Julie and Julia – Julie & Julia Novembro 27, 2009
Posted by Alessandra in Cinema, Cinema norte-americano, Crítica de filme, Movie, Oscar 2010.add a comment
Uma história embebida no amor de duas mulheres por cozinhar, por escrever e por seus maridos. Junte a isto duas grandes atrizes, ambas indicadas ao último Oscar. O resultado, que poderia ser excepcional, não deixa de ser um bocado sem sal e morno. A receita, em algum momento, desandou. Julie & Julia (aqui o site oficial em português) novo filme dirigido e escrito por Nora Ephron, surgiu com grandes expectativas – a ponto de muitos lhe apontarem como possível candidato ao Oscar 2010. Mas Julie & Julia, infelizmente, não convence como muitos gostariam. Mesmo que a espectadora também adore cozinhar, escrever e que tenha um grande amor em sua vida. Provavelmente esta história funcione melhor em livro que como filme.
A HISTÓRIA: O diplomata Paul Child (Stanley Tucci) ensina algumas expressões francesas básicas para a esposa, Julia (Meryl Streep). O ano é 1949, e o casal está mudando-se para Paris. Não demora nada para que Julia comece a se deliciar com os encantos da culinária francesa. Pouco depois, o espectador acompanha a outra mudança: desta vez, a vivida pelo casal Julie (Amy Adams) e Eric Powell (Chris Messina). Eles deixam o Brooklyn para viverem no Queens, em Nova York, no ano 2002. Para enfrentar a mudança de casa indesejada e a sua própria frustração como escritora, Julie estipula para si um enorme desafio: escrever sua experiência na cozinha ao tentar reproduzir as 524 receitas publicadas por Julia Child em seu livro “Mastering Art of French Cook”. Ela deve preparar as receitas em um prazo de 365 dias. Enquanto sua aventura é contada, o espectador acompanha também a vida de Julia na França e a epopéia que ela deve enfrentar para conseguir publicar o seu livro.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Julie & Julia): Duas grandes atrizes, recentemente indicadas ao Oscar por seus excelentes desempenhos no drama Doubt (comentado aqui no blog), voltam a se encontrar em um filme aguardado. Não apenas por se tratar do novo projeto da diretora e roteirista Nora Ephron, conhecida por sua vocação em retratar belas histórias de amor, mas principalmente porque ele mistura ingredientes em moda na literatura dos últimos anos: culinária e romance. Baseado no livro homônimo publicado por Julie Powell em 2005, Julie & Julia sofre por uma simplificação da história absurda. O tempero da obra de Julie se perde em uma adaptação quadrada, longa demais e que peca justamente por falta de condimentos/sal.
Para mim, este é um dos grandes exemplos de como nem todo livro pode (ou deveria) ser adaptado para o cinema. Francamente, não li a obra que inspirou a Nora Ephron, mas apenas o primeiro capítulo do livro (disponível nesta reportagem da Folha Online) demonstra que o texto de Julie Powell era muito mais interessante do que todo o roteiro da diretora. Francamente, Ephron parece ter se preocupado demais em aproveitar o talento de Meryl Streep. Ainda que ela esteja ótima – como sempre -, sua jornada por publicar o livro que escreveu em parceria com Simone Beck (Linda Emond) e Louisette Bertholle (Helen Carey) é menos interessante do que as dúvidas e a rotina de uma mulher prestes a completar 30 anos e que vive uma crise existencial na Nova York dos anos 2000.
O problema do filme, também, é que ele explora pouco a densidade de suas personagens. Honestamente, não sei se Julia era mais complexa do que a “dona-de-casa-eternamente-feliz” que assistimos através da história de Ephron. Mas é fato que Julie sim era uma garota complexa – como qualquer uma de suas contemporâneas que vive em uma grande cidade. E o espectador simplesmente percebe pouquíssimo disso neste filme. Narrada de forma muito tradicional, com seus 123 minutos sendo divididos sempre pela história de Julia e Julie contadas de forma linear, esta produção provoca a sensação de ser longa demais. Para alguns, talvez, arrastada. A verdade é que o filme resulta em um produto um bocado repetitivo e com pouca complexidade. Para contar a história de duas mulheres apaixonadas pela boa comida e por seus maridos, não precisávamos de tanta enrolação.
Mas para não dizer que nada funciona nesta produção, é preciso admitir que todos os seus atores estão bem em cena – ainda que, ninguém, excepcional. A verdade é que nem Meryl Streep pode fazer milagre com um roteiro tão fraquinho. Outra qualidade da história é a sua reflexão sobre a “era dos blogs”. Afinal, hoje em dia, é muito mais fácil alguém se tornar famoso, “virar uma celebridade” escrevendo um blog do que um livro. A “democratização” da informação e a facilidade de acesso do público e dos escritores a este meio torna muito mais fácil o caminho de quem quer se lançar no mercado editorial – por mais que os que condenam a “pirataria” e a “liberdade na internet” promulguem o contrário. Os blogs também acabam sendo, para quem tem talento, um dos canais possíveis para conseguir, no futuro, publicar um livro. Esse foi o caso de Julie Powell – e de tantas outras pessoas.
Interessante também como o blog desperta na protagonista o seu desejo de reconhecimento. Ela começa a acreditar no próprio talento como escritora quando seus textos vão ganhando, pouco a pouco, comentários de internautas. Como a maioria dos blogs pessoais, Julie acaba se expondo um bocado em seus textos – o que acaba sendo um dos fatores de seu êxito. O curioso é que, muito dedicada para cumprir o próprio desafio e fazer um bom trabalho com seu blog, Julie termina por descuidar do próprio casamento – efeitos colaterais indesejados por quem se lança além do ideal neste “universo cibernético”. Por este lado, Julie & Julia lança uma interessante reflexão – ainda que, com seu eterno tom alegre, o roteiro não deixe muito espaço para reflexões.
Também não deixa de ser interessante conhecer a história de um dos ícones da literatura e dos programas de TV de culinária dos Estados Unidos. Julia Child mudou, realmente, a maneira com que o norte-americano encarava a sua própria cozinha e o prazer de comer bem. Primeiro Julia e, depois Julie, ao reproduzir as receitas da sua “diva” em uma simplérrima cozinha do Queens, provaram que não é preciso sofisticação para reproduzir os melhores pratos da culinária francesa. Basta, para isso, ter boa vontade e, principalmente, amor. (Pena que estas lições de Julia não tenham resistido por muito tempo, afinal, nunca na história dos Estados Unidos tanta gente comeu mal, preferindo o fast-food do que um prato elaborado e caseiro).
Impossível, claro, não lembrar da Ofélia, a nossa “prata da casa”. Autora de livros e apresentadora do melhor programa de culinária que a TV brasileira já teve, Ofélia Ramos Anunciato começou a fazer história antes mesmo de Julia Child. Ofélia estreou na TV Santos em 1958, passando para a TV Tupi no mesmo ano. Julia Child estreou seu programa na televisão apenas em 1963. As duas guardavam grandes semelhanças entre si. A principal delas, além do talento e do amor que tinham pela boa culinária, certamente, era a simpatia/carisma. Honestamente, eu preferiria assistir a um filme sobre a Ofélia.
NOTA: 7.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pelo filme, não há dúvidas de que Julia é muito mais interessante do que Julie. Como personagens, me refiro – porque, afinal, por esta produção ficamos sabendo apenas sobre uma pequena parte de suas histórias. Vejamos: para Julia nunca há tempo feio. Ela adota a França como poucos estadunidenses um dia ousaram adotar a terra de Voltaire. Contradizendo a média dos estrangeiros – inclusive a opinião do próprio marido – que consideram os franceses esnobes, Julia adorava bater papo com os feirantes das ruas parisienses.
Quando descobriu que seu gosto pela comida poderia levar-lhe muito mais longe, ela enfrentou a resistência de uma mulher intragável – a única francesa que não cai nas graças da protagonista – da conceituada escola de culinária Cordon Bleu e se infiltrou em uma classe cheia de homens. Tudo para conquistar o seu sonho de dominar a cozinha francesa. Depois, mais por acaso que por planejamento, ela vestiu a causa de Simone Beck e Louisette Bertholle de publicar um livro em inglês com receitas da França. Perfeccionista, batalhadora, amorosa e sempre alegre, Julia pode ser considerada um exemplo a ser seguido. Ainda que todas estas suas qualidades não lhe ajudaram a, durante todo o período em que viveu na França, conseguir com que ela falasse razoavelmente o idioma daquele país – o que apenas reforça a lenda de que os estadunidenses são terríveis com outros idiomas, especialmente o francês. Como muitas imigrantes, Julia acaba sucumbindo, assim, a uma convivência com seus “pares” estadunidenses/ingleses. Interessante também como Julia marca época ao ousar, de forma criativa, através de detalhes simples, como fotos sensuais que estampavam postais dela e do marido. Depois, ao apresentar um programa para a TV, ela mostrou, mais uma vez, como era uma mulher inovadora e perspicaz.
Por outro lado, Julie (pelo menos a que vemos no filme) não deixa de ser uma garota que está prestes a completar 30 anos e que, mesmo bem casada, se sente muito distante do local em que gostaria de estar com a sua idade. Ridicularizada pelas amigas – que, convenhamos, de amigas elas não tem nada – e sentindo-se frustrada por não estar seguindo a sua vocação de escritora, Julie entra na “onda” dos blogs mais pela vontade de competir com a “amiga” Annabelle (Jillian Bach) do que por convicção em si mesma ou no formato.
(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Insegura, mesmo depois de receber inúmeros convites para reportagens e a publicação de livros, ela se sente deprimida porque Julia não parece ter gostado da sua iniciativa. E convenhamos, pelo que o filme nos apresenta, Julie mais se aproveitou da fama de Julia do que fez um trabalho realmente inovador. Só que algo me diz que a história não é bem essa – volto a exemplificar com o capítulo disponibilizado pela Folha. Tudo indica que as receitas de Julia eram uma desculpa para Julie falar de tudo da sua vida – e, de quebra, do relacionamento entre um homem e uma mulher, sobre o cotidiano de quem trabalha em um cubículo atendendo telefones o dia inteiro e, claro, sobre a vida em Nova York. Pena que o filme não mostre isso. Porque assistindo a Julie & Julia, sem dúvida Julie parece uma garota insegura, com humor muito variável e que, francamente, não consegue promover nenhuma mudança real em sua vida – nem deixar o pequeno apartamento no Queens e nem sair de seu emprego frustrante. A parte fraca do roteiro, sem dúvida – ainda que Amy Adams seja uma gracinha.
Como muitos livros que acabam sendo adaptados para o cinema, os editores de Julie & Julia não perderam tempo em lançar a versão em português da obra aqui no Brasil. Com 352 páginas e publicado pela Editora Record, a obra de Julie Powell pode ser encontrada por um preço médio de R$ 31,90. Quem ler (ou já tiver lido), por favor, comente aqui, depois, sobre o livro – e compare com o filme, se possível.
Francamente, eu prefiro outros filmes que falam de amor e de culinária. Para começar, o “clássico” mexicano Como Agua para Chocolate.
Não sei se todos que assistiram ao filme pensaram o mesmo, mas aqui, com meus botões, eu questionei: “Como Julie não engordou ao preparar e, principalmente, comer, 524 receitas, muitas delas exageradamente cheias de manteiga, em um ano?”. O mesmo vale para o marido dela… pelo filme, nenhum dos dois engordou. Mas que pessoa, na vida real, não teria saído da dieta com aquela comilança?
Para os interessados em conhecer de perto o trabalho de Julie Powell, não deixa de ser interessante que o seu blog, o The Julie/Julia Project continue online – ele pode ser acessado através deste link. Em inglês, para os interessados em acompanhar na íntegra a aventura de Julie – que inclui, ainda, um texto dela sobre a morte de Julia, ocorrida em 2004. Agora, com um formato bem “antiguinho” e simples, é preciso um bocado de paciência para ir voltando no calendário, localizado no canto superior direito do site e voltar, pouco a pouco, até as receitas que Julie testou. Paciência, navegadores! Mesmo assim, bacana que o blog foi preservado. Atualmente, Julie Powell mantêm em dia outro blog – What Could Happen?. Achei especialmente interessantes os seus comentários do dia 10 de agosto deste ano, quando Julie comenta sobre o fato de Julia não ter gostado de seu blog-homenagem e, principalmente, quando ela justifica o uso de palavrões em seu livro. hahahahaha. Engraçado ela dizer que os “palavrões são partes vitais” de uma língua. Ela é espirituosa e, como mérito, tira sarro dos republicanos.
Talvez muitos de vocês, meus caros leitores, se lembrem de alguém específico ao assistir a este filme. Eu, francamente, me lembrei de uma querida amiga, a Bianca, uma pessoa que tem um talento especial para cozinhar – e que, como Julie e Julia, adorava preparar pratos deliciosos para o seu marido e para os amigos.
Para os interessados em saber um pouco mais sobre a Julia Child verdadeira, aqui é possível encontrar uma reportagem (ou seria obituário?) bem resumida sobre a sua história e importância para o público dos Estados Unidos. Interessante saber, por exemplo, que Julia estrou seu programa televisivo The French Chef em 1963, justamente a época em que os norte-americanos estavam se abrindo para as viagens (e a culinária proveniente do) ao Exterior. O presidente da época, John F. Kennedy, e sua esposa, a refinada Jacqueline, tinham contratado, por exemplo, o chef francês Rene Verdon para a Casa Branca. Neste cenário, Julia caiu no gosto popular como uma luva.
Outra curiosidade no texto do San Francisco Chronicle é que Julia, nascida em uma família com dinheiro de Pasadena em 1912, acabou se mudando para Nova York, mesma cidade de Julie, para trabalhar em uma loja de departamentos. Julie e Julia viveram na mesma cidade, mas em épocas muito diferentes, é claro – algo que o filme nem sugere. Pelo texto é que fiquei sabendo, também, que o marido de Julia, Paul, era 10 anos mais velho que ela e que ele sim, muito antes da esposa, era fascinado (e considerado um especialista) pela culinária e por bons vinhos. Ele que a introduziu “neste mundo” do sabor. Julia e Paul viajaram juntos para o Sri Lanka e para a China antes de se casarem, nos Estados Unidos, em 1946. Por estas e por outras que Julia era uma mulher liberal e à frente de seu tempo. Ela acabou publicando mais de um livro e estrelando dois programas televisivos – o The French Chef e o Cooking With Master Chefs.
Outra curiosidade sobre Julia Child: no dia 23 de julho de 2003 ela ganhou, do então presidente George W. Bush, a honraria da Medalha da Liberdade. Ela também se envolveu em duas entidades de culinária, a American Institute of Wine and Food (ao qual ela participou dando suporte) e a International Association of Culinary Professionals (do qual ela foi co-fundadora).
Agora, um fato curioso sobre o filme: a diretora Nora Ephron teve que utilizar uma série de “truques” para tornar Meryl Streep mais alta do que ela realmente é. Isso porque a Julia real era um mulher muito alta. Por isso, algumas partes dos cenários foram reduzidas, para que a atriz parecesse maior, assim como Meryl Streep sempre utilizava saltos altos – e Nora Ephron esbanjou o uso de filmagens em perspectiva.
A trilha sonora do filme é bem gostosinha – mérito do compositor francês Alexandre Desplat. Destaque especial para algumas músicas conhecidas no repertório, entre elas Psycho Killer, interpretado pelo Talking Heads, e o saudosismo de A Bushel and a Peck, por Doris Day – sem contar Time After Time, interpretada por Margaret Whiting.
Tecnicamente, o filme é muito bem feito. Para começar, funciona a fotografia luminosa e com cores geralmente “alegres” de Stephen Goldblatt. Merece destaque ainda o trabalho de direção de arte de Ben Barraud e a decoração de set de Susan Bode, que cuidam de cada detalhe/objeto que aparece em cena. Como sempre, os figurinos de Ann Roth trabalham em função do roteiro para ressaltar épocas e estilos – e diferenciar, especialmente, as protagonistas. Ann Roth, aliás, é um exemplo a ser seguido – ela continua trabalhando, aparentemente de forma incansável, aos 78 anos.
O filme Julie & Julia é uma adaptação da diretora Nora Ephron de dois livros: o homônimo, publicado por Julie Powell, e o autobiográfico My Life in France, de Julie Child com o jornalista Alex Produ’homme.
Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para Julie & Julia. Por sua vez, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 143 textos positivos e 48 negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 75%. Um empate entre a opinião de público e de crítica extremamente incomum.
Nas bilheterias o filme foi bem, muito bem, até o momento. Julie & Julia, que teria custado aproximadamente US$ 40 milhões, arrecadou, apenas até o dia 15 de novembro, na terra do Tio Sam, pouco mais de US$ 93,7 milhões. Ele se pagou e ainda lucrou um bocado. O público foi atraído, certamente, pelo sucesso da bloguera e escritora e, o principal, pela dupla de protagonistas da produção.
Julie & Julia fez sua premiere no dia 30 de julho em Nova York. Depois, o filme estreou no circuito comercial dos Estados Unidos e do Canadá no início de agosto. A produção participou de sete festivais – nenhum de suma importância – até o momento, incluindo os do Rio e de São Paulo.
Para os interessados em saber um pouco mais sobre a “nossa” Ofélia, aqui é possível acessar um texto sobre sua vida e carreira. Saudade da Ofélia!
Ah, e um P.S. final: tenho certeza que a mulherada, em especial, vai discordar de mim sobre este filme. Mas meninas, eu vou avisando: tenham paciência. Mais do que achar um filme bonitinho ou não, eu analiso o contexto em que ele foi feito, seu potencial, e naquilo que ele se tornou. Como este Julie & Julia… pelo que a história rendia, esta produção poderia ter sido bem melhor. Entenderam? Se não entenderem, tudo bem. Só não me joguem pedras.
CONCLUSÃO: Um filme que tinha tudo para ser incrível e que, nas mãos da diretora e roteirista Nora Ephron se tornou apenas mediano. Para os interessados em histórias de amor que envolvem culinária, pode ser um passatempo curioso – especialmente por trazer a uma Meryl Streep eternamente afiada. Uma pena que o texto irônico e afiado da Julie original ficou de fora do roteiro que exagera no “politicamente correto”. Até mesmo a personagem de Julia foi simplificada. Para meu gosto, com toda a sua simplificação, Julie & Julia acaba se revelando longo demais e, em alguns momentos, um tanto arrastado. Ainda assim, pode valer por curiosidade, especialmente por revelar o êxito de uma garota que morava em Nova York e que se tornou mundialmente conhecida através de seu blog.
PALPITE PARA O OSCAR 2010: Francamente, acho quase impossível esse filme ser indicado a algum prêmio. Mesmo os de melhor atriz ou melhor atriz coadjuvante, serão difíceis de emplacar. Só se os votantes da Academia acharam o ano muito fraco em interpretações para descolar alguma vaguinha para Meryl Streep ou Amy Adams – pelo menos por este filme. As duas atrizes estão simpáticas em seus respectivos papéis, mas não fazem nenhum esforço acima da média – até porque a adaptação de Meryl Streep para um sotaque diferenciado deixou de ser novidade há muito tempo. Julie & Julia está longe de ser indicado como melhor filme ou roteiro adaptado. Para mim, chances zero de indicação. Bem, talvez o filme consiga alguma indicação em categorias técnicas, como direção de arte ou figurino.
El Traspatio – Backyard Novembro 24, 2009
Posted by Alessandra in Cinema, Cinema latino-americano, Crítica de filme, Movie, Oscar 2010.add a comment
Há histórias simplesmente incríveis. Como bem afirmam alguns, em certas ocasiões, a realidade consegue ser mais impressionante que a ficção. Por isso mesmo, quando uma história destas rende o roteiro de um filme, ela deve ser contada de forma igualmente extraordinária. Do contrário, ler reportagens em um jornal acaba sendo mais curioso que assistir a dita produção. Este é o caso de El Traspatio (ou Backyard, seu nome no mercado internacional), representante do México na disputa por uma vaga no Oscar 2010 de Melhor Filme Estrangeiro. Inspirado no escandaloso caso das “mortas de Juárez”, como ficou conhecido o assassinato expressivo de mulheres na cidade mexicana fronteiriça com os Estados Unidos, El Traspatio sofre com um roteiro que tenta se aprofundar em diferentes aspectos da realidade daquela região mas que, no fim das contas, consegue pouco mais que uma narrativa policial.
A HISTÓRIA: Em um campo seco, policiais fazem uma ronda próximos a cena de um crime. A policial Blanca Bravo (Ana de la Reguera) reconhece que se trata de uma mulher, entre 16 e 25 anos, que foi mutilada e morta por estrangulamento. Ela era trabalhadora da fábrica Kikay e tinha um dente com a letra K. O policial Fierro (Marco Pérez) revela, para o jornalista que está acompanhando o reconhecimento, que esta é a 29ª vítima do ano (no caso, 1996). Mas ele se recusa a responder quantos corpos de mulheres foram encontrados nos últimos 10 anos. Depois, no carro, ele revela para a recém-chegada Blanca que os números chegam a 65 (pela conta da polícia) ou 83 (pela conta dos jornalistas), registradas apenas nos últimos três anos. O número de mulheres desaparecidas também é bastante varíavel: para alguns, cerca de 100, para outros, 350. Com a ajuda da voluntária Sara (Carolina Polili), que reconhece a última vítima e que arquiva por sua conta todas as informações das mulheres mortas e desaparecidas, Blanca começará a investigar os crimes e a encontrar culpados.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue lendo quem já assistiu a El Traspatio): Este filme não deixa margem à dúvidas desde o princípio: sim, ele se baseia em histórias reais. Tudo indica também, pelos primeiros minutos da produção dirigida por Carlos Carrera, que o espectador assistirá a uma intricada trama policial. Mas o roteiro de Sabina Berman tenta “problematizar” a história, focando diferentes aspectos que compõe o cenário de Juárez: desde as questões políticas e os interesses de multinacionais, até a chegada de migrantes de outras partes do país e o desprezo dos homens locais pelas mulheres em geral. Se por um lado é interessante esta preocupação da roteirista em “contextualizar” a história, por outro algumas de suas escolhas acabam apenas diluindo a força do material que ela tem em mãos.
Para resumir, há muitas histórias paralelas para um único filme. Para dar um exemplo, a aparição de Numasaki em duas ocasiões, para exemplificar a pressão das multinacionais sobre o governador de Chihuahua (Enoc Leaño), acaba sendo desnecessária. Afinal, esse tipo de pressão de empresas – e depois de um senador dos Estados Unidos – justifica a postura do governador frente ao problema? Acredito que não. E esta vontade de Sabina Berman em involucrar a quase todos como co-responsáveis pelas mortes das mulheres de Juárez acaba desviando o foco da história.
A grande questão deste filme é uma só: o desprezo dos homens (de parte deles, claro, apenas os machistas) pelas mulheres. El Traspatio é um filme sobre mulheres subjugadas e maltratadas. Tanto pelas empresas multinacionais instaladas na cidade e que buscam cada vez mais trabalhadores que ganhem menos e que não se queixem nunca, quanto por namorados e maridos que se sentem com a liberdade de matar suas mulheres por traições ou simplesmente por não obedecê-los (inclusive em questões simples, como fazer algum serviço doméstico). Há ainda os serial killers tradicionais, que pensam que Juárez é uma terra sem lei e que, ali, eles terão a liberdade para cometer seus crimes sem passarem por investigação – muito menos uma punição.
A sociedade mexicana é muito machista. E posso dizer isso com base em conversas que tive com amigos mexicanos, que conheci em Madrid. Eles mesmos admitem que não é fácil a vida de uma mulher em seu país. Mas ainda que trate de uma realidade muito específica, El Traspatio pretende, com sua história particular, abraçar uma causa universal. Tanto isso é verdade que, no final da produção, são listados vários números de assassinatos de mulheres em crimes sexuais em diferentes países – incluindo Espanha e Estados Unidos. Por esta razão, pelo tema que El Traspatio coloca na mira das atenções, ele merece a nota abaixo.
Mas o filme, propriamente dito, infelizmente não consegue passar do lugar-comum. Ele se assemelha a tantas outras produções medianas que focam a resolução de vários crimes e que buscam “problematizar” uma história sem convencer totalmente ao espectador. El Traspatio não consegue surpreender ao seu público em momento algum. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, alguém realmente poderia duvidar que a personagem de Juana (Asur Zágada) iria morrer na mão de algum dos homens que a cercavam? Também ficou evidente, desde a prisão do Sutão (Sayed Badreya) que o empresário Mickey Santos (Jimmy Smits) não poderia ser completamente inocente. Estes dois casos, os mais “bombásticos” do filme, não surpreendem ninguém – mas, claro está, não deixam de ser ultrajantes.
Entendo a escolha de Sabina Berman por dividir o filme em duas narrativas paralelas: a de Blanca e seus esforços em parar com a matança de mulheres em Suárez e a da jovem Juana. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A história desta segunda, uma menina “inocente” que descobre na cidade fronteiriça a liberdade que não tinha sob a vigilância do pai em Cintalapa, cidade que pertence a Chiapas, tenta dar mais cores e um rosto simbólico para as vítimas dos crimes sexuais. Diferente de tantas reportagens publicadas em distintos jornais que destacam mais os números que as pessoas, El Traspatio busca com Juana demonstrar como todos aqueles números significam o fim da existência de pessoas reais, com passado, família, trabalho, paixões e sonhos.
A intenção é boa, mas pena que para um filme ela acabe servindo apenas para dividir as atenções e tirar a força da história central. Também me pareceu duvidosa a forma com que a história de Juana foi contada. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Seu comportamento, talvez “libertino” demais, pode levar a uma justificação do crime praticado por seu ex-namorado, Culberto (Iván Cortés), quando, evidentemente, comportamento algum pode justificar um assassinato com vários requintes de crueldade.
A questão da corrupção policial também é pouco abordada pelo filme, se comparado, por exemplo, com a “pressão” de algumas multinacionais contra políticos como o governador de Chihuahua. Um erro, claro, porque a corrupção policial jogou um papel fundamental para que os crimes continuassem ocorrendo. El Traspatio ainda explora o papel da imprensa na divulgação dos crimes e para jogar com a pressão popular por uma resolução dos problemas. O destaque, neste quesito, fica por conta do radialista Víctor Peralta (Joaquín Cosio), o homem que faz o resumo exato da realidade de sua cidade, dos crimes que estão ocorrendo e do trabalho da polícia.
NOTA: 7,8.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Importante comentar que El Traspatio começa em 1996, três anos depois que as primeiras mulheres começaram a ser encontradas mortas em Juárez. Segundo esta reportagem da BBC Mundo (em espanhol), em 10 anos os crimes na cidade não haviam ainda sido totalmente resolvidos. Para o governo, até 2006, as mortes chegariam a 93. Organismos não-governamentais, por sua vez, apontariam para um número muito maior: 300. Este outro texto, do portal mexicano Univision, afirma que a Procuradoria Geral da República mexicana apontava para 258 mortes no período de 1993 e 2003, enquanto que um informe do Instituto Chihuahuense da Mulher reporta 321 mortes e a Anistia Internacional, por sua vez, 370.
A reportagem do Univision traz ainda um comentário de Isabel Vericat, da ONG mexicana Epiqueia, que revela que muitas mortes de Juárez seguem um padrão: suas vítimas são meninas “entre 13 e 18 anos, estupradas, mutiladas e estranguladas. Algumas apresentavam cortes nos peitos, lábios ou marcas parecidas a um X nos braços, rostos ou nas costas. Outras tinham o rosto destroçado, foram esquartejadas, queimadas, e se supõe que todas, sem exceção, morreram aterrorizadas”. Um verdadeiro absurdo, não? Estas características é o que diferenciaria os crimes praticados na cidade de outros em distintas cidades mexicanas e de outros países.
Segundo a mesma reportagem, o Ministério Público do Estado de Chihuahua revelou que pelo menos 91 dos crimes registrados contra mulheres na cidade seguem outro padrão: “em sua maioria são jovens de pele morena, desempregadas, trabalhadoras de indústria ou estudantes que foram sequestradas, estupradas repetidas vezes por mais de uma pessoa, torturadas, mutiladas e assassinadas. Seus corpos são jogados em terrenos baldios”.
Até a data de publicação da reportagem da Univision, dia 15 de janeiro de 2004, apenas uma pessoa havia sido condenada por alguns destes crimes: o egípcio Abdel Latif Sharif Sharif, que foi preso em 1995 sob a acusação de ter cometido, pessoalmente, nove homicídios e de ter, ainda, sido o autor intelectual de outra dúzia deles. Em 2004, outros 16 acusados estavam presos a espera de um julgamento.
Para os interessados neste tema, deixo aqui este portal especial do Terra mexicano, que inclusive traz uma cronologia dos principais fatos envolvendo as mortes em Juárez; assim como volto a indicar a série de reportagens da Univision que podem ser acessadas a partir deste link (ao total, são sete páginas que exploram as diferentes hipóteses sobre os crimes, incluindo a de pornografia “snuff”, envolvimento de narcotraficantes ou do tráfico de orgãos).
O município mexicano de Juárez faz fronteira com a cidade de El Paso, pertencente ao Estado do Texas, nos Estados Unidos. Segundo a mesma reportagem comentada anteriormente, da BBC Mundo, o FBI criou na cidade de El Paso o serviço de uma linha telefônica específica para denúncias relacionadas com homicídios de mulheres.
Para o filme, todos os nomes dos envolvidos nos casos reais de Juárez foram modificados pela roteirista.
Segundo esta reportagem do jornal El Siglo de Torreón, a equipe envolvida em El Traspatio foi ameaçada de diferentes maneiras. Segundo o produtor Epigmenio Ibarra, as mulheres da equipe receberam ameaças telefônicas. O diretor Carlos Carrera afirmou que diariamente apareciam pessoas assassinadas nos lugares em que a produção era filmada. Deve ter sido hiper estressante tirar este filme do papel.
Carlos Carrera, que ficou conhecido por dirigir El Crimen del Padre Amaro, afirma nesta reportagem que El Traspatio é uma “radiografia do México, a partir da atmosfera tensa das investigações dos assassinatos de mulheres na Cidade Juárez: a corrupção política e policial, a falta de administração da justiça…”, define o diretor.
No mesmo material, a roteirista Sabina Berman defende o seu trabalho: “Primeiro pensei em contar os fatos relacionados com os assassinatos das mulheres. Logo, disse a mim mesma: “Isso já foi feito por alguns documentários e livros”. Então eu percebi que o que eu queria contar era, além destes fatos, o que rodeia aos assassinatos. Uma sociedade multicultural, que deriva o seu fatalismo para a indiferença. Um Estado que falha nos seus deveres mais elementares. Uma economia neoliberal e globalizada. E a vizinhança com o país mais rico do mundo, os Estados Unidos. Pensei que esta é uma história do nosso tempo, não de outro, que deve ser contada de forma complexa e com espírito jornalístico. A realidade é interessante demais. Além disso, disse a mim mesma, a história deve possuir um coração sensível para o centro. Quero tornar emocionante o real, para que o espectador sinta, sinta e sinta, e nem por isso deixe de pensar e conhecer”.
El Traspatio tenta, a sua maneira, ressaltar a importância das pessoas não se acostumarem a absurdos como aqueles que envolvem as mortes cruéis de mulheres em Juárez. Pena que esta “denúncia” fique tão diluída no desejo da roteirista em mostrar “todos os aspectos” que envolvem a realidade daquela cidade fronteiriça.
O filme conseguiu, até o momento, a nota 7,4 pela votação dos usuários do site IMDb.
No México o filme foi lançado e amplamente divulgado com o título internacional, Backyard, que significa “quintal” – fazendo alusão ao fato da cidade de Juárez ser o “quintal” do desenvolvido Estados Unidos.
El Traspatio estreou no México em fevereiro deste ano. A partir de setembro ele começou a se lançar em festivais internacionais, como o de Toronto, o de Vancouver, o de Pusan e o de São Paulo.
Além dos atores já citados, vale a pena citar o trabalho de Alejandro Calva como o comandante da polícia obcecado por uma promoção – e, consequentemente, por deixar a cidade de Juárez; e Amorita Rasgado como Márgara, prima de Juana que hospeda a menina em casa e cuida para que ela seja empregada na indústria local.
CONCLUSÃO: Um filme que tenta equilibrar os gêneros policial e de drama para resgatar a história do “femicídio” registrado a partir de 1993 na cidade mexicana de Juárez, que faz fronteira com os Estados Unidos. Dirigido de forma tradicional e com um roteiro que peca pelo excesso de elementos e personagens, este é um filme que trata de um tema fundamental. Ainda assim, ele perde a sua “moral da história”, que defende a busca pela justiça e a indignação pública contra a indiferença justamente por ter esta idéia diluída entre tantas outras. Com um roteiro bastante óbvio e previsível, El Traspatio se mostra interessante apenas pelo fato de trazer à tona uma série de crimes absurdos e que, por incrível que pareça, continuam ocorrendo – inclusive, muitos deles, sem solução. Tecnicamente correto, ele fica na média dos filmes policiais, mostrando-se, inclusive, um pouco longo demais.
PALPITE PARA O OSCAR 2010: Mesmo tendo uma boa recepção no México, El Traspatio dificilmente terá alguma chance no próximo Oscar. Comparado com os filmes que assisti até o momento – todos podem ser consultados aqui no blog na categoria “Oscar 2010″ -, ele é o mais fraco na disputa, até o momento. Não deve chegar aos cinco finalistas e, muito menos, levar o prêmio para casa.
Oorlogswinter – Winter in Wartime Novembro 21, 2009
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Em 2008 e 2009 uma série de filmes relembraram histórias e aspectos da 2ª Guerra Mundial. Diferentes países se lançaram em produções próprias para contar, aparentemente, seu próprio “quinhão” daquele evento. Por isso mesmo, o espectador que começa a assistir Oorlogswinter pensa que assistirá apenas “mais uma história” sobre a guerra, desta vez com as cores da bandeira holandesa. Verdade que o filme dirigido por Martin Koolhoven trata sobre a fase final da guerra em território holandês, mas a história vai muito além do foco dos conflitos e intrigas envolvendo nazistas e a resistência do país invadido. Representante da Holanda para o próximo Oscar, Oorlogswinter tem todos os elementos para se colocar entre os favoritos.
A HISTÓRIA: Em janeiro de 1945, em uma certa noite, o garoto Michiel (Martijn Lakemeier) acorda e, ao levantar-se, pega a sua pequena lanterna da cabeceira da cama. Ele escuta, ao longe, a disparos. Olhando pela janela, Michiel vê a um avião em chamas em trajetória de queda. Um soldado alemão chega próximo ao local de bicicleta. Ao fazer sua ronda de reconhecimento, ele encontra sangue, mas não é rápido o suficiente. Preso com o paraquedas em uma árvore, o soldado inglês Jack (Jamie Campbell Bower) atira no nazista. No dia seguinte, Michiel e seu melhor amigo, Theo (Jesse van Driel) se aproximam do avião para conseguir algum “brinquedinho” de guerra. O que Michiel não sabe é que logo ele deixará de brincar e, sem querer, se aproximará perigosamente do “inimigo” dos invasores de seu país, o soldado Jack.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Oorlogswinter): O filme dirigido com cuidado e atenção aos detalhes por Martin Koolhoven começa muito bem. Ainda assim, serei honesta, fiquei pensando em todos os “lugares-comum” que a história começava a abrigar. Primeiro, identifiquei o uso fundamental de uma trilha sonora potente, muitas vezes dramática, para ressaltar o drama da produção. Depois, a história baseada fundamentalmente em um personagem infanto-juvenil – ingredientes que normalmente funcionam bem juntos e garantem o apelo necessário para que uma produção agrade a público e abocanhe alguns prêmios.
Como este ano assisti a muitos filmes ambientados no período da 2ª Guerra Mundial, também admito que pensei, inicialmente, que este seria apenas “mais um”, desta vez com o olhar dos holandeses. Mas Oorlogswinter tem tantas qualidades que, pouco a pouco, vai derrubando estas idéias pré-concebidas e vai conseguindo arrebatar o espectador.
No início do filme, pensei que esta seria uma história da “guerra contada pela ótica de dois meninos”. Garotos que viam o conflito como uma aventura, na qual a tarefa mais difícil era conseguir algumas peças para suas coleções particulares. Chega a ser um pouco irritante o exagero da sequência de “fuga e perseguição” entre Michiel, Theo e os soldados alemães que estão fazendo o reconhecimento do avião inglês. Neste momento o espectador pode pensar que o filme será isso, uma “aventura” supervalorizada pela música e com pouca importância real. Ledo engano.
Michiel é um personagem muito interessante. Filho do prefeito Johan van Beusekom (Raymond Thiry), ele abomina a presença dos nazistas em seu país. Por isso, não aceita que o pai mantenha uma convivência pacífica e um tanto simpática com os invasores. Como contraponto, o garoto idolatra ao tio Ben (Yorick van Wageningen), que participaria da resistência holandesa contra os nazistas.
Observador e inteligente, Michiel fica excitado quando o irmão mais velho de Theo, Dirk (Mees Peijnenburg), lhe procura para pedir-lhe um favor. Ele pede que, se não voltar em breve, o vizinho entregue um envelope para o ferreiro Bertus (Tygo Gernandt). Michiel nem sonha o que abriga aquele envelope pardo, mas ele o guarda como se fosse o objeto mais valioso da Holanda naqueles dias.
Quando Bertus é preso e sua família ameaçada pelos nazistas, Michiel tenta entregar o envelope para Bertus. Sem conseguir, ele mesmo resolve resolver o enigma. Assim é que ele se aproxima de Jack, o soldado inglês ferido que tenta fugir daquela área de domínio nazista. Corajoso e esperto, Michiel assume o risco de ajudar a um soldado inimigo – sabendo que esta sua atitude pode ter resultados terríveis. Mas descontente com a presença alemã no país, ele sente que esta é a sua oportunidade de fazer algo contra a guerra.
Eis aí o primeiro aspecto interessante do filme: ele não apenas mostra a guerra pela ótica de um jovem garoto de família importante, mas revela o desejo de muitos holandeses (que representam simbolicamente todas as demais nacionalidades invadidas durante a guerra) em se livrar do odiado invasor.
Alguns buscavam resistir lutando em países ainda não invadidos. Outros, através de movimentos de resistência dentro de seu próprio país – essencialmente praticando atos terroristas contra arsenais de armas e meios de transporte. Mas havia uma parte considerável que apenas convivia com o invasor, tentando resistir através de um ato de sobrevivência.
O jovem Michiel admirava apenas os que lutavam diretamente, seja na guerra ou através de movimentos de resistência. Não entendia o próprio pai, que sabia que um dia o conflito iria terminar e que era necessário que o maior número de holandeses estivesse vivo para reconstruir e retomar o crescimento do país.
E neste ponto, entramos no aspecto mais interessante do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Oorlogswinter). Esta produção holandesa discute, como poucas – e de forma muito natural e emocional – como era difícil, na época da 2ª Guerra Mundial, determinar quem eram os “mocinhos” e os “bandidos” da história. Michiel tem claro em sua cabeça as pessoas que admira e as que tem vergonha de conhecer. Só que conforme o filme se desenrola, o garoto vai aprender que sua noção de realidade estava muito distorcida. Os papéis de heróis e bandidos trocam de lado, e esta surpresa do roteiro é o que provoca a mudança fundamental na história – deixando para trás a sua carga de “dramalhão” para transformá-la no rito clássico de perda da inocência e da passagem da infância para a vida adulta.
Essa reflexão pontual do filme pode ser extendida para um terreno muito mais amplo do que o da guerra – e daquele conflito, em particular. Atualmente, muitas pessoas correm para esquematizar o mundo em “heróis” e “bandidos”, determinando quem é do bem ou do mal. O problema é que esta noção está cada vez mais difusa. E as pessoas que jogam de um lado hoje podem jogar de outro amanhã. O ser humano é complexo. Com isso, não quero (e nem pretendo) relativizar todos os acontecimentos, tirando as responsabilidades das pessoas. Não. Só quero dizer que é cada vez mais difícil colocar alguém em um papel e deixá-lo ali permanentemente.
Gostei muito da direção de Martin Koolhoven – que é responsável, ainda, pelo roteiro de Oorlogswinter. Koolhoven adaptou o romance de Jan Terlouw para o cinema ao lado de Mieke de Jong e Paul Jan Nelissen. O trio faz um belo trabalho ainda que, admito, eles calculem um pouco demais cada recurso para emocionar o espectador. Alguma vezes, quando esta tentativa fica muito evidente, o efeito acaba sendo o contrário. Mas como a história original é muito boa, mesmo os “recursos fáceis” algumas vezes utilizados em Oorlogswinter não são suficientes para estragar a história.
Um bom filme deve ser capaz de levar o espectador “pela mão”. Ou, em outras palavras, conduzí-lo pela história de tal maneira com que ele se envolva, se emocione, e esqueça todos os recursos fáceis (ou difíceis) de narrativa planejados para este fim – o de emocionar. Inicialmente Oorlogswinter não consegue isso. Ficam evidente os fios soltos de seus recursos cuidadosamente planejados para fisgar o espectador. Mas depois, Koolhoven consegue o seu propósito e arrebata ao público.
Um dos principais trunfos do diretor – e eu me arrisco a dizer que o grande responsável pelo sucesso da produção – é o desempenho do ator Martijn Lakemeier. O garoto dá um show de interpretação. Seja nos momentos de “aventura” juvenil, nos em que deixa claro seus alvos de admiração ou desprezo, Lakemeier segura a complexidade de seu personagens nas inúmeras situações em que sua interpretação é feita sem palavras, no silêncio. Emocionante o trabalho do rapaz. Junto com ele, há outros atores muito bons (dos quais comentarei em seguida), mas é Lakemeier quem rouba as cenas.
Oorlogswinter é feito para emocionar, não há dúvida. Tudo no filme é pensado para isso – especialmente a trilha sonora “grandiloquente” (e nuito bonita, devo dizer) do italiano Pino Donaggio. Mas o importante de filmes planejados desta maneira é quando ele nos apresentam uma grande história e, principalmente, conseguem o seu objetivo. Oorlogswinter é um destes exemplos, em uma produção cara e de qualidade técnica e interpretativa.
E o melhor do filme é que, mesmo depois da reviravolta pela qual passa a história, há ainda uma grande outra mensagem para o espectador – além daquelas já citadas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando a guerra termina e a Holanda se vê livre do domínio nazista, Michiel parece ser a única pessoa no país a não comemorar este feito – certamente outros também não celebraram, mesmo tendo desejado tanto que os invasores fossem embora. E a cena final, é simplesmente deslumbrante. Quando o misteriosamente desaparecido Theo reaparece para falar com seu melhor amigo e lhe oferece aquela correia que havia pego no avião inglês para brincar, Michiel (e os espectadores) redescobrem algo fantástico: que ele é, afinal de contas, pouco mais que uma criança. E, mesmo marcado por fatos tão trágicos causados pela guerra, ele terá toda a esperança e a oportunidade da vida para divertir-se e descobrir seu próprio caminho. Cena maravilhosa.
NOTA: 9,8.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Jan Terlouw, o autor da obra Oorlogswinter que inspirou este filme, é um dos mais importantes e conhecidos escritores infanto-juvenis da Holanda. Apenas neste link é possível encontrar 24 livros publicados por ele. Cientista formado e especializado em física e matemática, Terlouw também seguiu a carreira política. Segundo este texto, o autor começou a sua trajetória na literatura infantil em 1970. Terlouw recebeu, em duas ocasiões, o prêmio literário Golden Slate Pencil. Teve seus livros traduzidos para 17 idiomas. Seu livro de maior êxito, Koning van Katoren (no Brasil, Sete Desafios para ser Rei) foi reimpresso na Holanda 54 vezes e vendeu, pelo menos, 350 mil cópias. Honestamente, fiquei curiosa para saber se a adaptação de Oorlogswinter é fiel e corresponde à qualidade da obra original de Terlouw.
E uma curiosidade sobre Oorlogswinter: a obra foi adaptada, anteriormente, para a televisão holandesa. Em 1975 ela foi lançada como uma minissérie, com direção de Aart Staartjes e com 5 horas e 41 minutos de duração.
Talvez motivados pelo aniversário de 70 anos do início da 2ª Guerra Mundial, muitos países que viveram o conflito direta ou indiretamente começaram a discutir distintos aspectos daquela época. Para os interessados, sugiro uma pesquisa aqui no blog mesmo. Há desde o alemão Das Weisse Band, que debate a formação da geração que iria permitir a ascensão nazista; até a visão “moderna” de Die Welle sobre o fascismo e os movimentos totalitaristas. Vale citar ainda Max Manus, outro concorrente a uma vaga no próximo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro; Good, dirigido pelo brasileiro Vicente Amorim; e o estadunidense Defiance. Todos comentados aqui no blog.
O que interessa é que esta revisão histórica, com diferentes óticas contribuindo para o entendimento daquela época, são muito bem-vindos.
(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Emocionante, nesta história, o fato de como Michiel não sabe, exatamente, aonde está se metendo. Ele não tem a idade ou a visão necessária, ainda, para entender a complexidade da guerra e de suas relações de poder, disputas e dos diferentes interesses que estão em jogo. Daí vem a perda de sua inocência, quando ele começa a se dar conta da complexidade da guerra. Impressionante, em especial, como ele descobre, perto do final, quem era realmente o seu pai. Alguém que ele não conhecia de fato, mesmo convivendo sob o mesmo teto com ele. Bonito isso. E mais realista do que muitas pessoas gostariam de admitir.
Todos os atores escalados para Oorlogswinter fazem um belo trabalho. Além do principal nome do elenco, o já comentado Martijn Lakemeier, merecem destaque: o trabalho afinadíssimo de Raymond Thiry como o pai do garoto; Melody Klaver como Erika, a irmã mais velha de Michiel que acaba, por ser enfermeira, se envolvendo com Jack; Anneke Blok como Lia, mãe do protagonista; Dan van Husen como o comandante nazista Auer; e Ad van Kempen como Schafter, o vizinho e “colaborador” nazista que simboliza o exemplo de “homem desprezível” para Michiel.
Para as pessoas mais atentas, o filme dá uma grande pista sobre o que acontecerá perto do final muito antes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando os nazistas fazem uma emboscada para Michiel e Jack na tentativa da dupla em cruzar o rio pela balsa, o espectador se pegunta: “Mas quem poderia ter dedurado os dois? Quem sabia que eles iriam fazer este cruzamente naquele dia e horário?”. Naquele momento, cheguei a duvidar de Erika – ainda que, francamente, eu não percebesse o que lhe motivaria a tal ato. Talvez ela culpasse Jack pela morte de seu pai? De qualquer forma, este é o momento decisivo em que os mais atentos percebem que há algo de errado acontecendo – e que alguém está traindo a confiança de Michiel. Dificilmente seria Schafter porque, afinal, ele não sabia nada dos planos do garoto.
Oorlogswinter estrou em novembro de 2008 na Holanda. A partir de fevereiro deste ano ele entrou na feira de cinema européia e participou, em outubro, dos festivais de Roma e o Pusan. Até o momento, Oorlogswinter ganhou 11 prêmios e foi indicado ainda a outros cinco. Os de maior destaque foram entregues no Festival de Cinema Holandês este ano: melhor ator para Martijn Lakemeier, melhor ator coadjuvante para Raymond Thiry e melhor design de produção. A produção venceu na categoria de melhor filme em três premiações holandesas de menor porte: no Prêmio Rembrandt e no Golden and Platin Film (que integram a programação do Festival de Cinema Holandês).
Falando em design de produção, é importante comentar que todo o filme, dos figurinos até os objetos escolhidos pela equipe da direção de arte, foi realizado com atenção aos detalhes. Da parte técnica, destaco a direção de fotografia de Guido van Gennep.
Oorlogswinter teria custado 4 milhões de euros para ser produzido. Apenas na Holanda, até abril de 2009, o filme tinha arrecadado pouco mais de 6,1 milhões de euros nas bilheterias. Mesmo sendo caro, para os padrões holandeses, o filme já conseguiu se pagar com a bilheteria apenas de seu próprio território.
Uma curiosidade sobre a produção: como fã do gênero “western spaghetti”, o diretor Martin Koolhoven fez questão de escalar o ator Dan van Husen para viver o papel do comandante nazista Auer. Foi uma forma do diretor homenagear ao ator, conhecido por participar de pouco mais de 20 produções de “western spaghetti”.
Em 2008, Oorlogswinter foi escolhido o melhor filme holandês do ano pela imprensa de seu país.
Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para o filme. Até o momento, o Rotten Tomatoes não tem nenhuma crítica publicada sobre ele.
CONCLUSÃO: Baseado em um livro voltado para o público infanto-juvenil, este filme conta a aventura de um garoto de 13 anos para sobreviver à invasão alemão ao seu país, a Holanda. Protegido pelo pai, prefeito da cidade, ele tenta entender o comportamento das pessoas frente aos nazistas. Mais que uma história de guerra contada sob a ótica de uma criança, Oorlogswinter se revela um filme envolvente sobre a perda da inocência e a difícil missão de perceber quem são os “bandidos” ou os “vilões” em uma guerra. Contado de forma sensível, linear e com uma narrativa crescente – por isso, clássica -, este filme tem como um de seus principais trunfos o trabalho de seu protagonista. Envolvente e sensível – ainda que, especialmente no trecho inicial, carregado demais de lugares-comum -, sem dúvida este é um destes filmes que merece ser visto.
PALPITE PARA O OSCAR 2010: A verdade é que Oorlogswinter tem a cara do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Por várias razões. Primeiro que a Academia é chegada em premiar produções envolvendo crianças. Depois, porque o tema da 2ª Guerra Mundial está muito presente no cinema atual – especialmente naquele feito por países europeus. E em terceiro lugar, Oorlogswinter abriga elementos “edificantes” e uma moral da história que Hollywood aprecia. Francamente, acho que o filme tem grandes chances de se colocar entre os cinco finalistas ao prêmio e, cá entre nós, não seria uma total surpresa se ele ganhasse o prêmio. Claro que ele é muito menos complexo que outras produções que estão na disputa. No fundo, Oorlogswinter reconstrói velhas fórmulas e conceitos envolvendo crianças e a guerra. Ainda assim, ele é um filme que convence e emociona – algo que o Oscar adora.
Frygtelig Lykkelig – Terribly Happy Novembro 19, 2009
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Os policiais, ultimamente, não estão passando por seus melhores momentos no cinema. Depois dos filmes coreanos Chugyeogja e Madeo, recentemente comentados por aqui no blog, o dinamarquês Frygtelig Lykkelig conta uma história em que as autoridades responsáveis pela segurança dos cidadãos derrapam em suas funções. Mas desta vez, em lugar da incompetência vista nas outras produções, nos deparamos com o descontrole e com uma rede de situações que vão piorando os primeiros erros do protagonista. Indicado pela Dinamarca para representar o país na próxima disputa por um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Frygtelig Lykkelig é um policial cheio de sarcasmo ambientado em uma comunidade do interior, onde predomina a “lei” alternativa de seus habitantes.
A HISTÓRIA: A lenda sobre uma vaca que afundou na lama e desapareceu ilustra as características do vilarejo de Skarrild, situado no interior da Dinamarca, local onde o policial Robert Hansen (Jakob Cedergren) vai parar. Levado pelo chefe de polícia de Tonder (Jens Jorn Spottag), Robert é logo recepcionado pelo Dr. Zerleng (Lars Brygmann), médico forasteiro que se adaptou ao sistema dos habitantes do pequeno vilarejo e que tenta dar alguns “conselhos” para o seu novo morador. Pouco depois, Robert conhece a Ingerlise (Lene Maria Christensen), uma mulher casada que tenta se divorciar do marido, o violento e briguento Jorgen Buhl (Kim Bodnia). Sem perceber, Robert é envolvido em um triângulo amoroso e em uma situação de prestação de contas do vilarejo.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Frygtelig Lykkelig): O conto ilustrativo que abre o filme do diretor Henrik Ruben Genz revela uma pequena parte de toda a ironia do texto original, a obra homônima de Erling Jepsen. Seu livro, Frygtelig Lykkelig, aparentemente teve menos êxito que o filme. Genz, ao lado de Dunja Gry Jensen, adaptou o livro para o cinema e conseguiram, com seu trabalho, um resultado irregular.
Na maior parte do tempo, Frygtelig Lykkelig é um filme intricado para o seu protagonista, com um texto que flutua sempre entre o terrível e o engraçado mas que, ainda assim, se revela bastante morno. Contada de forma linear, esta história explora as peculariedades de uma comunidade interiorana da mesma forma com que revela um conto moral. Nele, é defendida a idéia de que a prática de um erro e o encobrimento deste podem tornar a vida de uma pessoa cada vez mais complicada, de uma forma crescente como a de uma bola de neve que desliza por uma encosta.
O melhor da produção, sem dúvida, é a forma com que o roteiro explora as “manias” do vilarejo para onde Robert é transferido. Todas as pessoas que moram naquele local sabem de cor os códigos de conduta e jogam seus papéis com perfeição. A pessoa que passasse um dia em Skarrild já saberia que tipo de ocorrências ocorriam ali, quem poderia ser achado em que local e as razões que faziam a filha do casal Buhl, Dorthe (Mathilde Maack) levar um carrinho de bebê para passear em muitas noites. Mais do que em outras partes, em cidades pequenas como a explorada por esta história os hábitos repetidos cotidianamente são a regra local.
Depois do conto sobre a vaca e seu bezerro demoníaco, o espectador percebe que o policial esconde algum segredo importante em seu passado. Ele participou de algum evento trágico em Copenhagem, onde morava e trabalhava anteriormente. Esse segredo será usado contra ele no ambiente cercados de regras invisíveis do vilarejo. Bonito, jovem e “urbano”, Robert não se adapta ao local e, ao mesmo tempo em que tenta conviver com seu passado, ele deve entender como funciona a pequena cidade para a qual ele foi designado. Mas, pobre Robert, ele não tem muito tempo para pensar e agir racionalmente.
Não sei vocês, mas me irritou um pouco a “inocência” do protagonista. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Afinal, ele cai como um patinho nos jogos de Ingerlise e de outros moradores locais. Claro que o filme não tem espaço para nos contar como era Robert antes de sua aparição em cena. Não sabemos se ele era um bom policial ou um desastre em sua profissão. Segundo este texto (em dinamarquês, o qual eu traduzi no Google Tradutor para entender algo) sobre a obra original, escrita por Erling Jepsen, Robert era sim um desastre. Destes homens que não conseguem viver muito longe da barra da saia da mãe e que, ao ser exposto a situações de estresse em sua profissão, chegam a vomitar pelo nervosismo. Sendo assim, se justifica a falta de preparo para o que irá acontecer no vilarejo.
Como tantas outras histórias do gênero, a situação de Robert vai piorando continuamente, pouco a pouco. Os habitantes de Skarrild, aparentemente “liderados” pelo médico, pelo padre e pelo comerciante local, tentam ensinar-lhe seus métodos. Robert faz alguns esboços para resistir, para atuar dentro da lei, mas quando ele percebe, está totalmente envolvido na história de Ingerlise. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para se proteger, lentamente Robert vai se adequando ao sistema de vida local e, como sugere a melhor sequência do filme, a que envolve uma partida de cartas no final, o policial acaba vendendo sua alma ao “diabo” (representado pelo trio de jogadores). A cena em que Robert percebe que ele não passou de uma engrenagem no jogo dos outros, que ele caiu como um patinho em seus planos, é o melhor de Frygtelig Lykkelig. Até chegarmos a este ponto, o espectador deve aceitar algumas sequências pouco críveis (como a da morte de Ingerlise) e a uma produção correta, mas nada excepcional.
A lição moral de Frygtelig Lykkelig também poderia ser menos evidente. Afinal, fica escancarada a idéia do filme de que uma pessoa, para não “vender sua alma ao diabo”, não deve nunca sucumbir ao primeiro ato de maldade. Quando Robert se deixa levar por seu primeiro erro e, sem conseguir encontrar uma saída “adequada” para ele, assume uma mentira após a outra, fica impossível encontrar alguma saída para o personagem. Pouco a pouco, revela esta história, uma pessoa que sucumbe ao mal vai aceitando os atos mais absurdos (e, muitas vezes, participa deles). A reflexão sobre este tema não deixa de ser interessante, mas no roteiro de Frygtelig Lykkelig ela se apresenta de forma maniqueísta. Na vida real, normalmente, as escolhas não levam a resultados tão matemáticos.
Ainda sobre a parte interessante do filme, não deixa de ter uma grande dose de verdade toda aquela ironia com o “modo de ser” do povo do lugarejo. Em cidades pequenas, nas quais “todos se conhecem”, a vida geralmente se restringe a alguma regras bem estabelecidas e seguidas por moradores que desempenham com perfeição os seus papéis no grupo. Sempre haverá espaço para o “encrenqueiro”, para o “louco”, para o “líder”, e assim por diante. Nestas relações, claro, haverá espaço para gestos de bondade, de auxílio aos demais, mas também para bizarrices e para resoluções “coletivas” dos problemas locais. O retrato de uma comunidade assim do interior da Dinamarca é o que Frygtelig Lykkelig tem de melhor para oferecer.
NOTA: 8,1.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Logo no início, percebemos duas grandes qualidades deste filme: a sua direção de fotografia e trilha sonora. Elas funcionam em duo com perfeição durante toda a produção. Ajuda muito também, para o caso da primeira, a “beleza rural” das paisagens dinarmarquesas. O diretor de fotografia Jorgen Johansson imprime um tom azulado/acizentado durante toda a produção, o que ressalta o tom “obscuro” da história. A trilha sonora de Kaare Bjerko, presente em momentos muito pontuais, aposta em guitarras e em uma levada moderna.
O elenco de Frygtelig Lykkelig funciona bem. Além dos atores principais já citados, vale comentar o trabalho de Anders Hove como Kobmand Moos, o comerciante local que se diverte prendendo garotos que tentam furtar algo de seu estabelecimento; Henrik Lykkegaard como o padre que aparece pouco, mas que visivelmente contribui com o tom moralista do vilarejo; Bodil Jorgensen como a mulher do bar, onde as pessoas se encontram para “confabular” sobre a vida pública local (e onde ocorre o duelo etílico entre Robert e Jorgen); e Peter Hesse Overgaard como Helmuth, um dos líderes do grupo que sempre está no bar e que “suja as mãos” para resolver os conflitos do vilarejo.
Frygtelig Lykkelig estreou em julho de 2008 no Festival de Karlovy Vary. Daquele dia para cá, o filme participou ainda de pelo menos outros seis festivais. Nesta sua trajetória, ele acumulou 19 prêmios e outras 10 indicações. Entre os prêmios que levou para casa estão o de melhor filme, melhor ator para Jakob Cedergren, melhor atriz para Lene Maria Christensen, melhor ator coadjuvante para Kim Bodnia, melhor direção de fotografia e um prêmio especial para Kaare Bjerko no Prêmio Bodil, entregue em Copenhagem, na Dinamarca; melhor roteiro nos festivais internacionais de cinema de Tróia e de Valladolid; e os prêmios de melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor atriz, melhor direção de fotografia, melhor roteiro e melhor música (para Riders of the Freeway, de Kira Skov) no Robert Festival, o “Oscar do cinema dinamarquês”.
Praticamente nada comentado pela crítica internacional – o site Rotten Tomatoes, por exemplo, não abriga nenhuma crítica para o filme – Frygtelig Lykkelig registra a nota 7 pela votação dos usuários do site IMDb.
Li em algum lugar na internet – infelizmente não lembro em que site – uma comparação entre este filme e Fargo, dos irmãos Coen. A comparação tem sentido. Frygtelig Lykkelig lembra um pouco ao excelente Fargo, especialmente pelo humor “macabro” (e/ou trágico) de sua história. Mas, para o meu gosto, ele fica muito abaixo da premiada produção dos Coen.
O cartaz de Frygtelig Lykkelig sugere que o filme caminha pelo terreno das produções de suspense e/ou terror. Ainda que tenha algum crime e um clima um pouco macabro, esta produção dinamarquesa não chega nem perto do segmento de terror. Não custa alertar aos fãs do gênero que podem se interessar pelo filme graças ao seu cartaz.
CONCLUSÃO: Um filme interessante sobre a tentativa de um policial em reconstruir a sua vida e que, ao se deparar com as regras muito peculiares de um pequeno vilarejo, se vê envolvido em uma intricada rede de interesses e disputas. Com uma direção de fotografia muito bonita e um roteiro que segura o interesse do espectador, o dinamarquês Frygtelig Lykkelig se mostra um entretenimento de qualidade. Mesclando em uma proporção de dois para um a ironia/sátira com crimes e um clima mórbido, este filme trata de traições, adultério e violência doméstica como panos de fundo para uma história sobre adaptação e comprometimento de um indivíduo em uma comunidade estranha e com seus próprios atos.
PALPITE PARA O OSCAR 2010: Principal premiado em dois dos festivais mais importantes da Dinamarca, Frygtelig Lykkelig se credenciou para representar o país na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2010. Mesmo tendo recebido tantos prêmios, não vejo nesta produção a qualidade e a força necessárias para que ela esteja entre as finalistas da mais conhecida premiação norte-americana. Seria um milagre Frygtelig Lykkelig aparecer na lista dos cinco finalistas – especialmente pelo fato de que a imprensa internacional praticamente ignorou a sua existência. De qualquer forma, mesmo que ele chegue até esta cobiçada lista de indicados, não acredito que ele possa ganhar de Un Prophète ou Das Weisse Band.
De Ofrivilliga – Involuntary – Involuntário Novembro 15, 2009
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Um filme bem diferente dos padrões usuais do cinema. E não apenas daquele produzido em Hollywood. De Ofrivilliga, o representante da Suécia na disputa por uma vaga no próximo Oscar, foge da obviedade do cinema médio ao apresentar uma série de histórias aparentemente desconexas. Mas, ultrapassada a barreira do visual, o espectador pode compreender a inteligência do trabalho do diretor e roteirista Ruben Östlund. Seu filme apresenta uma série de situações que refletem um bocado o comportamento de diferentes pessoas em nossa sociedade “pós-moderna”. Como a narrativa segue uma linha muito natural e propositalmente sem enquadramentos clássicos, a interpretação do que está ocorrendo fica totalmente nas mãos dos espectadores. Por esta e por várias outras razões, é o típico filme “de arte” (ou “cult”) que não deve agradar a muita gente.
A HISTÓRIA: Ao som de uma valsa, a lente da câmera vai acompanhando o trajeto de um veículo pelas ruas de uma moderna cidade da Suécia. Corta. O casal Lola (Lola Ewerlund) e Villmar (Villmar Björkman) recebem amigos em casa para celebrar o aniversário da anfitriã. Depois de um dia de celebrações, à noite, no grande momento da queima de alguns fogos no jardim, Villmar se fere ao se aproximar de uns fogos que não haviam explodido. Esta é a apenas uma das cinco histórias centrais do filme, que conta ainda a viagem de ônibus de uma conhecida atriz; o trabalho de uma professora do ensino primário e suas divergências com os colegas de trabalho; as travessuras perigosas de duas adolescentes e o reencontro de um grupo de amigos que resolve passar alguns dias apenas entre homens.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a De Ofrivilliga): Fiquei intrigada com este filme desde a sua sequência inicial. Me chamou a atenção o “contraponto” entre a valsa, uma manifestação artística originária do século 19 (aqui algumas informações a respeito da valsa), e as imagens noturnas de uma rua de uma cidade urbana qualquer dos nossos dias. Uma curiosa escolha de repertório e imagens. Mas esta seria apenas uma introdução para o que o diretor Ruben Östlund iria nos apresentar em seguida. Durante todo o filme, ele desconstrói conceitos e surpreende o espectador com sua abordagem de “desenquadramento” (falarei mais disto no final deste texto).
As imagens, parece nos dizer Östlund durante todo o filme, tem e ao mesmo tempo não tem importância alguma. Sua câmera está sempre fixa, em algum ponto decisivo para a narrativa – ainda que, como é costume no desenquadramento, muitas vezes a ação ocorra à margem do campo visual. Esse recurso não é novo – foi utilizado inúmeras vezes anteriormente, inclusive no recente 4 Luni, 3 Saptamâni si 2 Zile, do diretor Cristian Mungiu. Ainda assim, ele parece conseguir uma força ainda maior em De Ofrivilliga. Mas esta câmera estática, que muitas vezes deixa “escapar” a ação dos atores, provavelmente será um dos pontos difíceis de “engolir” pela maioria dos espectadores – afinal, estamos todos condicionados aos enquadramentos “usuais”, ou seja, no uso das câmeras para acompanhar sempre o melhor da ação.
Se o espectador conseguir vencer esta sua “resistência” a uma nova forma de narrar um filme, ele poderá, finalmente, se lançar nas histórias contadas pelo roteiro escrito por Östlund e por Erik Hemmendorff. Com um narrador “ausente” (ou “invisível”), De Ofrivilliga busca romper aquela interpretação “falsa” que toda pessoa parece assumir frente a uma câmera. Desta forma, o espectador parece “invadir” a intimidade das diferentes realidades mostradas pelo filme. Algumas vezes, esta invasão causa desconforto. Em outras, excitação. Desta forma, muito natural, Östlund vai conduzindo os espectadores por acontecimentos que fazem refletir sobre como as pessoas podem passar dos limites, de como um grupo deve sempre anular um indivíduo.
A primeira história, do casal Lola e Villmar, parece a menos “chocante” do filme. De fato, ela é a menos interessante. Ainda assim, guarda alguns aspectos curiosos – e que ajudam a reforçar a reflexão da força do “grupo” sobre o indivíduo proposta pelo diretor/roteirista. (SPOILER – não leia, a partir daqui, os próximos parágrafos se você não assistiu ao filme). Depois de um dia inteiro bebendo e confraternizando com amigos, Villmar passa dos limites e toma uma atitude totalmente “burra” ao tentar se aproximar dos fogos de artifício que não haviam explodido. Seu ato contínuo é ignorar os seus ferimentos para continuar com a festa. Afinal, o que importa é manter as aparências e ficar bem “socialmente”. Enquanto as mulheres parecem se preocupar com o anfitrião ferido, os convidados masculinos insistem em assumir a sua posição de “machos” e, assim, negar a vulnerabilidade de Villmar – e, por consequência, deles próprios.
Esta “diferença” entre homens e mulheres parece estar presente em várias histórias do filme. Para ser mais específica, na do grupo de amigos que resolve passar alguns dias juntos e na da professora que “enfrenta” o seu colega de trabalho. Mas logo falaremos destas histórias… O importante comentar é que esta “diferença” entre homens e mulheres ganha, no próprio De Ofrivilliga, um contraponto bastante curioso: o das personagens de Linnea (Linnea Cart-Lamy) e Sara (Sara Eriksson). As “barbies” adolescentes que parecem não ter limites assumem, em boa parte do filme, o papel que seria, normalmente, de rapazes de suas idades. O que pode levar a uma reflexão interessante sobre a busca de parte das mulheres por interpretar o rol dos homens na nossa sociedade “pós-moderna”.
Mas voltando aos “causos” do filme. Depois de Lola e Villmar, o espectador é apresentado a personagem de Maria (a veterana Maria Lundqvist), uma conhecida atriz que tem o “azar” de se encontrar com uma fã de seu trabalho durante uma viagem de ônibus para casa. No veículo, aliás, somos apresentados a três núcleos de personagens. Além de Maria e seu casal de fãs, o roteiro explora o “fundão” do ônibus, ocupado por um grupo de adolescentes “encrenqueiro” e, na posição oposta, na frente do veículo, ao motorista e sócio da empresa de transporte que passou recentemente por uma situação difícil após ser abandonado pela esposa. O “fundão” e a frente do ônibus acabam se enfrentando e Maria, a mulher que parece estar interpretando um papel durante todo o tempo, não tem a coragem de assumir as suas próprias responsabilidades.
Curioso o que ocorre naquele ônibus. Existe, como em praticamente todos os locais de nossa sociedade – e em diferentes histórias narradas pelo filme – um conflito entre diferentes comportamentos. Os adolescentes que ocupam o fundão do veículo tem um comportamento considerado inadequado pelos demais. Eles incomodam os passageiros adultos que, por sua vez – como no metrô, em uma sequência estrelada pelas amigas Linnea e Sara -, não se sentem confortáveis em revidar e invadir o “espaço” dos arruaceiros. Essa noção de espaço, aliás, tem peso de ouro em algumas sociedades – especialmente nas consideradas “mais desenvolvidas”. Em países como a Alemanha ou a Suécia o contato físico é restrito e o espaço de cada indivíduo, extremamente respeitado.
E a repetição deste conflito de comportamentos leva a uma estigmatização. Através dela, o motorista do ônibus, injustamente, acusa e “condena” os jovens do fundão. Eles, por sua vez, não cedem à chantagem do motorista. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Maria, a responsável pelo “ato de vandalismo” do banheiro – na verdade, um acidente – tem uma reputação a preservar. Como muitos artistas, ela veste as roupas e os trejeitos de um personagem que criou e, deste disfarce, ela não pode abrir mão. Ainda assim, fiquei chocada com a “resolução” do impasse. Infelizmente o menino que assume a culpa aprende, muito jovem, a mentir sob pressão para conseguir resolver um problema. Que lição ele terá deste evento?
Outra história explorada por De Ofrivilliga é a das amigas Linnea e Sara. Francamente, as melhores do filme. Adolescentes sem noção de perigo ou de limites, as duas “barbies” aparecem, primeiro, tirando fotos ousadas no computador. Provavelmente aquelas imagens iriam rodar o mundo, sugerindo cenas de lesbianismo – que, é quase certo, cairiam nas mãos de tarados de várias nacionalidades. Mas e quem se importa? Linnea e Sara certamente não. As meninas, junto com outros amigos e amigas, aproveitaram a ausência da mãe de Linnea para beberem muito além da medida. Primeiro em casa, depois no metrô e nas ruas.
Linnea e Sara são provocadoras e refletem o comportamento de muitos jovens nos dias atuais – de muitos mas, para nossa sorte, não de todos. A sequência no metrô, especialmente, me chamou muito a atenção. Ali, mais que em outras cenas, a dupla “dinâmica” assume o rol de rapazes de suas idades. Eu já vi garotos fazendo o mesmo que elas: bebendo álcool em garrafas improvisadas no metrô, falando alto, tentando aparecer e, se possível, provocando diretamente a algumas pessoas. Necessidade de protagonismo, certamente – efeitos, talvez, de uma sociedade onde a busca por “ser famoso” substitui a outros valores? Mas no lugar de rapazes, De Ofrivilliga nos oferece duas garotas. Interessante. Como na maioria das histórias do filme, elas ultrapassam o limite do razoável e, em certo momento, o espectador acredita que o pior está prestes a acontecer. Suspense em meio ao drama.
A quarta história explorada por Östlund é protagonizada pela professora Cecilia (a ótima Cecilia Milocco). Quando ela aparece em cena, sua turma está passando por um experimento emblemático – inclusive para se entender ao filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Através do exemplo da aluna que identifica a resposta correta mas que, sob a pressão da turma, orientada a sempre discordar dela, muda suas respostas escolhendo a opção errada, temos a resposta para o “enigma” desta produção. Um grupo, sempre, anula a capacidade de escolha do indivíduo – e, muitas vezes, o leva a fazer a escolha errada, mesmo quando ele sabe que poderia escolher o certo. A ironia do filme é que Cecilia acaba, em sua própria vida, tendo que sofrer as consequências de quem decide seguir a razão e fazer as escolhas certas, mesmo quando o grupo – neste caso, os outros professores – apontam para a direção contrária. Ela é, assim, uma das poucas que tem a coragem de trilhar o difícil – e muitas vezes solitário – caminho de se manter “limpa”.
O caso da professora também nos leva a refletir sobre a forma com que um grupo protege um de seus integrantes mesmo quando ele toma uma atitude errada. Neste caso, o problema reside no abuso do professor de artes Ulf contra o “aluno-problema” Axel. Como ocorre “no mundo real”, seus colegas usam argumentos para desqualificar a mãe da vítima e, assim, “justificar” o comportamento do professor. Revoltante – e, ao mesmo tempo, infelizmente, muito comum.
Finalizando as histórias apresentadas pelo filme, temos a do grupo de amigos liderado por Leif (Leif Edlund). Ainda vestindo roupas de trabalho, o grupo se encontra para passar alguns dias juntos, em um clássico “retiro de machos”. Nesta “recreação de adultos” um ingrediente fundamental é o excesso de bebidas. Permanentemente “embriados”, os amigos exageram nas brincadeiras e passam dos limites, em algumas situações, normalmente jogando com a questão sexual. Desejos reprimidos e homossexualidade são parte dos ingredientes deste conto.
Como em praticamente todos os grupos – especialmente o de homens -, há uma “estrela”. E ela, neste caso, se chama Leif. Ele é o personagem que provoca e que recebe todas as “avacalhações”. Visualmente, Leif se sente bem jogando este rol no grupo. O problema é que ele passa dos limites e abusa de um amigo, Olle (Olle Liljas) que, chocado, não sabe muito bem como reagir ao que aconteceu. As pessoas mudam com o tempo e, consequentemente, algumas amizades – e limites – também. Mas isso não parece ser passível de compreensão, especialmente para as pessoas que parecem não ter limites e que se sentem “invencíveis” dentro de um grupo.
NOTA: 9,2.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: De Ofrivilliga é destes filmes que vai fazendo efeito com o tempo, depois que os créditos terminam de passar frente aos nossos olhos. Inicialmente, eu não sabia muito bem o que pensar a respeito desta produção. Mas, pouco a pouco, fui refletindo sobre aquelas histórias magistralmente narradas por Ruben Östlund e seus atores. E então elas foram fazendo sentido e ganhando novos contornos. Admiro cineastas que conseguem isso, provocar o espectador a ponto dele levar a sua obra para além do tempo que dura o filme.
Que ninguém se engane com este filme: ele não tem começo e nem fim, apenas “meio”. Em outras palavras, não somos apresentados ao contexto da vida de nenhum dos vários personagens mostrados por De Ofrivilliga. Apenas acompanhamos determinados capítulos de suas vidas e, como na realidade mesma, podemos utilizar estes episódios para aprender algo (ou não, como diria o Caetano).
No início, é um pouco difícil se acostumar com a técnica do desenquadramento utilizada por Ruben Östlund. Mas depois, quando o espectador deixa de esperar que lhe sejam mostrados sempre os “melhores ângulos” do que está acontecendo, outro efeito passa a figurar nesta experiência: o do uso da imaginação. Afinal, o que acontece no espaço em que a câmera não está filmando? Cada um terá que tirar as suas próprias conclusões – o que não deixa de ser um exercício provocativo e muito interessante.
Falando em desenquadramento, vou explicar um pouco melhor do que se trata este conceito. Segundo o livro Dicionário Teórico e Crítica de Cinema, de Jacques Aumont e Michel Marie, o desenquadramento é um efeito que parece “resultar de um movimento de excentramento, rejeitando para as bordas alguns dos elementos diegéticos principais”. Esse recurso teria sido “muito produzido em pintura, depois do choque da descoberta da arte da estampa japonesa”. Aumont e Marie revelam ainda que o desenquadramento, no cinema, se apresenta como “um aspecto de uma tensão mais fundamental entre a tendência à centralização, que resulta da assimilação do enquadramento a um olhar, e a tendência para salientar as bordas do quadro, que é marcada, em alguns cineastas, no mais das vezes, a partir de uma sensibilidade pictórica”. Em outra parte do livro, os autores comentam que “existem estilos fundados na recusa da centralização, em uma descentralização ativa e voluntária ou, de modo mais radical, um desenquadramento” – que é o que reflete De Ofrivilliga.
Reproduzo aqui a sinopse curiosa do material de divulgação do filme: “A influência do grupo sobre o indivíduo. O indivíduo que pensa muito sobre a sua própria imagem. O idiota que faz piadas sujas para divertir a sua galera, duas meninas que gostam de jogar, a professora zelosa que exagera com os seus colegas… justamente na hora em que decisões limites são tomadas. Um painel da sociedade sueca como você nunca poderia esperar”. E eu acrescento que o que vemos em De Ofrivilliga não reflete apenas a sociedade sueca, mas muitas outras.
No mesmo material de divulgação, há uma interessante entrevista com o diretor e roteirista Ruben Östlund. Ele comenta, por exemplo, sobre a origem da história desta produção. “No meu primeiro longa-metragem, Gitarrmongot, eu estava interessado no tema do indivíduo que está procurando o seu lugar na sociedade. Dos personagens que agem sem levar em conta o que o grupo ao seu redor vai pensar deles. No mesmo momento, eu me vi como testemunha de situações completamente opostas: o caso de pessoas que estavam desesperadas para evitar perder o seus espaços para outros. Gitarrmongot fala de sujeitos que não se importam com o que as pessoas pensam deles. De Ofrivilliga trata daqueles que são a fonte das atenções, que estão aterrorizados com a idéia de perder sua face”.
O diretor ainda cita como exemplo um caso que ficou conhecido em seu país: “Na Suécia, todos conhecem a história do engenheiro Andrea, que tentou chegar ao Pólo Norte em um balão, uma tentativa que terminou com a morte de sua tripulação. Lendo um jornal, uma reportagem revelou que ele não acreditava na viabilidade de seu projeto. Ele estava convencido a deixar esta idéia, mas este evento se tornou tão grande – quase toda a Suécia estava participando de uma forma ou de outra – que ele não podia voltar atrás. A aventura lhe levou ao desastre. Estou convencido de que os seres humanos são animais gregários. A influência do grupo sobre os indivíduos é muito forte, fundamental”.
Como eu comentei na minha crítica, o diretor também considera que a sequência da estudante que deve apontar as linhas mais longas em uma experiência de sua professora resume, na verdade, toda a idéia do filme. “Ela sintetiza a idéia de que o grupo tem um poder irresistível sobre o indivíduo, forçado a se adaptar para se integrar”, comenta Östlund. E uma curiosidade sobre esta cena: a idéia original da sequência foi inspirada na mãe do diretor/roteirista que, como professora, havia feito um experimento similar com seus alunos. No caso do filme, a garota que aparece em cena não sabia como deveria agir a respeito de suas indicações. Não estava estabelecido no roteiro que ela deveria mudar de opinião na terceira tentativa de acertar a resposta. Ainda assim, comenta Östlund, seis das 10 estudantes que participaram das filmagens-experimentos mudaram de opinião na terceira sequência de perguntas da professora.
Sobre o título do filme, “involuntário”, o diretor comenta que “estar sob a influência de um grupo pode nos privar do nosso livre-arbítrio, mas não podemos entregar para a maioria a nossa responsabilidade individual? Em cada história (do filme, ele se refere), os personagens sentem que não tem escolha, algo que é falso: eles simplesmente não aproveitam as oportunidades que lhes são dadas. No melhor dos mundos, uma pessoa não deixaria de aproveitar a oportunidade de agir da melhor forma possível. Mas na realidade, isto é outra história… Estou ciente de que na maioria dos casos as pessoas dirão que sua reação a um fato terá sido “involuntária”, mas este é um fenômeno que se repete incansavelmente”.
Depois de comentar sobre o caso da cortina danificada do ônibus, o diretor opina que está cada vez mais difícil as pessoas reconhecerem suas falhas porque, em muitos casos, elas terão que admitir que mentiram. “Isso é (provocado) menos pela influência do grupo sobre o indivíduo, mas o próprio indivíduo, em sua relação com o grupo, que se sente obrigado a agir de determinada maneira”. Östlund comenta, ainda, que dentro da lógica de um grupo, onde existem “vítimas” e “culpados” em um jogo muito pré-determinado, todos os atos dos indivíduos acabam sendo “involuntários”.
Ruben Östlund também confirma, no material de divulgação, que sofreu a influência de diretores como Michael Haneke, Ulrich Seidl e Roy Anderson. “Eu estava muito influenciado por seus filmes. Como espectador, quando tomo consciência que estou participando de um “roteiro” (uma narrativa linear, imagino, na qual o diretor “conduz” o seu público pelas mãos), eu começo a me aborrecer. Se o público permanece focado em situações de seu cotidiano muito familiares como aquelas do meu filme, ele se sente desorientado, não percebe o enredo, não sabe muito bem aonde está. Quando você está confuso, tenta ver se está entendendo o que acontece, há mais concentração. (…) Como espectador, gosto de me sentir ativo, de que o diretor me deixe fazer parte de seu trabalho. Como cineasta, este engajamento é o que eu quero propor para o público. Este era um slogan durante as filmagens: fazer o espectador se tornar ativo. Encontrar uma linguagem visual que cresce continuamente ao perguntar “onde estou?”, “quem é este?”, “o que está acontecendo?”. Eu gosto do estilo voyeurista (…)”.
Aliás, esta é uma característica interessante do filme De Ofrivilliga. Quando ele termina, o espectador fica com um gostinho de “quero mais”. A mesma sensação despertada pelos “reality shows” que exploram ao máximo o nosso desejo de “invadir a vida alheia”, de “espiar” o que acontece no ambiente privado dos demais. Ou, como bem definiu o diretor, este estilo “voyeurista” de seu filme.
O limite entre ficção e realidade permeia toda a produção. Inclusive em detalhes, como o fato de que todos os atores interpretam personagens que tem o seu próprio nome e a ironia sobre a personagem da atriz Maria Lundqvist. Conhecida por participar de quase 30 produções para o cinema e para a televisão, Maria também é mãe de quatro filhos, assim como a sua personagem em De Ofrivilliga.
De Ofrivilliga foi escrito e dirigido por Ruben Östlund que, ainda, acumula a função de editor desta produção. O impecável trabalho da direção de fotografia é assinado por Marius Dybwad Brandrud (eita nominho complicado!).
O segundo drama dirigido por Östlund estreou, em maio de 2008, no Festival de Cannes. De lá para cá, De Ofrivilliga participou de vários outros festivais. Nesta sua trajetória, ele ganhou nove prêmios e foi indicado ainda a outros seis. Entre os que levou para casa estão o de melhor diretor no Geneva Cinéma Tout Ecran; o prêmio especial do júri do Festival de Cinema de Mar del Plata; o FIPRESCI do Festival de Cinema de Miami; uma menção especial no Festival de Cinema de Milão; e os prêmios da audiência e o de melhor roteiro do Festival de Cinema de Estocolmo.
Os usuários do site IMDb deram a 7,2 para o filme – achei um pouco baixa demais, mas algo previsível, especialmente pelo tipo de filme do qual estamos falando.
O diretor Ruben Östlund nasceu na Suécia em 1974. Amante das pistas de esquis antes de ser um apaixonado pelo cinema, Östlund teria se inspirado no tipo de filmes feitos sobre este esporte. Desta forma, lhe interessa as filmagens de longa duração, nas quais seria “impossível” dissimular qualquer ação. Seu primeiro longa-metragem de drama – antes ele havia dirigido a dois documentários -, o filme Gitarrmongot, ganhou o prêmio FIPRESCI no Festival Internacional de Cinema de Moscou, em 2005.
CONCLUSÃO: Um filme inteligente e nada óbvio. Difícil de cair no gosto de muita gente. Mas para os que ousarem assistir a um filme que quebra o nosso costume por sermos levados “pelas mãos” dos diretores – e seus enquadramentos ágeis -, De Ofrivilliga pode surpreender por seus conceitos e por seu conteúdo crítico sobre a influência dos grupos sobre os indivíduos. Com uma câmera colocada sempre na posição de um “observador” displicente (ou seria ausente?), este filme resgata o nosso gosto pelo voyeurismo na mesma medida em que “incomoda” por não nos mostrar todos os detalhes da ação – deixando, assim, muito a cargo da imaginação do espectador. De forma muito natural e com planos longos de enquadramentos estáticos, De Ofrivilliga explora cinco histórias em que ocorrem diferentes formas de “ultrapassar os limites”. Uma produção curiosa, instigante e que passa a ter mais sentido depois que aparecem os seus créditos finais.
PALPITE PARA O OSCAR 2010: Ainda que De Ofrivilliga merecesse estar entre os cinco finalistas ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro do próximo Oscar, infelizmente eu acho muito difícil este filme sueco chegar tão longe. Primeiro, porque ele não é destas produções que devem cair fácil no gosto popular. Muito pelo contrário. Consequentemente, De Ofrivilliga não foi feito para o Oscar, onde predominam os filmes que tem forte apelo comercial. Uma pena, porque pela proposta artística de Ruben Östlund ele merecia chegar entre os finalistas. Ganhar, claro, é algo impossível. Filmes como Un Prophète ou Das Weisse Band tem muito mais força que De Ofrivilliga. O que apenas comprova que, nem sempre, os melhores ganham mais espaço ou prêmios. (Dito isso, quero comentar que ainda acho Un Prophète, até o momento, o melhor filme entre os indicados).
Max Manus Novembro 12, 2009
Posted by Alessandra in Cinema, Cinema alemão, Cinema europeu, Crítica de filme, Filme premiado, Movie, Oscar 2010.add a comment
Os acontecimentos envolvendo a 2ª Guerra Mundial não páram de render filmes – em Hollywood e em outras indústrias pelo mundo. Em 2008, Defiance foi lançado dentro de uma “onda” de revisão histórica ao mostrar um aspecto pouco conhecido da guerra: a resistência de judeus aos nazistas. Max Manus, produção de 2008 que chegou apenas este ano no mercado internacional, segue a mesma linha de revisão histórica. Menos “heróico” que Defiance, o filme norueguês dirigido por Joachim Ronning e Espen Sandberg destaca o heroísmo e a fragilidade de um líder que, ao perder seus amigos, questiona a validade de seus próprios atos. Um filme menos hollywoodiano e mais realista, ainda que ele só cresça realmente muito perto do final.
A HISTÓRIA: Através da reprodução de reportagens em diferentes jornais desde 1923, o filme reproduz alguns dos fatores que antecederam a chegada dos nazistas ao poder na Alemanha. O mesmo recurso é utilizado para mostrar a invasão da Polônia e a consequente declaração de guerra da França e do Reino Unido contra Hitler. Mas a ação propriamente dita começa com o protagonista Max Manus (Aksel Hennie) luta do lado dos finlandeses durante a invasão russa no país vizinho. Manus começa sua trajetória na guerra em março de 1940 como um dos voluntários noruegueses na frente de batalha finlandesa. Apenas três meses depois, ele e um grupo de amigos conversam em Oslo, capital da Noruega, sobre a importância de criarem um grupo de resistência em seu próprio país – que havia sido invadido pelos nazistas nos meses precedentes. A partir deste momento, o espectador é apresentado a história deste grupo de resistência que atuou até o final da guerra.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Max Manus): Sempre que uma leva de produções trata, basicamente, do mesmo assunto, o espectador fica um tanto “cansado” e com a sensação de “mais do mesmo”. Não sendo o promeiro filme dentro da lógica de “revisão histórica” da 2ª Guerra Mundial, Max Manus sofre um pouco com esta impressão. Mas o filme, pouco a pouco, vai se mostrando diferente dos demais. Para começar, ele se mostra importante para a cultura de seu país de origem.
Apenas o tempo pode nos fazer olhar de maneira diferente para um fato determinado. Lá pelas tantas na história de Max Manus, o protagonista comenta, ao ler uma notícia em um jornal, como os “vitoriosos” em uma guerra podem, rapidamente, transformar “patriotas” em “terroristas”. Seu melhor amigo, Gregers Gram (Nicolai Cleve Broch), confirma que sim, e continua escrevendo um manifesto dos chamados “terroristas/patriotas” em resposta a esta versão oficial nazista. Uma das contribuições interessantes do filme é esta reflexão sobre a importância, na mesma proporção, da ação e do discurso para que um ideal revolucionário tenha êxito. Afinal, quem pretende mudar um sistema ou uma realidade deve saber que, quem está no poder, também utiliza estes meios para conseguir sua supremacia.
Mas a questão da propaganda, seja nazista ou revolucionária, é um dos assuntos secundários do filme. O núcleo narrativo do roteiro de Thomas Nordseth-Tiller gira em torno das ações da 1ª Companhia Norueguesa Independente, treinada na Escócia, e que atuou especialmente em missões de sabotagem contra o comando nazista em seu país invadido. Max, Gregers e outros homens passaram a investir contra os invasores de seu país. A partir de abril de 1943, com o apoio de seu grupo de amigos em Oslo, Max e Gregers deram início a suas missões.
A história do grupo liderado por Max Manus é interessante e, realmente, heróica. Imagino que os noruegueses sentiram uma emoção especial ao assistir a esse filme – o que justifica, também, a sua indicação para a disputa na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no próximo Oscar. Mas além de contar uma história de resistência e que tem importância para os noruegueses, Max Manus se revela um filme muito bem acabado tecnicamente.
O espectador conhece paisagens simplesmente belíssimas através de uma direção de fotografia impecável de Geir Hartly Andreassen. A trilha sonora de Trond Bjerknes também é perfeita e muito bonita, trabalhando todo o tempo para ressaltar os momentos mais dramáticos do roteiro. Através da história do grupo de resistência norueguês o público confere algumas das paisagens mais bonitas daquele país e da Escócia. A narrativa de Max Manus é linear, mas intercalada por alguns flashbacks do protagonista que parece “assombrado” (ou seria “inspirado”?) por sua experiência no campo de batalha finlandês. Merece destaque também o figurino assinado por Manon Rasmussen.
Ainda que centrado em um personagem, o que dá nome ao filme, Max Manus abre muito espaço para os demais participantes do grupo de resistência contra os nazistas. O contraponto ao “herói norueguês” que apenas quer o seu “país de volta” é o oficial nazista Siegfried Fehmer (Ken Duken) que, desde a corajosa fuga de Manus do hospital em que ele estava internado, empreende uma caçada contra o líder da resistência. Como em Defiance, no filme de Ronning e Sandberg há espaço para o romance. Manus conhece, através de seu amigo Gregers, a Tikken (Agnes Kittelsen), uma funcionária do consulado britânico em Estocolmo – para onde os amigos se dirigem sempre que completam uma missão.
Baseado em fatos reais, Max Manus esclarece, nos créditos finais, o que aconteceu com seus principais personagens após o fim da guerra – um recurso conhecido e quase “obigatório” em histórias do gênero. Sabemos, graças a ele, que o romance entre Manus e Tikken foi real – o que não impede, como ocorreu antes com Defiance, que esta história de amor se torne um bocado deslocada do restante da narrativa. Por outro lado, algo importante, como a influência determinante dos ingleses neste movimento de resistência norueguês ganha pouco espaço e é abordado de forma bastante superficial pelo roteiro de Nordseth-Tiller. Algo comprensível, já que estamos falando de um filme que ajuda no resgate do “orgulho norueguês” durante a 2ª Guerra Mundial.
A maior parte do tempo, Max Manus se mostra apenas correto – e envolvente, ao ter sua história bem narrada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas o que torna este filme diferente de outras produções do gênero é a sua reflexão perto do final, quando o protagonista não sabe o que fazer de sua vida depois de ter “vencido” a guerra. Sozinho em um salão de festas, ele percebe que perdeu praticamente todos os seus amigos e que não tem com quem celebrar a queda dos nazistas. A sequência que começa com Manus visitando ao prisioneiro Fehmer e que termina com sua conversa com Tikken é realmente de arrepiar. O grande momento do filme, sem dúvida, e que faz com que o mesmo valha a pena. Afinal, de que serviu tantas batalhas se as pessoas que eram importantes para ele haviam morrido? Claro que a história não termina ali e, com o tempo, Manus perceberá que sim, o esforço teve um significado maior.
NOTA: 8,6.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo interessante de Max Manus é que ele não procura transformar os seus personagens em heróis instantâneos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Claro que Manus, em especial, é visto como um sujeito valente e destemido mas, desde o início, do outro lado da balança destas suas qualidades, fica muito evidente que ele era um rapaz jovem, descuidado e um tanto inconsequente. Manus tinha menos ideais (e/ou visão política) que seu amigo Gregers Gram. Sujeito simples, sem uma formação intelectual mais densa, Manus queria que tudo voltasse a como era antes da invasão nazista. Empolgado com a insatisfação de seus amigos, ele viu na resistência uma oportunidade de ser útil e, ao mesmo tempo, lutar ao lado dos garotos com quem cresceu. Mas ao mesmo tempo em que ele era capaz do gesto mais heróico, era capaz também de atirar em si mesmo – em um acidente que foi decisivo para seu grupo. O filme mostra, assim, como normalmente os “heróis” de cada país não passam de sujeitos comuns que souberam, sob determinadas circunstâncias, ter uma atitude correta.
Como comentei rapidamente antes, o movimento de resistência à invasão nazista na Noruega recebeu uma influência e um apoio decisivos do Reino Unido. Para os ingleses, a Noruega era um ponto estratégico na guerra contra os nazistas, especialmente devido a sua proximidade com a costa britânica.
Interessante que aqui é possível encontrar várias informações sobre a Noruega, em um portal do país feito para o Brasil por sua embaixada. Por ali é possível saber um pouco mais sobre o Rei Harald, atual líder do país, que segue o regime de monarquia constitucional.
Para os interessados neste capítulo da 2ª Guerra Mundial, deixo aqui um link para um texto interessante de um portal específico sobre aquele período histórico.
Pelo roteiro de Max Manus, parece um tanto “forçada” a relação entre o oficial nazista Siegfried Fehmer e a norueguesa Solveig Johnsrud (Viktoria Winge). Mas a verdade é que ela se mostra condizente com o que ocorreu na época. Segundo esta reportagem da BBC, durante a guerra “os nazistas incentivavam uniões entre soldados alemães e mulheres norueguesas como parte do plano para criar uma raça superior ariana, com bebês de olhos azuis e cabelos loiros para o Reich de Mil Anos”.
Todo o elenco de Max Manus está bem – ainda que, pessoalmente, eu não tenha visto nenhum grande destaque. Além dos atores já citados, vale a pena destacar o trabalho de Mats Eldoen como Edvard Tallaken, um dos envolvidos no movimento de resistência norueguesa e que foi condecorado com a Cruz de Guerra; Kyrre Haugen Sydness como Jen Christian Hauge, o contato de Manus e de seus amigos com o governo inglês; Christian Rubeck como Kolbein Lauring, um dos sobreviventes do grupo inicial formado por Manus; e Knut Joner como Gunnar Sonsteby, participante da resistência como articulista.
Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para o filme. Os críticos foram mais generosos com a produção. O site Rotten Tomatoes, que divulga links para diferentes críticas disponíveis na internet, por exemplo, revela 12 críticas positivas e apenas duas negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 86%.
Uma das críticas positivas para Max Manus foi escrita por Peter Brunette, conhecido articulista da Hollywood Reporter. Neste link é possível ler seu texto original, no qual ele comenta que o filme segue uma linha “clichê-normal” de histórias do gênero. Para Brunette, Max Manus consegue, basicamente, duas coisas: se aproximar do padrão de Hollywood em relação a uma qualidade de produção elevada (o que garante cenas de ação interessantes e repetitivas) e, perto do final do filme, apresentar um desânimo profundo de seu protagonista quando, finalmente, ele toma uma pausa em suas ações para dar-se conta de que perdeu todos seus amigos. O crítico avalia que o filme sempre se mostra interessante, e ressalta o interesse na discussão entre a eficácia da propaganda para “ganhar a opinião pública” e as ações diretas contra os nazistas que resultam na morte de vários civis. Brunette resume, no final: “nada disto é novo, mas funciona”.
Outro comentário positivo para o filme (que pode ser lido neste link) foi publicado no The Sun Online. O texto ressalta que Max Manus é um bom filme de guerra à moda antiga no qual se destaca a escolha por uma trama tensa de espionagem em lugar de cenas de batalha em que predomina o recurso da computação gráfica. A crítica destaca ainda o trabalho do ator Aksel Hennie, que dá a profundidade exata para o protagonista – diferente de outros atores que primam por uma interpretação superficial, como Ken Duken e seu nazista Siegfried Fehmer (que acaba ficando estereotipado, segundo o The Sun).
Max Manus estreou na Noruega em dezembro de 2008. Este ano, o filme participou de três festivais, incluindo o de Toronto, e estreou no circuito comercial de três países. Em 2010 ele chegará até a Dinamarca e a Alemanha.
Até o momento, o filme ganhou sete prêmios e foi indicado ainda a outros quatro – todos no Amanda Awards, o principal prêmio de cinema da Noruega. Max Manus recebeu, no Amanda de agosto deste ano, os prêmios de melhor filme, melhor ator para Aksel Hennie, melhor direção de fotografia, melhor roteiro, melhor atriz coadjuvante para Agnes Kittelsen e melhor direção de som.
Uma curiosidade da produção: para as cenas em que apareciam soldados nazistas foram utilizados até 1,8 mil figurantes.
Max Manus custou 50 milhões de Krone norueguês – o que equivaleria a quase US$ 9 milhões. Depois de estrear nas salas de seu país, Max Manus se tornou o recordista nas bilheterias em sua semana de estréia: ele foi visto por 184,2 mil espectadores, superando a marca conquistada anteriormente por Kautokeino-opproret.
Pouco depois de Max Manus estreiar na Noruega, o roteirista Thomas Nordseth-Tiller foi diagnosticado com câncer. Ele morreu vítima da doença em maio deste ano.
Ah, e depois de assistir a este filme, me vejo obrigada a diminuir um pouco a nota de Defiance. Para ser mais justa.
Max Manus é uma co-produção da Noruega, da Dinamarca e da Alemanha.
CONCLUSÃO: Inspirado em fatos reais do movimento de resistência norueguês durante a ocupação nazista daquele país, Max Manus é um filme mais realista do que Defiance. Nele, é possível perceber como os “heróis” da história são sujeitos comuns que valorizam a liberdade de seu país na mesma medida em que defendem os laços de amizade de seu grupo. Com belíssimas paisagens, uma trilha sonora envolvente e um roteiro e uma direção corretos, Max Manus contribui para a recente revisão histórica dos fatos envolvendo a 2ª Guerra Mundial. Narrado de forma linear, com algumas inserções de flashbacks do protagonista, o filme só peca por deixa suas reflexões mais importantes restritas aos minutos finais – em uma busca, provavelmente, por seu “grand finale”. Ainda assim, é uma história interessante de ser conhecida.
PALPITE PARA O OSCAR 2010: Sucesso na Noruega, Max Manus dificilmente terá o mesmo apelo em outros países. Por isso mesmo, e por se tratar de uma história um tanto “repetitiva”, dificilmente esta produção conseguirá figurar entre as cinco finalistas para o próximo Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Mas, se acaso ela chegar até lá, não acredito que terá a força para vencer a “favoritos” como Un Prophète ou Das Weisse Band.
Madeo – Mother Novembro 10, 2009
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Do que uma mãe é capaz para proteger o seu filho? Para alguns, não existe amor maior do que o de mãe. Madeo, novo filme do badalado diretor Bong Joon-ho, explora ao máximo a capacidade do amor materno em um inusitado filme de suspense e investigação policial. Como no recentemente comentado aqui no blog Chugyeogja, em Madeo a polícia se mostra incapaz de resolver satisfatoriamente qualquer investigação. A impressão que temos é que os coreanos estão perdidos com a sua polícia local. Representante da Coréia na disputa por uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro no próximo Oscar, Madeo respeita a tradição recente da boa safra vinda daquele país em uma história cheia de reviravoltas e drama. Desta vez, em lugar de vários crimes e cenas de violência, há mais emoção em cena.
A HISTÓRIA: Uma mulher caminha por um campo seco. Não sabemos se ela está fugindo ou procurando algo. De repente, ela começa a fazer movimentos compassados, como se dançasse. Ela se emociona e, quando está anoitecendo, coloca a mão dentro de seu casaco, repetindo um gesto que se tornou famoso na figura de Napoleão. Ela estaria louca? A cena é cortada. A mesma mulher, agora, pica em uma guilhotina ervas medicinais. Dentro de sua loja, ela acompanha com o olhar ao filho, Yoon Do-joon (Won Bin), que brinca com um cachorro do lado de fora. O rapaz, que sofre com uma doença mental, acaba sendo atropelado por um carro. Com o amigo Jin-tae (Jin Goo), Do-joon segue para um campo de golfe com a intenção de “se vingar” dos ricaços que o atropelaram. Eles acabam parando na delegacia, onde a mãe (Kim Hye-ja) de Do-joon aparece para levar o filho para casa. Na noite seguinte, após esperar o amigo Jin-tae em um bar durante muito tempo, Do-joon segue a Moon Ah-jeong (Moon Hee-ra) no caminho de volta para casa. A garota aparece morta na manhã seguinte e Do-joon é preso sob a acusação de assassinato. Mas a mãe dele, certa de que o filho é inocente, faz de tudo para libertá-lo da prisão.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER -aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Madeo): Joon-ho Bong é um sujeito curioso. Ele consegue, como poucos, extrair suspense de situações banais do cotidiano. O argumento de Madeo é dele, e o roteiro, uma parceria do diretor com Eun-kyo Park. Bong retoma a figura do protagonista “um tanto lento demais”, vista anteriormente no megasucesso Gwoemul. Mas em Madeo, mais do que o personagem de Do-joon e seu problema mental, rouba a cena uma mulher forte, obstinada e que não sabemos, até que ponto, também não sofre com algum distúrbio mental.
Possivelmente muitos irão descordar de mim. Podem enxergar na protagonista do filme apenas a figura de uma mãe superprotetora e desesperada por ter um filho. Mas não sei, por várias revelações que Madeo nos traz sobre o passado e novas atitudes desta mulher, eu tenho dúvidas se ela também não apresenta algum distúrbio psicológico grave. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). É impressão minha ou ela tem mudanças de humor muito repentinas? Talvez ela sofra com um transtorno bipolar… ou, frente a tantos problemas com o filho, ela tenha desenvolvido uma depressão crônica. Ou ainda sejam apenas manifestações da menopausa.
O problema de Do-joon também pode render debates. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Alguns críticos afirmaram que ele sofreria de autismo. Será? Não sou formada na área de psicologia ou psiquiatria, por isso não vou me arriscar a diagnosticá-lo (mas se algum especialista quiser contribuir neste sentido, será bem/vindo(a). Inicialmente, achei apenas que ele sofria de um certo “retardo mental” mas, lendo um pouco mais a respeito, também acho possível que ele sofra com esquizofrenia ou com uma psicose maníaco-depressiva. Acho estas últimas duas alternativas mais viáveis do que o autismo – afinal, ele não parece tão isolado do mundo assim.
Estas questões psicológicas são importantes para o filme porque explicam, como no caso de Gwoemul, as razões de muitas escolhas dos protagonistas que parecem equivocadas. No caso de Madeo, mãe e filho são extremamente co-dependentes um do outro – ainda que Do-joon tente, pouco a pouco, almejar uma vida um pouco mais independente. Mas a mãe de Do-joon quis tanto ter o filho que foi capaz de ingerir ervas para ajudar-lhe a engravidar e, depois que ele nasceu, fazer de tudo para protegê-lo deste “mundo vil”. (Ainda que, como a personagem de Medeia, ela tenha pensado/tentado acabar com a vida de seu rebento quando criança).
Aliás, mais uma vez, pela ótica do diretor, vivemos em uma sociedade que não respeita as diferenças e que tem, até que se prove o contrário, uma grande aversão aos “retardatários”, aos que não podem se destacar por sua inteligência, poder ou talento. Do-joon e sua mãe são vistos, não apenas pelos policiais, pelo advogado ou pelos professores que aparecem no filme como “gente de segunda categoria”. Em geral, até mesmo o “amigo” de Do-joon, Jin-tae, parece considerá-los dignos de piadas e de desrespeito. A sociedade, vista pelo diretor, é um celeiro de exclusão, de atos bárbaros e egoístas.
Madeo surpreende por nos contar uma história de investigação policial muito diferente dos padrões. Para começar, a protagonista e “detetive” deste roteiro é uma mulher simples, com pouca cultura e pobre. A protagonista “corta um dobrado” para cuidar do filho e sobreviver. Além de vender ervas, ela pratica a acumputura de forma ilegal. E estas suas agulhas… rendem alguns momentos de tensão no filme. Voltando ao que eu dizia, Bong tem a arte de exprimir tensão e suspense das situações mais simples. Seja através das agulhas de Hye-ja, do uso de uma pequena guilhotina ou na queda de uma garrafa de água, as lentes do diretor sempre estão a postos para exprimir os detalhes de momentos e expressões cruciais.
Em Madeo, como na maioria dos filmes de suspense e/ou terror recentes da filmografia coreana, predominam também as reviravoltas do roteiro. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Honestamente, no início, eu pensei: “Do-joon ter recomeçado a andar depois de terem jogado aquela imensa pedra não quer dizer nada. Ele pode ter dado meia volta e matado a menina”. Mas, francamente, a atuação de Kim Hye-ja é tão convincente, assim como o permanente estado de ausência da realidade com alguns rompantes de extrema lucidez de seu filho que fui sendo levada pelo roteiro.
Acreditei na versão de ambos de que o rapaz era inocente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim, fui fisgada pelas quatro grandes surpresas da reta final desta produção. Primeiro, a descoberta do verdadeiro criminoso pela mãe de Do-joon. Depois, a manobra desesperada, que resulta em um novo crime, para encobrir a verdade; a culpa de permitir que um inocente respondesse pela morte de Moon Hee-ra e, finalmente, a queda da última máscara. A partir da visita da protagonista ao catador de lixo o filme ganha em suspense, velocidade e força. E, para ser franca, fiquei muito surpresa com as reviravoltas da história… quando o espectador pensa que tudo terminou, que as surpresas terminaram, aparecem novos golpes. Para mim, o maior deles foi quando a mãer de Do-joon permitiu que JP fosse preso pela morte de Hee-ra.
(SPOILER – não leia… você sabe). Com estas reviravoltas finais, Madeo muda totalmente de sentido. A mãe dedicada e capaz de fazer tudo pelo filho, a virtual segunda “vítima” desta história – depois do “inocente” Do-joon acaba se revelando, na verdade, a grande culpada pelo drama e pelos crimes do roteiro. O assassinato de Hee-ra passa pela educação que a mãe deu para o filho, ensinando-o a revidar sempre que fosse agredido. Aliás, eis em Madeo uma prova de que a violência nunca é a melhor resposta contra a ignorância ou o desrespeito. Depois, o homicídio do catador de lixo é provocado diretamente pela protagonista. Sem contar o absurdo de permitir que outra pessoa respondesse pelo crime inicial. A mãe, no fim das contas, é a grande vilã desta história – algo totalmente impensável, no início. Esta grande reviravolta na história e na “alma” do filme só comprova o talento de Joon-ho Bong como contador de histórias. Ele merece a fama que tem.
NOTA: 9,3.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: A interpretação de Kim Hye-ja é simplesmente inebriante. A atriz rouba a cena sempre que aparece na frente das lentes de Bong Joon-ho. Ela mostra, na medida certa, determinação, fragilidade e loucura. Um desempenho que merecia, sem dúvida, alguns prêmios.
Como geralmente acontece no caso dos filmes coreanos, Madeo teve um orçamento relativamente baixo – pelo menos para os padrões hollywoodianos: US$ 5 milhões. Certamente, pelo sucesso que o diretor Bong Joon-ho tem em seu país de origem e em toda a Ásia, o filme deve conseguir um bom lucro.
Além de ter sido indicado para o próximo Oscar, Madeo concorre na categoria de Melhor Filme do Festival de Cinema de Mar del Plata, que começou a ser celebrado no último sábado e segue até o dia 15 na Argentina. Antes, Madeo estreou em outro festival, o de Cannes, em maio deste ano. O filme participou ainda de nove outros festivais pelo mundo – inclusive as últimas edições do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Crítica e público demonstram que estão gostando de Madeo. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para o filme, enquanto que os críticos que tem textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 13 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção – o que lhe garante uma aprovação importante de 93%.
Para quem não entendeu a minha piada lá encima sobre Napoleão, quero relembrar que o poderoso governante ficou conhecido, através de um quadro, por uma pose ereta na qual ele mantinha uma de suas mãos dentro do casaco, na altura do estômago. Neste texto curto do site da Mundo Estranho eles trazem algumas explicações para a pose no quadro do pintor Jacques-Louis David.
Na cobertura de Cannes, a crítica Maggie Lee escreveu este texto para a Hollywood Reporter sobre Madeo. Interessante quando ela comenta que Bong Joon-ho confirma o seu talento prodigioso em subverter qualquer gênero para que ele sirva para “sua própria visão idiossincrática”. Para Lee, Madeo marca um trabalho muito mais autoral do diretor – se comparado ao comercial Gwoemul -, o que deve resultar em algum sucesso de público e, especialmente, um importante respaldo da crítica. E ela está certa. Madeo tem menos apelo popular porque se mostra muito mais complexo do que o grande êxito anterior de Joon-ho. Curioso também que Lee classifica Madeo como um filme com um “roteiro de detetitive habilmente traçado que é acelerado como um thriller de suspense de Hitchcock”.
Gostei, no texto de Maggie Lee, especialmente dos trechos em que ela analisa a técnica de Bong Joon-ho neste seu último filme. A crítica comenta, por exemplo, como os longos closes da expressão da protagonista servem tanto para “hipnotizar como para enervar” o espectador. Em outros momentos, comenta Lee, as lentes do diretor mostram aquela mãe em campos infinitos ou em quadros com montanhas enevoadas, o que tornaria a sua personagem praticamente uma mancha na paisagem. Isso revelaria, simultaneamente, a insignificância e a ligação daquela mãe com a Natureza. Bem analisado. Lee ressalta ainda que em nenhuma cena são enquadradas mais do que duas pessoas, e que o uso de uma paleta de cores primárias com o predomínio de um “triste esfumaçado azul e de um vermelho enferrujado petulante” criam um modo sustentado de “claustrofobia e desconforto”. Maravilhosa a crítica, para resumir.
Outro crítico, Derek Elley, da revista Variety, classificou como injusta a ausência de Madeo entre os competidores de Cannes. Neste texto, Elley destaca como Joon-ho Bong subverte os filmes sobre mães do cinema asiático, deixando para trás a idéia de produções onde predomina a “fortaleza feminina, a devoção de irmãos e a sacarina”. O crítico também revela que, para o público coreano, Madeo subverte em outro sentido: ao modificar, radicalmente, a figura da atriz Kim Hye-ja, uma “lenda doméstica” construída durante 30 anos no sentido de interpretar mães amorosas(especialmente em papéis para a TV).
O crítico da Variety destaca o trabalho do elenco, chamando o elenco de um time de “craques”. E ele está certo. Além da já citada/elogiada Kim Hye-ja, se destacam nesta história o “ídolo teen irreconhecível”, na opinião dos críticos, Won Bin. Ele consegue uma interpretação natural e que foge da caricatura através do inconstante personagem de Yoon Do-joon. Jin Goo faz o papel de viril da história, protagonizando algumas das sequências mais tensas de Madeo. Merecem menção ainda Yoon Je-moon, que intepreta o investigador policial Je-moon; Jeon Mi-seon como Mi-seon, uma das vizinhas da protagonista que frequenta suas sessões de acupuntura e que, sem querer, acaba dando uma pista importante para a investigação da mãe de Do-joon; Lee Yeong-seok que, mesmo aparecendo pouco, faz um trabalho muito sensível como um catador de lixo; e Cheon Woo-hee, que interpreta Mi-na, a namorada de Jin-tae que fascina também a Do-joon.
Da parte técnica do filme, merecem destaque o diretor de fotografia Hong Kyung-pyo (chamado também de “alex”), a trilha sonora de Lee Byeong-woo, a edição de Moon Sae-kyoung e a edição de som de Choi Tae-young (seu trabalho tem uma importância fundamental para o filme).
Algo que achei interessante neste filme é como ele consegue misturar o “antigo e o moderno” no cotidiano dos sul-coreanos. Madeo se passa em um pequeno vilarejo onde convivem pessoas como a protagonista, que mantêm costumes milenares, como o uso de ervas e a aplicação da acumputura para resolver problemas de saúde, e estudantes como Moon Ah-jeong. A turma desta última era um celeiro de ousadia e contravenções. Sua amiga, Hyung-teo (Lee Mi-do) se “especializou” em alterar celulares para convertê-los em “câmeras de espiãs”. Outros estudantes, como Kkang-ma (Jeong Yeong-gi) ou Ddung-ddung (Ko Gyoo-pil) se divertiam com a idéia de explorar sexualmente meninas fragilizadas, não pensando duas vezes em usar a violência para encobrir os seus deslizes. Uma nova geração que, por isso e muito mais, se mostra o oposto daquela da protagonista – e o curioso é que Madeo apenas esboça o choque cultural entre estas realidades.
Para os interessados no site oficial do filme, por enquanto só estão disponíveis as versões em coreano e japonês. Se alguém puder entender algo…
Para escrever esta crítica, foi fundamental para mim a consulta ao banco de dados de filmes coreanos Hancinema. Muito bom o site, aliás. Recomendo.
CONCLUSÃO: A nova investida do badalado diretor coreano Joon-ho Bong demonstra como ele se especializou em subverter gêneros e conceitos estabelecidos. O realizador brinca com a figura de dois atores conhecidos na Coréia do Sul ao levá-los a assumir papéis muito diferentes do que o público está habituado. Misturando drama e suspense policial, Madeo segue a trilha de roteiros bem costurados e cheios de reviravoltas da safra recente do cinema coreano. Com interpretações impecáveis e uma direção inspirada, este filme desconstrói as relações de dependência entre mãe e filho, alternando o entendimento entre loucura e sanidade. Impecável tecnicamente e surpreendente no enredo, Madeo ainda aborda a ineficácia da polícia e a falta de respeito da sociedade com os que fogem de seus padrões ideais. Um filme de respeito, com alguma dose de violência e algumas surpresas que podem provocar indignação.
PALPITE PARA O OSCAR 2010: Representante da Coréia na disputa para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro para a próxima edição do Oscar, Madeo dificilmente conseguirá uma vaga entre os finalistas. Digo isso não porque ele não mereça. Mas é que o estilo e a ousadia de Joon-ho Bong não me parecem adequados para os padrões dos votantes da Academia. Posso estar enganada, claro. Kim Hye-ja e o roteiro de Bong mereciam uma indicação. Como isso é praticamente impossível de acontecer, pelo menos o filme poderia ficar entre os cinco selecionados na categoria de produção estrangeira. O problema é o que o Oscar tende a selecionar filmes menos “obscuros” ou, vendo por outra ótica, mais “comerciais”. Madeo foge destes padrões. Mesmo merecendo estar entre os cinco – pelo menos por enquanto, analisando os filmes que já assisti e que concorrem a uma vaga nesta categoria -, para mim, ele ficará de fora da disputa.
Saw VI – Jogos Mortais 6 Novembro 8, 2009
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O terror de Jigsaw voltou a dar as caras com Saw VI. Divulgado como sendo o filme mais violento da série, esta nova produção repete boa parte da fórmula utilizada até aqui – no quesito sanguinolência e gosto por torturas e mortes brutais – ao mesmo tempo em que lança novas luzes sobre o idealizador dos jogos macabros. Deve agradar, por tudo isso, aos fãs de Jigsaw que acompanharam todas as produções até agora. Da minha parte, admito, não assisti a todos os filmes anteriores. Mas até que gostei desta nova produção, especialmente porque ela tenta se aprofundar nas motivações de Jigsaw mais do que simplesmente ocupar o tempo do espectador com novos aparatos de morte.
A HISTÓRIA: Uma mulher desperta com um estranho e pesado aparato metálico preso na cabeça. À sua frente, Eddie (Marty Moreau), seu parceiro em um negócio de agiotagem. Simone (Tanedra Howard) sabe, imediatamente, em que jogo macabro eles estão metidos e, por isso, tenta impedir que Eddie se movimente. Mas em vão. Quando ele levanta da cadeira, uma nova cilada de Jigsaw começa a correr no cronômetro. Com esta introdução cheia de automutilação e sangue o espectador é inserido em mais um conto estrelado por Jigsaw/John (Tobin Bell) que, mesmo morto, continua fazendo as suas vítimas.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só contineu a ler que já assistiu a Saw VI): Serei honesta. Não tenho muita paciência com a série de filmes Saw. Assisti aos dois primeiros, mas depois me cansei. Diferente dos antigos filmes estrelados por Jason Voorhees ou Freddy Krueger que eu gostava de assistir nas sessões de madrugada, Jigsaw é um “astro” dos filmes de terror muito mais sanguinolento e sádico. Um pouco acima do tom, para o meu gosto. Digo isso porque, ao receber a “missão” de assistir a esta sexta produção estrelada pelo “assassino justiceiro”, eu tive que buscar críticas dos filmes anteriores para entender tudo o que se passava. Primeira dica: para entender completamente o que ocorre em Saw VI, só tendo assistido a todas as produções anteriores.
Diferente de outras produções lançadas sobre um mesmo personagem, Saw VI exige que os espectadores estejam bem familiarizados com a história. Do contrário, fica difícil acompanhar o roteiro de Marcus Dunstan e Patrick Melton. Mas, ao mesmo tempo, esta escolha dos produtores da série faz com que o filme não perca tempo explicando o que os fãs já sabem. Quem estava ansioso, por exemplo, para saber o conteúdo da caixa entregue para Jill (Betsy Russell) como herança de John no filme passado, terá a sua curiosidade saciada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como era de se esperar, a tal caixa trazia novos alvos para os jogos mortais.
A vítima principal, desta vez, foi William Easton (Peter Outerbridge), vice-presidente da Umbrella Health, uma seguradora que determina quem “vive ou morre” através de uma fórmula que calcula os riscos de cada plano de saúde. Claro que tal fórmula, criada por Easton, sempre privilegia a empresa – nunca o segurado. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Entre outras “vítimas” da Umbrella Health estava o rico John que, mesmo podendo pagar do próprio bolso o seu tratamento, não se conforma com a política antiética de Easton. Não podendo se vingar em vida, John cuida para que seu alvo passe por longas provações através de outras mãos.
Como ficou evidente no filme anterior, o cúmplice de Jigsaw em seus planos de vingança é o detetive Hoffman (Costas Mandylor). A cena em que ele se livra do agente especial Peter Strahm (Scott Patterson) volta a ser repetida após os créditos iniciais do novo filme. Saw VI, aliás, é cheio de cenas de flashback e de vídeos gravados por John – graças a eles que o personagem se torna tão presente na nova trama. O roteiro de Melton e Dunstan corre, paralelamente, em três direções: nas investigações sobre o novo crime que repete o “modus operandi” de Jigsaw; no novo plano de vingança de John e na revelação de novos detalhes sobre a relação que o protagonista mantinha com Jill e Hoffman.
Em meio a “tanta história”, como é costume nos filmes da grife Saw, o espectador é “brindado” por várias cenas de assassinato e tortura estreladas por diferentes aparatos criados para estes fins. Neste quesito, sobra pouco para ser inventado – afinal, este é o sexto filme que tenta trazer novidade neste sentido. Ainda assim, Saw VI deve agradar aos fãs da grife por suas sequências com jogos mortais e, especialmente, por trazer um roteiro que se aprofunda um pouco mais nas motivações e na “filosofia justiceira” de John Kramer.
Agora, uma pequena reflexão sobre o sucesso da série Saw. Sei que vocês podem comer o meu fígado por isso (não literalmente, eu espero… hehehehehehe), mas acho, honestamente, que a série desperta no público uma certa “saciedade” do gosto pela punição dos aproveitadores, dos que não tem caráter e daqueles todos que não parecem ter um senso mínimo de moral. Pelo menos é isso o que sugere Jigsaw e seu espírito vingador e, ao mesmo tempo, que tenta “despertar o gosto pela vida” de quem parece não ter apreço por ela. Seria a série Saw uma forma das pessoas verem a sua própria necessidade por “justiça” saciada? É uma forma de ver este fenômeno… Ainda que eu ache que é preciso ter um bom gosto mórbido para curtir tantas cenas de violência e mutilação.
NOTA: 8,5.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Certamente, muitos leitores deste blog devem ficar surpresos com as notas que eu tenho dado recentemente para alguns filmes. Como, por exemplo, dedicar uma nota 8,5 para Saw VI. Quero deixar claro – ainda que eu já tenha falado disso anteriormente – que eu avalio os filmes dentro de seus próprios contextos. Ou seja: nunca poderei comparar jabuticaba com mamão. Em outras palavras, é impossível medir com o mesmo peso e a mesma medida uma comédia romântica, um filme de terror ou uma animação – só para citar as últimas críticas. Avalio, sempre, os filmes dentro do que eles se propõe e dentro, principalmente, da história de cada gênero. Certo? Por isso eu posso sim dar uma nota maior para um filme totalmente “interesseiro” como Saw VI do que para uma produção “artística” como De Profundis. Espero que eu tenha me feito entender – e se não fiz, sinto muito aos que acompanham o blog.
Comentei, recentemente, sobre Saw VI no Pílulas Vermelhas. Como eu dizia por ali, realmente, eu não tinha intenção de falar sobre este filme aqui no blog… mas a notícia da “censura” espanhola me chamou a atenção. E, como ocorreu com outros filmes que eu comentei recentemente aqui no blog, só assisti a nova produção estrelada por Jigsaw pela força dos compromissos. Me pediram uma crítica sobre o filme e… voilà, eu o assisti. Mas, francamente, este e outros filmes que comentei recentemente não estariam nem entre as 10 próximas produções escolhidas para ocupar meu tempo. Mas paciência… trabalho é trabalho.
E até que, algumas vezes, nos surpreendemos positivamente com algumas encomendas como estas.
Falando em “censura” do Ministério da Cultural espanhol, agora que eu assisti a Saw VI posso afirmar sem sombra de dúvidas: foi um exagero deles terem classificado este filme na categoria X. Lembrando – para os que não leram o meu comentário no Pílulas Vermelhas – que Saw VI foi o primeiro filme de terror a receber a classificação X, até então restrita aos filmes pornô, na história da Espanha. O ministério definiu esta classificação alegando que o filme fazia “apologia da violência”. Francamente, se era para dar esta classificação para Saw VI, todos os filmes anteriores da grife mereciam o mesmo “selo”. E não apenas eles, mas outras produções que exploram detalhes de assassinatos e torturas – a lista é um bocado grandinha nestes termos.
Vários personagens importantes para a “saga” de Jigsaw voltam à cena. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Entre eles, Amanda Young (Shawnee Smith), a agente Perez (Athena Karkanis) e Lynn (Bahar Soomekh). Muitos deles, claro, aparecem apenas através de flashbacks – afinal, eles estão mortos. Um dos acertos do novo roteiro é o de lançar novas informações sobre o final de Saw III – os filmes, os fãs da série sabem, não seguem, necessariamente, uma ordem sequencial.
O diretor Kevin Greutert, editor dos outros cinco filmes da grife Saw, faz um bom trabalho com esta nova entrega. Na verdade, ele faz um trabalho correto, mas pouco inventivo. O filme caminha bem graças ao roteiro da dupla Dunstan e Melton que, inclusive, está escalada para o próximo filme sobre Jigsaw. Mas um problema de Saw VI, para mim, foi a acelerada que a produção dá no final, com uma edição cheia de cortes rápidos um pouco exagerados. Esta parte destoa demais do restante do filme – mas deixa claro, para o espectador, que haverá uma nova produção com jogos mortais.
Falando no próximo filme, Saw VII está, atualmente, em fase de pré-produção. Mas os produtores já adiantaram que ele será dirigido por David Hackl, o homem por trás de Saw V – o que, para muitos fãs, não é exatamente uma boa referência. Existe a possibilidade do filme ser feito em 3D. Se confirmada esta hipótese, ele talvez não fique pronto para o Halloween em terras estadunidenses de 2010 – época em que ele tem sido lançado desde o segundo filme da “saga de Jigsaw”. Além do protagonista interpretado por Tobin Bell, está confirmado o nome de Tanedra Howard para o próximo lançamento – a mulher sem braço poderá buscar vingança após sair do hospital? É uma hipótese…
Ainda é cedo para saber o quanto Saw VI irá faturar nas bilheterias dos Estados Unidos e dos demais países. Mas sabemos que, apenas em duas semanas em cartaz na terra do Tio Sam, o filme arrecadou pouco mais de US$ 22,5 milhões. Uma marca importante – e que demonstra como a fórmula ainda não está totalmente desgastada.
Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para o novo filme de Jigsaw – a melhor avaliação desde Saw II. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 24 críticas positivas e 30 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 44%.
Uma curiosidade: Saw VI é uma co-produção dos Estados Unidos, do Canadá, do Reino Unido e da Austrália – o primeiro filme, dirigido por James Wan, tinha recursos apenas do primeiro e do último país citado.
CONCLUSÃO: O mais novo filme sobre Jigsaw mistura trama policial, drama e novos jogos mortais para agradar em cheio aos fãs da grife. O resultado é um filme que se aprofunda nas motivações e na “filosofia vingadora” de John Kramer na mesma medida em que revela o conteúdo da caixa deixada por ele como herança para sua parceira Jill. Saw VI começa com cenas fortes de mutilação e sanguinolência para, depois, desacelerar o ritmo e, como pede uma narrativa clássica, voltar a acelerar sua narrativa perto do final. Para o que este filme se presta, ele é bem feito e envolvente. Recomendado, especialmente, para quem assistiu aos filmes anteriores da série.
De Profundis Novembro 8, 2009
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Sempre que um cinema não é acostumado a produzir determinado tipo de filme, o desafio se torna ainda maior para seus realizadores. A Espanha, por exemplo, não tem uma grande tradição em filmes de animação. De Profundis, obra escrita e dirigida por Miguelanxo Prado, por isso mesmo ganha certa importância na filmografia espanhola. Esta produção nasceu cheia de boas intenções e, francamente, com algumas imagens e uma trilha sonora belíssimas. Mas seu principal problema é a sua duração. O trabalho de Prado e do compositor e músico Nani Garcia não sustenta os aproximadamente 70 minutos de duração do filme. De Profundis seria muito mais interessante se durasse metade deste tempo.
A HISTÓRIA: Em uma casa em meio ao mar, existe um estúdio com algumas obras que projetam a vida nas profundezas das águas. Peixes coloridos, sereias e um barco estilizado são alguns dos protagonistas daqueles quadros. Abaixo, nas escadarias da casa que vão dar no mar, uma violoncelista de cabelos vermelhos toca uma música encantadora a espera de seu amado. Ele, o artista dos quadros, passa perto da casa. Viajando junto à pescadores da região, o artista busca na lida dos trabalhadores do mar a inspiração para suas obras. Mas um acidente irá levá-lo para lugares que ele nunca imaginou visitar.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a De Profundis): A intenção dos realizadores deste filme resume bastante o produto final que o espectador pode assistir. De Profundis, claro está, não foi planejado para chegar ao grande público ou para ser um fenômeno nas bilheterias. Miguelanxo Prado tinha claro, quando pensou em um projeto como este, que ele cairia no gosto de poucos. E isso se deve, basicamente, pelo caráter artístico de sua obra.
Para começar, é preciso comentar que De Profundis é um filme sem diálogos e que, basicamente, é narrado por suas imagens e pela música. A intenção de Prado e do compositor Nani Garcia era a de criar um “poema visual”. Para conseguir tal feito, o diretor utiliza técnicas de animação digitais em 3D aplicadas sobre a base de 15 mil desenhos feitos por ele a lápis de cor e também em óleo, aquarelas e pinturas nas quais foram utilizadas técnicas mistas. Para realizar esta produção, uma das únicas do gênero no mundo, Prado levou quatro anos de trabalho – dois para as pinturas e desenhos e outros dois para o restante do processo.
O resultado deste trabalho é um filme envolvente, na maior parte do seu tempo, e que apresenta uma profusão de cores e, principalmente, de nuances de azul para os espectadores. Somos convidados a mergulhar junto com o protagonista desta animação pelas águas mais profundas e misteriosas, conhecendo uma versão muito particular de Prado dos seres que habitam (de forma real ou ficcional) aquele entorno marinho. Como a base do filme são as obras do diretor, para dar “cadência” para a história Prado utiliza técnicas de movimento secundárias e terciárias, como a aproximação de quadros, closes, panorâmicas, entre outros recursos que buscam exprimir movimento de imagens estáticas. Esta característica do filme ganha interesse do espectador durante parte da história – mas, lá pelas tantas, a narrativa da produção fica tão morna e um tanto repetitiva que chega a cansar.
De Profundis conta uma história de amor entre um artista e uma música e, também, um conto de amor do artista para com sua arte e seu objeto de admiração, o mar. Lírico e bem desenhado, o filme merece uma chance – mas é bom que o público esteja preparado para o que irá assistir. Segundo seus produtores, De Profundis é voltado para o público jovem e de adultos – crianças, na verdade, dificilmente aguentariam esta obra de arte sem diálogos. A intenção de Prado, volto a dizer, é muito boa, mas sua história acaba sendo singela demais para sustentar 70 e tantos minutos de projeção. Faltou, talvez, um pouco mais de ousadia ou de surpresas na própria narrativa.
Como qualidades deste filme, destaco o tom onírico de parte da obra de Prado. O artista mistura cenas da vida mais simples, da lida de homens com o mar, com imagens de sonho e de arte. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sabemos, por exemplo, até que ponto aquela viagem do artista pelo “fundo do mar” não é, nada mais, nada menos, que sua passagem da vida para a morte. Curiosamente, todas as cenas que ele presencia depois do acidente de barco refletem a sua própria visão do fundo do mar – seria coincidência ou uma projeção de Paraíso que ele próprio criou? Esta talvez seja a reflexão mais interessante que este filme provoca.
NOTA: 7,5.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: De Profundis seria perfeito como um curta-metragem. Mas, no caso de seu realizador achar que um curta não seria suficiente para contar esta história, ela deveria ter, no máximo 40 ou 35 minutos de duração.
Esta animação teria custado econômicos 1,5 milhão de euros, desembolsados por uma produtora espanhola e por uma produtora portuguesa. As duas contaram com o apoio de diferentes organismos públicos e privados da Galícia, território limítrofe entre os dois países situado nas terras do Rei Juan Carlos.
Curioso que De Profundis nasceu de uma conversa de seu diretor com Nani Garcia em um restaurante. Prado desenhou, na cobertura da mesa daquele estabelecimento, a imagem de um homem submergindo no mar. Este homem, ao mesmo tempo em que flutuava na água, contemplava uma baleia. A partir desta imagem, Prado começou a criar outros desenhos que contassem a história daquele homem que vivia em sintonia plena com o mar e seus seres.
Miguelanxo Prado nasceu em A Coruña e se tornou, a partir dos anos 1980, um dos nomes mais importantes da Espanha no segmento de histórias em quadrinhos e de ilustrações. Ele acumulou, neste tempo, variados prêmios por seus trabalhos, que incluem ainda incursões em pinturas e desenhos animados para a televisão. De Profundis marca a estréia de Prado na direção de uma animação convencional para os cinemas.
Em entrevistas para diferentes jornais espanhóis, Prado comentou que seu filme, por se tratar de um poema visual, necessita das imagens na mesma medida que precisa da música. Mais que a história, comenta o diretor, para De Profundis o que interessa é são as reações que as imagens e a música podem provocar nos espectadores. “Esta é uma proposta poética, mais que narrativa”, sentencia Prado.
O parceiro de Prado neste projeto, o compositor espanhol Nani Garcia, se formou musicalmente na Suécia. Músico de jazz, produtor musical, compositor e regente, Garcia tem em seu currículo pouco mais de 50 trabalhos feitos para longas, séries de TV, peças de teatro, espetáculos de balé, documentários e exposições. Com o grupo Clunia, na Espanha, ele ganhou vários prêmios.
Criada por Garcia, a trilha sonora do filme é executada pela Orquestra Sinfônica da Galícia e tem participações, em algumas músicas, do Coro Cantabile e da cantora Ainoha Arteta.
De Profundis estreou, oficialmente – antes ele teve uma rápida participação no Festival de Sitges – no Palácio da Ópera de La Coruña, com o acompanhamento, ao vivo, da Orquestra Sinfônica da Galícia. Certamente, foi uma ocasião inesquecível.
Nesta matéria, Prado definiu seu filme como “um passeio onírico de um personagem através de uma história de amor alterada por seu mundo criativo. E é uma homenagem ao mar, nossa reserva de vida e esperança, e símbolo de nossos pesadelos e sonhos”.
Para os interessados em saber um pouco mais sobre o filme e seu autor, recomendo esta entrevista de Miguelanxo Prado para o jornal Público. Nela, ele comenta, entre outros detalhes, como sua obra, que classifica como “pintura animada”, não se aproxima em nada dos filmes da Disney ou da Pixar. Uma de suas intenções com De Profundis, ele comenta, foi a de “manter no filme uma série de coisas que desaparecem na animação tradicional, como é o caso da textura, da matéria, o traço pessoal do autor, o trabalho com a cor completa e não cores planas, etc.”.
Não há informações sobre o resultado nas bilheterias do filme, mas Prado afirma que ele não perdeu dinheiro ao entrar no circuito comercial de algumas salas de cinema na Espanha.
Nesta entrevista para o jornal El País, Prado comenta que havia pensado, inicialmente, no filme como uma obra para adultos, mas que se surpreendeu como crianças de 5 ou 6 anos haviam gostado do filme – mesmo não entendendo todas as suas nuances. Para o autor, sua obra é recomendada para os que não tem pressa. Outros detalhes sobre esta produção podem ser vistos nesta reportagem do jornal El Mundo.
Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para De Profundis. O Rotten Tomatoes, por enquanto, abriga apenas uma crítica. Positiva, inclusive, e assinada por Jonathan Holland, da Variety.
De Profundis é uma co-produção espanhola e portuguesa.
CONCLUSÃO: Uma animação muito diferente do que estamos acostumados a assistir. De Profundis é uma obra de arte animada, produzida de forma muito autoral por seu criador, roteirista e diretor, o espanhol Miguelanxo Prado. Sem diálogos, este filme foi planejado como um “poema visual” que joga com as noções de amor, sonho, arte e criatividade. Uma grande homenagem ao mar e aos detalhes de um trabalho artístico, no qual ressaltam as texturas, o uso de luz e de variados nuances de cores. Mesmo abrigando imagens belíssimas, é um filme que cansa um pouco por sua duração. Ele poderia, definitivamente, ser mais curto. Recomendado apenas para quem poderá resistir a um ritmo muito diferente das produções comerciais da Disney, da Pixar e de outros estúdios onde predomina o cinema dependente de efeitos de computador. De Profundis nada contra esta corrente e investe em desenhos e pinturas, em um trabalho muito artesanal.
(500) Days of Summer – 500 Dias com Ela Novembro 8, 2009
Posted by Alessandra in Cinema, Cinema norte-americano, Crítica de filme, Movie.2 comments
A fórmula das comédias românticas estava, há algum tempo, bastante desgastada. As produções do gênero sempre giravam em torno de uma história na qual um garoto se apaixonava por uma menina (ou vice-versa) e, depois de vários percalços, eles conseguiam ficar juntos. Ou então um casal que estava junto no início e que acabava se separando, passando por diversas provações até que, por fim, se unia novamente. Como ocorre com qualquer fórmula desgastada, de tempos em tempos, alguns roteiristas e diretores se unem para trazer novos ventos para um gênero. (500) Days of Summer aparece como mais um projeto bem-sucedido neste sentido. O filme apresenta um roteiro inteligente, que faz referência a uma série de “ícones” da cultura pop moderna, e um casal encantador e talentoso. Uma produção perfeita para agradar ao público feminino, espectador cativo das comédias românticas e, porque não, até mesmo ao público masculino por inverter alguns papéis tradicionais e resgatar o rock inglês dos anos 1980.
A HISTÓRIA: Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt) e Summer Finn (Zooey Deschanel) estão sentados lado a lado no banco de um barque parque. No calendário do relacionamento deles, este é o dia 488. Voltamos então para o primeiro dia desta história, quando o arquiteto Tom, que trabalha em uma empresa que cria e lança cartões para diferentes datas, conhece a Summer, a nova secretária de seu chefe, Vance (Clark Gregg). O narrador conta como Tom cresceu acreditando que jamais seria feliz, até que conhecesse “a” garota – tudo culpa do pop britânico e do filme The Graduate. Summer, por outro lado, nunca superou totalmente a separação dos pais e não acreditava na felicidade em um relacionamento duradouro. Mas Tom acredita que Summer é a “a” garota de sua vida e, por 500 dias, ele segue alimentando a crença de que existe apenas um grande amor em sua vida.
VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a (500) Days of Summer): Adoro roteiros inteligentes e com ótimas sacadas. E o trabalho de Scott Neustadter e Michael H. Weber neste filme é repleto destas qualidades. Para começar, com o jogo feito com o título. Como na maioria das músicas do pop rock inglês dos anos 1980 – algo fundamental para esta história -, o título original tem parte da informação entre parênteses e joga com o duplo sentido. (500) Days of Summer pode ser entendido como o período em que Tom ficou obcecado pela garota, Summer, ou pelo conceito de “dias de Verão” – que, para muitos, é o auge da adolescência e da descoberta amorosa. Bem sacado! E este é apenas um de inúmeros detalhes desta produção.
Não sei vocês, mas eu vinha de uma tendência a estar cansada de comédias românticas. A razão, é muito simples (e comentei sobre ela antes): ultimamente, as produções do gênero pareciam sempre “mais do mesmo”. Mas para a sorte de quem gosta de um bom filme, nos últimos tempos produções como He’s Just Not That Into You (comentada antes aqui no blog) e esta (500) Days of Summer têm aparecido para dar um novo ânimo às comédias românticas ao jogar com seus conceitos mais fundamentais – e tirando sarro deles, em muitas ocasiões. E isso, pelo menos para o meu gosto, é ótimo.
Os roteiristas e o diretor Marc Webb brincam com o conceito espaço e, principalmente, tempo neste filme com o super afinado e carismático casal vivido por Joseph Gordon-Levitt e Zooey Deschanel. Utilizando técnicas diversas, que vão desde a inserção de “vídeos” ao estilo caseiro até depoimentos que parecem fazer parte de um documentário e o recurso da tela dividida em narrativas diferentes e que correm paralelas, Webb se lança na procura de diferentes plataformas para prender a atenção do espectador. E o melhor é que cada mudança destas funciona por se justificar perfeitamente na história – elas estão, literalmente, colocadas na hora e no local adequado.
Mas para o grande público, que não se interessa tanto pelas características técnicas de cada produção, um dos detalhes que deve cair direto no seu gosto é a trilha sonora de (500) Days of Summer. Para o deleite de quem viveu os anos 1980 – ou quem, pelo menos, se interessa por esta época -, há uma profusão de música oitentista. A trilha começa por The Smiths, The Clash, e segue por Black Lips, Regina Spektor e, até uma aparentemente deslocada Carla Bruni. Tudo, absolutamente, funciona bem na levada musical desta produção. The Smiths, aliás, ganha um apelo todo especial nesta história porque, afinal, graças a banda de Morrissey é que Tom e Summer se aproximam.
O roteiro envolvente, cheio de referências e sacadas, também segura a onda em seu constante vai-e-vem temporal. Sempre com a ajuda de um estilizado contador de tempo, acompanhamos o fim do relacionamento de Tom e Summer e, depois, basicamente, o processo de conquista da garota e a dor de cotovelo do rapaz. (500) Days of Summer deve cair no gosto das meninas porque ele traz uma série de momentos “bonitinhos” – o sempre maravilhoso auge do amor – e, especialmente, um casal encantador.
Mas o curioso deste filme é que ele pode, também, cair no gosto dos meninos – que, normalmente, curtem este tipo de filme mais para acompanhar as suas namoradas e mulheres do que por uma escolha própria. Digo isso no geral, claro, sabendo que existe uma infinidade de exceções. Mas voltando ao que eu dizia… até o público masculino deve gostar deste filme porque, afinal, quem nunca se decepcionou no amor? (500) Days of Summer inverte os papéis tradicionais da “garota-que-acredita-no-amor-eterno” e do “rapaz-que-não-quer-compromisso”, inversão essa que talvez seja mais comum nos nossos tempos do que gostaríamos de admitir e, também por isso, deve agradar aos meninos.
A tentativa de Tom e seus melhores amigos, McKenzie (Geoffrey Arend) e Paul (Matthew Gray Gubler) em entender Summer e, de quebra, as mulheres, também deve agradar aos rapazes. Esse recurso é bem batido, é verdade, mas mesmo isso não atrapalha ao filme. Outro recurso muito conhecido é o de utilizar uma menina bem mais nova, no caso, uma pré-adolescente, para dar conselhos para o “marmanjo” do protagonista. Quem assume esta posição em (500) Days of Summer é a atriz Chloe Moretz, que interpreta a Rachel Hansen, que dá um baile de ironia e maturidade no seu irmão, Tom.
(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Uma curiosidade da história escrita por Neustadter e Weber é que ela toca em uma situação até que bastante comum na vida real: garotas (e também garotos) que tem uma certa resistência em se comprometer seriamente e que, depois de namorar por bastante tempo com uma pessoa, terminam esse relacionamento e, não muito tempo depois, conhecem outra pessoa com quem, finalmente, aceitam se casar. Isso é algo curioso e que realmente acontece. A questão é que, como Tom aprenderá com a experiência com Summer, cada um tem o seu tempo e a sua própria experiência em um relacionamento. Algumas vezes, simplesmente, a segurança necessária para se lançar em algo mais sério não aparece da mesma forma para um casal.
Além de todas as qualidades comentadas anteriormente, é importante dizer que (500) Days of Summer ganha o espectador pelos detalhes. Por exemplo, na inserção de esquemas e desenhos para explicar parte do que acontece com Tom ou Summer. A ligação destes traços visuais com a história tem a ver com a vocação de Tom, que se formou arquiteto. Gostei muito também das referências que o filme faz a outras produções. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mais do que citar/mostrar The Graduate, (500) Days of Summer brinca com o cinema “mais sensível e de arte” das escolas francesa e sueca, por exemplo – com homenagens escancaradas a Persona e Det Sjunde Inseglet, assim como para Star Wars (em uma genial inserção de uma cena de Han Solo) e Song of the South, quando da aparição do pássaro azul da sequência à la musical. Simplesmente genial e delicioso!
NOTA: 9,4.
OBS DE PÉ DE PÁGINA: Mesmo tendo uma coleção de momentos deliciosos, (500) Days of Summer poderia ter evitado alguns recursos que, para mim, estão batidos demais. Por exemplo, as linhas iniciais de “apresentação” do filme, que reforçam a idéia de “dor-de-cotovelo” dos realizadores. Convenhamos: tudo isso é forjado. Apenas um recurso a mais para ganhar a simpatia do público masculino. Se essa fosse a primeira vez que alguém utilizasse esse recurso em um filme, tudo bem. Mas desde os geniais do Monty Python o uso subversivo de mensagens em créditos iniciais ou finais não é mais novidade.
Apesar destes créditos iniciais “capengas” (por serem manjados), o filme logo convence com uma ótima edição e um texto do narrador que serve como introdução para o ótimo roteiro de Scott Neustadter e Michael H. Weber. Mas o filme “me ganhou” realmente nos créditos iniciais, com a tela dividida meio a meio apresentando supostos “vídeos caseiros” que mostravam a evolução dos protagonistas da infância até a adolescência. Perfeito – e totalmente pop! Aliás, merece destaque a ótima edição de Alan Edward Bell. Ele acerta na mosca, também, quando narra, novamente em uma tela dividida ao meio, a realidade e a expectativa de Tom sobre uma noite em que Summer lhe convida para uma festa.
Todos os atores estão muito bem neste filme. Mas admito que fiquei encantada com os protagonistas, excelentes, e com a menina Rachel, interpretada pela ótima Chloe Moretz. Ela, como em Little Miss Sunshine e outros filmes recentes com uma personagem do tipo, tem algumas da melhores linhas do roteiro para si. Sarcasmo e maturidade prematura no tom exato.
Marc Webb destila algumas das sequências de comédia romântica mais bacanas feitas recentemente – com especial destaque para o momento “compras” na loja da Ikea e para a sequência em que eles estão indo de carro para o cinema.
Uma observação consumista: adorei a parte em que Tom e a irmã estão jogando uma partida de tênis em uma Wii. Me deu saudades da minha…
E isto prova como este filme, mais do que a média dos últimos tempos, abriga alguns dos conceitos e dos produtos mais representativos do nosso tempo.
Totalmente recomendável aos que não assistiram a The Graduate, um dos melhores filmes deste gênero de todos os tempos, que o assistam. Sem dúvida, ele deixará mais claro alguns conceitos da relação de Tom e Summer – eu, inclusive, fiquei com vontade de assistir novamente a The Graduate.
Merece menção o trabalho de Mychael Danna e Rob Simonsen com a trilha sonora e o de Eric Steelberg na direção de fotografia.
(500) Days of Summer teria custado US$ 7,5 milhões e arrecadado, até o dia 1 de novembro, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 32,2 milhões. Um pequeno fenômeno de bilheteria que, certamente, chegou a esta multiplicação de lucros graças a boa e velha propaganda boca-a-boca. Merecido.
Como os bons filmes independentes fazem, (500) Days of Summer estreou no Festival de Sundance deste ano, em janeiro. Depois disto, ele participou de 21 festivais. Uma marca impressionante. Ainda assim, ele não ganhou prêmio algum até o momento.
Este filme conseguiu uma boa cotação entre público e crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para (500) Days of Summer, enquanto que os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 159 críticas positivas e 24 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 87%. A revista Empire, por exemplo, considerou o filme como um dos mais originais de seu gênero este ano.
E uma curiosidade: o filme favorito do roteirista Scott Neustadter é… adivinhem? The Graduate, é claro.
CONCLUSÃO: Uma comédia romântica saborosa e inventiva. (500) Days of Summer brinca com o gênero ao qual pertence e destila uma série de referências da cultura pop, do rock inglês dos anos 1980 até várias produções do cinema. Bem escrito, com uma direção cuidadosa e uma dupla de protagonistas encantadora, este é, sem dúvida, uma das boas surpresas do gênero este ano. Por inverter alguns papéis tradicionais no jogo da conquista – algo que, novamente, reflete a nossa época -, este filme deve agradar tanto ao público feminino quanto ao masculino.



















