Arquivos

Posts Tagged ‘Serra Pelada’

Gone – 12 Horas

24 de março de 2012 8 comentários

Você sabe o que esperar de um thriller. Suspense, perseguições, adrenalina e alguma surpresa espalhada aqui e ali. Gone, primeiro filme do brasileiro Heitor Dhalia feito em Hollywood, não escapa da fórmula. Pelo contrário. Segundo o próprio diretor, ele foi feito como mais um produto do gênero. Mesmo que Dhalia tenha seguido ordens e faça um bom trabalho, o problema de Gone é o roteiro. Querendo brincar com lugares-comum, mas sem fazer muita graça, este filme apenas parece uma desculpa para fazer dinheiro.

A HISTÓRIA: Uma garota, Jill (Amanda Seyfried) caminha por um bosque. Ela tem um mapa nas mãos. A câmera mostra ela riscando mais uma parte percorrida do imenso Forest Park. Vemos que ela percorreu, mais ou menos, metade do território. Ela volta para o carro, e vai para casa. Ela toma um banho, e fala com a irmã, Molly (Emily Wickersham), que está estudando para um exame. A irmã desaprova a ida de Jill ao bosque. Por sua vez, Jill fala algo sobre bebida que nos deixa pensar sobre problemas que a garota pode ter com as bebidas. Molly fala sobre elas saírem em um encontro no final de semana, mas Jill não parece gostar muito da ideia. Depois, vemos cenas dela lutando com alguém, em uma espécie de pesadelo. Ela vai trabalhar como garçonete com o carro da irmã. Depois do expediente, volta para casa e encontra as coisas da irmã fora do lugar – a cama desarrumada, os livros e papéis que ela estava estudando bagunçados. Ela se desespera, porque acha que Molly foi sequestrada pelo homem que a tinha atacado alguns anos antes. A partir daí, ela empreende uma busca para saber o que aconteceu com Molly.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Gone): Honestamente, eu esperava um filme pior. Isso não quer dizer que Gone seja bom. Mas como eu fui convidada, através do Diário Catarinense, jornal para o qual trabalho e onde ando escrevendo sobre filmes no blog Sala de Cinema, para o lançamento do filme, me interessei em saber o que a crítica internacional estava falando da produção. E não era muita coisa boa.

Então fui para São Paulo preparada para assistir a uma bomba. E, no final das contas, até que não achei Gone tão ruim quanto os críticos estrangeiros haviam falado. Para início de conversa, como eu disse antes, algo que as pessoas precisam entender é que este filme é totalmente uma produção de gênero. Então sim, você terá a busca clássica por momentos de tensão, pelo suspense e a expectativa de reviravoltas. Como um thriller exige, há também muitas cenas de perseguição, e alguns personagens que podem mostrar-se culpados.

Gostei da direção de Heitor Dhalia. Acho que ele soube utilizar muito bem os recursos que teve à sua disposição. Tecnicamente falando, é um filme bem acabado. Dhalia utiliza muitos recursos de panorâmicas e mantêm a atenção quase todo o tempo nos olhões azuis de Amanda Seyfried. Esses são os seus acertos. Os principais problemas de Gone não residem na direção de Dhalia, mas no roteiro de Allison Burnett.

Li nas notas de produção de Gone que Burnett comentou que escreveu este roteiro praticamente a toque de caixa. Ou seja, que não foi um trabalho que exigiu muito do roteirista. Isso fica evidente. Ele utiliza a velha premissa da “moça traumatizada que parece um tanto desequilibrada e em quem ninguém acredita” como protagonista. A sanidade mental de Jill é um dos elementos fortes do filme. Isso seria interessante, e poderia dar caldo, se fosse explorado de outra forma. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Porque Burnett explora esse possível desequilíbrio de duas formas: mostrando que Jill tomava remédios de uso controlado e que já tinha sido internada em uma instituição psiquiátrica e com ela inventando uma história nova para cada pessoa que ia encontrando na busca pela irmã.

Esse segundo recurso eu achei ridículo. Afinal, essa atitude de nova história a cada esquina, parece mais um recurso de uma adolescente do que de uma mulher “descontrolada”. Ela seria uma mentirosa compulsiva? Não parece. Se fosse, mentiria para todos, inclusive para a irmã e a melhor amiga, Sharon Ames (Jennifer Carpenter, em uma mega ponta). Então não cola, e fica estranho.

E esta questão é fundamental. Porque se o espectador não acredita, realmente, que Jill pode ser louca, como a polícia parece estar convicta nesta crença, Gone se resume a um filme de ação. Da busca da protagonista por encontrar a irmã viva e vingar-se do algoz sequestrador assassino. Como o desequilíbrio de Jill não cola, e não porque a atriz seja ruim, mas porque o roteiro erra ao forçar a barra nas mentiras, o que nos resta é fazer uma busca por possíveis culpados, no melhor estilo dos livros de Agatha Christie.

E aqui surge o segundo problema. Pela dinâmica do filme, nenhum possível culpado realmente convence. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Vejamos: o personagem do investigador novato Peter Hood (Wes Bentley) parece resumir-se a um compêndio de caras sérias e estranhas estampadas pelo ator. Não há nenhuma linha no roteiro que realmente torne a possibilidade dele ser o serial killer convincente. Ele não parece inteligente o suficiente para enganar a polícia ou mesmo os espectadores.

A atuação de Bentley se resume a caras de muito sério e olhares atravessados. Pouco. E quem mais sobra? Jill vai esbarrando só com sujeitos que falam de maneira estranha, mas nenhum deles parece ser o serial killer. O namorado de Molly, Billy (Sebastian Stan) poderia ser esse suspeito? Também não parece muito lógico, especialmente pelas ações dele na história. Falta esse elemento na produção, a de possíveis suspeitos que convençam. Se bem que, com aquele final… pela ótica de Burnett, parece que a identidade do culpado pouco importa. E eis um erro primário do roteirista. Porque ótimos filmes sobre serial killers já mostraram que o vilão é tão ou mais importante que o mocinho. Não dar importância alguma a ele, como faz Gone, é seu principal erro.

Fora estes dois elementos fundamentais para um bom thriller funcionar e que aqui não se apresentam – a dúvida sobre a protagonista e sobre o possível vilão -, Gone tem problemas em outras escolhas do roteirista. Ainda que ele acerte em alguns diálogos, em outros ele literalmente troca os pés pelas mãos. Por exemplo, quando o chefe de polícia Ray Bozeman (Michael Paré) diz para Jill que “adultos tem o direito de desaparecer”. Engraçado, inteligente. Mas essa fala funcionária se tivesse sido dita por outra pessoa, não por um policial. Por mais que o povo daquela delegacia estivesse farto de Jill, não imagino um grupo deixando de fazer o seu trabalho de forma tão escancarada e sem ter, aparentemente, um caso melhor para averiguar.

Depois, toda relação da polícia com Jill parece bastante sem sentido. Eles acabaram tendo mais trabalho atuando como “pais preocupados” da garota depois que ela começa uma caçada sozinha do que fazendo uma apuração simples da primeira suspeita da protagonista. Fora isso, a história da “sopa para a mãe” e o gato literalmente pulando na frente da câmera eram bem, mas BEM dispensáveis. Agora, nem tudo em Gone são problemas.

Além da direção eficaz de Dhalia, a trilha sonora David Buckley é fundamental para o ritmo do filme. O roteiro também acerta na dinâmica clássica dos filmes de suspense, com a protagonista seguindo pistas para trilhar o seu caminho. Como migalhas de pão deixadas por uma criança no bosque para depois encontrar o caminho de volta para casa – aliás, algumas vezes eu lembrei de histórias clássicas durante este filme. Há quem tenha estranhado alguns “descuidos” do vilão do filme, como a caixa de fósforo que Jill encontra. Francamente? Até pelo final do filme, tudo indica que cada vestígio daquele foi deixado propositalmente por ele. Afinal, ele queria que Jill chegasse aonde ela chegou…

O filme tem ritmo, não dá sono, ainda que pudesse ter uns 15 ou 20 minutos a menos. Acho que uma versão mais dúbia, ou que provocasse outras dúvidas no espectador, teria sido mais interessante. E o final, é claro, deveria ter sido melhor planejado. Duvido que alguém fique convencido com a versão “ninja” de Jill, e com a facilidade com que ela se livra do problema. A falta de explicação sobre as origens e motivações do vilão também desagradam. Mas é um filme que sabe criar alguma tensão, é bem dirigido e tem o ritmo certo em grande parte do tempo. Quem gosta deste tipo de produção, passará por bons momentos. Mas provavelmente ficará insatisfeita(o) com o final. Porque, diferente do que Dhalia argumentou, não há nenhuma catarse ali.

NOTA: 5,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Na coletiva e nas entrevistas com os grupos de jornalistas que foram até São Paulo para o lançamento deste filme, Heitor Dhalia deixou claro que não teve nenhuma liberdade criativa nesta produção. Tentou redimir-se de responsabilidades sobre um filme que ele sabe que havia sido atacado, fora do país, pela crítica, e que provavelmente seria criticado no Brasil também. Mas nem era para tanto. Quem assistir a Gone vai perceber que Dhalia faz um bom trabalho. O problema do filme não está na direção, nem na atriz principal, que faz um ótimo trabalho, aliás. Mas essencialmente no roteiro.

Dhalia comparou o trabalho dele neste filme com o de um matador de aluguel, que puxa o gatilho, mas que não sente o mesmo prazer que um serial killer. Ele disse que não pôde ensaiar com os atores antes de filmar, e que não teve liberdade também de fazer as mudanças que achou necessárias no roteiro. Apenas executou o que o produtor queria. Gone teria saído pago. Quando a primeira cena foi rodada, o filme já teria dinheiro para cobrir os custos, com a venda para o mercado internacional para a exibição da produção. A bilheteria que Gone conquistou nos Estados Unidos, por exemplo, seria lucro garantido. Assim como o dinheiro que o filme fizer no mercado internacional além do patamar de seus custos.

O diretor de Gone mostrou uma sinceridade rara no dia do lançamento do filme no Brasil. Ele foi tão aberto não porque não queira mais produzir em Hollywood. Não. Ele deixou claro que quer continuar fazendo filmes por lá – mas com outras condições de trabalho. Talvez a sinceridade se justifique pela ideia do diretor de que os produtores de Gone não devem ler as falas dele na imprensa brasileira. Se ele quiser continuar trabalhando em Hollywood, é bom que ele esteja certo.

Você quer ler a entrevista completa com o diretor Heitor Dhalia e ainda ver um vídeo com três perguntas exclusivas que eu fiz para ele? Então acesse este post do blog Sala de Cinema, do Diário Catarinense, onde publiquei este material.

Um dos poucos elementos que Dhalia disse ter autoridade para influenciar foi a fotografia de Gone. Em vários momentos, achei ela um pouco escura demais. Mas esta foi uma escolha de Dhalia, juntamente com o diretor de fotografia Michael Grady.

Este é um filme de uma atriz, basicamente. Amanda Seyfried domina a cena, e faz um bom trabalho. Os demais atores fazem apenas um trabalho mediano, para dizer o melhor. Este é o caso de Emily Wickersham e de Daniel Sunjata, que interpreta ao policial Powers. Outros, como Wes Bentley, Jennifer Carpenter, Sebastian Stan e Katherine Moennig (conhecida pela série The L Word, e que aqui faz a policial Erica Lonsdale) estão muito mal. São caricatos e se esforçam demais para fazerem caras de maus. Moennig mesmo, tem poucas falas – assim como Carpenter. Boas atrizes desperdiçadas em papéis previsíveis e caricatos.

Outros atores razoáveis fazem papéis ainda menores. Como Nick Searcy, Socratis Otto e Joel David Moore. Mais desperdício.

Um jornalista que estava no lançamento do filme perguntou porque ele se chamou 12 Horas no mercado brasileiro. Afinal, a história se passa em mais do que 12 horas. O diretor não soube explicar, mas pessoas que faziam parte da divulgação disseram que sim, que o principal da trama se passaria em 12 horas. Vejamos: Jill chega em casa as 6h, depois do trabalho, quando começa a correr atrás da irmã… e esta caçada termina pelas 18h, quando está anoitecendo. Eu diria que é preciso fazer um grande esforço para entender o filme desta forma. Primeiro porque toda aquela “novelinha” no carro leva bastante tempo, e o desfecho mesmo deve acontecer bem depois das 18h. Depois, a história propriamente começa antes das 6h, no dia anterior, e termina depois do desfecho. Mais de 12 horas, pois. Mas ok, dá para entender a escolha deste título para chamar a atenção de fãs da série 24 Horas e de outras produções que tem o tempo como um elemento importante.

Dhalia disse que quer seguir um pouco os passos de Walter Salles, que estreou com um filme criticado e também de suspense, Dark Water, no qual ele parece ter tido pouca liberdade para fazer escolhas, e que agora está lançando uma produção aparentemente mais autoral, On the Road. Veremos se Dhalia conseguirá realmente fazer o mesmo. Francamente estou na torcida por ele porque, concordo com o diretor, a exposição conquistada ao fazer um filme em Hollywood é incomparável.

Há pelo menos um erro grave nesta produção. E talvez ele se justifique pelaas cenas refilmadas e pela mudança no final feita após sessões com audiências que não gostaram da primeira versão de Gone. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não faz sentido algum a cena em que Jill fala para o vilão da história que a ligação está falhando, e ele diz que dentro do bosque não pegam telefones celulares. Alguém explica? Para mim, a única justificativa possível – e que faria sentido se lembrarmos a frase que ele disse tempos antes, que ela deveria, desta vez, dirigir com cuidado – seria a de que ele estava dentro do carro com ela. E que grande parte do diálogo tinha sido feito diretamente entre eles, e não pelo celular. O filme dá essa impressão também nas frases finais da conversa, quando parece que a voz dele está mais forte do que quando eles falavam pelo telefone. Mas isso não faz sentido por duas razões: quando ela ligou para o número dele e ele atende, se ele estivesse no carro, ela ouviria o telefone tocar, certo? E isso não acontece. Depois, o que justificaria ele estar no carro e o diretor não mostrar isso? E ele sairia tão rápido dali, sem ela notar, para chegar antes que ela no buraco? Eis uma falha do roteiro que incomoda.

Gone teve uma premiere em Hollywood no dia 21 de fevereiro. Poucos dias depois, ele estreou nos circuitos da Austrália, Rússia, Canadá e Estados Unidos. No Brasil, ele tem previsão de estrear no dia 6 de abril. ATUALIZAÇÃO (30/3): A distribuidora Paris Filmes mudou a data de estreia para o dia 20, no início desta semana e hoje, dia 30, informou que 12 Horas deverá estrear no dia 13 de abril.

Esta produção teria custado, segundo o diretor, que afirma que não tem essa informação precisa, entre US$ 12 milhões e US$ 15 milhões. Mas Dhalia repetiu em mais de uma ocasião que o filme saiu pago. Até o último dia 18 de março, apenas nos Estados Unidos, o filme tinha faturado quase US$ 11,36 milhões. Segundo o diretor, este é o lucro da produção – além do que ela for faturar no mercado internacional.

Gone foi totalmente rodado na cidade de Portland, terra de Gus Van Sant e de uma ótima cena musical, segundo Dhalia.

A crítica internacional dinamitou este filme. O site Rotten Tomatoes, que concentra textos de críticos de várias nacionalidades, faz links para 42 críticas negativas e para apenas cinco positivas dedicadas à Gone – o que lhe garante uma aprovação de 11% e uma nota média de 3,2. Acredito que uma das piores avaliações já vista no site. Os usuários do site IMDb também não aprovaram a produção. Eles deram a nota 5,4 para Gone.

Depois deste filme, Dhalia promete voltar para o cinema autoral e fazer um grande “épico brasileiro”. Segundo o diretor, Serra Pelada, seu próximo filme, será o maior projeto de sua carreira – e o terceiro com foco no mercado internacional (após À Deriva e Gone). Após a entrevista que eu fiz com ele em vídeo, citada anteriormente, comentei com o diretor sobre Ricardo Kotscho, jornalista que escreveu um dos livros mais célebres sobre a Serra Pelada, e Dhalia me confidenciou que iria se reunir com Kotscho no dia seguinte. A obra de Kotscho, assim como a biografia de Eike Batista, seriam dois livros que serviriam de base para o diretor. Faria parte do elenco do filme o ator Wagner Moura. Eis um filme para ficar de olho, até porque o assunto é muito interessante.

CONCLUSÃO: Eu devo discordar de Heitor Dhalia. Em uma entrevista que ele deu para um grupo de jornalista – e eu fazia parte do grupo – em São Paulo, quando Gone foi lançado esta semana, o diretor confirmou que parte de Gone teve que ser refilmada, inclusive o final, mas que o resultado após estás alterações tornou o filme melhor. Perguntei como era a versão anterior, e ele disse que mais dúbia, que ela deixava mais perguntas no ar e que não apresentava para o espectador o que ele queria no final. Não tinha a questão da vingança. Não sei exatamente como era o outro final, mas posso dizer que o que foi aprovado e que nós assistimos não pode ser considerado bom. Pelo contrário. Ele é um grande tiro no pé. Não acho que o espectador preciso da catarse, da vingança. Acho que todos nós precisamos ser surpreendidos. E mesmo que isso seja cada vez mais difícil, especialmente em filmes como este, esta é a razão de assistí-los. Gone é bem dirigido. Bem feito tecnicamente. Amanda Seyfried aparece em praticamente todas as cenas e carrega o filme nas costas com aqueles olhões arregalados. Mas o roteiro é fraco, erra a mão em várias vezes. E o final é decepcionante. Se ainda assim você quiser assistir ao filme, bom proveito. Mas não diga que eu não avisei.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 1.533 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: