Celda 211 – Cela 211


Eis aqui um filme adulto, que começa de maneira potente e que facilmente será comparado com Carandiru. Mas Celda 211, o maior vencedor do último Prêmios Goya (considerado o Oscar espanhol), vai muito além da produção de Hector Babenco. No filme de Daniel Monzón não interessa tanto os tipos diferentes que compõe o cenário de uma penitenciária/cadeia. Em Celda 211 estão em jogo valores como fidelidade, justiça, amizade, sem contar uma história criativa que envolve o espectador desde o primeiro minuto e que vai se complicando cada vez mais. Um dos grandes méritos deste filme é o seu roteiro. O outro, um grupo de atores afinado e que se entrega aos seus personagens.

A HISTÓRIA: Com um isqueiro na mão direita e um pedaço de plástico na esquerda, um homem começa a moldar uma ponta. Com ela, o homem se corta e espera, com os braços imersos na água, que sua vida termine o mais rápido possível. Corta a cena. Na véspera de seu primeiro dia de trabalho, Juan Oliver (Alberto Ammann) se apresenta na penitenciária para causar uma boa impressão. Ele tem pressa em saber sobre os procedimentos no local. Oliver acompanha a revista aos presos que estão entrando, conhece os procedimentos da penitenciária e recebe dicas importantes dos guardas Armando Nieto (Fernando Soto) e Germán (Félix Cubero). Mas um acidente acaba colocando Oliver na cela 211, onde mais de um preso morreu. Em meio a uma rebelião, ele faz de tudo para se passar por um preso qualquer e conseguir sobreviver.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Celda 211): O início do filme é um belo cartão-de-visitas do que o espectador verá na sequência. E ainda que as cenas de mutilação que chegam a lembrar os primórdios de Saw não continuem, a tensão no filme chega a ser uma constante. Salvo alguns altos e baixos inevitáveis, claro. Mas no geral, Celda 211 é um filme adulto, tenso, com uma premissa interessantíssima.

Mais do que um filme sobre a vida na prisão, o roteiro de Jorge Guerricaechevarría e do diretor Daniel Monzón, adaptado da obra de Francisco Pérez Gandul, transporta para aquele ambiente naturalmente tenso uma idéia explorada outras vezes pelo cinema: a de como uma situação-limite pode fazer com que uma pessoa se coloque no lugar de outra e mude, com isto, a sua visão da realidade. Celda 211 é, essencialmente, uma história sobre a troca-troca de papéis entre dois homens. Um filme que mostra como somos mais próximos dos nossos opostos do que normalmente gostaríamos de admitir. Ou, como diz certa canção, percebemos como “todo mundo é parecido quando sente dor”.

A primeira grande qualidade deste filme é que ele não perde muito tempo com “firulas”. Celda 211 faz uma rápida apresentação da lógica da penitenciária aonde os fatos irão se suceder e, logo em seguida, parte para a “ruptura” da rotina que alimenta a tantos filmes de ação e suspense. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Gostei muito da idéia de que um homem que não deveria estar naquele local, nem naquela hora, acaba sendo o pivô de todos os acontecimentos que irão tornar o filme denso/tenso. Juan Oliver teve pressa em conhecer a rotina do seu novo local de trabalho e, de forma totalmente inusitada, acabou tendo que se passar por um preso para sobreviver.

A idéia original do filme é apetitosa. Por si só, rende uma trama intrigante. Interessante como a história de Juan Oliver vai se complicando pouco a pouco. E nós seguimos com ele, ao seu lado, como definiu o diretor Daniel Monzón. Escolhendo sempre a narrativa particular, próxima aos personagens, o diretor aproxima o espectador daquela realidade. Nos insere na prisão – e só respiramos um pouco melhor quando passamos a ver o que Juan Oliver desconhece, a intricada rede de interesses que cerca aquela rebelião com reféns importantes: presos políticos do ETA.

Eis aqui um ponto que terá um efeito específico entre o público espanhol: a questão dos terroristas. Só quem viveu na Espanha ou aqueles que acompanham de perto a cultura daquele país para saber como o assunto é delicado – e como ele tomou grande parte das manchetes desde que os socialistas tomaram o poder com Zapatero. O ETA continua sendo um assunto espinhoso, e o que Celda 211 mostra sobre os “cuidados” e os “efeitos” que a tomada de um grupo de terroristas como refém pode causar é bastante realista.

Na verdade, a única forma dos presos liderados pelo perigoso e genial Malamadre (Luis Tosar) conseguirem o que desejam é mantendo a ameaça constante aos terroristas do ETA. Sem eles, e nisto Juan Oliver está certo, o restante dos presos é alvo fácil das unidades de “ação tática” da polícia ou do Exército. O segundo acerto do filme, além daquele de entrar logo na ação, é o de mostrar com naturalidade como Olivier foi ganhando a confiança de Malamadre.

Vacinado, o chefão da rebelião sabe que não pode confiar em ninguém, e que talvez uma “carne fresca” no pedaço possa ser mais confiável do que “aliados” antigos como Apache (Carlos Bardem) ou seu braço direito, Tachuela (Vicente Romero). Quanto mais tempo um preso passou detido, mais facilmente ele pode ter sido corrompido por uns ou outros – sejam eles bandidos ou parte da “lei”. Olivier tem a coragem de dar idéias constantes no processo da rebelião, e seus palpites acertados vão fazendo com que ele receba a confiança de Malamadre e dos demais.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda assim, cá entre nós, é difícil acreditar que ninguém tenha realmente desconfiado dele, seja o meio “doido” Releches (Luis Zahera), que encontra Olivier na cela 211, ou seja algum outro preso com o qual ele tenha se encontrado antes, quando fazia a ronda de reconhecimento no presídio. Mas ok, esquecemos esta parte difícil de acreditar e nos deliciamos com o jogo de cintura que o rapaz acaba tendo junto aos seus “inimigos” e possíveis algozes.

O protagonista está preocupado, essencialmente, com a própria sobrevivência. Mas, também, em ajudar para que a situação tenha uma resolução adequada, preferencialmente sem invasões e mortes. O problema é que o filme não alivia e, diferente do que se ele fosse feito em Hollywood, Celda 211 não está interessada em terminar deixando um sorriso de satisfação nos lábios dos espectadores. Não, muito pelo contrário. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Assim como Oliver tomou a decisão errada ao “visitar seu trabalho” um dia antes do que era necessário, sua esposa, Elena (Marta Etura) escolheu a saída errada para a sua angústia.

Nenhum dos dois, assim como 99,9% dos espanhóis, dos brasileiros ou do povo que for, tem muita idéia do que, na prática, acontece em um presídio – ainda mais em uma situação como a de uma rebelião. Elena tem a má idéia de ir até o local, e daí sim a história dela e do marido vão ladeira abaixo. E sem volta. Mais do que nunca Oliver tem motivos para se sentir familiarizado com os presos – muitos deles também tem histórias de violência contra si ou seus familiares para contar. E quando o “vilão” da história, o guarda violento Utrilla (Antonio Resines) entra no presídio, Olivier consegue a sua vingança – e, ao mesmo tempo, sua sentença de morte.

Impressionante como o personagem e o ator que o interpreta foram, pouco a pouco, mudando de lado. No final das contas, o homem inocente se converteu em assassino, em culpado. E ainda que ele tivesse justificativas, na prática, ele deixou de ser “melhor” que os demais criminosos que o cercavam. Uma alegoria interessante em dois sentidos: na de que é o meio que molda o homem e a de que a oportunidade faz o bandido. Celda 211 joga com estas duas idéias.

Primeiro, sobre a influência do meio. Se Oliver não estivesse preso, cercado por bandidos e na iminência de ser tratado como mais um deles, dificilmente ele teria tomado aquela atitude em relação a Utrilla. Incentivado pelo grupo, ele agiu como outras pessoas do grupo agiriam. Depois, a questão da oportunidade. Se o local fosse outro ou Oliver tivesse tempo para “esfriar a cabeça”, provavelmente o desfecho não teria sido aquele. Quando se junta ambiente e oportunidade, temos um inocente virando culpado. Interessante esta reflexão do filme, que procura tirar o véu que separa estes conceitos ao mostrar que somos muito mais parecidos, seja para o bem ou para o mal, do que normalmente admitimos.

Os atores, em geral, estão fantásticos. Especialmente aqueles que interpretam Malamadre, Juan Oliver e Armando Nieto. Só senti um pouco mais de constância em relação aos personagens secundários. Também achei exagerada a forma com que Elena foi atingida – e, especialmente, a facilidade com que Oliver acabou tendo acesso às imagens. Perto do final, não se encaixou muito bem a “acelerada” das negociações. Mas os pequenos altos e baixos que o filme apresenta não tiram seus méritos, uma bela idéia de roteiro e grande parte de seu desenvolvimento. Uma produção com um olhar diferente sobre uma rebelião, tornando a história mais uma humana sem ser pedante e, o que é fundamental, com muita ação e tensão.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Celda 211 tem se saído muito bem nas premiações nas quais participou. Especialmente no Prêmio Goya deste ano, quando abocanhou oito das impressionantes 16 indicações que recebeu. Celda 211 ficou com os principais prêmios do “Oscar espanhol”: melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor ator, melhor edição, melhor ator revelação, melhor atriz e melhor som. O filme ainda ganhou cinco prêmios do Círculo de Escritores Cinematográficos espanhol, entre outros entregues por diferentes premiações. Até o momento, o filme ganhou 18 prêmios e foi indicado a outros 20. Nada mal.

O filme dirigido por Daniel Monzón estreou em setembro no Festival de Veneza. No mesmo mês ele participou do festival internacional de Toronto. No Brasil ele ainda não tem data definida para estrear.

Celda 211 teria custado aproximadamente US$ 5,7 milhões. Um orçamento bastante enxuto – e que, junto com outros filmes de qualidade recentemente comentados no blog, só comprova que o cinema de qualidade não precisa, necessariamente, de altos orçamentos. Apenas na Espanha o filme teria arrecadado, em 2009, 9 milhões de euros – consagrando-se como uma das maiores bilheterias espanholas e uma das grandes surpresas do ano.

Eu fiquei curiosa para saber aonde o filme tinha sido rodado – não consegui identificar a cidade nas cenas em que Elena, especialmente, aparece andando pelas ruas. Procurando mais informações sobre a produção descobri que ela foi rodada na cidade de Zamora, que pertence a Castilla y León, situada 67 quilômetros ao norte de Salamanca. Interessante. Uma cidade relativamente pequena e pouco conhecida por figurar nas produções do cinema espanhol.

Além dos atores já citados, vale a pena comentar o trabalho de Manuel Morón como Almansa, o primeiro negociador enviado pelo Ministério do Interior para solucionar o impasse no presídio; e Manolo Solo como o diretor do presídio que, por medo da situação fugir do seu controle, toma uma postura de precaução grande parte do tempo.

Na parte técnica do filme, vale citar a trilha sonora de Roque Baños; a direção de fotografia bastante correta e precisa de Carles Gusi; a edição de Cristina Pastor e a edição de som coordenada por Carlos Faruolo.

Celda 211 é o quarto trabalho como diretor do também roteirista Daniel Monzón. Nascido em Palma de Mallorca em 1968, Monzón estreou nos cinemas com o filme El Corazón del Guerrero, no ano 2000. A produção não se saiu muito bem na avalição do público e da crítica. O mesmo aconteceu com seu filme seguinte, El Robo Más Grande Jamás Contado, de 2002. Apenas quatro anos depois, com o filme The Kovak Box (ou La Caja Kovak) Monzón começou a se sair um pouco melhor. Encabeçando o elenco desta última produção estavam nomes conhecidos como Timothy Hutton, Lucía Jiménez e David Kelly.

O roteirista Jorge Guerricaechevarría tem em seu currículo trabalhos muito elogiados e que tiveram uma boa repercussão entre público e crítica. Ele escreveu, entre outros, os roteiros de Carne Trémula, dirigido por Pedro Almodóvar; os sucessos Crimen Ferpecto e The Oxford Murders; além de 16 capítulos da série Plutón B.R.B. Nero que tira sarro de filmes de ficção científica.

Integra o roteiro de Celda 211 uma série de “pecados” do sistema penitenciário e dos homens que são pagos para manter a “ordem” na sociedade. Como temas paralelos à história principal e pessoal, o espectador é apresentado a questões como violência desmedida, covardia (nenhum agente teve a coragem de assumir as suas culpas, nem mesmo com o abandono de Juan Oliver), abuso de autoridade, corrupção. Temas que fazem parte da realidade brasileira, espanhola, e de tantos outros países. Este artigo publicado no jornal El País questiona brevemente a chance que Celda 211 dá para um debate público sobre estes temas na Espanha. Interessante.

Para os interessados em saber mais sobre o filme e seus realizadores, indico algumas entrevistas e reportagens interessantes publicadas no jornal El País (todas em espanhol): esta primeiraesta segunda e esta terceira entrevista com o ator (sempre fantástico) Luis Tosar; esta reportagem sobre os prêmios Goya, pela qual fiquei sabendo que Tosar é namorado de Marta Etura; esta entrevista com o diretor e roteirista Daniel Monzón; e, por fim, esta reportagem que conta os bastidores da produção (em galego).

Em sua entrevista para o El País, Monzón comenta que não vê uma classificação clara para Celda 211 – que poderia ser considerado drama e thriller carcerário ao mesmo tempo. “Se há algo que eu gosto em Celda 211 é que ele está protagonizado por personagens emocionantes e que emocionam”, comenta o autor. Pela matéria também fiquei sabendo que antes de ser cineasta Monzón era jornalista.

Na reportagem dos bastidores do filme fiquei sabendo que Celda 211 é baseado no primeiro livro do escritor Francisco Pérez Gandul – a obra tinha tido seus direitos vendidos para outra produtora antes de ser vendida para a Vaca Films, responsável por Celda 211. Curioso também que os produtores deram logo a história para Luis Tosar que, primeiramente, se interessou pelo personagem de Juan Oliver – mas depois foi convencido de que seu personagem na história deveria ser o de Malamadre.

Segundo a mesma reportagem, Celda 211 foi vendida para 20 países. Agora é esperar a sua estréia no Brasil. Também existem negociações para a história ser refilmada nos Estados Unidos – como não!

Achei interessante também este outro artigo do jornal El País em que seu autor, Miguel Lorente, fala sobre o papel da mãe e do pai na educação dos filhos e na prevenção da violência. Outro tema levantado pelo filme – menos óbvio que os demais – e que rendeu pano para manga na Espanha. A questão vale, especialmente, em socidades tradicionalmente machistas.

Poucos críticos comentaram até agora sobre o filme. Destaco, até o momento, este texto assinado pelo conhecido Carlos Boyero e publicado no jornal El País. Os usuários do site IMDb conferiram a nota 7,9 para o filme – uma avaliação muito boa, especialmente por se tratar de um filme espanhol (que normalmente é pouco valorizado em seu próprio país).

CONCLUSÃO: Uma história criativa sobre a fronteira difusa que separa “mocinhos” e “bandidos” no território de um presídio em rebelião. Em certo ponto, o filme lembra Carandiru, mas logo Celda 211 se mostra superior. Primeiro, porque trabalha uma idéia interessante: a de um guarda tendo que se passar por um preso para sobreviver. Depois, porque a ação vai subindo de tom até que chega a um final realista. Conta muito à favor do filme o seu roteiro, o núcleo de atores principal e, principalmente, a forma com que a história vai se desenvolvendo. De forma muito natural Celda 211 debate a questão do ambiente e da oportunidade como elementos fundamentais para que um criminoso se forme. Também coloca o espectador muito próximo dos personagens, desmistificando estereótipos e revelando como as pessoas podem ser muito parecidas, especialmente quando colocadas em situações-limite. Um filme de ação bem dirigido, envolvente, e que ainda deixa algumas questões importantes no ar. Mereceu os vários prêmios que recebeu até o momento.

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  1. 28 de junho de 2012 às 20:39 | #1

    Olá, tudo bem?
    Achei esse dvd à venda na locadora que frequento. Vez por outra eles tiram de acervo filmes que não são muito locados. Tive um pressentimento de que pudesse ser bom e fiz a pesquisa e achei seu comentário. Vou tentar achá-lo em outra locadora para depois ler sua crítica.
    Abs
    Ingmar

    • 1 de agosto de 2012 às 11:04 | #2

      Oi Ingmar!

      Antes de mais nada, seja bem-vindo por aqui!

      Então, gostei deste filme. Mas não sei se compraria ele para ter em casa… tudo depende se tens uma coleção grande, se o filme está barato… :)

      Mas depois que assistires ao filme, volta aqui para comentar o que achaste dele.

      Obrigada por esta primeira visita e comentário. E volte sempre!

      Abraços e inté!

  1. 5 de outubro de 2010 às 3:39 | #1
  2. 8 de setembro de 2013 às 17:32 | #2

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