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Submarino

24 de julho de 2011 6 comentários

Se tem um sujeito que sabe falar sobre famílias perturbadas e de como mesmo elas são fundamentais para a vida de qualquer pessoa, esse sujeito é o diretor e roteirista Thomas Vinterberg. Com Submarino, mais uma vez, ele nos surpreende com um texto potente, cenas de impacto, drama, dor, redenção e uma história sobre o sentimento que pode perdurar além de uma conjunção de erros. Este não é o melhor filme do diretor dinamarquês mas, ainda assim, não deixa de ser um bom filme. Interessante, em especial, pelo estilo de Vinterberg e pelas ótimas atuações do elenco principal.

A HISTÓRIA: A mão de um bebê está erguida, balançando pelo ar. Até que outra mão, maior e com as unhas sujas, segura a mão do bebê irriquieta. O jovem Nick (Sebastian Bull Sarning) elogia o bebê, enquanto o seu irmão mais novo (Mads Broe Andersen) beija o pequeno pezinho da criança. Os dois estão batizando o menino em uma tenda improvisada. Os irmãos cuidam do menino, já que a mãe deles chega em casa sempre bêbada, apenas para cair na cozinha e agredí-los. Uma certa noite, algo trágico acontece. O tempo passa, e vemos a Nick adulto (Jakob Cedergren), sem perspectivas, vizinho de Sofie (Patricia Schumann). Ele tenta ligar para o irmão, algumas vezes, mas não consegue falar nada. Um dia, enquanto caminha por uma calçada, um homem caído lhe chama pelo nome. É um antigo amigo, Ivan (Morten Rose), que tem problemas para se relacionar com as mulheres. Acompanhamos parte da vida de Nick, primeiro, para depois sabermos o que está acontecendo com o seu irmão mais novo (quando adulto, interpretado por Peter Plaugborg). Eles se distanciaram, perderam contato, mas mantêm elos indeléveis.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Submarino): Estranho, justamente hoje, quando o mundo lamenta a morte de Amy Winehouse, assistir a Submarino. Porque este filme fala de como a vida pode ser dura, pode ser pesada de carregar. Para alguns, Amy não suportou o fardo. Me junto a eles nesta avaliação. É verdade que a vida é feita de alegrias e de tristezas, mas parece que alguns só conseguem enxergar as tristezas pela frente. Quando a dor fala mais forte e as pessoas não conseguem superá-la, tragédias acontecem. Mas a vida também é feita de beleza, de encontros, sorrisos, de belas surpresas. Há quem enxergue na vida uma maldição, enquanto outros a enxergam como uma benção. A diferença entre uma visão e outra faz toda a diferença.

Em Submarino, filme com título sugestivo, os protagonistas vivem em seus próprios mundos, lidando com fantasmas do passado e tentando, passo por passo, fazer o melhor a cada dia. Só que quanto mais eles tentam, mais parece que eles se afundam em histórias complicadas. Mesmo assim, a mensagem permanente é que o laço entre os irmãos é mais forte que as suas tragédias pessoais. E que a família pode ser tanto a origem quanto o fim dos problemas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Agora, não deixa de ser curioso que o os filhos de Mona (Helene Reingaard Neumann) não conseguem superar o exemplo ruim dado pela mãe. Nick passa os dias bebendo e encontrar, em garrafas de cerveja ou de destilado, o consolo que parece não encontrar com as pessoas que o rodeiam. O irmão mais novo dele, curiosamente nunca nominado, é dependente químico. Nenhum adulto conhecido daquela família parece encontrar consolo sem um vício que possa lhes servir de muleta. Uma história que se repete em muitos lares, países e realidades mundo afora.

Mas nem tudo está perdido. Depois de mergulhar no inferno, ser preso e liberto, enfrentando o velório da mãe, Nick parece estar preparado para começar a viver a própria vida sem tanta dor. Ele tenta, ao menos. Ainda que para ele, assim como para o irmão mais novo, seja tão difícil falar dos próprios sentimentos. Uma característica de muitas culturas e pessoas, diga-se. Há muita gente que pode falar horas sobre temas supérfluos, mas que não conseguem sistematizar ou colocar lógica em suas próprias carências, problemas e necessidades. E como este filme de Vinterberg revela, de forma bastante contundente, enquanto não se encontra uma saída, a tendência é mergulhar no abismo, como um submarino.

Gostei da narrativa desenhada por Vinterberg e pelos outros roteiristas do filme, Jonas T. Bengtsson e Tobias Lindholm. Estamos acostumados a narrativas lineares, com histórias intercaladas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas em Submarino, as histórias dos irmãos são simultâneas apenas quando eles estão juntos. Quando estão separados, a escolha do trio de roteiristas foi a de debruçar-se sobre a história de um para, só depois, voltar alguns passos atrás para contar a história do outro. E o interessante é que a história do pai de Martin (Gustav Fischer Kjaerulff) não começa quando termina a de Nick, mas a narrativa “volta no tempo” para que acompanhemos o que aconteceu com o irmão mais novo do protagonista enquanto ele seguia o seu caminho errante. Uma escolha acertada e que resultou em algo bacana. Ainda assim, devo dizer que achei o filme um pouco arrastado. E também acho que a sequência final, que justifica o nome de Martin, era um tanto que desnecessária. O restante do filme teve momentos surpreendentes, interessantes, mas essa explicação já estava subentendida e era previsível. Submarino teria terminado de uma forma muito mais potente com o diálogo final entre Nick e o sobrinho Martin. Mas ok, certamente a explicação final cairá no gosto do público que gosta de tudo bem “mastigadinho”, sem espaço para dúvidas.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O início de Submarino é arrebatador. Pena que ele não continue com aquela veemência durante o restante do tempo. Quando a produção foca as lentes para os irmãos adultos, Submarino perde um pouco da força. Ainda assim, o filme se mantem interessante especialmente pelo talento dos seus atores principais. Jakob Cedergren e Peter Plaugborg dão um show de interpretação como os irmãos que lutam para sobreviver da melhor forma possível. E o garoto que interpreta a Martin também está muito bem. Eles seguram a produção, mesmo quando ela perde em potência. Quando Submarino volta a acelerar, ele não consegue, exatamente, emergir rápido para a superfície. Chega um pouco sem força. Ainda assim, ele vale a pena pelo estilo de Vinterberg.

Falando no estilo do diretor, ele segue com a aura do Dogma 95. Um estilo limpo, que acompanha os atores de perto, não poupa na intensidade das cenas e tenta ser o mais realista/documental possível. Em Submarino ele segue esta levada, mas com um estilo um pouco mais relaxado e menos “teórico” que em outras produções. O roteiro, com diálogos fortes, mas naturais, e tentando desvelar os meandros de uma família que tenta ser a mais realista possível.

Além da direção suave de Vinterberg, outros aspectos técnicos se destacam neste filme. Como a direção de fotografia de Charlotte Bruus Christensen, a trilha sonora bem equilibrada e inspirada de Kristian Eidnes Andersen e a edição da dupla Andri Steinn e Valdís Óskarsdóttir.

Os atores principais, que interpretam os personagens dos irmãos adultos, carregam o filme nas costas. Mas os meninos que interpretam os dois quando crianças e também o ator que interpreta a Martin fazem um belo trabalho. Sem eles, o filme teria sido bem menos interessante.

Submarino estreou em fevereiro de 2010 no Festival de Berlim. Depois, a produção passou por outros cinco festivais. Nesta trajetória, ganhou oito prêmios e foi indicado a outros 18. Entre os que levou para casa, destaque para os prêmios de melhor atriz coadjuvante para Patricia Schumann no Bodil Awards e melhor ator coadjuvante para Peter Plaugborg no Robert Festival.

Para quem ficou interessado em saber onde Submarino foi filmado, ele foi totalmente rodado em Copenhagen.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme. Para os padrões do site, esta é uma nota bastante boa. No Rotten Tomatoes, até agora, não foi linkado nenhum texto dos críticos que normalmente tem os seus trabalhos indicados pelo site.

Depois desta série de filmes “pesadinhos”, vou me lançar em uma comédia da próxima vez. Só para dar uma quebra na sequência de tragédias. :)

CONCLUSÃO: A vida está cheia de erros, e do preço caro que uma escolha equivocada pode nos cobrar. Em Submarino, dois irmãos tentam fazer a sua vida da melhor maneira possível, mas parecem ser incapazes de carregar um fardo pesado demais, vindo do passado. Não basta esquecer ou perdoar, é preciso fazer melhor. Eles tentam, mas nem sempre conseguem. E o que eles fazem em cada situação que dá errado é o que vai definir o capítulo seguinte de suas vidas. Depois de sobreviverem a uma mãe ausente, alcoólatra e à uma infância de escassez, os irmãos se distanciam. Para, adultos, voltarem a se encontrar em um local em que eles não poderiam ter previsto. Mesmo com tanta dor e tragédia na vida deles, sempre existe esperança e a possibilidade de algo diferente e melhor acontecer no final. Um filme bem feito, que ignora a narrativa linear e simultânea de dois personagens para optar pela história fragmentada de cada um. Mais um belo e envolvente trabalho do diretor e roteirista Thomas Vinterberg. Ele surpreende o espectador com alguns reviravoltas/momentos decisivos na história, e não alivia no drama. Os atores seguram a história, que acaba se mostrando um pouco arrastada, mas que termina de maneira interessante _ ainda que a “revelação final” tenha sido bastante previsível. O filme que começou muito bem, terminou com um pouco menos de força.

Io Sono l’amore – I Am Love – Um Sonho de Amor

23 de julho de 2011 4 comentários

Há filmes que inovam na história, com roteiros originais, criativos, diálogos interessantes ou que apenas conseguem romper com as expectativas do espectador. Inovam no conteúdo. Outros, conseguem o mesmo feito, mas na forma, nos ângulos diferenciados para as câmeras escolhidos pelo diretor, na eleição de cenários e vestuários perfeitos/diferenciados, na seleção e na montagem de cenas que fogem dos padrões. Io Sono l’amore é deste segundo tipo. Logo de cara, chama a atenção o apreço estético do diretor e roteirista Luca Guadagnino. Ele se esmera para nos apresentar um filme sem grandes inovações narrativas, mas com muita criatividade estética. Deleite-se com as imagens desta produção que, para tornar tudo mais interessante, conta ainda com um elenco afinado e inspirado. O melhor do espírito, da tradição e do drama italiano apresentado em um pacote forrado de classe.

A HISTÓRIA: Neve sobre monumentos, prédios, ruas, praças, fachadas, caminhos pisados, parques. Estamos em Milão, nos conta algumas letras que ocupam toda a tela. Em uma casa exuberante, uma empregada e a sua patroa, Emma Recchi (Tilda Swinton), arrumam as louças e a prataria. A governanta Ida Marangon (Maria Paiato) avisa a Emma que o filho dela, Edoardo Jr. (Flavio Parenti) vai trazer uma convidada para o jantar. Emma redistribui os convidados na mesa, colocando a convidada do filho entre ele e Delfina (Martina Codecasa). Mais tarde, o marido de Emma, Tancredi (Pippo Delbono) pergunta se Edoardo já voltou. A governanta responde que não, e ele fica sabendo que o filho perdeu em uma corrida. Edoardo chega e cumprimenta a todos os empregados, antes de encontrar a mãe. Para a família, o jantar será muito especial, porque celebra o aniversário do patriarca, pai de Tancredi, Edoardo Senior (Gabriele Ferzetti). Durante a refeição, ele avisa a todos que deixará a empresa da família para o filho e para um de seus netos, mais especificamente Edoardo. O clima fica estranho, e a tensão aumenta quando bate à porta Antonio Biscaglia (Eduardo Gabbriellini), cozinheiro que havia vencido a Edoardo. Os dois começam a desenvolver uma amizade muito forte, e Emma acaba se aproximando cada vez mais de Antonio conforme o clima vai esquentando.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Io Sono l’amore): A diferença deste filme em relação a outros similares está nos detalhes. No uso de alguns ângulos menos óbvios para as câmeras, no ritmo cadenciado e fluente da narrativa e das filmagens, na escolha perfeita dos objetos e das roupas utilizadas em cada cena. O diretor e autor da história que rendeu o roteiro deste filme, o siciliano Luca Guadagnino, está atento às minúcias. E justamente é essa atenção que torna Io Sono l’amore interessante.

Porque a história, meus amigos, ainda que bem construída, não é exatamente uma inovação. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Descontado o apreço estético do filme, o que sobra? Um roteiro que fala sobre como as aparências enganam, como as pessoas mudam junto com as estações, e como nunca é tarde para que busquemos a felicidade ou para desvelarmos que tipo de família e relações temos ao nosso redor. Alguns personagens traem, seja nas relações amorosas, familiares ou nos negócios, enquanto outros descobrem as suas próprias personalidades. É um filme, essencialmente, sobre descobertas. Várias outras produções já trataram sobre isso, especialmente sobre as revelações familiares. Mas Io Sono l’amore não se abate por contar um estilo de história já explorada anteriormente.

Pelo contrário. Guadagnino escreve, junto com Barbara Alberti, Ivan Cotroneo e Walter Fasano um roteiro cheio de convicção. Eles sabem o que querem, em cada detalhe, e escrevem em um estilo de permanente “crescente”. Como em uma ópera, em que o drama vai assumindo contornos cada vez mais graves, até “el grand finale”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas desde os primeiros minutos, nem tanto pela neve e o clima gélido que ela pressupõe, mas principalmente pelas relações tão formais e “encenadas”, que eu fiquei na expectativa pelo que viria de errado. Sim, porque por traz de tanta perfeição, sempre existe algo de podre, ou de muito trágico que apenas está esperando o momento de eclodir. Achei interessante como este clima de “quase-tragédia” perpassa quase toda a produção, criando uma espécie de interesse permanente e/ou curiosidade no espectador.

Os roteiristas foram muito inteligentes em equilibrar os diferentes elementos que compõe uma tradicional família italiana. Os Recchi não apenas tem dinheiro, mas tem nome, status e tradição. Ainda assim, um dos herdeiros do patriarca foi excêntrico e ousado o bastante para buscar na Rússia a sua mulher. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E daí temos pela frente a personagem principal e mais interessante desta trama: a mulher que abandonou uma situação de pobreza em um país distante mas que, no fundo, nunca deixou de levar aquela antiga realidade consigo. Encontramos Emma em um momento em que ela está apenas esperando a deixa, a desculpa exata para se livrar daquela vida de aparências. Tudo que ela deseja é a oportunidade de viver com os pés no chão, de maneira mais simples, e voltar a amar. E ela encontra isso na figura do inicialmente enigmático e aparentemente errático Antonio.

Outro aspecto que eu achei interessante, nesta produção, é que ela deixa algumas pontas soltas, aqui e ali. Por exemplo, a relação entre Antonio e Edoardo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Sei que os italianos desenvolvem amizades apaixonantes com bastante rapidez. Mas a noite em que Antonio vai levar um bolo para Edoardo, os roteiristas parecem lançar, com astúcia, dúvidas no ar. Afinal, Antonio está aproveitando a posição de Edoardo para se dar bem? Eles já se conheciam antes da competição ou Antonio conhecia a Emma? Ou apenas Edoardo e Antonio desenvolvem uma amizade rápida, porque tem muita afinidade, e Antonio conseguiu fascinar Emma logo na primeira visita? Por um tempo, e não apenas porque Betta (Alba Rohrwacher) se descobre apaixonada por uma linda mulher, mas também por essas dúvidas que ficam no ar, cheguei a pensar se Edoardo e Antonio não teriam tido também algum romance. Mas com o desfecho do filme como ele acabou acontecendo, aparentemente, isso não aconteceu. Eles só eram grandes amigos.

Mas como eu falava antes, Io Sono l’amore se destaca de outros filmes pelos detalhes. Além dos cuidados técnicos, dos quais vou falar depois, esta produção ganha muitos pontos em cada cena em que Guadagnino revela o seu próprio apreço estético. Esse olhar diferenciado do diretor pode ser visto não apenas nas cenas externas, que revelam a beleza de paisagens de cidades e de campos da Itália mas, especialmente, nas sequências que acompanham a protagonista de ângulos diferenciados. Como quando ela percorre um corredor e a câmera desliza, sem cortes, para focar a escada e acompanhá-la em uma descida quase geométrica. Ou quando Edoardo chama a mãe para apresentar-lhe Antonio, e a câmera mostra o contraste da mulher de família caminhando elegantemente em um tapete com marcas de outros passos e que parece transportar-lhe para uma quadra de saibro – ou umas areias mais escuras. Esses ângulos são fascinantes e, me arrisco a dizer, o que há de melhor nesta produção.

Por boa parte da história, somos levados pelas mãos pelo fascinante mundo das descobertas de duas mulheres. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mãe e filha redescobrem – ou o certo seria descobrem pela primeira vez? – o que é o amor. E ambas, cada uma de sua forma, transgridem as normas sociais em que vivem. Betta deixa para trás um namorado que tem nome na alta sociedade após apaixonar-se pela bela amiga Angaharad (Laura Huston). Emma descobre a verdade sem querer, ao encontrar um CD que Betta deixou, com um bilhete contando de sua nova descoberta, no casaco do irmão Edoardo. A coragem de Betta estimula a mãe que, mais tarde, ouviria da própria filha aquela história. Por isso mesmo, no final do filme, Betta fica tão emocionada ao ver a corrida desesperada em busca da liberdade empreendida pela mãe. Ela se identifica. Ou melhor, uma se identifica com a outra – por isso o olhar de cumplicidade inesquecível e emocionado.

Como uma legítima história italiana – porque os italianos sabem viver a vida -, Io Sono l’amore fala de amor e de tragédia. Porque a vida é feita destes elementos. De amor, de felicidade, de morte, de sofrimento e de drama. Tudo está ali, em um pacote bem feito. Um outro detalhe também me agradou neste filme, além do esmero estético: o destaque que a história sempre dá para os empregados da família Recchi. Ida é um dos nomes mais repetidos no início do filme. E ela tem um desempenho crucial no final da história. (SPOILER – não leia… bem, você está cansado/a de saber). Ela percebe, junto com Betta, que Edoardo não estava feliz. E, aparentemente, a tristeza do rapaz não passava apenas pela “morte” da memória do avô, que havia confiado nele e que tinha sido traído pelo próprio filho. Ele parecia triste pela vida que, inevitavelmente, ele teria que seguir a partir dali – com a noiva Eva Ugolini (Diane Fleri) grávida. Aqueles olhos claros pareciam esconder alguma outra tristeza, inominável e gigantesca. Por isso mesmo o final exacerbado se justificou. Porque parecia uma urgência, para quase todos daquela família – e a governanta Ida incluída – que a felicidade fosse procurada com pressa, sofreguidão, antes que a vida esvanecesse de uma vez.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Todos os atores que contracenam neste filme estão muito bem. Mas Tilda Swinton tem uma interpretação de arrepiar. Se existia alguma dúvida sobre o talento desta inglesa, ela terminou com este filme. Sem dúvida ela tem uma personagem difícil de interpretar nas mãos, mas desempenha com perfeição todos os conflitos e nuances de uma Emma dividida entre a mãe de família que adotou a Itália e teve que enterrar a sua Rússia bem fundo na alma daquela que está sedenta por deixar a sua verdadeira personalidade transbordar.

Io Sono l’amore é um destes raros filmes em que todos os aspectos do cinema estão casados com perfeição. Tudo é feito com esmero e é valorizado na produção – diferente de outros filmes, que podem deixar o figurino ou a direção de arte em segundo plano. Aqui não. Desde a linda e cheia de esmero direção de fotografia do francês Yorick Le Saux até a edição atenta do italiano Walter Fasano, passando pelos figurinos propícios de Antonella Cannarozzi, pela ótima trilha sonora de John Adams, pelos lindos design de produção de Francesca Balestra Di Mottola e decoração de set de Monica Sironi, tudo funciona como um relógio suíço inspirado neste filme. Todos merecem ser citados, porque fazem um grande trabalho.

Além da atriz Tilda Swinton, merecem aplausos pelo desempenho acima da média neste filme a sempre ótima Alba Rohrwacher, que aparece pouco, mas rouba a cena cada vez que surge frente às lentes; Flavio Parenti que, a exemplo de Swinton, tem um personagem cheio de nuances para interpretar; e o fascinante Edoardo Gabbriellini, que convence com seu personagem aparentemente frágil e tímido, mas muito seguro de si e provocante. Os quatro se destacam entre os atores principais. Dos atores coadjuvantes, mas que tem um certo destaque e que não foram citados ainda, vale comentar os trabalhos de Marisa Berenson como Allegra Recchi, mulher do patriarca Edoardo Senior; e Waris Ahluwalia como Shai Kubelkian, que acaba comprando a empresa da família e parece trazer um “mau agouro” para eles.

A genial Tilda Swinton aprendeu italiano e russo para interpretar, com mais fidelidade, a personagem central desta história. E outra curiosidade sobre esta produção: a primeira versão do filme tinha 210 minutos de duração – ou seja, três horas e meia. Depois é que o diretor conseguiu deixá-la com duas horas. Realmente, três horas e meia seria demais. O filme ficou com o tempo justo, antes de cansar. :)

Io Sono l’amore teria custado US$ 10 milhões. Pelo cuidado que o filme tem com os detalhes, eu diria que foi um dinheiro bem gastado. Mas nas bilheterias ele não foi muito bem. Até o final de novembro de 2010, quando saiu de cartaz no circuito comercial dos Estados Unidos, ele havia acumulado pouco mais de US$ 5 milhões. No restante do mundo, o filme chegou a superar a marca de US$ 10,4 milhões. Ainda assim, pelo quanto ele custou e pelo desempenho nas bilheterias dos Estados Unidos, não podemos considerá-lo um grande sucesso.

Esta produção estreou no Marrocos e no Festival de Veneza em setembro de 2009. Io Sono l’amore participou, no total, de 22 festivais pelo mundo afora. Nesta trajetória, ele ganhou cinco prêmios e foi indicado a outros 16. Entre os que recebeu, estão o de melhor filme no Festival Internacional de Cinema de Boulder; os de melhor atriz para Tilda Swinton no festival de cinema de Dublin e pela avaliação do Sindicato Nacional de Jornalistas de Cinema da Itália; assim como os prêmios de melhor filme de língua estrangeira segundo o Círculo de Críticos de Cinema da Flórida e a Sociedade de Críticos de Cinema de San Diego. O filme foi indicado, ainda, ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira deste ano, mas perdeu a estatueta para Haevnen. No Oscar, ele concorreu na categoria Melhor Figurino.

Aos curiosos de plantão que ficaram, como eu, curiosos para saber onde o filme foi rodado, aí vai a lista de cidades utilizadas como locação: Londres, no Reino Unido, e Dolceacqua, Milão e San Remo, as três na Itália.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para o filme. Achei pouco, especialmente pelo esmero de seus realizados com os detalhes. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos: eles dedicaram 95 críticas positivas e 24 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 80% – e uma nota média de 7,1.

Buscando mais informações sobre o diretor e roteirista Luca Guadagnino, descobri que ele está dirigindo o seu 14º filme este ano. E o mais interessante é que a maioria de sua filmografia é composta por documentários. Das 14 produções dirigidas por ele, oito são documentários, incluindo na lista dois curtas e um documentário em video. Io Sono l’amore é, sem dúvida, a ficção mais respeitada dirigida por ele até o momento.

Só buscando o trailer e o assistindo, após publicar este post, é que me lembrei de um trecho interessante do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Io Sono l’amore). Quando Emma comenta que foi para a Itália e aprendeu a ser uma italiana. O curioso é que você não aprende uma outra cultura, verdadeiramente, se não passa a soltar-se completamente naquele ambiente, ousando viver um pouco como aquelas pessoas de um lugar que, antes, você não conhecia. Sim, porque Emma aprende a falar italiano, a se comportar como se espera de mulheres italianas de uma família tradicional, mas apenas com a comida servida por Antonio e com a simplicidade dele, com aquela vivacidade que apenas as pessoas comuns de um país sabem demonstrar, que ela aprendeu a como ser um pouco italiana pra valer. E, mais que isso, soube ser ela mesma, um pouco russa, um pouco italiana. O amor sempre faz essas coisas com as pessoas… tiram as suas amarras, máscaras e armaduras, libertando-as para serem o que quiserem ser. E viva o amor, pois. :)

CONCLUSÃO: Quanto a maior a sensação de perfeição, maior o risco das aparências estarem enganando os sentidos. Os cenários cheios de neve não passam apenas a ideia de tempos gelados, mas também uma monotonia que pode ser vista nos jantares da alta sociedade. O frio do inverno e a formalidade dos gestos, palavras e relações dá início à trama de Io Sono l’amore. Mas como nenhuma aparência fundada apenas em imagem forjada dura para sempre, assim como o inverno, logo as formalidades saem de cena e as pessoas começam a revelar o que elas mais desejam ou anseiam. Claro que nem todas. Io Sono l’amore se aproxima de uma família da alta sociedade para revelar como a felicidade não depende de beleza, recursos fartos ou boas maneiras, mas principalmente de ousadia e de escolhas. E mesmo quando todas as janelas e portas parecem se abrir e que a família analisada sinalize apenas motivos para comemorar, a vida ensina que a paixão dos sentimentos pode tanto gerar tragédias quanto novos amores e felicidade. O que frutifica de cada cenário, de cada estação e de cada relação vai depender das escolhas que cada um faz, e de como cada pessoa aproveita as lições aprendidas. Um filme sincero, com uma aposta marcante na estética, no bom uso da fotografia, da música e das ótimas atuações de seu elenco. E para não fugir da tradição, o roteiro vai ganhando corpo com o passar do tempo, assumindo uma ode de ópera com “grand finale” perto do fim. Vale a experiência porque é muito bem acabado e tem momentos de pura beleza.

Lola

18 de julho de 2011 Deixe um comentário

Há tempos eu tenho vontade de assistir a um filme do diretor Brillante Mendoza. Quem acompanha alguns dos principais festivais de cinema espalhados pelo mundo – além da fronteira de Hollywood – sabe que este filipino tem sido um nome de destaque nos anos 2000. Pois bem, estreei o meu conhecimento sobre o cinema de Mendoza com este Lola. Um filme delicado e potente, ao mesmo tempo. Que apresenta uma realidade impressionante e uma dignidade que faz pensar. Lola significa avó. E são duas avós que protagonizam esta história sobre a busca pela justiça e pela sobrevivência. Para os que não temem fugir do feijão com arroz apresentado pelo cinema dos Estados Unidos e que aceitam uma rápida adaptação a um filme com um ritmo próprio, é uma pedida bem interessante.

A HISTÓRIA: Uma senhora de idade tira uma nota da carteira e compra uma vela. Ela guarda o troco, algumas moedas, e sai caminhando ao lado do neto, Jay Jay (Bobby Jerome Go). Eles caminham devagar, e entram em uma igreja. Mas não ficam muito tempo ali. O lugar para aquela vela não é um altar. Eles seguem caminhando pela calçada, passando por vendedores de todos os tipos e também por muitos marginalizados. Começa a chover, e a ventar, e a avó Serpa (Anita Linda) luta para manter o guarda-chuva aberto enquanto, com a ajuda de Jay Jay, tenta fazer a vela que trouxe ficar acesa perto de uma ponte. As crianças que estão ali perguntam o que eles estão fazendo, e Jay Jay explica que o tio dele foi morto naquele local no dia anterior. A avó se emociona, mas recobra as energias para, após prestar a sua homenagem, dirigir-se com dificuldade até a funerária onde é apresentada para diferentes tipos de caixão. A partir daí, ela começa uma longa peregrinação para conseguir dinheiro para enterrar ao neto, e também para buscar justiça pelo seu assassinato. Na outra ponta desta tragédia familiar, está a avó Puring (Rustica Carpio), que tenta libertar o neto Mateo (Ketchup Eusebio), acusado de ter cometido o crime.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lola): As primeiras características que me chamaram a atenção neste filme foram o ritmo naturalista e reflexivo da direção de Mendoza e a violência da realidade que ele resolveu retratar. O tom cinza não se revelou apenas nos dias de tempestade, mas também na dura realidade das famílias retratadas. A violência da história não precisou ser mostrada pela reprodução da cena do crime, por exemplo. A maior violência estava plasmada ao redor daquelas vidas, na dura realidade de um clima desfavorável, nas ruas e nos bairros com escassez de tudo. A falta de esperança e a impossibilidade de conquistar a justiça são as maiores violências que as pessoas podem sofrer.

Pouco a pouco e sem pirotecnia o filme vai mostrando ao que veio. Como é bom assistir a filmes assim, que não forçam a barra e nem fazem discursos. Mas que vão adentrando nas histórias das pessoas, vão revelando e desvelando realidades que muitos não conhecem e, de quebra, fazem quem os assistem repensar os próprios valores, julgamentos e leituras da realidade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Francamente, acho que a grande lição de Lola é a reflexão sobre o conceito de justiça. Por metade do filme, pelo menos, concordamos que o justo é que Mateo pague pelo crime que ele cometeu – ainda que, cá entre nós, nunca fique totalmente claro se foi ele mesmo que matou ao neto da avó Sepa. Afinal, alguém que rouba e mata outra pessoa não pode ficar impune. E inicialmente, parece infame – ainda que compreensível – que a avó Puring tente comprar a família da vítima. Mas quando percebemos a pobreza extrema que tanto uma avó quanto outra compartilham e, especialmente, quando elas sentam em uma mesa e começam a falar de suas doenças e fragilidades, o esquadro muda de lugar. Será justiça, realmente, a avó Puring morrer sabendo que o neto está perdido? Não seria muito melhor para a avó Sepa ter um pouco mais de conforto e conseguir dar uma vida um pouco melhor para a própria família, mesmo que por um curto período de tempo?

A noção de justiça é algo vital. Sociedades são baseadas em leis que buscam dar os mesmos direitos e deveres para todos os seus integrantes. Este é o princípio básico do Direito e, consequentemente, da busca por justiça. Mas Lola nos ajuda a refletir sobre isso. É possível ter justiça ou cobrar este conceito em uma realidade onde sobram injustiças por todos os lados? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Há cenas de cortar o coração neste filme. Algumas delas, verdadeiramente emocionantes. A sequência em que a avó Sepa vai passando, de casa em casa, pedindo uma “contribuição” para os vizinhos, é de apertar o coração. O mesmo acontece – ainda que seja mais um alívio, ainda que triste – com o “milagre” dos peixes que aparecem no casebre deles durante o velório. O retorno da avó Puring da visita aos familiares que moram longe, em uma busca “discreta” por ajuda, também é tocante. Enfim, realidades duras e que existem aos montes por este vasto mundo. Mas verdades tão humanas que fazem pessoas como nós, tão “distantes” daquilo tudo, refletirem sobre conceitos de justiça e de perdão.

Mesmo que a realidade de Lola pareça bastante distante do nosso dia a dia, impossível não pensar que temos algumas semelhanças ao nosso redor. E não apenas ao pensar nas periferias das grandes cidades, onde parte da população é relegada a locais sem condições adequadas para uma vida digna, mas também ao lembrar de cidades do interior onde falta um pouco de tudo. Interessante que ao assistirmos a uma realidade nas Filipinas, pensamos também em comunidades próximas. Especialmente porque o filme não esconde os diferentes tipos de pessoas e a reação que estes indivíduos tem frente ao que acontece à estas duas e bravas avós protagonistas. Há muita generosidade no caminho das duas famílias retratadas, mas há também desprezo, falta de paciência, indiferença. Ainda assim, as duas avós dão um show de sobrevivência, assumindo para si mesmas a responsabilidade de manter as suas próprias casas/famílias. Sem dúvida um grande exemplo para todos nós, independente da idade ou da condição de vida que temos.

Gostei muito da direção de Mendoza e do roteiro de Linda Casimiro. O texto dela acerta em cheio ao explorar com cuidado, em primeiro lugar, a história da perda da avó Serpa e depois, pouco a pouco, ir desvelando a história da família da avó Puring. Claro que esta escolha foi planejada, para nos levar a mudança de foco que comentei anteriormente. Inteligente. E faz o filme ir ganhando em ritmo e em interesse com o passar do tempo. Respeito o ritmo da produção, mas acho que ela demorou um pouco demais para engrenar. Por outro lado, o filme acerta em cheio em colocar as cidades, os seus e cores em primeiro plano.

Há música nesta produção, mas em momentos muito específicos, e para ressaltar trechos dramáticos. No restante do tempo, Mendoza e equipe colocam em evidência os sons da cidade, mais que os diálogos dos personagens. Aliás, não se surpreenda com sequencias longas de caminhada e vários minutos sem um diálogo sendo proferido. Neste momento, os realizadores estão nos fazendo adentrar nas ruas e casas filipinas. Devemos conhecê-las antes de ouvir o que as pessoas que por ali vivem tem a nos falar. Mendoza e Casimiro nos convidam, desta forma, a entrarmos na “pele” daquelas avós pequenas e gigantes, ao mesmo tempo. E o melhor de tudo é que eles conseguem. Vale a pena a jornada, especialmente se você não se importa em sair de seu próprio corpo, de sua própria realidade, e aprender com o que outros mais experientes tem a nos ensinar. E um dos grandes ensinamentos deste filme é que a justiça é relativa, e que a vida segue, mesmo após uma grande perda ou uma grande injustiça. E como ela segue, talvez o melhor que tenhamos para fazer é perdoar e aceitar a oportunidade que tivermos para fazer do resto desta vida um tempo um pouco mais justo ou, pelo menos, digno.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Comentei antes que o filme deixa pelo menos uma dúvida no ar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, Mateo era culpado ou não? Aparentemente, sim. Afinal, quem é inocente, não responde a acusações injustas com o silêncio. Além disso, a avó dele, justificou o crime dizendo que ele havia sido agredido verbalmente. Então, aparentemente, ele cometeu o crime do qual estava sendo acusado. Também dificilmente a avó dele passaria por tantos sacrifícios se ele pudesse ser inocente, não é mesmo? Ainda assim, não deixa de ser curioso como o filme não mostra uma confissão dele ou tira esta dúvida definitivamente do ar. O que apenas reforça a ideia de que o conceito de justiça é relativo.

Aliás, falando em justiça… achei muito curioso que nas Filipinas um crime só é julgado se houver um “reclamante”. Ou seja: se por alguma razão uma pessoa não quiser seguir com uma queixa, simplesmente a polícia ignora um crime? É isso o que o filme deixa a entender. Eu já havia lido várias matérias falando de casos estranhos naquele país, inclusive de prisões injustificadas, mas isso de um julgamento só seguir se houver alguém reclamando – e pagando por isso -, achei incrível.

Lola é um filme de duas mulheres. Anita Linda e Rustica Carpio roubam a cena e são as protagonistas indiscutíveis. A interpretação das duas é tocante, e merecedora de aplausos. Além delas, vale a pena citar o ótimo trabalho da atriz Tanya Gomez, que interpreta a Ditas, filha de uma das protagonistas.

Para quem teve curiosidade de saber onde Lola foi filmado, esta produção foi totalmente rodada na ilha de Luzon, a mais populosa e importante do país. Segundo o IMDb, Mendoza rodou em várias cidades daquela ilha, entre elas Mandaluyong, Taguig e Malabon. Fiquei impressionada com as condições de vida das famílias que moram nas palafitas mostradas no filme.

Merece atenção neste filme dois aspectos técnicos bem realizados: a direção de fotografia de Odyssey Flores e a trilha sonora de Teresa Barrozo. Quando li o nome do diretor de fotografia, fiquei pensando se ele teria sido originado pelo videogame Odyssey… :) Ou vai que é um nome típico das Filipinas. Me chamou a atenção também que temos um ator com o nome Ketchup e um outro chamado Benjie. Interessantes.

Lola estreou no Festival de Veneza em setembro de 2009. De lá para cá, o filme participou de outros 16 festivais, incluindo os de Viena, Dubai, Hong Kong, Tribeca, Sydney e Melbourne. Em sua trajetória, o filme acumulou 15 prêmios, além de ter sido indicado a outros 18. No Oscar filipino, Lola ganhou apenas o prêmio de melhor direção de fotografia. No festival de Dubai ele venceu como melhor filme. Mas nenhum dos prêmios que recebeu foi ganho em algum dos festivais de maior relevância do mercado.

O cineasta Brillante Mendoza, de 51 anos, é natural de San Fernando, nas Filipinas. Até o momento, ele recebeu 29 prêmios e foi indicado a outros 110. Uma marca impressionante para um diretor que fez carreira em um país sem tanta tradição no cinema mundial. Diretor de 11 filmes, entre eles um curta e um documentário, Mendoza ficou mais conhecido pelas produções Serbis e Kinatay. Não assisti a nenhum deles, mas já ouvi falar que as outras produções do diretor sempre tinham uma boa carga sexual. Algo bem diferente do que ele mostra em Lola. Talvez as pessoas acostumadas com o estilo ousado do diretor sintam a diferença com este novo filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para Lola. Mesmo premiado e dirigido pelo conhecido – mais nos festivais do que pelo grande público – diretor Brillante Mendoza, Lola tem apenas duas críticas linkadas no Rotten Tomatoes. As duas foram positivas. Mas por ter um número tão baixo de críticas listadas, o site ainda não publicou o seu famoso “tomatômetro”.

Indicado ao prêmio de melhor filme no Festival de Veneza de 2009, Lola perdeu o Leão de Ouro para Lebanon.

CONCLUSÃO: Primeiro, o choque de uma realidade dura. Não apenas pelo clima, pela violência ou pela pobreza. Mas especialmente pela falta de perspectivas. Depois, a emocionante luta de duas avós em manter as suas próprias famílias tentando, ao máximo, manter as próprias dignidades. Lola é um destes filmes potentes, mas que não faz discursos. Somos convidados e conduzidos, simplesmente, a mergulhar nas realidades propostas pelo diretor Brillante Mendoza. E vamos, pouco a pouco, rompendo nossas certezas e nosso “senso de justiça” ao conhecer, sem pressa, as realidades injustas que separam as famílias da vítima e do culpado. Made in Filipinas, com co-produção da França, este é um filme que foge dos padrões do cinema norte-americano. Ou mesmo inglês. Ele está muito mais para o cinema alternativo, feito com a identidade do país de origem. E viva a esse tipo de cinema! Que consegue comunicar com muita propriedade a realidade de seu próprio país e no ritmo adequado. Fiquei impressionada com a história, com as duas intérpretes principais e, em especial, com a realidade de parte das Filipinas. Sem dúvida um retrato interessante e pouco visto por quem não mora naqueles locais. O filme vale tanto como peça de cinema rara, por todos os elementos comentados, como pelo talento de seu realizador e pela realidade por ele revelada. De quebra, nos faz pensar sobre a escassez e a injustiça que esta falta de perspectivas causa – muito mais do que a violência pura e simples. Até porque a violência nunca é simples – por mais que as estatísticas queiram nos ensinar isso. Atrás de qualquer história de perda sempre há muitas nuances não reveladas. Vale a pena refletir e acompanhar o trabalho deste realizador.

Super 8

17 de julho de 2011 6 comentários

Um grupo de crianças aventureiras como protagonista funciona no cinema desde The Goonies – e inclusive antes deste clássico da Sessão da Tarde. Resgatando o melhor deste estilo de filme, o diretor J.J. Abrams une em Super 8 a ousadia de um grupo de crianças com os desafios enfrentados pelos adultos que não sabem lidar com o que não entendem. Mesmo com pouca originalidade em tela, Abrams consegue convencer o espectador com um ritmo bacana, uma ótima condução dos atores e um texto onde há poucas sobras. Um filme interessante, ainda que ele perca um pouco da força ao fazer espectadores com uma “certa bagagem” passarem tempo demais lembrando de outros filmes.

A HISTÓRIA: Um funcionário da companhia Lillian Steel troca o letreiro em que aparecem os dias em que a empresa ficou sem um acidente. Depois de 784 dias sem nenhum acontecimento trágico, um acidente mata a mãe de Joe Lamb (Joel Courtney). O garoto está do lado de fora da casa onde a mãe está sendo velada, em um balanço, sobre a neve, apegado a uma joia que ela usava. Dentro da casa, a senhora Kaznyk (Jessica Tuck) olha pela janela e comenta que está preocupada com Joe, porque a mãe era tudo para ele. O marido dela (Joel McKinnon Miller) comenta que o pai do garoto, o policial Jackson (Kyle Chandler) vai conseguir superar a perda e cuidar do garoto, no que a esposa responde que, até agora, ele não precisou ser um pai. Os amigos de Joe comentam sobre a forma com que a mãe do garoto morreu, e Charles (Riley Griffiths) diz que acha que ele não o ajudará mais a fazer o seu filme, que fala de mortos vivos. Pouco depois, Louis Dainard (Ron Eldard) chega ao velório, mas é expulso por Jackson e levado em uma viatura embora. Apesar da perda, Joe vai continuar trabalhando com os amigos para fazer o filme de Charles. Em um dia de gravação, a turma assisti a um acidente de trem e começa a acompanhar, de perto, como estranhos acontecimentos começam a pipocar naquela pequena cidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Super 8): Pegue o criador da série-fenômeno Lost e de mais algumas outras séries e produções e junte com o “mago” do cinema Steven Spielberg. Pelo perfil de cada um, o que você diria que poderia surgir desta união? Se você pensou em um filme que fala sobre o fascínio, a força e a criatividade de um grupo de crianças, que tivesse uma boa dose de extraterrestres e/ou sobrenatural e mais uma boa carga de aventura, drama e emoção pueril, bingo! Acertaste na mosca.

O diretor e roteirista J.J. Abrams contribui com a sua própria homenagem ao fazer cinema e seu gosto por extraterrestres enquanto Spielberg parece “levitar” sobre Super 8 com a repetida mensagem da passagem da infância para a vida adulta. Porque este filme, entre outras coisas, é isso: um conto sobre o amadurecimento. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Logo de cara, somos lançados para o cenário de desolação da família Lamb. E até o último minuto do filme, todos os desafios por que passam os personagens desta história, parecem orbitar ao redor de uma mesma ideia: a de que é preciso amadurecer, superar a perda para seguir em frente. Essa é a essência da história, mas não é a única ideia desta produção. Outro conceito importante é que, assim como Joe precisa aceitar as diferenças entre os pais e aceitar que a mãe foi para não voltar, os “humanos” devem aprender, se preparar e amadurecer na aceitação dos extraterrestres – que, historicamente, simbolizam o “diferente”, o “desconhecido”, aquilo que é estranho e diferente e que precisa ser aceitado se quisermos considerar-nos uma “raça madura”.

Há muito de Spielberg neste filme. Não sei quanto o produtor executivo influenciou nas ideias de Abrams, mas de fato é possível encontrar vários elementos da identidade de Spielberg como realizador em Super 8. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, o extraterrestre não é um vilão, pura e simplesmente. Se ele faz mal para as pessoas e destrói muito do que vê pela frente não é por maldade, ou por represália ao que fizeram com ele, mas são tentativas dele de voltar para casa e de se defender dos humanos violentos. Impossível não lembrar de E.T. ou, este sim, com roteiro e direção de Spielberg, Close Encounters of the Third Kind. Além disso, há muito de The Goonies, que teve roteiro, produção e edição de Spielberg, neste Super 8. Sem contar o velho espírito de “passagem da vida infantil para a adulta”, que também marca a carreira de Spielberg, estar nesta produção.

Mas além do estilo Spielberg e dos aspectos que eu comentei antes, o que faz Super 8 ser realmente interessante é algo que ocorre “em paralelo” e que integra o espírito da produção desde o início. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Com Super 8, Abrams faz a sua homenagem particular ao fazer cinema. Os garotos que protagonizam este filme fascinam não apenas pelo cuidado com a produção sobre mortos vivos capitaneada por Charles, mas especialmente pelo que produzir aquele filme significa para eles. A produção de Charles une os garotos, tornando-os amigos. Aproxima Joe da garota pela qual ele sempre foi fascinado – e, vamos saber bem depois, chegar perto dela também era um dos grandes propósitos de Charles. O cinema, desta forma, não apenas serve como estímulo à amizade, mas também à descoberta do amor, para a superação de uma perda e para a descoberta de talentos e de uma força individual e de grupo antes desconhecidos. O cinema é a mola propulsora da história e o elo de ligação entre os garotos do filme. Nada mais Spielberg. :)

Francamente, achei as partes de “passagem da vida infantil para a adulta” e da “necessária compreensão do diferente através da simbólica figura dos extraterrestres” previsíveis. Ainda assim, elas não se tornaram maçantes por causa, justamente, do caldo proposto pela homenagem ao fazer cinema. E também, temos que admitir, pela ótima atuação dos dois atores principais desta produção: Joel Courtney – que me lembrou muito o protagonista de The Goonies, Sean Astin – e a ótima e roubadora de cenas Elle Fanning. Eles conduzem o filme e emocionam, tirando da recriação de ideias batidas em outras produções o sabor de “requentadas”. Junto com outros dos atores jovens da produção, eles são os grandes responsáveis por tornar o filme bacana, divertido, envolvente. Ainda que, francamente, mesmo com a ótima direção com ritmo de Abrams, eles não consigam a mágica de impedir uma e outra “baixada” de interesse da produção. Especialmente quando começam os “discursos” sobre a real motivação do extraterrestre. Mas como esta parte está perto do final, não chega a estragar o filme. E mesmo que as cenas finais sejam o supra-sumo da previsibilidade e do lugar-comum, fomos bem conduzidos até ali. Então é possível ignorar os pequenos tropeços próximos do “the end”, como a técnica burra de captura do extraterrestre e toda a sequência final envolvendo o jovem protagonista e a “ameaça”.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Impressionante essa menina Elle Fanning. Aos 13 anos de idade ela já se firmou como uma das grandes atrizes de sua geração. Até agora, ela participou de impressionantes 33 filmes e séries de TV. E não lembro de tê-la vista mal em nenhuma das produções em que a vi. Mais uma vez ela rouba a cena neste filme, ao lado de Joel Courtney – que, aos 15 anos, estréia em uma produção de respeito, como ator, neste filme. Diz em sua biografia que, antes de estrear como ator, o garoto integrava e competia em um time de natação. Pela estreia em Super 8, arrisco a dizer que ele poderá ser uma bela revelação nos próximos anos. E não por acaso, o filme preferido dele é E.T. Tudo a ver, não?

Agora, se temos ótimos exemplos de atuação por um lado, por outro é possível observar alguns atores “perdido” ou bastante “ausentes”. E não é porque eles tem menos espaço no roteiro, mas porque cada aparição deles é carente de emoção e/ou entrega. O exemplo maior, em Super 8, é do ator Kyle Chandler, que interpreta ao pai de Joe. Não é porque ele vive um pai “ausente” e/ou despreparado que ele deve parecer ausente como intérprete. Parece que ele está o tempo todo “anestesiado” em cena. Uma pena, realmente. E mesmo Ron Eldard, que interpreta ao pai de Alice, parece “despreparado” para o papel. Ambos fizeram um trabalho bastante abaixo do nível que a garotada que aparece na produção conseguiu alcançar.

Como um filme de J.J. Abrams com produção de Steven Spielberg manda, Super 8 é muito bem acabado tecnicamente. A direção de fotografia de Larry Fong é fundamental, especialmente porque grande parte das cenas são feitas de noite. A edição da dupla Maryann Brandon e Mary Jo Markey ajudam a fazer com que o filme tenha o ritmo adequado, com o cuidado nos detalhes. Pela característica da produção, ganha destaque também a equipe responsável pela maquiagem, liderada por Bonni Flowers, Annabelle MacNeal e Rick Pour. Mas o maior destaque deve ser dado para a trilha sonora de Michael Giacchino. Ele faz um grande trabalho, imprimindo o tom dramático e/ou de aventura nos momentos exatos, ajudando o filme a ter o ritmo adequado em cada momento. Um trabalho inspirado e envolvente. Vale lembrar que Giacchino ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora no ano passado pelo trabalho que fez com Up.

São os atores juvenis que se destacam na produção. E isso se explica inclusive pelo mote do roteiro, voltado para este grupo – estrategicamente colocando os adultos em “segundo plano”. Além dos atores já citados, merecem ser mencionados Ryan Lee como Cary, o garoto fascinado por fogos de artifícios e explosões; Gabriel Basso como Martin, o “herói” do filme que está sendo rodado por Charles; Zach Mills como Preston, o coadjuvante/figurante/apoio da mesma produção; Glynn Turman como o esquisito e misterioso professor e ex-cientista Dr. Woodward, que causa o acidente de trem; Noah Emmerich como Nelec, o chefe dos militares que fazem um cerco à cidade em busca do extraterrestres sumido; e Brett Rice como o sheriff Pruitt.

Não parece, mas Super 8 consumiu impressionantes US$ 50 milhões. Certamente grande parte desta pequena fortuna foi gasta nos efeitos especiais e nas explosões realistas que costumam consumir grande parte dos orçamentos deste tipo de produção de Hollywood. Até o momento, o filme foi muito bem nas bilheterias dos Estados Unidos. Em pouco mais de um mês em cartaz, Super 8 havia arrecadado pouco mais de US$ 118 milhões – até o dia 10 de julho. Ajudou nesta cifra o fato do filme ter estreado no dia 12 de junho em nada mais, nada menos que 3.379 cinemas. Um placar para grandes produções, que tem um estúdio como Paramount por trás, sem contar nomes como Spielberg e Abrams atraindo os espectadores – e o dinheiro.

Interessante que esta produção teve uma série de nomes falsos divulgados nos Estados Unidos. Entre eles, Acadia, Darlings e Wickham.

Para quem teve curiosidade para saber onde Super 8 foi filmado, esta produção foi totalmente rodada em Los Angeles, na cidade de Weirton, no estado de West Virginia, com cenas também no restaurante DeStefano’s, em Follansbee e no aeroporto de Ohio.

Super 8 é um balaio de referências a outras produções do cinema. Entre outras, interessante destacar a “homenagem” que Abrams faz para o “mestre dos filmes de terror” George A. Romero. Além do estilo do diretor ficar evidente nos produtos utilizados por Joe, o cartaz de um dos filmes de Romero aparece no quarto do pré-adolescente.

As notas de produção revelam que Spielberg teria sido visto, muitas vezes, no set de gravação. O que explicaria um bocado da influência dele no “espírito” desta produção. Impossível não lembrar de E.T. e The Goonies neste Super 8. Uma prova disso é que o próprio Abrams comenta que esta produção é uma homenagem aos filmes de Spielberg da década de 1970, todos citados neste texto. Acredito que não é por acaso que a história se passa em 1979, justamente no final da década mencionada.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para Super 8. Uma nota muito boa, levando em conta a média registrada no site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos: publicaram 173 críticas positivas e 42 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 80% – e uma nota média de 7,4. Logo que eu terminei de assistir ao filme, pensei na nota 8 como uma avaliação justa. Pelo jeito outras pessoas tiveram o mesmo patamar como referência. :)

Não vou citar trechos inteiros de várias das críticas linkadas no Rotten Tomatoes, mas destaco a linha central dos textos de alguns críticos renomados. Para David Denby, do New Yorker, “Spielberg e Abrams são alvos inocentes de suas próprias ironias”. Por outro lado, Tom Long, do Detroit News, ressaltou os “bons e velhos tempos” comentando: “Lembram dos bons velhos tempos? Esse é um filme que você esperava assistir em um sábado à tarde nos bons e velhos tempos”. Devo dizer que concordo com ambos. Ou melhor, concordo completamente com o que escreveu Dana Stevens, da Slate: “Este pode não ser um clássico infantil que vá durar por gerações, mas ele deve proporcionar uma tarde divertida em um multiplex para crianças da idade de Joe”. Além de concordar com ela de que Super 8 não deverá ter a validade de gerações, a exemplo dos filmes que o inspiraram – especialmente E.T. e The Goonies -, devo dizer que eu acho que este filme de Abrams tem a capacidade de tornar a tarde de muitas pessoas, inclusive de outras idades além daquela do personagem de Joe, divertida.

Não deixa de ser irônico que Super 8 registre, agora, uma nota superior ao clássico The Goonies no IMDb. Ou as pessoas não fizeram a adequada avaliação “temporal” de cada filme – tempo histórico, levando em conta também os avanços tecnológicos e de argumento do cinema -, ou estão supervalorizando o filme de Abrams. Porque, sem dúvida, The Goonies e E.T. são muito mais relevantes para a história do cinema do que Super 8. Ironias das novas avaliações dos espectadores, sem dúvida.

Muito bacana a série de cartazes produzidos para este filme. Alguns são mais conceituais, outros, resgatam ideias de filmes anteriores de Spielberg. Fiquei em dúvida entre dois deles, para decidir qual publicar por aqui. Decidi pelo que abre este post por motivos óbvios… ele lembra demais um filme anterior do produtor e que é homenageado pelo diretor/roteirista de Super 8. Mas há pelo menos um outro, com Alice assistindo a um vagão de trem voando, muito bem feito e bacana. Vale a pena dar uma conferida nas outras opções de cartazes.

CONCLUSÃO: Um filme que rende honras ao cinema, ou melhor, ao ofício e encantamento de fazer filmes, ao mesmo tempo em que resgata a fantasia do desconhecido encarnada em extraterrestres. Mais que isso, Super 8 é a clássica história da peregrinação de um herói por desafios que o levam da inocência, plasmada pela infância, até a vida adulta, representada pela aceitação da perda/morte. Se por um lado esta produção faz um compêndio de várias ideias anteriormente exploradas pelo cinema, por outro ela mostra que o fascínio e o encantamento continuam presentes quando um diretor e sua equipe encontram o ritmo e o tom certos. J.J. Abrams não apresenta um filme surpreendente ou com ideias inovadoras, mas consegue resgatar a essência do cinema em uma produção que conduz os espectadores pela história com facilidade. Mesmo sem ser original, Super 8 é um filme que prende, que homenageia o “fazer cinema” e as descobertas da infância, o primeiro amor e as pazes necessárias entre as pessoas que formam uma família. Boa diversão, apesar de não ser excepcional.

Jack Goes Boating – Vejo Você no Próximo Verão

10 de julho de 2011 11 comentários

Ah, que diferença faz um texto bem escrito! Um filme simples, para variar. Que não complica o que não precisa ser complicado. E que, com muita sensibilidade, sequências perfeitas, simplicidade, um ótimo roteiro, atores afinados e uma trilha sonora impecável, mostra como um filme pode ser delicioso. Jack Goes Boating conquista o espectador da mesma forma com que o seu protagonista luta para vencer desafios e para conquistar a própria felicidade. Com direção e uma interpretação impecável de Philip Seymour Hoffman, é destes filmes que mostra, por A + B, qual é a grande graça do amor.

A HISTÓRIA: Deitado na cama, com as mãos cruzadas sobre o peito, Jack (Philip Seymour Hoffman) parece mergulhado em reflexões profundas. Depois, sentado em uma das limousines da empresa de seu tio, Frank (Richard Petrocelli), ele coloca um reggae para relaxar. Neste momento, ele acerta com o amigo e parceiro de trabalho, Clyde (John Ortiz) para conhecer a Connie (Amy Ryan). Ela começou há pouco a trabalhar com a mulher de Clyde, Lucy (Daphne Rubin-Vega). Confiante que este é o momento de começar um relacionamento pra valer, Jack vai investir em Connie, encarando diferentes desafios para que eles dêem certo. Paralelamente, o casamento de Clyde e Lucy passa por uma de suas piores crises.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Jack Goes Boating): Com tantas histórias de amor contadas pelo cinema, como tratar de um romance sem parecer repetitivo? Bem, uma das formas mais óbvias é pegar um casal totalmente fora dos padrões e contar a sua história. É basicamente isso que o ator e diretor Philip Seymour Hoffman faz com Jack Goes Boating. Mas não é apenas isso que ele faz.

Como escrevi anteriormente na crítica de Gigante, outro filme romântico que foge dos padrões, é muito bom quando um roteiro nos surpreende positivamente com uma história nada óbvia. Mas não basta isso para que uma produção seja excepcional. É importante também que ela vá direto ao ponto, não enrole. Que seja simples, concisa, mas nem por isso menos sensível. Isso vale tanto para as linhas do roteiro, para os diálogos entre os atores, como também para a condução da trama, para as cenas filmadas. Jack Goes Boating consegue aliar tudo isso.

Esta é uma linda história de amor. Que como a vida mesma, não está inerte aos problemas, aos sustos e ao drama. Existe medo, alguma dose de violência e loucura nesta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas mais que isso, existe o comprometimento. A determinação de Jack e Connie para apaixonarem-se. O que apenas reforça uma teoria que eu tenho há muito tempo: algumas vezes, tão ou mais importante que ter sintonia com outra pessoa, é a vontade que você e esta outra pessoa tem para ficarem encantados um com o outro. Porque não existem pessoas perfeitas. Isso Jack Goes Boating deixa muito claro. O que existe são pessoas que concordam em ficarem juntas, em dedicarem-se uma a outra porque, juntas, elas são melhores do que separadas, isoladas. É isso, nada mais, nada menos.

Agora, quantos filmes conseguiram falar isso e de forma tão leve, tão despretensiosa e bonita? Poucos, muito poucos. Além de ter essa ideia central, Jack Goes Boating tem outro diferencial que me deixou, devo admitir, encantada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A forma com que o roteirista Robert Glaudini, autor também da peça teatral que originou este filme, revela sem receio as “feridas” e dilemas que os dois personagens principais devem curar/enfrentar antes de conseguirem ser felizes juntos. E mais que isso, o esforço verdadeiramente belo de Jack e Connie para enfrentar esses “demônios”, medos e traumas com uma única certeza: que era preciso vencê-los para que eles conseguissem o que queriam. Nada menos que ser felizes. E que belo o esforço dos dois para isso. Especialmente os desafios de Jack que, após soltar duas ideias para Connie, sentiu-se “obrigado” a aprender a nadar e a cozinhar para conquistá-la.

Ah, vamos e venhamos, há algo mais lindo no amor do que uma pessoa se esforçar para conquistar a outra? E não com mentiras, máscaras ou simulações, mas com um verdadeiro esforço para ser melhor, para superar-se e para aprender coisas novas. Essa é a essência deste filme, e uma mensagem que pode servir de incentivo para muitas pessoas que talvez fujam do “padrão” de beleza atual. Porque nenhum dos personagens de Jack Goes Boating pode ser considerado um modelo de beleza. E, ainda assim, eles são belíssimos. Porque o que interessa, no fim das contas – e vou ser bem lugar-comum agora – não é a superfície, mas o que as pessoas fazem, como elas atuam, de que forma elas percebem os outros e se posicionam frente à vida. Todo aquele pacote que verdadeiramente dá significado a um indivíduo e o diferencia dos outros.

Bastante interessante, também, o proposital momento distinto que vivem os dois casais de protagonistas desta história. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Aparentemente, Clyde e Lucy eram experientes no amor, sabiam muito mais sobre relacionamentos que os “solteirões” Jack e Connie. Pela ótica da sociedade, os solteirões é que são os “estranhos”, talvez até sentimentalmente problemáticos. Só que eles, mesmo com várias razões para preservarem os seus respectivos traumas – Jack por fugir dos padrões de beleza, Connie pelos repetidos abusos pelos quais passou -, enfrentaram os próprios demônios para começarem uma nova relação, sabendo que ela será feita de muitos desafios. Mas optaram por amar e por lutar por um aprendizado conjunto. Clyde e Lucy, por outro lado, tão experientes no amor, não conseguiram atingir a maturidade no relacionamento. Os dois se enxergavam como pessoas que poderiam dar conselhos para os amigos “despreparados” até que, no final das contas, quem poderia dar lição para eles era justamente Jack e Connie.

Talvez uma das grandes mensagens do filme é que para uma relação dar certo, mais que qualquer outra coisa, é preciso que as pessoas queiram que ela dê certo. É necessário ter fé no relacionamento, dedicar-se para que as coisas funcionem. Isso vale muito mais do que afinidade de signos, idade, semelhanças de classe social, educação ou o que for. Ficar fascinado por alguém e dedicar-se a ser bom e bacana para aquela pessoa é o que faz a diferença. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Há uma cena específica, em Jack Goes Boating, que eu tenho certeza que pode ter deixado muita gente com “as orelhas em pé”. Aquela em que Jack pergunta para Connie o que ela quer em um homem e ela faz a mesma pergunta para ele. Há quem possa argumentar que isso é bobagem, que ninguém vai mudar por causa do que a outra pessoa quer. Mas realmente o que cada um deles falou é algo absurdo? O que nós queremos de outra pessoa é algo tão esquemático que não vai respeitar a individualidade de quem a gente gosta? Não, acho que não. Mas o gesto deles é o que importa: quantos de nós já fizemos essa pergunta para quem gostamos? A preocupação de Jack e de Connie tem total fundamento porque, ao saberem claramente sobre a expectativa do outro, eles vão tentar suprí-la, mas sem perderem as suas próprias características. E caso a expectativa seja absurda, nada melhor do que saber sobre ela logo de cara para, se for o caso, pular fora do barco antes que ele afunde.

Alguém que olhar com displicência para esse filme pode achá-lo simples demais, talvez até um pouco “bobo”. Mas se você percebê-lo com um pouco mais de atenção, vai notar a inteligência do roteiro. Jack Goes Boating mostra que é possível ser genial sendo simples. E que, aliás, esse é o melhor caminho. Porque tenho certeza que este filme poderá ser assistido por pessoas de qualquer idade e que elas, não importa de onde são ou o que fizeram da vida, não terão dificuldade de entender a essência da história. Isso sim é uma peça de arte. Porque a arte, verdadeira, tem essa característica de universalidade. Além disso, sei que um filme está bem acima da média quando eu tenho dificuldade de escolher apenas uma sequência ou uma parte do roteiro como favorita. Nesta produção há várias partes que eu poderia selecionar. Mas há uma, em especial, que me deixou encantada. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Todas as sequências em que Jack planeja o que vai fazer, repete mentalmente as suas ações futuras, em busca da perfeição, são excepcionais. Mas aquela em que dá braçadas sobre a passarela que passa por cima de uma avenida movimentada de carros é especialmente bela. De arrepiar.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Só um grande ator pode saber exatamente o que interessa ou o que pode sobrar em um filme. Jack Goes Boating tem a duração exata e faz cada minuto da produção ser deliciado pelos espectadores. Isso porque Philip Seymour Hoffman preocupou-se, e isso fica evidente na produção, com cada cena. Nenhum diálogo ou imagem está sobrando. Não há gorduras para cortar. O que apenas destaca o ótimo roteiro de Robert Glaudini, a direção de Hoffman e a super competente edição de Brian A. Kates.

O filme começa a ganhar alma e corpo naquele primeiro encontro entre Jack e Connie. A conversa é absurda. Mas matematicamente desenhada para mostrar a “fobia” social dos personagens que estão tentando sair das suas respectivas zonas de conforto – e de isolamento. Seja o desabafo de Connie, seja a paciência infinita de Jack – e sua forma de responder sem responder nada do que ela está dizendo -, estes elementos refletem com uma precisão espantosa e simultânea a “situação das coisas” da mesma forma com que revela o esforço deles para alterar este quadro. Lindo. Depois, claro, o filme só vai crescendo em relação aos diálogos. Tão bacana ver o quanto as pessoas podem prestar a atenção no que as outras estão falando, e não apenas perfilar uma série de frases vazias e/ou forjadas para criar uma impressão – muita vezes falsa.

Logo no início, achei fantástica a trilha sonora deste filme. Palmas para a dupla Grizzly Bear e Evan Lurie. Como deveria acontecer sempre no cinema, em Jack Goes Boating a trilha sonora compõe a história e ajuda a contá-la. A música vira parte da “alma” da produção. Representa, neste caso, não apenas o gosto musical do protagonista, mas um estilo de vida que Jack escolheu adotar. Claro que a música acaba rendendo “detalhes” cômicos, como os “rastas” que o personagem adota lá pelas tantas. Mas se todos nós somos “mutantes”, estamos sempre nos recriando conforme avançamos na vida, por que ele não pode assumir uma postura que ele acha interessante e dominá-la em certa altura da vida? Achei genial. Até porque reforça outro conceito que eu há tempos acredito: que nós somos e seremos aquilo que quisermos. Porque somos produtos de muitas coisas mas, especialmente, das escolhas que nós mesmos fazemos.

Muito bacana também, e merece aplausos, a direção de fotografia de W. Mott Hupfel III. Pelas lentes dele, acompanhamos o melhor das interpretações dos fabulosos atores em cena. Hupfel III exprime a vivacidade da história, está atento a todos os detalhes. Junto com a direção de Hoffman, destaca o trabalho dos atores e a beleza de cada cena. Um grande trabalho.

Falando em atores, tiro o meu chapéu para o quarteto que lidera a narrativa. Todos estão muito bem. Tenho dificuldade de destacar um nome. Claro que Hoffman sempre faz um trabalho acima da média e se destaca. Até porque ele é o protagonista. Mas achei igualmente estupendas as interpretações de John Ortiz, Amy Ryan (especialmente) e de Daphne Rubin-Vega. Todos se entregam e exprimem com veracidade cada diálogo do roteiro. Mais palmas. Além deles, vale citar o bom trabalho dos coadjuvantes Thomas McCarthy como Dr. Bob e Salvatore Inzerillo em uma rápida aparição como Federic/Cannoli.

Curioso, mas eu acho que eu fiquei mais empolgada com esse filme do que a média das pessoas que o assistiram. Digo isso porque os usuários do site IMDb deram apenas a nota 6,4 para a produção. E os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes também não foram muito além disso: eles dedicaram 56 críticas positivas e 28 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 67% – e uma nota média de 6,4. Mas pelo menos críticos respeitados como Tom Long, Lisa Kennedy, Roger Moore e J.R. Jones aprovaram o filme. Não estou sozinha. :) Ainda assim, eu acho que é bom alertar as pessoas que estão lendo esse texto e que ainda não viram ao filme que, talvez, vocês devam pensar que apenas eu me empolguei com ele. hehehehehe

E uma curiosidade sobre a produção: antes de protagonizar e dirigir este filme, Philip Seymour Hoffman havia interpretado o mesmo papel no teatro, na peça original. Sinal que ele gostou tanto do projeto que decidiu “eternizá-lo” para o cinema. Bacana.

Em relação às bilheterias, Jack Goes Boating conseguiu um resultado bastante baixo nos Estados Unidos. Entre setembro e novembro do ano passado, quando o filme ficou em cartaz, ele conseguiu arrecadar pouco mais de US$ 538,8 mil nas bilheterias. Muito pouco para os padrões de Hollywood – e em uma produção envolvendo um nome conhecido como o de Hoffman.

Jack Goes Boating estrou em janeiro de 2010 no Festival de Sundance. Depois, a produção passou por outros seis festivais, incluindo os de Toronto, Tokyo, Turin e Dubai. Nesta trajetória, ele não ganhou nenhum prêmio. Foi indicado a quatro, um no Prêmio Gotham e a outros três no Independent Spirit, mas não embolsou nenhum deles. Talvez os críticos e o público tenham achado ele “simples” demais para ser digno a prêmios.

Para quem ficou curioso, como eu, para saber onde a produção foi filmada, Jack Goes Boating foi inteiramente rodado em Nova York.

Ah, e vale comentar: este filme marca a estreia na direção do super premiado ator Philip Seymour Hoffman. Depois de estrelar 54 outras produções, o ator resolveu interpretar o protagonista e dirigir este filme. Espero que ele se aventure mais vezes na direção porque ele leva jeito.

CONCLUSÃO: No primeiro diálogo complicado, engraçado e complexo entre os protagonistas, fica claro que Jack Goes Boating não é um filme comum. Esqueça os diálogos prontos, as saídas frequentes para os problemas expostos pelos roteiros. Aqui há invenção. Aliando grandes tiradas, um permanente e eficaz equilíbrio entre humor e drama, uma inusitada carga sexual/sensual e um olhar sensível para os sentimentos dos principais personagens, este é um filme que fala sobre escolhas. Sobre o quanto mágico pode ser quando as pessoas se permitem. Quando elas tomam a decisão de amar e se entregam a isso, mesmo com todas as dificuldades que uma relação pode significar. Porque apesar de ser uma comédia romântica bastante diferente dos padrões, Jack Goes Boating não ignora os problemas e revela apenas a beleza do amor. Não. Pelo contrário, este filme torna muito evidente como uma relação só perdura com o investimento de cada um dos envolvidos cotidianamente. É preciso esforçar-se. Mas também relaxar, entregar-se. Um filme lindo, inspirador. E, como a nota mesmo sugere, altamente recomendável.

Biutiful

9 de julho de 2011 8 comentários

Um grande diretor, um ator sempre acima da média e uma Barcelona que poucos conhecem. Biutiful mistura estes três elementos em um drama com toques sobrenaturais, reflexão sociológica ligeira, dureza argumentativa e um leve toque de esperança. No melhor estilo “a vida como ela é”, o diretor Alejandro González Iñarritu presta homenagem aos antepassados com esta produção que busca, de forma bastante inusitada, destacar a importância dos laços familiares e das origens que cada um de nós possui. Sem dúvida um filme diferente, que retrata uma Espanha que não é vista pelos turistas, mas por aqueles que convivem diariamente com diferentes formas de exploração nos bairros e subúrbios de cidades como Barcelona. Vale pela curiosidade e por uma ou outra reflexão, muito mais que por um resultado final realmente arrebatador ou instigante.

A HISTÓRIA: Uma mão diminuta mexe em um anel que ocupa todo o dedo mínimo da mão de um homem. A voz de uma menina pergunta para aquele homem se o anel é de verdade, e ele responde que sim, que a joia foi um presente do pai para a mãe dele. Ela pergunta porque ele está com o anel, e ele responde que é porque o avô da menina deu a joia para a mãe dele antes de sair da Espanha. Depois disso, a mãe dele, que estava grávida, nunca mais teria visto o marido. A menina então pede para colocar o anel no dedo, e ele deixa, antes dela comentar que a mãe sempre usava o objeto no dedo anelar e que afirmava que a joia era de mentira. Corta. Em um bosque cheio de neve, uma coruja aparece estirada sobre o cenário branco. A voz de Uxbal (Javier Bardem) segue contando para a filha, Ana (Hanaa Bouchaib), que a mãe da garota nunca ouviu aquele som, o de mar. Depois destas cenas, passamos a acompanhar a vida de Uxbal e a sua luta para criar Ana e Mateo (Guillermo Estrella), os filhos que ele teve com a instável Marambra (Maricel Álvarez). Faz parte do cotidiano de Uxbal, além da educação e da busca do sustento dos filhos, negociações com imigrantes ilegais e policiais, tratativas para a venda de um espaço no cemitério onde foi sepultado o pai dele e a relação muito próxima que este espanhol tem com a morte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Biutiful): Curioso que Biutiful sofre, como outros filmes que concorreram ao Oscar deste ano, com um certo problema de “amarra” argumentativa. A exemplo do que aconteceu com Haevnen, que arrebatou o prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira, com este filme de González Iñarritu se percebe uma junção de histórias amarradas de forma meio displicente e/ou forçada como tentativa de montar um quadro de realidades complexas. Algumas vezes essa fórmula pode dar certo, como ocorreu anteriormente com Short Cuts, Magnolia, Babel e outras produções, mas isso não funcionou tão bem com Biutiful e Haevnen.

Certo, não é difícil entender que o diretor mexicano e talentoso Alejandro González Iñarritu não queria, com Biutiful, apenas contar um drama humano. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Se torna evidente que ele queria transcender da história da proximidade da morte de Uxbal e tudo que essa “trajetória” significou para o personagem e retratar também a doença de uma sociedade em que as pessoas são tratadas como antigamente, em castas muito bem definidas. Biutiful trata, desta forma, não apenas da doença física de uma pessoa, mas da sua enfermidade moral e, junto com ela, da doença de um coletivo.

Beleza. Isso nós podemos entender e achar, talvez, interessante. A intenção é boa. Mas francamente, todas as histórias exploradas pela produção se mostram necessárias? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Francamente, eu acho que não. Como aconteceu com Haevnen, Biutiful sofre com excessos. Os dois filmes teriam sido bem mais interessantes se eles tivessem escolhido o caminho da simplicidade. Não eram necessárias tantas histórias paralelas. Para que, exatamente, explorar tanto a fragilidade da personagem de Marambra ou a sua relação com Tito (Eduard Fernández)? Ou porque debruçar-se sobre a história de infidelidade de Hai (Cheng Tai Shen)?

A razão deve ser a mesma de quando um jornalista tenta contar um pouco mais a história de uma pessoa que foi vítima de um acidente, além do óbvio ululante de contar a história do que aconteceu: tornar aquele fato menos impessoal e mais “humano”. Certo, a razão está clara. Mas sempre é preciso pensar se essa “humanização” da história terá o efeito desejado. Faz diferença, realmente, o que Hai faz longe da vista dos empregados e da família? Interessa, muito, que Lili (Lang Sofia Lin) fosse a babá dos filhos de Uxbal nas horas vagas? Talvez apenas para tornar a culpa do protagonista ainda maior. Mas esse fato, propriamente, não “aprofundou” muito a personagem chinesa ou tornou ela muito diferente dos demais imigrantes de sua etnia que são retratados na produção.

Então para que gastar tanto do tempo do filme traçando estas questões? Não teria sido mais interessante aprofundar em alguns outros aspectos da história? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Por exemplo, eu acharia mais interessante sabermos mais sobre o passado de Uxbal, o que aconteceu com ele e com Marambra além do que é sugerido – de que ela, por ser bipolar, tenha passado por tratamentos, sem contar a dependência química. Mas e ele, o que ele fez até ali? Há quanto tempo ele vivia de explorar a fragilidade de outras pessoas – sejam elas imigrantes ilegais ou pessoas que perderam algum ente querido. Aliás, quando e como ele descobriu a “vocação” para lidar com os mortos?

A ótima atriz Ana Wagener é pouco explorada na história como a personagem de Bea, uma medium que é clara em dizer que o dom que eles tem não deve ser utilizado para conseguir dinheiro. Mas esta personagem, por exemplo, que é mais importante na vida do protagonista do que outros que aparecem no filme, tem pouco de sua história explicada. Então a regra de “aprofundar nos dramas humanos” não vale para todos. Na verdade, é usada de maneira bastante desigual – e, volto a repetir, de uma forma um pouco confusa, sem uma real motivação ou mesmo contribuição para que a história se torne mais interessante. Outro personagem que tem um pouco de sua história/perfil explorado, mas sem grande contribuição para o filme, é o do policial Zanc (Rubén Ochandiano).

Bem, se nem todos os personagens e a exploração de seus dramas se justifica como algo que contribua para a história se tornar mais densa ou interessante, isso são falhas do roteiro assinado por Iñarritu, Armando Bo e Nicolás Giacobone. Por outro lado, os temas propostos pela produção se mostram interessantes – ainda que eles sejam explorados de forma um pouco confusa. (SPOILER) Pela ótica dos roteiristas, todos são infiéis, de alguma forma. Algumas vezes, sexualmente – como é o caso de Marambra e Hai. Outra vezes, moralmente – como ocorre com Uxbal, o policial Zanc, o chefão dos esquemas de exploração, inclusive o uso de mão de obra ilegal na construção civil Mendoza (Karra Elejalde), entre outros. A impressão é que todos estão corrompidos, de alguma forma, e que apenas a morte pode trazer algum reconforto. Ainda assim, Uxbal quer manter-se vivo, especialmente porque ele tem medo de ser esquecido – e de não viver o que gostaria de viver com os filhos.

Sem dúvida o peso desta perspectiva torna os dias do protagonista bastante doloridos. Mas mesmo com tanta desgraça, exploração e infidelidade, Biutiful mostra pelo menos algo interessante: o elo que une as diferentes gerações de uma família, e de como nos aproximamos muito mais dos nossos antepassados quando refletimos, com um pouco mais de tempo, sobre nossos próprios sonhos, características e herdeiros. O antigo e o novo se aproxima, desta forma. E torna cada indivíduo mais completo. Esta talvez seja a ideia mais interessante de Biutiful, e a que consegue ser melhor explorada por seus realizadores. Outras questões, como a “crítica à sociedade que explora”, poderia ter sido melhor trabalhada.

Falando nisso, claro que todo o roteiro de Biutiful é construído para que os espectadores simpatizem e se solidarizem – para não dizer que sintam pena – com o personagem de Uxbal. (SPOILER). Mas francamente, acho bastante difícil não indignar-se com ele. Afinal, ele explora as pessoas até o final, capturando até o futuro de Ige (Diaryatou Daff), tornando as escolhas dela quase impossíveis. Injusto. Mais uma exploração feita pelo protagonista – dentre outras tantas. Ok, alguém pode dizer que todos nós somos humanos e, por isso, erramos. Mas quanto mais uma pessoa conhece sobre as coisas – e no caso de Uxbal, ele tinha bastante conhecimento sobre a vida e a morte, sobre certo e errado -, maior a responsabilidade dela ao escolher caminhos equivocados. Claro que o perdão está aí para redimir a todos nós, mas nem por isso é de se bater palma para o que assistimos no filme. A busca pelo caminho do bem é cotidiana, e sempre que nos afastamos dele, nos aproximamos mais das sombras que tanto pertubavam Uxbal. Nada escapa da lógica da vida e da morte. E ainda assim, sempre há reencontros e a possibilidade da redenção. Por isso, mesmo com toda a imperfeição retratada pelo filme – e a convicção errada plasmada na palavra Biutiful -, existe sim beleza e esperança. O resumo está no título, pois.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Alguém pode me perguntar: “Mas e aí, na Espanha as coisas são do jeito que Biutiful mostra? Chineses e africanos são explorados sem dó nem piedade? Os policiais são corruptos? Existe uma máfia que se beneficia dos imigrantes ilegais?”. Vou falar, como sempre, do que eu vi: sim, há redes de exploração de imigrantes. Eles ocupam sempre os espaços marginais em cidades como Madrid. Estão lá, vendendo DVDs com filmes pirata, ocupam ruas e lojas em que comercializam os mais diferentes produtos “alternativos”. Os espanhóis vão lá, compram estes produtos, mas deixam claro que aquelas pessoas são “invasores”.

Não sei como hoje está o clima entre “nativos” e os imigrantes ilegais. Com um nível de desemprego maior, muita gente no “paro” (recebendo seguro desemprego) e pouca oportunidade de trabalho, eu imagino que o clima piorou. Não sei se continuam chegando “bateras” (embarcações pequenas e normalmente precárias) com imigrantes ilegais africanos na costa Sul da Espanha. Imagino que sim. Porque tanto para chineses quanto para africanos, como bem mostra Biutiful, mesmo a exploração na Espanha é melhor do que as condições de vida que eles tem, muitas vezes, em seus próprios países.

Nas ruas de Madrid, à noite, as pessoas costumam recorrer aos “chinos” (como são chamados os chineses) para comer após “salieren de fiesta” (saírem de festa, de bar em bar). Nesta hora, os “chinos” são bacanas. O mesmo nos sábados e domingos, quando muitos comércios tradicionais estão fechados, e há sempre “un chino” aberto para vender fones de ouvido, MP3 e os mais diferentes artigos em lojas espalhadas por quase todos os bairros. Nesta hora, esses imigrantes – muitos legais, outros tantos “sin papeles”/ilegais – são bastante úteis. Assim como os africanos que vendem “paraguas” (guarda-chuvas) nas ruas quando o clima está castigando os desprevenidos. Mas no restante do tempo, para os espanhóis – e acredito que franceses, e outras nacionalidades que se vêem “invadidas” pelos ilegais -, essas pessoas são indesejáveis.

Lamentável o conflito cotidiano entre as pessoas que se sentem donas de uma terra e de uma realidade e aquelas que tiveram que deixar os seus países, suas famílias e raízes para buscar uma melhor oportunidade de vida. No curso que fiz, em Madrid, falamos muito sobre xenofobia e como a mídia tratava esses temas de imigração. Estar atento aos absurdos e responder a eles é algo fundamental. Seja no país que for, com o desenvolvimento e as relações que se forjarem em cada local. Sobre corrupção policial ou “vistas grossas” de autoridades para o problema eu não posso falar, mas eu imagino que exista. E há, sem dúvida, uma rede que explora estas pessoas, seja na construção civil, nas ruas das cidades ou através da prostituição. Há muita gente ganhando dinheiro com a falta de perspectiva e a fragilidade de outras pessoas.

O diretor e os roteiristas misturam drama com um pouco de suspense, carga policial e sobrenatural. O resultado é um filme tenso quase todo o tempo, com algumas “baixadas” de ritmo aqui e ali e uma velocidade constante até o final. Eventualmente ele pode parecer um pouco arrastado, mas consegue manter o interesse do espectador até o final.

Para reforçar o clima “pesado”, um pouco cru e estranhamente “sobrenatural” da história, o diretor de fotografia Rodrigo Prieto fez uso de lentes que reforçam o azul e o cinza, tornando as imagens mais “agrestes”. O mexicano Prieto é um dos grandes diretores de fotografia atuantes no mercado. Ele foi responsável pela “alma” de filmes como Babel, 21 Grams, Amores Perros, State of Play, Los Abrazos Rotos, Frida, entre outros. Antigo colaborador de Iñarritu, como se pode notar pela lista.

Falando no diretor, quem acompanha a sua carreira sabe que ele gosta de histórias fragmentadas e que questionam algumas “situações dadas” da realidade. Para mim, ele é um dos grandes diretores de origem latina e que souberam manter-se criativos em Hollywood. Biutiful não é o melhor de seus filmes mas, ainda assim, é uma produção com a marca do diretor e com os diferenciais que isso significa. Ele merece todo o respeito, não há dúvidas.

Da equipe técnica de Biutiful, vale destacar o trabalho competente do editor Stephen Mirrione e a trilha sonora bastante pontual e pouco expressiva de Gustavo Santaolalla.

Biutiful é uma homenagem do diretor ao pai, Héctor González Gama, citado nos créditos finais do filme. Em Amores Perros e 21 Grams o pai do diretor tinha sido citado nos agradecimentos.

E uma curiosidade sobre a produção: Iñarritu demorou 14 meses para editar Biutiful. Um prazo bastante longo e que talvez sinalize a dificuldade do diretor em encontrar um resultado satisfatório para a produção.

Biutiful foi rodado em Barcelona, onde se passa a história, e também no Monte de San Donato Berain e na Sierra de Abodi, ambos pertencentes a Navarra, na Espanha.

Essa produção estreou em maio de 2010 no Festival de Cannes. Depois, Biutiful passou por outros 12 festivais, incluindo os de Toronto, Londres, Estocolmo, Oslo, Jacarta e Dubai.

Até o dia 5 de junho deste ano, esta co-produção entre México e Espanha tinha faturado pouco mais de US$ 5,1 milhões nos Estados Unidos. Um resultado baixo, se levarmos em conta que Biutiful foi indicado a dois Oscar e tem nomes como Javier Bardem e Iñarritu como chamarizes.

Falando em premiações, Biutiful saiu de mãos vazias do Oscar, onde concorreu como Melhor Filme em Língua Estrangeira e com Bardem na categoria Melhor Ator. Mas recebeu 11 prêmios, até agora, e foi indicado a outros 22. Entre os que embolsou, destaque para os prêmios de Melhor Ator para Bardem no Festival de Cannes e no Prêmio Goya, da Espanha. Biutiful também foi considerado o melhor filme estrangeiro de 2010 pela votação das associações de críticos de Washington DC, Phoenix e Dallas-Fort Worth.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para Biutiful. Os críticos que tem os textos linkados no site Rotten Tomatoes foram menos generosos: eles dedicaram 86 críticas positivas e 50 negativas, o que rendeu para a produção uma aprovação de 63% – e uma nota média de 6,4. Interessantes que críticos respeitados, como Peter Howell, Tom Long, Steven Rea e Lisa Kennedy publicaram críticas positivas para a produção – o que dá uma certa moral para Iñarritu.

Sobre o filme, o diretor disse o seguinte: “às vezes nossas vidas são assim: fraturadas, saturadas, emocionalmente eletrizantes e, até nos deixar sem fôlego, belas”. No site oficial da produção, ele ainda fala sobre a necessidade, após filmar Babel, de produzir um filme que tivesse apenas um personagem central e uma linha narrativa direta – e não fragmentada, com idas e voltas no tempo. Iñarritu disse que se Babel pudesse ser comparada com uma ópera, Biutiful seria mais um réquiem, um adágio. O diretor também classifica Biutiful como uma tragédia, a tentativa de “um poema sórdido sobre um homem que está se iluminando enquanto cai no escuro poço da morte”. E o diretor segue com uma longa explicação sobre as suas intenções com este filme. Para quem se interessar, esta lá no site oficial, em espanhol.

Ah sim, e para não dizer que não falei de flores: sim, Javier Bardem mereceu os prêmios que recebeu como melhor ator por este filme. Eis mais uma produção em que ele faz um grande trabalho. Ainda que, pela história ter sido construída totalmente sobre o personagem dele, e com a carga emotiva, dramática e de “doença” que a história abriga, era mais que esperado que o ator que interpretasse a Uxbal se destacasse. Por isso mesmo que eu acho, por exemplo, que foi merecido o Colin Firth ter recebido o Oscar este ano. Bardem está bem, mas ainda prefiro a interpretação de Firth, do James Franco e do Jesse Eisenberg em seus respectivos filmes que concorreram ao Oscar este ano.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho competente dos coadjuvantes Cheikh Ndiaye como o senegalês Ekweme, que acaba sendo deportado e Luo Jin como o chinês interesseiro Liwei.

Entre Biutiful e Haevnen, difícil escolher. Para mim, ambos não chegam ao nível de serem excepcionais. Continuo achando Kynodontas mais original e impactante. Mas se for realmente para escolher, ainda acho que Haevnen é um pouco melhor que Biutiful. Ainda falta assistir às outras duas produções que concorreram como Melhor Filme em Língua Estrangeira este ano mas, avaliando apenas os três que vi até agora, este ano não teve a melhor das safras recentes da premiação nesta categoria.

CONCLUSÃO: Mais um filme meio “existencialista”, meio sociológico, que aborda temas importantes sobre a realidade conflitante de grandes cidades/países. Com uma levada interessante, mas sem a costura adequada para todas as suas histórias, Biutiful soma-se a outras produções do gênero sem grande brilhantismo. Claro que Javier Bardem faz um grande trabalho, assim como o diretor Alejandro González Iñarritu. Mas, francamente? Não há muita novidade nesta história. O maior mérito do filme talvez seja o de mostrar uma parte de Barcelona que poucos conhecem – exceto os que já moraram por lá por algum tempo. Na verdade, o que Biutiful mostra sobre imigrantes ilegais, corrupção policial e explorações desta realidade ocorre em outras partes da Europa, incluindo Madrid, Paris e um bom etcétera. Interessante também a “homenagem” que o diretor faz aos antepassados e a esta linha amorosa que une distintas gerações de uma família. Bacana estas ideias, bem executada a realização delas, mas o filme sofre de excesso de histórias sem muitas amarras. Mediano, apenas.

Blue Valentine – Namorados para Sempre

2 de julho de 2011 4 comentários

O que acontece com o amor quando termina o encanto? Provavelmente existe mais do que uma resposta para esta pergunta. Mas quando o novo estágio, após o encantamento, significa o fim do que era novo, genial e interessante, quando a relação perde o sabor, as cores e aromas, não existe muito espaço para múltiplas escolhas. Blue Valentine fala sobre isso. Sobre um amor que começa surpreendente e que segue em uma trilha de desgaste. É a história de uma família que tem química, mas que é formada por um casal que parece não ter mais paciência e nem oxigênio. Um filme com estilo, uma ótima trilha sonora e dois atores afinadíssimos.

A HISTÓRIA: Uma menina grita desesperada em busca da Megan. Enquanto os grilos cantam e a rua continua deserta, o pai dela, Dean (Ryan Gosling), continua dormindo em uma poltrona. Cansada de buscar sozinha, Frankie (Faith Wladyka) acorda o pai. Ele vai até o lado de fora da casa e descobre que a cadela da família fugiu. Junto com a filha, ele acorda a esposa, Cindy (Michelle Williams). Ela apronta o café da manhã e se cansa com as brincadeiras do marido, que tocava música antes de comer cereais direto da mesa. Cindy leva a menina para a escola, e a relação do casal começa a se revelar desgastada, ao mesmo tempo em que acompanhamos como Cindy e Dean se conheceram e se apaixonaram.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Blue Valentine): Interessante como se desenvolve o ritmo naturalista deste filme. Primeiro, o estilo de filmagem do diretor e roteirista Derek Cianfrance que, desde o primeiro até o último segundo da produção escolhe, deliberadamente, os cortes e ângulos de câmera mais naturalistas possíveis. Paisagens, a dinâmica dos gestos e das relações das pessoas sempre estão em primeiro plano e parecem servir como guia para os movimentos das câmeras.

Depois, chama a atenção o desenvolvimento naturalista da trama. Assinado pelo diretor e por Cami Delavigne e Joey Curtis, o roteiro de Blue Valentine evita as frases feitas. E quando elas aparecem, surgem de forma automática, algumas vezes irônica. Mas o mais interessante, no texto, é que por grande parte do filme a personagem de Cindy assume, sozinha, a roupagem de “bandida” da história. Nada mais natural, seguindo os preceitos de nossas sociedades ainda um bocado machistas – ao ponto de colocarem, sobre as mulheres, eternamente a aura de “chatas” e impacientes.

Nesta produção, acompanhamos uma história de amor. Que ainda não terminou, mesmo que do sentimento original reste pouco. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). E o interessante é que por grande parte da história – e aposto que, para muitas pessoas, mesmo depois que ela termine – a “vilã” da produção é a personagem interpretada por Michelle Williams. Ela é quem resiste. Parece ser a parte do casal que não cede, que não aceita a falta de ambição do marido. Mas eu vejo algo além disso.

É difícil, para quem ama, aceitar o desperdício de um potencial. Complicado ver alguém que poderia ser muito melhor, fazer muito mais, desenvolver-se plenamente, gastar esse potencial em nada. Esta é uma das maiores dificuldades de Cindy em relação a Dean. Mas há uma cena fundamental na trama, quando eles conversam francamente em um quarto de motel, em que ele desabafa que tudo o que ele quer, e que não sabia que queria, era ter uma família e cuidar dela. E o que fazer, com esta diferença tão brutal de visões de mundo?

Pois eis a questão e o problema fundamental na história do casal de Blue Valentine. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E talvez de tantos e tantos outros casais que não conseguem mais viver juntos. A dificuldade em encontrar um denominador comum, em lidar com as expectativas individuais em prol de um projeto conjunto. No caso de Cindy e de Dean, a convivência foi mostrando também como eles tem algumas visões de mundo e de hábitos bem distintas. Ela não suporta ver o marido dormindo até tarde, tomando uma cerveja as 8h e saindo para trabalhar um dia aqui, outro ali, sem grandes perspectivas de melhorar de vida. Como enfermeira, ela tem mais estabilidade e, claro, está preocupada com o futuro da filha. Mas para Dean, nada mais importante que ajudar a pagar as contas da casa e ter o máximo de tempo livre para curtir a família – ainda que, na prática, nem sempre ele consiga isso.

O desgaste está formado. E apenas cresce. E como lidar com ele? Bem, para dar uma temperada nesta história e torná-la um bocado mais dura, não acompanhamos apenas a derrocada da relação de Cindy e Dean. Sem avisar, e de maneira muito sutil, o diretor e os roteiristas nos levam para alguns anos antes na história, quando o casal se conheceu. Há cenas verdadeiramente encantadoras, nesta parte, como a sequencia impagável em que Dean faz Cindy dançar. Ah, o amor, como ele é lindo. Como a conquista, a fase em que as pessoas se apaixonam e se encantam, é maravilhosa. Mas e depois?

Bem, nunca há regras para o depois. A história dos dois poderia ter dado muito certo. Ou poderia ter acontecido o que nos foi apresentado neste filme. O que chama a atenção em Blue Valentine, em relação a outros filmes, é que aqui há pouco fingimento. Tanto os momentos lindos e encantadores são apresentados de forma precisa para provocar este tipo de sentimento no espectador quanto os momentos de desgaste, de falta de sintonia e de esperança são filmados com a mesma honestidade. Por isso, cá entre nós, imagino que seja impossível passar incólume por este filme. O que faz dele, apenas por isto, uma interessante peça de cinema. Afinal, um dos objetivos da 7Arte não é, justamente, mexer conosco? Pois posso garantir que Blue Valentine mexe com o público. Tanto com os apaixonados inveterados quanto com aqueles que sabem que histórias de amor podem ser bastante complicadas.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei impressionada com o belo trabalho da dupla Michelle Williams e Ryan Gosling. De forma precisa, bastante honesta e sem aquelas irritantes “caras e bocas” e forçações de barra que mesmo atores experientes algumas vezes encenam – talvez por cansaço ou por não adotarem os roteiros como dignos de esforço – eles apresentam um trabalho digno de aplausos. Ela é “cruel” e direta sempre que a personagem pede. Ele é dedicado e “avoado” conforme manda o script. E nas cenas de tensão sexual, conquista e encantamento, os dois atores conseguem a química ideal. Sem ter que tirar ou por.

Esse é o primeiro trabalho do diretor Derek Cianfrance que eu lembro de ter assistido. Gostei do estilo dele. Claro que a forma dele em conduzir a trama não é, exatamente, inédita. Mas aí entramos no velho tema: o quanto de ineditismo realmente ainda é possivel no cinema atualmente, depois de mais de 110 anos de história e invenções? Bem, outros cineastas também preferem essa levada “naturalista” de Cianfrance, o que não desmerece, nem um pouco a sua escolha.

Ajudou muito no efeito final da produção dois itens que sempre são fundamentais no cinema: a direção de fotografia de Andrij Parekh e a trilha sonora ajustadíssima de Grizzly Bear. A fotografia do estadunidense Parekh, que tem descendência ucraniana e indiana, potencializa as cores naturais de cada cena, tornando os tons terrais ainda mais “pesados” e/ou “envelhecidos” e os azuis, de longas cenas de tensão, ainda mais densos. Bacana. Recursos que funcionam sempre muito bem.

O trabalho de Bear é muito pontual, preciso, apresentando uma música ajustada para os momentos mais delicados ou nos quais o autor quer reforçar uma ideia. No restante do tempo, escutamos muitos sons “das ruas”, das casas, vizinhanças, o som natural da vida. Também gostei. Bear assina, realmente, grande parte das composições. Além dele, vale citar a música Smoke Gets In Your Eyes, clássico do The Platters, e You and Me, de Penny & The Quarters.

Merece uma menção especial o trabalho feito com os créditos finais do filme. Uma forma interessante de fechar de uma forma, digamos assim “esperançosa”, uma produção com muitos momentos complicados.  Mesmo porque, mesmo quando o amor termina, os momentos bacanas permanecem. Mesmo que no passado ou, quem sabe, flutuando em algum lugar no cosmos, podendo dar frutos – nem que for como inspiração para outras pessoas. Acho que eu acredito nisso. :)

Da equipe técnica, vale citar o bom trabalho dos editores Jim Helton e Ron Patane. Dos demais atores, a atriz que tem um destaque um pouco maior, em uma produção dominada por Ryan Gosling e Michelle Williams, é a filha deles na trama, interpretada por Faith Wladyka. Ela faz um bom trabalho, ainda que nada excepcional – até porque, cá entre nós, nem era necessário. No mais, vale citar as rápidas aparições dos coadjuvantes John Doman, como Jerry, pai de Cindy; e de Mike Vogel como Bobby Ontario, com quem ela tinha uma relação antes de conhecer Dean.

Blue Valentine estrou no dia 24 de janeiro de 2010 no Festival de Sundance. Depois ele participou dos festivais de Cannes, Toronto, Londres, Vienna, Gijón, Rotterdam e Buenos Aires, entre outros. Em sua trajetória, a produção conseguiu conquistar dois prêmios: o de melhor cineasta revelação para Derek Cianfrance segundo a associação de críticos de cinema de Chicago, e o de melhor atriz para Michelle Williams segundo o círculo de críticos de cinema de San Francisco. Blue Valentine foi indicado, ainda, para outros 16 prêmios, incluindo o prêmio principal em Sundance, duas indicações para os atores principais no Globo de Ouro deste ano e uma indicação para Michelle Williams no Oscar 2011.

Falando em Oscar, Michelle Williams perdeu a estatueta para Natalie Portman, protagonista de Black Swan. Francamente, ainda acho que Natalie Portman mereceu o Oscar. Mas admito que Michelle Williams, ao lado de Annette Bening, tornou a disputa deste ano bastante acirrada. As duas fizeram um grande trabalho em seus respectivos filmes. Mais do que a queridinha – e com razão, porque ela é talentosa – Jennifer Lawrence. O trabalho de Nicole Kidman que concorreu ao último Oscar eu ainda não vi, para poder comentar.

Produção de baixo custo, Blue Valentine teria custado US$ 1 milhão. Uma ninharia para os padrões de Hollywood – onde não é raro encontrar produções custando 80, 100 ou 200 vezes este valor. Apenas nos Estados Unidos o filme conseguiu, até o dia 17 de abril deste ano, pouco mais de US$ 9 milhões nas bilheterias. Pouco, em comparação a outros filmes, mas um belo resultado para uma produção que custou tão pouco.

Para quem ficou interessado em saber onde Blue Valentine foi rodado, ele foi filmado em Nova York, em bairros tradicionais como Manhattan, Queens e o Brooklyn, e em várias partes do estado da Pennsylvania.

Diz a lenda que o US$ 1 milhão gasto com o filme teria sido financiado pelo prêmio de roteiro que Chrysler Film Project ganho em 2006. Por isso mesmo que fico me perguntando se realmente o filme custou isso ou foi o que os produtores justificaram. De qualquer forma, a produção saiu com uma boa alavanca devido à qualidade de seu roteiro.

Interessante que os realizadores decidiram adiar as filmagens de Blue Valentine devido à morte do ator Heath Ledger, com quem Michelle Williams tinha sido casada e com quem ela tinha uma filha. Decidiram esperar o tempo necessário para que ela pudesse se dedicar ao projeto. Valeu a pena, sem dúvida.

Agora, uma curiosidade técnica: as cenas de Cindy e Dean que mostram quando eles se conheceram e seguem até eles se casarem foram filmadas em Super 16mm, enquanto que as cenas deles juntos, casados, foram rodadas em RED.

E outra curiosidade da produção: as cenas do casal na fase “enamorada” foram filmadas primeiro, durante três semanas. Depois desta fase, Ryan Gosling e Michelle Williams viveram juntos em uma casa por um mês, fazendo coisas banais, como indo às compras, cozinhando, jantando, etc., para afinar a técnica de conversarem como um casal e “brigarem” um com o outro. Por isso mesmo tanto realismo em cena.

Michele Williams aceitou fazer o filme porque ela tinha gostado muito do roteiro. Mas quando o projeto começou a ser filmado, o diretor sugeriu que os atores improvisassem mais as falas do que simplesmente seguissem o roteiro. Inicialmente a atriz foi mais resistente à ideia. mas Gosling teria gostado do improviso porque disse que tinha dificuldades de lembrar de todas as falas. Mais uma razão para o filme fluir tão bem. Ainda que, cá entre nós, esse fato me deixou curiosa para saber como seria o roteiro original, sem as improvisações.

Fiquei impressionada com a obstinação do diretor Derek Cianfrance com esta produção. Ele dedicou 12 anos para que o filme fosse concretizado. Além de ter trabalhado em várias versões para o roteiro, ele produziu vários documentários para conseguir dinheiro para que Blue Valentine fosse concretizado. Ser obstinado realmente vale a pena – e nos leva a alguns feitos/lugares.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para a produção. Uma nota boa, considerando a média de notas do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos: publicaram 152 críticas positivas e apenas 22 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 87% – e uma nota média de 7,7.

CONCLUSÃO: Este não é um filme simples. Nem fácil de assistir. Isso porque nunca é fácil assistir à crise de um casamento. Essa é a primeira informação que você precisa ter em mente. Além disso, tenha certeza, há muitas sequências incríveis nesta história, de pura sintonia entre os protagonistas. Cenas líricas, bacanas, musicais, encantadoras. Cenas duras, de diálogos ácidos, de choque de expectativas, destas cenas que podem fazer o coração partir. Blue Valentine é isto, um filme sincero sobre conquista e desgaste. De como os sonhos das pessoas e o amor que elas sentem, muitas vezes são incompatíveis. Uma produção com direção e roteiro honestos, sensíveis, e que ainda conta com um casal de atores dedicados. Para quem tem o coração aberto a assistir o pior que a ferrugem e o desgaste podem fazer, é uma grande produção.

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