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A Torinói Ló – The Turin Horse – O Cavalo de Turin

5 de dezembro de 2011 17 comentários

Um filme que começa citando a Nietzsche não pode ser ruim, certo? Sim e não. Depende, claro, do ponto de vista. Tenho certeza que os intelectuais e alguns apreciadores do cinema vão tirar o chapéu para este A Torinói Ló. Da minha parte, achei um filme chato, longo, teoricamente artístico, mas essencialmente insuportável. Não pelo que acontece, mas pelo que deixa de acontecer.

A HISTÓRIA: Uma voz conta, sem imagens, que em Turin, no dia 3 de janeiro de 1889, Friedrich Nietzsche saiu pela porta do número 6 da Via Carlo Alberto para caminhar ou para buscar suas correspondências nos Correios. “Não muito longe, aliás, bastante longe dele, um cacheiro estava tendo problemas com o seu teimoso cavalo”, conta o narrador. Apesar de todos os esforços do cacheiro, o animal se recusava a mover-se. O dono do cavalo perdeu a paciência e começou a chicoteá-lo. Nietzsche teria surgido no meio da “multidão” e interrompe a sessão de tortura ao colocar os braços ao redor do pescoço do cavalo, para a ira do cocheiro. Levado por um vizinho para casa, ele teria ficado dois dias silencioso no sofá, até que teria dito: “Mãe, eu sou um tolo”. Segundo o narrador, Nietzsche teria vivido mais 10 anos, calmo e louco, aos cuidados da mãe e das irmãs. Mas sobre o cavalo, não se soube mais nada. A partir daí, mergulhamos na história de um cavalo castigado, seu dono e filha. Uma história silenciosa e louca, que reflete o “fim do mundo” ou, pelo menos, da “Humanidade”.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a A Torinói Ló): Eu entendo as intenções dos diretores Béla Tarr e Ágnes Hranitzky. Eles buscaram imprimir em película a falta de esperanças em uma Humanidade violenta, fria e que age de forma automática. Sem refletir, sem relacionar-se afetivamente. O fim dos tempos, neste cenário, deveria ser visto quase como uma recompensa.

Compreendo também que eles viram na crueza do neorrealismo italiano o recurso natural para contar essa história, embebida até a raiz da crítica de Nietzsche, o homenageado da produção. Tudo isso é compreensível. Mas, francamente? Não vejo muito espaço, atualmente, no cinema moderno (ou pós-moderno) para fazermos um filme tão embebido no neorrealismo italiano. Não tenho problema algum, pelo contrário, em assistir aos clássicos do gênero. Mas clássicos são clássicos. Eles ajudaram a definir uma época, surgiram para contrapor uma realidade específica. Não vejo problemas em homenagear um gênero do cinema, mas é preciso fazer algo novo e condizente com a realidade em que vivemos agora.

A Torinói Ló poderia, muito bem, ser um filme mudo. Bem, ele quase é um filme mudo – mas sem o significado e a criatividade que os filmes mudos, em sua época, tinham. Qualquer filme de Charles Chaplin, na fase do cinema mudo, é mais criativo e dinâmico que esta produção dirigida por Tarr e Hranitzky. Para mim, ficou evidente a intenção do filme em angustiar o espectador, tornar a experiência de ver a este filme tudo, menos prazerosa. Compreensível, especialmente pela crítica que a produção busca fazer. Mas serei franca mais uma vez: para um filme ser crítico e provocar angústia, ele não precisa ser interminável, sonolento, chato até o extremo. Se eu quiser passar por esta experiência, busco outras formas de tortura, e não o cinema.

Bem, mas falemos da produção. O roteiro escrito por László Krasznahorkai e Béla Tarr começa contando, apenas em narrativa em “off” (sem imagens) a história da defesa de Nietzsche de um cavalo que era fustigado pelo seu proprietário. Para a época em que vivia e, até pela ótica de muitas pessoas atualmente, aquela manifestação do filósofo já era um indicativo de que ele estava ficando louco. Mas aí aparece a pergunta fundamental: o que é a loucura? Muitas vezes uma pessoa é considerada louca apenas porque ousa pensar e agir diferente dos padrões. E o que A Torinói Ló deixa claro é que, tantas e tantas vezes, na história das nossas civilizações, os padrões sociais eram absurdos. E deveriam ser combatidos.

Depois da narrativa em “off” da atitude de Nietzsche, mergulhamos na história do cavalo que foi defendido pelo filósofo. Uma história possível, é claro. E com ela, assistimos a uma alegoria do “ocaso da Humanidade”. Pai e filha que acompanhamos são autômatas. Simbolizam, desta forma, a própria Humanidade. Afinal, quantas pessoas não “fazem todo dia tudo sempre igual”, como diria o Chico? Muitas, certamente. Agem sem pensar, sem realmente sentir os sabores, cheiros, nada. Seus corações pulsam por hábito, não por convicção.

Desta forma, acompanhamos pais e filhas, miseráveis. Mas a miséria deles está menos na ausência de móveis e de comida farta na mesa e muito mais na falta de carinho, de esperança, de emoção. Eles praticamente não trocam palavras. O único momento “verborrágico” no filme acontece quando a família “de dois” recebe a visita do vizinho Bernhard (Mihály Kormos). Ele fala sobre a destruição da “cidade” (certamente uma alegoria para “civilização”), e comenta sobre a responsabilidade “deles” (das pessoas que integravam essa civilização) na própria destruição. Aí está o tratado do filme. De que o cataclismo que assistimos não é algo “divino” (Nietzsche dizia que o homem teve que inventar Deus), mas um efeito do vício pelo julgamento, mais a cobiça e a ganância dos homens e mulheres que integram as diferentes sociedades. “Porque tudo que eles tocam, e eles tocam tudo, foi degradado”, diz o personagem.

Quem lê o resumo anterior, pode achar que o filme é inteligente, interessante. Até que a crítica é pertinente. Mas a forma de apresentá-la é excessiva. Para nos mostrar o que ele nos mostra, A Torinói Ló poderia ter 30 minutos de duração. E não duas horas e 46 minutos! Mesmo provocando um desejo irrepreensível de deixar de assistí-lo pela metade e, nos insistentes, uma vontade de dormir profunda, este filme tem algumas particularidades interessantes. Primeiro, que mesmo não “acontecendo muita coisa” no filme, o diretor nos mostra maneiras diferenciadas de “prender” a atenção e/ou variar a narrativa de forma simples. O “eles fazem tudo sempre igual” se mostra diferente com uma simples variação de câmera. Em um momento, acompanhamos a rotina da filha vestindo o pai por um ângulo. No outro dia, acompanhamos o mesmo, mas por outro ângulo. E isso, mais um ou outro detalhe, é o que fazem o filme não ser uma repetição permanente. Há uma certa variação no ar, ainda que ela seja restrita.

Primeira parte da produção: clima inglório, sacrifício, os mais fracos (simbolizados pelo cavalo) explorados até o osso pelos mais fortes (dono do cavalo). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois, ela segue mostrando que o cataclismo não iria ceder. Pelo contrário. E como as pessoas lidam com isso? Pelo que mostra o filme, fazendo o mesmo. Não mudam a sua rotina. Depois de um tempo, tentam uma saída, mas já sem chance alguma de conseguir um resultado diferente do desastre. Retornam. Escutam o pior – o que contribui para a decisão de buscar uma saída -, mas se fazem de surdos. Depois, quando agem, descobrem que o pior está acontecendo. O cavalo é o primeiro a perceber que aquela forma de vida havia terminado. Mas pai e filha continuam. Antes, recebem a visita de “bárbaros”. Pessoas que eles não entendem. A quem eles temem. Mas que podem, eles sim, encontrar uma saída – até porque acreditam que ela existe. Em seu caminho, vão encontrando e intensificando a destruição. E, no final, os protagonistas decidem seguir com a vida quase igual (exceto pelo contato com o exterior, que fica impossibilitado). Mas descobrem suas próprias limitações e que, sem esse contato com o exterior, eles não vão conseguir sobreviver.

O filme é angustiante. Sonolento. Primeiro, pela falta de ação. Depois, pela repetição do que acontece. E, finalmente, pela decadência da humanidade simbolizada pelos protagonistas. Entendo que o filme foi feito da maneira que foi justamente para provocar estes sentimentos no espectador. Mas francamente? Não acho que você precise colocar alfinetes sob as unhas de alguém para fazê-lo sentir dor. Há outras formas, mais interessantes, para fazer alguém ficar angustiado. Não recomendo, pois, A Torinói Ló para ninguém. Há muitas e muitas outras produções mais bacanas para serem assistidas.

NOTA: 3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Logo que terminei de assistir a esse filme, fiquei pensando que nota dar para ele. Provavelmente, “no calor da hora”, teria dado uma nota ainda mais baixa que este 3. Mas resolvi dar a nota acima em homenagem ao cavalo – gostei muito dele – e pela ousadia dos diretores. Afinal, é preciso ter coragem para lançar um filme como este hoje em dia, no ano 2011. Também gostei dos atores principais, ainda que eles tenham me dado sono. Eu teria aceitado melhor o que eu vi se eu estivesse em um teatro – onde, provavelmente, eu daria um cochilo, aqui e ali. Além do mais, a nota se justifica pela “dificuldade” de algumas cenas, especialmente pela intensificação da tempestade. Foi bem feito.

Os principais responsáveis pelo filme, além dos diretores já citados, são os roteiristas. Ainda que eles não tiveram muito trabalho para escrever diálogos – poucos estão espalhados pela produção -, eles são os “culpados” pela dinâmica e essência da história. O diretor Béla Tarr assina o texto junto com László Krasznahorkai. A direção de fotografia em preto e branco, esta sim, trabalhosa e que merece 15 segundos de palmas, é assinada por Fred Kelemen. E a trilha sonora, muito pontual – restrita à abertura, essencialmente, leva a assinatura de Mihály Vig.

Eis um filme fácil de conduzir… afinal, ele tem, basicamente, dois atores. Um único cenário. Por isso mesmo, vale a pena citar a dupla de protagonistas: János Derzsi interpreta ao pai de Erika Bók.

Uma curiosidade: A Torinói Ló foi rodado totalmente na cidade de Budapeste, na Hungria.

O filme de Tarr e Hranitzky estreou no Festival de Berlin em fevereiro deste ano. Depois, ele participou de outros 13 festivais e mostras. Nesta trajetória, ganhou quatro prêmios: o Urso de Prata como melhor filme segundo os jurados do Festival de Berlin e o Prêmio FIPRESCI no mesmo evento; e dois prêmios Golden Camera 300 para o diretor de fotografia Fred Kelemen no Festival Internacional de Cinema Brothers Manaki, promovido na cidade de Bitola, na Macedônia.

E outra curiosidade sobre o filme: A Torinói Ló é uma co-produção da Hungria, da França, da Alemanha, da Suíça e dos Estados Unidos.

Para a minha surpresa, A Torinói Ló registra uma ótima nota no site IMDb: 8,3. Muito, muito acima do que eu acho que o filme mereça – por mais “artístico” que ele seja, no fim das contas, ele é apenas chato e longo demais. Apesar de todas as suas intenções… mas ele funcionaria muito melhor no teatro. Mas não são apenas os usuários do site IMDb que acharam esse filme mais interessante do que eu achei. Não há muitas críticas linkadas no site Rotten Tomatoes. Mas dos textos que podem ser acessados lá, seis são positivos e dois, negativos. O que garante para a produção uma aprovação de 75% – e uma nota média de 7,6.

CONCLUSÃO: Representante da Hungria no próximo Oscar, A Torinói Ló deveria render uma estatueta dourada para cada pessoa que consegue assistí-lo até o final. Porque é dura, bastante complicada esta tarefa. A premissa do filme é interessante: mostrar a decadência da Humanidade através da exploração criativa de um fato ocorrido com Nietzsche. Mas francamente, não era preciso tanta angústia, tanta tortura para o espectador. Planos infindáveis, um estilo de cinema de extremo realismo, ao ponto de sobrarem silêncios e expectativas. Palmas para quem conseguir assistir este filme até o final e, principalmente, para aqueles que gostarem do que acabaram de ver. Da minha parte, achei esta produção excessivamente pretensiosa, cansativa. Talvez rendesse um curta. Mas jamais um longa.

PALPITES PARA O OSCAR: A Torinói Ló representa a Hungria na disputa por uma vaga no Oscar. Francamente? O filme pode agradar aos críticos e a uma parte dos espectadores. Mas não acho que ele tenha qualquer vocação para chegar entre os finalistas do Oscar. E muito menos levar a estatueta para casa. Acredito que ele ficará de fora da lista dos cinco e, consequentemente, não terá chances de ganhar o prêmio. Se isso acontecer, será uma boa revolução na premiação que, pela primeira vez em muito tempo, premiaria um filme artístico, conceitual e nada popular.

Les Amours Imaginaires – Heartbeats – Amores Imaginários

21 de novembro de 2011 7 comentários

Ah, a doce ilusão do amor… Doce, sensual, cheia de artifícios, provocante, ilusória, dolorida. Les Amours Imaginaires trata destes elementos e deixa circular, em sua medula, alguns destes contos que certas vezes inventamos para nós mesmos. Com um texto muito bem escrito, uma trilha sonora deliciosa, atores ótimos e muito estilo, este filme do diretor e roteirista Xavier Dolan revela-se um deleite. Inventivo, com um ritmo que equilibra diálogos acelerados com muitas e muitas cenas em câmera lenta, Les Amours Imaginaires chega a roçar a perfeição. Mas não atinge o lugar mais alto entre os filmes porque não vai além da reflexão irônica e cai na facilidade de algumas repetições.

A HISTÓRIA: O filme começa com uma frase de Alfred De Musset: “A única verdade é o amor para além da razão”. Em seguida, começam os “depoimentos” de pessoas que se iludiram com o amor e se entregaram completamente à história mal fadadas. Sotaques diferentes, maneiras distintas de encarar o engano, trejeitos curiosos e narrativas que fazem rir ou pensar começam a surgir na tela. Até que o estilo “documentário” abre passo para a crônica de um equívoco. Conhecemos Nicolas (Niels Schneider), um sujeito do interior que se mudou há pouco para a cidade e que, em um encontro entre amigos, se destaca pela vivacidade e beleza. Imediatamente ele desperta o interesse dos amigos Marie (Monia Chokri) e Francis (Xavier Dolan). Aí começa um jogo de flertes, de atração que vai enredando os amigos cada vez mais, fazendo-os competir até o momento em que eles enfrentam a realidade do que está acontecendo e buscam uma solução e um caminho a seguir.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Les Amours Imaginaires): Quando uma pessoa está aberta ao amor e ao romance, é fácil equivocar-se. Os sinais mais idiotas parecem significativos. Frases de duplo sentido podem ganhar justamente o significado que a imaginação (e a libido) deseja. E o mais irônico de tudo isso é que a pessoa equivocada pode viver intensamente um amor de mão única – já que o outro nem ao menos percebe o que está acontecendo.

Les Amours Imaginaires é um filme bem escrito e com muito estilo que conta algumas destas crônicas do engano. Pontuando “depoimentos” que lembram as conversas com a câmera de um documentário com a narrativa de um trio amoroso fantasioso, este filme do diretor, roteirista e ator Xavier Dolan é um deleite para os olhos. Primeiro, pelos atores, belos e carismáticos. Depois, pela escolha que Nolan faz de cada cena. Esforçados na conquista, os atores principais – especialmente os personagens de Marie e Francis – sabem escolher as suas “armas”. Se vestem e se portam muito bem. E os ângulos escolhidos pelo diretor, assim como o ritmo lento que ele imprime volta e meia para ressaltar a beleza das pessoas e dos lugares, torna as cenas ainda mais prazerosas de serem assistidas.

O mérito das belas imagens também deve ser compartilhado com a diretora de fotografia Stéphanie Anne Weber Biron, que faz um belíssimo trabalho. Cineasta autoral, Dolan responde por quase todos os outros aspectos do filme – além dos já citados, ele assina também a edição, o figurino, a direção de arte e a produção de Les Amours Imaginaires. O que apenas aumenta a sua pontuação, já que a edição e a fotografia, assim como a direção e o roteiro, são os pontos fortes do filme. Junto com a fotografia e a trilha sonora. Falando nas músicas, três dominam a produção: a fantástica (e que me fez dar pequena risadas cada vez que tocava nesta produção) Bang Bang, de Dalida; Keep the Streets Empty for Me, de Fever Ray; e Pass this On, de The Knife. Todas inseridas em momentos especiais, fazendo com que elas ganhem uma relevância interessante na produção.

Mas falemos da história… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas logo nos primeiros minutos eu percebi o engano de Marie e Francis. Era evidente que Nicolas era apenas um bom garoto, simpático e comprometido na missão de fazer novos amigos. Nada mais. Mas para Marie e Francis qualquer gesto, convite, sorriso de Nicolas parecia um indicativo de algo poderia rolar a qualquer momento. Mas não… pura ilusão. Quem dera que nós, quando vivemos a mesma situação que eles, em algum momento da vida – e sorte de quem nunca passou por isso -, tivéssemos a mesma visão clara das coisas. Mas daí não nos enganaríamos nunca com o amor. E acho que até esse erro é válido – não para que nunca mais tropecemos outra vez, mas para percebermos que não somos tão “inacessíveis” ao equívoco como, algumas vezes, tentamos acreditar. A ilusão amorosa que, mais cedo ou mais tarde, passa fatura e faz com que nos sintamos mal, no fundo de um poço imaginário (também), também serve para entendermos as nossas limitações. E superá-las.

Uma questão importante, e que Les Amours Imaginaires deixa muito claro, é que a pessoa tem que estar muito, mas muito propensa a encontrar um amor para que o seu equívoco seja igualmente imenso. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Marie e Francis, mesmo sem admitir – e eles jamais admitiriam, porque querem parecer sempre muito “senhores” de si mesmos – estão desesperados para viver um grande amor. E eles caem no lugar-comum que as novelas, filmes, romances das mais variadas fontes querem fazer os seus consumidores (nós) acreditar: que só existe um grande amor. E que ele será único, imenso, totalmente diferenciado dos demais. Que ele nos fará perder o chão, as estribeiras, a razão. Ok, amores assim existem. Mas eles acontecem, surgem e se consolidam sem esperarmos. O problema nasce quando esperamos e desejamos tanto que isso aconteça que, no fim das contas, inventamos um amor assim com sinais falsos. É isso o que acontece com Marie e Francis.

Ao mesmo tempo, e isso é o supra ironismo do filme, o casal de amigos vive os seus romances ordinários – que poderiam ser também grandes amores, se eles estivessem dispostos a dar valor para o comum. Mas não, eles querem o cara mais bonito do grupo. Aquele que, quando sorri, ilumina a sala, a rua, a cidade. Eles querem o “Adonis” da turma. E para que? Ele seria uma espécie de troféu? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aliás, no início não fica tão evidente a disputa pessoal entre Marie e Francis. Mas pouco a pouco essa queda de braço deles vai se tornando mais evidente, ao ponto do “grand finale” tornar as ações dos amigos previsíveis e ridículas. Se ele não fosse gay – mas daí eles também não disputariam uma conquista -, eu diria que eles deveriam resolver essa questão na cama. :)

Há uma cena específica do filme que me chamou a atenção: quando Marie não esconde o desprezo do parceiro de cama quando ele pergunta se ela pensa em atores do cinema enquanto transa com alguém. Mesmo dizendo que quando está com ela ele não faz isso, ele admite que pensa em atrizes quando está com outras pessoas.

Achei o diálogo e esta cena especialmente irônicos – como vários outros pontos da produção – porque eles revelam o contrasenso da protagonista. Enquanto ela demonstra desprezo pelo sujeito que lhe dá prazer, apenas sexual, ela está fazendo o mesmo que ele, pensando em outra pessoa enquanto eles estão envolvidos. No caso dela, no lugar de um ator, está Nicolas.

Essa cena é bastante ilustrativa por duas razões: mostra o contrasenso e a hipocrisia das pessoas que se consideram muito racionais e acima de qualquer suspeita, como é o caso de Marie e Francis, ao mesmo tempo em que registra uma das piores experiências de quem está obcecado por uma história de amor imaginária. Estar com alguém, pele com pele, e pensar no amor impossível/imaginário é o ocaso do amor. Um alarme deveria tocar toda vez que isso acontece. :) E sobre o contrasenso do “super-racional”, vejo como a única solução a humildade e a autocrítica para perceber-se em uma cilada.

Pessoas inteligentes, pragmáticas, consideradas “cool” e sensíveis não estão alheias aos erros do amor. Da mesma forma como não estão vacinadas para “bicho de pé”. :) Acreditar que sim é excesso de confiança. O mais engraçado, e Les Amours Imaginaires sugere isso, é que mesmo os mais racionais, exemplificados por Marie, não evitam o erro – e a repetição dele. Eles podem até perceber o rolo em que estão se metendo antes, mas não parecem ser capazes de sair da espiral ilusória.

Como tudo, inclusive no amor – real ou imaginário -, o que marca a diferença é a postura. A escolha. Cair no engano talvez seja inevitável. Mas perdurar nele é sim uma questão de escolha. Da mesma forma com que abrimos as portas e as janelas para um relacionamento, podemos escolher como e para quem deixar estas oportunidades abertas. Algumas vezes, por pressa ou excesso de determinação, “metemos a pata”, entendemos os sinais errados e, após a identificação do problema, seguimos dando murro em ponta de faca.

Saber onde buscar e, principalmente, entender que não é em outra pessoa que vamos encontrar o que nos falta, faz toda a diferença. Há pressões sociais, da idade, dos hormônios, das expectativas surgidas de várias partes para que nos lancemos. Mas algumas vezes o que pode marcar a diferença é fazer ouvidos “surdos” para todo esse vozerio e escutar um som muitas vezes abafado, interior. Ter paciência, distanciar-se e escutar o que nos importa. Preencher os vazios com o que importa e que não precisa de nenhuma “alma gêmea”, como nos vendem todos os manuais da “felicidade”. O amor é fundamental. Mas o real, que pode ser vivido de diferentes maneiras e com distintas pessoas. O imaginário serve apenas para experiências pessoais ruins e para fazer-se bom cinema.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Xavier Dolan é um fenômeno. Aos 22 anos, o filho do ator Manuel Tadros contabiliza sete filmes, três curtas e três séries de TV no currículo como intérprete. Em 2009, ele estreou na direção e como roteirista com o elogiado J’ai Tué Ma Mère. A segunda tacada dele autoral é este divertido Les Amours Imaginaires. Para o próximo ano, está previsto o seu terceiro trabalho como roteirista e diretor, Laurence Anyways. Dolan é um nome a ser acompanhado, pois.

Alguns dos “depoimentos” que aparecem no filme se mostram mais interessantes que outros. Gostei, em especial, do texto e do desempenho da primeira atriz que aparece em cena, magra e com óculos, Anne-Élisabeth Bossé. Ela é maravilhosamente descontrolada e obcecada por seu “amado”, Jean-Marc. Irônica, um tanto surtada, ela demonstra como uma pessoa “séria e inteligente” pode ficar descontrolada por causa de um amor – ou seria apenas obsessão? Gostei também do segundo garoto, interpretado por Olivier Morin, que introduz o tema da Escala Kinsey sobre a sexualidade. Nunca é demais citar o pesquisador polêmico.

Um dos trechos dos “depoimentos” me pareceu especialmente interessante. Aquele dito pela personagem de Magalie Lépine Blondeau. Ela narra o fim de seu relacionamento e fala, lá pelas tantas: “… Estava acabado. Claro que, no começo, não queríamos admitir porque nos sentíamos mal, entende? A mudança, o transporte, todas essas coisas. Isso é jogar muita grana fora. Ao mesmo tempo, ‘meu homem está ganhando bem, agora ele pode ir se danar’. É como se nós estivéssemos… e quando digo ‘nós’, falo por mim. Eu… para mim, eu era apaixonada pelo tipo de amor que tivemos. (…) Isso não existe. O que se ama é o conceito. Você ama mais o conceito do que a ele. É a distância que você ama, mas, quando não há mais distância, quando não há mais oceano para atravessar, e o que há para atravessar é um corredor, enfim… está acabado agora”. E eis um dos pontos fundamentais… muitas vezes, não amamos ou estamos obcecados por uma determinada pessoa, mas pelo conceito de uma certa história de amor. Que, muitas vezes, para completar, é apenas imaginada.

Todos os atores que aparecem nesta produção fazem um grande trabalho, mas babei, em especial, no trio de protagonistas. Além de ótimo e inspirado diretor/roteirista, Dolan faz um grande trabalho como ator. Mas o destaque, sem dúvida, vai para Monia Chokri. Ela dá um show!

Les Amours Imaginaires custou, aproximadamente, 600 mil dólares canadenses (cerca de R$ 1,04 milhão). O filme não conseguiu emplacar nas bilheterias de seu país de origem, o que sempre é ruim. Segundo o site IMDb, a produção acumulou pouco mais de 411 mil dólares canadenses nos cinemas. Nos Estados Unidos, onde Dolan é conhecido quase que apenas nos circuitos alternativos, o filme teve um desempenho pífio: acumulou pouco menos de US$ 63 mil. Nada, comparado com qualquer filme mediano made in USA. Mas o fato dele ter ficado restrito a, no máximo, seis cinemas, ajuda a explicar esse resultado. Uma pena o filme ter sido ignorado desta maneira.

A estreia de Les Amours Imaginaires ocorreu no Festival de Cannes em maio de 2010. Depois de participar do evento, ele percorreu ainda 30 festivais e mostras pelo mundo. Um número impressionante e que torna a produção de Nolan uma espécime legítima de “filme de festival”.

Nesta trajetória, Les Amours Imaginaires ganhou três prêmios e foi indicado a outros oito. Entre os que levou para casa, estão os prêmios Regards Jeunes do Festival de Cannes; o de melhor fotografia no Festival Internacional de Cinema de Hamptons; e um prêmio especial no festival canadense Jutra por ter sido o filme do país melhor sucedido fora de Quebec.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para a produção. Achei uma nota muito baixa, mesmo para os padrões exigentes de quem está inscrito e vota no site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos: dedicaram 48 críticas positivas e 18 negativas para Les Amours Imaginaires – o que lhe garantiu uma aprovação de 73% (e uma nota média de 6,9).

Um dos críticos linkados no Rotten Tomatoes que escreveu um texto negativo para o filme de Dolan foi Steven Rea, do Philadelphia Inquirer. Na parte conclusiva de sua crítica, Rea disse que, “infelizmente, apesar de que Heartbeats seja muito bonito de se ver, ele não mostra muita coisa acontecendo, afinal”. Tenho que concordar com ele. Esse certo “vazio” narrativo – ou uma certa previsibilidade da história, apesar do visual surpreendente e interessante – me impede de dar a nota máxima para a produção. Apesar de muito bem acabado e interessante, este filme carece de um pouco de conteúdo, apesar das aparências. Rea segue escrevendo que, para preencher as relações melancólicas do trio de protagonistas, o diretor utiliza depoimentos ao estilo de documentário. Mesmo criticando Les Amours Imaginaires, Rea afirma que Dolan é um talento que merece ser assistido – e que promete melhorar conforme for amadurecendo.

O crítico Wesley Morris, do Boston Globe, foi um pouco mais generoso em seu texto. Ele comenta que o filme de Dolan “transforma” uma premissa “slim – dois rapazes, uma garota e uma cidade – em um desfile de passeios slow-motion e olhares saudosos”. No momento mais decisivo de seu texto, Morris afirma que o “ardor” de Les Amours Imaginaires “não está na perseguição de Marie ou Francis por Nicholas (ou na perseguição de Nicholas por eles) mas no frescor desta perseguição feita pela filmagem de Dolan. Estas situações conhecidas parecem novas para ele. Enfim, o trágico e incrível sobre a atração é como ela faz uma lavagem cerebral para que seja possível acreditar que ela é tudo que existe”. Tenho que concordar com ele. Les Amours Imaginaires é um filme que funciona porque o olhar de Dolan lança vivacidade e inovação em uma história conhecida. Eis seu mérito principal.

CONCLUSÃO: Esse filme deverá despertar o amor e a ira/impaciência de gregos e troianos. Os primeiros, que já se equivocaram verdadeiramente e com apetite no amor alguma vez na vida, darão risadas, vão entender cada uma das piadas e ironias finas de Les Amours Imaginaires. Os segundos, muito racionais, acharão as histórias retratadas pelo filme coisa de “gente tonta”, não encontrarão sentido no filme, porque tem a “certeza” que jamais se iludiriam com sinais inexistentes de interesse por parte de outra pessoa. Paciência. Como eu estou com os gregos e já me equivoquei no amor, fantasiando sinais que não existiam – e dando importância demais para palavras ditas sem pensar -, assisti a este filme me deliciando. Independente se você é grego ou troiano, recomendo que assista a esse filme sem grandes pretensões, sabendo que ele é uma crônica das histórias de muitas pessoas – e lembre que nem sempre o cinema precisa representar a sua história; então faça um esforço para conhecer a de outras pessoas (isso sempre faz bem e amplia horizontes). Bem dirigido, com uma escolha cuidadosa de ângulos de câmera e ritmo para a história, Les Amours Imaginaires consegue um belo equilíbrio entre um ótimo texto e imagens preciosas, com muito estilo. Ele só não é perfeito porque acaba excedendo nas sequências de câmera lenta e não ultrapassa a fronteira de uma crônica divertida dos enganos amorosos – faltou aquela cereja do bolo. Mas nada que tire a graça do filme, que vale a pena ser visto.

Inside Job – Trabalho Interno

15 de novembro de 2011 4 comentários

Vivemos ainda na sombra de 2008. Não tivemos um ano tão decisivo neste novo milênio do que aquele em que bancos colapsaram e uma crise econômica ainda sem fim ganhou forma e fôlego. Ok, tivemos 2001 e os ataques terroristas nos Estados Unidos, que trouxeram uma onda de medo e represálias. Mas se analisarmos o que teve um efeito multiplicador mais extenso, com a capacidade de afetar a vida de todas as pessoas, direta ou indiretamente, no mundo inteiro, sem dúvida foram os eventos que começaram antes de 2008, mas que naquele ano se mostraram evidentes com todas as suas garras. O documentário Inside Job, ganhador do último Oscar, tenta explicar um pouco do que aconteceu em 2008. As causas da crise financeira e econômica que continua até hoje. Um filme ousado, que dá nome aos bois, mas que nem por isso consegue explicar o quadro inteiro do problema.

A HISTÓRIA: Cenas da Islândia. E dados sobre o país: população, 320 mil; produto interno bruto, US$ 13 bilhões; perdas bancárias, US$ 100 bilhões. Um país que servia como exemplo para o mundo por sua democracia estável, pelo alto padrão de vida dos habitantes e pelo baixíssimo nível de desemprego e dívida pública e que viu este quadro mudar nos últimos anos. O filme começa mostrando como a situação na Islândia foi se deteriorando. Mostra as decisões políticas fundamentais para que isso acontecesse, iniciadas no ano 2000. As políticas de desregulamentação adotadas pelo governo e a privatização dos três maiores bancos do país foram um divisor de águas na história da Islândia. Depois de mostrar cenas com belezas naturais do país, a exploração da multinacional Alcoa de parte destes recursos, o filme mostra manifestações da população indignada de setembro de 2008. O diretor explica que os três bancos privatizados, que nunca tinham operado fora do país, em cinco anos emprestaram US$ 120 bilhões, 10 vezes a economia da Islândia. Criaram novos ricos da noite para o dia, sem critério. Inflacionaram o mercado, criando bolhas de valorização irreal – multiplicando o preço de ações e o valor dos imóveis. O exemplo da Islândia serve de ponto de partida para mostrar a onda que se espalhou por diversas economias, baseada nos mesmo princípios, e que contaminou o mundo, nos levando a maior crise econômica da história desde a quebra da Bolsa de Nova York em 1929.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Inside Job): Onde há fumaça, há fogo. Essa parece ser a leitura mais óbvia da primeira cena de Inside Job. O diretor e roteirista Charles Ferguson tenta mostrar o que se esconde por trás da cortina de fumaça. E consegue, mesmo que em parte. Ele dá nome a muitos responsáveis pela crise financeira e econômica desencadeada em 2008, mas senti falta dele aprofundar-se mais. Não apenas entrevistando muitos destes responsáveis ou pessoas próximas a eles, mas também em ampliar um pouco mais o foco. Ficaram de fora deste filme, por exemplo, os especuladores individuais ou corporativos.

Mesmo assim, descontadas estas “ausências”, eis um grande filme. Especialmente por seu caráter didático e pelos entrevistados interessantes que o diretor conseguiu abarcar. Na parte da Islândia, ele entrevista a Gylfi Zoega, professor de Economia da Universidade da Islândia; Andri Magnason, escritor e cineasta; e Sigridur Benediktsdottir, integrante do comitê especial de investigação do Parlamento da Islândia. Eles fazem uma leitura concisa do impressionante o efeito devastador que a crise teve naquele país. Depois que os bancos locais quebraram, no final de 2008, o desemprego no país triplicou em seis meses. Triplicou! Ok que a Islândia é um país com uma população “pequena”, de 320 mil habitantes, mas já imaginaram o desemprego triplicar, seja no coletivo que for, em apenas seis meses? Impressionante.

Mas como afirma Zoega em um trecho de sua entrevista, o que aconteceu na Islândia ocorreu também em outros países. Como Nova York, por exemplo. E a partir daquela introdução islandesa, Inside Job se concentra na crise dos Estados Unidos. Entra na mira de Ferguson entrevistados como Paul Volcker, presidente do Banco Central dos Estados Unidos; Dominique Strauss-Kahn, então diretor geral do FMI; George Soros, um dos maiores investidores (e bilionários) da História; Barney Frank, presidente do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos; David McCormick, sub-secretário do Tesouro da administração Bush; Scott Talbott, lobista chefe para o Financial Services Roundtable; Andrew Sheng, chefe da assessoria da comissão regulatória do Banco Chinês; Lee Hsien Loong, primeiro ministro de Cingapura; Christine Lagarde, então ministra de Finanças da França; Gillian Tett, editora do The Financial Times; Nouriel Roubini, professor da New York University Business School; Glenn Hubbard, conselheiro econômico chefe da administração Bush da Columbia Business School; Eliot Spitzer, governador de Nova York; Samuel Hayes, professor emérito da Harvard Business School; entre outros.

A lista fala por si mesma. O diretor conseguiu entrevistar pessoas de renome e importantes para a história recente da crise econômica. Mas várias outras pessoas ficaram de fora – representantes de alguns dos principais culpados listados pelo diretor, como políticos que fizeram as mudanças de legislação necessárias para que houvesse a possibilidade de uma crise financeira; representantes de bancos que criaram produtos questionáveis e incentivaram os seus investidores a aplicar suas economias neles; responsáveis por empresas de auditoria e agências de classificação de crédito americanas que deram notas de confiança irreais, assim como reguladores do governo que não fizeram bem o seu papel. Impossível não sentir falta desta gente falando – e lembrar do estilo escrachado de Michael Moore em fazer isso, ainda que, muitas vezes, sem o efeito desejado.

Algo positivo em Inside Job é o ritmo do filme. Dinâmico, com uma ótima trilha sonora, o filme vai da Islândia, passando pela apresentação dos principais entrevistados da produção, até as cenas dos noticiários de várias partes do mundo no fatídico dia 15 de setembro de 2008, quando o banco de investimento Lehman Brothers quebrou e o Merrill Lynch foi posto à venda, em apenas 10 minutos. Palmas para a percepção de ritmo e de introdução do diretor, em um trabalho conjunto com os editores Chad Beck e Adam Bolt e a trilha sonora de Alex Heffes. Segundo a narrativa do ator Matt Damon, o resultado imediato da quebra do Lehman Brothers e o colapso da maior companhia de seguros do mundo, a AIG (American International Building) desencadeou a crise financeira global. Que, em outras palavras e de forma mais prática, resultou em uma recessão global “que custou ao mundo dezenas de trilhões de dólares”, deixando “30 milhões de pessoas desempregadas e dobrou a dívida nacional dos EUA”. Como resume Roubini, o custo prático pode significar 15 milhões de pessoas no mundo voltando (ou entrando pela primeira vez) para a linha abaixo da pobreza.

O diretor Ferguson defende – porque todo documentário é a defesa de uma ideia, de uma tese – que esta crise e o seu alto custo que ainda está sendo pago não foi acidental. No documentário, ele tenta explicá-la e, principalmente, encontrar alguns de seus culpados. Acho importante esse tipo de trabalho, mesmo quando ele se mostra parcial – não no sentido de defesa de tese, porque todo filme é assim, mas por não mostrar o quadro completo do problema, e sim apenas parte dele. Isso porque não é sempre que um diretor consegue fazer um trabalho lógico, didático e que tenha também a coragem de expor pessoas, empresas e instituições. Palmas para Ferguson. E também para a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que conferiu um Oscar para este filme – colocando-o ainda mais em evidência.

Ferguson argumenta que a crise foi “causada por uma indústria fora de controle”. Ele se refere ao sistema financeiro. Na primeira parte do filme, ele mostra “como chegamos até aqui” e, depois, começa a apontar alguns dos responsáveis por todo esse problema. O bacana desta forma de narrar escolhida por Ferguson é que ela faz um rápido repasse histórico, mostrando como os Estados Unidos avançaram após a Grande Depressão. Apenas por isso, Inside Job é um filme importante e que poderá ser utilizado nas escolas, universidades e similares. Não como ponto final na discussão mas, provavelmente, como um elemento a mais para ela. Algo positivo em Inside Job é o espectador ter acesso a alguns dos melhores especialistas em sistemas financeiros e lógica de mercado do mundo. Além da rápida aula de história, podemos entender um pouco melhor como foram feitas as desregulamentações de mercado e de que forma surgiram os novos produtos oferecidos pelo sistema financeiro – a diferença deles com os anteriores.

Importante também a forma com que Ferguson demonstra as relações de poder e a “contaminação” de diferentes governos dos Estados Unidos por interesses de banqueiros e executivos do sistema financeiro. As “relações perigosas” são colocadas às claras. Com isso, o espectador passa a prestar mais atenção em informativos e estudos divulgados por determinados bancos e agências contratadas por eles, por conglomerados financeiros ou companhias de seguros. Uma mudança fundamental, segundo a tese de Ferguson, que permitiu a crise financeira e global foi a desregulamentação de derivativos e outras inovações financeiras a partir dos anos 2000. O diretor mostra como o sistema financeiro ficou mais “rentável, concentrado e poderoso” a partir dos anos 2001, e lista quem concentrava todo este poder: os bancos de investimento Goldman Sachs, Morgan Stanley, Lehman Brothers, Merrill Lynch e Bear Stearns; os conglomerados financeiros Citigroup e JP Morgan; as companhias de seguros AIG, MBIA e AMBAC; e as três agências de classificação de risco Moody’s, Standard & Poor’s e Fitch.

O diretor explica como funciona a “cadeia alimentar da titularização, um novo sistema que ligava trilhões de dólares de hipotecas e outros empréstimos com investidores em todo o mundo”. Com exemplos simples, Ferguson mostra como o sistema financeiro mudou o seu sistema de atuar, tornando o capital muito mais inseguro do que em qualquer outra época histórica. Consequentemente, ele trata da bolha imobiliária nos Estados Unidos – mesma lógica vista na Espanha e em outras partes e que pode continuar acontecendo se não forem estabelecidas regras e limites muito claros. De fato, muita gente ganhou muito dinheiro com toda essa crise e caos, ao custo do emprego e das rendas de tantas e tantas outras pessoas ao redor do mundo – algumas co-responsáveis, por assim dizer, porque aplicaram os seus investimentos em opções de alto risco, mas outras que nunca tiveram nem a possibilidade de fazer isso porque nunca tiveram sobra de capital para tanto.

Muito interessante a forma com que Ferguson nos conta essa história, utilizando de recursos diversos, desde bancos de imagens – fotografias e vídeos – até gravações em áudio e a reprodução de documentos importantes. Boa parte das pessoas, empresas e instituições que ele não conseguiu entrevistar “aparecem” no filme por meio destes recursos. Na verdade, Inside Job é uma aula de como fazer um documentário com poucos recursos – e de que não conseguir todas as entrevistas que se gostaria não é uma justificativa para desistir de um projeto. E mesmo deixando parte dos “culpados” e da lógica econômica mundial de fora, ele faz um bom trabalho. Até porque poucos filmes, até agora, se dedicaram a mostrar as relações de interesse envolvendo o sistema financeiro e os políticos, por exemplo, e de como todo (ou quase todo) o sistema de decisão, que deveria ser democrático e pensar no interesse da maioria, está contaminado pelo interesse de alguns poucos. Eis um importante soco no estômago e que deve fazer as pessoas repensarem algumas lógicas e em quem confiar.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Antes de filmar Inside Job, o diretor Charles Ferguson havia feito apenas um outro trabalho: No End in Sight, de 2007. Sua estréia na direção (a qual eu ainda não assisti) faz um exame crítico da administração Bush no que se refere à invasão do Iraque. Estampando a nota 8,3 no site IMDb, No End in Sight concorreu ao Oscar de 2008 – mas perdeu a estatueta para Taxi to the Dark Side. Na época, Ferguson não apenas recebeu ótimas notas e elogios, mas também conseguiu oito prêmios – incluindo um prêmio especial do júri do festival de Sundance. Uma bela estreia, pois.

O êxito de Inside Job foi diferente. Em sua trajetória, o filme conquistou menos prêmios que a produção anterior de Ferguson, “apenas” seis. Mas levou para casa, diferente do outro filme, o Oscar. E como o mundo inteiro olha para o Oscar, mais que para outras premiações… sem dúvida Inside Job levou vantagem. Além do Oscar, Inside Job ganhou os prêmios do Directors Guild of America (pelo trabalho como diretor de documentário), da Sociedade Nacional de Críticos de Cinema dos EUA, do Writers Guild of America (como melhor roteiro para documentário) e dos círculos de críticos de Nova York e Southeastern. Além destes prêmios, Inside Job concorreu a outros 11.

Francamente, e quem acompanha o blog sabe disso, neste último Oscar eu estava torcendo pelo documentário Exit Through the Gift Shop, dirigido por Banksy e Jaimie D’Cruz. Adorei o filme. E ainda que continue tendo uma “quedinha” maior por ele, por sua ousadia, inovação e humor, devo tirar o chapéu para Inside Job. Sem dúvida Ferguson faz um grande e importante trabalho. E como os dois filmes tratam de temas tão diferentes e de forma também diversa, fica difícil escolher entre um ou outro. Ainda assim, acho que pela importância da produção, Inside Job mereceu mais o Oscar do que Exit Through the Gift Shop. Pelo menos, com a estatueta, ele ganhou outra projeção – e provavelmente tenha chegado a muito mais pessoas do que se não tivesse ganho a estatueta.

Curioso que um filme tão detalhista tenha errado no início em dois momentos: na grafia dos nomes de Dominique Strauss-Kahn e Paul Volcker – que aparecem como “Dominque Straus-Kahn” e “Vocker”.

O mérito pelo roteiro competente de Inside Job é de Ferguson. Mas ele não fez o trabalho todo sozinho. Contou com a ajuda de Chad Beck e Adam Bolt. Além deles e dos outros profissionais citados, vale a pena comentar o trabalho competente dos diretores de fotografia Svetlana Cvetko e Kalyanne Mam.

Inside Job estreou em fevereiro de 2010 na Bélgica e, em maio, participou do Festival de Cannes. A produção passou ainda por outros nove festivais, incluindo os do Rio e de São Paulo. Nos Estados Unidos, a produção acumulou pouco mais de US$ 4,3 milhões nas bilheterias – o melhor resultado entre os documentários que concorreram ao Oscar deste ano. O melhor desempenho, atrás dele, foi de Exit Through the Gift Shop, que acumulou pouco menos de US$ 3,3 milhões nos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para Inside Job. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram bem mais generosos: dedicaram 131 críticas positivas e apenas quatro negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 97% – e uma nota média de 8,2, esta sim, similar àquela do IMDb.

CONCLUSÃO: Eis um filme necessário. Inside Job explica alguns conceitos difíceis e importantes da economia. Apresenta nomes, de pessoas, empresas e instituições que participaram do surgimento da crise financeira e econômica global. Por tudo isso, ele tem méritos. Mas ao focar a atenção apenas nos bancos e no sistema financeiro, o documentário não explica todo o quadro. A responsabilidade dos especuladores, de empresas e de outros atores do sistema econômico, assim como dos políticos e gestores de outros países fica de fora do foco do diretor Charles Ferguson. No fim das contas e tornando tudo mais simples, o centro da crise está no excesso de dinheiro entregue para pessoas sem condições de gestioná-lo. O capital descolado do material e do trabalho ganhou nos especuladores – individuais e empresariais – o seu elemento bomba. E o maior problema é que a essência do problema não foi alterada. Continuamos seguindo a mesma lógica. A dúvida é até quando. Inside Job está aí para explicar parte da origem destes problemas. Mas outros documentários serão necessários para explicar o quadro todo.

Submarino

24 de julho de 2011 7 comentários

Se tem um sujeito que sabe falar sobre famílias perturbadas e de como mesmo elas são fundamentais para a vida de qualquer pessoa, esse sujeito é o diretor e roteirista Thomas Vinterberg. Com Submarino, mais uma vez, ele nos surpreende com um texto potente, cenas de impacto, drama, dor, redenção e uma história sobre o sentimento que pode perdurar além de uma conjunção de erros. Este não é o melhor filme do diretor dinamarquês mas, ainda assim, não deixa de ser um bom filme. Interessante, em especial, pelo estilo de Vinterberg e pelas ótimas atuações do elenco principal.

A HISTÓRIA: A mão de um bebê está erguida, balançando pelo ar. Até que outra mão, maior e com as unhas sujas, segura a mão do bebê irriquieta. O jovem Nick (Sebastian Bull Sarning) elogia o bebê, enquanto o seu irmão mais novo (Mads Broe Andersen) beija o pequeno pezinho da criança. Os dois estão batizando o menino em uma tenda improvisada. Os irmãos cuidam do menino, já que a mãe deles chega em casa sempre bêbada, apenas para cair na cozinha e agredí-los. Uma certa noite, algo trágico acontece. O tempo passa, e vemos a Nick adulto (Jakob Cedergren), sem perspectivas, vizinho de Sofie (Patricia Schumann). Ele tenta ligar para o irmão, algumas vezes, mas não consegue falar nada. Um dia, enquanto caminha por uma calçada, um homem caído lhe chama pelo nome. É um antigo amigo, Ivan (Morten Rose), que tem problemas para se relacionar com as mulheres. Acompanhamos parte da vida de Nick, primeiro, para depois sabermos o que está acontecendo com o seu irmão mais novo (quando adulto, interpretado por Peter Plaugborg). Eles se distanciaram, perderam contato, mas mantêm elos indeléveis.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Submarino): Estranho, justamente hoje, quando o mundo lamenta a morte de Amy Winehouse, assistir a Submarino. Porque este filme fala de como a vida pode ser dura, pode ser pesada de carregar. Para alguns, Amy não suportou o fardo. Me junto a eles nesta avaliação. É verdade que a vida é feita de alegrias e de tristezas, mas parece que alguns só conseguem enxergar as tristezas pela frente. Quando a dor fala mais forte e as pessoas não conseguem superá-la, tragédias acontecem. Mas a vida também é feita de beleza, de encontros, sorrisos, de belas surpresas. Há quem enxergue na vida uma maldição, enquanto outros a enxergam como uma benção. A diferença entre uma visão e outra faz toda a diferença.

Em Submarino, filme com título sugestivo, os protagonistas vivem em seus próprios mundos, lidando com fantasmas do passado e tentando, passo por passo, fazer o melhor a cada dia. Só que quanto mais eles tentam, mais parece que eles se afundam em histórias complicadas. Mesmo assim, a mensagem permanente é que o laço entre os irmãos é mais forte que as suas tragédias pessoais. E que a família pode ser tanto a origem quanto o fim dos problemas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Agora, não deixa de ser curioso que o os filhos de Mona (Helene Reingaard Neumann) não conseguem superar o exemplo ruim dado pela mãe. Nick passa os dias bebendo e encontrar, em garrafas de cerveja ou de destilado, o consolo que parece não encontrar com as pessoas que o rodeiam. O irmão mais novo dele, curiosamente nunca nominado, é dependente químico. Nenhum adulto conhecido daquela família parece encontrar consolo sem um vício que possa lhes servir de muleta. Uma história que se repete em muitos lares, países e realidades mundo afora.

Mas nem tudo está perdido. Depois de mergulhar no inferno, ser preso e liberto, enfrentando o velório da mãe, Nick parece estar preparado para começar a viver a própria vida sem tanta dor. Ele tenta, ao menos. Ainda que para ele, assim como para o irmão mais novo, seja tão difícil falar dos próprios sentimentos. Uma característica de muitas culturas e pessoas, diga-se. Há muita gente que pode falar horas sobre temas supérfluos, mas que não conseguem sistematizar ou colocar lógica em suas próprias carências, problemas e necessidades. E como este filme de Vinterberg revela, de forma bastante contundente, enquanto não se encontra uma saída, a tendência é mergulhar no abismo, como um submarino.

Gostei da narrativa desenhada por Vinterberg e pelos outros roteiristas do filme, Jonas T. Bengtsson e Tobias Lindholm. Estamos acostumados a narrativas lineares, com histórias intercaladas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas em Submarino, as histórias dos irmãos são simultâneas apenas quando eles estão juntos. Quando estão separados, a escolha do trio de roteiristas foi a de debruçar-se sobre a história de um para, só depois, voltar alguns passos atrás para contar a história do outro. E o interessante é que a história do pai de Martin (Gustav Fischer Kjaerulff) não começa quando termina a de Nick, mas a narrativa “volta no tempo” para que acompanhemos o que aconteceu com o irmão mais novo do protagonista enquanto ele seguia o seu caminho errante. Uma escolha acertada e que resultou em algo bacana. Ainda assim, devo dizer que achei o filme um pouco arrastado. E também acho que a sequência final, que justifica o nome de Martin, era um tanto que desnecessária. O restante do filme teve momentos surpreendentes, interessantes, mas essa explicação já estava subentendida e era previsível. Submarino teria terminado de uma forma muito mais potente com o diálogo final entre Nick e o sobrinho Martin. Mas ok, certamente a explicação final cairá no gosto do público que gosta de tudo bem “mastigadinho”, sem espaço para dúvidas.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O início de Submarino é arrebatador. Pena que ele não continue com aquela veemência durante o restante do tempo. Quando a produção foca as lentes para os irmãos adultos, Submarino perde um pouco da força. Ainda assim, o filme se mantem interessante especialmente pelo talento dos seus atores principais. Jakob Cedergren e Peter Plaugborg dão um show de interpretação como os irmãos que lutam para sobreviver da melhor forma possível. E o garoto que interpreta a Martin também está muito bem. Eles seguram a produção, mesmo quando ela perde em potência. Quando Submarino volta a acelerar, ele não consegue, exatamente, emergir rápido para a superfície. Chega um pouco sem força. Ainda assim, ele vale a pena pelo estilo de Vinterberg.

Falando no estilo do diretor, ele segue com a aura do Dogma 95. Um estilo limpo, que acompanha os atores de perto, não poupa na intensidade das cenas e tenta ser o mais realista/documental possível. Em Submarino ele segue esta levada, mas com um estilo um pouco mais relaxado e menos “teórico” que em outras produções. O roteiro, com diálogos fortes, mas naturais, e tentando desvelar os meandros de uma família que tenta ser a mais realista possível.

Além da direção suave de Vinterberg, outros aspectos técnicos se destacam neste filme. Como a direção de fotografia de Charlotte Bruus Christensen, a trilha sonora bem equilibrada e inspirada de Kristian Eidnes Andersen e a edição da dupla Andri Steinn e Valdís Óskarsdóttir.

Os atores principais, que interpretam os personagens dos irmãos adultos, carregam o filme nas costas. Mas os meninos que interpretam os dois quando crianças e também o ator que interpreta a Martin fazem um belo trabalho. Sem eles, o filme teria sido bem menos interessante.

Submarino estreou em fevereiro de 2010 no Festival de Berlim. Depois, a produção passou por outros cinco festivais. Nesta trajetória, ganhou oito prêmios e foi indicado a outros 18. Entre os que levou para casa, destaque para os prêmios de melhor atriz coadjuvante para Patricia Schumann no Bodil Awards e melhor ator coadjuvante para Peter Plaugborg no Robert Festival.

Para quem ficou interessado em saber onde Submarino foi filmado, ele foi totalmente rodado em Copenhagen.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme. Para os padrões do site, esta é uma nota bastante boa. No Rotten Tomatoes, até agora, não foi linkado nenhum texto dos críticos que normalmente tem os seus trabalhos indicados pelo site.

Depois desta série de filmes “pesadinhos”, vou me lançar em uma comédia da próxima vez. Só para dar uma quebra na sequência de tragédias. :)

CONCLUSÃO: A vida está cheia de erros, e do preço caro que uma escolha equivocada pode nos cobrar. Em Submarino, dois irmãos tentam fazer a sua vida da melhor maneira possível, mas parecem ser incapazes de carregar um fardo pesado demais, vindo do passado. Não basta esquecer ou perdoar, é preciso fazer melhor. Eles tentam, mas nem sempre conseguem. E o que eles fazem em cada situação que dá errado é o que vai definir o capítulo seguinte de suas vidas. Depois de sobreviverem a uma mãe ausente, alcoólatra e à uma infância de escassez, os irmãos se distanciam. Para, adultos, voltarem a se encontrar em um local em que eles não poderiam ter previsto. Mesmo com tanta dor e tragédia na vida deles, sempre existe esperança e a possibilidade de algo diferente e melhor acontecer no final. Um filme bem feito, que ignora a narrativa linear e simultânea de dois personagens para optar pela história fragmentada de cada um. Mais um belo e envolvente trabalho do diretor e roteirista Thomas Vinterberg. Ele surpreende o espectador com alguns reviravoltas/momentos decisivos na história, e não alivia no drama. Os atores seguram a história, que acaba se mostrando um pouco arrastada, mas que termina de maneira interessante _ ainda que a “revelação final” tenha sido bastante previsível. O filme que começou muito bem, terminou com um pouco menos de força.

Io Sono l’amore – I Am Love – Um Sonho de Amor

23 de julho de 2011 4 comentários

Há filmes que inovam na história, com roteiros originais, criativos, diálogos interessantes ou que apenas conseguem romper com as expectativas do espectador. Inovam no conteúdo. Outros, conseguem o mesmo feito, mas na forma, nos ângulos diferenciados para as câmeras escolhidos pelo diretor, na eleição de cenários e vestuários perfeitos/diferenciados, na seleção e na montagem de cenas que fogem dos padrões. Io Sono l’amore é deste segundo tipo. Logo de cara, chama a atenção o apreço estético do diretor e roteirista Luca Guadagnino. Ele se esmera para nos apresentar um filme sem grandes inovações narrativas, mas com muita criatividade estética. Deleite-se com as imagens desta produção que, para tornar tudo mais interessante, conta ainda com um elenco afinado e inspirado. O melhor do espírito, da tradição e do drama italiano apresentado em um pacote forrado de classe.

A HISTÓRIA: Neve sobre monumentos, prédios, ruas, praças, fachadas, caminhos pisados, parques. Estamos em Milão, nos conta algumas letras que ocupam toda a tela. Em uma casa exuberante, uma empregada e a sua patroa, Emma Recchi (Tilda Swinton), arrumam as louças e a prataria. A governanta Ida Marangon (Maria Paiato) avisa a Emma que o filho dela, Edoardo Jr. (Flavio Parenti) vai trazer uma convidada para o jantar. Emma redistribui os convidados na mesa, colocando a convidada do filho entre ele e Delfina (Martina Codecasa). Mais tarde, o marido de Emma, Tancredi (Pippo Delbono) pergunta se Edoardo já voltou. A governanta responde que não, e ele fica sabendo que o filho perdeu em uma corrida. Edoardo chega e cumprimenta a todos os empregados, antes de encontrar a mãe. Para a família, o jantar será muito especial, porque celebra o aniversário do patriarca, pai de Tancredi, Edoardo Senior (Gabriele Ferzetti). Durante a refeição, ele avisa a todos que deixará a empresa da família para o filho e para um de seus netos, mais especificamente Edoardo. O clima fica estranho, e a tensão aumenta quando bate à porta Antonio Biscaglia (Eduardo Gabbriellini), cozinheiro que havia vencido a Edoardo. Os dois começam a desenvolver uma amizade muito forte, e Emma acaba se aproximando cada vez mais de Antonio conforme o clima vai esquentando.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Io Sono l’amore): A diferença deste filme em relação a outros similares está nos detalhes. No uso de alguns ângulos menos óbvios para as câmeras, no ritmo cadenciado e fluente da narrativa e das filmagens, na escolha perfeita dos objetos e das roupas utilizadas em cada cena. O diretor e autor da história que rendeu o roteiro deste filme, o siciliano Luca Guadagnino, está atento às minúcias. E justamente é essa atenção que torna Io Sono l’amore interessante.

Porque a história, meus amigos, ainda que bem construída, não é exatamente uma inovação. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Descontado o apreço estético do filme, o que sobra? Um roteiro que fala sobre como as aparências enganam, como as pessoas mudam junto com as estações, e como nunca é tarde para que busquemos a felicidade ou para desvelarmos que tipo de família e relações temos ao nosso redor. Alguns personagens traem, seja nas relações amorosas, familiares ou nos negócios, enquanto outros descobrem as suas próprias personalidades. É um filme, essencialmente, sobre descobertas. Várias outras produções já trataram sobre isso, especialmente sobre as revelações familiares. Mas Io Sono l’amore não se abate por contar um estilo de história já explorada anteriormente.

Pelo contrário. Guadagnino escreve, junto com Barbara Alberti, Ivan Cotroneo e Walter Fasano um roteiro cheio de convicção. Eles sabem o que querem, em cada detalhe, e escrevem em um estilo de permanente “crescente”. Como em uma ópera, em que o drama vai assumindo contornos cada vez mais graves, até “el grand finale”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas desde os primeiros minutos, nem tanto pela neve e o clima gélido que ela pressupõe, mas principalmente pelas relações tão formais e “encenadas”, que eu fiquei na expectativa pelo que viria de errado. Sim, porque por traz de tanta perfeição, sempre existe algo de podre, ou de muito trágico que apenas está esperando o momento de eclodir. Achei interessante como este clima de “quase-tragédia” perpassa quase toda a produção, criando uma espécie de interesse permanente e/ou curiosidade no espectador.

Os roteiristas foram muito inteligentes em equilibrar os diferentes elementos que compõe uma tradicional família italiana. Os Recchi não apenas tem dinheiro, mas tem nome, status e tradição. Ainda assim, um dos herdeiros do patriarca foi excêntrico e ousado o bastante para buscar na Rússia a sua mulher. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E daí temos pela frente a personagem principal e mais interessante desta trama: a mulher que abandonou uma situação de pobreza em um país distante mas que, no fundo, nunca deixou de levar aquela antiga realidade consigo. Encontramos Emma em um momento em que ela está apenas esperando a deixa, a desculpa exata para se livrar daquela vida de aparências. Tudo que ela deseja é a oportunidade de viver com os pés no chão, de maneira mais simples, e voltar a amar. E ela encontra isso na figura do inicialmente enigmático e aparentemente errático Antonio.

Outro aspecto que eu achei interessante, nesta produção, é que ela deixa algumas pontas soltas, aqui e ali. Por exemplo, a relação entre Antonio e Edoardo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Sei que os italianos desenvolvem amizades apaixonantes com bastante rapidez. Mas a noite em que Antonio vai levar um bolo para Edoardo, os roteiristas parecem lançar, com astúcia, dúvidas no ar. Afinal, Antonio está aproveitando a posição de Edoardo para se dar bem? Eles já se conheciam antes da competição ou Antonio conhecia a Emma? Ou apenas Edoardo e Antonio desenvolvem uma amizade rápida, porque tem muita afinidade, e Antonio conseguiu fascinar Emma logo na primeira visita? Por um tempo, e não apenas porque Betta (Alba Rohrwacher) se descobre apaixonada por uma linda mulher, mas também por essas dúvidas que ficam no ar, cheguei a pensar se Edoardo e Antonio não teriam tido também algum romance. Mas com o desfecho do filme como ele acabou acontecendo, aparentemente, isso não aconteceu. Eles só eram grandes amigos.

Mas como eu falava antes, Io Sono l’amore se destaca de outros filmes pelos detalhes. Além dos cuidados técnicos, dos quais vou falar depois, esta produção ganha muitos pontos em cada cena em que Guadagnino revela o seu próprio apreço estético. Esse olhar diferenciado do diretor pode ser visto não apenas nas cenas externas, que revelam a beleza de paisagens de cidades e de campos da Itália mas, especialmente, nas sequências que acompanham a protagonista de ângulos diferenciados. Como quando ela percorre um corredor e a câmera desliza, sem cortes, para focar a escada e acompanhá-la em uma descida quase geométrica. Ou quando Edoardo chama a mãe para apresentar-lhe Antonio, e a câmera mostra o contraste da mulher de família caminhando elegantemente em um tapete com marcas de outros passos e que parece transportar-lhe para uma quadra de saibro – ou umas areias mais escuras. Esses ângulos são fascinantes e, me arrisco a dizer, o que há de melhor nesta produção.

Por boa parte da história, somos levados pelas mãos pelo fascinante mundo das descobertas de duas mulheres. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mãe e filha redescobrem – ou o certo seria descobrem pela primeira vez? – o que é o amor. E ambas, cada uma de sua forma, transgridem as normas sociais em que vivem. Betta deixa para trás um namorado que tem nome na alta sociedade após apaixonar-se pela bela amiga Angaharad (Laura Huston). Emma descobre a verdade sem querer, ao encontrar um CD que Betta deixou, com um bilhete contando de sua nova descoberta, no casaco do irmão Edoardo. A coragem de Betta estimula a mãe que, mais tarde, ouviria da própria filha aquela história. Por isso mesmo, no final do filme, Betta fica tão emocionada ao ver a corrida desesperada em busca da liberdade empreendida pela mãe. Ela se identifica. Ou melhor, uma se identifica com a outra – por isso o olhar de cumplicidade inesquecível e emocionado.

Como uma legítima história italiana – porque os italianos sabem viver a vida -, Io Sono l’amore fala de amor e de tragédia. Porque a vida é feita destes elementos. De amor, de felicidade, de morte, de sofrimento e de drama. Tudo está ali, em um pacote bem feito. Um outro detalhe também me agradou neste filme, além do esmero estético: o destaque que a história sempre dá para os empregados da família Recchi. Ida é um dos nomes mais repetidos no início do filme. E ela tem um desempenho crucial no final da história. (SPOILER – não leia… bem, você está cansado/a de saber). Ela percebe, junto com Betta, que Edoardo não estava feliz. E, aparentemente, a tristeza do rapaz não passava apenas pela “morte” da memória do avô, que havia confiado nele e que tinha sido traído pelo próprio filho. Ele parecia triste pela vida que, inevitavelmente, ele teria que seguir a partir dali – com a noiva Eva Ugolini (Diane Fleri) grávida. Aqueles olhos claros pareciam esconder alguma outra tristeza, inominável e gigantesca. Por isso mesmo o final exacerbado se justificou. Porque parecia uma urgência, para quase todos daquela família – e a governanta Ida incluída – que a felicidade fosse procurada com pressa, sofreguidão, antes que a vida esvanecesse de uma vez.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Todos os atores que contracenam neste filme estão muito bem. Mas Tilda Swinton tem uma interpretação de arrepiar. Se existia alguma dúvida sobre o talento desta inglesa, ela terminou com este filme. Sem dúvida ela tem uma personagem difícil de interpretar nas mãos, mas desempenha com perfeição todos os conflitos e nuances de uma Emma dividida entre a mãe de família que adotou a Itália e teve que enterrar a sua Rússia bem fundo na alma daquela que está sedenta por deixar a sua verdadeira personalidade transbordar.

Io Sono l’amore é um destes raros filmes em que todos os aspectos do cinema estão casados com perfeição. Tudo é feito com esmero e é valorizado na produção – diferente de outros filmes, que podem deixar o figurino ou a direção de arte em segundo plano. Aqui não. Desde a linda e cheia de esmero direção de fotografia do francês Yorick Le Saux até a edição atenta do italiano Walter Fasano, passando pelos figurinos propícios de Antonella Cannarozzi, pela ótima trilha sonora de John Adams, pelos lindos design de produção de Francesca Balestra Di Mottola e decoração de set de Monica Sironi, tudo funciona como um relógio suíço inspirado neste filme. Todos merecem ser citados, porque fazem um grande trabalho.

Além da atriz Tilda Swinton, merecem aplausos pelo desempenho acima da média neste filme a sempre ótima Alba Rohrwacher, que aparece pouco, mas rouba a cena cada vez que surge frente às lentes; Flavio Parenti que, a exemplo de Swinton, tem um personagem cheio de nuances para interpretar; e o fascinante Edoardo Gabbriellini, que convence com seu personagem aparentemente frágil e tímido, mas muito seguro de si e provocante. Os quatro se destacam entre os atores principais. Dos atores coadjuvantes, mas que tem um certo destaque e que não foram citados ainda, vale comentar os trabalhos de Marisa Berenson como Allegra Recchi, mulher do patriarca Edoardo Senior; e Waris Ahluwalia como Shai Kubelkian, que acaba comprando a empresa da família e parece trazer um “mau agouro” para eles.

A genial Tilda Swinton aprendeu italiano e russo para interpretar, com mais fidelidade, a personagem central desta história. E outra curiosidade sobre esta produção: a primeira versão do filme tinha 210 minutos de duração – ou seja, três horas e meia. Depois é que o diretor conseguiu deixá-la com duas horas. Realmente, três horas e meia seria demais. O filme ficou com o tempo justo, antes de cansar. :)

Io Sono l’amore teria custado US$ 10 milhões. Pelo cuidado que o filme tem com os detalhes, eu diria que foi um dinheiro bem gastado. Mas nas bilheterias ele não foi muito bem. Até o final de novembro de 2010, quando saiu de cartaz no circuito comercial dos Estados Unidos, ele havia acumulado pouco mais de US$ 5 milhões. No restante do mundo, o filme chegou a superar a marca de US$ 10,4 milhões. Ainda assim, pelo quanto ele custou e pelo desempenho nas bilheterias dos Estados Unidos, não podemos considerá-lo um grande sucesso.

Esta produção estreou no Marrocos e no Festival de Veneza em setembro de 2009. Io Sono l’amore participou, no total, de 22 festivais pelo mundo afora. Nesta trajetória, ele ganhou cinco prêmios e foi indicado a outros 16. Entre os que recebeu, estão o de melhor filme no Festival Internacional de Cinema de Boulder; os de melhor atriz para Tilda Swinton no festival de cinema de Dublin e pela avaliação do Sindicato Nacional de Jornalistas de Cinema da Itália; assim como os prêmios de melhor filme de língua estrangeira segundo o Círculo de Críticos de Cinema da Flórida e a Sociedade de Críticos de Cinema de San Diego. O filme foi indicado, ainda, ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira deste ano, mas perdeu a estatueta para Haevnen. No Oscar, ele concorreu na categoria Melhor Figurino.

Aos curiosos de plantão que ficaram, como eu, curiosos para saber onde o filme foi rodado, aí vai a lista de cidades utilizadas como locação: Londres, no Reino Unido, e Dolceacqua, Milão e San Remo, as três na Itália.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para o filme. Achei pouco, especialmente pelo esmero de seus realizados com os detalhes. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos: eles dedicaram 95 críticas positivas e 24 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 80% – e uma nota média de 7,1.

Buscando mais informações sobre o diretor e roteirista Luca Guadagnino, descobri que ele está dirigindo o seu 14º filme este ano. E o mais interessante é que a maioria de sua filmografia é composta por documentários. Das 14 produções dirigidas por ele, oito são documentários, incluindo na lista dois curtas e um documentário em video. Io Sono l’amore é, sem dúvida, a ficção mais respeitada dirigida por ele até o momento.

Só buscando o trailer e o assistindo, após publicar este post, é que me lembrei de um trecho interessante do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Io Sono l’amore). Quando Emma comenta que foi para a Itália e aprendeu a ser uma italiana. O curioso é que você não aprende uma outra cultura, verdadeiramente, se não passa a soltar-se completamente naquele ambiente, ousando viver um pouco como aquelas pessoas de um lugar que, antes, você não conhecia. Sim, porque Emma aprende a falar italiano, a se comportar como se espera de mulheres italianas de uma família tradicional, mas apenas com a comida servida por Antonio e com a simplicidade dele, com aquela vivacidade que apenas as pessoas comuns de um país sabem demonstrar, que ela aprendeu a como ser um pouco italiana pra valer. E, mais que isso, soube ser ela mesma, um pouco russa, um pouco italiana. O amor sempre faz essas coisas com as pessoas… tiram as suas amarras, máscaras e armaduras, libertando-as para serem o que quiserem ser. E viva o amor, pois. :)

CONCLUSÃO: Quanto a maior a sensação de perfeição, maior o risco das aparências estarem enganando os sentidos. Os cenários cheios de neve não passam apenas a ideia de tempos gelados, mas também uma monotonia que pode ser vista nos jantares da alta sociedade. O frio do inverno e a formalidade dos gestos, palavras e relações dá início à trama de Io Sono l’amore. Mas como nenhuma aparência fundada apenas em imagem forjada dura para sempre, assim como o inverno, logo as formalidades saem de cena e as pessoas começam a revelar o que elas mais desejam ou anseiam. Claro que nem todas. Io Sono l’amore se aproxima de uma família da alta sociedade para revelar como a felicidade não depende de beleza, recursos fartos ou boas maneiras, mas principalmente de ousadia e de escolhas. E mesmo quando todas as janelas e portas parecem se abrir e que a família analisada sinalize apenas motivos para comemorar, a vida ensina que a paixão dos sentimentos pode tanto gerar tragédias quanto novos amores e felicidade. O que frutifica de cada cenário, de cada estação e de cada relação vai depender das escolhas que cada um faz, e de como cada pessoa aproveita as lições aprendidas. Um filme sincero, com uma aposta marcante na estética, no bom uso da fotografia, da música e das ótimas atuações de seu elenco. E para não fugir da tradição, o roteiro vai ganhando corpo com o passar do tempo, assumindo uma ode de ópera com “grand finale” perto do fim. Vale a experiência porque é muito bem acabado e tem momentos de pura beleza.

Lola

18 de julho de 2011 Deixe um comentário

Há tempos eu tenho vontade de assistir a um filme do diretor Brillante Mendoza. Quem acompanha alguns dos principais festivais de cinema espalhados pelo mundo – além da fronteira de Hollywood – sabe que este filipino tem sido um nome de destaque nos anos 2000. Pois bem, estreei o meu conhecimento sobre o cinema de Mendoza com este Lola. Um filme delicado e potente, ao mesmo tempo. Que apresenta uma realidade impressionante e uma dignidade que faz pensar. Lola significa avó. E são duas avós que protagonizam esta história sobre a busca pela justiça e pela sobrevivência. Para os que não temem fugir do feijão com arroz apresentado pelo cinema dos Estados Unidos e que aceitam uma rápida adaptação a um filme com um ritmo próprio, é uma pedida bem interessante.

A HISTÓRIA: Uma senhora de idade tira uma nota da carteira e compra uma vela. Ela guarda o troco, algumas moedas, e sai caminhando ao lado do neto, Jay Jay (Bobby Jerome Go). Eles caminham devagar, e entram em uma igreja. Mas não ficam muito tempo ali. O lugar para aquela vela não é um altar. Eles seguem caminhando pela calçada, passando por vendedores de todos os tipos e também por muitos marginalizados. Começa a chover, e a ventar, e a avó Serpa (Anita Linda) luta para manter o guarda-chuva aberto enquanto, com a ajuda de Jay Jay, tenta fazer a vela que trouxe ficar acesa perto de uma ponte. As crianças que estão ali perguntam o que eles estão fazendo, e Jay Jay explica que o tio dele foi morto naquele local no dia anterior. A avó se emociona, mas recobra as energias para, após prestar a sua homenagem, dirigir-se com dificuldade até a funerária onde é apresentada para diferentes tipos de caixão. A partir daí, ela começa uma longa peregrinação para conseguir dinheiro para enterrar ao neto, e também para buscar justiça pelo seu assassinato. Na outra ponta desta tragédia familiar, está a avó Puring (Rustica Carpio), que tenta libertar o neto Mateo (Ketchup Eusebio), acusado de ter cometido o crime.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lola): As primeiras características que me chamaram a atenção neste filme foram o ritmo naturalista e reflexivo da direção de Mendoza e a violência da realidade que ele resolveu retratar. O tom cinza não se revelou apenas nos dias de tempestade, mas também na dura realidade das famílias retratadas. A violência da história não precisou ser mostrada pela reprodução da cena do crime, por exemplo. A maior violência estava plasmada ao redor daquelas vidas, na dura realidade de um clima desfavorável, nas ruas e nos bairros com escassez de tudo. A falta de esperança e a impossibilidade de conquistar a justiça são as maiores violências que as pessoas podem sofrer.

Pouco a pouco e sem pirotecnia o filme vai mostrando ao que veio. Como é bom assistir a filmes assim, que não forçam a barra e nem fazem discursos. Mas que vão adentrando nas histórias das pessoas, vão revelando e desvelando realidades que muitos não conhecem e, de quebra, fazem quem os assistem repensar os próprios valores, julgamentos e leituras da realidade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Francamente, acho que a grande lição de Lola é a reflexão sobre o conceito de justiça. Por metade do filme, pelo menos, concordamos que o justo é que Mateo pague pelo crime que ele cometeu – ainda que, cá entre nós, nunca fique totalmente claro se foi ele mesmo que matou ao neto da avó Sepa. Afinal, alguém que rouba e mata outra pessoa não pode ficar impune. E inicialmente, parece infame – ainda que compreensível – que a avó Puring tente comprar a família da vítima. Mas quando percebemos a pobreza extrema que tanto uma avó quanto outra compartilham e, especialmente, quando elas sentam em uma mesa e começam a falar de suas doenças e fragilidades, o esquadro muda de lugar. Será justiça, realmente, a avó Puring morrer sabendo que o neto está perdido? Não seria muito melhor para a avó Sepa ter um pouco mais de conforto e conseguir dar uma vida um pouco melhor para a própria família, mesmo que por um curto período de tempo?

A noção de justiça é algo vital. Sociedades são baseadas em leis que buscam dar os mesmos direitos e deveres para todos os seus integrantes. Este é o princípio básico do Direito e, consequentemente, da busca por justiça. Mas Lola nos ajuda a refletir sobre isso. É possível ter justiça ou cobrar este conceito em uma realidade onde sobram injustiças por todos os lados? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Há cenas de cortar o coração neste filme. Algumas delas, verdadeiramente emocionantes. A sequência em que a avó Sepa vai passando, de casa em casa, pedindo uma “contribuição” para os vizinhos, é de apertar o coração. O mesmo acontece – ainda que seja mais um alívio, ainda que triste – com o “milagre” dos peixes que aparecem no casebre deles durante o velório. O retorno da avó Puring da visita aos familiares que moram longe, em uma busca “discreta” por ajuda, também é tocante. Enfim, realidades duras e que existem aos montes por este vasto mundo. Mas verdades tão humanas que fazem pessoas como nós, tão “distantes” daquilo tudo, refletirem sobre conceitos de justiça e de perdão.

Mesmo que a realidade de Lola pareça bastante distante do nosso dia a dia, impossível não pensar que temos algumas semelhanças ao nosso redor. E não apenas ao pensar nas periferias das grandes cidades, onde parte da população é relegada a locais sem condições adequadas para uma vida digna, mas também ao lembrar de cidades do interior onde falta um pouco de tudo. Interessante que ao assistirmos a uma realidade nas Filipinas, pensamos também em comunidades próximas. Especialmente porque o filme não esconde os diferentes tipos de pessoas e a reação que estes indivíduos tem frente ao que acontece à estas duas e bravas avós protagonistas. Há muita generosidade no caminho das duas famílias retratadas, mas há também desprezo, falta de paciência, indiferença. Ainda assim, as duas avós dão um show de sobrevivência, assumindo para si mesmas a responsabilidade de manter as suas próprias casas/famílias. Sem dúvida um grande exemplo para todos nós, independente da idade ou da condição de vida que temos.

Gostei muito da direção de Mendoza e do roteiro de Linda Casimiro. O texto dela acerta em cheio ao explorar com cuidado, em primeiro lugar, a história da perda da avó Serpa e depois, pouco a pouco, ir desvelando a história da família da avó Puring. Claro que esta escolha foi planejada, para nos levar a mudança de foco que comentei anteriormente. Inteligente. E faz o filme ir ganhando em ritmo e em interesse com o passar do tempo. Respeito o ritmo da produção, mas acho que ela demorou um pouco demais para engrenar. Por outro lado, o filme acerta em cheio em colocar as cidades, os seus e cores em primeiro plano.

Há música nesta produção, mas em momentos muito específicos, e para ressaltar trechos dramáticos. No restante do tempo, Mendoza e equipe colocam em evidência os sons da cidade, mais que os diálogos dos personagens. Aliás, não se surpreenda com sequencias longas de caminhada e vários minutos sem um diálogo sendo proferido. Neste momento, os realizadores estão nos fazendo adentrar nas ruas e casas filipinas. Devemos conhecê-las antes de ouvir o que as pessoas que por ali vivem tem a nos falar. Mendoza e Casimiro nos convidam, desta forma, a entrarmos na “pele” daquelas avós pequenas e gigantes, ao mesmo tempo. E o melhor de tudo é que eles conseguem. Vale a pena a jornada, especialmente se você não se importa em sair de seu próprio corpo, de sua própria realidade, e aprender com o que outros mais experientes tem a nos ensinar. E um dos grandes ensinamentos deste filme é que a justiça é relativa, e que a vida segue, mesmo após uma grande perda ou uma grande injustiça. E como ela segue, talvez o melhor que tenhamos para fazer é perdoar e aceitar a oportunidade que tivermos para fazer do resto desta vida um tempo um pouco mais justo ou, pelo menos, digno.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Comentei antes que o filme deixa pelo menos uma dúvida no ar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, Mateo era culpado ou não? Aparentemente, sim. Afinal, quem é inocente, não responde a acusações injustas com o silêncio. Além disso, a avó dele, justificou o crime dizendo que ele havia sido agredido verbalmente. Então, aparentemente, ele cometeu o crime do qual estava sendo acusado. Também dificilmente a avó dele passaria por tantos sacrifícios se ele pudesse ser inocente, não é mesmo? Ainda assim, não deixa de ser curioso como o filme não mostra uma confissão dele ou tira esta dúvida definitivamente do ar. O que apenas reforça a ideia de que o conceito de justiça é relativo.

Aliás, falando em justiça… achei muito curioso que nas Filipinas um crime só é julgado se houver um “reclamante”. Ou seja: se por alguma razão uma pessoa não quiser seguir com uma queixa, simplesmente a polícia ignora um crime? É isso o que o filme deixa a entender. Eu já havia lido várias matérias falando de casos estranhos naquele país, inclusive de prisões injustificadas, mas isso de um julgamento só seguir se houver alguém reclamando – e pagando por isso -, achei incrível.

Lola é um filme de duas mulheres. Anita Linda e Rustica Carpio roubam a cena e são as protagonistas indiscutíveis. A interpretação das duas é tocante, e merecedora de aplausos. Além delas, vale a pena citar o ótimo trabalho da atriz Tanya Gomez, que interpreta a Ditas, filha de uma das protagonistas.

Para quem teve curiosidade de saber onde Lola foi filmado, esta produção foi totalmente rodada na ilha de Luzon, a mais populosa e importante do país. Segundo o IMDb, Mendoza rodou em várias cidades daquela ilha, entre elas Mandaluyong, Taguig e Malabon. Fiquei impressionada com as condições de vida das famílias que moram nas palafitas mostradas no filme.

Merece atenção neste filme dois aspectos técnicos bem realizados: a direção de fotografia de Odyssey Flores e a trilha sonora de Teresa Barrozo. Quando li o nome do diretor de fotografia, fiquei pensando se ele teria sido originado pelo videogame Odyssey… :) Ou vai que é um nome típico das Filipinas. Me chamou a atenção também que temos um ator com o nome Ketchup e um outro chamado Benjie. Interessantes.

Lola estreou no Festival de Veneza em setembro de 2009. De lá para cá, o filme participou de outros 16 festivais, incluindo os de Viena, Dubai, Hong Kong, Tribeca, Sydney e Melbourne. Em sua trajetória, o filme acumulou 15 prêmios, além de ter sido indicado a outros 18. No Oscar filipino, Lola ganhou apenas o prêmio de melhor direção de fotografia. No festival de Dubai ele venceu como melhor filme. Mas nenhum dos prêmios que recebeu foi ganho em algum dos festivais de maior relevância do mercado.

O cineasta Brillante Mendoza, de 51 anos, é natural de San Fernando, nas Filipinas. Até o momento, ele recebeu 29 prêmios e foi indicado a outros 110. Uma marca impressionante para um diretor que fez carreira em um país sem tanta tradição no cinema mundial. Diretor de 11 filmes, entre eles um curta e um documentário, Mendoza ficou mais conhecido pelas produções Serbis e Kinatay. Não assisti a nenhum deles, mas já ouvi falar que as outras produções do diretor sempre tinham uma boa carga sexual. Algo bem diferente do que ele mostra em Lola. Talvez as pessoas acostumadas com o estilo ousado do diretor sintam a diferença com este novo filme.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para Lola. Mesmo premiado e dirigido pelo conhecido – mais nos festivais do que pelo grande público – diretor Brillante Mendoza, Lola tem apenas duas críticas linkadas no Rotten Tomatoes. As duas foram positivas. Mas por ter um número tão baixo de críticas listadas, o site ainda não publicou o seu famoso “tomatômetro”.

Indicado ao prêmio de melhor filme no Festival de Veneza de 2009, Lola perdeu o Leão de Ouro para Lebanon.

CONCLUSÃO: Primeiro, o choque de uma realidade dura. Não apenas pelo clima, pela violência ou pela pobreza. Mas especialmente pela falta de perspectivas. Depois, a emocionante luta de duas avós em manter as suas próprias famílias tentando, ao máximo, manter as próprias dignidades. Lola é um destes filmes potentes, mas que não faz discursos. Somos convidados e conduzidos, simplesmente, a mergulhar nas realidades propostas pelo diretor Brillante Mendoza. E vamos, pouco a pouco, rompendo nossas certezas e nosso “senso de justiça” ao conhecer, sem pressa, as realidades injustas que separam as famílias da vítima e do culpado. Made in Filipinas, com co-produção da França, este é um filme que foge dos padrões do cinema norte-americano. Ou mesmo inglês. Ele está muito mais para o cinema alternativo, feito com a identidade do país de origem. E viva a esse tipo de cinema! Que consegue comunicar com muita propriedade a realidade de seu próprio país e no ritmo adequado. Fiquei impressionada com a história, com as duas intérpretes principais e, em especial, com a realidade de parte das Filipinas. Sem dúvida um retrato interessante e pouco visto por quem não mora naqueles locais. O filme vale tanto como peça de cinema rara, por todos os elementos comentados, como pelo talento de seu realizador e pela realidade por ele revelada. De quebra, nos faz pensar sobre a escassez e a injustiça que esta falta de perspectivas causa – muito mais do que a violência pura e simples. Até porque a violência nunca é simples – por mais que as estatísticas queiram nos ensinar isso. Atrás de qualquer história de perda sempre há muitas nuances não reveladas. Vale a pena refletir e acompanhar o trabalho deste realizador.

Biutiful

9 de julho de 2011 8 comentários

Um grande diretor, um ator sempre acima da média e uma Barcelona que poucos conhecem. Biutiful mistura estes três elementos em um drama com toques sobrenaturais, reflexão sociológica ligeira, dureza argumentativa e um leve toque de esperança. No melhor estilo “a vida como ela é”, o diretor Alejandro González Iñarritu presta homenagem aos antepassados com esta produção que busca, de forma bastante inusitada, destacar a importância dos laços familiares e das origens que cada um de nós possui. Sem dúvida um filme diferente, que retrata uma Espanha que não é vista pelos turistas, mas por aqueles que convivem diariamente com diferentes formas de exploração nos bairros e subúrbios de cidades como Barcelona. Vale pela curiosidade e por uma ou outra reflexão, muito mais que por um resultado final realmente arrebatador ou instigante.

A HISTÓRIA: Uma mão diminuta mexe em um anel que ocupa todo o dedo mínimo da mão de um homem. A voz de uma menina pergunta para aquele homem se o anel é de verdade, e ele responde que sim, que a joia foi um presente do pai para a mãe dele. Ela pergunta porque ele está com o anel, e ele responde que é porque o avô da menina deu a joia para a mãe dele antes de sair da Espanha. Depois disso, a mãe dele, que estava grávida, nunca mais teria visto o marido. A menina então pede para colocar o anel no dedo, e ele deixa, antes dela comentar que a mãe sempre usava o objeto no dedo anelar e que afirmava que a joia era de mentira. Corta. Em um bosque cheio de neve, uma coruja aparece estirada sobre o cenário branco. A voz de Uxbal (Javier Bardem) segue contando para a filha, Ana (Hanaa Bouchaib), que a mãe da garota nunca ouviu aquele som, o de mar. Depois destas cenas, passamos a acompanhar a vida de Uxbal e a sua luta para criar Ana e Mateo (Guillermo Estrella), os filhos que ele teve com a instável Marambra (Maricel Álvarez). Faz parte do cotidiano de Uxbal, além da educação e da busca do sustento dos filhos, negociações com imigrantes ilegais e policiais, tratativas para a venda de um espaço no cemitério onde foi sepultado o pai dele e a relação muito próxima que este espanhol tem com a morte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Biutiful): Curioso que Biutiful sofre, como outros filmes que concorreram ao Oscar deste ano, com um certo problema de “amarra” argumentativa. A exemplo do que aconteceu com Haevnen, que arrebatou o prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira, com este filme de González Iñarritu se percebe uma junção de histórias amarradas de forma meio displicente e/ou forçada como tentativa de montar um quadro de realidades complexas. Algumas vezes essa fórmula pode dar certo, como ocorreu anteriormente com Short Cuts, Magnolia, Babel e outras produções, mas isso não funcionou tão bem com Biutiful e Haevnen.

Certo, não é difícil entender que o diretor mexicano e talentoso Alejandro González Iñarritu não queria, com Biutiful, apenas contar um drama humano. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Se torna evidente que ele queria transcender da história da proximidade da morte de Uxbal e tudo que essa “trajetória” significou para o personagem e retratar também a doença de uma sociedade em que as pessoas são tratadas como antigamente, em castas muito bem definidas. Biutiful trata, desta forma, não apenas da doença física de uma pessoa, mas da sua enfermidade moral e, junto com ela, da doença de um coletivo.

Beleza. Isso nós podemos entender e achar, talvez, interessante. A intenção é boa. Mas francamente, todas as histórias exploradas pela produção se mostram necessárias? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Francamente, eu acho que não. Como aconteceu com Haevnen, Biutiful sofre com excessos. Os dois filmes teriam sido bem mais interessantes se eles tivessem escolhido o caminho da simplicidade. Não eram necessárias tantas histórias paralelas. Para que, exatamente, explorar tanto a fragilidade da personagem de Marambra ou a sua relação com Tito (Eduard Fernández)? Ou porque debruçar-se sobre a história de infidelidade de Hai (Cheng Tai Shen)?

A razão deve ser a mesma de quando um jornalista tenta contar um pouco mais a história de uma pessoa que foi vítima de um acidente, além do óbvio ululante de contar a história do que aconteceu: tornar aquele fato menos impessoal e mais “humano”. Certo, a razão está clara. Mas sempre é preciso pensar se essa “humanização” da história terá o efeito desejado. Faz diferença, realmente, o que Hai faz longe da vista dos empregados e da família? Interessa, muito, que Lili (Lang Sofia Lin) fosse a babá dos filhos de Uxbal nas horas vagas? Talvez apenas para tornar a culpa do protagonista ainda maior. Mas esse fato, propriamente, não “aprofundou” muito a personagem chinesa ou tornou ela muito diferente dos demais imigrantes de sua etnia que são retratados na produção.

Então para que gastar tanto do tempo do filme traçando estas questões? Não teria sido mais interessante aprofundar em alguns outros aspectos da história? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Por exemplo, eu acharia mais interessante sabermos mais sobre o passado de Uxbal, o que aconteceu com ele e com Marambra além do que é sugerido – de que ela, por ser bipolar, tenha passado por tratamentos, sem contar a dependência química. Mas e ele, o que ele fez até ali? Há quanto tempo ele vivia de explorar a fragilidade de outras pessoas – sejam elas imigrantes ilegais ou pessoas que perderam algum ente querido. Aliás, quando e como ele descobriu a “vocação” para lidar com os mortos?

A ótima atriz Ana Wagener é pouco explorada na história como a personagem de Bea, uma medium que é clara em dizer que o dom que eles tem não deve ser utilizado para conseguir dinheiro. Mas esta personagem, por exemplo, que é mais importante na vida do protagonista do que outros que aparecem no filme, tem pouco de sua história explicada. Então a regra de “aprofundar nos dramas humanos” não vale para todos. Na verdade, é usada de maneira bastante desigual – e, volto a repetir, de uma forma um pouco confusa, sem uma real motivação ou mesmo contribuição para que a história se torne mais interessante. Outro personagem que tem um pouco de sua história/perfil explorado, mas sem grande contribuição para o filme, é o do policial Zanc (Rubén Ochandiano).

Bem, se nem todos os personagens e a exploração de seus dramas se justifica como algo que contribua para a história se tornar mais densa ou interessante, isso são falhas do roteiro assinado por Iñarritu, Armando Bo e Nicolás Giacobone. Por outro lado, os temas propostos pela produção se mostram interessantes – ainda que eles sejam explorados de forma um pouco confusa. (SPOILER) Pela ótica dos roteiristas, todos são infiéis, de alguma forma. Algumas vezes, sexualmente – como é o caso de Marambra e Hai. Outra vezes, moralmente – como ocorre com Uxbal, o policial Zanc, o chefão dos esquemas de exploração, inclusive o uso de mão de obra ilegal na construção civil Mendoza (Karra Elejalde), entre outros. A impressão é que todos estão corrompidos, de alguma forma, e que apenas a morte pode trazer algum reconforto. Ainda assim, Uxbal quer manter-se vivo, especialmente porque ele tem medo de ser esquecido – e de não viver o que gostaria de viver com os filhos.

Sem dúvida o peso desta perspectiva torna os dias do protagonista bastante doloridos. Mas mesmo com tanta desgraça, exploração e infidelidade, Biutiful mostra pelo menos algo interessante: o elo que une as diferentes gerações de uma família, e de como nos aproximamos muito mais dos nossos antepassados quando refletimos, com um pouco mais de tempo, sobre nossos próprios sonhos, características e herdeiros. O antigo e o novo se aproxima, desta forma. E torna cada indivíduo mais completo. Esta talvez seja a ideia mais interessante de Biutiful, e a que consegue ser melhor explorada por seus realizadores. Outras questões, como a “crítica à sociedade que explora”, poderia ter sido melhor trabalhada.

Falando nisso, claro que todo o roteiro de Biutiful é construído para que os espectadores simpatizem e se solidarizem – para não dizer que sintam pena – com o personagem de Uxbal. (SPOILER). Mas francamente, acho bastante difícil não indignar-se com ele. Afinal, ele explora as pessoas até o final, capturando até o futuro de Ige (Diaryatou Daff), tornando as escolhas dela quase impossíveis. Injusto. Mais uma exploração feita pelo protagonista – dentre outras tantas. Ok, alguém pode dizer que todos nós somos humanos e, por isso, erramos. Mas quanto mais uma pessoa conhece sobre as coisas – e no caso de Uxbal, ele tinha bastante conhecimento sobre a vida e a morte, sobre certo e errado -, maior a responsabilidade dela ao escolher caminhos equivocados. Claro que o perdão está aí para redimir a todos nós, mas nem por isso é de se bater palma para o que assistimos no filme. A busca pelo caminho do bem é cotidiana, e sempre que nos afastamos dele, nos aproximamos mais das sombras que tanto pertubavam Uxbal. Nada escapa da lógica da vida e da morte. E ainda assim, sempre há reencontros e a possibilidade da redenção. Por isso, mesmo com toda a imperfeição retratada pelo filme – e a convicção errada plasmada na palavra Biutiful -, existe sim beleza e esperança. O resumo está no título, pois.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Alguém pode me perguntar: “Mas e aí, na Espanha as coisas são do jeito que Biutiful mostra? Chineses e africanos são explorados sem dó nem piedade? Os policiais são corruptos? Existe uma máfia que se beneficia dos imigrantes ilegais?”. Vou falar, como sempre, do que eu vi: sim, há redes de exploração de imigrantes. Eles ocupam sempre os espaços marginais em cidades como Madrid. Estão lá, vendendo DVDs com filmes pirata, ocupam ruas e lojas em que comercializam os mais diferentes produtos “alternativos”. Os espanhóis vão lá, compram estes produtos, mas deixam claro que aquelas pessoas são “invasores”.

Não sei como hoje está o clima entre “nativos” e os imigrantes ilegais. Com um nível de desemprego maior, muita gente no “paro” (recebendo seguro desemprego) e pouca oportunidade de trabalho, eu imagino que o clima piorou. Não sei se continuam chegando “bateras” (embarcações pequenas e normalmente precárias) com imigrantes ilegais africanos na costa Sul da Espanha. Imagino que sim. Porque tanto para chineses quanto para africanos, como bem mostra Biutiful, mesmo a exploração na Espanha é melhor do que as condições de vida que eles tem, muitas vezes, em seus próprios países.

Nas ruas de Madrid, à noite, as pessoas costumam recorrer aos “chinos” (como são chamados os chineses) para comer após “salieren de fiesta” (saírem de festa, de bar em bar). Nesta hora, os “chinos” são bacanas. O mesmo nos sábados e domingos, quando muitos comércios tradicionais estão fechados, e há sempre “un chino” aberto para vender fones de ouvido, MP3 e os mais diferentes artigos em lojas espalhadas por quase todos os bairros. Nesta hora, esses imigrantes – muitos legais, outros tantos “sin papeles”/ilegais – são bastante úteis. Assim como os africanos que vendem “paraguas” (guarda-chuvas) nas ruas quando o clima está castigando os desprevenidos. Mas no restante do tempo, para os espanhóis – e acredito que franceses, e outras nacionalidades que se vêem “invadidas” pelos ilegais -, essas pessoas são indesejáveis.

Lamentável o conflito cotidiano entre as pessoas que se sentem donas de uma terra e de uma realidade e aquelas que tiveram que deixar os seus países, suas famílias e raízes para buscar uma melhor oportunidade de vida. No curso que fiz, em Madrid, falamos muito sobre xenofobia e como a mídia tratava esses temas de imigração. Estar atento aos absurdos e responder a eles é algo fundamental. Seja no país que for, com o desenvolvimento e as relações que se forjarem em cada local. Sobre corrupção policial ou “vistas grossas” de autoridades para o problema eu não posso falar, mas eu imagino que exista. E há, sem dúvida, uma rede que explora estas pessoas, seja na construção civil, nas ruas das cidades ou através da prostituição. Há muita gente ganhando dinheiro com a falta de perspectiva e a fragilidade de outras pessoas.

O diretor e os roteiristas misturam drama com um pouco de suspense, carga policial e sobrenatural. O resultado é um filme tenso quase todo o tempo, com algumas “baixadas” de ritmo aqui e ali e uma velocidade constante até o final. Eventualmente ele pode parecer um pouco arrastado, mas consegue manter o interesse do espectador até o final.

Para reforçar o clima “pesado”, um pouco cru e estranhamente “sobrenatural” da história, o diretor de fotografia Rodrigo Prieto fez uso de lentes que reforçam o azul e o cinza, tornando as imagens mais “agrestes”. O mexicano Prieto é um dos grandes diretores de fotografia atuantes no mercado. Ele foi responsável pela “alma” de filmes como Babel, 21 Grams, Amores Perros, State of Play, Los Abrazos Rotos, Frida, entre outros. Antigo colaborador de Iñarritu, como se pode notar pela lista.

Falando no diretor, quem acompanha a sua carreira sabe que ele gosta de histórias fragmentadas e que questionam algumas “situações dadas” da realidade. Para mim, ele é um dos grandes diretores de origem latina e que souberam manter-se criativos em Hollywood. Biutiful não é o melhor de seus filmes mas, ainda assim, é uma produção com a marca do diretor e com os diferenciais que isso significa. Ele merece todo o respeito, não há dúvidas.

Da equipe técnica de Biutiful, vale destacar o trabalho competente do editor Stephen Mirrione e a trilha sonora bastante pontual e pouco expressiva de Gustavo Santaolalla.

Biutiful é uma homenagem do diretor ao pai, Héctor González Gama, citado nos créditos finais do filme. Em Amores Perros e 21 Grams o pai do diretor tinha sido citado nos agradecimentos.

E uma curiosidade sobre a produção: Iñarritu demorou 14 meses para editar Biutiful. Um prazo bastante longo e que talvez sinalize a dificuldade do diretor em encontrar um resultado satisfatório para a produção.

Biutiful foi rodado em Barcelona, onde se passa a história, e também no Monte de San Donato Berain e na Sierra de Abodi, ambos pertencentes a Navarra, na Espanha.

Essa produção estreou em maio de 2010 no Festival de Cannes. Depois, Biutiful passou por outros 12 festivais, incluindo os de Toronto, Londres, Estocolmo, Oslo, Jacarta e Dubai.

Até o dia 5 de junho deste ano, esta co-produção entre México e Espanha tinha faturado pouco mais de US$ 5,1 milhões nos Estados Unidos. Um resultado baixo, se levarmos em conta que Biutiful foi indicado a dois Oscar e tem nomes como Javier Bardem e Iñarritu como chamarizes.

Falando em premiações, Biutiful saiu de mãos vazias do Oscar, onde concorreu como Melhor Filme em Língua Estrangeira e com Bardem na categoria Melhor Ator. Mas recebeu 11 prêmios, até agora, e foi indicado a outros 22. Entre os que embolsou, destaque para os prêmios de Melhor Ator para Bardem no Festival de Cannes e no Prêmio Goya, da Espanha. Biutiful também foi considerado o melhor filme estrangeiro de 2010 pela votação das associações de críticos de Washington DC, Phoenix e Dallas-Fort Worth.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para Biutiful. Os críticos que tem os textos linkados no site Rotten Tomatoes foram menos generosos: eles dedicaram 86 críticas positivas e 50 negativas, o que rendeu para a produção uma aprovação de 63% – e uma nota média de 6,4. Interessantes que críticos respeitados, como Peter Howell, Tom Long, Steven Rea e Lisa Kennedy publicaram críticas positivas para a produção – o que dá uma certa moral para Iñarritu.

Sobre o filme, o diretor disse o seguinte: “às vezes nossas vidas são assim: fraturadas, saturadas, emocionalmente eletrizantes e, até nos deixar sem fôlego, belas”. No site oficial da produção, ele ainda fala sobre a necessidade, após filmar Babel, de produzir um filme que tivesse apenas um personagem central e uma linha narrativa direta – e não fragmentada, com idas e voltas no tempo. Iñarritu disse que se Babel pudesse ser comparada com uma ópera, Biutiful seria mais um réquiem, um adágio. O diretor também classifica Biutiful como uma tragédia, a tentativa de “um poema sórdido sobre um homem que está se iluminando enquanto cai no escuro poço da morte”. E o diretor segue com uma longa explicação sobre as suas intenções com este filme. Para quem se interessar, esta lá no site oficial, em espanhol.

Ah sim, e para não dizer que não falei de flores: sim, Javier Bardem mereceu os prêmios que recebeu como melhor ator por este filme. Eis mais uma produção em que ele faz um grande trabalho. Ainda que, pela história ter sido construída totalmente sobre o personagem dele, e com a carga emotiva, dramática e de “doença” que a história abriga, era mais que esperado que o ator que interpretasse a Uxbal se destacasse. Por isso mesmo que eu acho, por exemplo, que foi merecido o Colin Firth ter recebido o Oscar este ano. Bardem está bem, mas ainda prefiro a interpretação de Firth, do James Franco e do Jesse Eisenberg em seus respectivos filmes que concorreram ao Oscar este ano.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho competente dos coadjuvantes Cheikh Ndiaye como o senegalês Ekweme, que acaba sendo deportado e Luo Jin como o chinês interesseiro Liwei.

Entre Biutiful e Haevnen, difícil escolher. Para mim, ambos não chegam ao nível de serem excepcionais. Continuo achando Kynodontas mais original e impactante. Mas se for realmente para escolher, ainda acho que Haevnen é um pouco melhor que Biutiful. Ainda falta assistir às outras duas produções que concorreram como Melhor Filme em Língua Estrangeira este ano mas, avaliando apenas os três que vi até agora, este ano não teve a melhor das safras recentes da premiação nesta categoria.

CONCLUSÃO: Mais um filme meio “existencialista”, meio sociológico, que aborda temas importantes sobre a realidade conflitante de grandes cidades/países. Com uma levada interessante, mas sem a costura adequada para todas as suas histórias, Biutiful soma-se a outras produções do gênero sem grande brilhantismo. Claro que Javier Bardem faz um grande trabalho, assim como o diretor Alejandro González Iñarritu. Mas, francamente? Não há muita novidade nesta história. O maior mérito do filme talvez seja o de mostrar uma parte de Barcelona que poucos conhecem – exceto os que já moraram por lá por algum tempo. Na verdade, o que Biutiful mostra sobre imigrantes ilegais, corrupção policial e explorações desta realidade ocorre em outras partes da Europa, incluindo Madrid, Paris e um bom etcétera. Interessante também a “homenagem” que o diretor faz aos antepassados e a esta linha amorosa que une distintas gerações de uma família. Bacana estas ideias, bem executada a realização delas, mas o filme sofre de excesso de histórias sem muitas amarras. Mediano, apenas.

Blue Valentine – Namorados para Sempre

2 de julho de 2011 8 comentários

O que acontece com o amor quando termina o encanto? Provavelmente existe mais do que uma resposta para esta pergunta. Mas quando o novo estágio, após o encantamento, significa o fim do que era novo, genial e interessante, quando a relação perde o sabor, as cores e aromas, não existe muito espaço para múltiplas escolhas. Blue Valentine fala sobre isso. Sobre um amor que começa surpreendente e que segue em uma trilha de desgaste. É a história de uma família que tem química, mas que é formada por um casal que parece não ter mais paciência e nem oxigênio. Um filme com estilo, uma ótima trilha sonora e dois atores afinadíssimos.

A HISTÓRIA: Uma menina grita desesperada em busca da Megan. Enquanto os grilos cantam e a rua continua deserta, o pai dela, Dean (Ryan Gosling), continua dormindo em uma poltrona. Cansada de buscar sozinha, Frankie (Faith Wladyka) acorda o pai. Ele vai até o lado de fora da casa e descobre que a cadela da família fugiu. Junto com a filha, ele acorda a esposa, Cindy (Michelle Williams). Ela apronta o café da manhã e se cansa com as brincadeiras do marido, que tocava música antes de comer cereais direto da mesa. Cindy leva a menina para a escola, e a relação do casal começa a se revelar desgastada, ao mesmo tempo em que acompanhamos como Cindy e Dean se conheceram e se apaixonaram.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Blue Valentine): Interessante como se desenvolve o ritmo naturalista deste filme. Primeiro, o estilo de filmagem do diretor e roteirista Derek Cianfrance que, desde o primeiro até o último segundo da produção escolhe, deliberadamente, os cortes e ângulos de câmera mais naturalistas possíveis. Paisagens, a dinâmica dos gestos e das relações das pessoas sempre estão em primeiro plano e parecem servir como guia para os movimentos das câmeras.

Depois, chama a atenção o desenvolvimento naturalista da trama. Assinado pelo diretor e por Cami Delavigne e Joey Curtis, o roteiro de Blue Valentine evita as frases feitas. E quando elas aparecem, surgem de forma automática, algumas vezes irônica. Mas o mais interessante, no texto, é que por grande parte do filme a personagem de Cindy assume, sozinha, a roupagem de “bandida” da história. Nada mais natural, seguindo os preceitos de nossas sociedades ainda um bocado machistas – ao ponto de colocarem, sobre as mulheres, eternamente a aura de “chatas” e impacientes.

Nesta produção, acompanhamos uma história de amor. Que ainda não terminou, mesmo que do sentimento original reste pouco. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). E o interessante é que por grande parte da história – e aposto que, para muitas pessoas, mesmo depois que ela termine – a “vilã” da produção é a personagem interpretada por Michelle Williams. Ela é quem resiste. Parece ser a parte do casal que não cede, que não aceita a falta de ambição do marido. Mas eu vejo algo além disso.

É difícil, para quem ama, aceitar o desperdício de um potencial. Complicado ver alguém que poderia ser muito melhor, fazer muito mais, desenvolver-se plenamente, gastar esse potencial em nada. Esta é uma das maiores dificuldades de Cindy em relação a Dean. Mas há uma cena fundamental na trama, quando eles conversam francamente em um quarto de motel, em que ele desabafa que tudo o que ele quer, e que não sabia que queria, era ter uma família e cuidar dela. E o que fazer, com esta diferença tão brutal de visões de mundo?

Pois eis a questão e o problema fundamental na história do casal de Blue Valentine. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E talvez de tantos e tantos outros casais que não conseguem mais viver juntos. A dificuldade em encontrar um denominador comum, em lidar com as expectativas individuais em prol de um projeto conjunto. No caso de Cindy e de Dean, a convivência foi mostrando também como eles tem algumas visões de mundo e de hábitos bem distintas. Ela não suporta ver o marido dormindo até tarde, tomando uma cerveja as 8h e saindo para trabalhar um dia aqui, outro ali, sem grandes perspectivas de melhorar de vida. Como enfermeira, ela tem mais estabilidade e, claro, está preocupada com o futuro da filha. Mas para Dean, nada mais importante que ajudar a pagar as contas da casa e ter o máximo de tempo livre para curtir a família – ainda que, na prática, nem sempre ele consiga isso.

O desgaste está formado. E apenas cresce. E como lidar com ele? Bem, para dar uma temperada nesta história e torná-la um bocado mais dura, não acompanhamos apenas a derrocada da relação de Cindy e Dean. Sem avisar, e de maneira muito sutil, o diretor e os roteiristas nos levam para alguns anos antes na história, quando o casal se conheceu. Há cenas verdadeiramente encantadoras, nesta parte, como a sequencia impagável em que Dean faz Cindy dançar. Ah, o amor, como ele é lindo. Como a conquista, a fase em que as pessoas se apaixonam e se encantam, é maravilhosa. Mas e depois?

Bem, nunca há regras para o depois. A história dos dois poderia ter dado muito certo. Ou poderia ter acontecido o que nos foi apresentado neste filme. O que chama a atenção em Blue Valentine, em relação a outros filmes, é que aqui há pouco fingimento. Tanto os momentos lindos e encantadores são apresentados de forma precisa para provocar este tipo de sentimento no espectador quanto os momentos de desgaste, de falta de sintonia e de esperança são filmados com a mesma honestidade. Por isso, cá entre nós, imagino que seja impossível passar incólume por este filme. O que faz dele, apenas por isto, uma interessante peça de cinema. Afinal, um dos objetivos da 7Arte não é, justamente, mexer conosco? Pois posso garantir que Blue Valentine mexe com o público. Tanto com os apaixonados inveterados quanto com aqueles que sabem que histórias de amor podem ser bastante complicadas.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei impressionada com o belo trabalho da dupla Michelle Williams e Ryan Gosling. De forma precisa, bastante honesta e sem aquelas irritantes “caras e bocas” e forçações de barra que mesmo atores experientes algumas vezes encenam – talvez por cansaço ou por não adotarem os roteiros como dignos de esforço – eles apresentam um trabalho digno de aplausos. Ela é “cruel” e direta sempre que a personagem pede. Ele é dedicado e “avoado” conforme manda o script. E nas cenas de tensão sexual, conquista e encantamento, os dois atores conseguem a química ideal. Sem ter que tirar ou por.

Esse é o primeiro trabalho do diretor Derek Cianfrance que eu lembro de ter assistido. Gostei do estilo dele. Claro que a forma dele em conduzir a trama não é, exatamente, inédita. Mas aí entramos no velho tema: o quanto de ineditismo realmente ainda é possivel no cinema atualmente, depois de mais de 110 anos de história e invenções? Bem, outros cineastas também preferem essa levada “naturalista” de Cianfrance, o que não desmerece, nem um pouco a sua escolha.

Ajudou muito no efeito final da produção dois itens que sempre são fundamentais no cinema: a direção de fotografia de Andrij Parekh e a trilha sonora ajustadíssima de Grizzly Bear. A fotografia do estadunidense Parekh, que tem descendência ucraniana e indiana, potencializa as cores naturais de cada cena, tornando os tons terrais ainda mais “pesados” e/ou “envelhecidos” e os azuis, de longas cenas de tensão, ainda mais densos. Bacana. Recursos que funcionam sempre muito bem.

O trabalho de Bear é muito pontual, preciso, apresentando uma música ajustada para os momentos mais delicados ou nos quais o autor quer reforçar uma ideia. No restante do tempo, escutamos muitos sons “das ruas”, das casas, vizinhanças, o som natural da vida. Também gostei. Bear assina, realmente, grande parte das composições. Além dele, vale citar a música Smoke Gets In Your Eyes, clássico do The Platters, e You and Me, de Penny & The Quarters.

Merece uma menção especial o trabalho feito com os créditos finais do filme. Uma forma interessante de fechar de uma forma, digamos assim “esperançosa”, uma produção com muitos momentos complicados.  Mesmo porque, mesmo quando o amor termina, os momentos bacanas permanecem. Mesmo que no passado ou, quem sabe, flutuando em algum lugar no cosmos, podendo dar frutos – nem que for como inspiração para outras pessoas. Acho que eu acredito nisso. :)

Da equipe técnica, vale citar o bom trabalho dos editores Jim Helton e Ron Patane. Dos demais atores, a atriz que tem um destaque um pouco maior, em uma produção dominada por Ryan Gosling e Michelle Williams, é a filha deles na trama, interpretada por Faith Wladyka. Ela faz um bom trabalho, ainda que nada excepcional – até porque, cá entre nós, nem era necessário. No mais, vale citar as rápidas aparições dos coadjuvantes John Doman, como Jerry, pai de Cindy; e de Mike Vogel como Bobby Ontario, com quem ela tinha uma relação antes de conhecer Dean.

Blue Valentine estrou no dia 24 de janeiro de 2010 no Festival de Sundance. Depois ele participou dos festivais de Cannes, Toronto, Londres, Vienna, Gijón, Rotterdam e Buenos Aires, entre outros. Em sua trajetória, a produção conseguiu conquistar dois prêmios: o de melhor cineasta revelação para Derek Cianfrance segundo a associação de críticos de cinema de Chicago, e o de melhor atriz para Michelle Williams segundo o círculo de críticos de cinema de San Francisco. Blue Valentine foi indicado, ainda, para outros 16 prêmios, incluindo o prêmio principal em Sundance, duas indicações para os atores principais no Globo de Ouro deste ano e uma indicação para Michelle Williams no Oscar 2011.

Falando em Oscar, Michelle Williams perdeu a estatueta para Natalie Portman, protagonista de Black Swan. Francamente, ainda acho que Natalie Portman mereceu o Oscar. Mas admito que Michelle Williams, ao lado de Annette Bening, tornou a disputa deste ano bastante acirrada. As duas fizeram um grande trabalho em seus respectivos filmes. Mais do que a queridinha – e com razão, porque ela é talentosa – Jennifer Lawrence. O trabalho de Nicole Kidman que concorreu ao último Oscar eu ainda não vi, para poder comentar.

Produção de baixo custo, Blue Valentine teria custado US$ 1 milhão. Uma ninharia para os padrões de Hollywood – onde não é raro encontrar produções custando 80, 100 ou 200 vezes este valor. Apenas nos Estados Unidos o filme conseguiu, até o dia 17 de abril deste ano, pouco mais de US$ 9 milhões nas bilheterias. Pouco, em comparação a outros filmes, mas um belo resultado para uma produção que custou tão pouco.

Para quem ficou interessado em saber onde Blue Valentine foi rodado, ele foi filmado em Nova York, em bairros tradicionais como Manhattan, Queens e o Brooklyn, e em várias partes do estado da Pennsylvania.

Diz a lenda que o US$ 1 milhão gasto com o filme teria sido financiado pelo prêmio de roteiro que Chrysler Film Project ganho em 2006. Por isso mesmo que fico me perguntando se realmente o filme custou isso ou foi o que os produtores justificaram. De qualquer forma, a produção saiu com uma boa alavanca devido à qualidade de seu roteiro.

Interessante que os realizadores decidiram adiar as filmagens de Blue Valentine devido à morte do ator Heath Ledger, com quem Michelle Williams tinha sido casada e com quem ela tinha uma filha. Decidiram esperar o tempo necessário para que ela pudesse se dedicar ao projeto. Valeu a pena, sem dúvida.

Agora, uma curiosidade técnica: as cenas de Cindy e Dean que mostram quando eles se conheceram e seguem até eles se casarem foram filmadas em Super 16mm, enquanto que as cenas deles juntos, casados, foram rodadas em RED.

E outra curiosidade da produção: as cenas do casal na fase “enamorada” foram filmadas primeiro, durante três semanas. Depois desta fase, Ryan Gosling e Michelle Williams viveram juntos em uma casa por um mês, fazendo coisas banais, como indo às compras, cozinhando, jantando, etc., para afinar a técnica de conversarem como um casal e “brigarem” um com o outro. Por isso mesmo tanto realismo em cena.

Michele Williams aceitou fazer o filme porque ela tinha gostado muito do roteiro. Mas quando o projeto começou a ser filmado, o diretor sugeriu que os atores improvisassem mais as falas do que simplesmente seguissem o roteiro. Inicialmente a atriz foi mais resistente à ideia. mas Gosling teria gostado do improviso porque disse que tinha dificuldades de lembrar de todas as falas. Mais uma razão para o filme fluir tão bem. Ainda que, cá entre nós, esse fato me deixou curiosa para saber como seria o roteiro original, sem as improvisações.

Fiquei impressionada com a obstinação do diretor Derek Cianfrance com esta produção. Ele dedicou 12 anos para que o filme fosse concretizado. Além de ter trabalhado em várias versões para o roteiro, ele produziu vários documentários para conseguir dinheiro para que Blue Valentine fosse concretizado. Ser obstinado realmente vale a pena – e nos leva a alguns feitos/lugares.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para a produção. Uma nota boa, considerando a média de notas do site. Mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos: publicaram 152 críticas positivas e apenas 22 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 87% – e uma nota média de 7,7.

CONCLUSÃO: Este não é um filme simples. Nem fácil de assistir. Isso porque nunca é fácil assistir à crise de um casamento. Essa é a primeira informação que você precisa ter em mente. Além disso, tenha certeza, há muitas sequências incríveis nesta história, de pura sintonia entre os protagonistas. Cenas líricas, bacanas, musicais, encantadoras. Cenas duras, de diálogos ácidos, de choque de expectativas, destas cenas que podem fazer o coração partir. Blue Valentine é isto, um filme sincero sobre conquista e desgaste. De como os sonhos das pessoas e o amor que elas sentem, muitas vezes são incompatíveis. Uma produção com direção e roteiro honestos, sensíveis, e que ainda conta com um casal de atores dedicados. Para quem tem o coração aberto a assistir o pior que a ferrugem e o desgaste podem fazer, é uma grande produção.

Haevnen – In a Better World – Em Um Mundo Melhor

16 de maio de 2011 4 comentários

Realidades cheias de conflitos. A definição da coragem e da covardia. Mesmo tratando deste temas em cenários muito distantes e distintos e buscando um olhar crítico sobre eles, Haevnen, produção vencedora na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no último Oscar, revela-se também um bocado simplista e simplória. Este não é o melhor filme da ótima diretora Susanne Bier, sem dúvida. Falta-lhe um pouco de coragem e sobra um bocado de discurso pronto e fácil. Ainda assim, não foi totalmente injusta a sua premiação no Oscar porque, afinal, Haevnen é um filme muito bem acabado e visualmente interessante.

A HISTÓRIA: Nuvens pesadas deslizam pelo céu. Um vento constante sacode as vestes e as barracas de mulheres, homens e crianças. Meninos e meninas brincam em meio à poeira e à falta de quase tudo. Um grupo corre atrás de um carro aberto que leva um grupo de médicos e enfermeiros. Um destes médicos é Anton (Mikael Persbrandt), que passa parte da vida tentando salvar pessoas naquele cenário de privações e ameaças, e outra parte lidando com o divórcio da mulher Marianne (Trine Dyrholm) e com as dúvidas e problemas do filho Elias (Markus Rygaard). Anton joga uma bola para as crianças, e isso é tudo o que elas parecem precisar para serem felizes – pelo menos naquele momento. Algo aparentemente impossível para o revoltado Christian (William Johnk Nielsen), que perdeu a mãe e não consegue lidar com esta ausência. Rejeitando o pai, Claus (Ulrich Thomsen), e qualquer sinal aparente de fraqueza, Christian se aproximará de Elias e mostrará como escolhas equivocadas podem disseminar a violência.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Haevnen): Existem, no mundo, múltiplas realidades. Há cenários de privação e outros de fartura. Verdade. Mas será que para falar sobre a origem da violência, a convicção da busca da paz pela falta de represálias, a importância da família, da vida e da morte, se faz realmente necessário confrontar um ambiente de refugiados na África com a de uma cidade típica da rica Dinamarca? Haevnen tem boas intenções, mas o filme peca por simplificações que tornam questões importantes da vida como quase exceções.

Vejamos: diariamente, nos centros urbanos ou rurais da parte que for do planeta, as pessoas não fazem escolhas? Elas decidem, por exemplo, se respeitam ou não os seus semelhantes. Independente da religião ou da crença que podem seguir. Decidem se tratam os demais como devem ser tratados, ou se não fazem isso. Frente à violência, escolhem o caminho da represália ou do perdão. Alimentam o ódio ou o amor. Sei que estas linhas, para alguns, pode parecer discurso “babaca” ou inocente, mas a verdade – e que muitos tem dificuldade de admitir – é que escolhemos o estilo de vida que temos a cada passo, a cada escolha.

Em Haevnen, o roteirista Anders Thomas Jensen nos apresenta, sempre, uma oposição de realidades. Há dois núcleos familiares muito distintos em cena. Dois países com realidades opostas – um com fartura e vida social muito bem organizada, outro com escassez de quase tudo e cotidiano imprevisível e um bocado caótico. Mas existem também providenciais similaridades. Mesmo muito diferentes, os dois núcleos familiares que acompanhamos foram desfeitos. A história também fica centrada, a maior parte do tempo – exceto quando as atenções estão para a África sob a ótica de Anton -, nas posturas de dois adolescentes.

A primeira questão importante de Haevnen é a ideia do perigo do núcleo familiar desfeito. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tanto a casa de Christian quanto a de Elias nunca está completa. No caso de Christian, a figura materna desapareceu. Não chegamos nem a conhecê-la. Com a morte da mãe, o garoto perde, aparentemente, o seu referencial mais amoroso. Ele parece não ter muita intimidade com o pai e se sente, assim, “sozinho no mundo”. O caminho que ele escolhe, para lidar com a dor, é a represália a todo mal que encontra à sua volta. Na leitura de alguns, ele se torna um garoto revoltado e amargurado.

No caso de Elias, a figura paterna está, quase sempre, ausente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas não pela perda maior e irreversível da morte, mas porque o pai dele é um médico dedicado a causas humanitárias. Essa ausência constante termina com o casamento de Anton e Marianne, e Elias deve enfrentar esta situação de “agravamento” da perda da figura paterna. Como ele resolve a questão? De forma pacífica, tentando entender o que está acontecendo, até que é contaminado pela revolta de Elias – que não faz o garoto mudar de atitude, mas que lhe absorve, mesmo assim, em seu redemoinho de sentimentos raivosos e vingativos.

Apenas pelas atitudes dos garotos, temos oposições de “visões de mundo”. E o mais interessante, neste aspecto – e alguns psicólogos podem falar melhor a respeito – é que eles reproduzem ou são “produtos” do ambiente familiar. Mas não apenas dele, é claro. Christian parece seguir um comportamento mais “frio”, distanciado, a síntese da forma com que o pai dele aparece na trama. Mas há poucos elementos para analisar a formação do garoto. Primeiro porque o ótimo ator Ulrich Thomsen, que interpreta a Claus, aparece pouquíssimo na história – e ele nem pode ser taxada muito como “omisso”. Depois, porque não sabemos nada sobre a mãe de Christian.

Mas algo muito diferente acontece com Elias. Sabemos mais da mãe dele do que do pai de Christian. E, como um dos grandes nomes da produção, sabemos muito mais sobre o pai do garoto. Se por um lado, aparentemente, temos a uma família de bons recursos e um tanto “sem diálogo” e com pouco afeto, como parece ser o caso de Christian, por outro temos a uma família preocupada com o caráter humano, com a preservação da vida e com o diálogo, no caso de Elias.

E daí talvez surja um dos poucos elementos realmente interessantes deste filme: por mais óbvia e esquemática que seja uma realidade apresentada, o roteirista Jensen e a diretora Susanne Bier nos mostram, de forma menos escancarada, como nenhuma realidade “perfeita” ou “corrompida” é composta por apenas um destes elementos. A filosofia e convicção pacifista e humanitária de Anton e da mulher tem limites, como comprova a atitude dele com um dos vilões do Quênia. E a indiferença e o pragmatismo do pai de Christian se mostram um argumento fácil de ser comprovado cada vez que ele se aproxima do filho e não consegue romper a armadura que o garoto vestiu desde que perdeu a mãe. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Finalmente, o próprio Christian, tão cheio de razão, percebe que não importa toda a lógica ou senso de “justiça” torto do mundo: a violência nunca dará bons frutos. Quando ele percebe o peso de seus atos, apenas um gesto de perdão pode redimir a todos.

Agora, voltando a um lugar-comum que me irritou um pouco: fica evidente, logo pelas primeiras cenas do filme, a preocupação dos realizadores em contrastar a realidade de miséria pura de um país africano com a da fartura de um país desenvolvido. Fazia falta esta simplificação de propósito? Será que em uma África carente não convivem também pessoas que lutam pela paz com aquelas que buscam semear a violência? E o mesmo não pode ser encontrado na Dinamarca? Por que contrastar crianças de extrema carência com aquelas que parecem “ter tudo”. Talvez foi a forma da diretora e do roteirista fazer o espectador refletir que nem tudo é o que parece. Ou que nem tudo é tão óbvio quanto costumamos pensar. Na miséria da África pode existir mais alegria em coisas simples do que na “fácil” Dinamarca para onde Anton volta sempre. Mas há perigo e pessoas dispostas a semear a violência em todas as partes. Parece que a minoria tenta preservar o direito de não reagir a uma agressão na mesma moeda. Mas mesmos estes tem seus momentos de fraqueza.

Sim, Haevnen é um filme sobre realidades conflitantes e que nunca estão alheias a contaminação de princípios. O que torna o filme, até certo ponto, uma produção sem muita esperança, diferente do que o título possa sugerir. O paraíso não está na “miséria e simplicidade” da África. Nem nas ruas bem organizadas da Dinamarca. Talvez a única chance de termos algo parecido com o paraíso esteja nos gestos finais de Anton e Elias, que representam o amor através do perdão. Defender isto é sempre difícil e exige sacrifícios. Mas é possível. Por estas ideias e pela beleza da direção de Susanne Bier, pelas interpretações dos atores principais e pela direção de fotografia de Morten Soborg o filme, no fim das contas, possa merecer a nossa atenção. Apesar da preguiça que ele desperta, muitas vezes, das simplificações, estigmas e lugares-comum da história.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Haevnen não é um grande papa-prêmios. Pelo contrário. Ele ganhou apenas as duas premiações mais badaladas de Hollywood: o Globo de Ouro e o Oscar deste ano como Melhor Filme Estrangeiro. E só. Pouco para um filme ser consagrado. E cá entre nós, acho que foi bastante, para a qualidade da produção. Gosto da diretora Susanne Bier, mas acho que precisamos ter um ano muito fraco de candidatos para Haevnen ser considerada a melhor produção do ano. Dos outros concorrentes do Oscar deste ano, assisti apenas ao grego Kynodontas e, francamente, achei este último, pelo menos, mais original. E impactante. Se boas intenções ganhassem o Oscar, certamente Haevnen foi o merecedor. Mas se for avaliada a originalidade, Kynodontas merecia mais. Só depois de assistir aos outros três é que poderei dizer, com todas as letras, se houve alguma injustiça este ano.

O elenco de Haevnen faz um belo trabalho. Merece uma menção especial os atores Mikael Persbrandt, Markus Rygaard e William Johnk Nielsen – ainda que este último, algumas vezes, cai tanto no estereótipo que chega a cansar. Além dos outros atores citados, vale a pena citar os coadjuvantes Wil Johnson, como o médico Najeeb; e Odiege Matthew como o asqueroso Big Man. Da equipe técnica, além da excelente direção de fotografia de Morten Soborg, merece menção a trilha sonora de Johan Söderqvist e a edição da dupla Pernille Bech Christensen e Morten Egholm. Pena que o ótimo ator Ulrich Thomsen seja disperdiçado na história, aparecendo pouco no filme.

Esta produção foi filmada no Quênia e em quatro cidades dinamarquesas: Faborg, Rudkobing, Svendborg e Tasinge.

Mesmo ganhando o Oscar e o Globo de Ouro, Haevnen teve um desempenho irrisório nas bilheterias dos Estados Unidos. A produção, que estreou no dia 3 de abril, arrecadou pouco mais de US$ 512,4 mil dólares até o dia 8 de maio.

Haevnen ganhou poucos prêmios, mas não foi por falta de participação em festivais. Após estrear na Dinamarca em agosto de 2010, o filme passou por 12 festivais mundo afora, incluindo os do Rio, de São Paulo, o de Sundance e o de Toronto.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para o filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes ficaram muito perto deste número, dedicando 64 críticas positivas e 22 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 74%.

Agora, um momento de confissão: fiquei muito, mas muito tempo mesmo sem publicar um texto novo aqui no blog. Certo que uma parte da justificativa para isso foi o excesso de trabalho no jornal em que atuo como repórter. Mas outro motivo foi também uma certa “decepção” que tive com este filme. Por gostar da diretora, do roteirista e de alguns dos atores da produção, sou franca em dizer que eu esperava mais. E também por ele ter ganho o Oscar. Achei o resultado final muito fraco perto do potencial dos realizadores. E daí me deu um certo “desânimo” em escrever a respeito, nas poucas vezes que tive oportunidade desde o Oscar. Fui adiando, adiando, até que resolvi me “livrar” logo do texto para, finalmente, me lançar em outros filmes. Melhores, piores, só o tempo dirá. Obrigada aos que tiveram paciência de esperar e espero, sinceramente, que textos melhores venham por aí. :)

Uma curiosidade sobre o filme: o texto que Christian lê no funeral da mãe é de Hans Christian Andersen, The Nightingale.

CONCLUSÃO: A embalagem é bonita, mas o conteúdo, muito manjado. Haevnen tem um ótima direção de fotografia e boas intenções, mas patina em lugares-comum e na simplificação da dualidade. É realmente necessário comparar um acampamento de refugiados em permanente tensão na África com o ambiente escolar conflituoso de uma cidade na Dinamarca? O único ponto interessante na aproximação destes extremos, para mim, foi a reflexão “ligeira” sobre os contrastes do mundo que podem ser vivenciados por um mesmo indivíduo, personificado pelo médico Anton (Mikael Persbrandt). Através dele, percebemos como a globalização pode aproximar mundos tão díspares e, sem planejar muito, ensinar princípios de humildade, igualdade e de combate à violência para jovens de partes muito diferentes do globo. Esta é a mensagem bacana e necessária do filme. Mas a forma com que estes conceitos são apresentados chegam a cansar, pela previsibilidade do roteiro e a sua simplificação extrema. Nem todos são vítimas na África e nem todos os órfãos de mãe revoltados podem assumir toda a culpa de uma lógica violenta em uma sociedade em que existe fartura. O mundo e as pessoas são mais complexos do que isto. Mas nada, em parte alguma, pode ser tão complicado que não haja solução. E ela reside, sempre, no olhar atento e afetuoso para o outro, na decisão pela não-violência, no amor e no perdão. Talvez por esta mensagem de um paraíso possível, ainda que difícil de alcançar, o filme valha.

GasLand

1 de abril de 2011 7 comentários

O que você faria se uma grande empresa do setor energético chegasse no lugar em que você mora e oferecesse uma boa grana por suas terras? Considerando, claro, que você morasse em uma casa com um terreno considerável, cercado(a) de natureza e que, sob o solo, existisse uma bela quantidade de gás natural a ser explorada. Talvez você pensasse na proposta e até vendesse as suas terras. Mas Josh Fox aproveitou a oportunidade para dirigir, escrever o roteiro e produzir o documentário GasLand, que concorreu ao Oscar deste ano. O filme é importante, pela denúncia que faz e pelo tipo de crítica que pode provocar em quem não está familiarizado com o tema – a maioria das pessoas – mas, cá entre nós, peca um pouco pela falta de malícia (o que é o mesmo que dizer que ele é um pouco “inocente” demais).

A HISTÓRIA: Um homem com máscara empunhando um banjo aparece em frente à câmera, com uma usina aos fundos, comentando que sempre acreditou que a humanidade seria capaz de fazer as escolhas certas. Corta. Daí passamos a acompanhar uma sessão da comissão que trata do setor de energia e minerais no Congresso dos Estados Unidos. Corta. Cenas mostram neve, estradas, árvores. E um dos participantes da sessão comenta que há muitos lugares no país que contem bilhões de metros cúbicos de gás natural. Enquanto os engravatados defendem a exploração do gás natural, o diretor mostra detalhes da reunião, como o fato deles estarem bebendo água mineral. Os executivos citam estudos que “comprovam” que a perfuração hidráulica para a retirada de gás natural não prejudica a água potável. Em seguida, o diretor Josh Fox se apresenta. Conta a sua história e parte para descobrir o que, de fato, se esconde por trás dos discursos dos engravatados. Ele percorre boa parte dos Estados Unidos contando a história de pessoas que tiveram as suas águas contaminadas pela exploração do gás natural. E através deste seu trabalho independente, procura alertar quem ainda não caiu no argumento das grandes empresas para os problemas que este tipo de exploração traz para a natureza e para a saúde das pessoas que vivem perto dos locais perfurados.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a GasLand): No melhor estilo conclamado por Glauber Rocha de “uma ideia na cabeça, uma câmera na mão”, o diretor Josh Fox estreou no universo dos documentários com GasLand. Partindo de sua história pessoal, resgatando a forma de vida e os ensinamentos dos pais, que eram hippies, e que escolheram uma casa para morar junto a um rio, Fox parte para desbravar os interesses, o dinheiro e o poder que envolvem aqueles que exploram a lucrativa indústria de extração de gás natural nos Estados Unidos.

O discurso do diretor fica claro desde o início, quando ele menciona Pete Seeger, o homem que empunhou um banjo em 1972, ano em que Fox nasceu, para denunciar a poluição no Rio Hudson. No mesmo ano, Richard Nixon assinou a lei de proteção da água. Estas informações no princípio esboçam o “espírito” da produção que, claramente, surge para criticar a exploração energética nos moldes em que ela é feita atualmente. Fox resgata a herança hippie de seus pais para fazer o público refletir de como as práticas de exploração sem critério da natureza, como tem sido feito há várias décadas, não pode continuar.

Após comentar sobre a sua própria vida, origem e o local em que ele mora – um “pano de fundo” para o discurso que virá a seguir -, Fox comenta sobre o e-mail que recebeu de uma empresa de gás que informava o diretor que ele tinha a sua propriedade sobre um manancial de gás chamado Marcellus, que passa por quatro estados do país. No mesmo documento, a empresa afirmava que ele não precisava vender a sua terra, mas alugá-la. Os 39 hectares renderam quase US$ 100 mil. A chance de ganhar dinheiro assim “fácil” não convenceu o diretor. Sem acreditar nos anúncios que dizem que o gás natural é um combustível limpo, Fox resolveu descobrir o que aconteceu com pessoas que, como ele, estavam em dúvida sobre abrir o próprio quintal para a exploração das grandes empresas, aqueles que resolveram assinar o contrato e alugar as próprias terras.

A crítica política está lá, quando o diretor mostra como George W. Bush e Dick Cheney mudaram as leis do país para beneficiar as grandes empresas que exploram o segmento de gás natural, tirando delas a responsabilidade por uma série de problemas que esta exploração pode causar para o meio ambiente. (Crítica e reflexão similar já havia sido feita envolvendo os dois nomes e a indústria armamentista e petrolífera). Bacana a forma com que Fox explica a exploração pelo método de “fratura”, dá os nomes aos bois (ou seja, às empresas que exploram esse tipo de combustível) e revela como o problema está espalhado por 34 estados do país. O diretor apresenta as  informações de forma bem didática e sem ser cansativo.

Interessante como Fox consegue levantar a lista gigantesca de produtos químicos que são utilizados no processo e revela, através de especialistas e na prática, com torneiras expelindo uma água contaminada e inflamável, o efeito desta exploração nos Estados Unidos. Um drama não apenas ambiental, mas social. Na verdade, impossível saber o que é pior: o efeito para a saúde e o futuro de tanta gente, ou o estrago sem remédio para a natureza. Impressionante a quantidade de água, que cada vez mais é chamada de “bem finito”, que é utilizada para estes processos de exploração do gás natural. E depois eles nos cobram do desperdício das torneiras… ok, nós também precisamos fazer a nossa parte. Mas estas grandes empresas? Estes sujeitos que ganham fortunas nestes processos de exploração e montam corporações que modificam as leis de um país, pagando um pouco de “propina” para alguns políticos, que tipo de responsabilidade eles tem? Nenhuma, denuncia GasLand.

A parte da denúncia é importante, nesta produção. E o filme ganha o inevitável e fundamental caráter humano quando as histórias das pessoas vão sendo reveladas. Muitos doentes. Outros sem esperança. Finalmente, depois de ouvir alguns especialistas – mas receber apenas “negativas” das empresas, Fox consegue “ouvir” (entre aspas mesmo, porque ele não consegue entrevistar ninguém, na prática) a alguns de seus representantes na sessão do Congresso. O filme fecha com aqueles discursos vazios, retomando o início da produção, mas com a diferença do “miolo” narrativo cheio de denúncias ter transcorrido entre o ponto inicial e o final.

As intenções de Fox são muito boas, sem dúvida. E o filme merece palmas por ter sido feito, de forma independente. Quem dera que mais denúncias como esta, que coloca o dedo na ferida de grandes empresas sem nenhuma (ou pouca) preocupação ambiental e social, sejam feitas. Mas apesar destas qualidades, não devo me esquivar de analisar a produção como uma obra de cinema.

Neste sentido, e perto do que figuras como Michael Moore já fizeram em produções como Roger & Me e Bowling for Columbine, GasLand peca pela inocência. Fox não vai fundo na crítica, na reflexão e muito menos insiste o suficiente para conseguir outros tipos de resposta. Fica evidente o discurso panfletário do diretor – e nisso ele se aproxima de Moore. Ok, esse tipo de cinema também é válido. Mas sem dúvida as produções que tem uma reflexão maior e apresentam um volume mais amplo de informações ajudam muito mais o espectador e tornam os documentários mais relevantes.

Observando GasLand apenas como peça de cinema, devo dizer que o filme também perde bastante a sua força lá pelo meio. Ainda que todas as histórias mostradas sejam relevantes, elas acabam revelando-se um bocado repetitivas, lá pelas tantas. Assim como as sequências pelas “lindas paisagens preservadas dos Estados Unidos”, também repetitivas e, francamente, um bocado “pueris”. Afinal, sejamos francos: o gás natural é sim uma ótima alternativa ambiental.

Que a forma com que ele esteja sendo tratado em parte dos Estados Unidos seja incorreta, tudo bem. Mas se a exploração deste produto for feita de forma correta e segura, sem prejudicar mais danos ao meio ambiente, o gás natural é uma alternativa viável, ecológica – mais que os produtos provenientes do petróleo – e mais barata para o consumidor. Acho que faltou, por exemplo, uma reflexão sobre outros tipos de exploração do gás. Tenho certeza que existem outras formas de perfurar o solo e de extrair o gás da terra. Fiquei curiosa, por exemplo, em saber como isto é feito no Brasil, na Bolívia, na Europa e em outras partes. Essa explicação e reflexão é algo que GasLand nem tenta fazer. Um pena.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: GasLand concorreu como Melhor Documentário no último Oscar, mas perdeu. Francamente, assisti ao filme antes da premiação, e já tinha o palpite que esta produção não teria chances. Primeiro que, frente aos concorrentes, ela era mais “fraquinha”, digamos assim. Mas, claro, válida. Acredito que a indicação do filme já foi uma forma de premiá-lo.

Até o momento, GasLand foi premiado uma vez: com o prêmio especial do júri como documentário no Festival de Sundance do ano passado. No mesmo ano, ele concorreu ao prêmio de Melhor Documentário, mas perdeu a disputa para Restrepo, com quem ele concorria também no Oscar deste ano. Ambos perderam, como muitos de vocês devem saber, para Inside Job.

GasLand não é o primeiro documentário dirigido por Fox. Antes dele, o diretor havia filmado Memorial Day, um drama de 2008 estrelado por Sarah Nedwek, Neil Knox, Pedro Rafael Rodriguez, entre outros. A produção tem uma nota bastante baixa no IMDb: 4,4. Sem dúvida, comparado com esta produção de 2008 (que eu não assisti, devo ressaltar), GasLand foi a melhor maneira de tirar Fox do anonimato. O diretor e roteirista tem uma filmografia curta, até o momento. Além dos dois filmes citados, ele contribuiu com o roteiro da série Bay State, exibida em 2001 e 2002. Nada demais.

O documentário de Fox merece aplausos porque foi feito de forma bastante independente. O diretor faz quase tudo. Ele é responsável por operar a câmera, pelo roteiro e tudo o mais. Da pequena equipe que contribuiu com a produção, vale citar o trabalho do editor Matthew Sanchez, os efeitos especiais e animações (basicamente os esquemas explicativos) coordenados por Juan Cardarelli e Alex Tyson, respectivamente.

Não deixa de impressionar, na “ficha técnica” do filme, a pequena lista de pessoas que fizeram parte do projeto contrastando com a imensa lista de agradecimentos do diretor. O cara foi valente, sem dúvida.

GasLand estreou no Festival de Sundance, em janeiro de 2010, e depois passou por outros três festivais, dois nos Estados Unidos e um em Helsinki. No circuito comercial, ele estrou em poucos países. Na França, por exemplo, ele está estreando nos cinemas apenas agora, no dia 6 de abril.

A bilheteria do filme nos Estados Unidos foi ínfima. Até outubro, quando o filme saiu do circuito comercial, ele havia arrecadado pouco mais de US$ 30,8 mil, o que é quase nada, mesmo para um documentário – que, exceto os de Michael Moore, tem pouca audiência nos Estados Unidos e praticamente em todas as partes.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para GasLand. Achei uma nota muito justa. Eu teria dado o mesmo, mas fui mais “generosa” porque sempre me comovem estes filmes feitos na “cara e na coragem”. Quem me acompanha por aqui há mais tempo deve ter percebido que, nem sempre, o meu critério de notas segue apenas a razão. Sou passional, admito. E não conseguiria ser diferente por aqui também. :)

Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos com a produção. GasLand rendeu 34 críticas até o momento e, todas elas, foram positivas para a produção, o que lhe garante um raro, muito raro 100% de aprovação. A nota média destas críticas no Rotten Tomatoes é 7.

CONCLUSÃO: Um filme importante sobre um tema pouco tratado: a forma com que o gás natural é extraído do solo dos Estados Unidos. O diretor Josh Fox parte de sua história e dilema pessoais para adentrar na vida e nas queixas de muitas pessoas que se sentiram prejudicadas com este tipo de economia. Uma produção interessante, ainda que incompleta, porque deixa muitas perguntas sem resposta. Fox não insiste e nem procura compreender “o outro lado da questão” de forma adequada. Se limita a alguns telefonemas – em uma evidente tentativa de mostrar como uma pessoa comum tem dificuldades de conseguir respostas. Neste sentido, a “limitação” do diretor é válida. Mas como obra de cinema, como documentário que tenta lançar algumas “luzes” sobre o tema, GasLand contribui apenas em parte para o debate. De qualquer forma, é importante como denúncia e alerta. Sem dúvida muitas vidas, propriedades e estados no país de Fox estão condenados por causa de algumas empresas que lucram muito com o gás natural. Mas acho importante também ponderar que esta alternativa energética é interessante, se bem trabalhada, evidentemente. Agora, fiquei curiosa para saber como esta mesma exploração é feita em outras partes, especialmente nos nossos quintas – Brasil e Bolívia.

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