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Drive

18 de fevereiro de 2012 4 comentários

Um filme com estilo. No conteúdo e na forma. Drive resgata um jeito de fazer cinema um tanto esquecido e presenteia o espectador com uma história bem contada e envolvente. Quem diria que um sujeito bom de braço no volante poderia ser tão versátil. E render tantas cenas instigantes muito além da ação. Drive lembra um pouco o estilo da boa fase de Quentin Tarantino. Mas não é uma cópia do estilo do diretor ou mesmo uma releitura. Ele tem criatividade e estilo próprio, com foco menor nos diálogos e uma atenção maior em outros quesitos.

A HISTÓRIA: Um homem (Ryan Gosling) comenta, por telefone e olhando por uma janela de hotel, que há milhares de ruas em Los Angeles. E que basta o interlocutor dizer hora e local, que ele dará cinco minutos para ele. Depois deste tempo, ele irá embora, não importa o que aconteça. Em seguida, ele diz que a pessoa não poderá falar mais com ele naquele celular. O homem pega uma bolsa e sai do quarto. Dirige pelas ruas iluminadas, até chegar em uma oficina e pegar um Chevy Empala, um carro mais básico e comum para ele dirigir. O dono da oficina, Shannon (Bryan Cranston) explica que este é o carro mais usado na Califórnia. O protagonista então dirige, escutando a transmissão do jogo entre Celtics e Clippers. Chega no lugar combinado, vê dois homens atravessando a rua e tira o relógio do pulso para colocá-lo no volante. Ele dá cinco minutos para eles fazerem o roubo e depois segue para a fuga. A partir daí, mergulhamos na vida deste motorista.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Drive): Uma pessoa nunca é uma coisa só. Um médico não é apenas um sujeito que tenta curar pessoas. Ele também pode ser um pai, sem dúvidas é um filho – ou já foi um -, um apreciador de bons vinhos, um especialista em mitologia grega, um ótimo pescador e tantas outras coisas… Da mesma forma, o protagonista de Drive não é apenas um ótimo motorista. Mas a habilidade dele para guiar com maestria um carro e seu conhecimento das ruas de Los Angeles fazem ele utilizar este diferencial para muitas funções.

No começo de Drive, ele parece ser apenas um motorista voraz e especialista em fugas espetaculares. E aí surge a primeira boa sacada da direção de Nicolas Winding Refn: mostrar como o ingrediente principal do protagonista não é a destreza, dirigir o carro de uma maneira enfurecida, mas a inteligência. Ele conhece como ninguém as ruas e quebradas de Los Angeles. Sabe como a polícia funciona. E, pouco a pouco, o roteiro de Hossein Amini vai nos mostrando que ele conhece também, com precisão, o funcionamento da bandidagem.

Um grande acerto do filme, para começar, é esta resistência em cair no lugar-comum de um filme de ação. Ainda que a destreza no volante seja fundamental para o protagonista, este não é o único elemento que o diferencia dos demais. A inteligência e o comportamento reto, centrado em proteger a Irene (Carey Mulligan) e seu filho, Benicio (Kaden Leos), e a manter-se vivo, contam muito mais. Então Drive acaba tendo elementos de filmes de ação, mas ele também abraça o drama e o suspense. Faz lembrar dos filmes noir, não apenas pelo estilo, mas pela lógica da produção, na qual o protagonista parece fadado a se dar mal – e tem que lutar para manter-se o mais limpo possível em um ambiente de contravenções e de um tipo de “submundo”.

Como em tantas outras produções, acompanhamos o protagonista em um momento de ruptura. Ele está deixando a vida de motorista de ladrões para abraçar apenas as suas outras duas profissões: dublê de astros em filmes de ação e mecânico. Neste momento, como manda a regra da roda-viva do cotidiano, ele também encontra outro motivo para mudar de foco: conhece a Irene e seu filho. Fica encantado por ela, e parece que o interesse é recíproco. Mas como nunca as coisas são fáceis, ele só se complica com esta ilusão de viver um grande amor.

Porque Irene é toda uma complicação. O protagonista não demora muito para saber que ela é casada com um cara que está na prisão. E ele, o marido, Standard (Oscar Isaac), também não tarda muito para dar as caras. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E daí aquele primeiro lugar-comum básico: Standard é pressionado a fazer um “último trabalho” para pagar uma dívida contraída na prisão. E o protagonista se oferece para ajudar. Não por causa de Standard, claro, mas porque ele quer proteger Irene e Benicio. E como manda a regra de um filme que lembra o estilo noir, claro que algo vai sair errado. E sai.

A partir daí, o filme mergulha no submundo do crime, com os parceiros Bernie Rose (Albert Brooks, naquele que talvez seja o seu melhor desempenho em muito tempo) e Nino (Ron Perlman) assumindo os papéis de vilões no melhor estilo de mafiosos. O protagonista, sempre tão cuidadoso e cheio de regras – a principal delas, de não se envolver emocionalmente nos crimes – acaba se dando mal justamente quando perde o racionalismo. Drive, desta forma, também não deixa de ser um romance. Com elementos de ação, suspense e crime, mas um romance.

Assim, meio sem percebermos, adentramos na vida de um sujeito que simboliza as diferentes expressões de Los Angeles, dos Estados Unidos e, por que não dizer, de qualquer grande cidade e país do mundo? Esse motorista que dá título ao filme nos conduz pela história com maestria, revelando um pouco da simplicidade de quem enche as mãos de graxa, dos bastidores de uma indústria milionária como é o cinema, dos caminhos retos de quem trabalha muito e incorretos de quem busca a alternativa do crime para faturar muito em pouco tempo.

Los Angeles também é uma personagem da história. Se for olhado com uma lupa, Drive trata da busca tradicional do homem que parece perdido, sem sentimento, pela redenção, pelo amor, por um recomeço diferente. Ele quer mudar a lógica da roda que repete sempre a mesma fórmula. Vários filmes já trataram disto, é verdade. E ainda assim, Drive consegue contar esta história de forma diferente. E com muito estilo.

O personagem de Gosling é destes que há muito não vemos no cinema. Que cria fascínio pela personalidade, e porque nos colocamos muito próximos dele, ao mesmo tempo que desperta repúdio pelos crimes que comete ou ajuda a cometer. O ator dá um show. Convence e carrega o filme nas costas, ainda que os atores coadjuvantes também estejam muito bem. A direção de Refn, que nos aproxima sempre do protagonista e dos demais personagens, e que consegue criar a tensão exata nos momentos mais delicados, também é fundamental. Assim como o roteiro de Amini, que inova nos momentos precisos sem, para isso, tirar coelhos da cartola. A história parece realista, e esse tom é fundamental para que Drive funcione.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para funcionar tão bem, Drive tem na qualidade dos elementos técnicos um ponto fundamental. Além de dirigir muito bem as cenas de ação, o diretor Nicolas Winding Refn acerta em cheio na forma de dirigir as demais cenas. Em como criar a tensão exata quando o protagonista está sendo perseguido, e de como valorizar o trabalho dos atores e o texto bem escrito por Hossein Amini. Um grande trabalho do diretor.

Mas para o filme conseguir a nota máxima, ele precisou também que outros detalhes funcionassem com perfeição. O primeiro elemento que me chamou a atenção nesta produção é a trilha sonora. Envolvente, moderna, ela dita um ritmo importante para a produção, especialmente em seus momentos de “reflexão”, sem diálogos. Mérito de Cliff Martinez. Ele também é responsável por ficarmos com a música A Real Hero, de College, na cabeça. Ela também serve para “resumir” a mensagem do filme, de transformar aquele “sujeito comum”, suscetível a todos os acertos e erros possíveis, em um “herói”. Drive consegue fazer com que ele seja visto assim, e que o espectador torça por ele.

Depois da trilha sonora, palmas para a direção de fotografia de Newton Thomas Sigel, que consegue capturar a melhor luz de Los Angeles durante o dia e as cores artificiais da cidade pela noite com precisão. Além do olhar diferenciado de Refn, o filme se destaca por uma edição cirúrgica de Matthew Newman. Sem ele, o filme perderia bastante do ritmo.

Difícil escolher apenas algumas cenas de Drive para destacar. Há muitos momentos bem pensados e filmados nesta produção. Mas eu gostei de alguns mais do que outros. Por exemplo, a sequência do protagonista e de Blanche (Christina Hendricks, ótima atriz de Mad Men) no hotel e a descida de elevador dele com Irene pouco depois. Simplesmente, genial.

Este, sem dúvida, é o grande filme de Ryan Gosling. Agora sim, consigo entender porque Hollywood está badalando tanto este ator. Ele merece. Há muito tempo eu não via um intérprete se sair tão bem em um papel complexo, que alia o lado mais bandido com o de mocinho. Gosling é carismático. Está lindo em Drive. E consegue convencer em cada nuance do seu papel. Se ele acertar em outras escolhas de papel como esta, poderá tornar-se um dos principais nomes de Hollywood em pouco tempo.

Os demais atores desta produção também estão muito bem. Gostei de ver Bryan Cranston em cena. Lembrei do trabalho excepcional dele em Breaking Bad durante todo o tempo. Mas em Drive ele está muito mais como “cordeirinho”. :) Carey Mulligan também está ótima. Frágil, observadora e carismática na medida. Ainda que em um papel muito menor que dos outros dois, achei que Christina Hendricks se destaca no filme.

Drive estreou no Festival de Cannes em maio de 2011. De lá para cá, a produção passou por outros 13 festivais mundo afora. Nesta trajetória, ganhou 39 prêmios e concorreu a outros 56. Números impressionantes. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de melhor diretor para Nicolas Winding Refn no Festival de Cannes; o de melhor filme americano no Robert Festival, na Dinamarca; e quatro prêmios no Satellite Awards, entregue pela imprensa de Hollywood. Nesta última premiação ele ganhou como melhor ator para Ryan Gosling; melhor ator coadjuvante para Albert Brooks; melhor diretor para Refn; e melhor som (edição e mixagem). Albert Brooks foi indicado ao Globo de Ouro como melhor ator coadjuvante, mas foi vencido pelo favorito também no Oscar, Christopher Plummer.

Esta produção demonstra, mais uma vez, como um ótimo filme não precisa custar mais de US$ 100 milhões. Drive teria custado cerca de US$ 15 milhões. Até o momento, ele arrecadou mais que o dobro apenas nos Estados Unidos. O acumulado nas bilheterias, até o dia 5 de fevereiro, chegou a pouco mais de US$ 35 milhões. Não é nenhum resultado fantástico, arrasa-quarteirão, mas também não é desprezível.

Curiosidades sobre Drive: Ryan Gosling assumiu o papel que seria de Hugh Jackman. Acho que o Wolverine teria se saído bem mas, certamente, teríamos uma produção muito diferente com ele. Refn também substituiu outro nome inicialmente cotado para o projeto, o diretor Neil Marshall. Durante a preparação para a produção, Gosling restaurou o Chevy Malibu de 1973 que o seu personagem iria utilizar na produção. Inicialmente, os personagens de Irene e Standard seriam latinos. Mas isso mudou com a entrada de Carey Mulligan no projeto.

O diretor Refn não tem carteira de motorista e falhou oito vezes em tentar obter uma. Ele também não conhecia muito Los Angeles. Para resolver esta questão, que poderia ser um problema para o filme, ele andou como carona do ator Ryan Gosling para cima e para baixo. O nome do protagonista não é revelado em momento algum, e os diálogos dele com Irene são tão raros porque os atores resolveram que os encontros dos personagens deveriam previlegiar o humor deles. Para tornar isso mais evidente, Mulligan e Gosling resolveram não falar muitas linhas do roteiro, apenas olharem um para o outro. Funcionou. E muito bem.

Drive faz uma referência à fábula do Sapo e do Escorpião, aquela em que um sapo aceita ajudar a um escorpião a atravessar um rio mas, no caminho, ele é picado pelo ferrão do escorpião e os dois acabam morrendo. Antes, o escorpião diz que ele não pôde evitar aquele gesto porque aquela é a sua natureza. Em Drive, o protagonista é o sapo, que dirige para os bandidos e acaba sendo “picado” por eles, arrastado para o lado destrutivo da vida por causa deles. Não por acaso ele usa aquela estilosa jaqueta com um escorpião – assim, ele leva sempre o animal perigoso nas costas. Ah, e o ator, Gosling, é do signo Escorpião. :)

Gostei do trabalho de Refn e fui buscar mais informações sobre ele. Dinamarquês, ele tem nove filmes no currículo, incluindo Only God Forgives, que está sendo filmado. Refn estrou nos cinemas em 1996 com Pusher. Em 2009 ele lançou o estiloso Valhalla Rising, que eu ainda não assisti. Agora é esperar para ver a Only God Forgives, estrelado novamente por Gosling e com Kristin Scott Thomas, entre outros, no elenco.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para Drive. Não está mal, mas poderia ser melhor. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 207 críticas positivas e apenas 16 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,2.

O roteiro de Drive é inspirado no livro de James Sallis.

CONCLUSÃO: Estamos sempre ao lado do protagonista. Tão perto, fica difícil não compartilhar de sua adrenalina, ousadia, frieza e emoção. Drive acerta ao colocar o espectador em posição tão privilegiada. Filme de ação, mas com espaço para aprofundar nos sentimentos e desejos dos personagens, Drive entra em universos diferentes de Los Angeles para traçar um quadro interessante da cidade e de alguns de seus personagens. Com um ótimo estilo narrativo e visual, e com um desempenho irrepreensível de Ryan Gosling, Drive mantém o interesse do espectador do primeiro até o último minuto. E ainda que o roteiro tenha lugares-comuns um tanto inevitáveis, ele sabe dar as viradas narrativas no momento certo, tornando toda a aventura da história um belo achado. Uma forma diferenciada de fazer filme noir que dá gosto de assistir. Quem gosta de Quentin Tarantino, deverá curtir este filme. Drive lembra a melhor fase dele e de vários outros diretores que souberam recriar o estilo noir. Mas com a diferença deste filme ter um foco menor nos diálogos e maior nas características dos personagens e das situações vividas por eles.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Drive está concorrendo em apenas uma categoria: edição de som. Uma pena. Ele facilmente poderia ter sido indicado como melhor trilha sonora e edição, dois de seus pontes fortes. Mas ok, ele ficou apenas com edição de som. Nesta categoria, ele tem fortes concorrentes: The Girl with the Dragon Tattoo, Transformers: Dark of the Moon, War Horse e Hugo. Destes, assisti apenas ao último. Mesmo sem ter visto aos demais, acredito que os favoritos nesta categoria sejam Transformers e Hugo. Não vejo que Drive tenha muitas chances para vencer. Eu não apostaria nele.

SUGESTÕES DE LEITORES: Só depois de publicar o texto sobre Drive e começar a responder aos comentários de vocês, meus bons leitores, de janeiro, é que eu percebi que este filme tinha sido indicado pelo André Oliveira no primeiro dia deste ano. Grande dica, hein, André? Filmaço! Gostei muito. Estiloso, com um ritmo perfeito. Muito obrigada pela dica.

Midnight in Paris – Meia-noite em Paris

13 de fevereiro de 2012 2 comentários

Paris… ah, Paris! Quem já caminhou pelas ruas, calçadas, praças, parques, cafés, restaurantes, museus e viu todas as cores e nuances de luz da capital francesa sabe que não existe uma cidade do mundo com aquele encanto. Há um charme, uma aura diferenciada. Woody Allen acerta na mosca ao fazer uma homenagem descarada para esta cidade com Midnight in Paris. Ele retoma o seu texto ligeiro, esperto, com várias referências às artes e histórias da cidade e, de quebra, encontra a sua versão jovem em Owen Wilson. Bom rever Allen em sua melhor forma novamente.

A HISTÓRIA: Vários ângulos mostram Paris em todo o seu esplendor, acompanhados de uma trilha sonora deliciosa. Imagens que contam parte da rotina da cidade, começando pela manhã, seguindo pela tarde, com tempo bom e chuva, até chegar à noite iluminada. Em seguida, o roteirista de Hollywood e escritor Gil (Owen Wilson) tenta convencer a noiva, Inez (Rachel McAdams) de que não há e nunca houve uma cidade como Paris. Especialmente quando chove. Ela não entende as razões de tanto fascínio, e diz que não poderia morar fora dos Estados Unidos. Gil está maravilhado com o cenário que inspirou Monet, mas Inez responde dizendo que ele está apaixonado por uma fantasia. A partir daí, acompanharemos as aventuras do casal por uma Paris bastante distinta, que varia conforme a ótica de cada um.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Midnight in Paris): Woody Allen voltou à sua melhor forma. No texto ligeiro, cheio de referências e de humor inteligente. Midnight in Paris faz uma descarada e merecida homenagem à mais maravilhosa das cidades, Paris. Mas o filme é delicioso não apenas por isso, mas pelas pequenas ironias sobre a forma diferente com que as pessoas encaram as próprias vidas e as cidades pelas quais vão percorrendo enquanto esta mesma vida passa.

Como é costumeiro nos filmes de Allen, em Midnight in Paris os protagonistas vivem um momento de crise. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E por ironia, vivem essa crise nas vésperas de dar o passo mais decisivo: o de se casarem. Mas eles parecem falar idiomas diferentes a todo o instante. E, desde o início, o espectador fica esperando para saber em qual momento eles irão se separar. Porque parece impossível eles darem certo. Ele é um romântico, sonhador. Ela, uma garota fascinada por alguém mais velho e que pareça vomitar conhecimento a cada palavra proferida – pura ilusão, diga-se. Porque ninguém sabe tudo. E aquele que parece estar dando uma aula constante, é apenas maçante.

Midnight in Paris tem o tempo certo. Não é longo demais, e nem repetitivo. E essas qualidades parecem ser cada vez mais difíceis de serem encontradas. Os filmes que conseguem acertar no tempo e na dose do vai-e-vem do roteiro sem torná-lo repetitivo são um verdadeiro achado. Claro que em Midnight repete duas fórmulas: o conflito entre Gil e Paul (Michael Sheen), o “super-crânio” admirado por Inez, e as “voltas no tempo” do protagonista. Mas como em cada uma destas “repetições” há novidades, novos elementos, um molho nos diálogos, principalmente, a fórmula não parece ajustada. E também não se repete vezes demais.

O primeiro elemento que chama a atenção na produção e continua impecável até o final é a trilha sonora. E o apurado senso estético de Allen para capturar a essência de Paris. A trilha sonora que merece aplausos é mérito de Stephane Wrembel. Diferente de outros diretores, que poderiam perder tempo demais focando os cenários maravilhosos de Paris, Allen faz isso apenas na medida necessária. No “clipe” de homenagem que abre a produção e poucas vezes mais – e sempre tratando a cidade como pano-de-fundo de diálogos interessantes e interpretações sob medida. Nada de exageros, nada “over” – diferente de Vicky Cristina Barcelona, só para dar um exemplo recente.

Um dos grandes acertos de Allen foi ele ter voltado a tratar sobre si mesmo. Sim, porque seus melhores filmes são mais que autorais, são quase microcinebiografias. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Novamente ele se coloca no personagem principal. Mas teve a lucidez de saber que não pode mais figurar como um quase-galã. Então ele encontrou o ator perfeito para viver o seu estilo: Owen Wilson. Até o jeito de falar dele lembra o de Allen em filmes antigos. Ele está perfeito. Allen brinca com o erro na escolha amorosa e com o desejo de um artista em ser mais sério – deixando clara a sua preferência irônica de que a literatura é mais interessante que qualquer roteiro de Hollywood.

Não sabemos exatamente o que se passa. Se Gil, em um momento de crise, acaba alucinando por várias noites e embarcando sozinho em conversas com alguns dos maiores escritores e artistas de todos os tempos, e que conviveram juntos na Paris dos anos 1920, ou se ele realmente encontrou uma forma mágica de voltar no tempo. Isso pouca importa. Outra lição de Midnight in Paris é que o cinema é magia, que nos faz sonhar, viajar no tempo e no espaço, e que não vem ao caso que uma história seja 100% lógica. Paris faz qualquer pessoa viajar no tempo. A cidade respira cultura, e tem histórias e personagens em cada esquina. Incluindo os de importância histórica.

A brincadeira com a meia-noite também é divertida. Afinal, quem não se lembra da clássica histórica da Cinderela? E quantos de vocês já não brincaram que precisavam sair mais cedo antes que a carruagem virasse abóbora? Então por que coisas fantásticas não podem acontecer com o bêbado certo no lugar certo com o desejo certo na cidade de Paris? Midnight nos ensina a sonhar, e a soltarmos a imaginação. É uma ode à arte e à criatividade.

Mas o melhor do filme, além de Paris, da trilha sonora e da criatividade do roteiro, são duas ironias do texto de Allen. Primeiro, ele dá um bom tapa com luva de pelica nos estadunidenses “clássicos”, como Inez e seus pais, John (Kurt Fuller) e Helen (Mimi Kennedy). Destes que chegam em Paris ou em outra cidade fora dos Estados Unidos e acham razões para criticar quase tudo. Não conhecem muito sobre a cultura do lugar, e ficam fascinados com qualquer Paul que pareça saber algo – sendo verdadeiro ou não o que ele esteja dizendo. Ou simplesmente não querem saber de cultura alguma. Querem apenas voltar para os Estados Unidos o mais rápido possível. Pessoas que acham que precisam pagar caro para algo bom, e que estando em outro país, assistem a um filme made in Hollywood. O inverso de Gil, que admira e quer mergulhar naquela cultura.

A outra ironia é ainda melhor – e mais filosófica. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Antes mesmo do protagonista voltar no tempo, junto com Adriana (Marion Cotillard), para a melhor época de Paris na opinião dela – na virada dos séculos 19 para o 20 – eu já estava pensando naqueles retornos… afinal, faz falta mesmo acreditar que houve um tempo melhor que o atual? Que tipo de resultado um pensamento assim pode trazer? Frustração, e pouco mais. Ok, para a história esse desejo irrepreensível do protagonista serve. Mas na vida real, ser saudosista não leva à nada. Muito melhor é saber admirar o tempo passado, grandes obras que outros deixaram, mas conseguir admirar o tempo presente com o mesmo interesse e fascínio. Afinal, a história até pode se repetir, em alguns aspectos, mas o tempo é sempre novo e chega para surpreender. Saber tirar proveito disto é fundamental. E o final do filme mostra isso.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Mais uma vez, Woody Allen acerta na escolha do elenco. E desta vez, pelos artistas homenageados pela história, ele conta com um grupo de primeira. Além dos atores já citados, dos quais eu destaco os ótimos trabalhos de Owen Wilson, que me surpreendeu – para mim, dos filmes dele que eu assisti até agora, este foi o melhor -, o de Kurt Fuller e da encantadora e precisa Marion Cotillard, vale citar o surpreendente desempenho de Carla Bruni, como uma guia de museu; Alison Pill como Zelda Fitzgerald; Corey Stoll como Ernest Hemingway; Tom Hiddleston como F. Scott Fitzgerald; Kathy Bates como Gertrude Stein; Adrien Brody como Salvador Dalí (estrelando uma das sequências mais engraçadas do filme); e a encantadora Léa Seydoux como Gabrielle.

Midnight in Paris estreou no Festival de Cannes no dia 11 de maio de 2011. Depois, ele participou de outros cinco festivais e acumulou, até agora, nove prêmios e outras 38 indicações – incluindo quatro Oscar‘s. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Roteiro.

O novo filme de Woody Allen custou aproximadamente US$ 17 milhões. E foi muito bem nas bilheterias – com um roteiro delicioso, o nome de Allen e Paris como pano-de-fundo, não tinha erro. Apenas nos Estados Unidos o filme arrecadou, até o dia 5 de fevereiro deste ano, pouco mais de US$ 56,5 milhões. Na França, ele acumulou pouco mais de 8,4 milhões de euros e, na Itália, mesmo o país em crise, outros pouco mais de 8,7 milhões de euros. Nada mal. Mais que pagado, e no lucro.

E Woody Allen, aos 76 anos, não para. Atualmente o cineasta trabalha na pós-produção de seu 47º filme como diretor – e 68º como roteirista: Nero Fiddled, no qual ele volta a atuar. No elenco estão Ellen Page, Jesse Eisenberg, Alec Baldwin, Penélope Cruz, Alison Pill, Roberto Benigni, Ornella Muti, entre outros. Os dois primeiros atores me atraem. Já os demais… bueno, a conferir.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para Midnight in Paris. Achei que a nota poderia ter sido melhor. Talvez nem todos conheçam Paris… sim, porque eu acho que o fato da pessoa ter presenciado aquele encanto pessoalmente, ter vivido pelo menos um pouco o charme daquela cidade faz toda a diferença na percepção deste filme. E de qualquer outra que torne uma cidade como uma das protagonistas. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 181 críticas positivas e apenas 14 negativas para a produção – o que lhe garantiu uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,8.

Midnight in Paris é uma co-produção da Espanha e dos Estados Unidos.

Da parte técnica do filme, além da trilha sonora deliciosa – e fundamental para o resultado do filme -, vale citar a ótima direção de fotografia de Darius Khondji e Johanne Debas; a edição de Alisa Lepselter; a direção de arte de Jean-Yves Rabier e Anne Seibel; o design de produção de Anne Seibel; a decoração de set de Hélène Dubreuil e os figurinos de Sonia Grande.

E agora, uma observação inevitável: sim, eu sei que eu demorei para assistir a Midnight in Paris. Mas quem acompanha este blog há algum tempo, já deve saber que quando eu perco “o momento” de assistir a um lançamento, ele acaba ficando no final da fila. E ela é tão, mas tãoooo grande! Midnight in Paris só voltou a subir na lista porque está concorrendo ao Oscar, claro. Mas valeu a pena assistir, mesmo com todo esse atraso.

CONCLUSÃO: Como continuar fazendo filmes sobre cidades e suas digitais e não parecer redudante? Não é uma tarefa das mais fáceis. Mas talvez o segredo seja soltar a criatividade e a imaginação. Ser menos realista e mais surrealista. Midnight in Paris é um filme delicioso, criativo e que reinventa alguns dos lugares-comuns de seu cineasta, Woody Allen. Engraçado, mas não de uma forma forçada. O diretor e roteirista continua falando de casais, suas crises e o desejo individual que pode, muitas vezes, não coincidir e pioras as coisas. Mas sobretudo, ele trata de Paris. De como aquela cidade é maravilhosa, não importa o clima ou a época. De quebra, Allen ainda brinca com esse vício dos sadosistas de plantão, de sempre achar o passado melhor que o presente. Desta forma, eles nunca aproveitam as chances, oportunidades e encantos de sua própria época. Um filme delicioso, para quem vive o presente, o passado e gosta de histórias que ainda investem na imaginação.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Midnight in Paris foi indicado para quatro Oscar’s. Achei bastante justo. O filme mereceu as indicações que recebeu. Além de ser indicado na categoria principal, de melhor filme, a produção está concorrendo como Melhor Roteiro Original, Melhor Diretor e Melhor Direção de Arte.

Destas categorias, vejo que ele tem alguma chance, ainda que pequena, em Melhor Roteiro Original e Melhor Diretor. Como melhor filme, ainda que não seria nenhum crime ele ganhar, acho que as chances são mínimas. Afinal, The Artist e The Descendants, especialmente o primeiro, são favoritíssimos. Na mesma onda, três diretores parecem ter mais chances que Allen, que já recebeu três Oscar’s na carreira. A saber: Michel Hazanavicius, por The Artist; Martin Scorsese, por Hugo; e Alexander Payne por The Descendants. Em uma bolsa de apostas, eles estariam na frente de Allen.

Como Melhor Roteiro Original, Midnight in Paris tem mais chances. Seu grande concorrente é The Artist. A queda-de-braço ficou menor. Qualquer um dos dois vencendo será algo justo. Os demais correm por fora. Finalmente, Midnight concorre em Direção de Arte. Acho que The Artist e Hugo tem mais chances nesta categoria. Mas nunca se sabe… No cômputo geral, vejo que Midnight pode sair do Oscar de mãos abanando ou, na melhor das hipóteses, ganhar em Roteiro Original.

SUGESTÕES DE LEITORES: Antes tarde do que mais tarde, já diriam os espanhóis… revendo o meu arquivo de sugestões deixadas por vocês, meus caros leitores, percebi que Midnight in Paris havia sido indicado pelo Lorenzo Lavati no ano passado. E ainda que este filme, como The Tree of Life, tenha sido assistido agora porque ambos foram indicados ao Oscar, vale citar que o Lorenzo tinha pedido um texto sobre eles no dia 25 de setembro do ano passado. E aí, Lorenzo, você gostou deste filme? Volte aqui para comentar. Abraços!

The Iron Lady – A Dama de Ferro

10 de fevereiro de 2012 2 comentários

O tempo passa para todas as pessoas. Seja você um cidadão “comum”, ou um nome de destaque nos livros de história. Se você tiver sorte e viver muito tempo, uma hora a fatura é cobrada. The Iron Lady equilibra a história de uma mulher que serviu e ainda serve de modelo depois que ela saiu dos holofotes e um rápido repasse em sua vida pública. E para interpretá-la, não existe e nem poderia existir alguém melhor que Meryl Streep. Mais uma vez ela dá uma aula de interpretação, e torna muito difícil a escolha dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

A HISTÓRIA: Uma senhora idosa fica em dúvida sobre o leite que irá comprar. Mas a dúvida dura pouco. Caminhando devagar até o caixa, ela é ultrapassada por um engravatado que fala no telefone celular e parece estar com muita pressa. Ela pega um jornal The Times no caixa e paga a conta, ficando surpresa com o preço do leite. Enquanto toma café com o marido, Denis (Jim Broadbent), Margaret Thatcher (Meryl Streep) comenta sobre a subida do preço do leite. Ele brinca com a preocupação da esposa, e diz que “ela”, a empregada, está chegando perto. Quando a empregada chega, Margaret Thatcher está sozinha na mesa. A partir daí, o filme mostra a fragilidade da ex-primeira ministra inglesa e parte de sua vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Iron Lady): O que você poderia esperar de um filme sobre a mulher que ajudou a mudar a história da Inglaterra e da política mundial, abrindo espaço para tantas outras mulheres trilharem o caminho do poder? Para começar, um filme que mostrasse a determinação e a força da Dama de Ferro, como ela ficou conhecida, certo? Pois bem, por incrível que possa parecer, The Iron Lady trata mais da fragilidade do que da fortaleza desta figura histórica.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a The Iron Lady). Grande parte do filme enfoca a velhice de Margaret Thatcher e seu progressivo mergulho em um estado de demência. Por um lado, esse enfoque assumido pelo roteiro de Abi Morgan é um acerto ao abordar um aspecto novo, pouco conhecido e inusitado da conhecida líder política britânica. Por outro lado, essa mesma sacada perde o caráter de novidade e acaba se transformando em um desperdício de tempo, de oportunidade para explorar um retrato mais completo da personalidade focada. O grande problema do roteiro é que ele perde o momento de dar a guinada, de sair do estado de “surpreendente” para jogar-se em um trabalho mais aprofundado.

Faltou um pouco mais de talento e de percepção para Abi Morgan. Ela perde o momento de ponderar o que poderia ser mais interessante para o espectador – além do caráter surpresa. E como o roteiro, especialmente quando o foco é uma personalidade histórica, é a alma de um filme e precisa ser bem costurado, o resultado de The Iron Lady se mostra fraco, quase decepcionante, quando percebemos o quanto da história de Thatcher é ignorado pelo texto do filme.

Sem Meryl Streep, o resultado teria sido catastrófico. Mas eis mais um filme em que ela salva a história. A interpretação dela é perfeita. Mais uma digna de prêmios. De Oscar. Mesmo que ela fiquei à ver navios, mais uma vez, na maior premiação do cinema dos Estados Unidos, ela é a grande responsável pelo interesse de The Iron Lady. Ela interpreta com gravidade e um grande respeito a personalidade de Thatcher. Mergulha de tal maneira na fragilidade da velhice e na convicção das opiniões fortes da primeira-ministra na vida adulta que você precisa esforçar-se para recordar da Thatcher real.

Pena que uma grande atriz, sozinha, não salva um filme com roteiro fraco. Para a sorte do espectador, contudo, há pelo menos mais um grande ator em cena: Jim Broadbent, que interpreta ao marido de Thatcher. Ele é a graça do filme – ou, pelo menos, tenta fazer rir em meio ao drama e ao tom sisudo do restante da história. A diretora Phyllida Lloyd faz um bom trabalho, ponderando bem cenas de reconstituição, a inserção de imagens de época, e imprimindo o tom exato, com a ajuda do diretor de fotografia Elliot Davis para diferenciar bem os tempos históricos. Ela também acerta ao tornar a câmera uma grande fã de Meryl Streep, acompanhando-a em cada movimento.

O problema está realmente no roteiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele gasta muito tempo batendo na tecla da fragilidade de Thatcher, uma forma de emocionar o espectador ao tornar uma personagem sem grande apelo popular como digna de piedade. Claro que, neste sentido, o filme faz pensar no que eu comentei lá no início. De que não importa o quanto grande ou “pequeno” alguém pode ser, o tempo passa para todos e, com esta passagem, a fatura vai ficando mais pesada. Mas o interessante mesmo de um filme sobre Margaret Thatcher não seria essa reflexão, ainda que ela seja válida, e sim mais detalhes sobre a história desta grande mulher. E faltam mais detalhes que possam encorpar essa reconstituição histórica.

Verdade que o espectador acaba tendo rápidas pinceladas sobre vários momentos da vida de Thatcher, antes mesmo dela ter este sobrenome. O problema é que rápidas pinceladas é muito pouco. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não sabemos nada da infância de Margaret, e saber tão pouco sobre a família dela não ajuda a montar um quadro sobre a formação da personagem histórica. A entrada e, principalmente, o sucesso dela na política também são tratados de maneira muito displicente. Ela não chegou a ser líder do partido sem alianças ou apoios importantes. Estas pessoas não aparecem – ou figuram apenas de relance, sem sabermos nada sobre elas. E mesmo o momento mais importante da personagem, quando ela se torna Primeira Ministra, é mostrado com pouca emoção ou profundidade.

Mesmo com tantos problemas, é interessante rever algumas frases famosas de Margaret Thatcher e relembrar, por exemplo, que ela citou a São Francisco de Assis logo que assumiu como Primeira Ministra. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A diretora e a roteirista acertam ao resgatar cenas históricas, e ao mostrar como o governo dela foi combatido. Mas os bastidores do poder e os jogos ao redor dela são quase todos ignorados. Algumas vezes, a questão parece estar resumida em uma questão sexista – homens versus mulher. Certo que esta foi uma questão importante, mas não foi a única que pudesse explicar a resistência dos pares de Thatcher ao seu poder. Também faltou mostrar o apoio que ela tinha da população – por grande porte do filme, até a guerra com a Argentina, pareceu que a população basicamente estava contra ela. E todos sabemos que ninguém ficaria tanto tempo no poder sendo impopular entre a massa e seus pares. Não faz muito sentido. E fragiliza o filme.

Meryl Streep, algumas das ótimas frases de Margaret Thatcher e o rápido repasse histórico daquela época fazem o filme não ser um completo desperdício e, porque não dizer, revelar-se até interessante. Se você conseguir ignorar algumas teclas batidas com repetição e a ligeireza do roteiro, poderá render-se a Streep. E isso sempre vale a pena.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Margaret Thatcher não foi apenas a primeira mulher a se tornar Primeira Ministra na Inglaterra – e a única, até agora. Ela foi também a figura forte de um dos principais países do mundo em uma época decisiva para a nossa história moderna. Thatcher ocupou a cadeira de Primeira Ministra entre 1979 e 1990. Certamente seria impossível, para qualquer filme, retratar com precisão os principais momentos destes 11 anos de governo dela. Mas faltou mais molho e enredo em The Iron Lady, tendo como fonte uma biografia e um tempo histórico tão determinante.

Este texto da Wikipédia, em inglês, traz mais informações sobre Margaret Thatcher do que todo o filme The Iron Lady. Para quem quiser saber um pouco mais sobre ela, é um bom ponto de partida. Aguardo o dia em que outro filme fizer mais justiça a uma personagem histórica desta grandeza. Gostaria de saber, por exemplo, dos bastidores das críticas que ela fazia à União Soviética, e a recepção que este combate tinha do outro lado – responsável por chamá-la de “dama de ferro”.

Segundo o texto da Wikipédia, como Primeira Ministra, entre outras ações, Thatcher desenvolveu uma política de desregulação, especialmente do setor financeiro, flexibilizando as regras trabalhistas, fechando e vendendo empresas estatais, e cortando subsídios dados para outras empresas. Parte destes pontos – especialmente as questões trabalhistas – são mostradas rapidamente no filme, com a consequente resistência de trabalhadores. Mas a recuperação da imagem de Thatcher não se deu apenas pela Guerra das Malvinas, em 1982.

Ainda que um conflito armado, que ressuscita a velha questão da soberania e do orgulho nacional, seja sempre um grande afrodisíaco para reeleições e para a política, a vitória da Inglaterra neste conflito justifica apenas em parte o sucesso de Thatcher para ser reeleita em 1983. As duras medidas tomadas logo que assumiu o poder começaram a surtir efeito e o país começou a registrar uma importante recuperação econômica.

Outro tema praticamente ignorado por The Iron Lady e que seria muito interessante de ter sido explorado foi a relação de Thatcher com lideranças mundiais, especialmente os Reagan. Também faltou abordar o que aconteceu com ela nos anos posteriores a ela ter deixado de ser a Primeira Ministra. Interessante como ela passou a ganhar 250 mil libras por ano para ser consultora geopolítica da companhia Philip Morris, por exemplo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ficou de fora da história também os problemas que ela teve de saúde, como os derrames “suaves” sofridos em 2002 – um ano antes da morte do marido.

Para quem quiser ler um rápido resumo de Thatcher em português, indico este. Nele ficamos sabendo, por exemplo, que o estado de saúde da ex-líder política é muito mais complicado do que aquele mostrado no filme.

Indicando outras leituras: esta página, em inglês, é o site da fundação Margaret Thatcher, que traz materiais multimídia, frases, discursos, entrevistas e um material bem extenso da líder política; e esta outra página, especial da BBC, com um vasto material de texto, vídeos e áudio com Thatcher.

The Iron Lady estreou no dia 26 de dezembro na Austrália e na Nova Zelândia. Agora em fevereiro, mais precisamente no dia 14, o filme participa de seu primeiro festival, o de Berlim. Pelas característica do filme, não vejo ele fazendo uma grande carreira nos festivais ou ganhando muitos prêmios além daqueles entregues pelos círculos de críticos para Meryl Streep.

O filme teria custado aproximadamente US$ 13 milhões e faturado, até o dia 29 de janeiro, um mês depois de estrear nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 17,5 milhões. Sem dúvida esta bilheteria foi feita por duas razões: pelo nome de Meryl Streep, que é sempre um chamariz, e pela esperança dos espectadores de ver um grande filme sobre uma grande personagem histórica. Pena que apenas Streep faça valer o ingresso.

Até o momento, The Iron Lady ganhou oito prêmios e foi indicado a outros 20, incluindo as nomeações para dois Oscar’s. Quase todos os prêmios recebidos foram para Meryl Streep, como era de se esperar.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,2 para o filme. É baixa, mas compreensível pela qualidade do roteiro da produção – frente ao que ela poderia ser. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes também não perdoaram a fragilidade da produção. Eles dedicaram 101 críticas positivas e 86 negativas para The Iron Lady, o que garante uma aprovação de 54% para a produção – e uma nota de 5,8.

The Iron Lady é uma co-produção do Reino Unido com a França. Curioso, porque estas duas escolas de cinema, normalmente mais cuidadosas com cinebiografias, desta vez não tiveram a competência em focar uma personagem histórica tão relevante.

Fora os atores já citados, há pouca relevância no trabalho dos demais. Mas não custa citar os nomes de Alexandra Roach, que interpreta a jovem Margaret Thatcher; Harry Lloyd, que interpreta o jovem Denis Thatcher; e Olivia Colman, que faz um bom trabalho como a filha de Margaret, Carol. Da parte técnica do filme, nunca é demais citar o trabalho competente de Thomas Newman, na trilha sonora e a edição de Justine Wright.

Ah sim, e para quem acha que eu fui muito generosa com a nota acima, tenho duas considerações a fazer: de fato, acho que eu ando muito generosa, especialmente com os filmes indicados ao Oscar, já que este ano a premiação tem uma concorrência bem mais fraca do que em anos anteriores; e a nota é justificada, basicamente, por mais um excelente trabalho de Meryl Streep. Ela, sozinha, justifica a nota.

CONCLUSÃO: Um filme cuidadoso, atento aos detalhes de mais uma interpretação exemplar de Meryl Streep. The Iron Lady é conduzido por esta atriz espetacular. E ainda tem um roteiro inteligente em vários momentos, mas que não consegue aproveitar o legado de Margaret Thatcher. A produção perde uma boa oportunidade de contar mais detalhes da vida desta grande líder política. O roteiro ignora as forças que a levaram para o poder e a sustentaram por tanto tempo. Porque ninguém chegaria onde ela chegou e nem ficaria tanto tempo no poder apenas por suas ideias brilhantes. Toda a reflexão sobre a fragilidade da etapa final de Margaret Thatcher é válida, mas poderia ter sido encurtada para explorar melhor outros aspectos relevantes da vida desta personalidade histórica. Mesmo com os seus defeitos e simplificação da história, The Iron Lady é uma ótima oportunidade para assistirmos a mais um grande trabalho de Meryl Streep e, ainda de quebra, saber um pouco mais sobre a rotina de Thatcher em um momento em que ninguém mais se interessava por ela.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: The Iron Lady concorre a duas estatuetas este ano: a de Melhor Atriz, para Meryl Streep, e a de Melhor Maquiagem. As duas indicações foram merecidíssimas. Bato palmas para elas. Mas quais as chances do filme ganhar alguma destas estatuetas?

Meryl Streep sempre merece um Oscar. Impressionante. Dito isso, acho que ela poderia receber o Oscar por The Iron Lady. Conta a seu favor o fato dela ter recebido um Globo de Ouro pelo papel. Mas tenho minhas dúvidas se ela vai conseguir isso. Primeiro, porque as bolsas de apostas estão apontando para uma vitória de Viola Davis. Que também merece, diga-se. Depois, porque The Help está com uma moral muito mais alta com a crítica do que The Iron Lady. E isso conta pontos na hora da votação.

O trabalho feito com a maquiagem também é merecedor de uma indicação. E eu acho, pela sutileza do trabalho, que ele merecia ganhar a estatueta. Só que será difícil, para não dizer impossível, já que The Iron Lady concorre com os fortes candidatos Albert Nobbs e, principalmente, Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 2. Resumindo a ópera: acho que The Iron Lady pode sair do Oscar sem prêmio algum.

Hugo – A Invenção de Hugo Cabret

5 de fevereiro de 2012 Deixe um comentário

A magia do cinema é o foco central dos dois filmes que fazem a maior quebra-de-braço deste ano no Oscar. Além do já comentado The Artist, Hugo bebe desta fonte para encantar o público e a crítica. Mas diferente do filme francês, Hugo esbanja em efeitos especiais, no uso de recursos técnicos para encantar. The Artist, por outro lado, faz isso com um roteiro melhor acabado e com interpretações exemplares. Na queda-de-braço, Hugo perde – apesar de ser um filme interessante e que faz uma homenagem exemplar para um dos grandes inventores da Sétima Arte.

A HISTÓRIA: Engrenagens de um relógio dão lugar à lógica incessante do Centro iluminado de Paris. Neva, e nos aproximamos da estação de trem, onde parece pulsar o coração da cidade. A câmera passa ligeira entre muitas pessoas, até adentrar em um ponto fundamental daquela estação: um de seus relógios. Ali, invisível para as pessoas que entram e saem da estação, está Hugo Cabret (Asa Butterfield). O garoto observa, pelos números do relógio, a vida que transcorre na estação. Ele sai desta posição de observador apenas para roubar alguma comida e as peças que ele precisa para consertar um robô misterioso deixado pelo pai do garoto (Jude Law). Sem infância, a curiosidade do garoto sobre um brinquedo o aproxima do dono de uma das lojas da estação (Ben Kingsley).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Hugo): Hugo é um filme maravilhoso, destes planejado, do início até o final, para encantar o espectador. Aquela sequência inicial, da câmera percorrendo Paris, foi um cartão-de-visitas eficaz do diretor Martin Scorsese para o que viria depois. A sequência, propriamente, não é uma novidade – já foi explorada por muitos filmes, inclusive o ótimo Moulin Rouge. Bem planejado e executado nos detalhes, Hugo é um show de técnica. Mas lhe falta, justamente, um pouco mais de emoção e de inovação.

Não por acaso, Hugo me deu sono. Me desculpem os fãs do filme, que talvez tenham visto na telona o que consideram ser um dos melhores filmes de Scorsese. Eu não chegaria tão longe. Ele é um grande diretor, mas não fez aqui um trabalho surpreendente. Pelo contrário. Apesar de bem filmado, Hugo sofre para decolar. Demora para ficar interessante. O protagonista é bom, mas ele desaparece quando aparecem em cena atores como Ben Kingsley ou Chlöe Grace Moretz, que interpreta a Isabelle, afilhada de “Papa George”. Se Hugo tivesse meia hora a menos, talvez fosse melhor.

Nunca assisto a trailers e tento, como vocês bem sabem, me informar o menos possível sobre um filme antes de assistí-lo. Sendo assim, eu sabia que Scorsese havia homenageado a Georges Méliès com Hugo, mas não sabia até que ponto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ainda a este filme). Tinha lido algo a respeito de que o diretor havia reconstituído a alguns dos filmes de Méliès, um dos precursores mais brilhantes do cinema. Mas não sabia que o filme era, escancaradamente, sobre ele. Gostei da surpresa. De saber um pouco mais sobre este grande nome da Sétima Arte e do que aconteceu com ele após a Primeira Guerra Mundial. Foi muito bacana, também, a forma com que Scorsese reconstituiu alguns dos curtas mais famosos do diretor. Bela homenagem.

Mas o filme, infelizmente, não se resumo apenas à isso. Como Hollywood adora fazer, de tempos em tempos, Hugo coloca um jovem órfão como narrador de uma história cheia de fantasia. O protagonista, fascinado pelo cinema, arte que ele aprendeu a amar porque o pai lhe acostumou a levá-lo para a sala escura como uma espécie de presente, atua para resgatar um realizador esquecido. Ele simboliza a indústria fazendo um mea culpa. Incapaz de fazer isso enquanto Méliès estava vivo, essa indústria tenta fazer isso agora. Ainda que essa indústria seja outra, na verdade. Porque foi a indústria francesa que esqueceu Méliès em sua época – e a que o resgata agora é a de Hollywood.

Eis um ponto curioso sobre a disputa do Oscar deste ano. Vejamos: Hugo, o filme mais indicado do ano, é uma homenagem de Hollywood para um grande pioneiro do cinema, de origem francesa. The Artist, o melhor filme na disputa e o grande concorrente de Hugo, é uma homenagem francesa para o cinema mudo feito em Hollywood. Histórias que reverenciam o passado e o legado deixado por grandes realizadores de tempos extintos. Mas que não se debruçam sobre si mesmas, mas homenageiam escolas distintas. Interessante exercício.

Mas voltando a falar sobre o que prejudica Hugo: a lentidão do filme para que a história comece a decolar. Cansa um pouco aquela marcação cerrada do inspetor da estação de trem (Sacha Baron Cohen) contra toda e qualquer criança desacompanhada de um adulto. Fica repetitiva a corrida dele em busca de Hugo. O problema é que estas perseguições não criam tensão – afinal, todos nós sabemos que o protagonista não poderia se dar mal. Outro “suspense” do filme não se concretiza: o que envolve o robô herdado por Hugo. Não demora nada para percebermos que o robô é familiar a Papa George. E ainda que eu não tenha matado logo a charada de que o personagem de Ben Kingsley fosse, realmente, o próprio Méliès, torna-se evidente que o robô tinha uma forte ligação com ele. Faltava apenas explicar qual era a função dele, o que também não demora para acontecer – e nem surpreende.

Sem tensão ou grande expectativa sobre o que virá em seguida, Hugo passa lentamente. Como eu disse antes, ele chega a dar sono, apesar de toda a perfeição dos efeitos especiais e visuais. Aquelas histórias de “vida comum” da estação querem dar um “charme” para a produção, contextualizar aquela época e mostrar o cenário que fascinou os Lumière a ponto de inspirar os seus primeiros filmes. Mas francamente? Esse pano de fundo poderia ter sido mais resumido. Afinal, ele contribuiu pouco – para não dizer quase nada – para a história que mais interessa.

Um ponto é curioso neste filme: a “disputa” entre os mundos fascinantes de uma sala de cinema e de uma biblioteca. Hugo é fascinado pelo cinema. Isabelle, sua parceira de “aventuras”, pelas histórias narradas nas páginas dos livros. No final, a mensagem que o filme parece nos sugerir é que o fascínio de um não elimina o do outro. Tanto que Hugo é inspirado em um livro. E o protagonista mesmo comenta que era acostumado a ler livros junto com o pai. Neste sentido, o filme dá uma contribuição importante. Porque fica evidente a diferença de vocabulário entre as duas crianças da produção. Quem lê muito, como a personagem de Isabelle, consegue expressar-se muito melhor que os demais. Também conseguem fantasiar com muito mais facilidade, e encantar-se com as coisas mais comuns – enxergando referências em muitos feitos ordinários. Ainda assim, nada parece ser mais fascinante que o efeito que a fantasia tornada realidade, pela lente dos cineastas, causa nas pessoas – e isso, só uma sala de cinema é capaz de revelar.

Cheio de fantasia, e que apenas se inspira em uma história real. Muito do que vemos na telona não aconteceu, de fato. O que é real: Méliès realmente faliu e trabalhou, em meados da década de 1920, em uma loja de brinquedos na estação de trem de Paris. Mas ele não foi resgatado por um órfão, como Hugo, e sim por vários jornalistas que começaram a resgatar a importância que o diretor havia tido para o cinema. A razão para a falência dele também não se explica apenas pelo “desinteresse” do público pelos filmes cheios de fantasia que ele produzia após o excesso de realidade da Primeira Guerra. Esta foi uma das razões, mas não a principal. Depois falarei mais sobre isto.

O melhor deste filme demora para acontecer: o resgate de parte da história do cinema e de algumas das produções mais bacanas de Méliès. Só depois de uma hora e nove minutos é que mergulhamos no livro Inventer le Rêve, de René Tabard, que faz um rápido recorrido sobre as origens da Sétima Arte. E daí o grande mistério de Hugo é revelado. E surge, pouco depois, o resgate de cenas preciosas da obra de Méliès, reconstruídas com esmero por Scorsese. A partir daí, Hugo diz ao que veio. E acaba valendo o ingresso. Pena que demore tanto para chegarmos a este ponto.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O visual de Hugo é o melhor do filme. Aplausos para a direção de fotografia de Robert Richardson, para o design de produção de Dante Ferretti, para a direção de arte comandada por 10 grandes nomes, para a decoração de set de Francesca Lo Schiavo e para os figurinos da premiada Sandy Powell. Esse grupo imenso de pessoas, e mais todas as outras que ajudaram a tornar o resgate de Paris nos anos 1930 e da origem do cinema, algumas décadas antes, uma realidade.

Um grande diretor, como Martin Scorsese, só consegue fazer um grande filme como este, complexo pelo resgate histórico e pela ousadia de recriar alguns trechos de curtas clássicos, tendo uma ótima equipe ao seu redor. Por isso mesmo, Hugo é um dos filmes concorrentes deste ano que mais elogia a arte do cinema como o resultado de um trabalho de equipe. Talvez por isso, este filme saia vencedor em várias categorias. Mas lhe falta um pouco de invenção, por incrível que pareça, para ser o favorito nas categorias principais.

Hugo é uma grande obra de fantasia. Mas ele tem algum fundo de realidade. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O personagem central, daquele garotinho órfão “valente”, talvez tenha existido. Tenha percorrido várias vezes a estação de trem de Paris e, eventualmente, tenha parado no orfanato. Mas ele não existiu no ponto de mudar a parte final da vida de Georges Méliès. De fato, uma das mentes mais criativas do cinema ficou esquecida por muito tempo. Falido, abriu uma loja de brinquedos na estação parisiense. Mas as semelhanças com a história terminam aí. Méliès foi “resgatado” do ostracismo por jornalistas da época. E segundo este texto, em inglês, da Wikipédia, acabou de fato sendo homenageado, em dezembro de 1929, com uma retrospectiva de seus filmes na Sala Pleyel – antes da história de Hugo ser contada, portanto. Mesmo com esta homenagem, Méliès continuou pobre e precisou de ajuda para terminar a vida com o mínimo de dignidade. Vale a leitura do texto da Wikipédia.

Aliás, ao ler o texto sobre a vida do cineasta homenageado, fiquei um pouco mais incomodada com Hugo. Afinal, se era para fazer uma homenagem ao cinema e à Méliès, por que não contar um pouco melhor a sua história? Por que não falar das verdadeiras razões que fizeram o cineasta deixar de produzir filmes? Pelo texto da Wikipédia comentado, é verdade que os fatos da Primeira Guerra contribuiram para Méliès deixar de fazer filmes. Mas a derrocada do diretor havia começado muito antes do conflito de proporções mundiais eclodir.

Algo importante a comentar: Méliès não deixou o Théâtre Robert-Houdin para dedicar-se exclusivamente a fazer filmes. Pelo menos durante muito tempo. Os primeiros curtas de Méliès datam de 1896, quando ele estreou como diretor com Un Petit Diable. O famoso Le Voyage Dans la Lune, importante como fio condutor para o filme Hugo, está completando este ano 110 anos de seu lançamento. Mas segundo o texto da Wikipédia, em 1907, Méliès fazia sucesso lançando novas mágicas no teatro, enquanto produzia 19 curtas para o cinema. Segundo muitos críticos, a decadência do cineasta começou naquele ano, porque ele teria começado a repetir “velhas fórmulas” ao mesmo tempo em que lançava ideias novas. No ano seguinte, 1908, ocorreu um fato que seria decisivo – muito mais que a Primeira Guerra – para o futuro de Méliès: a criação da Motion Picture Patents Company (MPPC) por Thomas Edison.

O objetivo de Edison era colocar ordem e, de certa maneira, controlar a indústria cinematográfica nos Estados Unidos e na Europa. Várias empresas aderiram à proposta dele, incluindo a American Pathé e a Méliès’s Star Film Company. Edison assumiu a presidência do coletivo de realizadores. Naquele ano, a companhia de Méliès produziu 68 filmes e forneceu mil metros de filme por semana para cumprir o contrato com a MPPC. O irmão de Georges, Gaston Méliès, abriu então um estúdio em Chicago com a intenção de ajudar a empresa familiar a produzir a quantidade de filmes necessária. Mas ele não produziu nada em 1908. No início do ano seguinte, Méliès parou de fazer novos filmes e, em fevereiro, presidiu a primeira reunião do Congresso Internacional de Cineastas em Paris. Como outros diretores, ele estava descontente com o monopólio de Edison.

Naquele congresso, Méliès liderou um movimento de reação. O resultado é que Edison definiu que os filmes não seriam mais vendidos, mas alugados por um prazo de quatro meses apenas por integrantes da organização e que seria adotado uma mesma contagem de perfurações de filme para todas as produções. Méliès não gostou do último ponto, porque a maioria de seus clientes eram feirantes e proprietários de casas de espetáculo que eram contra esta padronização. Na época, Méliès dizia que não era uma empresa, mas um produtor independente. Ele voltou a filmar apenas no outono daquele ano. Enquanto isso, o irmão dele, Gaston, começou a produzir filmes nos Estados Unidos, abrindo estúdios diferentes até 1912. Entre 1910 e 1912, Gaston produziu mais de 130 filmes, enquanto o irmão, Georges, apenas 20.

Apenas em 1910, Georges Méliès produziu 10 filmes. Mas ele já passava mais tempo no teatro do que fazendo curtas para o cinema. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No outono daquele ano, Méliès fez um acordo com Charles Pathé que, segundo o texto da Wikipédia, acabaria destruindo a carreira cinematográfica dele. Pelo contrato, Méliès recebeu uma grande quantidade de dinheiro para produzir filmes que seriam distribuídos por Pathé Frères – as produções também poderiam ser editadas por Pathé, caso ele achasse conveniente. Fez parte do acordo com Pathé as escrituras da casa e da propriedade onde estava o estúdio de Méliès.

O diretor começou a fazer os seus filmes mais elaborados, como The Adventures of Baron Munchausen e The Haunted Window. O problema é que a extravagência destas produções, sucesso uma década antes, acabou resultando no fracasso de bilheteria das novas produções. Em 1912 Méliès seguiu com os projetos ousados e caros e, sem conseguir sucesso nas bilheterias, passou a ter os seus trabalhos editados por Pathé. Algumas produções de Méliès foram editadas por seu rival, Ferdinand Zecca, naquele ano, até que o diretor resolveu quebrar o contrato com Pathé.

Enquanto isso, Gaston Méliès gastou muitos recursos viajando com a família e uma equipe de 20 pessoas pelo Tahiti, pelo Pacífico Sul e pela Ásia. As filmagens foram enviadas através do filho dele para Nova York, mas grande parte do material acabou sendo danificado e perdido. Consequentemente, Gaston não conseguiu cumprir o acordo com a empresa de Edison. Além de gastar US$ 50 mil na viagem – uma fortuna para a época -, Gaston teve que se livrar do estúdio nos Estados Unidos.

Quando Méliès quebrou o contrato com a Pathé, em 1913, ele se viu em apuros para conseguir pagar o que devia para a companhia. Por ironia, a moratória declarada com o surgimento da Primeira Guerra Mundial salvou Méliès de perder as propriedades para a Pathé. Mas falido e sem possibilidade de seguir fazendo filmes, Méliès viu a situação piorar quando a primeira esposa, Eugénie Génin, morreu em maio de 1913 e seu teatro, o Robert-Houdin, ficou fechado por um ano. Foi aí que ele deixou Paris por vários anos, até retornar e começar a trabalhar em uma loja de brinquedos na estação de trem Montparnasse em meados da década de 1920. Depois da morte da esposa, Méliès teria se casado com Jeanne d’Alcy, que aparece em vários de seus filmes e que teria sido sua amante por vários anos – é ela que aparece no filme Hugo.

Durante a guerra, o exército francês confiscou mais de 400 impressões originais de filmes que faziam parte do catálogo do estúdio de Méliès para derretê-los em busca de matéria-prima para fazer solas de sapatos. O próprio Méliès, em um acesso de raiva, destruiu muitos de seus filmes. Ainda assim, segundo o texto da Wikipédia, pouco mais de 200 produções que levam a assinatura dele foram recuperadas e podem ser vistas em DVD.

Segundo o ótimo site de referências IMDb, Georges Méliès dirigiu, entre 1896 e 1913, 552 curtas metragens – a maioria deles, peças de ficção, mas alguns eram documentários. Além de diretor, Méliès trabalhou como ator em 85 curtas, como produtor de 71 deles e como roteirista de 42.

Ah sim, e era verdade que ele foi um dos espectadores maravilhados com a primeira exibição dos irmãos Lumière.

Os atores em Hugo estão muito bem, especialmente os veteranos. Roubam a cena, claro, Ben Kingsley e Helen McCrory – ela como Mama Jeanne. Jude Law faz uma ponta, assim como Michael Stuhlbarg como Rene Tabard, mas ambos estão muito bem. O garoto Asa Butterfield não faz feio, mas também não se destaca. Chlöe Grace Moretz sim, ocupa todo o espaço na tela sempre que aparece. Sacha Baron Cohen parece desconfortável em um papel sério. E outros atores conhecidos, como Emily Mortimer, que aparece como a florista Lisette, e Christopher Lee como o livreiro Labisse, praticamente desaparecem em meio a um roteiro que dá mais atenção para as cenas de perseguição do que para o trabalho dos atores.

Até o momento, Hugo pode ser considerado um fracasso nas bilheterias. Afinal, ele custou aproximadamente US$ 170 milhões e arrecadou, até o dia 29 de janeiro, pouco mais de US$ 58,9 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Mesmo que o filme se recupere ganhando algumas estatuetas do Oscar, dificilmente ele conseguirá ser um êxito. Algo ruim, mas previsível – afinal, o filme não convence o suficiente e não entra na famosa propaganda boca-a-boca.

Hugo estreou no festival de Nova York no dia 10 de outubro. De lá para cá, a produção participou de apenas um festival de cinema, o de Roterdã, na Holanda.

Mesmo sem ir bem nas bilheterias, Hugo fez sucesso entre os seus pares e entre a crítica. James Cameron, após assistir ao filme, classificou-o como uma “obra de arte” e disse que é a melhor experiência de filme 3D já feita – superando, inclusive, os seus próprios filmes, como Avatar. Admito que assisti Hugo sem ser na versão 3D. Talvez neste formato ele pareça mais impressionante.

Até o momento, Hugo ganhou 26 prêmios e foi indicado a outros 65 – incluindo as 11 indicações ao Oscar. Os mais importantes que ele recebeu foram o Globo de Ouro de melhor diretor para Scorsese; e os prêmios de melhor filme e melhor diretor do National Board of Review.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para Hugo. Uma boa nota, mas nada excepcional. Os críticos do Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 178 críticas positivas e 12 negativas para o filme, o que lhe garantiu uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,3.

Hugo tem um bom roteiro, mas ele poderia ter sido melhor construído – sem tantas sobras e pegando ritmo mais rápido. John Logan fez um trabalho competente, mas que deixou a desejar. O roteiro dele teve o livro The Invention of Hugo Cabret, de Brian Selznick, como fonte de inspiração.

CONCLUSÃO: Volta e meia, Hollywood gosta de olhar-se no espelho. De falar sobre seus grandes diretores, artistas, de relembrar de tempos em que o glamour dominava o cenário do cinema. Eram tempos diferentes, quando não haviam muitas escolas de cinema ou centros de produção de filmes no mundo. Hugo aparece 116 anos depois da primeira exibição pública do invento dos irmãos Lumière cheio de homenagens e tentando repassar para a telona a mesma magia que encantou as primeiras audiências desta arte já centenária. O problema é que, apesar do trabalho técnico competente e das boas intenções, Hugo não consegue ter o mesmo encanto. Ele nem chega perto dele, aliás. O roteiro não surpreende e a história demora para engrenar. O final sim, sela o trabalho com chave de ouro, e faz o restante do tom morno do filme parecer pouco importante. De fato, a homenagem é bonita e o final é exemplar, mas o restante do filme, nem tanto. Bem feito, bacana, mas pouco inspirado e menos criativo que o seu grande rival no ano, The Artist.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Hugo foi o filme que ganhou o maior número de indicações para a maior premiação de Hollywood este ano: 11, no total. Surpresas sempre podem acontecer, mas francamenteu eu acho que ele ficará a ver navios na maior parte das indicações.

Muito bem acabado nos detalhes, Hugo tem melhores chances de vencer em categorias técnicas. Frente à The Artist, ele não merece ganhar como melhor filme. Claro, não seria nenhum absurdo se ele ganhasse. Afinal, é um bom filme. Mas não é o melhor do ano – ou na disputa, pelo menos. Martin Scorsese faz um trabalho ótimo na direção. Pode levar a estatueta. Mas se Michel Hazanavicius, de The Artist, ou Woody Allen, por Midnight in Paris, conseguissem embolsar a estatueta dourada, também não seria nenhuma injustiça – francamente, torço por Hazanavicius.

Das outras nove indicações, vejo Hugo tendo uma chance grande de vencer nas categorias de melhor edição, melhores efeitos especiais, melhor edição de som, melhor direção de arte e melhor mixagem de som. Não seria uma surpresa se o filme ganhasse ainda em melhor fotografia, ainda que eu veja outros filmes como favoritos – como The Artist e The Tree of Life. E mesmo na lista de categorias técnicas em que Hugo tem chances fortes, há sempre pelo menos um outro concorrente que pode surpreender e vencê-lo. É preciso esperar para ver o quanto a Academia quer ou não deixar o prêmio “em casa” e seguir olhando fixamente para o próprio espelho.

Para resumir, eu diria que Hugo merece entre quatro e cinco estatuetas, todas nas categorias técnicas. Mas se Hollywood quiser homenagear a si mesma e deixar o prêmio nos Estados Unidos, ignorando a superioridade de The Artist, Hugo poderá receber entre sete e oito Oscars. Logo veremos…

The Help – Histórias Cruzadas

5 de fevereiro de 2012 2 comentários

Surpreendente. Admito que se este filme não tivesse sido indicado a tantas estatuetas do Oscar e ganho tantos prêmios pelas atuações de suas atrizes, eu dificilmente o teria assistido agora. E The Help merece esta chance de ser visto. Ele conta uma história conhecida, mas sob uma ótica totalmente nova. Por isso a surpresa. E, claro, pelo ótimo trabalho do elenco da produção. O roteiro também é ótimo, junto com a direção de Tate Taylor.

A HISTÓRIA: Alguém escreve à lápis em um caderno comum. A empregada doméstica Aibileen Clark (Viola Davis) começa a contar a própria história, dizendo que nasceu em 1911 em uma fazenda. Ela diz que sempre soube que seria uma empregada, porque a mãe tinha sido uma e a avó, uma escrava doméstica. Skeeter Phelan (Emma Stone) pergunta se Aibileen já sonhou em ser outra coisa, e a mulher assente com a cabeça. Quando ela pergunta sobre o que a empregada sente ao cuidar de crianças brancas enquanto as suas, negras, estão sendo cuidadas por outra pessoa, Aibileen lança o olhar para um retrato na parede. E aí começa a ser contada a história dela, e de várias outras empregadas domésticas que vivem e trabalham em Jackson, uma cidade do Mississippi onde vigora a segregação racial.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Help): Histórias bem contadas sempre são fascinantes. Bons textos, com interpretações inspiradas, fazem toda a diferença no cinema. O diretor pode até não fazer um trabalho inovador, inspirado. Pode filmar fazendo o bê-à-bá. Tudo bem. Mas se o roteiro não for bom e os atores não fizerem um trabalho condizente com ele, não há como remediar. The Help, para a sorte dos espectadores, tem ótimas histórias para contar, de um tempo onde as aparências contavam muito e quando a ignorância predominava, e com um plus de interpretações que faz a diferença.

O problema do filme é o que o roteiro, ainda que bem escrito, é simplório em muitos pontos. O diretor Tate Taylor adaptou o romance de Kathryn Stockett para a telona. Não li a obra, mas imagino que ele jogou para o cinema a mesma lógica do livro. E ela incomoda um pouco por duas razões: por estigmatizar as mocinhas e as bandida e pela preocupação da história chocar e, em seguida, suavizar o problema com a mesma intensidade.

Mas antes de falar mais destes deslizes, vou abordar as qualidades da produção. Porque The Help tem muitas. Primeiro, a interpretação impecável de Viola Davis. Cada vez que a atriz entra em cena, ela dá uma aula de como repassar para a telona a profundidade de emoções de uma personagem. Ela convence quando sorri e ensina mais uma menina de quem cuida. Faz o mesmo quando conta suas próprias histórias, ou emociona-se lembrando do filho. Além dela, outras grandes atrizes seguram o interesse na história, com destaque para Emma Stone, Bryce Dallas Howard, Octavia Spencer e Jessica Chastain. E os coadjuvantes também fazem um coro interessante para as ótimas interpretações.

A segunda qualidade da produção é tornar atrativas narrativas de histórias que nem sempre contam com flashbacks. Esse resgate do papel fundamental dos contadores de história, que nos estimulam a ficarmos sentados enquanto viajamos com eles para outros dramas e prazeres humanos, é um dos pontos fortes de The Help. E as histórias das empregadas domésticas negras subjugadas, até então escondidas, se tornam especialmente interessantes pelo ineditismo.

Ando assistindo à muitas séries de TV, e este filme me fez lembrar da premiada e elogiada – com razões – Downton Abbey. É como se o filme destrinchasse as relações de poder e os bastidores entre empregadas negras e suas patroas brancas e ricas da mesma forma – só que com menos profundidade, é claro – com que Downton Abbey destrincha as mesmas relações na sociedade inglesa.

O filme equilibra bem o humor e o drama e, ainda que o desenrolar seja bastante previsível, no meio do caminho temos algumas boas surpresas e sacadas do roteiro. A direção de Taylor não surpreende, mas pelo menos não atrapalha. O diretor acertou ao focar a câmera sempre valorizando o trabalho dos atores – que são, sem dúvida, os grandes responsáveis pela produção manter o interesse do público do início até o final. História de gente sempre atrai, especialmente quando trata de relações conflitantes e que são próximas de quem assiste – de uma forma ou de outra o preconceito racial e/ou com minorias ainda permanece, em contextos diversos.

A grande sacada da história é o filme dar voz para quem nunca tinha tido chance de expressar-se. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Esta questão me afetou, em especial, porque, afinal, como jornalista, sempre buscamos uma forma de, uma hora ou em outra, dar voz para essas pessoas excluídas e/ou esquecidas. Bacana ver uma personagem como a de Skeeter Phelan fazendo isso, e a repercussão importante que o seu trabalho teve. Neste sentido, The Help é um filme diferenciado, porque ele trilha caminhos antes não explorados. Outras produções já trataram de segregação racial, mas nunca tomando este ponto de vista – de empregadas e suas patroas – de bastidores familiares como tema central.

Mas nem tudo são qualidades. Agora sim, falarei mais do que me incomodou nesta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, ainda que os atores desta produção façam um ótimo trabalho, eles estão baseados em personagens simplistas. Vejamos: será que apenas uma garota sem marido e que deseja ser independente, trilhando o caminho do jornalismo, poderia se incomodar o suficientemente para contribuir para uma mudança naquele cenário de injustiças? E será que apenas outra garota, isolada das demais, poderia também ser tão receptiva a uma empregada negra, a ponto de tratá-la como uma semelhante? Nenhuma mulher branca, casada e com filhos que fizesse parte daquela sociedade poderia, por sua própria conta e risco, se dar conta que aquela exclusão com base na raça era absurda? Curioso que há nuances de mudança na história, e esses indicativos aparecem, justamente, em mulheres mais velhas – como as mães de Skeeter e de Hilly.

Outra fonte de incômodo – ainda que esta reflexão surja depois do filme terminar, muito mais do que durante a exibição da história que, de tão envolvente, provoca pouca reflexão – é a preocupação da história em equilibrar, quase que matematicamente, o drama com a comédia. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Será que é preciso realmente assoprar sempre depois de bater? The Help preocupa-se demais em chocar e suavizar ao mesmo tempo. Você espera sempre que algo pesado vá acontecer porque, de fato, episódios muito pesados aconteceram naquele cenário e tempo histórico. Mas a maior violência, a morte de um homem pelas costas, não é mostrada. The Help não deixa de ser um filme duro, mas essa dureza fica restrita apenas às histórias, às palavras e sentimentos. Fora as interpretações estonteantes, The Help parece pouco realista. Claro que ele não precisa ser realista, porque é um filme – antes que alguém diga o óbvio. Ainda assim, todo esse glacê na história faz com que ela não seja perfeita ou exemplar. O bom é que as atrizes estão tão bem que o sentimento que temos, no final, é de que acabamos de ver a um grande filme.

NOTA: 9,4 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eis um filme de atrizes. Os homens aparecem pouco em The Help e, quando aparecem, estão sempre dando base para o destaque de uma intérprete. Os únicos atores que tem algum destaque são o galã Chris Lowell, que assume a pele do estranhíssimo Stuart Whitworth, que corteja a “solterona” Skeeter Phelan; e Mike Vogel como Johnny Foote, o bom partido que escolheu uma mulher menos óbvia, a engraçada Celia. Vogel tem apenas uma grande sequência de diálogo na produção mas, quando diz as suas falas, se sai muito melhor que o colega Lowell – sem sal, na minha opinião, pelo menos neste filme.

Vários outros filmes trataram da segregação racial nos Estados Unidos, especialmente no Sul do país, onde ela ressistiu muito mais tempo à ceder. Provavelmente o mais famoso deles seja Mississippi Burning, o ótimo filme de Alan Parker, que já pode ser considerado um clássico. Vale também dar uma conferida em Malcolm X, filme estrelado por Denzel Washington e que trata do controvertido líder negro.

Pesquisando para citar aqui alguns textos importantes e interessantes sobre a questão racial no Sul dos Estados Unidos, encontrei uma frase do escritor William Falkner a respeito de seu estado natal, o Mississippi, que eu acho relevante: “eis um lugar onde o passado nunca morre”. O racismo mostrado no filme não terminou. E não apenas no Sul dos Estados Unidos, mas em tantas outras partes, e transvestido de formas muito diversas – e, geralmente, não verbalizadas.

Tenho alguns textos para indicar àqueles que ficaram interessados por este tema da segregação racial. Para começar, indico este, publicado em um especial do portal UOL de Joaquim Nabuco. O texto traz o depoimento de Barbara Carter, uma professora de uma universidade dos Estados Unidos para mulheres negras que viveu a discriminação legalizada naquele país. No final, há a citação de que ainda existiriam, nos Estados Unidos, 762 grupos racistas. Um dos principais, claro, é a Ku Klux Klan. Aqui, um texto que explica o surgimento e o desenvolvimento deste grupo. Para fechar, recomendo este texto, que mostra avanços e retrocessos na discussão da segregação racial nos Estados Unidos, e este outro, sobre o movimento dos direitos civis naquele país.

Além das atrizes já citadas, e que dão um banho, é preciso citar outras que engrossam o time do filme – e mesmo que não façam um trabalho brilhante, elas ajudam a esta história ser contada: Ahna O’Reilly como Elizabeth Leefolt, a patroa de Aibileen; Anna Camp como Jolene French, uma das amigas de Hilly; Cicely Tyson como Constantine Jefferson, a empregada negra que ajudou a criar a Skeeter; e Aunjanue Ellis como Yule Mae Davis, a empregada que entra para substituir Minny na casa de Hilly.

Duas atrizes que fazem papéis secundários, são veteranas e dão um show são Allison Janney como Charlotte Phelan, mãe de Skeeter, e Sissy Spacek como Missus Walters, mãe de Hilly. As duas, mesmo sendo de gerações mais antigas e, teoricamente, mais resistentes às mudanças, são as que revelam uma aceitação maior das mulheres negras como iguais – ou quase isso – do que as gerações mais jovens. Talvez porque elas já sejam capazes de reconhecer tudo que aquelas mulheres fizeram por elas e pelas demais, cuidando de seus filhos e famílias por muito tempo.

O filme é bem acabado. Além da direção que privilegia as interpretações feita por Tate Taylor, vale citar a envolvente trilha sonora do veterano premiado Thomas Newman, a direção de fotografia “aconchegante” e “de época” de Stephen Goldblatt, e a edição precisa de Hughes Winborne. Por ser um filme ambientado nos anos 1960, vale comentar o bom trabalho dos figurinos feito por Sharen Davis, a direção de arte de Curt Beech e o design de produção de Mark Ricker. Sem eles, não teríamos sido transportados com tanta fidelidade para aqueles anos.

The Help é um sucesso de público. O filme, que teria custado aproximadamente US$ 25 milhões, faturou, apenas nos Estados Unidos, até o dia 29 de janeiro, pouco mais de US$ 169,6 milhões. Mesmo que ele não sair com muitas estatuetas do Oscar, para o qual ele foi indicado quatro vezes – e tem chance de ganhar, no máximo, três estatuetas -, The Help já pode ser considerado um sucesso.

Este filme estreou nos Estados Unidos e no Canadá no dia 10 de agosto de 2011. De lá para cá, ele participou de seis festivais – sem dúvida, The Help é uma produção muito mais com cara de comercial do que de festivais. Mesmo não participando de muitos festivais, este filme embolsou, até o momento, 29 prêmios – e foi indicado a outros 64, incluindo os quatro do Oscar. Dos prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante para Octavia Spencer; para o prêmio de melhor elenco conferido pelo National Board of Review; e para os prêmios para o elenco e de interpretações impactantes para Viola Davis e Octavia Spencer do prêmio Screen Actors Guild (que representa a categoria dos atores em Hollywood).

Uma curiosidade sobre os bastidores deste filme: as atrizes Emma Stone e Bryce Dallas Howard viveram a personagem de Gwen Stacy em filmes do Homem-Aranha. Outro fato curioso: o livro de Kathryn Stockett, no qual The Help é baseado, foi rejeitado 60 vezes antes de encontrar alguém que acreditasse em seu potencial e decidisse publicá-lo. E algo fundamental para este filme ter sido realizado: o diretor, Tate Taylor, é amigo de infância de Kathryn Stockett.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para The Help. Não está mal, mas está abaixo de outros concorrentes importantes deste filme no próximo Oscar. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais exigentes: publicaram 149 críticas positivas e 47 negativas para o filme, o que lhe rendeu uma aprovação de 76% – e uma nota média de 7.

The Help é uma co-produção dos Estados Unidos, da Índia e dos Emirados Árabes – curioso.

Vale lembrar que este é apenas o terceiro filme dirigido por Tate Taylor. Ator com 18 filmes no currículo, ele estreou atrás das câmeras em um curta, em 2003, e cinco anos depois, em 2008, dirigiu o primeiro longa, Pretty Ugly People. Com o sucesso de The Help, ele deve seguir nesta seara.

CONCLUSÃO: Um filme recheado de histórias interessantes narradas com uma ótica diferenciada sobre a segregação racial e a diferença de classes nos Estados Unidos. The Help é destas produções que busca o equilíbrio constante entre o drama e a comédia, com várias pitadas inusitadas e interpretações exemplares. As atrizes deste filme surpreendem pela dedicação e pela força de suas interpretações – não é por acaso que três delas foram indicadas ao Oscar e ao Globo de Ouro. E que duas estejam sendo apontadas como favoritas para levar uma estatueta dourada para casa no próximo dia 26. É um filme bem escrito, mas que falha ao suavizar a própria história, dividindo as pessoas claramente entre “boas” e “más” – quando sabemos que esta divisão é bem mais difícil de ser feita. Ainda assim, The Help é envolvente e deve cair no gosto popular, mais do que outras produções que estão concorrendo ao Oscar deste ano.

ATUALIZAÇÃO NO DIA 14/04: Olhando para trás, acho que fui um pouco “bondosa” demais com o filme dando, inicialmente, a nota 9,4 para ele. Um 9 me parece mais justo.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: The Help foi indicado em quatro categorias do Oscar. Por repetir duas indicações em uma mesma categoria, a de melhor atriz coadjuvante, ele pode receber, na melhor das hipóteses, apenas três estatuetas. Mas deverá ficar com menos que isso. Ele não tem chance como melhor filme – pelo menos não tendo The Artist e The Descendants como concorrentes.

Levará, sem dúvida, na categoria de melhor atriz coadjuvante – provavelmente a ganhadora será Octavia Spencer, ainda que Jessica Chastain tenha se firmado como um dos grandes nomes do ano passado. Viola Davis, para a minha surpresa, está liderando muitas bolsas de apostas para a premiação. Caso ela consiga vencer das favoritas Meryl Streep e Michelle Williams, não será uma injustiça.

Viola Davis é uma das grandes responsáveis pelo êxito de The Help. Além do mais, para muitas pessoas, a Academia tem uma dívida com ela, desde que não a premiou pela interpretação estonteante – ainda que muito curta – de Doubt. Ela merece, pois. Agora é esperar para ver se ela conseguirá desbancar as favoritas e garantir o segundo de três Oscars possíveis para The Help.

Jodaeiye Nader az Simin – A Separation – A Separação

29 de janeiro de 2012 9 comentários

Uma cisão entre o compromisso com o passado e com o futuro. Como conseguir buscar o equilíbrio entre estes dois tipos de compromisso quando a realidade não permite este equilíbrio? A escolha entre um e outro sempre causa dor, mas a escolha sempre é possível. Sobre isso e muito mais é que trata Jadaeiye Nader az Simin, filme iraniano que é o grande favorito na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no próximo Oscar. Profundo e potente em diversos sentidos, este filme, com o título internacional de A Separation, tem todos os elementos e os méritos para sair vencedor.

A HISTÓRIA: Vários passaportes e outros documentos de identidade ganham luz em uma máquina de xerox. Lado a lado, Simin (Leila Hatami) e Nader (Peyman Moadi) discutem sobre o pedido dela para o divórcio. O juiz pede mais detalhes, porque não está convencido. Em poucos minutos, sabemos sobre o impasse que levou o casal até aquele lugar e situação. Simin quer sair do país, viver no exterior em busca de um futuro melhor para a família, especialmente para a filha Termeh (Sarina Farhadi). Nader resiste a sair de seu país, porque não quer abandonar o pai (Ali-Asghar Shahbazi), que está em estado avançado do Mal de Alzheimer. Frente ao impasse, Simin decide se separar e sair de casa. Com esse gesto, Nader, que trabalha o dia todo fora, é obrigado a contratar alguém para ajudar a cuidar do pai doente. Desta forma é que Razieh (Sareh Bayat) entra na vida da família, e tudo se complica.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Jodaeiye Nader az Simin): Gostei muito da forma direta com que o filme começa. Logo nos primeiros minutos, sabemos sobre a essência do impasse do casal. De um lado, o compromisso de Nader com o pai, que simboliza as suas raízes, o seu passado – e, de forma intrínseca, a tradição do Irã. De outro lado, Simin e toda a sua amorosidade cheia de fibra, que busca fora do país as oportunidades que ela não vê no Irã – sendo mulher, ela sabe o que a filha poderá esperar dali no futuro.

Logo de cara, o personagem de Nader parece irrepreensível. Simin, para alguns, pode parecer uma traidora. Mas logo na cena da separação, no início do filme, cada um apresenta os seus argumentos. E Simin revela como a ideia de buscar um futuro melhor fora não foi só dela. Ainda que não tenhamos detalhes sobre o que aconteceu – nem no começo, e muito menos depois -, sabemos que o casal passou 18 meses trabalhando e ganhando dinheiro para conseguirem um visto para morar fora do país. E seis meses depois, faltando 40 dias para o prazo expirar, Nader resolve que não quer mais morar fora.

Enquanto o marido se agarra à enfermidade do pai como um forte argumento para não partir, Simin comenta que o estado avançado da doença não deixa nem ao menos o velho reconhecer quando o filho está próximo. Mas para Nader, isso não significa nada. O pai estar consciente ou não sobre o filho estar cumprindo as suas responsabilidades não vem ao caso. O compromisso dele independe do reconhecimento. Primeira grande lição do filme. Contra o argumento do compromisso com o passado, Simin rebate sobre o futuro da filha do casal. Ela diz que não quer que Termeh cresça sob “aquela situação”. O juiz pergunta sobre que situação ela está se referindo, e se as crianças daquele país não tem futuro. Simin não responde. E nem será preciso, porque o resto do filme responderá por ela.

Antes disto acontecer, Simin revela que a filha fará 11 anos duas semanas depois. Com esta idade, a menina só pode viajar com a mãe para fora do país com a permissão do pai. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Simin consegue o divórcio, mas não consegue o que mais gostaria, que é a presença da filha. Termeh decide ficar com o pai e o avô, enquanto a mãe vai para a casa dos pais. Ela não quer deixar o país sem a filha, mas também não pensa em continuar convivendo com Nader, com quem se decepcionou. E o filme segue em um crescente de conflitos e de decepções.

Inicialmente, como eu comentei antes, Nader parece o lado correto da história. O pêndulo está de seu lado. Simin, em uma leitura ligeira, parece apenas estar se livrando de um problemão, o de ter um sogro em estado avançado do Mal de Alzheimer. Mas as coisas não são tão simples assim, como o filme vai mostrando aos poucos – eis outra lição, de que qualquer leitura ligeira sobre uma determinada realidade tem uma grande probabilidade de estar errada.

A “situação” aquela da qual Simin quer afastar a filha é logo revelada. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Para começar, um grande disparate entre as pessoas que vivem naquele país. Homens como Nader, que trabalham em um banco, estão em um patamar muito mais elevado do que Razieh e seu marido desempregado Hodjat (Shahab Hosseini). Não apenas uns tratam os outros de forma diferente, mas também a Justiça trata os indivíduos de forma distinta. Certo que Hodjat parecia sempre estar um tom acima do razoável, enquanto Nader mantinha a tranquilidade frente ao juiz mas, ainda assim, fica evidente o tratamento diferenciado que uns e outros recebem.

O tratamento de Nader com Razieh foi muito desigual desde o início. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E aqui talvez entre em jogo outra questão da sociedade iraniana: a supremacia do homem sobre a mulher. Ainda que eu tenha achado aquela sociedade mais “liberal” que outras do Oriente, porque Simin aparece dirigindo um carro, por exemplo, e porque é possível mulheres e homens dividirem os mesmos espaços sem grandes restrições, sempre parece que o homem tem uma voz mais ativa que a mulher. Outro ponto da “situação”. Nader não cede em nada que Razieh argumenta no início. Ele não se importa se ela tem que sair de madrugada de casa, carregando a pequena Somayeh (a encantadora Kimia Hosseini) pela mão. Ele não dá bola quando ela reclama que ele estava pagando pouco. Isso porque Nader sabe que há muita gente sem emprego, desesperada, e que se submeteria ao que ele estava propondo – mesmo sendo injusto.

O roteiro do diretor Asghar Farhadi é brilhante. Além de ir direto ao ponto no início, de apresentar rapidamente aquela que parece ser a questão primária da separação – mas que depois, vamos descobrindo, ser apenas uma parte das razões -, ele vai aumentando a tensão conforme o filme se desenrola. Partimos do conflito para o drama e, depois, para a tensão de uma disputa judicial com promessas de rompantes de descontrole – e, talvez, violência. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei fascinante como Nader começa ganhando a batalha da simpatia do espectador, por não querer abandonar o pai doente – o que parece um argumento irrefutável -, e como depois ele vai perdendo pontos, conforme vai deixando a máscara cair. E mesmo que Simin não apareça tanto quanto ele na história, ela vai virando o jogo quando se solidariza com o ex-marido – mesmo que, novamente, sob o argumento de proteger a filha do casal.

E este é, para mim, o ponto fundamental desta história. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Pai e mãe argumentam, sempre, que estão buscando o melhor para a filha. E a ótima Sarina Farhadi, que interpreta a menina, fica apenas observando. Como nós também. Até que percebemos que ela nunca foi a razão principal da disputa. Nem do pai, nem da mãe. Ela se decepciona com a mãe, e fica triste quando ela realmente sai de casa. Depois, se decepciona com o pai, quando descobre que ele mentiu sobre algo fundamental – e pior, que fez ela mentir. Simin não se separou apenas porque queria sair do país. E Nader não ficou apenas por causa do pai. O casamento estava arruinado por outras razões, ainda que a desculpa do “melhor para a filha” permaneça nos discursos de Nader e Simin. Para resumir, ele não era o santo que parecia. E ela também não era a “megera desalmada” que uma análise rápida poderia levar a crer.

Famílias sempre são complexas, e as relações entre seus membros também. Há muito amor em jogo e, na falta dele, ressentimentos. Mas este filme fala também de comprometimento. Aliás, eis uma carga pesada em cena. Há compromissos com os pais, há responsabilidades com os filhos. E no meio de tudo isso, uma grande desigualdade entre classes sociais, que torna a conta que alguns tem que pagar muito mais pesada. Ainda que, mesmo os “abastados”, também tenham as suas faturas nada leves.

Outra questão que chama muito a atenção no filme é a questão da religião. Fica claro que alguns no Irã não tem apego nenhum pelo Corão, enquanto outros, como Razieh, são muito religiosos. A ponto de ligar para pedir uma consulta antes de praticar algum ato que possa ser considerado pecado. Quem não tem esta religiosidade, como Nader, parece considerar a religião algo de pessoas menos “instruídas”. Outra diferença grande entre as famílias que acabam se chocando nesta história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Sobre o grande mote do conflito entre estas famílias, evidente que Razieh não fez certo ao deixar ao velho senil em casa sozinho. E que Nader teve razão em ficar desesperado. Mas isso não tira a responsabilidade dele, ainda mais naquela sociedade, por ter sido tão bruto com aquela mulher. E sabendo da situação dela.

Chocante a forma com que ele tratou Razieh sem um pingo de consideração pela filha dela estar vendo tudo. (SPOILER  não leia… bem, você já sabe). Depois, impressionante também como ele não quis ceder em absolutamente nada para ajudar ela ou a família. Entendo e acho justo que ele não quisesse ser condenado por algo que ele não fez. Mas ele tinha condições de ter tornado a vida deles menos miserável. Simin quis colocar panos quentes, e levou a questão do acordo até o final.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Interessante a surpresa dela, assim como a dos demais, quando Nader pede para que Razieh jure sobre o Corão. Não houve piedade, em nenhum momento, e nem a capacidade mínima dele ceder em algo. Como é possível ter uma família assim. Como é possível ensinar valores para uma filha com esta filosofia? Não basta amar o passado e ter responsabilidade com os ancestrais. É preciso mais que isso. Qual seria a decisão final de Termeh? Pouco importa. E este é o final perfeito. Nader de um lado, Simin de outro. Não apenas do corredor, separados ainda por um vidro – sem possibilidade de comunicação, o que eles pareciam incapazes de ter. Mas na vida e no futuro. Talvez o espectador conseguiu escolher um lado. Como Termeh. Mas isso, também, pouco importa.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Eu achei o filme perfeito. Roteiro incrível. Direção precisa, dando o devido protagonismo para os ótimos atores. Peyman Moadi, como Nader, e Leila Hatami, como Simin, são impressionantes. Cada um com as suas características – de quase permanente fúria, por um lado, e de costumaz racionalidade, de outro. Grande observadora da história, assim como nós, Sarina Farhadi também está ótima, com uma interpretação bastante comedida, mas muito emotiva. Ela, aliás, é filha do diretor – achei isso interessante. Sareh Bayat dá um banho. Shahab Hosseini está sempre um pouco além do tom, característica do personagem dele, o que torna o filme sempre um pouco tenso quando ele aparece em cena – ele parece carregar uma mágoa constante, e que ultrapassa aquela questão específica. E a pequena Kimia Hosseini como Somayeh rouba a cena a cada aparição. Grande trabalho também de Ali-Asghar Shahbazi. Não é fácil fazer o personagem do pai sênil.

Todos estiveram muito bem. Mesmo os atores secundários, como Babak Karimi, juiz que fazia os interrogatórios, ou Merila Zare’i, como a professora Ghahraii. Sem eles, os momentos tensos do filme – e eles não são poucos, para a nossa surpresa – não seriam tão verdadeiros e relevantes.

Mas nem tudo é perfeito, infelizmente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Sei que a maioria de vocês, meus caros leitores, vai discordar de mim. Mas paciência. Vocês sabem que não deixo de opinar, mesmo sabendo que posso não agradar a todos. Queria muito ter dado um 10 para este filme. Mas algo que ele deixou sem resposta me incomodou muito. Afinal, foi muito relevante para a história a acusação de Nader sobre o roubo do dinheiro. Ele se descontrolou com Razieh não apenas por causa do pai, mas do alegado roubo. E ela, principalmente, tão religiosa, ficou mais indignada com esta acusação do que com o restante. E eis que o filme não nos explica, afinal, o que foi feito daquele dinheiro. Ele caiu atrás da gaveta e depois Nader o encontrou? Termeh havia pego ele por alguma razão e depois o devolveu? Nader havia colocado o dinheiro em outro lugar? Somayeh pegou ele sem falar para ninguém? Porque quando a menina disse para Nader que a mãe não tinha pego o dinheiro ele disse que sabia? Muitas perguntas sem respostas. E essa era uma questão fundamental. Isso me incomodou, a ponto do filme não receber a nota máxima – apesar de ter tantas qualidades.

Todo o filme é muito bem acabado, tecnicamente. Mas merecem menções os trabalhos de edição de Hayedeh Safiyari, fundamental para o bom ritmo da produção; a direção de fotografia bastante limpa e luminosa de Mahmoud Kalari; e o som captado por Mahmoud Samakbashi e equipe.

Incrível como uma ótima ideia e roteiro podem resultar em um filme barato. A Separation teria custado aproximadamente US$ 800 mil. Depois de estrear em apenas três cinemas nos Estados Unidos no dia 1º de janeiro, ele acumulou, até o último dia 22, pouco mais de US$ 541 mil de bilheteria. No restante do mundo, ele tinha acumulado pouco mais de US$ 13,4 milhões até o dia 30 de dezembro. Fiquei muito feliz em saber que o filme foi tão bem em diferentes países – com destaque para a França que, sozinha, garantiu US$ 6,1 milhões em bilheteria para ele. Desta forma, Farhadi deve continuar produzindo grandes histórias pra gente. :)

A Separation estreou no Festival de Berlin no dia 15 de fevereiro de 2011. Depois, ele passou por outros 28 festivais. Um número impressionante. Mas que ajudou, e muito, ao filme ser divulgado e reconhecido – com méritos. Até o momento, ele ganhou impressionantes 43 prêmios, e foi indicado a outros 20 – incluindo dois Oscars. Caso ele ganhar uma das estatuetas douradas mais cobiçadas de Hollywood, no próximo dia 26 de fevereiro, ele terá fechado um ano recheado de prêmios. Entre os que recebeu, destaque para o Urso de Ouro no Festival de Berlin como o melhor filme concorrente em 2011, e os ursos de prata de melhor ator para Shahab Hosseini e Peyman Moadi e os de melhor atriz para Leila Hatami e Sareh Bayat. Destaque também para o prêmio de melhor filme em língua estrangeira dado pelo National Board of Review e o de melhor filme no Festival de Cinema de Sydney.

Agora, algumas curiosidades sobre A Separation: grande parte desta produção foi rodada com uma câmera de mão. Este foi o primeiro filme a ganhar três ursos no Festival de Berlin, a primeira produção do Irã a ganhar um Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro e a primeira daquele país a concorrer a um Oscar pelo seu roteiro.

Pela segunda vez na história um filme do Irã é indicado ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Antes dele, concorreu à estatueta Children of Heaven, dirigido por Majid Majidi.

Para os curiosos, como eu, sobre as locações dos filmes: A Separation foi totalmente rodado na cidade de Teerã.

Os usuários do IMDb deram a nota 8,6 para o filme, uma avaliação muito boa para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 86 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante a impressionante marca de 99% de aprovação – e uma nota média de 8,8. Praticamente insuperável esta aprovação. O que torna a corrida dele no Oscar ainda mais tranquila.

CONCLUSÃO: Um filme potente sobre as razões de fundo que podem fazer um casal com uma bela filha e história se separar. A vida é complexa, e Jodaeiye Nader az Simin, mais conhecido como A Separation – título do mercado internacional – deixa isso muito claro. Com um roteiro sem sobras e com muitas cenas de tensão, o diretor Asghar Farhadi dá um show sobre interpretação de uma realidade social tendo um núcleo familiar e seus conflitos como argumento primário. As desigualdades do Irã ficam claras nesta produção, que não se limita àquele território porque trata de temas universais. Não apenas família, compromisso com o passado e com o futuro, mas também respeito pelo próximo, compaixão, amor e a perda da inocência a respeito dos nossos progenitores. Um grande filme, que não é perfeito apenas por um detalhe. De pouca importância, eu admito, mas que, ainda assim, impediu o tão aguardado 10. De qualquer forma, é imperdível.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Mais uma vez, não posso fazer uma análise totalmente embasada porque, afinal, não assisti aos outros concorrentes de Jodaeiye Nader az Simin ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar deste ano. Ainda assim, pelos prêmios que recebeu, pela quase total unanimidade da crítica e, claro, pela qualidade deste filme, posso dizer que ele tem 90% de chance de receber a estatueta dourada no próximo dia 26 de fevereiro.

Seria uma grande surpresa se esta produção não recebesse o Oscar. Esta sim, seria a grande zebra da premiação deste ano. Acredito que todas as apostas estejam nele. E seria algo bacana para Hollywood. Afinal, de uma maneira muito sutil, Farhadi critica a “situação” das coisas do Irã, um país governado pelo combatido presidente Mahmoud Ahmadinejad. Certamente seria um tapa com luva de pelica dar um prêmio tão importante para a indústria do cinema para um filme que trata sobre ruptura, sobre o “fim dos sonhos” de um casamento e de tantas outras questões tratadas com bastante simbologia nesta história. Mesmo sem ter assistido aos outros quatro concorrentes, se eu fosse apostar, apostaria neste filme como vencedor.

SUGESTÕES DE LEITORES: Só agora, ao responder aos recados dos bons leitores deste blog deixados em janeiro que eu percebi que A Separation tinha sido indicado por dois leitores: Vander e Mangabeira, ambos no dia 22 do mês passado. Meus caros, grande filme este, hein? Provavelmente o vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro hoje à noite, na entrega do Oscar. Merecido, ainda que eu não tenha visto aos outros concorrentes para poder comparar. Obrigada por mais esta dica, Vander e Mangabeira! E inté mais!

The Descendants – Os Descendentes

25 de janeiro de 2012 6 comentários

Você leva a vida com muita lógica e ordenada, até que ela, a vida, te dá uma rasteira. E, normalmente quando isso acontece, a rasteira não é individual, mas plural. The Descendants fala de uma rasteira destas da vida, que mexe com estruturas, convicções e que, no final, deixa tudo diferente. É um filme que começa de forma excepcional, com umas linhas de roteiro que te impulsionam a ir atrás do nome de quem as escreveu depois. Só que lá pelas tantas, depois da metade do filme, você descobre que aquele começo vai perdendo o fôlego. Nada trágico. Apenas um elemento a mais para o grupo de “essas coisas acontecem”.

A HISTÓRIA: Uma linda mulher aparece sorrindo, em êxtase fazendo esqui aquático e com um dia azul estonteante como cenário de fundo. Elizabeth King (Patricia Hastie) estava feliz, pouco antes de sofrer um acidente trágico. O último sentimento vivido por ela não seria o mesmo compartilhado pelo marido, Matt (George Clooney), pelas filhas Alexandra (Shailene Woodley) e Scottie (Amara Miller) a partir daquela cena. Matt explica o que está acontecendo ao ironizar como seus amigos do “continente” pensam que ele vive no paraíso apenas por residir no Hawaii. Após confidenciar de que ele não subiu em uma prancha de surfe nos últimos 15 anos, ele revela que passou os últimos 23 dias em um “paraíso” de intravenosas, sacos de urina e tubos no hospital. Olhando para Elizabeth, prostrada na cama, ele só pede que ela melhore, para que ele tenha uma chance de ser um bom marido e um bom pai. Mas Matt, junto com as filhas, terá que lidar com essa e outras situações além do que eles poderiam imaginar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Descendants): Eu dei muitas risadas com as primeiras linhas do roteiro que o diretor Alexander Payne escreveu ao lado de Nat Faxon e Jim Rash. Especialmente porque entendo bem essa aura ilusória que circunda as pessoas que moram em “paraísos”, segundo a opinião de muita gente. Hoje, vivo em Florianópolis, uma das cidades mais badaladas do país a cada novo Verão. Antes de vir para cá, morei em Madrid. Tanto em uma cidade como em outra, os que não moravam ali, sempre acharam que eu tinha muita “sorte” por morar nestes paraísos.

A grande questão, e The Descendants começa muito bem ao ironizar isto, é que paraísos não existem. Como bem escreveram os roteiristas, não importa a cidade “maravilhosa” em que você more, ou quanto ela é cobiçada por quem não reside ali: dores, problemas, doenças e tragédias acontecem nestes locais também. E o protagonista desta história vive, no tão comentado “paraíso” do Hawaii, um verdadeiro inferno. Melhor dizendo, um momento de ruptura importante em sua vida.

Achei especialmente interessante a quebra inicial do filme. Vemos Elizabeth em um momento de êxtase, de felicidade extrema. Mas aquilo terminaria em seguida. Interessante que a cena do choque, do acidente, não é mostrada. E nem precisa. É a típica imagem que sobra. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Porque é muito mais interessante mostrar como um grande momento de alegria pode ser, de uma hora para a outra, substituído por nada. Aquele momento de aventura, de alegria, pode ser o último de uma vida. Em seguida, essa ideia de “viva a vida intensamente” e “faça as coisas para não se arrepender depois” é reforçada pela confissão do protagonista de que ele espera a esposa acordar do coma para recuperar o “tempo perdido”. Com ela e com o restante da família.

O problema é que as coisas não funcionam assim. Não decidimos que rumo a vida vai assumir. Há decisões, claro, que estão nas nossas mãos. Mas tantas outras independem da gente… gosto sempre de pensar naquela imagem de uma pessoa com braços estendidos. A capacidade dela de decisão e “domínio” termina nas pontas de seus dedos. A partir dali, ela não tem controle. O protagonista descobre isso, com bastante idade, tendo duas filhas para criar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não importa a reza ou a ideia de “injustiça” sobre uma morte tão prematura. A vida acontece independente deste parâmetros.

Estas são algumas das primeiras lições de The Descendants. Que trata, obviamente, sobre a dura tarefa de lidar com o imprevisível – especialmente quando ele é trágico. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E de lidar com a perda definitiva, que é sempre triste, trágica, mas que precede o momento decisivo de seguir em frente. Outros filmes já trataram sobre isto. E alguns, quem sabe, de forma até mais competente. Cito apenas alguns dos quais eu me lembro, e que estão comentados aqui no blog: temos a “loucuragem” alternativa de Hesher, a poesia magistral de Kirschblüten Hanami e, mais para os padrões de Hollywood, Grace is Gone, Things We Lost in the Fire, entre outros. Lembro também de In the Bedroom, filme que eu assisti antes de começar este blog e que trata um pouco sobre isso de como a vida continua seguindo o seu rumo “normal” mesmo quando algo trágico aconteceu e o seu próprio mundo nunca mais será o mesmo.

Mas, claro, The Descendents não trata apenas disto. Como o título mesmo sugere, a essência do filme dirigido por Alexander Payne está nas lições que ousamos deixar para os nossos descendentes. Que herança você quer deixar? Vivendo um momento extremamente difícil, parece ser esta a pergunta que está na cabeça do protagonista o tempo inteiro. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a este filme). Tão duro quanto perder a mulher da vida dele, com quem ele gostaria de ter uma segunda chance, é saber que ela estava fazendo outros planos enquanto ele tocava a vida normalmente. Descobrir a traição dela, e de que muito do que ele entendia da própria vida não era válido, é algo com que ele tem que lidar enquanto administra a notícia de que Elizabeth não vai se recuperar e, de quebra, decidir o futuro da própria família e da região. Decisão essa que passa pela venda de um terreno irretocado e que mexe com a herança de seus antepassados.

A ideia de herança perpassa toda a história, aliás. Seja pela decisão do terreno, que resgata fotos e memórias antigas, origens étnicas mescladas, seja pelas lições que o protagonista vai dando para as suas filhas, mesmo sem saber exatamente o que ele mesmo está fazendo. Engraçada a forma com que o “pai substituto”, o segundo na relação com as filhas, lida com problemas comuns do cotidiano. Com a birra da filha mais jovem, Scottie, e com a rebeldia da mais velha, Alexandra. Se bem que a resistência da garota dura pouco. O que é surpreendente e que torna a história interessante. Afinal, Matt descobre na filha, de quem sabia pouco, uma parceira fundamental para lidar com os próprios problemas. E esta é a relação que faz tudo valer a pena.

Há um momento no hospital que pode render alguma “polêmica”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na primeira visita à mulher em coma, depois de descobrir que ela lhe estava traindo, Matt tem um acesso de fúria. Mas em seguida, quando Alexandra desabafa e também tem um chilique, ele tira Scottie de perto e repreende a filha mais velha. Para alguns, ele foi hipócrita, talvez incongruente. Eu já vejo aquele trecho como muito honesto. Os pais erram tanto ou mais que os filhos, muitas vezes. Mas eles devem sempre tentar ensinar bons princípios para os descendentes, mesmo quando eles mesmos pecam nestes ideais. Para os filhos é difícil entender isso e, alguns, acredito, nunca serão capazes de entender que existe uma diferença entre responsabilidade em dar o exemplo e ensinar e a própria capacidade humana de acertar. É preciso ter compreensão, aprender a perdoar. E saber que os pais eternamente terão o papel de nos ensinar o melhor, mesmo quando para eles o caminho do bem seja complicado de ser seguido.

Eis um ensinamento importante de The Descendants. E ele não está tão evidente, quanto outros, que acabam ficando atér forçados. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Me irritou, por exemplo, a forçada de barra na decisão sobre a venda do terreno. Claro que algumas vezes o discurso público apenas esconde as verdadeiras razões, escondidas no íntimo. Teria me convencido muito mais ele não vender o terreno para a primeira opção, pelos motivos explicados pelo filme. Mas ao invés de fazer um discurso sobre preservação ambiental, que contradizia toda a convicção que ele tinha até o acidente de Elizabeth, faria mais sentido ele ter escolhido a segunda opção para a venda. Só aquela visita dele ao terreno com as filhas não foi suficiente para uma “tomada de consciência”. Achei forçado. Assim como achei forçada a visita final no hospital e a reação do protagonista. Exemplos de como o roteiro, que começou tão bem, deu aquela desafinada da metade para o final.

As reflexões mais interessantes do filme são as menos evidentes. Além daquela citada anteriormente, do discurso do pai ir além da capacidade dele mesmo atuar com aquela perfeição ensinada, vi outra envolvendo os personagens de Sid (o divertido Nick Krause) e Scott Thorson (o veterano Robert Forster), pai de Elizabeth e sogro do protagonista. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No início, Sid parece um garoto muito, mas muito sem noção. Sei que hoje é considerado politicamente incorreto, mas eu também fiquei me perguntando se ele não tinha algum retardo mental. Depois, o filme inteiro mostra a dureza de Scott, e o quanto ele, por amar tanto a filha, poderia ser injusto com o genro e o restante da família. E ainda assim, o que The Descendants nos motra, e de forma muito natural, sem discursos, é que tanto Sid quanto Scott tinham suas próprias dores, histórias, boas lembranças e ensinamentos a repassar. Todos tem isso tudo. Mesmo que algumas vezes a gente tente simplificar com enquadramentos e classificações injustas, com rótulos ligeiros.

Sem dúvida, The Descendants tem boas intenções. E, inclusive, alguns ensinamentos interessantes. Pena que, como tantas vezes que alguém tenta nos ensinar algo, parte do discurso se perca no caminho. A obsessão do personagem por fazer o certo, mesmo quando isso signifique ter um gosto estranho por se aproximar do inimigo, parece um bocado fora de propósito. Um tanto irônico, tratando-se de alguém que tenta ordenar a vida e dar bons exemplos para as filhas – porque, no fim das contas, por trás daquela “boa intenção” de fazer o que “Elizabeth gostaria”, ele estava mesmo é perseguindo o próprio desejo de entender o que aconteceu, de preencher lacunas e satisfazer o próprio ego. Mas eis que aqui pode estar o melhor ensinamento para os nossos descendentes: a gente acerta mesmo errando. E as gerações futuras, normalmente, são a nossa chance de redenção. Evolução, talvez. Assim esperamos.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro de The Descendants é uma adaptação do seu trio de roteiristas da obra de Kaui Hart Hemmings. O livro homônimo foi lançado neste início de ano pela editora Alfaguara. De acordo com esta sinopse, The Descendants é a obra de estreia da americana, que foi bastante elogiada pela crítica. O livro, de ficção, tem 304 páginas e aproveitou o galã George Clooney para estampar a capa da versão brasileira.

George Clooney, me desculpem os sensíveis, está especialmente belo neste filme. As paisagens ajudam, é verdade, como pano de fundo – especialmente nas sequências em que ele está na praia. Mas em vários momentos é possível ver o ator em sua melhor fase – não apenas de beleza, mas de segurança como ator. Ainda que ele esteja ótimo no filme, não vi muita inovação em seu trabalho em The Descendants. Neste personagem foi possível encontrar outros papéis vividos pelo ator. Não foi um trabalho único, para resumir. Mas ele está muito bem.

Por outro lado, quem rouba a cena é a jovem Shailene Woodley. Ela faz um papel difícil, de uma adolescente inconstante e, ao mesmo tempo, muito segura de si. Em parceria com Clooney e Krause, ela alça voo. Se destaca. Desde o primeiro minuto que aparece em cena e até o final, com destaque para as principais revelações do filme – na piscina e na sala da família -, Woodley segura a onda e mostra que tem muito para mostrar ainda como atriz. Uma bela surpresa. E merecidíssima a indicação da moça no Globo de Ouro e no Oscar.

Todos os atores coadjuvantes fazem um bom papel. Além dos atores já citados, merece uma menção especial ainda Beau Bridges como o primo Hugh, uma das vozes fortes da família King; Matthew Lillard como Brian Speer, em quase uma ponta no filme; e Judy Greer como a mulher dele, Julie.

Da parte técnica do filme, vale citar a trilha sonora bacaninha e cheia de referências “locais havaianas” de Richard Ford, com o apoio de Eugene Kulikov e Dondi Bastone; a edição competente e calibrada de Kevin Tent; e a direção de fotografia que se beneficiou muito da paisagem de Phedon Papamichael.

Desde a estreia de The Descendants nos Estados Unidos no dia 20 de novembro e até o último dia 15, o filme já havia arrecadado R$ 47,9 milhões nas bilheterias estadunidenses. Nada mal, mas também nada excepcional. O filme está longe de ser um arrasa-quarteirão – e, pelo perfil dele, nem imagino ele ampliando muito mais o limite atual.

The Descendants estreou no dia 2 de setembro em um festival não muito badalado dos Estados Unidos, o Telluride, promovido no estado do Colorado. Depois, o filme passou por outros sete festivais, incluindo os de Toronto, Nova York, Turin e Dubai.

Até o momento, The Descendants ganhou 34 prêmios, incluindo os Globos de Ouro de Melhor Filme – Drama e Melhor Ator – Drama para George Clooney. Entre as vitórias que o filme conquistou, destaque também para os prêmios de melhor ator, melhor roteiro adaptado, melhor atriz coadjuvante para Shailene Woodley e o de Top Films no National Board of Review; e os de melhor filme e melhor roteiro adaptado no Satellite Awards. No Oscar, que comentarei melhor logo abaixo, ele foi indicado em cinco categorias.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para The Descendants. Não está mal, mas ficou abaixo da avaliação para o forte concorrente The Artist. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 169 críticas positivas e 21 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 8,2. Também abaixo da avaliação para The Artist.

Ah, e se você ainda não assistiu ao filme, uma dica valiosa: tente não ler muita coisa sobre ele e, muito menos, assistir ao trailer. Leituras e o vídeo de apresentação do filme vão estragar algumas das surpresas e reviravoltas principais da produção.

CONCLUSÃO: Como eu disse lá no início, The Descendants começa inspirado. Com um texto de tirar o chapéu. E ainda que ele caminhe bem, embalado, até pouco mais de metade da história, os últimos 40 minutos da produção perdem o pique. O roteirista parece ter perdido a capacidade de surpreender e de sintetizar grandes desafios. Acaba escolhendo uma trilha mais fácil, um tanto difícil de acreditar, mas que parece ter sido pensada para cair no gosto do público que gosta de respostas deste tipo. Uma pena que um filme que tenha começado tão bem, perca o vigor por tanto tempo. Ainda assim, eis uma bela história sobre como lidar com as surpresas da vida. De como valorizar a família, repensar os próprios atos e saber perdoar. Das grandes lições da história, talvez a mais valiosa é de que todas as pessoas, por mais idiotas, “chatas” ou brutas que elas pareçam, tem a suas próprias histórias, dores e alegrias para lidar. Um filme que trata de parte do caráter humano, com belas atuações de George Clooney e de Shailene Woodley. Bacana, mas não é o melhor filme do ano ou mesmo na disputa para o Oscar.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: A força e o carisma de George Clooney em Hollywood garantiram cinco indicações para The Descendants no maior prêmio da indústria do cinema dos Estados Unidos. Não foi injusto. Eis um bom filme. Que tem vários méritos, citados anteriormente. Mas que não é o melhor filme do ano. Pelo menos não é tão inovador e surpreendente quanto os outros dois que eu assisti e que estão na disputa: The Artist e Moneyball.

Até o filme com Brad Pitt, que eu comentei por aqui antes e que eu achei bacana, mas não excepcional, me pareceu, no cômputo geral, mais criativo que The Descendants. Digo isso porque há tantos outros filmes que tratam sobre perdas tão bem ou até melhor que esta produção estrelada por George Clooney, como eu comentei anteriormente… Sendo assim, acho que pelos méritos do filme e, especialmente, pela força de Clooney, The Descendants recebeu as cinco indicações que lhe eram devidas – e até com alguma sobra e uma ausência.

The Descendants foi indicado como Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Diretor e Melhor Edição. Entendo os três primeiros, mas não sei se não foram exageradas as indicações de diretor e edição. Afinal, outros mestres da arte de dirigir ficaram de fora para abrir espaço para Alexander Payne. E a edição do filme é boa, mas não está muito acima da média. Achei um pouco injusto a Academia não ter indicado Shailene Woodley como Atriz Coadjuvante, mas paciência…

Nas categorias principais, francamente, não acho que ele mereça mais o Oscar do que The Artist. Mas como a maior premiação de Hollywood não tem, necessariamente, a ver com merecimento… The Descendants tem alguma chance de levar mais de uma estatueta para casa. De todas as categorias na qual ele está concorrendo, talvez a menos “injusta” dele ganhar seria a de ator. Clooney segura a história, dando a ela profundidade e o interesse precisos. Mas não mais que Jean Dujardin em The Artist…

O lobby, o carisma e a origem do dinheiro – The Descendants é uma produção made in USA, enquanto The Artist é uma co-produção França e Bélgica -, somados com a ideia de um filme mais “vendável” (porque é mais fácil de “tragar” do que uma produção quase toda de cinema mudo) podem fazer The Descendants ser o grande vencedor do Oscar deste ano. Não seria o meu voto. Não é o melhor filme em disputa. Mas também não seria, por assim dizer, um crime por completo. Ele tem boas intenções. E isso já é algo… Ainda preciso assistir a Hugo, o filme com o maior número de indicações do ano. E aí sim, poderemos tirar a prova dos nove. :)

The Artist – O Artista

22 de janeiro de 2012 11 comentários

Em que ano nós estamos? 2012… verdade. Mas então por que um filme mudo, inédito, ainda mexe tanto com a gente e causa tanto burburinho em Hollywood? Filme mudo não é coisa do passado? The Artist comprova, de forma surpreendente, que não. A graça e o charme de um cinema que não existe mais voltaram com força. Com um roteiro delicioso e com grandes sacadas, uma trilha sonora estonteante e uma dupla de atores protagonista de tirar o chapéu, The Artist se revela, de forma muito franca e simples, como um dos grandes filmes da temporada. E olha que eu já estava “contaminada” com a onda de elogios para ele. E ainda assim, a expectativa não foi forte o suficiente para torná-lo uma decepção. Pelo contrário. Eis, realmente, um grande filme.

A HISTÓRIA: 1927. O herói está sendo torturado por uns russos. A música extremamente dramática dá o tom para a platéia, com os olhos fixos na telona. Trancado em uma cela-cofre, o herói é despertado por seu simpático cãozinho. Saindo de lá, ele liberta a heroína. Atrás do telão, o astro George Valentin (Jean Dujardin) chega a tempo para assistir ao final do filme estrelado por ele. Quando a produção termina, ele faz graça para a platéia, que o ovaciona. Na saída, uma fã dele faz graça com o astro, é incentivada por um fotógrafo a dar um beijo nele e, desta forma, ela sai estampada no jornal. No dia seguinte, essa garota desconhecida leva um jornal consigo para o estúdio Kinograph, onde consegue um trabalho como figurante após mostrar seus dotes como dançarina. Neste momento, ela se apresenta: Peppy Miller (Bérénice Bejo). A estreia dela, ironicamente, é feita ao lado do ídolo, George. Mas com a chegada do cinema falado, ela passará a ser a estrela, que atrai multidões para os cinemas, enquanto George sai de cena.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Artist): Mesmo as melhores comédias românticas dos anos 2000 não chegam aos pés do encanto, da sutileza e da graça dos grandes filmes mudos da primeira fase do cinema. Que o diga Charles Chaplin, Mary Pickford, Rodolfo Valentino e Buster Keaton. The Artist resgata um pouco daquela magia, acertando o tom na homenagem ao cinema que, de quebra, fala sobre valores um tanto esquecidos também, como a gratidão, a generosidade e a capacidade de reinventar-se.

Quando os atores não tinham voz e predominava o sistema das estrelas criadas por Hollywood, o nome principal de um filme era o chamariz para o público. Não se falava de diretores ou roteiristas. Para o público, eles não tinham muita importância. Mas grandes atores faziam toda a diferença. Eles ganhavam as platéias com graça, muitas caras e bocas e uma presença marcante que substituía a fala.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O personagem de George Valentin é claramente inspirado em Rodolfo Valentino, um galã do cinema mudo que não chegou a passar pela transição deste tipo de cinema para o falado. Mas na verdade, Valentin não tem apenas uma fonte de inspiração. Ele lembra, muitas vezes, Clark Gable, ou mesmo Gene Kelly, astros que ficaram famosos com o cinema falado. Kelly, aliás, estrou o clássico Singin’in the Rain, uma produção que trata também da transição do cinema mudo para o falado – mas com uma levada bem diferente daquela escolhida por The Artist.

A comparação de The Artist, com roteiro e direção do parisiense Michel Hazanavicius, e o clássico Singin’in the Rain, que este ano completa 50 anos e que foi dirigido por Stanley Donen e Gene Kelly, é inevitável. Afinal, ambos tratam do mesmo tema, a transição do cinema mudo para o falado e a dificuldade de alguns astros em se adequarem para a nova realidade. Ambos estão recheados de metalinguagem e autorreferenciamento. Mas enquanto o clássico é um musical, recheado de coreografias fantásticas de Gene Kelly, The Artist é um drama que bebe de fontes diversas.

Difícil é classificar The Artist. Como uma homenagem ao cinema, ele caminha por todos os seus gêneros, dos básicos comédia, drama e romance, até algumas pitadas de musical, aventuras de “capa e espada”, ação na selva e nas quadras. Uma coleção de referências. Mas para o filme funcionar, como em Singin’in the Rain ou na época do cinema mudo, foi fundamental o trabalho dos atores principais e da trilha sonora.

O trabalho de Ludovic Bource na trilha sonora é essencial e de tirar o chapéu. Exceto por duas sequências, The Artist é um filme 100% mudo. Com esta característica – o que o diferencia de Singin’in the Rain e o torna mais difícil de ser “atraente” nos dias atuais, nos quais as pessoas estão acostumadas com verborragia e necessitam de diálogos bem escritos nos filmes -, a trilha sonora se torna ainda mais fundamental para a história, porque é ela que dita o ritmo e “fala” pelos atores. De arrepiar o trabalho de Bource do primeiro até o último minuto do filme. Ele merece o Oscar.

A trilha sonora foi o primeiro elemento de The Artist que me chamou a atenção. Ela resgata o melhor da época em que o cinema era mudo e ainda inova, acompanhando cada momento desta nova produção com esmero. O segundo elemento que me chamou a atenção foi a qualidade dos protagonistas. O francês Jean Dujardin resgata as melhores qualidades dos astros de antigamente. Cada vez que ele sorri, a tela se ilumina – e as mulheres se derretem. Esta era uma qualidade fundamental na era das estrelas da época de ouro de Hollywood. E a argentina Bérénice Bejo faz o dueto perfeito com Dujardin. Se ele lembra os astros comentados anteriormente, ela, sem dúvidas, é inspirada na grande estrela do cinema mudo Mary Pickford.

O filme tem classe, tem uma trilha sonora impecável e uma dupla de protagonistas que encanta, que fascina, que arranca risos e que convence nos momentos de lágrimas escorrendo pelo rosto – no caso de Bejo. Mas além destes elementos, algo fundamental para este filme funcionar é a direção e o roteiro de Michel Hazanavicius. A história, mesmo que com um desenrolar um bocado previsível, prende o interesse do início ao fim.

Especialmente pelas ótimas sacadas do roteiro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Relembrando Charles Chaplin, em The Artist o protagonista ganha muitos pontos de simpatia por causa do cachorrinho que lhe acompanha – que faz um dueto perfeito com o herói em crise. A participação do cachorro e o charme de Dujardin, assim como o carisma de Bejo, são fundamentais para o filme fluir convencendo.

Somado a isso, o roteiro tem pelo menos duas grandes sacadas: justamente quando o som entra em cena. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Esta quebra na mudeza da história mostra os momentos em que o protagonista decide ceder, deixar o orgulho de lado e admitir que precisa recomeçar. Genial a sequência do pesadelo dele, e a simbologia de que há som em tudo, menos na garganta do personagem, que parece “incapaz” de falar. Evidente que ele não era mudo, mas de uma forma simbólica ele “não consegue falar” porque não admite a mudança na indústria que lhe rejeita como “ultrapassado”. Ele não luta contra isso. Prefere se desfazer de todos os bens e abraçar incontáveis garrafas de bebida do que pedir um favor para os “cartolas” do cinema ou aderir ao cinema falado. No final, outra vez, o som entra em cena, quando ele decide acreditar que é possível recomeçar.

Por estas e por outras, que The Artist não é apenas um grande filme sobre um momento decisivo do cinema. Ele não é apenas uma homenagem à Sétima Arte, seus artistas e bastidores, ou um roteiro cheio de metalinguagem. The Artist é também uma lição sobre recomeços, persistência e memória afetiva. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Por um lado, temos Valentin e sua dificuldade de ceder à passagem do tempo, de entender que uma forma de trabalhar terminou e que ela deve dar espaço para uma maneira diferente de atuar. Se ele é apaixonado por aquilo, deve se adaptar aos novos tempos. E saber lidar com a perda de espaço para novos talentos. Por outro lado, temos a ascensão de Miller e sua forma romântica e respeituosa de admirar Valentin. É linda a forma com que ela acompanha o astro, a quem admira. Diferente do clássico All About Eve, imperdível, aliás, ela não quer puxar o tapete de ninguém, mas fascinar os públicos e ajudar, sem intrometer-se demasiado, ao ídolo pelo qual sempre foi apaixonada. A relação deles é uma grande lição.

A direção de Hazanavicius é fascinante. Ele resgata os princípios dos filmes clássicos, destacando a interpretação e as expressões dos atores nos momentos adequados e mais reflexivos, mas imprimindo também uma dinâmica envolvente nas cenas de ação. Para conseguir isso, Hazanavicius conta com a ajuda do diretor de fotografia Guillaume Schiffman, que faz um trabalho primoroso ao resgatar a aura dos filmes preto e branco. Há estilo, charme e romantismo nesta forma de contar uma história. E os diálogos contidos comprovam como as palavras muitas vezes sobram. Há outros elementos muito mais significativos no cinema. E é muito bom revê-los como protagonistas nesta grande homenagem ao cinema, esta arte da qual tanto gostamos.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além dos protagonistas, já bastante elogiados, outros dois nomes se destacam nesta produção: John Goodman como o produtor e diretor de estúdio Al Zimmer; e James Cromwell como Clifton, motorista e braço direito do astro George Valentin. Os dois atores estão muito bem em seus papéis, ainda que o trabalho deles é claramente de coadjuvantes – as estrelas estão claras nesta produção. Duas atrizes também tem uma certa relevância como coadjuvantes: Penelope Ann Miller como Doris, mulher de Valentin; e Missi Pyle como Constance, estrela do cinema mudo e namorada de Zimmer. O grande Malcolm McDowell faz uma super ponta, de poucos segundos, e depois desaparece. Uma pena, porque ele é um grande ator – e que faz parte da ótima história do cinema.

Da parte técnica do filme, além dos nomes já citados, vale citar o ótimo trabalho da dupla de edição Anne-Sophie Bion e Michel Hazanavicius; a ótima direção de arte de Gregory S. Hooper; os figurinos de Mark Bridges e a decoração de set de Austin Buchinsky e Robert Gould.

The Artist foi ganhando a crítica, a opinião de quem faz Hollywood e crescendo na bolsa de apostas para o Oscar pouco a pouco. No início, quando estreou no Festival de Cannes em maio de 2011, ele não criou tanto burburinho. Mas garantiu, no festival, o primeiro de muitos prêmios de melhor ator para Jean Dujardin. Depois, o filme passou em outros 15 festivais. Mas começou a ganhar força mesmo quando estreou, de forma limitada, nos Estados Unidos em novembro. Daí as pessoas começaram a ter contato com a produção e a comentar sobre ela.

Nesta trajetória de festivais e por participar de outras premiações, The Artist vem acumulando prêmios. Até o momento, ganhou 42 prêmios, incluindo três Globos de Ouro, e foi indicado ainda a outros 77. Números impressionantes. No Globo de Ouro, o filme saiu vencedor nas categorias de Melhor Filme de Comédia ou Musical, Melhor Trilha Sonora (merecidíssimo) e Melhor Ator de Comédia ou Musical. Aliás, sendo justa, todos os prêmios muito merecidos. Entre os outros prêmios, destaco o de Melhor Filme no Festival de San Sebástian, na Espanha; e os de melhor filme e diretor pela avaliação dos críticos de Nova York.

Esta jóia do cinema teria custado aproximadamente US$ 12 milhões. Até o dia 15 de janeiro, apenas nos Estados Unidos, o filme havia faturado pouco mais de US$ 9,2 milhões nas bilheterias. Na França, ele acumulou pouco mais de 9,5 milhões de euros até o dia 20 de novembro. Juntando as bilheterias mundo afora, certamente o filme se pagou e ainda dará lucro. E com a possibilidade de ganhar alguns Oscar’s, possivelmente ele ganhará ainda mais dinheiro. Um incentivo para a arte e para projetos ousados, sem dúvida.

Co-produzido pela França e pela Bélgica, The Artist foi todo filmado na Califórnia. Certamente para dar mais veracidade para a história.

Uma curiosidade sobre o cãozinho simpático que aparece no filme: na verdade, ele é “interpretado” por três cães da raça Jack Russell Terriers. São eles: Uggie, Dash e Dude. Mesmo que eles dividam o “personagem”, a maior parte das cenas foi “interpretada” por Uggie.

A casa de Peppy no filme foi, na verdade, a casa da atriz Mary Pickford. Para aumentar ainda mais a “aura” de fidelidade da história, durante o tempo de filmagens, o ator Jean Dujardin viveu de forma isolada em uma casa dos anos 1930 em Hollywood Hills.

Este é o primeiro filme com tantas cenas que lembram o cinema mudo que estreia nos cinemas desde que Silent Movie, de Mel Brooks, estreou em 1976.

The Artist conseguiu uma nota ótima entre os usuários do site IMDb: 8,5. Superior ao de um de seus grandes concorrentes este ano, The Descendants, que tem apenas um 7,9 (ainda assim, uma avaliação muito boa para os padrões do site). Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes também se renderam à The Artist, dedicando 166 críticas positivas e apenas cinco negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,8 (nota esta excepcional, levando em conta as notas para outras produções).

Este é o primeiro filme do francês Michel Hazanavicius que eu assisto. Fiquei curiosa para ver outros trabalhos dele. Vi que ele estrou como diretor há 20 anos, com um curta-metragem. Depois, dirigiu dois filmes para a TV, duas séries para a telinha – uma delas, um documentário -, fez outro curta e estrou no longa com Mes Amis, de 1999. Depois, fez outros dois longas e, atualmente, trabalha na pós-produção de Les Infidèles, estrelado outra vez pelo genial Jean Dujardin, e ainda com Guillaume Canet, Mathilda May e Alexandra Lamy. Ele merece ser acompanhado.

CONCLUSÃO: Não se fazem mais filmes como antigamente. Isso é verdade. Mas não quer dizer que seja algo ruim. The Artist ensina que o tempo passa. Que alguns valores e maneiras de encantar perduram. Mas que “o novo sempre vem” e que é preciso estar preparado para ele. A alta tecnologia, que permite criar realidades antes impossíveis de serem plasmadas na telona, e a imersão do público nas histórias são avanços que vieram para ficar. Ainda assim, a essência do cinema continua irretocada, e The Artist evidencia as qualidades primárias da Sétima Arte. Eis um filme delicioso, cheio de referências e homenagens, envolvente e simples. Como os grandes filmes do passado, mas lançado em 2011/2012. Para os amantes do cinema que já se aventuraram a assistir aos clássicos, será um deleite. Para os demais, quem sabe um convite bacana para olhar para o passado e aprender um pouco com ele? Independente da ótica com que se olhe para The Artist, ele merece os elogios que tem recebido. Ele lembra bastante Singin’in the Rain, é verdade. Mas se mostra mais ousado que o clássico do cinema por mostrar como a resistência ao novo pode mudar e limitar a realidade. Inteligente.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: Difícil dizer, com certeza, o que será de The Artist no Oscar. Mas algo posso arriscar: este filme deve receber muitas indicações. Quantas delas ele ganhará? Isto sim, é um mistério. Vejo The Artist indicado como melhor filme, ator, roteiro original e trilha sonora. Com sorte, ele poderá ainda ser indicado nas categorias de melhor atriz, melhor direção de fotografia, melhor diretor, melhor figurino e melhor direção de arte.

Não assisti ainda aos outros concorrentes, principalmente a The Descendants, o outro grande vencedor do Globo de Ouro. Por isso, ainda fica difícil dizer se Clooney será o grande rei do próximo Oscar, levando os prêmios principais. O que eu já posso dizer é que se The Artist surpreender a todos e ganhar a maioria das estatuetas que disputar, não será nenhuma injustiça. O filme merece seus louros, e aplausos. Agora, o que falta é saber se Hollywood saberá ousar, mais uma vez, e render-se a um filme estrangeiro. Ou se continuará “bairrista”. Francamente, acho mais fácil ela seguir tradicional, apesar de todas as qualidades de The Artist.

ATUALIZAÇÃO (2/2): Bem, minha gente, agora já sabemos que The Artist foi indicado ao Oscar em 10 categorias. O segundo maior número de indicações do ano, apenas atrás das 11 chances de Hugo para sair vencedor da maior premiação do cinema de Hollywood no próximo dia 26.

Vale recaptular: The Artist foi indicado nas categorias de melhor filme, melhor diretor, melhor ator (Jean Dujardin), melhor atriz coadjuvante (Bérénice Bejo), melhor roteiro original, melhor edição, melhor direção de fotografia, melhor direção de arte, melhor figurino e melhor trilha sonora original.

De todas estas indicações, francamente, vejo que ele tem chances reais de ganhar nas categorias de melhor filme, melhor ator, melhor roteiro original, melhor diretor, melhor direção de arte, melhor trilha sonora e, quem sabe, melhor edição. Ainda que esteja fantástica, Bérénice Bejo tem um páreo duro para vencer: as intérpretes indicadas pelo filme The Help. Não seria injusto Bejo ganhar, mas acho difícil ela conseguir este feito. De qualquer forma, todo e qualquer prêmio que The Artist levar para casa será justo. E algum que ele perder, desde que não seja alguns dos principais, não será totalmente injusto também. Um exemplo: Dujardin merece ganhar como ator. Mas se Clooney levar a estatueta, não será nenhum crime. O galã de The Descendants está bem em seu filme.

Moneyball – O Homem que Mudou o Jogo

11 de janeiro de 2012 10 comentários

O cinema de Hollywood gosta de mostrar os bastidores de alguns dos esportes mais populares das terras do Tio Sam. E ele faz isso bem, geralmente. Mais uma vez, temos com Moneyball uma história que mostra os bastidores de um esporte. Desta vez, do beisebol. Mas eis que esta não é apenas uma história de superação – todos os filmes de esporte vão por esta onda, não é mesmo? -, envolvendo técnicos e jogadores. Moneyball trata sobre uma forma totalmente diferente de encarar a eficiência no esporte, de como é possível mudar a lógica estrutural de algo quando se aplicam conceitos de economia no meio. Surpreendente.

A HISTÓRIA: O filme começa com uma frase de Mickey Mantle: “É inacreditável o quanto você não sabe sobre o jogo que você esteve jogando durante toda a sua vida”. Em seguida, cenas de um rebatedor de beisebol concentradíssimo – e nervoso. As cenas são do dia 15 de outubro de 2001, em um jogo decisivo da Liga Americana de Beisebol. De um lado do campo, um orçamento de US$ 114,46 milhões, do famoso New York Yankees. E do outro, US$ 39,72 milhões do Oakland Athletics. Em um estádio vazio, Billy Beane (Brad Pitt) está sentado sozinho. Ele liga e desliga o rádio que transmite o jogo. O time que ele administra, o Oakland Athletics, perde a disputa. Mas ele será capaz, em um movimento arriscado, a entrar para a história com um grande feito e, de quebra, mudar a lógica do tradicional esporte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Moneyball): Infelizmente não é todo mundo que gosta de números. No Brasil e em tantos outros países, o que faz sucesso são as “ciências humanas”. Fundamentais, elas, aliás. Eu mesma busquei este caminho, e o admiro. Mas a cada dia eu acho a lógica da matemática e dos números fundamental. Para tudo. Moneyball mostra a importância desta lógica e de uma escola econômica para o esporte. Mas essa mesma lógica pode ser aplicada em várias outras partes. Com eficácia.

Antes que alguém entenda errado o que eu escrevi, esclareço: não acho que a vida inteira se explique com números. Mas há uma dinâmica e uma repetição cíclica de fatos, uma previsibilidade no desempenho humano – seja ele aplicado no que for – que fascina. E que pode nos ajudar a buscar mais eficiência evitando erros conhecidos. Ainda assim, é claro, existe também o imprevisível. Verdade. Mas ele é apenas o contraponto de toda a previsibilidade calculável. Moneyball trata disso. E de muito mais.

A história de Billy Beane e sua equipe mostra como é preciso ser firme quando se está nadando contra a corrente. Quando existe convicção no que se está fazendo e indícios fortes de que se está apostando na virada certa, na solução necessária, é preciso insistir. E quando quem deveria contribuir para a mudança não faz isso, há alternativas. Esse resumo parece ser aplicável em várias situações, certo? Pois acredito que seja exatamente este tipo de reflexão que torna Moneyball mais interessante do que uma leitura rasa de que este filme aborde apenas os bastidores do beisebol. Não, ele é mais que isso.

Depois de conhecer Peter Brand (Jonah Hill) em uma tentativa de negociação com o time de beisebol de Cleveland, Beane precisa do apoio do técnico Art Howe (Philip Seymour Hoffman) e dos jogadores do próprio time para que as teorias de Brand dêem certo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas Howe, resistente às mudanças, quer seguir com a lógica do beisebol de sempre. Ele não coloca os jogadores que Beane quer. Então o que ele poderia fazer? Pois ele adota medidas radicais, se livra dos jogadores problema e que faziam Howe bater o pé.

Mas por que não demitir, simplesmente, ao técnico? Isso é algo que o filme não explica. Pela história, ninguém diz que Howe seria insubstituível. Mas neste link da Wikipédia é possível perceber que ele era um dos bons técnicos do início dos anos 2000 – ainda assim, por não ser insubstituível, ele saiu da equipe Oakland Athletics em 2003. Em certo momento, Moneyball mostra um comentarista da TV dizendo que o mérito pelas então sete vitórias seguidas do time era de Howe – um erro comum, já que a maioria da imprensa enxerga mais o treinador do que a restante da equipe técnica como responsável por algum resultado. Mesmo assim, acho que o filme não aprofunda muito esta questão, o que torna ele menos interessante. Focado demais no personagem de Brad Pitt, claramente o “herói” da história, Moneyball perde a oportunidade de mostrar um pouco mais das intrigas e confabulações entre técnicos, jogadores, olheiros e demais personagens que fazem parte dos bastidores do esporte.

O filme também apresenta uma reflexão final previsível. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como outras produções, Moneyball defende a ideia de que o dinheiro não é o mais importante. Mesmo que a lógica de Brand seja convincente, de que não está errado aceitar uma proposta milionária quando existe mérito para isso, o protagonista decide ficar onde está. Para continuar próximo da filha Casey (Kerris Dorsey), ele decide recusar o convite para ser o gestor do Red Sox. E também porque ele acredita que um time “menor” pode, um dia, bater a um gigante do esporte. Idealista, pai carinhoso, mas também um sujeito frustrado que, um dia, acreditou no sonho de um futuro fantástico, como esportista, e que viu suas ilusões terminarem sem o êxito pretendido/prometido.

A fórmula adotada pelo diretor Bennett Miller para contar esta história não é inovadora. Outros filmes que recontam fatos históricos, inclusive envolvendo o esporte, já utilizaram a técnica de intercalar imagens de arquivo da TV com a refilmagem com licenças “poéticas” sobre o que aconteceu nos bastidores daquelas histórias. O interessante é que mesmo você já tendo visto isto antes, o roteiro de Steven Zaillian e Aaron Sorkin, que utilizou a história de Stan Chervin como base – e o trabalho dele teve como fonte de inspiração a obra “Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game” de Michael Lewis – consegue manter o interesse do espectador até o final.

Um pré-requisito para isso é a base de muitos e muitos filmes (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Moneyball): depois que o protagonista e seu fiel escudeiro amargaram várias derrotas, eles começam a ter êxito com a estratégia controversa que adotaram. Mas isso será suficiente para que eles obtenham a grande e esperada vitória final? Essa tradicional lógica de altos e baixos com a indefinição sobre o final sempre dá certo para prender o espectador. À parte disto, e é preciso dizer, o elenco está muito bem. Sem muitos exageros, ainda que o Brad Pitt escorregue um pouco no excesso de caras e bocas. Também achei que o filme poderia ter mostrado um pouco mais a história dos jogadores que ajudaram ele a mudar a história do beisebol – afinal, por mais que a maior parte do mérito fosse de Beane, aqueles jogadores colocados nas posições certas foram decisivos para que o time chegasse à marca histórica de 20 vitórias seguidas.

Fora esta falha “estrutural” e de profundidade, gostei muito da reflexão que o filme provoca no foco específico do esporte. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Fiquei pensando, o tempo todo, na aplicação dos conceitos de Bill James no futebol. Será que teríamos também a extinção da figura do olheiro? Seria possível medir o desempenho dos atletas ao ponto de selecioná-los por sua eficácia em determinados momentos e posições, e não pela super valorização criada pelo mercado? Como no beisebol mostrado em Moneyball, no futebol há muitos jogadores talentosos que ficam esquecidos ou relegados ao anonimato, enquanto poucos atletas bons de bola ganham salários astronômicos. Ver uma mudanças neste cenário e nesta lógica mudaria o esporte para sempre. Como ocorreu com o beisebol. Seria algo interessante de se ver.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Apesar dos “probleminhas” de roteiro comentados antes, é preciso admitir que Sorkin faz mais um belo trabalho com Moneyball, ao lado de Zaillian. O roteirista repete a dose de equilibrar a vida íntima do personagem principal com as “impressões” que o restante das pessoas tem dele, assim como a narrativa simples dos fatos adotada antes em The Social Network.

O diretor Bennett Miller acerta na interpretação do texto de Sorkin e Zaillian. Ele ressalta os trabalhos dos atores e também evidencia belos lances do beisebol, equilibrando imagens de arquivo do time retratado com a narrativa cinematográfica da produção. A edição é um elemento que merece destaque. Belo trabalho de Christopher Tellefsen.

Outros aspectos técnicos do filme seguem o padrão normal de qualidade de Hollywood – em outras palavras, são competentes, mas nada fora do padrão. Como exemplo, a direção de fotografia de Wally Pfister e a trilha sonora de Mychael Danna.

Falando em trilha sonora, claro que merece uma menção especial a interpretação fofíssima da simpática atriz Kerris Dorsey da música The Show, de Lenka. Para quem não conhece a versão original, neste link é possível assistir a artista se apresentando com ela.

Mesmo que o foco do filme seja o personagem de Brad Pitt e toda a história gire em torno dele, vale citar a importância de Jonah Hill para a produção. Ele é o contraponto do personagem principal, a parte “engraçada” e ao mesmo tempo gabaritada para sustentar os argumentos da teoria que estava sendo aplicada pela primeira vez no beisebol. Novamente os “opostos que se complementam” são plasmados pelos dois: de um lado, o esportista bonitão, do outro, o nerd gordo e de óculos que era deixado sempre em segundo plano. Mesmo que um leve vantagem aparente sobre o outro, existe uma admiração mútua entre os dois, e uma complementariedade interessante – o personagem de Pitt sabe negociar e impor-se, o de Hill dá um show nos cálculos e na dedicação para aplicar a teoria de Bill James no beisebol.

Além da dupla de atores principais, merece destaque a já citada simpática Kerris Dorsey. O geralmente ótimo Philip Seymour Hoffman desaparece no roteiro – ele acaba tendo um papel secundário e pouco expressivo. Além deles, vale citar os nomes de Robin Wright como Sharon, ex-mulher de Beane; Chris Pratt como Scott Hatteberg, um dos jogadores desacreditados que é resgatado por Beane – mas que aparece pouco, como Hoffman; Stephen Bishop como David Justice, outro jogador; Brent Jennings como o olheiro técnico auxiliar Ron Washington; Casey Bond como Chad Bradford; e Reed Thompson como o jovem Billy Beane.

Moneyball custou aproximadamente US$ 50 milhões. E arrecadou, nas bilheterias dos Estados Unidos, até o dia 1º de janeiro deste ano, pouco mais de US$ 75 milhões. Um resultado 50% superior ao do custo… está bem, mas longe de um arrasa-quarteirão.

O filme que tem Brad Pitt como estrela principal estreou no dia 9 de setembro do ano passado no Festival de Toronto. Depois, ele participou dos festivais de Tokyo e Turin. Até o momento, Moneyball ganhou sete prêmios e foi indicado a outros 20, incluindo quatro Globos de Ouro. Entre os que ganhou, destaque para os de melhor roteiro segundo as associações de críticos de cinema de Boston, Chicago, Nova York e Toronto. Brad Pitt também ganhou como melhor ator segundo as associações de críticos de Boston, Nova York e o Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

Moneyball foi rodado inteiramente na Califórnia e apenas uma pequena sequência em Boston, Massachusetts. Entre os locais escolhidos para as filmagens, o estádio do time de beisebol Oakland Athletics, Long Beach e Downtown, em Los Angeles.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para o filme. Uma boa nota, para a média do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos: dedicaram 202 críticas positivas e apenas 11 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 95% e uma nota média 8. Um sinal muito positivo para o filme – e que serve como termômetro sobre a moral alta da produção pela ótica dos críticos.

Para quem ficou interessado na teoria adotada pela equipe focada no filme, recomendo a leitura deste texto, em inglês, do The Sport Journal que trata do assunto. Também é interessante este artigo da Bloomberg Businessweek que comenta como Bill James encarou o filme que trata sobre a sua teoria.

CONCLUSÃO: Todos gostam de uma história edificante. Destas que mostram superação. Moneyball é uma destas histórias. Mas diferente de outras, ela não evidencia apenas a capacidade humana de passar pelos próprios limites e chegar à vitória apesar deles. Ela revela que, muitas vezes, a vitória pura e simples pouco importa. O bacana é encontrar uma solução criativa para um problema difícil de ser resolvido e, de quebra, inspirar outras pessoas a provocar mudança. Mais que uma história sobre um esporte, Moneyball é a narrativa sobre a aplicação de conceitos econômicos em um cenário que antes era visto como terreno de talento e improviso. Moneyball mostra como há lógica e que é possível prever resultados mesmo em cenários criativos. Bem dirigido e com um roteiro competente, mesclando cenas reais e a recriação de fatos com um elenco competente, é um filme envolvente. Vale o ingresso.

PALPITE PARA O OSCAR 2012: As indicações do Globo de Ouro sempre são um sinal importante para sabermos o que esperar do Oscar. Moneyball foi indicado em quatro categorias importantes desta “prévia” do Oscar: Melhor Filme – Drama, melhor roteiro, melhor ator (Brad Pitt) e melhor ator coadjuvante (Jonah Hill). Francamente, acho difícil ele ganhar em qualquer uma destas categorias porque ele tem concorrentes muito fortes para vencer. Talvez Brad Pitt teria mais chances, mas mesmo ele eu acho que não deve vencer.

O roteiro de Moneyball já ganhou quatro prêmios da crítica mas, ainda assim, vejo o caminho dele para a vitória no Globo de Ouro e no Oscar como algo muito complicado de se concretizar. Possivelmente Moneyball vai repetir três das quatro indicações que recebeu no Globo de Ouro também no Oscar. Acho que apenas o Jonah Hill poderá ficar de fora do Oscar. Pitt, o roteiro e o filme devem aparecer na premiação mais esperada do ano pela indústria de Hollywood. Mas acho que o filme ficará a ver navios. Não deve ganhar nenhuma estatueta. Talvez surpreenda em roteiro mas, francamente, acho difícil.

La Piel Que Habito – A Pele Que Habito

31 de dezembro de 2011 14 comentários

Pedro Almodóvar é um sujeito raro. Ele tem um gosto estético e apreço pelas estranhezas da alma humana diferenciados no cinema mundial. Quem mais, além dele, poderia fazer um filme como La Piel Que Habito? David Lynch, talvez. Mas certamente Lynch faria isso com menos dramaticidade, cores, lógica histérica e sóbria, dependendo do momento, como Almodóvar. O diretor espanhol sabe como fascinar, provocar risos, tesão e chocar como poucos. Mais uma vez, ele faz tudo isso. Ainda que com menos maestria que em produções anteriores. Ou, talvez, um pouco menos de classe.

A HISTÓRIA: Toledo, 2012. Na propriedade El Cigarral, uma mulher faz exercícios. Depois ela medita, enquanto lhe preparam um café da manhã com um remédio dissolvido no suco de laranja. Com um livro de Louise Bourgeois ao lado, ela corta um pedaço de tecido fino com uma lixa de unha para moldar mais um personagem. Marilia (Marisa Paredes), empregada da casa, envia por um elevador interno o café da manhã de Vera (Elena Anaya). Depois de fazer um pedido e tê-lo recusado, Vera escolhe um vestido, o coloca e corta um pedaço do pano. Corta. Ouvimos, em um auditório, o médico Robert Ledgard (Antonio Banderas) fala sobre a importância da reconstrução estética para a recuperação de sobreviventes de queimaduras. Logo mais, vamos descobrir o que une Vera e Ledgard.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir comenta trechos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a La Piel Que Habito): O apuro estético e a força da trilha sonora de La Piel Que Habito foram os dois elementos que me chamaram a atenção no filme, logo no início. E eles seguiram se destacando até o final. Almodóvar tem um gosto plástico e estético fundamental. Ele avançou nesta qualidade com o tempo e, mesmo que a história deste novo filme relembre produções mais antigas, este apuro estético revela a evolução do diretor. Relembra sua fase mais atual. E a trilha sonora…

Logo no início, fiquei imaginando o filme sem a música que o cadencia. Ele perderia, sem dúvida, muito de sua graça. O que só comprova que La Piel Que Habito é uma produção dramática, que exige uma trilha sonora potente para intensificar as “emoções” exploradas pelas linhas do roteiro. De fato, o ótimo e experiente Alberto Iglesias faz neste filme mais um grande trabalho. A trilha é tão protagonista desta produção quanto Antonio Banderas e Elena Anaya.

Além da música e do critério estético apurado de Almodóvar, La Piel Que Habito se destaca por retomar um tom dramático exarcebado do diretor. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que ele nunca tenha deixado de ser “visceral”, em seus últimos filmes a violência ligada ao sexo perdeu força. Os gostos mais duvidosos e as taras mais estranhas perderam força em outras produções – algo que era mais comum no início da carreira de Almodóvar. Mas aqui, elas voltam a mexer com a libido e a imaginação do espectador.

Sem medo de errar, o diretor e roteirista investe em uma história densa, que trata de loucura, paixão, desejos reprimidos, busca da perfeição e de vingança e, claro, desejo de fugir. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Elementos que Almodóvar conhece bem, por eles estarem tão entranhados na cultura espanhola. Não deixa de ser especialmente significativo este filme desenrolar-se em Toledo, uma cidade pequena, muito turística, tradicional e que é “vendida” como local do encontro de três culturas: a cristã, a judia e a islâmica.

Interessante que, desde o princípio, La Piel Que Habito deixa claro que Vera era uma prisioneira. Sabemos disso, mas não entendemos bem o porquê daquela prisão, no início. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A semelhança dela com Gal, a mulher morta de Robert, abre uma série de conjecturas. Por exemplo: seria possível ele ter feito um clone da mulher? Mas aí a questão da idade não bateria – ele teria que estar muito mais velho. Por isso mesmo, quando descobrimos o que realmente aconteceu, a surpresa não é completa. O que surpreende, claro, é a narrativa das mudanças pelas quais passa Vicente (o ótimo Jan Cornet) feita com esmero e requintes de sadismo por Almodóvar.

Este desejo de mostrar o absurdo em detalhes, quase com uma lupa, é o que faz Almodóvar sem quem é. E que torna La Piel Que Habito um retorno curioso para o lado mais sádico do diretor. Há humor e absurdo na história, claro, como é típico de Almodóvar. Mas o dramalhão está ali, assim como o esforço do diretor em mostrar que muitos dos problemas psicológicos e ações desmedidas/violentas tem origem em desejos sexuais mal administrados.

A respeito dos protagonistas, algo me chamou a atenção: o quanto eles estão presos a desejos opostos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Desde o princípio, Vicente/Vera alimenta um desejo angustiante de fuga. Ele quer sair de Toledo, daquela forma de vida provinciana. Mas apegado à mãe (Susi Sánchez), ele adia a saída do “pueblo”. Depois, quando acontece o que acontece e ele passa a ser prisioneiro, ele segue querendo fugir. Mesmo quando parece que não, que ele está conformado. É apenas a forma dissimulada que ele adota para sobreviver.

(SPOILER). Por outro lado, Robert está apegado àquela “finca”, à sua propriedade e sentimentos. Mesmo quando o amor que ele sente é por pessoas que já morreram e por realidades que não podem mais ser resgatadas. Ele é a permanência, o tradicional, o sujeito que aparenta uma coisa para a sociedade mas que, em casa, revela-se algo totalmente diferente – e repugnante, detestável. Vicente é o rebelde, aquele que toma drogas para aguentar uma realidade que não suporta. Ele é o novo que não consegue lidar com o antigo e com as aparências enganosas.

Não acho que foi um acaso a escolha do título deste filme ou mesmo do que este nome significa dentro da trama. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, todo aquele cuidado de Robert com a pele de Vera simboliza o seu apreço pelas aparências. Mas a pele e, consequentemente, estas aparências não resistem muito tempo. Não resistem ao desejo da mudança de Vera/Vicente. Roupas, tecidos, peles se rasgam e se cortam facilmente. Robert, que simboliza a sociedade tradicional espanhola – e de vários outros países – pode até costurar, remendar, consertar. Alterar as aparências para atingir determinados padrões de beleza. Mas o que Almodóvar parece nos dizer, implícita ou explicitadamente, é que este jogo de aparências terá fim. Uma hora ou outra, e talvez de maneira trágica. Porque, afinal de contas, “o novo sempre vem”. E ele, normalmente, quebra os padrões até então vigentes. Rasga peles. Algumas vezes sem remendos.

Esta, para mim, é a leitura principal de La Piel Que Habito. É a mensagem de fundo de um filme que pode ser visto apenas como uma sequência de bizarrices. Ok, essa compreensão também não estaria equivocada. Mas como qualquer outro filme de Almodóvar, o diretor quer dizer mais do que o óbvio. Pelo que eu comentei antes, achei o filme interessante. Os atores, mais uma vez, são um ítem a parte. Muito bem escolhidos pelo diretor, eles dão um show. Convencem. Emocionam. Conduzem os espectadores pela mão.

Antonio Banderas, que há tempos não me convencia como ator, está bem. Para a minha surpresa, devo admitir. Ele não está exagerado – em um papel onde não seria difícil um ator se perder. Está sóbrio, preciso, charmoso e viril, como o personagem exige. Elena Anaya também está perfeita, mostrando fragilidade nos gestos e firmeza no olhar que definem a personagem. Marisa Paredes… bem, ela está engraçada como sempre. Uma veterana que merece respeito. Mas quem rouba a cena, para mim, foi o ator Jan Cornet. Fantástico. Ele vai ganhando pontos conforme a história vai ficando mais densa. Mas toda a sua interpretação é bem cadenciada, equilibrada para cada momento.

Até aqui, só falei dos acertos de La Piel Que Habito. Mas o filme tem algumas falhas também, a meu ver. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, e acho que só nós, brasileiros, vamos entender esta crítica com a devida prudência, achei muito “fake” a forma com que o diretor, que conhece bem o Brasil, simplificou a história de Zeca (Roberto Álamo). Meio boba a mistura do português com o espanhol – ok, muitos brasileiros que moram na Espanha falam o “portunhol”, mas não vi muito sentido em introduzir isso na história. Também bastante óbvia a ideia de “meu filho não foi criado por mim, e sim em uma favela, virando ‘aviãozinho’ logo cedo” para justificar o desvio de Zeca. A velha e batida história de que qualquer criança que cresce na favela está fadada a ser bandido. Achei bobo, simplista. Dispensável.

Além deste ponto e, francamente, o que mais me incomodou, foi o final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ok, sabemos que Almodóvar é dramático. Quem conhece um pouco mais de perto a cultura espanhola, sabe que eles gostam de um drama. Mas aquele “tiroteio” realmente era a forma mais interessante de terminar a história? Para o meu gosto, pareceu demais com o final de qualquer novela. Muito previsível e simplista… até parecia que o diretor estava com pressa de terminar o trabalho. Almodóvar me deu a impressão, com este final, que ele achou muito mais interessante contar a história do que terminá-la. Além disso, há a cena do vestido… eu acho que foi uma forma bacana de terminar o filme. Afinal, como o personagem convenceria quem ele queria com a sua história? Elementos simbólicos sempre ajudam neste sentido. Mas não deixei de me perguntar, mesmo assim, da onde ele tirou aquele vestido? A peça estaria na casa da mãe dele e ele passou lá antes de ir para a loja, já vestido? Certo, nem todo filme precisa ser lógico e convencer em todos os seus pontos. Ainda assim, estas sequências finais me incomodaram e tiraram parte do êxito do filme.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Acho que é hora de fazer uma confissão, por aqui. Afinal, eis o último dia de 2011. E eis que publico mais um texto atrasado. E a minha confissão para vocês, queridos leitores deste blog, é que eu também sou um pouco rara. Não com o talento do Almodóvar para rareza – e outras coisitas más – mas sou meio estranha para outras coisas. Como na decisão sobre o filme seguinte que eu vou assistir.

La Piel Que Habito estava na minha lista de filmes a serem assistidos há vários e vários meses. Claro, o novo filme do Almodóvar, só poderia fazer parte da minha lista. Mas daí ele foi lançado, chegou aos cinemas brasileiros, e eu não consegui assistí-lo naquele momento. Daí eu pensei: “Ah, agora passou do tempo”. Porque eu sou estranha assim… por mais que eu goste de um diretor ou por mais que eu queira ver a um determinado filme, se eu acho que passou do tempo de assistí-lo, eu deixo pra lá. E vou assistir a outra produção qualquer que está na minha lista.

Só voltei atrás e assisti a La Piel Que Habito no início desta semana porque eu vi que ele está concorrendo ao próximo Globo de Ouro. Daí eu pensei: “Taí a minha desculpa para ressuscitá-lo”. E eis que ele acabou sendo o último filme que eu assisti em 2011. Queria ver outro filme, esta semana, mas não deu tempo. Gostei que, no fim das contas, mesmo que meio que por acidente, acabou sendo este o último a aparecer por aqui em 2011. Faz sentido. Quem sabe esta não é uma homenagem indireta à Espanha, país que eu adoro e que voltei a visitar este ano? Pois…

Até o momento La Piel Que Habito não obteve êxito nos cinemas. Há estimativas de que o filme tenha custado cerca de US$ 13 milhões. Nos Estados Unidos, até o dia  18 de dezembro, ele tinha arrecadado pouco mais de US$ 2,94 milhões. E olha que Almodóvar é bem conhecido e respeitado na terra do Tio Sam. Na Espanha, o filme chegou perto de conseguir uma bilheteria de US$ 5,8 milhões. No fim das contas, juntando todo o resultado nos cinemas, talvez o filme se pague. Mas não conseguirá quase lucro algum. Algo ruim, claro. Mas nada que impedirá o diretor a seguir trabalhando.

Esta produção estreou no Festival de Cannes, em maio de 2011. Depois, ele participou de outros 12 festivais e duas semanas de cinema. Entre os festivais, esteve no Karlovy Vary, no de Toronto, no do Rio de Janeiro e em Estocolmo. Mesmo com esta trajetória, ele não saiu vencedor em nenhum evento no qual participou.

O único prêmio recebido por La Piel Que Habito, até o momento, foi o de melhor filme em língua estrangeira entregue pela Associação de Críticos de Cinema de Washington DC. Além deste, ele foi indicado a outros sete prêmios.

Francamente, não acho que este novo trabalho de Almodóvar vai ganhar o próximo Globo de Ouro. Não porque o diretor não mereça. Não porque o filme seja ruim. Mas eu acho que há concorrentes mais fortes. Não assisti a nenhum dos outros quatro indicados, mas acho que seria mais fácil a crítica premiar o iraniano Jodaeiye Nader az Simin (que tem a nota 8,6 no IMDb) ou o belga Le Gamin Au Vélo (com nota 7,6) do que este La Piel Que Habito. Se fosse outro filme do Almodóvar, acho que ele até poderia ganhar. Mas este novo é muito “underground” para levar um prêmio comercial como o Globo de Ouro. Sempre posso errar, claro, mas esta é a minha aposta.

Para quem ficou curioso de saber onde o filme foi rodado, além de Toledo, que aparece identificada no início da história, La Piel Que Habito tem cenas rodadas em Pontevedra, na Galícia; em Puente Ulla e Santiago de Compostela, em La Coruña; e em Madrid.

Todos os atores que aparecem no elenco deste filme fazem um belo trabalho. Mesmo o personagem tosco do Zeca é bem interpretado por Roberto Álamo. Sempre é um prazer assistir a Marisa Paredes. E foi surpreendente ver Banderas bem, assim como o trabalho competente de Elena Anaya. Volto a comentar que achei o grande destaque do filme o ator Jan Cornet. E faltou citar, antes, o bom trabalho de Blanca Suárez como Norma (ou Norminha), filha de Robert Ledgard;  Bárbara Lennie como Cristina, em uma ponta que se destaca na produção; o conhecido ator (pelo menos na Espanha) Eduard Fernández como Fulgencio, amigo do protagonista e que ajuda ele a manter uma clínica ilegal; e de Fernando Cayo em uma ponta como médico.

Como acabou sendo costume na segunda parte da filmografia de Almodóvar, aqui, outra vez, ele dedica momentos relevantes da história para a interpretação de algumas músicas. A artista da vez, na ótica do diretor, é Buika, uma cantora de 39 anos nascida na cidade de Palma, nas Ilhas Baleares. No filme, são interpretadas duas canções dela: El Último Trago e Pelo Amor.

A trilha sonora é fundamental para este filme dar certo. Mas além dela, outros aspectos técnicos merecem ser destacados. O diretor de fotografia José Luis Alcaine faz um belo trabalho, assim como José Salcedo na edição, Antxón Gómez no design de produção e Carlos Bodelón na direção de arte. O figurino, assim como a trilha e a fotografia, também ganha relevância especial. Um bom trabalho de Paco Delgado.

Os usuários do site IMDb deram uma boa nota para La Piel Que Habito: 7,7. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes quase acompanharam esta nota. Eles publicaram 112 textos positivos e 30 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 79% (e uma nota média de 7,3). Especialmente a nota me chamou a atenção, já que os críticos do Rotten Tomatoes geralmente são bem exigentes.

Lembrei de outro detalhe do filme que talvez incomode a algumas pessoas mais detalhistas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Alguns de vocês podem pensar, como eu: “Ok, até posso engolir que Vera foi totalmente ‘moldada’ ao gosto de Robert, cortando aqui, emendando ali, enchendo com silicone acolá. Mas como diabos ela foi ter aquela voz, tão diferente?”. Pois então, eis algo muito mais difícil de mudar. Não apenas as mãos e pés são complicadas de serem alteradas. Assim como a estrutura física – um ser mais alto que outro. Mas principalmente, e eis o ponto, a questão da voz. Só que no início do filme vemos Marilia colocando um remédio na bebida de Vera. Poderia ser um tipo de hormônio – ainda que eu ache que deveria ser tranquilizante. E até o “ópio” poderia ser outra substância. Ou enfim, Vera poderia ser tratada com hormônios em outro momento, o que “afinaria” a voz. E no fim, é preciso “tapar um olho” para embarcar na história, não é mesmo? :)

Ah sim, e antes que eu me esqueça, La Piel Que Habito não foi o indicado da Espanha para o próximo Oscar. Sendo assim, ele concorreria na premiação apenas em alguma categoria principal – melhor filme, diretor, atores ou roteiro. Acho difícil.

Não comentei antes, mas La Piel Que Habito foi escrito por Pedro Almodóvar com a colaboração de Agustín Almodóvar, seu irmão. Os dois se basearam no livro Tarantula, de Thierry Jonquet.

CONCLUSÃO: Este não é o melhor filme de Almodóvar. Mas com esta produção ele retoma uma fase de estranheza deixada para trás há bastante tempo. Almodóvar dá um tempo na profundidade dramática plasmada em suas últimas produções para contar uma história que flerta entre o terror psicológico, o terror ligeiro e o drama. Claro que há loucura e sexo no meio da história. Dois dos temas de fundo preferidos do diretor. E ainda que ele não emocione, como em outras ocasiões, ele provoca outros sentimentos. E se o cinema existe para isso, para provocar, Almodóvar segue em forma. Há momentos em que a história flerta perigosamente com o mau gosto, com o tosco, mas o diretor acerta o momento exato que faz ele desviar-se do abismo. Como eu disse antes, não é o seu melhor filme. Mas La Piel Que Habito mostra um frescor importante do diretor. Quem sabe o próximo não vem ainda melhor calibrado?

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