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The World is Big and Salvation Lurks Around the Corner

27 de janeiro de 2010 4 comentários

A vida é como um jogo de gamão. Esta é a mensagem principal de uma das grandes surpresas na reta final do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano. Representante da Bulgária na disputa pela cobiçada estatueta dourada, Svetat e Golyam i Spasenie Debne Otvsyakade (que no mercado internacional recebeu a tradução literal de The World is Big and Salvation Lurks Around the Corner) é um filme surpreendente. Ele segue a escola de outras produções que ensinam valores importantes e refletem sobre a forma com que uma pessoa se coloca frente ao mundo de uma maneira muito simples e, ao mesmo tempo, se destaca por uma produção impecável. Contando com um ator soberbo, um jovem talento promissor e uma direção de fotografia estonteante, este filme pode surpreender na disputa e conseguir um lugar entre os cinco indicados ao prêmio. Diria que ele ou o holandês Oorlogswinter tem mais a “cara do Oscar” que outros fortes concorrentes.

A HISTÓRIA: O nascimento de Aleksander Georgiev, apelidado de Sashko (Carlo Ljubek) marca a vida de sua família. O garoto veio ao mundo no dia 15 de setembro de 1975, e seu parto começa essa história. Em algum lugar dos Balcãs, “onde a Europa termina, mas nunca começa”, a gentil e suave Yana (Ana Papadopulu) dá a luz a Sashko. Enquanto a mulher grita de dor, seu marido, Vasil (Hristo Mutafchiev), conhecido como “Vasko”, espera ansioso por notícias no corredor do hospital. Enquanto isso, a avó de Sashko (Lyudmila Cheshmedzhieva) sai à caça de açúcar para preparar quitutes para celebrar o nascimento do neto, e o avô do garoto prestes a nascer, chamado por todos de Bai Dan (Miki Manojlovic), confronta um adversário para se tornar o novo Rei do Gamão local. Em um corte rápido, a história de Sashko pula para o momento em que ele viaja com os pais por uma estrada de acesso à cidades da Alemanha. Eles sofrem um acidente e Sashko perde a memória. Com a ajuda de Bai Dan, ele faz uma viagem de encontro à sua própria identidade e aos valores de sua família.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The World is Big and Salvation Lurks Around the Corner): Logo nos primeiros minutos desta produção o espectador tem certeza de algo: este é um filme que valoriza cada linha de seu roteiro. As frases e a forma com que o diretor Stephan Komandarev constrói a narrativa por meio das imagens tem um lugar certo e um sentido bem planejado. Nada, absolutamente nada, sobra ou está fora do lugar. Esta é uma característica mais comum no cinema europeu – ainda que, em certas ocasiões, o cinema de Hollywood também opta por este cuidado. De qualquer forma, é sempre um prazer encontrar um filme que cuide de cada mínimo detalhe. The World is Big (vou abreviá-lo assim, ok?) é um destes casos.

O roteiro escrito por Komandarev junto com Yurii Dachev e Dusan Milic é uma delícia. Saboroso nos detalhes e sutil na maior parte do tempo, o texto convence tanto quando é apresentado por seu narrador – Sashko – quanto nas vozes de cada um de seus atores. E falando no elenco… impressionante quando um filme tem um grupo de atores comprometido e que se preocupa com a obra e não com os holofotes (como é o caso de muitos atores de Hollywood). Mesmo que Miki Manojlovic se destaque no papel do avô maluquete do protagonista (e não sei vocês, mas não consegui olhar para ele, na fase de “mais idade”, e não me lembrar do Einstein), todos os demais incorporam seus personagens com esmero. Mais um diferencial deste filme em relação a outras produções mais irregulares.

Na verdade, é difícil encontrar algum ponto negativo em The World is Big. Além do roteiro inspirado e cuidadosamente planejado, do elenco afinado e convincente, a direção de Komandarev se mostra segura e precisa. Como um maestro de uma orquestra, Komandarev executa cada movimento com cuidado e aproveita o melhor de cada elemento do conjunto – com destaque, além dos elementos que eu já citei, para a direção de fotografia de Emil Hristow. The World is Big não teria o apelo e a força que tem se não fossem as paisagens da Bulgária, da Alemanha, da Itália e da Eslovénia cuidadosamente captadas pelas lentes dos diretores.

Todos estes elementos ajudam a encantar o espectador, mas sem dúvida a sutileza da história e a sua “poesia simples” é o que torna este filme diferente de todos os demais concorrentes ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano. Certo que esta produção lida com alguns lugares-comum. Por exemplo, ao fazer o paralelo entre as regras e malícias de um jogo e seu paralelo nos desafios da vida. Esta idéia foi explorada anteriormente, por distintas produções, roteiristas e diretores, mas no lugar do gamão, eram focados ensinamentos de xadres ou sinuca, por exemplo. Também não é a primeira vez que uma viagem pessoal de um desmemoriado provoca reflexões sobre valores, pessoas que fazem ou fizeram parte de sua vida e uma releitura da própria trajetória de seu protagonista.

Mas se estes dois pontos, o do paralelo entre um jogo e a vida e a “revisão histórica” de um indivíduo e de sua família não são, exatamente, originais, o que torna The World is Big tão interessante? Primeiro que o filme é tudo isso, mas ainda mais. Como pede uma produção que é universal e ao mesmo tempo muito particular – a velha história do “glocal” -, The World is Big revela para o espectador alguns pontos sobre a cultura e a história da Bulgária pouco conhecidos. Um dos temas mais importantes do filme, por exemplo, é a pressão política pela qual o país passou após a Segunda Guerra Mundial e o predomínio comunista em seu território.

Considerado até hoje um dos países mais pobres da União Européia, a Bulgária viu muitas pessoas deixaram o seu território buscando melhores oportunidades em outros países ou, simplesmente, tentando escapar do conservadorismo comunista. Este tema, assim como costumes de búlgaros comuns – representados pela família Georgiev e seus amigos – torna a produção mais rica e interessante. Mesmo de forma trágica e nada desejada, Sashko consegue o “sonho de consumo” de todo imigrante: não ter um passado ao qual se apegar.

Mas o jovem, que já se sentia um bocado perdido antes mesmo de perder a memória, não tem muito tempo para “aproveitar” essa liberdade que uma vida sem passado pode lhe dar. O divertidíssimo Bai Dan, avô do protagonista, não pensa em lhe deixar sem raízes – até porque, para ele, a família, o passado e os valores aprendidos com ambos é o que tornam uma pessoa o que ela é. E ele tem razão, é claro.

Bai Dan vai, pouco a pouco, ensinando as regras do jogo – e como “jogo” é possível entender o conceito como “gamão” ou “vida” – para o neto desmemoriado. Sashko aprende, na prática, que uma viagem de autodescobrimento passa por sacrifício, pela dor mas, também, pela intensa sensação de liberdade e de que temos “o mundo nas nossas mãos”. O filme é lindo, no conceito, nas paisagens, na forma com que é narrado e na emoção que provoca com naturalidade. Para ser mais perfeito, contudo, ele poderia se explicar um pouco menos.

No início, por exemplo, Bai Dan solta pérolas como “O mundo é grande e a salvação espreita na virada da esquina” – que, aliás, dá título ao filme – ou “Você deve acreditar nos dados. Pense em dois números. Agora jogue”. Na primeira afirmação, ele demonstra como a incrível chegada de açúcar de Cuba, tão distante da pequena Bulgária, pode ter salvado a festa de nascimento de seu primeiro neto. Por mais complicada que seja uma realidade, o mundo é muito grande e nele estão todas as oportunidades e possibilidades. Basta caminhar para a frente e, quem sabe na próxima esquina, encontrar a tão desejada salvação.

Na segunda pérola, Bai Dan está ensinando o pequeno Sashko, então com sete anos, como jogar gamão. Mas, muito mais que isso, ele está contando o segredo da vitória na vida mesma. Ou seja: para conseguir que algo dê certo, você deve pensar no que quer, desejar aquilo profundamente, “acreditar nos dados” e jogar (leia-se se arriscar). O bestseller O Segredo, de Rhonda Byner, parece seguir a mesma linha, não? Agora, uma pena que o filme, lá pelas tantas, torne estes ensinamentos sutis um tanto óbvios demais – ou, em outras palavras, quando as pérolas começam a ser explicadas por A + B. Achei desnecessário isso – e, mesmo assim, darei a nota abaixo para filme. Admitindo, antes, que sim, sou uma pessoa sentimental. ;)

NOTA: 10 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para muitos – e eu me incluo neste grupo – a escolha de The World is Big and Salvation Lurks Around the Corner entre os nove pré-selecionados para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro foi uma surpresa. Francamente, eu não tinha ouvido falar desta produção made in Bulgária. Sua chegada entre os finalistas tirou de cena outros títulos mais comentados pela crítica internacional, como é o caso do boliviano Zona Sur, do finlandês Postia Pappi Jaakobille, do iraniano Darbareye Elly ou mesmo do coreano Madeo. Não assisti a maioria dos que ficaram de fora da lista, mas ao conferir The Wold is Big algo ficou claro: este filme pode surpreender ainda mais. E achei totalmente justificada a sua escolha entre os finalistas. Uma grande produção, sem dúvida.

Explicando melhor o que eu quis dizer antes com o “glocal”: há muito tempo especialistas sobre os efeitos da globalização na cultura e na comunicação afirmam que um projeto, para se diferenciar dos demais e ter êxito no panorama atual, deve preocupar-se em “pensar de forma global e agir de forma local”. Essa parece ter virado uma regra para os filmes nacionais. Eles devem apresentar uma mensagem que pode ser compreendida em todo o mundo ao mesmo tempo que, de forma quase obrigatória, devem apresentar elementos de identidade nacional que os fará serem reconhecidos/apreciados pelo público de seus países. Estas características fizeram o japonês Okuribito (ou Departures) ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro do ano passado.

Bem adaptada para o cinema, a história de The World is Big tem sua origem no livro do escritor, tradutor e editor Ilija Trojanow. Nascido em 1965 na cidade de Sofia, capital da Bulgária, Trojanow viveu na pele a experiência de ter que deixar o seu país ainda muito jovem. Seus pais pediram asilo político na Alemanha, depois de passarem pela Iugoslávia e pela Itália no início da década de 1970. Os Trojanow acabaram vivendo no Quênia, onde o pai do escritor conseguiu um emprego como engenheiro. Na década de 1980 Ilija morou em Paris e estudou na Universidade de Munique.

A verdade é que o escritor nunca parou muito tempo em algum lugar – quem quiser saber mais sobre sua vida, este texto da Wikipédia em inglês revela boa parte de sua trajetória. O curioso de sua biografia é que ele se especializou na cultura e na literatura africana e traduziu alguns autores daquele continente para o alemão antes de começar a publicar seus próprios livros. O livro que inspirou este filme foi publicado originalmente em alemão (sob o título “Die Welt ist Gross und Rettung Lauert Überall”) e lançado em 1996 – nem preciso dizer que ele é semiautobiográfico, não é mesmo?

O constante jogo temporal do roteiro de The World is Big não incomoda – diferente de outros filmes recentes. Cada vez que a história retrocede para a infância do protagonista ou que retoma o seu presente é perfeitamente justificada. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A troca é realizada de forma muito natural, fluente e, para simplificar a compreensão dos espectadores, com a utilização de uma direção de fotografia diferenciada – cores “sépias” para o passado e tons azulados para o presente. O passado, claro, sempre parece mais cálido que o presente – onde todas as oportunidades, prazeres e sofrimentos podem ser sentidos na pele. Os tons azulados, na verdade, marcam principalmente a fase do acidente de carro e a do hospital. Porque quando o protagonista e seu avô saem pelas estradas de diversos países em uma bicicleta dupla, todas as cores parecem ir retomando os seus lugares pouco a pouco – em uma evidente alusão de que a vida estava retomando o seu lugar/as suas cores.

Fiquei especialmente impressinada pela sacada de muitas sequências idealizadas pelo diretor Stephan Komandarev. Duas de muitas que merecem destaque são aquelas que representam a felicidade, o desespero, a liberdade e o medo que tal liberdade traz para a família Georgiev no agitado centro da italiana Trieste; e outra a que simboliza uma das primeiras lembranças do traumatizado Sashko de sua mãe. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pouco depois de ouvir do avô que seus pais haviam morrido no acidente de carro que havia sofrido, Sashko se lembra de uma história que sua mãe lia para ele quando ele era criança. A voz e a imagem de Yana aparecem narrando o conto de um menino que se perdeu em uma floresta escura, sem a mãe, e que encontrou a esperança de voltar para casa e reencontrá-la ao visualizar um caminho branco. Enquanto isso, o Sashko adulto está do lado de fora do hospital, sentado em um banco junto a um caminho branco, pronto para encarar a sua jornada pessoal pela “floresta escura” (das memórias apagadas e do medo) para reencontrar a sua mãe (seu pai e sua avó, simbolicamente vivos em seu passado/presente). Lindo, vamos combinar.

The World is Big é repleto de pequenos ensinamentos. Entre outros, destaco quando Bai Dan ensina que todo jogador de gamão deveria jurar nunca jogar por dinheiro, “somente pela honra”. Esta é uma maneira diferente de dizer que aquele que conhece os segredos da vida, que atinge a sabedoria, não buscará converter os seu aprendizado em dinheiro, em “papel sujo”. A honra é muito mais importante. Outro ensinamento do engraçado avô de Sashko é que “não há dados ruins, apenas jogadores ruins”. Em outras palavras, não existe sorte ou azar. Nem mesmo um destino equivocado. O que existe são pessoas que não sabem tirar o melhor proveito do que acontece com elas – até porque quem domina os dados sabe conseguir deles os números que necessita para vencer (o mesmo valendo para os acontecimentos da vida).

Quando Bai Dan avisa para o neto que o gamão é feito de “seis pontos” e que Sashko havia aprendido a dominar apenas o primeiro, o espectador sabe que o garoto terá que passar por muitos desafios ainda. Bai Dai ensina que os pontos do Rei e do Paraíso são os mais importantes, e que ele havia aprendido, antes de abandonar o hospital definitivamente, apenas o primeiro dos seis pontos que deveria aprender. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Passa a ser divertido acompanhar os estágios deste aprendizado. O primeiro deles, que marca a primeira vitória de Sashko, foi conquistado quando o garoto aprendeu a jogar alto e, principalmente, se concentrar nos dados e no queria deles.Vale comentar sobre os outros pontos: a fantasia, que é considerado o “elixir de cada jogo”; a superação, a “conquista do topo”, quando eles conseguem vencer a etapa mais difícil da viagem; o Ponto do Paraíso, “o melhor de todos”, quando Sashko conhece o amor através de Maria (Dorka Gryllus); o ponto do autoconhecimento, quando o garoto tem que descobrir por sua própria conta como chegar até o destino final; e, finalmente, o Ponto do Rei, quando Sashko supera o avô e descobre que a vida é feita de perdas, ganhos, e tudo o demais que ele aprendeu.

Como eu disse antes, todos os atores deste filme estão perfeitos em seus papéis. Gostei demais da simpatia, do carisma e da “loucura” do vovô Bai Dan, interpretado com maestria por Miki Manojlovic. Seu parceiro na maior parte das cenas, Carlo Ljubek, consegue o tom exato de espanto, inocência, determinação e superação do personagem de Sashko adulto. O garotinho que interpreta o personagem quando criança, Blagovest Mutafchiev, também está perfeito – respirando curiosidade, inocência e encanto na medida exata. Os atores que interpretam os pais de Sashko também só merecem elogios. Ana Papadopulo é uma atriz linda que faz com equilíbrio a mãe amorosa e, nos momentos certos, decidida esposa de Vasko. Hristo Mutafchiev incorpora o lema da honra aprendido com o sogro e toma as decisões mais corajosas do filme – com a convicção devida na interpretação.

Além deste núcleo central, é emocionante assistir a entrega de Lyudmila Cheshmedzhieva como a “passiva” e amorosa avó Sladka. Merecem destaque ainda Vasil Vasilev-Zueka como Ivo “o Chicago”, um exilado político na Itália que sonhava em ir para os Estados Unidos e que se torna amigo dos Georgiev; a bela e carismática Dorka Gryllus como a professora de dança Maria, que encanta Sashko; e Stefan Valdobrev como Stoyan, outro exilado que se torna amigo da família. Na parte técnica do filme, merecem ser mencionados os trabalhos do ator StefanValdobrev com a trilha sonora (importantíssima para ditar o ritmo da história e não torná-la “pesada demais” mesmo nos momentos mais densos); e os trabalhos feitos com os figurinos, a direção de arte e o desenho de produção (todos os elementos funcionam perfeitamente para ambientar a história na época devida).

Svetat e Golyam i Spasenie Debne Otvsyakade estreou no Festival Internacional de Cinema de Sofia, capital da Bulgária, no dia 14 de março de 2008. De lá para cá, ele participou de pelo menos sete outros festivais. Os mais conhecidos foram os de Karlovy Vary, Mar del Plata e, nos Estados Unidos, o de Palm Springs (este último em janeiro deste ano). Svetat e Golyam ou The World is Big também participou do mercado de filmes paralelo ao festival de Cannes do ano passado. Ainda assim, ele foi pouco comentado pela crítica internacional.

Em sua trajetória, contudo, The World is Big conseguiu pelo menos sete prêmios. Os mais importantes foram conferidos pelas audiências dos festivais de Sofia e de Zurich; os prêmios dos júris dos festivais de Bergen e Warsaw; e a escolha como o melhor filme búlgaro de 2008 no festival de Sofia.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 8,5 para The World is Big. Uma nota muito boa, para os padrões do IMDb. Para confirmar a falta de críticas do filme na imprensa mundial, o site Rotten Tomatoes não tem nenhum texto sobre esta produção em seu acervo. Ainda assim, basta uma procura um pouco mais cuidadosa pelo Google, especialmente entre publicações conhecidas, para encontrar alguns textos sobre o representante da Bulgária no próximo Oscar.

Uma das críticas que encontrei, assinada por Jay Weissberg para a Variety, começa relembrando que The World is Big foi anunciada como a maior co-produção do cinema búlgaro desde a queda do comunismo. Para Weissberg, este é um drama doce que segue a velha fórmula de uma história que integra duas gerações muito diferentes e que engloba 30 anos de “crise social e política”. O filme ainda empreende “viagens internas e externas que convergem em algum lugar além da real capacidade de compreensão”.

O crítico também não concorda com o constante vai-e-vem da história, afirmando que o roteiro teria transcorrido de forma mais fluída se tivesse sido narrado de outra forma. Weissberg também afirma que é muito difícil de acreditar que um avô com mais de 70 anos cruzaria boa parte da Europa Central em uma bicicleta, ainda que admita que o ator que lhe interpreta consegue fazer um bom trabalho. “Apesar de irregular, o filme tem como um dos seus pontos fortes o seu visual”, comenta Weissberg antes de destacar um ponto que comentei antes, aquele que mostra o protagonista lembrando de um conto infantil enquanto seu caminho se assemelha ao do garoto da literatura.

Neste outro texto, Stephen Farber escreve para a The Hollywood Reporter sobre The World is Big afirmando que o filme tem um dos títulos mais pesados do ano e que tem sua origem na Bulgária, um país que não tem a tradição de apresentar filmes deslumbrantes. Ainda assim, comenta Farber, esta produção traz “surpresas felizes” que fazem com que o espectador fique viciado na história, o que torna o filme em um “encantador inesperado”.

O crítico destaca a figura do avô carismático tão apreciado pelos filmes mas afirma que o veterano Manojlovic, conhecido pelos filmes de Emir Kusturica, consegue uma interpretação tão “vigorosa e sentimental” que transforma seu personagem em algo nada genérico. “Muitos saborosos, os detalhes nada convencionais enriquecem a narrativa; algumas das cenas mais poderosas são aquelas vividas por Alexander e seus pais em um campo de refugiados italiano enquanto eles tentam o asilo na Alemanha. Estes belos episódios detalhados dão ao trauma universal da imigração um preciso e doloroso foco humano”, opina Farber.

O crítico coloca no mesmo patamar interpretativo de Manojlovic o desempenho de Mutafchiev, que vive o pai de Alexander. “As cenas de família são muito aconchegantes, e as imagens são impressionantes, mas uma edição mais nítida melhoraria o filme. (…) Apesar das manchas irregulares, a riqueza de momentos cômicos e agoniantes do filme fazem com que ele seja um dos road movies mais originais que você poderá assistir”, enfatiza Farber.

Mesmo sendo o representante da Bulgária no próximo Oscar, The World is Big é, na verdade, uma co-produção entre a Bulgária, a Alemanha, a Eslovénia e a Hungria. No filme são falados cinco idiomas: o búlgaro, o alemão, o italiano, o inglês e o esloveno.

CONCLUSÃO: Um filme leve, engraçado, denso e emocionante ao mesmo tempo. The World is Big and Salvation Lurks Around the Corner tem um dos títulos mais complicados de lembrar/indicar dos últimos tempos, mas isso não impede que ele seja uma das surpresas do ano na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar. Resgatando a idéia de que um jogo pode sintetizar as regras da vida, The World narra a inesperada aproximação de um avô e seu neto em uma viagem cheia de ensinamentos e aprendizagem. Repleto de imagens lindas e cuidadosamente planejadas, este filme emociona pela simplicidade de sua história e pela interpretação de seus atores. Esqueça o quanto o filme pode ser fantasioso ou realista. O que importa, nesta produção, é o quanto ela transforma estes conceitos e reflete sobre a vida enquanto nos conta uma história de interesse universal e rica em detalhes sobre seu país de origem, a Bulgária. Delicioso, belo, engraçado e emocionante. Totalmente recomendado.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: The World is Big ganhou força para chegar ao Oscar depois de sua participação no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs em janeiro deste ano. Até então, poucos haviam comentado sobre o filme nos Estados Unidos. Agora, depois de assistí-lo, eu não me surpreenderia se ele conseguisse ficar entre os cinco finalistas ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro. A verdade é que The World tem a cara do Oscar. Assim como o holandês Oorlogswinter. Sem discutir originalidade de argumentos ou a qualidade das produções, mas os representantes da Bulgária e da Holanda tem histórias mais facilmente “compreendidas” pelos votantes da Academia do que o ótimo La Teta Asustada, do Peru, para dar um exemplo.

El Secreto de Sus Ojos, representante da Argentina, têm sido muito badalado pela crítica internacional. Mas, francamente, acho que tanto El Secreto quanto La Teta correm por fora das cinco vagas. Têm seus lugares garantidos os filmes Das Weisse Band (Alemanha), Un Prophète (França) e, se levarmos em conta os altos elogios que recebeu, Samson & Delilah (Austrália). Sobrariam duas vagas para os demais candidatos. Ajami (Israel) e Kelin (Cazaquistão) são produções que, a exemplo de The World e Oorlogswinter, são pouco conhecidas da crítica internacional. Para mim, estes quatro disputam as duas vagas que sobram… e The World, assim como Oorlogswinter, bem que merecia chegar lá. Ganhar, já acho bem complicado. Das Weisse parece mesmo que domina os holofotes. De qualquer forma, a disputa deste ano está muito boa – e acima da média. Todas as produções merecem ser vistas.

The Blind Side – Um Sonho Possível

22 de janeiro de 2010 11 comentários

Não teve jeito. Depois que a Sandra Bullock ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Drama, fui obrigada a assistir a The Blind Side. Tipo um tira-teima, sabem? Queria saber se ela realmente merecia ganhar o prêmio. E a resposta é um categórico não. Sandra Bullock está muito bem neste filme com roteiro e direção de John Lee Hancock, mas ela não chega nem perto do trabalho das atrizes Carey Mulligan e Gabourey Sidibe. Duvido muito, pela qualidade técnica das atrizes, que ela supere Helen Mirren – ainda não assisti The Last Station para afirmar com certeza, mas posso supor. Enfim, o prêmio de Sandra Bullock foi, definitivamente, apenas mais uma das injustiças do Globo de Ouro. Quanto ao filme, The Blind Side conta uma história interessante, bacana, mas ele me pareceu um tanto “forçado”, maniqueísta e simplório. Sabe aquele filme que você termina de assistir e pensa se é uma produção da Disney, destas onde tudo sempre dá certo? Pois é… Ainda assim, dá para entender perfeitamente porque ele caiu tanto no gosto do público dos Estados Unidos.

A HISTÓRIA: Cenas de TV mostram jogadores de futebol americano e, de fundo, a voz de Leigh Anne Tuohy (Sandra Bullock). Ela fala sobre a “luta” que acontece em um campo quando os “gladiadores” de dois times se enfrentam. Passo a passo, ela destaca os movimentos de um jogo que tornaram Lawrence Taylor famoso. Explorando o “ponto cego” do quarterback do time adversário, Taylor afastou o “lendário” Joe Theismann do futebol americano e mudou, segundo Leigh Anne, a história do esporte. E da vida dela. Em seguida, aparece em cena o grandalhão Michael Oher (Quinton Aaron), mais conhecido como Big Mike. Ele é levado, junto com Steve (Paul Amadi), para a escola católica Wingate. O pai de Steve, Big Tony (Omar J. Dorsey) procura cumprir a promessa que fez para a mãe de tirar o garoto de uma escola pública e colocá-lo em uma católica. Ele fala com o técnico de esportes da escola, Sr. Cotton (Ray McKinnon), que vê em Big Mike um grande potencial. Cotton luta para que o jovem grandalhão entre para a escola. Estudando ali a vida de Big Mike começa a mudar – especialmente quando ele se aproxima da família Tuohy.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Blind Side): Os estadunidenses tem orgulho de seus “símbolos” nacionais. Além da bandeira e do hino, que caracterizam todos os países – e em alguns lugares é mais ou menos usado -, o povo dos Estados Unidos adora o futebol americano (e outros esportes “nacionais”), seu lema de “bons cristãos” e sua forma política de enxergar o mundo pelos olhos republicanos ou democratas. Para cair como uma luva no gosto do público norte-americano nada melhor que The Blind Side. Um filme que enaltece a “bondade cristã”, a ascensão social através do esporte e que trata os problemas sociais com um véu de delicadeza – mascarando, em outras palavras, a realidade.

Para completar o cenário de “filme perfeito para os estadunidenses”, ele é estrelado por Sandra Bullock – uma eterna “garotinha da América”. Com tudo isso, não quero dizer que The Blind Side seja um filme ruim. Não. Ele tem algumas qualidades interessantes. Para começar, não importa o quanto a vida de alguns personagens possa ser dura, o roteiro John Lee Hancock tem o cuidado de transformar os piores cenários em realidades “aceitáveis” para o grande público. Do primeiro até o último minuto este filme é “gostoso” de assistir. E boa parte da responsabilidade por isto cai nas mãos de seus atores – com destaque especial para Quinton Aaron, que interpreta Michael Oher, e para o garotinho genial e mega simpático Jae Head, que interpreta S.J. Tuohy, o filho mais novo de Leigh Anne e seu marido, Sean (Tim McGraw).

Acho bacana quando um filme de Hollywood mostra um “bom exemplo”, como é o caso da adoção de Oher pelo casal Tuohy. Ainda que, por mais que o filme suavize o questionamento, impossível não ficar em dúvida se os pais adotivos do garoto, nos primeiros momentos em que olharam para aquele grandalhão perto dos filhos deles, não pensaram apenas que ele poderia ser um atleta de primeira grandeza. Claro que Oher, depois do inferno que ele viveu ao lado da mãe viciada em crack, só podia agradecer a atenção que recebeu dos Tuohy.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Se ele realmente tinha o senso de proteção dos entes queridos superdesenvolvido, natural que ele quisesse dar “um orgulho” para Leigh Anne e Sean sendo bom em algo e, se possível, trazendo títulos para a equipe que eles ajudavam a financiar. No finalzinho do filme, ele afirma que era “natural” ir para a escola onde os Tuohy haviam estudado – e que eles seguiam apoiando – porque toda “sua família” tinha estudado ali. Mais uma demonstração que ele queria agradar/retribuir quem lhe havia dado uma nova oportunidade de vida. A questão é se os primeiros olhares de Leigh Anne e Sean para o garoto foram de interesse – projetando seu sucesso nos esportes – ou não, se eles foram totalmente desinteressados. The Blind Side tenta convencer que eles foram bondosos e nada mais – só que, francamente, eu teria dúvidas sobre isso.

De qualquer forma, vamos falar sobre as qualidades da produção. Ela tem um ritmo bem bacana e se mostra bastante “leve”. Destes filmes para fazer as pessoas sairem do cinema se “sentindo melhor”, sabem? Afinal, elas viram uma história gratificante, que apresenta um “bom exemplo” e que não revela com realismo a dura realidade de seu “herói”. Conta para o sucesso da produção, como eu disse antes, o bom trabalho de seus atores – todos muito simpáticos, divertidos e descontraídos. Além dos que eu já citei, vale comentar o bom desempenho da carismática Lily Collins como a adolescente Collins Tuohy, irmã mais velha de S.J. Por causa do elenco, essencialmente, que estou dando a nota abaixo para esta produção – porque, certamente, não é por causa de seu roteiro.

Outra qualidade do filme é a direção cuidadosa e inteligente de Hancock. Ele entrega um filme ágil e bem editado – mérito também do editor Mark Livolsi. A direção de fotografia de Alar Kivilo é luminosa – mesmo nos momentos “tensos” ou “obscuros”. Agora, termina aqui o meu esforço por elogiar este filme. ;) (SPOILER – não leia os próximos dois parágrafos se você ainda não assistiu ao filme). Para mim, ele é “fantasia” demais. Vejamos: alguém realmente acredita naquela sequencia em que Leigh Anne encontra a mãe verdadeira de Oher? Viciada em crack, uma mulher que não lembra direito quantos filhos teve e nem quem eram os pais de cada um deles, Denise Oher (Adriane Lenox) aparece em cena de forma muito correta e decente. Sua casa não é um lixo deplorável como provavelmente seria na vida real. Enfim, sempre que pode, The Blind Side embeleza a realidade e transforma tudo em um cenário de isopor. Mesmo o “confronto” de Tuohy com os bandidinhos do bairro parece fazer parte de uma peça infantil onde “a vida como ela é” não pode se mostrada – apenas sugerida.

Fora esta convicção constante de que o mundo deve ser cor-de-rosa – vejam bem, não defendo aqui um documentário “nu e cru”, mas um pouco de coerência em uma história nunca faz mal para ninguém -, The Blind Side enaltece uma personagem planejada matematicamente para cair no gosto popular. A Leigh Anne desenhada para Sandra Bullock é uma figura unidimensional. Ela não tem complexidade – como uma pessoa de carne e osso. Não. Leigh Anne é o protótipo da “mulher cristã e republicana perfeita dos Estados Unidos”. Seu marido acha tudo que ela faz perfeito. Seus filhos também. Não há conflito na casa dos Tuohy. Além disso, Leigh Anne “briga com todos” sem descer do salto – juntando com perfeição a “masculinidade” de quem bate boca e decide os assuntos de casa com a “feminilidade” da mulher linda e desejada por todos.

Tanta “maquiagem” para transformar a imagem do “ideal” em “real” – afinal, está é uma história baseada em “fatos reais – só me fazem achar esta produção engraçadinha, mas fraca no conteúdo e na forma. Sem contar a sensação de ter comido pipoca de isopor. ;)

NOTA: 7,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: The Blind Side foi um dos fenômenos das bilheterias nos Estados Unidos no final de 2009 e início deste ano. A produção, que teria custado US$ 29 milhões, faturou quase US$ 219 milhões até o dia 10 de janeiro. Apenas nos Estados Unidos! Ou seja, o filme dirigido e escrito por John Lee Hancock, baseado no livro The Blind Side: Evolution of a Game, deve faturar, tranquilamente, mais de 10 vezes o que ele custou. Um sucesso estrondoso – e, fora o desempenho de Avatar, difícil de se conseguir hoje em dia.

O filme estrelado por Sandra Bullock teve pré-estréia no dia 17 de novembro de 2009 em Nova York. Três dias depois ele estreava no circuito comercial dos Estados Unidos e do Canadá. E rapidinho ele virou um fenômeno nas bilheterias.

The Blind Side é inspirado no livro homônimo do escritor e jornalista Michael Lewis. Além deste livro, Lewis é mais conhecido pela obra A Nova Novidade, que se debruça sobre o fenômeno econômico do Vale do Silício. The Blind Side, por sua vez, conta a história da revelação do futebol americano Michael Oher. Quem ficou curioso para saber mais sobre o esportista, recomendo este texto de Fábio Aleixo publicado na Lance.net e a página pessoal do jogador na NFL. Oher atualmente joga na equipe do Baltimore, depois de ter sido escolhido como um dos melhores jogadores de linha ofensiva da liga profissional. E o próprio jogador, que não gosta muito de comentar o filme de Hancock, comenta que a produção é boa, mas não retrata o que aconteceu com fidelidade. “É Hollywood”, ele resume. Pois sim, só que há filmes da mesma Hollywood que se preocupam muito mais com a realidade do que este.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para The Blind Side. Uma nota muito boa, para a média do IMDb. Os críticos que tem seus textos linkados pelo Rotten Tomatoes foram um pouco menos generosos: eles dedicaram 92 textos positivos e 39 negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 70%.

O elenco de apoio deste filme trabalha muito bem. Francamente, as estrelas de The Blind Side, para mim, são o já citado Jae Head e a atriz Kathy Bates. Ela interpreta Miss Sue, professora particular contratada para ajudar Oher a conseguir a nota mínima para ganhar uma bolsa de estudos. Os dois, sempre que aparecem no filme, roubam a cena. Quinton Aaron começa o filme exageradamente anulado mas, pouco a pouco, ele vai soltando o belo sorriso e ganha a empatia do público. Vale citar ainda o trabalho de Kim Dickens como a “professora boa” Mrs. Boswell e Tom Nowicki como o “malvado” professor de literatura que não alivia nos julgamentos do protagonista.

Até o momento, The Blind Side recebeu três prêmios e foi indicado a mais oito. Além do badalado Globo de Ouro para Sandra Bullock, a atriz recebeu ainda o prêmio dado pela Broadcast Film Critics Association; e o ator Jae Head recebeu o prêmio de Melhor Performance de um Jovem Ator da Sociedade de Críticos de Cinema de Phoenix.

O crítico Wesley Morris, do The Boston Globe, comenta neste texto que a personagem de Leigh Anne é “uma força imparável” e que Michael parece um “objeto imóvel”. Em outras palavras, Morris comenta que o filme faz o espectador acreditar que Leigh Anne é a única responsável pelo crescimento do rapaz anteriormente rejeitado. “O que parece ser certo para um filme que circula em torno de Bullock. Ela é tão divertida (na vida real) quanto ela aparece no filme”, comenta o crítico. Gostei quando ele afirma que a personagem de Leigh Anne é “parte Erin Brockovich, parte Julia Sugarbaker (da minissérie “cor-de-rosa” Designing Women)”. Como designer, Leigh Anne vê em Michael uma “extensão de seu trabalho”, segundo Morris. Ele pega pesado – mas, francamente, está certo.

Em seu texto, Morris ainda comenta que John Lee Hancock escolheu apenas as partes mais afetivas do livro de Michael Lewis – que escreveu metade da obra sobre Oher e metade sobre Lawrence Taylor. Mesmo sendo um roteirista de “mão leve”, o crítico ressalta que Hancock teve o cuidado de levantar questões como o cinismo, o ufanismo, a culpa liberal e o medo de certos estereótipos de homens negros. Ainda assim, Morris critica o fato do filme retratar Oher como um agente passivo de seu próprio sucesso. “Filmes Comerciais Americanos estão interessados em histórias sobre jovens negros salvos Deus sabe de onde por brancos legais ou pelos esportes. Aqui é por ambos. Essa dupla sorte acontece ocasionalmente na vida. Mas é um grampo em Hollywood, onde grandes homens negros são algumas vezes, e ao mesmo tempo, uma benção e uma ameaça. A vida de Oher tem a intenção de nos fazer bem, e consegue fazer isso. Mas o quanto nos sentimos bem sobre a história dele é proporcional ao quanto nós estamos dispostos a ser cegos sobre como ela é contada”, escreve Morris. Perfeito!

Neste outro texto, Elizabeth Weitzman, do New York Daily News, comenta que “infelizmente o roteirista e diretor John Lee Hancock transformou a vida notável de Oher em uma fábula de Hollywood que troca realidades difíceis por clichês fáceis”. Eu diria que este é um bom resumo do filme. ;) O que o transforma no oposto do ótimo Precious, por exemplo. Weitzman classifica o roteiro de Hancock de “simplista” e afirma que Sandra Bullock e Tim McGraw fazem um trabalho excelente com o texto que eles têm em mãos – tanto que ela afirma que este talvez seja um dos melhores trabalhos da carreira de Bullock. A crítica comenta ainda que a biografia e as entrevistas televisivas do Oher verdadeiro indicam que ele é um “cara inteligente com um filão de sobrevivência impossível de quebrar” mas que, na visão de Hancock, ele se tornou um dos estereótipos favoritos de Hollywood: o “gigante gentil” em dívida com a bondade de seus “patrões”.

CONCLUSÃO: Um filme cuidadosamente planejado para agradar ao seu público mas que falha na maquiagem que aplica para embelezar a realidade. Com um elenco de apoio tão bom (e em alguns momentos, um pouco melhor) quanto seus protagonista, The Blind Side procura na história real do jogador Michael Oher um exemplo de generosidade e redenção. Leve do início ao fim, é destes filmes para divertir. Se forem ignoradas todas as suas falhas – como a obviedade e linearidade da história, além da construção unidimensional de boa parte de seus personagens -, não será difícil terminar de assistí-lo com um sorriso no rosto. Além da maquiada na realidade um tanto exagerada, me incomodou um pouco a mensagem de “perfeita família cristã dos Estados Unidos que, além de tudo, é republicana”. Mas ignorada a lógica, o bom senso e o apreço pela realidade, é um filme divertido. Tem bons atores e uma Sandra Bullock confortável e firme em seu papel. Para o cenário dos Estados Unidos, perfeitamente justificado o seu caráter de fenômeno nas bilheterias. Mas (me desculpem os fãs do filme) ele é muito, muito fraquinho.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Infelizmente Sandra Bullock tem grandes chances de chegar entre as finalistas do Oscar deste ano. Afinal, ela acaba de ganhar a cobiçada estatueta de melhor atriz dramática do Golden Globes. Agora, francamente, será uma ofensa para a inteligência dos amantes do cinema e das grandes atuações de atrizes em sua história se ela ganhar a estatueta. Falei antes e repito: Carey Mulligan e Gabourey Sidibe estão muito, mas muito melhores que Bullock em seus filmes. Pelo menos as duas atrizes trabalham com personagens complexas, cheias de nuances – e roubam a cena cada vez que aparecem. Mesmo não tendo gostado tanto de Meryl Streep em Julie & Julia, ela sempre – em qualquer ocasião – será melhor atriz que Sandra Bullock. Então a protagonista de The Blind Side pode até chegar entre as cinco indicadas, mas não deve(ria) ganhar o prêmio. Fora sua indicação, acho difícil The Blind Side ser indicado em mais alguma categoria.

The Cove

19 de janeiro de 2010 17 comentários

Você admira o Japão, como eu admirava? Pois prepare-se para pensar diferente. The Cove, o melhor documentário do ano passado – e um dos melhores dos últimos tempos – revela um crime ambiental covarde em solo japonês que é encoberto pelo governo daquele país. Em uma produção impecável e corajosa, o diretor Louie Psihoyos e sua destemida equipe conseguem imagens impressionantes sobre a matança de golfinhos na cidade de Taiji, no Japão. Em uma verdadeira operação de guerra, a equipe de Psihoyos consegue burlar a segurança privada, de pescadores e da polícia local para capturar cenas inéditas do absurdo que acontece naquela pequena parte do mundo. Diferente de Food, Inc., outro documentário pré-selecionado para o Oscar, The Cove não deixa fios soltos. Completo em todos os detalhes, este filme aborda os variados aspectos de seu tema, tendo a figura de Rick O’Barry, antigo treinador de golfinhos, como seu personagem principal. O’Barry, que se tornou mundialmente famoso pelo trabalho de adestramento que fez na série Flipper, dedicou os últimos 30 e tantos anos de sua vida para libertar o maior número de golfinhos possível mundo afora.

A HISTÓRIA: Cenas de uma lagoa e uma placa em japonês começam a ambientar o espectador na cidade de Taiji. Depois, um grupo de homens mascarados revela as dificuldades do diretor e de sua equipe para transformar este documentário em realidade. O próprio Louie Psihoyos comenta que gostaria de ter feito The Cove de forma legal. Mas isso não foi possível. As cenas filmadas à noite simulam uma operação secreta e/ou de guerra. Usando táticas de espionagem e alta tecnologia, Psihoyos e um grupo de profissionais invade uma área pública que foi considerada privada para evitar que o mundo ficasse sabendo sobre a matança de golfinhos no interior do Japão. Todos os anos, segundo o diretor e seu principal entrevistado/personagem, Rick O’Barry, são mortos 23 mil golfinhos e botos no Japão – sem contar os outros tantos que acabam sendo capturados e enviados para parques de entretenimento pelo mundo. The Cove aprofunda a denúncia deste crime ambiental, reflete sobre a prática de captura de golfinhos e toca na ferida das mentiras contadas pelo governo japonês para tentar justificar a caça de golfinhos e baleias. E mais que isso, o documentário narra a operação corajosa dos seus realizadores para conseguir as cenas impactantes que o espectador vai assistir e, ao mesmo tempo, conta a história de arrependimento e busca por redenção de O’Barry.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Cove): Não é nada simples fazer um documentário com cenas inéditas e, ao mesmo tempo, cercar todos os aspectos de um tema. Food, Inc. está aí para dar um exemplo recente disto. Como comentei nesta crítica sobre o filme, um dos fortes candidatos deste ano ao Oscar, Food, Inc. é cheio de boas intenções, bem produzido, mas incompleto. Ele deixa muitos fios soltos e, principalmente, perde força e capacidade crítica ao se limitar apenas à realidade dos Estados Unidos. The Cove, por mais que se concentre em um pequeno ponto do mar japonês, consegue ampliar o seu campo de visão em várias direções, cercando e derrubando todos os argumentos que tentam justificar a morte e captura de golfinhos.

Alguns podem dizer: “Ah, mas esse documentário é feito por um grupo de ecochatos. Eles querem defender os golfinhos, os botos e as baleias sem respeitar uma tradição cultural que faz parte da história japonesa”. Verdade que o filme é feito por ecologistas. O diretor Louie Psihoyos e o produtor executivo Jim Clark criaram, em 2005, a Oceanic Preservation Society (OPS), uma ONG ambiental que procura registrar o que está acontecendo nos oceanos pelo mundo – e, de quebra, denunciando o processo de degradação deste habitat causado pelo homem.

A OPS financiou este filme e, por isso, ele pode ser considerado produto de um grupo de ambientalistas. Isso é verdade mas, nem por isso, esta é uma produção mentirosa. Como todo documentário – ou toda reportagem jornalística, por exemplo -, The Cove narra a realidade sob determinada ótica. A preocupação de Psihoyos é denunciar uma prática que ele considera abominável – e, depois de uma operação incrível, o diretor demonstra a crueldade da matança de golfinhos na prática. Literalmente, as imagens falam mais do que muitos discursos. O principal argumento utilizado pelos japoneses que apóiam este tipo de matança é de que ele “preserva” uma tradição de “vários séculos”. Mas a crueldade das imagens de The Cove – bastante fortes, devo alertar – não deixam margem à dúvidas: não há tradição que justifique aquelas imagens.

Sempre acho uma piada quando alguém utiliza o argumento da tradição para justificar absurdos. Mudando totalmente de cenário, vou citar as touradas na Espanha. Por mais que Pedro Almodóvar e tantos outros tenham mostrado a “plasticidade” da “luta” entre toureiro e animal, a verdade é que não existe beleza alguma naquele show bárbaro. Poucos sabem, mas o touro é covardemente atingido, várias e repetidas vezes, antes de “enfrentar” o toureiro. Atingido por homens sobre cavalos “blindados” e por homens armados por varas com ponta de arpão, o touro perde litros de sangue e fica fragilizado antes de “bailar” com o toureiro. Como isso pode ser defendido como a luta do “homem contra o animal”?

Como tantas outras práticas “centenares” ou “milenares”, a morte de golfinhos e de touros, só para dar dois exemplos, foram desvirtuadas com o passar do tempo e hoje, francamente, só mostram como o ser humano pode continuar sendo bestial – em algumas situações. Mesmo com o risco de ser tachada de “radical”, pergunto: por que a morte cruel de golfinhos é defendida como tradição e o canibalismo não pode ser incentivado sob o mesmo argumento? Evidente que estou sendo irônica. A prática de alguns humanos comerem outros humanos e a de pessoas terem o direito de matar com crueldade outros animais não deveria ser justificada sob argumento algum.

Feita esta reflexão sobre os possíveis ataques que The Cove pode receber, vamos falar sobre o filme propriamente dito. O diretor Louie Psihoyos ensina como produzir um documentário ao mesmo tempo criativo, belíssimo e chocante. A criatividade surge pela forma com que o diretor e sua equipe escolheram contar a sua história. Eles mostram as dificuldades e todas as barreiras impostas por parte dos habitantes de Taiji para que este filme se tornasse realidade. Diante das dificuldades, Psihoyos convocou uma equipe de primeira para mostrar o que outras pessoas queriam esconder. Em jornalismo, o trabalho de Psihoyos seria considerado um “furo de reportagem” – quando um profissional consegue mostrar/revelar algo que ninguém mais conseguiu.

A linha narrativa principal de The Cove começa com a justificativa das filmagens que procuram denunciar a matança de golfinhos e botos em Taiji e segue com a realização deste projeto. Mas o documentário vai além da “aventura” de seus realizadores para tornar o filme viável. Psihoyos intercala o projeto de realização do filme com a história de “redenção” de Rick O’Barry e, o que torna The Cove diferente, com a resposta para várias questões levantadas pelos defensores daquela prática “secular”. Ponto a ponto, o roteirista Mark Monroe e o diretor vão desmontando os argumentos dos japoneses.

E para esclarecer o que eu disse lá nas primeiras frases desta crítica, não acho que todos os japoneses sejam culpados pelos absurdos que o espectador assiste neste filme. Tanto isso é verdade que Psihoyos tem o cuidado de entrevistar pessoas em Tóquio que afirmam desconhecer a morte de golfinhos em seu país. Alguns, inclusive, ficam indignados com tal informação. Evidente, não apenas por aqueles depoimentos, mas pela forma de vida dos japoneses, que são poucos os que defendem aquela matança.

A minha “decepção” a respeito do Japão reside no fato de que eu achei que aquele povo, tão cordial, educado e defensor da Natureza, jamais poderia ter dirigentes políticos – e uma pequena parte de sua população – defendendo um crime ambiental como o que é mostrado em The Cove. Simplesmente, para mim, era inconcebível pensar em japoneses tendo as atitudes mostradas neste documentário – e isso vale para os que golpeiam os golfinhos naquele recanto do lago e para os que afrontam com gritos e violência as pessoas que procuram mostrar aquela realidade. De qualquer forma, até neste sentido The Cove serve como uma grande lição: não há, em parte alguma da Terra, uma civilização acima de qualquer suspeita. Ainda que estejamos em pleno século 21 e que falemos de alta tecnologia e de países desenvolvidos, há partes destas culturas que continuam com práticas deploráveis. Não importa a cor de suas bandeiras ou o PIB anual destas nações.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Preferi, desta vez, dividir o texto em duas partes. Na anterior, me concentrei em dar opiniões sobre The Cove. A partir de agora, vou comentar em detalhes sobre as características técnicas e narrativas da produção.

Nos primeiros minutos do filme Louie Psihoyos afirma que o que Rick O’Barry lhe havia contado sobre o que acontecia em Taiji era apenas “a ponta do iceberg”. O interessante do trabalho do diretor é que ele não se ateve apenas a esta ponta do iceberg, mas mergulhou fundo em todos os aspectos que envolvem o tema da captura, caça e exploração comercial dos golfinhos. Esta característica de The Cove é o que o torna tão melhor que Food, Inc., por exemplo.

Falando nos primeiros minutos de The Cove, foi muito inteligente o clima de “espionagem” – que sempre incentiva a adrenalina do espectador – impresso no começo da produção. Um belo trabalho de Psihoyos, da equipe que auxiliou na captura daquelas imagens e, também, do editor Geoffrey Richman. Se The Cove fosse “simplesmente” um filme clássico sobre a vida no “fundo do mar” ou sobre golfinhos, ele não seria tão interessante. A mistura entre filme de espionagem, de aventura e um documentário sobre animais selvagens torna The Cove um produto diferenciado.

O texto de narração do filme e os depoimentos captados por seu diretor também são excelentes. Logo no início se percebe uma certa ironia nos comentários de Psihoyos que brinca, por exemplo, com o tom “paranóico” de O’Barry. Depois, claro, o diretor demonstra, por A + B, como a tal “paranóia” era totalmente justificada. Ainda assim, sobram referências divertidas do diretor sobre seu trabalho e sobre pessoas de sua equipe. Ele comenta, por exemplo, que a filmagem de The Cove parecia mais um projeto de Ocean’s Eleven. ;)

Achei interessante e proveitoso para a “transparência” desta produção como Louie Psihoyos se coloca como narrador do filme e um de seus personagens centrais. O diretor explica, por exemplo, as razões que fizeram ele e Jim Clark criarem a organização Oceanic Preservation Society, produtora do filme. Mergulhador há mais de 35 anos, Psihoyos se especializou em documentar a vida marinha e a degradação de oceanos ao redor do mundo. Em uma conferência que participou na cidade de San Diego, onde participaram alguns dos maiores cientistas do mundo, Psihoyos disse ter se surpreendido quando Richard O’Barry foi barrado como o palestrante principal. Querendo saber as razões disto, Psihoyos soube que O’Barry desagradava o principal patrocinador do evento: o Sea World. Foi então que o diretor se aproximou de O’Barry e ficou sabendo de Taiji. Aí é onde The Cove começou.

Rick O’Barry, que integra o Earth Island Institute, aparece pela primeira vez explicando como foi barrado naquele evento. Sua história é a mais emocionante do filme. No melhor estilo “uma história de redenção”, a biografia de O’Barry é explorada de tempos em tempos, durante a produção. O’Barry conta como ele se tornou um ativista ambiental. Conta como migrou do trabalho de adestrador de golfinhos, pelo qual ficou mundialmente famoso na década de 1960, com as filmagens de Flipper, para sua missão de libertar o maior número de animais “em apuros” ao redor do mundo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Emociona quando ele fala das razões de seu arrependimento e, em especial, quando comenta sobre o “suicídio” de Cathy, uma das cinco fêmeas que “interpretou” Flipper. Sem contar o “grand finale” de The Cove, arrepiante, que mostra O’Barry “invadindo” uma conferência da IWC com imagens sobre a matança estampadas em um televisor no seu peito – e, depois, ele faz o mesmo em um dos cruzamentos mais famosos do mundo, em Tóquio.

Muito interessante todas as informações e reflexões que o filme faz sobre os golfinhos. O’Barry, em especial, compara a realidade (que ele conhece muito bem, diga-se) vivida pelos animais em cativeiro com aquela que eles desfrutam em seu habitat natural. A inteligência dos golfinhos, seu alto potencial comunicativo e, segundo O’Barry, a capacidade desta espécie em ter consciência de si própria – algo que muitos acreditavam ser típico apenas de humanos – são ressaltadas pelo documentário. Um trabalho complicado e magistralmente filmado por Psihoyos, com a fundamental participação de diferentes especialistas que falam sobre estes temas.

Especialmente revoltante a forma com que a comunidade de pescadores, com o apoio da municipalidade e da polícia de Taiji, transformaram parte de um parque nacional como o de Tsunami em uma propriedade com acessos restritos. Os portões, cercas e a presença constante de pescadores e seguranças armados com facas, lanças e câmeras é absurda. Esta posição do governo de Taiji e, principalmente, a posição do governo japonês na International Whaling Commission (IWC) é o que me deixou tão decepcionada com aquele país.

Interessante, ainda neste aspecto de “intimidação” das autoridades de Taiji contra os estrangeiros que tentam mostrar o que acontece por ali, são as imagens documentadas por Psihoyos de veículos que seguem sua equipe e as câmeras escondidas que registram a intimidação de O’Barry feita por policiais disfarçados no Hotel Urashima.

Segundo os realizadores de The Cove, a temporada de caça de golfinhos em Taiji começa em setembro e segue até março. Ou seja, enquanto escrevo estas linhas, provavelmente centenas de animais estão sendo mortos naquela cidade. Ainda conforme o documentário, estima-se que 23 mil golfinhos e botos são mortos no Japão todos os anos. A indústria do cativeiro – liderada por Sea World e outras empresas – é que impulsionaria estes crimes – Psihoyos e Mark Monroe comparam o quanto os pescadores ganham pela venda de golfinhos vivos ou pela carne deles. Rick O’Barry, por sua vez, é categórico em afirma que em Taiji é feito o maior massacre de golfinhos do mundo – e que nenhuma sociedade protetora de animais ou da Natureza se manifesta a este respeito.

O “vilão abominável” de The Cove é Joji Morishita, delegado do Japão no IWC. Interessante – e inteligente – a forma com que o documentário vai mostrando as “mentiras” ditas por Morishita na comissão ao mesmo tempo em que vai, ponto por ponto, desmontando seus argumentos. Especialistas, por exemplo, explicam como o Japão “prostitui” pequenas ilhas para que elas votem a seu favor para a liberação da caça de baleias. The Cove explica que a IWC, mesmo sendo uma organização criada para a proteção dos cetáceos, ignora os “pequenos” mamíferos que compõe este grupo animal, como é o caso dos golfinhos e botos. Estes últimos não são protegidos pela comissão porque, segundo especialistas, o Japão faz pressão para que isto não aconteça. O documentário revela ainda que a IWC proibiu a caça comercial de baleias em 1986. Um ano depois, segundo os produtores de The Cove, o Japão respondeu a esta proibição triplicando “a matança de golfinhos e botos” e começando programas letais de pesquisa com grandes baleias – a caça de baleias para fins de “pesquisa científica” são permitidas.

Além de Rick O’Barry, os únicos “famosinhos” que aparecem neste documentário são os integrantes do Surfers for Cetaceans, um grupo formado por esportistas e que tem Dave Rastovich como seu porta-voz no documentário. Ele fala sobre a experiência de conviver com estes animais em muitas aventuras pelo mundo e a irmandade que existe entre “homem e golfinho”. Rastovich e as atrizes Hayden Panettiere e Isabel Lucas fizeram parte de um pequeno grupo que, em 2007, “invadiu” a lagoa em Taiji onde os golfinhos são aprisionados – e, perto dali, muitos deles são mortos. O’Barry revela que aqueles ativistas foram presos, expulsos do país e, por isso, estão proibidos de retornar para lá. Com o lema do ex-adestrador de que o “caminho para impedí-los (os pescadores que aniquilam os golfinhos) é expô-los”, Psihoyos assume a responsabilidade de fazer o documentário. Com ele, o diretor sonha em acabar com a morte de golfinhos – no Japão e, preferencialmente, no mundo.

Em pouco menos de 30 minutos de filme, o espectador é apresentado ao problema dos golfinhos e botos e fica sabendo sobre as atitudes tomadas até aquele momento para denunciar os crimes ambientais de Taiji. A partir daquele ponto do filme, começa a narrativa de “espionagem” e operação de guerra que viabilizou as imagens inéditas vistas no documentário. Entram em cena os profissionais que possibilitaram que The Cove fosse filmado. O primeiro a ser chamado para o projeto foi Charles Hambleton, amigo do diretor, “viciado em adrenalina” que viajou o mundo como correspondente fotográfico. Hambleton parece um rockeiro.

Como jornalistas investigativos, Hambleton e Psihoyos pegaram a frustração causada pelas reuniões com as autoridades de Taiji como incentivo. Quando os “manda-chuvas” japoneses colocaram um mapa sobre a mesa e fizeram Xs sobre todos os locais em que o diretor e sua equipe não poderiam ir na cidade, a dupla assumiu aqueles pontos “proibidos” como um roteiro dos locais aonde eles deveriam filmar. ;) Genial e perfeito! Observando as pedras em um dos pontos turísticos mais famosos do Japão, Psihoyos teve a idéia de camuflar câmeras de alta resolução em rochas fabricadas. Foi aí que entrou em cena um dos amigos e primeiros assistentes de Psihoyos que, atualmente, trabalha na empresa Kerner Optical, que integra a famosa Industrial Light and Magic.

The Cove, aliás, é uma aula de recursos e técnicas de filmagem para quem se interessa em trabalhar no cinema. O espectador é apresentado ao trabalho de Simon Hutchins, o único da equipe “com experiência militar”. Foi ele quem criou maneiras “estranhas” de esconder as câmeras de alta definição e os hidrofones em diferentes pontos da lagoa de Taiji. Joe Chisholm, que trabalha na organização de concertos de rock, auxiliou na logística da equipe de produção do documentário, cuidando da operação de levar centenas de caixas de material para o Japão.

Entre os equipamentos utilizados por Psihoyos e equipe, está uma câmera militar de sensor térmico – ela dá o tom de “espionagem” dos créditos iniciais de The Cove; um um helicóptero utilizado para captar imagens aéreas; um balão não-tripulado com uma câmera de alta definição giratória; e aquele que é considerado um dos dispositivos mais importantes do filme: um hidrofone capaz de captar sons com alta tecnologia – equipamento que é colocad em uma caixa subaquática. A idéia dos realizadores do filme é que o espectador tivesse uma experiência completa do que acontecia em Taiji. Para eles, tão importante quanto as imagens, era a captação dos sons que revelavam a comunicação dos golfinhos na lagoa. Para conseguir registar esta comunicação é que entra em cena Mandy-Rae Cruickshank e Kirk Krack, mergulhadores livres mundialmente conhecidos. Eles são responsáveis por estrelar algumas das cenas mais exuberantes do filme e, também, sequências muito emotivas – como aquela que registra o primeiro contato dos mergulhadores com a realidade de Taiji.

Paralelamente à operação para conseguir as imagens impactantes naquela lagoa japonesa, The Cove vai desmontando cada um dos argumentos utilizados para justificar aqueles atos. Para começar, Psihoyos mostra como japoneses em Tóquio desconhecem a morte de 23 mil golfinhos e botos em seu país a cada ano – uma tentativa, sem dúvida, de não generalizar a crítica do filme para todos os japoneses. Depois, vários especialistas revelam como a carne dos golfinhos é fortemente contaminada com mercúrio. E apesar disto, ela é vendida nos mercados muitas vezes disfarçada como sendo de outros animais. Vereadores de Taiji denunciam o risco de uma proposta que pretendia implantar a carne de golfinhos na merenda de escolares – esta proposta acabou caindo por terra.

Enquanto as duas missões da equipe de filmagem se desenvolvem, entrevistados por Psihoyos derrubam outro argumento utilizado pelo governo japonês e pelos pescadores: o de que baleias e golfinhos são os culpados pelo declínio da pesca mundial. E quando, finalmente, a segunda missão têm êxito, o espectador assiste a algumas das cenas mais chocantes vistas em um documentário em muito tempo. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). É de arrepiar a morte brutal dos golfinhos na área proibida e com forte segurança. A água azul se transformada rapidamente em líquido vermelho de puro sangue. Em seguida, a brutalidade é contrastada com imagens dos golfinhos livres. A mensagem não poderia ser mais clara e potente. E para acabar com quem estava segurando o choro, a sequência de Rick O’Barry e seu monitor preso ao corpo. Emocionante e de arrepiar. Impossível não se render à força da narrativa cuidadosamente construída por Psihoyos e equipe.

O objetivo principal de The Cove é o de fazer as pessoas sairem de suas posições de conforto e partirem para a ação. Louie Psihoyos e Rick O’Barry acreditam que a denúncia da matança em Taiji e os argumentos a favor da liberdade e preservação dos golfinhos e botos pode auxiliar em uma mudança social e de costumes. A intenção, sem dúvida, é uma das melhores. Mas, infelizmente, parece que esta mudança ainda não começou. Segundo esta e esta reportagem, os pescadores de Taiji protestaram no final de 2009 contra a comoção provocada por The Cove e contra as críticas internacionais que eles receberam. A captura e a morte dos animais continua – pelo menos até que mais pessoas e governos entrem em ação para impedir esta prática. Achei interessante esta notícia sobre a exibição de The Cove no Festival de Cinema de Tóquio. Nela, Psihoyos vaticina: “Quando uma tradição choca os direitos humanos, então dizer que é uma tradição não se sustenta” – referindo-se à alta toxicidade da carne de golfinho, argumento principal para que a caça deles continue.

Para quem quer saber mais sobre as touradas na Espanha e a forma com que esta “tradição” foi alterada com o passar do tempo, recomendo esta matéria da Superinteressante. É uma boa introdução sobre o assunto.

The Cove estreou em abril de 2009 no Festival Internacional de Cinema de Newport Beach. Depois, a produção participou ainda de outros 10 festivais. Até o momento, o filme de Psihoyos conquistou 19 prêmios e foi indicado ainda a mais oito. The Cove foi considerado o melhor documentário de 2009 pela National Board of Review e por quatro associações de críticos dos Estados Unidos. Além disso, ganhou os prêmios da audiência dos festivais de Sundance, Estocolmo e Sydney.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,5 para The Cove. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos: eles dedicaram 107 críticas positivas e apenas cinco negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 96%.

Mesmo com todos os prêmios que recebeu e a opinião positiva de público e crítica, The Cove conseguiu, até o dia 13 de dezembro de 2009, pouco mais de US$ 861,7 mil nas bilheterias. Um valor pequeno, mas que pode aumentar consideravelmente se o filme ganhar o Oscar deste ano e for relançado nos cinemas.

Um dos elementos impressionantes do filme é a sua direção de fotografia. Um excelente trabalho do diretor de fotografia Brook Aitken. A trilha sonora de J. Ralph (o mesmo compositor da trilha do genial Man on Wire) também se mostra bastante acertada ao casar perfeitamente com a narrativa do documentário.

CONCLUSÃO: Um filme belíssimo e ao mesmo tempo chocante. Equilibrando depoimentos, entrevistas e uma narrativa que lembra filmes de espionagem e ação, The Cove desvela cenas impactantes de captura e morte de golfinhos e botos em uma pequena cidade do Japão. Cuidadosamente planejado e com um texto perfeito (preciso, irônico e cheio de autorreferências), este documentário deixa claro a sua intenção desde o princípio. Financiado e realizado por um grupo de ambientalistas, The Cove denuncia um crime ambiental, desmonta paulatinamente os argumentos que o sustentariam e, de quebra, dá uma aula de como fazer um documentário. Um grande trabalho do diretor Louie Psihoyos e de sua equipe. Surpreende aos espectadores que podem pensar neste filme como “mais um” documentário sobre a vida marinha. Isso porque The Cove é uma operação arriscada de filmagem ao mesmo tempo em que narra a história de redenção de um homem: Rick O’Barry, antigo adestrador de golfinhos que ficou famoso com a série Flipper. Completo e redondo, este documentário é um exemplo perfeito de cinema como “arma de propaganda” para um fim ecológico. Com cenas belíssimas e uma reflexão importante sobre a inteligência dos golfinhos, The Cove é ainda inspirador. Deveria ser obrigatório.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Por todas as qualidades que comentei antes e pelos prêmios que recebeu até agora, sem dúvida The Cove é um dos favoritos para levar o Oscar de Melhor Documentário do ano. Food, Inc., comentado anteriormente aqui no blog, pode até conseguir chegar entre os cinco indicados nesta categoria, mas sem dúvida não tem a força para desbancar The Cove. Os únicos que podem enfrentar o trabalho de Psihoyos parecem ser Burma VJ e Les Plages d’Agnès.

O primeiro, com direção de Anders Ostergaard, mostra o protesto de centenas de monges feito em 2007 em Burma (país do sul asiático conhecido também como Mianmar ou Birmânia). O segundo, dirigido pelo veterano Agnès Varda, é uma autobiografia do diretor. Nenhum dos dois, contudo, recebeu até o momento tantos prêmios quanto The Cove. Para mim, é certo que o filme de Louis Psihoyos estará entre os cinco indicados a Melhor Documentário. Ele também é a minha aposta para levar a estatueta dourada.

Globo de Ouro – coments no Twitter e avaliação final

17 de janeiro de 2010 13 comentários

Olá meus caros leitores aqui do blog!!

Hoje vamos fazer um experimento diferente. Vou acompanhar – bem, na verdade, agora, 21:50 no horário de Brasília, já estou acompanhando – o Golden Globes ao vivo.

Estou fazendo comentários sobre as premiações pelo Twitter – minha conta por lá é @aleogeda

Vocês serão super bem-vindos para trocar idéias sobre os prêmios comigo.

No Oscar deste ano, como fiz em 2009, farei estes comentários “ao vivo” aqui pelo blog (talvez pelo Twitter também).

P.S.: O site do Golden Globes está transmitindo ao vivo desde cedo – pela NBC.

O Twitter me impediu de continuar atualizando… então vou comentando por aqui.

1:10 – Hitchcock, Kubrick… sim senhor, cite os imensos. #scorsese #goldenglobes

1:14 – Jodie Foster, para variar, lindérrima.

1:15 – Agora sim, melhor diretor… E o Globo de Ouro vai para James Cameron. Sim, senhores. Muita, muita gente deve estar soltando fogos agora.

1:17 – Olha, agora começo a duvidar da minha convicção de que Avatar só se daria bem nas categorias técnicas do Oscar. Cameron pode levar a cobiçada estatueta dourada para casa sim. Vamos esperar para ver.

1:19 – Melhor série de TV – comédia para Glee. Bola super cantada – e todos dizem que merecida. Infelizmente ainda não assisti para opinar. Uma certa “vingança” dos seus fãs depois de Jane Lynch ter perdido na categoria de melhor atriz por série comédia.

1:22 – Até o momento, o Globo de Ouro com pouquíssimas surpresas. Na verdade, apenas Chlöe Sevigny surpreendeu aos fãs de Glee por vencer na categoria de melhor atriz em série de TV – comédia e, surpreendeu a alguns (admito que eu incluída) a vitória de James Cameron como Melhor Diretor.

1:26 – Consegui voltar, temporariamente, para o Twitter. Veremos até quando…

Certo, amigos, terminada a premiação do Globo de Ouro, vamos à lista de premiados da noite:

  • Melhor Filme – Drama: Avatar
  • Melhor Filme – Comédia: The Hangover
  • Melhor Diretor: James Cameron por Avatar
  • Melhor Atriz – Drama: Sandra Bullock por The Blind Side
  • Melhor Ator – Drama: Jeff Bridges por Crazy Heart
  • Melhor Atriz – Comédia: Meryl Streep por Julie & Julia
  • Melhor Ator – Comédia: Robert Downey Jr. por Sherlock Holmes
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Mo’nique por Precious
  • Melhor Ator Coadjuvante: Christoph Waltz por Inglourious Basterds
  • Melhor Filme de Animação: Up
  • Melhor Filme em Língua Estrangeira: Das Weisse Band
  • Melhor Roteiro: Jason Reitman e Sheldon Turner por Up in the Air
  • Melhor Trilha Sonora: Michael Giacchino por Up
  • Melhor Canção Original: The Weary Kind, de Crazy Heart
  • Melhor Série de TV – Drama: Mad Men
  • Melhor Série de TV – Comédia: Glee
  • Melhor Atriz em Série de TV – Drama: Julianna Margulies por The Good Wife
  • Melhor Atriz em Série de TV – Comédia: Toni Collette por United States of Tara
  • Melhor Ator em Série de TV – Drama: Michael C. Hall por Dexter
  • Melhor Ator em Série de TV – Comédia: Alec Baldwin por 30 Rock
  • Melhor Minissérie ou Produção para a TV: Grey Gardens
  • Melhor Atriz em Minissérie ou Produção para a TV: Drew Barrymore por Grey Gardens
  • Melhor Ator em Minissérie ou Produção para a TV: Kevin Bacon por Taking Chance
  • Melhor Atriz Coadjuvante em Minissérie ou Produção para a TV: Chlöe Sevigny por Big Love
  • Melhor Ator Coadjuvante em Minissérie ou Produção para a TV: John Lithgow por Dexter

RESUMO da premiação: Quase todos os premiados tiveram suas “bolas” cantadas antes da premiação. Talvez as principais surpresas da noite tenham sido Chlöe Sevigny por Big Love e quase todos os prêmios entregues depois do Globo de Ouro de Melhor Diretor para James Cameron.

Ainda não assisti a Avatar – agora terá que ser um programa obrigatório -, mas duvido muito que ele possa ser melhor que The Hurt Locker, Precious, Inglourious Basterds ou Up in the Air. Pessoalmente, não gostei dos dois prêmios de melhor filme, nem o de melhor atriz – drama para Sandra Bullock. Mesmo não achando que ela está fantástica em Julie & Julia, Meryl Streep costuma ser superior as demais concorrentes na categoria que venceu este ano.

Gostei, contudo, das premiações para Dexter, Grey Gardens, Mo’nique por Precious, de Meryl Streep (ainda que eu não goste taaanto dela em Julie & Julia) e, mesmo não tendo assistido a seus desempenhos, de Jeff Bridges e Robert Downey Jr. em seus respectivos filmes (gosto dos dois).

Por via das dúvidas, vou preparando o meu espírito para o Oscar deste ano. Na dúvida, faço figa para que ele não siga boa parte dos passos do Golden Globes. Boa noite e obrigada a todos que interagiram durante a entrega dos prêmios!

CategoriasGlobo de Ouro 2010

Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans – Vício Frenético

16 de janeiro de 2010 6 comentários

Imaginem um policial um tanto corcunda, que anda meio duro e que sucumbe a todos os deslizes possíveis em sua profissão. E, ainda assim, é promovido de tempos em tempos e sob aplausos de outros policiais e superiores. Este é o perfil do “herói” do novo filme do diretor alemão Werner Herzog. Escolhi colocá-lo na frente de outras produções que estavam na vez de serem assistidas por causa do diretor. Mas eu deveria saber que um filme com o Nicolas Cage dificilmente seria excepcional. Nada contra o ator, é claro, que já fez trabalhos muito bons. Mas é que, convenhamos, há tempos ele não merece nenhuma estatueta ou prêmio por seu desempenho. Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans é uma “viagem” um tanto psicodélica demais que, contudo, subverte o gênero dos filmes policiais. Para começar, ele é mais engraçado que trágico – e olha que não faltam motivos para que ele fosse tenso. Justamente por ser estrelado por Cage, este filme me pareceu um Leaving Las Vegas misturado com House M.D. Ou talvez ele possa ser resumido como um Ben Sanderson, protagonista de Leaving Las Vegas, com uma arma na cintura e um distintivo na lapela.

A HISTÓRIA: Uma cobra nada nas águas sujas que dominaram boa parte de New Orleans após a passagem do Furacão Katrina. Preso em uma cela, um homem grita por socorro enquanto os policiais Terence McDonagh (Nicolas Cage) e Stevie Pruit (Val Kilmer) descobrem fotos da namorada de um colega que deu no pé. Depois, os dois “homens da lei” fazem piada da situação do preso com água até quase os ombros. Até que McDonagh surpreende ao colega ao se jogar naquelas águas sujas para libertar o homem desesperado. Tempos depois, o Dr. Miburn (Robert Pavlovich) lhe comunica que um problema nas costas recentemente descoberto vai lhe causar dores moderadas a intensas. Ainda assim, ele poderá voltar à ativa – mas tendo que tomar remédios para dor, começando pelo Vicodin. McDonagh é promovido a tentente com honras por sua bravura. Seis meses depois, ele é colocado à frente de um caso envolvendo o homicídio de cinco pessoas de uma mesma família. Sua busca pelos culpados revela a decadência do policial, viciado em drogas, adepto da jogatina e da extorsão, capaz dos gestos mais insanos e antiéticos para conseguir os seus objetivos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes de The Bad Lieutenant, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu ao filme): Dei muitas risadas com este filme, eu admito. Muito diferente de um filme policial padrão, esta nova produção captaneada por Werner Herzog prima pelo absurdo e pelo nonsense. Se for encarada como uma comédia, ela pode até agradar. Agora, se o espectador estiver buscando um roteiro com pé e cabeça, que siga a fórmula dos policiais tradicionais, provavelmente irá se decepcionar.

The Bad Lieutenant está mais para Fear and Loathing in Las Vegas do que para o genial Heat – ainda que este último, como o novo filme de Herzog, questione a “moralidade” de um policial. The Bad Lieutenant entra fundo no perfil de um “oficial da lei” que é tudo, menos ético ou “acima de qualquer suspeita”. Em uma interpretação quase todo o tempo exagerada, Nicolas Cage acaba provocando mais pena que repulsa neste antiherói enlouquecido e muitas vezes cômico. O exagero, aliás, caracteriza esta história e a forma com que Herzog manipula a realidade para mostrar os estados de “graça” de seu protagonista.

Algo que acho interessante deste filme é como um sujeito do tipo de McDonagh, totalmente corrupto e corruptível, pode ser considerado o melhor policial do departamento liderado por James Brasser (o veterano Vondie Curtis-Hall). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No melhor estilo “os piores ganham os melhores postos” – quantos de vocês não se perguntaram como determinada pessoa incompetente/corrupta/puxa-saco profissional poderia ser promovida enquanto outros, mais competentes, ficavam para trás? – McDonagh vai subindo de posições até chegar a ser capitão. E detalhe: sempre com menções honrosas por seu “valioso trabalho”. O que seus superiores não sabem é que, para conseguir concluir os seus casos, McDonagh não pensa duas vezes em plantar provas, extorquir e intimidar bandidos e “peixes pequenos” como são os usuários de drogas.

Um dos melhores momentos do filme, para mim, foi a sequência com as iguanas na “mesa do café” de McDonagh quando ele e sua equipe vigiam a casa do suspeito Deshaun “Anão” Hackett (Lucius Baston). Antes, há cenas envolvendo cobras e jacarés. Eis aqui uma das marcas registradas do diretor Werner Herzog: seu apreço por mostrar o “lado selvagem” da Natureza. Mas, no caso de The Bad Lieutenant, a vida selvagem não aparece em seu estado puro, mas em um delírio provocado pela mistura de drogas que o protagonista do filme utiliza para evitar a dor – e, claro, lá pelas tantas ele já está viciado em todo aquele entorpecente. Alguém aí lembrou de Gregory House antes dele “ficar limpo”?

O incrível desta história é como McDonagh, por mais “fora da casinha” que ele esteja, consegue resolver os piores problemas nos quais ele vai se metendo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Seguindo uma narrativa clássica e linear, os roteiristas deste filme deixam o protagonista, lá pelas tantas, afundado até o pescoço por distintas ameaças e problemas. Mesmo com drogas exalando por todos os poros e sem dormir direito, McDonagh parece mostrar uma “inteligência superior” a ponto de enganar a todos e levá-los a resolver os seus problemas. Incrível – e, convenhamos, bastante improvável. Esse “exagero” da história me incomodou um pouco, admito. Mas quando percebi que se tratava de uma comédia, mais que de um policial, relaxei. Se for visto desta maneira e com uma grande dose de ironia, The Bad Lieutenant até que pode ser interessante. Vai depender dos gostos do espectador.

NOTA: 7,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: The Bad Leutenant tem um elenco de apoio bastante interessante. Mas como a história é centrada totalmente no personagem de Terence McDonagh, muitos dos personagens secundários são quase pontas no enredo. A única que tem um papel um pouco maior, realmente, é a atriz Eva Mendes. Ela interpreta a namorada de McDonagh e prostituta Frankie Donnenfeld. A atriz está bem no seu papel – ainda que, convenhamos, Eva Mendes é mais bonita do que boa intérprete. E, como a personagem de Frankie pede, Eva Mendes está linda, frágil e, em alguns episódios, determinada. Nada demais. Val Kilmer aparece em um papel bastante secundário – e, de tão “morno” perto do exagerado Nicolas Cage, ele praticamente desaparece e/ou não é reconhecido.

Outros atores que fazem parte do elenco e que merecem ser mencionados: Jennifer Coolidge convence como Heidi, a “madrasta” de McDonagh que está em permanente estado de embriaguez; Brad Dourif em uma interpretação excelente como Ned Schoenholtz, o homem que aceita as constantes apostas do detetive para o geralmente perdedor time do Louisiana; Shawn Hatosy como o policial Armand Benoit, “aprendiz” manipulável de McDonagh; o rapper Xzibit, que dá um show como o chefão do tráfico Big Fate; Shea Whigham em uma interpretação divertida como o “descompassado” filhinho de poderoso Justin – que resolve se vingar depois de uma prensa de McDonagh por ele ter batido em Frankie; e Tom Bower como Pat McDonagh, pai alcóolatra em fase de AA do policial-protagonista.

Em pontas ainda menores, estão Fairuza Balk como a policial Heidi, que não se importa em fazer um “favorzinho” para o protagonista em troca de alguma “diversão”; o sempre ótimo Michael Shannon como Mundt, o oficial da sala de apreensões que passa a ter medo de ser flagrado retirando drogas para McDonagh e, por isso, termina com o fornecimento que fazia para ele; Denzel Whitaker como Daryl, testemunha dos crimes envolvendo a família de imigrantes senegaleses; e fechando a lista de destaques, Lucius Baston e Tim Bellow interpretam a Dashaun “Anão” Hackett e Gary “G” Jenkins, os cúmplices de Big Fate. As atrizes Irma P. Hall, como Binnie Rogers, e a que interpreta a idosa chamada como Sra. Edwin (não consegui descobrir o seu nome) garantem junto com Nicolas Cage algumas das cenas mais engraçadas do filme.

Este filme de Werner Herzog com roteiro de William M. Finkelstein é uma releitura de Bad Lieutenant, produção de 1992 dirigida por Abel Ferrara e estrelada por Harvey Keitel. Não assisti ao original mas, pelo que todos os críticos que andei lendo afirmam, este novo Bad Lieutenant não tem nada (ou muito pouco) a ver com a produção de 1992.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para o filme. Bastante justa, na minha opinião. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, foram mais generosos: dedicaram 77 críticas positivas e 14 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 85%.

The Bad Lieutenant estreou no Festival de Veneza em setembro de 2009. De lá para cá, o filme participou de outros 13 festivais e conseguiu, até o momento, duas premiações: melhor ator para Nicolas Cage segundo a associação de críticos de cinema de Toronto e o prêmio especial da Fundação Christopher D. Smithers entregue para Werner Herzog no Festival de Veneza. The Bad Lieutenant está na disputa, atualmente, pelo prêmio de melhor fotografia no Independent Spirit Awards.

Nas bilheterias dos Estados Unidos o filme está tendo um desempenho fraquíssimo – para os padrões daquele mercado, claro. Ele arrecadou, até o último dia 10, pouco menos de US$ 1,5 milhão. Se continuar assim, levará prejuízo.

Além de corrupto e viciado em drogas, o protagonista de The Bad Lieutenant tem outro vício: o sexo casual. Sempre que pode, ele troca “prensas” contra jovens usuários de drogas e pequenos favores por sexo. Por essa característica, há pelo menos uma cena bastante quente no filme: aquela que envolve McDonagh e a garota que tem uma pedra de crack valiosa. ;)

Na parte técnica, o filme funciona bem em cada detalhe. Destaque, em especial, para as diferenciações fundamentais de “momentos da história” feitas pela direção de fotografia de Peter Zeitlinger e para a trilha sonora hilária de Mark Isham. Classifico a trilha desta forma porque ela ressalta, ainda mais, a forma “deslocada” do filme – que foge dos lugares-comum de um policial. Bem interessante.

O crítico David Denby, do The New Yorker, comenta neste texto que o filme de Herzog consegue ser, ao mesmo tempo, um filme sobre procedimentos policiais e uma celebração escandalosa dos desvios provocados pela “mania do crack”. Gostei, especialmente, quando Denby define a interpretação de Nicolas Cage como a de um “Quasimodo que não tem a corda de um sino para se pendurar”. Genial. hehehehehe. “Herzog envia este literalmente quebrado detetive para casas perigosas e ruas escuras, com uma arma na mão, como qualquer outro policial em uma perseguição faria. Mas no minuto seguinte McDonagh terá uma alucinação – ele vê um cadáver dançando break – ou explodirá em histeria, seu rosto se transformando violentamente em um sorriso enorme. (…) O filme é uma bagunça, mas certamente não é monótono”, comenta o crítica.

A. O. Scott, do The New York Times, ressalta que o filme de Werner Herzog não é nem uma refilmagem, nem uma sequência da obra original de Abel Ferrara. Ele classifica The Bad Lieutenant como “um filme noir anarquista que parece, às vezes, quase tão desequilibrado quanto seu protagonista”. Neste texto, Scott ressalta a interpretação de Nicolas Cage – que deveria requer “adjetivos ainda não inventados, digitados em caps lock e em itálico” – no filme de Herzog que classifica como “glorioso” e bagunçado. Para o crítico, a “imprevisibilidade maníaca” de The Bad Lieutenant relembra os espectadores de como os thrillers de crimes ultimamente tem sido previsíveis e maçantes.

“Este gênero, que certa vez foi um repositório de mistério, emoções selvagens e uma maliciosa invenção cinematográfica, foi transferido recentemente para um estado de uma mal-humorada, sádica rotina”, critica Scott. Gostei, em especial, quando ele compara Cage com um “Jimmy Stewart drogado”. ;) O crítico destaca ainda o trabalho de Cage e de Herzog afirmando que as rajadas de energia que podem parecer aleatórias e disassociadas são, de fato, os passos brilhantes de jogadores que tem, com certeza, ainda que de forma nada ortodoxa, noções de ritmo. Para Scott, The Bad Lieutenant não é “nenhuma obra-prima, mas é sem dúvida o trabalho de um mestre”. Estou com ele nesta avaliação. “Existe disciplina em Bad Lieutenant, e um respeito aos princípios, semelhante ao que vimos no filme de guerra do Sr. Herzog Rescue Dawn, para os prazeres e regras de um gênero”, comenta o crítico.

Betsy Sharkey, do Los Angeles Times, destaca a simbologia da serpente que aparece na sequencia de abertura do filme. Para ela, Werner Herzog deixa claro, desde o início, o ventre “sedutor e de duplicidade” das coisas que serão narradas nesta história. Sharkey destaca que existe, no fundo, uma ligação entre as duas produções de Bad Lieutenant: ela reside na premissa básica de um policial desonesto e abastecido por drogas que tem uma vida dupla. “Mas a loucura e a maldade (do filme de Herzog) são de uma faixa mais cerebral”, comenta ela neste texto. Sharkey destaca a forma com que Nicolas Cage torna seu personagem extremamente real – especialmente a dor que ele sente pelo problema nas costas que adquire ao salvar o presidiário no início do filme. E afirma que Herzog dirige sob suas próprias obsessões – como “alguns interlúdios estranhos com animais”. Na síntese de Sharkey, o diretor fez bem o seu filme noir, dando ao espectador “o que ele deveria – crime, corrupção, sarcasmo, sexo e sombras por toda a sua lente escura”.

Um dos críticos que reprovou Bad Lieutenant foi Kyle Smith, do New York Post. Nesta crítica ele comenta que sempre haverá apenas um Bad Lieutenant: Harvey Keitel. Na produção dirigida por Werner Herzog, comenta Smith, Nicolas Cage tenta ser um cara durão mas consegue apenas ficar parecido com um vendedor ruim de carros usados. Depois de bater firme no ator principal do filme, o crítico afirma (talvez com um pouco de cinismo) que “não importa” a sua interpretação desastrada porque “Werner Herzog está aqui para salvar o dia, entregando um propositalmente inclinado filme ruim com um brilho demoníaco”. Para Smith, com a inadequação do personagem, o ator (Cage) e o diretor reforçam um ao outro para conseguir um efeito hilário. “Herzog não conhece a ação (um tiroteio, que carrega o potencial de ser um momento Scarface, acaba sendo estragado), mas conhece a luxúria, o desagradável e a loucura. O coração deste filme é (eu direi isso de uma forma agradável) tão sujo quanto um pano engraxado de um restaurante de beira de estrada”, definiu Smith.

CONCLUSÃO: Um filme mais engraçado que tenso. O diretor Werner Herzog segue a sua própria tradição de incentivar os protagonistas de seus filmes até o limite de suas interpretações e, assim, consegue um desempenho tresloucado de Nicolas Cage como o policial Terence McDonagh. Psicodélico, “viajandão”, The Bad Lieutenant se debruça em uma realidade policial em que predomina a inteligência e o “jeitinho” no lugar da ética e da preocupação de seu protagonista em “bem servir”. As drogas e a corrupção correm soltas nesta história que, de forma cômica, muitas vezes é interrompida para entrar nos delírios de McDonagh – o mais engraçado deles envolvendo duas iguanas. Recomendado apenas para pessoas que podem levar uma produção de cinema nada à sério. Aqui o drama vira comédia, a tensão é diluída na convicção de que o clown-protagonista domina todas as situações. Herzog faz um bom trabalho, ainda que esta produção esteja longe de figurar na lista de seus melhores filmes. Cage capricha na interpretação, convencendo na caracterização de seu papel – não deve ser nada fácil caminhar permanentemente com uma parte das costas mais inclinada que a outra. Talvez este seja o seu melhor desempenho nos últimos tempos, ainda que algumas vezes ele chegue a irritar nas cenas mais exageradas. Mas, no fim das contas, Cage faz rir – o que talvez seja o grande objetivo deste filme. Uma produção curiosa, por ser tão fora dos padrões, mas ainda assim muito distante de ser excepcional.

Séraphine – Seraphine

15 de janeiro de 2010 18 comentários

Para entender a arte é preciso ter o tempo e o prazer da contemplação necessários, assim como saber apreciar a pulsação do artista. Não basta olhar para uma tela tendo hora marcada em outro local. Ou escutar uma música fazendo 10 outras atividades ao mesmo tempo. Séraphine, filme francês que foi um dos destaques de 2009, não é apenas uma produção sobre uma artista do início do século passado. Ele próprio, o filme, é uma peça de arte ao explorar nos detalhes a vida de sua personagem principal. O filme dedica o tempo necessário e abriga qualidades como a contemplação e a narrativa que busca a pulsação do artista ao qual a produção é dedicada. Uma bela peça de cinema que, além da arte, trata do contexto europeu que antecedeu e sucedeu a 1ª Guerra Mundial. Além disso, Séraphine trata sobre religiosidade, fé e compreensões divergentes sobre o belo e a loucura.

A HISTÓRIA: Na cidade francesa de Senlis, em 1914, Séraphine Louis (Yolande Moreau) caminha pelas águas de um rio nas primeiras horas do dia. Quando escuta os sinos da igreja, ela caminha depressa para chegar a tempo da missa. Séraphine canta com convicção e de forma afinada as canções religiosas e, no final, ergue seu olhar para o alto. Depois, utiliza a mesma dedicação para esfregar com vigor o chão de uma das casas onde trabalha na limpeza. Sua empregadora, madame Duphot (Geneviève Mnich), pede que Séraphine deixe tudo limpo e arejado porque terá um novo inquilino: o alemão Wilhelm Uhde (Ulrich Tukur). Crítico de arte, ele descobre acidentalmente o talento de Séraphine, uma mulher considerada louca em seu vilarejo mas que, com o tempo, seria considerada uma das expoentes francesas do grupo de artistas que ficou conhecido como os “primitivos modernos”.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Séraphine): A vida desta artista impressiona tanto ou mais que a sua arte. O diretor e roteirista Martin Provost decidiu destacar, de forma muito natural, contemplativa e, por tudo isso, sem pressa alguma, detalhes da vida adulta de Séraphine. Como em tantas outras histórias, quando o espectador é inserido em uma realidade quando ela está próxima a mudar, no filme Séraphine acompanhamos o que ocorre com a sua protagonista justo no momento em que entra em sua vida o crítico de arte Wilhelm Uhde. A relação dos dois, artista e crítico, com as pessoas “comuns” ao seu redor é mais um ponto de interesse do filme.

Séraphine vai agradar, certamente, às pessoas que gostam de arte, de saber sobre seu processo criativo e a biografia de seus artistas. O filme de Provost explora ainda, neste universo artístico, as relações que cercam ao indivíduo que assina as obras e os bastidores que fazem com que alguém um dia chegue a ser conhecido e/ou reconhecido. Mas o interessante é que Séraphine deve extrapolar esse grupo restrito e interessar também aos que tem curiosidade para saber como era a vida de pessoas comuns antes da eclosão da 1ª Guerra Mundial. Que ambiente, afinal, fazia parte da Europa naqueles dias? Séraphine mostra o que ocorre antes, durante e depois do conflito que envolveu tantos países. Sem contar que o filme roça a fronteira entre a genialidade e a loucura e a dificuldade da sociedade em aceitar as pessoas que fogem de seus padrões.

Não são poucos os temas abordados pelo filme, como comentei no parágrafo anterior. E, ainda assim, Séraphine não amontoa os assuntos ou faz cortes rápidos entre eles em momento algum. Pelo contrário. O roteiro de Martin Provost e Marc Abdelnour deveria servir de exemplo para os que tentam defender filmes em que as histórias se acumulam ou ficam rasteiras demais com a desculpa de que “há muitos assuntos para abordar”. Séraphine aborda tudo o que comentei antes com calma, migrando de um assunto para outro de forma natural, suave, valorizando cada minuto da narrativa.

Essa valorização do tempo é fundamental também para que a atriz principal, Yolande Moreau, dê um show de interpretação. Não é por acaso que ela recebeu tantos prêmios por seu trabalho neste filme. Yolande convence como se fosse a própria artista, criada sob os signos/valores da fé e do trabalho duro como os únicos caminhos dignos de uma pessoa. Diferente de outras intérpretes, que facilmente cairiam na intepretação de uma mulher “louca” de forma exagerada, Yolande assume o papel de Séraphine como o de uma mulher frágil e ao mesmo tempo batalhadora,  manipulável e que sucumbe com certa facilidade a uma idéia grandiloquente de salvação/fama.

Não sei, honestamente, até que ponto esta cinebiografia respeita a história real de Séraphine Louis. Ainda assim, o que o espectador vê na tela é impressionante. Comove a forma com que Séraphine levava a vida, totalmente devota às maravilhas da Natureza e aos presentes que o “Criador havia lhe dado”, assim como a sua simplicidade – ela insistia em continuar trabalhando duro mesmo quando suas obras haviam sido descobertas por Uhde – e sua insistência em dizer que o mérito de seu trabalho era divino. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Por mais que ela tenha perdido a lucidez perto do final, contaminada pelas promessas de exposições e reconhecimento por seu trabalho – desprezado por tantas pessoas -, Séraphine jamais se vangloriou de suas pinceladas. Sentia-se orgulhosa de ser um “canal criativo” de Deus – talvez por isso ela se sentisse tão confortável junto de árvores e da Natureza. Para ela, todos eram canais da força divina.

Independente de crenças ou credos, Séraphine é um exemplo de como o talento frutifica em locais improváveis. Uhde fica espantado em saber que sua descoberta era uma criadora independente, totalmente autodidata e, mais, inclusive ridicularizada em seu ambiente. Ampliando o olhar para aquela realidade, Séraphine era uma pária social de muitas formas. Por não ter família constituída, ela não tinha um sobrenome ou “brasão” para se comparar às pessoas “respeitáveis” da sociedade local.

Sua arte era vista como algo ridículo pelos que se consideravam “esclarecidos”, e seu gosto pela simplicidade, pela natureza e um ou outro gesto seu diferente dos padrões daquela pequena comunidade era encarado como algo típico de uma louca ou, na melhor das hipóteses, de uma pessoa extravagante. Achei especialmente incrível a forma com que Séraphine sobreviveu ao período da guerra. E contrariando todas as previsões, ela seguiu pintando, se aprimorando e, meio que por acidente, passou a criar telas de grandes dimensões. Sua vontade de sobreviver foi determinante para que, em 1927, com o retorno de Wilhelm Uhde para a França – mas não para a cidade de Senlis -, Seráphine tivesse uma nova oportunidade de mostrar o seu talento para o mundo.

A história desta artista é fantástica por si só. Mas a forma com que ela é narrada pelos roteiristas e por uma direção inspiradíssima transformam este filme em um dos melhores do gênero. Meio óbvio comentar isso, mas ganha um destaque todo especial a direção de fotografia de Laurent Brunet. Não apenas as paisagens e a arquitetura local são detacadas pelas lentes de Brunet e Provost. A direção de fotografia acaba sendo fundamental para valorizar os momentos intimistas da produção, que revelam o processo criativo de Séraphine e a sua devoção. Um lindo trabalho, belo e poético ao mesmo tempo.

Paralela à história da artista plástica que ganhava a vida como faxineira, o espectador conhece um pouco melhor como ocorria a descoberta de um novo talento na Europa no início do século 20. Pessoas como Wilhelm Uhde orquestravam o surgimento de novas tendências ao mesmo tempo em que faziam pequenas fortunas. Como ele comenta para o jornalista Francis Gouyet (Jean-Pascal Abribat) quando chega a Chantilly após a guerra, muitas vezes suas investidas não conseguiam a repercussão e o apoio necessário. Claro que Uhde e outros marchandt da época tinham que tirar dinheiro do próprio bolso e, muitas vezes, perdiam boa parte de seu investimento até que conseguissem emplacar um nome. Mas, ainda assim, eles saiam ganhando – pela arte e nas finanças. Interessante saber como eram suas negociações.

Outro assunto que aparece em Séraphine, ainda que de forma bastante secundária, era o do preconceito/perseguição contra homossexuais naquela época. Uhde se muda para o interior da França, no início do filme, certamente para fugir de perseguições. E mesmo depois da guerra, quando o armistício deveria afetar várias esferas da sociedade, ele continuava escondendo seus romances – na segunda fase do filme, inclusive, aparece sua relação com o artista Helmut Kolle (Nico Rogner). O personagem de Uhde é interessantíssimo porque, afinal, foi ele quem impulsou talentos como Picasso, Henri Rousseau, Braque e Douanier Rosseau, entre outros. Além da protagonista, os demais atores se saem muito bem em seus papéis. Gostei especialmente de Ulrich Tukur e de Anne Bennent (que interpreta a sua irmã, Anne-Marie Uhde). Um filme perfeito na forma, no conteúdo e, principalmente, na apresentação.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Por ser um filme, em muitos momentos, contemplativo (sem diálogos em muitos trechos), Séraphine depende muito de sua trilha sonora. E o trabalho de Michael Galasso se mostra perfeito e muito ajustado a história que ajuda a narrar. Um belo trabalho – que apenas reforça a qualidade técnica da equipe envolvida com este projeto. Aliás, vale a pena citar o trabalho de edição de Ludo Troch, o design de produção de Thierry François, o figurino de Madeline Fontaine e a decoração de set de Catherine Jarrier-Prieur.

Séraphine acumulou, até agora, 17 prêmios e outras quatro indicações. Ele foi o grande vencedor do chamado “Oscar francês”, os prêmios César, em 2009. Levou para casa sete prêmios César, inclusive os de melhor filme, melhor atriz, melhor roteiro e melhor direção de fotografia. Yolande Moreau ganhou ainda outros seis prêmios como melhor atriz – nos Estados Unidos, na França e no Cairo.

Os usuários do site IMDb gostaram de Séraphine – lhe conferiram a nota 7,3. Achei um pouco baixa, mas para os padrões do site e se tratando de um filme sobre arte, até que não está mal. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, foram mais “generosos”: eles publicaram 75 críticas positivas e nove negativas, o que garante para o filme uma aprovação de 89%.

As notas de produção do filme trazem uma entrevista com o diretor Martin Provost. Ele comenta que foi impelido a conhecer Séraphine Louis através de uma amiga produtora que sugeriu que ele fosse atrás de sua história. “Encontrei pouquíssima informação (sobre Séraphine) na Internet, uns detalhes biográficos e uns quadros realmente surpreendentes. Foi o suficiente para despertar a minha curiosidade. Assim comecei a entrar no universo particular de Séraphine. Não demorei para me dar conta de que a vida comovente desta mulher podia ser levada para o cinema. Esta primeira impressão foi se fazendo cada vez mais forte até converter-se em uma convicção quando li a tese sobre Séraphine de Françoise Cloarec, uma psicoanalista que conheceu a Anne-Marie, a irmã de Wilhelm Uhde, o descobridor de Séraphine”, comentou Provost.

Ele disse ainda que jamais conseguiria fazer Séraphine sem a atriz Yolande Moreau. “Quando escrevi o roteiro, antes de começar a buscar um produtor, me apoiei em sua presença. É uma casualidade, mas ambos vivemos no campo, nossas casas estão distantes uns três quilômetros. Nos conhecemos pouco antes de nos mudarmos. Eu lhe contei a história de Séraphine e ela aceitou imediatamente (o papel). Logo, quando encontrei na biblioteca Kandinsky o único retrato conhecido de Séraphine, feito a lápiz por um vizinho seu, fiquei atônito com a semelhança. Era Yolande Moreau. Mostrei a ela o retrato e ela ficou muda. Logo disse, como se não fosse nada: ‘Não é muito lisonjeiro, mas sou eu’. Falamos muito de Séraphine, das coisas que ela enfrentou, de sua infância. Durante as filmagens ocorreu uma espécie de milagre, uma autêntica fusão entre um personagem e uma atriz. Não se pode dizer que Yolande interpreta a Séraphine, ela a encarna. Conforme o filme avança, ela consegue transmitir à imagem uma carga poética e emocional muito intensa, ainda que esteja sempre contida. De fato, nos esforçamos em ficarmos no limite, em não entrar na facilidade, no sentimentalismo, na história que normalmente associa a loucura com o cinema. Tentamos ser fiéis a imagem que tínhamos do personagem, ao seu caminho difícil, suas fragilidades, seu valor, a tudo o que nos havia impressionado e emocionado de Séraphine”, disse o diretor. Honestamente, eu não poderia jamais resumir melhor o trabalho de Yolande e este filme. Perfeito.

Provost continua falando sobre a sua experiência em realizar Séraphine: “O perigo de um roteiro baseado em um personagem real é o de que ele fique na anedota, na ilustração, e deixe de lado o mistério, a humanidade, as contradições, a vida interior. Esse é um exercício delicado. (…) Cedo descobri que Séraphine era uma aliada, que me convidava a passar pela porta para o seu mundo, um mundo áspero, desconcertante, enfrentando ao invisível. Marc Abdelnour colaborou com o roteiro, e desde o princípio nos impusemos uma regra. Não contaríamos a vida de Séraphine como uma continuidade de momentos fortes. Eu me interessava por todas as bagatelas, as ausências, o que acontece fora do quadro, os pequenos mistérios. Também decidi me concentrar na relação totalmente inesperada, ambigua e casta que uniu Séraphine e Wilhelm Uhde durante mais de 20 anos. Foi um encontro pouco provável entre dois marginalizados. E decisivo para ambos. Séraphine é uma marginalizada, e Uhde, um estrangeiro homossexual, é o primeiro a ver o que ela é realmente. E faz isso sem preconceitos”.

Na mesma entrevista, Provost comenta que, mesmo sem ter estudado artes plásticas, houve uma época em que ele pintou muito. Mas um dia, depois de ficar horas concentrado e de trabalhar muito, lhe invadiu o medo: “… um medo irracional, uma sensação intensa de solidão. Nunca mais voltei a tocar em um pincel. A (respeito de) Séraphine tive um sensação de proximidade, a admiração, a curiosidade que sempre senti pelo que é a criação em estado puro, a energia criativa. Alguns chamam (o que ela fazia) de arte “ingênuo”, outros, arte “bruta”, mas não é uma questão de etiquetas. Muitas vezes, pessoas não eruditas, que não nasceram em meios próximos à cultura, levam dentro de si uma capacidade criativa sem precedentes, imparável e perturbadora. Estes artistas são pescadores de alto-mar, alheios às evoluções e as mudanças artísticas, carentes de mestres e de discípulos, e quase nunca conseguem o reconhecimento artístico que merecem. Séraphine era uma visionária no melhor sentido da palavra. Se deixou levar por algo mais forte que ela mesma, algo que não controlava, e acabou por destruí-la”. Provost comenta ainda que, para Séraphine, pintar era tão vital quanto comer e beber, ou até mais. “Para ela, era uma questão de sobrevivência”.

Interessante quando o diretor comenta sobre o quase abandono de Séraphine por parte de Uhde: “Essa é a parte obscura do personagem e não tentei evitá-la. Mas me pareceu mais interessante para o filme não tentar explicar esse estranho comportamento. O espectador deve tirar as suas próprias conclusões. A morte de Séraphine no hospital psiquiátrico de Clermont-de-l’Oise durante a 2ª Guerra Mundial foi bastante sórdida. Wilhelm Uhde afirma em sua autobiografia que ela morreu em 1934, mas a verdade é que ela viveu oito anos mais, até 1942. Mentira, negligência? Não faço perguntas. De fato, depois da 1ª Guerra Mundial ele regressou para a França, onde viveu com sua irmã, mas não tentou reatar sua relação com Séraphine, que vivia a uns 10 quilômetros de onde ele estava. Em uma parte do filme, ele diz que Séraphine morreu, mas Ulrich Tukur (que interpreta a Wilhelm Uhde) teve o cuidado de dizer isso como se não acreditasse. A ambiguidade dá a entender a complexidade do personagem. Apesar da integridade e da força moral que demonstrou durante toda a sua vida, perseguiu-lhe a culpa e a impotência, inclusive a covardia. Essa é uma dimensão importante do personagem no que se refere a sua relação com Séraphine e com o que lhe rodeava. Uhde tinha demônios internos e eles estão presentes durante todo o filme. Não queria envolver-lhe no papel de mecenas fiel, bondoso e cumplice”, afirma Provost.

Interessante como o diretor revela ter tido o cuidado de privilegiar sempre os personagens durante a narrativa. “(…) a presença dos personagens deveria ser sempre sóbria e rigorosa, e Séraphine devia estar em primeiro plano para que o espectador pudesse caminhar ao seu lado de forma cômoda. (…) A respeito do vestuário, da decoração e da iluminação, tentamos que tudo esteja em segundo plano, usando o menor número de efeitos possível. Fui muito exigente na hora de escolher as cores: nenhuma cor quente fora dos quadros de Séraphine, nem na decoração nem no vestuário. Verdes, azuis, negros, nada de branco. Poucos movimentos de câmera. Não quis que estivéssemos muito próximos dos atores. Fazer algo se destacar só se fosse absolutamente necessário”, revelou Provost.

E para quem ainda tem alguma dúvida sobre o que o diretor quis contar com esta história, ele comenta o que, para ele, foi a vida e a obra de Séraphine: “Antes de mais nada era era uma mulher livre. Pode parecer contraditório porque ela passou a maior parte de sua vida na mais absoluta solidão e castidade, na mais absoluta indigência física e psicológica, e acabou trancada em um manicômio. Séraphine era uma mulher da limpeza, pior ainda, uma mulher para tudo, que pintava em segredo coisas extraordinárias, mas das quais todos faziam piada. Naquela época, ela pertencia ao último degrau da escada social. Mas para ela tanto fazia, nada podia detê-la. Soube conservar sua autonomia, sua rica vida interior enquanto fazia trabalhos dos mais ingratos. Acabou pagando um preço muito alto por essa independência. No começo dos anos trinta havia usado todos os seus cartuchos e caiu na loucura. No curto período de floração artística e relativo alívio que desfrutou no final da década de vinte, Séraphine se convenceu de que a glória estava próxima. Para mim, significa que tinha ficado no mundo da infância, das maravilhas. Conseguiu dar sentido para sua vida sem ter nada, apesar das dificuldades, das pressões sociais e das humilhações diárias. Deixou sua marca, o que me parece extraordinário. Imaginemos a Séraphine atualmente. Receitariam para ela antidepressivos, estaria sentada na frente de uma televisão e não pintaria”.

O mesmo material de divulgação do filme traz notas biográficas de Séraphine Louis, conhecida também como Séraphine de Senlis, “A sem igual”. Ela nasceu no dia 2 de setembro de 1864 em Arsy, que pertencia a Oise, filha de um relojoeiro e da empregada de uma granja. Quando criança, ela dividia o seu tempo entre o colégio e o trabalho no campo como pastora. Aos 13 anos, seus pais lhe colocaram como empregada doméstica em Paris. Mais tarde, em 1877, enquanto trabalhava em um internato feminino, ela começa na arte observando as classes de professores de desenho. Quando completou 18 anos, Séraphine começou a trabalhar no convento de Saint-Joseph-de-Cluny, em Senlis, onde passaria a viver durante 20 anos.

Em 1902 ela sai do convento e começa a trabalhar como empregada por sua conta. Segundo o que ela contaria, em 1905 o seu anjo da guarda lhe disse que ela deveria começar a desenhar e, em seguida, a pintar. Muito fiel, Séraphine disse ter visões e ouvir vozes até sua morte. Em 1912, exatamente uma década depois de sair do convento, Séraphine conhece ao colecionista Wilhelm Uhde, que fica impressionado com um dos seus quadros durante um jantar com “burgueses da cidade”. O restante acompanhamos no filme. Vale citar, ainda, que em 1927, quando Uhde começa a apoiar verdadeiramente Séraphine, a artista já começa a ter seu nome divulgado na imprensa e consegue vender seus primeiros quadros. Em 1929, Uhde organiza em Paris a exposição “Os pintores do Sagrado Coração”. Alguns quadros de Séraphine são expostos ao lado de Aduanero Rousseau.

Neste mesmo ano, com o êxito que começa a desfrutar, Séraphine teria dado corda para seu temperamento fantasioso e começado a gastar em excesso. Pouco a pouco ela passou a se tornar mais ansiosa (com a crise econômica e os efeitos dela para Uhde) e, em 1931, era vista frequentemente falando sozinha, falando sobre o fim do mundo e se sentindo perseguida. No início de 1932 ela teria montado um escândalo em Senlis e, por isso, foi levada para o hospital da cidade, onde foi diagnosticada por apresentar “idéias delirantes com manias de perseguição, alucinações psicosensoriais e transtornos de sensibilidade profunda”. No dia 25 de fevereiro ela foi internada no asilo psiquiátrico e deixou de pintar. Naquele mesmo ano suas obras são vistas na exposição coletiva “Os primitivos modernos”. Em 1934, Uhde publica um livro sobre cinco artistas e afirma que Séraphine havia morrido naquele ano – o que dá margem a muitas interpretações. Ela iria morrer realmente apenas em 1942 – sendo enterrada em uma vala comum. Em 1945, por iniciativa de Uhde, é realizada a primeira exposição feita exclusivamente com obras de Séraphine, na Galerie de France de Paris.

Sobre Wilhelm Uhde, o material divulgado para a imprensa comenta que ele foi um grande colecionista e historiador da arte. Foi descobridor da arte de Aduanero (Henri) Rousseau e era amigo de Braque, de Robert Delaunay e de Picasso. Além de Séraphine, ajudou a muitos “primitivos modernos”, como Louis Vivin, Camille Bombois e André Bauchant. Durante a 2ª Guerra Mundial, Uhde teve que se esconder no interior da França. Morreu em Paris em 1947, depois de ter realizado o grande sonho de seu “descobrimento”: organizar uma exposição exclusiva para Séraphine na Galerie de France.

Só senti falta, para não dizer que fiquei satisfeita com tudo, com uma explicação melhor sobre a personagem de Minouche (a encantadora Adélaïde Leroux). Entendi que ela era talvez a única amiga de Séraphine em Senlis, mas de onde ela surgiu? Na primeira parte do filme ela não está presente na vida da protagonista e, depois, parece ser sua fiel companheira “de aventuras”. Queria saber melhor se ela era apenas uma vizinha que se preocupava com Séraphine ou tinha alguma outra ligação com a nova artista da cidade.

Vale a pena citar que Séraphine é uma co-produção da França com a Bélgica e a Alemanha.

Interessante também destacar que há filmes bem interessantes sobre artistas e seus processos criativos, como Basquiat e Pollock, por exemplo, mas poucas vezes vi um filme dedicado a uma artista ser tão bem feito. Séraphine para mim estaria para uma mulher como Pollock e outros estiveram para um homem artista plástico. A exceção, talvez, seja Frida, que trabalhou bem a vida e a obra de Frida Kahlo – ainda que, na comparação, Séraphine seja superior (porque é menos “hollywoodiano”/pirotécnico, por assim dizer).

Não tinha comentado antes, mas sempre vale a pena falar sobre o desempenho comercial dos filmes… Séraphine estreou no dia 7 de setembro de 2008 no festival de Toronto e, depois, passou ainda por outros 10 festivais, incluindo o do Rio de Janeiro. Na sua trajetória em diferentes mercados, ele teve um desempenho relativamente fraco – mesmo para um filme com as suas características. Nos Estados Unidos, até o início de 2009, ele havia conseguido quase US$ 858 mil nas bilheterias. Na França, até março do mesmo ano, ele havia conseguido quase 767 mil euros. Pouco.

CONCLUSÃO: Filmado com cuidado e dando o tempo necessário para que a narrativa flua suavemente e no tempo exato, Séraphine é um grande exemplo de como a cinebiografia de um artista pode ser muito interessante e, como sua própria arte, belíssima. Perfeito no apreço pelas imagens e na captação do sentimento de sua personagem-título, este filme revela o trabalho fantástico da atriz Yolande Moreau. Grande vencedor dos prêmios César de 2009, Séraphine é um deleite para os olhos e uma grande lição de vida. Como bem resumiu o diretor e roteirista Martin Provost, esta é a história de uma mulher essencialmente livre. Nadando contra todas as correntes e todas as perspectivas, Séraphine manteve o seu talento e o seu dom. Não desistiu nunca de seguir o caminho que acreditava certo. Além de contar a história de uma mulher incrível e extraordinária em sua simplicidade, Séraphine revela ao espectador os bastidores do trabalho de uma artista visceral. Além disso, conta uma relação curiosa de dois “marginalizados”, como definiu Provost, que foi o caso de Séraphine e do marchandt alemão Wilhelm Uhde. Resumindo, eis aqui um filme poético e belíssimo sobre arte, força criativa, amor pela Natureza, religiosidade, sobre o conturbado período entre as duas grandes guerras mundiais e sobre pessoas que, mesmo marginalizadas/perseguidas, souberam ser fiéis a si mesmas.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Se a Academia fosse justa, Yolande Moreau estaria entre as intérpretes indicadas este ano para o Oscar de Melhor Atriz. Ela ganhou dois dos principais prêmios da temporada – e que antecedem ao Oscar: o entregue pela National Society of Film Critics e o da associação de críticos de Los Angeles. Ainda assim, infelizmente, acho difícil ela conseguir estar entre as cinco indicadas ao Oscar. O que é uma pena – e quase um crime. Sem dúvida, se comparado ao trabalho de Meryl Streep em Julie & Julia, só para citar o nome de uma atriz que terá lugar garantido no Oscar, o desempenho de Moreau é muito melhor/maior. Entre ela e Streep, não tenho dúvidas, que a atriz belga merecia a estatueta (sim, Moreau nasceu em Bruxelas em 1953). Mas como o mundo não é perfeito e a realidade é injusta, provavelmente Moreau ficará de fora da disputa.

SUGESTÕES DE LEITORES: Eu estava de olho em Séraphine desde que esta produção havia arreabatado quase todos os prêmios do César em fevereiro de 2009. Ainda assim, devo comentar que a indicação da Claudia, estimada leitor deste blog, alimentou ainda mais a minha curiosidade por assistí-lo. Claudia, realmente, como você bem tinha dito em um comentário por aqui, Séraphine é excepcional. Belíssimo. Poético. Uma grande indicação a sua – mais uma, aliás. Muito obrigada! E agora, falta assistir aos outros que você indicou. Apareça por aqui para falar sobre tuas “sensações” após assistir a Séraphine. Eu fiquei arrepiada, emocionada, e só pensei: “Ah, o cinema francês… que maravilha!”. Nada melhor após uma sequencia de filmes “made in Hollywood”.

Up in the Air – Amor Sem Escalas

10 de janeiro de 2010 16 comentários

Quando um filme como Up In The Air consegue monopolizar as atenções de público e crítica, fica ainda mais evidente como o tema da “crise econômica” afeta os Estados Unidos. Com isso não quero dizer que o filme não seja bom. Longe de mim! Up In The Air é um filme inteligente e que trata de temas atuais de forma não muito óbvia. Mas ele é só isso. Está longe de ser excepcional e, certamente, léguas distante de ser o melhor filme de 2009. Ainda assim, ele toca no tema das demissões em série, da “desumanização” da sociedade e do vazio enganoso de certas filosofias para justificar alguns atos desesperados sem parecer chato ou forçado. Um belo trabalho, sem dúvida, dos roteiristas Jason Reitman e Sheldon Turner, baseados no livro de Walter Kirn. E o elenco, liderado por George Clooney, funciona bem. Mas me desculpe Hollywood e os defensores deste filme, mas ele não me emocionou ou convenceu totalmente. Planejado nos detalhes, ele parece funcionar tão bem quanto uma companhia aérea de ponta – e ambos sofrem da mesma falta de emoção.

A HISTÓRIA: De um lado da mesa, diferentes homens e mulheres recebem mal a notícia de que estão sendo demitidos. Do outro lado da mesma mesa, o arauto das más notícias: Ryan Bingham (George Clooney). Ele ganha a vida viajando por todas as partes dos Estados Unidos para intermediar o processo de desligamento de diferentes executivos e funcionários de suas funções – muitos deles empregados há décadas na mesma empresa. Sua vida pessoal é praticamente inexistente – e ele não se importa com isso. Para Ryan, bastam encontros com sexo casual, como o que ele tem com a executiva Alex Goran (Vera Farmiga), e contatos telefônicos esporádicos com sua família. Mas a vida perfeitamente controlada de Ryan muda quando ele começa a se importar com o casamento de sua irmã mais nova, Julie (Melanie Lynskey), e com a perspectiva de mudança em seu trabalho empreendida pela especialista em eficiência nos negócios Natalie Keener (Anna Kendrick).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Up in the Air): Não há dúvidas de que este é um filme inteligente. Nos detalhes, como nas sequências bem editadas da rotina dos aeroportos que ressaltam o automatismo do comportamento do protagonista (que simboliza uma boa parte da sociedade atual). E no enredo em geral, que evita a obviedade de soluções simples ou de um “final feliz” para o “nosso herói”. Ainda assim, Up In The Air serve mais como termômetro de uma época nos Estados Unidos do que como exemplo de grande cinema.

Ryan Bingham acredita piamente que o seu trabalho humaniza um processo cruel, que é o de demitir uma pessoa – e tirar, muitas vezes, o chão sob os seus pés. Muitos dos funcionários mandados embora das empresas que contratam Bingham não tem mais idade ou perfil para conseguir uma recolocação no mercado. Como os inúmeros “depoimentos” que aparecem no filme deixam claro, homens e mulheres demitidos encaram a notícia como o “fim da linha” para eles. Bingham tenta mostrar-lhes que existem opções mas, no fundo, ele está enganando a si mesmo. O mesmo homem que faz questão de falar, olho no olho, para um desconhecido que ele está perdendo a sua base de segurança financeira é aquele que não consegue cogitar a idéia de se casar, ter filhos ou de verdadeiramente manter um laço firme com alguém.

Up In The Air, com este protagonista curioso, reflete sobre o abismo que separa os discursos e as práticas do cotidiano. Muitos defendem que o comportamento que têm segue as suas crenças quando, se seus atos são vistos com um pouco mais de atenção, eles denotam uma grande falta de unidade entre “crença”/discurso e ação. Para alguns, isso pode ser sinônimo de hipocrisia – mas, geralmente, é apenas um sinal do “automatismo” considerado “aceitável” em uma sociedade cada vez mais acelerada. Curioso também como Ryan “abomina” as idéias de Natalie, considerando que seu plano de adotar computadores para intermediar as demissões denotam frieza e falta de um toque humano de sua idealizadora. Mas por ironia, Natalie é justamente o tipo de garota que mudou seus planos para seguir o namorado pelo país e que realmente se emociona quando tem que enfrentar a reação de alguém que sofre ao ser demitido.

A falta de reflexão sobre os próprios atos é um sintoma dos nossos tempos – e algo que Up in the Air trata de maneira interessante. Não é apenas a frequência de atos repetidos nos aeroportos dos Estados Unidos que transforma o protagonista em quase um robô: seus atos cotidianos de repulsa à intimidade familiar ou com alguma mulher também revelam este seu automatismo. Ryan está mais para um robô do que para um pretendente. ;) E, ainda assim, ele é considerado um profissional de sucesso em seu meio. Até que sua forma de vida é ameaçada pela alta tecnologia e as idéias de gestão “revolucionárias” de Natalie Keener.

Ao mesmo tempo em que Ryan tenta defender a sua forma de vida, buscando valorizar a maneira “humana” com a qual ele demite pessoas pelo país afora, vai ficando evidente para ele – para os espectadores e para Natalie – o quanto esta sensibilidade está ausente no resto de sua vida. Ele simplesmente não sabe muito bem o que fazer nos momentos em que não está trabalhando – ou viajando para recomeçar o ciclo de trabalho. Quando ele se dá conta deste “vazio” – até então visto como uma providencial “falta de peso” -, parte para estabelecer contatos de outro nível com as pessoas próximas. Brilhante, neste ponto, como os roteiristas e, em especial, o diretor Jason Reitman, exploram a “estranheza” com a qual as irmãs de Ryan recebem esta sua mudança de comportamento. Um momento emblemático -  e perfeito – neste sentido ocorre quando Ryan, Julie e Kara (Amy Morton) ficam sozinhos e não tem o que conversar.

A parte “romântica” do filme – explorada de forma exagerada pelo título que Up in the Air recebeu no Brasil – fica por conta dos esforços de Ryan em ter um relacionamento verdadeiro com Alex Goran. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Nadando contra a corrente das soluções óbvias e dos lugares-comum, o roteiro novamente surpreende ao mostrar como Ryan morre na praia. Ainda que, para chegar a este ponto, os roteiristas tenham utilizado um recurso bem conhecido no cinema: o do protagonista ser confrontado por uma pessoa que ele desprezava inicialmente (antes de começar a admirá-la). Neste caso, Natalie. Ainda assim, a frustração de Ryan com Alex mostra uma inversão de papéis. Alex é a executiva que não se abala e nem perde a compostura em ter um relacionamento de sexo casual enquanto, em casa, mantêm marido e filhos – papel esse que seria de Ryan anos atrás.

Reitman e Turner evitam o final feliz forçado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, seja no cinema ou na vida real, alguém habituado a viver sem laços fraternos não pode querer que, do dia para noite, eles se materializem. Ter amigos, intimidade com familiares (próximos ou distantes) ou um relacionamento amoroso sério exige tempo, esforço e comprometimento. Não é o mesmo que fazer escalas em um aeroporto. Ryan roçou a possibilidade de conseguir laços amorosos verdadeiros mas, tudo indica, desistiu rápido demais destes objetivos – depois de ter se decepcionado nas primeiras tentativas.

Nosso “herói” percebeu que suas palestras sobre como os bens materiais e os relacionamentos nos “pesam” nas costas e nos impedem de caminhar como gostaríamos, livres leves e soltos, contavam apenas parte da verdade. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ryan percebeu que estes pesos (o dos relacionamentos, essencialmente) são, também, o que realmente vale a pena e nos define. Mas, ainda assim, ele foi incapaz de encontrar o caminho para começar a encher a sua própria mochila. Uma pena. Mas, ao mesmo tempo, um belo retrato da nossa realidade – onde muitas pessoas sabem aonde querem chegar mas, por desgraça, não conseguem traçar a rota ou o caminho para chegarem até seus objetivos. Up in the Air, por tudo isso, é uma crônica interessante do nosso tempo. Ainda que lhe falte, como ao protagonista, um pouco mais de “conexão” com o espectador.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é o típico filme que vai ficando melhor conforme o tempo passa. Quando terminei de assistí-lo, dei uma nota ainda menor que está que aparece logo acima. Mas depois, ao refletir sobre as questões que o filme aborda – além da óbvia crise econômica que a história transpira a todo momento -, ele passou a me convencer um pouco mais. Talvez o segredo dele seja este, de ir “convencendo” aos poucos.

Todos os atores estão bem em seus papéis. Convencem. Mas, francamente, não vejo um desempenho tão acima da média para que George Clooney, Vera Farmiga e Anna Kendrick sejam considerados fortes candidatos para o Globo de Ouro ou o Oscar em suas respectivas categorias. Dos três, talvez apenas Anna Kendrick realmente mereça uma indicação – ou mesmo ganhar.

Ainda que tenha uma boa carga dramática – especialmente nos “depoimentos” chorosos de quem perdeu seu emprego -, Up in the Air equilibra de forma precisa a balança com um humor inteligente. Um exemplo é o pedido da irmã mais nova de Ryan, prestes a se casar, para que seus convidados façam fotos dela e do noivo, Jim Miller (Danny McBride), em diferentes partes dos Estados Unidos, como “naquele filme francês” (o efeito “Amélie Poulain“). Só que no lugar de um duende, os convidados deveriam levar uma foto gigante do casal. Tudo isso porque Julie e Jim não tinham dinheiro para viajarem na lua de mel. hahahahahaha. Convenhamos que muito boa essa ironia. Sem contar que Kara, quando tenta explicar para Ryan as razões do pedido das fotos, nem cita o filme francês – o que apenas denota o desinteresse da maioria dos estadunidenses pelo cinema que é feito fora de suas fronteiras.

Além dos atores já citados, vale a pena comentar o trabalho de Jason Bateman como Craig Gregory, o executivo preocupado com a contenção de gastos de sua empresa diante da crise econômica. Craig contratou Ryan e é ele quem aprova as idéias revolucionárias de Natalie. Como o filme é centrado no personagem de George Clooney, os atores que ganham algum protagonismo circulam ao seu redor. Por isso craques como J.K. Simmons, Sam Elliott (como o capitão Finch), Zach Galifianakis, Steve Eastin, entre outros, aparecem nesta produção apenas em pontas – muitos deles como demissionários.

Tecnicamente, o filme funciona bem em todos os seus aspectos principais. A fotografia de Eric Steelberg é precisa, a trilha sonora de Rolfe Kent envolvente – e escolhida a dedo para cada momento da história; e a edição de Dana E. Glauberman, esta sim, é fundamental e faz a diferença.

Mais uma vez, como em tantas outras ocasiões, a tradução do título original para o mercado brasileiro foi infeliz. Certo que a distribuidora precisa trabalhar com um título que chame a atenção dos espectadores. Mas Amor Sem Escalas dá uma leitura romântica totalmente errada para o filme. Up in the Air não é um filme romântico e nem tem um ou mais histórias de amor. Pelo contrário. Ele trata sobre a falta de relacionamentos na vida de um homem que se dedica exclusivamente ao trabalho. A consequência disso é que muita gente pode ir aos cinemas com uma idéia para o filme e sair totalmente frustradas de lá.

Up in the Air está se saindo muito bem na questão de prêmios. Até o momento, levou 27 deles para casa – e foi indicado ainda a outros 38. Sem contar que foi a produção que mais recebeu indicações no Globo de Ouro – o que sempre é um chamariz de público. Em quase todas as partes o roteiro de Jason Reitman e Sheldon Turner saiu vencedor. Além dele, estão sendo bem premiados os trabalhos de George Clooney e, numa escala menor, o de Anna Kendrick. Importante comentar ainda que Up in the Air foi considerado o melhor filme do ano pela National Board of Review e nas premiações conferidas pelas associações de críticos de Southeastern, Kansas City, da Flórida e de Dallas-Fort Worth.

Na avaliação de público e crítica, contudo, o filme dirigido por Reitman não está se saindo tão bem quanto outros de seus concorrentes. Os usuários do site IMDb, por exemplo, deram a nota 8,2 para a produção. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 166 textos positivos e 22 negativos para Up in the Air – o que lhe garante uma aprovação de 88%. Avatar, dirigido por James Cameron, por exemplo, tem a nota 8,7 pela votação do IMDb, e The Hurt Locker, dirigido por Kathryn Bigelow, uma aprovação de 97% no Rotten Tomatoes.

Up in the Air estrou no dia 5 de setembro no desconhecido Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme passou ainda por outros 10 festivais, incluindo os de Toronto, Roma, Londres e Estocolmo. Até o momento, apenas nos Estados Unidos, o filme conseguiu arrecadar pouco mais de US$ 44,3 milhões nas bilheterias. Conseguiu, com isso, se pagar – Up in the Air teria custado US$ 30 milhões. Se continuar embolsando prêmios, especialmente no Globo de Ouro e no Oscar, certamente terá sua bilheteria catapultada para as alturas.

Não deixa de ser curiosa a “ligação” que o público pode fazer entre o personagem de Ryan Bingham e seu intérprete, o ator George Clooney. Todos conhecem a “lenda” que circula sobre o intérprete, considerado um “bon vivant”, um homem que prefere trocar de namoradas e ter uma vida livre do que se casar e ter filhos. Esta ironia dá um “temperinho” a mais para o filme, sem dúvida.

Também merece um comentário o uso de cartões no filme. Ryan e Alex tem uma verdadeira coleção deles – e, como duas crianças, até brincam de compará-los, “medindo” suas capacidades de colecionistas. Além disso, Ryan tem como objetivo de vida conseguir um tipo de cartão prateado que poucas pessoas já conseguiram: aquele que é dado para quem atinge a inacreditável marca de 10 milhões de milhas percorridas pela American Airlines.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A grande ironia do filme é que Ryan consegue o seu “objetivo supremo” logo depois de ter passado pela maior decepção de sua vida (ou pelo menos de sua história recente). Como no caso de tantos sonhos “equivocados” que as pessoas alimentam por muito tempo – todos geralmente envolvendo ganhar ou gastar dinheiro -, Ryan simplesmente não sabe como reagir quando chega o “grande momento”. O que fazer depois de ter conseguido realizar o seu “grande sonho”? Ryan descobre que a única saída que lhe resta é continuar fazendo o mesmo – ainda que, na realidade, sempre é possível escolher uma outra direção. Mas ele, anulado por si mesmo, não vê outra saída. Up in the Air tem um final um pouco triste, um pouco cínico, ainda que termine falando de estrelas e inspiração.

No material de divulgação do filme, o roteirista Sheldon Turner comenta: “Na primeira vez que li o livro de Walter Kirn eu não podia tirar a Ryan Bingham da cabeça. Fiquei encantado com o seu trabalho, seu mundo único e o preço colateral que se paga por ter um emprego que consiste em despedir a pessoas. Como alguém pode espalhar as sementes da desgraça e conservar a sua alma? Ryan Bingham fala sobre a falta de conexão e o isolamento da nossa época. Todas essas coisas pensadas para nos unir e que apenas conseguiram nos separar”.

O diretor e roteirista Jason Reitman também comentou sobre o seu ponto-de-vista do material original: “Eu via esta como a história de um sujeito que tem que enfrentar o fato de que, mesmo acreditando que sua vida está plena, esteve ignorando algo muito importante, que é a responsabilidade de formar parte de algo que seja maior. A Ryan Bingham lhe assustam tanto as responsabilidades de formar parte de uma comunidade que ele não se deu conta do valor que isso tem. Creio que isto é algo que nossa sociedade está começando a experimentar agora. Todos utilizamos nossos celulares, o Twitter e as mensagens e parece que estamos mais conectados do que nunca, enquanto que, na realidade, as pessoas já não se olham muito nos olhos e temos menos relações de verdade. A vida de Ryan nos aeroportos é uma metáfora disso. Uma pessoa pode ir a qualquer aeroporto do mundo e saber em um instante onde encontrar tudo: tem os mesmos restaurantes, as mesmas lojas, os mesmos jornais. Nos sentimos confortáveis em todos os lugares, mas por outro lado nenhum lugar parece nossa casa. Estamos tão globalizados que perdemos este sentido de comunidade local”.

Segundo o material divulgado pelos produtores de Up in the Air, o livro de Walter Kirn serviu apenas como trampolim para o roteiro de Reitman. “O livro falava comigo em muitos níveis. Adoro a linguagem de Walter e o utilizei muito. Mas, na medida em que ia escrevendo (o roteiro), a minha própria vida mudou. Conheci a minha esposa, nos casamos e tivemos um filho. E durante esse processo, Ryan Bingham também começou a amadurecer e a desejar algo mais em sua vida. O roteiro cresceu e se concentrou nos imperativos que são os vínculos da nossa vida cotidiana”, comenta o diretor.

O livro de Walter Kirn, por sua vez, surgiu de um encontro do autor com um homem desconhecido em uma viagem que estava fazendo para Los Angeles. Ao sentar-se ao lado desse homem, Kirn lhe perguntou de onde ele era. “Ele me disse: ‘Ah, sou daqui mesmo, deste banco, para ser exato’. Quando lhe perguntei o que ele queria dizer com isso, ele me disse que antes tinha um apartamento mas que, como passava 300 dias por ano viajando, o havia trocado por um armazém e fez dos hotéis de longa permanência sua casa. Quando continuei lhe fazendo perguntas, ele me disse: ‘Sabe de uma coisa? Há muitos mais como eu por aí’. Enquanto falava com ele, me dei conta de que ele tinha se adaptado a um cenário mundial composto completamente por aeroportos, hotéis, cadeias de restaurantes, lojas de presentes e seções de grandes lojas. Mas também me dei conta do sozinho que ele devia se sentir”. Foi assim que nasceu o personagem de Ryan Bingham.

Pelo que pude captar das notas de produção de Up in the Air, Reitman acrescentou à história original de Bingham os novos personagens de Natalie e Alex. Quando seu roteiro estava na fase de conclusão, os Estados Unidos começaram a experimentar os efeitos reais da crise econômica. O diretor e roteirista aproveitou este momento para dar uma evidência ainda maior para a questão das demissões intermediadas pelo protagonista. Para explorar de forma ainda maior esta realidade, Reitman resolveu intercalar a intepretação de atores e reações reais de pessoas que haviam sido demitidas de seus empregos.

“Queríamos que as cenas das demissões fossem honestas e sinceras. Assim que pensamos: ‘Por que não mostrar a realidade?’ Fomos a Detroit e a St. Louis, duas das cidades mais castigadas por toda a destruição dos postos de trabalho no ano passado (2008), e colocamos anúncios na seção de emprego dos jornais dizendo que estávamos fazendo um filme sobre a perda de emprego e que buscávamos pessoas que quisessem falar sobre isso. Recebemos tantas respostas que foi desconcertante. As pessoas chegavam e lhes pedíamos que nos contassem o que disseram no dia em que foram demitidos, ou o que gostariam de ter dito. O que foi assombroso para mim, que sou alguém que trabalha constantemente com atores para obter realismo, foi a forma com que estas pessoas, que pensei que se sentiriam incômodas frente a uma câmera, resultavam tão honestas e autênticas. Agora esta é uma das minhas partes favoritas do filme”, comenta Reitman.

O diretor comenta que pensou em George Clooney para interpretar o protagonista desde o início e que, admite, escreveu o personagem de Natalie para Anna Kendrick. “Eu lhe havia visto em Rocket Science e pensei que ela era simplesmente incrível, diferente de todas as atrizes de sua idade. E quando ela veio fazer a prova para Up in the Air, demonstrou isso. Anna tem uma voz absolutamente única que a diferencia de sua geração”, comentou Reitman.

Uma curiosidade da produção é que Up in the Air foi filmado em cinco cidades diferentes mas, como revela Jason Reitman, o filme retrata 20 lugares distintos. Essa característica exigiu um trabalho preciso do diretor artístico Steve Saklad. As cidades pelas quais Ryan Bingham passa durante a história foram cuidadosamente escolhidas. Elas refletem, segundo Reitman, aquelas que foram vítimas dos maiores cortes de pessoal, das quebras de empresas e dos problemas vividos por distintas partes dos Estados Unidos antes do filme ser rodado. Incluem Detroit (sede da indústria automobilística), Phoenix (o escritório de uma seguradora sanitária), Saint Louis (uma linha de engarrafamento) e Wichita (empresas de seguros financeiros). As cidades de Saint Louis, Detroit, Omaha, Miami e Las Vegas serviram de sede para as filmagens – bairros de Saint Louis foram utilizados para reproduzir cenários de Chicago, por exemplo. Além disso, o filme contêm mais de 50 cenas rodadas em diversos aeroportos e aviões.

Um problema deste filme, para mim, é que ele segue um pouco a linha de “lamento” de que o “american way of life” saiu errado. Em outra palavras, Up in the Air fica um bocado limitado ao transferir, para o personagem de Ryan Bingham, todas as expectativas que o velho modelo de “a felicidade reside em um lar composto por pais e filhos” trazia. Digo isso porque, por exemplo, The Soloist também trata do mesmo problema de “falta de humanidade” e de laços afetivos no mundo atual. Trata, igualmente, da falta de capacidade das pessoas para olharem para alguém que esteja ao seu lado e tentar entender a sua história. Mas The Soloist não ganhou o apoio da crítica como Up in the Air. Certo que o texto de Reitman pode ser melhor que o de Susannah Grant, roteirista de The Soloist, mas pelo menos o filme de Joe Wright mostra que é possível estabelecer laços afetivos verdadeiros sem que as pessoas precisem, necessariamente, passar pela fórmula de “família feliz”. Algo para se pensar…

CONCLUSÃO: Um filme que simboliza o nosso tempo. Up in the Air, diferente do que seu título no mercado brasileiro pode sugerir, não é uma história romântica. Mais que nada, ele tem um roteiro filosófico e reflexivo sobre a era do individualismo, das constantes viagens de negócios e da alta tecnologia. Up in the Air trata sim da escolha de um modelo de vida e do abismo que separa, muitas vezes, nosso pensar e nosso agir. Pesado e leve em medidas diferentes, ele também reflete uma época muito marcante para o público dos Estados Unidos: o da crise econômica e de suas inevitáveis demissões. Com um roteiro bem escrito e atores convincentes, Up in the Air, contudo, sofre do mesmo problema que seu protagonista: tem dificuldades em conseguir uma conexão real com as pessoas. Ele deve atingir em cheio ao público norte-americano, ainda marcado pela crise econômica, mas dificilmente conseguirá o mesmo eco em outros mercados – como o dos brasileiros, por exemplo. Não deixa de ser um bom filme, que inclusive serve de reflexão sobre uma era, ainda que ele sofra por tentar repetir a fórmula do “american way of life” – no qual formar uma família parece ser a única via possível para a felicidade. Apesar de suas qualidades, Up in the Air está distante de integrar a lista de filmes do “grande cinema”.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Por tudo que eu comentei antes, especialmente sobre as chagas ainda abertas da crise econômica nos Estados Unidos, Up in the Air deve repetir no Oscar o desempenho de indicações que teve no Globo de Ouro. Provavelmente a última produção de Jason Reitman será indicada nas categorias de melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor ator, melhor atriz coadjuvante e, possivelmente, melhor edição e, talvez, melhor edição de som. Contem aí pelo menos sete indicações ao Oscar – ou mais.

Vale lembrar que Up in the Air conseguiu ser indicado em seis categorias no Globo de Ouro (neste texto do blog eu comentei sobre as indicações). No Oscar ele tem chances reais de ganhar em várias categorias – tudo vai depender do humor de quem vota na premiação. Se eles olharem para o “mercado interno”, ou seja, para a realidade dos estadunidenses, não seria uma total surpresa que Up in the Air saisse vencedor nas categorias principais – incluindo melhor filme, roteiro adaptado e ator. Mas se os votantes olharem “para o quadro como um todo”, pensando em todos os filmes sem olhar tanto para o próprio umbigo, Up in the Air terá chances apenas nas categorias de melhor roteiro adaptado, melhor ator e melhor atriz coadjuvante.

Pessoalmente, acho os roteiros de District 9 e The Hurt Locker mais criativos que o de Up in the Air. Agora, sem dúvida, é um grande trabalho de Jason Reitman e Sheldon Turner que, se sair premiado no Oscar, não será uma injustiça completa. Como melhor filme, apenas analisando as produções que assisti até o momento, prefiro Precious ou The Hurt Locker do que Up in the Air. Melhor diretor, Kathryn Bigelow, Clint Eastwood ou Quentin Tarantino. Melhor ator, até o momento, Morgan Freeman – ainda que eu ache que Jeff Bridges deve estar estupendo em Crazy Heart. Atriz coadjuvante, está mais difícil… Anna Kendrick merece o prêmio, mas tenho Mo’nique quase como favorita. Agora é esperar para ver como Up in the Air se sairá no Globo de Ouro.

An Education – Educação

8 de janeiro de 2010 10 comentários

O velho dilema sobre o verdadeiro banco de apredizado ser o de uma escola ou o da própria vida embala o delicioso e inspirado An Education. Mesmo com um grupo de atores talentoso e que trabalha bem, seja em conjunto ou individualmente, este filme da dinamarquesa Lone Scherfig tem uma grande estrela: Carey Mulligan. Não é difícil perceber porque a atriz vem ganhando prêmios como a melhor intérprete de 2009 – e nem complicado perceber porque ela é um dos nomes mais fortes na disputa pelo Globo de Ouro e pelo Oscar. Carey Mulligan é o nome do filme. A atriz incorpora toda a leveza, vontade de viver e complexidade de uma adolescente londrina no início dos anos 1960. E nos ensina que a vida pode ser terrível ou maravilhosa – a escolha sobre isto depende apenas da nossa vontade de dar certo.

A HISTÓRIA: Em uma tradicional escola e família londrina de 1961, Jenny (Carey Mulligan) aprende tudo que é preciso para se tornar uma moça respeitável. Na sala de aula, a garota é a mais aplicada e a mais interessada nos ensinamentos da professora de literatura e língua inglesa Miss Stubbs (Olivia Williams). Em casa, ela tenta convencer o pai, Jack (Alfred Molina) sobre a importância de equilibrar seu interesse pelos estudos e pela música. Mas Jack quer que a filha se aplique totalmente aos estudos para que, logo mais, ela consiga entrar na tão sonhada faculdade de Oxford. Depois de um ensaio na orquestra juvenil, Jenny espera em um ponto de ônibus, com seu violoncelo, até que a chuva torrencial diminua. Nesta ocasião passa por ali David (Peter Sarsgaard), um charmoso homem mais velho que oferece uma carona para a estudante. Jenny ganha com David um atalho para a vida adulta que tanto deseja – e deve, logo mais, decidir sobre que tipo de educação ela quer continuar recebendo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a An Education): Um filme acima da média se percebe nos detalhes. An Education, por exemplo, começa a mostrar a sua qualidade logo nos créditos de abertura. Eles são apresentados de maneira criativa, divertida, com uma trilha sonora deliciosa – que, aliás, permanecerá assim até o final da produção – e com um esquema “artístico” de desenhos que lembram o universo da história: o da escola. Primeiro grande acerto dos produtores e da diretora. Mas é preciso lembrar que estes são apenas os créditos iniciais. Junto com os desenhos, começam a surgir cenas do cotidiano da protagonista, Jenny. E, logo mais, para o deleite de quem gosta de uma grande atriz, ela mesma, Carey Mulligan.

A educação rigorosa e formal inglesa aparece em cenas divertidas, como as que mostram as alunas aprendendo a ter postura e charme no caminhar (treinando com um livro sobre a cabeça), perfeição nos passos de dança e conhecimento da boa cozinha. Afinal, o que mais uma garota poderia querer na Londres do início dos anos 1960? Charme, postura, saber dançar e cozinhar, assim como ter um comportamento discreto e com recato em público. Só que no meio de dezenas de alunas “normais”, despontava Jenny, uma garota acima da média em literatura e língua inglesa e que tinha pressa por conhecer o mundo. Fascinada pela cultura francesa e a “liberdade” simbolizada por Paris, Jenny pensava na universidade como uma forma de trampolim para que ela conseguisse a sua tão desejada autonomia. Até que ela encontrou um atalho chamado David.

O encontro dos dois marca a espinha dorsal do filme. Afinal, quando Jenny finalmente começa a vivenciar os prazeres de quem tem uma certa quantidade de dinheiro no bolso e vive na Europa, é que o espectador começa a se perguntar, junto com ela, onde está realmente a base da educação. Em uma sala de aula, aprendendo parte dos conhecimentos científicos e culturais de uma sociedade até determinado momento, ou aprendendo com os prazeres e desilusões da vida mesma?

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Também é no encontro de Jenny com David que a garota vai ao céu e ao inferno rapidamente. Da promessa de amor eterno, apaixonado e de um casamento ela passa rapidamente para a desilusão de ter sido usada, de ter integrado o aparentemente diversificado grupo de jovens enganadas pelo homem casado e pai de família mentiroso. Algumas pessoas, em seu lugar, talvez tivessem sucumbido, aceitado o “destino” de casar com o primeiro pretendente que aparecesse e aceitado a sina de ser infeliz. Afinal, aparentemente, Jenny não teria mais a oportunidade de terminar seus estudos e seguir para Oxford. Mas daí vem o grande ensinamento desta jovem inglesa. Ao invés de encarar a sua experiência como algo ruim, como a lição de uma garota que não soube se manter “pura” e que agora deve aceitar o fato de que a vida é horrível, Jenny preferiu aprender com tudo que viveu e seguir adiante – acreditando que a vida é maravilhosa.

Esses ensinamentos de Jenny e a forma com que ela vai descobrindo os prazeres dos dois tipos de educação – a forma e a da vida – surgem de maneira muito natural neste filme. Eis um dos grandes acertos do roteiro do sempre ótimo Nick Hornby: a suavidade com que ele narra as mais diferentes histórias. Inspirado nas memórias da jornalista inglesa Lynn Barber, Hornby produziu um texto divertido, realista e ao mesmo tempo charmoso. A história de Jenny, suas amigas, familiares e a de David poderia perfeitamente ser contada no século 21. Ainda existe a “briga”, especialmente entre os jovens, para entender que educação é mais válida. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Também continua sendo atual o envolvimento de homens casados com garotas “inocentes” que, na busca pelos prazeres da “vida adulta”, se jogam em aventuras sob a conivência de pais “interesseiros” (ou inocentes/ignorantes mesmo). Mas então por que é tão interessante ambientar esta história na Londres de 1961?

Primeiro, pelo estilo de vida que as pessoas tinham naquele momento. Seria simplesmente impossível, se An Education fosse ambientado nos nossos dias, visualizar cenas tão encantadoras como a do cotidiano de Jenny na escola, suas idas a clubes noturnos ao lado de David e, principalmente, a magia de uma viagem para Paris como a que eles compartilharam. Por mais que a capital francesa continue charmosa, detalhes como a roupa dos personagens, a câmera de fotografia e a vitrola às margens do Rio Sena que aparecem no filme de época é o que fazem este filme ser tão encantador. Ele cairá, certamente, no gosto do público feminino – e pode agradar aos rapazes, especialmente pelo trabalho excepcional de Carey Mulligan.

A adolescência é uma época única para a descoberta de possibilidades, oportunidades e para que as pessoas passem por experiências novas. Mas, ao mesmo tempo, como pode-se ver pela história de Jenny, é uma época em que existe, ainda, a idéia de que o jovem deve escolher a direção que quer dar para sua vida – e, aparentemente, uma escolha elimina todas as demais. Um ganho da fase adulta é que as pessoas percebem que não é preciso seguir apenas um caminho. E uma das grandes lições de An Education é que é possível ter mais de uma educação e experimentar diversos caminhos dos vários possíveis.

Jenny descobrirá, com o tempo, que ela pode ser muitas coisas – e não apenas “mais uma” intelectual com uma vida enfadonha a qual ela tentava evitar, ao espelhar-se na professora Miss Stubbs ou na diretora da escola (Emma Thompson). Descobrirá também que uma “intelectual” não precisa ter uma vida essencialmente chata. É possível – e apenas o tempo nos ensina isso – equilibrar uma vida “séria”, de estudo e aprimoramento, com o colorido e a diversão da boemia, de festas, viagens e uma salutar vida cultural. Para isto, basta ter boa vontade, atenção às oportunidades e ampliar seus próprios horizontes. Algo que An Education esboça para os espectadores – mas que só se aprende vivendo a sua própria vida.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tudo funciona à perfeição em An Education. A diretora Lone Scherfig sabe escolher o ângulo e a dinâmica correta de cada imagem, de cada cena. Seu olhar cuidadoso para os cenários e os atores fica evidente em cada minuto do filme. Para ajudá-la nesta função, está o trabalho também perfeito do diretor de fotografia parisiense John de Borman. Os dois transformam muitas sequências em verdadeiros quadros, fotografias, peças que tem uma dinâmica e uma luz próprias. A edição precisa de Barney Pilling contribui bastante para o resultado final. E a trilha sonora, ah, a trilha sonora! Simplesmente deliciosa – e uma das melhores do ano. Mérito de Paul Englishby.

Aos 50 anos, a diretora Lone Scherfig tem no currículo 12 filmes – feitos para a TV e para o cinema. An Education é o seu primeiro trabalho fora da Dinamarca – e filmado em língua inglesa. Certamente ela ganhará, com esta produção, uma evidência no cenário internacional que não tinha até então. Até o momento, Scherfig tem na bagagem 24 prêmios e outras 15 indicações por sua trajetória.

Carey Mulligan, não me canso de dizer, está arrebatadora em An Education. Mas para conseguir este desempenho, conta muito a favor da atriz o grande elenco que tem ao seu lado para contracenar. Para começar, ela tem Alfred Molina e Cara Seymour (que interpreta a Marjorie) como seus pais. Depois, ela contracena com Dominic Cooper e Rosamund Pike, respectivamente Danny e Helen, amigos de David. Cooper e Pike conseguem interpretações acima da média que ambos tem apresentado ultimamente – eles estão concentrados, inspirados, afinados e convincentes. Peter Sarsgaard também faz um trabalho excepcional, conseguindo o tom exato de fragilidade, ambição, charme e mistério de seu personagem. Vale a pena citar ainda o trabalho de Matthew Beard como Graham, jovem envergonhado fascinado por Jenny; Amanda Fairbank-Hynes e Ellie Kendrick como as amigas de escola da protagonista que acabam sendo as suas confidentes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Também gostei da interpretação, ainda que em uma ponta minúscula (na verdade ela aparece em uma única cena) de Sally Hawkins como Sarah, a esposa de David que agradece por Jenny não estar grávida – como havia ocorrido com outras jovens enganadas pelo marido anteriormente.

An Education estreou no Festival de Sundance em janeiro de 2009. Depois, ele passou por uma extensa participação em festivais pelo mundo – ao total, marcou presença em outros 17 eventos, incluindo os festivais do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Até o momento, o filme ganhou oito prêmios e foi indicado a outros 21 (a maioria deles ainda não entregues). Dos oito que recebeu, cinco foram para a atriz Carey Mulligan – entre outros, ela ganhou os de melhor atriz no British Independent Film Awards e pela National Board of Review. Os outros foram: prêmo do público para uma produção estrangeira e melhor fotografia na categoria “cinema estrangeiro – drama” no Festival de Sundance; além do prêmio do público para uma produção estrangeira no Festival de Cinema de Mill Valley. Mas a maior expectativa para o filme está nas quatro indicações de An Education no prêmio da Broadcast Film Critics Association e na indicação de Carey Mulligan no Globo de Ouro.

Uma curiosidade: no Brasil, An Education será exibido no circuito comercial com o título de Educação. Mas antes, quando de sua participação no festival do Rio de Janeiro, em setembro de 2009, ele foi apresentado sob o título de Sedução.

Produção inglesa, An Education teria custado aproximadamente 4,5 milhões de libras para ser produzido e finalizado. Até o momento, o filme está tendo um desempenho razoável nas bilheterias. Ele teria acumulado, no Reino Unido, pouco mais de 1,3 milhão de libras nas bilheterias e, nos Estados Unidos, aproximadamente US$ 7,8 milhões. Pode se sair melhor – especialmente se começar a receber boa parte dos prêmios para os quais ele está sendo indicado.

Em 2007, a revista Variety escolheu o roteiro de An Education como um dos melhores ainda não-produzidos.

Durante as filmagens, a diretora Lone Scherfig incentivou os atores a improvisar. Muitos diálogos e ações vistas no filme foram criadas pelos protagonistas durante a rodagem da produção.

No Festival de Sundance de 2009 a atriz Carey Mulligan comentou, em uma entrevista, que alguns dos momentos mais prazerosos das filmagens ocorreram quando ela contracenou com atores com os quais ela se encontrou muito pouco. A protagonista destacou as cenas que dividiu com Sally Hawkins e Emma Thompson – Mulligan classificou o trabalho da última como “fantástico” e seu desempenho no papel como “brilhante”.

O ator Orlando Bloom era o intérprete de Danny até uma semana antes das filmagens de An Education começar. Com a saída de Bloom, Dominic Cooper, que havia feito testes para o papel, acabou assumindo o seu lugar.

An Education caiu no gosto do público e, principalmente, da crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para a produção. Por sua vez, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 152 críticas positivas e apenas nove negativas para An Education – o que lhe garante uma aprovação de 94%.

Para o crítico Liam Lacey, do The Globe and Mail, An Education serve como “lição de como se pode misturar entretenimento com idéias provocativas”. Neste texto, o crítico destaca o trabalho luminoso da diretora Lone Scherfig e o talento da “radiante” e jovem atriz Carey Mulligan. Lacey comenta que o filme narra uma história com uma moral ambígua, adaptada com inspiração por Nick Hornby. O roteirista foi inspirado em um texto autobiográfico da jornalista inglesa Lynn Barber publicado na revista literária Granta no verão de 2003. Para o crítico, a personagem de Jenny é um pacote atraente de contradições e o filme, como o título sugere, fala sobre como Jenny explora seus desejos e limitações sem, contudo, apresentar respostas fáceis para as perguntas propostas. “Não existe um livro que descreva a distinção entre o mal e a injustiça, romance e desilusão, ou entre a tentativa de ser sábio e a capacidade de realmente se chegar até lá”, comenta Lacey.

Neste texto, Lisa Kennedy, do Denver Post, destaca a impressionante sintonia entre a diretora Lone Scherfig e a atriz Carey Mulligan. O que é uma coisa boa, segundo a crítica, porque o filme sobre o envolvimento de uma garota de 16 anos com um homem mais velho requer sutileza. Ela destaca ainda a forma saborosa com que os pais de Jenny são seduzidos pelo personagem de David e como, de maneira acertada, o filme se mostra “gentil” com os seus julgamentos. Kennedy resume bem a “moral” do filme ao comentar que crescer/amadurecer significa se decepcionar, aprender com a vida e, no processo, algumas vezes “se quebrar” ou ter as coisas mais claras. “Os prêmios (deste processo) são bons. Mas os arranhões e os machucados são a educação”.

O geralmente ótimo Peter Howell, do The Star, comenta neste texto que An Education é um filme sobre a descoberta, tanto para a sua protagonista quanto para o espectador. No caso da primeira, ela acontece através do difícil aprendizado da experiência. No caso do espectador, pelo prazer de assistir ao novo talento de Carey Mulligan em uma das melhores interpretações do ano, segundo o crítico. Ele destaca que, ainda que pequenos, os papéis de Olivia Williams e Emma Thompson reforçam o trabalho estelar do elenco – os personagens delas são os únicos que, como o espectador, percebem o perigo na relação entre David e Jenny. Gostei especialmente quando Howell destaca o trabalho da diretora e do roteirista em não transformar o personagem de David em um monstro. “O ponto aqui não é julgar os erros do passado pelos padrões modernos, mas salientar o quão fácil os sonhos podem se tornar realidade. O David de Saarsgaard é mais uma figura de piedade do que ameaçadora, e o trabalho hábil do ator em um papel difícil merece consideração em uma temporada de premiações”, opina Howell.

O respeitado crítico Roger Ebert, do Sun Times, destaca neste texto como An Education é “maravilhosamente romântico e divertido”, mesmo tratando de um tema pesado como a sedução de uma garota de 16 anos por um homem de 35 anos. Ele destaca o trabalho excepcional de Carey Mulligan que, segundo ele, vem sendo comparada – de forma bastante justa – com Audrey Hepburn. De forma bastante acertada, Ebert destaca como An Education é um romance na medida em que mostra a paixão de sua protagonista não por um homem mais velho, mas por todas as possibilidades que ela tem, sobre seu futuro e a alegria de estar viva. Bingo! Também vejo estas questões como as centrais do filme.

Achei o texto de Ebert bastante ponderado quando ele mostra como David e Jenny “usaram” um ao outro e, ao mesmo tempo, se divertiram juntos. Realmente, não existe nesta história apenas “uma garota que foi enganada por um homem mais velho”. Ainda que David seja um canalha, ele e Jenny saíram ganhando e perdendo nesta história – e ela teve sorte de não ter se complicado mais no relacionamento. Como a “verdadeira” Jenny comentou em seu texto, ela tem que agradecer a esse homem mais velho que a seduziu por ter-lhe “curado totalmente a ânsia por sofisticação”. Depois de ter se relacionado com Simon – o nome verdadeiro do homem que virou David no filme -, Lynn Barber pôde começar seus estudos em Oxford verdadeiramente interessada nos amáveis, decentes e simples rapazes de sua idade.

An Education é muito sútil ao tratar duas formas de preconceito: o racismo e antisemitismo. (SPOILER – não leia se você não assistiu o filme). David, que é judeu, ganha a vida explorando a antipatia das pessoas contra negros e, em algumas situações, contra o seu próprio povo – algo absurdo de pensar e/ou admitir após o genocídio ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial. Provocando ingleses que não suportam o convívio com os negros, ele faz dinheiro comprando arte e artigos valiosos por preço de banana. E pela resistência do pai da protagonista (e de outras pessoas) aos judeus, David consegue reverter a situação a seu favor quando necessário. Retratos de uma sociedade do pós-guerra e prestes a conhecer a revolução do rock dos The Beatles e da liberação sexual e feminina.

Nos quesitos técnicos, vale destacar o trabalho perfeito dos figurinos de Odile Dicks-Mireaux, a direção de arte de Ben Smith e a decoração de set de Anna Lynch-Robinson.

Os interessados em saber um pouco mais sobre Lynn Barber, a mulher que escreveu suas memórias sob o título de An Education e que teve seu trabalho adaptado neste filme podem encontrar mais informações em vários textos publicados pelo The Guardian e que podem ser acessados neste portal (em inglês).

CONCLUSÃO: Um filme divertido, encantador, charmoso e que evita os julgamentos fáceis. An Education reflete sobre dois bancos de escola: o das instituições de ensino e o da vida. Rouba a cena neste filme magistralmente conduzido pela diretora dinamarquesa Lone Scherfig a jovem atriz Carey Mulligan. Ela é a alma e o coração desta história. Mas ao seu lado o espectador poderá conferir o trabalho preciso de muitos atores conhecidos, como Peter Sarsgaard, Alfred Molina, Olivia Williams e Emma Thompson (em uma super ponta). Com linhas de roteiro cuidadosamente escritas por Nick Hornby, é destes filmes que vão conquistar o público e, de quebra, fazer pensar um pouquinho. Evitando julgamentos moralistas, An Education é um exemplo de como a vida pode ser maravilhosa ou trágica – tudo depende da escolha que fazemos. Se não nos entregarmos à culpa e ao desespero podemos, como a protagonista deste filme, perdoar nossos erros (e aqueles praticados pelas demais pessoas ao nosso redor) e sair para a frente, sabendo que sempre existem novos caminhos a percorrer. Uma ode à vida, às suas descobertas e prazeres. Perfeito para ser assistido com tempo, sem preocupações, apenas para saborear a realidade do Reino Unido e de Paris no início dos anos 1960 e, de quebra, a fase da vida das grandes descobertas – do amor, dos prazeres da vida e das oportunidades.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Será um verdadeiro crime se o nome de Carey Mulligan não estiver entre os das cinco indicadas ao Oscar de Melhor Atriz deste ano. Bem, esta possibilidade é bastante remota. Especialmente se levarmos em conta que a atriz está indicada na categoria de Melhor Atriz – Drama no Globo de Ouro e que, até o momento, ganhou quatro dos 13 prêmios mais importantes da temporada – considerados, por muitos, um termômetro para o Oscar e o próprio Globo de Ouro. Das atuações que assisti até agora, Carey Mulligan seria a minha aposta para ganhar o Oscar. Acho que ela tem mais méritos, junto com Gabourey Sidibe, de Precious (comentado aqui no blog), para levar esta consagração. Me desculpe Meryl Streep, mas o talento das jovens atrizes superou o dela em seu papel em Julie & Julia (com crítica aqui no blog). De qualquer forma, vocês sabem como o Oscar funciona. Nem sempre a Academia premia a melhor no ano. Então Meryl Streep, há muitos anos sendo apenas indicada – mas não ganhando nada, pode levar uma estatueta dourada para casa. Por mérito, seria Carey Mulligan.

Acho que An Education também tem potencial para chegar entre os 10 finalistas ao prêmio de Melhor Filme do ano. Veremos… O texto de Nick Hornby perfeitamente poderia ser indicado na categoria de Melhor Roteiro Adaptado, mas acho difícil ele conseguir uma vaga neste ano, porque há muitos concorrentes de peso na disputa. Nas categorias técnicas, não seria uma surpresa se An Education conseguisse indicações para Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Figurino e Melhor Trilha Sonora Original. De todas estas, acho que ele tem mais chances em ser indicado (e talvez ganhar) em Direção de Arte – nas demais, mais uma vez, a concorrência está muito forte. De qualquer forma, honestamente, espero que An Education receba algumas indicações para o prêmio mais badalado de Hollywood – ele merece.

Brothers – Entre Irmãos

5 de janeiro de 2010 7 comentários

Feridas provocadas pela guerra que parecem não curar nunca foram retratadas, até hoje, por dezenas de filmes em Hollywood. O diferencial de Brothers em relação aos demais é a sua tentativa de colocar em primeiro plano a relação familiar que cerca um veterano de guerra. Não entra em jogo, nesta história, sua busca por se encaixar na sociedade, como tentativas frustradas de encontrar um novo emprego ou sua luta para vencer o alcoolismo. Na verdade, tudo o que o protagonista de Brothers deseja é voltar para o “terreno seguro” dos enfrentamentos militares. O cartaz da nova produção dirigida pelo veterano Jim Sheridan dá a dica sobre o que diferencia realmente esta produção: a possibilidade de um triângulo amoroso protagonizado por dois irmãos. Ainda que bem escrito, com uma direção segura e interpretações variáveis, Brothers parece ter ficado dois tons abaixo do ideal.

A HISTÓRIA: A bandeira dos Estados Unidos é hasteada no Fort Mahlus no dia 7 de outubro de 2007 e um grupo de soldados corre nas primeiras horas da manhã. Integra o pelotão bem preparado pelo Exército o capitão Sam Cahill (Tobey Maguire). Ele conta os dias – quatro, precisamente – para ser enviado novamente ao Afeganistão. Antes, escreve uma carta de despedida para a esposa, Grace (Natalie Portman). Ele espera que ela não precise recebê-la. Sam deixa a carta que escreveu para o major Cavazos (Clifton Collins Jr.) antes de dirigir para casa, onde encontra a esposa e suas duas filhas, Isabelle (Bailee Madison) e Maggie (Taylor Geare). Pouco depois, Sam vai até o presídio local, pegar o irmão mais novo, Tommy (Jake Gyllenhaal), que está saindo em condicional. Grace não gosta de Tommy, mas ele acaba sendo o apoio inesperado da família quando Sam não volta para casa do Afeganistão.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Brothers): Eu gosto do estilo do diretor Jim Sheridan. Uma de suas marcas registradas é tratar temas sérios e duros com uma levada marcante de “modernidade” – para alguns, uma levada pop. O primeiro filme dele que me marcou foi My Left Foot: The Story of Christy Brown, com um marcante Daniel Day-Lewis como protagonista. Depois, me marcou muito In the Name of the Father, com uma interpretação igualmente marcante de Day-Lewis e uma trilha sonora poderosa que contava, entre outros, com Bono, do U2. Não foi por acaso que aquela produção, de 1993, recebeu sete indicações ao Oscar. Sheridan, contudo, não é um diretor prolífico. Em 20 anos, ele dirigiu apenas sete filmes. Brothers, sua última produção lançada nos cinemas, surgiu quatro anos depois de seu trabalho anterior.

Novamente Sheridan consegue equilibrar na medida exata imagens bem captadas/planejadas, uma trilha sonora moderna e atuações competentes. Ainda que Tobey Maguire tenha conseguido com o personagem de Sam um de seus papéis mais “adultos” dos últimos tempos, ele ainda lembra a imagem do “adolescente-prestes-a-virar-adulto” que parece lhe acompanhar sem descanso desde Spider-Man e The Cider House Rules. Jake Gyllenhaal praticamente não muda a sua expressão durante todo o filme, e Natalie Portman, esta sim, parece navegar bem nos diferentes sentimentos com os quais sua personagem deve lidar.

Com isso, não quero dizer que Tobey Maguire, por exemplo, está mal no filme. Não. Talvez em Brothers ele consiga um dos primeiros papéis sérios de sua carreira – e ele, geralmente, consegue segurar esta responsabilidade com competência. O problema talvez resida no fato de que este filme, com roteiro de David Benioff, resolve dar uma “acelerada” no final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Teria sido muito melhor para a história e para a interpretação de Maguire se ele tivesse mais tempo de desenvolver a “estranheza” de voltar para casa depois da experiência traumatizante do Afeganistão. O roteirista decidiu gastar muito mais tempo do filme com a aproximação de Tommy com a família do irmão do que em explorar a adaptação (ou melhor, a falta dela) de Sam no retorno para casa. Acredito que se o espectador tivesse mais tempo de observar o quanto o pai das meninas estava frio, ausente e distante de sua mulher e de suas filhas, a história convenceria mais no final – e Maguire teria um terreno adequado para mostrar seu talento sem parecer “estranhamente desesperado”, como na sequência da quebradeira na cozinha.

Mas antes de continuar falando do trio de atores principais de Brothers, vamos comentar sobre o que o filme nos conta. Importante citar que esta nova produção de Jim Sheridan é uma refilmagem do dinamarquês Brodre, dirigido por Susanne Bier (de Efter Brylluppet e Things We Lost in the Fire, comentado aqui no blog, entre outros), uma das melhores diretoras de seu país, e lançado em 2004. Não assisti ao filme original, mas pelo estilo de Bier e do roteirista Anders Thomas Jensen, algo me diz que a produção original deveria ser mais ousada que esta refilmagem de Sheridan – quem assistiu aos dois, por favor, comente a respeito. Uma das razões que fazem Hollywood “repaginarem” produções de outros países é a de “emprestarem” boas idéias e transformá-las em um produto de vitrine, que poderá, em teoria, ser visto por um público muito maior.

A verdade é que o argumento de Brothers é muito interessante. Ele traz, como eu disse lá no início, a idéia das “feridas de guerra” vista em outra perspectiva. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O ponto central do roteiro reside no cotidiano da família Cahill. Temos, em jogo, a boa e velha “disputa” entre irmãos – um tratado como herói, o outro, como bandido. Essa disputa nasceu há muito tempo, quando Sam e Tommy ainda eram crianças. O irmão mais novo sente-se sempre subjugado pelo mais velho – especialmente pela visão que ele acha que o pai deles, Hank (Sam Shepard), preserva desde que eles eram jovens. Ainda assim, os garotos, aparentemente, conseguiram manter o laço de confiança, amor e irmandade bastante fortes. Como muitos filmes dinamarqueses, a questão familiar ganha protagonismo mesmo quando o assunto é a guerra.

Para os que tem pressa em ver “algo acontecer” em um filme, Brothers não demora muito para promover as mudanças na dinâmica da história. Rapidamente ocorre uma “dança de cadeiras” no núcleo familiar dos Cahill. Sai de cena o aparentemente equilibrado e amoroso Sam, que volta para os terrenos perigosos do Afeganistão, e entra no convívio de Grace e filhas o até então inconstante e problemático Tommy. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Com esta mudança de papéis involuntária, Brothers lança outra reflexão: ninguém é apenas uma coisa nesta vida. Nem Sam era o herói acima de qualquer suspeita e muito menos Tommy era o problemático que todos estavam acostumados a olhar com desconfiança. Quando o irmão mais novo assume, naturalmente, as responsabilidades do mais velho, Brothers nos ajuda a refletir sobre como o rol social pode ajudar a definir uma pessoa.

O que ninguém percebe – e nisto o espectador é colocado em lugar previlegiado porque, ele sim, sabe o que está acontecendo – é que o herói Sam perde esta sua definição quando é capturado no Afeganistão. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Perdido, sem saber que papel continuar seguindo na vida – e é a identidade pessoal e o rol social que assumimos na sociedade o que nos define -, Sam se sente totalmente desnorteado e sufocado pela realidade da família que, ainda, o vê como herói (mesmo depois dele ter matado um companheiro de Exército para conseguir continuar vivo). A dura realidade exposta com naturalidade por Brothers nos mostra um protagonista que busca, no seio familiar, qualquer indício de traição. Ele quer encontrar, seja em Grace ou em Tommy, a mesma traição que ele sente ter praticado contra o Exército, simbolizado pelo soldado Joe Willis (Patrick Flueger) e, indiretamente, contra a sua própria vida (identificada pelo rol social de herói). Sam não suporta, em resumo, olhar-se no espelho – e/ou confrontar-se com si mesmo.

Em certo ponto do filme, Sam comenta que se sente em casa no Afeganistão, acompanhado de “seus homens” (soldados). (SPOILER). Quando ele pratica uma traição neste ambiente “familiar” do Exército, no momento em que ele quebra a confiança em seu “segundo” lar, parece quase natural que ele busque a mesma “sujeira” em sua família original. Para que ele tenha alguma absolvição, é preciso que Grace ou Tommy tenham traído a sua confiança também. Esta reflexão vai fundo em um sentimento irreparável de perda e de cobrança que parece cercar os veteranos de distintas guerras. Mas poucas vezes este assunto foi tratado de forma tão pessoal e com diferentes camadas interpretativas. Um belo trabalho dos roteiristas originais, Bier e Andersen e, neste filme de Sheridan, de Benioff. Ainda que, francamente, achei que o filme poderia ser um pouco mais longo, para que o espectador pudesse acompanhar com um pouco mais de tempo as mudanças pelas quais passa Sam – especialmente no ambiente familiar. A acelerada no final prejudicou um pouco o desempenho de Tobey Maguire – que vinha fazendo um dos melhores trabalhos de sua carreira.

Em alguns momentos, Jake Gyllenhaal e Natalie Portman conseguem acompanhar o nível de entrega de Maguire. Gyllenhaal, por exemplo, consegue variar bem o tom rude com o qual o seu personagem sai da prisão com a leveza que ele encontra quando reencontra a alegria de fazer parte de uma família – composta por crianças. Ainda que, francamente, me irrite um pouco aquela sua permanente expressão de “cachorro abandonado” – a mesma que se vê quando ele fala com o pai na cozinha de Grace e a que ele esbanja quando enfrenta o irmão, perto do final do filme. Natalie Portman se mantêm firme e coerente com a sua personagem, ainda que eu tenha sentido a falta de um pouco mais de emoção a partir do momento em que Sam volta estranho para casa – especialmente na já citada cena de descontrole do marido na cozinha. Mas no geral, o núcleo central de Brothers trabalha muito bem – e, admito, sou suspeita para falar, porque gosto muito dos três atores principais.

Antes de falar dos aspectos técnicos do filme, como a direção de fotografia e a trilha sonora, uma última reflexão sobre a sua história. (SPOILER). Não deixa de ser interessante como Gracie e Sam tomam atitudes para não “tornar verdadeiras” as realidades que eles não querem aceitar. Gracie, primeiro, deixa de abrir a carta escrita por Sam antes dele “morrer” no Afeganistão – como se, ao ler a sua despedida, ela aceitasse que ele havia morrido. Depois, Sam evita ao máximo revelar, para quem quer que seja, o que ocorreu no tempo em que ele ficou prisioneiro no Afeganistão. É como se, ao verbalizar o seu ato de traição para alguém, ele tornasse este ato, finalmente, real. Palavras escritas ou proferidas parecem ter, na história de Brothers, a capacidade de materializar realidades. O que, na vida real, parece também ser verdade. Não sabemos se Sam conseguirá aceitar o fato de que continua vivo – e enfrentar/absolver seus próprios “pecados”. Mas a história de amor dele e de Grace, o ponto central deste filme, parece ser o único caminho possível para ajudá-lo neste sentido.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos primeiros elementos que me chamou a atenção neste filme foi a trilha sonora de Thomas Newman. O veterano e premiado compositor fez um trabalho muito bom com Brothers. Escolheu a dedo composições que casaram perfeitamente com a história. E a estrela entre elas, Winter, composta por Bono e o U2, aparece apenas nos créditos finais. Como se ela fosse uma ode à história de amor e sobrevivência que acabamos de assistir. E o U2, velho parceiro de Jim Sheridan, é “homenageado” em outra parte do filme, quando seu clássico, Bad, ganha um papel curioso na aproximação de Grace e Tommy. Mas além da banda de origem irlandesa, integram a trilha sonora de Brothers músicas como Rocky Mountain Man (escrita por David Manzanares e interpretada por David James), Empty Sky (interpretada por Simon Wilcox), entre outras. A música, neste filme, casa perfeitamente com a história e as imagens algumas vezes poéticas de Sheridan.

O diretor, aliás, faz um trabalho bastante correto. Ainda que o foco de suas câmeras sejam sempre a intepretação dos atores em cena, não lhe escapam detalhes como as imagens captadas por Sam no Afeganistão ou a aliança do capitão deixada no pescoço de sua esposa. Em vários momentos Sheridan assume a posição de um observador “íntimo”, familiar, como é o caso das cenas da intimidade de Grace e Sam da parte inicial da produção. Em outras ocasiões, como nos atos de tortura sofridos por Sam e Joe no Afeganistão, Sheridan mantêm a sua câmera distante, como que em sinal de reprovação ao que está sendo mostrado (ou como indicativo de perigo). A posição e o grau de intimidade do “observador” mudam conforme a situação, mas em nenhum momento o espectador é privado do que está ocorrendo. Uma forma de narrar tradicional e ao mesmo tempo cuidadosamente planejada – o que apenas comprova a experiência e o talento de Sheridan.

Outro ponto importante do filme é a qualidade técnica da direção de fotografia de Frederick Elmes. Ele utiliza um jogo de lentes que puxam as cores sempre um pouco para ao cinza, ressaltando a crueza da difícil realidade que cerca a família Cahill. Mesmo nos momentos “felizes” de brincadeiras na neve, quando Sam está ausente, o tom das imagens parece recordar os espectadores de que aquela felicidade é apenas aparente, talvez “falsa”. Afinal, o “herói” da história está passando por maus bocados longe dali. Quando ele volta para casa com o peso da culpa e com a necessidade de encontrar “bodes-expiatórios” para os seus próprios “pecados”, o tom cromático é o mesmo. Uma escolha interessante de Elmes que, com a escolha deste tom permanentemente “cinzento”, parece nos lembrar que esta história não é simples – ainda que, no fundo, ela trate de amor e perdão.

Além do trio de protagonista, é importante citar que o elenco de apoio também se mostra muito competente. Do veterano Sam Shepard até as jovens Bailee Madison e Taylor Geare (especialmente Bailee), todos incorporam com perfeição as diferentes experiências e sentimentos pelos quais passam o seus personagens. Vale a pena citar ainda o trabalho de Mare Winningham como Elsie Cahill, madrasta de Sam e Tommy; Carey Mulligan como Cassie Willis, viúva do soldado Joe; Omid Abtahi como Yusuf, o chefão dos “vilões” do Afeganistão, e Navid Negahban como Murad, o seu braço direito.

Brothers não tem como objetivo discutir o papel de “mocinhos e bandidos” em uma invasão/ocupação como a do Exército dos Estados Unidos no Afeganistão. Ainda que os soldados norte-americanos apareçam apenas como “vítimas” dos terroristas, o objetivo do filme não é discutir este tema, e sim mostrar o que acontece na vida familiar de quem resolve se dedicar a uma “causa” como a de proteger o seu próprio país.

O mais recente filme dirigido por Sheridan estreou no início de dezembro de 2009 em Israel, no Canadá e nos Estados Unidos. Em seu currículo, até o momento, a participação em apenas um festival, o de Dubai. Talvez por isso ele tenha sido indicado a apenas três prêmios: um da Broadcast Film Critics Association e outros dois do Globo de Ouro.

Até o início deste ano Brothers havia arrecadado pouco mais de US$ 25,3 milhões nos Estados Unidos. Uma bilheteria razoável para um filme que não teve um grande investimento de marketing – só para comparar, o mega divulgado Nine conseguiu, até o momento, pouco mais de US$ 13,7 milhões.

As opiniões sobre Brothers são positivas, ainda que nada arrebatadoras. Os usuários do site IMDb, por exemplo, deram a nota 7,6 para o filme. Por sua vez, os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais duros com a nova produção de Sheridan: lhe dedicaram 60 críticas positivas e 45 negativas, o que garante para Brothers uma aprovação de 57%. Um dos críticos que reprovou Brothers foi Rex Reed, do The New York Observer. Neste texto Reed afirma que esta foi uma refilmagem desnecessária. Ele comenta que o drama ao estilo Caim e Abel ambientado em uma cidade do interior dos Estados Unidos tem mais clichês do que um filme pode suportar. Concordo com ele quando o crítico afirma que as mudanças de papéis entre os irmãos ocorrem muito rapidamente e de forma alarmante – e, por isso, de maneira um pouco difícil de acreditar. Esse, sem dúvida, é o principal problema do filme.

David Denby, do The New Yorker, comenta que os atores Tobey Maguire e Natalie Portman não parecem caminhar juntos – ou, em outras palavras, não tem a sintonia necessária para seus papéis. Nesta curta crítica, Denby bate firme na sequência em que Maguire se descontrola na cozinha da família – chamando seu trabalho de pirotecnia ao invés de interpretação. Pegou pesado, não? O crítico considera o filme The Messenger, que trata de um tema similar, melhor que Brothers. A conferir.

Neste outro texto, Liam Lacey afirma que o desejo de Brothers em emocionar o público acaba enfraquecendo a história, ao tranformá-la em um melodrama. Gostei, especialmente, quando Lacey faz um paralelo entre as irmãs Maggie e Isabelle e os irmãos Sam e Tommy. Realmente na questão disputa, insegurança e “queridinha/o-de-todos” as duas filhas de Sam se parecem com ele e o irmão Tommy. Lacey ainda destaca o trabalho de Sheridan com os atores, comentando o desempenho maduro de Natalie Portman e a eficácia dos demais intérpretes em seus respectivos papéis. Mas o crítico afirma que o principal pecado do filme é o de tentar ser “potente” desde o princípio. Ainda que respeite o material original, o filme de Sheridan tem uma dinâmica muito diferente que seu predecessor. Para Lacey, o estilo do original dinamarquês, filmado sob os preceitos do Dogma, captava a realidade através do uso de câmeras na mão da diretora, revelando naturalmente a angústia da crise familiar retratada. A busca de Sheridan por confrontar a realidade do Afeganistão com a do cotidiano familiar dos Cahill acaba colocando o espectador em guarda contra a manipulação das performances das estrelas do elenco, dos “riffs” de guitarra e da arrebatadora canção final do U2. Interessante reflexão.

Tom Long, do The Detroit News, afirma neste texto que Brothers surpreende ao público e que esta produção, mesmo contando com um elenco afiado, é mesmo de Tobey Maguire. Long considera o último filme de Sheridan perturbador. A sempre interessante Claudia Puig, do USA Today, destaca neste texto a agilidade de Sheridan como contador de histórias e o seu talento para dirigir o trabalho dos atores – mesmo os mais jovens/crianças. “Embora tenha várias cenas poderosas e comoventes, o filme também apresenta momentos de artifício desnecessários”, comenta Puig – e ela tem razão. Ainda assim, a crítica afirma que Brothers acaba sendo instigante em sua tentativa de explorar a natureza complexa dos vínculos familiares – onde as feridas causadas por um pai perturbado podem ser tão dolorosas quanto as cicatrizes de uma batalha.

A crítica Lisa Kennedy, do Denver Post, destaca a interpretação das meninas que interpretam as filhas de Sam e Grace – para ela, neste texto, elas são o ponto forte de Brothers. Peter Howell, do The Star, comenta neste texto que a comparação entre um remake e seu original é praticamente uma forma de punição para a nova produção. Sem hesitar, o crítico afirma que o original, dirigido por Susanne Bier, é melhor que o filme de Sheridan em todos os aspectos. Howell destaca o trabalho de “alto calibre” de Maguire, Gyllenhaal e Portman, ainda que, para ele, falte a naturalidade mostrada pelos atores dinamarqueses do filme original. “No Brothers original, você pode entender melhor as motivações dos personagens e as decisões que eles tomam”, afirma o crítico. Para Howell, ainda com todos os seus “pecados”, o Brothers de Sheridan merece ser visto – especialmente pelas performances de seus atores.

Eu admiro cartazes e sites de filmes que primam pela simplicidade e pela plasticidade. Este é o caso de Brothers, que tem um pôster e um site oficial bem feitos e muito limpos.

CONCLUSÃO: Com uma história poderosa que explora os efeitos da guerra na intimidade de uma família, Brothers evidencia o trabalho do seu trio de atores principal. Sob a batuta do experiente Jim Sheridan, Tobey Maguire e Natalie Portman conseguem interpretações maduras – talvez as melhores de suas respectivas carreiras nos últimos tempos. Jake Gyllenhaal e as jovens Bailee Madison e Taylor Geare também se destacam nesta produção. Com um desenvolvimento natural e parte de sua narrativa dividida em duas realidades – uma nos Estados Unidos, outra no Afeganistão -, Brothers sofre, contudo, com mudanças no roteiro bruscas demais. O resultado é que parte da história acaba parecendo um tanto artificial e/ou forçada além do desejado. Ainda assim, é destes filmes que emocionam e fazem pensar. Não apenas sobre os efeitos da guerra na vida prática de seus sobreviventes, mas sobre o papel que certas pessoas desempenham em suas famílias e sobre a capacidade delas em conviver com os seus próprios pecados.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Brothers não deve ter muitas chances na próxima premiação da Academia. Se o Globo de Ouro serve de termômetro para o Oscar, o novo filme de Jim Sheridan poderia emplacar indicações para Tobey Maguire e para a música Winter, do U2. Francamente, não acho que Maguire tenha alguma chance real de levar uma estatueta para casa – acho difícil, inclusive, que ele consiga chegar entre os cinco indicados ao prêmio. Por mais que o ator tenha se entregado no papel de Sam Cahill, ele fica atrás de outros colegas bastante cotados nesta categoria. Winter, por outro lado, tem grandes chances de ser indicada na categoria de Melhor Canção Original. Mas para vencer, Bono e colegas de banda terão que levar a melhor na queda-de-braços com os representantes de Avatar, Nine e Crazy Heart, entre outros. O páreo será duro. Dificilmente Brothers conseguirá alguma outra indicação, mas não seria absurdo vê-lo surpreendendo a muitos nas categorias Melhor Atriz (com Natalie Portman), Melhor Ator Coadjuvante (com Jake Gyllenhaal) ou Melhor Trilha Sonora Original. Mas se eu fosse apostar, diria que Brothers sairá de mãos vazias do Oscar.

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