Arquivos

Archive for fevereiro \27\UTC 2010

Crazy Heart – Coração Louco

27 de fevereiro de 2010 15 comentários

Um homem derrotado pelo rolo compressor da própria vida. Considerado outrora um ídolo, ele agora toca para qualquer público para conseguir pagar seus vícios e seguir sobrevivendo. Crazy Heart conta uma história dura, mas ao mesmo tempo realista e tocante. Para isso, conta com uma interpretação inspirada, poderosa e decisiva, uma verdadeira entrega do ator Jeff Bridges que, com todos os méritos, deve ganhar o Oscar de Melhor Ator este ano – depois de ter ganho quatro prêmios importantes por sua atuação.

A HISTÓRIA: Um velho automóvel cruza quilômetros de asfalto em um território árido. Depois de percorrer planícies, paisagens agrestes e cadeias montanhosas, Bad Blake (Jeff Bridges) chega até um boliche no Novo México onde irá se apresentar à noite. Ele acende um cigarro, entre no boliche e, logo após ser cumprimentado pelo gerente do local (James Keane), recebe o aviso que não pode fumar ali. Em seguida, descobre que nem a bebida que pede no balcão pode ser descontada de seu cachê. Blake amarga uma fase em sua vida em que as pessoas parecem não se lembrar mais de sua grande trajetória como artista do country music. Sem dinheiro, “quebrado”, alcóolatra e sem compor há vários anos, Bad Blake vive uma fase terrível. Até que ele se encontra com a jornalista Jean Craddock (Maggie Gyllenhaal), sobrinha de Wesley Barnes (Rick Dial), um pianista nas horas vagas que contrata Blake para duas apresentações em Santa Fé, e sua vida ganha novas perspectivas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Crazy Heart): Não é todos os dias que um ator de Hollywood se emociona ao incorporar a vida de um personagem. Em um certo momento de Crazy Heart, quando Bad Blake está deitado na cama de Jean depois de sobreviver a um grave acidente, quando ele volta a compor uma música depois de um hiato de muitos anos, o espectador atento pode perceber que as lágrimas começam a se formar nos olhos de Bridges. Ele está sentindo, em cada palavra que canta e movimento que faz no violão, o que aquela música representa para o seu personagem. E mais, ele percebe a grandeza daquele momento na vida do “derrotado” Blake. Jeff Bridges vestiu a pele do personagem e, por isso, ele é o nome deste filme.

Crazy Heart é uma destas produções de baixo orçamento, descompromissadas, que mergulham sem medo em um tema específico. Por serem limpas e leves, sem a preocupação de “problematizar” a realidade, estas histórias acabam chegando diretamente na percepção do público. Francamente não sou uma grande conhecedora ou fã da country music norte-americana. Mesmo assim, fiquei fã da trilha sonora assinada por T-Bone Burnett e por Stephen Bruton. As músicas são lindas, uma mais perfeita para a história que a outra.

O diretor e roteirista Scott Cooper mergulha em todos os elementos que compõe a aura de um artista veterano da “velha” country music neste filme. Aos 57 anos de idade, o protagonista se sente em fim de carreira. Derrotado, falido, sem rumo e sem controle. Ele segue acionando o seu próprio piloto automático e dirigindo milhas e milhas pelo interior dos Estados Unidos tocando para um público pequeno e variado, essencialmente antigo como ele. Mais que isso, este personagem sofre com vícios dos quais ele parece ser incapaz de se livrar.

Neste ponto, Crazy Heart não é apenas uma história sobre um antigo ídolo de determinado gênero musical em decadência. Ainda que o filme trate do quanto efêmera e injusta pode ser a fama, Crazy Heart vai além disso. O roteiro, baseado na obra homônima de Thomas Cobb, serve como exemplo de como o alcoolismo pode destruir a dignidade de um homem e limitá-lo a cenas desesperadoras. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um dos momentos mais angustiantes que eu assisti em um filme nos últimos tempos foi aquele em que Bad Blake descobre que o pequeno Buddy (Jack Nation), o filho de quatro anos de Jean, simplesmente desaparece quando estava sob seus cuidados. O desespero daquele homem e, depois, da mãe de Buddy acerta o espectador em cheio e serve como exemplo do tipo de descontrole que o alcoolismo pode provocar.

Além destes dois temas universais, Crazy Heart toca em outras questões que sempre rendem grandes momentos no cinema. Como a vontade de um adulto arrependido em fazer as pazes com o próprio passado. Ou a descoberta, mesmo em certa “idade avançada” da vida, que é sempre possível renascer. Crazy Heart é um filme sensível, cheio de emoção e com interpretações maravilhosas – além da já comentada roubada de cena de Jeff Bridges, Maggie Gyllenhaal está perfeita em seu papel. Ela ilumina cada quadro do filme no qual aparece – como a sua personagem deveria fazer.

Desde o primeiro minuto em que Jean aparece, percebe-se o seu fascínio por aquele homem mais velho que, mesmo tendo todos os elementos para ser uma “encrenca” em sua vida, ainda esbanja charme, talento e virilidade. Os dois se aproximam e, neste momento, Crazy Heart passa a ser também uma história de amor. Destas que revelam, sem virtuosismo o exageros, pelo contrário, com muita simplicidade, como o amor pode ser transformador. Aproximando-se novamente de um garoto como é o caso do filho de Jean, Blake tem a oportunidade de olhar para o próprio passado. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Desta forma, ele percebe como abandonou o próprio filho, hoje adulto, e sente a necessidade de tentar consertar isso.

O bacana de filmes como este é que não existe a preocupação de seus realizadores em agradar ao grande público. Algo muito diferente de fenômenos como Avatar. Por isso mesmo é que Crazy Heart, Precious, An Education, The Hurt Locker e tantos outros se mostram tão mais criativos, legítimos, obras de cinema – e não peças de mercado com o único fim de fazerem lucro.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Scott Cooper não se esforça em encontrar um final feliz aos moldes de Hollywood. O “mocinho” não necessariamente tem que ficar com a “mocinha” no final da história ou receber o perdão do filho antigamente rejeitado. Buscando a legitimidade da vida real, o diretor e roteirista mostra que um final feliz pode existir com o esforço hercúleo de um homem em reerguer-se das cinzas. Ao se recriar, Bad Blake demonstra que a felicidade não reside na dependência que um indivíduo pode criar em relação a outro, mas em sua própria capacidade em exercer plenamente seu talento e buscar suas virtudes. Só depois, inteiro, ele poderá dividir isso com os demais. Seja em uma relação pessoal ou através de músicas belíssimas.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um tema secundário de Crazy Heart pode dar pano pra manga. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Os “novos” ídolos da música e sua falsa modéstia e relação de exploração, muitas vezes, com seus mentores “decadentes”. Bad Blake passa o filme inteiro com o “pé atrás” em relação ao fenômeno de massas Tommy Sweet (Colin Farrell). E não é para menos. Ao mesmo tempo em que rasga seda para Blake, Sweet deixa claro que por trás de seus elogios existe o interesse para que o veterano talentoso volte a lhe emprestar o seu talento. Há tempos sem escrever nada que preste, Sweet espera que Blake possa lhe ajudar na difícil tarefa de ficar sempre na crista da onda.

O tema é bom e polêmico. Na segunda parte de sua entrevista com Blake, Jean lhe pergunta quem continua compondo e tocando músicas verdadeiras na era em que o “country artificial” parece dominar o cenário musical. Blake admite que Sweet “tenta” fazer a música country de anos atrás. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas ironicamente, é justamente Sweet quem lhe pede e, posteriormente, praticamente obriga Blake a ceder-lhe suas novas composições. Para um compositor “quebrado” (no sentido financeiro e pessoal), a oferta de ceder por uma grande quantia de dinheiro, no período de dois anos a autoria de suas novas composições para um antigo “pupilo” e atual “rival” se mostra irrecusável.

Esta forma de exploração (outros a encaram como uma “providencial ajuda”) mostrada pelo filme ocorre na vida real. Muitos “novos ídolos” da juventude e/ou das massas se valem do talento esquecido de antigos mentores, companheiros de excursões e ídolos nacionais por meio de regravações de seus sucessos – pagando uma miséria por isso – ou ao utilizar novas composições destas pessoas. Manda mais quem está lotando seus shows e fazendo dinheiro com novos discos. Obedecem os que passaram a figurar na lista de “ilustres desconhecidos” da massa. A indústria musical, como outras do “show business”, acaba sendo bastante desleal com seus antigos ídolos.

O escritor Thomas Cobb lançou o livro Crazy Heart em 1987. Na época, o Los Angeles Times afirmou que o romance de estréia do escritor era uma cuidadosa “crônica de observação da América”. O Chicago Tribune publicou que o autor havia escrito uma quase obra-prima sobre um assunto até então pouco atrativo. O jornal afirmou ainda que Cobb havia criado um personagem principal inesquecível, em um texto que evidenciava não apenas seus interesses, mas também suas emoções. Não li o livro, mas tudo indica que o diretor e roteirista Scott Cooper conseguiu ser muito fiel a esta alma do personagem e à história da obra original.

Jeff Bridges é o nome do filme – assim como o personagem de Bad Blake parece dominar as páginas da obra original. Ainda assim, é importante comentar o desempenho dos coadjuvantes desta produção. Além dos já citados Maggie Gyllenhaal (maravilhosa), Jack Nation (encantador) e Colin Farrell (propositalmente “plastificado”), vale a pena comentar o trabalho do veterano Robert Duvall como Wayne, o proprietário de um bar que é amigo de Blake; Tom Bower em uma superponta como Bill Wilson, o fã do cantor que lhe “presenteia” com uma garrafa de whisky em troca de uma música na apresentação que ele faz no boliche do Novo México (tirada genial esta, aliás); e Paul Herman como Jack Greene, o empresário de Blake que não consegue nenhum acordo decente para o músico.

Crazy Heart conseguiu um desempenho até que satisfatório para um filme de seu porte. Apenas nos Estados Unidos ele arrecadou, até o dia 21 deste mês, pouco mais de US$ 21,5 milhões. Certamente devido aos elogios recebidos pela atuação de Jeff Bridges e pela força que a country music tem naquele país.

Até o momento o filme conquistou 13 prêmios e foi indicado a outros 13. Crazy Heart tem se consagrado especialmente pela atuação de Jeff Bridges e pelas músicas compostas por T-Bone Burnett e Ryan Bingham. Elas, aliás, merecem um capítulo a parte. São belíssimas e elevam o filme a um outro patamar. Assim como a direção de fotografia bastante acertada de Barry Markowitz e a direção suave e ao mesmo tempo atenta aos detalhes de Scott Cooper.

Mas nunca é demais recomendar que as composições escritas para o filme sejam observadas por completo, seja através da trilha sonora original, vendida em separado, ou pela divulgação de algumas delas em vídeos no Youtube. A performance de Ryan Bingham para a premiada The Weary Kind, aliás, tem uma audiência espetacular na internet (uma das opções de video é esta). Observando a trilha sonora, aliás, é que tirei uma importante dúvida que tive enquanto assistia a Crazy Heart: afinal, Jeff Bridges realmente soltou o gogó ao cantar aquelas composições? Pois os créditos da trilha sonora comprovam que Bridges canta grande parte das composições escritas especialmente para a produção e que até Colin Farrell e Robert Duvall dão suas palhinhas. Interessante.

Mas voltando ao tema dos prêmios… Das 13 conquistas de Crazy Heart até o momento, oito ocorreram devido às músicas compostas para o filme e cinco graças ao trabalho de Bridges. Lembrando que ambos foram premiados no Globo de Ouro. Jeff Bridges foi ainda premiado como Melhor Ator pela votação da Screen Actors Guild, o principal prêmio da categoria dos atores nos Estados Unidos.

Algumas curiosidades sobre Crazy Heart: ele foi filmado em apenas 24 dias e o show que Bad Blake abre para Tommy Sweet foi gravado no Journal Pavilion em Albuquerque utilizando a estrutura de uma apresentação do músico Toby Keith. Jeff Bridges sempre teve uma inclinação para a música, tanto que no ano 2000 ele lançou um disco chamado Be Here Soon.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para o filme. Achei ela muito, muito baixa. Mas talvez ela reflita a frustração das pessoas por este filme não ser, exatamente, “fácil”. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, foram muito mais generosos: eles dedicaram 159 textos positivos e apenas 13 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92%.

Entre as críticas positivas para o filme, destaco esta de Liam Lacey publicada no The Globe and Mail. Ele começa seu texto categórico: “Outra temporada para o Oscar, outro ator veterano que descobre seu peito e volta a rugir. Em Crazy Heart, Jeff Bridges segue os passos de Frank Langella em Starting Out in the Evening (2007) e Mickey Rourke em The Wrestler (2008), como uma figura famosa e sua falência familiar que redescobre seu ‘mojo’ espiritual através do amor de uma mulher”. Para o crítico, o desempenho de Bridges na pele do protagonista é autêntico de uma forma desconcertante.

Na opinião de Lacey, o grande desempenho de Bridges ocorre em um filme “relativamente menor”. O crítico comenta que Crazy Heart é a adaptação de Scott Cooper do livro de Thomas Cobb que, por sua vez, se inspirou na carreira do falecido Waylon Jennings. Então, com este comentário, Lacey tira uma das minhas dúvidas principais: se o filme teria alguma inspiração real. Pois sim, ele teve. Lacey afirma que Crazy Heart lembra muito a produção Tender Mercies, de 1983, estrelada por Robert Duvall. O crítico comenta que o mergulho da personagem de Jean acaba não sendo tão convincente quanto deveria. Por outro lado, ele considera um dos pontos fortes do filme a autenticidade das canções escritas por T-Bone Burnett, Steven Broder e Ryan Bingham. “Em um gênero musical no qual a autenticidade emocional é essencial, Bridges é suficientemente grande ator para nos fazer acreditar que estas canções poderiam ser suas”, finaliza Lacey.

A crítica Kimberly Gadette, do Indie Movies Online.com, destaca as quatro indicações ao Oscar que Jeff Bridges recebeu em sua carreira – sem nunca ter ganho alguma estatueta. Ela comenta que em Crazy Heart ele tem um desempenho fora de série, “desprovido totalmente de vaidade”. Gadette elogia o trabalho de Maggie Gyllenhaal, afirmando que ela apresenta para o espectador uma jovem “forte”, direta, e que alimenta uma relação com o protagonista que foge do clichê hollywoodiano. Ela ainda elogia a trilha sonora, afirmando que as composições buscam “evocar ao invés de copiar” os mais conhecidos artistas da época, assim como considera “impressionante” a estréia de Scott Cooper como diretor.

CONCLUSÃO: A história de um homem que segue ladeira abaixo ainda que, para muitos que lhe enxergam apenas como um ídolo, ele parece bem quando assume sua guitarra e o microfone sobre um palco qualquer. Crazy Heart se debruça na derrocada de um antigo astro da country music para falar sobre os bastidores da música, parte da vida no interior dos Estados Unidos e, especialmente, sobre uma história de redenção. Estrelado por um Jeff Bridges em grande momento, este filme se mostra simples e ao mesmo tempo profundo, tocando em temas como família, alcoolismo, fama e a força que um novo amor pode ter em todo este contexto. Com uma trilha sonora deliciosa e canções belíssimas – mesmo para quem não gosta de country music -, Crazy Heart vale por Jeff Bridges, Maggie Gyllenhaal e pela maneira simples com que esta história é contada. Também chama a atenção como a história foge de um final feliz óbvio e, ainda assim, pode agradar e emocionar com alguns momentos preciosos.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Crazy Heart está concorrendo em três categorias na maior premiação de Hollywood: Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Canção Original. Deve ganhar dois destes prêmios. Sem dúvida a entrega de Jeff Bridges para o papel lhe credencia a ganhar a estatueta. Não assisti ainda ao desempenho de Colin Firth em A Single Man, mas ao comparar Bridges com George Clooney, Morgan Freeman e Jeremy Renner, o protagonista de Crazy Heart sai na dianteira. Ele realmente merece o prêmio. Minha segunda escolha ficaria entre Jeremy Renner e Morgan Freeman. George Clooney, definitivamente, não deveria levar a estatueta para casa.

Ainda que Maggie Gyllenhaal esteja ótima no filme, equilibrando com seu carismo e “luz” o lado pesado de Bad Blake a cada aparição sua na tela, fica difícil para ela concorrer com a performance visceral de Mo’nique em Precious. E mesmo que Mo’nique não ganhasse a estatueta, provavelmente a segunda na mira do Oscar seria Anna Kendrick por seu desempenho realmente interessante em Up in the Air. Não será desta vez que Maggie Gyllenhaal sairá com um Oscar do Kodak Theater.

Melhor Canção Original é uma barbada. Ainda que a animação The Princess and the Frog tenha duas músicas concorrendo ao Oscar, The Weary Kind parece imbatível. Seria um reconhecimento acertadíssimo para os compositores que produziram canções fundamentais para Crazy Heart. Eles devem ganhar a estatueta este ano.

Avatar 3D

26 de fevereiro de 2010 17 comentários

Uma das maiores bilheterias de todos os tempos e um dos filmes mais falados – e propagandeados – do final de 2009 e início de 2010. Ninguém na face da Terra pode negar que Avatar (aqui o site oficial em português) é um fenômeno de massas como há tempos o cinema mundial não via (mais precisamente, desde 1997, quando foi lançado Titanic, o outro filme-fenômeno de James Cameron). Demorei para assistí-lo porque eu via como fundamental a questão do 3D. Me desculpem os sensíveis, mas assistir Avatar sem ser em 3D é o mesmo que preferir assistir qualquer filme que exige grandes dimensões em uma TV de 14 polegadas. O tão comentado 3D – que está, infelizmente, ainda longe de ser realmente revolucionário -, no caso de Avatar, acaba sendo tão ou mais importante que o roteiro e a direção de Cameron. Antes de assistí-lo, eu tinha ouvido comentários ruins sobre o roteiro do filme, aliás. Mas ainda que Avatar se perca um bocado no caminho – deixando para trás a oportunidade de ser um filme muito melhor -, admito que me surpreendi positivamente com o que eu vi. Esperava algo pior.

A HISTÓRIA: O ex-fuzileiro Jake Sully (Sam Worthington) lembra de um sonho clássico que tinha quando estava hospitalizado: ele experimenta a liberdade plena ao “voar” sobre árvores e entre nuvens baixas. Em seguida, ele acorda em uma cabine após passar pelo processo de criogenia. Ele entrou no projeto Avatar depois que seu irmão gêmeo, Tommy, foi morto em um assalto uma semana antes da viagem que o levaria até o planeta Pandora. Depois de uma viagem que durou 5 anos, nove meses e 22 dias, Jake e os demais “mercenários” inscritos para trabalhar explorando Pandora chegam até o planeta aonde vivem os Na’vi, uma espécie de “humanóides” que vive em perfeita sintonia com a Natureza. Jake acaba conhecendo de perto a cultura e o modo de vida dos Na’vi quando assume a pele de seu próprio avatar, criado a partir da mistura de seu DNA e o de nativos de Pandora.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Avatar): O argumento do filme capitaneado por James Cameron e boa parte do seu desenvolvimento são excepcionais. Levando em conta, claro, o estilo do diretor e roteirista. Acho curioso quando algumas pessoas “pedem” e/ou esperam um texto mais elaborado de Cameron. Ouvi algumas pessoas criticarem a falta de “complexidade” do roteiro de Avatar.

Meus caros, uma regra básica para entender um pouco sobre cinema é contextualizar sempre cada filme, cada autor, cada artista envolvido. James Cameron nunca foi um sujeito complexo. Muito pelo contrário. Ele é o típico diretor e roteirista que busca, com seus filmes, o maior público possível. Seus roteiros são rasos, simples, fáceis de serem entendidos por pessoas das mais diferentes idades, níveis sociais, formações educacional e cultural.

Cameron busca sempre a simplificação – ele ficará conhecido, no futuro, como o diretor de alguns dos filmes mais caros e com maiores bilheterias de todos os tempos, mas nunca por histórias brilhantes ou roteiros saborosos. Este é o seu estilo. E é preciso avaliar Avatar dentro deste contexto. Dito isso, volto a afirmar que a nova produção de James Cameron me surpreendeu por grande parte do tempo.

Primeiro, porque o diretor realmente pensou em cada detalhe da produção, em cada cena, em todo e qualquer momento em que os efeitos 3D poderiam deslumbrar o espectador. Depois porque gostei do roteiro. O protagonista Jake Sully não é um herói modelo – uma boa evolução para um roteirista que havia escrito anteriormente Terminator; uma das histórias de Rambo; Aliens e, principalmente, Titanic e seu “perfeito” Jack Dawson. Os mercenários humanos em Pandora assumem o papel que outrora foi desempenhado por distintas civilizações “conquistadoras” (em outras palavras, exterminadoras de nativos), como foi o caso de portugueses, espanhóis e ingleses.

Impressionante a forma com que Cameron critica o destempero dos países civilizados – e neste filme fica clara a referência aos Estados Unidos, ainda que não apareçam bandeiras tremulantes. Na era em que a preocupação ambiental e com as mudanças climáticas é a ordem do dia, Pandora aparece como um planeta ideal, habitado por uma civilização que sabe como viver em perfeita e plena sintonia com cada ser vivo que lhe cerca.

Uma civilização ideal considerada “selvagem” pelo invasor habituado a outros valores e práticas – como a de explorar até o fim os recursos naturais e trocá-los por dinheiro, algo que deveria ser insignificante na comparação com o que torna a vida possível e/ou sustentável. Cameron, assim, lança idéias “revolucionárias” para os seus próprios padrões, inserindo temas espinhosos em um filme que deveria ser, essencialmente, comercial. Essas características de Avatar, devo admitir, me surpreenderam.

Mas nada me deixou mais estupefata do que a forma estonteante com que Cameron apresentou, para os espectadores do filme em 3D, aquele planeta cheio de surpresas para os nossos olhos cansados e que não se surpreendem com quase mais nada. As melhores cenas do filme envolvem o avatar de Jake Sully e suas experiências como aprendiz da cultura e do jeito de viver do clã dos Omaticavas. Levado praticamente  pelas mãos de Neytiri (Zoe Saldana), Sully volta a andar, correr, aprende a montar cavalos selvagens e a voar com um “ikran”. Ele experimenta um contato com o selvagem impossível para um homem comum ao mesmo tempo em que vive na pele um tipo de mobilidade impossível de ser concretizada devido a condição de dependente de uma cadeira-de-rodas quando não está utilizando o seu avatar.

O personagem de Jake Sully não poderia ter sido melhor planejado. Primeiro, o protagonista se sente em dívida com o irmão morto, que se dedicou tanto tempo a um propósito “digno” como é o da ciência. Depois, ele se sente um bocado perdido, sem perspectivas, justamente por se ver preso a uma cadeira-de-rodas. Um dos objetivos de sua viagem a Pandora é ganhar dinheiro suficiente para conseguir voltar a andar. Cameron, através de Sully, faz um paralelo ao homem do século 21, preso a valores que não fazem sentido e que lhe impedem de ter uma vida plena.

Além disso, pelas razões anteriores, Sully tem um “objetivo” digno para fazer o que ele faz. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ou seja, para “trair” a confiança daqueles seres azuis grandalhões que resolvem abrir o seu mundo para um desconhecido com perfil de inimigo. Entra em cena o grande vilão da história, o super Rambo da vez, coronel Miles Quaritch (Stephen Lang). Apelando para o código de honra e de conduta do ex-fuzileiro Sully, Quaritch sabe muito bem como pressioná-lo para conseguir as informações que a companhia precisa para vencer os nativos. O coronel também promete para Sully o que ele mais deseja: poder voltar a andar.

Sully se porta como uma criança – Neytiri logo de cara o classifica assim – frente a um mundo desconhecido. Esse é outro acerto de Cameron porque, desta forma, ele coloca cada espectador em uma posição confortável de “ignorância” sobre o que ele está assistindo. Todos nós somos crianças, ignorantes frente ao mundo perfeito criado por Cameron. Pandora é um planeta ideal, perfeito, onde diferentes clãs, animais selvagens, plantas curiosas e demais seres parecem viver em constante harmonia.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Claro que isso é difícil de acreditar. Especialmente porque, se tudo realmente é assim perfeito, o que justificaria a chegada de um Na’vi que dominasse a fera Toruk para, só assim, unir os diferentes clãs no sentido de defender um único propósito? Mas isso pouco importa. Cameron está aí para nos dizer que deveríamos nos colocar mais na posição de crianças, de ignorantes, para aprender com os seres mais sábios – e/ou aprender e aceitar diferentes formas de vida.

Até hoje existe muito preconceito com descendentes de indígenas, aborígenes, quilombolas, entre outras minorias que são consideradas por muitos como “menos evoluídas”. A própria antropologia, que antes enxergava determinados povos como estágios anteriores a uma evolução inevitável até o ideal (normalmente eurocêntrico), hoje enxerga que não existe um modelo de desenvolvimento – e que mesmo este conceito pode não ser válido.

Mas vamos voltar ao filme… Avatar acerta em todas estas questões e na forma com que o personagem principal e a história vai sendo apresentada. Até que… o filme se perde. Pois sim. Juro que me surpreendi com a história e esperei que ela seguisse por aquele caminho de reflexão/certa crítica social, mas aí o roteiro de Cameron fraquejou e caímos em uma história previsível, longa e simplista demais.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, deixamos de lado os dilemas do protagonista e a ligação perigosamente estreita entre uma “ciência desinteressada” (ok, esse foi um eufemismo adotado pelo amante dos avanços tecnológicos chamado James Cameron) e a pilhagem provocada pela ambição econômica para cair na velha história de disputa amorosa e da luta do bem contra o mal.

Avatar estava indo tão bem, havia tanto esplendor visual e eficiência na direção de Cameron e, por tudo isso, não deixa de ser uma pena quando o filme descambar definitivamente para os lugares-comum e as saídas previsíveis para seus problemas. Vamos combinar que todos já sabiam o que iria acontecer muito antes da ação propriamente dita se desenrolar.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Era evidente o “romance” de Jake Sully e Neytiri (ainda que, me desculpem, mas ainda não me conformo com a “menina” se jogando nos braços de um ser que ela sabia que não era real). Também ficou evidente uma certa disputa de Sully com Tsu’tey (Laz Alonso), o guerreiro que estava destinado a suceder Eytukan (Wes Studi) como líder dos Omaticayas e, consequentemente, a casar com sua filha, Neytiri. Era óbvio que Sully ficaria do lado dos Na’vi e que o recurso da “morte e ressurreição” tentado no caso da Dra. Grace Augustine (Sigourney Weaver) seria, depois, utilizado pelo protagonista.

James Cameron tinha a faca e o queijo na mão para fazer o melhor filme de 2009 e, talvez, um dos melhores dos últimos anos. Explorando ao máximo os atuais recursos do cinema 3D – ainda fracos para o meu gosto, mas depois falarei mais disso -, o diretor soube planejar com maestria cada cena, cada ângulo, criar um mundo maravilhoso para nossos “olhos de crianças”. Até certo ponto, seu roteiro também surpreendeu, misturando assuntos importantes de forma despretensiosa, leve, nos conduzindo sob os signos da ação, aventura, romance, comédia e umas pitadinhas de guerra (até aquele momento, apenas sugerida).

Uma pena, realmente, que pouco depois da metade do filme Cameron não tenha conseguido exprimir em seu roteiro a inovação que conseguiu com sua técnica e apuro visual.  Tudo acaba se resumindo, mais uma vez, à velha história de um “amor impossível”, algo muito corriqueiro desde Romeu & Julieta – e, inclusive, uma tradição anterior à obra de Shakespeare. Um verdadeiro desperdício.

Além disso tudo, Avatar é longo demais. O filme poderia ter, perfeitamente, 20 minutos menos. Não faria falta. (SPOILER – não leia se você não assistiu à produção). Eu cortaria grande parte deste tempo do meio do filme para o final. Reduziria, por exemplo, aquelas cansativas cenas do “novo Rambo” e seus comandados em operações como a de destruir a casa dos Omaticayas. Cortaria também uma ou outra cena um tanto repetida e que não produzisse o efeito de fascínio que outras sequências provocam. Faria bem para o filme.

Descontadas estas falhas e desperdícios de Avatar, ele é um grande filme. Muito bem planejado, conduzido e com a exploração adequada de todos os recursos que a alta tecnologia do cinema atual pode proporcionar. Além disso, a história apresenta alguns momentos realmente tocantes, emocionantes. Ver um adulto enxergar um mundo perfeito sob o fascínio que apenas uma criança pode ter e encontrar um povo tão amistoso e aberto a significados maiores do que o de suas próprias existências é algo raro de ser visto. Ainda mais no cinema de Hollywood. Por tudo isso, este filme é grande. E merece chegar longe, ser premiado, bater recordes de bilheterias (por que não?), mas não deveria levar mais do que uma série de Oscar’s técnicos. Ele não é, nem de longe, o melhor (ou um dos 5 melhores) filme(s) de 2009.

NOTA: 9 (por sua versão em 3D).

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não sei vocês, mas eu acho um verdadeiro absurdo um filme, seja ele qual for, gastar inacreditáveis US$ 237 milhões em sua produção e, incluindo marketing e distribuição, chegar a um custo total de US$ 500 milhões. Esses valores, referentes a Avatar, tornaram a produção de James Cameron a mais cara de todos os tempos – quer dizer, segundo esta reportagem da Folha de S. Paulo, Avatar empataria hoje em dia com os gastos reajustados de Guerra e Paz, produção soviética de 1967.

De qualquer forma, mesmo que forem analisados “apenas” os US$ 237 milhões utilizados para que Avatar fosse produzido, isto equivaleria a 23 filmes do porte de Precious (que teria custado US$ 10 milhões), 34 filmes como An Education (que custou US$ 6,8 milhões) ou 21 produções como The Hurt Locker (que consumiu US$ 11 milhões). Sei que é importante que “visionários” como James Cameron invistam seu talento e potencial para o marketing na evolução tecnológica do cinema, mas ainda assim não me convenço que todo esse dinheiro deveria ser gasto em apenas uma produção. Prefiro ainda dezenas de filmes no estilo dos outros candidatos ao Oscar comentados frases acima do que em produções como Avatar.

Para quem não lembra, James Cameron estreou como roteirista e diretor de longas-metragens com The Terminator, de 1984, filme que lançou definitivamente à fama um até então relativamente pouco conhecido Arnold Schwarzenegger – o ator musculoso havia se destacado, anteriormente, apenas por dois filmes em que encarnava o “bárbaro” Conan. Depois, Cameron escreveu o roteiro de Rambo: First Blood Part II (ao lado de outros roteiristas), de Aliens e The Abyss (estes dois últimos ele também dirigiu).

Desde muito jovem o diretor e roteirista mostrava seu gosto pela alta tecnologia e pela ficção científica. Ele deu uma pausa nestes temas com True Lies e Titanic, tentando, com eles, chegar a um público muito maior do que aquele que costuma se interessar por ficção científica. Em Avatar, Cameron tenta seguir nesta linha ao resgatar, mais uma vez, seu gosto pela alta tecnologia e a ficção científica.

James Cameron vai seguir a linha de ficção científica em seu próximo projeto, intitulado Battle Angel. Previsto para ser lançado em 2011, o filme se lança no futuro para contar a história de uma cyborg feminina que é retirada da condição de “sucata” por um cientista. Será que o filme vai promover a mistura de “um amor impossível”, tema recorrente de Cameron em suas últimas produções, com The Terminator? ;)

Avatar carrega a lenda também de ser a maior bilheteria que o cinema já teve. A verdade é que ele passou o campeão anterior, Titanic, que havia arrecadado US$ 600,7 milhões. Mas há quem discuta os valores absolutos e avalie as maiores bilheterias levando em conta a inflação que os ingressos de cinema tiveram com o passar do tempo. Segundo este parâmetro, Avatar figuraria na 15ª posição. Encabeçando a lista estariam Gone with the Wind, Star Wars e The Sound of Music.

Mas quem entende que os números absolutos que contam, os quase US$ 688 milhões arrecadados por Avatar apenas nos Estados Unidos colocam a produção no topo da lista das maiores bilheterias. E ainda que siga a sua trajetória em busca de recordes ainda maiores, dificilmente Avatar conseguirá chegar perto do filme mais lucrativo de todos os tempos – afinal, ele custou quase US$ 500 milhões incluindo marketing e distribuição. Lembrando que um filme é lucrativo levando em conta seus custos e o lucro final com as bilheterias.

De qualquer forma, é importante citar que Avatar ultrapassou a marca de US$ 1,858 bilhão nas bilheterias de todo o mundo, ultrapassando o recordista anterior, Titanic, que havia alcançado US$ 1,843 bilhão. O novo recorde foi registrado no dia 26 de janeiro deste ano.

Até o momento Avatar ganhou 18 prêmios e foi indicado ainda a outros 41. Entre os que levou para casa estão os de Melhor Filme – Drama e Melhor Diretor entregues no Globo de Ouro; Melhor Design de Produção e Melhores Efeitos Especiais no BAFTA (o chamado “Oscar” inglês); além de seis prêmios técnicos entregues ao filme pela premiação da Broadcast Film Critics Association e outros prêmios do gênero entregues em distintas premiações. Até o momento, para resumir, o melhor desempenho do filme foi mesmo no Globo de Ouro.

Avatar conseguiu uma nota muito boa pela avaliação dos usuários do site IMDb: 8,5. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes também foram bastante generosos com a produção: dedicaram ao filme 207 críticas positivas e apenas 45 negativas (o que garante para o filme uma aprovação de 82%). Ainda assim, ninguém foi tão generoso quanto eu com a nota para Avatar – acho que eu estava em um bom dia quando o assisti. :)

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. A atriz Sigourney Weaver declarou, em algumas entrevistas, que se espelhou no próprio James Cameron para interpretar a cientista perfeccionista e idealista Grace Augustine. Segundo os produtores de Avatar, 40% do filme é composto de “live action” (o trabalho “realista” dos atores) e 60% de uma composição que mistura interpretações reais com computação gráfica. Foram desenvolvidos, para o filme, uma série de aparatos de alta tecnologia para que a computação gráfica fosse utilizada de maneira inovadora.

James Cameron se convenceu de que a tecnologia da computação gráfica havia chegado no ponto em que ele gostaria para realizar Avatar depois que ele assistiu o trabalho feito com o personagem de Gollum no filme The Lord of the Rings: The Two Towers (de 2002).

A linguagem Na’vi, segundo as notas de produção de Avatar, foi criada pelo linguista Paul R. Frommer “do zero”. Ou seja, ele não se baseou em nenhum outro idioma para criar a forma com que os habitantes de Pandora se comunicam. Frommer teria aceitado o desafio de criar uma linguagem totalmente nova e elaborou uma coleção de mil palavras neste idioma inusitado.

A palavra “unobtainium” (material encontrado em Pandora que motiva a cobiça humana) é utilizada de uma forma bem-humorada pela indústria aeroespacial. O termo descreve um material que teria uma aplicação perfeita para fins científicos, mas que se torna inviável porque não existe, ou é muito caro ou simplesmente viola as leis da física.

Inicialmente o estúdio responsável por Avatar havia apontado Matt Damon e Jake Gyllenhaal como candidatos para o papel de Jake Sully, mas James Cameron acabou ganhando na queda de braço e apostando em um ator desconhecido do grande público.

Avatar significa, em sânscrito, “encarnação”. O termo era muito utilizado nas escrituras hindus para fazer referência à encarnação humana de Deus. Isto interessa porque, segundo James Cameron, os Na’vi de seu filme são azuis como forma de criar um paralelo conceitual com as representações hindus de Deus – que podem ser vistas, desta forma, nas imagens de Vishnu, Shiva, Rama, Krishna, etcétera -, além do fato de que o diretor diz “gostar desta cor”.

A palavra Ey’wa, que no filme é aplicada para identificar a divindade do povo Na’vi – que seria algo como a “deusa Natureza” – faz referência à pronúncia de Yahweh, termo que identifica Deus para os hebreus.

Cameron disse no programa The Tonight Show with Conan O’Brien que havia começado a trabalhar nos desenhos preliminares de Avatar em 1995, mas que teve que esperar uma década para começar a tornar seu projeto viável nos conceitos visuais e de efeitos especiais.

Algumas das idéias apresentadas em Avatar, como o conceito de uma “rede de árvores” que preserva a memória dos mortos aparecem na série intitulada Ender de autoria de Orson Scott Card. Segundo esta notícia publicada pelo site Adoro Cinema, Cameron teria ainda sido acusado de plagiar a graphic novel Firekind, publicada na Inglaterra em 1993 por John Smith e Paul Marshall. Talvez para responder um pouco estas suspeitas, o produtor de Avatar informou, neste mês, que James Cameron deve publicar um livro que antecede cronologicamente o que acontece no filme ainda este ano. A obra, a primeira lançada por Cameron, serviria como um prelúdio ao que os espectadores assistiram em Avatar.

Falando do tema de alta tecnologia utilizada em Avatar, queria comentar que eu discordo da aura de “revolução cinematográfica” que circunda este novo filme de James Cameron. Concordo sim que o filme é belíssimo visualmente e que convida os espectadores a uma experiência diferenciada com a forma com que a produção trabalha os recursos 3D. Ainda assim, falta um bom caminho ainda para que esta tecnologia faça uma revolução para o cinema da magnitude que significaram a passagem do cinema mudo para o falado e do cinema preto e branco para o colorido.

Para que o 3D realmente revolucione o cinema é preciso que o espectador se sinta ainda mais inserido no filme. Talvez com a adoção de óculos mais modernos, que realmente dão a sensação de tridimensionalidade, ou mesmo a adoção de luvas e/ou sensores acoplados aos espectadores em salas de alta tecnologia. Enquanto os videogames cuidam de inserir seus usuários realmente “dentro” das histórias, o cinema 3D ainda está a meio caminho disto.

Achei exagerado demais o tom “Rambo” que o filme assume lá pelas tantas. Para mim, ao menos, foi cansativo e desnecessário. Stephen Lang, coitado, poderia ter sido poupado desta. ;) Também achei pueril demais a idéia que Cameron tenta vender de que os cientistas mostrados no filme eram, essencialmente, “do bem”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Entendo que o diretor defenda a evolução da tecnologia (afinal, seu marketing depende disso) e da ciência, mas é no mínimo ridículo que alguém verdadeiramente acredite que a Dra. Grace Augustine e Cia. não percebiam que seus interesses por descobertas científicas eram financiados por uma organização movida por lucros e focada na exploração desleal de recursos naturais. A questão – pouco ou nada questionada pelo filme – é que muitos cientistas sérios “fecham os olhos” para questões éticas e não querem saber até que ponto suas descobertas podem ser usadas (ou já estão sendo) para fins antiéticos e/ou criminosos. A ciência não pode ser absolvida em Avatar como Cameron provavelmente gostaria.

Além dos atores citados anteriormente, vale comentar o desempenho dos seguintes atores: Joel Moore como o “simpático” e um tanto “invejoso” cientista Norm Spellman (que, posteriormente, acaba ajudando Sully em sua missão “maior” em Pandora); Giovanni Ribisi como o vilão Parker Selfridge, o homem que comandava as operações de exploração do valioso minério no planeta dos Na’vi; Michelle Rodriguez como Trudy Chacon, a militar de “bom coração” que acaba sendo fundamental em certo ponto da história; CCH Pounder (e isso é nome?) como Mo’at, a mãe de Neytiri que desempenha o papel de líder espiritual do clã onde o protagonista vai parar; e Dileep Rao como o Dr. Max Patel, cientista que também dá uma forcinha para o grupo de “salvadores da pátria” (no caso, de Pandora). Os demais são, realmente, coadjuvantes.

Para os que ficaram – com toda a razão – fascinados pela qualidade técnica de Avatar, nunca é demais nomear os seus responsáveis: James Horner é o veterano que assina a trilha sonora do filme; Mauro Fiore é o diretor de fotografia (impecável e estonteante, diga-se); a edição foi feita por James Cameron, John Refoua e Stephen E. Rivkin; o design de produção é assinado por Rick Carter e Robert Stromberg (outro trabalho magnífico); a direção de arte foi capitaneada por 12 profissionais sob a supervisão de Todd Cherniawsky, Kevin Ishioka e Kim Sinclair; o departamento de maquiagem, que envolveu o trabalho de 20 profissionais, foi coordenado por Michele Barber, Corinna Liebel, Angela Mooar e Sarah Rubano; e os departamentos de arte, de efeitos visuais e sonoros segue com uma lista de dezenas de centenas de profissionais.

CONCLUSÃO: Um espetáculo visual e para os sentidos em sua versão 3D – para mim, a única que deve realmente valer a pena ser assistida. Avatar segue o gosto de seu realizador, o roteirista e diretor James Cameron, em tudo que isso pode significar de interessante e de previsível. Misturando ficção cientítica (o tema preferido de seu realizador), mais uma história de “amor impossível” (alguém lembrou de Titanic?) e críticas interessantes sobre a capacidade do homem destruir tudo o que “toca” (uma versão contrária de Midas), Avatar se mostra um filme com grandes idéias, uma boa dose de “mistura pop” e uma realização impecável.

O problema é que o filme, que começa muito bem e segue interessante e desafiador até pouco mais de uma hora, depois se perca nos vícios de Cameron. O diretor esquece o primor narrativo que vinha imprimindo à produção e cai em uma série de lugares-comum de filmes que tratam de batalhas de conquista e resistência. Instigante em sua proposta visual e pueril em sua narrativa (especialmente da metade do filme para o final), Avatar mescla alta tecnologia com a busca por uma forma de vida ideal e impraticável. No final das contas, esta é a produção de um sonhador chamado James Cameron. O filme tem algumas sequências estonteantes, impressionantes, e uma certa carga de emoção imprevisível. Uma pena que ele seja longo demais e que caia em qualidade em certo momento, abrindo o flanco para uma história “a la Rambo” que poderia ter sido contornada. Os avanços técnicos desta produção, infelizmente, não encontram eco em inovações narrativas.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Avatar era o último filme que me faltava assistir da lista de 10 indicados na categoria de Melhor Filme. Agora sim, fechei a lista. ;) Como eu já esperava, não mudei a minha opinião sobre o filme que deveria ganhar este ano nas categorias Melhor Filme e Melhor Direção: The Hurt Locker. Ainda que eu tenha me surpreendido positivamente com Avatar – francamente eu esperava algo pior -, vejo outros filmes como sendo melhores que ele este ano. Na minha lista de preferência, a sequência de produções que poderiam ganhar o principal prêmio do Oscar seria: The Hurt Locker, Precious, Inglourios Basterds, An Education, A Serious Man e, finalmente, Avatar.

Acredito que The Hurt Locker ganhe de Avatar na disputa por Melhor Filme – isso não ocorreria apenas no caso de uma zebra, com os votantes da Academia premiando um terceiro filme conforme os votos fossem sendo computados para o chamado “consenso” feito pela instituição (aqui informações mais detalhadas sobre esta teoria em texto da sempre excelente Ana Maria Bahiana). Outro fator que pode atrapalhar The Hurt Locker em sua merecedíssima premiação (quem acompanha este blog sabe que venho apontando ele como favorito há bastante tempo) é uma certa lambança que o produtor encrenqueiro Nicolas Chartier fez na reta final da escolha para os melhores do ano feita pelos votantes (detalhes neste e neste outro texto de Ana Maria Bahiana). Seria uma pena The Hurt Locker perder o Oscar de Melhor Filme por causa deste imbecil. Mas enfim, o negócio é esperarmos para ver…

Na categoria de Melhor Diretor, mesmo que James Cameron tenha feito um grande trabalho – especialmente na concepção visual de Avatar e na condução impecável da primeira metade do filme -, considero o olhar diferenciado e o pulso firme de Kathryn Bigelow favoritos para o prêmio. Estava na hora também de uma mulher ganhar nesta categoria do Oscar, oras bolas – ainda mais quando ela tem todos os méritos. Se Bigelow não ganhar, preferia o trabalho de Quentin Tarantino que o de Cameron.

Vejamos as outras sete categorias em que Avatar concorre: não acredito que o filme vença em Melhor Trilha Sonora ou Melhor Edição (o favorito é The Hurt Locker); por outro lado, ele é o favoritíssimo para levar as estatuetas de Melhor Direção de Arte, Melhor Direção de Fotografia (pode perder esta estatueta apenas para Das Weisse Band ou The Hurt Locker), Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som (corre o risco de perder para Star Trek) e Melhores Efeitos Especiais. Se ganhar nestas categorias técnicas que considero ele como favorito, Avatar sairá do Oscar com cinco estatuetas, podendo chegar a sete (se vencer em edição e trilha sonora). Não será um mal negócio para os produtores do filme e James Cameron.

SUGESTÕES DE LEITORES: Era inevitável que eu assistisse a esse filme em algum momento. Especialmente porque este ano resolvi me esforçar para assistir a todos os principais concorrentes do Oscar antes que a premiação ocorresse. Sei lá, acho que isso segue a minha linha de ser “meio do contra” – afinal, há tempos o Oscar não parecia tão sem “brilho” como neste ano. Avatar fecha a lista dos 10 filmes indicados na categoria principal da premiação. Mas é importante comentar que o José Carlos Dias havia publicado, no dia 20 de dezembro de 2009, um comentário em que pedia uma crítica do filme aqui no blog. Pois bem, José Carlos, eu demorei bastante – porque não tive como assistir a uma cópia 3D antes -, mas acabei cumprindo a promessa de assistir a Avatar. Agora, espero um comentário teu aqui sobre o filme e sobre o meu texto. Um abração e obrigado por mais esta dica das boas.

Ágora

20 de fevereiro de 2010 14 comentários

A reconstrução de uma época ímpar para a Humanidade de uma forma que você nunca viu. Ágora, novo filme do brilhante Alejandro Amenábar, mergulha em Alexandria, uma das cidades mais importantes de todos os tempos, para narrar a vida de uma mulher excepcional, nos mostrar como e porque grande parte do conhecimento adquirido até então foi destruído e também para refletir sobre o início da supremacia cristã. Violência, disputa pelo poder, gosto pelo conhecimento, um embate incrível entre crenças e escolhas faz de Ágora um dos filmes mais potentes deste início de ano. Perfeito na forma de resgatar uma era, Ágora é um deleite para os olhos e um prato cheio para os amantes da história ocidental, além de uma reflexão interessante sobre a insignificância do arrogante ser humano. Mesmo com todas suas qualidades, sua visão romântica de determinados fatos históricos impedem que o filme seja perfeito.

A HISTÓRIA: No final do século IV, o Império Romano começa a desmoronar e, apesar disto, a cidade de Alexandria, no Egito, preserva parte do esplendor dos tempos de “ouro” da Antiguidade. Ali, continua preservada uma das sete maravilhas do mundo daquela época, o Farol de Alexandria, além da cidade abrigar uma majestosa e importantíssima Biblioteca – que, além de reduto do conhecimento, era um símbolo religioso “pagão” importante. Neste cenário, uma mulher se destaca: Hypatia (Rachel Weisz), uma filósofa que ensina matemática, astronomia e astrologia para jovens de várias partes do Império. Fora das paredes da Biblioteca de Alexandria, contudo, crescem as disputas entre cristãos, judeus e pagões. O embate entre as diferentes crenças e a disputa pelo poder vai marcar o fim de uma era para a civilização ocidental e marcar o início de uma outra.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ágora): O primeiro aspecto da nova produção do genial Alejandro Amenábar que impressiona é a sua reconstrução histórica. Há tempos eu não assisto a um épico como este, tão rico em detalhes e no resgate de cenários, vestimentas e objetos de uma época – em lugar do cada vez mais costumeiro uso de efeitos CGI, ou seja, da apresentação de cenários e outros detalhes através da computação gráfica.

Em Ágora tudo é feito do “jeito antigo”. Um trabalho excepcional de reconstrução de época comandado por Amenábar e com o talento decisivo de pessoas como o diretor de fotografia Xavi Giménez; o design de produção impecável de Guy Dyas; a direção de arte incrível de um time de profissionais comandado por Frank Walsh; a decoração de set de Larry Dias e o figurino de Gabriella Pescucci. Vale citar ainda a trilha sonora de Dario Marianelli e a edição de Nacho Ruiz Capillas. Como no caso de filmes como Spartacus, Ben-Hur, entre outros, Ágora é, sobretudo, um trabalho de equipe.

Depois do impacto inicial do “ambiente” perfeitamente resgatado da Alexandria do século 4, o espectador mergulha fundo na história contada pelo roteiro de Amenábar e do premiado Mateo Gil. Ágora é destes filmes com muitas leituras e significados. Os mais evidentes, logo no início, se referem ao fim de uma era e ao início de uma outra. A disputa entre diferentes religiões, formas de poder e, principalmente, maneiras de encarar o mundo e a vida estão no foco dos roteiristas. Além disto, seguindo parte dos manuais das histórias clássicas, Ágora ainda abre espaço para romances, histórias de traições, disputas pelo poder e a queda de braço entre “heróis” e “vilões”.

Mas além de tudo isso, este filme é a história de uma mulher corajosa, destemida, sábia, admirada e temida quase nas mesmas proporções. Mesclando elementos de algumas das heroínas da Antiguidade e a imagem de figuras mais “modernas” como Joana D’Arc, a personagem principal desta história, Hypatia, mantêm-se “acima” da barbárie reinante e apresenta um comportamento permanentemente digno. Mesmo perto de personagens ambíguos, como é o caso do escravo e depois liberto Davus (Max Minghella), ela mantêm um comportamento reto, digno, capaz de perdoar gestos brutos e de desrespeito.

Muito interessante, aliás, o resgate desta personagem. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Amenábar poderia apenas se lançar em um filme épico sobre Alexandria, a derrocada do Império Romano e a arrancada do catolicismo. Mas ele escolheu um olhar diferenciado e o resgate da história daquela que, para muitos, marcou o pioneirismo intelectual feminino da nossa civilização. A busca de Hypatia por entender mistérios como o comportamento dos astros em relação à Terra e ao Sol é emocionante – e não sei vocês, mas em certo momento do filme eu tive vontade de gritar para ela: “Não pense em um círculo, mas em uma elipse!!”. ;)

A verdade é que a forma de contar esta história, valorizando no primeiro plano a heroína de Ágora e os demais personagens, torna este filme com uma grande pegada humana. A idéia do diretor, sem dúvida, foi manter o espectador sempre muito próximo dos personagens principais do filme. Muitas vezes a câmera se insere na intimidade deles, o que nos leva a “torcer” por uns ou outros. Além de inserir uma certa disputa amorosa no filme – algo, convenhamos, um tanto desnecessário -, Amenábar e Gil buscam o contraste entre as histórias particulares de alguns personagens e o estilo de vida do coletivo de pessoas que viviam naquele tempo e naquele lugar.

Rachel Weisz está especialmente bela, carismática e encantadora neste filme. Impossível não entender, através das lentes do diretor, o fascínio que aquela figura resoluta despertava em homens tão diferentes como Davus e Orestes (Oscar Isaac). Mesmo Synesius (Rupert Evans), que desde o princípio parecia destinado a ter uma vida dedicada à religião, não escondia a sua admiração e fascínio por Hypatia. O roteiro de Ágora consegue equilibrar bem o “particular” e o “universal” desta história, intercalando sempre os embates envolvendo Hypatia e aqueles que ocorriam em um nível mais amplo, no caso, pela cidade.

Ainda que o foco do filme seja Hypatia e sua busca pelo conhecimento em contraste com o fanatismo e a violência dos diferentes coletivos religiosos que dividiam espaço em Alexandria naqueles dias, um elemento que impressiona neste filme é o dos bastidores da consolidação do cristianismo. Francamente, como católica, eu sempre soube dos absurdos praticados ao longo do tempo em nome de Jesus – como a Inquisição, as Cruzadas e etcétera. Mas não sabia dos detalhes que cercaram o fim das perseguições aos cristãos e o início da era em que esta religião fosse legalizada e, posteriormente, se tornasse a religião oficial do Império Romano. Simplesmente estarrecedor o que Ágora nos mostra a respeito.

Até imagino o que alguns cristãos mais “enfáticos” podem falar a respeito: de que não havia outra saída para os cristãos do que empunhar armas e cometer barbaridades como aquelas vistas no filme. Muitos podem justificar aqueles atos dizendo que por três séculos os cristãos haviam sido perseguidos e mortos e que, finalmente, eles deveriam “dar o troco” para conseguir sobreviver. De fato, e levando em conta o contexto da época, possivelmente a história da nossa civilização seria outra se os cristãos não tivessem utilizado os mesmos recursos de matança e perseguição adotados por judeus e governantes romanos anteriormente. Ainda assim, acho difícil engolir que aqueles atos, tão distantes do que Jesus havia pregado, tenham sido fundamentais para que o Cristianismo predominasse no mundo. E o pior é que até hoje tem pessoas cegas ao que a Bíblica e o cristianismo deveria realmente ensinar. Ágora talvez, especialmente por este aspecto, seja ainda muito atual – e emblemático.

Para não dizer que o filme é perfeito – bem que eu gostaria de classificá-lo assim -, contudo, devo comentar certas “suavizadas” ou romantizadas na história que enfraquecem a produção. Para começar, como comentei anteriormente, achei desnecessária a apresentação de um virtual “triângulo amoroso” em Ágora. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que Hypatia não ceda nunca ao flerte de Orestes ou à investida bruta de Davus, a sugestão de uma rivalidade entre os dois homens com perfil propositalmente oposto acaba se mostrando forçada. O final é especialmente impressionante. Hypatia expõe seus últimos ensinamentos para os ex-alunos Orestes e Synesius, em algumas das melhores frases do roteiro. Mas o finalzinho da história acaba, mais uma vez, tirando um pouco do brilho desta produção. A verdade é que a protagonista não recebeu nenhum tipo de proteção ou gesto de compaixão – como pode-se perceber em alguns textos que falam sobre a sua história. O filme deveria ter sido honesto neste ponto, mesmo que ele desagradasse ao público em busca de uma história “romântica”.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Curiosa a “dança de cadeiras” das religiões/crenças no período histórico focado por Ágora. Antes do cristianismo crescer de forma exponencial e começar a dominar o cenário do “mundo civilizado” antigo, os chamados “pagãos” eram dominantes. Depois, foi a vez do judaísmo, a mais antiga das religiões monoteístas. A curiosidade destas disputas reside na forma com que o que era antes dominante passa a ser proibido ou combatido logo depois. Certamente “evoluímos” muito para chegar no estágio em que estamos, quando em teoria as pessoas tem a liberdade para escolherem o seu credo e um mesmo país permite que distintas religiões sejam praticadas em seu território sem restrições.

Ágora não é um tratado sobre religiões ou sobre a queda do Império Romano. Ainda assim, ele traz à tona alguns elementos para provocar reflexões nos espectadores. O crescimento do cristianismo, por exemplo, teve uma ligação determinante com a necessidade de uma mudança social naquela época. Pessoas como Davus, então escravo, enxergavam no cristianismo uma válvula de escape para a sua condição de excluído da sociedade. O que não deixa de ser algo curioso, já que em sua época, o próprio Cristo se negou a assumir a posição de um líder político que provocasse uma revolução social. Pois 300 e poucos anos depois isso iria acontecer.

Terminando com o tema das religiões, queria apenas destacar uma parte importante do filme, quando o bispo Cyril (Sami Samir) declara que os judeus haviam sido julgados por Deus e que, assim, eles estariam “amaldiçoados e exilados até o final dos tempos”. Argumento esse que acabou justificando inúmeras perseguições e o extermínio de grandes coletivos de judeus em diferentes épocas históricas. Impressionante como o ódio em que uma religião pode ser fundada pode ter reflexos tão ultrajantes tantos séculos depois.

Para as pessoas que ficaram, como eu, curiosas para saber mais sobre a história de Hypatia, recomendo algumas leituras ligeiras. Para começar, este texto (em inglês) da Wikipedia que traz, inclusive, uma reprodução dela feita por Raphael. O bacana do texto é que ele resgata não apenas a vida, o trabalho e a morte de Hypatia, mas também seu legado em diferentes áreas da ciência e da arte. Para quem quer saber mais, o texto da Wikipedia ainda remete para outras fontes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Destaco ainda este texto (também em inglês) de Jim Haldenwang, que conta detalhes da vida e da morte de Hypatia, comentando que seu assassinato (muito mais cruel do que aquele mostrado no filme) marcou o início da Era das Trevas. Vale a pena ainda a leitura deste texto, do Heritage Key (em inglês) e este outro, em português.

Sobre a Biblioteca de Alexandria e a sua destruição, achei ilustrativos este texto da InfoEscola e este outro (do qual não identifiquei a autoria).

Rachel Weisz está segura e perfeita no papel da protagonista. Mas é importante citar que Max Minghella, que interpreta a Davus, também faz um trabalho excepcional. Junto com eles, merecem destaque os já citados Oscar Isaac e Ruper Evans, respectivamente Orestes e Synesius; assim como Ashraf Barhom como Ammonius, o “milagreiro” que ajuda a converter pessoas ao cristianismo – e atrai Davus para a religião; Michael Lonsdale como Theon, pai de Hypatia; Richard Durden como Olympius, o líder de um ataque covarde contra os cristãos e que seria decisivo para o futuro da Biblioteca de Alexandria; Manuel Cauchi como o bispo Theophilus, que antecedeu Cyril; e Homayoun Ershadi como Aspasius, o escravo de Hypatia que foi seu fiel colaborador e interlocutor após a libertação de Davus.

Não sei vocês, mas eu não sabia o significado da palavra ágora até assistir a este filme. Como este texto (em espanhol) esclarece, a palavra ágora tem origem no idioma grego e era usada para denominar as praças públicas e as assembléias que eram celebradas nestas praças das cidades (polis) da Grécia. Com o tempo, a palavra passou a ser utilizada como referência a outros lugares de reunião ou discussão. No caso do filme, a palavra deve ter duplo sentido: o de lugar onde as decisões da civilização são tomadas e debatidas e, ao mesmo tempo, o de “anarquia” ou quebra de um poder estabelecido.

Gostei de um recurso utilizado pelo diretor Alejandro Amenábar de tempos em tempos – o de afastar a narrativa até o espaço, mostrando a Terra desde fora. Uma forma interessante de sugerir que tudo aquilo que estava acontecendo na “pequena” Alexandria era algo minúsculo diante da imensidão do espaço e que nós, seres humanos, na nossa arrogância, nos sentimos mais importante do que realmente somos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para Ágora. Até o momento, poucos críticos comentaram sobre o filme. O Rotten Tomatoes abriga apenas oito textos sobre a produção: quatro deles positivos, quatro negativos – o que garante uma aprovação de 50% para o filme.

Das críticas linkadas no site, destaco esta publicada por Todd McCarthy, da Variety. Ele começa seu texto assim: “A mãe de todos os humanistas seculares luta uma batalha perdida contra os recém-cunhados fanáticos religiosos em Ágora, um visualmente impositivo épico ambicioso que coloca um dos momentos cruciais da história ocidental pela primeira vez na tela”. Para McCarthy, o filme de linguagem elaborada é espetacular de forma consistente e apresenta bastante conflito e ação para torná-lo comercial. Ainda assim, o crítico afirma que o estilo pesado e a falta de um impulso emocional pode “causar problemas” na aceitação do filme pela audiência de massa dos Estados Unidos.

McCarthy comenta que Ágora se concentra, muito mais do que outros filmes, em questões como o lugar que a “humanidade ocupa no universo, a necessidade humana de compreender o cosmos e o debate sobre a existência de uma única divindade”. Ele destaca como a destruição da biblioteca de Alexandria, o “repositório de todo conhecimento do mundo até aquele momento”, é o evento dramático principal da história, enquanto que em paralelo é explorado a ação de fanáticos cristãos. O crítico considera Hypatia o “olhar racional em meio ao furação intelectual e religioso” retratado pelo filme. Gostei da observação dele de que os cristãos vestidos de roupas escuras, em certo ponto do filme, lembram a ação de formigas. Para McCarthy, ainda que os acontecimentos dramáticos dêem um impulso natural para o filme, os dramas pessoais nunca conseguem se conectar com a força desejada. Ele questiona a forma com que a personagem de Hypatia é apresentada, sempre com a “cabeça nas nuvens” e desconectada do que está acontecendo ao seu redor, assim como a falta de força dos atores que interpretam os homens que a “disputam” no filme. Mas o visual da produção e seus acertos, para McCarthy, superam as falhas dramáticas do roteiro.

Ágora foi indicado, até o momento, em 18 categorias de duas premiações. Nos Prêmios Goya, o “Oscar” do cinema espanhol, Ágora saiu vencedor em sete das 13 categorias em que concorreu. A produção ganhou como melhor roteiro original, melhor direção de produção, melhor direção de fotografia, melhor direção artística, melhor desenho de vestuário, melhor maquiagem e melhores efeitos especiais.

A trajetória da superprodução comandada por Amenábar começou no Festival de Cannes em maio de 2009. De lá para cá, o filme participou de outros três festivais e estreou em nove mercados pelo mundo – mas ainda não chegou aos Estados Unidos. Ágora custou importantes US$ 73 milhões – torço para que ele se dê bem nas bilheterias e, pelo menos, consiga se pagar.

CONCLUSÃO: Um filme visualmente perfeito que conta uma história espetacular. Vários temas estão em jogo em Ágora, mas o centro da narrativa é a vida da filósofa e cientista Hypatia, uma mulher excepcional muito à frente de seu tempo e que, por isso mesmo, vira alvo de quem procura converter as pessoas para uma fé sem questionamentos. O filme marca o retorno do genial Alejandro Amenábar depois de cinco anos – seu último filme foi o emocionante Mar Adentro. Bem narrado, com um roteiro envolvente e uma narrativa que mistura ação, romance, religião e uma importante reconstrução de época, Ágora opõe ciência e fanatismo, a iluminação do conhecimento e o obscurantismo dos fanáticos. Além de remontar um local incrível como era a cidade de Alexandria, esta história provoca um forte impacto no público ao mostrar uma parte do embate entre as religiões no século 4 pouco ou nada explorada pelo cinema. Um filme impressionante que mostra parte do contexto da época sem censuras. Pena que ele tente suavizar alguns aspectos da história de Hypatia e force algumas situações de romance, assim como torna alguns personagens unidimensionais. Ainda assim, é um filme impactante e que merece ser visto.

SUGESTÕES DE LEITORES: Ágora estava na minha mira para ser assistido desde que ele estrou no Festival de Cannes no ano passado. Ainda assim, devo dizer, que o comentário do Mangabeira aqui no blog me fez ter ainda mais vontade de assistí-lo. Sendo assim, Ágora passou a ser a minha prioridade, passando na frente de outras produções que estavam na fila. Mangabeira, agora precisas vir aqui e comentar o que achaste do novo filme do Amenábar. Espero, sinceramente, que gostes dele. Eu adorei – ainda que ele não seja perfeito. Mas nem só de perfeição a gente vive, não é mesmo? Continuo sendo fã do diretor.

The Messenger – O Mensageiro

18 de fevereiro de 2010 1 comentário

Há temas que afetam muito mais a determinados países e/ou coletivos do que outros. Os efeitos da Guerra do Iraque, por exemplo, tem um apelo direto no público dos Estados Unidos porque eles vivem na pele a ausência e a perda de amigos e familiares. O mesmo, claro está, ocorre com os iraquianos (de forma muito mais profunda, eu diria) e demais nacionalidades envolvidas no conflito. Um país que não enfrenta periodicamente os problemas provenientes das guerras não entende todas as dimensões que ela afeta ou as feridas que acarreta. Por isso mesmo, The Messenger não terá o apelo com o público brasileiro como ele consegue ter com o estadunidense. Com dois atores perfeitos e um roteiro com muitos altos e baixos, este filme se debruça sobre os efeitos da guerra na casa e no quintal dos estadunidenses. Ao trazer para a frente das câmeras um olhar mais particular sobre a guerra, The Messenger procura dar nome e rosto para os familiares em luto, tornando cada perda da guerra em algo particular. O resultado é impactante no início, mas depois a produção vai perdendo força e trilhando caminhos previsíveis demais.

A HISTÓRIA: O sargento Will Montgomery (Ben Foster) passa por mais uma consulta médica antes de se encontrar com Kelly (Jena Malone), uma antiga namorada que atualmente está noiva de Alan (Michael Chernus). Atualmente, Montgomery tem que se acostumar com as visitas rotineiras ao médico. Faltando três meses para terminar o seu período de alistamento, ele acaba sendo designado para trabalhar ao lado do capitão Tony Stone (Woody Harrelson) em um tipo de trabalho que ele jamais imaginou desempenhar: o de comunicar os familiares sobre a morte de seus entes queridos na Guerra do Iraque. Depois de vencer a morte e salvar amigos do Exército na guerra, Montgomery acreditava que tinha sido preparado para tudo, mas se surpreende com os desafios que a vida “comum” podem lhe apresentar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Messenger): A primeira parte do roteiro de Alessandro Camon e do diretor Oren Moverman é bastante promissora. The Messenger começa de uma forma diferente do usual, focando o protagonista, considerado um herói, de maneira fria e em atitudes pouco honradas. Afinal, não sabemos em detalhes quem é Kelly, mas logo fica claro que Montgomery está colocando os chifres em alguém. Esta desmistificação do “herói de guerra” parece ser um dos objetivos principais do filme. Os protagonistas de The Messenger parecem tudo, menos modelos a serem seguidos – isso se alguém ainda acredita que existam “modelos” a serem seguidos. ;)

Depois de apresentar um comportamento um bocado antissocial, Montgomery é apresentado a uma missão que considera quase uma “piada”. Ou, talvez, uma espécie de castigo. Até que entra na primeira casa junto a Stone para informar os familiares do primeiro soldado morto, Montgomery considera o trabalho no Grupo de Notificação de Vítimas e seus protocolos um desperdício de tempo para um militar. O espectador, colocado na posição de Montgomery, também não entende muito bem que tipo de missões são aquelas, até que o trabalho começa a ser feito. E daí entra a parte mais interessante de The Messenger: cada comunicado nos transporta para a intimidade das famílias dos soldados mortos, acabando de uma vez com a política dos “números de guerra” e passando a humanizar a barbárie.

Isso funciona por um tempo ou, melhor dizendo, até a segunda visita da dupla Montgomery/Stone aos familiares dos soldados aniquilados. A partir do momento em que o protagonista se encontra com a personagem de Olivia Pitterson (Samantha Morton), o roteiro de The Messenger dá uma guinada fundamental para o desenrolar da história. Pena que ela essa guinada foi feita para o lado errado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, quantos filmes já foram feitos sobre o “difícil que é a vida para um ex-combatente”? Inúmeros, hein? Poderia fazer uma lista deles. Por isso mesmo que a partir do momento em que The Messenger resolve mostrar os “fantasmas” e feridas nunca cicatrizadas da dupla de protagonistas ele se torna praticamente “mais um” na lista. Alcoolismo, falta de tato social, violência exagerada, uma constante falta de paciência e dificuldade de dormir, todos estes sinais que “acompanham” soldados que voltaram de uma guerra já são velhos conhecidos de quem acompanha os filmes do gênero produzidos por Hollywood.

Além disso, o roteiro de The Messenger simplifica demais os seus personagens. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Todos estão sofrendo, de uma forma ou de outra. Os protagonistas não se adaptam a uma vida normal, enquanto que o luto dos familiares por eles notificados aparece e desaparece de forma muito pontual – com exceção para a personagem de Olivia que acaba virando obsessão para Montgomery. Todos aquelas pessoas parecem um tanto “rasas” demais. Não há sutileza em parte alguma, apenas um permanente tom acima do normal. Nenhum dos personagens parece capaz de sentir algum prazer verdadeiro – o sentimento de perda eterna permeia todas as relações. Até mesmo a aproximação de Olivia e Montgomery está carregada de culpa, remorso e dor.

Não quero dizer, com tudo isso, que estes sentimentos não sejam condizentes com muito da “realidade” explorada pela história. Mas será mesmo que todos os minutos daquelas pessoas todas se resumem a isso ou houve uma exagerada no roteiro para que estes sentimentos de luto e perda estivessem a todo momento na tela? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Achei um tanto forçada a tentativa do protagonista em se aproximar de Olivia. Inicialmente, ele parecia ter apenas a curiosidade em “desmascarar” aquela mulher que, em sua opinião, não reagiu como deveria com a notícia da morte do marido. Mas depois, ele realmente parece enxergar nela uma alternativa de “felicidade”. Certo que Montgomery e Stone parecem estar permanentemente em busca de alguma sensação de prazer, de compreensão, mas honestamente isto não aparece de forma tão convincente como deveria.

A culpa desta falta de convencimento não está na dedicação dos atores para seus papéis e sim nas linhas de roteiro algumas vezes pouco críveis. Ben Foster e Woody Harrelson tem desempenhos muito bons, bem acima da média – deles próprios e de outros atores em papéis similares. Ainda assim, o trabalho de ambos não é suficiente para evitar que The Messenger caia em lugares comum e desvie seu foco de uma direção inicial que parecia muito promissora. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Dar nome e apresentar um contexto para as vítimas das guerras em que os Estados Unidos se envolve colocando o espectador dentro do quintal de quem sofre com o luto sem fazer disso um melodrama foi um acerto da produção. Questionar também a finalidade destas mortes e a noção de “herói de guerra” sem fazer grandes discursos a respeito também é algo sempre interessante de ser feito no cinema. Agora bater na velha tecla das “marcas indeléveis” que uma guerra provoca em quem volta para “casa” sem apresentar a força vista em The Hurt Locker, para citar um exemplo recente, foi um verdadeiro desperdício.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: As ironias proferidas pelo personagem de Woody Harrelson são alguns dos pontos altos do roteiro do diretor Oren Moverman e de Alessandro Camon. Pena que a “fina ironia” do personagem se perca depois nas lamentações e algumas frustrações do superior que se sente “abaixo” – ainda que não admita – do subordinado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Fiquei especialmente irritada com uma cena: quando Tony Stone chora no sofá de Montgomery depois que ele narra a experiência que teve salvando companheiros de pelotão na guerra. Honestamente? Não era para tanto. Aquele mesmo choro, apresentado de outra forma, teria me convencido, mas não como a cena foi filmada por Moverman. Talvez a cena emocione a muitas pessoas, mas a mim ela apenas me deixou decepcionada.

The Messenger é um filme declaradamente de dois atores: Ben Foster e Woody Harrelson, nesta ordem. Ainda assim, há personagens secundários que roubam a cena quando aparecem. Destaco, em especial, aos atores Steve Buscemi, que interpreta ao enlutado Dale Martin; Eamonn Walker como o coronel Stuart Dorsett, responsável por aproximar Montgomery e Stone; e a Yaya DaCosta como Monica Washington, namorada do soldado Leroy, e Portia, que interpreta a mãe do militar, a primeira dupla a nos emocionar.

Gostei do estilo de direção de Oren Moverman. Ele assume a postura de um documentarista e, geralmente, acompanha os passos de seus atores como um observador “da realidade” que está sendo mostrada. Claro que tudo isso é mais que intencional. The Messenger, com esta idéia de “câmera na mão” e uma narrativa seguindo a ótica dos personagens – especialmente a de Montgomery – busca aprofundar o “mergulho” no cotidiano que a história busca desvelar. Uma escolha acertada, ainda que nada inventiva.

The Messenger caiu nas graças da opinião do público e da crítica. Até mais dos segundos do que dos primeiros. Os usuários do site IMDb, por exemplo, deram a nota 7,6 para a produção. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 88 textos positivos e apenas 10 negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 90%. Nada mal!

O filme dirigido por Oren Moverman completou mais de um ano de “estrada”. Ele começou sua caminhada no Festival de Sundance em janeiro de 2009 e, de lá para cá, participou de outros 17 festivais pelo mundo. Pouco a pouco The Messenger foi conquistando sete prêmios e acumulando outras 16 indicações. Entre os mais importantes que conquistou estão dois prêmios no Festival de Berlim – o de melhor roteiro e o “Peace Film Award” para Oren Moverman – e dois prêmios como melhor filme (pela crítica e o prêmio principal) no Festival de Cinema de Deauville. O respeitado National Board of Review também entrou os prêmios de melhor ator coadjuvante para Woody Harrelson e o “Spotlight Award” para Moverman. Samantha Morton recebeu, merecidamente, o prêmio de melhor atriz coadjuvante na premiação anual da Sociedade de Críticos de Cinema de San Diego. No Globo de Ouro, The Messenger apareceu apenas em uma categoria: a de melhor ator coadjuvante tendo Woody Harrelson como concorrente. Mas como todos que leram este texto sabem, Harrelson não ganhou o prêmio.

O filme não tem se saído bem nas bilheterias. Pelo menos nos Estados Unidos. Até o dia 7 de fevereiro The Messenger tinha arrecadado pouco mais de US$ 804 mil nas bilheterias. Um valor muito baixo, especialmente porque este tema e, principalmente, o enfoque da produção deveria agradar, especialmente, o público estadunidense.

Para os interessados na parte técnica do filme, vale citar o trabalho do diretor de fotografia Bobby Bukowski; a edição de Alexander Hall e a trilha sonora de Nathan Larson.

Entre os críticos que gostaram de The Messenger destaco Rex Reed, do The New York Observer. Ele comenta, neste texto, que muitos filmes que trataram dos conflitos no Oriente Médio se deram mal nas bilheterias e que, agora, surge para o público o “sensível e inteligente” The Messenger. Reed destaca que a produção marca a estréia na direção do roteirista conhecido por I’m Not There. Para o crítico, The Messenger é superior ao filme sobre Bob Dylan, especialmente porque o filme conta com as interpretações espetaculares de Ben Foster, Woody Harrelson e Samantha Morton. Achei especialmente interessante quando o crítico comenta sobre a aproximação de Montgomery e Olivia, afirmando que cada um dos personagens demonstra “os efeitos da fadiga da batalha”, seja ela tendo sido travada “nas trincheiras ou na frente em casa”. Mesmo com todos os elogios, Reed admite que The Messenger sofre com uma série de clichês de produções do gênero.

Outro crítico que aprovou The Messenger foi Michael Phillips, do Chicago Tribune. Ele escreveu, neste texto, que o trabalho desempenhado pelos protagonistas do filme está entre os mais “exaustivos” que um ser humano pode ser chamado a desempenhar. Ainda assim, escreve Phillips, The Messenger não é um filme esgotante, pelo contrário. A produção oferece “uma gama completa de emoções delicada que humaniza os personagens e deixa as polêmicas para um segundo plano”. Comparando esta produção com The Hurt Locker, Phillips afirma que o único ponto em comum dos dois filmes é que ambos são apolíticos e “honram o guerreiro sem colocar a guerra em um trono”. O conflito de The Messenger reside na relação do protagonista com uma viúva de guerra, na visão do crítico. Phillips destaca a interpretação de Foster e Harrelson afirmando que ambos tem um desempenho “sólido como uma rocha e muito comovente”, e que Samantha Morton empresta veracidade e “calor” suficientes para sua personagem. Para o crítico The Messenger não trata de uma guerra específica, mas se apresenta “tranquilamente universal”.

Finalizando a sequência de críticos que aprovaram The Messenger, cito Claudia Puig, do USA Today, que afirma, neste texto, que todos sabem que não devem atirar no mensageiro e, ainda assim, as reações violentas vistas em The Messenger ao que os protagonistas comunicam tem um “sentido trágico”. Ela considera que a história de “cortar o coração” ganha um fascínio especial pelas “performances soberbas” de seus atores, especialmente Ben Foster e Woody Harrelson. Puig também destaca o trabalho de Samantha Morton, classificando seu desempenho de “sutil” e “excelente”. Para a crítica, The Messenger apresenta um “olhar completamente diferente sobre a Guerra do Iraque e os seus efeitos sobre soldados e civis”. A crítica do USA Today classifica a produção como um “retrato de tristeza, amizade e consolo”, e destaca o senso de autenticidade “corajoso” impresso pelos roteiristas Oren Moverman e Alessandro Camon. Para Puig, The Messenger é um companheiro perfeito para The Hurt Locker, o filme mais “poderoso” sobre a Guerra do Iraque e um “dos melhores do ano”.

CONCLUSÃO: Um filme que trata dos efeitos da guerra sem, para isso, mostrar um único combate ou explosão. The Messenger lança um olhar “doméstico” sobre a Guerra do Iraque ao narrar a história de dois militares que tem como missão informar aos familiares de soldados mortos em combate sobre as suas perdas. Filmado com uma levada de documentário, este filme acerta a mão em seu trecho inicial mas, depois, cai em uma série de clichês desnecessários. Além de dar nomes e uma dimensão familiar para os números de uma guerra, The Messenger se lança em uma reflexão natural sobre o sentido do luto reinante. Com atuações convincentes e algumas sequências realmente emocionantes, The Messenger se diferencia de muitas produções do gênero, até um certo ponto, mas depois perde força ao ceder espaço para vários lugares-comum. Infelizmente a “inventividade” do roteiro não se sustenta por muito tempo. Ainda assim, The Messenger não deixa de ser um complemento interessante para o infinitamente superior The Hurt Locker.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: The Messenger foi indicado em duas categorias no Oscar deste ano: melhor ator coadjuvante para Woody Harrelson e Melhor Roteiro Original. Francamente, não vejo que o filme tenha chances nestas categorias. Por mais que Harrelson esteja muito bem no filme, ele não consegue superar o trabalho realmente impecável e inspirador de Christoph Waltz em Inglourious Basterds. Como roteiro The Messenger também perde para seus concorrentes. The Hurt Locker e Inglourious Basterds são superiores ao resultado final do trabalho de Alessandro Camon e Oren Moverman. Também gosto mais do roteiro dos irmãos Coen para A Serious Man. The Messenger, como eu disse antes, apresenta um roteiro muito irregular. Provavelmente o filme sairá de mãos vazias da premiação – seria uma zebra se ele ganhasse alguma das estatuetas.

The Imaginarium of Doctor Parnassus – O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus

15 de fevereiro de 2010 7 comentários

Um diretor genial, um elenco estelar, o último trabalho de um ator premiado como Heath Ledger e, ainda assim, The Imaginarium of Doctor Parnassus parece uma obra inacabada. Algo está faltando. Ou muita coisa parece ter ficado no caminho. O mundo extraordinário do personagem título não convence como deveria. Em uma era em que James Cameron busca a perfeição em 3D, o filme de Terry Gilliam parece traços de um amador ou uma caricatura de um iniciante. Mesmo a história, que bebe na já conhecida lenda do “homem que tentou enganar o diabo”, não apresenta nada de novo, não reinventa a fórmula e, mesmo que tudo isso não seja necessário, nem mesmo convencer o filme convence. Falta encantamento e espaço para que o espectador possa explorar a sua imaginação – no filme de Terry Gilliam tudo é explicado demais.

A HISTÓRIA: Em Londres, uma companhia de artistas mambembe  busca público para seu espetáculo The Imaginarium of Doctor Parnassus. O jovem Anton (Andrew Garfield), vestido de Mercúrio, tenta chamar as pessoas que passam, mas ele não consegue atrair ninguém. Exceto por um grupo de jovens que beberam demais e que estão saindo da boate Medusa. Liderados por Martin (Richard Riddell), eles se aproximam do espetáculo, mas apenas Martin resolve perseguir a bela Valentina (Lily Cole), filha do Dr. Parnassus (Christopher Plummer). Tentando escapar do bêbado abusado, Valentina entra no espelho mágico. Lá dentro, Martin se perde em um mundo irreal criado por sua imaginação e estimulado pelo Dr. Parnassus. Em permanente movimento, o espetáculo muda de local e, no caminho, Dr. Parnassus volta a se encontrar com um antigo parceiro de apostas, Mr. Nick (Tom Waits). Perto de perder mais uma delas, Dr. Parnassus joga as cartas do baralho e pressente a chegada de Tony (Heath Ledger), um jovem desmemoriado que irá mudar a vida do grupo para sempre.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Imaginarium of Doctor Parnassus): Respeito muito o trabalho do diretor e roteirista Terry Gilliam. Ele é uma verdadeira lenda. Um dos remanescentes do genial grupo inglês Monty Phyton, Gilliam sobreviveu ao tempo e ainda produziu outros trabalhos independentes incríveis, como Twelve Monkeys e Fear and Loathing in Las Vegas. Prestes a completar 70 anos, contudo, ele deu um palso em falso com esta produção sobre o Dr. Parnassus. Em breve, quando estrear o novo filme de outro gênio dos cinemas, Tim Burton, Alice in Wonderland, ficará ainda mais evidente como Dr. Parnassus parece uma tentativa frustrada ou o trabalho de um amador.

Sem problemas um filme ser “nonsense” ou explorar de maneira descarada a imaginação cheia de simbolismos e lógicas escondidas. Esse não é o problema. A questão é que Dr. Parnassus não tem uma história interessante que sustente toda a “viagem” imaginada por Terry Gilliam. E o pior: na fase de alta tecnologia em que estamos, um filme não pode ficar no meio do caminho entre o artesanal e o visual produzido pela alta tecnologia. Em outras palavras, é possível sim produzir ainda obras no melhor estilo de Fellini, em que a imaginação ganha uma tintura quase teatral. O que não convence é quando Gilliam tenta fazer algo que mistura artesanato com alta tecnologia. Isso funcionava na década de 70, nos filmes revolucionários do Monty Phyton, mas agora essa estética parece apenas fora de moda.

Salta aos olhos do público efeitos especiais de quinta ou, sendo gentil, terceira categoria. Cito, explicitamente – entre outras – a sequência em que a imagem do Mr. Nick aparece em um rio de águas turvas que marca a escolha de uma dondoca incentivada por Tony a escolher o “desprendimento”. Se no visual o filme funciona apenas em parte – quando ele é escancaradamente teatral -, no roteiro ele também parece um bocado perdido. Há momentos em que o texto de Terry Gilliam e Charles McKeown consegue aliar intenções com execução, ou seja, que através da direção de Gilliam se torna interessante e convence o espectador. A maioria deles tem a ver com os diálogos entre Mr. Nick e Parnassus e entre Tony e Valentina. No mais, o roteiro de Dr. Parnassus é arrastado e previsível, carregado de poucas surpresas e, o que é fatal para um projeto como este, quase nenhum encantamento ou “magia”.

Provavelmente os fãs de Heath Ledger vão discordar de mim, mas nem da interpretação do ator eu gostei. Desde a primeira fala dele até a sua última nesta produção o astro me pareceu caricato. Ok, seu personagem pedia um tom um pouco exagerado de interpretação. Mas, ainda assim… ele não parecia, simplesmente, ele mesmo. Sem saber quando os outros atores iriam entrar em cena e a razão que seria dada no roteiro para isto – me recuso a ler textos sobre as produções que assisto antes de assistí-las -, Heath Ledger me parecia mais com Johnny Depp do que com Heath Ledger. Cheguei a respirar aliviada quando o próprio Depp entrou em cena – agora sim, rosto e interpretação estavam casando perfeitamente. Uma triste despedida para um ator tão talentoso quanto Ledger. A verdade é que seria melhor, para seus fãs, lembrarem do ator em outros de seus trabalhos.

Ainda que Christopher Plummer defenda bravamente o seu personagem de Dr. Parnassus, o nome deste filme é o de Tom Waits. O músico e ator simplesmente rouba a cena toda vez que aparece. Seu personagem, também, é o melhor desenvolvido do roteiro. Suas aparições e uma ou outra sequencia envolvendo Valentina – como as cenas em que ela está viajando com sua trupe e Gilliam aproveita para mostrar o lado itinerante do grupo e Londres durante a noite – valem o tempo gasto com a produção. Vale citar ainda o trabalho do ator Verne Troyer como Percy, fiel companheiro do Dr. Parnassus.

A reflexão sobre a capacidade das pessoas atualmente se sentirem maravilhadas pelo “mistério”, pela imaginação ou pelos contadores de história é interessante. Certamente o Diabo teria atualmente, em uma era do consumismo e dos valores facilmente intercambiáveis, muito mais chances de ganhar uma aposta do que o homem sábio e crente. Ainda assim, tanto tempo e tantos recursos para tratar desta velha história me parecem um desperdício. Nem sempre grandes nomes acertam em todos seus projetos. Por tudo isso, devo dizer que a nota abaixo está relacionada com o respeito que eu tenho à carreira de Terry Gilliam, porque o filme propriamente dito merecia muito menos. Talvez um 6. Infelizmente a imaginação e a ousadia do diretor e roteirista, desta vez, ficaram abaixo da média do mercado.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Assistindo a este filme, fiquei com saudade do Dr. Caligari, personagem clássico lançado em 1920 pelo filme Das Cabinet des Dr. Caligari – que ganharia outras versões posteriormente. Naquela produção – e em outros do gênero – sim havia mistério, uma permanente sombra de perigo/morte e o convite provocativo para que o espectador imaginasse o que estava acontecendo. Em The Imaginarium of Doctor Parnassus tudo é explícito demais – e um bocado “fake” ou mesmo “kitsch”. Não combina muito com o final da primeira década do século 21 ou mesmo com a carreira inovadora de Terry Gilliam.

Como a maioria ou todos devem saber, Heath Ledger morreu enquanto o filme ainda estava sendo rodado. Com a morte do ator, a produção acabou sendo suspensa por alguns meses. A sorte de Terry Gilliam é que as cenas filmadas com Ledger permitiram que o trabalho do ator pudesse ser complementado com as atuações de Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell. A aparição de cada um dos três casa perfeitamente com a premissa de que algumas pessoas podem mudar seus aspectos quando entram no “mundo imaginário” incentivado/criado pelo Dr. Parnassus. Parte do roteiro, contudo, teve que ser reescrito para que a história pudesse se adequar com a ausência de Ledger.

Uma curiosidade ainda sobre esta participação dos três astros para complementar o trabalho de Heath Ledger: segundo o site IMDb, eles doaram os cachês que receberam por seus trabalhos para Matilda, filha de Ledger, como forma de garantir-lhe um futuro mais seguro. Um belo gesto, sem dúvida.

The Imaginarium of Doctor Parnassus faz várias referências à peça Esperando Godot (no original, En Attendant Godot), de Samuel Beckett. As mais evidentes seriam o terno e o chapéu utilizados por Mr. Nick e a cena em que Jude Law aparece com uma corda no pescoço.

O ator Dominic Cooper teria feito os testes para o papel de Anton. Talvez ele tivesse se saído melhor que o relativamente “cru” Andrew Garfield.

Os produtores do filme dizem que Heath Ledger improvisou grande parte de suas cenas cômicas. Certo. Mas, ainda assim, sua performance está abaixo de outras de sua filmografia recente. Sinto muito para os fãs.

Dr. Parnassus estreou no Festival de Cannes em maio de 2009. Depois do festival francês, o filme participou ainda de outros 17 festivais. Nesta longa tragetória, a produção capitaneada por Terry Gilliam recebeu apenas um prêmio – e cinco nomeações. Isso reflete, meus caros, o quanto o filme agradou aos especialistas no assunto. O único prêmio recebido pela produção foi o de melhor figurino para Monique Prudhomme no Satellite Awards. O trabalho dela é bom, mas inferior ao de outras produções recentes. Vale dizer ainda que Dr. Parnassus está concorrendo a dois Oscar – um deles, o de figurino.

Este novo filme de Terry Gilliam custou uma pequena fortuna: US$ 30 milhões. Justifica-se, claro, pelos nomes de boa parte de seu elenco e, principalmente, pelos custos de uma produção que envolve muitos efeitos especiais (ainda que a maioria deles ruins) e um grande trabalho de design de produção, figurinos e edição de arte. Nos Estados Unidos, mesmo com o “marketing” de ter sido o último filme de Heath Ledger, Dr. Parnassus teve um desempenho um tanto fraco. Ele arrecadou, até o dia 7 de fevereiro deste ano, pouco mais de US$ 6,7 milhões nas bilheterias. No Reino Unido, até novembro de 2009, foram 3,2 milhões de libras. Ele ainda está longe de dar lucro.

Co-produzido pelo Reino Unido, pelo Canadá e pela França, Dr. Parnassus foi filmado nos dois primeiros países citados.

O visual de algumas cenas deste filme, assim como boa parte da caracterização da personagem de Valentina me lembraram várias das obras do famoso pintor El Bosco – recomendo uma olhadela em alguns de seus quadros no Museo Nacional del Prado, como El Jardín de las Delicias.

Na parte técnica, não achei nenhum trabalho excepcional. Ainda assim, para os curiosos, vale citar os trabalhos de Nicola Pecorini na direção de fotografia; o de Mick Audsley na edição; o de Anastasia Masaro no design de produção; o de Dan Hermansen e Denis Schnegg na direção de arte; o de Caroline Smith e Shane Vieau na decoração de set; o de Ailbhe Lemass coordenando a equipe responsável pela maquiagem e o de Jeff Danna e Mychael Danna na trilha sonora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme. Uma nota muito boa, devo dizer, levando em conta o resultado final da produção. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 110 textos positivos e 56 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 66%.

Um dos críticos que gostaram de Dr. Parnassus foi Ty Burr, do The Boston Globe. Ele escreveu neste texto que o novo filme de Terry Gilliam “é uma bagunça”, algo que o realizador vem fazendo durante os anos. Burr comenta que ele foi conquistado pelos “caprichos desorganizados” do diretor. Gostei quando ele comenta sobre o trabalho corajoso de Ledger, afirmando que ele se joga no papel de Tony com “inteligência e inventividade inconstante”. O crítico ressalta ainda como as cenas do “universo interior” do espetáculo do Dr. Parnassus revelam o orçamento enxuto do filme, ainda que o resultado lembre uma colha de retalhos das animações do Monty Phyton. Burr ainda enaltece o trabalho de Troyer, que interpreta o “pessimista da trupe” e afirma que Imaginarium trata da “possibilidade da magia no mundo moderno”.

O crítico Peter Howell, do Toronto Star, comentou neste texto que mesmo que o ator Heath Ledger não tivesse morrido antes das filmagens terminarem, dificilmente The Imaginarium teria sobrevivido às “várias indulgências” de Terry Gilliam. “Parnassus continua com o velho hábito de Gilliam em sabotar o próprio trabalho ao empilhar imagens desenfreadas sem levar em conta o desenvolvimento dos personagens ou em contar histórias”, escreveu Howell. Ele foi duro com o diretor, mas devo admitir que, pelo menos com este filme – e alguns outros de Gilliam – ele está certo. Achei especialmente “porreta” o momento em que o crítico comenta que o esforço dos atores que interpretam Tony foi em vão e que apesar de Dr. Parnassus ser descrito como “um conto de moralidade fantástico, ele é realmente uma bagunça fantástica que começa com um lembrete macabro – embora acidental – da morte de Ledger”. No final de seu texto, o crítico afirma que mesmo o resgate de recursos utilizados na época do Monty Phyton não são suficientes para reanimar o filme.

O conhecido crítico Roger Ebert, do Chicago Sun-Times, escreveu neste texto que The Imaginarium pode ser visto como uma versão secundária da própria vida de seu diretor, Terry Gilliam. Ele seria o homem que tenta atrair as “pessoas para as suas fantasias, em um cenário extravagante e exagerado, com fumaça e espelhos, o que, depois de tudo, é sua verdadeira natureza”. Ebert elogia o trabalho feito com a computação gráfica do filme, dizendo que algumas visões do diretor se materializam de forma “maravilhosa”. Concordo que parte do trabalho ficou interessante, mas há uma grande parte realmente ruim. Parece até que não assistimos ao mesmo filme.

Ebert acredita que Heath Ledger seria o guia do público para os diferentes mundos fantásticos do filme. Mas ele afirma que Terry Gilliam, “aparentemente”, terminou de filmar as cenas externas, onde aparecia a Londres moderna, para depois filmar as demais cenas em estúdio. Enquanto isso, Ledger voltou para Nova York e, como todos sabem, foi encontrado morto em seu apartamento. Para o crítico, Depp se parece mais com Ledger, mas “é um fato triste” que Farrell roube o papel. “O meu problema com os filmes de Gilliam é a falta de roteiro discernível. Eu não preciso seguir o ABC, ação 1-2-3, mas aprecio bastante ter alguma noção das regras próprias do filme”, escreveu ainda Ebert. O crítico finaliza recomendando que o espectador tente viver cada momento do filme, sem pensar em sua memória a longo prazo, para tentar aproveitá-lo.

CONCLUSÃO: Mais conhecido por ter sido o último trabalho do ator Heath Ledger, The Imaginarium of Doctor Parnassus é um dos filmes mais fracos da carreira do diretor Terry Gilliam. Remanescente do genial Monty Phyton, Gilliam faz aqui um de seus filmes mais vazios e fracos inclusive na proposta visual. Há elementos que lembram os antigos filmes do Monty Phyton, mas há também uma busca por um sentido artístico e de moral que não se concretiza. Reformulando a velha história do homem que tenta enganar o Diabo, o diretor e roteirista consegue, no máximo, homenagear os artistas itinerantes. Mas ele não dá, infelizmente, um passo no sentido de contar uma história original ou que tenha muito pé ou cabeça. Mesmo Heath Ledger, que teve seu trabalho complementado pelo dos atores Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell, não está em seu melhor momento. Um verdadeiro desperdício de talentos em um filme mal construído desde o princípio, cheio de personagens fracos e efeitos ruins.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: The Imaginarium of Doctor Parnassus surpreendentemente está concorrendo a dois Oscar este ano. Não que o filme não tenha qualidades. Mas, francamente, ele não merece Oscar algum. De qualquer forma, vale citar que Dr. Parnassus está concorrendo nas categorias Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino. Na primeira, como comentei neste texto em que falo dos candidatos nas 24 categorias da premiação, Avatar leva vantagem. E mesmo que o filme dirigido por James Cameron não leve a estatueta dourada, acredito que o trabalho feito em Nine ou The Young Victoria sejam superiores ao de Dr. Parnassus. Na categoria de Melhor Figurino, prefiro o resultado de Bright Star, comentado recentemente. Ainda que, volto a afirmar, The Young Victoria tem grandes chances de levar o Oscar nesta categoria. Resumindo: para mim, The Imaginarium of Doctor Parnassus sairá de mãos vazias deste Oscar. Na melhor das hipóteses, Heath Ledger será homenageado na noite de premiação. E olha lá – levando em conta o papelão que a família dele protagonizou no ano passado.

Bright Star – O Brilho de Uma Paixão

12 de fevereiro de 2010 1 comentário

Amor de perdição, amor romântico que provoca no ser amado que é obrigado a se separar do amante, medo dilacerante, desejo de não acordar. Bright Star, novo filme da talentosa diretora Jane Campion, narra um destes amores que não existem mais – pelo menos com a delicadeza, a suavidade e o encanto mostrado por esta história. Filmado com calma e atenção aos detalhes, no melhor estilo da cineasta, Bright Star é um filme essencialmente belo e um bocado “difícil” para o grande público, mais acostumado a edições rápidas e tramas intricadas. Aqui, tudo é simples – mas nem por isso, menos interessante. Uma história romântica no velho estilo, feita para quem gosta do gênero – os demais, certamente, vão torcer o nariz. A dificuldade do filme reside nos vários momentos em que ele se debruça sobre a poesia de John Keates, o último e maior dos poetas românticos ingleses.

A HISTÓRIA: A jovem Frances “Fanny” Brawne (Abbie Cornish) cruza com uma agulha um pano branco, em repetidos movimentos de vai e vem. Costurar está entre os grandes prazeres de sua vida. Ela, os dois irmãos menores e a mãe, Mrs. Brawne (Kerry Fox) vão até a casa dos amigos da família, os Dilke (Claudie Blakley e Gerard Monaco). Ali Fanny conhece ao poeta John Keats (Ben Whishaw), um jovem promissor que vive sob a tutela do também escritor Charles Armitage Brown (Paul Schneider). O ano é 1818, e o local, o bairro de Hampstead, em Londres. Keats havia lançado, pouco antes, ao poema Endymion e recebia, no momento em que conhece a Fanny, muitas críticas negativas – e algumas positivas – para o seu trabalho. A sua aproximação com os Brawne e, especialmente, sua relação com Fanny renderiam alguns dos mais belos e inspiradores poemas escritos naquela época.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes de Bright Star, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu ao filme): A primeira característica que me chamou a atenção nesta produção foi o olhar cuidadoso de sua diretora para desenhar verdadeiros quadros com sua câmera. Uma das sequências iniciais do filme, quando a família Brawne sai de casa e passa por um campo de roupas brancas estendidas, se parece com uma obra de Jean-François Millet ou outro pintor romântico. Como no seu premiadíssimo The Piano, a diretora privilegia a beleza das imagens e o trabalho dos intérpretes escolhidos para encarnar seus personagens principais. A direção de fotografia de Greig Fraser se destaca neste processo, em imagens que ressaltam a beleza e o romantismo das paisagens, do ambiente, mergulhando a história ainda mais no terreno da conquista e do deleite amoroso.

Bright Star concorre apenas ao Oscar de Melhor Figurino. Inicialmente, achei que ele dificilmente faria páreo para o filme de época The Young Victoria ou para Coco avant Chanel. Mas devo dizer que mordi a minha língua. Realmente impressionante o trabalho de Janet Patterson com o figurino (e também com o design de produção) deste filme. Ela aproveita a suposta inventividade da personagem de Fanny para desenhar trajes que nos remetem à época em que o filme se passa, início do século 19, ao mesmo tempo em que subverte padrões e traz criatividade e inovação para os modelos criados pela protagonista. Muito interessante.

Mas falemos da história propriamente dita. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Bright Star, com direção e roteiro de Campion, resgata os últimos anos de vida e de produção acelerada do grande poeta John Keates. Morto aos 25 anos, o escritor viveu uma paixão inspiradora pela jovem Fanny Brawne que, na época em que eles se conheceram, tinha 16 anos. A história dos dois é a espinha dorsal do filme que, ainda assim, valoriza a criação literária de Keats. Para apreciar este filme, é preciso entendê-lo como uma homenagem à época romântica. Campion não apenas conta uma história ambientada nos anos de 1818 até 1821 (período que compreende a chegada de Keats a Hampstead e a sua morte na Itália), mas resgata os valores da época. O romantismo não embala apenas a aproximação e o amor entre os personagens principais, mas também a escolha por valorizar as belezas naturais, o sentimentalismo exarcebado e a idealização dos apaixonados.

Por um lado, temos o bucolismo das paisagens e os bailes da sociedade local que emolduram a vida dos Brawne e das demais famílias londrinas da época. Por outro, o espectador acompanha a inquietude e o trabalho criativo dos poetas daquela geração, representados pelos amigos Charles Brown e John Keates. Os costumes da época integram o painel de fundo de Bright Star, incluindo aí a necessidade de um pretendente ter condições financeiras para sustentar a sua futura esposa como pré-requisito para que houvesse um relacionamento; ou as saídas de uma jovem sempre acompanhada de algum irmão ou parente como “medida de segurança”.

Os tempos eram outros, e isso fica evidente, especialmente, no amor intenso e visto atualmente como pueril/idealizado entre Fanny e Keats. A verdade é que me parece que aquele tipo de relação, essencialmente romântica, poderia ser muito mais intensa e profunda que a maioria das relações rápidas e diretas que caracterizam os nossos tempos. Bem, talvez eu também seja uma romântica (às vezes). ;) O curioso é que se o espectador esquece os tempos acelerados dos dias atuais e se entrega ao ritmo coerente de Bright Star, ele rapidamente se vê envolvido pela história e não percebe o tempo passar. Isso vale para o roteiro de Campion também – ele flui por três anos sem grandes marcações e com suavidade.

Como todo herói tem que ter um contraponto para tornar suas conquistas mais interessantes, em Bright Star fica evidente a rivalidade de Brown com Keats. Ainda que os dois sejam amigos e que o primeiro ajude financeiramente o segundo, o filme permanentemente sugere que Brown vive frustrado por não ter conquistado à Fanny. Para alívio dos espectadores, contudo, Campion ignora o lugar-comum das cenas escancaradas de tal disputa – até porque Fanny nunca deu margem para que Brown acreditasse que poderia avançar qualquer sinal. Para resumir, a disputa sugerida por Campion fica apenas no terreno das intenções – exceto por uma cena, belíssima, na qual Brown, ao ser confrontado, não assume seu interesse pela jovem protagonista.

Gostei muito da direção de Jane Campion. Para mim, ela voltou à sua melhor forma. Suas câmeras registram a ação com uma delicadeza ímpar, preocupada em inserir o espectador permanentemente na pele/visão dos personagens. Assim, nos sentimos próximos dos campos floridos, caminhando entre campos verdes altos, flutuando sobre a copa de algumas árvores enquanto a brisa está soprando… Os valores românticos estão em evidência, mas a roteirista Jane Campion não está interessada apenas neles. Ela quer “complicar” a sua produção inserindo trechos inteiros dos poemas de Keats. Algo que não é fácil, mas em Bright Star essa inserções ocorrem nos momentos certos, declamadas naturalmente pelos protagonistas. Com tudo isso, além de produzir um filme essencialmente belo, a cineasta ainda incentiva as pessoas para saberem mais sobre Keats e seu romance real com Fanny.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A dupla de protagonista de Bright Star é fundamental para o sucesso do filme. Ben Whishaw consegue o tom exato de fragilidade e de magnetismo para interpretar o jovem poeta John Keats. No texto de Jane Campion, ele vive em permanente divisão entre os valores românticos da idealização do amor, o sentimentalismo exarcebado e, em algumas situações, certo pessimismo ou “gosto pela morte”. Ao lado dele, o espectador encontra uma corajosa, determinada e encantadora Abbie Cornish. A verdade é que fiquei apaixonada pelos dois. Além de talentosos, eles conseguem ensaiar, junto com Jane Campion, o protótipo perfeito de um casal realizado/não-realizado da época.

Além dos protagonistas e dos atores já citados, vale comentar o trabalho da também encantadora Edie Martin como Margaret “Toots” Brawne, a irmã caçula de Fanny; Thomas Sangster como Samuel, o outro irmão da protagonista; Gerard Monaco como Charles Dilke, amigo dos Brawne; Antonia Campbell-Hughes como Abigail, empregada dos Brawne que acaba servindo também a Brown e casa-se com ele; Olly Alexander como Tom Keats, irmão de John; e Claudie Blakley como Sra. Dilke.

Alguns elementos técnicos são fundamentais para este filme. Tanto quanto a atuação dos atores ou o roteiro de Campion. São eles a direção de fotografia potente, lírica e impecável do já citado Greig Fraser; a trilha sonora perfeita e belíssima de Mark Bradshaw; o trabalho criativo de Janet Patterson com o figurino e o design de produção; assim como a direção de arte de David Hindle e Christian Huband.

Bright Star começou a sua carreira internacional no Festival de Cannes, em maio de 2009. Depois, o filme participou de outros 14 festivais, incluindo os do Rio e de São Paulo. Até o momento, Bright Star ganhou três prêmios e concorreu a outros 14. A direção de Greg Fraser foi premiada no British Independent Film Awards. Paul Schneider surpreendeu a muitos ganhando de Christoph Waltz, de Inglourious Basterds, como Melhor Ator Coadjuvante no prêmio anual da National Society of Film Critics dos Estados Unidos. Fechando a lista de prêmios, Jane Campion ganhou o Truly Moving Sound Award no Festival de Cinema de Heartland.

A última produção assinada por Jane Campion teria custado US$ 8,5 milhões. Apenas nos Estados Unidos, até o dia 10 de dezembro de 2009, o filme tinha arrecadado cerca de US$ 4,4 milhões nas bilheterias. No Reino Unido, Bright Star acumulou pouco mais de 1 milhão de libras. Ainda é pouco para que o filme tenha lucro.

Uma curiosidade sobre o filme: a atriz Abbie Cornish foi a primeira a fazer uma audição para o papel de Fanny. Mas os testes seguiram e ela demorou um mês para saber que havia sido escolhida para o papel. O ator Paul Schneider, por sua vez, foi convidado para seu papel em Bright Star depois de ter impressionado a Jane Campion com seu desempenho no filme The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford.

Bright Star foi todo rodado no Reino Unido, exceto por um dia de filmagens feito em Roma (para registrar o funeral de Keats).

Não sei vocês, mas eu fiquei super curiosa para saber mais sobre John Keats, inclusive sobre a sua relação com Fanny Brawne. Encontrei sites na internet interessantes sobre ele. Recomendo este resumo da Wikipédia, para começar; seguido desta página em inglês dedicada ao poeta (que tem informações sobre sua vida e obra, incluindo parte de seus poemas e cartas – inclusive algumas para Fanny); e, para finalizar, este site que apresenta o poema Bright Star original, incluindo notas explicativas. Recomendo também leituras sobre o romantismo – para entender melhor os valores ressaltados pelo filme. Para começar, este artigo da Wikipédia.

As críticas para Bright Star tem sido essencialmente positivas até o momento. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para o filme, enquanto que os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes publicaram 119 críticas positivas e 24 negativas – o que lhe garante uma aprovação de 83%.

O crítico Jonathan F. Richards, do Film.com, começa este texto citando um trecho de uma carta de John Keats para seu irmão, George. O poeta ironiza o amor, mais precisamente a figura apaixonada de um homem apaixonado. Richards comenta sobre a estrutura do filme, e de como Jane Campion nos insere na vida de Keats através do ponto de vista de Fanny, “uma menina com um grande espírito e cultura desprezível”. Na opinião do crítico, a relação entre os amantes é “tocante, sonhadoramente romântica, satisfatória na maioria dos níveis. Sentimos a intimidade crescente entre os espíritos, a fome por companhia um do outro, o crescimento da consciência intelectual de Fanny e a intoxicação de Keats com a presença vibrante dela”. Richards destaca ainda a ausência total de desejo físico – e comenta, inclusive, como Keats parece se sentir confortável por ter uma “consciência moral” para se proteger no momento em que Fanny se oferece para ele de maneira mais direta. Realmente, tudo é sugerido, mas nenhuma chispa mais “quente” aparece no filme.

O crítico do Film.com destaca, especialmente, a “excelente criação dos personagens”, citando a importância de cada um para que a história convença. Richards afirma que “Wishaw nos dá um Keats que pode ser frágil e turbeculoso, mas que também é capaz de ser engraçado e ter fisicalidade. Ele é um cara bom. Mas é o desempenho de Cornish que conduz o filme com honestidade, pureza de coração. Com o cabelo puxado para trás e sua fisicalidade sólida e saudável, ela parece capaz de romper Keats em dois com um bem cronometrado chute. Mas a doçura e a ternura que ela traz consigo torna o romance pungente e a tragédia dilacerante”. Gostei da leitura dele. ;) O crítico ainda afirma que após o desânimo de In the Cut, Jane Campion voltou ao melhor de sua forma com Bright Star. “Nós sentimos a estranheza deste período de muito tempo atrás e seus costumes, mas entramos nele sem constrangimentos, e nos sentimos felizes por lembrar dele”, escreveu Richards.

Michael Phillips, crítico do Chicago Tribune, escreveu neste texto que Bright Star tem imagens realmente bonitas, mais que simplesmente atraentes – “o que só um grande talento poderia produzir”. Achei especialmente interessante quando Phillips destaca o que eu comentei antes, que Bright Star revela tanto o amor romântico quanto os valores que fascinavam os poetas do romantismo. Para o crítico, Jane Campion faz um trabalho escrupulosamente bem trabalhado, inspirada na “excepcional biografia” Keats, de Andrew Motion, mas superando essa obra ao colocar o espectador sempre na perspectiva de Fanny. Contudo, Phillips considera Bright Star inferior a The Piano e The Portrait of a Lady.

O crítico do Chicago Tribune lamenta que a relação entre Fanny e Keats apareça apenas em flashes e que o poeta seja retratado de forma tão passiva. “Pouco de suas neuroses, o fogo e a raiva (que lhe caracterizam) aparece no filme, ele é o equivalente humano de um sofá de descanso para Fanny se reclinar em cima”, bate firme Phillips, admitindo que ele é minoria com estas observações sobre o filme.

O geralmente ótimo Peter Howell, do Toronto Star, comentou neste texto que a diretora Jane Campion quase conseguiu o seu objetivo central com Bright Star, que teria sido o de buscar o “cotidiano” do amor casto entre Keats e Fanny. “Este não é um romance de corpetes rasgados no cair da noite ou de batimentos cardíacos acelerados. O romance é quase inteiramente verbal, limitado pelo costume social rígido, e muitas vezes interrompido por relações intrometidas”, escreve o crítico.

Mesmo considerando que as escolhas da diretora refletem o que provavelmente aconteceu a partir de 1818 na vida daquelas pessoas, ele se pergunta se as pessoas devem aplaudir ou lamentar estas escolhas “maçantes”. “Um pouco dos dois, talvez. É refrescante assistir um drama romântico onde a credulidade não foi alongada pela magia de Hollywood ou as fantasias da mente”, comenta Howell, afirmando que Campion é fiel aos elementos da época, mas que estamos muito condicionados a determinadas imagens e sensações do romance literário – e que eles não se concretizam neste filme.

Para o crítico, contudo, para a sorte do espectador os atores fazem as dúvidas sobre a história parecerem algo “herético”. Ele considera Whishaw a escolha perfeita para o papel de Keats, que era como um “rock star” de sua época. Para Howell, não seria nada incomum, para aquela época, que um poeta como ele pedisse por inspirações cotidianamente para uma moça como Fanny, assim como seria compreensível que ele se beneficiasse da lealdade feroz de um homem como Brown. “(Campion) sabe desenhar uma cena, mas nem sempre sabe como animá-la (torná-la vivaz). (… Bright Star) é imaginativo e romântico, mas estes sentimentos são mais implícitos do que evidentes no digno filme de Campion, que ultimamente provoca poucos suspiros de êxtase completo”, opina o crítico.

Peter Travers, da Rolling Stone, escreveu nesta crítica que Jane Campion se inspirou nas cartas que Keats escreveu para Fanny para fazer seu filme mas que ela, principalmente, tentou trabalhar questões que sempre lhe intrigaram, como o “espaço que o tempo, a classe e a cultura ocupam entre amantes e os sentimentos que eles não conseguem articular”. Eu diria que esta é uma perfeita descrição das intenções da diretora com Bright Star. Diferente de Howell, o crítico da Rolling Stone considerou a leitura da diretora “crua e sensual”. Travers comenta que diante da vida rígida de Hampstead, com seus trajes formais e regras sociais, Campion escolheu a Natureza para representar os “desmaios e tempestades” daquele romance. O crítico considera um sonho ter um filme como este na época de uma Hollywood “grosseira”.

CONCLUSÃO: A história do romance entre o poeta romântico John Keats e uma jovem simplória mas fascinante londrina no século 19 embala este belo filme de Jane Campion. Mais do que uma cinebiografia do conhecido poeta inglês, Bright Star é um filme romântico que bebe nos preceitos da arte que imortalizou Keats. Narrado de forma linear e com o cuidado nos detalhes, especialmente no bulcolismo e na interação da Natureza com as pessoas para simbolizar a união perfeita, este filme trilha um caminho quase casto, cheio de sugestões – e praticamente nenhuma concretização do romance. Com uma direção de fotografia belíssima, uma trilha sonora inspiradora e uma dupla de protagonistas perfeita, Bright Star é um deleite para os olhos e um resgate bacanérrimo de uma forma de romantismo antiga e pouco explorada, na forma e no conteúdo, pelo cinema dos nossos dias. Vale a pena deixar de lado, pelo menos durante o tempo que o filme dura, os valores da sociedade atual e mergulhar em uma forma de vida e de amar pertencente a outra época. Sem dúvida, Jane Campion, que sabe construir cenas de uma beleza única, voltou a acertar.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Bright Star concorre apenas ao Oscar de Melhor Figurino em 2010. Uma pena, porque acho que ele poderia concorrer em Melhor Fotografia também – ainda que, este ano, o páreo nesta categoria esteja duríssimo. Em Melhor Figurino a briga também não é das mais simples. Não assisti aos outros concorrentes, mas acredito que The Young Victoria leve uma certa vantagem sobre Coco avant Chanel, The Imaginarium of Doctor Parnassus ou Nine. Como comentei neste texto sobre os indicados nas 24 categorias do Oscar, se levarmos em conta apenas os prêmios já recebidos por quem assina os figurinos em disputa, as duas vezes ganhadoras do Oscar Colleen Atwood (Nine) e Sandy Powell (The Young Victoria) levariam alguma dianteira na disputa. Mas não sei… gostei muito do que Janet Patterson fez em Bright Star. Ela foi a responsável por produzir modelos que escapam um pouco do que sempre esperamos como figurinos de época. Achei seu trabalho criativo, tanto nos vestidos mais evidentes – como os de festas ou aqueles “usados para impressionar” Keats – como naqueles do cotidiano ou de serviçais. O filme tem chances, mas terá que derrubar outros favoritos para conseguir a estatueta dourada.

A Serious Man – Um Homem Sério

10 de fevereiro de 2010 28 comentários

Os irmãos Ethan e Joel Coen são mestres na missão de contar histórias. Quanto mais inusitadas, curiosas, melhor. O último filme lançado nos cinemas da dupla, A Serious Man, trata do “sentido da vida”, que é uma obsessão para muitas pessoas, de forma irônica e inteligente. O alvo deles é uma comunidade de judeus, mas a reflexão sobre a capacidade da religião em “confortar” ou trazer “respostas” para as pessoas poderia focar qualquer outro credo. Um filme muito interessante e que deve criar polêmica entre muita gente. Mas que sem dúvida merece estar na lista dos 10 indicados para Melhor Filme no Oscar deste ano.

A HISTÓRIA: Um homem chamado Level (Allen Lewis Rickman) chega em casa no meio de uma tempestade de neve e, mesmo tendo tido a carroça quebrada no caminho, se sente feliz. Ele conta para a esposa, Dora (Yelena Shmulenson), que um homem lhe ajudou com a carroça e, vejam a coincidência, esse homem conhecia a Dora. Mas a mulher teme que o “bom homem” que ajudou o marido seja, na verdade, um espírito do mal. Depois deste conto introdutório, a câmera mergulha na realidade de Danny (Aaron Wolff), um jovem que prefere escutar música durante as aulas, fumar maconha e, principalmente, a câmera se intromete na série de desastres que irão acertar o pai de Danny, o professor universitário Larry Gopnik (Michael Stuhlbarg). Pai de família judeu, tudo o que Larry tenta – mesmo contra todos os acontecimentos – é se manter um homem sério.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu ao filme A Serious Man): Inicialmente, A Serious Man parece uma daquelas produções que castigam o seu protagonista até o final. Tudo parece ficar cada vez pior para o pobre Larry Gopnik. Ainda que o novo filme dos Coen possa ser lido de muitas maneiras, inclusive como uma “comédia de erros”, esta história é mais profunda e inteligente do que pode parecer em um primeiro momento.

Para começar, os Coen fazem uma reflexão surpreendente sobre a capacidade das religiões em dar conforto e “apaziguar” ânimos. Também em dar “sentido na vida” de muita gente. Achei especialmente curiosa a forma com que os diferentes rabinos procuram consolar o inconsolável protagonista. Tentando ser um “bom cordeiro”, ele se sente perdido quando tudo em que acreditava parece desmoronar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, seu casamento acaba “da noite para o dia”. Depois, ele tem a própria honestidade colocada em cheque em um intricado plano de suborno de um aluno imigrante que não sabe se expressar bem em inglês, o universitário Clive Park (David Kang). Para completar o quadro, ele questiona se deve ceder às tentações para ajudar o complicado Arthur (Richard Kind).

Todos os gestos de bondade de Larry, em resumo, parecem fadados a serem contestados, corrompidos. (SPOILER – não leia… bem você já sabe). No final das contas, ele é um sério candidato a ser o vilão do casamento que deu errado. Na universidade, sua tão desejada promoção periga não sair do papel. Enfim, Larry pode estar enfrentando um “inferno astral”, como muitos chamam os momentos da vida em que tudo parece estar dando errado. O que um “homem sério” faz nestas situações? Busca respostas em sua fé. Mas, como lá pelas tantas o rabino Nachtner (George Wyner) parece deixar claro, no fundo não existem respostas, apenas perguntas. Ou, se existem respostas, elas são irrelevantes.

Porque, como Nachtner bem sentencia, “Não podemos saber tudo”. Mas temos essa idéia de tentar achar lógica por todos os lados, nas coisas mais curiosas como constelações no céu ou borras de café. E tão genial quanto a afirmação do rabino é a resposta de Larry: “Parece que você não sabe de nada!” E quem disse que os líderes, sejam eles religiosos, políticos ou do grupo que for, realmente sabem de algo? Nós acreditamos, no fundo, naquilo que realmente queremos. Para o bem, ou para o mal. Mas os diálogos entre Larry e Nachtner são o que há de melhor em A Serious Man.

O roteiro é dos mais inteligentes que assisti nos últimos tempos. Ele lembra os Coen em suas melhores comédias, além de ter algumas pitadas de diálogos nonsense, caóticos e hilários típicos de Quentin Tarantino. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Francamente, algumas vezes, o comportamento “manso” do protagonista chega a “dar nervoso”. Não sei vocês, mas eu esperava que ele estourasse a qualquer momento. No lugar disso – e Freud explica -, Larry tinha sonhos desconcertantes, nos quais ele era enfrentado por Sy ou virava alvo do vizinho estranho e caçador. Além de questionar o “sentido da vida”, a preocupação constante em acharmos respostas para tudo, e a importância da família e da religião, A Serious Man debate a própria leitura da sociedade do “homem sério”, daquele indivíduo que é respeitado e deve ter seus passos seguidos.

Para ironia extrema desta história, o homem que é considerado sério – e é homenageado como tal, lá pelas tantas – é Sy Ableman (Fred Melamed). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O mesmo homem que trai o seu amigo, Larry, e acaba com o seu casamento com a autoritária e egoísta Judith (Sari Lennick). Aliás, o egoísmo reina entre os personagens de A Serious Man. Ninguém parece ser capaz de se importar ou realmente se relacionar com o próximo. Dos filhos de Larry e Judith, Danny e Sarah (Jessica McManus) até os estudantes, professores, religiosos. Todos parecem estar preocupados, essencialmente, com seus próprios umbigos. Uma sociedade “correta” na embalagem, nos gestos, nas formas, mas nem perto disto no conteúdo. Mas todos ali são “homens e mulheres sérios”. ;) Olé para os Coen!

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Quando bem escritos, roteiros cheios de histórias paralelas e um tanto “nonsense” são bem interessantes. Este é o caso de A Serious Man. Os irmãos Coen atiram para várias direções e acertam quase todos os alvos. Ainda que o roteiro e a direção deles sejam precisos e eficientes, me incomodou certa desacelerada de ritmo no filme em certos momentos. Achei um pouco cansativos diálogos extensos e que não levavam a parte alguma, como aqueles de Larry e Arlen Finkle (Ari Hoptman), chefe da Comissão de Posse da universidade, por exemplo.

Simplesmente genial aquele conto inicial de A Serious Man. A história protagonizada por Velvel e Dora não tem relação direta com o restante do filme, mas nem por isso deixa de ser muito ilustrativa. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu A Serious Man). Estão em jogo ali conceitos como fé, crendices, generosidade, família, boatos, bondade e maldade. Idéias estas que, muito tempo depois, seriam colocadas à prova, mais uma vez, pela história de Larry Gopnik. No meio do filme também há “contos” paralelos que, algumas vezes, fazem o espectador perguntar “mas o que é isso?”. Este é o estilo dos Coen, que não perdem a oportunidade para explorar histórias paralelas saborosas e que, de quebra, fazem um painel do estilo de vida de várias pessoas nos Estados Unidos – e em outros países.

Mesmo não sendo a questão central do filme, é inevitável não refletir sobre a “crítica” que os Coen fazem dos judeus que vivem praticamente em um gueto nos Estados Unidos. Depois de se libertarem dos guetos em que muitos de seu povo foram obrigados a viver durante a Segunda Guerra Mundial, eles parecem insistir em se isolar voluntariamente. Pelo menos é isso que o filme dos Coen sugere, ao mostrar os alunos estudando em um colégio judeu, utilizando ônibus exclusivos para judeus, entre outras formas de se relacionar que excluem de suas intimidades pessoas que não sejam judias. Claro que este tipo de isolamento não é exclusivo dos judeus. Há pessoas que vivem em guetos por muitas razões – por serem imigrantes em um país no qual elas não se adaptam como deveriam, por serem homossexuais e se sentirem pouco incluídas entre os demais, e um vasto etcétera.

Merece uma menção à parte a relação de Larry com os vizinhos Sr. Brandt (Peter Breitmayer) e seu filho Mitch (Brent Braunschweig). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Questões como aquela, da divisa correta entre os terrenos e o limite em que um ou outro poderia “roçar o gramado” são as típicas razões de desentendimentos entre vizinhos. Um dos momentos mais engraçados do filme é quando pai e filho chegam de uma caçada e Larry tenta questionar o limite entre as propriedades. Hilário! Fica no ar também uma possível posição antisemita dos vizinhos de Larry – ainda que, pelo comportamento rude dos Brandt fica difícil saber se eles são assim naturalmente ou apenas contra os vizinhos judeus. O protagonista também fica completamente sem ação nas várias tentativas de Sy e Judith em convencê-lo a não ter opiniões próprias sobre o fim de seu casamento e a nova união entre eles.

Por tudo isso, Michael Stuhlbarg realmente dá um show no papel de Larry Gopnik. Suas reações contidas ou desesperadas são perfeitas no contexto de seu personagem. Um trabalho complexo e muito acertado. Ainda assim, é importante comentar que todos os demais atores trabalham muito bem, com um certo destaque para o irmão de Larry, o marginalizado (por ser doente e, ao mesmo tempo, ter um QI aparentemente acima da média) Arthur vivido pelo veterano Richard Kind e para o garoto Aaron Wolff que interpreta a Danny. Vale citar ainda o trabalho de Michael Tezla como o Dr. Sussman, protagonista de um conto emblemático durante o filme; Simon Helberg, mais conhecido por seu trabalho na série cult nerd The Big Bang Theory como o rabino Scott; e Adam Arkin como o advogado de divórcio de Larry.

Outros momentos impagáveis de A Serios Man envolvem o “bar mitzvah” de Danny e seu encontro com o mais sábio dos rabinos, o figuraça Marshak (Alan Mandell). Simplesmente impagável a citação de Jefferson (antes eu havia escrito Jackson, sabe-se lá de onde tirei essa idéia!) Airplane. Sem contar o final, que é genial e que deixará muitas pessoas desconcertadas tentando encontrar respostas… ;)

Curioso como este filme teve um custo relativamente baixo – especialmente para os padrões de Hollywood. A Serious Man teria custado US$ 7 milhões e arrecadado, até o dia 27 de dezembro, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 9 milhões. Mesmo já dando lucro, esta não é ainda a bilheteria que dois ganhadores do Oscar, como são os irmãos Coen, mereciam ostentar. Mas como este é um “projeto menor” da dupla, até que ele não está se saindo tão mal.

A carreira de A Serious Man começou no Festival de Toronto em setembro de 2009. Depois daquele evento, o filme participou ainda de outros sete festivais, incluindo os de Roma, Londres, Viena, Mar del Plata e Estocolmo. Até o momento esta produção recebeu sete prêmios e foi indicada a outros 26. Entre os que levou para casa estão os de melhor roteiro entregue pelo National Board of Review e pela associação de críticos de Boston; o de melhor ator para Michael Stuhlbarg no Satellite Awards; e o de melhor direção de fotografia entregue pelo Círculo de Críticos de Cinema de San Francisco.

Uma curiosidade sobre o filme: ele não deixa claro o ano exato em que a história se desenvolve. Isso porque o rabino Scott tem em seu escritório um calendário de 1967, mas duas seleções da gravadora Columbia House (mais precisamente Abraxas de Santana e Cosmo’s Factory do Creedence Clearwater Revival) foram lançadas em 1970. Então é impossível afirmar, ao certo, quando A Serious Man se passa.

Outra curiosidade sobre o filme (essa com SPOILERS): em A Serious Man os irmãos Coen utilizam o velho recurso de inserir referências no roteiro, mas desta vez elas são bíblicas. Segundo o site IMDb, Larry é um personagem ao estilo de Jó, que aparece na Bíblica como um homem “íntegro, reto, que temia a Deus e fugia do mal”. Segundo o site IMDb, como acontece com Jó, Larry é um “homem bom a quem muitas coisas ruins acontecem sem nenhuma explicação”. A sequência em que Larry olha para a esposa do vizinho sobre uma cerca, quando ele está sobre o telhado de casa, remete a visão que o Rei David teve de Bathsheba. Quando Danny vê a aproximação de um tornado, a referência seria a ocasião em que Deus fala a Jó sobre a chegada de um redemoinho, quando Ele afirma que não dará nenhuma explicação para as coisas ruins que estão acontecendo com Jó. Bastante curioso. :)

A Serious Man agradou ao público e, especialmente, à crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para a produção, enquanto que os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 153 críticas positivas e apenas 23 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 87%.

A crítica Ann Hornaday, do The Washington Post, escreveu neste texto que A Serious Man é o filme mais “explicitamente autobiográfico” dos irmãos Coen e que pode ser encarado, por seus discípulos, como uma “destilação dos temas, preocupações e falhas que têm animado os melhores e os piores filmes de suas carreiras”. Para Hornaday, A Serious Man não chega a ter a qualidade de Fargo, mas se situaria entre esta obra-prima dos cineastas e Miller’s Crossing. A crítica ressalta que os cineastas voltaram para o subúrbio de Minneapolis onde cresceram para contar esta história de um professor de física que vê a sua vida de classe média se dissolver à sua frente.

Hornaday vê em A Serious Man uma homenagem carinhosa dos cineastas às suas raízes judaicas, sem descuidar do “humor sombrio” que os caracteriza. Ela ainda aponta como uma das deficiências do filme algumas risadas baratas que os cineastas costumam inserir em suas produções. Ainda assim, Hornaday considera este um dos melhores filmes dos Coen. A crítica ainda ressalta como os estudiosos dos cineastas terão, com o final de A Serious Man, material para “séculos” de análises e que os espectadores que buscam apoio ou consolo neste filme vão encontrar, na verdade, um “exemplo supremo da ética” destes cineastas mantida durante os últimos 25 anos: “Tanto quanto os Coen são capazes de dar, eles são capazes de tirar”. ;)

A crítica Carrie Rickey, do The Philadelphia Inquirer, por sua vez, destacou neste texto que A Serious Man é uma versão do Livro de Jó, da Bíblia, sob a ótica dos Coen. Ela considerou a comédia dos cineastas “inquietante, obscura e surrealista”, e considera que este novo filme segue a tradição de outras histórias centradas em um protagonista que é constantemente testado por uma figura satânica. Na opinião de Rickey, tanto para o protagonista de A Serious Man quanto para o público esta produção é um mistério. Segundo a crítica, não é fácil entender o que os Coen querem nos dizer e, ao mesmo tempo em que eles nos pedem para “abraçar o mistério”, eles não resistem em puxar o tapete sob os pés de seu público.

Christopher Orr, do The New Republic, também ressalta o tom autobiográfico de A Serious Man, comentando como eles retrataram uma comunidade judaica tão uniforme que os “goyim” que aparecem na história acabam se mostrando perigosamente exóticos – como o vizinho caçador. Achei interessante quando Orr comenta que o filme lembra o trabalho de Woody Allen ao revelar este contraste cultural – ainda que ele não escape do filtro escuro que caracteriza o trabalho dos Coen. O crítico considera o filme “muito engraçado”, especialmente quando a história explora os rituais da classe média suburbana judaica prestes a desmoronar.

“Há momentos de verdadeira ternura também. Mas o humor e a empatia tem problemas em florescer no solo de narrativa sombria dos Coen (…). Como Ethan explicou em uma entrevista, ‘Para nós, a diversão foi inventando novas formas de tormento para Larry’. Com o tempo, contudo, a diversão fica só para eles. O jogo acaba ficando evidente demais e, mesmo para toda a arte dos Coen, o acúmulo de insultos se torna mortal”, comentou Orr. Para o crítico, A Serios Man se soma aos dois filmes anteriores dos Coen em uma nova fase dos cineastas, uma etapa em suas carreiras mais sombria e impiedosa. Ainda assim, Orr considera este filme, se visto separadamente, como uma produção frustrante, onde caberia, para os diretores, a mesma pergunta que o protagonista faz para um dos rabinos em certo momento, quando ele não entende porque as perguntas são feitas se não existem respostas para elas.

O crítico Joe Morgenstern, do The Wall Stree Journal, questionou neste texto, como outros de seus colegas, sobre quais seriam as intenções dos irmãos Coen com esta história sombria. Para ele, o protagonista de A Serious Man é testado, a todo momento, e incentivado a sucumbir a erros graves aos “olhos de Deus”. Morgenstern ressalta o “prefácio maravilhosamente estranho” que aborda a dificuldade que as pessoas devem ter em saber o que fazer quando se encontram com o mal. “Tudo isso é misterioso, provocante e, ocasionalmente, muito engraçado. (…) Mas o mistério que me levou a fazer a pergunta anterior (sobre as intenções dos Coen) aparece como o tom dominante do filme”, comenta o crítico.

Ele ressalta ainda que os Coen continuam criando personagens que parecem caricaturas de histórias em quadrinhos mas que, em A Serious Man, eles não apresentam algum rasgo de humanidade que possa redimí-los. “Será que estamos destinados a abominar estas pessoas também, ou será que os realizadores são vítimas de sua técnica habitual?”, questiona Morgenstern, acrescentando que se é o caso da segunda hipótese, este foi um erro de cálculo dos Coen.

Por fim, cito este texto do crítico Kenneth Turan do Los Angeles Times. Ele comenta que A Serious Man é o filme mais pessoal dos Coen, a sua produção mais intensamente judaica, “uma perfeitamente graduada comédia de desespero que, contra algumas probabilidades, acaba sendo uma de suas mais universais também”. Para mim, Turan foi dos poucos que realmente captou o sentido da história “trágica” de Larry Gopnik. “Quanto mais real a dor (do protagonista) se torna, mais, de uma forma essencialmente judaica, o riso se torna a nossa única opção séria”, define o crítico.

Para mim, eis uma das mensagens do filme: existem tragédias na vida? Problemas, provações, percalços, como vocês quiserem chamar? Pois sim. Muitos. E o que faremos a respeito? Pois algumas vezes a melhor forma de lidar com isso é dando risada da própria desgraça. Se levarmos a vida a sério demais, simplesmente vamos ficar doentes (essa seria uma das ironias do filme?) e aturdidos sem respostas convincentes. A vida deveria ser levada com mais leveza, ainda que ela se apresente de forma tão dura tantas vezes. Talvez aí esteja a mensagem dos Coen – entre outras.

Gostei também quando Turan revela o quanto a história muito particular de Gopnik pode ser sentida na pele por um universo de pessoas. Afinal, quem nunca, como o protagonista de A Serious Man, não se lamentou por “apenas” tentar ser uma pessoa séria, tentar fazer o certo e, mesmo assim, tudo parecer ir contra você? Na dor, como alguém já disse antes, todos somos iguais. E a eterna busca de respostas tentam nos confortar, mas a verdade é que somos incapazes, devido ao nosso tamanho diminuto, em enxergar todo o quadro e ter uma visão completa de tudo que acontece. Por isso mesmo a reflexão da falta de respostas do filme. Para mim, mais do que uma crítica a religião ou a Deus, A Serious Man nos coloca no nosso devido lugar. Mostra que não adianta dominarmos a ciência, o conhecimento ou acharmos que estamos mais “conectados” ou “informados” do que nunca. No fim das contas, ainda sabemos pouco – ou nada – se comparados ao “Deus que tudo sabe, tudo vê”.

Outra leitura para A Serious Man é que nem tudo, meus caros, é um “desígnio de Deus”. Ou seja: quando Larry se pergunta o que tudo aquilo quer dizer, procurando saber o que Deus quer que ele aprenda com tantos problemas, talvez a melhor resposta seja que Deus tem pouco a ver com tudo aquilo. São as pessoas que o cercavam as responsáveis por tornar a sua vida um inferno. Pensando apenas nelas próprias e tentando extrair dele mais do que seria razoável, são elas a fonte e a resposta para suas perguntas. Nem sempre Deus tem a ver com tudo o que fazemos – afinal, não temos o chamado livre arbítrio? Se tudo fosse um desígnio divino, seríamos pouco mais que fantoches. Enfim, nestes dois parágrafos citei apenas algumas de várias leituras e questionamentos de A Serious Man. Um filme brilhante por sua forma de nos tirar da inércia, por fazer rir ao mesmo tempo que lança muitas perguntas no ar. São poucos os que conseguem tudo isso de forma “tão simples” quanto os Coen.

Uma curiosidade: A Serious Man é uma co-produção dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França.

Para os que gostam de acompanhar o trabalho técnico dos grandes filmes, essas pessoas “menos evidentes” que são fundamentais para que as histórias sejam contadas com qualidade, vale citar o trabalho em A Serious Man de Carter Burwell na trilha sonora; de Roger Deakins na direção de fotografia; a edição dos irmãos Coen, que assinam há tempos como Roderick Jaynes; o design de produção de Jess Gonchor; e a direção de arte de Deborah Jensen. Todos habituados a trabalhar com os roteiristas e diretores há vários anos.

CONCLUSÃO: Um dos filmes mais “endiabrados” da filmografia recente dos irmãos Ethan e Joel Coen. Deixando para trás a seriedade de produções como Burn After Reading e No Country for Old Men, a dupla de cineastas mergulha em uma história que ironiza o “sentido da vida”, o papel da religião e da família na sociedade atual. Focando um núcleo de judeus, A Serios Man pode cair no ataque fácil de pessoas desta etnia e religião que talvez se sintam ofendidas com a ironia dos Coen. Mas é importante dizer que eles utilizaram a sua própria biografia para escrever esta história. Outros grupos, especialmente os que levam muito a sério as suas religiões, também podem ficar incomodados com o filme. Mas por favor, não se levem tão a sério. Nem as suas crenças. Espero que A Serious Man seja visto como um filme instigante e que brinca com valores, mas sem a intenção de ofender ninguém. Bem dirigido, com um roteiro excelente e atores muito eficazes em seus papéis, A Serios Man é uma das boas surpresas da lista dos 10 indicados a melhor filme no Oscar deste ano. Com humor inteligente e vários níveis de reflexão, ele coleciona histórias curiosas e inusitadas. Algumas vezes, gasta tempo demais em “causos” paralelos menos interessantes, mas nem por isso perde a sua capacidade de surpreender. E siga a dica deixada pelos cineastas: não encontre explicações em cada linha do filme. Nem sempre elas existem.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: A Serious Man foi indicado em duas categorias na premiação anual da Academia. Ele concorre a Melhor Filme e a Melhor Roteiro Original. Uma pena Michael Stuhlbarg não ter conseguido uma vaga entre os concorrentes a Melhor Ator. Agora, mesmo tendo vários toques de genialidade e sendo um filme muito interessante, A Serious Man deve sair do Oscar 2010 de mãos vazias. Como Melhor Filme ele não tem chances. Certamente ele não tem força suficiente para desbancar Avatar ou The Hurt Locker. Como Melhor Roteiro Original ele tem um pouco mais de chances mas, ainda assim, dificilmente vai ganhar dos fortes concorrentes The Hurt Locker e Inglourious Basterds – para não citar Up. De qualquer forma, se fosse para citar em qual das duas categorias ele pode surpreender, seria na segunda, de roteiro. Mas, honestamente, ele não deve ganhar nada.

Creation – Criação

9 de fevereiro de 2010 5 comentários

Charles Darwin foi e continua sendo um dos grandes revolucionários da Humanidade. Sua teoria da evolução mudou, para sempre, a forma com que as pessoas tratariam a ciência, a religião e a sua própria história. Uma cinebiografia de Darwin, por tudo isso, é interessante independente do resultado. Creation, que anteriormente havia recebido os títulos de Origin e Nature (entre outros), explora alguns aspectos da vida pessoal do cientista e pesquisador. Baseado no best-seller de Randal Keynes titulado Annie’s Box – Darwin, His Daughter, and Human Evolution (que ainda não foi lançado no Brasil), Creation se debruça sobre o cotidiano do cientista e, especialmente, a sua relação com a família. Curiosa a “luta” entre ciência e religiosidade vivida por ele dentro de casa, assim como suas dúvidas, doenças e o sentimento de culpa que teve enfrentar. Interessante por um lado, Creation acaba deixando a desejar por outro, ao ignorar boa parte do trabalho científico, de observação e com muitos colaboradores que levou Darwin a concretizar a sua obra-prima.

A HISTÓRIA: Annie (Martha West) pede para que o pai, Charles Darwin (Paul Bettany) lhe conte uma história. Como todo pai amoroso, ele pergunta sobre o que, e ela diz que “sobre tudo”. O cientista então se remete a “Tierra del Fuego”, um país “primitivo” onde um grupo de indígenas se encontra com um grupo de exploradores na praia. Tentando provar a supremacia do “povo desenvolvido” sobre o “primitivo” do local, os exploradores trocam alguns objetos por algumas crianças nativas. Darwin explica para a filha como a tentativa deles é frustrada. Enquanto conta esta história, Darwin acompanha a filha em uma seção fotográfica. Tempos depois, a foto da menina acompanhar o cientista em seu trabalho em casa. Mas a lembrança da menina e tudo o que ela representa é o que tornaria tão difícil para o cientista a finalização de sua principal obra. De quebra, ele deve enfrentar a falta de comunicação que passou a ter com a mulher, Emma (Jennifer Connelly), e a certeza da perseguição que ele e a família passarão a enfrentar se ele expor suas teorias para o mundo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Creation): Em 2009, uma avalanche de novidades sobre Charles Darwin foi lançada no mercado. Tudo para marcar os 200 anos de seu nascimento. O homem que separou, para sempre, a ciência da religião acabou sendo o foco principal desta produção dirigida por Jon Amiel. Cuidadoso na reconstrução de época e criativo nos recursos para transportar o espectador na forma de enxergar o mundo do científico, Creation começa bem, mas depois vai perdendo a sua força conforme simplifica a história em um drama familiar. Ainda assim, sem dúvida, o foco no cotidiano de Darwin tem o seu interesse e, muito por causa de seus atores, o filme acaba segurando as atenções e, especialmente no final, emocionando.

Mais do que uma cinebiografia sobre Charles Darwin, Creation é uma história de amor. Um romance destes cheio de desencontros e com poucos momentos de real aproximação entre as pessoas que se amam. Ainda que tenha algumas cenas de diferentes épocas da vida do pesquisador, Creation centra-se na história de Darwin na contagem regressiva de um ano para que sua obra-prima, A Origem das Espécies, fosse finalizada e publicada. As dúvidas, os problemas de saúde, o constante sentimento de culpa e a aparente incapacidade do protagonista em se perdoar norteiam, assim, grande parte do filme. Um extrato curto, até demais, da biografia deste gênio.

Importante o espectador ter isto em mente para não se decepcionar com o filme. Seguindo a trilha da obra do bisneto de Darwin, Randal Keynes, o filme centra-se na família do cientista. Ganha protagonismo a sua filha falecida, Annie, assim como a sua esposa, Emma. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Acreditando que as relações consanguineas poderiam enfraquecer os seus descendentes, Darwin se sentia culpado pela morte da filha, acreditando que por ter se casado com sua prima, Emma, eles teriam gerado uma filha mais suscetível a doenças e mais frágil. Essa culpa e a falta de comunicação que passou a ter com Emma depois da morte de Annie, levaram o cientista a um isolamento cada vez mais constante e a alucinações. O fim desse processo é o que assistimos em Creation.

Inicialmente, o roteiro de John Collee me surpreendeu pela forma criativa com que o autor resolveu o problema de contar a história de Darwin de forma interessante. Com três linhas narrativas que se entrecruzaram em vários momentos do filme, Creation começa como um trabalho bem costurado e instigante. O espectador acompanha o conturbado ano de 1858 na vida da família Darwin, com o cientista sendo incentivado e, até certo ponto, pressionado por amigos e admiradores a terminar sua obra – A Origem das Espécies seria publicada, pela primeira vez, no ano seguinte, 1859; mas também assiste a cenas do cientista da época em que Annie ainda estava viva (e depois, quando adoece) e, através das histórias que conta para os filhos, acompanha parte das viagens de pesquisa e exploração de Darwin pelo mundo.

Bem escrito, o roteiro de Collee não torna a narrativa confusa, mas fluida. E seu trabalho funciona bem, até que em certo momento o filme se resume aos problemas de saúde de Darwin e a sua luta por vencê-los. Entendo que a vida pessoal, pouco explorada do pesquisador, seja interessante. Mas ao escolher por esta ótica, essencialmente, Collee e o diretor Jon Amiel abrem mão de algumas das facetas de Darwin mais importantes. E ainda que os amigos do cientista tenham um papel fundamental em sua recuperação e, principalmente, na finalização de sua obra-prima, faltou em Creation mostrar que o trabalho de Darwin foi, já naquela época, um projeto colaborativo.

O pai das teorias evolutivas teve êxito porque contou com diversos colaboradores pelo mundo, inclusive o naturalista Fritz Müller, um alemão que se radicou em Blumenau, no Sul do Brasil, e desde ali manteve correspondências com Darwin. Sem esta rede de observadores da Natureza, científicos e naturalistas pelo mundo, dificilmente Darwin teria conseguido escrever suas teorias. Um trabalho que apenas comprova o quanto ele era avançado para o seu tempo – afinal, Darwin comprovou muitíssimo antes da internet a importância da construção de conhecimento de forma colaborativa.

Como dizia anteriormente, Creation perde força quando resolve apostar suas fichas no drama, ressaltando a “loucura” pela qual Darwin passou na época de gestação de sua obra-prima. Por mais que ele tenha passado por dúvidas, questionamentos e tenha vivido realmente um drama familiar, o filme dirigido por Amiel talvez leve a uma leitura errada do processo criativo e científico que antecedeu A Origem das Espécies. As pessoas que buscam sempre elementos para atacar Darwin podem acreditar que ele estava louco quando escreveu a obra. Bobagem. Ainda assim, achei desnecessária a queda do filme para o drama sem medidas, abrindo mão de seguir com diferentes linhas narrativas e com pequenos fragmentos da vida do cientista.

Os atores são os grandes responsáveis por segurar a história mesmo quando ela descamba para um certo dramalhão. Paul Bettany está incrível na pele de Charles Darwin, em uma das grandes interpretações de sua carreira. Seguro no papel, ele desmistifica a figura de Darwin e o torna surpreendentemente apaixonado – pela esposa, pelos filhos (especialmente Annie), pela ciência e, em particular, pela vida e suas evoluções. Sua esposa na vida real, a atriz Jennifer Connelly, faz o contraponto perfeito para Darwin. Religiosa, apegada à fé especialmente após a morte da filha, Emma revela-se uma mulher de opiniões fortes, determinada e culta, uma companheira perfeita para Darwin. Bettany e ela apresentam a sintonia exata para seus personagens. E a atriz que interpreta Annie, Martha West, é puro encanto. O elenco de apoio, do qual falarei depois, também trabalha bem. E mesmo que o filme dê uma desacelerada lá pelas tantas, o dramalhão se justifica depois, com um final potente e emocionante. Não é o filme perfeito sobre Darwin, mas Creation pode servir como um mecanismo de popularização e/ou desmistificação do científico. O que, convenhamos, é sempre importante.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma das grandes qualidades de Creation é a fotografia assinada por Jess Hall. Um trabalho impecável. Na parte técnica, se destaca ainda a trilha sonora de Christopher Young, o design de produção de Laurence Dorman, o vestuário de Louise Stjernsward e a direção de arte coordenada por Bill Crutcher. Nos detalhes, o filme é perfeito. Apenas o roteiro, como comentado anteriormente, deixa um pouco a desejar.

Vários atores importantes fazem papéis secundários neste filme. Para começar, Jeremy Northam interpreta ao reverendo Innes, amigo da família Darwin e pessoa em quem Emma deposita grande confiança para ajudar a “salvar” o seu marido. Ele aparece pouco – assim como os demais coadjuvantes – porque este filme, no final das contas, é sobre Charles, Emma e Annie. Outros coadjuvantes importantes são Benedict Cumberbatch, que interpreta a Joseph Hooker, considerado por muitos o mais importante botânico do século 19 e amigo próximo de Darwin (no filme ele desempenha um papel fundamental de incentivo para Darwin em um momento crucial de sua vida); Toby Jones interpreta a Thomas Huxley, biólogo inglês que foi um ferrenho defensor das idéias de Darwin; Jim Carter assume o papel de Parslow, empregado da família; e os jovens Harrison Sansostri e Christopher Dunkin interpretam a Lenny e George Darwin, os outros filhos de Charles e Emma.

Creation estreou em setembro de 2009 no Festival de Toronto. Depois, o filme participou ainda de outros quatro festivais. A expectativa com o filme era grande, mas ele não conseguiu cair no gosto da crítica ou do público ao ponto de ganhar algum prêmio. Outro indicativo disto são as notas dadas para a produção. Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para a produção, enquanto que os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 44 críticas negativas e 34 positivas para o filme (o que lhe garante uma aprovação de apenas 44%).

O crítico A. O. Scott do The New York Times escreveu, nesta crítica, sobre a grandiosidade do trabalho de Darwin e a forma com que Creation transformar a elaboração de A Origem das Espécies em um “melodrama”. Scott critica a forma com que os produtores deste filme escolheram retratar o processo criativo do protagonista como um “horror gótico” em lugar de um paciente e meticuloso trabalho científico. “Ele é atormentado por pesadelos e visitado pelo fantasma de sua querida filha Annie, cuja morte aos 10 anos é a tragédia doméstica em torno da qual o filme é construído”, resume o crítico. Para Scott, a personagem de Emma talvez consiga, melhor que o próprio Darwin, compreender e resumir de maneira mais completa as “implicações sociais e teológicas” do trabalho do marido.

Para o crítico do NYT, o diretor e o roteirista de Creation erraram a mão ao induzir a idéia de uma “febre cerebral literária” e reduzir o trabalho de Darwin a um sintoma de angústia mental e emocional. Estou com ele neste ponto. Realmente é um desperdício a forma com que os autores reduzem a complexidade do trabalho de Darwin. Para Scott, poucas coisas são mais sedutoras para um cineasta do que os “enigmas de um gênio”. Ainda assim, para ele, Creation é apenas a amostra mais recente de como esta “admirável curiosidade pode falhar”. O crítico afirma ainda que Paul Bettany faz uma interpretação exagerada de Darwin – mesmo em seus momentos mais “tranquilos”. Gostei da reflexão de Scott sobre a insistência dos cineastas em inserir o “pensamento mágico” (no caso de Creation, o fantasma da filha morta) como elemento básico para o grande público compreender o trabalho de criação científica. Para Scott, Creation pode “muito bem ser um retrato verdadeiro (sobre Darwin), mas não é um (retrato) convincente ou esclarecedor”.

Ann Hornaday, do The Washington Post, por sua vez, afirma neste texto que Paul Bettany faz um trabalho maravilhoso e que Creation acaba apresentando a figura de um Darwin “mais dinâmico e conflituoso” do que aquele conhecido retrato do científico barbudo pode sugerir mas, ainda assim, o filme descamba em um melodrama arrojado e de angústias mórbidas. “Para um filme que claramente procura trazer Darwin para a vida, Creation passa uma quantidade de tempo enorme chafurdando na morte”, comenta Hornaday. Uma reflexão interessante. A crítica, contudo, elogia o trabalho do diretor Jon Amiel, afirmando que ele supera elementos da cinebiografia típica, intercalando cenas que revelam o “colapso físico e mental de Darwin com momentos surpreendentes de realismo mágico”. Para Hornaday, diante de todas as ambições do filme, Creation acaba sendo “fatalmente enfraquecido pelo excesso de emoções”.

David Germain, do Associated Press, considera Creation “um filme bastante pequeno considerando seus temas enormes – a evolução versus a divindade, ou essencialmente, Darwin versus Deus”. Diferente de outros críticos, Germain vê como um acerto a escolha de enfocar a vida pessoal de Darwin ao invés de fazer um filme que promova o debate de uma “briga que durou 150 anos e que não vai desaparecer tão cedo”. Segundo Germain, Creation não pretende pregar o darwinismo, “o que seria um exercício inútil” dada a forma convicta com que as pessoas se colocam nos dois lados da questão. “Indo direto sobre o progenitor do problema, porém, o filme faz refletir sobre como as crenças contraditórias podem coexistir pacificamente mesmo sob o mesmo teto, forjadas pelas regras da atração e da devoção enraizadas em nossos genes”, reflete o crítico.

Outro crítico que gostou de Creation foi Mick LaSalle, do San Francisco Chronicle. Neste texto, LaSalle comenta que “é difícil fazer um drama de uma vida gasta no estudo solitário, e Creation, que retrata a vida de Charles Darwin, mostra a tensão deste esforço”. O crítico ressalta que no filme, toda vez que o trabalho de Darwin começa a ficar monótono, aparece em cena a adoravelmente precoce Annie – aparição que acaba criando apreensão nos espectadores que, com sua presença, acabam temendo sempre pelo pior. LaSalle comenta que, lá pelas tantas, o filme cria uma discussão entre os pontos de vista religiosos e científicos do mundo, mas comenta que ele não segue com esse tema. O crítico considera uma falha o esforço de simplificar a dicotomia entre ciência e religião, mas afirma que as qualidades de Creation superam as suas deficiências.

LaSalle elogia o trabalho de Bettany: “(…) ele nos apresenta um Darwin tão carente de energia que é difícil imaginá-lo capaz de realizar qualquer coisa, (ao mesmo tempo em que) transmite de forma eficaz a delicadeza e a decência essenciais do homem”. O crítico destaca ainda a forma com que a parceria de Bettany e Connelly funciona, transmitindo a “familiaridade e o carinho” que o casal Darwin deveria preservar em seu lar. LaSalle acaba resumindo Creation como um bom filme para a “matinee”.

Com o bicentenário do nascimento de Darwin, em 2009, suas obras foram relançadas e outros estudos sobre o homem e o científico vieram à tona. Encontrei dois sites bacanas que podem tirar algumas dúvidas dos curiosos: Darwim e (r)Evolução de Darwin.

Creation se saiu mal na opinião de público e crítica e, principalmente, nas bilheterias. O filme, que teria custado aproximadamente 10 milhões de libras, conseguiu irrisórios US$ 107 mil nas bilheterias dos Estados Unidos e outros 504 mil de libras no Reino Unido. É preciso mais tempo para saber como o filme vai se sair nos diferentes mercados, mas tudo indica que ele dará um grande prejuízo para seus realizadores.

Uma curiosidade: Creation foi rodado em Down House, a verdadeira residência da família Darwin preservada na cidade de Kent, na Inglaterra; e em outros locais do país e da Tailândia.

CONCLUSÃO: Aguardadíssimo filme sobre o cientista Charles Darwin, Creation se debruça sobre a vida particular do pai da teoria da evolução. Inspirado no livro de seu bisneto, o escritor Randal Keynes, este filme revela um homem dividido e em conflito, cheio de culpa e de dúvidas sobre publicar uma obra da qual ele tinha plena convicção mas que ele sabia que iria provocar uma verdadeira revolução – inclusive em sua própria casa. Creation vale pela tentativa de desmistificar o personagem de Darwin, mas falha em simplificar os bastidores da publicação de A Origem das Espécies. Ele deixa de fora, por exemplo, o trabalho fundamental de muitos pesquisadores em várias partes do mundo como colaboradores do naturalista britânico. Inicialmente, a produção é bem narrada, unificando de forma criativa três momentos históricos na vida de Darwin, mas depois ela cai em um drama exagerado, simplista e desnecessário. Tecnicamente impecável, com algumas sequências belíssimas e bem editadas, Creation tem um trio de protagonistas afinado, mas deixa a desejar na evolução de seu roteiro. Mesmo com todas as suas falhas, Creation é um filme bonito e que traz novas informações sobre a vida pessoal deste grande personagem da nossa história.

Indicados para o Oscar 2010 – Avaliação (as chances de cada um)

2 de fevereiro de 2010 7 comentários

A lista de filmes indicados para o prêmio anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood vinha sendo “cantada” há várias semanas. Especialmente depois da entrega do Globo de Ouro e das premiações de alguns segmentos da indústria, como é o caso dos produtores, dos atores e roteiristas. Diferente dos últimos anos, o Oscar 2010 vem com uma seleção de 10 produções para a categoria de Melhor Filme do ano.

Quase todos os indicados já eram esperados. Não foi surpresa o destaque para Avatar no número de indicações – como qualquer produção que utiliza o que há de mais moderno em tecnologia para o cinema, o filme de James Cameron só podia ser indicado em quase todas as categorias técnicas. No total, Avatar foi indicado em nove categorias. Mesmo número de indicações recebida por The Hurt Locker, em um evidente duelo entre as duas produções. Pouco atrás vem o projeto mais ambicioso de Quentin Tarantino, Inglourious Basterds, com oito indicações. Merecem destaque ainda Precious, com seis indicações; Up, com outras seis; District 9 com quatro; e Up in the Air com seis.

A exemplo de 2009, o Oscar deste ano também abarcou algumas das maiores bilheterias do ano que passou e, ao mesmo tempo, produções pouco vistas e/ou badaladas entre o público – mas muito elogiadas pela crítica. Como fiz no ano passado, quero comentar aqui no blog cada uma das categorias, seus indicados e, de quebra, seguir dando palpites sobre as chances/méritos de cada um. Os porta-vozes deste ano na divulgação dos indicados ao Oscar foram a atriz Anne Hathaway e o presidente da Academia, Tom Sherak. A premiação está marcada para o próximo dia 7 de março, e terá como mestres de cerimônia os atores Steve Martin e Alec Baldwin.

Agora, a lista dos indicados deste ano e meus palpites para as 24 categorias do Oscar 2010:

Melhor filme: Avatar; The Blind Side; District 9; An Education; The Hurt Locker; Inglourious Basterds; Precious: Based on the Novel Push by Sapphire; A Serious Man; Up; Up in the Air.

Comentários: Como em muitas categorias do Oscar deste ano, nesta houve poucas surpresas – mas elas existiram. Oito dos dez indicados eram esperados, mas a entrada de The Blind Side e a indicação de Up foram um pouco surpreendentes. Verdade que alguns críticos já apontavam para uma possivel indicação dupla de Up – para melhor filme e melhor animação. Também é verdade que The Blind Side tem tido uma das campanhas de lobby mais bem-sucedidas da reta final para o Oscar. Ainda assim, fiquei surpresa por estes dois filmes tirare do páreo produções como Invictus, Nine ou Star Trek. De qualquer forma, a seleção feita pela Academia faz um painel interessante da diversidade oferecida por Hollywood no ano passado. Correm por fora The Blind Side, District 9 (bom vê-lo entre os grandes do ano), An Education, Inglourios Basterds, A Serious Man, Up e Up in the Air. Disputam verdadeiramente a estatueta Avatar, The Hurt Locker e Precious. Ainda que, falando francamente, a queda de braço está mesmo entre os dois primeiros. Vale lembrar que Avatar levou a melhor no Globo de Ouro e que The Hurt Locker saiu consagrado no prêmio dos produtores de Hollywood (que normalmente coincide com o Oscar). Aposta quase certeira: The Hurt Locker. Quer dizer, difícil prever. Na verdade, a Academia terá que escolher pela inovação de Avatar ou pela qualidade de The Hurt Locker. O filme que levar a melhor aqui, provavelmente, levará a melhor na maioria das categorias seguintes em que Avatar e The Hurt Locker estiverem se degladiando. Minha preferência: The Hurt Locker. Ainda que, francamente, não acharia um crime se Precious ou Inglourious Basterds surpreendessem a todos e um deles levasse o prêmio.

Melhor diretor: James Cameron por Avatar; Kathryn Bigelow por The Hurt Locker; Quentin Tarantino por Inglourious Basterds; Lee Daniels por Precious; Jason Reitman por Up in the Air.

Comentários: Nesta categoria quatro das cinco vagas eram quase certas. O antigo casal James Cameron e Kathryn Bigelow eram nomes certos, assim como Quentin Tarantino. Muitos diziam que Jason Reitman conseguiria também a sua vaguinha. A dúvida residia na possível indicação de Clint Eastwood (Invictus), Lee Daniels ou mesmo Tom Ford (A Single Man). Daniels levou a melhor. Ainda que eu seja apaixonada por Eastwood e ache que ele merecia uma indicação no lugar de Reitman, por exemplo, vejo como justo o espaço conquistado por Daniels. A verdade é que sem o seu trabalho inspirado, Precious não seria nem metade do filme que é. Sua dedicação com os atores, a maioria bastante inexperiente, foi decisiva. Francamente a disputa é muito boa, especialmente entre os quatro primeiros da lista. Ainda assim, parece que Cameron e Bigelow serão os responsáveis pela verdadeira queda de braços. Aposta quase certeira: Kathryn Bigelow. Difícil, muito difícil escolher entre Bigelow e Cameron. Na verdade, tudo vai depender do filme que a Academia resolver tornar o mais importante do ano. Se a maioria dos prêmios for para Avatar, Cameron leva a estatueta. Se o escolhido da vez for The Hurt Locker, Bigelow será a felizarda. Minha preferência: Kathryn Bigelow. Como não tenho o Clint Eastwood para votar e mesmo gostando muito do trabalho de Quentin Tarantino com seu Inglourious Basterds, vou escolher Kathryn Bigelow. O trabalho dela é superior ao dos demais concorrentes. De qualquer forma, exceto por Reitman, se a estatueta cair na mão de qualquer um dos outros, terá sido justo.

Melhor ator: Jeff Bridges por Crazy Heart; George Clooney por Up in the Air; Colin Firth por A Single Man; Morgan Freeman por Invictus; Jeremy Renner por The Hurt Locker.

Comentários: Os quatro primeiros indicados eram mais que esperados para concorrer à estatueta de melhor ator do ano. A surpresa, se analisarmos os 10 atores que concorreram nas duas categorias do Globo de Ouro, ficou por conta da indicação de Jeremy Renner, ator que dá um show em The Hurt Locker. Francamente, fiquei feliz com a surpresa. Renner é um dos grandes responsáveis pela qualidade do filme dirigido por Kathryn Bigelow. O Oscar pode consagrar The Hurt Locker e, sendo assim, talvez Renner tenha alguma chance. Ainda que o franco favorito parece ser mesmo Jeff Bridges por seu desempenho em Crazy Heart. Outro que sempre “dá trabalho” para os concorrentes é Morgan Freeman – que, aliás, está perfeito em Invictus. Colin Firth mereceu a vaga, mas parece correr por fora na disputa. Aposta quase certeira:Jeff Bridges. Minha preferência (até o momento): Jeff Bridges. A interpretação do ator em Crazy Heart é brilhante. Mas se ele não ganhar, não acharia ruim se Jeremy Renner ou Morgan Freeman levassem o prêmio.

Melhor atriz: Sandra Bullock por The Blind Side; Helen Mirren por The Last Station; Carey Mulligan por An Education; Gabourey Sidibe por Precious: Based on the Novel Push by Sapphire; Meryl Streep por Julie & Julia.

Comentários: Sem surpresas nesta categoria. As cinco atrizes mais badaladas do Globo de Ouro e as que concorreram ao prêmio do sindicato dos atores emplacaram também suas candidaturas no Oscar. Sandra Bullock, todos dizem, está há algum tempo em uma curva ascendente para ganhar todos os prêmios como atriz. Curioso é que ela é a única das concorrentes que, além de poder ganhar um Oscar, concorre este ano também a um Framboesa de Ouro (premiação para os piores do cinema). Francamente, se for para ela ou a Meryl Streep (a outra atriz que ganhou o Globo de Ouro 2010) ganharem o Oscar, prefiro a Meryl Streep. Mas, honestamente, achei os trabalhos de Carey Mulligan e, especialmente, Gabourey Sidibe mais decisivos para seus respectivos filmes e, também, mais potentes. Helen Mirren, ainda que seja uma atriz magnífica, aparentemente corre por fora – seu filme teve menos “lobby” que os demais.Aposta quase certeira: Meryl Streep. Minha preferência (até o momento): difícil escolher entre Mulligan e Sidibe mas, se tenho que escolher uma, prefiro a estrela de An Education.

Melhor ator coadjuvante: Matt Damon por Invictus; Woody Harrelson por The Messenger; Christopher Plummer por The Last Station; Stanley Tucci por The Lovely Bones; Christoph Waltz por Inglourious Basterds.

Comentários: Nenhuma surpresa nesta categoria. Todos os atores indicados ao Oscar já haviam concorrido ao Globo de Ouro. Aparentemente, para os astros de Hollywood, não há dúvida de que estes cinco atores fizeram o melhor trabalho como coadjuvantes em seus respectivos filmes. Aposta certeira: Christoph Waltz deve ganhar o Oscar como coadjuvante. Se ele não ganhar, seria uma verdadeira zebra. Minha preferência (até o momento): Christoph Waltz. Ele realmente é o nome de Inglourious Basterds. Sem ele o filme não teria o humor e força que tem.

Melhor atriz coadjuvante: Penélope Cruz por Nine; Vera Farmiga por Up in the Air; Maggie Gyllenhaal por Crazy Heart; Anna Kendrick por Up in the Air; Mo’Nique por Precious.

Comentários: Aqui, como na categoria de melhor ator, praticamente surpresa alguma. Exceto por Maggie Gyllenhaal, que surpreeendeu a muitos por “roubar” uma nova candidatura de Julianne Moore (este ano por A Single Man), todas as demais vagas estavam praticamente reservadas para as atrizes que foram indicadas. Penélope Cruz reafirma a sua boa fase ao conseguir, um ano depois de ter levado um Oscar para casa, mais uma indicação. Vera Farmiga e Anna Kendrick são a cabeça e o coração de Up in the Air e merecem suas indicações. Gostei de ver Gyllenhaal entre as indicadas, porque acho ela uma ótima atriz pouco lembrada nas premiações. Mas… este é o ano da performance arrebatadora de Mo’Nique. Novamente, assim como ocorre com a categoria de ator coadjuvante, aqui também há uma franca favorita. De qualquer forma, se o prêmio fosse ficar entre uma das atrizes de Up in the Air, eu prefiro o trabalho de Kendrick que o de Farmiga. Aposta certeira: Mo’Nique. Minha preferência (até o momento): Mo’Nique.

Melhor roteiro original: The Hurt Locker; Inglourious Basterds; The Messenger; A Serious Man; Up.

Comentários: Sempre acho curioso como um filme que concorre como o melhor do ano pode não figurar em nenhuma das categorias para melhor roteiro. Isso acontece, nesta edição do Oscar, com Avatar. Deixo apenas esta reflexão no ar… Roteiro é algo fundamental em um grande filme, e aqui temos alguns dos melhores textos criados especialmente para o cinema deste ano. The Hurt Locker, Inglourious Basterds e Up, sem dúvida, são os favoritos. The Messenger e A Serious Man correm um pouco por fora – especialmente o primeiro. Aposta quase certeira: The Hurt Locker. Minha preferência: The Hurt Locker. Ainda que, francamente, ficaria contente também com a vitória de Inglourious Basterds.

Melhor roteiro adaptado: District 9; An Education; In the Loop; Precious; Up in the Air.

Comentários: Diferente do Globo de Ouro, que coloca alguns filmes com roteiro original na categoria “melhor roteiro” ao invés de colocá-los na de “melhor roteiro original”, o Oscar é conhecido por sempre diferenciar bem estas categorias. Melhor dizendo, “era” conhecido. Porque este ano o Oscar colocou District 9, uma produção com roteiro totalmente original, na categoria de adaptado. Curioso. De qualquer forma, alguns dos melhores textos do ano estão concorrendo à cobiçada estatueta dourada. Todos os textos são muito bons, mas parece que Up in the Air tem uma certa vantagem sobre seus concorrentes devido aos prêmios que recebeu anteriormente. A surpresa ficou por conta de In the Loop, que tirou a indicação esperada de A Single Man. Aposta quase certeira: Up in the Air. Minha preferência (até o momento): District 9. Difícil escolha, porque gosto muito também dos trabalhos de adaptação feitos em Precious e An Education.

Melhor trilha sonora original: Avatar; Fantastic Mr. Fox; The Hurt Locker; Sherlock Holmes; Up.

Comentários: Interessante parte das escolhas nesta categoria. Avatar e Up eram indicados certos. Mas The Hurt Locker e Sherlock Holmes se saírem melhor que as trilhas de An Education, Nine e Crazy Heart, só para citar três fortes concorrentes, foi curioso. Se o Oscar repetir a fórmula do Globo de Ouro, Up deve levar a estatueta. Mas nunca se sabe… vide o premiado de 2009 – Slumdog Millionaire venceu o favorito Wall-E. Gosto da trilha de The Hurt Locker – e se o filme for o “grande vencedor” da noite, pode até surpreender por aqui também. Mas nunca devemos ignorar Avatar – pelos mesmos motivos anteriormente citados. Aposta quase certeira: Up. Minha preferência (até o momento): The Hurt Locker.

Melhor canção original: Almost There de The Princess and the Frog; Down in New Orleans de The Princess and the Frog; Loin de Paname de Paris 36; Take it All de Nine; The Weary Kind de Crazy Heart.

Comentários: Novamente uma categoria com candidatos previsíveis e outros que foram uma surpresa. Era fato que Crazy Heart e Nine emplacariam, cada um, pelo menos uma música como melhor canção. Mas não deixa de ser surpresa duas composições de The Princess and the Frog e uma de Paris 36 entre as indicadas, roubando possíveis “vagas” de Avatar e Brothers. Se o Oscar seguir a linha do Globo de Ouro, The Weary Kind levará a estatueta dourada. Mas nunca se pode ignorar a força de um filme com duas canções indicadas ou o apelo de Nine. Aposta quase certeira: The Weary Kind, do filme Crazy Heart. Minha preferência (até o momento): The Weary Kind.

Melhor filme estrangeiro: Ajami (Israel); El Secreto de Sus Ojos (Argentina); La Teta Asustada (Peru); Un Prophète (França); The White Ribbon (Alemanha).

Comentários: Fiquei surpresa com os indicados nesta categoria. Para mim, dos nove semi-finalistas para melhor filme em língua estrangeira, tinham mais a “cara” do Oscar as produções The World Is Big and Salvation Lurks Around the Corner (Bulgária) e Winter in Wartime (Holanda). Além disso, a crítica fazia “vivas” em torno de Samson & Delilah (Austrália). Foi curioso ver os latinoamericanos El Secreto de Sus Ojos e La Teta Asustada conquistando suas vagas. Fico feliz especialmente pelo segundo, que é um grande, sensível e lindo filme. Não escondo, há tempos, a minha opinião de que El Secreto é um bom filme, mas que ele está abaixo de outros concorrentes. Sou apaixonada por Un Prophète, mas sem dúvida The White Ribbon (ou Das Weisse Band, no orginal) é o grande favorito deste ano. Aposta quase certeira: The White Ribbon. Minha preferência (até o momento): Un Prophète.

Melhor animação: Coraline; Fantastic Mr. Fox; The Princess and the Frog; The Secret of Kells; Up.

Comentários: Quatro dos cinco indicados eram quase certos. A surpresa ficou por conta de The Secret of Kells, filme dirigido por Tomm Moore e Nora Twomey e co-produzido pela França, pela Bélgica e pela Irlanda. Prevista para estrear nos Estados Unidos apenas em março, The Secret of Kells conseguiu derrubar outros “peso-pesados” mais conhecidos como 9, Cloudy with a Chance of Meatballs e Alvin and the Chipmunks: The Squeakquel. Interessante. Ele deve ser realmente belíssimo para ter conseguido este feito. Fiquei um pouco triste – ainda que já esperava por isso – que Mary and Max ficou fora da disputa. De qualquer forma, não há dúvidas de que o vencedor desta categoria será Up, considerada uma das grandes produções de 2009 segundo público e crítica. Tanto que conseguiu emplacar uma inédita indicação a melhor filme também. Aposta certeira: Up. Minha preferência (até o momento): Up. Gostei de Up, ainda que não tenha achado ele tão fantástico como todos comentam. De qualquer forma, o filme da Disney e Pixar foi o único que assisti até agora. ;)

Melhor documentário: Burma VJ; The Cove; Food, Inc.; The Most Dangerous Man in America: Daniel Ellsberg and the Pentagon Papers; Which Way Home.

Comentários: Nesta categoria há pelo menos duas surpresas (ou quase surpresas). Burma VJ, The Cove e Food, Inc. eram palpites certeiros entre os indicados. Mas os outros dois conquistaram suas vagas derrubando produções muito elogiadas e bem cotadas, especialmente The Beaches of Agnes. The Most Dangerous Man in America conta a história do homem que enfrentou Nixon e buscou, através de suas denúncias, acabar com a participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. Os documentos secretos revelados por Ellsberg sacudiram o país e culminaram no Watergate. Parece interessante. Which Way Home narra história emocionantes de crianças que cruzam o México na tentantiva de entrarem clandestinamente nos Estados Unidos. A verdade é que os cinco concorrentes tem várias qualidades para terem chegado até o Oscar. Ainda assim, acredito que The Cove tem uma certa vantagem devido a sua proposta e ao trabalho arriscado e envolvente orquestrado pelo diretor Louie Psihoyos. Aposta quase certeira: The Cove. Minha preferência (até o momento): The Cove.

Melhor curta de animação: French Roast; Granny O’Grimm’s Sleeping Beauty; The Lady and the Reaper (La Dama y la Muerte); Logorama; A Matter of Loaf and Death.

Comentários: Uma das categorias mais desprezadas do Oscar e da qual eu gosto tanto. ;) Basta dar uma pesquisada nos textos que escrevi sobre os curtas nos últimos dois anos. Os curtas de animação selecionados pela Academia são, normalmente, uma delícia. Recomendo. Este ano há produções para todos os gostos. French Roast conta a divertida história de um empresário tenso que se dá conta, em um café parisiense, que esqueceu a sua carteira. Enquanto a história do curta francês se desenrola, o empresário aguarda a oportunidade para pedir mais café. O irlandês Granny O’Grimm’s Sleeping Beauty é protagonizado por uma senhora de idade, a Granny O’Grimm do título, que conta a sua própria versão do conto da Bela Adormecida – para o pavor de seus netos. O espanhol The Lady and the Reaper também é protagonizado por uma “doce velhinha”. Neste curta, contudo, a tal velhinha sonha com o dia em que irá morrer para, finalmente, reencontrar o seu amado. Quando está prestes a conseguir realizar seu desejo, ela acorda em um hospital sob os cuidados de um médico que insiste em fazê-la viver. O francês Logorama brinca com a presença dos logos em uma cidade feita deles e na qual acontecem “perseguições de carros espetaculares, uma intensa crise com reféns, fuga de animais selvagens” entre outros eventos curiosos. Fechando a lista, do Reino Unido vem A Matter of Loaf and Death, mais uma aventura da dupla Wallace e Gromit. O que tem melhor cotação no site IMDb é Logorama, seguido de A Matter of Loaf and Death. Aposta quase certeira: Logorama. Minha preferência (até o momento): The Lady and the Reaper. Difícil escolher algum sendo que não assistir aos concorrentes ainda. Mas gostei da história da produção espanhola.

Melhor documentário em curta-metragem: China’s Unnatural Disaster: The Tears of Sichuan, Province; The Last Campaign of Governor Booth Gardner; The Last Truck: Closing of a GM Plant; Music by Prudence; Rabbit à la Berlin.

Comentários: Categoria pouco observada no Oscar mas que, como todas as outras envolvendo curtas, é tão importante quanto as demais. Muitos diretores admirados por grandes filmes, sucessos de público e de crítica, começaram fazendo justamente curtas inspirados (e alguns premiados). China’s Unnatural Disaster critica a falta de preparo dos governantes de Sichuan para enfrentar – e prevenir – a tragédia do terremoto que matou 70 mil pessoas em maio de 2008. O curta denuncia a incompetência e os discursos vazios dos governantes, assim como a estrutura deficitária de locais que deveriam ser seguros e a corrupção local. The Last Campaign of Governor Booth Gardner conta a história de um dos mais populares ex-governadores de Washington que, sofrendo com o Mal de Alzeheimer, fez campanha política para se eleger novamente e, assim, assegurar a aprovação da “morte assistida” nos hospitais. The Last Truck conta a história dos últimos dias de produção de uma fábrica automobilística na cidade de Moraine, em Ohio. A narrativa foca os funcionários e a tragédia que o desemprego pode significar em suas vidas. Music by Prudence narra a história da cantora e música Prudence Mabhena, uma mulher que enfrenta todas as dificuldades de “um país falido”, problemas de saúde e vizinhos que a consideram “amaldiçoada” para trabalhar, através da música, com sete jovens deficientes do Zimbabwe. Da Alemanha vem Rabbit à la Berlin, um curta sobre a curiosa história dos coelhos que viveram entre os muros que dividiram Berlim e a Alemanha. Por 28 anos os animais peludos se multiplicaram e viveram praticamente em paz naquele território protegido por guardas e polêmico. Mas com a Queda do Muro de Berlim eles tiveram que migrar para a parte ocidental da cidade e, como afirmam os produtores do curta, se adaptar “ao mundo livre” como os demais alemães. Francamente, todas as histórias são muito boas. Mas acredito que as duas últimas levem uma certa vantagem na disputa. Aposta quase certeira: Rabbit à la Berlin. Minha preferência (até o momento): Rabbit à la Berlin. Difícil escolher, porque não assisti a nenhum e todos parecem muito bons. Ainda assim, pela história, ficaria entre Rabbit à la Berlin e Music by Prudence.

Melhor curta-metragem: The Door; Instead of Abracadabra; Kavi; Miracle Fish; The New Tenants.

Comentários: Como no caso do curta de animação, aqui também há representantes de vários países. Uma coletânea interessante de trabalhos importantes pelo mundo. The Door, curta premiado da diretora Juanita Wilson, conta a história de um pai que sofreu na pele as consequências da catástrofe de Chernobyl ocorrida em 1986. O sueco Instead of Abracadabra conta a história de um homem que, adulto, ainda vive com os seus pais e que, a sua maneira, luta para se tornar um mago. O indiano Kavi conta a história emocionante de um garoto que busca se livrar do trabalho forçado em um forno de fabricação de tijolos na Índia. O australiano Miracle Fish também conta a história de um garoto. Mas sua história parece misturar realidade com imaginação quando, no aniversário de oito anos do menino, ele deseja que todas as pessoas de sua escola desapareçam – e, ao acordar depois de cair no sono, ele se vê sozinho no lugar. O dinamarquês The New Tenants conta a história de dois homens que acreditam estar vivendo os piores dias de suas vidas em um filme considerado “engraçado, assustador e inesperadamente romântico”. Se levarmos em conta a nota que cada um dos curtas tem no IMDb, The Door leva uma vantagem gigantesca em relação aos seus rivais. Aposta quase certeira: The Door. Minha preferência (até o momento): The Door. Difícil dizer porque ainda não assisti a nenhum. Também gostei da história de Kavi.

Melhor direção de arte: Avatar; The Imaginarium of Doctor Parnassus; Nine; Sherlock Holmes; The Young Victoria.

Comentários: Escolhas curiosas este ano e que, de quebra, dão uma “palhinha” da diversidade do cinema atual. Temos no mesmo caldeirão um filme “futurista” como Avatar, um drama hiper imaginativo como Dr. Parnassus, um musical e dois filmes “de época”. Estes últimos, normalmente, levam vantagem – especialmente em figurino – pelo gigantesco trabalho de pesquisa e o cuidado que eles tem que ter em cada detalhe do que se vê em cena (e do que se planeja como cenários). Por outro lado, musicais como Nine também são muito ricos em elementos visuais. Dr. Parnassus, todos dizem, é um verdadeiro carnaval criativo e visual. Mas Avatar… ah, Avatar. Um filme que todos afirmam ser tão inovador deve ter um trabalho de direção de arte simplesmente magnífico. Então fica difícil comentar sobre tantos filmes que não assisti, mas algo me diz que o grande recordista de bilheterias do ano – e talvez da história – pode se dar bem na disputa. Aposta quase certeira: Avatar. Minha preferência (até o momento): Avatar. Depois de assistir ao último filme de Heath Ledger e Avatar, sem dúvida prefiro o segundo.

Melhor direção de fotografia: Avatar; Harry Potter and the Half-Blood Prince; The Hurt Locker; Inglourious Basterds; The White Ribbon.

Comentários: Muito interessante a escolha destes cinco filmes nesta categoria. Novamente, um belo painel da diversidade do cinema atual porque, lado a lado, temos blockbusters indiscutíveis e filmes pouco badalados entre o público (mas elogiadíssimos pela crítica). Assisti apenas aos três últimos, mas devo dizer que Avatar, mais uma vez, corre um sério risco de ganhar mais esta. The Hurt Locker, Inglourious Basterds e The White Ribbon mereceram as suas indicações. Os dois primeiros não seriam tão impactantes sem o trabalho de seus diretores de fotografia. E The White Ribbon… grande parte da beleza e “crueldade” da história reside na direção de fotografia em preto-e-branco de Christian Berger. Belíssima fotografia! Ainda assim, Avatar tem a seu favor um importante lobby – e, muitos dizem, um trabalho técnico fotográfico impecável. Aposta quase certeira: Avatar. Minha preferência (até o momento): The White Ribbon. Olha, francamente é difícil escolher entre o filme de Michael Haneke e The Hurt Locker. Na verdade, acho que qualquer um dos dois ganhando seria muito justo. Mas se Avatar levar o prêmio, terá sido merecido também.

Melhor edição: Avatar; District 9; The Hurt Locker; Inglourious Basterds; Precious.

Comentários: Quatro dos cinco indicados eram cartas praticamente marcadas. Talvez a única surpresa tenha sido pela indicação de Precious para Melhor Edição. Não que o filme não seja bem editado, mas acredito que há produções em que esta característica se destaca mais – como por exemplo Up in the Air. Ainda assim, fico feliz por Precious. Dos indicados, acredito que a disputa fmais forte fica entre Avatar, The Hurt Locker e Inglourious Basterds. District 9 e Precious correm por fora. Aposta quase certeira: The Hurt Locker. Minha preferência: The Hurt Locker. O trabalho da dupla Chris Innis e Bob Murawski é soberbo e um dos pontos fortes do filme. Eles mereciam ganhar a estatueta.

Melhor mixagem de som: Avatar; The Hurt Locker; Inglourious Basterds; Star Trek; Transformers: Revenge of the Fallen.

Comentários: Muitas pessoas (e eu me incluo entre elas) não sabem a diferença real entre esta categoria e a seguinte no Oscar. Por isso pesquisei a respeito e fiquei sabendo que a mixagem de som é fundamental para uma produção porque nesta etapa do trabalho os técnicos responsáveis cuidam de balancear e dosar os diferentes volumes que fazem parte da sonorização do filme, assim como cuidam das equalizações, compressões, efeitos e demais recursos dos sons captados/gravados. A edição de som, por sua vez, leva em conta todas as etapas do processo, da captação, passando pela mixagem e a masterização final. Neste ano não é surpresa os indicados nesta categoria, já que os efeitos sonoros e o uso preciso dos diferentes volumes foram fundamentais para todas as produções indicadas. Acredito que liderem a disputa Avatar, The Hurt Locker e Star Trek. Aposta quase certeira: Avatar. Minha preferência (até o momento): The Hurt Locker. Lembrando que não assisti ainda a Avatar e Star Trek.

Melhor edição de som: Avatar; The Hurt Locker; Inglourious Basterds; Star Trek; Up.

Comentários: Aqui, alguns dos pesos pesados de 2009. E ainda que todos mereçam suas indicações, senti a falta de District 9 entre os selecionados. Acredito que Up poderia ter dado o seu lugar para o filme, um dos melhores no quesito edição de som no ano. Entre os indicados, Avatar, The Hurt Locker e Star Trek levam certa vantagem. Inglourious Basterds e Up correm um pouco por fora. Aposta quase certeira: Avatar. Minha preferência (até o momento): The Hurt Locker.

Melhores efeitos especiais: Avatar; District 9; Star Trek.

Comentários: Agora sim, aplaudo os três selecionados. Todos comentam que estes três filmes primam pelos efeitos visuais e especiais. Sem dúvida eles são os melhores do ano neste quesito. A disputa é boa – mas acredito que vai dar o óbvio. Aposta certeira: Avatar. Minha preferência (até o momento): Avatar.

Melhor maquiagem: Il Divo; Star Trek; The Young Victoria.

Comentários: Uma produção italiana quase esquecida nas premiações da temporada, um blockbuster elogiado por público e crítica e um filme de época. Em teoria, as duas últimas levam uma certa vantagem. Primeiro, porque a caracterização dos personagens demanda muita pesquisa e acaba sendo fundamental pelas histórias. Mas há que considerar-se o excelente trabalho da dupla Aldo Signoretti e Vittorio Sodano para transformar o ator Toni Servillo no ex-primeiro ministro Giulio Andreotti. Aposta quase certeira: The Young Victoria. Minha preferência (até o momento): The Young Victoria – ainda que seja difícil opinar já que não assisti a nenhum dos concorrentes.

Melhor figurino: Bright Star; Coco Before Chanel; The Imaginarium of Doctor Parnassus; Nine; The Young Victoria.

Comentários: Disputa das boas a deste ano. Grande filmes e, especialmente, trabalhos primorosos no desenho e execução de figurinos. Novamente o musical Nine e o filme de época The Young Victoria parecem levar uma certa vantagem. Ainda assim, Dr. Parnassus tem um trabalho incrível difícil de ser desprezado. Coco Before Chanel conta com um trabalho elogiado de Catherine Leterrier, e Bright Star com a assinatura da quatro vezes indicada ao Oscar Janet Patterson. Se analisarmos apenas o currículo dos responsáveis pelos figurinos, sem dúvida a queda de braço ficaria entre Colleen Atwood, duas vezes ganhadora do Oscar, e responsável pelos figurinos de Nine; e Sandy Powell, também ganhadora de dois Oscar e responsável pelos figurinos de The Young Victoria. Aposta quase certeira: The Young Victoria. Em teoria, filmes de época sempre tem um certo favoritismo. Minha preferência (até o momento): Nine. Para variar, gostaria que este musical, que acabou perdendo força no meio do caminho até o Oscar, saisse da premiação com algum “carequinha dourado”.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 546 other followers