou com o prêmio de melhor filme do 53º Festival de Cinema de Londres. Na ocasião, a atriz Anjelica Huston, presidente do júri, considerou Un Prophète um filme perfeito, acrescentando que ele tem a “ambição, a pureza de visão e a clareza de propósitos que o tornam um clássico instantâneo”.
Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para o filme. Até o momento, a crítica internacional falou pouco da produção. O Rotten Tomatoes, por exemplo, registra apenas uma crítica sobre Un Prophète. Assinada por Liam Lacey, do Globe and Mail, a crítica destaca a direção “sensacional” de Audiard e o “desempenho convincente” de Rahim como elementos fundamentais para que a audiência mantenha o interesse na história. O crítico também afirma que a história se mostra, algumas vezes, “desconcertante ao traçar as complexas alianças e rivalidades entre as gangues e seus chefes” no presídio.
Para o crítico Richard James, neste texto do In The News, Un Prophète apresenta um ritmo de ação “implacável” e, sobretudo, um drama sobre crimes “verdadeiramente original”, com um personagem principal que apresenta uma profundidade real. Estou totalmente de acordo com James, que ainda classifica as interpretações de Rahim como “soberba” e a de Arestrup como “fantástica”.
Um detalhe sobre Un Prophète: apesar de ser uma produção essencialmente francesa, o filme também recebeu dinheiro da Itália. No roteiro, são faladas três línguas: a francesa, a árabe e a corsa (que se assemelha ao dialeto toscano, tendo como base o idioma italiano).
CONCLUSÃO: Um filme potente e que busca o realismo no cotidiano de uma prisão francesa. Un Prophète se lança no árduo caminho de se aprofundar nos sentimentos e nas motivações de um jovem de 19 anos que cai em um presídio e se torna, pouco a pouco, um homem formado no mundo do crime. Com uma direção primorosa e um protagonista impecável, Un Prophète ganha destaque entre as produções do gênero pelo realismo e pela profundidade com que trata o seu personagem principal, como já foi citado. Mas, especialmente, este filme se destaca por equilibrar os elementos anteriores com um olhar sensível sobre a realidade, as fantasias, a imaginação e a capacidade de se conectar com o que acontece ao seu redor por parte do protagonista (ou, para alguns, pela forma com que seu sexto sentido é mostrado pela história). Como os grandes filmes do gênero, Un Prophète apresenta algumas cenas muito duras, inclusive de violência, mas todas perfeitamente justificadas. Uma grande história sobre valores e a incapacidade do sistema prisional em “reformar” criminosos especialmente bem contada.
PALPITE PARA O OSCAR 2010: Ainda é cedo para lançar um palpite certeiro sobre o futuro de Un Prophète no próximo Oscar – afinal, ainda tenho que assistir aos outros 63 pré-candidatos (porque La Teta Asustada eu já vi).
Mesmo assim, não tenho medo de arriscar: o candidato francês à estatueta mais cobiçada da grande indústria do cinema deve estar entre os cinco finalistas. Também acho que ele corre, desde já, como um dos grandes favoritos.
Em outras palavras, ele tem boas chances de ganhar. Quer dizer, isso se ele vencer outros candidatos muito fortes, como o alemão Das Weisse Band (o próximo na minha lista para ser assistido), o iraniano Darbareye Elly, o italiano Baaria, o coreano Madeo, o inglês Afghan Star e, (admito que essa é uma torcida minha), quem sabe, até mesmo o peruano La Teta Asustada. Este último, aliás, comentado aqui no blog. Não sei se a produção francesa terá forças para ganhar o Oscar de filme estrangeiro, mas acho que seria uma injustiça se ele ficasse de fora da lista dos finalistas.
Dance Flick – Ela Dança com meu Ganso
Tem filmes que, muito antes de assistí-los, sabemos que será um desperdício de tempo. Mas somos levados a conferir estas produções por diferentes razões. Eu sabia que Dance Flick era a nova investida dos irmãos Wayans, os criadores da “onda besteirol” lançada com os dois primeiros Scary Movie. Então fui preparada para assistir a esta paródia dos musicais. Francamente, como muitos dos filmes da “nova geração” de musicais é mais do mesmo e apresenta uma história fraquinha, eu até achava que eles mereciam uma tiração de sarro. Mas, desta vez, os Wayans ficaram muito abaixo do que se esperava e conseguiram apenas fazer uma salada de frutas de referências de musicais com pouca carga prática de humor. O filme se mostra um bocado arrastado, com cenas de “dança” um pouco longa demais e, como qualidade, apenas algumas boas tiradas espalhadas pela produção aqui ou ali.
A HISTÓRIA: Em um ringue de dança, dois grupos se enfrentam. De um lado, a turma de Thomas (Damon Wayans Jr.) e A-Con (Affion Crockett), de outro, o grupo 409, liderado por Truck (Craig Wayans). Um acidente acaba dando a vitória para o 409. Com a derrota, Thomas e A-Con devem prestar contas para o mafioso viciado em comida Sugar Bear (David Alan Grier). Enquanto não aparece a oportunidade da dupla tentar uma revanche na dança, Thomas conhece a Megan (Shoshana Bush), uma garota do interior que vai morar com o pai alcóolatra depois que a mãe morre em um acidente de carro.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Dance Flick): Como eu disse em repetidas vezes anteriormente, aqui mesmo no blog, as expectativas são fundamentais na nossa vida e na impressão que acabamos tendo da arte – e dos filmes, em particular. Grandes expectativas, normalmente, são ruins – exceto no caso de obras-primas. Dance Flick, claro, não me despertava nenhuma expectativa. Melhor dizendo, eu esperava ver a uma bomba. Talvez por isso, até eu não tenha considerado este filme um lixo assim tão monumental.
A verdade é que ele começa chato. Não sei vocês, mas achei aquela sequência inicial – e que, infelizmente, praticamente se repete no final, com pouca variação – muito chata e longa. Ok, eles querem exagerar nas coreografias para mostrar o absurdo que são estas sequências de “duelo” artísticos nos musicais… entendi a piada, mas ela podia ser mais curta e ligeira. Depois deste começo “descerebrado”, o roteiro escrito por cinco Wayans (comento sobre cada um deles mais abaixo, na seção “obs de pé de página”) parte para a apresentação da “heróina” da trama, a encantadora, ambiciosa e desajeitada Megan. Neste ponto o filme começa a melhorar.
A primeira grande sequencia do filme, para mim, foi o acidente com a mãe de Megan. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Muito boa a sacada do acidente de trânsito sugerir a participação de pessoas como Lindsay (Lohan, atriz), Brandy (cantora) ou Halle (Berry, atriz, que aparece como Mulher-Gato), celebridades envolvidas em casos recentes de violência no trânsito. Sim, o humor deles, algumas vezes, é pesado. Algo visto antes na filmografia dos irmãos Shawn e Marlon Wayans, criadores do Scary Movie.
Os irmãos, aliás, foram muito inteligentes. Eles começaram esta década tirando sarro dos filmes de terror, que voltaram no final dos anos 1990 e nestes últimos anos com força total, e fecharam os anos 2000 fazendo paródia de outro fenômeno deste período: os musicais. Na verdade, a tentativa deles era a de repetir o sucesso de Scary Movie – mas eles ficaram muito distantes disto. Primeiro, porque os nove anos que separam estes dois filmes (Dance Flick e Scary Movie) foram forrados de filmes do gênero “comédia-escrachada-e-autorreferenciada-no-cinema”. Depois, porque eles simplesmente não conseguiram manter a qualidade de seu roteiro.
Mas voltando a Dance Flick. O filme faz paródia de exatamente 23 cenas de dança e/ou personagens de diferentes filmes (não apenas musicais). O problema desta grande quantidade de referências é que há personagens colocados no meio da história sem qualquer lógica, como no caso de Ray (George Gore II), uma claríssima referência à premiada interpretação de Jamie Foxx no filme homônimo sobre Ray Charles. Em Dance Flick, ele aparece em cenas desastradas e que não tem nenhuma serventia para a história central. Por outro lado, a personagem de Tracy Transfat (Chelsea Makela), claramente inspirada na Tracy Turnblad interpretada por Nikki Blonsky no filme Hairspray é pouco explorada pela história dos Wayans.
O casal de protagonistas vive o clássico papel de “estudantes-de-origens-muito-diferentes-que-acabam-ficando-juntos-apesar-dos-pesares” e, claro, como em 99% dos musicais estrelados por jovens, por causa da dança. Shoshana Bush e Damon Wayans Jr. são bons atores, mas não tem a química adequada para convencer como o casal principal de Dance Flick. Apesar disto, individualmente, eles se saem bem. Mas o problema desta produção, além dos fatos já comentados, é que suas piadas são previsíveis e bobas demais, na maior parte das situações, e também por seus personagens, na maioria, caricatos demais. Um dos mais irritantes, para mim, é o do “mafioso” Sugar Bear que faz piadas, essencialmente, com seu peso e sua tara por qualquer tipo de comida. Um bocado patético.
Como passatempo, o filme talvez agrade aos que procuram mais argumentos para fazer piada dos musicais. Afinal, há piadas que fazem referência a clássicos como West Side Story, de 1961, ou Fame, de 1980, até filmes bem mais recentes, como a conhecidíssima cena da protagonista de Little Miss Sunshine, de 2006. Os Wayans atiram para todos os lados. E não deixa de ser um passatempo curioso encontrar, além das homenagens escancaradas, as outras 17 referências a filmes e séries de TV feitas no roteiro – e que vão de Edward Scissorhands até Brokeback Mountain. Dance Flick, aliás, resgata todas as categorias de piadas “infames” do mercado, apontando a metralhadora dos roteiristas para negros e brancos (e suas diferenças), alcóolatras, obesos, homossexuais e o estereótipo do adolescente norte-americano. Mas claro, ninguém esperava nada diferente de um filme como este.
NOTA: 4,5.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Dance Flick ficou léguas distante do megasucesso inesperado de Scary Movie. O filme do ano 2000 que tornou os irmãos Wayans conhecidos custou, na época, US$ 19 milhões e faturou, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 157 milhões. Um fenômeno. Dance Flick, por sua vez, teria custado aproximadamente US$ 25 milhões e faturado, entre os norte-americanos, pouco mais de US$ 25,6 milhões. Ou seja, ele mal se pagou.
Um acerto do filme, na minha opinião, é que ele segue um bocado a linha dos musicais – e de muitos filmes pornôs. Ou seja: o que menos interessa é a história central. Tudo que vemos em tela é uma desculpa para coreografias de dança (no caso do pornô, para cenas de sexo, evidente). E, claro, no caso de Dance Flick, a história do filme também serve como “desculpa” para as sequências de humor – ainda que boa parte das piadas tenha pouca graça.
Além dos atores já citados, ganha destaque neste filme o trabalho de Essence Atkins como Charity, irmã de Thomas e amiga de Megan; Christina Murphy como Nora, a “super-rival” da protagonista; e Brennan Hillard como Jack, um estudante gay que é o sonho de consumo de Tracy.
Como prometi anteriormente, vou comentar sobre os cinco roteiristas deste filme. Os irmãos Shawn e Marlon Wayans foram os responsáveis por Scary Movie. Junto com eles, assina o roteiro de Dance Flick: Keenen Ivory Wayans, irmão de Shawn e Marlon; Craig Wayans, primo do trio citado; e o diretor Damien Dante Wayans, sobrinho de Shawn, Marlon e Keenen.
Para completar o “filme em família”, fazem parte da produção Damon Wayans Jr., que interpreta o protagonista, sobrinho de Keenen, Shawn e Marlon; Kim Wayans, que interpreta a Ms. Dontwannabebothered, irmã do trio citado; Cara Mia Wayans, irmã de Damon W. Jr., que faz uma ponta como uma garota no clube; sem contar que Shawn, Marlon e Keenen ainda aparecem no filme em papéis secundários. Uma produção familiar, sem dúvida.
Dance Flick registra avaliações péssimas de público e crítica. Os usuários do site IMDb, por exemplo, deram a nota 3,2 para a produção. O Rotten Tomatoes, por sua vez, abriga links para 66 críticas negativas e 15 positivas – o que lhe garante uma aprovação de 19% ou, o que é o mesmo, uma reprovação de 81%.
CONCLUSÃO: O subgênero de filmes que tiram sarro de outras produções parece, realmente, não ter fim. Desde Scary Movie, a cada ano, é lançado um novo produto nesta linha. Mas Dance Flick, para mim, mostra um pouco o cansaço da fórmula. Isso fica evidente não apenas pela bilheteria minguada – se comparada com a produção que tornou os Wayans famosos no ano 2000 – assim como pela pequena quantidade de grandes sacadas dos roteiristas. Parece que a fonte está secando. Mesmo sofrendo com cenas de dança longa demais e com o excesso de personagens secundários, Dance Flick apresenta algumas grandes e raras tiradas geniais. Recomendado para os que não tem absolutamente outra opção melhor para assistir – e, preferencialmente, espere para que o filme chegue à TV. Não vale a pena desembolsar dinheiro para assistí-lo.
Sugar
O sonho de fazer a vida nos Estados Unidos (mas que bem podia ser na Europa ou no Japão) visto de maneira realista e através do esporte. Sugar, um filme com orçamento enxuto dirigido por Anna Boden e Ryan Fleck, acostumados a dirigir documentários, nos revela parte dos desafios, da coragem, dos sonhos e da realidade dos imigrantes latinos em um país desenvolvido. A barreira do idioma, da raça e dos costumes são os aspectos mais evidentes, mas entra em jogo também a busca pelo lucro e pelos resultados de um ambiente competitivo como o do beisebol – que encanta torcedores nos Estados Unidos e na República Dominicana, países focados em Sugar. Um filme potente pela naturalidade de seu enredo, pela franqueza com que contrapõe distintas realidades e pela força de seus atores.
A HISTÓRIA: Na ensolarada Escola Profissional de Beisebol do Kansas City Knights, localizada em Boca Chica, na República Dominicana, todos observam os lançamentos de Miguel Santos, conhecido como Sugar (Algenis Perez Soto). O rapaz impressiona pela precisão, força e rapidez de suas jogadas. Mas naquele local, vários são os garotos talentosos em busca de uma oportunidade nos Estados Unidos, onde acreditam que poderão fazer dinheiro e ajudar suas famílias na República Dominicana. Mas Sugar consegue um diferencial quando um olheiro dos Estados Unidos lhe ensina a lançar uma bola com o efeito da “curva spike”. O garoto sabe que se ele treinar e conseguir fazer bem a tal jogada, esta pode ser a sua melhor chance para conseguir sua tão desejada oportunidade em um grande time norte-americano. E ele, junto com um colega de Boca Chica, realmente consegue chegar aos Estados Unidos. Mas antes de pensar em entrar em alguma divisão da liga profissional de beisebol, Sugar deve se destacar no Centro de Treinamento de Primavera do Kansas City Knights em Phoenix.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Sugar): Gosto de filmes que evitam maquiar a realidade. Na mesma proporção, admiro diretores que consideram a interpretação de seus atores como algo tão importante quanto o cenário em que eles desenvolvem suas histórias. Sugar é um filme admirável por respeitar estes aspectos. Para começar, os diretores e roteiristas Anna Boden e Ryan Fleck seguem suas vocações em trabalhar com histórias reais. Os dois filmaram juntos, antes de Sugar, a dois documentários – sendo um deles, um curta. Além destes, Fleck tem no currículo dois curtas de ficção (dramas) e a direção do premiado e elogiado Half Nelson.
Mas falemos de Sugar. Ainda que um de seus temas centrais seja o esporte, este filme não tem como sua principal pretensão emocionar o público com o virtuosismo do beisebol – como outras produções fizeram antes com o boxe ou o futebol americano, para citar dois exemplos. Mesmo o beisebol sendo fundamental para a história, por mostrar como o esporte é um dos canais mais utilizados para a ascensão social de jovens de comunidades pobres mundo afora, este é apenas um dos aspectos desta produção. Possivelmente, o menos importante, porque em lugar do beisebol poderiam ser focados vários outros esportes. Quem se interessar por esta produção por causa do beisebol, vá se preparando para o foco do roteiro em outros temas.
Para começar, Sugar mostra como o esporte tem várias leituras possíveis. Para as pessoas que se dedicam nos treinamentos e tem talento para ele, o esporte é uma vocação. Para os que contratam e treinam estes jovens, um negócio. Para os torcedores e apoiadores das equipes, uma paixão. Sugar mostra com precisão cada um destes lados. A vocação do esportista através de Sugar, o protagonista, mas também pela história de Jorge Ramirez (Rayniel Rufino), Johnson (Andre Holland), Alvarez (Jose Rijo) e tantos outros jogadores. A visão comercial do beisebol através da figura do técnico Stu Sutton (Michael Gaston), um homem que, como toda pessoa em sua posição, deve apresentar bons resultados – e fazer o que é preciso para que eles apareçam. E a paixão dos torcedores pode ser vista na família de Helen (Ann Whitney) e Earl Higgins (Richard Bull), que temporada após temporada recebem jogadores do Swing, o time do coração deles.
Mas o mais interessante é que, além de mostrar o beisebol contextualizado, com todos estes seus “atores” sociais bem representados, Sugar vai além. E ele mostra uma qualidade toda especial quando explora o modo de vida de dominicanos e estadunidenses, seus valores, seus costumes, assim como os tipos de dificuldade que um imigrante latino enfrenta em um país de língua estrangeira. Para começar, não deixa de ser engraçado (ainda que um pouco triste, talvez patético) como na escola profissional em Santo Domingo os jogadores tem “aulas” de inglês. Na verdade, eles são adestrados a repetir frases e expressões específicas do beisebol. Algo comum, infelizmente, em países onde falha o sistema de ensino. Por não saber se comunicar em inglês, Sugar e os demais penam em suas chegadas. A barreira do idioma pode ser especialmente dura e excludente.
Depois, como efeito desta primeira grande barreira, Sugar e os demais devem enfrentar uma solidão das pesadas alimentada também pelas diferenças de costumes. Os Higgins são muito polidos e educados mas estão longe da amabilidade e do contato físico costumeiro de países em que as pessoas tendem a ser menos individualistas – isso serve para República Dominicana, Cuba, Brasil, entre tantos outros. Digo isso porque aprendi um bocado sobre costumes nos anos que vivi na Espanha. Lá, conheci pessoas de diversos países, inclusive dominicanos, cubanos, equatorianos e um longo etcétera que me mostraram as diferenças entre seus costumes.
Sugar também mostra como os imigrantes passam por um momento de deslumbramento. Narrado sempre sob a ótica do protagonista, o filme revela como ele sai de uma realidade simples, de privações, e passa a conviver em um ambiente muito diferente, onde quase todas as possibilidades estão nas pontas dos dedos de quem tem dinheiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Sugar fica fascinado, por exemplo, com a beleza e a simpatia de Anne Higgins (Ellary Porterfield), filha do casal que o recebe na temporada do Swing. Espero não ser mal-interpretada, mas Sugar mostra uma característica do homem latino: sua vocação pelo duplo sentido e por entender gestos de simpatia como manifestações de desejo sexual. A religiosa Anne está mais preocupada em levar Sugar para a Igreja e para participar de seus grupos de reflexão e evangelização do que por ter algum caso com o rapaz. Mas para ele, que vê nela a única recepção verdadeiramente carinhosa no país, existe algo mais a ser descoberto.
Entre outras formas de discriminação, a provocada pela raça (ou talvez pela origem dos rapazes) fica evidente na sequencia filmada em uma danceteria estadunidense. Uns rapazes se sentem ultrajados por Sugar e Jorge estarem dançando com duas garotas loirinhas. Racismo e xenofobia entram em cena nesta cena e em algumas outras. Por mais que atitudes como esta sejam absurdas, elas fazem parte da realidade. E este filme acerta ao explorar justamente aspectos do que acontece na vida real. Algo que dá muita força também para esta produção é a forma com que seus diretores mostram as paisagens das diferentes cidades de cada país. Os lugares tem características e impactos diferentes no protagonista, e foi importante para o filme destacá-los como um personagem vivo da história.
Fiquei especialmente surpresa, contudo, com o desenvolvimento da história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ao invés de seguir o “caminho fácil” de mostrar como Sugar imigrou para os Estados Unidos e, depois de muita luta, se tornou um ídolo do beisebol, os roteiristas preferiram mostrar o que acontece com a maioria das pessoas como o protagonista. Primeiro, ele viu o amigo e colega de time, Jorge, ser dispensado porque não estava jogando bem. Machucado, Sugar vê a história se repetir com ele, quando Stu Sutton apresenta para o time o “arremessador reserva” Sal (Salvador, interpretado por Kelvin Leonardo Garcia). Salvador era um velho conhecido do protagonista, já que os dois passaram pela mesma escola de beisebol em Boca Chica. Mas diferente de Jorge, Sugar não espera o momento de ser dispensado. Em um ato de extrema coragem, ele abandona o time e viaja para Nova York, para onde o amigo foi depois de sair do Swing.
O filme ganha um renovado interesse neste ponto porque, na nova cidade, Sugar não tem a proteção de um time de beisebol e nem de uma família que o abrigue. Ele está por conta própria. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como ocorre com muitos imigrantes, ele encontra uma oportunidade de trabalho com outros latinos. Na verdade, ele escolhe se relacionar, basicamente, com pessoas que falam a mesma língua que ele. Se isso o limita por uma parte e o afasta de conhecer melhor a cultura do país onde ele está momentaneamente, por outro lado se entende a sua atitude porque, entre latinos, ele se sente seguro e acolhido. Existem mais desvantagens que vantagens quando uma pessoa decide viver, praticamente, em um gueto cultural como este. Mas é difícil convencer alguém que ele deve abandonar completamente seus costumes, suas necessidades de afeto e compreensão para ganhar o respeito e melhores oportunidades no país que considera estranho. Os imigrantes são corajosos e valentes, mas também humanos. Sugar nos revela esta complexidade de maneira exemplar.
NOTA: 9,3.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não sei se todos vocês sabiam disso, mas só depois de assistir a Sugar eu soube que o beisebol é o esporte nacional dos Estados Unidos, da República Dominicana e de Cuba (segundo este texto).
Sugar foi indicado, até o momento, a dois prêmios. O primeiro ao qual ele concorreu foi no ano passado, no Grande Prêmio do Júri do Festival de Sundance na categoria drama – quando ele acabou sendo vencido por Frozen River. Este ano, o filme concorreu ainda como melhor roteiro no Independent Spirit Awards, mas perdeu nesta categoria para Vicky Cristina Barcelona.
Uma curiosidade da produção: o filme utiliza alguns dos sobrenomes dos verdadeiros jogadores do time Swing. Eles não apareceram no filme porque, enquanto Sugar estava sendo rodado, os atletas estavam no meio de uma temporada regular.
Nos Estados Unidos o filme conseguiu um desempenho baixo nas bilheterias: arrecadou, até o dia 9 de agosto deste ano, pouco mais de US$ 1 milhão. Outro filme independente, mas que ganhou certa força após ser indicado a dois Oscar este ano, Frozen River, conseguiu uma bilheteria um melhor: US$ 2,5 milhões.
Quem gostou das paisagens retratadas pelo filme e ficou curioso/a para saber onde Sugar foi filmado, vale comentar que a produção foi rodada em Consuelo e em San Pedro de Macoris, na República Dominicana; e nas cidades de Burlington e Davenport, no estado do Iowa, e em Mesa e Phoenix, no Arizona, todas elas nos Estados Unidos.
Como a maioria dos “pequenos” filmes – falando exclusivamente do orçamento que eles receberam -, Sugar fez uma carreira focada em diferentes festivais mundo afora. Sua carreira começou no Festival de Sundance, em janeiro de 2008, e prosseguiu em outros seis eventos do gênero.
Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para o filme, enquanto que os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 92 textos positivos e apenas sete negativos para a produção – o que garante a Sugar uma aprovação de 93%.
Uma grande surpresa do filme é a interpretação naturalista e intuitiva do estreante Algenis Perez Soto no papel do protagonista. O dominicano nascido na cidade de San Pedro de Macoris ganhou os espectadores e recebeu inúmeros elogios dos críticos. Outro ator que não foi citado anteriormente e que faz um bom trabalho é Jaime Tirelli, que interpreta Osvaldo, um imigrante porto-riquenho que acaba dando uma oportunidade para Sugar seguir a sua vocação como carpinteiro.
Na parte técnica do filme, vale citar o trabalho competente da trilha sonora latina de Michael Brook e a direção de fotografia de Andrij Parekh.
CONCLUSÃO: Um filme inteligente, sensível e crítico sobre o sonho americano e a dura realidade dos imigrantes latinos em um país rico e de língua estrangeira. Sugar mistura esporte (especificamente o beisebol) com os elementos anteriores em um drama realista e cheio de esperança. Uma das grandes lições desta produção de baixo orçamento é de que os sonhos mudam e que as pessoas precisam rever seus ideais de sucesso de tempos em tempos. Destaque para a direção segura da dupla Anna Boden e Ryan Fleck que, acertamente, destacam os personagens desta história na mesma medida em que dão importância para as características dos cenários em que a história se desenvolve – tanto na República Dominicana quanto nos Estados Unidos. O estreante Algenis Perez Soto, que interpreta a Sugar, também ganha protagonismo.
Chugyeogja – Chaser – O Caçador
Quem procura um bom filme de suspense e/ou terror encontra no cinema coreano uma das melhores opções do mercado. Nesta década, as produções asiáticas vêm conquistando espaço ao mostrar criatividade neste segmento, conquistando críticos e público. Chugyeogja surge para se juntar a essa boa safra. Misturando uma narrativa clássica, na maior parte do tempo linear, com um roteiro envolvente, cheio de humor, suspense, violência e alguns dilemas morais, Chugyeogja revela um grande trabalho do diretor e roteirista Hong-jin Na. Os atores desta produção, especialmente o protagonista interpretado por Yoon-suk Kim, também merecem destaque.
A HISTÓRIA: Na movimentada noite de Seul, uma bela garota dirige seu carro ao mesmo tempo em que fala ao celular. Ela busca um rapaz que ainda não conhece pessoalmente. Young-min (Jung-woo Ha) aparece e guia a garota até uma casa, em um bairro periférico da cidade. O tempo passa, e com o desaparecimento da mulher, o ex-policial e agora agenciador de garotas de programa, Jung-ho (Yoon-suk Kim), vai em busca do carro da prostituta desaparecida que trabalhava para ele. Joong-ho não vive uma boa fase. Nas últimas semanas ele perdeu duas de suas empregadas. O ex-policial acredita que elas estão fugindo ou sendo vendidas para um outro cafetão. Com poucas prostitutas a seu serviço, ele obriga a Mi-jin Kim (Young-hee Seo), que está doente em casa, a atender a um cliente. Quando volta ao escritório, Joong-ho percebe que o cliente de Mi-jin é o mesmo das garotas que desapareceram. Neste instante, o ex-policial começa a investigar o caso por sua conta.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Chugyeogja): Eu gosto da ousadia dos diretores coreanos. Eles sabem equilibrar, como poucos hoje em dia, ação, suspense, ironia e terror em seus filmes. Chugyeogja, por exemplo, pode ser considerado um filme policial com requintes de terror. Há cenas bastante fortes – o diretor não economiza na quantidade de sangue que jorra pela tela. Mas cada cena violenta se justifica pelo roteiro, escrito por Hong-jin Na, Won-Chan Hong e Shinho Lee. E mesmo que o filme parece, inicialmente, caminhar pela mesma trilha de outras produções do gênero, a verdade é que ele surpreende por quebrar algumas tendências de um filme policial.
(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Chugyeogja parece, inicialmente, seguir a velha regra dos filmes focados na perseguição de policiais a um bandido. Mas a lógica do “gato que caça o rato” logo é quebrada, porque o suspense da perseguição ao criminoso não sustenta a história até o final. Não. Jung-ho encontra o psicopata Young-min por acidente (literalmente) no minuto 28 do filme. A partir deste ponto, o criminoso fica detido entre policiais desastrados que, mesmo com a confissão de Young-min, não conseguem encontrar provas de seus crimes. E o pior, o “experiente” Jung-ho não acredita na versão do homem que deu um sumiço nas suas garotas. Provavelmente por culpa, Joong-ho não quer admitir que, enquanto ameaçava de morte as prostitutas, ainda que por “brincadeira” devido a sua revolta, na verdade elas estavam sendo mortas por um homem com complexos sexuais.
O filme segura a atenção do espectador pela qualidade de seu roteiro mas, especialmente, pela direção ajustada de Hong-jin Na e pela edição moderna de Sun-min Kim. O diretor acerta em sua primeira incursão em longas-metragens (antes ele havia dirigido dois curtas). Atualmente, Hong-ji Na está na fase de pós-produção de seu segundo longa, The Murderer. O mais interessante de Chugyeogja é como ele insere na história questionamentos morais. Para começar, seu protagonista é um homem que desistiu da polícia para ganhar mais dinheiro no submundo da moderna Seul. Visto com desprezo por muitos ex-colegas, ele é respeitado pelo detetive Gil-woo (In-gi Jung), que continua seu amigo apesar das más escolhas que o protagonista fez.
Explorando mulheres, Joong-ho se sente culpado, especialmente, pelo sumiço de Mi-jin Kim. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Essa culpa fica ainda maior quando ele descobre que a prostituta tinha uma filha – ele acaba se sentindo co-responsável pelo que pode ter ocorrido com Mi-jin. Pressionado por ter feito a garota trabalhar mesmo doente e pela versão de Young-min de que ela ainda poderia estar viva, Jung-ho tenta desesperadamente encontrar a garota. A sua busca contra o tempo – afinal, em teoria, Mi-jin está gravemente ferida e/ou a ponto de morrer – e a ineficiência da polícia em encontrar provas contra o psicopata é o que mantêm a tensão nesta história. Uma forma diferente, sem dúvida, de narrar um filme policial.
Chugyeogja é um filme policial com várias cenas macabras, mas ele não se limita apenas a isto. O filme se coloca acima da média de produções do gênero também por tocar em temas secundários interessantes, como a crítica mordaz e irônica do trabalho de investigação policial e à disputa, muitas vezes escancarada, de promotores e políticos por espaço na mídia. Esta última situação é explorada ao mostrar como o chefe da polícia se dedica em levar à fundo a investigação dos crimes de Young-min, preocupado em solucionar um caso antigo – chamado de Mapo – e, ao mesmo tempo, em destacar na imprensa um evento que ofusque o ataque que o prefeito recebeu de um cidadão indignado. No fim das contas, a disputa entre o promotor e o chefe de polícia para provar quem é mais eficiente em seu trabalho que desencadeia em um final de arrepiar (e que possivelmente não agrade a muitos, ainda que seja o mais perto da realidade possível).
Interessante perceber que, ainda que inove em alguns aspectos da história, o roteiro de Chugyeogja respeita uma regra de ouro de muitas produções: começa em uma curva ascendente, chegando a um pico narrativo para, depois, diminuir de ritmo, se aprofundando em alguns personagens até que, na reta final, começa a subir novamente a curva da tensão. O suspense se mantêm em bom ritmo até o encontro do protagonista com seu antagonista. Depois deste ponto, a história desacelera para se aprofundar no personagem do ex-policial, sua relação com o próprio passado, o sentimento de honra, justiça e o comprometimento que passa a sentir com a filha de Mi-jin Kim. Além do drama, entra em cena também o jogo psicológico protagonizado por Young-mi, tanto em relação aos policiais (com especial destaque para algumas sequências com a detetive Oh, interpretada por Hyo-ju Park) quanto em relação ao cafetão Jung-ho.
(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Chugyeogja deve convencer aos espectadores de filmes policiais e/ou de suspense/terror que gostam de uma história bem amarrada e que explica cada detalhe dos acontecimentos. Por isso mesmo, talvez alguns fiquem incomodados, como eu, no princípio, com a atitude de Jung-ho em mandar o seu empregado vasculhar todas as casas que tivessem porão e onde os celulares ficassem sem cobertura desde o início de uma extensa ladeira. Afinal, por que ele não mandou o tal empregado para as proximidades de onde estava estacionado o utilitário de Mi-jin? Tive que assitir ao filme mais uma vez para descobrar a resposta para esta pergunta.
Primeiro que Jung-ho não pede para que o funcionário procure nas casas do início daquela ladeira. Dentro do carro, em certo momento, ele chega a apontar um ponto no alto do morro, comentando que a casa deveria estar ali. Depois, ele não poderia realmente procurar apenas nas casas próximas ao carro de Mi-jin. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Em certo momento do filme, quando Young-min sai com o carro do casal de amigos do proprietário da casa onde está morando e onde mata suas vítimas, é possível perceber que aquela residência está localizada duas ruas acima do local onde Mi-jin deixou o seu carro. Ainda assim, certamente, teria sido muito mais rápido começar por aquelas imediações do que por onde Jung-ho deixou o seu empregado. Como na maioria dos filmes policiais, cada fração de tempo pode ser fundamental para salvar ou perder uma vida.
NOTA: 9,2 9,5.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Chugyeogja concorreu a três prêmios no Asian Films Awards deste ano, mas recebeu apenas um deles, o de melhor edição para Sun-min Kim. O trabalho do editor é fundamental para a história. Merece destaque também a direção de fotografia de Sung-je Lee e a iluminação de Chol-o Lee. Os dois conseguem, com perfeição, a luminosidade correta em todas as cenas noturnas do filme – que ocupam a maior parte da história.
No material de divulgação do filme, seus realizadores destacam o impacto que crimes em série tem na sociedade ao mesmo tempo em que questionam o comportamento extremamente individualista desta própria sociedade. O texto reflete que nestes contextos, onde as pessoas são “indiferentes aos outros e centradas nos ganhos materialistas individuais”, questões sobre quem são as vítimas de assassinos seriais e que esforços cada pessoa ou a sociedade como um todo poderiam ter feito para salvá-las nunca são levantadas.
O ponto de partida do filme, segundo o mesmo texto de divulgação, é justamente o de uma sociedade e de um indivíduo que se esforça por uma pessoa comum. Interessante essa reflexão e essa carga de “boas intenções” dos realizadores de Chugyeogja. Ainda que o filme revele que as intenções de seu “herói” passam, mais que pelo altruísmo, por sentimentos de responsabilidade e de culpa. Mesmo assim, não deixa de ser curioso o texto de apresentação do filme que destaca o esforço individual de uma pessoa frente à “uma situação absurda e um sistema social deficiente”.
O diretor Hong-jin Na escreveu um texto bem curioso sobre um vilarejo que estava ameaçado por uma inundação e que foi abandonado por seus moradores. Antes de saírem, alguns deles libertaram seus cães – outros continuaram presos com correntes. Como o vilarejo não foi inundado, as pessoas voltaram para suas casas, mas ficaram estarrecidas ao encontrarem boa parte de seus cães de estimação mortos ou mutilados. Hong-jin Na comenta que encontrou um cão branco, com a boca ensanguentada, querendo atacar outro, mas que não sabe se ele teve algo a ver com a morte ou a mutilação dos outros animais. No final deste conto, ele afirma: “este filme poderia ser a história de dois cães de uma aldeia vazia em uma noite muito chuvosa”.
No material de divulgação de Chugyeogja há ainda uma entrevista com o diretor no qual ele afirma que seu filme não critica um indivíduo, mas os problemas de uma organização, porque “quando um indivíduo entra em uma organização, ele se torna parte dela” – no caso do filme, a crítica vai para a instituição policial, é claro. Hong-jin Na responde ainda a uma série de questões envolvendo detalhes do filme, como a presença constante de crucifixos na produção e a falta de resposta sobre as motivações do assassino em série de Chugyeogja. Achei curioso (e bacana) que ele não defende Jung-ho como um herói, comentando que ele não deixa de ser um transgressor que bate em Young-min.
Chugyeogja conta com um trabalho excepcional de seus atores principais, com destaque especial para o desempenho de Yun-seok Kim.
O filme conseguiu uma boa avaliação de público e crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para a produção, enquanto os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes lhe dedicaram 15 textos positivos e apenas três negativos (o que lhe garante uma aprovação de 83%).
Para os interessados nos filmes coreanos, recomendo este texto que cita alguns de seus expoentes mais importantes, como Chan-wook Park, Ji-woon Kim, Ki-duk Kim, Joon-ho Bong e Je-gyu Kang; e este outro, que fala de uma mostra do cinema sul-coreano promovida em São Paulo este ano.
CONCLUSÃO: Um filme policial sem heróis e que segue técnicas de narrativa conhecidas ao mesmo tempo em que quebra algumas de suas regras. Tenso, potente, Chugyeogja segue a tradição recente de filmes sul-coreanos que apostam em roteiros de qualidade, uma edição moderna e a coragem de mostrar sangue em profusão. Que ninguém se engane: esta produção não alivia. Ainda assim, seu diretor e roteirista, Hong-jin Na, torna a história mais interessante que um simples filme de ação ao inserir no enredo humor e uma boa dose de crítica ao trabalho de organizações como a polícia. Chugyeogja convence com a apresentação de uma série de personagens realistas – o que torna a evolução de sua história ainda mais angustiante. Recomendado aos que não tem problemas com cenas de violência, tortura e pancadaria, e especialmente aos que têm interesse em acompanhar filmes de qualidade produzidos por diferentes nacionalidades/vertentes.
Arráncame la Vida – Arranca-me a Vida
O cinema adora personagens de mulheres fortes. A superprodução mexicana Arráncame la Vida revela uma destas personagens em uma adaptação para os cinema da obra homônima premiada da escritora Ángeles Mastretta. Badalado em seu país pela crítica e pelo público – ele teve um ótimo desempenho nas bilheterias -, o filme tentou uma vaga entre os cinco finalistas para o Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano, mas ficou de fora da disputa. Com uma história envolvente e que apresenta algumas características importantes da história e dos costumes mexicanos, Arráncame la Vida poderia perfeitamente concorrer com o vencedor Okuribito ou com os fortes concorrentes Vals Im Bashir e Entre Les Murs. Mas em seu lugar entraram os filmes Revanche e The Baader-Meinhof Komplex. Com levada feminista e uma narrativa clássica, Arráncame la Vida conta a história de uma mulher que nos faz lembrar, até certo ponto, a mais conhecida personagem “mulher-valente” do cinema: Scarlett O’Hara. Mas diferente do clássico que este ano completa sete décadas, Arráncame la Vida não tem papas na língua para mostrar a busca de sua protagonista por prazer e independência.
A HISTÓRIA: Na cidade mexicana de Puebla, em 1932, Catalina Guzman (Ana Claudia Talancón), filha de um produtor de queijos, conhece ao general Andrés Ascencio (Daniel Giménez Cacho) na praça central do município. Sedenta por descobrir sobre o amor e para sair de sua cidade, Catalina fica fascinada pela figura mais velha, experiente e dominante de Andrés. Frente ao general, os pais de Catalina tem pouco a fazer. O general acaba levando a adolescente para conhecer o mar e, ali, eles iniciam um romance. Depois, sem perguntar a opinião da moça, Andrés decide que eles vão se casar. Através da vida de Catalina acompanhamos a ascensão do marido ao poder e alguns dos acontecimentos que ocorrem no México nas décadas de 1930 e 1940, em uma história de paixões, poder, crimes e traições.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Arráncame la Vida): Não por acaso existia uma grande expectativa sobre esta produção muito antes dela ser finalizada. A obra que a precedia havia recebido, em 1985, um dos mais importantes prêmios literários do México, o Mazatlán. A estréia de Ángeles Mastretta, uma mulher de 60 anos que nasceu em Puebla, a cidade que serve de pano-de-fundo para parte desta história, não poderia ter sido melhor. Seu livro, além de ter recebido o Mazatlán, foi publicado na Espanha e traduzido para cinco idiomas da Comunidade Européia. Mastretta conhecia bem tanto Puebla, onde havia nascido, quanto a Cidade do México, onde fez o curso universitário de jornalismo. As duas cidades servem como ambiente para o desenvolvimento de sua heroína, Catalina Guzman.
A personagem central de Arráncame la Vida, contudo, não é uma heroína qualquer. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que uma das cenas finais desta produção nos remeta à cena mais emblemática de Gone With the Wind, Catalina Guzman é uma mulher muito mais liberal do que Scarlett O’Hara um dia ousou imaginar. No começo, as duas se assemelham na inocência e na vontade por conhecer a vida. Tanto Catalina quanto Scarlett também sofrem com uma figura masculina dominante, com o machismo e acabam, para se defender, sucumbindo às pressões e se submetendo aos caprichos de alguns homens. Mas, desde o início, Arráncame la Vida revela uma protagonista que não teme procurar a curandeira/cartomante da cidade para que ela lhe ensine a ter prazer, já que seu amante – Andrés ainda não era seu marido – só se preocupa com o próprio gozo. Alguém já imaginou Scarlett O’Hara em uma cena similar? Impossível.
Pois aqui começam as diferenças de Arráncame la Vida a respeito de outros filmes do gênero. A história, contada toda pela ótica de Catalina, não teme ser julgada por sua ousadia ao tratar abertamente temas como orgasmo ou traições. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não demora muito para que a jovem e inexperiente protagonista perceba que seu marido é um típico machista mexicano (e que pode ser encontrado em vários outros países), que se interessa apenas por seu próprio prazer, lucro e poder. Andrés tem várias amantes e (Catalina irá descobrir com o tempo) filhos fora do casamento. Verdade que a protagonista chega a responder a essas descobertas com algumas cenas de ciúmes e cobrança mas, pouco a pouco, ela vai se jogando em romances clandestinos também. O mais importante deles com o maestro Carlos Vives (José María de Tavira).
A narrativa do filme segue a linha clássica de romances históricos – sejam eles basedos em biografias reais ou fictícias. Ou seja, o roteiro do diretor Roberto Sneider tem um desenvolvimento linear, com direito a citar, em alguns momentos, o local e a data em que a ação está ocorrendo. Contando com um orçamento invejável para os padrões do cinema mexicano – US$ 6,5 milhões -, o diretor se armou com os melhores profissionais, com destaque para o diretor de fotografia Javier Aguirresarobe. Esta dupla consegue lapidar imagens verdadeiramente muito bonitas, com inevitável atenção para a que mostra os amantes Catalina e Carlos em um campo de flores. Os atores, aliás, protagonizam muitas cenas desnudos, em uma curiosa escolha do diretor para tornar a narrativa o mais naturalista possível – o que é praticamente uma ironia em uma história tão escancaradamente literária.
A grande qualidade de Arráncame la Vida é contar, através do amadurecimento de uma mulher, a evolução também de um país. Sem medo de incomodar os puritanos, Roberto Sneider bebe da fonte revolucionária de Mastretta e preserva o caráter feminista de sua obra. O centro da história é Catalina e sua luta por liberdade e independência, utilizando para isso sua inteligência e o jogo de cintura femininos em uma luta contra o domínio de um marido autoritário e machista (e que representa a sociedade onde a escritora foi criada). Possivelmente a história, que sofre um pouco com a obviedade, não vá agradar a todos. Mas nem sempre um bom filme é feito de surpresas ou reviravoltas. Ainda que Arráncame la Vida pareça um novelão em alguns momentos, ele é um filme mais corajoso do que pode parecer em um primeiro momento.
NOTA: 8,7.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: É fácil perceber quando um filme tem um grande orçamento por trás. Especialmente quando se trata de uma produção de época, como é o caso de Arráncame la Vida. Nestes casos, o dinheiro é fundamental para o resgate de figurinos e objetos que vão compor as cenas. Na parte técnica, Arráncame la Vida se revela uma das melhores produções do cinema mexicano dos últimos tempos. Tudo funciona bem, o que garante para o espectador uma pequena incursão nas paisagens e no tempo histórico de algumas cidades do México. Além do diretor de fotografia, se destaca entre a equipe técnica do filme a direção de arte de Rafael Mandujano. Merece uma menção especial também a trilha sonora de Leonardo Heiblum e Jacobo Lieberman que, de forma muito inteligente, mescla músicas clássicas e parte de um cancioneiro mexicano folclórico.
Ainda que a política e a importância dos militares na história do México não sejam os temas centrais de Arráncame la Vida, ambos jogam um papel fundamental na caracterização dos personagens e no desenvolvimento do filme. Por isso, não é demais comentar que os militares dominaram o cenário político mexicano desde a luta de independência do país em relação à Espanha. Quando o filme começa, em 1932, o México passava por um período de transição. O engenheiro agrônomo Pascual Ortiz Rubio, eleito presidente no final de 1929, decidiu demitir-se do seu cargo em setembro de 1932, depois de sobreviver a um atentando logo início do seu mandato, que começou em 1930, e alegando que seu governo sofria muitas interferências de Plutarco Elías Calles. Rubio foi substituído pelo militar Abelardo Luján Rodríguez, que governou de 1932 até 1934, sendo sucedido por outro militar, Lázaro Cárdenas del Río.
O primeiro a assumir a presidência do México sem ser um militar foi Miguel Alemán Valdés, em 1946 – mas um detalhe: ele era filho de um general que participou da Revolução Mexicana. De qualquer forma, o que nos interessa em relação ao filme é que o contexto que envolve o personagem de Andrés é bastante realista, porque no México real eram fundamentais os jogos, conchavos e acertos pela disputa do poder envolvendo militares e seus protegidos. Tanto que o Partido de la Revolución Mexicana (PRM), depois rebatizado de Partido Revolucionário Institucional (PRI) dominou as eleições do país até o ano 2000, quando terminou o mandato do presidente Ernesto Zedillo Ponce de León.
Quem ficou interessado em saber um pouco mais sobre a política e a importância dos militares na vida mexicana, recomendo a leitura destes textos: primeiro artigo, segundo, terceiro e quarto. De qualquer forma, Arráncame la Vida acaba sendo uma contribuição interessante para introduzir os interessados em parte da história, da disputa política e de forças e, principalmente, dos costumes do México.
O elenco de Arráncame la Vida, em geral, faz um bom trabalho. Mas o destaque do filme, de forma um tanto óbvia e indiscutível, é a atriz Ana Claudia Talancón. Primeiro, porque ela é a protagonista. Depois, porque o texto funciona inteiramente para que ela se destaque, conduzindo-a de uma interpretação mais “naturalista” e inocente, no início da produção, para um trabalho mais complexo moralmente e maduro conforme sua personagem vai ganhando experiência. Importante para a história, também, a força da interpretação de Daniel Giménez Cacho e o carisma de José María de Tavira (ainda que, para mim, faltou ao ator um pouco mais de segurança para interpretar o personagem de Carlos). Os demais atores ganham realmente um espaço de coadjuvantes, sem nenhum grande destaque.
Este filme ganhou dois prêmios e foi indicado ainda a um terceiro. Arráncame la Vida arrebatou os de melhor atriz para Ana Claudia Talancón na votação da Associação de Jornalistas Mexicanos especializados em Cinema; e o Prêmio Ariel de melhor direção de arte.
Além de ter contado com o melhor orçamento da história do cinema mexicano (segundo esta reportagem), Arráncame la Vida conseguiu um público excepcional em seu próprio país: levou para os cinemas 2,6 milhões de pessoas. Em apenas três dias de exibição, o filme teria arrecadado US$ 1,6 milhões de dólares – tendo estreado em impressionantes 500 salas de cinema. Em menos de uma semana, com o Feriado da Independência mexicana no meio, Arráncame la Vida tinha conseguido ultrapassar a bilheteria de US$ 2,3 milhões. Segundo este texto, a melhor bilheteria de um filme mexicano em seu país, até o filme de Sneider, tinha sido KM 31, que em 2006 conseguiu US$ 1,5 milhões em seu primeiro final de semana de exibição.
Arráncame la Vida registra a nota 7,8 na votação dos usuários do site IMDb.
CONCLUSÃO: Um filme narrado sob a ótica de uma adolescente que no México dos anos 1930 se apaixona e se casa com um general ambicioso e que, através da biografia desta jovem, conta parte da história de seu próprio país. Arráncame la Vida acerta na medida em que preserva a levada crítica, irônica e feminista do livro no qual ele é baseado, mas exagera um bocado em sua preocupação em ser aceito pelo grande público. Em outras palavras, lhe falta originalidade. Ainda que o filme lembre, em alguns momentos, uma produção feita para a televisão (ou uma novela), ele apresenta para o espectador uma história de busca pelo autoconhecimento e por independência bem amarrada e, de quebra, uma parte da história do México importante. Arráncame la Vida é o filme mais caro já produzido no México e um de seus recordistas de bilheteria. Apenas por estas credenciais, ele merece ser visto.
La Faute à Fidel! – A Culpa é do Fidel
As crianças são capazes dos feitos mais incríveis. Por mais que, muitas vezes, essas suas conquistas sejam quase imperceptíveis (pelos adultos, claro). Mas como explicar a complexidade do mundo, assuntos “cabeludos” como política, economia, desigualdade social, repressão e sexo para as crianças? E tão complicado quanto explicar conceitos como comunismo, aborto, golpes militares, entre outros, é perceber que a falta de compreensão nasce justamente na ausência de diálogo e de cuidado com as pessoas mais próximas. La Faute à Fidel!, um grande filme dirigido com carinho por Julie Gavras, nos faz refletir sobre como as idéias são construídas e repassadas para os demais, provocando erros de interpretação e de compreensão do mundo. Mas, como eu dizia no início, as crianças são capazes dos feitos mais incríveis. Inclusive nos ensinar como mudar completamente nossos conceitos, deixando para trás o que perdemos e valorizando tudo que podemos ganhar neste processo.
A HISTÓRIA: Anna de la Mesa (Nina Kervel-Bey) é uma menina de 9 anos acostumada com a boa vida de uma família da burguesia francesa. Ela gosta de demonstrar, para as demais crianças convidadas para o casamento de sua tia Isabelle (Maria Kremer), como domina a arte de descascar frutas apenas com os talheres. Sua vida é tranquila até a chegada de Marga (Mar Sodupe) e Pilar (Raphaëlle Molinier), sua tia e prima vindas da Espanha. Para proteger a irmã da perseguição dos fascistas espanhóis, o pai de Anna, Fernando (Stefano Accorsi), decide abrigar Marga e Pilar na casa deles em Paris. A partir deste momento, Anna assiste atônita aos seus pais se envolvendo em questões políticas como a luta de Salvador Allende pelo governo do Chile. Sua vida muda radicalmente, com seus pais, Fernando e Marie (Julie Depardieu), mudando para uma casa muito menor do que a que eles tinham até então, Anna sendo proibida de frequentar as aulas de catecismo e tendo que lidar com diferentes babás a cada momento.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a La Faute à Fidel!): Crianças são muito mais abertas a mudanças do que os adultos. Pelo menos é isso o que a ciência comprovou até agora. Para variar, vou citar como fonte uma reportagem recente da revista Superinteressante. Na edição de outubro deste ano, em uma extensa reportagem sobre a formação da personalidade, a Superinteressante revela que as pessoas formam a sua própria personalidade até os 30 anos. Depois disso, fica mais difícil mudar. Mas em La Faute à Fidel!, apenas o irmão de Anna, a protagonista, é flexível. François (Benjamin Feuillet) passa pelas mesmas mudanças radicais que a irmã, mas aceita muito melhor do que ela estas alterações de sua rotina.
A verdade é que Anna representa a inocência e a resistência perfeitas para uma história que mexe com convicções. Inicialmente, ela está preocupada com tudo que começa a perder com a chegada de Marga e Pilar – ela culpa as duas por essas mudanças mas, na verdade, elas são apenas um de vários estopins possíveis para a ação de despertar dos pais de Anna. Primeiro, ela não gosta nada da “invasão” daquelas “estranhas” que não falam francês na sua presença – o idioma é a primeira grande barreira para os preconceitos. Depois, ela odeia a novidade de mudar de casa, deixando a residência com jardim e bastante espaço por um apartamento “pequeno” (não para os padrões parisienses).
Tudo fica pior quando Anna tem que deixar as aulas de catecismo. Vista como uma pária por suas colegas, ela se sente estranha por não participar de algo que as demais fazem sem pestanejar – outra forma de exclusão social. Para completar o “quadro”, seus pais viajam para um país do qual ela nunca tinha ouvido falar, o Chile, e começam a agir como “comunistas” – pessoas consideradas de péssima estirpe, segundo a empregada cubana da família, Filomena (Marie-Noëlle Bordeaux) e os avós maternos de Anna. A nova forma de agir de Fernando e Marie traz para a casa deles um bando de gente estranha, muitos homens barbados, e uma sequência de novas empregadas/babás de nacionalidades e culturas que Anna nem desconfiava que existiam.
Inicialmente, como qualquer pessoa adulta – e muitas crianças, é verdade -, Anna ressiste às mudanças. Ela está mais preocupada com o que perdeu do que interessada em saber tudo que está ganhando e/ou aprendendo. Um erro considerável dos pais de Anna – mas compreensível para que a história se desenvolva da forma com que ela acaba se desenvolvendo – é o de não dialogar com a filha. Muito ocupados com a causa de ajudar Salvador Allende no Chile (especialmente Fernando) e, no caso de Marie, de escrever reportagens/um livro sobre questões feministas como o direito ao aborto, eles não se preocupam em gastar alguns minutos para explicar o que estão fazendo ou mesmo deixar claro conceitos que acabam jogando, direta ou indiretamente, na cabeça da filha, como os de aborto, fascismo, comunismo, luta de classes, entre outros.
Mas Anna, que inicialmente repete os ensinamentos que aprendeu na escola, com Filomena e com os avós conservadores, acaba dando uma lição nos próprios pais ao demonstrar, melhor que eles, que aprendeu a lição sobre o “espírito de grupo”. Para ensinar a filha sobre a importância da união das pessoas por uma causa, Fernando e Marie chegaram a levá-la para uma manifestação pública nas ruas de Paris – algo bastante irresponsável, temos que admitir. À duras penas e especialmente por sua capacidade de observação, Anna aprende na marra como admirar culturas diferentes e a dar valor para o que verdadeiramente interessa – às pessoas, especialmente à família, independente de seus credos, posições políticas ou poder aquisitivo.
Gostei muito da inteligência do roteiro da diretora Julie Gavras, que contou com a colaboração de Arnaud Cathrine. A história em si é uma adaptação do livro Tutta Colpa di Fidel, da escritora italiana Domitilla Calamai. La Faute à Fidel! assume a visão de uma criança de nove anos para envolver o espectador, que dá risadas com as pirraças da menina ao mesmo tempo em que se emociona com suas descobertas. Por estas características, o filme pode ser recomendado para qualquer pessoa, de qualquer idade ou ideologia. Para as crianças, em especial, ele deve chegar de forma muito fácil – e pode servir como um bom exemplo de como certas mudanças podem trazer uma nova realidade mais rica e interessante para as pessoas.
Ainda que La Faute à Fidel! seja um filme indicado para qualquer público, acredito que os extremistas, sejam da parte dos “reacionários” (odeio essa palavra!) ou do lado dos “socialistas”, podem achar La Faute à Fidel! simplista demais. De fato, a preocupação do filme não é problematizar ou explicar de forma contextualizada as situações. A principal qualidade desta produção é a forma irônica com que ela mostra o comportamento dos extremistas das diferentes correntes ideológicas que, sempre que decidem por não dialogar, tornam o mundo pior.
NOTA: 9,8.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Julie Gavras surpreende não apenas pelo tom acertado do roteiro que escreveu ao lado de Arnaud Cathrine mas, principalmente, pela direção cuidadosa que ela tem com esta sua pequena obra-prima. A direção de atores é fundamental para a história, e a jovem Nina Kervel-Bey segura a complexidade e a perplexidade de sua personagem com classe e talento. A menina está maravilhosa, em uma definição. Méritos dela, claro, mas também de Gavras. Cada ângulo escolhido pela diretora privilegia o trabalho de Nina e dos demais atores.
La Faute à Fidel! também apresenta características técnicas bastante acertadas, começando pela trilha sonora de Armand Amar. Gostei também da direção de fotografia de Nathalie Durand e da edição de Pauline Dairou.
Esta produção foi indicada a dois prêmios, um em Cannes e outro da Academia Brasileira de Cinema, mas perdeu os dois para outras produções – respectivamente para Adama Meshuga’at e Das Leben der Anderen.
La Faute à Fidel! agradou mais a crítica que o público. No site IMDb, o filme recebeu a nota 7,8, enquanto que o Rotten Tomatoes, que linka críticas de diferentes sites, registra 40 críticas positivas e apenas três negativas, o que garante para o filme uma aprovação de 93%.
Vale a pena citar os dois fatos históricos importantes que circundam o drama da família “de la Mesa”: a ditadura de Francisco Franco, na Espanha, que durou de 1939 (com o fim da Guerra Civil) até 1976; e o governo de Salvador Allende, no Chile, interrompido com seu assassinato no dia 11 de setembro de 1973 pelo general Augusto Pinochet. Neste texto da Carta Maior, do ano passado, Maurício Thuswohl comenta como Espanha e Chile começaram a resolver suas contas com seus respectivos passados de ditadura e crimes políticos. Vale a leitura também deste texto da Folha sobre homenagens no Chile para Allende, promovidas este ano, e sobre a reabertura de arquivos da era Pinochet.
O genial diretor Costa-Gavras deve estar orgulhoso. Além de sempre ter sido fiel às suas convicções políticas e ao seu estilo próprio de fazer filmes, ele pode ficar orgulhosa da filha, Julie Gavras. Ela tem experiência como diretora, roteirista e atriz.
E uma curiosidade: a música Ay, Carmela, que marca um dos momentos mais emocionantes do filme, era a música da revolução espanhola, cantada em 1808 e, posteriormente, adaptada para a época da Guerra Civil, em 1936.
Interessante o domínio do ator Stefano Accorsi de pelo menos três idiomas. Italiano, ele fala com perfeição o francês e o espanhol no filme. Julie Depardieu, sua parceira em cena, é filha do ator Gérard Depardieu.
CONCLUSÃO: Um filme irônico, poderoso e, de modo muito natural, bastante curioso sobre família e, principalmente, política e mudanças de comportamento. Bem escrito e bem dirigido, o melhor de La Faute à Fidel! é que ele envolve o espectador de uma maneira tão natural que mesmo temas pesados parecem comuns e perfeitamente capazes de serem absorvidos até por crianças. Narrado por uma menina de nove anos, La Faute à Fidel! questiona o comportamento de opostos como burgueses e revolucionários franceses e espanhóis. E mesmo que o final não pareça feliz – porque a História nos ensina que absurdos acontecem -, a verdade é que Anna dá uma grande lição de crescimento e de que as alternativas existem, especialmente se as pessoas se preocupam em entender verdadeiramente o que acontece ao seu redor. Quem dera que a maioria dos adultos também fosse capaz de mudar de ares e aprender, com mais frequencia, com novas culturas e maneiras de pensar.
SUGESTÕES DE LEITORES: La Faute à Fidel! foi uma ótima indicação da leitura Claudia. Em um comentário no dia 17 de julho deste ano, a Claudia sugeriu que eu assistisse e comentasse o filme que, para a Claudia, tinha sido um dos melhores que ela tinha assistido este ano. Claudia, adorei a tua sugestão. La Faute à Fidel! é um grande filme, realmente. Muito sensível e corajoso, por fazer uma crítica tão sutil a alguns comportamentos considerados “normais” por um ou outro lado da fronteira ideológica de esquerdistas/direitistas.
Apenas não dei um 10 para o filme porque acho que ele “soluciona” de uma forma muito ligeira a mudança no comportamento da protagonista e de seus pais. Acho que o corte narrativo que mostra o cansaço deles com tudo que estava acontecendo e a coragem/clareza de Anna sobre tudo que estava acontecendo e/ou era importante foi um tanto apressado. Mas é um pequeno detalhe em um filme que deve ser recomendado para todos, crianças, adultos, simpatizantes de um lado ou outro na política. Obrigada por tua dica.
Gostei muito de La Faute à Fidel! Mas é provável que eu não tenha escrito um texto à altura do filme porque, infelizmente, estou escrevendo esta crítica várias semanas depois de tê-lo assistido. Tive que escrever outras críticas, para outro site, e agora tenho alguns filmes acumulados para comentar por aqui. Mas pretendo administrar melhor meus compromissos em uma próxima vez. Beijos e apareça, Claudia!
Che: Part Two – Che 2: A Guerrilha
Passaram-se quatro décadas desde o assassinato do ícone Ernesto “Che” Guevara e, talvez, vivamos atualmente a época mais distante de seus ideais e práticas revolucionárias. Quem, atualmente, acredita no efeito de guerrilhas para mudar países e realidades dos mais pobres? Nenhuma revolução, nos moldes do que foi feito em Cuba, frutificou em outras partes do mundo. Mas os ideais de Che Guevara, estes sim, parecem perdurar em muitos corações e mentes. O diretor Steven Soderbergh se envolveu em um projeto ousado e caro, na cinebiografia do ícone revolucionário. A segunda parte deste projeto, Che: Part Two chegou esta semana aos cinemas brasileiros. Diferente do filme anterior, que mostra como Che e seus companheiros tiveram êxito em Cuba, este novo filme mostra a aventura guerrilheira frustrada do revolucionário na Bolívia. O resultado é um filme com narrativa tradicional, praticamente um diário de guerra, no qual falta ação, em alguns momento, e ideologia em outros. Para ser franca, é preciso vontade para enfrentar um roteiro e uma direção sonolentos.
A HISTÓRIA: Depois do sucesso da Revolução Cubana, Che Guevara (Benicio Del Toro) anuncia, em março de 1965, que iria para Camagüey acompanhar a produção de cana-de-açúcar naquela região. Depois de alguns dias, ele desaparece e, depois de muitas especulações, em outubro daquele ano Fidel Castro (o mexicano Demián Bichir) lê uma carta de seu companheiro de luta. Nela, basicamente, Che fala de seu desejo em espalhar a revolução e a justiça social por outros países latinos. Assim, acompanhamos o disfarce escolhido por ele para entrar anônimo na Bolívia no ano seguinte. A partir daí, a narrativa mostra como foi formada a guerrilha naquele país e como, com a ajuda do governo dos Estados Unidos e dos camponeses bolivianos, o presidente René Barrientos (o português Joaquim de Almeida) conseguiu impedir os sonhos revolucionários de Che e seus homens.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Che: Part Two): Não há dúvidas de que não deixa de ser muito admirável um diretor de Hollywood como Steven Soderbergh se dedicar a filmar um projeto do porte de Che, dividido em duas partes, totalmente em espanhol. Poucas vezes o cinemão norte-americano se prestou a este “esforço” de buscar a legitimidade em histórias de outros países. Até certo ponto, esta segunda parte do projeto lembra um pouco o naturalismo do cineasta Werner Herzog em trabalhos como Aguirre, der Zorn Gottes (comentado anteriormente aqui no blog). O problema é que Soderbergh não é Herzog e sua cinebiografia de Che, mesmo nesta segunda parte, não tem a profundidade de Aguirre.
Como na crítica anterior, no caso desta eu também falei essencialmente o que eu gostaria sobre este filme neste texto publicado no portal Cinema.com.br. Mas há aspectos do filme que ficaram fora deste texto original, por isso falarei deles por aqui. Para começar, não entendo muito bem porque Soderbergh, um destes diretores autorais que costuma apresentar uma característica bem definida de direção, abriu mão desta sua vocação para optar por uma direção básica e clássica em Che: Part Two. É como se, para parecer mais “sério” ele precisasse ser menos criativo. Para mim, justamente por deixar de lado o seu apreço pelos ângulos de câmera diferenciados, por seu estilo contemplativo e com edição aprimorada é que ele saiu perdendo neste filme.
Seguindo os passos de Che Guevara – que adota os nomes de Ramon e Fernando durante sua passagem pelo território boliviano -, os roteiristas Peter Buchman e Benjamin A. van der Veen optam por uma narrativa linear, reproduzindo os principais acontecimentos registrados no diário do protagonista no período de 341 dias. Contando com uma grande interpretação de Benicio del Toro, ainda que o ator apareça menos do que gostaríamos, o filme não sofre pela ausência de um grande ator, como outras cinebiografias. O problema de Che: Part Two reside em seu roteiro, onde falta ação, ideais e emoção, e na direção um tanto preguiçosa de Soderbergh, que opta por um estilo documentarista.
Se a intenção dos roteiristas e do diretor era a de desmistificar a figura de Che Guevara e seus companheiros, mostrando eles como pessoas comuns, que passaram por intermináveis provações e dificuldades, por um ideal, eles tiveram êxito com Che: Part Two. Em muitos momentos compartilhamos com a falta de perspectivas de várias pessoas daquele grupo, que se perguntavam de que forma eles poderiam vencer sem ter conseguido a devida adesão popular ou mesmo chegar perto do poder estabelecido que eles gostariam de derrubar.
Talvez o mais importante deste filme seja mostrar que a revolução não ocorre ou se executa como em uma guerra, com infinitas batalhas e uma grande vitória. Che Guevara e as demais pessoas que fizeram parte de sua guerrilha tinham efeitos práticos e decisivos na vida cotidiana e de privações das pessoas comuns que eles iam encontrando pelo caminho. Isto Che: Part Two revela. Mas, ainda assim, achei pouco para o tamanho do personagem focado. Faltou, para o roteiro, deixar mais claro quais eram as intenções e os ideais daquele grupo. Talvez a parte mais impressionante do filme ocorra perto do final, quando Che Guevara conversa com um soldado boliviano e percebemos, claramente, como todos sonhavam com os mesmos valores mas que, ainda assim, matavam uns aos outros. Algo que, seja em guerras, revoluções ou o que for, sempre é difícil de entender.
NOTA: 6,5.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro de Che: Part Two começa em outubro de 1965 e segue até outubro de 1967. Neste período, essencialmente, o espectador acompanha um Che Guevara idealista, caridoso e estrategista que vai perdendo, pouco a pouco, seus homens e a saúde no interior da Bolívia. Diferente da primeira parte desta cinebiografia, que trazia Che em seu auge, esta segunda parte mostra a sua derrocada.
O elenco de Che: Part Two é formado, basicamente, por atores de pouca projeção internacional. Ainda assim, o filme conta com algumas presenças de famosos em pequenos papéis. Um exemplo é o de Matt Damon, que se esforça para falar um espanhol razoável ao encarnar o frei alemão Schwartz. O astro hollywoodiano pronuncia um par de frases em espanhol, e se sai melhor com o idioma de Penélope Cruz do que ela com o dele. Schwartz aparece na história para tentar convencer os guerrilheiros a abandonar a luta armada. O brasileiro Rodrigo Santoro aparece novamente como Raúl Castro mas, como Che 2 se debruça sobre a experiência boliviana do personagem-título, Santoro figura apenas no trecho inicial da produção.
Alguns atores conhecidos aparecem em papéis secudários, maior do que as pontas citadas. Lou Diamond Phillips, por exemplo, faz um bom trabalho como o político Mario Monje, que se nega a apoiar o movimento revolucionário boliviano depois de ter sinalizado na direção contrário – o que acaba sendo um golpe duro nos planos de Che. Franka Potente é a atriz com maior destaque no filme. Ela interpreta Tania, a argentina que se comprometeu com a revolução cubana e depois seguiu Che nos ideais revolucionários para a Bolívia. Inicialmente, seu papel era o de se aproximar da elite boliviana, frequentando as rodas do presidente. Mas depois, ela acaba tendo que se refugiar na selva, junto com os guerrilheiros.
Ainda que pouco inventiva, a edição de Pablo Zumárraga segue a qualidade técnica (mas não criativa) característica dos filmes de Soderbergh. Praticamente ausente na produção, a trilha sonora do espanhol Alberto Iglesias aparece apenas para marcar os momentos mais densos da história – o que parece reforçar a idéia do diretor em fazer de Che: Part Two quase um documentário.
Difícil de realizar, Che 2 teria custado aproximadamente US$ 40 milhões dos cofres de suas produtoras. Um investimento respeitável para um filme com pouco potencial de êxito comercial. Depois de participar de distintos festivais em 2008, Che 2 estreou em solo norte-americano em janeiro deste ano. Longe de ser um blockbuster, esta produção marcou uma pausa na sequência de êxitos comerciais de Soderbergh.
Depois destes dois filmes sobre o ícone revolucionário, Soderbergh acertou os ponteiros com sua identidade como cineasta em The Girlfriend Experience. Dentro de pouco, poderemos conferir seu trabalho no até agora elogiado The Informant!, estrelado por Matt Damon.
Mesmo tendo passado por 10 festivais mundo afora, Che: Part Two recebeu apenas o prêmio de melhor ator para Benicio del Toro no Festival de Cannes do ano passado.
Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7 para Che: Part Two. Por sua vez, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 28 textos positivos e apenas nove negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 76%.
Che: Part Two foi co-produzido por Espanha, França e Estados Unidos.
CONCLUSÃO: A segunda parte da cinebiografia de Che Guevara mostra o ícone revolucionário em decadência. Narrada como um diário de guerra/viagem, esta produção carece de ritmo e de reflexões do personagem retratado. Ainda assim, ela se mostra interessante – especialmente para os que não se importam com um ritmo lento de narrativa – na medida em que desmistifica o cotidiano de uma guerrilha e a idéia prática de uma revolução. Benicio del Toro faz um grande trabalho, mas sentimos sua falta em muitos trechos da história. A verdade é que falta um pouco de ação, de sentimento e de razão neste filme. Che Guevara, seja pela ótica de seus seguidores ou detratores, merecia um filme melhor, que não provocasse tanto sono e/ou tédio.
Inglourious Basterds – Bastardos Inglórios
Você já imaginou um drama de guerra, mais especificamente sobre a 2ª Guerra Mundial, que lembre em muitos momentos a clássicos de faroeste, filmes de kung fu ou produções sobre gângsteres? Por mais nonsense que esta mistura possa parecer, é ela que entra no caldeirão saboroso com referências sobre o cinema de Inglourious Basterds, um dos melhores – para alguns, talvez, o melhor – filmes de Quentin Tarantino. Mestre na mistura de gêneros e na recriação de fórmulas conhecidas do cinema, o diretor finalmente conseguiu apresentar um de seus projetos “eternamente inacabados”. E a verdade é que valeu esperar 10 anos para que Inglourious Basterds se materializasse.
A HISTÓRIA: França, 1941. No país ocupado pelos nazistas, um carro oficial se aproxima lentamente pela estrada, enquanto uma mulher pendura roupas em um varal. Lembrando clássicos do faroeste, esta sequencia inicial nos apresenta ao coronel Hans Landa (Christoph Waltz), conhecido como caçador de judeus. Ele aparece em cena para conversar com Perrier LaPadite (Denis Menochet), um agricultor que está sendo investigado por proteger ex-vizinhos de origem judia. Depois deste prólogo, o primeiro capítulo do filme revela a formação do grupo de soldados estadunidenses que seria conhecido como Os Bastardos. Liderados pelo tenente Aldo Raine (Brad Pitt), eles tem como objetivo principal matar, com requintes de crueldade, aos nazistas. Sua função, mais do que terminar com o Exército inimigo, é desestabilizá-lo, criando pânico entre seus combatentes. No futuro, o encontro entre Landa e Raine será inevitável.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Inglourious Basterds): Honestamente, há muito que comentar sobre este último filme de Tarantino. Mas o essencial que eu poderia falar sobre ele pode ser lido nesta crítica publicada no portal Cinema.com.br. Sempre que eu escrever um texto para esse site, publicarei aqui no blog um link para lá e, por aqui, acrescentarei alguma opinião a mais.
Quem acompanha minimamente o cinema feito por Tarantino, sabe que sua marca registrada é mesmo a mistura de gêneros. Assim como seu gosto por algumas sequências mórbidas, por uma boa quantidade de sangue e por um texto bem escrito e interessante, que previlegia os diálogos entre personagens muitas vezes complementares. Pois parece que o diretor vai, pouco a pouco, aperfeiçoando estas suas características, a ponto de chegar em Inglourious Basterds em sua melhor forma. Pessoalmente, vejo muitos trechos do filme como os melhores de sua carreira.
Como Pedro Almodóvar em Los Abrazos Rotos, Tarantino escreveu e dirigiu uma história que homenageia o cinema. Mas diferente do diretor espanhol, ele deixou de lado o excesso de autoreferências e debruçou-se sobre clássicos de diferentes gêneros. A salada de frutas que resulta deste processo é muito saborosa e, o que se espera de um filme de Tarantino, entretenida. Ainda que conte com grandes atores, este filme tem claramente uma grande estrela: Christoph Waltz, o homem que rouba a cena cada vez que aparece. Brilhante em suas variações de humor, mais perigoso quando sorri do que quando está sério, seu personagem, Hans Landa, entrou para o rol dos grandes vilões dos últimos anos.
Poucos diretores conseguem fazer um filme violento e, ao mesmo tempo, divertido como Tarantino. A verdade é que o diretor parece disfrutar com cada detalhe mórbido que coloca em seus roteiros, como a origem indígena de Raine que justifica o seu pedido de 100 escalpos nazistas para cada um de seus homens, ao mesmo tempo que lhe confere legitimidade no ator de marcar a pele dos sobreviventes com uma faca afiada.
Fascinado por heroínas, Tarantino encontrou em Mélanie Laurent a protagonista perfeita. No filme, ela aparece, inicialmente, desesperada em busca da sobrevivência. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Única sobrevivente da família na “visita” de Landa na propriedade dos LaPadite, Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent) acaba se mudando para Paris onde, em 1944, quando se dá o desenlace desta história, ela mantêm um cinema pequeno e charmoso. Atraído pela programação, pelo estilo do cinema e, especialmente por Emmanuelle Mimieux (nova identidade de Shosanna, que não revela um sobrenome de origem judia), o herói de guerra e novo garoto-propaganda de Joseph Goebbels (Sylvester Groth), Fredrick Zoller (Daniel Brühl), acaba sendo o responsável por reaproximar vítima e algoz. Em outras palavras, Shosanna e Landa.
Repetindo um pouco – mas pouco, realmente – a fórmula da “mulher-perseguida-e-frágil-que-se-torna-uma-fortaleza-vingadora” de Kill Bill, Tarantino transforma sua heróina durante o desenrolar da história. Mas como a maioria dos elementos de Inglourious Basterds, a impressão é que esta heroína também é uma evolução das anteriores do diretor/roteirista. Charmosa, segura de si, envolvente, ambiciosa e criativa em seu plano vingador, Shosanna/Emmanuelle ganha dianteira em relação A Noiva de Uma Thurman.
Como em todos seus filmes, a trilha sonora é um ingrediente fundamental em uma produção com a assinatura de Quentin Tarantino. É através dela que o diretor reforça, por exemplo, o climão de faroeste, filme de luta e até de gângster durante o desenrolar de Inglourious Basterds. Tecnicamente, aliás, o filme é redondo. Merece menção ainda o trabalho do diretor de fotografia Robert Richardson (ganhador de dois Oscar) e da editora Sally Menke, responsável pela edição de todos os filmes de Tarantino desde Reservoir Dogs.
Ainda que para muitos isso seja sinônimo de algo ruim, mas Inglourious Basterds está longe de ser um filme cheio de explosões, tiroteiros e batalhas campais. Pelo contrário. Nele há muito espaço para diálogos curiosos e saborosos, para que os atores mostrem seu trabalho. Também há tempo para mostrar cenas mórbidas, como escalpos sendo retirados, ou closes de cortes em forma de suástica na pele dos sobreviventes. Mas sem dúvida, na mistura de estilos e na homenagem ao cinema, feita inclusive através da escolha de alguns de seus personagens (como o crítico de arte que é escolhido para uma missão especial porque aprendeu a dominar o alemão através de seus filmes) e no cenário do “grand finale” é que está alguns dos grandes acertos de Inglourious Basterds.
NOTA: 10.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Outra intérprete que rouba a cena quando aparece é Diane Kruger como a atriz de cinema alemã Bridget von Hammersmark. O dueto dela com Landa é um dos pontos altos do filme. Na verdade, Inglourious Basterds tem muitos destes momentos. A referência a filmes de kung fu, inserida de forma divertida, ocorre na apresentação dos sargentos Hugo Stiglitz (Til Schweiger) e Donny Donowitz (Eli Roth). O climão de filme de gângster ocorre nas primeiras cenas envolvendo o cinema de Shosanna/Emmanuelle. Referências destes gêneros e, especialmente, filmes de faroeste, ocorrem ainda em muitos outros pontos da história.
Até o momento, Inglourious Basterds ganhou apenas um prêmio – e concorreu a um outro. A produção garantiu o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes para o genial Christoph Waltz. Se o próximo Oscar fizer justiça, certamente Inglourious Basterds estará na disputa em mais de uma categoria – provavelmente, e em especial, nas técnicas e, talvez, nas de intérpretes.
Nas bilheterias o filme tem se saído bem. Em números totais, na realidade, Inglourious Basterds é o melhor resultado que Tarantino já teve em sua carreira. Apenas nos Estados Unidos, a produção arrecadou pouco mais de US$ 116,8 milhões até o dia 4 de outubro.
Em entrevistas, o diretor comentou que, inicialmente, Inglourious Basterds foi planejado como um grande filme de vingança feminina. Mas como o projeto foi sendo deixado na gaveta pelo diretor, que nunca conseguia terminá-lo satisfatoriamente, saiu na frente o projeto de Kill Bill – que já trazia uma protagonista vingadora. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Foi assim que o desenlace final de Inglourious Basterds e o mérito pela vingança contra os nazistas ficou mesmo com o grupo liderado por Raine.
O público e a crítica internacional também aplaudiram esta nova empreitada de Tarantina. Os usuários do site IMDb deram a respeitável nota 8,6 para esta produção; enquanto os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 216 textos positivos e 30 negativos para Inglourious Basterds (o que lhe garante uma aprovação de 88%).
Inglourious Basterds é uma co-produção dos Estados Unidos e da Alemanha.
CONCLUSÃO: Quentin Tarantino mexe em um dos poucos terrenos que ele ainda não havia ousado e, de quebra, nos apresenta a reformulação definitiva do gênero inspirado nos acontecimentos da 2ª Guerra Mundial. O que vemos, mais que um filme fiel à História – ainda que ele tenha sido resultado de uma extensa pesquisa do diretor/roteirista -, é uma obra criativa e de fantasia, que brinca com uma realidade que não foi possível – mas que no cinema pode ser. Tarantino em sua melhor forma, esta poderia ser a frase de apresentação de Inglourious Basterds. Mais que em outros filmes que o precederam, este vai mais fundo na mistura de gêneros e estilos cinematográficos e, especialmente, deixa ainda mais escancarada a vontade de seu criador em tratar o cinema como um tema fundamental e imerso em suas histórias. Com grandes atuações de todos os atores do elenco, Inglourious Basterds ainda nos apresenta um dos vilões mais sarcásticos, inteligentes e carismáticos dos últimos tempos: o coronel Hans Landa do premiado Christoph Waltz. Sem dúvida, merece o ingresso.
Surrogates – Substitutos
Praticamente tudo já foi mostrado sobre o futuro da humanidade pela perspectiva de “uma sociedade dominada pelos robôs e pela alta tecnologia”. De 2001: A Space Odyssey, passando pelos replicantes de Blade Runner e até a série de filmes da grife Terminator, os fãs do cinema sempre foram “assombrados” por golpe traiçoeiros de robôs rebeldes, vingadores e assassinos. Mas The Surrogates aparece em cena para que os humanos tenham o gostinho de dar um certo troco neste terreno de perseguidores e suas vítimas. Dirigido por Jonathan Mostow, o homem por trás das câmeras do último Terminator estrelado pelo governador Arnold Schwarzenegger, Surrogates revela um futuro para a humanidade parecido com o de Wall-E, de uma determinada maneira. Mesmo longe da perfeição, eis aqui um filme que abre uma série de debates interessantes – e que talvez seja o mais realista dentre as produções que tratam do futuro da robótica.
A HISTÓRIA: Depois de algumas frases provocadoras do homem conhecido como O Profeta (Ving Rhames), acompanhamos os últimos 14 anos da evolução da robótica e, consequentemente, as mudanças que estes avanços científicos provocaram em diferentes sociedades pelo mundo. Basicamente, os robôs evoluíram tanto que as pessoas preferiram vivenciar as tarefas do dia-a-dia através deles. Enquanto essas máquinas, versões geralmente melhoradas de seus donos, trabalham e se “arriscam” no mundo real, seus proprietários se encontram “seguros” e cômodos em uma espécie de divã tecnológico. Mas a introdução do filme nos mostra como, nos últimos três anos, começou a surgir uma resistência a esta maneira de encarar a tecnologia. Um dos principais líderes desta resistência – ou resposta dos humanos aos robôs – é O Profeta. O que altera definitivamente este aparente equilíbrio de forças é o misterioso assassinato do filho único do “pai dos computadores” e ex-presidente da gigante VSI, Lionel Canter (James Cromwell). Entram em cena então os investigadores do FBI Tom Greer (Bruce Willis) e Peters (Radha Mitchell), que devem descobrir como é possível que uma nova arma possa fritar não apenas os “surrogates” (robôs), mas também as pessoas que estão comandando seus movimentos em casa.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Surrogates): Há séculos o ser humano procura saber sobre o seu futuro. Diferentes artistas, primeiro na literatura e depois no cinema, buscaram traçar realidades possíveis em uma era distante, normalmente tecnológica. Se até hoje parece ter predominado um futuro um tanto sombrio, no qual máquinas entravam em colapso e acabavam por se virar contra seus “criadores”, ou seja, os humanos, nos últimos tempos parece predominar uma contracorrente a este movimento. Em outras palavras, filmes como Wall-E e Surrogates apostam em uma revanche dos humanos contra os danos que a alta tecnologia pode provocar.
A animação da Pixar ganhadora do Oscar trazia homens e mulheres alterados biologica e fisicamente graças ao uso cada vez maior de robôs, realidade virtual e seus derivados. Surrogates não chega a tanto, mas explora os efeitos de uma sociedade onde 98% das pessoas – segundo a introdução do filme – preferem utilizar robôs em suas atividades cotidianas. Em outras palavras, no futuro desenhado pelo roteiro de Michael Ferris e John D. Brancato, as pessoas praticamente desenvolveram uma fobia de sair de casa. Ferris e Brancato escreveram o último Terminator e tiveram como inspiração para Surrogates o HQ homônimo criado por Robert Venditti e Brett Weldele. Em sua história, tudo que puder se resolvido pelos robôs, será feito, já que eles não podem ser mortos ou contaminados por doenças.
Esta idéia parece mais realistas do que a de um robô tentando dominar o mundo – como aquele visto em Eagle Eye. Mas ela tem pelo menos uma grande falha: de que mundo utópico enquanto sem desigualdades sociais estamos falando? Porque para 98% da população ter acesso a uma alta tecnologia em robótica como a mostrada em Surrogates, é preciso que esta parcela de pessoas em todo o mundo tenha um grande poder aquisitivo. Convenhamos, isso é impossível – exceto se, e isso o filme não explica, a Humanidade tivesse passado pelo extermínio de todos os seus pobres anteriormente.
Mas ok, vamos ignorar este pequeno “porém” na história. Também interessa menos algumas caracterizações exageradas – como a superficialidade escancarada – de alguns dos robôs/personagens. Surrogates acerta ao tornar a divisa entre a caça e o caçador bastante difusa, por exemplo, e ao debater os efeitos de uma busca tão desesperada por longevidade, perfeição estética e segurança que nos leve a preferir que robôs vivam a nossa vida por nós. Certo que as “sensações” continuam sendo sentidas pelas pessoas que comandam suas máquinas, mas onde fica o toque humano, o roçar das peles, a troca de fluídos corporais? Desaparece nesta realidade plastificada filmada por Mostow.
A espinha dorsal de Surrogates não deixa de ser o clássico suspense de investigação policial, ainda que ele tente trazer à tona um discreto debate sobre os temas já comentados e um bocado de drama familiar, resumido na crise conjugal vivida por Tom Greer e sua mulher, Maggie (Rosamund Pike). O HQ que inspirou o filme, criado por Venditti e Weldele, narra o cotidiano de uma metrópole norte-americana no ano de 2052. Ainda que a base da tecnologia mostrada no filme e na HQ já exista, falta muito para chegarmos a aquele nível de perfeição na robótica.
Não deixa de ser curioso como Greer e Peters chegam rapidamente ao homem culpado pela morte do filho de Canter, Strickland (Jack Noseworthy). Agora, algo que o filme não explica, é como a “bucha de canhão” chamada Strickland foi mandada para um missão e, depois de puxar o gatilho, ficou totalmente sem cobertura. Estranho. De qualquer forma, não deixa de ser interessante como, quanto mais perto de uma resposta os detetives de Surrogates se encontram, mais complicada a trama vai ficando, até porque estão em jogo nesta história importantes interesses corporativos e políticos.
Na parte da ação, que deveria ser o mote principal desta história policialesca, o diretor Jonathan Mostow faz um trabalho correto, com algumas seqüências de perseguições envolvendo humanos e robôs muito boas. Mas o filme perde um bocado do ritmo quando procura aprofundar a história, acrescentando dramas humanos como o da perda de um filho ou o das crises de relacionamento provocadas pelo uso contínuo de máquinas como intermediárias entre os humanos.
A necessidade dos roteiristas em estabelecer um elo de reconhecimento entre Greer e Canter é o ponto mais artificial da história. São raros os momentos em que o drama compartilhado pelos dois em terem perdido um filho convence. Por outro lado, a crise no casamento que Greer vive ao lado da esposa Maggie acaba resumindo os principais pontos de reflexão do filme – ainda que, algumas vezes, ele sirva apenas para quebrar o ritmo da história. A verdade é que um pouco mais de ação e suspense seria melhor para o filme do que estas doses um tanto artificiais de drama.
NOTA: 8,5.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como um filme de ficção científica sempre pede, Surrogates gastou boa parte de seu orçamento de US$ 80 milhões em efeitos especiais. Não há cabos soltos, neste sentido, nesta produção. Os efeitos especiais, visuais e de som desejados estão todos ali. Ou seja, visualmente falando, esta produção funciona muito bem, esboçando uma sociedade futurista das mais realistas que o cinema viu até o momento. Mostow faz um trabalho correto, especialmente nas cenas de ação. Para isso, ele contou com a ajuda do diretor de fotografia Oliver Wood e com o excelente trabalho do editor Kevin Stitt.
Os atores principais tem desempenhos variáveis nesta produção. Bruce Willis, possivelmente, se destaca como o melhor em cena – talvez porque ele se sinta confortável em filmes de ação. Ving Rhames, que faz um pequeno papel como O Profeta, também se destaca em uma atuação segura e bem caracterizada. Os demais, basicamente, cumprem tabela.
Em sua semana de estréia nos Estados Unidos, no último dia 27 de setembro, Surrogates arrecadou US$ 14,9 milhões. Na semana seguinte, a produção passou para US$ 7,24 milhões, ficando apenas na quarta posição nas bilheterias dos Estados Unidos. Muito pouco para um filme de ficção científica estrelada por Bruce Willis. Pelo visto, a falta de ação e a trama um tanto “complexa demais” para o público médio afetarão o seu desempenho comercial.
Os usuários do site IMDb conferiram a nota 6,6 para Surrogates. O filme também não conseguiu um desempenho muito bom entre a crítica. Ele registra 55 críticas negativas e apenas 36 posivitas no Rotten Tomatoes, o que lhe garante uma aprovação de 40% dos críticos.
(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que seja um tema secundário na trama, não deixa de ser muito interessante a forma com que ela trata a relação estreita demais entre os governos e as grandes corporações mundiais. No caso, entre o FBI e a empresa de alta tecnologia que domina o mercado da fabricação e venda de robôs. A verdade é que sabemos que estas relações realmente ocorrem e prejudicam muita gente – a velha história dos prejuizos da ganância e do poder.
Dois comentários dispensáveis, mas que eu não resisto não fazer: (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme) mil vezes o Bruce Willis com sua tradicional cabeça raspada do que com aquela peruca ridícula que seu robô (e outros personagens anteriores) insisti usar: e o final do filme, cá entre nós, não lembra a bomba de Shyamalan The Happening? Eu juro que tive um deja vù ao ver aquelas centenas de robôs caindo no chão, no melhor estilo “ataque no parque” do suspense The Happening.
CONCLUSÃO: Um filme de ficção científica que traz à tona novamente as relações entre humanos e robôs em uma sociedade futurista que lembra muito a nossa atual. Nesta produção dirigida por Jonathan Mostow, o homem por trás de Terminator 3, a relação entre as pessoas passa pelo intermédio das máquinas, em uma busca extrema dos humanos por segurança e perfeição. No fundo, Surrogates é uma história de investigação policial com alguma carga de suspense, crítica social e de valores, acrescida de uma dose considerável de drama (familiar e conjugal). No fundo, a produção tenta debater alguns dos valores que nos fazem humanos. Infelizmente, ao tentar abraçar tantas frentes, Surrogates não consegue chegar tão longe. Mas como entretenimento – ainda que lhe faltem cenas de ação – e como uma peça a mais na “revanche dos humanos contra as máquinas”, ele vale a pena.
Fireflies in the Garden – Um Segredo Entre Nós
Fireflies in the Garden é uma destas produções com um grande potencial, que tem cuidado nos destalhes, como na direção de fotografia, e que conta com um elenco competente mas, ainda assim, deixa a desejar. É o velho problema do resultado final menor do que a capacidade que o filme tinha de ser. Fireflies in the Garden funciona muito bem até um certo ponto. Um de seus trunfos são suas constantes variações temporais na narrativa, que acabam funcionando muito bem no roteiro do diretor Dennis Lee. Mas o problema do filme é que ele deixa dúvidas demais no ar. Uma situação que incomoda o espectador mais do que certas produções que deixam o seu final aberto. Em Fireflies in the Garden temos um final, mas o caminho até chegarmos a ele é construído por muitas perguntas sem resposta. O que, como dito antes, provoca desconforto.
A HISTÓRIA: O casal Lisa (Julia Roberts) e Charles Waechter (Willem Dafoe) discute dentro do carro a caminho do aeroporto. O assunto principal da discussão é o comportamento do filho deles, Michael (Cayden Boyd), que parece estar sempre abaixo das expectativas paternas. Insatisfeito pelo fato do filho colocar as mãos no vidro do carro, depois de ter “perdido” os óculos que usava, Charles pára o carro na entrada da pequena cidade de Larkspur. Mesmo sob uma chuva torrencial, ele obriga o filho a voltar à pé para casa. Esta são apenas algumas das lembranças que Michael, quando adulto (Ryan Reynolds) resolve contar em seu novo livro. Depois de muito tempo sem voltar para a casa dos pais, ele retorna para a formatura da mãe, mas uma fatalidade e seus vários desdobramentos acaba mudando os planos do escritor.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Fireflies in the Garden): As cenas iniciais deste filme são um belíssimo cartão-de-visitas do trabalho do diretor Dennis Lee e de sua equipe técnica. Engrenagens de um relógio; imagens da Natureza e da cidade em vistas aéreas; e, finalmente, um carro deslizando pelo asfalto. Vemos suas rodas, mãos ao volante, a chuva que cai do lado de fora do vidro. Tempo, espaço e, por fim, as circunstâncias adversas sugerem a pressão que a família Waechter está vivendo. Como as engrenagens daquele relógio inicial, esta (e todas as) família(s) vivem do trabalho sincronizado e/ou desajustado de cada uma de suas peças. Fireflies in the Garden trata do mal funcionamento desta engranagem chamada família e dos ajustes que são possíveis ou impossíveis de serem feitos para “consertar” seus problemas.
Aquela sequência inicial do filme deixa claro o talento de Lee em planejar as suas cenas. Também começa a revelar o belo trabalho do diretor de fotografia Daniel Moder e a inspirada trilha sonora do espanhol Javier Navarrete. Estes elementos, fotografia, música e a edição de Dede Allen e Robert Brakey fazem aquele início de filme prometer muito. Depois vamos descobrir que esta promessa acaba criando expectativas que não serão totalmente supridas. Voltando ao que eu comentava no início deste texto, o grande problema de Fireflies in the Garden é que seu roteiro deixa perguntas demais sem resposta. Me explico.
Não acho um problema quando um roteirista resolve escrever uma história com um final que fique em aberto ou quando seu texto provoca mais perguntas que respostas. Dependendo do filme, uma destas duas característica é até bem vinda, porque provoca reflexão no espectador. Mas em outros casos, como o de Fireflies in the Garden, os vazios do roteiro e a falta de respostas para algumas questões básicas sobre a família retratada não leva o público a nenhuma reflexão, apenas o deixa perdido. E isso não pode ser.
Entendo que o roteiro do diretor Dennis Lee, que teria se inspirado em um poema de Robert Frost, procura nos contar uma história de superação. Seu texto reflete como as pessoas vítimas de violência dentro de casa podem superar seus problemas e seguir adiante. Fireflies in the Garden também busca revelar a importância dos pais no processo de formação de um indivíduo. Tudo isso é válido. Da mesma forma, o trabalho competente dos atores, que apresentam interpretações dentro do esperado (nada acima da média), e as já citadas qualidades técncias do filme, poderiam justificar-lhe.
Finalizado da maneira com que foi, Fireflies in the Garden é apenas mais uma história de “filho eternamente rejeitado pelo pai que faz de tudo para impressioná-lo”, de perda e da clássica separação entre mãe-bondasa e pai-crápula. A verdade é que os atores fazem um bom trabalho e que o roteiro cria a tensão e o suspense adequados, mas os buracos que a história deixa abertos acabam prejudicando o filme.
Afinal, quais eram os “grandes segredos” da família Waechter? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não parece que Michael e sua tia Jane (Hayden Panettiere na adolescência e Emily Watson quando adulta) falassem da mesma situação na cozinha. Minha aposta é de que havia mais do que castigos físicos e psicológicos praticados por Charles contra o filho. Uma das leituras possíveis é a de que ele possa ter abusado sexualmente de Michael, quando criança e, talvez, até da própria Jane. No filme ficou um tanto “subentendido” que a garota possa ter feito um aborto, sob a proteção da irmã, Lisa.
Também parece evidente na história o fato de que Lisa era uma boa mãe, preocupada e carinhosa, mas que parecia perseguir tanto a perfeição como mulher e esposa ao ponto de ter se tornado cega a muitos fatos que aconteciam ao seu redor. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Neste terreno nebuloso, é possível que Charles tenha praticado alguns abusos contra o filho e talvez até contra Jane, o que provocaria a reação dela na cozinha. Mas o que me incomodou, realmente, foi o final do filme. Não gostei da guinada da história na reta final.
Michael parecia um sujeito consciente, com os pés no chão, bastante observador e crítico. Como ele não foi capaz, então, de perceber a manobra de manipulação do próprio pai? (SPOILER – não leia… você já sabe). Sim, porque aquela procura providencial por um vídeo afetivo da família e as conversas finais entre pai e filho foram planejadas cuidadosamente por um sujeito que, há tempos, guardava sua amargura apenas para Michael. Mas ao ler o novo livro do filho – e manter isso em segredo -, Charles resolve manipular a família mais uma vez, como fez antes quando Lisa tentou se separar dele, para se sair bem na história. E o espantoso é que ele consegue, sem mesmo Michael desconfiar.
Tudo bem que o escritor, agora prestes a se tornar pai, resolveu deixar o passado para trás, seguir adiante em paz com a família, mas essa mudança radical, literalmente do dia para a noite, foi um pouco forçada demais. Me incomodou. E a história de Charles comprova, mais uma vez, como a percepção sobre um indivíduo pode ser muito diferente conforme o ponto de vista das pessoas que conviveram com ele. Para Michael e Jane o patriarca da família era uma pessoa. Para os filhos dela, Charles era outra, assim como para a sua filha, Ryne (Shannon Lucio).
Aparentemente, ele mudou muito depois da ameaça da mulher em sair de casa. Mas algumas relações não parecem ter evoluído, como a dele com Michael. Aliás, juro que não entendo muito bem algumas relações aparentemente de competição entre pais e filhos. Sei que Freud explica, inclusive através dos efeitos causados pelo complexo de Édipo, mas, ainda assim, esse tipo de “defeito” nas relações é tão previsível que me surpreende como ele ainda possa ser repetido e repetido mesmo por pessoas esclarecidas.
Mesmo com seus defeitos, Fireflies in the Garden é um filme interessante sobre os jogos de poder, dominação e manipulação que existem dentro das famílias, com a figura clássica de um pai algoz e de uma mãe um tanto cega, bondosa e superprotetora. O quadro se completa com o casal de filhos com temperamentos e criações diferenciadas – assim como sexos diferentes, o que apenas torna o quadro ainda mais clássico. Um filme curioso sobre segredos e relações de família, com os elementos já comentados e ainda traições, relações conflituosas entre cônjuges e filhos um tanto problemáticos. Também faz parte do quadro a morte prematura de uma figura-chave desta família e a culpa que seu desaparecimento acarreta em uma das pontas mais frágeis das relações familiares. Vale ser visto, ainda que com algumas reticências – e descontando-se todos os seus lugares-comum.
NOTA: 6,8.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os atores que fazem parte do elenco deste filme, em geral, estão bem em seus papéis. Só fico um pouco cansada com o vício de Willem Dafoe em interpretar o “cara mau”, o crápula das histórias. Por outro lado, gostei do desempenho de Julia Roberts como a mãe carinhosa, atenciosa e, ao mesmo tempo, incapaz de realmente defender o filho frente ao pai. Emily Watson está um tanto apagada, assim como Carrie-Anne Moss (que interpreta a Kelly Hanson, esposa de Michael). Os grandes destaques do filme ficam mesmo entre Ryan Reynolds, Hayden Panettiere e Chase Ellison (que interpreta o problemático Christopher Lawrence, filho de Jane).
Não consegui informações sobre a bilheteria ou mesmo o quanto foi gasto para produzir este filme.
Fireflies in the Garden estrou em fevereiro de 2008 no Festival de Berlim – o único festival de seu currículo.
Para os interessados nas paisagens mostradas no filme, Fireflies in the Garden foi rodado nas cidades de Austin, Bastrop e Smithville, todas no Texas, Estados Unidos.
Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para o filme. Os críticos que tem textos linkados no site Rotten Tomatoes foram ainda mais duros com esta produção. Eles dedicaram 18 críticas negativas e apenas seis positivas para Fireflies in the Garden (o que lhe garante uma aprovação de 25%).
Uma das críticas linkadas no Rotten Tomatoes é a de David Edwards, do Daily Mirror, que afirma que Fireflies in the Garden é uma produção povoada por personagens feridos que passam o filme inteiro gritando uns com os outros ou olhando para uma meia distância. Em seu texto, Edwards opina que o filme poderia ter funcionado se o roteiro realmente tivesse algo a dizer sobre o funcionamento de uma família.
Gostei especialmente deste texto de Tim Robey, do inglês Telegraph, no qual ele comenta que os astros que participam deste filme “indie” buscavam um filme para dar-lhes prestígio mas que, no fim das contas, o filme acaba sendo mais “catártico para eles do que para nós”. Que ótimo!
Robey também destaca a falta de lógica de um livro como o que o protagonista escreveu, cheio de segredos, que ninguém sabe ao certo quais são ou se alguém teria interesse em conhecer.
Neste texto, o crítico Kevin Maher, do Times, alerta o público para que ele não se engane pelos grandes nomes do elenco de Fireflies in the Garden. “Pesos pesados, como Julia Roberts, Willem Dafoe e Emily Watson” tem interpretações pobres “neste melodrama açucarado sobre uma família de subúrbio aterrorizada por um patriarca tenso”. Maher afirma ainda que o filme é “geralmente artificial” e que o final de Fireflies in the Garden é “piegas e falso”. E as demais críticas negativas seguem por aí.
No Brasil o filme recebeu o título de Um Segredo Entre Nós. Mas se fosse feita uma tradução literal do original, seria algo como “Pirilampos (ou Vaga-lumes) no Jardim”.
CONCLUSÃO: Um grande elenco se dedica a uma história edipiana que começa bem e termina sem convencer. Com um roteiro cheio de buracos que nunca são preenchidos, Fireflies in the Garden oferece ao público alguns momentos inspirados, desempenhos irregulares de seus atores e uma reflexão sobre o funcionamento de uma família clássica. Se os tais “segredos” de família não se explicam, pelo menos a história deixa clara a sua intenção: de defender a idéia de que os padrões nem sempre precisam se repetir, e de que é possível aprender com os erros alheios para fazer melhor (ou tentar, pelo menos) em sua própria vida. Deve ser visto sem grandes expectativas e com um pouco de paciência, respeitando seus vários lugares-comum e um final um tanto decepcionante.














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