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	<title>Crítica (non)sense da 7Arte</title>
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	<description>Blog com críticas de cinema; Blog with coments about cine; Blog con críticas de películas</description>
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		<title>The Descendants &#8211; Os Descendentes</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Jan 2012 02:04:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandra</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://moviesense.files.wordpress.com/2012/01/thedescendants1.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3836" title="thedescendants1" src="http://moviesense.files.wordpress.com/2012/01/thedescendants1.jpg?w=650&#038;h=962" alt="" width="650" height="962" /></a></p>
<p>Você leva a vida com muita lógica e ordenada, até que ela, a vida, te dá uma rasteira. E, normalmente quando isso acontece, a rasteira não é individual, mas plural. <a href="http://www.foxsearchlight.com/thedescendants/">The Descendants</a> fala de uma rasteira destas da vida, que mexe com estruturas, convicções e que, no final, deixa tudo diferente. É um filme que começa de forma excepcional, com umas linhas de roteiro que te impulsionam a ir atrás do nome de quem as escreveu depois. Só que lá pelas tantas, depois da metade do filme, você descobre que aquele começo vai perdendo o fôlego. Nada trágico. Apenas um elemento a mais para o grupo de &#8220;essas coisas acontecem&#8221;.</p>
<p><strong>A HISTÓRIA:</strong> Uma linda mulher aparece sorrindo, em êxtase fazendo esqui aquático e com um dia azul estonteante como cenário de fundo. Elizabeth King (<a href="http://www.imdb.com/name/nm2060047/">Patricia Hastie</a>) estava feliz, pouco antes de sofrer um acidente trágico. O último sentimento vivido por ela não seria o mesmo compartilhado pelo marido, Matt (<a href="http://www.imdb.com/name/nm0000123/">George Clooney</a>), pelas filhas Alexandra (<a href="http://www.imdb.com/name/nm0940362/">Shailene Woodley</a>) e Scottie (<a href="http://www.imdb.com/name/nm3837786/">Amara Miller</a>) a partir daquela cena. Matt explica o que está acontecendo ao ironizar como seus amigos do &#8220;continente&#8221; pensam que ele vive no paraíso apenas por residir no Hawaii. Após confidenciar de que ele não subiu em uma prancha de surfe nos últimos 15 anos, ele revela que passou os últimos 23 dias em um &#8220;paraíso&#8221; de intravenosas, sacos de urina e tubos no hospital. Olhando para Elizabeth, prostrada na cama, ele só pede que ela melhore, para que ele tenha uma chance de ser um bom marido e um bom pai. Mas Matt, junto com as filhas, terá que lidar com essa e outras situações além do que eles poderiam imaginar.</p>
<p><strong>VOLTANDO À CRÍTICA</strong> (SPOILER &#8211; aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Descendants): Eu dei muitas risadas com as primeiras linhas do roteiro que o diretor <a href="http://www.imdb.com/name/nm0668247/">Alexander Payne</a> escreveu ao lado de <a href="http://www.imdb.com/name/nm0269542/">Nat Faxon</a> e <a href="http://www.imdb.com/name/nm0711110/">Jim Rash</a>. Especialmente porque entendo bem essa aura ilusória que circunda as pessoas que moram em &#8220;paraísos&#8221;, segundo a opinião de muita gente. Hoje, vivo em Florianópolis, uma das cidades mais badaladas do país a cada novo Verão. Antes de vir para cá, morei em Madrid. Tanto em uma cidade como em outra, os que não moravam ali, sempre acharam que eu tinha muita &#8220;sorte&#8221; por morar nestes paraísos.</p>
<p>A grande questão, e The Descendants começa muito bem ao ironizar isto, é que paraísos não existem. Como bem escreveram os roteiristas, não importa a cidade &#8220;maravilhosa&#8221; em que você more, ou quanto ela é cobiçada por quem não reside ali: dores, problemas, doenças e tragédias acontecem nestes locais também. E o protagonista desta história vive, no tão comentado &#8220;paraíso&#8221; do Hawaii, um verdadeiro inferno. Melhor dizendo, um momento de ruptura importante em sua vida.</p>
<p>Achei especialmente interessante a quebra inicial do filme. Vemos Elizabeth em um momento de êxtase, de felicidade extrema. Mas aquilo terminaria em seguida. Interessante que a cena do choque, do acidente, não é mostrada. E nem precisa. É a típica imagem que sobra. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Porque é muito mais interessante mostrar como um grande momento de alegria pode ser, de uma hora para a outra, substituído por nada. Aquele momento de aventura, de alegria, pode ser o último de uma vida. Em seguida, essa ideia de &#8220;viva a vida intensamente&#8221; e &#8220;faça as coisas para não se arrepender depois&#8221; é reforçada pela confissão do protagonista de que ele espera a esposa acordar do coma para recuperar o &#8220;tempo perdido&#8221;. Com ela e com o restante da família.</p>
<p>O problema é que as coisas não funcionam assim. Não decidimos que rumo a vida vai assumir. Há decisões, claro, que estão nas nossas mãos. Mas tantas outras independem da gente&#8230; gosto sempre de pensar naquela imagem de uma pessoa com braços estendidos. A capacidade dela de decisão e &#8220;domínio&#8221; termina nas pontas de seus dedos. A partir dali, ela não tem controle. O protagonista descobre isso, com bastante idade, tendo duas filhas para criar. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Não importa a reza ou a ideia de &#8220;injustiça&#8221; sobre uma morte tão prematura. A vida acontece independente deste parâmetros.</p>
<p>Estas são algumas das primeiras lições de The Descendants. Que trata, obviamente, sobre a dura tarefa de lidar com o imprevisível &#8211; especialmente quando ele é trágico. (SPOILER &#8211; não leia&#8230; bem, você já sabe). E de lidar com a perda definitiva, que é sempre triste, trágica, mas que precede o momento decisivo de seguir em frente. Outros filmes já trataram sobre isto. E alguns, quem sabe, de forma até mais competente. Cito apenas alguns dos quais eu me lembro, e que estão comentados aqui no blog: temos a &#8220;loucuragem&#8221; alternativa de Hesher, a poesia magistral de Kirschblüten Hanami e, mais para os padrões de Hollywood, Grace is Gone, Things We Lost in the Fire, entre outros. Lembro também de In the Bedroom, filme que eu assisti antes de começar este blog e que trata um pouco sobre isso de como a vida continua seguindo o seu rumo &#8220;normal&#8221; mesmo quando algo trágico aconteceu e o seu próprio mundo nunca mais será o mesmo.</p>
<p>Mas, claro, The Descendents não trata apenas disto. Como o título mesmo sugere, a essência do filme dirigido por Alexander Payne está nas lições que ousamos deixar para os nossos descendentes. Que herança você quer deixar? Vivendo um momento extremamente difícil, parece ser esta a pergunta que está na cabeça do protagonista o tempo inteiro. (SPOILER &#8211; não leia se você ainda não assistiu a este filme). Tão duro quanto perder a mulher da vida dele, com quem ele gostaria de ter uma segunda chance, é saber que ela estava fazendo outros planos enquanto ele tocava a vida normalmente. Descobrir a traição dela, e de que muito do que ele entendia da própria vida não era válido, é algo com que ele tem que lidar enquanto administra a notícia de que Elizabeth não vai se recuperar e, de quebra, decidir o futuro da própria família e da região. Decisão essa que passa pela venda de um terreno irretocado e que mexe com a herança de seus antepassados.</p>
<p>A ideia de herança perpassa toda a história, aliás. Seja pela decisão do terreno, que resgata fotos e memórias antigas, origens étnicas mescladas, seja pelas lições que o protagonista vai dando para as suas filhas, mesmo sem saber exatamente o que ele mesmo está fazendo. Engraçada a forma com que o &#8220;pai substituto&#8221;, o segundo na relação com as filhas, lida com problemas comuns do cotidiano. Com a birra da filha mais jovem, Scottie, e com a rebeldia da mais velha, Alexandra. Se bem que a resistência da garota dura pouco. O que é surpreendente e que torna a história interessante. Afinal, Matt descobre na filha, de quem sabia pouco, uma parceira fundamental para lidar com os próprios problemas. E esta é a relação que faz tudo valer a pena.</p>
<p>Há um momento no hospital que pode render alguma &#8220;polêmica&#8221;. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Na primeira visita à mulher em coma, depois de descobrir que ela lhe estava traindo, Matt tem um acesso de fúria. Mas em seguida, quando Alexandra desabafa e também tem um chilique, ele tira Scottie de perto e repreende a filha mais velha. Para alguns, ele foi hipócrita, talvez incongruente. Eu já vejo aquele trecho como muito honesto. Os pais erram tanto ou mais que os filhos, muitas vezes. Mas eles devem sempre tentar ensinar bons princípios para os descendentes, mesmo quando eles mesmos pecam nestes ideais. Para os filhos é difícil entender isso e, alguns, acredito, nunca serão capazes de entender que existe uma diferença entre responsabilidade em dar o exemplo e ensinar e a própria capacidade humana de acertar. É preciso ter compreensão, aprender a perdoar. E saber que os pais eternamente terão o papel de nos ensinar o melhor, mesmo quando para eles o caminho do bem seja complicado de ser seguido.</p>
<p>Eis um ensinamento importante de The Descendants. E ele não está tão evidente, quanto outros, que acabam ficando atér forçados. (SPOILER &#8211; não leia&#8230; bem, você já sabe). Me irritou, por exemplo, a forçada de barra na decisão sobre a venda do terreno. Claro que algumas vezes o discurso público apenas esconde as verdadeiras razões, escondidas no íntimo. Teria me convencido muito mais ele não vender o terreno para a primeira opção, pelos motivos explicados pelo filme. Mas ao invés de fazer um discurso sobre preservação ambiental, que contradizia toda a convicção que ele tinha até o acidente de Elizabeth, faria mais sentido ele ter escolhido a segunda opção para a venda. Só aquela visita dele ao terreno com as filhas não foi suficiente para uma &#8220;tomada de consciência&#8221;. Achei forçado. Assim como achei forçada a visita final no hospital e a reação do protagonista. Exemplos de como o roteiro, que começou tão bem, deu aquela desafinada da metade para o final.</p>
<p>As reflexões mais interessantes do filme são as menos evidentes. Além daquela citada anteriormente, do discurso do pai ir além da capacidade dele mesmo atuar com aquela perfeição ensinada, vi outra envolvendo os personagens de Sid (o divertido Nick Krause) e Scott Thorson (o veterano Robert Forster), pai de Elizabeth e sogro do protagonista. (SPOILER &#8211; não leia&#8230; bem, você já sabe). No início, Sid parece um garoto muito, mas muito sem noção. Sei que hoje é considerado politicamente incorreto, mas eu também fiquei me perguntando se ele não tinha algum retardo mental. Depois, o filme inteiro mostra a dureza de Scott, e o quanto ele, por amar tanto a filha, poderia ser injusto com o genro e o restante da família. E ainda assim, o que The Descendants nos motra, e de forma muito natural, sem discursos, é que tanto Sid quanto Scott tinham suas próprias dores, histórias, boas lembranças e ensinamentos a repassar. Todos tem isso tudo. Mesmo que algumas vezes a gente tente simplificar com enquadramentos e classificações injustas, com rótulos ligeiros.</p>
<p>Sem dúvida, The Descendants tem boas intenções. E, inclusive, alguns ensinamentos interessantes. Pena que, como tantas vezes que alguém tenta nos ensinar algo, parte do discurso se perca no caminho. A obsessão do personagem por fazer o certo, mesmo quando isso signifique ter um gosto estranho por se aproximar do inimigo, parece um bocado fora de propósito. Um tanto irônico, tratando-se de alguém que tenta ordenar a vida e dar bons exemplos para as filhas &#8211; porque, no fim das contas, por trás daquela &#8220;boa intenção&#8221; de fazer o que &#8220;Elizabeth gostaria&#8221;, ele estava mesmo é perseguindo o próprio desejo de entender o que aconteceu, de preencher lacunas e satisfazer o próprio ego. Mas eis que aqui pode estar o melhor ensinamento para os nossos descendentes: a gente acerta mesmo errando. E as gerações futuras, normalmente, são a nossa chance de redenção. Evolução, talvez. Assim esperamos.</p>
<p><strong>NOTA:</strong> 9,3.</p>
<p><strong>OBS DE PÉ DE PÁGINA:</strong> O roteiro de The Descendants é uma adaptação do seu trio de roteiristas da obra de Kaui Hart Hemmings. O livro homônimo foi lançado neste início de ano pela editora Alfaguara. De acordo com <a href="http://www.objetiva.com.br/livro_ficha.php?id=1070">esta sinopse</a>, The Descendants é a obra de estreia da americana, que foi bastante elogiada pela crítica. O livro, de ficção, tem 304 páginas e aproveitou o galã George Clooney para estampar a capa da versão brasileira.</p>
<p>George Clooney, me desculpem os sensíveis, está especialmente belo neste filme. As paisagens ajudam, é verdade, como pano de fundo &#8211; especialmente nas sequências em que ele está na praia. Mas em vários momentos é possível ver o ator em sua melhor fase &#8211; não apenas de beleza, mas de segurança como ator. Ainda que ele esteja ótimo no filme, não vi muita inovação em seu trabalho em The Descendants. Neste personagem foi possível encontrar outros papéis vividos pelo ator. Não foi um trabalho único, para resumir. Mas ele está muito bem.</p>
<p>Por outro lado, quem rouba a cena é a jovem Shailene Woodley. Ela faz um papel difícil, de uma adolescente inconstante e, ao mesmo tempo, muito segura de si. Em parceria com Clooney e Krause, ela alça voo. Se destaca. Desde o primeiro minuto que aparece em cena e até o final, com destaque para as principais revelações do filme &#8211; na piscina e na sala da família -, Woodley segura a onda e mostra que tem muito para mostrar ainda como atriz. Uma bela surpresa. E merecidíssima a indicação da moça no Globo de Ouro e no Oscar.</p>
<p>Todos os atores coadjuvantes fazem um bom papel. Além dos atores já citados, merece uma menção especial ainda Beau Bridges como o primo Hugh, uma das vozes fortes da família King; Matthew Lillard como Brian Speer, em quase uma ponta no filme; e Judy Greer como a mulher dele, Julie.</p>
<p>Da parte técnica do filme, vale citar a trilha sonora bacaninha e cheia de referências &#8220;locais havaianas&#8221; de Richard Ford, com o apoio de Eugene Kulikov e Dondi Bastone; a edição competente e calibrada de Kevin Tent; e a direção de fotografia que se beneficiou muito da paisagem de Phedon Papamichael.</p>
<p>Desde a estreia de The Descendants nos Estados Unidos no dia 20 de novembro e até o último dia 15, o filme já havia arrecadado R$ 47,9 milhões nas bilheterias estadunidenses. Nada mal, mas também nada excepcional. O filme está longe de ser um arrasa-quarteirão &#8211; e, pelo perfil dele, nem imagino ele ampliando muito mais o limite atual.</p>
<p>The Descendants estreou no dia 2 de setembro em um festival não muito badalado dos Estados Unidos, o Telluride, promovido no estado do Colorado. Depois, o filme passou por outros sete festivais, incluindo os de Toronto, Nova York, Turin e Dubai.</p>
<p>Até o momento, The Descendants ganhou 34 prêmios, incluindo os Globos de Ouro de Melhor Filme &#8211; Drama e Melhor Ator &#8211; Drama para George Clooney. Entre as vitórias que o filme conquistou, destaque também para os prêmios de melhor ator, melhor roteiro adaptado, melhor atriz coadjuvante para Shailene Woodley e o de Top Films no National Board of Review; e os de melhor filme e melhor roteiro adaptado no Satellite Awards. No Oscar, que comentarei melhor logo abaixo, ele foi indicado em cinco categorias.</p>
<p>Os usuários do site <a href="http://www.imdb.com/">IMDb</a> deram a nota 7,9 para The Descendants. Não está mal, mas ficou abaixo da avaliação para o forte concorrente The Artist. Os críticos que tem os seus textos linkados no <a href="http://www.rottentomatoes.com/">Rotten Tomatoes</a>, por sua vez, dedicaram 169 críticas positivas e 21 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 8,2. Também abaixo da avaliação para The Artist.</p>
<p>Ah, e se você ainda não assistiu ao filme, uma dica valiosa: tente não ler muita coisa sobre ele e, muito menos, assistir ao trailer. Leituras e o vídeo de apresentação do filme vão estragar algumas das surpresas e reviravoltas principais da produção.</p>
<p><strong>CONCLUSÃO:</strong> Como eu disse lá no início, The Descendants começa inspirado. Com um texto de tirar o chapéu. E ainda que ele caminhe bem, embalado, até pouco mais de metade da história, os últimos 40 minutos da produção perdem o pique. O roteirista parece ter perdido a capacidade de surpreender e de sintetizar grandes desafios. Acaba escolhendo uma trilha mais fácil, um tanto difícil de acreditar, mas que parece ter sido pensada para cair no gosto do público que gosta de respostas deste tipo. Uma pena que um filme que tenha começado tão bem, perca o vigor por tanto tempo. Ainda assim, eis uma bela história sobre como lidar com as surpresas da vida. De como valorizar a família, repensar os próprios atos e saber perdoar. Das grandes lições da história, talvez a mais valiosa é de que todas as pessoas, por mais idiotas, &#8220;chatas&#8221; ou brutas que elas pareçam, tem a suas próprias histórias, dores e alegrias para lidar. Um filme que trata de parte do caráter humano, com belas atuações de George Clooney e de Shailene Woodley. Bacana, mas não é o melhor filme do ano ou mesmo na disputa para o Oscar.</p>
<p><strong>PALPITE PARA O OSCAR 2012:</strong> A força e o carisma de George Clooney em Hollywood garantiram cinco indicações para The Descendants no maior prêmio da indústria do cinema dos Estados Unidos. Não foi injusto. Eis um bom filme. Que tem vários méritos, citados anteriormente. Mas que não é o melhor filme do ano. Pelo menos não é tão inovador e surpreendente quanto os outros dois que eu assisti e que estão na disputa: The Artist e Moneyball.</p>
<p>Até o filme com Brad Pitt, que eu comentei por aqui antes e que eu achei bacana, mas não excepcional, me pareceu, no cômputo geral, mais criativo que The Descendants. Digo isso porque há tantos outros filmes que tratam sobre perdas tão bem ou até melhor que esta produção estrelada por George Clooney, como eu comentei anteriormente&#8230; Sendo assim, acho que pelos méritos do filme e, especialmente, pela força de Clooney, The Descendants recebeu as cinco indicações que lhe eram devidas &#8211; e até com alguma sobra e uma ausência.</p>
<p>The Descendants foi indicado como Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Diretor e Melhor Edição. Entendo os três primeiros, mas não sei se não foram exageradas as indicações de diretor e edição. Afinal, outros mestres da arte de dirigir ficaram de fora para abrir espaço para Alexander Payne. E a edição do filme é boa, mas não está muito acima da média. Achei um pouco injusto a Academia não ter indicado Shailene Woodley como Atriz Coadjuvante, mas paciência&#8230;</p>
<p>Nas categorias principais, francamente, não acho que ele mereça mais o Oscar do que The Artist. Mas como a maior premiação de Hollywood não tem, necessariamente, a ver com merecimento&#8230; The Descendants tem alguma chance de levar mais de uma estatueta para casa. De todas as categorias na qual ele está concorrendo, talvez a menos &#8220;injusta&#8221; dele ganhar seria a de ator. Clooney segura a história, dando a ela profundidade e o interesse precisos. Mas não mais que Jean Dujardin em The Artist&#8230;</p>
<p>O lobby, o carisma e a origem do dinheiro &#8211; The Descendants é uma produção made in USA, enquanto The Artist é uma co-produção França e Bélgica -, somados com a ideia de um filme mais &#8220;vendável&#8221; (porque é mais fácil de &#8220;tragar&#8221; do que uma produção quase toda de cinema mudo) podem fazer The Descendants ser o grande vencedor do Oscar deste ano. Não seria o meu voto. Não é o melhor filme em disputa. Mas também não seria, por assim dizer, um crime por completo. Ele tem boas intenções. E isso já é algo&#8230; Ainda preciso assistir a Hugo, o filme com o maior número de indicações do ano. E aí sim, poderemos tirar a prova dos nove. <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </p>
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		<title>The Artist &#8211; O Artista</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Jan 2012 02:09:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandra</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em que ano nós estamos? 2012&#8230; verdade. Mas então por que um filme mudo, inédito, ainda mexe tanto com a gente e causa tanto burburinho em Hollywood? Filme mudo não é coisa do passado? The Artist comprova, de forma surpreendente, que não. A graça e o charme de um cinema que não existe mais voltaram [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=moviesense.wordpress.com&amp;blog=1601314&amp;post=3827&amp;subd=moviesense&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
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<p>Em que ano nós estamos? 2012&#8230; verdade. Mas então por que um filme mudo, inédito, ainda mexe tanto com a gente e causa tanto burburinho em Hollywood? Filme mudo não é coisa do passado? <a href="http://www.allianceholidaymovies.ca/the-artist.php">The Artist</a> comprova, de forma surpreendente, que não. A graça e o charme de um cinema que não existe mais voltaram com força. Com um roteiro delicioso e com grandes sacadas, uma trilha sonora estonteante e uma dupla de atores protagonista de tirar o chapéu, The Artist se revela, de forma muito franca e simples, como um dos grandes filmes da temporada. E olha que eu já estava &#8220;contaminada&#8221; com a onda de elogios para ele. E ainda assim, a expectativa não foi forte o suficiente para torná-lo uma decepção. Pelo contrário. Eis, realmente, um grande filme.</p>
<p><strong>A HISTÓRIA:</strong> 1927. O herói está sendo torturado por uns russos. A música extremamente dramática dá o tom para a platéia, com os olhos fixos na telona. Trancado em uma cela-cofre, o herói é despertado por seu simpático cãozinho. Saindo de lá, ele liberta a heroína. Atrás do telão, o astro George Valentin (<a href="http://www.imdb.com/name/nm0241121/">Jean Dujardin</a>) chega a tempo para assistir ao final do filme estrelado por ele. Quando a produção termina, ele faz graça para a platéia, que o ovaciona. Na saída, uma fã dele faz graça com o astro, é incentivada por um fotógrafo a dar um beijo nele e, desta forma, ela sai estampada no jornal. No dia seguinte, essa garota desconhecida leva um jornal consigo para o estúdio Kinograph, onde consegue um trabalho como figurante após mostrar seus dotes como dançarina. Neste momento, ela se apresenta: Peppy Miller (<a href="http://www.imdb.com/name/nm0067367/">Bérénice Bejo</a>). A estreia dela, ironicamente, é feita ao lado do ídolo, George. Mas com a chegada do cinema falado, ela passará a ser a estrela, que atrai multidões para os cinemas, enquanto George sai de cena.</p>
<p><strong>VOLTANDO À CRÍTICA</strong> (SPOILER &#8211; aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Artist): Mesmo as melhores comédias românticas dos anos 2000 não chegam aos pés do encanto, da sutileza e da graça dos grandes filmes mudos da primeira fase do cinema. Que o diga <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000122/">Charles Chaplin</a>, <a href="http://www.marypickford.com/">Mary Pickford</a>, <a href="http://www.imdb.com/name/nm0884388/">Rodolfo Valentino</a> e <a href="http://www.busterkeaton.com/">Buster Keaton</a>. The Artist resgata um pouco daquela magia, acertando o tom na homenagem ao cinema que, de quebra, fala sobre valores um tanto esquecidos também, como a gratidão, a generosidade e a capacidade de reinventar-se.</p>
<p>Quando os atores não tinham voz e predominava o sistema das estrelas criadas por Hollywood, o nome principal de um filme era o chamariz para o público. Não se falava de diretores ou roteiristas. Para o público, eles não tinham muita importância. Mas grandes atores faziam toda a diferença. Eles ganhavam as platéias com graça, muitas caras e bocas e uma presença marcante que substituía a fala.</p>
<p>(SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). O personagem de George Valentin é claramente inspirado em Rodolfo Valentino, um galã do cinema mudo que não chegou a passar pela transição deste tipo de cinema para o falado. Mas na verdade, Valentin não tem apenas uma fonte de inspiração. Ele lembra, muitas vezes, <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000022/">Clark Gable</a>, ou mesmo <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000037/">Gene Kelly</a>, astros que ficaram famosos com o cinema falado. Kelly, aliás, estrou o clássico <a href="http://www.imdb.com/title/tt0045152/">Singin&#8217;in the Rain</a>, uma produção que trata também da transição do cinema mudo para o falado &#8211; mas com uma levada bem diferente daquela escolhida por The Artist.</p>
<p>A comparação de The Artist, com roteiro e direção do parisiense <a href="http://www.imdb.com/name/nm0371890/">Michel Hazanavicius</a>, e o clássico Singin&#8217;in the Rain, que este ano completa 50 anos e que foi dirigido por <a href="http://www.imdb.com/name/nm0002045/">Stanley Donen</a> e Gene Kelly, é inevitável. Afinal, ambos tratam do mesmo tema, a transição do cinema mudo para o falado e a dificuldade de alguns astros em se adequarem para a nova realidade. Ambos estão recheados de metalinguagem e autorreferenciamento. Mas enquanto o clássico é um musical, recheado de coreografias fantásticas de Gene Kelly, The Artist é um drama que bebe de fontes diversas.</p>
<p>Difícil é classificar The Artist. Como uma homenagem ao cinema, ele caminha por todos os seus gêneros, dos básicos comédia, drama e romance, até algumas pitadas de musical, aventuras de &#8220;capa e espada&#8221;, ação na selva e nas quadras. Uma coleção de referências. Mas para o filme funcionar, como em Singin&#8217;in the Rain ou na época do cinema mudo, foi fundamental o trabalho dos atores principais e da trilha sonora.</p>
<p>O trabalho de <a href="http://www.imdb.com/name/nm0099753/">Ludovic Bource</a> na trilha sonora é essencial e de tirar o chapéu. Exceto por duas sequências, The Artist é um filme 100% mudo. Com esta característica &#8211; o que o diferencia de Singin&#8217;in the Rain e o torna mais difícil de ser &#8220;atraente&#8221; nos dias atuais, nos quais as pessoas estão acostumadas com verborragia e necessitam de diálogos bem escritos nos filmes -, a trilha sonora se torna ainda mais fundamental para a história, porque é ela que dita o ritmo e &#8220;fala&#8221; pelos atores. De arrepiar o trabalho de Bource do primeiro até o último minuto do filme. Ele merece o <a href="http://oscar.go.com/">Oscar</a>.</p>
<p>A trilha sonora foi o primeiro elemento de The Artist que me chamou a atenção. Ela resgata o melhor da época em que o cinema era mudo e ainda inova, acompanhando cada momento desta nova produção com esmero. O segundo elemento que me chamou a atenção foi a qualidade dos protagonistas. O francês Jean Dujardin resgata as melhores qualidades dos astros de antigamente. Cada vez que ele sorri, a tela se ilumina &#8211; e as mulheres se derretem. Esta era uma qualidade fundamental na era das estrelas da época de ouro de Hollywood. E a argentina Bérénice Bejo faz o dueto perfeito com Dujardin. Se ele lembra os astros comentados anteriormente, ela, sem dúvidas, é inspirada na grande estrela do cinema mudo Mary Pickford.</p>
<p>O filme tem classe, tem uma trilha sonora impecável e uma dupla de protagonistas que encanta, que fascina, que arranca risos e que convence nos momentos de lágrimas escorrendo pelo rosto &#8211; no caso de Bejo. Mas além destes elementos, algo fundamental para este filme funcionar é a direção e o roteiro de Michel Hazanavicius. A história, mesmo que com um desenrolar um bocado previsível, prende o interesse do início ao fim.</p>
<p>Especialmente pelas ótimas sacadas do roteiro. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Relembrando Charles Chaplin, em The Artist o protagonista ganha muitos pontos de simpatia por causa do cachorrinho que lhe acompanha &#8211; que faz um dueto perfeito com o herói em crise. A participação do cachorro e o charme de Dujardin, assim como o carisma de Bejo, são fundamentais para o filme fluir convencendo.</p>
<p>Somado a isso, o roteiro tem pelo menos duas grandes sacadas: justamente quando o som entra em cena. (SPOILER &#8211; não leia&#8230; bem, você já sabe). Esta quebra na mudeza da história mostra os momentos em que o protagonista decide ceder, deixar o orgulho de lado e admitir que precisa recomeçar. Genial a sequência do pesadelo dele, e a simbologia de que há som em tudo, menos na garganta do personagem, que parece &#8220;incapaz&#8221; de falar. Evidente que ele não era mudo, mas de uma forma simbólica ele &#8220;não consegue falar&#8221; porque não admite a mudança na indústria que lhe rejeita como &#8220;ultrapassado&#8221;. Ele não luta contra isso. Prefere se desfazer de todos os bens e abraçar incontáveis garrafas de bebida do que pedir um favor para os &#8220;cartolas&#8221; do cinema ou aderir ao cinema falado. No final, outra vez, o som entra em cena, quando ele decide acreditar que é possível recomeçar.</p>
<p>Por estas e por outras, que The Artist não é apenas um grande filme sobre um momento decisivo do cinema. Ele não é apenas uma homenagem à Sétima Arte, seus artistas e bastidores, ou um roteiro cheio de metalinguagem. The Artist é também uma lição sobre recomeços, persistência e memória afetiva. (SPOILER &#8211; não leia se você ainda não assistiu ao filme). Por um lado, temos Valentin e sua dificuldade de ceder à passagem do tempo, de entender que uma forma de trabalhar terminou e que ela deve dar espaço para uma maneira diferente de atuar. Se ele é apaixonado por aquilo, deve se adaptar aos novos tempos. E saber lidar com a perda de espaço para novos talentos. Por outro lado, temos a ascensão de Miller e sua forma romântica e respeituosa de admirar Valentin. É linda a forma com que ela acompanha o astro, a quem admira. Diferente do clássico All About Eve, imperdível, aliás, ela não quer puxar o tapete de ninguém, mas fascinar os públicos e ajudar, sem intrometer-se demasiado, ao ídolo pelo qual sempre foi apaixonada. A relação deles é uma grande lição.</p>
<p>A direção de Hazanavicius é fascinante. Ele resgata os princípios dos filmes clássicos, destacando a interpretação e as expressões dos atores nos momentos adequados e mais reflexivos, mas imprimindo também uma dinâmica envolvente nas cenas de ação. Para conseguir isso, Hazanavicius conta com a ajuda do diretor de fotografia <a href="http://www.imdb.com/name/nm0771526/">Guillaume Schiffman</a>, que faz um trabalho primoroso ao resgatar a aura dos filmes preto e branco. Há estilo, charme e romantismo nesta forma de contar uma história. E os diálogos contidos comprovam como as palavras muitas vezes sobram. Há outros elementos muito mais significativos no cinema. E é muito bom revê-los como protagonistas nesta grande homenagem ao cinema, esta arte da qual tanto gostamos.</p>
<p><strong>NOTA:</strong> 10.</p>
<p><strong>OBS DE PÉ DE PÁGINA:</strong> Além dos protagonistas, já bastante elogiados, outros dois nomes se destacam nesta produção: <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000422/">John Goodman</a> como o produtor e diretor de estúdio Al Zimmer; e <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000342/">James Cromwell</a> como Clifton, motorista e braço direito do astro George Valentin. Os dois atores estão muito bem em seus papéis, ainda que o trabalho deles é claramente de coadjuvantes &#8211; as estrelas estão claras nesta produção. Duas atrizes também tem uma certa relevância como coadjuvantes: <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000542/">Penelope Ann Miller</a> como Doris, mulher de Valentin; e <a href="http://www.imdb.com/name/nm0701512/">Missi Pyle</a> como Constance, estrela do cinema mudo e namorada de Zimmer. O grande <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000532/">Malcolm McDowell</a> faz uma super ponta, de poucos segundos, e depois desaparece. Uma pena, porque ele é um grande ator &#8211; e que faz parte da ótima história do cinema.</p>
<p>Da parte técnica do filme, além dos nomes já citados, vale citar o ótimo trabalho da dupla de edição <a href="http://www.imdb.com/name/nm2691134/">Anne-Sophie Bion</a> e Michel Hazanavicius; a ótima direção de arte de <a href="http://www.imdb.com/name/nm0393744/">Gregory S. Hooper</a>; os figurinos de <a href="http://www.elevenoclockfashionshow.com/">Mark Bridges</a> e a decoração de set de <a href="http://www.imdb.com/name/nm4787457/">Austin Buchinsky</a> e <a href="http://www.imdb.com/name/nm0332481/">Robert Gould</a>.</p>
<p>The Artist foi ganhando a crítica, a opinião de quem faz Hollywood e crescendo na bolsa de apostas para o Oscar pouco a pouco. No início, quando estreou no Festival de Cannes em maio de 2011, ele não criou tanto burburinho. Mas garantiu, no festival, o primeiro de muitos prêmios de melhor ator para Jean Dujardin. Depois, o filme passou em outros 15 festivais. Mas começou a ganhar força mesmo quando estreou, de forma limitada, nos Estados Unidos em novembro. Daí as pessoas começaram a ter contato com a produção e a comentar sobre ela.</p>
<p>Nesta trajetória de festivais e por participar de outras premiações, The Artist vem acumulando prêmios. Até o momento, ganhou 42 prêmios, incluindo três <a href="http://www.goldenglobes.org/">Globos de Ouro</a>, e foi indicado ainda a outros 77. Números impressionantes. No Globo de Ouro, o filme saiu vencedor nas categorias de Melhor Filme de Comédia ou Musical, Melhor Trilha Sonora (merecidíssimo) e Melhor Ator de Comédia ou Musical. Aliás, sendo justa, todos os prêmios muito merecidos. Entre os outros prêmios, destaco o de Melhor Filme no Festival de San Sebástian, na Espanha; e os de melhor filme e diretor pela avaliação dos críticos de Nova York.</p>
<p>Esta jóia do cinema teria custado aproximadamente US$ 12 milhões. Até o dia 15 de janeiro, apenas nos Estados Unidos, o filme havia faturado pouco mais de US$ 9,2 milhões nas bilheterias. Na França, ele acumulou pouco mais de 9,5 milhões de euros até o dia 20 de novembro. Juntando as bilheterias mundo afora, certamente o filme se pagou e ainda dará lucro. E com a possibilidade de ganhar alguns Oscar&#8217;s, possivelmente ele ganhará ainda mais dinheiro. Um incentivo para a arte e para projetos ousados, sem dúvida.</p>
<p>Co-produzido pela França e pela Bélgica, The Artist foi todo filmado na Califórnia. Certamente para dar mais veracidade para a história.</p>
<p>Uma curiosidade sobre o cãozinho simpático que aparece no filme: na verdade, ele é &#8220;interpretado&#8221; por três cães da raça Jack Russell Terriers. São eles: Uggie, Dash e Dude. Mesmo que eles dividam o &#8220;personagem&#8221;, a maior parte das cenas foi &#8220;interpretada&#8221; por Uggie.</p>
<p>A casa de Peppy no filme foi, na verdade, a casa da atriz Mary Pickford. Para aumentar ainda mais a &#8220;aura&#8221; de fidelidade da história, durante o tempo de filmagens, o ator Jean Dujardin viveu de forma isolada em uma casa dos anos 1930 em Hollywood Hills.</p>
<p>Este é o primeiro filme com tantas cenas que lembram o cinema mudo que estreia nos cinemas desde que Silent Movie, de Mel Brooks, estreou em 1976.</p>
<p>The Artist conseguiu uma nota ótima entre os usuários do site <a href="http://www.imdb.com/">IMDb</a>: 8,5. Superior ao de um de seus grandes concorrentes este ano, <a href="http://www.foxsearchlight.com/thedescendants/">The Descendants</a>, que tem apenas um 7,9 (ainda assim, uma avaliação muito boa para os padrões do site). Os críticos que tem seus textos linkados no <a href="http://www.rottentomatoes.com/">Rotten Tomatoes</a> também se renderam à The Artist, dedicando 166 críticas positivas e apenas cinco negativas para a produção &#8211; o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,8 (nota esta excepcional, levando em conta as notas para outras produções).</p>
<p>Este é o primeiro filme do francês Michel Hazanavicius que eu assisto. Fiquei curiosa para ver outros trabalhos dele. Vi que ele estrou como diretor há 20 anos, com um curta-metragem. Depois, dirigiu dois filmes para a TV, duas séries para a telinha &#8211; uma delas, um documentário -, fez outro curta e estrou no longa com <a href="http://www.imdb.com/title/tt0181289/">Mes Amis</a>, de 1999. Depois, fez outros dois longas e, atualmente, trabalha na pós-produção de <a href="http://www.imdb.com/title/tt2087850/">Les Infidèles</a>, estrelado outra vez pelo genial Jean Dujardin, e ainda com <a href="http://www.imdb.com/name/nm0133899/">Guillaume Canet</a>, <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000528/">Mathilda May</a> e <a href="http://www.imdb.com/name/nm0484005/">Alexandra Lamy</a>. Ele merece ser acompanhado.</p>
<p><strong>CONCLUSÃO:</strong> Não se fazem mais filmes como antigamente. Isso é verdade. Mas não quer dizer que seja algo ruim. The Artist ensina que o tempo passa. Que alguns valores e maneiras de encantar perduram. Mas que &#8220;o novo sempre vem&#8221; e que é preciso estar preparado para ele. A alta tecnologia, que permite criar realidades antes impossíveis de serem plasmadas na telona, e a imersão do público nas histórias são avanços que vieram para ficar. Ainda assim, a essência do cinema continua irretocada, e The Artist evidencia as qualidades primárias da Sétima Arte. Eis um filme delicioso, cheio de referências e homenagens, envolvente e simples. Como os grandes filmes do passado, mas lançado em 2011/2012. Para os amantes do cinema que já se aventuraram a assistir aos clássicos, será um deleite. Para os demais, quem sabe um convite bacana para olhar para o passado e aprender um pouco com ele? Independente da ótica com que se olhe para The Artist, ele merece os elogios que tem recebido. Ele lembra bastante Singin&#8217;in the Rain, é verdade. Mas se mostra mais ousado que o clássico do cinema por mostrar como a resistência ao novo pode mudar e limitar a realidade. Inteligente.</p>
<p><strong>PALPITE PARA O OSCAR 2012:</strong> Difícil dizer, com certeza, o que será de The Artist no Oscar. Mas algo posso arriscar: este filme deve receber muitas indicações. Quantas delas ele ganhará? Isto sim, é um mistério. Vejo The Artist indicado como melhor filme, ator, roteiro original e trilha sonora. Com sorte, ele poderá ainda ser indicado nas categorias de melhor atriz, melhor direção de fotografia, melhor diretor, melhor figurino e melhor direção de arte.</p>
<p>Não assisti ainda aos outros concorrentes, principalmente a The Descendants, o outro grande vencedor do Globo de Ouro. Por isso, ainda fica difícil dizer se Clooney será o grande rei do próximo Oscar, levando os prêmios principais. O que eu já posso dizer é que se The Artist surpreender a todos e ganhar a maioria das estatuetas que disputar, não será nenhuma injustiça. O filme merece seus louros, e aplausos. Agora, o que falta é saber se Hollywood saberá ousar, mais uma vez, e render-se a um filme estrangeiro. Ou se continuará &#8220;bairrista&#8221;. Francamente, acho mais fácil ela seguir tradicional, apesar de todas as qualidades de The Artist.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/moviesense.wordpress.com/3827/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/moviesense.wordpress.com/3827/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/moviesense.wordpress.com/3827/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/moviesense.wordpress.com/3827/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/moviesense.wordpress.com/3827/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/moviesense.wordpress.com/3827/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/moviesense.wordpress.com/3827/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/moviesense.wordpress.com/3827/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/moviesense.wordpress.com/3827/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/moviesense.wordpress.com/3827/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/moviesense.wordpress.com/3827/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/moviesense.wordpress.com/3827/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/moviesense.wordpress.com/3827/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/moviesense.wordpress.com/3827/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=moviesense.wordpress.com&amp;blog=1601314&amp;post=3827&amp;subd=moviesense&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Moneyball &#8211; O Homem que Mudou o Jogo</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Jan 2012 01:31:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandra</dc:creator>
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<p>O cinema de Hollywood gosta de mostrar os bastidores de alguns dos esportes mais populares das terras do Tio Sam. E ele faz isso bem, geralmente. Mais uma vez, temos com <a href="http://www.moneyball-movie.com/">Moneyball</a> uma história que mostra os bastidores de um esporte. Desta vez, do beisebol. Mas eis que esta não é apenas uma história de superação &#8211; todos os filmes de esporte vão por esta onda, não é mesmo? -, envolvendo técnicos e jogadores. Moneyball trata sobre uma forma totalmente diferente de encarar a eficiência no esporte, de como é possível mudar a lógica estrutural de algo quando se aplicam conceitos de economia no meio. Surpreendente.</p>
<p><strong>A HISTÓRIA:</strong> O filme começa com uma frase de <a href="http://www.mickeymantle.com/">Mickey Mantle</a>: &#8220;É inacreditável o quanto você não sabe sobre o jogo que você esteve jogando durante toda a sua vida&#8221;. Em seguida, cenas de um rebatedor de beisebol concentradíssimo &#8211; e nervoso. As cenas são do dia 15 de outubro de 2001, em um jogo decisivo da Liga Americana de Beisebol. De um lado do campo, um orçamento de US$ 114,46 milhões, do famoso New York Yankees. E do outro, US$ 39,72 milhões do Oakland Athletics. Em um estádio vazio, Billy Beane (<a href="http://www.imdb.com/name/nm0000093/">Brad Pitt</a>) está sentado sozinho. Ele liga e desliga o rádio que transmite o jogo. O time que ele administra, o Oakland Athletics, perde a disputa. Mas ele será capaz, em um movimento arriscado, a entrar para a história com um grande feito e, de quebra, mudar a lógica do tradicional esporte.</p>
<p><strong>VOLTANDO À CRÍTICA</strong> (SPOILER &#8211; aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Moneyball): Infelizmente não é todo mundo que gosta de números. No Brasil e em tantos outros países, o que faz sucesso são as &#8220;ciências humanas&#8221;. Fundamentais, elas, aliás. Eu mesma busquei este caminho, e o admiro. Mas a cada dia eu acho a lógica da matemática e dos números fundamental. Para tudo. Moneyball mostra a importância desta lógica e de uma escola econômica para o esporte. Mas essa mesma lógica pode ser aplicada em várias outras partes. Com eficácia.</p>
<p>Antes que alguém entenda errado o que eu escrevi, esclareço: não acho que a vida inteira se explique com números. Mas há uma dinâmica e uma repetição cíclica de fatos, uma previsibilidade no desempenho humano &#8211; seja ele aplicado no que for &#8211; que fascina. E que pode nos ajudar a buscar mais eficiência evitando erros conhecidos. Ainda assim, é claro, existe também o imprevisível. Verdade. Mas ele é apenas o contraponto de toda a previsibilidade calculável. Moneyball trata disso. E de muito mais.</p>
<p>A história de Billy Beane e sua equipe mostra como é preciso ser firme quando se está nadando contra a corrente. Quando existe convicção no que se está fazendo e indícios fortes de que se está apostando na virada certa, na solução necessária, é preciso insistir. E quando quem deveria contribuir para a mudança não faz isso, há alternativas. Esse resumo parece ser aplicável em várias situações, certo? Pois acredito que seja exatamente este tipo de reflexão que torna Moneyball mais interessante do que uma leitura rasa de que este filme aborde apenas os bastidores do beisebol. Não, ele é mais que isso.</p>
<p>Depois de conhecer Peter Brand (<a href="http://www.imdb.com/name/nm1706767/">Jonah Hill</a>) em uma tentativa de negociação com o time de beisebol de Cleveland, Beane precisa do apoio do técnico Art Howe (<a href="http://www.imdb.com/name/nm0000450/">Philip Seymour Hoffman</a>) e dos jogadores do próprio time para que as teorias de Brand dêem certo. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Mas Howe, resistente às mudanças, quer seguir com a lógica do beisebol de sempre. Ele não coloca os jogadores que Beane quer. Então o que ele poderia fazer? Pois ele adota medidas radicais, se livra dos jogadores problema e que faziam Howe bater o pé.</p>
<p>Mas por que não demitir, simplesmente, ao técnico? Isso é algo que o filme não explica. Pela história, ninguém diz que Howe seria insubstituível. Mas <a href="en.wikipedia.org/wiki/Art_Howe">neste link da Wikipédia</a> é possível perceber que ele era um dos bons técnicos do início dos anos 2000 &#8211; ainda assim, por não ser insubstituível, ele saiu da equipe Oakland Athletics em 2003. Em certo momento, Moneyball mostra um comentarista da TV dizendo que o mérito pelas então sete vitórias seguidas do time era de Howe &#8211; um erro comum, já que a maioria da imprensa enxerga mais o treinador do que a restante da equipe técnica como responsável por algum resultado. Mesmo assim, acho que o filme não aprofunda muito esta questão, o que torna ele menos interessante. Focado demais no personagem de Brad Pitt, claramente o &#8220;herói&#8221; da história, Moneyball perde a oportunidade de mostrar um pouco mais das intrigas e confabulações entre técnicos, jogadores, olheiros e demais personagens que fazem parte dos bastidores do esporte.</p>
<p>O filme também apresenta uma reflexão final previsível. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Como outras produções, Moneyball defende a ideia de que o dinheiro não é o mais importante. Mesmo que a lógica de Brand seja convincente, de que não está errado aceitar uma proposta milionária quando existe mérito para isso, o protagonista decide ficar onde está. Para continuar próximo da filha Casey (<a href="http://www.imdb.com/name/nm1748388/">Kerris Dorsey</a>), ele decide recusar o convite para ser o gestor do Red Sox. E também porque ele acredita que um time &#8220;menor&#8221; pode, um dia, bater a um gigante do esporte. Idealista, pai carinhoso, mas também um sujeito frustrado que, um dia, acreditou no sonho de um futuro fantástico, como esportista, e que viu suas ilusões terminarem sem o êxito pretendido/prometido.</p>
<p>A fórmula adotada pelo diretor <a href="http://www.imdb.com/name/nm0587955/">Bennett Miller</a> para contar esta história não é inovadora. Outros filmes que recontam fatos históricos, inclusive envolvendo o esporte, já utilizaram a técnica de intercalar imagens de arquivo da TV com a refilmagem com licenças &#8220;poéticas&#8221; sobre o que aconteceu nos bastidores daquelas histórias. O interessante é que mesmo você já tendo visto isto antes, o roteiro de <a href="http://www.imdb.com/name/nm0001873/">Steven Zaillian</a> e <a href="http://www.imdb.com/name/nm0815070/">Aaron Sorkin</a>, que utilizou a história de <a href="http://www.imdb.com/name/nm3133181/">Stan Chervin</a> como base &#8211; e o trabalho dele teve como fonte de inspiração a obra &#8220;Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game&#8221; de <a href="http://literati.net/Lewis/">Michael Lewis</a> &#8211; consegue manter o interesse do espectador até o final.</p>
<p>Um pré-requisito para isso é a base de muitos e muitos filmes (SPOILER &#8211; não leia se você ainda não assistiu a Moneyball): depois que o protagonista e seu fiel escudeiro amargaram várias derrotas, eles começam a ter êxito com a estratégia controversa que adotaram. Mas isso será suficiente para que eles obtenham a grande e esperada vitória final? Essa tradicional lógica de altos e baixos com a indefinição sobre o final sempre dá certo para prender o espectador. À parte disto, e é preciso dizer, o elenco está muito bem. Sem muitos exageros, ainda que o Brad Pitt escorregue um pouco no excesso de caras e bocas. Também achei que o filme poderia ter mostrado um pouco mais a história dos jogadores que ajudaram ele a mudar a história do beisebol &#8211; afinal, por mais que a maior parte do mérito fosse de Beane, aqueles jogadores colocados nas posições certas foram decisivos para que o time chegasse à marca histórica de 20 vitórias seguidas.</p>
<p>Fora esta falha &#8220;estrutural&#8221; e de profundidade, gostei muito da reflexão que o filme provoca no foco específico do esporte. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Fiquei pensando, o tempo todo, na aplicação dos conceitos de Bill James no futebol. Será que teríamos também a extinção da figura do olheiro? Seria possível medir o desempenho dos atletas ao ponto de selecioná-los por sua eficácia em determinados momentos e posições, e não pela super valorização criada pelo mercado? Como no beisebol mostrado em Moneyball, no futebol há muitos jogadores talentosos que ficam esquecidos ou relegados ao anonimato, enquanto poucos atletas bons de bola ganham salários astronômicos. Ver uma mudanças neste cenário e nesta lógica mudaria o esporte para sempre. Como ocorreu com o beisebol. Seria algo interessante de se ver.</p>
<p><strong>NOTA:</strong> 9,3.</p>
<p><strong>OBS DE PÉ DE PÁGINA:</strong> Apesar dos &#8220;probleminhas&#8221; de roteiro comentados antes, é preciso admitir que Sorkin faz mais um belo trabalho com Moneyball, ao lado de Zaillian. O roteirista repete a dose de equilibrar a vida íntima do personagem principal com as &#8220;impressões&#8221; que o restante das pessoas tem dele, assim como a narrativa simples dos fatos adotada antes em <a href="http://www.sonypictures.com/movies/thesocialnetwork/">The Social Network</a>.</p>
<p>O diretor Bennett Miller acerta na interpretação do texto de Sorkin e Zaillian. Ele ressalta os trabalhos dos atores e também evidencia belos lances do beisebol, equilibrando imagens de arquivo do time retratado com a narrativa cinematográfica da produção. A edição é um elemento que merece destaque. Belo trabalho de <a href="http://www.imdb.com/name/nm0854403/">Christopher Tellefsen</a>.</p>
<p>Outros aspectos técnicos do filme seguem o padrão normal de qualidade de Hollywood &#8211; em outras palavras, são competentes, mas nada fora do padrão. Como exemplo, a direção de fotografia de <a href="http://www.imdb.com/name/nm0002892/">Wally Pfister</a> e a trilha sonora de <a href="http://www.mychaeldanna.com/">Mychael Danna</a>.</p>
<p>Falando em trilha sonora, claro que merece uma menção especial a interpretação fofíssima da simpática atriz Kerris Dorsey da música The Show, de Lenka. Para quem não conhece a versão original, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=7ViIV8mFD44&amp;feature=related">neste link</a> é possível assistir a artista se apresentando com ela.</p>
<p>Mesmo que o foco do filme seja o personagem de Brad Pitt e toda a história gire em torno dele, vale citar a importância de Jonah Hill para a produção. Ele é o contraponto do personagem principal, a parte &#8220;engraçada&#8221; e ao mesmo tempo gabaritada para sustentar os argumentos da teoria que estava sendo aplicada pela primeira vez no beisebol. Novamente os &#8220;opostos que se complementam&#8221; são plasmados pelos dois: de um lado, o esportista bonitão, do outro, o nerd gordo e de óculos que era deixado sempre em segundo plano. Mesmo que um leve vantagem aparente sobre o outro, existe uma admiração mútua entre os dois, e uma complementariedade interessante &#8211; o personagem de Pitt sabe negociar e impor-se, o de Hill dá um show nos cálculos e na dedicação para aplicar a teoria de Bill James no beisebol.</p>
<p>Além da dupla de atores principais, merece destaque a já citada simpática Kerris Dorsey. O geralmente ótimo Philip Seymour Hoffman desaparece no roteiro &#8211; ele acaba tendo um papel secundário e pouco expressivo. Além deles, vale citar os nomes de <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000705/">Robin Wright</a> como Sharon, ex-mulher de Beane; <a href="http://www.imdb.com/name/nm0695435/">Chris Pratt</a> como Scott Hatteberg, um dos jogadores desacreditados que é resgatado por Beane &#8211; mas que aparece pouco, como Hoffman; <a href="http://www.imdb.com/name/nm1212071/">Stephen Bishop</a> como David Justice, outro jogador; <a href="http://www.imdb.com/name/nm0421116/">Brent Jennings</a> como o olheiro Ron Washington; <a href="http://thecaseybond.com/">Casey Bond</a> como Chad Bradford; e <a href="http://www.imdb.com/name/nm3003906/">Reed Thompson</a> como o jovem Billy Beane.</p>
<p>Moneyball custou aproximadamente US$ 50 milhões. E arrecadou, nas bilheterias dos Estados Unidos, até o dia 1º de janeiro deste ano, pouco mais de US$ 75 milhões. Um resultado 50% superior ao do custo&#8230; está bem, mas longe de um arrasa-quarteirão.</p>
<p>O filme que tem Brad Pitt como estrela principal estreou no dia 9 de setembro do ano passado no Festival de Toronto. Depois, ele participou dos festivais de Tokyo e Turin. Até o momento, Moneyball ganhou sete prêmios e foi indicado a outros 20, incluindo quatro <a href="http://www.goldenglobes.org/">Globos de Ouro</a>. Entre os que ganhou, destaque para os de melhor roteiro segundo as associações de críticos de cinema de Boston, Chicago, Nova York e Toronto. Brad Pitt também ganhou como melhor ator segundo as associações de críticos de Boston, Nova York e o Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.</p>
<p>Moneyball foi rodado inteiramente na Califórnia e apenas uma pequena sequência em Boston, Massachusetts. Entre os locais escolhidos para as filmagens, o estádio do time de beisebol Oakland Athletics, Long Beach e Downtown, em Los Angeles.</p>
<p>Os usuários do site <a href="http://www.imdb.com/">IMDb</a> deram a nota 7,8 para o filme. Uma boa nota, para a média do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no <a href="http://www.rottentomatoes.com/">Rotten Tomatoes</a> foram mais generosos: dedicaram 202 críticas positivas e apenas 11 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 95% e uma nota média 8. Um sinal muito positivo para o filme &#8211; e que serve como termômetro sobre a moral alta da produção pela ótica dos críticos.</p>
<p>Para quem ficou interessado na teoria adotada pela equipe focada no filme, recomendo a leitura <a href="http://www.thesportjournal.org/article/examination-moneyball-theory-baseball-statistical-analysis">deste texto</a>, em inglês, do The Sport Journal que trata do assunto. Também é interessante <a href="http://www.businessweek.com/finance/watching-moneyball-with-bill-james-09222011.html">este artigo</a> da Bloomberg Businessweek que comenta como Bill James encarou o filme que trata sobre a sua teoria.</p>
<p><strong>CONCLUSÃO:</strong> Todos gostam de uma história edificante. Destas que mostram superação. Moneyball é uma destas histórias. Mas diferente de outras, ela não evidencia apenas a capacidade humana de passar pelos próprios limites e chegar à vitória apesar deles. Ela revela que, muitas vezes, a vitória pura e simples pouco importa. O bacana é encontrar uma solução criativa para um problema difícil de ser resolvido e, de quebra, inspirar outras pessoas a provocar mudança. Mais que uma história sobre um esporte, Moneyball é a narrativa sobre a aplicação de conceitos econômicos em um cenário que antes era visto como terreno de talento e improviso. Moneyball mostra como há lógica e que é possível prever resultados mesmo em cenários criativos. Bem dirigido e com um roteiro competente, mesclando cenas reais e a recriação de fatos com um elenco competente, é um filme envolvente. Vale o ingresso.</p>
<p><strong>PALPITE PARA O OSCAR 2012:</strong> As indicações do Globo de Ouro sempre são um sinal importante para sabermos o que esperar do <a href="http://oscar.go.com/">Oscar</a>. Moneyball foi indicado em quatro categorias importantes desta &#8220;prévia&#8221; do Oscar: Melhor Filme &#8211; Drama, melhor roteiro, melhor ator (Brad Pitt) e melhor ator coadjuvante (Jonah Hill). Francamente, acho difícil ele ganhar em qualquer uma destas categorias porque ele tem concorrentes muito fortes para vencer. Talvez Brad Pitt teria mais chances, mas mesmo ele eu acho que não deve vencer.</p>
<p>O roteiro de Moneyball já ganhou quatro prêmios da crítica mas, ainda assim, vejo o caminho dele para a vitória no Globo de Ouro e no Oscar como algo muito complicado de se concretizar. Possivelmente Moneyball vai repetir três das quatro indicações que recebeu no Globo de Ouro também no Oscar. Acho que apenas o Jonah Hill poderá ficar de fora do Oscar. Pitt, o roteiro e o filme devem aparecer na premiação mais esperada do ano pela indústria de Hollywood. Mas acho que o filme ficará a ver navios. Não deve ganhar nenhuma estatueta. Talvez surpreenda em roteiro mas, francamente, acho difícil.</p>
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		<title>La Piel Que Habito &#8211; A Pele Que Habito</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Dec 2011 20:20:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandra</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://moviesense.files.wordpress.com/2011/12/lapielquehabito1.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3811" title="lapielquehabito1" src="http://moviesense.files.wordpress.com/2011/12/lapielquehabito1.jpg?w=650&#038;h=936" alt="" width="650" height="936" /></a></p>
<p><a href="http://www.imdb.com/name/nm0000264/">Pedro Almodóvar</a> é um sujeito raro. Ele tem um gosto estético e apreço pelas estranhezas da alma humana diferenciados no cinema mundial. Quem mais, além dele, poderia fazer um filme como <a href="http://www.lapielquehabito.com/">La Piel Que Habito</a>? <a href="http://davidlynch.com/">David Lynch</a>, talvez. Mas certamente Lynch faria isso com menos dramaticidade, cores, lógica histérica e sóbria, dependendo do momento, como Almodóvar. O diretor espanhol sabe como fascinar, provocar risos, tesão e chocar como poucos. Mais uma vez, ele faz tudo isso. Ainda que com menos maestria que em produções anteriores. Ou, talvez, um pouco menos de classe.</p>
<p><strong>A HISTÓRIA</strong>: Toledo, 2012. Na propriedade El Cigarral, uma mulher faz exercícios. Depois ela medita, enquanto lhe preparam um café da manhã com um remédio dissolvido no suco de laranja. Com um livro de Louise Bourgeois ao lado, ela corta um pedaço de tecido fino com uma lixa de unha para moldar mais um personagem. Marilia (<a href="http://www.imdb.com/name/nm0004650/">Marisa Paredes</a>), empregada da casa, envia por um elevador interno o café da manhã de Vera (<a href="http://www.imdb.com/name/nm0025745/">Elena Anaya</a>). Depois de fazer um pedido e tê-lo recusado, Vera escolhe um vestido, o coloca e corta um pedaço do pano. Corta. Ouvimos, em um auditório, o médico Robert Ledgard (<a href="http://www.imdb.com/name/nm0000104/">Antonio Banderas</a>) fala sobre a importância da reconstrução estética para a recuperação de sobreviventes de queimaduras. Logo mais, vamos descobrir o que une Vera e Ledgard.</p>
<p><strong>VOLTANDO À CRÍTICA</strong> (SPOILER &#8211; aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir comenta trechos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a La Piel Que Habito): O apuro estético e a força da trilha sonora de La Piel Que Habito foram os dois elementos que me chamaram a atenção no filme, logo no início. E eles seguiram se destacando até o final. Almodóvar tem um gosto plástico e estético fundamental. Ele avançou nesta qualidade com o tempo e, mesmo que a história deste novo filme relembre produções mais antigas, este apuro estético revela a evolução do diretor. Relembra sua fase mais atual. E a trilha sonora&#8230;</p>
<p>Logo no início, fiquei imaginando o filme sem a música que o cadencia. Ele perderia, sem dúvida, muito de sua graça. O que só comprova que La Piel Que Habito é uma produção dramática, que exige uma trilha sonora potente para intensificar as &#8220;emoções&#8221; exploradas pelas linhas do roteiro. De fato, o ótimo e experiente <a href="http://www.imdb.com/name/nm0407076/">Alberto Iglesias</a> faz neste filme mais um grande trabalho. A trilha é tão protagonista desta produção quanto Antonio Banderas e Elena Anaya.</p>
<p>Além da música e do critério estético apurado de Almodóvar, La Piel Que Habito se destaca por retomar um tom dramático exarcebado do diretor. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Ainda que ele nunca tenha deixado de ser &#8220;visceral&#8221;, em seus últimos filmes a violência ligada ao sexo perdeu força. Os gostos mais duvidosos e as taras mais estranhas perderam força em outras produções &#8211; algo que era mais comum no início da carreira de Almodóvar. Mas aqui, elas voltam a mexer com a libido e a imaginação do espectador.</p>
<p>Sem medo de errar, o diretor e roteirista investe em uma história densa, que trata de loucura, paixão, desejos reprimidos, busca da perfeição e de vingança e, claro, desejo de fugir. (SPOILER &#8211; não leia&#8230; bem, você já sabe). Elementos que Almodóvar conhece bem, por eles estarem tão entranhados na cultura espanhola. Não deixa de ser especialmente significativo este filme desenrolar-se em Toledo, uma cidade pequena, muito turística, tradicional e que é &#8220;vendida&#8221; como local do encontro de três culturas: a cristã, a judia e a islâmica.</p>
<p>Interessante que, desde o princípio, La Piel Que Habito deixa claro que Vera era uma prisioneira. Sabemos disso, mas não entendemos bem o porquê daquela prisão, no início. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). A semelhança dela com Gal, a mulher morta de Robert, abre uma série de conjecturas. Por exemplo: seria possível ele ter feito um clone da mulher? Mas aí a questão da idade não bateria &#8211; ele teria que estar muito mais velho. Por isso mesmo, quando descobrimos o que realmente aconteceu, a surpresa não é completa. O que surpreende, claro, é a narrativa das mudanças pelas quais passa Vicente (o ótimo <a href="http://www.imdb.com/name/nm1693432/">Jan Cornet</a>) feita com esmero e requintes de sadismo por Almodóvar.</p>
<p>Este desejo de mostrar o absurdo em detalhes, quase com uma lupa, é o que faz Almodóvar sem quem é. E que torna La Piel Que Habito um retorno curioso para o lado mais sádico do diretor. Há humor e absurdo na história, claro, como é típico de Almodóvar. Mas o dramalhão está ali, assim como o esforço do diretor em mostrar que muitos dos problemas psicológicos e ações desmedidas/violentas tem origem em desejos sexuais mal administrados.</p>
<p>A respeito dos protagonistas, algo me chamou a atenção: o quanto eles estão presos a desejos opostos. (SPOILER &#8211; não leia&#8230; bem, você já sabe). Desde o princípio, Vicente/Vera alimenta um desejo angustiante de fuga. Ele quer sair de Toledo, daquela forma de vida provinciana. Mas apegado à mãe (<a href="http://www.imdb.com/name/nm0844845/">Susi Sánchez</a>), ele adia a saída do &#8220;pueblo&#8221;. Depois, quando acontece o que acontece e ele passa a ser prisioneiro, ele segue querendo fugir. Mesmo quando parece que não, que ele está conformado. É apenas a forma dissimulada que ele adota para sobreviver.</p>
<p>(SPOILER). Por outro lado, Robert está apegado àquela &#8220;finca&#8221;, à sua propriedade e sentimentos. Mesmo quando o amor que ele sente é por pessoas que já morreram e por realidades que não podem mais ser resgatadas. Ele é a permanência, o tradicional, o sujeito que aparenta uma coisa para a sociedade mas que, em casa, revela-se algo totalmente diferente &#8211; e repugnante, detestável. Vicente é o rebelde, aquele que toma drogas para aguentar uma realidade que não suporta. Ele é o novo que não consegue lidar com o antigo e com as aparências enganosas.</p>
<p>Não acho que foi um acaso a escolha do título deste filme ou mesmo do que este nome significa dentro da trama. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, todo aquele cuidado de Robert com a pele de Vera simboliza o seu apreço pelas aparências. Mas a pele e, consequentemente, estas aparências não resistem muito tempo. Não resistem ao desejo da mudança de Vera/Vicente. Roupas, tecidos, peles se rasgam e se cortam facilmente. Robert, que simboliza a sociedade tradicional espanhola &#8211; e de vários outros países &#8211; pode até costurar, remendar, consertar. Alterar as aparências para atingir determinados padrões de beleza. Mas o que Almodóvar parece nos dizer, implícita ou explicitadamente, é que este jogo de aparências terá fim. Uma hora ou outra, e talvez de maneira trágica. Porque, afinal de contas, &#8220;o novo sempre vem&#8221;. E ele, normalmente, quebra os padrões até então vigentes. Rasga peles. Algumas vezes sem remendos.</p>
<p>Esta, para mim, é a leitura principal de La Piel Que Habito. É a mensagem de fundo de um filme que pode ser visto apenas como uma sequência de bizarrices. Ok, essa compreensão também não estaria equivocada. Mas como qualquer outro filme de Almodóvar, o diretor quer dizer mais do que o óbvio. Pelo que eu comentei antes, achei o filme interessante. Os atores, mais uma vez, são um ítem a parte. Muito bem escolhidos pelo diretor, eles dão um show. Convencem. Emocionam. Conduzem os espectadores pela mão.</p>
<p>Antonio Banderas, que há tempos não me convencia como ator, está bem. Para a minha surpresa, devo admitir. Ele não está exagerado &#8211; em um papel onde não seria difícil um ator se perder. Está sóbrio, preciso, charmoso e viril, como o personagem exige. Elena Anaya também está perfeita, mostrando fragilidade nos gestos e firmeza no olhar que definem a personagem. Marisa Paredes&#8230; bem, ela está engraçada como sempre. Uma veterana que merece respeito. Mas quem rouba a cena, para mim, foi o ator Jan Cornet. Fantástico. Ele vai ganhando pontos conforme a história vai ficando mais densa. Mas toda a sua interpretação é bem cadenciada, equilibrada para cada momento.</p>
<p>Até aqui, só falei dos acertos de La Piel Que Habito. Mas o filme tem algumas falhas também, a meu ver. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Para começar, e acho que só nós, brasileiros, vamos entender esta crítica com a devida prudência, achei muito &#8220;fake&#8221; a forma com que o diretor, que conhece bem o Brasil, simplificou a história de Zeca (<a href="http://www.imdb.com/name/nm0959304/">Roberto Álamo</a>). Meio boba a mistura do português com o espanhol &#8211; ok, muitos brasileiros que moram na Espanha falam o &#8220;portunhol&#8221;, mas não vi muito sentido em introduzir isso na história. Também bastante óbvia a ideia de &#8220;meu filho não foi criado por mim, e sim em uma favela, virando &#8216;aviãozinho&#8217; logo cedo&#8221; para justificar o desvio de Zeca. A velha e batida história de que qualquer criança que cresce na favela está fadada a ser bandido. Achei bobo, simplista. Dispensável.</p>
<p>Além deste ponto e, francamente, o que mais me incomodou, foi o final. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Ok, sabemos que Almodóvar é dramático. Quem conhece um pouco mais de perto a cultura espanhola, sabe que eles gostam de um drama. Mas aquele &#8220;tiroteio&#8221; realmente era a forma mais interessante de terminar a história? Para o meu gosto, pareceu demais com o final de qualquer novela. Muito previsível e simplista&#8230; até parecia que o diretor estava com pressa de terminar o trabalho. Almodóvar me deu a impressão, com este final, que ele achou muito mais interessante contar a história do que terminá-la. Além disso, há a cena do vestido&#8230; eu acho que foi uma forma bacana de terminar o filme. Afinal, como o personagem convenceria quem ele queria com a sua história? Elementos simbólicos sempre ajudam neste sentido. Mas não deixei de me perguntar, mesmo assim, da onde ele tirou aquele vestido? A peça estaria na casa da mãe dele e ele passou lá antes de ir para a loja, já vestido? Certo, nem todo filme precisa ser lógico e convencer em todos os seus pontos. Ainda assim, estas sequências finais me incomodaram e tiraram parte do êxito do filme.</p>
<p><strong>NOTA:</strong> 8,8.</p>
<p><strong>OBS DE PÉ DE PÁGINA:</strong> Acho que é hora de fazer uma confissão, por aqui. Afinal, eis o último dia de 2011. E eis que publico mais um texto atrasado. E a minha confissão para vocês, queridos leitores deste blog, é que eu também sou um pouco rara. Não com o talento do Almodóvar para rareza &#8211; e outras coisitas más &#8211; mas sou meio estranha para outras coisas. Como na decisão sobre o filme seguinte que eu vou assistir.</p>
<p>La Piel Que Habito estava na minha lista de filmes a serem assistidos há vários e vários meses. Claro, o novo filme do Almodóvar, só poderia fazer parte da minha lista. Mas daí ele foi lançado, chegou aos cinemas brasileiros, e eu não consegui assistí-lo naquele momento. Daí eu pensei: &#8220;Ah, agora passou do tempo&#8221;. Porque eu sou estranha assim&#8230; por mais que eu goste de um diretor ou por mais que eu queira ver a um determinado filme, se eu acho que passou do tempo de assistí-lo, eu deixo pra lá. E vou assistir a outra produção qualquer que está na minha lista.</p>
<p>Só voltei atrás e assisti a La Piel Que Habito no início desta semana porque eu vi que ele está concorrendo ao próximo <a href="http://www.goldenglobes.org/">Globo de Ouro</a>. Daí eu pensei: &#8220;Taí a minha desculpa para ressuscitá-lo&#8221;. E eis que ele acabou sendo o último filme que eu assisti em 2011. Queria ver outro filme, esta semana, mas não deu tempo. Gostei que, no fim das contas, mesmo que meio que por acidente, acabou sendo este o último a aparecer por aqui em 2011. Faz sentido. Quem sabe esta não é uma homenagem indireta à Espanha, país que eu adoro e que voltei a visitar este ano? Pois&#8230;</p>
<p>Até o momento La Piel Que Habito não obteve êxito nos cinemas. Há estimativas de que o filme tenha custado cerca de US$ 13 milhões. Nos Estados Unidos, até o dia  18 de dezembro, ele tinha arrecadado pouco mais de US$ 2,94 milhões. E olha que Almodóvar é bem conhecido e respeitado na terra do Tio Sam. Na Espanha, o filme chegou perto de conseguir uma bilheteria de US$ 5,8 milhões. No fim das contas, juntando todo o resultado nos cinemas, talvez o filme se pague. Mas não conseguirá quase lucro algum. Algo ruim, claro. Mas nada que impedirá o diretor a seguir trabalhando.</p>
<p>Esta produção estreou no <a href="http://www.festival-cannes.fr/">Festival de Cannes</a>, em maio de 2011. Depois, ele participou de outros 12 festivais e duas semanas de cinema. Entre os festivais, esteve no Karlovy Vary, no de Toronto, no do Rio de Janeiro e em Estocolmo. Mesmo com esta trajetória, ele não saiu vencedor em nenhum evento no qual participou.</p>
<p>O único prêmio recebido por La Piel Que Habito, até o momento, foi o de melhor filme em língua estrangeira entregue pela Associação de Críticos de Cinema de Washington DC. Além deste, ele foi indicado a outros sete prêmios.</p>
<p>Francamente, não acho que este novo trabalho de Almodóvar vai ganhar o próximo Globo de Ouro. Não porque o diretor não mereça. Não porque o filme seja ruim. Mas eu acho que há concorrentes mais fortes. Não assisti a nenhum dos outros quatro indicados, mas acho que seria mais fácil a crítica premiar o iraniano <a href="http://www.sonyclassics.com/aseparation/">Jodaeiye Nader az Simin</a> (que tem a nota 8,6 no <a href="http://www.imdb.com/">IMDb</a>) ou o belga <a href="http://www.legaminauvelo-lefilm.com/">Le Gamin Au Vélo</a> (com nota 7,6) do que este La Piel Que Habito. Se fosse outro filme do Almodóvar, acho que ele até poderia ganhar. Mas este novo é muito &#8220;underground&#8221; para levar um prêmio comercial como o Globo de Ouro. Sempre posso errar, claro, mas esta é a minha aposta.</p>
<p>Para quem ficou curioso de saber onde o filme foi rodado, além de Toledo, que aparece identificada no início da história, La Piel Que Habito tem cenas rodadas em Pontevedra, na Galícia; em Puente Ulla e Santiago de Compostela, em La Coruña; e em Madrid.</p>
<p>Todos os atores que aparecem no elenco deste filme fazem um belo trabalho. Mesmo o personagem tosco do Zeca é bem interpretado por Roberto Álamo. Sempre é um prazer assistir a Marisa Paredes. E foi surpreendente ver Banderas bem, assim como o trabalho competente de Elena Anaya. Volto a comentar que achei o grande destaque do filme o ator Jan Cornet. E faltou citar, antes, o bom trabalho de <a href="http://www.imdb.com/name/nm2848198/">Blanca Suárez</a> como Norma (ou Norminha), filha de Robert Ledgard;  <a href="http://www.imdb.com/name/nm1036659/">Bárbara Lennie</a> como Cristina, em uma ponta que se destaca na produção; o conhecido ator (pelo menos na Espanha) <a href="http://www.imdb.com/name/nm0273464/">Eduard Fernández</a> como Fulgencio, amigo do protagonista e que ajuda ele a manter uma clínica ilegal; e de <a href="http://www.imdb.com/name/nm0147308/">Fernando Cayo</a> em uma ponta como médico.</p>
<p>Como acabou sendo costume na segunda parte da filmografia de Almodóvar, aqui, outra vez, ele dedica momentos relevantes da história para a interpretação de algumas músicas. A artista da vez, na ótica do diretor, é <a href="http://www.imdb.com/name/nm2223912/">Buika</a>, uma cantora de 39 anos nascida na cidade de Palma, nas Ilhas Baleares. No filme, são interpretadas duas canções dela: El Último Trago e Pelo Amor.</p>
<p>A trilha sonora é fundamental para este filme dar certo. Mas além dela, outros aspectos técnicos merecem ser destacados. O diretor de fotografia <a href="http://www.imdb.com/name/nm0003900/">José Luis Alcaine</a> faz um belo trabalho, assim como <a href="http://www.imdb.com/name/nm0757814/">José Salcedo</a> na edição, <a href="http://www.imdb.com/name/nm0351016/">Antxón Gómez</a> no design de produção e <a href="http://www.imdb.com/name/nm0090855/">Carlos Bodelón</a> na direção de arte. O figurino, assim como a trilha e a fotografia, também ganha relevância especial. Um bom trabalho de <a href="http://www.imdb.com/name/nm0214625/">Paco Delgado</a>.</p>
<p>Os usuários do site IMDb deram uma boa nota para La Piel Que Habito: 7,7. Os críticos que tem os seus textos linkados no <a href="http://www.rottentomatoes.com/">Rotten Tomatoes</a> quase acompanharam esta nota. Eles publicaram 112 textos positivos e 30 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 79% (e uma nota média de 7,3). Especialmente a nota me chamou a atenção, já que os críticos do Rotten Tomatoes geralmente são bem exigentes.</p>
<p>Lembrei de outro detalhe do filme que talvez incomode a algumas pessoas mais detalhistas. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Alguns de vocês podem pensar, como eu: &#8220;Ok, até posso engolir que Vera foi totalmente &#8216;moldada&#8217; ao gosto de Robert, cortando aqui, emendando ali, enchendo com silicone acolá. Mas como diabos ela foi ter aquela voz, tão diferente?&#8221;. Pois então, eis algo muito mais difícil de mudar. Não apenas as mãos e pés são complicadas de serem alteradas. Assim como a estrutura física &#8211; um ser mais alto que outro. Mas principalmente, e eis o ponto, a questão da voz. Só que no início do filme vemos Marilia colocando um remédio na bebida de Vera. Poderia ser um tipo de hormônio &#8211; ainda que eu ache que deveria ser tranquilizante. E até o &#8220;ópio&#8221; poderia ser outra substância. Ou enfim, Vera poderia ser tratada com hormônios em outro momento, o que &#8220;afinaria&#8221; a voz. E no fim, é preciso &#8220;tapar um olho&#8221; para embarcar na história, não é mesmo? <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </p>
<p>Ah sim, e antes que eu me esqueça, La Piel Que Habito não foi o indicado da Espanha para o próximo <a href="http://www.oscar.com/">Oscar</a>. Sendo assim, ele concorreria na premiação apenas em alguma categoria principal &#8211; melhor filme, diretor, atores ou roteiro. Acho difícil.</p>
<p>Não comentei antes, mas La Piel Que Habito foi escrito por Pedro Almodóvar com a colaboração de Agustín Almodóvar, seu irmão. Os dois se basearam no livro Tarantula, de Thierry Jonquet.</p>
<p><strong>CONCLUSÃO:</strong> Este não é o melhor filme de Almodóvar. Mas com esta produção ele retoma uma fase de estranheza deixada para trás há bastante tempo. Almodóvar dá um tempo na profundidade dramática plasmada em suas últimas produções para contar uma história que flerta entre o terror psicológico, o terror ligeiro e o drama. Claro que há loucura e sexo no meio da história. Dois dos temas de fundo preferidos do diretor. E ainda que ele não emocione, como em outras ocasiões, ele provoca outros sentimentos. E se o cinema existe para isso, para provocar, Almodóvar segue em forma. Há momentos em que a história flerta perigosamente com o mau gosto, com o tosco, mas o diretor acerta o momento exato que faz ele desviar-se do abismo. Como eu disse antes, não é o seu melhor filme. Mas La Piel Que Habito mostra um frescor importante do diretor. Quem sabe o próximo não vem ainda melhor calibrado?</p>
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		<title>Pa Negre &#8211; Black Bread &#8211; Pão Negro</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Dec 2011 01:22:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandra</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://moviesense.files.wordpress.com/2011/12/panegre3.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3795" title="panegre3" src="http://moviesense.files.wordpress.com/2011/12/panegre3.jpg?w=650&#038;h=975" alt="" width="650" height="975" /></a></p>
<p>Uma Espanha para sentir-se envergonhado. Onde as pessoas andam com medo. Um país de poderosos e onde os mais &#8220;fortes&#8221;, claramente, subjugam os mais &#8220;fracos&#8221;. Onde se ensina preconceitos na escola. <a href="http://www.panegre.com/">Pa Negre</a> trata desta Espanha de uma forma romântica e ao mesmo tempo contundente. Sob a ótica &#8211; adivinhem? &#8211; de um menino. Certo, este é um recurso bastante conhecido e batido. Quase caindo de maduro. Mas não parece deslocado nesta produção dirigida por <a href="http://www.imdb.com/name/nm0898063/">Agustí Villaronga</a>. Escolhido pela Academia de Cinema espanhola para representar o país no próximo <a href="http://oscar.go.com/">Oscar</a>, Pa Negre é uma produção interessante &#8211; e que deve mexer, em especial, com os sentimentos de quem ainda vive os resquícios e ecos daquele tempo, para o bem, e para o mal.</p>
<p><strong>A HISTÓRIA:</strong> Um homem puxa um cavalo e caminha à frente dele em um bosque. A roda da carroça puxada pelo animal fica presa em umas pedras. Quando tenta soltá-las, o homem escuta um barulho entre as folhas secas. Assustado, ele busca a fonte do ruído, mas não encontra ninguém. Ele pega um canivete, mas acaba sendo atacado por alguém encapuzado, por trás. Dentro da carroça, o filho dele vê o pai ser morto. Depois, o encapuzado puxa a carroça, mata o cavalo e faz eles caírem de um penhasco. Outro menino corre, após ouvir o barulho, e vê o cavalo estraçalhado. Em seguida, encontra o menino que estava dentro da carroça, e o reconhece: é Culet (<a href="http://www.imdb.com/name/nm3704987/">Miquel Borràs</a>). O menino, todo ferido e com os olhos arregalados, repete o nome de Pitorliua. O menino, Andreu (<a href="http://www.imdb.com/name/nm3609850/">Francesc Colomer</a>) então corre para avisar a mãe do menino ferido. Em seguida, aparece o pai do garoto, Farriol (<a href="http://www.rogercasamajor.com/">Roger Casamajor</a>). A partir daquelas mortes, Andreu vai conhecendo a verdade sobre a própria história, da família e das pessoas que o cercam.</p>
<p><strong>VOLTANDO À CRÍTICA</strong> (SPOILER &#8211; aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso eu só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Pa Negre): A sequência inicial de Pa Negre é a mais contundente da história. E dá a ideia de que veremos um filme assim, direto, duro, sem &#8220;papas na língua&#8221;. Mas pouco a pouco vamos vendo que não é bem assim. O filme suaviza, ainda que nunca perca a direção.</p>
<p>Como tantas outras produções em que um garoto centraliza as atenções do roteiro, em Pa Negre o espectador é convidado a ir descobrindo o que está acontecendo na mesma levada que o protagonista. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Pouco a pouco, Andreu percebe que vive em uma sociedade desigual, violenta e cheia de mentiras e fingimento. Parece que todos estão contaminados por aquela realidade de contrastes alimentados com a miséria alheia. A questão política é citada várias vezes, especialmente pelos pais de Andreu, mas a questão dos &#8220;comunistas&#8221; perde espaço para o preconceito contra os homossexuais. A &#8220;lenda&#8221; de Pitorliua é apenas um dos elementos que transpassa todo o filme e que toca neste ponto.</p>
<p>Importante saber de que época estamos falando. E mais para o final do filme, quando a câmera do diretor Villaronga percorre o cenário de uma prisão, está na parede a resposta para esta dúvida: 1944. Um ano considerado marcante para a Espanha. A Guerra Civil Espanhola tinha terminado, o general Franco estava no poder e a Europa estava mergulhada ainda na Segunda Guerra Mundial. Eram tempos de violência, extremismo e privações. Mas havia algo de errado além dos generais e daquele grupo de homens que tomavam decisões equivocadas. Havia hipocrisia, corrupção e violência no coração das sociedades &#8211; incluindo a espanhola.</p>
<p>O ano de 1944, como eu disse antes, foi marcante para aquela época. Como bem explica <a href="http://www.elpais.com/articulo/espana/1944/Operacion/Reconquista/Espana/elpepiesp/20091018elpepinac_11/Tes">esta reportagem do jornal El País</a> (em espanhol), aquele ano foi marcado pela Operação Reconquista de Espanha, que envolveu 4 mil homens motivados a derrubar o general Franco. A ideia deles era &#8220;invadir&#8221; o próprio país através da fronteira com a França e tirar do poder o ditador. A operação deu errado. Mas aqueles tempos &#8220;negros&#8221; &#8211; e justamente o ano de 1944, considerado do &#8220;fim da esperança&#8221; por esta operação, que deixou claro que não seria possível mudar o que estava posto &#8211; também serviram de pano de fundo para outro filme: <a href="http://www.clubcultura.com/clubcine/clubcineastas/guillermodeltoro/ellaberintodelfauno/">El Laberinto de Fauno</a>, dirigido e escrito por <a href="http://deltorofilms.com/wp/">Guillermo del Toro</a> &#8211; e, francamente, muito melhor que este Pa Negre.</p>
<p>O curioso é que mesmo falando tanto em política, Pa Negre não deixa claro quem são os &#8220;vermelhos&#8221; (rojos) e quem são os fascistas. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Quer dizer, há vários indícios e dicas, jogados aqui e ali. Mas acho que acabou sendo proposital, da parte do diretor e roteirista Agustí Villaronga, que se baseou na obra de <a href="http://www.lletra.com/es/autor/emili-teixidor">Emili Teixidor</a>, deixar os lados pouco definidos. A ideia que o filme nos dá, desta forma, é que era difícil distinguir entre uns e outros. E que nem sempre o discurso de &#8220;esquerdistas&#8221; como o pai de Andreu poderiam ser levados à sério. Afinal, no fim das contas, o que eles precisavam era sobreviver. E para conseguir isso, em épocas especialmente complicadas, muitas vezes os convictos se vêem obrigados a largar mão de seus ideais e convicções. E ao fazer isso, eles se tornam iguais, exatamente, àqueles que eles gostariam tanto de combater.</p>
<p>Como bem explica <a href="http://www.hispanista.com.br/revista/artigo37esp.htm">este texto interessante e completo de Paulo Roberto de Almeida no site Hispanista</a>, &#8220;a crise econômica mundial e o período de recessão que atinge toda a Europa, trazendo desequilíbrios econômicos igualmente para a Espanha&#8221; tornam difícil &#8220;o prosseguimento da política reformista&#8221; no início da década de 1930. O resultado é que a direita ganha as novas eleições e, entre 1934 e 1935, &#8220;o governo instalado persegue uma política de anulação pura e simples das conquistas sociais e regionais alcançadas no período anterior&#8221;. De acordo com Almeida, citando Jackson, o que a Espanha viveu naqueles anos &#8220;não se tratava de uma simples guerra civil, no sentido em que as partes em luta se digladiavam por questões meramente locais ou se dividiam em função de querelas políticas nacionais. A Espanha dos anos trinta foi um grande laboratório político e militar de todas as rupturas ideológicas deste século, em particular a luta entre a democracia, o fascismo e o comunismo&#8221;.</p>
<p>Neste cenário, jogou um papel importante a Igreja Católica na Espanha, defendendo os princípios de família, propriedade e combatendo os &#8220;vermelhos&#8221;. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Não por acaso toda a repressão e &#8220;ojeriza&#8221; das pessoas, especialmente dos homens, com figuras como Pitorliua (<a href="http://www.imdb.com/name/nm2969338/">Joan Carles Suau</a>). O exemplo dele, que acaba percorrendo todo o filme para imprimir-lhe um pouco de &#8220;mistério&#8221;, revela também a hipocrisia daquela sociedade &#8211; e de tantas outras, inclusive nos dias atuais. Afinal, muitos homens &#8220;se divertiam&#8221; com Pitorliua. Mas eles jamais admitiriam isso.</p>
<p>E a poderosa família Manubens, que nesta produção &#8220;incorpora&#8221; todo o tradicionalismo da sociedade espanhola de &#8220;posses&#8221; da época, não poderia suportar aquele tipo de &#8220;afronta&#8221; aos bons costumes. (SPOILER &#8211; não leia&#8230; bem, você já sabe). Pela perseguição e brutalidade sofrida por Pitorliua, pelo caminho equivocado que Farriol foi obrigado (será?) a percorrer, pelos ensinamentos absurdos das escolas representadas pela aula do professor Escolapis (<a href="http://www.imdb.com/name/nm1227469/">Jordi Esteva</a>) e por tantas mentiras escondidas pelo autoritarismo disfarçado em várias famílias do filme, aquela era uma Espanha para ter vergonha. E os ecos daquele tempo continuam ecoando por lá. Seja para que alguns destes erros não se repitam mais, seja para reforçar algumas ideias equivocadas em algumas &#8220;rincões&#8221; daquele país. Pa Negre, por toda a discussão que ele pode suscitar, merece aplausos. Nem tanto pela qualidade fenomenal da produção, que tem alguns erros aqui e ali, mas por resgatar aquelas histórias, seus panos de fundo, e retomar discussões muitas vezes deixadas de lado. Ter memória histórica é fundamental. E a Espanha sabe disso. Espero que, um dia, o Brasil e outros países também.</p>
<p><strong>NOTA:</strong> 8.</p>
<p><strong>OBS DE PÉ DE PÁGINA:</strong> Algo que Pa Negre tem de bom é o trabalho dos atores. Experientes, eles dão conta do recado e despertam a emoção devida. Vestem a camisa, convencem. Ainda que todos estejam bem, merecem destaque <a href="http://www.imdb.com/name/nm1155977/">Nora Navas</a> como Florència, mãe de Andreu; Roger Casamajor como o pai do garoto, Farriol; <a href="http://www.imdb.com/name/nm0555403/">Laia Marull</a> como Pauleta, mulher de Dionís (que é morto no início do filme e interpretado por <a href="http://www.imdb.com/name/nm0380359/">Andrés Herrera</a>); e <a href="http://www.imdb.com/name/nm3608932/">Marina Comas</a> como a menina Núria, que encanta e assusta o protagonista. O garoto que interpreta a Andreu, Francesc Colomer, também está bem. Ainda que ele irrite um pouco, em alguns momentos, pela visível falta de experiência e insegurança em certas cenas. Mas no geral, o menino está muito bem.</p>
<p>Na parte técnica do filme, fazem um bom trabalho o diretor de fotografia <a href="http://www.antonioriestra.com/">Antonio Riestra</a> e o editor <a href="http://www.imdb.com/name/nm0739828/">Raúl Román</a>. A trilha sonora de <a href="http://www.imdb.com/name/nm0656576/">José Manuel Pagán</a> praticamente inexiste, mas quem ficou curioso para saber quem assinou a parte musical do filme, eis o seu responsável. Falando em som, achei ruim o trabalho feito neste filme. Tanto que ele acabou rendendo &#8220;retrabalho&#8221;, ou seja, a regravação de vários diálogos depois, na pós-produção.</p>
<p>Pa Negre foi todo rodado na Cataluña. Em localidades próximas de Barcelona, em Lleida e em Girona.</p>
<p>Esse filme pode ser considerado uma grande produção, porque custou aproximadamente 6 milhões de euros. Uma quantidade bem acima do padrão de gastos do cinema espanhol. Segundo o site <a href="http://www.imdb.com/">IMDb</a>, no entanto, o filme não foi muito bem nos cinemas da Espanha. Ele arrecadou pouco mais de 839 mil euros depois de dois meses de exibição nos cinemas.</p>
<p>Pa Negre estreou no dia 21 de setembro de 2010 no Festival de Cinema de San Sebastián. Depois ele passou por outros cinco festivais. Nesta trajetória, ele ganhou impressionantes 26 prêmios, e foi indicado a outros nove. A produção ganhou nada mais, nada menos que 13 prêmios no Gaudí Awards &#8211; entre outros, os de melhor filme falado em catalão, melhor diretor, melhor direção de fotografia, melhor roteiro, melhor ator coadjuvante, melhor atriz e melhor atriz coadjuvante. Ele ganhou também nove prêmios no Goya Awards, incluindo melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro, melhor atriz, melhor atriz coadjuvante e melhores nova atriz e novo ator.</p>
<p>Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Pa Negre. Uma boa nota, para os padrões do site. O <a href="http://www.rottentomatoes.com/">Rotten Tomatoes</a> apresenta apenas uma crítica para o filme. E positiva, assinada por Fernando F. Croce, do House Next Door. Mas essa falta de críticas e a quantidade de prêmios que o filme recebeu se restringirem, basicamente, à Espanha, revelam o quanto esta produção está longe de ser conhecida &#8211; pelo menos o suficiente para chegar com alguma força ao Oscar.</p>
<p>Mesmo que o filme não trate deste tema, acho interessante falar sobre &#8220;os meninos roubados pelo franquismo&#8221;. Foram chamados assim os garotos que, durante a Guerra Civil Espanhola, foram levados das casas de suas famílias republicanas depois que suas mães foram mortas ou presas. Vale começar a leitura por <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Meninos_roubados_pelo_franquismo">este artigo da Wikipédia</a>. Para quem quiser saber um pouco mais sobra a Guerra Civil Espanhola, também recomendo <a href="http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/guerra_civil_espanha1.htm">estes textos de Voltaire Schilling</a>.</p>
<p>Ah sim, e um comentário importante sobre o final de Pa Negre (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme): tenho certeza que muita gente ficará meio &#8220;indignada&#8221; com o desprezo com que o protagonista trata a própria mãe, na parte final. Mas eis que, neste momento, a história deixa claro a vergonha que algumas gerações futuras sentiram de seus próprios pais, do que eles foram capazes de fazer &#8211; mesmo que isso fosse em nome deles, dos filhos, e mesmo que fosse para sobreviver. No final, o diretor e o roteirista deixam claro a mensagem de que nada justifica atos hediondos. Mais tarde, no futuro, até é possível que Andreu desculpe a mãe e o pai. Mas certamente ele tentará ao máximo evitar os erros que eles cometeram. O irônico, contudo, é que a vida melhorada que ele tiver, no final das contas, ele deve justamente para as pessoas que ele desprezou um dia.</p>
<p>Pa Negre é uma co-produção da Espanha e da França.</p>
<p><strong>CONCLUSÃO:</strong> Conhecer a história de um país é, também, destrinchar os comportamentos de sua gente. Aquilo que eles escondem, ou do que se orgulham. Pa Negre trata de um tempo difícil mas, mais que isso, do complicado que pode ser descobrir a verdade sobre a sua própria família &#8211; em uma clara alusão à própria nação. Bem dirigido, com um ritmo que busca acompanhar, com calma, os sentimentos e as descobertas do protagonista, mas sem &#8220;enrolações&#8221;, este filme mostra a maturidade do cinema de releitura histórica espanhol. O roteiro também se revela bastante equilibrado entre o drama &#8211; a essência da história -, algumas pitadas de comédia, romance (normalmente com certa sordidez) e memória histórica. O que incomoda um pouco, na parte técnica, é a dublagem dos atores feitas após as filmagens &#8211; algo que fica nítido em outras produções espanholas e brasileiras. Mas fora este pequeno detalhe, que realmente é pequeno, é um filme bom. Ele começa visceral, depois vai diminuindo a força, e não termina de uma maneira muito surpreendente. Ainda assim, mantêm a crítica do roteiro até o final, o que é um ponto positivo. Deve interessar a maioria do público, especialmente àqueles que gostam de conhecer um pouco a história de momentos de ruptura social de países como a Espanha.</p>
<p><strong>PALPITE PARA O OSCAR 2012:</strong> Eis um filme com vários elementos que podem agradar aos jurados da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Primeiro, Pan Negre tem um menino no centro da história. Depois, ele é bem filmado, tem um elenco competente de atores e trata de um momento histórico importante &#8211; para a Espanha e para o mundo. Pela história e pela qualidade técnica do filme (exceto pelo som, que apresenta várias falhas), ele se mostra um bom concorrente. Mas é preciso ver aos demais filmes que estão na disputa para mensurar se Pa Negre poderia chegar entre os cinco finalistas.</p>
<p>De fato, falta um pouco mais de ousadia e criatividade nesta produção. Diferente do que outro filme que se passa em 1944 na Espanha fez: El Laberinto del Fauno. Pa Negre é uma produção cheia de boas intenções. Bem produzida, mas lhe falta um pouco mais de &#8220;energia&#8221;, de encanto e/ou de invenção. Ele não deixa de ser um filme interessante, mas lhe falta um pouco mais de tempero para surpreender o espectador. Talvez, para os votantes da Academia, baste as qualidades deste filme. Para indicá-lo entre os cinco. Mas não vejo que ele tenha méritos suficientes para levar a estatueta. Não é conhecido e nem badalado o suficiente para isso. E francamente, acho que não terá forças nem para ficar entre os cinco finalistas.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/moviesense.wordpress.com/3788/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/moviesense.wordpress.com/3788/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/moviesense.wordpress.com/3788/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/moviesense.wordpress.com/3788/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/moviesense.wordpress.com/3788/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/moviesense.wordpress.com/3788/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/moviesense.wordpress.com/3788/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/moviesense.wordpress.com/3788/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/moviesense.wordpress.com/3788/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/moviesense.wordpress.com/3788/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/moviesense.wordpress.com/3788/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/moviesense.wordpress.com/3788/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/moviesense.wordpress.com/3788/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/moviesense.wordpress.com/3788/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=moviesense.wordpress.com&amp;blog=1601314&amp;post=3788&amp;subd=moviesense&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>A Torinói Ló &#8211; The Turin Horse &#8211; O Cavalo de Turin</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Dec 2011 15:31:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandra</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://moviesense.files.wordpress.com/2011/12/atorinoilo1.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3784" title="atorinoilo1" src="http://moviesense.files.wordpress.com/2011/12/atorinoilo1.jpg?w=650" alt=""   /></a></p>
<p>Um filme que começa citando a Nietzsche não pode ser ruim, certo? Sim e não. Depende, claro, do ponto de vista. Tenho certeza que os intelectuais e alguns apreciadores do cinema vão tirar o chapéu para este <a href="http://www.imdb.com/title/tt1316540/">A Torinói Ló</a>. Da minha parte, achei um filme chato, longo, teoricamente artístico, mas essencialmente insuportável. Não pelo que acontece, mas pelo que deixa de acontecer.</p>
<p><strong>A HISTÓRIA:</strong> Uma voz conta, sem imagens, que em Turin, no dia 3 de janeiro de 1889, Friedrich Nietzsche saiu pela porta do número 6 da Via Carlo Alberto para caminhar ou para buscar suas correspondências nos Correios. &#8220;Não muito longe, aliás, bastante longe dele, um cacheiro estava tendo problemas com o seu teimoso cavalo&#8221;, conta o narrador. Apesar de todos os esforços do cacheiro, o animal se recusava a mover-se. O dono do cavalo perdeu a paciência e começou a chicoteá-lo. Nietzsche teria surgido no meio da &#8220;multidão&#8221; e interrompe a sessão de tortura ao colocar os braços ao redor do pescoço do cavalo, para a ira do cocheiro. Levado por um vizinho para casa, ele teria ficado dois dias silencioso no sofá, até que teria dito: &#8220;Mãe, eu sou um tolo&#8221;. Segundo o narrador, Nietzsche teria vivido mais 10 anos, calmo e louco, aos cuidados da mãe e das irmãs. Mas sobre o cavalo, não se soube mais nada. A partir daí, mergulhamos na história de um cavalo castigado, seu dono e filha. Uma história silenciosa e louca, que reflete o &#8220;fim do mundo&#8221; ou, pelo menos, da &#8220;Humanidade&#8221;.</p>
<p><strong>VOLTANDO À CRÍTICA</strong> (SPOILER &#8211; aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a A Torinói Ló): Eu entendo as intenções dos diretores <a href="http://www.imdb.com/name/nm0850601/">Béla Tarr</a> e <a href="http://www.imdb.com/name/nm0398555/">Ágnes Hranitzky</a>. Eles buscaram imprimir em película a falta de esperanças em uma Humanidade violenta, fria e que age de forma automática. Sem refletir, sem relacionar-se afetivamente. O fim dos tempos, neste cenário, deveria ser visto quase como uma recompensa.</p>
<p>Compreendo também que eles viram na crueza do neorrealismo italiano o recurso natural para contar essa história, embebida até a raiz da crítica de Nietzsche, o homenageado da produção. Tudo isso é compreensível. Mas, francamente? Não vejo muito espaço, atualmente, no cinema moderno (ou pós-moderno) para fazermos um filme tão embebido no neorrealismo italiano. Não tenho problema algum, pelo contrário, em assistir aos clássicos do gênero. Mas clássicos são clássicos. Eles ajudaram a definir uma época, surgiram para contrapor uma realidade específica. Não vejo problemas em homenagear um gênero do cinema, mas é preciso fazer algo novo e condizente com a realidade em que vivemos agora.</p>
<p>A Torinói Ló poderia, muito bem, ser um filme mudo. Bem, ele quase é um filme mudo &#8211; mas sem o significado e a criatividade que os filmes mudos, em sua época, tinham. Qualquer filme de Charles Chaplin, na fase do cinema mudo, é mais criativo e dinâmico que esta produção dirigida por Tarr e Hranitzky. Para mim, ficou evidente a intenção do filme em angustiar o espectador, tornar a experiência de ver a este filme tudo, menos prazerosa. Compreensível, especialmente pela crítica que a produção busca fazer. Mas serei franca mais uma vez: para um filme ser crítico e provocar angústia, ele não precisa ser interminável, sonolento, chato até o extremo. Se eu quiser passar por esta experiência, busco outras formas de tortura, e não o cinema.</p>
<p>Bem, mas falemos da produção. O roteiro escrito por <a href="http://www.krasznahorkai.hu/">László Krasznahorkai</a> e Béla Tarr começa contando, apenas em narrativa em &#8220;off&#8221; (sem imagens) a história da defesa de Nietzsche de um cavalo que era fustigado pelo seu proprietário. Para a época em que vivia e, até pela ótica de muitas pessoas atualmente, aquela manifestação do filósofo já era um indicativo de que ele estava ficando louco. Mas aí aparece a pergunta fundamental: o que é a loucura? Muitas vezes uma pessoa é considerada louca apenas porque ousa pensar e agir diferente dos padrões. E o que A Torinói Ló deixa claro é que, tantas e tantas vezes, na história das nossas civilizações, os padrões sociais eram absurdos. E deveriam ser combatidos.</p>
<p>Depois da narrativa em &#8220;off&#8221; da atitude de Nietzsche, mergulhamos na história do cavalo que foi defendido pelo filósofo. Uma história possível, é claro. E com ela, assistimos a uma alegoria do &#8220;ocaso da Humanidade&#8221;. Pai e filha que acompanhamos são autômatas. Simbolizam, desta forma, a própria Humanidade. Afinal, quantas pessoas não &#8220;fazem todo dia tudo sempre igual&#8221;, como diria o Chico? Muitas, certamente. Agem sem pensar, sem realmente sentir os sabores, cheiros, nada. Seus corações pulsam por hábito, não por convicção.</p>
<p>Desta forma, acompanhamos pais e filhas, miseráveis. Mas a miséria deles está menos na ausência de móveis e de comida farta na mesa e muito mais na falta de carinho, de esperança, de emoção. Eles praticamente não trocam palavras. O único momento &#8220;verborrágico&#8221; no filme acontece quando a família &#8220;de dois&#8221; recebe a visita do vizinho Bernhard (<a href="http://www.imdb.com/name/nm0466345/">Mihály Kormos</a>). Ele fala sobre a destruição da &#8220;cidade&#8221; (certamente uma alegoria para &#8220;civilização&#8221;), e comenta sobre a responsabilidade &#8220;deles&#8221; (das pessoas que integravam essa civilização) na própria destruição. Aí está o tratado do filme. De que o cataclismo que assistimos não é algo &#8220;divino&#8221; (Nietzsche dizia que o homem teve que inventar Deus), mas um efeito do vício pelo julgamento, mais a cobiça e a ganância dos homens e mulheres que integram as diferentes sociedades. &#8220;Porque tudo que eles tocam, e eles tocam tudo, foi degradado&#8221;, diz o personagem.</p>
<p>Quem lê o resumo anterior, pode achar que o filme é inteligente, interessante. Até que a crítica é pertinente. Mas a forma de apresentá-la é excessiva. Para nos mostrar o que ele nos mostra, A Torinói Ló poderia ter 30 minutos de duração. E não duas horas e 46 minutos! Mesmo provocando um desejo irrepreensível de deixar de assistí-lo pela metade e, nos insistentes, uma vontade de dormir profunda, este filme tem algumas particularidades interessantes. Primeiro, que mesmo não &#8220;acontecendo muita coisa&#8221; no filme, o diretor nos mostra maneiras diferenciadas de &#8220;prender&#8221; a atenção e/ou variar a narrativa de forma simples. O &#8220;eles fazem tudo sempre igual&#8221; se mostra diferente com uma simples variação de câmera. Em um momento, acompanhamos a rotina da filha vestindo o pai por um ângulo. No outro dia, acompanhamos o mesmo, mas por outro ângulo. E isso, mais um ou outro detalhe, é o que fazem o filme não ser uma repetição permanente. Há uma certa variação no ar, ainda que ela seja restrita.</p>
<p>Primeira parte da produção: clima inglório, sacrifício, os mais fracos (simbolizados pelo cavalo) explorados até o osso pelos mais fortes (dono do cavalo). (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Depois, ela segue mostrando que o cataclismo não iria ceder. Pelo contrário. E como as pessoas lidam com isso? Pelo que mostra o filme, fazendo o mesmo. Não mudam a sua rotina. Depois de um tempo, tentam uma saída, mas já sem chance alguma de conseguir um resultado diferente do desastre. Retornam. Escutam o pior &#8211; o que contribui para a decisão de buscar uma saída -, mas se fazem de surdos. Depois, quando agem, descobrem que o pior está acontecendo. O cavalo é o primeiro a perceber que aquela forma de vida havia terminado. Mas pai e filha continuam. Antes, recebem a visita de &#8220;bárbaros&#8221;. Pessoas que eles não entendem. A quem eles temem. Mas que podem, eles sim, encontrar uma saída &#8211; até porque acreditam que ela existe. Em seu caminho, vão encontrando e intensificando a destruição. E, no final, os protagonistas decidem seguir com a vida quase igual (exceto pelo contato com o exterior, que fica impossibilitado). Mas descobrem suas próprias limitações e que, sem esse contato com o exterior, eles não vão conseguir sobreviver.</p>
<p>O filme é angustiante. Sonolento. Primeiro, pela falta de ação. Depois, pela repetição do que acontece. E, finalmente, pela decadência da humanidade simbolizada pelos protagonistas. Entendo que o filme foi feito da maneira que foi justamente para provocar estes sentimentos no espectador. Mas francamente? Não acho que você precise colocar alfinetes sob as unhas de alguém para fazê-lo sentir dor. Há outras formas, mais interessantes, para fazer alguém ficar angustiado. Não recomendo, pois, A Torinói Ló para ninguém. Há muitas e muitas outras produções mais bacanas para serem assistidas.</p>
<p><strong>NOTA:</strong> 3.</p>
<p><strong>OBS DE PÉ DE PÁGINA:</strong> Logo que terminei de assistir a esse filme, fiquei pensando que nota dar para ele. Provavelmente, &#8220;no calor da hora&#8221;, teria dado uma nota ainda mais baixa que este 3. Mas resolvi dar a nota acima em homenagem ao cavalo &#8211; gostei muito dele &#8211; e pela ousadia dos diretores. Afinal, é preciso ter coragem para lançar um filme como este hoje em dia, no ano 2011. Também gostei dos atores principais, ainda que eles tenham me dado sono. Eu teria aceitado melhor o que eu vi se eu estivesse em um teatro &#8211; onde, provavelmente, eu daria um cochilo, aqui e ali. Além do mais, a nota se justifica pela &#8220;dificuldade&#8221; de algumas cenas, especialmente pela intensificação da tempestade. Foi bem feito.</p>
<p>Os principais responsáveis pelo filme, além dos diretores já citados, são os roteiristas. Ainda que eles não tiveram muito trabalho para escrever diálogos &#8211; poucos estão espalhados pela produção -, eles são os &#8220;culpados&#8221; pela dinâmica e essência da história. O diretor Béla Tarr assina o texto junto com László Krasznahorkai. A direção de fotografia em preto e branco, esta sim, trabalhosa e que merece 15 segundos de palmas, é assinada por <a href="http://www.imdb.com/name/nm0445435/">Fred Kelemen</a>. E a trilha sonora, muito pontual &#8211; restrita à abertura, essencialmente, leva a assinatura de <a href="http://www.imdb.com/name/nm0896902/">Mihály Vig</a>.</p>
<p>Eis um filme fácil de conduzir&#8230; afinal, ele tem, basicamente, dois atores. Um único cenário. Por isso mesmo, vale a pena citar a dupla de protagonistas: <a href="http://www.imdb.com/name/nm0220729/">János Derzsi</a> interpreta ao pai de <a href="http://www.imdb.com/name/nm0126969/">Erika Bók</a>.</p>
<p>Uma curiosidade: A Torinói Ló foi rodado totalmente na cidade de Budapeste, na Hungria.</p>
<p>O filme de Tarr e Hranitzky estreou no Festival de Berlin em fevereiro deste ano. Depois, ele participou de outros 13 festivais e mostras. Nesta trajetória, ganhou quatro prêmios: o Urso de Prata como melhor filme segundo os jurados do Festival de Berlin e o Prêmio FIPRESCI no mesmo evento; e dois prêmios Golden Camera 300 para o diretor de fotografia Fred Kelemen no Festival Internacional de Cinema Brothers Manaki, promovido na cidade de Bitola, na Macedônia.</p>
<p>E outra curiosidade sobre o filme: A Torinói Ló é uma co-produção da Hungria, da França, da Alemanha, da Suíça e dos Estados Unidos.</p>
<p>Para a minha surpresa, A Torinói Ló registra uma ótima nota no site <a href="http://www.imdb.com/">IMDb</a>: 8,3. Muito, muito acima do que eu acho que o filme mereça &#8211; por mais &#8220;artístico&#8221; que ele seja, no fim das contas, ele é apenas chato e longo demais. Apesar de todas as suas intenções&#8230; mas ele funcionaria muito melhor no teatro. Mas não são apenas os usuários do site IMDb que acharam esse filme mais interessante do que eu achei. Não há muitas críticas linkadas no site <a href="http://www.rottentomatoes.com/">Rotten Tomatoes</a>. Mas dos textos que podem ser acessados lá, seis são positivos e dois, negativos. O que garante para a produção uma aprovação de 75% &#8211; e uma nota média de 7,6.</p>
<p><strong>CONCLUSÃO:</strong> Representante da Hungria no próximo <a href="http://oscar.go.com/">Oscar</a>, A Torinói Ló deveria render uma estatueta dourada para cada pessoa que consegue assistí-lo até o final. Porque é dura, bastante complicada esta tarefa. A premissa do filme é interessante: mostrar a decadência da Humanidade através da exploração criativa de um fato ocorrido com Nietzsche. Mas francamente, não era preciso tanta angústia, tanta tortura para o espectador. Planos infindáveis, um estilo de cinema de extremo realismo, ao ponto de sobrarem silêncios e expectativas. Palmas para quem conseguir assistir este filme até o final e, principalmente, para aqueles que gostarem do que acabaram de ver. Da minha parte, achei esta produção excessivamente pretensiosa, cansativa. Talvez rendesse um curta. Mas jamais um longa.</p>
<p><strong>PALPITES PARA O OSCAR:</strong> A Torinói Ló representa a Hungria na disputa por uma vaga no Oscar. Francamente? O filme pode agradar aos críticos e a uma parte dos espectadores. Mas não acho que ele tenha qualquer vocação para chegar entre os finalistas do Oscar. E muito menos levar a estatueta para casa. Acredito que ele ficará de fora da lista dos cinco e, consequentemente, não terá chances de ganhar o prêmio. Se isso acontecer, será uma boa revolução na premiação que, pela primeira vez em muito tempo, premiaria um filme artístico, conceitual e nada popular.</p>
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		<title>Les Amours Imaginaires &#8211; Heartbeats &#8211; Amores Imaginários</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Nov 2011 00:23:17 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Ah, a doce ilusão do amor&#8230; Doce, sensual, cheia de artifícios, provocante, ilusória, dolorida. Les Amours Imaginaires trata destes elementos e deixa circular, em sua medula, alguns destes contos que certas vezes inventamos para nós mesmos. Com um texto muito bem escrito, uma trilha sonora deliciosa, atores ótimos e muito estilo, este filme do diretor [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=moviesense.wordpress.com&amp;blog=1601314&amp;post=3753&amp;subd=moviesense&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://moviesense.files.wordpress.com/2011/11/lesamoursim1.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3763" title="lesamoursim1" src="http://moviesense.files.wordpress.com/2011/11/lesamoursim1.jpg?w=650&#038;h=924" alt="" width="650" height="924" /></a></p>
<p>Ah, a doce ilusão do amor&#8230; Doce, sensual, cheia de artifícios, provocante, ilusória, dolorida. <a href="http://www.lesamoursimaginaires.com/">Les Amours Imaginaires</a> trata destes elementos e deixa circular, em sua medula, alguns destes contos que certas vezes inventamos para nós mesmos. Com um texto muito bem escrito, uma trilha sonora deliciosa, atores ótimos e muito estilo, este filme do diretor e roteirista <a href="http://www.imdb.com/name/nm0230859/">Xavier Dolan</a> revela-se um deleite. Inventivo, com um ritmo que equilibra diálogos acelerados com muitas e muitas cenas em câmera lenta, Les Amours Imaginaires chega a roçar a perfeição. Mas não atinge o lugar mais alto entre os filmes porque não vai além da reflexão irônica e cai na facilidade de algumas repetições.</p>
<p><strong>A HISTÓRIA:</strong> O filme começa com uma frase de Alfred De Musset: &#8220;A única verdade é o amor para além da razão&#8221;. Em seguida, começam os &#8220;depoimentos&#8221; de pessoas que se iludiram com o amor e se entregaram completamente à história mal fadadas. Sotaques diferentes, maneiras distintas de encarar o engano, trejeitos curiosos e narrativas que fazem rir ou pensar começam a surgir na tela. Até que o estilo &#8220;documentário&#8221; abre passo para a crônica de um equívoco. Conhecemos Nicolas (<a href="http://www.niels-schneider.net/">Niels Schneider</a>), um sujeito do interior que se mudou há pouco para a cidade e que, em um encontro entre amigos, se destaca pela vivacidade e beleza. Imediatamente ele desperta o interesse dos amigos Marie (<a href="http://www.imdb.com/name/nm2873161/">Monia Chokri</a>) e Francis (Xavier Dolan). Aí começa um jogo de flertes, de atração que vai enredando os amigos cada vez mais, fazendo-os competir até o momento em que eles enfrentam a realidade do que está acontecendo e buscam uma solução e um caminho a seguir.</p>
<p><strong>VOLTANDO À CRÍTICA</strong> (SPOILER &#8211; aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Les Amours Imaginaires): Quando uma pessoa está aberta ao amor e ao romance, é fácil equivocar-se. Os sinais mais idiotas parecem significativos. Frases de duplo sentido podem ganhar justamente o significado que a imaginação (e a libido) deseja. E o mais irônico de tudo isso é que a pessoa equivocada pode viver intensamente um amor de mão única &#8211; já que o outro nem ao menos percebe o que está acontecendo.</p>
<p>Les Amours Imaginaires é um filme bem escrito e com muito estilo que conta algumas destas crônicas do engano. Pontuando &#8220;depoimentos&#8221; que lembram as conversas com a câmera de um documentário com a narrativa de um trio amoroso fantasioso, este filme do diretor, roteirista e ator Xavier Dolan é um deleite para os olhos. Primeiro, pelos atores, belos e carismáticos. Depois, pela escolha que Nolan faz de cada cena. Esforçados na conquista, os atores principais &#8211; especialmente os personagens de Marie e Francis &#8211; sabem escolher as suas &#8220;armas&#8221;. Se vestem e se portam muito bem. E os ângulos escolhidos pelo diretor, assim como o ritmo lento que ele imprime volta e meia para ressaltar a beleza das pessoas e dos lugares, torna as cenas ainda mais prazerosas de serem assistidas.</p>
<p>O mérito das belas imagens também deve ser compartilhado com a diretora de fotografia <a href="http://www.stephanie-weber-biron.com/">Stéphanie Anne Weber Biron</a>, que faz um belíssimo trabalho. Cineasta autoral, Dolan responde por quase todos os outros aspectos do filme &#8211; além dos já citados, ele assina também a edição, o figurino, a direção de arte e a produção de Les Amours Imaginaires. O que apenas aumenta a sua pontuação, já que a edição e a fotografia, assim como a direção e o roteiro, são os pontos fortes do filme. Junto com a fotografia e a trilha sonora. Falando nas músicas, três dominam a produção: a fantástica (e que me fez dar pequena risadas cada vez que tocava nesta produção) Bang Bang, de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Dalida">Dalida</a>; Keep the Streets Empty for Me, de <a href="http://feverray.com/">Fever Ray</a>; e Pass this On, de <a href="http://theknife.net/">The Knife</a>. Todas inseridas em momentos especiais, fazendo com que elas ganhem uma relevância interessante na produção.</p>
<p>Mas falemos da história&#8230; (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas logo nos primeiros minutos eu percebi o engano de Marie e Francis. Era evidente que Nicolas era apenas um bom garoto, simpático e comprometido na missão de fazer novos amigos. Nada mais. Mas para Marie e Francis qualquer gesto, convite, sorriso de Nicolas parecia um indicativo de algo poderia rolar a qualquer momento. Mas não&#8230; pura ilusão. Quem dera que nós, quando vivemos a mesma situação que eles, em algum momento da vida &#8211; e sorte de quem nunca passou por isso -, tivéssemos a mesma visão clara das coisas. Mas daí não nos enganaríamos nunca com o amor. E acho que até esse erro é válido &#8211; não para que nunca mais tropecemos outra vez, mas para percebermos que não somos tão &#8220;inacessíveis&#8221; ao equívoco como, algumas vezes, tentamos acreditar. A ilusão amorosa que, mais cedo ou mais tarde, passa fatura e faz com que nos sintamos mal, no fundo de um poço imaginário (também), também serve para entendermos as nossas limitações. E superá-las.</p>
<p>Uma questão importante, e que Les Amours Imaginaires deixa muito claro, é que a pessoa tem que estar muito, mas muito propensa a encontrar um amor para que o seu equívoco seja igualmente imenso. (SPOILER &#8211; não leia&#8230; bem, você já sabe). Marie e Francis, mesmo sem admitir &#8211; e eles jamais admitiriam, porque querem parecer sempre muito &#8220;senhores&#8221; de si mesmos &#8211; estão desesperados para viver um grande amor. E eles caem no lugar-comum que as novelas, filmes, romances das mais variadas fontes querem fazer os seus consumidores (nós) acreditar: que só existe um grande amor. E que ele será único, imenso, totalmente diferenciado dos demais. Que ele nos fará perder o chão, as estribeiras, a razão. Ok, amores assim existem. Mas eles acontecem, surgem e se consolidam sem esperarmos. O problema nasce quando esperamos e desejamos tanto que isso aconteça que, no fim das contas, inventamos um amor assim com sinais falsos. É isso o que acontece com Marie e Francis.</p>
<p>Ao mesmo tempo, e isso é o supra ironismo do filme, o casal de amigos vive os seus romances ordinários &#8211; que poderiam ser também grandes amores, se eles estivessem dispostos a dar valor para o comum. Mas não, eles querem o cara mais bonito do grupo. Aquele que, quando sorri, ilumina a sala, a rua, a cidade. Eles querem o &#8220;Adonis&#8221; da turma. E para que? Ele seria uma espécie de troféu? (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Aliás, no início não fica tão evidente a disputa pessoal entre Marie e Francis. Mas pouco a pouco essa queda de braço deles vai se tornando mais evidente, ao ponto do &#8220;grand finale&#8221; tornar as ações dos amigos previsíveis e ridículas. Se ele não fosse gay &#8211; mas daí eles também não disputariam uma conquista -, eu diria que eles deveriam resolver essa questão na cama. <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </p>
<p>Há uma cena específica do filme que me chamou a atenção: quando Marie não esconde o desprezo do parceiro de cama quando ele pergunta se ela pensa em atores do cinema enquanto transa com alguém. Mesmo dizendo que quando está com ela ele não faz isso, ele admite que pensa em atrizes quando está com outras pessoas.</p>
<p>Achei o diálogo e esta cena especialmente irônicos &#8211; como vários outros pontos da produção &#8211; porque eles revelam o contrasenso da protagonista. Enquanto ela demonstra desprezo pelo sujeito que lhe dá prazer, apenas sexual, ela está fazendo o mesmo que ele, pensando em outra pessoa enquanto eles estão envolvidos. No caso dela, no lugar de um ator, está Nicolas.</p>
<p>Essa cena é bastante ilustrativa por duas razões: mostra o contrasenso e a hipocrisia das pessoas que se consideram muito racionais e acima de qualquer suspeita, como é o caso de Marie e Francis, ao mesmo tempo em que registra uma das piores experiências de quem está obcecado por uma história de amor imaginária. Estar com alguém, pele com pele, e pensar no amor impossível/imaginário é o ocaso do amor. Um alarme deveria tocar toda vez que isso acontece. <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' />  E sobre o contrasenso do &#8220;super-racional&#8221;, vejo como a única solução a humildade e a autocrítica para perceber-se em uma cilada.</p>
<p>Pessoas inteligentes, pragmáticas, consideradas &#8220;cool&#8221; e sensíveis não estão alheias aos erros do amor. Da mesma forma como não estão vacinadas para &#8220;bicho de pé&#8221;. <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' />  Acreditar que sim é excesso de confiança. O mais engraçado, e Les Amours Imaginaires sugere isso, é que mesmo os mais racionais, exemplificados por Marie, não evitam o erro &#8211; e a repetição dele. Eles podem até perceber o rolo em que estão se metendo antes, mas não parecem ser capazes de sair da espiral ilusória.</p>
<p>Como tudo, inclusive no amor &#8211; real ou imaginário -, o que marca a diferença é a postura. A escolha. Cair no engano talvez seja inevitável. Mas perdurar nele é sim uma questão de escolha. Da mesma forma com que abrimos as portas e as janelas para um relacionamento, podemos escolher como e para quem deixar estas oportunidades abertas. Algumas vezes, por pressa ou excesso de determinação, &#8220;metemos a pata&#8221;, entendemos os sinais errados e, após a identificação do problema, seguimos dando murro em ponta de faca.</p>
<p>Saber onde buscar e, principalmente, entender que não é em outra pessoa que vamos encontrar o que nos falta, faz toda a diferença. Há pressões sociais, da idade, dos hormônios, das expectativas surgidas de várias partes para que nos lancemos. Mas algumas vezes o que pode marcar a diferença é fazer ouvidos &#8220;surdos&#8221; para todo esse vozerio e escutar um som muitas vezes abafado, interior. Ter paciência, distanciar-se e escutar o que nos importa. Preencher os vazios com o que importa e que não precisa de nenhuma &#8220;alma gêmea&#8221;, como nos vendem todos os manuais da &#8220;felicidade&#8221;. O amor é fundamental. Mas o real, que pode ser vivido de diferentes maneiras e com distintas pessoas. O imaginário serve apenas para experiências pessoais ruins e para fazer-se bom cinema.</p>
<p><strong>NOTA:</strong> 9,5.</p>
<p><strong>OBS DE PÉ DE PÁGINA:</strong> Xavier Dolan é um fenômeno. Aos 22 anos, o filho do ator <a href="http://www.imdb.com/name/nm0846330/">Manuel Tadros</a> contabiliza sete filmes, três curtas e três séries de TV no currículo como intérprete. Em 2009, ele estreou na direção e como roteirista com o elogiado <a href="http://www.imdb.com/title/tt1424797/">J&#8217;ai Tué Ma Mère</a>. A segunda tacada dele autoral é este divertido Les Amours Imaginaires. Para o próximo ano, está previsto o seu terceiro trabalho como roteirista e diretor, <a href="http://www.imdb.com/title/tt1650048/">Laurence Anyways</a>. Dolan é um nome a ser acompanhado, pois.</p>
<p>Alguns dos &#8220;depoimentos&#8221; que aparecem no filme se mostram mais interessantes que outros. Gostei, em especial, do texto e do desempenho da primeira atriz que aparece em cena, magra e com óculos, <a href="http://www.imdb.com/name/nm4147126/">Anne-Élisabeth Bossé</a>. Ela é maravilhosamente descontrolada e obcecada por seu &#8220;amado&#8221;, Jean-Marc. Irônica, um tanto surtada, ela demonstra como uma pessoa &#8220;séria e inteligente&#8221; pode ficar descontrolada por causa de um amor &#8211; ou seria apenas obsessão? Gostei também do segundo garoto, interpretado por <a href="http://www.imdb.com/name/nm1763708/">Olivier Morin</a>, que introduz o tema da Escala Kinsey sobre a sexualidade. Nunca é demais citar o pesquisador polêmico.</p>
<p>Um dos trechos dos &#8220;depoimentos&#8221; me pareceu especialmente interessante. Aquele dito pela personagem de <a href="http://www.imdb.com/name/nm3210743/">Magalie Lépine Blondeau</a>. Ela narra o fim de seu relacionamento e fala, lá pelas tantas: &#8220;&#8230; Estava acabado. Claro que, no começo, não queríamos admitir porque nos sentíamos mal, entende? A mudança, o transporte, todas essas coisas. Isso é jogar muita grana fora. Ao mesmo tempo, &#8216;meu homem está ganhando bem, agora ele pode ir se danar&#8217;. É como se nós estivéssemos&#8230; e quando digo &#8216;nós&#8217;, falo por mim. Eu&#8230; para mim, eu era apaixonada pelo tipo de amor que tivemos. (&#8230;) Isso não existe. O que se ama é o conceito. Você ama mais o conceito do que a ele. É a distância que você ama, mas, quando não há mais distância, quando não há mais oceano para atravessar, e o que há para atravessar é um corredor, enfim&#8230; está acabado agora&#8221;. E eis um dos pontos fundamentais&#8230; muitas vezes, não amamos ou estamos obcecados por uma determinada pessoa, mas pelo conceito de uma certa história de amor. Que, muitas vezes, para completar, é apenas imaginada.</p>
<p>Todos os atores que aparecem nesta produção fazem um grande trabalho, mas babei, em especial, no trio de protagonistas. Além de ótimo e inspirado diretor/roteirista, Dolan faz um grande trabalho como ator. Mas o destaque, sem dúvida, vai para Monia Chokri. Ela dá um show!</p>
<p>Les Amours Imaginaires custou, aproximadamente, 600 mil dólares canadenses (cerca de R$ 1,04 milhão). O filme não conseguiu emplacar nas bilheterias de seu país de origem, o que sempre é ruim. Segundo o site <a href="http://www.imdb.com/">IMDb</a>, a produção acumulou pouco mais de 411 mil dólares canadenses nos cinemas. Nos Estados Unidos, onde Dolan é conhecido quase que apenas nos circuitos alternativos, o filme teve um desempenho pífio: acumulou pouco menos de US$ 63 mil. Nada, comparado com qualquer filme mediano made in USA. Mas o fato dele ter ficado restrito a, no máximo, seis cinemas, ajuda a explicar esse resultado. Uma pena o filme ter sido ignorado desta maneira.</p>
<p>A estreia de Les Amours Imaginaires ocorreu no <a href="http://www.festival-cannes.fr/">Festival de Cannes</a> em maio de 2010. Depois de participar do evento, ele percorreu ainda 30 festivais e mostras pelo mundo. Um número impressionante e que torna a produção de Nolan uma espécime legítima de &#8220;filme de festival&#8221;.</p>
<p>Nesta trajetória, Les Amours Imaginaires ganhou três prêmios e foi indicado a outros oito. Entre os que levou para casa, estão os prêmios Regards Jeunes do Festival de Cannes; o de melhor fotografia no Festival Internacional de Cinema de Hamptons; e um prêmio especial no festival canadense Jutra por ter sido o filme do país melhor sucedido fora de Quebec.</p>
<p>Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para a produção. Achei uma nota muito baixa, mesmo para os padrões exigentes de quem está inscrito e vota no site. Os críticos que tem os seus textos linkados no <a href="http://www.rottentomatoes.com/">Rotten Tomatoes</a> foram um pouco mais generosos: dedicaram 48 críticas positivas e 18 negativas para Les Amours Imaginaires &#8211; o que lhe garantiu uma aprovação de 73% (e uma nota média de 6,9).</p>
<p>Um dos críticos linkados no Rotten Tomatoes que escreveu um texto negativo para o filme de Dolan foi Steven Rea, do Philadelphia Inquirer. Na parte conclusiva de sua <a href="http://articles.philly.com/2011-03-25/news/29188870_1_truffaut-marie-francis">crítica</a>, Rea disse que, &#8220;infelizmente, apesar de que Heartbeats seja muito bonito de se ver, ele não mostra muita coisa acontecendo, afinal&#8221;. Tenho que concordar com ele. Esse certo &#8220;vazio&#8221; narrativo &#8211; ou uma certa previsibilidade da história, apesar do visual surpreendente e interessante &#8211; me impede de dar a nota máxima para a produção. Apesar de muito bem acabado e interessante, este filme carece de um pouco de conteúdo, apesar das aparências. Rea segue escrevendo que, para preencher as relações melancólicas do trio de protagonistas, o diretor utiliza depoimentos ao estilo de documentário. Mesmo criticando Les Amours Imaginaires, Rea afirma que Dolan é um talento que merece ser assistido &#8211; e que promete melhorar conforme for amadurecendo.</p>
<p>O crítico Wesley Morris, do Boston Globe, foi um pouco mais generoso em seu <a href="http://articles.boston.com/2011-03-11/ae/29345527_1_marie-nico-pursuit">texto</a>. Ele comenta que o filme de Dolan &#8220;transforma&#8221; uma premissa &#8220;slim &#8211; dois rapazes, uma garota e uma cidade &#8211; em um desfile de passeios slow-motion e olhares saudosos&#8221;. No momento mais decisivo de seu texto, Morris afirma que o &#8220;ardor&#8221; de Les Amours Imaginaires &#8220;não está na perseguição de Marie ou Francis por Nicholas (ou na perseguição de Nicholas por eles) mas no frescor desta perseguição feita pela filmagem de Dolan. Estas situações conhecidas parecem novas para ele. Enfim, o trágico e incrível sobre a atração é como ela faz uma lavagem cerebral para que seja possível acreditar que ela é tudo que existe&#8221;. Tenho que concordar com ele. Les Amours Imaginaires é um filme que funciona porque o olhar de Dolan lança vivacidade e inovação em uma história conhecida. Eis seu mérito principal.</p>
<p><strong>CONCLUSÃO:</strong> Esse filme deverá despertar o amor e a ira/impaciência de gregos e troianos. Os primeiros, que já se equivocaram verdadeiramente e com apetite no amor alguma vez na vida, darão risadas, vão entender cada uma das piadas e ironias finas de Les Amours Imaginaires. Os segundos, muito racionais, acharão as histórias retratadas pelo filme coisa de &#8220;gente tonta&#8221;, não encontrarão sentido no filme, porque tem a &#8220;certeza&#8221; que jamais se iludiriam com sinais inexistentes de interesse por parte de outra pessoa. Paciência. Como eu estou com os gregos e já me equivoquei no amor, fantasiando sinais que não existiam &#8211; e dando importância demais para palavras ditas sem pensar -, assisti a este filme me deliciando. Independente se você é grego ou troiano, recomendo que assista a esse filme sem grandes pretensões, sabendo que ele é uma crônica das histórias de muitas pessoas &#8211; e lembre que nem sempre o cinema precisa representar a sua história; então faça um esforço para conhecer a de outras pessoas (isso sempre faz bem e amplia horizontes). Bem dirigido, com uma escolha cuidadosa de ângulos de câmera e ritmo para a história, Les Amours Imaginaires consegue um belo equilíbrio entre um ótimo texto e imagens preciosas, com muito estilo. Ele só não é perfeito porque acaba excedendo nas sequências de câmera lenta e não ultrapassa a fronteira de uma crônica divertida dos enganos amorosos &#8211; faltou aquela cereja do bolo. Mas nada que tire a graça do filme, que vale a pena ser visto.</p>
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		<title>Inside Job &#8211; Trabalho Interno</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Nov 2011 17:47:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandra</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema norte-americano]]></category>
		<category><![CDATA[Crítica de filme]]></category>
		<category><![CDATA[Documentário]]></category>
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		<category><![CDATA[Movie]]></category>
		<category><![CDATA[Oscar 2011]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://moviesense.files.wordpress.com/2011/11/insidejob1.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3736" title="insidejob1" src="http://moviesense.files.wordpress.com/2011/11/insidejob1.jpg?w=650&#038;h=963" alt="" width="650" height="963" /></a></p>
<p>Vivemos ainda na sombra de 2008. Não tivemos um ano tão decisivo neste novo milênio do que aquele em que bancos colapsaram e uma crise econômica ainda sem fim ganhou forma e fôlego. Ok, tivemos 2001 e os ataques terroristas nos Estados Unidos, que trouxeram uma onda de medo e represálias. Mas se analisarmos o que teve um efeito multiplicador mais extenso, com a capacidade de afetar a vida de todas as pessoas, direta ou indiretamente, no mundo inteiro, sem dúvida foram os eventos que começaram antes de 2008, mas que naquele ano se mostraram evidentes com todas as suas garras. O documentário <a href="http://www.sonyclassics.com/insidejob/">Inside Job</a>, ganhador do último <a href="http://oscar.go.com/">Oscar</a>, tenta explicar um pouco do que aconteceu em 2008. As causas da crise financeira e econômica que continua até hoje. Um filme ousado, que dá nome aos bois, mas que nem por isso consegue explicar o quadro inteiro do problema.</p>
<p><strong>A HISTÓRIA:</strong> Cenas da Islândia. E dados sobre o país: população, 320 mil; produto interno bruto, US$ 13 bilhões; perdas bancárias, US$ 100 bilhões. Um país que servia como exemplo para o mundo por sua democracia estável, pelo alto padrão de vida dos habitantes e pelo baixíssimo nível de desemprego e dívida pública e que viu este quadro mudar nos últimos anos. O filme começa mostrando como a situação na Islândia foi se deteriorando. Mostra as decisões políticas fundamentais para que isso acontecesse, iniciadas no ano 2000. As políticas de desregulamentação adotadas pelo governo e a privatização dos três maiores bancos do país foram um divisor de águas na história da Islândia. Depois de mostrar cenas com belezas naturais do país, a exploração da multinacional Alcoa de parte destes recursos, o filme mostra manifestações da população indignada de setembro de 2008. O diretor explica que os três bancos privatizados, que nunca tinham operado fora do país, em cinco anos emprestaram US$ 120 bilhões, 10 vezes a economia da Islândia. Criaram novos ricos da noite para o dia, sem critério. Inflacionaram o mercado, criando bolhas de valorização irreal &#8211; multiplicando o preço de ações e o valor dos imóveis. O exemplo da Islândia serve de ponto de partida para mostrar a onda que se espalhou por diversas economias, baseada nos mesmo princípios, e que contaminou o mundo, nos levando a maior crise econômica da história desde a quebra da Bolsa de Nova York em 1929.</p>
<p><strong>VOLTANDO À CRÍTICA</strong> (SPOILER &#8211; aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Inside Job): Onde há fumaça, há fogo. Essa parece ser a leitura mais óbvia da primeira cena de Inside Job. O diretor e roteirista <a href="http://www.imdb.com/name/nm2480587/">Charles Ferguson</a> tenta mostrar o que se esconde por trás da cortina de fumaça. E consegue, mesmo que em parte. Ele dá nome a muitos responsáveis pela crise financeira e econômica desencadeada em 2008, mas senti falta dele aprofundar-se mais. Não apenas entrevistando muitos destes responsáveis ou pessoas próximas a eles, mas também em ampliar um pouco mais o foco. Ficaram de fora deste filme, por exemplo, os especuladores individuais ou corporativos.</p>
<p>Mesmo assim, descontadas estas &#8220;ausências&#8221;, eis um grande filme. Especialmente por seu caráter didático e pelos entrevistados interessantes que o diretor conseguiu abarcar. Na parte da Islândia, ele entrevista a Gylfi Zoega, professor de Economia da Universidade da Islândia; Andri Magnason, escritor e cineasta; e Sigridur Benediktsdottir, integrante do comitê especial de investigação do Parlamento da Islândia. Eles fazem uma leitura concisa do impressionante o efeito devastador que a crise teve naquele país. Depois que os bancos locais quebraram, no final de 2008, o desemprego no país triplicou em seis meses. Triplicou! Ok que a Islândia é um país com uma população &#8220;pequena&#8221;, de 320 mil habitantes, mas já imaginaram o desemprego triplicar, seja no coletivo que for, em apenas seis meses? Impressionante.</p>
<p>Mas como afirma Zoega em um trecho de sua entrevista, o que aconteceu na Islândia ocorreu também em outros países. Como Nova York, por exemplo. E a partir daquela introdução islandesa, Inside Job se concentra na crise dos Estados Unidos. Entra na mira de Ferguson entrevistados como Paul Volcker, presidente do Banco Central dos Estados Unidos; Dominique Strauss-Kahn, então diretor geral do FMI; George Soros, um dos maiores investidores (e bilionários) da História; Barney Frank, presidente do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos; David McCormick, sub-secretário do Tesouro da administração Bush; Scott Talbott, lobista chefe para o Financial Services Roundtable; Andrew Sheng, chefe da assessoria da comissão regulatória do Banco Chinês; Lee Hsien Loong, primeiro ministro de Cingapura; Christine Lagarde, então ministra de Finanças da França; Gillian Tett, editora do The Financial Times; Nouriel Roubini, professor da New York University Business School; Glenn Hubbard, conselheiro econômico chefe da administração Bush da Columbia Business School; Eliot Spitzer, governador de Nova York; Samuel Hayes, professor emérito da Harvard Business School; entre outros.</p>
<p>A lista fala por si mesma. O diretor conseguiu entrevistar pessoas de renome e importantes para a história recente da crise econômica. Mas várias outras pessoas ficaram de fora &#8211; representantes de alguns dos principais culpados listados pelo diretor, como políticos que fizeram as mudanças de legislação necessárias para que houvesse a possibilidade de uma crise financeira; representantes de bancos que criaram produtos questionáveis e incentivaram os seus investidores a aplicar suas economias neles; responsáveis por empresas de auditoria e agências de classificação de crédito americanas que deram notas de confiança irreais, assim como reguladores do governo que não fizeram bem o seu papel. Impossível não sentir falta desta gente falando &#8211; e lembrar do estilo escrachado de <a href="http://www.michaelmoore.com/">Michael Moore</a> em fazer isso, ainda que, muitas vezes, sem o efeito desejado.</p>
<p>Algo positivo em Inside Job é o ritmo do filme. Dinâmico, com uma ótima trilha sonora, o filme vai da Islândia, passando pela apresentação dos principais entrevistados da produção, até as cenas dos noticiários de várias partes do mundo no fatídico dia 15 de setembro de 2008, quando o banco de investimento Lehman Brothers quebrou e o Merrill Lynch foi posto à venda, em apenas 10 minutos. Palmas para a percepção de ritmo e de introdução do diretor, em um trabalho conjunto com os editores <a href="http://www.imdb.com/name/nm1556822/">Chad Beck</a> e <a href="http://www.imdb.com/name/nm2903269/">Adam Bolt</a> e a trilha sonora de <a href="http://alexheffes.com/about.php">Alex Heffes</a>. Segundo a narrativa do ator <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000354/">Matt Damon</a>, o resultado imediato da quebra do Lehman Brothers e o colapso da maior companhia de seguros do mundo, a AIG (American International Building) desencadeou a crise financeira global. Que, em outras palavras e de forma mais prática, resultou em uma recessão global &#8220;que custou ao mundo dezenas de trilhões de dólares&#8221;, deixando &#8220;30 milhões de pessoas desempregadas e dobrou a dívida nacional dos EUA&#8221;. Como resume Roubini, o custo prático pode significar 15 milhões de pessoas no mundo voltando (ou entrando pela primeira vez) para a linha abaixo da pobreza.</p>
<p>O diretor Ferguson defende &#8211; porque todo documentário é a defesa de uma ideia, de uma tese &#8211; que esta crise e o seu alto custo que ainda está sendo pago não foi acidental. No documentário, ele tenta explicá-la e, principalmente, encontrar alguns de seus culpados. Acho importante esse tipo de trabalho, mesmo quando ele se mostra parcial &#8211; não no sentido de defesa de tese, porque todo filme é assim, mas por não mostrar o quadro completo do problema, e sim apenas parte dele. Isso porque não é sempre que um diretor consegue fazer um trabalho lógico, didático e que tenha também a coragem de expor pessoas, empresas e instituições. Palmas para Ferguson. E também para a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que conferiu um Oscar para este filme &#8211; colocando-o ainda mais em evidência.</p>
<p>Ferguson argumenta que a crise foi &#8220;causada por uma indústria fora de controle&#8221;. Ele se refere ao sistema financeiro. Na primeira parte do filme, ele mostra &#8220;como chegamos até aqui&#8221; e, depois, começa a apontar alguns dos responsáveis por todo esse problema. O bacana desta forma de narrar escolhida por Ferguson é que ela faz um rápido repasse histórico, mostrando como os Estados Unidos avançaram após a Grande Depressão. Apenas por isso, Inside Job é um filme importante e que poderá ser utilizado nas escolas, universidades e similares. Não como ponto final na discussão mas, provavelmente, como um elemento a mais para ela. Algo positivo em Inside Job é o espectador ter acesso a alguns dos melhores especialistas em sistemas financeiros e lógica de mercado do mundo. Além da rápida aula de história, podemos entender um pouco melhor como foram feitas as desregulamentações de mercado e de que forma surgiram os novos produtos oferecidos pelo sistema financeiro &#8211; a diferença deles com os anteriores.</p>
<p>Importante também a forma com que Ferguson demonstra as relações de poder e a &#8220;contaminação&#8221; de diferentes governos dos Estados Unidos por interesses de banqueiros e executivos do sistema financeiro. As &#8220;relações perigosas&#8221; são colocadas às claras. Com isso, o espectador passa a prestar mais atenção em informativos e estudos divulgados por determinados bancos e agências contratadas por eles, por conglomerados financeiros ou companhias de seguros. Uma mudança fundamental, segundo a tese de Ferguson, que permitiu a crise financeira e global foi a desregulamentação de derivativos e outras inovações financeiras a partir dos anos 2000. O diretor mostra como o sistema financeiro ficou mais &#8220;rentável, concentrado e poderoso&#8221; a partir dos anos 2001, e lista quem concentrava todo este poder: os bancos de investimento Goldman Sachs, Morgan Stanley, Lehman Brothers, Merrill Lynch e Bear Stearns; os conglomerados financeiros Citigroup e JP Morgan; as companhias de seguros AIG, MBIA e AMBAC; e as três agências de classificação de risco Moody&#8217;s, Standard &amp; Poor&#8217;s e Fitch.</p>
<p>O diretor explica como funciona a &#8220;cadeia alimentar da titularização, um novo sistema que ligava trilhões de dólares de hipotecas e outros empréstimos com investidores em todo o mundo&#8221;. Com exemplos simples, Ferguson mostra como o sistema financeiro mudou o seu sistema de atuar, tornando o capital muito mais inseguro do que em qualquer outra época histórica. Consequentemente, ele trata da bolha imobiliária nos Estados Unidos &#8211; mesma lógica vista na Espanha e em outras partes e que pode continuar acontecendo se não forem estabelecidas regras e limites muito claros. De fato, muita gente ganhou muito dinheiro com toda essa crise e caos, ao custo do emprego e das rendas de tantas e tantas outras pessoas ao redor do mundo &#8211; algumas co-responsáveis, por assim dizer, porque aplicaram os seus investimentos em opções de alto risco, mas outras que nunca tiveram nem a possibilidade de fazer isso porque nunca tiveram sobra de capital para tanto.</p>
<p>Muito interessante a forma com que Ferguson nos conta essa história, utilizando de recursos diversos, desde bancos de imagens &#8211; fotografias e vídeos &#8211; até gravações em áudio e a reprodução de documentos importantes. Boa parte das pessoas, empresas e instituições que ele não conseguiu entrevistar &#8220;aparecem&#8221; no filme por meio destes recursos. Na verdade, Inside Job é uma aula de como fazer um documentário com poucos recursos &#8211; e de que não conseguir todas as entrevistas que se gostaria não é uma justificativa para desistir de um projeto. E mesmo deixando parte dos &#8220;culpados&#8221; e da lógica econômica mundial de fora, ele faz um bom trabalho. Até porque poucos filmes, até agora, se dedicaram a mostrar as relações de interesse envolvendo o sistema financeiro e os políticos, por exemplo, e de como todo (ou quase todo) o sistema de decisão, que deveria ser democrático e pensar no interesse da maioria, está contaminado pelo interesse de alguns poucos. Eis um importante soco no estômago e que deve fazer as pessoas repensarem algumas lógicas e em quem confiar.</p>
<p><strong>NOTA:</strong> 9,3.</p>
<p><strong>OBS DE PÉ DE PÁGINA:</strong> Antes de filmar Inside Job, o diretor Charles Ferguson havia feito apenas um outro trabalho: <a href="http://www.noendinsightmovie.com/">No End in Sight</a>, de 2007. Sua estréia na direção (a qual eu ainda não assisti) faz um exame crítico da administração Bush no que se refere à invasão do Iraque. Estampando a nota 8,3 no site <a href="http://www.imdb.com/">IMDb</a>, No End in Sight concorreu ao Oscar de 2008 &#8211; mas perdeu a estatueta para <a href="http://www.imdb.com/title/tt0854678/">Taxi to the Dark Side</a>. Na época, Ferguson não apenas recebeu ótimas notas e elogios, mas também conseguiu oito prêmios &#8211; incluindo um prêmio especial do júri do festival de Sundance. Uma bela estreia, pois.</p>
<p>O êxito de Inside Job foi diferente. Em sua trajetória, o filme conquistou menos prêmios que a produção anterior de Ferguson, &#8220;apenas&#8221; seis. Mas levou para casa, diferente do outro filme, o Oscar. E como o mundo inteiro olha para o Oscar, mais que para outras premiações&#8230; sem dúvida Inside Job levou vantagem. Além do Oscar, Inside Job ganhou os prêmios do Directors Guild of America (pelo trabalho como diretor de documentário), da Sociedade Nacional de Críticos de Cinema dos EUA, do Writers Guild of America (como melhor roteiro para documentário) e dos círculos de críticos de Nova York e Southeastern. Além destes prêmios, Inside Job concorreu a outros 11.</p>
<p>Francamente, e quem acompanha o blog sabe disso, neste último Oscar eu estava torcendo pelo documentário <a href="http://www.banksyfilm.com/">Exit Through the Gift Shop</a>, dirigido por Banksy e Jaimie D&#8217;Cruz. Adorei o filme. E ainda que continue tendo uma &#8220;quedinha&#8221; maior por ele, por sua ousadia, inovação e humor, devo tirar o chapéu para Inside Job. Sem dúvida Ferguson faz um grande e importante trabalho. E como os dois filmes tratam de temas tão diferentes e de forma também diversa, fica difícil escolher entre um ou outro. Ainda assim, acho que pela importância da produção, Inside Job mereceu mais o Oscar do que Exit Through the Gift Shop. Pelo menos, com a estatueta, ele ganhou outra projeção &#8211; e provavelmente tenha chegado a muito mais pessoas do que se não tivesse ganho a estatueta.</p>
<p>Curioso que um filme tão detalhista tenha errado no início em dois momentos: na grafia dos nomes de Dominique Strauss-Kahn e Paul Volcker &#8211; que aparecem como &#8220;Dominque Straus-Kahn&#8221; e &#8220;Vocker&#8221;.</p>
<p>O mérito pelo roteiro competente de Inside Job é de Ferguson. Mas ele não fez o trabalho todo sozinho. Contou com a ajuda de Chad Beck e Adam Bolt. Além deles e dos outros profissionais citados, vale a pena comentar o trabalho competente dos diretores de fotografia <a href="http://www.imdb.com/name/nm0194125/">Svetlana Cvetko</a> e <a href="http://www.imdb.com/name/nm3873317/">Kalyanne Mam</a>.</p>
<p>Inside Job estreou em fevereiro de 2010 na Bélgica e, em maio, participou do Festival de Cannes. A produção passou ainda por outros nove festivais, incluindo os do Rio e de São Paulo. Nos Estados Unidos, a produção acumulou pouco mais de US$ 4,3 milhões nas bilheterias &#8211; o melhor resultado entre os documentários que concorreram ao Oscar deste ano. O melhor desempenho, atrás dele, foi de Exit Through the Gift Shop, que acumulou pouco menos de US$ 3,3 milhões nos Estados Unidos.</p>
<p>Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para Inside Job. Os críticos que tem seus textos linkados no <a href="http://www.rottentomatoes.com/">Rotten Tomatoes</a> foram bem mais generosos: dedicaram 131 críticas positivas e apenas quatro negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 97% &#8211; e uma nota média de 8,2, esta sim, similar àquela do IMDb.</p>
<p><strong>CONCLUSÃO:</strong> Eis um filme necessário. Inside Job explica alguns conceitos difíceis e importantes da economia. Apresenta nomes, de pessoas, empresas e instituições que participaram do surgimento da crise financeira e econômica global. Por tudo isso, ele tem méritos. Mas ao focar a atenção apenas nos bancos e no sistema financeiro, o documentário não explica todo o quadro. A responsabilidade dos especuladores, de empresas e de outros atores do sistema econômico, assim como dos políticos e gestores de outros países fica de fora do foco do diretor Charles Ferguson. No fim das contas e tornando tudo mais simples, o centro da crise está no excesso de dinheiro entregue para pessoas sem condições de gestioná-lo. O capital descolado do material e do trabalho ganhou nos especuladores &#8211; individuais e empresariais &#8211; o seu elemento bomba. E o maior problema é que a essência do problema não foi alterada. Continuamos seguindo a mesma lógica. A dúvida é até quando. Inside Job está aí para explicar parte da origem destes problemas. Mas outros documentários serão necessários para explicar o quadro todo.</p>
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		<title>Cowboys &amp; Aliens</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Sep 2011 23:04:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandra</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema do mundo]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema norte-americano]]></category>
		<category><![CDATA[Crítica de filme]]></category>
		<category><![CDATA[Movie]]></category>

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		<description><![CDATA[Colocar em um mesmo filme cowboys e aliens é, por si só, uma mistura inusitada. Mas um filme com Daniel Craig e Harrison Ford merece respeito e desperta interesse, é preciso dizer. Então me lancei a descobrir o que poderia acontecer, pelas leitura do diretor Jon Favreau, quando cowboys encontram aliens e vice-versa. O começo [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=moviesense.wordpress.com&amp;blog=1601314&amp;post=3725&amp;subd=moviesense&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://moviesense.files.wordpress.com/2011/09/cowboysandaliens4.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3729" title="cowboysandaliens4" src="http://moviesense.files.wordpress.com/2011/09/cowboysandaliens4.jpg?w=650" alt=""   /></a></p>
<p>Colocar em um mesmo filme cowboys e aliens é, por si só, uma mistura inusitada. Mas um filme com <a href="http://www.imdb.com/name/nm0185819/">Daniel Craig</a> e <a href="http://www.imdb.com/name/nm0000148/">Harrison Ford</a> merece respeito e desperta interesse, é preciso dizer. Então me lancei a descobrir o que poderia acontecer, pelas leitura do diretor <a href="http://www.myspace.com/jonfavreau">Jon Favreau</a>, quando cowboys encontram aliens e vice-versa. O começo é retumbante, bem escrito e com ritmo perfeito. Mas depois&#8230; o filme cai naquele velho jogo de perseguição com um fim um bocado previsível. É divertido? Claro, <a href="http://www.cowboysandaliensmovie.com/">Cowboys &amp; Aliens</a> tem algumas cenas bacanas, um começo perfeito, um punhado de bons diálogos e interpretações que não decepcionam. Mas, cá entre nós, vale a pena apenas como diversão, cinema-pílula. Nada excepcional.</p>
<p><strong>A HISTÓRIA:</strong> Cenário típico do Velho Oeste. A câmera desliza mostrando a paisagem quando um homem desperta (Daniel Craig). Ele está sujo, parece ter saído de uma guerra. Olha assustado ao redor e, ao tentar levantar, sente um ferimento do lado direito da barriga. No braço esquerdo, um estranho bracelete. Ele tenta tirá-lo, inclusive com a ajuda de uma pedra, mas não consegue. Então ele escuta um grupo chegar à cavalo. Ele levanta, enquanto é cercado. O líder pergunta sobre o vilarejo de Absolution, a que distância está dali indo para o Oeste. Sem receber uma resposta, o grupo sugere que, pelo bracelete, ele deve ser um prisioneiro. O líder comenta que talvez ele renda uma boa recompensa, desce do cavalo e pede para o homem desconhecido marchar. Rapidamente, ele acaba com os três homens e segue, à cavalo, para o vilarejo mais próximo. Lá ele é ajudado pelo pastor local (<a href="http://clancybrown.com/">Clancy Brown</a>) antes de se desentender com o aloprado Percy Dolarhyde (<a href="http://www.imdb.com/name/nm0200452/">Paul Dano</a>), filho do rico Woodrow Dolarhyde (Harrison Ford). Ele ainda conhece a misteriosa Ella Swenson (<a href="http://wildethings.org/">Olivia Wilde</a>) antes de ser confrontado por um ataque alienígena e começar, junto a Dolarhyde e outros companheiros inusitados, a missão de resgatar pessoas sequestradas pelos extraterrestres.</p>
<p><strong>VOLTANDO À CRÍTICA</strong> (SPOILER &#8211; aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Cowboys &amp; Aliens): Quando vi o título desse filme, logo de cara lembrei do livro <a href="http://www.youblisher.com/p/49355-eram-os-deuses-astronautas/">Eram os Deuses Astronautas?</a>, de Erich von Daniken, que resgata vestígios antigos e afirma que recebemos visitas e contribuições de extraterrestres desde a Antiguidade. Cowboys &amp; Aliens brinca com esses conceitos, ao mostrar a história de uma localidade no Velho Oeste dos Estados Unidos que recebe as &#8220;visitas&#8221; e a exploração de extraterrestres.</p>
<p>O começo do filme dirigido por Jon Favreau é perfeito. Primeiro, porque cada linha do roteiro de <a href="http://www.imdb.com/name/nm0649460/">Roberto Orci</a>, <a href="http://www.imdb.com/name/nm0476064/">Alex Kurtzman</a>, <a href="http://www.imdb.com/name/nm0511541/">Damon Lindelof</a>, <a href="http://www.imdb.com/name/nm1318843/">Mark Fergus</a> e <a href="http://www.imdb.com/name/nm1319757/">Hawk Ostby</a> (ufa, quanta gente para escrever um texto!) parece ter sido afinado com esmero. Não há sobras, mas boas sacadas, ironia e tensão. A primeira imagem do protagonista Jake Lonergan resume o contra-senso da produção: um sujeito durão, que parece ter saído de uma guerra, machucado e com um aparato de altíssima tecnologia preso no pulso.</p>
<p>Os ângulos de câmera escolhidos pelo diretor; o equilíbrio entre planos abertos, que mostram a paisagem do Velho Oeste e os closes e planos fechados, a partir das costas dos personagens; aliados com os cortes rápidos e oposição entre os atores, resgata a alma dos filmes do gênero. Cria a tensão e o ritmo adequado &#8211; e, por que não dizer, esperado pelos espectadores &#8211; para a produção. Bastante providencial também o &#8220;branco&#8221; do personagem principal, que perdeu a memória &#8211; e que abre o flanco para aqueles que assistem à produção ficarem em dúvida sobre qual é a origem daquele bracelete e o que Lonergan tem a ver, afinal, com os alienígenas.</p>
<p>O roteiro é assinado pelos cinco nomes que eu mencionei antes, mas o argumento da história que originou o roteiro foi criado por Mark Fergus, Hawk Ostby e <a href="http://oedework.com/users/awp.php?ln=115325&amp;p=intro">Steve Oedekerk</a>. Achei que eles acertaram em vários pontos. Para começar, na amnésia do personagem principal, o que cria tensão e suspense. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Pena que esses elementos não durem muito tempo. Afinal, a &#8220;dúvida&#8221; se Lonergan poderia ter matado a Alice (<a href="http://www.imdb.com/name/nm0817844/">Abigail Spencer</a>) não chega a colar e, 40 minutos depois do filme ter começado, fica logo evidente que os culpados foram os alienígenas. Se essa dúvida tivesse sido melhor construída e durasse mais tempo, talvez o filme tivesse ganho um pouco mais de interesse. Sem isso, logo sabemos que o protagonista é um herói, e que os demais humanos também são bacanas e devem agir para proteger o nosso planeta contra os únicos vilões da história: os invasores alienígenas.</p>
<p>Quando o filme cai na simplificação maniqueísta da maioria dos filme sobre invasão alienígena, ele perde bastante da força que tinha antes. Nós ficamos com aquela sensação de &#8220;mais do mesmo&#8221;. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, não existem dúvidas, ou outras possibilidades&#8230; tudo está claro após meia hora de filme: os aliens são os bandidos que devem ser combatidos. E nós, os humanos, por mais que algumas vezes exploremos uns aos outros, que passamos por cima de alguns semelhantes porque temos mais &#8220;poder&#8221; ou &#8220;dinheiro&#8221; (exemplo encarnado pelo personagem de Harrison Ford), no fim das contas somos solidários e nos unimos por uma &#8220;causa maior&#8221;. Que é combater, pelo que parece, o invasor &#8211; seja ele alienígena ou um semelhante, durante um conflito qualquer.</p>
<p>Mas o pior mesmo é a justificativo para termos alienígenas por aqui. (SPOILER &#8211; não leia&#8230; bem, você já sabe). Eles estão atrás de ouro! Sim, eles são atraídos pelo metal precioso tanto quanto nós, há vários séculos atrás. E por que? O que eles fazem com o ouro? Ninguém sabe, ninguém explica e, aparentemente, isso nem faz falta. Os cinco roteiristas dão a entender que tanto faz o motivo pelo qual somos invadidos. O importante mesmo é termos alguém contra lutar para que eles possam fazer um filme de ação. Por essas e por outros é que Cowboys &amp; Aliens receberia uma nota péssima se eu fosse analisar apenas o roteiro. Que começa bem, não canso de repetir, mas que depois vai derrapando até se converter em um clássico texto para justificar tiroteios, mortes, batalhas e cenas diversificadas de ação.</p>
<p>Ainda bem que, para a sorte do espectador, um filme não é apenas um roteiro. Mesmo quando o texto se mostra bem escrito no início e depois derrapa em lugares-comum, sequencias previsíveis e justificativas idiotas, como acontece com Cowboys &amp; Aliens, nos resta agradecer por estarmos assistindo a um filme, e não lendo um livro. Como o cinema é muito mais que apenas bom textos e boas linhas de diálogo, temos na direção bem conduzida de Jon Favreau; nas interpretações dedicadas de Daniel Craig, Harrison Ford e <a href="http://www.imdb.com/name/nm0005377/">Sam Rockwell</a>, principalmente; na ótima edição de <a href="http://www.imdb.com/name/nm0495603/">Dan Lebental</a> e <a href="http://www.imdb.com/name/nm0561997/">Jim May</a>; na direção de fotografia inspirada de <a href="http://www.imdb.com/name/nm0508732/">Matthew Libatique</a> e na trilha sonora envolvente de <a href="http://www.imdb.com/name/nm0004581/">Harry Gregson-Williams</a> uma boa compensação para o roteiro que vai ficando fraquinho com o passar do tempo. Por tudo isso, Cowboys &amp; Aliens se mostra um filme bem produzido, bem acabado na técnica e, principalmente, um passatempo que diverte &#8211; descontadas as falhas citadas anteriormente.</p>
<p>No fim das contas, o que motivava os alienígenas? (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Lembrando um pouco a <a href="http://www.d-9.com/">District 9</a>, Cowboys &amp; Aliens explora a ideia de aliens inteligentes, com aparatos tecnológicos muito desenvolvidos, mas com aspecto que nos parece repulsivo. E ao mesmo tempo que eles tem máquinas impressionantes, seu comportamento é brutal, algumas vezes sem sentido. Para que eles utilizam o ouro que extraíam da Terra? Para que fulminavam pessoas em uma mesa de operações? Não sabemos o uso que eles davam para estas coisas. Mas o filme sugere que nem todos são assim, e que se há aliens exterminadores, há também alienígenas vingadores e &#8220;preocupados&#8221; com outras civilizações, como é o caso da personagem de de Ella Swenson &#8211; uma alienígena que pode tomar a forma humana e que se assemelha a uma fênix.</p>
<p>O maior pecado de Cowboys &amp; Aliens, contudo, não está na falta de explicação para a invasão alienígena. Mas sim na simplificação da história, que tinha começado irônica e bem escrita. Lá pelas tantas, o filme se converte apenas em uma caça dos cowboys contra os alienígenas e em um tipo de &#8220;operação de resgate&#8221; deles para reaver os seus familiares. A ação se resume a encontrar o inimigo, atacá-lo e vencê-lo. O final, é previsível. Uma boa desculpa para gastar vários milhões de dólares, colocar atores ótimos em cena e seduzir os aficionados por efeitos especiais. Mas por trás desta cortina de fumaça, sobra pouco roteiro bem escrito e emoção.</p>
<p><strong>NOTA:</strong> 8.</p>
<p><strong>OBS DE PÉ DE PÁGINA:</strong> Os produtores de Cowboys &amp; Aliens acertaram na escolha do elenco. O primeiro gol foi conseguirem reunir dois veteranos dos filmes de ação para encabeçar a lista de protagonistas: Daniel Craig e Harrison Ford. Craig lembra, algumas vezes, seus personagens de ação anteriores, especialmente nas cenas em que cai no braço com os adversários. Ford faz o estilo paizão-durão. E com ele em cena, é inevitável não lembrar de algumas cenas do <a href="http://www.indianajones.com/site/index.html">Indiana Jones</a> &#8211; especialmente quando o personagem de Jake Lonergan está tentando chegar no núcleo da nave e escapar de lá.</p>
<p>Inicialmente, para o papel de Jake Lonergan, tinha sido convocado o ator <a href="http://www.legacyrecordings.com/artists/robert-downey-jr">Robert Downey Jr.</a> Tenho certeza que ele teria se saído muito bem também, mas admito que gostei muito do trabalho do Craig. Sem ele, sem dúvidas, esse filme teria se mostrado ainda mais fraquinho. Os produtores acabaram chamando Craig devido à semelhança dele com <a href="http://stevemcqueen.com/">Steve McQueen</a>, que estrelou um dos épicos do gênero, <a href="http://www.imdb.com/title/tt0054047/">The Magnificent Seven</a>.</p>
<p>Falando em troca de astros para os papéis principais, Craig havia indicado a atriz <a href="http://www.imdb.com/name/nm1200692/">Eva Green</a> para o papel de Ella, mas ela acabou desistindo da personagem, o que abriu espaço para Olivia Wilde. Gostei, francamente, de ver a atriz mais conhecida por <a href="http://www.fox.com/house/">House M.D.</a> ganhar este papel de destaque. Quem sabe ela não deslancha? Ainda que, até agora, tenham sobrado para ela, sempre, papéis menos complicados &#8211; onde a beleza da atriz é o principal argumento, mas ela não tem a interpretação como o ponto mais forte.</p>
<p>Até escrever estas observações extras eu não sabia que este filme é uma adaptação de um quadrinho. Não conheço a <a href="http://www.newyork-times-best-sellers.com/cowboys-and-aliens-by-scott-m-rosenberg/">HQ de Cowboys &amp; Aliens</a>, então não posso dizer se o filme segue ou não a linha do original. Só vi que os quadrinhos originais foram criados por Scott Michael Rosenberg, da editora Platinum, com as histórias escritas por Andrew Foley e Fred Van Lente, e arte assinada por Luciano Lima e Dennis Calero. Alguém sabe me dizer se o filme respeita bastante o original ou faz um trabalho diferenciado?</p>
<p>Jon Favreau cita os clássicos <a href="http://www.imdb.com/title/tt0078748/">Alien</a> e <a href="http://www.imdb.com/title/tt0093773/">Predator</a> como influências para Cowboys &amp; Aliens. Evidente, não? Qualquer filme sobre alienígenas, obrigatoriamente, acabam lembrando esses ícones &#8211; normalmente bem acima da média das outras produções que vieram depois &#8211; do cinema. Exceto por District 9, que traz alguma ideia nova para o gênero, depois de muitos anos de marasmo criativo.</p>
<p>Cowboys &amp; Aliens custou, aproximadamente, a fortuna de US$ 163 milhões. E mesmo com grandes astros no elenco, até o último dia 11 de setembro, o filme conseguiu pouco mais de US$ 98 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. A produção teve pré-estreia no dia 29 de julho e estreou definitivamente no dia 31 de julho em 3.750 cinemas daquele país. Certamente, juntando com o que a produção vai arrecadar no restante do mundo, ela terá lucro. Mas dificilmente será um fenômeno de bilheterias.</p>
<p>Além dos Estados Unidos, Cowboys &amp; Aliens teve pré-estreia na Índia e no Canadá no dia 29 de julho. Depois, passou pelo festival de Locarno e estreou em outros mercados espalhados pelo mundo.</p>
<p>O trabalho dos atores mais significativo já foi comentado. Mas nunca é demais citar outros profissionais que acabam sendo importantes para a história e que fazem um trabalho razoável: <a href="http://www.imdb.com/name/nm0063440/">Adam Beach</a> como Nat Colorado, índio que virou o filho adotivo do durão Woodrow Dolarhyde; <a href="http://www.imdb.com/name/nm0115152/">Chris Browning</a> como Jed Parker; <a href="http://www.anadelareguera.net/">Ana de la Reguera</a> como Maria; <a href="http://www.imdb.com/name/nm3226241/">Noah Ringer</a> como Emmett Taggart, filho do sheriff; <a href="http://www.imdb.com/name/nm0001018/">Keith Carradine</a> como o sheriff John Taggart; e <a href="http://www.raoultrujilloinfo.com/">Raoul Trujillo</a> como o chefe apache Black Knife.</p>
<p>Eu sei que a maioria das pessoas que gostam de filmes de ação não se importam muito com o roteiro. Mas não consigo me conter sobre um comentário. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Os aliens deste filme são muito, mas muito burros, realmente. Afinal, eles não precisavam sequestrar um monte de gente e ficar atirando pra cima e pra baixo. Bastava atacarem ao personagem central, direcionar todos os tiros para Jake Lonergan. Ele era o único que tinha uma arma roubada e que realmente tinha efeito contra eles. Sem aquele bracelete, nenhum ataque terráqueo teria feito realmente efeito. No fim das contas, os homens e mulheres do Velho Oeste eram a inteligência superior. <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </p>
<p>Cowboys &amp; Aliens não conseguiu convencer os espectadores e os críticos. Os primeiros deram a nota 6,5 para a produção no site <a href="http://www.imdb.com/">IMDb</a>. Os segundos, foram ainda menos generosos: eles tem 122 textos negativos e 98 positivos para a produção linkados no <a href="http://www.rottentomatoes.com/">Rotten Tomatoes</a>, o que garante uma aprovação de 44% &#8211; e uma nota média de 5,6. Olhando para estas avaliações, acho que eu fui beeeeem generosa com o 8 que eu dei. Mas é que eu gostei muito do começo do filme, da atuação do Daniel Craig e do estilo do diretor &#8211; ainda que a produção tenha caído tanto de qualidade depois dos primeiros 40 minutos. Mas é isso aí mesmo, gostos são gostos &#8211; e quando estamos dispostos a assistir a um filme-pipoca, como esse, até a nota melhora. <img src='http://s0.wp.com/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' /> </p>
<p><strong>CONCLUSÃO:</strong> Um filme que mistura dois gêneros clássicos do cinema: o western e a ficção científica, para gerar uma produção cheia de ação, alguma ironia e bastante previsibilidade. Cowboys &amp; Aliens brinca com a ideia lançada por Erich von Daniken no livro Eram os Deuses Astronautas? para abordar o encontro inusitado entre civilizações em níveis de desenvolvimento muito diferente. Só que esta relação não se mostra amistosa ou complementar, mas apenas conflitante. Jon Favreau acerta na direção, mas o roteiro escrito a cinco mãos não evita que a história seja o elo fraco da produção. Tecnicamente bem feito, Cowboys &amp; Aliens peca por uma história fraca, que perde interesse conforme o filme vai se desenvolvendo. Mas para quem não se importa muito com um roteiro previsível e está mais interessado em efeitos especiais e atuações bacanas, esse pode ser um bom passatempo e uma ótima alternativa de entretenimento. Para o meu gosto, esta produção saiu previsível demais e um bocado morna, sem emoção. Poderia ter sido melhor.</p>
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		<title>Hesher</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Aug 2011 16:17:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandra</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema norte-americano]]></category>
		<category><![CDATA[Crítica de filme]]></category>
		<category><![CDATA[Movie]]></category>

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		<description><![CDATA[Um filme rock and roll. Não apenas na trilha sonora, mas no roteiro e na levada. Hesher parte da perda de uma família e da aproximação estranha de um sujeito hardcore na vida de um órfão para tratar sobre questões existencialistas. Vida, morte, família e comprometimento aparecem  na mira do diretor e roteirista Spencer Susser. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=moviesense.wordpress.com&amp;blog=1601314&amp;post=3712&amp;subd=moviesense&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://moviesense.files.wordpress.com/2011/08/hesher2.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3720" title="hesher2" src="http://moviesense.files.wordpress.com/2011/08/hesher2.jpg?w=650" alt=""   /></a></p>
<p>Um filme rock and roll. Não apenas na trilha sonora, mas no roteiro e na levada. <a href="http://www.hesherthemovie.com/">Hesher</a> parte da perda de uma família e da aproximação estranha de um sujeito hardcore na vida de um órfão para tratar sobre questões existencialistas. Vida, morte, família e comprometimento aparecem  na mira do diretor e roteirista <a href="http://www.imdb.com/name/nm1127632/">Spencer Susser</a>. Uma produção com algumas surpresas e um bocado de irreverência, como o rock mesmo. Interessante, ainda que não deverá agradar a todos os gostos porque não inventa ou surpreende como poderia fazer.</p>
<p><strong>A HISTÓRIA:</strong> Um garoto com o braço esquerdo enfaixado anda de bicicleta acelerado. Ele persegue um reboque com um carro vermelho batido. No caminho, sofre um pequeno acidente, mas não desiste de perseguir o automóvel. No ferro-velho ele entra no carro rebocado, até que é retirado de lá. Para T.J. (<a href="http://www.imdb.com/name/nm2044770/">Devin Brochu</a>), aquele não é um simples carro que ocupava espaço na frente da casa da família. O veículo guarda as últimas lembranças dele da mãe. Mas pouco a pouco ele aprende que deve superar o luto e voltar à rotina. Mas tudo está diferente, e fica cada vez mais fora do comum quando Hesher (<a href="http://www.hitrecord.org/reel">Joseph Gordon-Levitt</a>) e Nicole (<a href="http://www.imdb.com/name/nm0000204/">Natalie Portman</a>) entram na vida do garoto.</p>
<p><strong>VOLTANDO À CRÍTICA</strong> (SPOILER &#8211; aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hesher): Cheio de altos e baixos, Hesher é uma produção alternativa. A essência do filme é o rock, o som pesado e toda a cultura que o cerca. Especialmente a vocação de romper com a tradição, com os lugares comuns. Isso tudo é verdade. Mas ainda que Hesher surpreenda, em alguns momentos, especialmente ao tratar com bastante frieza um garoto que perdeu a mãe há pouco tempo, ele também se mostra um bocado previsível.</p>
<p>As surpresas do filme duram a primeira hora. Depois, nos acostumamos com o jeito sempre no limite do personagem que dá nome à produção, e tudo que começa a acontecer se torna esperado. Claro que a produção vale pela curiosidade, por apostar em uma fórmula que escapa da maioria das produções de Hollywood, muito preocupadas com o politicamente correto. Hesher não é nada politicamente correto.</p>
<p>Primeiro, porque não maquia os efeitos da perda de uma pessoa fundamental na vida de uma família. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Quando a mãe de T.J. morre, isso não abala apenas a vida do garoto. Termina com o ânimo do pai dele, Paul Forney (<a href="http://www.imdb.com/name/nm0933988/">Rainn Wilson</a>), que cai em depressão. O clima fica cada vez mais tenso na família, e a doente avó do garoto, Madeleine (<a href="http://www.imdb.com/name/nm0001453/">Piper Laurie</a>) se esforça para tentar manter a unidade familiar, sem muito sucesso.</p>
<p>De forma bastante peculiar, o roteiro do diretor Spencer Susser, escrito juntamente com <a href="http://www.imdb.com/name/nm2391575/">David Michôd</a>, baseado em uma história de <a href="http://www.imdb.com/name/nm3462823/">Brian Charles Frank</a>, questiona as saídas mais usuais para o luto. (SPOILER &#8211; não leia&#8230; bem, você já sabe). Primeiro, o tempo sozinho não ajuda o desolado viúvo Paul. Nem mesmo a responsabilidade dele com a mãe idosa ou o filho que ficou órfão. Depois, quando ele busca um grupo de apoio, as conversas de apoio também parecem sem efeito. A apatia do chefe de família chega a tal ponto que ele aceita um completo desconhecido em casa. Não reage a seus abusos.</p>
<p>Hesher, por sua vez, encontra naquele ambiente desolado o local ideal para passar um tempo seguro. (SPOILER &#8211; não leia se você não assistiu ao filme). Nômade sem família, capaz de jogar uma bomba em um carro de uma patrulha de segurança e de intimidar quem desafiar as suas vontades, Hesher mexe com o cotidiano daquela família destroçada. Torna alguns dias de T.J. desafiantes, ensina para o garoto os piores exemplos &#8211; como de que é legítimo queimar o carro de um desafeto &#8211; e se mostra o único capaz de enxergar e ouvir a cansada avó Madeleine. O grande problema do filme, contudo, é que fora o politicamente incorreto no linguajar &#8211; fazia tempo que eu não via uma produção com tantos palavrões e linguagem chula &#8211; e nas atitudes do protagonista, sobra pouca surpresa na história. Aliás, surpresa alguma. Um espectador um pouco mais &#8220;rodado&#8221; (ou seja, que já tenha assistido há um bocado de filmes antes) vai saber o que esperar da história até o final. Sem contar que os personagens são bastante rasos, com atitudes lineares, quase esquemáticos.</p>
<p>Claro que é importante diretores como Spencer Susser destilarem o seu estilo por aí. Para mostrar que ainda existe espaço para uma certa ousadia no estilo de fazer cinema. Só que falta a Hesher um pouco mais de inovação no conteúdo, especialmente na construção dos personagens. De qualquer forma, a produção dá espaço para Joseph Gordon-Levitt se destacar. Enquanto o restante dos autores faz apenas um trabalho mediano. Natalie Portman mesmo&#8230; a personagem dela é morna e a atuação, consequentemente, sem destaque algum. Dispensável. Mas como a atriz é produtora do filme, explica-se o seu envolvimento no projeto &#8211; certamente ela não foi atraída pela personagem, que é ruim.</p>
<p>No mais, Hesher dá uma lição &#8211; ainda que de forma bastante torta &#8211; para o pai e o filho que protagonizam esta história, sobre a importância de quebrar algumas regras e de viver o amor e a gratidão pelas pessoas que mais prezamos, que fazem a nossa vida ter sentido. De preferência, devemos fazer isso enquanto elas estão com o coração pulsando. Mas mesmo quando esta fase já passou, nunca é demais prestar a homenagem devida. O final é uma tacada certa do diretor. Pena que o recheio nem sempre acompanhe essa &#8220;boa sacada&#8221;.</p>
<p><strong>NOTA:</strong> 7.</p>
<p><strong>OBS DE PÉ DE PÁGINA:</strong> Esse é o primeiro longa dirigido por Spencer Susser. De 1999 até agora, fora Hesher, ele havia dirigido apenas curtas e alguns vídeos &#8211; como o videoclipe de <a href="http://www.youtube.com/watch?v=_g19fCJotPc&amp;ob=av3e">Want You Bad</a>, do <a href="http://www.offspring.com/">The Offspring</a>.</p>
<p>Em termos de bilheteria, Hesher foi um pequeno desastre. Mesmo não tendo custado nenhuma fortuna, para os padrões de Hollywood &#8211; aproximadamente US$ 7 milhões -, Hesher faturou pouco mais de US$ 382,9 mil nas bilheterias dos Estados Unidos. Um desempenho ridículo &#8211; apesar de nomes conhecidos no elenco.</p>
<p>Mesmo tendo algumas falhas graves no roteiro, como personagens fracos e diálogos engraçados de tão nonsenses, assim como saídas bem melodramáticas perto do final, é preciso dizer que Hesher tem algumas sequências muito bem filmadas. A melhor delas é a inicial, com a perseguição de bicicleta que T.J. faz ao carro da família.</p>
<p>Antes que alguém me pergunte como eu fui capaz de dar uma nota 7 para um filme tão fraquinho, devo dizer que a principal motivação desta nota são as palmas que eu bato para a ousadia de Hesher. Mesmo sendo um filme fraco e que pode ser classificado como &#8220;ruinzinho&#8221; sem nenhum medo de injustiça, devo dizer que temos aqui uma produção corajosa. Pelo menos ao tratar sem pudor algumas relações familiares e problemas caseiros pouco mostrados por outros filmes. Não apenas a depressão que não termina de um pai de família engessado pelo luto e pela culpa, mas também as relações de poder entre os diferentes membros desta família, a forma underground de algumas figuras encararem a vida e a sociedade e, claro, a dureza que pode acompanhar um garoto que só parece se ferrar. Em vários momentos eu pensei se a vida de T.J. não iria melhorar nunca. E, aparentemente, pouco vai melhorar na história do garoto, que continuará órfão e tudo o mais. A diferença, do início do filme para o final, é que T.J. aprendeu algumas lições valiosas &#8211; e terá, novamente, um pai desperto ao seu lado. De qualquer forma, gostei da veia rockeira desta produção. Há pouco espaço para filmes como esse no mercado.</p>
<p>Hesher estreou no <a href="http://www.sundance.org/festival/">Festival de Sundance</a>, o reduto para filmes alternativos, em janeiro de 2010. Depois, o filme passou por outros dois festivais: os da Philadelphia e da Flórida. Nenhum relevante &#8211; fora o de Sundance, é claro. Neste caminho, ele foi indicado apenas ao grande prêmio do júri em Sundance, onde perdeu a disputa para <a href="http://www.wintersbonemovie.com/">Winter&#8217;s Bone</a>. Não há nenhuma dúvida que o filme dirigido por Debra Granik mereceu mais o prêmio que Hesher.</p>
<p>Da parte técnica do filme, vale citar a ótima trilha sonora de <a href="http://www.imdb.com/name/nm1451475/">Frank Tetaz</a>, a direção de fotografia bem balanceada de <a href="http://www.morgansusser.com/">Morgan Susser</a> e a edição competente que o diretor Spencer Susser faz ao lado de <a href="http://www.imdb.com/name/nm0567331/">Michael McCusker</a>.</p>
<p>Os usuários do site <a href="http://www.imdb.com/">IMDb</a> deram uma nota muito boa para Hesher: 7,2. Eis uma avaliação muito positiva, levando em conta a média do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no <a href="http://www.rottentomatoes.com/">Rotten Tomatoes</a> foram menos generosos. Publicaram 38 críticas positivas e 31 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 55% &#8211; e uma nota média de 5,7.</p>
<p><strong>CONCLUSÃO:</strong> Protagonizado por um sujeito totalmente fora dos padrões, Hesher é um filme com boas sacadas, alguma diversão e um bocado de tempo gasto com redundância. O esforço de ser politicamente incorreto é interessante, ainda que chegue a ser previsível e cansativo em alguns momentos. Com uma grande atuação de Joseph Gordon-Levitt e uma trilha sonora bem interessante, Hesher mostra como, algumas vezes, o melhor tratamento para um luto é mesmo o choque elétrico. Que mais cedo ou mais tarde temos que aprender a lidar com a perda e, através dela, saber valorizar ainda mais o que temos de precioso ao nosso redor, que é o amor e a gratidão pelas pessoas que nos ajudaram e nos ajudam a sermos quem somos. De uma forma nada usual, Hesher trata, desta maneira, sobre a importância da família, do amor e de encontrarmos o nosso próprio caminho. No início e no final, esta produção acerta a mão. Mas na maior parte do tempo, perde força com personagens superficiais, perseguições e represálias bobas. A essência do rock está ali, em cada minuto. Mas ela algumas vezes é desperdiçada. Um passatempo curioso, mas que pode desagradar aos que buscam &#8220;algo mais&#8221; no meio de tanto som pesado e palavrões. Porque Hesher não quer explicar muita coisa, apenas mostrar que a vida pode ser vivida intensamente, dentro ou fora dos padrões.</p>
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