Last Days in the Desert – Últimos Dias no Deserto

14 de setembro de 2016 1 comentário

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Um filme para causar polêmica. Mas isso se você o levar muito à sério ou, melhor, ao pé da letra. Não faça isso. Não leve Last Days in the Desert muito à sério. E também não o leve na brincadeira. Esta produção não é para fundamentalistas e sim para quem está disposto a abrir o campo de visão e filtrar algumas ideias interessantes que o diretor nos apresenta. Claro que nem tudo passa pela peneira. Mas isso é natural. Afinal, estamos falando de Jesus Cristo. Impossível qualquer filme sobre ele agradar a gregos e troianos.

A HISTÓRIA: Começa com as seguintes frases: “Preparando-se para a sua missão, o homem santo foi ao deserto para jejuar e orar e procurar orientação”. Cenas do deserto em diferentes condições, incluindo sol, dia, nuvens e entardecer. Jesus está ajoelhado, com a cabeça baixa, até que levanta o olhar e pensa “Pai, onde está você?”. Ele tira o capaz. Depois, aparece dormindo em um local protegido. Ele toma um pouco de água e segue a caminhada. No trajeto, se encontra com uma mulher que, na verdade, é o diabo. Jesus se encontrará com ele várias vezes, mas é no encontro com uma família que ele encontra muitas respostas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Last Days in the Desert): A Bíblia fala sobre os 40 dias em que Jesus Cristo passou no deserto antes de encarar o seu derradeiro final nesta vida terrena em Jerusalém. O diretor colombiano Rodrigo García pegou este fato para imaginar o que poderia ter acontecido com o filho de Deus no deserto durante este período. Roteirista desta produção, ele dá voz à própria imaginação e nos apresenta um filme instigante, interessante, com algumas ideias curiosas.

Para ler bem a Bíblia e também para entender melhor este filme é preciso interpretação. Não basta ler a Palavra ou entender o que se passa na telona com belas imagens planejadas por García. É preciso ir além. Para entender bem a Bíblia, é necessário conhecer não apenas o contexto da época de Jesus e do Velho Testamento, mas também entender sobre os contextos de quem escreveu as Escrituras.

O mesmo vale para esta produção de Rodrigo García. Mais do que saber sobre o diretor, é importante observar o que os fatos que ele nos apresenta significam. Na Bíblia está escrito apenas que Jesus passou 40 dias no deserto para orar, refletir e buscar o encontro com Deus que ele esperava, a força necessária para enfrentar todo o caminho de ultraje, agressões e morte que ele encararia em Jerusalém. Está na Bíblia que o Diabo o tentou repetidas vezes. E isso é tudo.

Não há nada sobre Jesus ter se encontrado com uma família no deserto e convivido com ela alguns dias. Esse trecho, como vocês devem saber, faz parte da imaginação de Rodrigo García. Mas devemos embarcar na história dele porque ela nos apresenta algumas reflexões muito interessantes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Para mim, aquela família que Jesus encontra e convive é, na verdade, uma alegoria da própria Humanidade. Pai, mãe e filho são a essência da família e, claro, da criação humana.

Pois bem, Jesus vai para o deserto para encontrar respostas. E como ele diz para o garoto, filho do casal, em certo ponto da produção, ele encontrou as respostas que ele desejava. Algumas delas justamente no convívio com a família. Neste momento ele percebe, por exemplo, a força do amor e da dedicação, da generosidade, e percebe que o maior gesto de amor é quando alguém se doa pelo outro. Ele próprio fará isso quando for encarar Jerusalém e a sua injusta morte na cruz. Ele será sacrificado por todos.

Aquela família marca o encontro de Jesus com todas as famílias do mundo, com a Humanidade. Sem Jesus, o próprio Diabo comenta sobre isso, o jovem pensaria em si em primeiro lugar e sacrificaria o pai para conseguir realizar o próprio desejo de ser livre. Isso pode ser entendido como algo específico, para aquela situação, ou projetado para qualquer época, como para hoje. Quem acredita em Jesus, quem tem fé, jamais teria uma atitude como essa porque ele amaria a Deus acima de todas as coisas e o próximo como a si mesmo, jamais matando, por exemplo, mas defendendo a vida sob todas as circunstâncias.

O pai da história quer o melhor para a sua família. Ele cuida da esposa, que está doente, e quer que o filho siga a tradição, que cuide do que a família conquistou. É como o papel de liderança da sociedade patriarcal, em que o pai tem a sabedoria de determinar o futuro dos mais jovens e é a voz que deve ser seguida. Mas como o exemplo daquela família, existe conflito e ruptura quando o pai não consegue se comunicar com o filho. A distância entre eles parece insolúvel, mas com a proximidade de Jesus e seu olhar amoroso e compassivo, o pai tenta se aproximar do filho. Sem muito sucesso, é verdade, mas o gesto demonstra esperança.

A mãe, mesmo doente, tenta aproximar pai e filho e quer o melhor para o herdeiro da família. Ela também, a exemplo do pai, está disposta a se sacrificar pelo filho. Até este ponto, as ideias de García coincidem muito com o que parece ser a essência do que está na Bíblia. Mas há outras ideias que não são, digamos assim, muito óbvias. Pelo contrário. E aí que reside, na minha opinião, uma certa polêmica que este filme pode levantar. Por isso mesmo acho importante assisti-lo com tranquilidade, sem muitas paixões e levando em conta que esta é uma obra artística e não religiosa.

O primeiro ponto que chama a atenção, sem dúvida, é o fato do Diabo, a partir de sua segunda aparição, surgir como um “irmão gêmeo” e/ou uma cópia do próprio Jesus. Esta é a primeira ideia provocadora do filme e que pode ser entendida de duas formas diferentes – dependendo do gosto do espectador.

O Diabo ter a “imagem e semelhança” de Jesus pode ser encarado como uma forma de dizer que o Diabo não é nada mais do que uma outra parte de nós mesmos, o lado “mau” que devemos combater. Mas isso não faz muito sentido no caso de Jesus, já que ele era santo – se fez homem e sentiu o mesmo que qualquer homem, mas não cometeu pecado, consequentemente não teira o lado “mau”.

Outra forma de encarar o Diabo como “imagem e semelhança de Jesus” seria o de demonstrar como ele é ardiloso, tentando se passar por Jesus e procurando confundir o Filho de Deus. Também podia ser visto como uma forma do Diabo tentar se “igualar” ao filho de Deus, a quem se referia com clara admiração e perplexidade. Em mais de um momento o Diabo tenta Jesus com pecados muito terrenos – da água e do alimento até a mulher que está na tenda. Claro que nada realmente tenta Jesus, como está claro na Bíblia também.

Uma preocupação clara de Rodrigo García é humanizar a figura de Jesus Cristo. Para mim, mais do que o que ele sofre no primeiro trecho do filme, isso fica claro ao mostrar que Jesus sonhava e tinha pesadelos. Talvez esta seja uma das demonstrações mais claras do diretor em tentar “desmistificar” o Filho de Deus. Uma parte um tanto polêmica, também, porque dá pano para a manga imaginar que Jesus tinha pesadelos.

Um outro ponto que pode render polêmica, mas não acho que ela se justifique, é o fato de Jesus beijar o pai e a mãe na boca – esse tipo de saudação era comum para a época, especialmente quando alguém estava para morrer ou tinha morrido. Agora, admito que alguns pontos me incomodaram um pouco. Porque todos comentados até agora me parecem parte da imaginação do diretor e não fogem muito do que se poderia esperar de Jesus pelo que sabemos dele e que está na Bíblia.

Um ponto que me incomodou foi quando Jesus pede ajuda para o Diabo e o ordena que mostre o futuro do garoto. Sério mesmo? Achei uma forçada de barra desnecessária do diretor naquele ponto. Jamais Jesus pediria ajuda do Diabo para saber qualquer coisa. Muito menos para “matar a curiosidade” sobre a vida de alguém. Totalmente desnecessário. Também achei um tanto ridícula aquela “aparição” do Diabo quando Jesus estava próximo da morte, colocado na cruz, e aparece o Diabo como um beija-flor. Humm… ideia estranha.

O que reforça a minha teoria de que a família que Jesus encontra no deserto segundo a visão criativa de Rodrigo García seria a própria Humanidade é a sequência em que Jesus vai ajudar a mãe doente, perto do final. Não fica claro ali se ele iria curá-la ou apenas tirar a dor que ela estava sentindo, mas a mulher recusa a ajuda. O que acontecia muito naquela época e acontece até hoje: nem todos querem aceitar a Verdade da vinda de Jesus e também não querem ser ajudados. Cada pessoa daquela família simboliza uma vertente da conduta da própria Humanidade com a qual Jesus se encontra, observa e aprende a respeito.

Finalmente, García polemiza um pouco com aquele final. Em certo momento, o Diabo, tentando a Jesus, lhe questiona sobre o que ele vai fazer ao sair do deserto e se ele acredita que alguém lhe dará importância no futuro. A última sequência do filme mostra justamente o que parece ser um pai e um filho no desfiladeiro em que o pai da época de Jesus se sacrifica pelo filho. Na visão de García, nos tempos atuais, um pai e um filho vão ao local para fazer uma foto. Essa imagem provavelmente será compartilhada pelas redes sociais na sequência.

A questão que o diretor deixa no ar é: aquele pai e aquele filho estão lá por causa de Jesus ou apenas para ver a um belo cenário para uma foto? A resposta fica, como tantos outros pontos do filme, ao gosto do espectador. Da minha parte, acho sim que eles estão lá por causa de Jesus e que, diferente do que o Diabo sugeriu para o Filho de Deus, ele segue sendo importante e lembrado até hoje. A questão é que tipo de lembrança temos Dele? Apenas como uma desculpa para uma foto, para uma viagem de turismo com requintes de fé, ou será que vivenciamos o que ele tentou nos ensinar no dia a dia, de fato, tentando mudar a realidade ao nosso redor? Talvez esta seja uma pergunta importante que Last Days in the Desert nos deixe de presente.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este é um filme indicado para pessoas que não se importam com narrativas lentas e contemplativas. Porque é exatamente isso que Last Days in the Desert é. Rodrigo García faz um trabalho detalhista, atento ao cenário e à relação entre Jesus e os demais personagens entre si e com o entorno. Há muita contemplação em cena. O que não é ruim, mas certamente não agrada a todos os estilos de público. É bom você saber isso antes de assistir a esta produção. Assim como é bom saber, claro, que se trata de uma ficção sobre um capítulo na vida de Jesus Cristo. É bom ter algum interesse sobre o tema ou então, inevitavelmente, acharás tudo isso muito chato.😉

O colombiano Rodrigo García acertou em cheio ao valorizar o deserto como um personagem importante nesta história na mesma medida em que acertou ao escolher um pequeno punhado de atores para a produção. E todos muito bons, diga-se. Ewan McGregor é admirável e não é de hoje. Para o meu gosto ele faz um belo trabalho como Jesus (e como o Diabo também). Ele não força na interpretação, muito pelo contrário. Ele consegue convencer bem neste papel, que nunca é fácil de ser interpretado, dando legitimidade e trazendo humanidade para o papel de Jesus.

Os demais atores foram escolhidos à dedo. Destaque, em especial, para o sempre ótimo Ciarán Hinds. Depois, fazem um bom trabalho Tye Sheridan – um garoto que vale acompanhar – e a atriz Ayelet Zurer. Ela, mais bonita e enigmática do que com desempenho de destaque, até porque o seu papel é o menor entre os citados.

Um ponto fundamental nesta produção é a direção de fotografia do veterano Emmanuel Lubezki. Ele apresenta aqui mais um excelente trabalho. A trilha sonora do filme é bastante pontual. Nem sempre ela está preenchendo os espaços do filme – pelo contrário, Last Days in the Desert tem muitos momentos de silêncio e de som ambiente. Mas quando aparece, a trilha sonora de Danny Bensi e Saunder Jurriaans ajuda a imprimir o sentimento que o diretor quer na história.

Antes citei trechos do filme que exigem interpretação – e, claro, comentei alguma interpretações que eu tive. Falei de pontos interessantes e de outros que me incomodaram. Pois bem, teve um outro ponto que me incomodou e que eu não citei. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em certo momento, Jesus diz para o garoto que vai para Jerusalém para que ele ame a Deus sobre todas as coisas e para que ame a vida. Humm… Algo que fica evidente no filme de Rodrigo García é que ele mostra um Jesus bastante humano. Tanto que, e isso é inevitável, por ser humano ele ama muito a vida. Gostaria de ficar mais tempo por aqui – e daí vem a sua dúvida sobre o fim inevitável, porque ele amava a vida. Mas percebe que precisa se sacrificar para o bem de toda a Humanidade. Certo. Só que na Bíblia fica claro que Jesus resume todos os mandamentos em dois: amar a Deus sobre toda as coisas e o próximo como a ti mesmo. Por que então não repetir isso no filme e mudar a segunda parte para “ame a vida”? Me parece que se alguém ama a vida e não ao próximo a saída pode ser o egoísmo, não? Uma contradição no filme que me incomodou.

Além dos aspectos técnicos que eu já comentei, não existe muito o que destacar – o design de produção, a direção de arte e a decoração de set me pareceram ok, mas nada além do básico. Os figurinos, talvez, sejam um pouco mais interessantes – ainda que, volto a dizer, nada demais. Vale citar, contudo, o trabalho de Judianna Makovsky nos figurinos – realmente bem feito. Talvez eu destacaria apenas o bom trabalho dos 10 profissionais envolvidos com o departamento de som. E também o bom trabalho do editor Matt Maddox. E só.

O visual é uma parte fundamental do filme. Sem dúvida alguma um de seus pontos fortes.

Last Days in the Desert estreou no Festival de Cinema de Sundance em janeiro de 2015. Depois, o filme passaria por outros nove festivais antes de chegar comercialmente nos cinemas de alguns países. Nos Estados Unidos, por exemplo, ele estreou de forma limitada apenas em maio deste ano. Depois ele estreou em Cingapura e, no dia 8 de setembro, no Brasil.

Esta produção foi totalmente rodada no Anza-Borrego Desert State Park, na Califórnia – ou seja, muito distante do verdadeiro deserto por onde Jesus caminhou.

O diretor Rodrigo García nasceu na cidade de Bogotá no dia 24 de agosto de 1959. Ele estreou na direção com Things You Can Tell Just by Looking at Her, no ano 2000, com um belo elenco de atrizes: Gleen Close, Cameron Diaz, Calista Flockhart, Kathy Baker, Holly Hunter e Amy Brenneman. Depois, ele trabalharia na direção de episódios de diversas séries, inclusive a elogiada Six Feet Under e a série Big Love. Provavelmente o filme dele mais conhecido seja Nive Lives, de 2005. Até hoje, contudo, o diretor não recebeu nenhum grande destaque por seus longas.

Last Days in the Desert foi indicado a apenas um prêmio: Assistant Location Manager of the Year – Feature no desconhecido California on Location Awards em 2014. Mas ele não levou o prêmio para casa.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,6 para esta produção. Uma avaliação abaixo da média, sem dúvida. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 42 críticas positivas e 16 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 72% e uma nota média de 6,7. Ou seja, os críticos gostaram mais do filme do que o público em geral.

Algo que eu gostei no filme que talvez eu não tenha deixado claro antes vale citar aqui. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Se é verdade que este filme tem alguns pontos controversos e outros um tanto sem coerência, também é verdade que ele repassa algo fundamental de Jesus com muita propriedade. Neste filme, fica claro como Jesus se importa com as pessoas, com a dor humana, com as nossas dúvidas e atribulações. Ele se compadece, Ele quer ficar junto, mesmo quando não estamos exatamente dispostos a ouvi-lo ou a fazer o que deveríamos fazer. Mas ele está ali, está junto, nunca se separa e fica conosco até que o melhor aconteça. Isso é algo belo no filme, assim como a tentativa de mostrar um lado bem humano de Jesus – afinal, ele se fez carne e se tornou um de nós (exceto pelo pecado) para mostrar a todos que é possível trilhar um caminho de santidade.

Vale citar de que forma a experiência de Jesus no deserto é tratada na Bíblia. Em Mateus, após pedir para João Batista para ser batizado, “Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio. Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois teve fome”, e daí o Demônio se aproximou dele por três vezes e tentou Jesus de três formas diferentes, recebendo respostas sábias Dele todas as vezes. “Em seguida, o demônio o deixou e os anjos aproximaram-se dele para servi-lo”. Depois disso, Jesus teria ido para a Galileia e começado a Sua vida pública.

No Evangelho segundo São Marcos, após o batismo no Rio Jordão, “logo o Espírito” impeliu Jesus “para o deserto. Aí esteve quarenta dias. Foi tentado pelo demônio e esteve em companhia dos animais selvagens. E os anjos o serviam. Depois que João (Batista) foi preso, Jesus dirigiu-se para a Galileia”.

No Evangelho de São Lucas, novamente, temos Jesus indo para o deserto após o batismo no Rio Jordão. No deserto, Ele “foi tentado pelo demônio durante quarenta dias. Durante este tempo ele nada comeu e, terminados estes dias, teve fome”. Novamente aparecem as três tentações do Diabo e as respostas de Jesus, e Lucas afirma: “Depois de tê-lo assim tentado de todos os modos, o demônio apartou-se dele até outra ocasião”. Após esta experiência Jesus começa o seu ministério na Galileia. No Evangelho de São João não existe esta passagem sobre a ida de Jesus para o deserto.

Last Days in the Desert é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ela entra na lista de pedidos aqui no blog – em uma votação passada a maioria dos leitores pediu filmes originados naquele país.

CONCLUSÃO: Este é um grande exercício de imaginação do diretor Rodrigo García. Esqueça a Bíblia e o que ela nos diz sobre a peregrinação de Jesus pelo deserto. García pega um fato narrado pela Bíblia para se debruçar sobre alguns conceitos e reflexões muito interessantes. Para mim, este filme é mais sobre a Humanidade do que sobre Jesus, ainda que haja muito da sabedoria Dele na telona. Como comentei lá no início, não é possível assistir a esta produção com um olhar histórico, de fé ou fundamentalista. Saia de todos estes tipos de visão e assista com o olhar de uma obra artística. Com belas imagens, ótimos atores e um roteiro interessante, este filme nos leva pela mão em várias reflexões. Por isso mesmo, é mais do que muitas outras produções disponíveis no mercado. Vale a experiência.

Blood Father – Herança de Sangue

11 de setembro de 2016 1 comentário

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Para fazer um filme um bocado maluco, você precisa ter uma estrela igualmente “crazy”. Blood Father, em essência, não tem nada de novo. Pelo menos o argumento central não é inovador. Mas ele tem uma segunda camada de leitura interessante e que funciona muito bem. E à frente da trama, o ator um tanto maluco Mel Gibson. Ele está mais velho, mais experiente, mas não perdeu aquele olhar um tanto “descompassado” que volta e meia vemos nele. Para este filme, isso funciona muito bem.

A HISTÓRIA: A imagem de uma menina surge aos poucos e vemos que se trata de um cartaz de pessoa desaparecida. Pelas informações, sabemos que a garota está desaparecida desde os 14 anos. Uma jovem compra várias caixas de munição e um chiclete. Quando pede um cigarro, a caixa pede a identidade dela. Na sequência, a garota entra em um carro cheio de caras armados.

Um dos bandidos reclama que a garota de Jonah (Diego Luna) comprou munição errada para ele. O grupo sai em direção a uma casa, e a garota fica no carro. Ela resiste a seguir o grupo, mas Jonah a ameaça e diz que precisa confiar nela. O final daquela situação levará Lydia (Erin Moriarty) para uma busca desesperada por proteção.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Blood Father): Mel Gibson está mais velho, mais experiente e, parece, mais interessante. Assistindo a Blood Father temos a impressão de que a fase mais “louca” e “raivosa” do ator já passou. Então, talvez, possamos ver a fase inicial da carreira dele, com o primeiro Mad Max, Gallipoli, The Year of Living Dangerously e Lethal Weapon como a primeira grande fase do ator e, quem sabe agora, o início de um grande outro momento.

Mas ainda é cedo para dizer se o ator passou a fase mais louca da vida e vai começar, novamente, a apresentar um grande trabalho. De qualquer forma, é bom vê-lo um pouco mais centrado e com os “olhos menos arregalados”, se é que vocês me entendem. Ao menos eu voltei a acreditar em uma interpretação dele. Ajuda o fato, claro, do personagem dele em Blood Father ser um pouco “underground”, o que casa com o estilo do ator. Mas, de fato, ele está um pouco menos “over”, com uma interpretação bem mais coerente e que faz quem gosta dele acreditar no que ele está fazendo e não vendo apenas ao personagem “Mel Gibson”.

Descontadas as bobagens que ele fez na vida pessoal, eu gosto do estilo Mel Gibson de ser. Afinal, ele saiu daquele perfil de galã do início de carreira para abraçar um tipo de produção mais underground e, com Blood Father, mais realista. Bem, pelo menos até perto do final. Envelhecido, com as rugas bem à mostra e com um personagem que deixa claro que é um bandido que tenta levar uma vida sem maiores problemas até que a filha com bandidos atrás dela aparece, Mel Gibson faz um belo trabalho neste Blood Father.

O filme, evidentemente, é bem centrado no trabalho do ator. Mas ele não está sozinho. Pelo contrário. Por quase todo o filme ele faz uma bela parceria com a jovem atriz Erin Moriarty. Além de muito bonita, a garota tem estilo e tem talento. No filme, a personagem dela está começando a trilhar o caminho da malandragem, se envolvendo com um bandido de porte grande que nem ela imaginava o quanto de poder de fogo ele tinha.

Se o pai dela no filme é “macaco velho”, sabe todos os caminhos da bandidagem e da criminalidade, ela ainda está tateando neste mundo. Mas como fugiu de casa aos 14 anos de idade e andou por aí se virando por conta própria, ela também aprendeu um e outro truque. Bonita, ela sabe usar este argumento a seu favor. E é assim que, pouco a pouco, pai e filha vão se aproximando enquanto eles correm em fuga para tentar sobreviver. No caminho, claro, ele também procura saber quem está realmente perseguindo os dois. Conhecer o inimigo é uma questão vital.

O filme, que poderia ser apenas mais uma história de “bandido persegui mocinha que tem que fazer tudo para sobreviver”, acaba sendo também uma interessante história de aproximação entre pai e filha. Fica evidente, nas entrelinhas do roteiro de Peter Craig e Andrea Berloff, baseado no livro de Peter Craig, que apesar da pouca convivência com o pai, que ficou muito tempo preso, Lydia admira John Link e busca seguir vários de seus passos em sua própria jornada.

Quando ela se vê em apuros, ela sabe que não pode contar com mais ninguém. Se alguém sabe como lidar com bandidos é o pai dela. Algo interessante de Blood Father também é que os roteiristas e o diretor Jean-François Richet não “douram a pílula”. Ou seja, os protagonistas são enrolados, tem uma tendência forte para o crime, e isso não é escondido. John Link queria uma vida tranquila, fora de confusão, mas quando ele tem que proteger a filha, ele não se importa em matar. Lydia certamente não quer matar inocentes, mas se tiver que matar algum bandido para se defender, ela não pensará por muito tempo.

Não faltam tiros e cenas de ação nesta produção, ainda que os roteiristas e o diretor acertem ao não resumir a história apenas a isso. Pelo contrário. O filme equilibra bem estas cenas de ação com o desenvolvimento da relação entre os protagonistas. Por isso eta produção funciona e foge um pouco do lugar-comum. Se a história propriamente dita não inova, pelo menos ela apresenta um certo molho e mais de uma camada de leitura e de interesse. Algo que é bem-vindo em um filme deste estilo.

O realismo é um dos elementos presentes em grande parte desta produção. Por exemplo, John Link mora em um trailer velho, tem um carro que muitas vezes não pega na primeira e parece ter sempre o dinheiro contado. Lydia certamente vive “um dia de cada vez”. Os dois são, digamos assim, uns “ferrados”. Mas estão procurando os seus próprios caminhos tentando fazer o menor dano possível. Apenas por isso eles já merecem uma chance.

Enquanto John Link descobre que o ex-namorado da filha é herdeiro de uma quadrilha realmente barra pesada, a dupla segue sendo perseguida. Fica claro que querem dar um fim na garota, e demora um tempo para sabermos o porquê. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não é exatamente uma surpresa quando sabemos que Jonah não morreu. Ele persegue Lydia para que ela não conte para ninguém que ele está enganando a quadrilha mas, provavelmente e acima disso, porque ele quer se vingar da garota.

Mas aí reside o principal problema desta história. Se o desenvolvimento do filme até é bom e convence por boa parte do tempo, a reta final da história é de chorar. A “super” esperta Lydia não se toca de dar um fim no próprio celular – questão básica para quem não quer ser rastreado, certo? Pouco a pouco, com o celular na mão, ela vai dando a pista para os perseguidores por onde ela anda. Quando, finalmente, ela é pega, é ridícula a negociação de John Link com Jonah. Se o rapaz realmente fosse bandido, ele não daria nenhuma chance para pai e filha se livrarem.

Primeiro, provavelmente teria matado Lydia antes de John Link se aproximar. E mesmo que não tivesse feito isso, esperando para “desfrutar” do fim da ex-namorada, certamente ele não deixaria o pai dela “se despedir” da filha. Não tem muita lógica toda aquela sequência final, de John Link se sentando ao lado da filha e dos bandidos “caindo” na armadilha da morte, em especial. Depois, claro, o filme se redime um pouco com o final para John Link – ainda que o tiroteio final “à la” faroeste pareceu um tanto forçado também.

Enfim, um filme bom, interessante pela boa parceria entre os atores principais, com uma ou outra ideia bacana mas com muitas outras saídas bem batidas, além de um final que esvazio boa parte das qualidades da produção. Ainda assim, após aquele “tiroteio final”, ainda temos uma Lydia se declarando para o pai, o que ficou bacana e torna a decepção com o final um pouco menos irritante. A boa notícia é que Mel Gibson voltou a fazer um bom trabalho, e que Erin Moriarty pode ser um nome interessante que merece ser acompanhado.

NOTA: 8,9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro de Peter Craig e de Andrea Berloff procura, claramente, um tom “realista” sobre a história e os personagens. Ninguém é totalmente bom e, aparentemente, ninguém é totalmente mau. Mas este filme é, digamos assim, mais sobre bandidos do que sobre mocinhos. Todos tem algum pecado pelo qual precisa pedir perdão, e isso torna o filme menos óbvio e um pouco mais interessante.

Este sentido de “realismo” é seguido pelo diretor Jean-François Richet. Em muitas cenas a câmera orquestrada por ele está um tanto “trêmula”, no melhor estilo de um documentário, sem grandes aparatos de sustentação ou preocupação para que a imagem fique perfeita. O diretor também cuida de estar sempre próximo dos atores, valorizando, em especial, a interação entre Mel Gibson e Erin Moriarty. Sem dúvida alguma são boas escolhas.

Como esta produção tem este tom realista e como se trata também de um filme com várias sequências de ação, outro trabalho bastante importante é o do editor Steven Rosenblum. Ele faz um bom trabalho – e difícil, diga-se. Importante também o trabalho do diretor de fotografia Robert Gantz que tem, especialmente nas cenas noturnas, um belo desafio. Mas ambos se saem muito bem. Da parte técnica do filme, vale destacar também a trilha sonora bastante presente de Sven Faulconer.

Na minha crítica acima eu destaquei o trabalho de Mel Gibson e Erin Moriarty porque, realmente, este filme é centrado nos dois. Citei também o vilão da história, o personagem de Diego Luna. Ele está bem, mas achei a interpretação dele um tanto linear demais, sem nuances, sem a complexidade que ele poderia ter. Provavelmente mais culpa do roteiro do que do ator, ainda que eu acho que Diego Luna poderia ter se saído melhor. Parecia que estava apenas “cumprindo tabela”.

Um pouco melhor que ele eu achei outros atores secundários, como o veterano William H. Macy como Kirby, melhor amigo do protagonista e “padrinho” dele no AA, em um trabalho discreto, pontual, mas interessante; Michael Parks como “Preacher”, o líder do grupo do qual John Link fazia parte, responsável por ele ter ficado tanto tempo na prisão, e que tem uma passagem estranha mas curiosa no filme; Dale Dickey em um pequeno papel como a companheira bandida de Preacher; Miguel Sandoval como Arturo Rios, o outro lado da moeda do Preacher, ou seja, o cara que está na prisão mas que é uma espécie de manda-chuva do pedaço e que acaba ajudando o protagonista – bem diferente do antigo “chefe” dele. Além destes, há vários bandidos que aparecem em cena. Destes, destaque para Raoul Max Trujillo como The Cleaner, o mais malvado dos malvados. Ele realmente assusta pelo porte e pela cara de mau.

Blood Father estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio deste ano. Depois, o filme passaria ainda por outros três festivais de cinema. Em nenhum destes festivais ele recebeu qualquer prêmio.

Esta produção foi totalmente rodada no Estado do Novo México, nos Estados Unidos, em cidades como Laguna e Belen.

Antes deste filme ser dirigido por Jean-François Richet e estrelado por Mel Gibson, o ator Sylvester Stallone tinha planos, em 2008, para dirigir e estrelar esta produção.

O ator Raoul Max Trujillo já tinha trabalhado com Mel Gibson antes. Ele faz um trabalho importante como o guerreiro chefe do filme Apocalypto, que foi dirigido por Gibson.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 39 textos positivos e seis negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 6,7. Em termos de nível de aprovação, é um belo desempenho deste filme.

Este filme, apesar de ter sido totalmente rodado nos Estados Unidos e de ter protagonistas norte-americanos, é uma produção francesa. Certamente por causa do diretor.

CONCLUSÃO: Sim, este é mais um filme de vingança. Uma garota atira em um cara que ela não deveria ter atirado e a partir daí ela começa a ser caçada. Para a “sorte” desta garota, ela tem um pai que é bandidão e que pode colocar frente aos outros bandidos. Na essência, Blood Father não é novo. Mas além da perseguição propriamente dita e das consequentes cenas de ação muito bem feitas, a tentativa do protagonista em, mesmo em meio ao caos, “tirar o atraso” na relação com a filha e resgatar um pouco a relação com ela é um ponto interessante e diferenciado da produção. No fim das contas, é um bom filme. Envolvente, com uma bela interação e sintonia entre os dois atores principais. Incomoda alguma forçada de barra, mas nada que não torne a experiência interessante.

Kollektivet – The Commune – A Comunidade

4 de setembro de 2016 Deixe um comentário

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Alguns filmes tem propósitos pouco claros. A interpretação sobre o que vemos na telona é livre e depende do tipo de olhar de quem assiste. Kollektivet é um destes filmes. O diretor Thomas Vinterberg sempre tem um estilo muito próprio de fazer cinema mas, em outras produções, ele deixou mais claro o que ele queria com a história que ele estava contando. Este filme, mais uma vez, toca em temas importantes tanto sob a ótica individual quanto sob a ótica coletiva, da sociedade. Pessoalmente, fiquei um pouco incomodada com o “andar da carruagem” da história. Explico as razões logo abaixo.

A HISTÓRIA: Um corretor caminha com passos largos por uma rua residencial até encontrar Erik Moller (Ulrich Thomsen). Ele dá os pêsames para o homem que está voltando para a casa familiar após perder o pai. Residência esta que ele não via há muito tempo, já que não tinha contato com a família desde os 22 anos de idade. Erik quer se livrar logo da casa, que considera muito grande e com manutenção cara. Mas a mulher dele, Anna (Trine Dyrholm) tem outros planos para o lugar. Ela acha a casa espaçosa perfeita para que o casal e a filha Freja (Martha Sofie Wallstrom Hansen) possam viver em comunidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Kollektivet): Este filme trata de muitos assuntos. Alguns óbvios, outros nem tanto. Um dos pontos fundamentais do filme, e não sabemos sobre isso quando as frases são ditas, estão justamente bem no início da produção com roteiro do diretor Thomas Vinterberg e de Tobias Lindholm.

A questão essencial de Kollektivet está em um dos primeiros diálogos dos protagonistas Erik e Anna. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na visão de Erik, para duas pessoas viverem juntas, elas precisam “ver e ouvir um ao outro”. Ou seja, para ele, é fundamental que o casal e a filha sigam vivendo em um local pequeno, no qual eles mantenham proximidade e tenham intimidade. Emma, por outro lado, não está satisfeita apenas com esta realidade e rotina. Ela quer mais. Como comenta em uma sequência seguinte, ela precisa “ouvir outras vozes”, ouvir outras pessoas além de Erik para “não enlouquecer”.

No início, tudo é maravilhoso. Primeiro, o casal Erik e Emma parece muito feliz e satisfeito consigo mesmo. Freja claramente ama e admira os pais. Estão todos felizes. Especialmente Emma ao imaginar a vida que eles poderão ter naquela grande casa familiar de Erik e que ela planeja transformar em reduto de uma comunidade de amigos e conhecidos. Cada um com um estilo de vida e características para somar ao grupo.

Pouco a pouco o casal vai “entrevistando” os pretendentes a morarem naquela casa. O grupo acaba formando uma forma de se autogestionar que leva em conta como cada um está se sentindo e como cada um pode contribuir para as contas do mês. Novamente a felicidade está presente. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Até que em um certo dia Erik fala com Emma e simplesmente não consegue ser ouvido em meio ao falatório dos demais.

Pronto, aí está a ruptura fundamental de Kollektivet. Como se refletisse sobre a própria coletividade e sobre o sentido que cada indivíduo tem sobre a importância de suas próprias necessidades, o filme demonstra como o que acaba predominando no final das contas é mesmo a supremacia de alguns desejos particulares sobre o dos demais. A ideia de comunidade é bonita, bacana, mas simplesmente não funciona, parece que Vinterberg está nos dizendo, porque o poder econômico sempre prevalece sobre o bem estar comum.

Como eu disse lá no início, há muitas interpretações possíveis sobre Kollektivet. Mas esta foi a que “gritou” mais forte para mim. Com este filme Vinterberg parece nos dizer que o desejo utópico e que se tornou realidade por um período de tempo de Emma de ter em um mesmo espaço várias pessoas com estilos de vida e visões diferentes vivendo de forma harmoniosa e um apoiando o outro perde na queda de braço para os desejos particulares de Erik.

Quando o protagonista não consegue o que ele quer e se dá conta disso – a cena crucial é aquela em que ele não consegue ser ouvido pela mulher, Anna -, ele decide buscar o que ele deseja fora de casa. Como a maioria dos homens – e me perdoem vocês, espécimes do sexo masculino que não são assim -, Erik é um idiota inseguro que precisa se sentir importante ao ser desejado e amado por uma linda (e preferencialmente jovem) mulher. Então dane-se o casamento de 15 anos com Anna e tudo que eles passaram juntos. Dane-se o choque e o medo que a dissolução da família pode causar na filha Freja. O importante para Erik é sentir-se desejado por uma bela mulher.

Para muitos homens isso significa poder, significa massagem para o ego. E é isso que vemos em Kollektivet. Erik acaba dando corda para a bela aluna Emma (Helene Reingaard Neumann) que vai até a sala dele questioná-lo sobre o tratamento dado para um colega e os dois começam um caso. Como é dono da casa em que vive o coletivo de amigos, Erik não pensa duas vezes em levantar a amante para lá quando ele sabe que todos estão fora. Mas ao ser flagrado pela filha, ele resolve não esconder a relação da qual ele não quer abrir mão.

A partir daí e porque Erik passa a deixar claro que quer ficar com Anna, ele se distancia cada vez mais de Anna, o que deixa a vida da mulher dele cada vez mais miserável. No fim das contas, Erik acaba mergulhando no trabalho e passa a dormir fora de casa também para ficar mais com Emma, abandonando Anna na prática. A mulher dele, que parecia querer mais que o relacionamento apenas dos dois no início do filme – afinal, é ela que diz que precisa de outras pessoas e que gostaria de ter diversidade na convivência diária em casa -, não lida bem com a ausência do marido. Muito pelo contrário. Ela desmorona.

Quando o filme migra para esta realidade em que Erik é mais um marido carente de atenção e que acaba traindo a mulher para satisfazer o seu próprio vazio e que Emma vira esta mulher frágil que desmorona quando não tem a atenção do marido canalha, Kollektivet perdeu boa parte da graça para mim. Na verdade, fiquei um tanto revoltada e frustrada. Mas aí, quando o filme acabou, pensei que talvez esta tenha sido exatamente a intenção de Thomas Vinterberg. Nos mostrar “a vida como ela é” para muitas pessoas e nos fazer refletir sobre isso.

Alguns, certamente, vão achar que “as coisas são assim mesmo”, e que é natural e aceitável que Erik tenha traído a esposa e não se importado em deixá-la naquele estado lastimável porque, afinal de contas, ele tinha o “direito” de buscar o que lhe parecia melhor apenas para si mesmo. É como uma ode ao egoísmo. Outros, como eu, podem ficar indignados com isso e refletir não apenas sobre a canalhice da situação, mas também sobre o comportamento da comunidade.

O grupo formado por Ole (Lars Ranthe), Mona (Julie Agnete Vang), Steffen (Magnus Millang), Allon (Fares Fares) e Ditte (Anne Gry Henningsen) fica perplexo, claro, com a situação de conflito que eles acabam presenciando entre a diferença de desejos de Erik e Anna. Afinal, o casal é o que chamou todos para aquela convivência. Acreditando que poderia ter alguma “migalha” de atenção de Erik ao chamá-lo de volta para a casa junto com Anna, Emma faz o grupo votar pela adição da jovem amante do marido.

Aquela comunidade, a meu ver fazendo as “vezes” da sociedade em geral, acaba sendo até certo ponto “receptiva” com Anna. Não a julga, mas também, claramente, se sente constrangida em aceitá-la sem ressalvas. No fundo, o grupo quer que o “status quo” permaneça como era antes, quando todos viviam bem e harmoniosamente, aparentemente todos felizes. Erik fica surpreso quando, apesar da receptividade amistosa, o grupo vota para que Anna não seja aceita. E ele se revolta. Novamente o que deve predominar é a vontade individual de Erik e não o que é melhor para a maioria – ou mesmo para a que era, até então, a família dele.

Daí entra a crítica principal de Kollektivet, a meu ver. Como Erik é o dono da casa, ele ameaça todos de expulsão se não aceitarem a vontade dele. E o grupo, a comunidade, acaba cedendo para não perder o que eles tem. A generosidade e a preocupação com o bem estar de todos cai por terra naquele instante. Todos abrem mão da felicidade e do bem estar de Emma até o ponto em que fica impossível ignorar a miséria pela qual ela está passando. Neste momento o grupo coloca o casal contra a parede e, finalmente, a jovem Freja pede para que a mãe tome uma atitude e busque a felicidade em outro lugar.

Neste momento, em especial, o filme me incomodou. Afinal, realmente a única saída de Anna seria sentir-se tão miserável e sofrer tanto pela ruptura do casamento? Ela não poderia ter buscado ser feliz de outra forma e sem ter que ser a pessoa a sair de casa? A comunidade, assim como a sociedade, aceita o traidor e o canalha para a preservação do “bem comum”. Será mesmo o bem comum? Enquanto a sociedade machista seguir aceitando o sujeito que não se preocupa com os demais mas sim apenas em satisfazer os próprios desejos, para onde iremos?

Me incomodou, por exemplo, a filha Freja ficar do lado do pai – afinal, ela não sugere para ele, o traidor, sair de casa, e sim a mãe. Claro, o próprio Freud pode ajudar a explicar isso – classicamente as filhas ficam do lado dos pais porque se sentem “inconscientemente” atraídas por eles. Ainda assim, me incomoda pensar que Freja iria repetir velhos padrões e não pensar realmente no que estava acontecendo e em quem era a “parte frágil” do processo. Consequentemente, ao não fazer isso, ela não pensou sobre ela própria.

Agora, claro, sem dúvida alguma Emma estava certa em buscar a própria felicidade após a falência do casamento. Ela não poderia seguir sofrendo daquela forma. A protagonista assim mostra determinação e coragem – ainda que um tanto tardia. Mas ok, afinal, esta produção se passa nos anos 1960 – um tempo que ainda exigiria amadurecimento das mulheres. Mas o que virá depois daquela saída de Anna de casa? Na sequência final, Freja se declara para Peter (Rasmus Lind Rubin) que está em “outro mundo”.

Há formas diferentes de interpretar aquela sequência, assim como outras partes do filme, mas para mim aquela cena quer mostrar que a história vai seguir se repetindo. Ou seja, que Freja vai dedicar toda a sua vida, atenção e afeto para um sujeito que, a exemplo do pai dela, estará sempre mais preocupado com si mesmo do que com ela ou os demais. Um egoísta clássico, cretino e babaca que, quando não tiver todos os seus desejos atendidos, irá procurar quem poderá satisfazê-los fora de casa. E o círculo vicioso irá se repetir.

Esta aparente “imutabilidade” das coisas me incomodou um bocado no filme. Ainda que esta possa ser a realidade como ela se apresenta para a maioria, gosto de pensar que existe esperança além do cinismo. De que se existem história como a contada por Kollektivet, existem também histórias de quebra de ciclos de dependência e onde o egoísmo prevalece. De que há histórias de grandeza, doação e generosidade. Kollektivet me parece cheio de cinismo e de desesperança. E não é exatamente filmes assim que eu gosto de ver. Ainda que, eu admita, ele tem um propósito de ser. E talvez seja exatamente este de deixar alguns como eu incomodados.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como manda o figurino nos filmes de Thomas Vinterberg, o diretor escolheu o seu elenco a dedo. Todos os atores são ótimos e estão muito bem em seus respectivos papéis. Vinterberg sempre exige interpretações convincentes, fazendo com que os atores mergulhem na história de seus personagens. Nenhuma linha do roteiro é falada sem convicção. Isso fica evidente em mais este filme do diretor. Não por acaso esse tom “naturalista” dos filmes de Vinterberg faz com que realmente acreditemos em sua história. É como se víssemos um documentário na nossa frente. O envolvimento de quem assiste ao filme, desta forma, é inevitável. Mais uma vez o diretor consegue isso com Kollektivet.

Há dois protagonistas claros neste filme. Outros atores e seus respectivos personagens acabam ganhando destaque, aqui e ali, mas claramente esta produção tem na dianteira o excelente trabalho dos atores Trine Dyrholm e Ulrich Thomsen. Os dois estão perfeitos, sem tirar e nem por. Acreditamos em cada detalhe da interpretação de Trine, enquanto Ulrich dificilmente não vai despertar indignação de quem assistir a este filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Lá pelas tantas eu não consigo ver a cara do ator sem ter uma certa raiva dele – especialmente quando ele “desabafa” com Anna de que ele deve se concentrar no trabalho e não em “coisas de mulher”. Uma sequência que também fez o meu queixo cair um bocado foi aquela em que a personagem de Trine diz que entende que o marido tem as suas “necessidades”. Ah, por favor! Se devemos sempre saciar as nossas necessidades e sem se importar com as consequências o que nos diferencia exatamente dos outros animais?

Duas outras atrizes tem um papel de bastante relevância na história: a jovem Martha Sofie Wallstrom Hansen e a bela e carismática Helene Reingaard Neumann. As duas fazem um belo trabalho, ainda que chame a atenção como Martha está, em muitas situações, apenas com olhar de perplexidade, enquanto Helene tenha mais espaço para demonstrar nuances diferentes de sua personalidade. Por mais que ela seja linda e a beleza sempre “ajuda” a perdoar pecados, não dá para ignorar que a personagem de Helene também está pouco se importando com os efeitos de sua “nova paixão”. A sequência em que as duas personagens se encontram pela primeira vez, em especial, achei um bocado reveladora sobre o “real espírito” da personagem de Helene.

Todos os outros atores coadjuvantes estão bem em seus papéis, mas gostei, em especial, do trabalho de Lars Ranthe como Ole. Acho que ele acaba se destacando um pouco mais que os demais. Além de todos os atores já citados, vale comentar o bom trabalho de Sebastian Gronnegaard Milbrat como Vilads, garoto que sofre de uma doença e que vive repetindo que não vai viver além dos nove anos de idade.

Da parte técnica do filme, um elemento bastante presente no filme, especialmente na parte inicial, é a trilha sonora de Fons Merkies. Depois, conforme a história vai se desenrolando, curiosamente a música perde um bocado de sua importância – seria uma forma de reforçar que a “fase dourada” da história já passou? Possivelmente. Sempre que um filme começa com uma presença marcante de música, o que, para mim, significa “alegria na vida”, e depois vai perdendo esse elemento pouco a pouco, é como se a história também perdesse em graça. Acho que é o que acontece em Kollektivet, especialmente porque a frustração, a decepção e a tristeza vão ganhando corpo lá pelas tantas.

Outros elementos importantes para esta produção ter a aura que ela tem – lembrando que a história se passa nos anos 1960 – são a direção de fotografia de Jesper Toffner e os figurinos escolhidos à dedo por Ellen Lens. Características complementares a estas são o design de produção de Niels Sejer; a decoração de set de Salli Lindgreen e Didde Hojlund Olsen; e o departamento de maquiagem com oito profissionais. Os editores Janus Billeskov Jansen e Anne Osterud também fazem um bom trabalho e merecem ser citados.

Kollektivet estreou na Dinamarca em janeiro deste ano. No mês seguinte o filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme passaria ainda por outros 10 festivais mundo afora – o último deles será o Festival Internacional de Cinema de Toronto que começa nesta próxima semana, no dia 8 de setembro.

Nesta trajetória, o filme recebeu um prêmio e foi indicado a outro. O prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Atriz para Trine Dyrholm no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Muito justo. A atriz está divina e perfeita nesta produção. Merecia ganhar um prêmio pelo seu desempenho. Ela e o parceiro de cena como protagonista estão impecáveis – ainda que ela consiga chegar a um grau um pouco acima dele até pela personagem que ela tem, mais humana e sem dúvida alguma mais complexa.

Agora, uma curiosidade sobre Kollektivet: o roteiro do filme é baseado em uma peça com o mesmo nome escrita por Thomas Vinterberg e que é, por sua vez, inspirada na infância que ele teve em uma comunidade acadêmica na região Norte de Copenhague.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção. Uma boa avaliação se levarmos em conta os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 18 críticas positivas e seis negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média 6.

Este filme é uma coprodução da Dinamarca, da Suécia e da Holanda.

Eu gosto do diretor Thomas Vinterberg. Assisti a boa parte da filmografia dele – ainda que nem todos os filmes estejam comentados aqui no blog. Este dinamarquês de 47 anos estreou na direção com Sneblind, em 1990. O primeiro filme que eu assisti dele foi Festen, uma obra-prima que não está comentada aqui porque eu não tinha começado o blog ainda – o filme foi lançado em 1998. Depois viria Dear Wendy, filme de 2004 do qual eu gostei muito e que merece ser visto. Depois do blog já ter sido criado, assisti e comentei por aqui Submarino (com crítica neste link) e o ótimo Jagten (comentado aqui). Se Kollektivet é o seu primeiro filme do Vinterberg, recomendo que você volte alguns anos e assista Jagten, Dear Wendy e Festen, principalmente. Ele é um diretor interessante e que merece ser assistido – até por integrar o grupo do Dogma 95 que pedia um cinema mais “original” e visceral.

Procurei alguma entrevista com o diretor para ver se ele “aclarava” um pouco mais para mim as suas intenções com Kollektivet. Pois bem, encontrei esta entrevista interessante. Para começar, na introdução à conversa eu fiquei sabendo que o filme se passa no final dos anos 1970 e não nos anos 1960 como eu imaginava. Depois, fiquei sabendo que a atriz que interpreta Emma, a bela Helene Reingaard Neumann, é a mulher de Vinterberg e estudante de Teologia. Segundo o texto, Kollektivet é uma homenagem à comunidade em que ele próprio viveu entre os sete e os 19 anos de idade.

De acordo com Vinterberg, ele viveu em uma comunidade formada por 12 pessoas em 1975 e que começou com cada um pagando o que podia para o aluguel. Todos faziam tudo, e “todos abraçavam as suas diferenças”. Depois, no final, em 1985, tinham restado três famílias e o “amor havia acabado”. Isso também teria acontecido com a sociedade que, segundo o diretor, “foi de Anker para Schlüter e de Carter a Reagan”.

E o diretor segue (vou citar o trecho inteiro porque achei muito interessante): “Hoje estamos mais individualistas do que nunca. E também está mais difícil dizer eu te amo. O amor é algo que está acontecendo por telefone e online. As pessoas estão se transportando o tempo todo, e eu vejo muitas pessoas que estão pensando sobre o trabalho quando estão com a família, e eles estão no trabalho no mundo inteiro sem tempo para perder com suas famílias. Acho que as pessoas não estão tão presentes hoje. E isso vale para mim. As pessoas vivem mais em trânsito. Estamos constantemente na estrada para novos lugares e, portanto, nunca realmente presentes. E isso dá condições precárias tanto para o amor quanto para o sexo. Acho que as pessoas terão muito menos sexo do que eles fizeram nos anos 1970, assim como eles festejaram, dançaram e beberam mais naquela época”.

Ainda segundo o diretor, “As comunidades físicas são substituídas pelo Facebook, onde vamos construir pequenas versões ideais de nós mesmos”. E ele segue argumentando na entrevista que vale ser conferida. Vinterberg também defende que poderíamos aprender algo com os anos 1970. Não há dúvidas. Vinterberg defende a ideia de que deveríamos viver cada dia como se fosse o último porque, afinal, “tudo é perecível, mesmo amizades, parcerias e casamentos. O coletivo em que eu cresci, de fato, também foi”.

O diretor também defende na entrevista que o “público deve pensar por si mesmo”, que ele, como diretor, deve dar espaço para as pessoas interpretarem a sua própria história. Vinterberg afirma que se perdemos a coesão presente nos anos 1980, ganhamos em “liberdade e individualismo”. “Eu acho que é claro que o amor ainda existe, ele é imortal, mas ele tem condições mais apertadas (de existir). E o risco de continuamente estar ocupado faz com que você se esqueça de viver a vida”. Belas ponderações, devo admitir. Pena que elas não ficaram tãoooo evidentes no filme. Quem sabe em um próximo filme o diretor consiga deixar as suas ideias mais claras?

CONCLUSÃO: Até um certo ponto de Kollektivet eu tinha gostado da proposta do filme. Afinal, é sempre interessante ver a uma pessoa, um casal e um grupo que resolvem quebrar “as regras” e a normalidade e buscar formas diferentes de convivência pacífica e harmoniosa. Mas aquela coletividade acaba perdendo terreno para uma questão muito particular e individual e que acaba caindo no lugar-comum de uma disputa particular entre homem e mulher. Claro que há outras nuances nesta história e personagens complementares, mas no fim das contas Kollektivet acaba girando muito sobre a falência do casamento. Quando isso acontece, o filme perde boa parte da sua graça. Uma pena. Poderia ser melhor e mais ousado. Ainda assim, vale por algumas reflexões que sucinta.

The Shallows – Águas Rasas

28 de agosto de 2016 2 comentários

theshallows5

Alguns filmes tem um propósito e uma história muito bem definidos. Eles sabem o que querem mostrar, focar e a sensação que querem passar e não complicam a história. Este é o caso de The Shallows. O roteiro do filme é bem simples, se formos analisar, mas ele acerta ao manter o foco bem definido e, especialmente, em alguns pequenos detalhes e sacadas que acabam fazendo toda a diferença. Mudando um pouco a “chave” dos últimos filmes que eu assisti e comentei por aqui, desta vez optei por uma produção que mergulha com gosto no suspense. Sem dúvida ao simplificar e ter muito claro o que queria passar, The Shallows mais acerta do que erra.

A HISTÓRIA: Em uma praia, no amanhecer, um garoto brinca com uma bola. Perto dele, aparece um capacete com uma câmera. O garoto deixa a bola e vai conferir o material que está dando sopa na praia. Ele começa a ver os vídeos, e assisti à cenas de dois amigos surfando. Até que um deles começa a pedir socorro. O garoto corre. Corta. Uma caminhonete vai percorrendo uma estrada enquanto Nancy (Blake Lively) olha no celular belas imagens. O motorista, Carlos (Óscar Jaenada), pergunta se a garota já esteve naquela praia.

Ela diz que não, que apenas a mãe dela esteve, quando estava grávida de Nancy. O motorista comenta que ela deve deixar de olhar as fotos e apreciar a Natureza que está ao redor deles. Os dois estão seguindo para uma praia remota e bastante desconhecida. Nancy comenta com Carlos que a amiga dela não vai aparecer porque está de ressaca no hotel. Ela está sozinha na aventura que será bem diferente do que ela poderia imaginar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Shallows): Algumas histórias já foram contadas. Ataques de tubarões na praia são conhecidos do público do cinema desde que Steven Spielberg resolveu tornar este animal marítimo como o terror dos sete mares com Jaws, de 1975. Então ter um tubarão infernizando alguém não é exatamente novo e, nem por isso, este The Shallows é previsibilidade pura.

O diretor Jaume Collet-Serra demonstra talento e uma boa percepção para os detalhes que, estes sim, acabam fazendo toda a diferença nesta produção. Para começar, o roteiro de Anthony Jaswinski acerta ao apostar em poucos personagens e colocar quase toda a história “nas costas” da protagonista Nancy. A primeira isca do roteirista para despertar a atenção e o interesse do público é recorrer àquele lugar-comum bastante utilizado no cinema das últimas décadas que é começar com um acontecimento e, na sequência, voltar no tempo para retomar a história que explica aquela sequência inicial.

Logo nos primeiros minutos do filme sabemos que algo de muito ruim aconteceu com dois surfistas. Quando Nancy cai na água e encontra estes surfistas, fica claro que um deles será atacado – ou os dois, isso não fica tão claro no início. Bem, sabemos que isso irá acontecer, mas aquelas cenas iniciais não adiantam nada sobre o destino de Nancy. Logo na sequência inicial do menino na praia percebemos que o diretor tem bom gosto para cenas de beleza pura. Mas mais elementos interessantes virão na sequência.

Após aquela pequena introdução, mergulhamos direto na história de Nancy e o seu encontro afetivo com a praia inesquecível da mãe dela. E aí surge a primeira boa sacada de Jaume Collet-Serra. Em tempos em que todos estão super conectados durante todo o dia e muitas vezes “assistem” o que acontecem no mundo e no seu próprio redor através da tela de um celular, o diretor utiliza o recurso de várias telas sobrepostas à imagem principal do que está acontecendo para revelar o que Nancy está vendo e fazendo com o smartphone.

Na primeira sequência, quando ela está chegando à praia com a ajuda de Carlos, que mora perto daquele paraíso natural, vemos imagens dinâmicas de fotos e troca de mensagens em uma parte da tela. Uma sacada bem bacana, aparentemente simples, mas que funciona muito bem. Boa sacada do diretor. A partir do momento em que Nancy se encontra com a praia onde a mãe dela esteve quando estava grávida da garota, vemos apenas exuberância.

Jaume Collet-Serra sabe valorizar muito bem a bela atriz Blake Lively e todo o carisma que a jovem atriz tem. Mas a paisagem também não fica para trás. O local é maravilhoso e isso fica bastante evidente neste filme. Os espectadores mais atentos vão perceber logo que não são apenas os jovens surfistas nativos que acabam sendo vítimas do tubarão, mas também a própria Nancy – e isso bem antes dela ser de fato atacada. O detalhe está no plano que mostra a prancha dela por baixo – na sequência inicial vemos aquela prancha na praia, então é sinal de que a garota foi alvo de um ataque.

Mas antes do drama começar a tomar conta da telona, temos a parte divertida da produção. Ela não se restringe apenas ao diálogo divertido entre Nancy e Carlos, mas também na conversa dela com os dois surfistas. De forma inteligente, o roteiro de Anthony Jaswinski não cai direto na ação, mas após uma sequência bem feita com cenas de surfe, a protagonista sai da água e temos um pouco mais de contextualização sobre a história dela. Não apenas para entender as nuances da relação dela com a família, que agora se resume ao pai dela e à irmã mais nova; a saudade que ela tem da mãe, que morreu de câncer; mas também e especialmente importante para a história, sabemos que ela começou a faculdade de Medicina.

Esse último ponto será fundamental para o que virá depois. Nancy sai da água, conversa com a irmã e, um pouco a contragosto, com o pai, caminha um pouco, reflete e sente bastante “a presença/ausência” da mãe, e depois volta para a água. Ela quer dar apenas mais uma “curtida” antes que escureça. Afinal, é preciso aproveitar ao máximo. Algo bastante normal e realista – aliás, o filme parece ter, o tempo todo, esta preocupação de ser bastante realista.

O diretor sabe bem valorizar a atriz e o local, dois elementos-chave nesta produção. E quase tudo tem uma lógica, o que ajuda a não irritar o público um pouco mais exigente. Depois que volta para o mar, ficamos na expectativa pelo ataque – até pela dinâmica que o diretor dá para as sequências abaixo da água. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando o ataque parece inevitável, Nancy é surpreendida por golfinhos. Ela fica maravilhada com a cena e resolve “remar” atrás deles. Neste momento ela se encontra com uma baleia morta e em decomposição que foi atacada. Sem saber, ela está invadindo o espaço de “alimentação” do tubarão.

É como alguém que se aproximasse do potinho de ração de um cachorro com fome. Se fosse um cachorro, escutaria latido, rosnado e talvez fosse atacado. Na versão de The Shallows o tubarão não rosna nem late, mas persegue a presa com obstinação. O mesmo acontece no clássico de Spielberg, ainda que sabemos que nenhum tubarão tem realmente esta postura e reação. Os tubarões podem atacar pessoas que “invadem” os seus territórios, é verdade, mas jamais terão a “sina vingadora” e vão perseguir uma pessoa como podemos ver neste filme.

Enfim, descontado este detalhe, que é sempre inevitável em um filme com esta proposta, podemos seguir em frente. Quando chega perto da baleia, Nancy vira alvo do tubarão malvadão. Jaume Collet-Serra é esperto ao mostrar o primeiro ataque, com o tubarão se aproximando na onda e acertando a prancha da surfista, e não revelar em detalhes o segundo golpe, quando o tubarão morde a perna de Nancy e a puxa para baixo. Muitas vezes, e Hitchcock foi um dos mestres em nos ensinar isso, vale muito mais sugerir algo do que nos mostrar a cena.

Seria muito complicado mostrar em detalhes o ataque e justificar, por exemplo, porque a perna de Nancy não foi simplesmente arrancada. O diretor de The Shallows correria um grande risco em fazer uma sequência tosca. Então ele acerta em apenas mostrar a reação e a angústia da protagonista e não o detalhe do ataque propriamente. Aliás, ele faz isso em diversos momentos, e sempre é uma boa escolha. Afinal, este é um filme de suspense, e o requisito clássico do gênero é não mostrar tudo, mas alimentar a expectativa e sugerir muita coisa.

Como eu disse antes, acaba sendo fundamental aquela informação de que Nancy estava estudando Medicina e deixou a faculdade momentaneamente. Depois de ser atacada pelo tubarão, ela acaba utilizando os seus conhecimentos para salvar a própria vida. É dura a cena em que ela utiliza os brincos e o pingente para “costurar” a própria perna, mas certamente ela precisava fazer aquilo para não se esvair em sangue na pedra em que ela acaba se protegendo durante a maré baixa. O conhecimento dela também em manter a perna irrigada no momento certo e com torniquete na maior parte do tempo acaba sendo vital.

Claro que nem tudo funciona com perfeição neste filme. E nem daria para esperarmos isso de uma produção despretensiosa e que, claro, não tem a pretensão de ser um documentário sobre ataques de tubarões contra surfistas, né? A primeira questão que não tem lógica é que apenas o uso dos brincos e do pingente na perna teria a capacidade de estancar o sangue de Nancy. Se ela ao menos tivesse usado a corrente para costurar a perna, seria mais fácil de acreditar que aquela ação dela teria ajudado a estancar o sangue.

Depois, é meio difícil de acreditar que aquele imenso tubarão teria conseguido atacar o mexicano bêbado que entra na água para pegar a prancha que está boiando – afinal, ele ainda estava no raso quando sofre o ataque. Finalmente, difícil de acreditar que a dupla de surfistas que volta para a praia e escuta Nancy alertando eles contra tubarões não tenha, nem por um segundo, duvidado da certeza que eles tinham até aquele momento de que naquela praia não tinham tubarões. Afinal, por que cargas d’água a garota estaria lá no meio do mar sobre uma pedra, sem a prancha e gritando desesperadamente se ela não estivesse falando a verdade?

Teria sido um pouco mais realista, neste ponto, se os surfistas ao menos tivessem tentado sair da água e daí tivessem sido pegos pelo tubarão. Mas beleza. Para não dizer que o roteiro de Anthony Jaswinski tem mais falhas que acertos, uma boa sacada dele foi colocar uma gaivota na pedra em que Nancy se refugia por boa parte do filme. A simpática ave acaba sendo para Nancy o que a bola Wilson é para Tom Hanks em Cast Away, um belo filme do ano 2000 estrelado pelo ator e dirigido por Robert Zemeckis.

Desta forma, ainda que The Shallows acabe tendo poucos diálogos por causa da situação que vive a protagonista, não ficamos em um silêncio completo por causa da interação de Nancy com a gaivota e por causa das outras interações – seja com o mexicano bêbado, com os surfistas que voltam para o mar ou seja na acertada sequência em que ela grava alguns vídeos para quem puder encontrar a câmera no capacete e para os seus familiares. Afinal, ela vai seguir tentando, mas as perspectivas para Nancy não são nada boas – e ela sabe disso.

Quando ela vai buscar o capacete com a câmera temos outro detalhe importante – aliás, esse filme é repleto deles, por isso é importante o espectador não se distrair ou “dormir no ponto”. Nancy percebe a reação ruim do tubarão quando ele vai atacar ela e acaba “comendo” parte de um recife. Como o refúgio dela ficará impossível após algum tempo, quando a maré começar a ficar alta, ela tem que procurar alternativas. A boia que está um pouco distante será a sua alternativa, e ela só consegue chegar lá porque simula uma certa tourada com o tubarão em meio a águas vivas. A sequência é fantástica, aliás, como várias outras realizadas por Jaume Collet-Serra.

Na reta final, não resta muito tempo para Nancy. Seja porque o tubarão “super do mal” está cada vez mais com raiva dela – isso é o que o roteiro aparenta quando ele não para de ataca-la na boia -, seja porque aquela perna dela sem tratamento não permitirá que ela viva por muito mais tempo. Quando ela alcança a boia, parece que as chances dela aumentam.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Tem uma sequência que vocês podem ter estranhado: quando ela utiliza a última bala do sinalizador para atacar o tubarão e uma corrente de fogo surge na água. Eu tenho uma explicação para isso: a baleia em decomposição, certamente, estava liberando na água o famoso “óleo de baleia”, aquele mesmo que os antigos utilizavam para acender lampiões. Ou seja, o óleo de baleia é bastante inflamável. A minha dúvida sincera é se isso acontece também quando ele se mistura com a água… bem, novamente vamos dar esse desconto para o roteiro de The Shallows. Agora, apesar do “sangue nos olhos” do tubarão, que fica cada vez mais obcecado por atacar Nancy, algo precisamos admitir: a sequência final do embate entre a protagonista e o vilão do filme é ótima.

Vale incluir no pacote deste “grand finale” todo o trecho do “fogo no mar”, a fúria insandecida do tubarão contra a boia em que estava Nancy e a tirada esperta da protagonista em encontrar uma alternativa para golpear definitivamente o seu algoz persistente. A parte que teve a ver com o salvamento dela é que achei um tanto forçada. Não custava o diretor incluir alguns segundos ou até um minuto mostrando como ela saiu do fundo do mar e chegou perto da orla – provavelmente ela teve que dar umas boas braçadas antes de ter as forças exauridas. E, claro, a reação do Carlos eu achei um bocado estranha… ele tirou ela da água e simplesmente ficou parado depois? Nem se deu ao trabalho de fazer alguma massagem para que ela expelisse a água dos pulmões? Achei estranho aquilo.

No mais, achei que o filme foi muito bem feito. Com uma história simples, mas narrada de forma bastante eficiente, com diversos aspectos técnicos (que vou comentar abaixo) jogando um papel-chave e com um trabalho do diretor sem retoques para fazer. Apenas o roteiro teve alguns detalhes um pouco estranhos, já comentados, mas nada que desmereça o filme. Pelo contrário, aliás.

Antigamente – e nem tão antigamente assim – belas atrizes eram colocadas no mar apenas para virar “comida de tubarão”, literalmente. Não sabíamos praticamente nada sobre elas. Era quase pré-requisito elas serem “meio burras” ou “meio tontas” para, digamos assim, morrerem mais facilmente nos filmes. Sendo assim, elas precisavam ser apenas lindas, não precisavam ser boas intérpretes. Para nosso alívio, em The Shallows, a atriz Blake Lively faz um grande trabalho – ela é uma das principais qualidades do filme. Ela é uma intérprete com qualidade, além de ser linda. Então ela leva as atrizes deste perfil de filmes para um outro nível.

Além disso, o roteiro de Anthony Jaswinski acerta em não apenas alimentar a nossa expectativa e adrenalina, mas também em contextualizar a história da personagem e em nos ensinar bastante sobre “como sobreviver a um ataque de tubarão tendo as condições quase perfeitas ao nosso redor”. Como eu disse, este filme não é um documentário. Então, para um filme de ficção sobre o tema, ele tem muito mais acertos do que erros. Sem dúvida alguma é um ótimo entretenimento e, de quebra, a meu ver, rejuvenesce um estilo de filme que já parecia meio desgastado. Não é pouco.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Diversos aspectos técnicos contribuem para que The Shallows funcione bem. Para começar, a direção cuidadosa e atenta aos detalhes do espanhol Jaume Collet-Serra. O diretor sabe acelerar nos momentos certos, criar suspense utilizando a câmera em planos sugestivos e, principalmente, ficar muito próximo dos atores, especialmente da protagonista, para valorizar a ótima interpretação deles (e dela, em especial). Um dos recursos bastante utilizado por ele é o slow motion, bem empregado em diversas cenas – especialmente de surfe e em outras em que ele quer valorizar o trabalho de Blake Lively ou alguma sequência de ação. Ainda que alguns recursos sejam bem repetidos, não vi exagero no emprego das técnicas de filmagem. Achei um belo trabalho do diretor.

Um outro aspecto fundamental deste filme é a trilha sonora. Elemento-chave de diversos filmes de suspense e ação, ela dita o ritmo em muitos momentos de The Shallows. Um excelente trabalho do compositor Marco Beltrami. Outro elemento fundamental é a direção de fotografia, um trabalho impecável de Flavio Martínez Labiano. Ele faz um trabalho impecável de valorizar as paisagens e os detalhes da história mesmo quando ela mergulha na noite. O terceiro elemento crucial para o filme funcionar é a edição de Joel Negron. Ele faz um excelente trabalho em um filme com bastante complexidade na montagem e ajuda o diretor e o restante da equipe a dar um bom ritmo para a história.

Agora, queria fazer algumas ponderações sobre três tópicos da história que eu não citei antes. (SPOILER – não leia se você não viu ao filme). Primeiro, a questão de ninguém falar o nome da praia. Para mim, esta escolha tem duas razões de ser: ao não revelar o nome da praia este “segredo” torna a aura sobre o local ainda mais misterioso e, depois, quando você não cita um nome fica mais fácil de “esconder” um determinado lugar, não é mesmo? Uma escolha totalmente proposital. Depois, queria citar dois aspectos do finalzinho da produção. Achei um barato a gaivota ser mostrada no final. É como se ficássemos com a mensagem “no final, todos foram salvos”. Bonitinho.😉 E pode haver uma explicação para Carlos ter ficado apenas olhando para Nancy no final. Como ele não fez nenhuma massagem na garota para expelir a água dos pulmões e, na sequência, aparece a mãe de Nancy em cena, isso pode deixar a entender que a garota teve uma “ajuda” fundamental da mãe para se salvar. Eu acredito que isso seja possível, então achei um toque interessante da história no final.

Fiquei muito surpresa com o trabalho de Blake Lively. Achei o trabalho da atriz realmente impecável, irretocável. Acho que vale acompanharmos este nome e ver o que mais ela fará daqui para a frente. Buscando saber um pouco mais sobre ela, descobri que este é o 18º trabalho dela como atriz e que ela já ostenta sete prêmios no currículo. A estreia dela como atriz foi em Sandman, em 1998. O trabalho seguinte demorou sete anos para sair, foi em 2005, The Sisterhood of the Traveling Pants. A partir daí ela não parou mais. Ela participou das séries de TV Saturday Night Live e Gossip Girl e dos filmes Green Lantern, Hick, Savages, The Age of Adaline e do recente filme de Woody Allen, Café Society. O próximo filme dela que vai estrear é All I See Is You, dirigido por Marc Foster. Ficaremos de olho!

The Shallows estreou em première em Nova York no dia 21 de junho. A partir desta data ele começou a se espalhar pelo mundo sem participar de nenhum festival de cinema até agora. Nem é muito o perfil do filme. Mesmo não tendo uma “carreira de festivais”, esta produção foi indicada na categoria Choice Summer Movie Star: Female no Teen Choice Awards. Sem dúvida nenhuma esta é uma produção bem ao estilo “filme de verão” e com cara de adolescentes. Ou seja, o filme está bem entre o seu público.😉

Antes citei a atriz Blake Lively como um dos pontos fundamentais para o êxito desta produção. Mas vale também citar alguns dos atores coadjuvantes que ajudam a protagonista a brilhar – até porque eles não tem, digamos assim, um graaaaande desempenho: Óscar Jaenada está bem nas duas ocasiões em que ele aparece como Carlos, morador local da praia agreste; Brett Cullen interpreta o pai de Nancy; Sedona Legge interpreta a Chloe, irmã mais nova da protagonista; Pablo Calva é o filho de Carlos, o garoto que está brincando na praia e que acaba ajudando a salvar Nancy; Diego Espejel é o homem bêbado que só faz besteira na praia; Janelle Bailey interpreta a mãe de Nancy; e quatro pessoas interpretam os surfistas que aparecem em cena (pois sim): Angelo Jose, Lozano Corzo, Jose Manual e Trujillo Salas.

The Shallows teria custado US$ 17 milhões – certamente boa parte desta grana foi gasta nos efeitos especiais envolvendo o tubarão, dinheiro muito bem empregado, aliás – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 54,5 milhões. No restante dos países em que o filme já estrou ele teria feito outros US$ 38,5 milhões. Ou seja, no total, pouco mais de US$ 93 milhões. Um verdadeiro sucesso. E merecido. É bom ver um filme feito para “as férias americanas” e que joga uma nova brisa sobre um gênero desgastado.

O filme, segundo o roteiro de Anthony Jaswinski, se passa em uma das praias da cidade de Tijuana, no México. Mas, na verdade, The Shallows foi totalmente rodado na Austrália. Pois sim! Muitas das cenas da produção foram feitas nos Village Roadshow Studios, em Queensland, enquanto parte das cenas externas foram rodadas em Mount Tamborine (as imagens do caminho pela “floresta”) e em Lord Howe Island, esta última em New South Wales.

Agora, uma curiosidade sobre o filme: a versão de The Shallows no México altera a localização da praia para o Brasil e os diálogos entre os personagens “locais” que, no original, são ditas em espanhol, na versão mexicana são ditas em português.

O apelido que Nancy dá para a gaivota, o de Steven Seagull (gaivota Steve) é uma brincadeira com o nome do ator Steven Seagal.

Um ponto fundamental desta produção é o trabalho também com o grande tubarão branco – que é uma fêmea, aliás, normalmente maior que os machos. Nove profissionais trabalharam nos efeitos especiais do filme e o número impressionante de 257 profissionais trabalharam nos efeitos visuais da produção. Certamente para estes aspectos foi grande parte do orçamento do filme. Os 14 profissionais envolvidos no departamento de som também merecem elogios, porque o trabalho deles, assim como dos demais, garante a qualidade técnica da produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção. Uma boa avaliação se formos levar em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 128 críticas positivas e 39 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média de 6,5.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ela entra na lista de países votados aqui no blog.😉

CONCLUSÃO: Você não precisa ter uma grande ideia para fazer um filme interessante. Basta ter um propósito muito claro e, mesmo que o assunto já tenha sido tratado, não ficar na zona cômoda e tentar apresentar algum diferencial. Pois é exatamente isso que The Shallows faz. Este não é o primeiro e provavelmente não será o último filme que trata sobre o “perigo dos mares” mais aterrorizante de todos, mas certamente ajuda a revigorar o gênero. Com uma atriz bonita e talentosa como protagonista, este filme tem uma dinâmica bem planejada e envolvente, equilibrando na medida certa suspense, drama e alguma pitada de humor. É uma boa pedida bem ao estilo “Sessão da Tarde”. Simples, mas eficaz como entretenimento.

A Hologram for the King – Negócio das Arábias

27 de agosto de 2016 Deixe um comentário

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Alguns atores e diretores simplesmente nos atraem. Admiramos o trabalho deles e, por isso, optamos no cinema por assistir aos seus filmes e não a outros. Pois bem, eu assisti ao filme A Hologram for the King por causa de Tom Hanks. Gosto do ator, acompanho o trabalho dele há muito tempo, mas esta produção apenas serviu para voltar a me lembrar que nem sempre um bom intérprete abraça um filme de qualidade. Honestamente eu não sei o que fez Tom Hanks protagonizar A Hologram for the King. Filme um bocado sem pé nem cabeça que, se nos esforçarmos, até podemos entender. Mas, nem por isso, ele se torna um grande filme.

A HISTÓRIA: Cenas de uma grande cidade. Em uma vizinha “dos sonhos”, Alan (Tom Hanks) aparece fazendo um rap sobre como um sujeito que tinha aparentemente tudo pode se ver, de repente, sem nada daquilo. Depois, Alan está em uma montanha russa. As cores vão desaparecendo, e ele acorda em um avião com árabes rezando. Na sequência, ele chega na Arábia Saudita, onde foi enviado para fazer um “acordo crucial” para a empresa em que ele trabalha. Enquanto ele está dormindo no hotel, vemos a pressão que o circunda na conversa que ele teve com o chefe antes de viajar para a Arábia Saudita. Ele acorda atrasado e tem que arranjar uma maneira de ir até a Metrópole do Rei de Economia e do Comércio. Alan mal sabe que ali está apenas começando uma longa jornada para ele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir comenta trechos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu à produção A Hologram for the King): Como costumo fazer sempre que vou assistir a um filme, seleciono ele sem ler nada a respeito da história antes. Como já comentei aqui em outras ocasiões, algumas vezes sou atraída por um diretor ou diretora que eu admiro e de quem eu gosto. Outras vezes, pelo ator, pela atriz ou pelo elenco. Em algumas ocasiões, mais raras, pelo nome do roteirista. Outras vezes, pela avaliação positiva nos sites de referência que sempre cito aqui.

Assisti a este filme pela junção de dois destes fatores: gosto muito do trabalho de Tom Hanks e também vi notas razoáveis sobre esta produção nos sites que sempre monitoro. Até gostei do início do filme. Afinal, quem imaginaria o “certinho” Tom Hanks cantando um rap sobre o desassossego e a desilusão? Depois, achei o começo um tanto “desastrado” do personagem que ele interpreta também interessante. Até que surgiu em cena o motorista Yousef (Alexander Black). Ali acendeu pela primeira vez a minha luz de alerta.

Por que cargas d’água os roteiristas sempre recorrem a um tipo paspalhão para provocar risos fáceis em filmes que ou querem ser muito engraçados ou querem contrastar sempre o drama com a comédia? Enfim, Yousef é um destes personagens esquisitos de A Hologram for the King e que não diz muito ao que veio além de provocar algumas risadas com as suas esquisitices e um jeitão de quem parece estar sempre sob o efeito da maconha.

Depois de acompanharmos o encontro do protagonista com o motorista particular trapalhão, mergulhamos em uma sequência de fatos que fazem qualquer um perceber que Alan está sendo enrolado. Ele e sua equipe não conseguem a estrutura básica elementar para fazer a apresentação que desejam e muito menos conseguem se encontrar com a pessoa que deveriam. E aí começa o processo do “cachorro que persegue o próprio rabo”.

O personagem de Alan parece um tanto desastrado e, ainda assim, consegue se virar bem em terras estrangeiras. A primeira sorte dele é encontrar Hanne (Sidse Babett Knudsen), uma estrangeira como ele que lhe fornece algo que ele precisava muito e que não conseguiria por vias normais na Arábia Saudita: uma boa bebida alcoólica. Depois de beber um bocado, ele resolve fazer uma grande besteira e tentar tirar uma massa que tinha nas próprias costas.

É assim que ele tira a segunda “sorte grande”: conhece a médica Zahra (Sarita Choudhury). Enquanto ele não consegue se encontrar com o rei e apresentar a solução tecnológica oferecida pela empresa que ele representa, a Relyand, ele vais e divertindo com estas duas belas mulheres. Mas mais que o presente, Alan é atormentado pelo passado. Por não ter dado certo no casamento e nem por ter sido muito presente na vida da filha, Kit (Tracey Fairaway). O filme vive, aliás, nesta mescla de expectativa e de arrependimento.

O roteiro de Tom Tykwer baseado no livro de Dave Eggers acerta ao mergulhar no personagem principal mas, para o meu gosto, erra em todo o restante. Por exemplo, Alan realmente não mergulha na cultura alheia. Vemos uma série de estereótipos e simplificações. Muita maquiagem e pouca realidade. Quer dizer, até vemos um pouco do que seria a cultura árabe, mas tudo parece bastante forjado ao estilo “feito para Hollywood”.

O que podemos ver com clareza, e isso é uma verdade, é o recurso abundante que o rei árabe tem à sua disposição para transformar deserto em um local cheio de infraestrutura, moderno e luxuoso. Não falta dinheiro e nem visão para os árabes, disso não temos dúvida. A outra reflexão interessante do filme é como ele questiona, ainda que levemente, a armadilha que é o mundo inteiro apostar pela China como “o motor” ou “a fábrica” do mundo.

No passado, o protagonista deste filme levou a empresa que ele fundou para a China, desempregando muitos americanos, porque era mais “competitivo” e mais lógico, apenas pela ótica do dinheiro, levar a operação para o país asiático onde o custo da mão de obra era muito mais barato. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando ele vai procurar um acordo fundamental para a empresa que ele está trabalhando na Arábia Saudita, por ironia, são os chineses que ganham o contrato. Certamente porque apresentaram preços e condições melhores.

O mundo acaba se dilapidando quando todas as oportunidades acabam sendo chinesas. Para o bem de todos, seria bem mais interessante termos um equilíbrio melhor de forças, com vários países dividindo melhor o bolo. Esta talvez seja a única reflexão realmente interessante deste filme. Pena que ela fique tão em segundo plano.

A reflexão óbvia e evidente de A Hologram for the King é que quando uma pessoa se lança para o desconhecido, para um país distante, ela pode se distanciar o suficiente dos problemas e se surpreender com diversas oportunidades de recomeço. Isso acaba acontecendo com Alan. Ele tem muito claro o que quer e o que não quer e acaba apostando as suas fichas na médica Zahra – esbanjando as investidas de Hanne. É meio difícil de acreditar que aquela figura fosse “disputado”, no bom sentido, por duas mulheres. Mas é isso que acontece. Afinal, temos o famoso Tom Hanks no papel principal.

Como gostamos de Hanks, até acreditamos nesta história. Mas convenhamos que se esquecemos que o protagonista desta história é um ator querido e famoso, dificilmente o Alan “real” teria tanta concorrência. De qualquer forma, algo é certo: ele aproveita bem as oportunidades que aparecem pela frente e é feliz improvisando. Então ele não consegue o objetivo que o levou para a Arábia Saudita, mas atinge um objetivo muito mais importante para ele.

Recomeços são mágicos, e este filme trata de um deles. Ainda que a narrativa seja um bocado arrastada, em alguns momentos, e cheia de piadas sem graça e de simplificações, mas ela consegue provocar alguma reflexão e oferecer algumas cenas realmente muito bonitas – neste sentido eu destaco, em especial, a sequência do nado entre Alan e Zahra. Toda a sequência na casa da médica, aliás, pode ser considerada o ponto forte do filme. Um belo trabalho do diretor Tom Tykwer. Sem dúvida nenhuma ele entende de cinema e de como valorizar os atores e os cenários em seus respectivos momentos. Pena que a história não lhe ajudou muito para que este fosse um grande filme.

NOTA: 6,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sempre que vejo um filme que se passa em uma “terra estrangeira” muito diferente do habitat do protagonista e que deixa ele visivelmente desconcertado, impossível não lembrar de Lost in Translation. Se você está procurando um filme que trate de culturas diferentes em contato, sobre perder-se e encontrar-se, sobre descobrir algo de nós mesmos e dos outros que não esperávamos, sem dúvida alguma deves assistir a este filme de 2003 assinado pela diretora Sofia Coppola. Posso garantir que ele é muito melhor no intento que este A Hologram for the King. Lost in Translation se passa em outro ambiente e tem outra “pegada”, mas é muito mais eficaz em seu intento e mais inteligente em seus propósitos. Fica a dica.

Queria me desculpar com vocês pela longa ausência. Mas como expliquei na página do blog no Facebook, eu sou uma viciada em Olimpíadas. Então vocês terão que me perdoar, mas enquanto eu viver, a cada quatro anos, quando os Jogos Olímpicos forem realizados em alguma parte do mundo, estarei com a atenção totalmente voltada para este grande momento do esporte e da Humanidade seja onde ele acontecer. Neste período eu sempre terei que “abandonar” um pouco o blog. Mas como vocês sabem, posso demorar um pouco, mas sempre volto.😉

A Hologram for the King é muito centrado no personagem principal interpretado por Tom Hanks. O ator está bem, ainda que eu o veja se “esforçando” demais em alguns momentos para nos convencer. Gosto de Hanks mas, serei franca com vocês, ele já esteve em filmes melhores e com desempenho bem melhor também. Ele está bem, mas certamente não será um filme inesquecível dele.

Mesmo o filme sendo bem centrado em Hanks, uma atriz ganha destaque na produção, especialmente na reta final: Sarita Choudhury. Ela é uma grande atriz, aliás! E está muito bem neste filme. Lembro dela se destacando em Homeland. É uma intérprete que sempre faz bem o seu trabalho. Vale acompanhá-la. Outros atores que tem destaque no filme já foram citados: Alexander Black como o chato chofer improvisado do protagonista – entendo se você tiver achado ele bom e engraçado, mas eu não compartilho desta visão e tanto você como eu estamos certos; e Sidse Babett Knudsen como Hanne.

Outros atores com papéis menores e que valem ser citados: Tom Skerritt em uma super ponta como o pai de Alan, Ron; Michael Baral também em uma super ponta como o jovem Alan; Eric Meyers como Eric Randall, chefe do protagonista; Atheer Adel como o príncipe Jalawi; Mohamed Attifi como O Rei; e Khalid Laith como Karim Al-Ahmad, o braço direito do rei e que é o primeiro alvo de Alan em sua jornada árabe.

Da parte técnica do filme, o principal destaque é a direção de fotografia de Frank Griebe. Afinal, se este filme tem alguma qualidade mais evidente, sem dúvida alguma são algumas cenas realmente muito bem feitas e com visual incrível. O diretor Tom Tykwer também tem, sem dúvida, um bom gosto para cenários e para a dinâmica da cena. Ajudam ele em sua missão ainda Uli Hanisch no design de produção; Abdellah Baadil, Daniel Chour, Kai Koch e Marco Trentini na direção de arte; Pierre-Yves Gayraud nos figurinos; Alexander Berner na edição; e Johnny Klimek e o próprio Tykwer na trilha sonora um tanto ausente, mas que ajuda a imprimir um tom dramático e um tanto “épico” para esta produção.

A Hologram for the King estreou no Festival de Cinema de Tribeca em abril deste ano. Depois, o filme passaria apenas pelo Festival Internacional de Cinema de Melbourne no início de agosto. Em sua trajetória, esta produção ganhou dois prêmios e foi indicada a um terceiro. Os prêmios que ele recebeu foram os de Melhor Edição para Alexander Berner e o de Melhor Som para Frank Kruse, Matthias Lempert e Roland Winke no German Film Awards.

Esta produção gastou cerca de US$ 30 milhões para ser feita. Só fico pensando quantos filmes alternativos e bacanas poderiam ter sido feitos com esta grana… mas ok. Nas bilheterias dos Estados Unidos o filme fez cerca de US$ 4,2 milhões. Ou seja, um grande fracasso de bilheteria até o momento. E me desculpem os fãs do filme, mas neste caso eu entendo as razões. Não consigo imaginar uma propaganda boca a boca muuuuuito positiva neste caso.

A Hologram for the King foi rodado em diversos países. Algumas cenas externas foram rodadas realmente na Arábia Saudita, enquanto outras foram feitas em Boston, nos Estados Unidos. As outras cenas, incluindo as de ambiente interno, foram rodadas no Marrocos, no Egito e na Alemanha, em cidades como Ouarzazate, Hurghada, Rabat, Casablanca, Düsseldorf e Berlim.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 88 críticas positivas e 37 negativas para este filme, o que lhe garante uma aprovação de 70% e uma nota média de 6,2.

Ah sim, e vale comentar: assisti este filme antes mesmo das Olimpíadas começarem a pegar fogo. Então é claro que lembro do que o filme transmitiu para mim, mas sem dúvida não é o mesmo que comentar ele logo após tê-lo assistido. Acho que é válido citar isso.

Este filme é uma coprodução de diversos países, a saber: Reino Unido, França, Alemanha, Estados Unidos e México.

CONCLUSÃO: Outros filmes já falaram sobre a solidão em um lugar com cultura diferente e desconhecido. Produções melhores que esta trataram da busca de um indivíduo por encontrar a si mesmo e também a motivação para recomeçar. Ainda que A Hologram for the King tenha algumas boas intenções, ele não passa na avaliação mais criteriosa. Filme um tanto lento, um tanto enrolado, ele parece mais um cachorro perseguindo o próprio rabo. Perdemos muito tempo com a “confusão” dos árabes e pouco tempo entendendo os personagens principais. Um filme um bocado vazio, ainda que tenha alguns bons atores e algumas cenas realmente interessantes. Mas se você tiver outra opção para assistir, sugiro que opte pela alternativa a esta produção.

It’s a Wonderful Life – A Felicidade Não Se Compra

31 de julho de 2016 Deixe um comentário

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Os melhores filmes da História do cinema parecem ser produções simples, sem grande pirotecnia, mas que mexem muito com quem assiste. It’s a Wonderful Life, um dos grandes clássicos do cinema americano, é um grande exemplo disso. Esqueça a versão dublada e as vezes em que você, como eu, pode ter vistos trechos deste filme em sessões especiais da TV perto do Natal. Assista à versão original com calma e com tempo e serás surpreendido(a) como eu. Que grande filme! Roteiro exemplar, atores fantásticos e algumas mensagens realmente incríveis. Imperdível.

A HISTÓRIA: Toca o sino. Música de Natal. Uma placa dá as boas-vindas para a cidade de Bedford Falls. Neva e há decoração natalina nas ruas do lugar. Em diferentes lugares pessoas fazem orações para George Bailey (James Stewart). No céu, Joseph fala com o seu Superior sobre os problemas de George Bailey e que alguém precisará ser enviado para ajudá-lo. O anjo de segunda classe da vez é Clarence (Henry Travers).

Mas antes de descer até a Terra, ele tem um resumo da vida de George, incluindo quando ele salvou o irmão Harry Bailey (Todd Karns), aos 12 anos de idade, e outras ações importantes da vida dele até que, já adulto, ele tem repetidamente os planos de sair da cidade e conhecer o mundo frustradas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a It’s a Wonderful Life): Simplesmente incrível o roteiro deste filme. Com ótimas tiradas do início ao fim e a construção dos personagens feita com muita inteligência. O humor é uma marca registrada desta história. Mas na parte final do filme a emoção rouba a cena. Apenas grandes textos podem construir uma história desta forma.

Mérito dos roteiristas Frank Capra, Frances Goodrich e Albert Hackett, que tiveram ainda a contribuição não creditada de Michael Wilson e cenas adicionais escritas por Jo Swerling. O roteiro de It’s a Wonderful Life foi escrito baseado na história de Philip Van Doren Stern.

Este não é um filme realista, mas uma ficção propositalmente exagerada para contar uma história cheia de graça, humor e algumas críticas sociais bem contundentes. Como tantos outros filmes fariam depois e, inclusive, antes, It’s a Wonderful Life começa pelo final, em uma situação-limite para o protagonista, para depois voltar no tempo e mostrar as razões que fizeram ele chegar naquele momento. A desculpa para fazer esta volta no tempo é a preparação do anjo Clarence. Uma bela sacada, porque assim o retorno na história é natural e não forçado.

It’s a Wonderful Life volta da noite decisiva na vida do protagonista para quando ele tinha 12 anos de idade, em 1919. Ali começam os momentos decisivos da vida dele e uma boa explicação de seu caráter. George salva o irmão e, por causa disso, fica surdo de um ouvido. Depois de se recuperar, ele volta a trabalhar na venda e farmácia do Sr. Gower (H.B. Warner). Quando ele chega para trabalhar, está esperando ele Mary (Donna Reed), personagem fundamental nesta história. Em seguida chega ao local Violet (Gloria Grahame), a rival de Mary na busca por fisgar George.

Naquela sequência na farmácia vemos outra ação fundamental do jovem George: atento aos detalhes, ele percebe que o farmacêutico, em luto pela morte do filho, acidentalmente colocou veneno no remédio para uma criança. Ao invés de entregar o remédio como foi ordenado, George busca o pai (Todd Karns) para receber um conselho. Neste momento começamos a conhecer o vilão da história: o rico Sr. Potter (Lionel Barrymore), que tem como meta ser dono da cidade – para isso ele tem que vencer os irmãos Bailey e a sua financiadora e construtora.

Desde criança o sonho de George Bailey é sair da pequena cidade em que ele nasceu para conhecer o mundo. Ele quer ser um explorador. Mas as obrigações e as suas responsabilidades fazem ele ficar na cidade além do tempo que ele desejaria. Todos os seus amigos saíram para fazer a faculdade fora, mas ele acabou ficando para trás. Quando finalmente ele vai sair para estudar na universidade, o pai dele morre. Este é o momento ideal para Potter, acionista da financiadora e construtora, pedir para que o local, que não dá lucro, ser fechado. Afinal, quem segurava as pontas e enfrentava o ricaço era o pai de George.

O filho mais velho dele adia a viagem para a faculdade para colocar os papéis da empresa em ordem, mas ao participar da reunião em que Potter ameaça acabar com o negócio, ele enfrenta o vilão. Neste momento ele sela o próprio destino. Como na vida real, os acontecimentos vão se desenrolando sem George ter controle algum sobre eles. Ainda assim, ele poderia ter dado as costas para as responsabilidades que vão surgindo para, de forma obstinada, ir atrás de seus sonhos. Mas não é isso que ele faz.

Generoso, ele acaba sempre ajudando quem precisa. Não importa se isso frustra os seus próprios sonhos. Quando a firma familiar é a ameaçada, ele resolve aceitar o convite de assumir o negócio para que as pessoas simples da cidade tenham uma chance de conquistar os seus próprios sonhos e não tenham apenas a exploração de Potter como alternativa. Desta forma, diferente do que ele gostaria, ele fica na pequena Bedford Falls. Ele odeia a cidade e vê o irmão sair para estudar na faculdade como ele gostaria.

Verdade que ele é bom coração mas, como qualquer pessoa comum, ele também tem uma lado negativo dentro de si. Quando o irmão mais novo volta casado e com uma ótima oportunidade de trabalho fora, George claramente fica chateado. Ele está contrariado e perdido. Tanto que a mãe dele (Beulah Bondi) lhe dá a dica sobre o retorno de Mary e ele não fica empolgado com a informação. Ao invés de ir encontrar a garota que é louca por ele e um verdadeiro encanto, ele segue na direção contrária. George tem qualidades, muitas, mas ele também é um cabeça-dura.

Finalmente ele acaba visitando Mary, mas o encontro é um verdadeiro desastre. E só não termina com cada um sendo infeliz por seu lado porque o amigo de George e então pretendente de Mary, Sam Wainwright (Frank Albertson), liga para a casa dela e acaba, sem querer, finalmente aproximando os dois. Quando George fica colado em Mary para escutar a proposta de Sam para eles investirem em uma fábrica de plástico, ele finalmente se rende ao sentimento que ele tinha por ela há alguns anos.

Os dois se casam, mas quando eles estão indo para a lua de mel, George vê a empresa da família fechada e uma pequena multidão esperando para entrar. Não fica totalmente claro naquele momento do filme, mas estamos falando de 1929, quando houve a quebradeira da Bolsa de Nova York e todo o efeito que isto teve na economia.

Está ali em It’s a Wonderful Life uma parte daquela problemática: todos com receio de ficarem sem dinheiro começaram a cobrar as suas próprias dívidas. Foi assim que o banco do qual a financiadora e construtora dos Bailey tinha pego empréstimo acabou cobrando tudo de uma vez, descapitalizando a empresa, e foi assim que os clientes do local quiseram todos de uma vez sacar o seu dinheiro da empresa que era mantida com investimentos populares e empréstimos feitos a partir destes depósitos.

Neste momento, como em vários outros, Mary aparece em cena para salvar a pátria. Não por acaso ela amava George. Mesmo sem fazer discursos como ele, Mary compartilhava a mesma visão sonhadora e íntegra do marido. George explica para os investidores a importância de todos manterem o local funcionando para que as pessoas tenham uma alternativa a Potter. O ricaço aproveita a deixa para se aproveitar do desespero alheio. Ele oferece US$ 0,50 para cada US$ 1 que as pessoas tinham depositado em forma de ações no local. Exploração clássica que vemos até hoje acontecendo quando ocorre uma enchente ou alguma outra tragédia e os inescrupulosos sobem os preços para lucrar com a desgraça alheia.

O discurso de George, um dos melhores do filme, que apela para o sentido de coletividade, e a ação de Mary de usar os US$ 2 mil que o casal tinha reservado para a lua de mel acabam salvando a financiadora e construtora. E este gesto muda a vida de muita gente porque as pessoas passam a ter uma alternativa para financiador os seus sonhos, especialmente a casa própria, sem serem exploradas neste intento. Eis a primeira mensagem importante de It’s a Wonderful Life: é possível um caminho de justiça e de oportunidade para pessoas simples sem que elas sejam exploradas por quem tem mais dinheiro e sempre busca ter cada vez mais.

Na sequência, um outro momento marcante desta produção: quando Mary orquestra uma lua de mel inesquecível para o casal. James Stewart é o nome famoso e inevitável desta história. O personagem dele é o sonhador, o correto, o protagonista que sempre tem discursos importantes na história. Mas ele também é um bocado atrapalhado, um tanto turrão e, por causa da surdez em um ouvido, fala sempre mais alto que o normal. Mas Mary… ah, Mary! A atriz Donna Reed simplesmente rouba a cena toda vez que aparece. Ela é a parte encantadora da história, uma mulher com opinião, com caráter e que consegue mover a história com amor e carisma. Uma parceria simplesmente perfeita para James Stewart nesta produção.

Aos poucos George o seu tio Billy (Thomas Mitchell), fundador da financiadora e construtora junto com o pai de George e Harry, vão realizando sonhos de diversas pessoas da comunidade. Claro que Potter não se cansa de tentar dinamitar o único negócio que não lhe ajuda a ficar cada vez mais rico. Além de uma proposta indecorosa de Potter, George também é tentado pelo amigo Sam Wainwright que vai, por sua conta, ficando cada vez mais rico com o negócio de plástico que foi ideia do protagonista. Mas ele resiste e fica tocando o negócio da família porque sabe a importância dele para a comunidade.

Começa a Segunda Guerra Mundial – ou seja, estamos em 1939, quando o protagonista teria 32 anos de idade – e os acontecimentos trágicos daquela época são mostrados resumidamente. Tanto que logo chegamos ao fim do conflito no último dia da história com Harry Bailey sendo, mais uma vez, destacado – enquanto o irmão, George, aparentemente, não se sente nada valorizado. Claramente o diretor Frank Capra não quer dar muito destaque para a guerra. Afinal, a mensagem dele é para, justamente, ajudar a superar aquele momento complicado com uma mensagem positiva. Lembrando que este filme foi lançado em 1946, logo após o fim do conflito.

Mesmo fazendo o que é certo e ajudando a tantas pessoas, George se sente tentado e quase cede às tentações uma ou outra vez. E nestes momentos, quando ele vê outros tendo mais sucesso do que ele, fica perceptível como a frustração dele vai crescendo. Por isso, diferente de alguns críticos, eu não vejo como gratuita a reação dele na reta final da história. Extremamente correto e comprometido com o negócio familiar, ele explode quando o tio Billy perde US$ 8 mil, uma fortuna para a época e dinheiro impossível de ser recolocado pela empresa.

O desespero toma conta de George. Ele imagina o pior dos cenários, com a família dele ficando sem assistência alguma quando ele fosse preso – uma perspectiva cada vez mais próxima com aquele sumiço do dinheiro. Daí temos a justificativa para aquele início de It’s a Wonderful Life. George está mais que “desanimado”, ele está desesperado. E a frase de Potter de que ele vale mais “morto do que vivo” acaba martelando na cabeça dele. Cá entre nós, não é exagero seguir a linha de raciocínio dele – muitos homens na vida real acreditaram exatamente nisso, que eles “valiam” mais mortos do que vivos e optaram pelo suicídio como forma de “resolver” os seus problemas.

Mas aí está a grande e valiosa mensagem de It’s a Wonderful Life. Uma mensagem que não é apenas poderosa em si, mas que foi construída com grande precisão para ser muito forte no final. Como o título em português sugere, o realmente valioso na vida não pode ser conquistado com dinheiro. Não estamos falando apenas de felicidade individual mas, e especialmente, do efeito que a vida de um indivíduo pode ter para a felicidade de muitas e muitas pessoas.

Depois do desespero, George poderia ter pensado na desgraça que a sua morte poderia significar para os filhos, para Mary e ir expandindo esta análise para todas as outras pessoas que ele conhecia. Ele não chegou a fazer esta análise. Não esfriou a cabeça, mas acabou agravando a visão negativa ao beber além da conta no bar. Por isso foi necessária a interferência de Clarence. Na conversa entre George o seu anjo da guarda de segunda classe, o protagonista acaba falando algo pior do que aquilo de que seria melhor se ele morresse. Ele diz que preferia nunca ter nascido.

Daí temos a parte mais fantasiosa e muito potente de It’s a Wonderful Life. O nosso protagonista é mergulhado em uma realidade na qual ele não é reconhecido por ninguém porque ele simplesmente nunca existiu. Daí George percebe de maneira muito clara a importância da vida dele para muita gente. Claro que a narrativa segue uma lógica exagerada e na qual a ficha de George nunca parece cair. Mas esse recurso é proposital e tem um efeito decisivo especialmente pela ótima interpretação de James Stewart. Como Donna Reed sai de cena nesta sequência – ela aparece apenas nos minutos finais da “fantasia” -, é o momento em que o protagonista mostra todo o seu valor.

A sequência em que George corre para a ponte e reza para voltar a viver é simplesmente devastadora. Admito que chorei um bocado ali – já vinha me emocionando antes, mas aquele é o grande momento. A partir daí você provavelmente vai reconhecer algumas imagens que fazem parte do imaginário de quem gosta de cinema há bastante tempo. Lembro de algumas das sequências finais, mas admito que não lembrava do filme inteiro, de todos os seus ricos e importantes detalhes. Fiquei em dúvida se eu vi este filme quando era criança, em uma daquelas várias exibições que It’s a Wonderful Life teve na época de Natal, ou se eu realmente nunca tinha visto ele inteiro.

Assistindo agora, contudo, vi toda a grandeza desta produção. De forma muito contundente It’s a Wonderful Life faz uma crítica bem fundamentada contra a ambição e a busca de riqueza a qualquer preço, inclusive passando por cima de diversas pessoas e as explorando e, principalmente, esta produção faz uma defesa fundamental da vida. It’s a Wonderful Life deixa muito claro que toda a vida tem valor e que, quando nos doamos para os outros e fazemos o bem, nossa influência é ainda mais decisiva.

Honestamente, considero este um dos melhores filmes que vi até hoje. Sem dúvida alguma ele merece ser recomendado e assistido sempre que possível (mas na versão original). Acho fundamental ouvir todos os detalhes das interpretações dos atores principais e do ótimo elenco de apoio, assim como a trilha sonora escolhida a dedo. Inesquecível e uma aula de roteiro e de cinema. Assista.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tudo funciona à perfeição em It’s a Wonderful Life. Do roteiro, já bastante elogiado, até a direção muito precisa e cuidadosa de Frank Capra, passando pelas ótimas interpretações de todos os atores e pelos elementos técnicos que não tem nenhum deslize. A trilha sonora, por exemplo, assinada por Dimitri Tiomkin, é irretocável. Ela aparece nos momentos adequados e ajuda muito a dar a profundidade narrativa de cada fase da história, além de ritmo e emoção para a produção. Um filme a ser estudado em seus detalhes.

Há dois pontos deste filme que eu gostaria de comentar aqui e que não fiz antes. (SPOILER – não leia este e o próximo parágrafo se você ainda não assistiu a esta produção). O primeiro é que It’s a Wonderful Life aposta em uma filosofia da qual eu sou grande partidária. O importante não é focarmos a nossa energia e a nossa atenção naquilo que não conquistamos – afinal, é impossível alguém conquistar tudo que poderia desejar em uma vida – e sim colocarmos a nossa energia e a nossa atenção em tudo que já fizemos.

Em outras palavras, sermos muito mais gratos com a vida e todos os presentes que ela nos deu do que acumularmos frustração ou descontentamento com o que não deu certo. George Bailey acaba se dando conta disto no final. Ele percebe tudo o que ele tem e que poderia perder caso realmente desaparecesse da face da Terra. Mas como não teremos um Clarence para nos mostrar isso, o ideal é fazermos este exercício de gratidão por nosso conta. Quanto mais fizermos, melhor pra gente.

O outro ponto que eu gostaria de comentar tem a ver com a parte derradeira da história. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Alguns podem pensar, ao ver aquele povo todo dando dinheiro para Bailey, que o problema estava apenas sendo adiado. Afinal, em algum momento o protagonista seria cobrado para devolver aqueles empréstimos. Mas, na verdade, acho que a maioria deu apenas o que tinha disponível, que “estava sobrando”, e a pequena quantidade dada por cada um, recursos que não fariam falta individualmente, já seria o suficiente para salvar a pele dos Bailey. Então acho que a maior parte das doações não será devolvida no futuro. E a que for preciso devolver, eles terão capacidade para isso. O gesto daquelas pessoas todas foi uma retribuição pelo que eles receberam anteriormente. E a mensagem de Capra é que “a união faz a força”.

O filme está cheio de ótimas tiradas. Mas uma das minhas preferidas é quando um vizinho assiste a aproximação desajeitada de George em uma noite de lua cheia e solta que “o problema é que os jovens desperdiçam a juventude”.😉 Achei ótimo aquilo!

It’s a Wonderful Life estreou em Nova York no dia 20 de dezembro de 1946. Ou seja, como a própria história narra, pertinho da noite de Natal. No Brasil o filme estreou pela primeira vez em 14 de fevereiro de 1947. Em 1977, mais de 30 anos depois dele estrear nos cinemas, It’s a Wonderful Lifeparticipou do Festival Internacional de Cinema de Toronto. Em 1997, quando o filme completava 50 anos de estreia em diversos países, ele voltou aos cinemas do Reino Unido. Nos Estados Unidos ele voltou aos cinemas de Nova York em 2013 e em 2014.

Entre as tiradas deste filme, tem uma perto do final que chama a atenção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). George Bailey está no bar e ensaia uma oração para Deus pedindo que Ele lhe mostre um caminho, uma luz, uma solução para o problemão que ele está enfrentando. Na sequência, quando ele vai se despedir dos amigos e eles lhe chamam pelo nome, ele leva um soco do Sr. Welch (Stanley Andrews). E daí ele comenta “Isso que dá rezar”. Achei cômico. Isso é o que acontece com muita gente, querendo jogar para Deus a responsabilidade sobre os efeitos de seus próprios atos. Claro que ele levou um soco por ter falado um monte de grosserias para a esposa do Sr. Welch e não porque ele tinha rezado. Devemos aprender a saber que nossos atos tem consequências e não achar que tudo é “vontade de Deus”. Bobagem.

É uma delícia assistir a um filme com James Stewart. Lembrava dele mais dos filmes de Hitchcock, por isso achei interessante vê-lo em um papel tão diferente, de cidadão comum um bocado atrapalhado mas com grandes qualidades. Grande ator. Mas como eu já o conhecia, para mim a grande surpresa de It’s a Wonderful Life foi mesmo a atriz Donna Reed. Achei ela divina, encantadora, maravilhosa. Ela brilha no filme do início ao fim. Um belo par para este filme. Os dois fazem um trabalho muito bom e que acaba sendo bem equilibrado.

Fiquei impressionada também com a qualidade dos coadjuvantes. Todos muito bons. Dos papéis menores até os que ganham mais relevância na história, não tem ninguém que não se saia bem. Algo raro nos dias de hoje. Mais um exemplo de como Hollywood já teve a sua idade de ouro. Entre os coadjuvantes, destaque para Lionel Barrymore, que interpreta o Sr. Potter – impossível não odiá-lo; Thomas Mitchell como o singelo e um tanto atrapalhado Tio Billy; Henry Travers ótimo e roubando a cena como o anjo Clarence; Beulah Bondi cativante como a Sra. Bailey, mãe de George e de Harry; Frank Faylen como Ernie, taxista e um dos melhores amigos do protagonista; Ward Bond ótimo como o policial Bert, amigo também de George.

A lista segue com Gloria Grahame como Violet, a outra pretendente do protagonista; H.B. Warner como Sr. Gower, primeiro patrão de George; Todd Karns como Harry Bailey, irmão mais novo de George; Samuel S. Hinds como o Sr. Bailey, pai dos meninos; Frank Albertson como Sam Wainwright, o amigo de infância do protagonista que faz a mesma brincadeira com ele a vida inteira; William Edmunds como Sr. Martini, dono do bar que acaba comprando a casa própria com a ajuda da empresa dos Bailey’s; e o elenco infantil, com destaque para Robert J. Anderson como o jovem George; Ronnie Ralph como o jovem Sam; Jean Gale como a jovem Mary; Jeanine Ann Roose como a jovem Violet; e Georgie Nokes como o jovem Harry Bailey. Também vale citar as crianças que interpretam os filhos de George e Mary: Carol Coombs interpreta Janie; Karolyn Grimes interpreta Zuzu; Larry Simms interpreta Pete e Jimmy Hawkins interpreta Tommy.

It’s a Wonderful Life teria custado US$ 3,18 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, cerca de US$ 7,27 milhões. Se juntarmos com o que filme fez em outros países, certamente ele deu lucro.

Esta produção foi totalmente rodada na Califórnia. Entre as locações estiveram o RKO Encino Ranch, em Los Angeles, onde foi montada a cidade de Bedford Falls; a Beverly Hills High School, em Beverly Hills, que dá vida para a cena de dança em Charleston; um endereço em La Cañada-Flintridge foi usado como o exterior da casa do Martini; e mais cenas no RKO-Pathé Studios.

Bacana o filme indicar um clássico da literatura e leitura do anjo Clarence: As Aventuras de Tom Sawyer. A obra pode ter chegado a muita gente por causa do filme.

Agora, algumas curiosidades sobre It’s a Wonderful Life. Para a cena em que a atriz Donna Reed deveria jogar uma pedra e acertar um vidro da casa Granville, o diretor Frank Capra contratou um atirador que pudesse acertar o alvo. Mas na hora de rodar a cena todos se surpreenderam com a atriz acertando o alvo sozinha. Ela tira uma boa mira e força no braço porque no colégio ela tinha jogado baseball.

O piso do ginásio na cena de dança que se abre era real e estava localizado na Beverly Hills High School.

Na cena no bar em que George começa a rezar, James Stewart estava realmente abalado e começou a soluçar. Mais tarde, Frank Capra aproximou a imagem do rosto do ator além do que havia sido planejado na hora que a cena foi rodada para tornar ainda mais evidente a emoção de Stewart – por isso aquela imagem aparece mais granulada que o restante da produção.

Na cena em que o tio Billy vai para casa bêbado, o som que aparece em cena foi, na verdade, uma pessoa da equipe de filmagens que deixou cair uma bandeja cheia de adereços. Como o som apareceu na cena, James Stewart começou a rir e o ator Thomas Mitchell improvisou um “Estou bem, estou bem!”. O diretor Frank Capra gostou daquele resultado e resolveu deixar ele no corte final, dando um prêmio de US$ 10 para o assistente de direção trapalhão desde que ele melhorasse o som final da sequência.

Uma explicação para o orçamento alto do filme, para os padrões da época, foi o gasto que os produtores tiveram com o conjunto habitacional criado para dar vida para a cidade de Bedford Falls. Construído em dois meses, o set feito para a cidade foi um dos mais longos já utilizados em um filme americano. Ele tinha extensão de 16,2 mil metros quadrados e 75 lojas e edifícios, a rua principal, um distrito com fábrica e uma grande área residencial e uma área com cortiço.

James Stewart estava nervoso com a cena após a conversa por telefone porque era o primeiro beijo dele no cinema desde que ele tinha retornado para Hollywood após a guerra – sim, ele lutou na Segunda Guerra Mundial. A cena do beijo foi rodada em apenas um take por Capra. A sequência funcionou tão bem que parte do abraço entre os atores foi cortado porque ele era tão apaixonado que poderia não passar pelos censores da época. Hoje, certamente, não teria problema deixar a sequência inteira.😉

Em diversas ocasiões o diretor Frank Capra disse que este era o filme favorito entre aqueles que ele dirigiu. Interessante. Achei ele, realmente, genial.

Uma fotografia de James Stewart de quando ele tinha apenas seis meses e que foi doada pelos pais do ator foi usada na casa dos Bailey’s.

O ator James Stewart também declarou que George Bailey foi o seu personagem favorito. O roteiro do filme foi originalmente escrito para outro estúdio tendo Cary Grant como o protagonista. Quando Frank Capra assumiu o projeto o texto foi adaptado para que fosse estrelado por Stewart.

O diretor Frank Capra estimou que It’s a Wonderful Life fosse rodado em 90 dias e este foi realmente o prazo de filmagens da produção.

A família Martini do filme foi inspirada na própria família do diretor Frank Capra. Eles emigraram da Sicília em 1903 e tinham uma cabra que os acompanhava – Capra, aliás, quer dizer cabra em italiano.

Apesar da história de It’s a Wonderful Life se passar em um Natal com neve artificial, o filme foi rodado em meio a uma onda de calor. Em um dos dias mais quentes foi rodada a sequência na ponte – em alguns takes é possível ver James Stewart suando.

Em 2004 a BBC fez uma votação com o público sobre o Melhor Filme que acabou não ganhando um Oscar. It’s a Wonderful Life ficou em segundo lugar, atrás de The Shawshank Redemption – outro dos meus filmes favoritos.

It’s a Wonderful Life marcou a estreia de Donna Reed como protagonista.

O trabalho de James Stewart como George Bailey foi classificada como a oitava melhor interpretação no ranking 100 Greatest Performances of All Time da revista Premiere.

Depois da Segunda Guerra Mundial o diretor Frank Capra criou a Liberty Films junto com George Stevens e William Wyler com o objetivo de fazer filmes mais séries e que despertassem um certo “exame de consciência” dos públicos.

Esta foi a primeira e a única vez em que o diretor Frank Capra colaborou com um de seus filmes no roteiro.

It’s a Wonderful Life foi escolhido como o filme mais inspirador de todos os tempos segundo a eleição 100 Years, 100 Cheers feita no dia 14 de junho de 2006. No ano seguinte o American Film Institute classificou o filme como o 20º grande filme de todos os tempos. Justo, muito justo.

Dalton Trumbo, Dorothy Parker, Marc Connelly e Clifford Odets teriam trabalhado no roteiro do filme apesar dos nomes deles não constarem nos créditos de It’s a Wonderful Life.

E há uma marca registrada de Frank Capra neste filme: o corvo Jimmy. Ele aparece em todos os filmes de Capra a partir de 1938.

It’s a Wonderful Life foi indicado a cinco Oscar’s e não ganhou nenhum. Incrível. No ano em que ele perdeu, 1947, o filme que venceu na categoria principal do Oscar foi The Best Years of Our Lives, do diretor William Wyler. Não assisti a esta produção, mas será mesmo que era melhor que It’s a Wonderful Life? James Stewart perdeu a estatueta para Fredric March, de The Best Years of Our Lives; Frank Capra perdeu para William Wyler pelo mesmo filme; It’s a Wonderful Life perdeu em Melhor Som para The Jolson Story; e o filme de Capra perdeu em Melhor Edição para The Best Years of Our Lives. Mas quem hoje fala deste filme? A História parece ter premiado It’s a Wonderful Life.

Mesmo tendo saído de mãos vazias do Oscar, It’s a Wonderful Life conseguiu cinco indicações na premiação máxima de Hollywood. Isso, certamente, já foi um tipo de premiação para os realizadores. O filme também ganhou seis prêmios e foi nomeado para um sétimo. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Diretor para Frank Capra no Globo de Ouro de 1947 – isso comprova como, às vezes, o Globo de Ouro acerta mais que o Oscar.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,6 para It’s a Wonderful Life. Uma bela avaliação se levarmos em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 64 críticas positivas e quatro negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,9. Especialmente a nota dos críticos é muito relevante – talvez uma das maiores que eu já vi no Rotten Tomatoes.

Este filme faz parte daquela série de críticas aqui do blog para filmes antigos. Como vocês sabem, estas críticas fazem parte da seção “Um Olhar para Trás”. Escolhi este filme entre os sugeridos pelo livro “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”. Em sua crítica no livro, Karen Krizanowich comenta: “Depois de celebrar o homem comum em clássicos da década de 1930 como Aconteceu Naquela Noite, A Mulher Faz o Homem e Do Mundo Nada Se Leva, o primeiro filme de Frank Capra realizado no pós-guerra enaltece, sem o menor pudor, a bondade das pessoas comuns e o valor dos sonhos humildes, mesmo que eles não se tornem realidades”.

Este filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso essa crítica também atende a uma votação feita aqui há algum tempo e que pedia produções daquele país.

CONCLUSÃO: Há filmes que nos surpreendem por causa de suas reviravoltas. Outros, pela originalidade da história ou da forma com que ela é contada. E outros, como este It’s a Wonderful Life, nos surpreende pela potência das mensagens da história. Que grande filme, meus amigos e amigas! Ele merece ser visto com carinho, na versão original, para que aproveitemos cada detalhe da interpretação dos atores e do texto original. Destas produções que conseguem, e de forma muito singela, explicar algumas das razões da vida. Apenas grandes realizadores se arriscariam a fazer isso e, além de se arriscar, alcançariam êxito em tal tarefa. Uma grande homenagem à “vida ordinária” mas cheia de valor. Bem ao estilo de Frank Capra. Como eu disse antes, imperdível.

Desde Allá – From Afar – De Longe Te Observo

30 de julho de 2016 1 comentário

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Há histórias que são bem complicadas. Olhe você pelo ângulo que você quiser. Desde Allá é uma destas histórias. Um filme interessante ao apostar em dois personagens centrais que não gostam muito de falar – e, consequentemente, sabemos pouco sobre as suas próprias motivações. Quando eles falam, raramente tratam do que realmente interessa. Isso torna a história um bocado aberta e, por isso, suscetível a surpresas. E elas existem. Filme duro e que faz pensar.

A HISTÓRIA: Do alto de um viaduto, Armando (Alfredo Castro) observa o movimento de um ponto de ônibus. Ele desce e se aproxima de várias pessoas, especialmente de um jovem rapaz. O ônibus chega, e Armando pega ele seguindo o rapaz. No ônibus Armando mostra um maço de dinheiros para o jovem. Os dois vão para o apartamento de Armando, que pede para o rapaz ficar de costas e tirar a camisa e abaixar a calça até uma certa altura.

Armando se masturba e vai para dentro da casa enquanto o rapaz pega o dinheiro e vai embora. No trabalho, Armando lapida mais uma prótese e depois ganha bem de um cliente. Em breve ele procurará mais um jovem que poderá visitá-lo em casa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Desde Allá): Gosto de filmes que não são óbvios. Tanto na narrativa quanto na história. Desde Allá é um destes filmes surpreendentes porque, aparentemente, ele é muito singelo. Começa simples, mas vai ficando complicado pouco a pouco. No início, temos um cara de meia idade que paga jovens para que eles sirvam de objeto para o seu desejo.

Inicialmente esta é a leitura fácil do personagem principal desta história. Mas ele vai se mostrando mais complexo com o tempo. Assim como a própria narrativa vai ficando mais complexa. O roteiro do diretor Lorenzo Vigas baseado na história de Vigas e de Guillermo Arriaga é uma verdadeira aula de cinema. Ele vai se revelando pouco a pouco, camada a camada, e não responde a tudo que o espectador gostaria de ter respondido. Alguns podem ficar chateados com isso, mas eu acho sempre uma escolha corajosa dos realizadores fazerem isso. Afinal, quando você não responde tudo, deixa parte da obra aberta e suscetível a interpretações. Isso é sempre positivo.

No início, parece algo evidente que Armando é gay ou, ao menos, tem uma grande inclinação gay – em momento algum fica claro se ele apenas pagava para os jovens servirem de objeto de desejo ou se ele já tinha tido uma relação física homossexual. Mas não demora muito para o filme introduzir outra questão que parece secundária mas que, com o tempo, não vai se mostrar de segundo plano: o ódio que o protagonista tem do próprio pai.

Este acaba sendo um ponto importante da história. (SPOILER – não leia se você não viu ao filme). Logo depois de Armando levar o primeiro jovem para o apartamento, ele faz uma visita à sua irmã e cobra dela uma reação mais enérgica sobre a volta do pai deles. O que não sabemos, e vamos ficar sem saber, é exatamente o que o pai dos dois aprontou. Essa questão fica no ar, o que ajuda a pensarmos sobre o quanto ele teria de responsabilidade por Armando gostar de rapazes. Ele teria sido abusado pelo pai na infância e/ou adolescência, assim como a irmã dele? Mais tarde, quando Armando diz que a mãe já morreu, chegamos a pensar se ela teria sido morta pelo pai dele.

Estas questões não são respondidas. O que apenas deixa muitas perguntas sobre Armando no ar. Depois do primeiro jovem que vemos Armando levando para o apartamento, ele sai para “caçar” o seu mais novo objeto de desejo. E é assim que Elder (Luis Silva) entra na história. De forma muito inteligente Vigas constrói um filme que se divide entre os dois personagens, acompanhando a rotina deles juntos e separados. Desta forma vamos conhecendo mais sobre os dois. A diferença é que a vida de Elder acaba sendo bem mais aberta que a de Armando. E isso, vamos saber no final, fará toda a diferença.

Em diversos momentos deste filme você, como eu, pode pensar: “Que coragem!”. Primeiro, sempre achei muito corajosos os gays – e os heterossexuais, geralmente homens – que acolhem qualquer desconhecido(a) em casa para sanarem o seus desejos e apetites sexuais. Já ouvi algumas histórias de assassinato de gays que foram alvo de jovens, geralmente, que não aceitaram alguma parte da relação amorosa. Por isso mesmo achei muito corajoso Armando e sua caça permanente de jovens. Nem todos são gays e muitos aceitam aquela situação apenas porque precisam (ou querem simplesmente) dinheiro.

No início Elder acha um absurdo aquela situação com Armando. Mas o nosso protagonista não pensa em retroceder. Você imaginaria que o mais fácil seria ele ir atrás de um outro garoto, mas ele acaba procurando novamente Elder. Por muito tempo a relação do jovem com Armando é de resistência. Mas quando ele leva uma boa surra e não tem ninguém para ajudá-lo, Armando acaba fazendo este papel.

E daí surgem algumas das muitas perguntas deste filme. Afinal, o que Armando quer com Elder? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Caso ele tenha sido abusado pelo pai e percebe que tem a carência afetiva que ele tem por causa disso, ele resolve fazer diferente e dar uma oportunidade para o jovem que, claramente, tem poucos recursos? Ou ele encara Elder como um objeto de desejo que precisa ser conquistado e que precisa ter a resistência vencida? Em certo momento do filme, quando os dois estão em uma festa e Elder parte para cima de Armando, ele resiste. Naquele momento eu pensei que a primeira teoria estava certa. Que ele não queria, no final das contas, uma relação amorosa com o rapaz, mas apenas ajudá-lo.

Mas nada é simples em Desde Allá. Como eu disse antes, o roteiro de Vigas é muito inteligente ao avançar aos poucos na história dos dois protagonistas. Aparentemente a história de Elder é mais simples e franca do que a de Armando. Depois que cuida do jovem machucado, Armando começa a ganhar a confiança dele. Aos poucos o garoto vai abrindo a sua vida, mostrando o local em que ele trabalha, levando Armando para a festa da família e, depois que o novo “amigo” dele lhe ajuda a comprar um carro, os dois vão até a praia e Elder conta a verdade sobre o pai. Antes ele tinha dito que ele estava morto, mas naquele momento Elder revela que ele está preso.

Neste momento percebemos que Elder e Armando tem ao menos um ponto em comum: ambos tiveram pais abusivos e/ou criminosos. A diferença é que Elder ainda é jovem e frágil. Ainda que ele pratique pequenos crimes aqui e ali, ele está suscetível a ser manipulado. Armando já vive outra condição. Primeiro que ele tem dinheiro de sobra e, depois, ele sabe manipular – ele não parece, mas é um caçador nato e experiente.

Elder, como tantos jovens venezuelanos e também do nosso país, vem de uma família desestruturada e sem bons exemplos. Vive em um local complicado, sem recursos, apanhava muito quando era criança e teve um amigo morto pelo pai que, depois, foi preso. “Largado na vida”, por assim dizer, ele faz o que é preciso para conseguir o que quer. Daí os pequenos crimes – furtos e roubos – e a condição de alvo fácil de Armando. Ele quer conquistar as coisas, como comprar um carro restaurado após um acidente, mas não sabe exatamente o caminho certo para fazer isso.

Armando vê naquele garoto exatamente o que ele precisa. Só que como ele é um sujeito que observa muito e fala pouco, não sabemos muito bem, pelo menos até o final, o que realmente ele quer de Elder. Infelizmente o rapaz acaba sendo manipulado por Armando na medida certa. Experiente, Armando sabe exatamente como cuidar de Elder – algo que ninguém fez por ele até então – e atraí-lo da forma correta. Tanto que quando o rapaz já está fascinado por Armando, ele sabe muito bem não “entregar o ouro” até que ele tenha conseguido exatamente o que ele quer.

Por isso mesmo, no início de Desde Allá, fiquei com raiva de Armando porque sempre acho um absurdo um adulto se aproveitar de alguém mais frágil – neste caso adolescentes, mas em outros casos são crianças – para satisfazer os seus desejos. Ainda que os jovens atraídos pelo dinheiro de Armando não fossem tocados ou não estivessem de frente vendo a masturbação dele, sem dúvida alguma eles estavam sofrendo ali um abuso psicológico de caráter sexual.

Por que ele não procurava um gay como ele para desenvolver uma relação ao invés de abusar de jovens em vulnerabilidade social? Por isso, no início, fiquei com raiva dele. Depois, ao achar que ele realmente tivesse boas intenções com Elder, dei a ele o privilégio da dúvida. Mas aí veio o final… que grande, grande FDP! Impossível não terminar este filme odiando ele. Haja coragem para ser tão “hijo de puta”.

E muitos podem se perguntar: ok, mas como um rapaz que tinha “ódio”, aparentemente, de gays, acaba desenvolvendo desejo sexual e se apaixonando por um homem com bem mais idade que ele? Ora, para mim esta questão tem duas explicações. Primeiro que Armando soube manipular muito bem Elder ao ponto de despertar nele interesse e atração. O jovem, sem uma figura paterna em casa – e a figura que ele teve era violenta – acaba encontrando “proteção”, carinho e segurança na figura de Armando. Sem contar, claro, que o dinheiro dele atraia o jovem interessado em obter o que ele queria.

A segunda explicação é que eu acho que todos nós podemos nos interessar pelas pessoas independente do gênero que elas tenham. Podemos achar sexy ou bonitas pessoas do mesmo sexo, mesmo que não sejamos bissexuais ou homossexuais, mas daí a ter desejo e de realizá-lo são outros quinhentos. Quando se é jovem, me parece, as pessoas estão mais sujeitas a experimentar. Agora, quanto mais idade uma pessoa tem, mais ela vai tendo claro o que ela gosta e o que pode lhe atrair. Acho que tudo isso ajuda a explicar a mudança de comportamento de Elder.

Desde Allá é um filme muito bem construído e bem planejado. A história vai crescendo aos poucos ao mesmo tempo em que vai entregando pequenas colheradas de informação sobre os personagens principais. A relação entre os dois também vai se tornando mais complexa, e o entorno social acaba jogando um papel fundamental. Por tudo isso o filme faz pensar. Nos faz refletir sobre como pessoas em condições sociais frágeis podem ser manipuladas e exploradas por pessoas com um poder aquisitivo e cultural maior. Também nos faz refletir sobre os desejos e as carências, e sobre como devemos controlá-los para não sermos controlados por eles. Grande filme.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei impressionada pelo trabalho dos dois atores principais. Incríveis, ambos. Também excepcional o roteiro de Lorenzo Vigas. Muito bem construído e com diálogos precisos. Alfredo Castro está incrível em um trabalho cirúrgico como o silencioso e observador Armando. Por outro lado, Luis Silva dá um show como um jovem aparentemente capaz de tudo mas que é, também, muito sensível. Elder tinha um grande potencial, pena que ele próprio não tenha enxergado isso.

Em muitos e muitos momentos o trabalho dos atores é resolvido olho no olho, em silêncio. Uma escolha acertadíssima de Lorenzo Viegas e equipe. Desta forma que o espectador percebe a intensidade das interpretações que, por consequência, passam muita legitimidade.

Este filme é centrado em Armando e Elder. Mas há alguns atores coadjuvantes da história interessantes. Pena que poucos são chamados pelo nome na produção, o que dificulta saber exatamente quem é quem. Consegui mais ou menos identificar Jericó Montilla como Amelia, mãe de Elder; Catherina Cardozo como Maria, irmã de Armando; e Jorge Luis Bosque como Fernando, cunhado de Armando. Merecem destaque também os rapazes que fazem parte do grupo de amigos de Elder, mas infelizmente não consegui identificar o nome deles na história.

Da parte técnica do filme, mérito principal para o diretor e roteirista Lorenzo Vigas. Ele não apenas constrói a história muito bem como sabe conduzi-la privilegiando sempre a interpretação dos atores sem esquecer de outro elemento importante no filme: o entorno no qual eles vivem. Em muitos momentos Vigas recorre a planos de câmera que não são muito usuais, mas que são muito acertados e inteligentes ao valorizar alguns aspectos da narrativa. Belo trabalho.

Outros aspectos importante e que são muito bem realizados nesta produção são a direção de fotografia de Sergio Armstrong; a ótima edição de Isabela Monteiro de Castro; e os recursos que ajudam a dar o clima certo e a contar a história dos personagens centrais como a direção de arte de Matías Tikas, a decoração de set de Carolina Carlini Bellazzini e os figurinos de Marisela Marin. Tudo muito moderno, contemporâneo, mas escolhido à dedo para casar com cada um dos personagens centrais. Muito bom também o trabalho do departamento de som com 11 profissionais envolvidos. Aliás, vale comentar que Isabela Monteiro de Castro é brasileira e tem no currículo filmes como Madame Satã, Cidade Baixa, O Céu de Suelly e Praia do Futuro.

Algo importante que este filme e a vida real também mostra: os manipuladores são muito bons no que eles fazem. Alguém que manipula outra pessoa nunca parece estar realmente fazendo isso. Por isso, meus caros, fica a dica: muita atenção para quem vocês colocam para dentro da vida de vocês.

Desde Allá estreou no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2015. Depois o filme passaria ainda por outros 28 festivais, sendo o mais recente deles o Festival Internacional de Cinema de Melbourne que começa no próximo dia 5 de agosto.

Como o filme mesmo sugere, ele se passa e foi todo rodado na cidade de Caracas, na Venezuela.

Desde Allá é o primeiro longa do diretor Lorenzo Vigas. Este venezuelano de Mérida que tem 49 anos de idade fez a faculdade de Biologia Molecular na Universidade de Tampa, na Flórida, e em 1995 resolveu dar uma guinada na vida e estudar cinema na Universidade de Nova York. Em 1998 ele voltou para a Venezuela para filmar a série de documentários para a TV Expedition. A primeira produção dele para o cinema foi o curta Los Elefantes Nunca Olvidan, de 2004, que ganhou diversos prêmios. Certamente é um nome que merece ser acompanhado.

O ator Alfredo Castro tem 60 anos de idade e nasceu em Recoleta, da região metropolitana de Santiago do Chile. Ele tem 51 trabalhos no currículo como ator e nove prêmios. Sobre Luis Silva eu não encontrei mais informações, mas gostei muito do trabalho dele. Acho que ele merece ser acompanhado.

Desde Allá ganhou sete prêmios e foi indicado a outros nove. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Leão de Ouro como Melhor Filme no Festival de Cinema de Veneza. Além deste prêmio, ele ganhou os de Melhor Ator para Alfredo Castro e de Melhor Roteiro para Lorenzo Vigas no Festival de Cinema de Thessaloniki; o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cinema de Miami; o prêmio de Primeiro Trabalho no Grand Coral do Festival de Cinema de Havana; e a Menção Honrosa do Horizons Award para Luis Silva no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção e os críticos que tem os seus textos linkados pelo Rotten Tomatoes dedicaram 29 críticas positivas e sete negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 81% e uma nota média de 7,1. Achei as avaliações boas, mas eu considerei o filme melhor do que a maioria do público e da crítica.

Desde Allá é uma coprodução da Venezuela e do México. Belo filme que só demonstra a forma do cinema latino.

CONCLUSÃO: A vida está repleta de fragilidades, desejos, fraquezas e coragem. Há pessoas que fazem escolhas e tomam certas atitudes que nos chocam. Desde Allá nos conta histórias que misturam tudo isso. Um filme forte, com ótimos atores interpretando os personagens principais e uma história que nos faz pensar sobre a fragilidade humana. Quantas pessoas vivem uma vida de carências que as faz serem alvos fáceis de gente inescrupulosa? E o pior de tudo é que estas pessoas “do mal” dificilmente são identificáveis. Elas sabem fingir bem. Desde Allá é um soco no estômago sobre famílias desestruturadas, abuso das mais diversas formas e um bocado da realidade que é possível encontrar por aí, se você quiser ver e não tapar os olhos. Potente e indicado para quem não temem ficar mal após o final.

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