Lincoln


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Os predicados de Lincoln são atraentes. Para começar, Steven Spielberg na direção. Depois, o gigante Daniel Day-Lewis como protagonista. Para completar, nesta semana, quando a lista de concorrentes ao Oscar foi divulgada, as 12 indicações do filme para a cerimônia deste ano. Todos estes elementos juntos fazem qualquer pessoa ter uma grande expectativa para esta produção, correto? Pois é, normalmente grandes expectativas são difíceis de serem supridas. E, infelizmente, neste caso, as expectativas são maiores do que o efeito que o filme consegue provocar no espectador. Especialmente no brasileiro. Porque o estadunidense deve ficar especialmente tocado. Afinal, Lincoln trata de um herói para os EUA. E o filme trata de alguns valores que fizeram a história daquela nação. Pra gente, contudo, falta algo. Ou muito.

A HISTÓRIA: Homens com uniformes azuis e cinzas se degladiam em um campo cheio de lama e água. Entre eles, passa uma bandeira dos Estados Unidos. Quando a câmera se aproxima, notamos que há negros apenas de um lado da batalha: entre os homens vestidos de azul, que lutam pela União. Do outro lado, pela Confederação, apenas homens brancos. Enquanto aqueles homens se matam, o soldado Harold Green (Colman Domingo) conta para Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis) que ele e o cabo Ira Clark (David Oyelowo) faziam parte do batalhão de negros que lutou contra os “rebeldes” em Ferry Jenkins em abril de 1864. Green conta que, depois de todos os soldados negros terem sido mortos pelos inimigos em uma batalha anterior, em Ferry Jenkins eles decidiram não deixar prisioneiros. Lincoln escuta tudo com atenção e de forma amável, e fica especialmente impressionado com a opinião de Clark. Ele critica o fato dos negros receberem menos que os brancos, naquela guerra, até pouco tempos antes daquela conversa, e que perdurava a injustiça de nenhum negro ter o posto de oficial. Em seguida, dois jovens recrutas chegam perto de Lincoln e um deles cita o discurso do presidente sobre a igualdade entre os homens. Reeleito, Lincoln decide, em janeiro de 1865, aprovar com urgência, na Câmara dos Deputados, uma emenda à Constituição que termina com a escravidão. Mas o país ainda vive a Guerra da Secessão, e Lincoln vai precisar usar de alguns artifícios para levar a sua ideia adiante.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme,  por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Lincoln): Os Estados Unidos da América gosta de preservar a sua história e os seus mitos. Lincoln é um deles. Talvez o maior. Spielberg há tempos queria fazer um filme sobre ele, porque acredita que cada geração deveria resgatar o décimo sexto presidente para inspirar-se.

Com Lincoln, Spielberg tenta fazer o filme definitivo, pelo menos para esta geração, deste mito. Ele faz um bom trabalho, mas que não surpreende o espectador em momento algum. Parece que estamos assistindo a uma peça de teatro. Isso não é ruim, mas cinema não é teatro e nem vice-versa. Cada um tem a sua característica e mantemos uma expectativa ao assistir a um ou a outro. De Spielberg, sempre espero alguma ousadia. Em Lincoln, não há ousadia alguma.

O filme busca humanizar o mito. Nesta tentativa, foca a relação de Lincoln com sua mulher, Mary (Sally Field), e com os filhos Tad (Gulliver McGrath) e Robert (Joseph Gordon-Levitt). Dentro de casa, Lincoln parece manter a mesma postura que tem fora dela, na vida política: é atencioso, escuta as pessoas com atenção, mas é firme em suas palavras, postura e convicto no que acredita. Não importa se esta firmeza signifique deixar a mulher desolada, ou o filho mais velho sentindo-se à sombra do pai. Lincoln está preocupado em ser correto, nunca condescendente.

Mesmo dedicando uma parte do filme para a vida privada do mito, o roteiro de Tony Kushner, baseado no livro Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln, de Doris Kearns Goodwin, dedica grande parte da história para os bastidores políticos da aprovação da décima terceira emenda, que tinha como objetivo pôr fim à escravidão. E aí, justamente nesta parte, é que a história fica interessante. Porque o mito também se rendeu a uma prática que hoje, mais do que nunca, é questionada: oferecer emprego para conseguir votos.

No caso do Brasil, o toma-lá-dá-cá costuma ser feito com o oferecimento de cargos dentro do governo, mas votos também já foram comprados, pura e simplesmente, com dinheiro – vide o mensalão. Pois bem, logo no início de Lincoln, quando o presidente dos EUA diz que seus aliados devem conseguir os votos para aprovar a emenda, ele deixa claro que devem ser oferecidos empregos, cargos, mas não dinheiro.

O seu braço direito, o chefe de governo William Seward (David Strathairn), dá a ideia de buscar “homens sem escrúpulos” que poderiam fazer o aliciamento de democratas indecisos e/ou “compráveis” para que eles apoiassem a emenda. Aí aparece a figura de W.N. Bilbo (James Spader), o mais divertido do filme. A ideia de Seward é preservar Lincoln, que não deve “se envolver” diretamente na negociata. Alguém lembrou do Brasil?

Sem dúvida este viés do filme é o que ele tem de mais interessante. Afinal, é possível a democracia sem estas artimanhas? Uma Câmara dos Deputados ou um Senado é capaz de representar, realmente, os interesses de um povo sem colocar, muitas vezes, os interesses próprios dos homens eleitos em primeiro lugar? Lincoln, como outros governantes, acredita que práticas imorais podem ser adotadas quando há uma boa causa a ser defendida. Ninguém duvida que a escravidão era algo absurdo e que precisava ser extinta. Mas que preço a violação da democracia poderia cobrar de uma nação a partir daí? Que preço estas convicções de causas de alguns governantes continuam cobrando um preço até hoje, a cada dia?

As negociações políticas são interessantes, mas há um excesso de discursos no filme. Bacana a escolha do roteirista em valorizar o Lincoln contador de histórias, um homem que gostava de conversar e trocar impressões com pessoas comuns. Mas o momento que ele escolhe para contar algumas histórias chega a ser cômico – como quando estavam tensos sobre o resultado e o desdobramento do bombardeio ao porto de Wilmington.

Apesar de fazer um esforço para mostrar a astúcia de Lincoln para a aprovação da décima terceira emenda, este filme falha ao não contextualizar a história como deveria. Para começar, explicando que a Guerra da Secessão, que já durava quatro anos, teve sua origem fortemente ligada à figura de Lincoln. O filme dá a entender que o presidente tinha que lidar com esse tema, e que escolheu terminar com a escravidão para, então, acabar com a guerra. Cuidando para que o conflito não terminasse antes – até porque, se isso ocorresse, ele sabia que não aprovaria a emenda.

Mas o problema está justamente aí. Porque basta ler um pouco mais sobre a história dos EUA e, especificamente, sobre a Guerra da Secessão para saber que os estados do Sul daquele país decidiram se “separar” da União e criar os Estados Confederados da América para resistir ao movimento republicano e dos estados do Norte de espalhar o fim da escravatura para todas as partes do país. Quando os republicanos escolheram Lincoln como o candidato do partido para as eleições de 1860, os sulistas estavam com medo de que as mudanças do norte se espalhassem. E começou a secessão.

Então Lincoln estava totalmente ligado àquela guerra civil que teria matado 970 mil pessoas. Depois de quatro anos, as pessoas queriam o fim da guerra, mais que nada. E Lincoln sabia que tinha pouco tempo para terminar com a escravidão através da lei. Mas o filme não deixa esta ligação direta da postura de Lincoln e de seus aliados com o conflito. Ele apenas reforça a ideia de um líder correto, libertário e solitário. Que, segundo o roteiro sugere, tem um forte apelo popular – informação esta pouco confirmada pela história que vemos na telona.

A morte do filho do casal Lincoln é um elemento importante nesta história. Mas em momento algum sabemos do que o filho deles morreu. Ele tinha idade para ir para a guerra e teria morrido lá? Não. Pesquisando mais sobre Lincoln é que eu descobri que William, terceiro filho do casal, morreu em fevereiro de 1862, quase três anos antes da história do filme começar, aos 11 anos de idade, provavelmente de febre. Mas ele não foi o único filho dos Lincoln que morreu jovem. Edward, segundo filho do casal, morreu aos quatro anos de idade, em 1850, de tuberculose.

Para resumir, achei Lincoln, o filme, uma obra bem acabada no resgate de elementos históricos, mas com algumas falhas de roteiro e com uma direção um tanto “preguiçosa”. Daniel Day-Lewis está estupendo, mas os demais atores apenas cumprem bem os seus papéis. Achei um exagero indicar Sally Field e Tommy Lee Jones como Melhor Atriz e Melhor Ator Coadjuvante, respectivamente, ao Oscar 2013. Só explicam a indicação deles dois fatores: 1) Hollywood realmente resolveu forçar a barrar e fazer este o filme mais premiado do ano, em uma competente campanha de marketing dos estúdios envolvidos; 2) a safra de filmes está tão ruim que interpretações apenas corretas merecem ser premiadas com um Oscar.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gosto muito do Tommy Lee Jones. Acho um dos grandes atores que seguem trabalhando com convicção em Hollywood. Ainda assim, não acho que a atuação dele mereça indicação ao Oscar. Se alguém fosse ser indicado como coadjuvante neste filme, eu acho que deveria ser o David Strathairn ou, até mesmo, mas correndo por fora, o James Spader.

Lincoln tem uma fila de atores ótimos fazendo quase pontas. Evidentemente o espaço principal da produção é dado para Daniel Day-Lewis que, realmente, está estupendo. Ele incorporou, de seu jeito perfeccionista que todos conhecemos desde The Unbearable Lightness of Being (1988) e My Left Foot: The Story of Chrsity Brown (1989), Lincoln com maestria. Modulou a voz do mito, assim como o seu jeito de olhar, caminhar, portar-se no trato com as pessoas. Impressionante.

Mas há muitos outros atores que ficam na sombra de Day-Lewis. Além dos já citados, vale comentar o trabalho de Hal Holbrook como Preston Blair; John Hawkes como Robert Latham, que apoia Lincoln; Jackie Earle Haley como Alexander Stephens, o vice-presidente dos Estados Confederados da América; Jared Harris como Ulysses S. Grant, general encarregado do Exército dos EUA; David Costabile como James Ashley, o republicano que apresentou a emenda na Câmara; Lee Pace como Fernando Wood, um dos democratas mais fervorosos contra a emenda; e Michael Stuhlbarg como George Yeaman, um dos democratas que “vira a casaca” e garante a aprovação da emenda.

A trilha sonora praticamente não existe neste filme. Por outro lado, há outros elementos técnicos que merecem ser citados, porque funcionam bem, como é necessário em qualquer filme de época. Vale elogiar o figurino de Joanna Johnston e o design de produção de Rick Carter e Jim Erickson, os três indicados ao Oscar. Gostei também da decoração de set de Jim Erickson e Peter T. Frank, assim como da maquiagem feita por uma equipe de 52 profissionais.

Honestamente, não entendi algumas indicações ao Oscar para este filme. Exemplo: a direção de fotografia de Janusz Kaminski. Adoro o trabalho dele, mas ele não faz nada de extraordinário nesta produção. Também não vi um trabalho surpreendente do editor Michael Kahn.

E uma curiosidade sobre esta produção: inicialmente, Lincoln seria protagonizado por Liam Neeson, que desistiu do projeto porque ele achava que estaria muito velho para interpretar o personagem quando o filme, após vários anos, finalmente saiu da gaveta.

Steven Spielberg gastou 12 anos pesquisando para fazer Lincoln. Ele reproduziu o escritório do ex-presidente com perfeição, resgatando o mesmo tipo de papel de parede e os mesmos livros que ele tinha, incluindo o mesmo tique-taque do relógio de Lincoln.

Esta produção teria custado US$ 65 milhões, aproximadamente. E conseguiu um bom resultado nas bilheterias de seu principal território para o sucesso, os EUA: alcançou pouco mais de US$ 144 milhões até o dia 6 de janeiro.

Lincoln estreou em outubro no Festival de Cinema de Nova York. Até o momento, o filme ganhou 14 prêmios e foi indicado a outros 60, além de ser indicado a 12 Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Filme do Ano pelo Prêmio AFI e para cinco prêmios recebidos por Daniel Day-Lewis como Melhor Ator pelos críticos de Boston, Las Vegas, Nova York, San Diego e Washington.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 173 textos positivos e 17 negativos para Lincoln, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 8,1.

Para quem não assistiu a The Conspirator, filme dirigido por Robert Redford e que trata do julgamento que ocorre após o ato final mostrado em Lincoln, vale dar uma conferida. É outro estilo de filme, que tem suas falhas também, mas que complementa bem ao que vemos na produção de Spielberg. Comentei The Conspirator aqui.

Quem quiser saber mais sobre Lincoln e a Guerra de Secessão, vale dar uma conferida neste texto, neste, e neste outro em inglês. Sobre o projeto de Spielberg, este filme traz algumas informações interessantes.

CONCLUSÃO: Eis um filme para norte-americanos ver. Ou quase. Não serei tão cruel e afirmar que Lincoln só interessa ao público dos EUA. Porque qualquer retrato cinematográfico de uma figura histórica transcende o seu país de origem e ganha interesse mundial. Ainda mais quando esta figura é do porte de Abraham Lincoln. Mas convenhamos que este filme nos afeta de uma maneira muito diferente que a um estadunidense. Ainda que muitas das questões levantadas pelo filme nos sejam muito familiares, como o preço que um governante paga para conseguir aprovar o que acredita ser correto (vide mensalão e tantas outras situações questionáveis na política brasileira), não temos a mesma identificação com a história como os americanos.

Então, se não há toda essa identificação – ainda que exista aquela reflexão sobre o paralelo da história com o Brasil -, o que nos sobra? Este não é um filme que inova na linguagem cinematográfica. E nem na interpretação, apesar de Daniel Day-Lewis fazer um grande trabalho. Tecnicamente, é um filme bem acabado, mas sem nenhuma invenção. Bastante “papai e mamãe”, aliás. Spielberg faz um trabalho correto, e ponto. O roteiro tem como seu principal trunfo o respeito aos discursos de Lincoln. Mas qualquer pessoa que conhece um pouco da história sabe tudo o que virá, sem nenhuma surpresa ou arrebatamento.

Para mim, um grão no resgate histórico dos EUA, nada mais. Não emociona, faz a gente refletir apenas um pouco “fora da caixa”. Porque buscamos paralelos, encontramos eles e levamos a discussão para o fundamento da democracia. Lincoln faz refletir tanto quanto, ou talvez um centímetro a mais do que o recente The Conspirator. Ambos fazem um resgate importante da história dos EUA, mas acabam sendo mornos. E não acho que filmes históricos precisam ser assim. Faltou um pouco mais de ousadia. No fim das contas, este filme será facilmente esquecido. Há outros melhores nesta safra. Apesar do legado que Lincoln, o filme, pode deixar, e um e outro debate que suscinta, ele não marca nossa época e nem mesmo este ano.

PALPITE PARA O OSCAR 2013: Francamente, achei um exagero Lincoln receber 12 indicações para o Oscar deste ano. Mas bueno… também entendo Hollywood e suas políticas de lobby. Este é um filme histórico, que resgata um mito em uma época conturbada nos EUA – com democratas e republicanos tornando as votações importantes no país em objetos de uma disputa complicada. Além disso, é um filme que exigiu 12 anos de trabalho de Spielberg – até parece que ele recebeu, como prêmio, uma indicação para cada ano destes de trabalho.

Como eu disse antes, achei algumas indicações simplesmente forçadas. Como as de Direção de Fotografia, Edição e Trilha Sonora. Eu também não acho que o Roteiro Adaptado de Tony Kushner merecia ser indicado, ou mesmo Spielberg como Melhor Diretor. Para mim, ambos fazem um trabalho competente, mas nada excepcional.

Daniel Day-Lewis sim, mereceu a indicação. Assim como Sally Field – que, para mim, talvez merecesse a indicação de Melhor Atriz Coadjuvante, e não Melhor Atriz. Agora, Tommy Lee Jones deve ter entrado na lista porque tivemos um ano fraco de coadjuvantes. Mixagem de Som, por outro lado, mereceu estar lá, assim como Melhor Figurino e Design de Produção.

Hollywood pode querer consagrar Lincoln. E se isso acontecer, o filme vai receber a maioria dos prêmios, mesmo sem merecê-los. Agora, se a premiação esquecer um pouco o ufanismo e a força de Spielberg e for justa, talvez Lincoln receba três estatuetas: Melhor Ator, Melhor Figurino e Melhor Design de Produção. Agora, falta assistir aos outros concorrentes para poder afirmar, com convicção, se estes são prêmios justos.

http://www.imdb.com/name/nm0654648/

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