The Shallows – Águas Rasas

28 de agosto de 2016 1 comentário

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Alguns filmes tem um propósito e uma história muito bem definidos. Eles sabem o que querem mostrar, focar e a sensação que querem passar e não complicam a história. Este é o caso de The Shallows. O roteiro do filme é bem simples, se formos analisar, mas ele acerta ao manter o foco bem definido e, especialmente, em alguns pequenos detalhes e sacadas que acabam fazendo toda a diferença. Mudando um pouco a “chave” dos últimos filmes que eu assisti e comentei por aqui, desta vez optei por uma produção que mergulha com gosto no suspense. Sem dúvida ao simplificar e ter muito claro o que queria passar, The Shallows mais acerta do que erra.

A HISTÓRIA: Em uma praia, no amanhecer, um garoto brinca com uma bola. Perto dele, aparece um capacete com uma câmera. O garoto deixa a bola e vai conferir o material que está dando sopa na praia. Ele começa a ver os vídeos, e assisti à cenas de dois amigos surfando. Até que um deles começa a pedir socorro. O garoto corre. Corta. Uma caminhonete vai percorrendo uma estrada enquanto Nancy (Blake Lively) olha no celular belas imagens. O motorista, Carlos (Óscar Jaenada), pergunta se a garota já esteve naquela praia.

Ela diz que não, que apenas a mãe dela esteve, quando estava grávida de Nancy. O motorista comenta que ela deve deixar de olhar as fotos e apreciar a Natureza que está ao redor deles. Os dois estão seguindo para uma praia remota e bastante desconhecida. Nancy comenta com Carlos que a amiga dela não vai aparecer porque está de ressaca no hotel. Ela está sozinha na aventura que será bem diferente do que ela poderia imaginar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Shallows): Algumas histórias já foram contadas. Ataques de tubarões na praia são conhecidos do público do cinema desde que Steven Spielberg resolveu tornar este animal marítimo como o terror dos sete mares com Jaws, de 1975. Então ter um tubarão infernizando alguém não é exatamente novo e, nem por isso, este The Shallows é previsibilidade pura.

O diretor Jaume Collet-Serra demonstra talento e uma boa percepção para os detalhes que, estes sim, acabam fazendo toda a diferença nesta produção. Para começar, o roteiro de Anthony Jaswinski acerta ao apostar em poucos personagens e colocar quase toda a história “nas costas” da protagonista Nancy. A primeira isca do roteirista para despertar a atenção e o interesse do público é recorrer àquele lugar-comum bastante utilizado no cinema das últimas décadas que é começar com um acontecimento e, na sequência, voltar no tempo para retomar a história que explica aquela sequência inicial.

Logo nos primeiros minutos do filme sabemos que algo de muito ruim aconteceu com dois surfistas. Quando Nancy cai na água e encontra estes surfistas, fica claro que um deles será atacado – ou os dois, isso não fica tão claro no início. Bem, sabemos que isso irá acontecer, mas aquelas cenas iniciais não adiantam nada sobre o destino de Nancy. Logo na sequência inicial do menino na praia percebemos que o diretor tem bom gosto para cenas de beleza pura. Mas mais elementos interessantes virão na sequência.

Após aquela pequena introdução, mergulhamos direto na história de Nancy e o seu encontro afetivo com a praia inesquecível da mãe dela. E aí surge a primeira boa sacada de Jaume Collet-Serra. Em tempos em que todos estão super conectados durante todo o dia e muitas vezes “assistem” o que acontecem no mundo e no seu próprio redor através da tela de um celular, o diretor utiliza o recurso de várias telas sobrepostas à imagem principal do que está acontecendo para revelar o que Nancy está vendo e fazendo com o smartphone.

Na primeira sequência, quando ela está chegando à praia com a ajuda de Carlos, que mora perto daquele paraíso natural, vemos imagens dinâmicas de fotos e troca de mensagens em uma parte da tela. Uma sacada bem bacana, aparentemente simples, mas que funciona muito bem. Boa sacada do diretor. A partir do momento em que Nancy se encontra com a praia onde a mãe dela esteve quando estava grávida da garota, vemos apenas exuberância.

Jaume Collet-Serra sabe valorizar muito bem a bela atriz Blake Lively e todo o carisma que a jovem atriz tem. Mas a paisagem também não fica para trás. O local é maravilhoso e isso fica bastante evidente neste filme. Os espectadores mais atentos vão perceber logo que não são apenas os jovens surfistas nativos que acabam sendo vítimas do tubarão, mas também a própria Nancy – e isso bem antes dela ser de fato atacada. O detalhe está no plano que mostra a prancha dela por baixo – na sequência inicial vemos aquela prancha na praia, então é sinal de que a garota foi alvo de um ataque.

Mas antes do drama começar a tomar conta da telona, temos a parte divertida da produção. Ela não se restringe apenas ao diálogo divertido entre Nancy e Carlos, mas também na conversa dela com os dois surfistas. De forma inteligente, o roteiro de Anthony Jaswinski não cai direto na ação, mas após uma sequência bem feita com cenas de surfe, a protagonista sai da água e temos um pouco mais de contextualização sobre a história dela. Não apenas para entender as nuances da relação dela com a família, que agora se resume ao pai dela e à irmã mais nova; a saudade que ela tem da mãe, que morreu de câncer; mas também e especialmente importante para a história, sabemos que ela começou a faculdade de Medicina.

Esse último ponto será fundamental para o que virá depois. Nancy sai da água, conversa com a irmã e, um pouco a contragosto, com o pai, caminha um pouco, reflete e sente bastante “a presença/ausência” da mãe, e depois volta para a água. Ela quer dar apenas mais uma “curtida” antes que escureça. Afinal, é preciso aproveitar ao máximo. Algo bastante normal e realista – aliás, o filme parece ter, o tempo todo, esta preocupação de ser bastante realista.

O diretor sabe bem valorizar a atriz e o local, dois elementos-chave nesta produção. E quase tudo tem uma lógica, o que ajuda a não irritar o público um pouco mais exigente. Depois que volta para o mar, ficamos na expectativa pelo ataque – até pela dinâmica que o diretor dá para as sequências abaixo da água. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando o ataque parece inevitável, Nancy é surpreendida por golfinhos. Ela fica maravilhada com a cena e resolve “remar” atrás deles. Neste momento ela se encontra com uma baleia morta e em decomposição que foi atacada. Sem saber, ela está invadindo o espaço de “alimentação” do tubarão.

É como alguém que se aproximasse do potinho de ração de um cachorro com fome. Se fosse um cachorro, escutaria latido, rosnado e talvez fosse atacado. Na versão de The Shallows o tubarão não rosna nem late, mas persegue a presa com obstinação. O mesmo acontece no clássico de Spielberg, ainda que sabemos que nenhum tubarão tem realmente esta postura e reação. Os tubarões podem atacar pessoas que “invadem” os seus territórios, é verdade, mas jamais terão a “sina vingadora” e vão perseguir uma pessoa como podemos ver neste filme.

Enfim, descontado este detalhe, que é sempre inevitável em um filme com esta proposta, podemos seguir em frente. Quando chega perto da baleia, Nancy vira alvo do tubarão malvadão. Jaume Collet-Serra é esperto ao mostrar o primeiro ataque, com o tubarão se aproximando na onda e acertando a prancha da surfista, e não revelar em detalhes o segundo golpe, quando o tubarão morde a perna de Nancy e a puxa para baixo. Muitas vezes, e Hitchcock foi um dos mestres em nos ensinar isso, vale muito mais sugerir algo do que nos mostrar a cena.

Seria muito complicado mostrar em detalhes o ataque e justificar, por exemplo, porque a perna de Nancy não foi simplesmente arrancada. O diretor de The Shallows correria um grande risco em fazer uma sequência tosca. Então ele acerta em apenas mostrar a reação e a angústia da protagonista e não o detalhe do ataque propriamente. Aliás, ele faz isso em diversos momentos, e sempre é uma boa escolha. Afinal, este é um filme de suspense, e o requisito clássico do gênero é não mostrar tudo, mas alimentar a expectativa e sugerir muita coisa.

Como eu disse antes, acaba sendo fundamental aquela informação de que Nancy estava estudando Medicina e deixou a faculdade momentaneamente. Depois de ser atacada pelo tubarão, ela acaba utilizando os seus conhecimentos para salvar a própria vida. É dura a cena em que ela utiliza os brincos e o pingente para “costurar” a própria perna, mas certamente ela precisava fazer aquilo para não se esvair em sangue na pedra em que ela acaba se protegendo durante a maré baixa. O conhecimento dela também em manter a perna irrigada no momento certo e com torniquete na maior parte do tempo acaba sendo vital.

Claro que nem tudo funciona com perfeição neste filme. E nem daria para esperarmos isso de uma produção despretensiosa e que, claro, não tem a pretensão de ser um documentário sobre ataques de tubarões contra surfistas, né? A primeira questão que não tem lógica é que apenas o uso dos brincos e do pingente na perna teria a capacidade de estancar o sangue de Nancy. Se ela ao menos tivesse usado a corrente para costurar a perna, seria mais fácil de acreditar que aquela ação dela teria ajudado a estancar o sangue.

Depois, é meio difícil de acreditar que aquele imenso tubarão teria conseguido atacar o mexicano bêbado que entra na água para pegar a prancha que está boiando – afinal, ele ainda estava no raso quando sofre o ataque. Finalmente, difícil de acreditar que a dupla de surfistas que volta para a praia e escuta Nancy alertando eles contra tubarões não tenha, nem por um segundo, duvidado da certeza que eles tinham até aquele momento de que naquela praia não tinham tubarões. Afinal, por que cargas d’água a garota estaria lá no meio do mar sobre uma pedra, sem a prancha e gritando desesperadamente se ela não estivesse falando a verdade?

Teria sido um pouco mais realista, neste ponto, se os surfistas ao menos tivessem tentado sair da água e daí tivessem sido pegos pelo tubarão. Mas beleza. Para não dizer que o roteiro de Anthony Jaswinski tem mais falhas que acertos, uma boa sacada dele foi colocar uma gaivota na pedra em que Nancy se refugia por boa parte do filme. A simpática ave acaba sendo para Nancy o que a bola Wilson é para Tom Hanks em Cast Away, um belo filme do ano 2000 estrelado pelo ator e dirigido por Robert Zemeckis.

Desta forma, ainda que The Shallows acabe tendo poucos diálogos por causa da situação que vive a protagonista, não ficamos em um silêncio completo por causa da interação de Nancy com a gaivota e por causa das outras interações – seja com o mexicano bêbado, com os surfistas que voltam para o mar ou seja na acertada sequência em que ela grava alguns vídeos para quem puder encontrar a câmera no capacete e para os seus familiares. Afinal, ela vai seguir tentando, mas as perspectivas para Nancy não são nada boas – e ela sabe disso.

Quando ela vai buscar o capacete com a câmera temos outro detalhe importante – aliás, esse filme é repleto deles, por isso é importante o espectador não se distrair ou “dormir no ponto”. Nancy percebe a reação ruim do tubarão quando ele vai atacar ela e acaba “comendo” parte de um recife. Como o refúgio dela ficará impossível após algum tempo, quando a maré começar a ficar alta, ela tem que procurar alternativas. A boia que está um pouco distante será a sua alternativa, e ela só consegue chegar lá porque simula uma certa tourada com o tubarão em meio a águas vivas. A sequência é fantástica, aliás, como várias outras realizadas por Jaume Collet-Serra.

Na reta final, não resta muito tempo para Nancy. Seja porque o tubarão “super do mal” está cada vez mais com raiva dela – isso é o que o roteiro aparenta quando ele não para de ataca-la na boia -, seja porque aquela perna dela sem tratamento não permitirá que ela viva por muito mais tempo. Quando ela alcança a boia, parece que as chances dela aumentam.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Tem uma sequência que vocês podem ter estranhado: quando ela utiliza a última bala do sinalizador para atacar o tubarão e uma corrente de fogo surge na água. Eu tenho uma explicação para isso: a baleia em decomposição, certamente, estava liberando na água o famoso “óleo de baleia”, aquele mesmo que os antigos utilizavam para acender lampiões. Ou seja, o óleo de baleia é bastante inflamável. A minha dúvida sincera é se isso acontece também quando ele se mistura com a água… bem, novamente vamos dar esse desconto para o roteiro de The Shallows. Agora, apesar do “sangue nos olhos” do tubarão, que fica cada vez mais obcecado por atacar Nancy, algo precisamos admitir: a sequência final do embate entre a protagonista e o vilão do filme é ótima.

Vale incluir no pacote deste “grand finale” todo o trecho do “fogo no mar”, a fúria insandecida do tubarão contra a boia em que estava Nancy e a tirada esperta da protagonista em encontrar uma alternativa para golpear definitivamente o seu algoz persistente. A parte que teve a ver com o salvamento dela é que achei um tanto forçada. Não custava o diretor incluir alguns segundos ou até um minuto mostrando como ela saiu do fundo do mar e chegou perto da orla – provavelmente ela teve que dar umas boas braçadas antes de ter as forças exauridas. E, claro, a reação do Carlos eu achei um bocado estranha… ele tirou ela da água e simplesmente ficou parado depois? Nem se deu ao trabalho de fazer alguma massagem para que ela expelisse a água dos pulmões? Achei estranho aquilo.

No mais, achei que o filme foi muito bem feito. Com uma história simples, mas narrada de forma bastante eficiente, com diversos aspectos técnicos (que vou comentar abaixo) jogando um papel-chave e com um trabalho do diretor sem retoques para fazer. Apenas o roteiro teve alguns detalhes um pouco estranhos, já comentados, mas nada que desmereça o filme. Pelo contrário, aliás.

Antigamente – e nem tão antigamente assim – belas atrizes eram colocadas no mar apenas para virar “comida de tubarão”, literalmente. Não sabíamos praticamente nada sobre elas. Era quase pré-requisito elas serem “meio burras” ou “meio tontas” para, digamos assim, morrerem mais facilmente nos filmes. Sendo assim, elas precisavam ser apenas lindas, não precisavam ser boas intérpretes. Para nosso alívio, em The Shallows, a atriz Blake Lively faz um grande trabalho – ela é uma das principais qualidades do filme. Ela é uma intérprete com qualidade, além de ser linda. Então ela leva as atrizes deste perfil de filmes para um outro nível.

Além disso, o roteiro de Anthony Jaswinski acerta em não apenas alimentar a nossa expectativa e adrenalina, mas também em contextualizar a história da personagem e em nos ensinar bastante sobre “como sobreviver a um ataque de tubarão tendo as condições quase perfeitas ao nosso redor”. Como eu disse, este filme não é um documentário. Então, para um filme de ficção sobre o tema, ele tem muito mais acertos do que erros. Sem dúvida alguma é um ótimo entretenimento e, de quebra, a meu ver, rejuvenesce um estilo de filme que já parecia meio desgastado. Não é pouco.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Diversos aspectos técnicos contribuem para que The Shallows funcione bem. Para começar, a direção cuidadosa e atenta aos detalhes do espanhol Jaume Collet-Serra. O diretor sabe acelerar nos momentos certos, criar suspense utilizando a câmera em planos sugestivos e, principalmente, ficar muito próximo dos atores, especialmente da protagonista, para valorizar a ótima interpretação deles (e dela, em especial). Um dos recursos bastante utilizado por ele é o slow motion, bem empregado em diversas cenas – especialmente de surfe e em outras em que ele quer valorizar o trabalho de Blake Lively ou alguma sequência de ação. Ainda que alguns recursos sejam bem repetidos, não vi exagero no emprego das técnicas de filmagem. Achei um belo trabalho do diretor.

Um outro aspecto fundamental deste filme é a trilha sonora. Elemento-chave de diversos filmes de suspense e ação, ela dita o ritmo em muitos momentos de The Shallows. Um excelente trabalho do compositor Marco Beltrami. Outro elemento fundamental é a direção de fotografia, um trabalho impecável de Flavio Martínez Labiano. Ele faz um trabalho impecável de valorizar as paisagens e os detalhes da história mesmo quando ela mergulha na noite. O terceiro elemento crucial para o filme funcionar é a edição de Joel Negron. Ele faz um excelente trabalho em um filme com bastante complexidade na montagem e ajuda o diretor e o restante da equipe a dar um bom ritmo para a história.

Agora, queria fazer algumas ponderações sobre três tópicos da história que eu não citei antes. (SPOILER – não leia se você não viu ao filme). Primeiro, a questão de ninguém falar o nome da praia. Para mim, esta escolha tem duas razões de ser: ao não revelar o nome da praia este “segredo” torna a aura sobre o local ainda mais misterioso e, depois, quando você não cita um nome fica mais fácil de “esconder” um determinado lugar, não é mesmo? Uma escolha totalmente proposital. Depois, queria citar dois aspectos do finalzinho da produção. Achei um barato a gaivota ser mostrada no final. É como se ficássemos com a mensagem “no final, todos foram salvos”. Bonitinho.😉 E pode haver uma explicação para Carlos ter ficado apenas olhando para Nancy no final. Como ele não fez nenhuma massagem na garota para expelir a água dos pulmões e, na sequência, aparece a mãe de Nancy em cena, isso pode deixar a entender que a garota teve uma “ajuda” fundamental da mãe para se salvar. Eu acredito que isso seja possível, então achei um toque interessante da história no final.

Fiquei muito surpresa com o trabalho de Blake Lively. Achei o trabalho da atriz realmente impecável, irretocável. Acho que vale acompanharmos este nome e ver o que mais ela fará daqui para a frente. Buscando saber um pouco mais sobre ela, descobri que este é o 18º trabalho dela como atriz e que ela já ostenta sete prêmios no currículo. A estreia dela como atriz foi em Sandman, em 1998. O trabalho seguinte demorou sete anos para sair, foi em 2005, The Sisterhood of the Traveling Pants. A partir daí ela não parou mais. Ela participou das séries de TV Saturday Night Live e Gossip Girl e dos filmes Green Lantern, Hick, Savages, The Age of Adaline e do recente filme de Woody Allen, Café Society. O próximo filme dela que vai estrear é All I See Is You, dirigido por Marc Foster. Ficaremos de olho!

The Shallows estreou em première em Nova York no dia 21 de junho. A partir desta data ele começou a se espalhar pelo mundo sem participar de nenhum festival de cinema até agora. Nem é muito o perfil do filme. Mesmo não tendo uma “carreira de festivais”, esta produção foi indicada na categoria Choice Summer Movie Star: Female no Teen Choice Awards. Sem dúvida nenhuma esta é uma produção bem ao estilo “filme de verão” e com cara de adolescentes. Ou seja, o filme está bem entre o seu público.😉

Antes citei a atriz Blake Lively como um dos pontos fundamentais para o êxito desta produção. Mas vale também citar alguns dos atores coadjuvantes que ajudam a protagonista a brilhar – até porque eles não tem, digamos assim, um graaaaande desempenho: Óscar Jaenada está bem nas duas ocasiões em que ele aparece como Carlos, morador local da praia agreste; Brett Cullen interpreta o pai de Nancy; Sedona Legge interpreta a Chloe, irmã mais nova da protagonista; Pablo Calva é o filho de Carlos, o garoto que está brincando na praia e que acaba ajudando a salvar Nancy; Diego Espejel é o homem bêbado que só faz besteira na praia; Janelle Bailey interpreta a mãe de Nancy; e quatro pessoas interpretam os surfistas que aparecem em cena (pois sim): Angelo Jose, Lozano Corzo, Jose Manual e Trujillo Salas.

The Shallows teria custado US$ 17 milhões – certamente boa parte desta grana foi gasta nos efeitos especiais envolvendo o tubarão, dinheiro muito bem empregado, aliás – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 54,5 milhões. No restante dos países em que o filme já estrou ele teria feito outros US$ 38,5 milhões. Ou seja, no total, pouco mais de US$ 93 milhões. Um verdadeiro sucesso. E merecido. É bom ver um filme feito para “as férias americanas” e que joga uma nova brisa sobre um gênero desgastado.

O filme, segundo o roteiro de Anthony Jaswinski, se passa em uma das praias da cidade de Tijuana, no México. Mas, na verdade, The Shallows foi totalmente rodado na Austrália. Pois sim! Muitas das cenas da produção foram feitas nos Village Roadshow Studios, em Queensland, enquanto parte das cenas externas foram rodadas em Mount Tamborine (as imagens do caminho pela “floresta”) e em Lord Howe Island, esta última em New South Wales.

Agora, uma curiosidade sobre o filme: a versão de The Shallows no México altera a localização da praia para o Brasil e os diálogos entre os personagens “locais” que, no original, são ditas em espanhol, na versão mexicana são ditas em português.

O apelido que Nancy dá para a gaivota, o de Steven Seagull (gaivota Steve) é uma brincadeira com o nome do ator Steven Seagal.

Um ponto fundamental desta produção é o trabalho também com o grande tubarão branco – que é uma fêmea, aliás, normalmente maior que os machos. Nove profissionais trabalharam nos efeitos especiais do filme e o número impressionante de 257 profissionais trabalharam nos efeitos visuais da produção. Certamente para estes aspectos foi grande parte do orçamento do filme. Os 14 profissionais envolvidos no departamento de som também merecem elogios, porque o trabalho deles, assim como dos demais, garante a qualidade técnica da produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção. Uma boa avaliação se formos levar em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 128 críticas positivas e 39 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 77% e uma nota média de 6,5.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ela entra na lista de países votados aqui no blog.😉

CONCLUSÃO: Você não precisa ter uma grande ideia para fazer um filme interessante. Basta ter um propósito muito claro e, mesmo que o assunto já tenha sido tratado, não ficar na zona cômoda e tentar apresentar algum diferencial. Pois é exatamente isso que The Shallows faz. Este não é o primeiro e provavelmente não será o último filme que trata sobre o “perigo dos mares” mais aterrorizante de todos, mas certamente ajuda a revigorar o gênero. Com uma atriz bonita e talentosa como protagonista, este filme tem uma dinâmica bem planejada e envolvente, equilibrando na medida certa suspense, drama e alguma pitada de humor. É uma boa pedida bem ao estilo “Sessão da Tarde”. Simples, mas eficaz como entretenimento.

A Hologram for the King – Negócio das Arábias

27 de agosto de 2016 Deixe um comentário

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Alguns atores e diretores simplesmente nos atraem. Admiramos o trabalho deles e, por isso, optamos no cinema por assistir aos seus filmes e não a outros. Pois bem, eu assisti ao filme A Hologram for the King por causa de Tom Hanks. Gosto do ator, acompanho o trabalho dele há muito tempo, mas esta produção apenas serviu para voltar a me lembrar que nem sempre um bom intérprete abraça um filme de qualidade. Honestamente eu não sei o que fez Tom Hanks protagonizar A Hologram for the King. Filme um bocado sem pé nem cabeça que, se nos esforçarmos, até podemos entender. Mas, nem por isso, ele se torna um grande filme.

A HISTÓRIA: Cenas de uma grande cidade. Em uma vizinha “dos sonhos”, Alan (Tom Hanks) aparece fazendo um rap sobre como um sujeito que tinha aparentemente tudo pode se ver, de repente, sem nada daquilo. Depois, Alan está em uma montanha russa. As cores vão desaparecendo, e ele acorda em um avião com árabes rezando. Na sequência, ele chega na Arábia Saudita, onde foi enviado para fazer um “acordo crucial” para a empresa em que ele trabalha. Enquanto ele está dormindo no hotel, vemos a pressão que o circunda na conversa que ele teve com o chefe antes de viajar para a Arábia Saudita. Ele acorda atrasado e tem que arranjar uma maneira de ir até a Metrópole do Rei de Economia e do Comércio. Alan mal sabe que ali está apenas começando uma longa jornada para ele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir comenta trechos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu à produção A Hologram for the King): Como costumo fazer sempre que vou assistir a um filme, seleciono ele sem ler nada a respeito da história antes. Como já comentei aqui em outras ocasiões, algumas vezes sou atraída por um diretor ou diretora que eu admiro e de quem eu gosto. Outras vezes, pelo ator, pela atriz ou pelo elenco. Em algumas ocasiões, mais raras, pelo nome do roteirista. Outras vezes, pela avaliação positiva nos sites de referência que sempre cito aqui.

Assisti a este filme pela junção de dois destes fatores: gosto muito do trabalho de Tom Hanks e também vi notas razoáveis sobre esta produção nos sites que sempre monitoro. Até gostei do início do filme. Afinal, quem imaginaria o “certinho” Tom Hanks cantando um rap sobre o desassossego e a desilusão? Depois, achei o começo um tanto “desastrado” do personagem que ele interpreta também interessante. Até que surgiu em cena o motorista Yousef (Alexander Black). Ali acendeu pela primeira vez a minha luz de alerta.

Por que cargas d’água os roteiristas sempre recorrem a um tipo paspalhão para provocar risos fáceis em filmes que ou querem ser muito engraçados ou querem contrastar sempre o drama com a comédia? Enfim, Yousef é um destes personagens esquisitos de A Hologram for the King e que não diz muito ao que veio além de provocar algumas risadas com as suas esquisitices e um jeitão de quem parece estar sempre sob o efeito da maconha.

Depois de acompanharmos o encontro do protagonista com o motorista particular trapalhão, mergulhamos em uma sequência de fatos que fazem qualquer um perceber que Alan está sendo enrolado. Ele e sua equipe não conseguem a estrutura básica elementar para fazer a apresentação que desejam e muito menos conseguem se encontrar com a pessoa que deveriam. E aí começa o processo do “cachorro que persegue o próprio rabo”.

O personagem de Alan parece um tanto desastrado e, ainda assim, consegue se virar bem em terras estrangeiras. A primeira sorte dele é encontrar Hanne (Sidse Babett Knudsen), uma estrangeira como ele que lhe fornece algo que ele precisava muito e que não conseguiria por vias normais na Arábia Saudita: uma boa bebida alcoólica. Depois de beber um bocado, ele resolve fazer uma grande besteira e tentar tirar uma massa que tinha nas próprias costas.

É assim que ele tira a segunda “sorte grande”: conhece a médica Zahra (Sarita Choudhury). Enquanto ele não consegue se encontrar com o rei e apresentar a solução tecnológica oferecida pela empresa que ele representa, a Relyand, ele vais e divertindo com estas duas belas mulheres. Mas mais que o presente, Alan é atormentado pelo passado. Por não ter dado certo no casamento e nem por ter sido muito presente na vida da filha, Kit (Tracey Fairaway). O filme vive, aliás, nesta mescla de expectativa e de arrependimento.

O roteiro de Tom Tykwer baseado no livro de Dave Eggers acerta ao mergulhar no personagem principal mas, para o meu gosto, erra em todo o restante. Por exemplo, Alan realmente não mergulha na cultura alheia. Vemos uma série de estereótipos e simplificações. Muita maquiagem e pouca realidade. Quer dizer, até vemos um pouco do que seria a cultura árabe, mas tudo parece bastante forjado ao estilo “feito para Hollywood”.

O que podemos ver com clareza, e isso é uma verdade, é o recurso abundante que o rei árabe tem à sua disposição para transformar deserto em um local cheio de infraestrutura, moderno e luxuoso. Não falta dinheiro e nem visão para os árabes, disso não temos dúvida. A outra reflexão interessante do filme é como ele questiona, ainda que levemente, a armadilha que é o mundo inteiro apostar pela China como “o motor” ou “a fábrica” do mundo.

No passado, o protagonista deste filme levou a empresa que ele fundou para a China, desempregando muitos americanos, porque era mais “competitivo” e mais lógico, apenas pela ótica do dinheiro, levar a operação para o país asiático onde o custo da mão de obra era muito mais barato. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando ele vai procurar um acordo fundamental para a empresa que ele está trabalhando na Arábia Saudita, por ironia, são os chineses que ganham o contrato. Certamente porque apresentaram preços e condições melhores.

O mundo acaba se dilapidando quando todas as oportunidades acabam sendo chinesas. Para o bem de todos, seria bem mais interessante termos um equilíbrio melhor de forças, com vários países dividindo melhor o bolo. Esta talvez seja a única reflexão realmente interessante deste filme. Pena que ela fique tão em segundo plano.

A reflexão óbvia e evidente de A Hologram for the King é que quando uma pessoa se lança para o desconhecido, para um país distante, ela pode se distanciar o suficiente dos problemas e se surpreender com diversas oportunidades de recomeço. Isso acaba acontecendo com Alan. Ele tem muito claro o que quer e o que não quer e acaba apostando as suas fichas na médica Zahra – esbanjando as investidas de Hanne. É meio difícil de acreditar que aquela figura fosse “disputado”, no bom sentido, por duas mulheres. Mas é isso que acontece. Afinal, temos o famoso Tom Hanks no papel principal.

Como gostamos de Hanks, até acreditamos nesta história. Mas convenhamos que se esquecemos que o protagonista desta história é um ator querido e famoso, dificilmente o Alan “real” teria tanta concorrência. De qualquer forma, algo é certo: ele aproveita bem as oportunidades que aparecem pela frente e é feliz improvisando. Então ele não consegue o objetivo que o levou para a Arábia Saudita, mas atinge um objetivo muito mais importante para ele.

Recomeços são mágicos, e este filme trata de um deles. Ainda que a narrativa seja um bocado arrastada, em alguns momentos, e cheia de piadas sem graça e de simplificações, mas ela consegue provocar alguma reflexão e oferecer algumas cenas realmente muito bonitas – neste sentido eu destaco, em especial, a sequência do nado entre Alan e Zahra. Toda a sequência na casa da médica, aliás, pode ser considerada o ponto forte do filme. Um belo trabalho do diretor Tom Tykwer. Sem dúvida nenhuma ele entende de cinema e de como valorizar os atores e os cenários em seus respectivos momentos. Pena que a história não lhe ajudou muito para que este fosse um grande filme.

NOTA: 6,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sempre que vejo um filme que se passa em uma “terra estrangeira” muito diferente do habitat do protagonista e que deixa ele visivelmente desconcertado, impossível não lembrar de Lost in Translation. Se você está procurando um filme que trate de culturas diferentes em contato, sobre perder-se e encontrar-se, sobre descobrir algo de nós mesmos e dos outros que não esperávamos, sem dúvida alguma deves assistir a este filme de 2003 assinado pela diretora Sofia Coppola. Posso garantir que ele é muito melhor no intento que este A Hologram for the King. Lost in Translation se passa em outro ambiente e tem outra “pegada”, mas é muito mais eficaz em seu intento e mais inteligente em seus propósitos. Fica a dica.

Queria me desculpar com vocês pela longa ausência. Mas como expliquei na página do blog no Facebook, eu sou uma viciada em Olimpíadas. Então vocês terão que me perdoar, mas enquanto eu viver, a cada quatro anos, quando os Jogos Olímpicos forem realizados em alguma parte do mundo, estarei com a atenção totalmente voltada para este grande momento do esporte e da Humanidade seja onde ele acontecer. Neste período eu sempre terei que “abandonar” um pouco o blog. Mas como vocês sabem, posso demorar um pouco, mas sempre volto.😉

A Hologram for the King é muito centrado no personagem principal interpretado por Tom Hanks. O ator está bem, ainda que eu o veja se “esforçando” demais em alguns momentos para nos convencer. Gosto de Hanks mas, serei franca com vocês, ele já esteve em filmes melhores e com desempenho bem melhor também. Ele está bem, mas certamente não será um filme inesquecível dele.

Mesmo o filme sendo bem centrado em Hanks, uma atriz ganha destaque na produção, especialmente na reta final: Sarita Choudhury. Ela é uma grande atriz, aliás! E está muito bem neste filme. Lembro dela se destacando em Homeland. É uma intérprete que sempre faz bem o seu trabalho. Vale acompanhá-la. Outros atores que tem destaque no filme já foram citados: Alexander Black como o chato chofer improvisado do protagonista – entendo se você tiver achado ele bom e engraçado, mas eu não compartilho desta visão e tanto você como eu estamos certos; e Sidse Babett Knudsen como Hanne.

Outros atores com papéis menores e que valem ser citados: Tom Skerritt em uma super ponta como o pai de Alan, Ron; Michael Baral também em uma super ponta como o jovem Alan; Eric Meyers como Eric Randall, chefe do protagonista; Atheer Adel como o príncipe Jalawi; Mohamed Attifi como O Rei; e Khalid Laith como Karim Al-Ahmad, o braço direito do rei e que é o primeiro alvo de Alan em sua jornada árabe.

Da parte técnica do filme, o principal destaque é a direção de fotografia de Frank Griebe. Afinal, se este filme tem alguma qualidade mais evidente, sem dúvida alguma são algumas cenas realmente muito bem feitas e com visual incrível. O diretor Tom Tykwer também tem, sem dúvida, um bom gosto para cenários e para a dinâmica da cena. Ajudam ele em sua missão ainda Uli Hanisch no design de produção; Abdellah Baadil, Daniel Chour, Kai Koch e Marco Trentini na direção de arte; Pierre-Yves Gayraud nos figurinos; Alexander Berner na edição; e Johnny Klimek e o próprio Tykwer na trilha sonora um tanto ausente, mas que ajuda a imprimir um tom dramático e um tanto “épico” para esta produção.

A Hologram for the King estreou no Festival de Cinema de Tribeca em abril deste ano. Depois, o filme passaria apenas pelo Festival Internacional de Cinema de Melbourne no início de agosto. Em sua trajetória, esta produção ganhou dois prêmios e foi indicada a um terceiro. Os prêmios que ele recebeu foram os de Melhor Edição para Alexander Berner e o de Melhor Som para Frank Kruse, Matthias Lempert e Roland Winke no German Film Awards.

Esta produção gastou cerca de US$ 30 milhões para ser feita. Só fico pensando quantos filmes alternativos e bacanas poderiam ter sido feitos com esta grana… mas ok. Nas bilheterias dos Estados Unidos o filme fez cerca de US$ 4,2 milhões. Ou seja, um grande fracasso de bilheteria até o momento. E me desculpem os fãs do filme, mas neste caso eu entendo as razões. Não consigo imaginar uma propaganda boca a boca muuuuuito positiva neste caso.

A Hologram for the King foi rodado em diversos países. Algumas cenas externas foram rodadas realmente na Arábia Saudita, enquanto outras foram feitas em Boston, nos Estados Unidos. As outras cenas, incluindo as de ambiente interno, foram rodadas no Marrocos, no Egito e na Alemanha, em cidades como Ouarzazate, Hurghada, Rabat, Casablanca, Düsseldorf e Berlim.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,1 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 88 críticas positivas e 37 negativas para este filme, o que lhe garante uma aprovação de 70% e uma nota média de 6,2.

Ah sim, e vale comentar: assisti este filme antes mesmo das Olimpíadas começarem a pegar fogo. Então é claro que lembro do que o filme transmitiu para mim, mas sem dúvida não é o mesmo que comentar ele logo após tê-lo assistido. Acho que é válido citar isso.

Este filme é uma coprodução de diversos países, a saber: Reino Unido, França, Alemanha, Estados Unidos e México.

CONCLUSÃO: Outros filmes já falaram sobre a solidão em um lugar com cultura diferente e desconhecido. Produções melhores que esta trataram da busca de um indivíduo por encontrar a si mesmo e também a motivação para recomeçar. Ainda que A Hologram for the King tenha algumas boas intenções, ele não passa na avaliação mais criteriosa. Filme um tanto lento, um tanto enrolado, ele parece mais um cachorro perseguindo o próprio rabo. Perdemos muito tempo com a “confusão” dos árabes e pouco tempo entendendo os personagens principais. Um filme um bocado vazio, ainda que tenha alguns bons atores e algumas cenas realmente interessantes. Mas se você tiver outra opção para assistir, sugiro que opte pela alternativa a esta produção.

It’s a Wonderful Life – A Felicidade Não Se Compra

31 de julho de 2016 Deixe um comentário

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Os melhores filmes da História do cinema parecem ser produções simples, sem grande pirotecnia, mas que mexem muito com quem assiste. It’s a Wonderful Life, um dos grandes clássicos do cinema americano, é um grande exemplo disso. Esqueça a versão dublada e as vezes em que você, como eu, pode ter vistos trechos deste filme em sessões especiais da TV perto do Natal. Assista à versão original com calma e com tempo e serás surpreendido(a) como eu. Que grande filme! Roteiro exemplar, atores fantásticos e algumas mensagens realmente incríveis. Imperdível.

A HISTÓRIA: Toca o sino. Música de Natal. Uma placa dá as boas-vindas para a cidade de Bedford Falls. Neva e há decoração natalina nas ruas do lugar. Em diferentes lugares pessoas fazem orações para George Bailey (James Stewart). No céu, Joseph fala com o seu Superior sobre os problemas de George Bailey e que alguém precisará ser enviado para ajudá-lo. O anjo de segunda classe da vez é Clarence (Henry Travers).

Mas antes de descer até a Terra, ele tem um resumo da vida de George, incluindo quando ele salvou o irmão Harry Bailey (Todd Karns), aos 12 anos de idade, e outras ações importantes da vida dele até que, já adulto, ele tem repetidamente os planos de sair da cidade e conhecer o mundo frustradas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a It’s a Wonderful Life): Simplesmente incrível o roteiro deste filme. Com ótimas tiradas do início ao fim e a construção dos personagens feita com muita inteligência. O humor é uma marca registrada desta história. Mas na parte final do filme a emoção rouba a cena. Apenas grandes textos podem construir uma história desta forma.

Mérito dos roteiristas Frank Capra, Frances Goodrich e Albert Hackett, que tiveram ainda a contribuição não creditada de Michael Wilson e cenas adicionais escritas por Jo Swerling. O roteiro de It’s a Wonderful Life foi escrito baseado na história de Philip Van Doren Stern.

Este não é um filme realista, mas uma ficção propositalmente exagerada para contar uma história cheia de graça, humor e algumas críticas sociais bem contundentes. Como tantos outros filmes fariam depois e, inclusive, antes, It’s a Wonderful Life começa pelo final, em uma situação-limite para o protagonista, para depois voltar no tempo e mostrar as razões que fizeram ele chegar naquele momento. A desculpa para fazer esta volta no tempo é a preparação do anjo Clarence. Uma bela sacada, porque assim o retorno na história é natural e não forçado.

It’s a Wonderful Life volta da noite decisiva na vida do protagonista para quando ele tinha 12 anos de idade, em 1919. Ali começam os momentos decisivos da vida dele e uma boa explicação de seu caráter. George salva o irmão e, por causa disso, fica surdo de um ouvido. Depois de se recuperar, ele volta a trabalhar na venda e farmácia do Sr. Gower (H.B. Warner). Quando ele chega para trabalhar, está esperando ele Mary (Donna Reed), personagem fundamental nesta história. Em seguida chega ao local Violet (Gloria Grahame), a rival de Mary na busca por fisgar George.

Naquela sequência na farmácia vemos outra ação fundamental do jovem George: atento aos detalhes, ele percebe que o farmacêutico, em luto pela morte do filho, acidentalmente colocou veneno no remédio para uma criança. Ao invés de entregar o remédio como foi ordenado, George busca o pai (Todd Karns) para receber um conselho. Neste momento começamos a conhecer o vilão da história: o rico Sr. Potter (Lionel Barrymore), que tem como meta ser dono da cidade – para isso ele tem que vencer os irmãos Bailey e a sua financiadora e construtora.

Desde criança o sonho de George Bailey é sair da pequena cidade em que ele nasceu para conhecer o mundo. Ele quer ser um explorador. Mas as obrigações e as suas responsabilidades fazem ele ficar na cidade além do tempo que ele desejaria. Todos os seus amigos saíram para fazer a faculdade fora, mas ele acabou ficando para trás. Quando finalmente ele vai sair para estudar na universidade, o pai dele morre. Este é o momento ideal para Potter, acionista da financiadora e construtora, pedir para que o local, que não dá lucro, ser fechado. Afinal, quem segurava as pontas e enfrentava o ricaço era o pai de George.

O filho mais velho dele adia a viagem para a faculdade para colocar os papéis da empresa em ordem, mas ao participar da reunião em que Potter ameaça acabar com o negócio, ele enfrenta o vilão. Neste momento ele sela o próprio destino. Como na vida real, os acontecimentos vão se desenrolando sem George ter controle algum sobre eles. Ainda assim, ele poderia ter dado as costas para as responsabilidades que vão surgindo para, de forma obstinada, ir atrás de seus sonhos. Mas não é isso que ele faz.

Generoso, ele acaba sempre ajudando quem precisa. Não importa se isso frustra os seus próprios sonhos. Quando a firma familiar é a ameaçada, ele resolve aceitar o convite de assumir o negócio para que as pessoas simples da cidade tenham uma chance de conquistar os seus próprios sonhos e não tenham apenas a exploração de Potter como alternativa. Desta forma, diferente do que ele gostaria, ele fica na pequena Bedford Falls. Ele odeia a cidade e vê o irmão sair para estudar na faculdade como ele gostaria.

Verdade que ele é bom coração mas, como qualquer pessoa comum, ele também tem uma lado negativo dentro de si. Quando o irmão mais novo volta casado e com uma ótima oportunidade de trabalho fora, George claramente fica chateado. Ele está contrariado e perdido. Tanto que a mãe dele (Beulah Bondi) lhe dá a dica sobre o retorno de Mary e ele não fica empolgado com a informação. Ao invés de ir encontrar a garota que é louca por ele e um verdadeiro encanto, ele segue na direção contrária. George tem qualidades, muitas, mas ele também é um cabeça-dura.

Finalmente ele acaba visitando Mary, mas o encontro é um verdadeiro desastre. E só não termina com cada um sendo infeliz por seu lado porque o amigo de George e então pretendente de Mary, Sam Wainwright (Frank Albertson), liga para a casa dela e acaba, sem querer, finalmente aproximando os dois. Quando George fica colado em Mary para escutar a proposta de Sam para eles investirem em uma fábrica de plástico, ele finalmente se rende ao sentimento que ele tinha por ela há alguns anos.

Os dois se casam, mas quando eles estão indo para a lua de mel, George vê a empresa da família fechada e uma pequena multidão esperando para entrar. Não fica totalmente claro naquele momento do filme, mas estamos falando de 1929, quando houve a quebradeira da Bolsa de Nova York e todo o efeito que isto teve na economia.

Está ali em It’s a Wonderful Life uma parte daquela problemática: todos com receio de ficarem sem dinheiro começaram a cobrar as suas próprias dívidas. Foi assim que o banco do qual a financiadora e construtora dos Bailey tinha pego empréstimo acabou cobrando tudo de uma vez, descapitalizando a empresa, e foi assim que os clientes do local quiseram todos de uma vez sacar o seu dinheiro da empresa que era mantida com investimentos populares e empréstimos feitos a partir destes depósitos.

Neste momento, como em vários outros, Mary aparece em cena para salvar a pátria. Não por acaso ela amava George. Mesmo sem fazer discursos como ele, Mary compartilhava a mesma visão sonhadora e íntegra do marido. George explica para os investidores a importância de todos manterem o local funcionando para que as pessoas tenham uma alternativa a Potter. O ricaço aproveita a deixa para se aproveitar do desespero alheio. Ele oferece US$ 0,50 para cada US$ 1 que as pessoas tinham depositado em forma de ações no local. Exploração clássica que vemos até hoje acontecendo quando ocorre uma enchente ou alguma outra tragédia e os inescrupulosos sobem os preços para lucrar com a desgraça alheia.

O discurso de George, um dos melhores do filme, que apela para o sentido de coletividade, e a ação de Mary de usar os US$ 2 mil que o casal tinha reservado para a lua de mel acabam salvando a financiadora e construtora. E este gesto muda a vida de muita gente porque as pessoas passam a ter uma alternativa para financiador os seus sonhos, especialmente a casa própria, sem serem exploradas neste intento. Eis a primeira mensagem importante de It’s a Wonderful Life: é possível um caminho de justiça e de oportunidade para pessoas simples sem que elas sejam exploradas por quem tem mais dinheiro e sempre busca ter cada vez mais.

Na sequência, um outro momento marcante desta produção: quando Mary orquestra uma lua de mel inesquecível para o casal. James Stewart é o nome famoso e inevitável desta história. O personagem dele é o sonhador, o correto, o protagonista que sempre tem discursos importantes na história. Mas ele também é um bocado atrapalhado, um tanto turrão e, por causa da surdez em um ouvido, fala sempre mais alto que o normal. Mas Mary… ah, Mary! A atriz Donna Reed simplesmente rouba a cena toda vez que aparece. Ela é a parte encantadora da história, uma mulher com opinião, com caráter e que consegue mover a história com amor e carisma. Uma parceria simplesmente perfeita para James Stewart nesta produção.

Aos poucos George o seu tio Billy (Thomas Mitchell), fundador da financiadora e construtora junto com o pai de George e Harry, vão realizando sonhos de diversas pessoas da comunidade. Claro que Potter não se cansa de tentar dinamitar o único negócio que não lhe ajuda a ficar cada vez mais rico. Além de uma proposta indecorosa de Potter, George também é tentado pelo amigo Sam Wainwright que vai, por sua conta, ficando cada vez mais rico com o negócio de plástico que foi ideia do protagonista. Mas ele resiste e fica tocando o negócio da família porque sabe a importância dele para a comunidade.

Começa a Segunda Guerra Mundial – ou seja, estamos em 1939, quando o protagonista teria 32 anos de idade – e os acontecimentos trágicos daquela época são mostrados resumidamente. Tanto que logo chegamos ao fim do conflito no último dia da história com Harry Bailey sendo, mais uma vez, destacado – enquanto o irmão, George, aparentemente, não se sente nada valorizado. Claramente o diretor Frank Capra não quer dar muito destaque para a guerra. Afinal, a mensagem dele é para, justamente, ajudar a superar aquele momento complicado com uma mensagem positiva. Lembrando que este filme foi lançado em 1946, logo após o fim do conflito.

Mesmo fazendo o que é certo e ajudando a tantas pessoas, George se sente tentado e quase cede às tentações uma ou outra vez. E nestes momentos, quando ele vê outros tendo mais sucesso do que ele, fica perceptível como a frustração dele vai crescendo. Por isso, diferente de alguns críticos, eu não vejo como gratuita a reação dele na reta final da história. Extremamente correto e comprometido com o negócio familiar, ele explode quando o tio Billy perde US$ 8 mil, uma fortuna para a época e dinheiro impossível de ser recolocado pela empresa.

O desespero toma conta de George. Ele imagina o pior dos cenários, com a família dele ficando sem assistência alguma quando ele fosse preso – uma perspectiva cada vez mais próxima com aquele sumiço do dinheiro. Daí temos a justificativa para aquele início de It’s a Wonderful Life. George está mais que “desanimado”, ele está desesperado. E a frase de Potter de que ele vale mais “morto do que vivo” acaba martelando na cabeça dele. Cá entre nós, não é exagero seguir a linha de raciocínio dele – muitos homens na vida real acreditaram exatamente nisso, que eles “valiam” mais mortos do que vivos e optaram pelo suicídio como forma de “resolver” os seus problemas.

Mas aí está a grande e valiosa mensagem de It’s a Wonderful Life. Uma mensagem que não é apenas poderosa em si, mas que foi construída com grande precisão para ser muito forte no final. Como o título em português sugere, o realmente valioso na vida não pode ser conquistado com dinheiro. Não estamos falando apenas de felicidade individual mas, e especialmente, do efeito que a vida de um indivíduo pode ter para a felicidade de muitas e muitas pessoas.

Depois do desespero, George poderia ter pensado na desgraça que a sua morte poderia significar para os filhos, para Mary e ir expandindo esta análise para todas as outras pessoas que ele conhecia. Ele não chegou a fazer esta análise. Não esfriou a cabeça, mas acabou agravando a visão negativa ao beber além da conta no bar. Por isso foi necessária a interferência de Clarence. Na conversa entre George o seu anjo da guarda de segunda classe, o protagonista acaba falando algo pior do que aquilo de que seria melhor se ele morresse. Ele diz que preferia nunca ter nascido.

Daí temos a parte mais fantasiosa e muito potente de It’s a Wonderful Life. O nosso protagonista é mergulhado em uma realidade na qual ele não é reconhecido por ninguém porque ele simplesmente nunca existiu. Daí George percebe de maneira muito clara a importância da vida dele para muita gente. Claro que a narrativa segue uma lógica exagerada e na qual a ficha de George nunca parece cair. Mas esse recurso é proposital e tem um efeito decisivo especialmente pela ótima interpretação de James Stewart. Como Donna Reed sai de cena nesta sequência – ela aparece apenas nos minutos finais da “fantasia” -, é o momento em que o protagonista mostra todo o seu valor.

A sequência em que George corre para a ponte e reza para voltar a viver é simplesmente devastadora. Admito que chorei um bocado ali – já vinha me emocionando antes, mas aquele é o grande momento. A partir daí você provavelmente vai reconhecer algumas imagens que fazem parte do imaginário de quem gosta de cinema há bastante tempo. Lembro de algumas das sequências finais, mas admito que não lembrava do filme inteiro, de todos os seus ricos e importantes detalhes. Fiquei em dúvida se eu vi este filme quando era criança, em uma daquelas várias exibições que It’s a Wonderful Life teve na época de Natal, ou se eu realmente nunca tinha visto ele inteiro.

Assistindo agora, contudo, vi toda a grandeza desta produção. De forma muito contundente It’s a Wonderful Life faz uma crítica bem fundamentada contra a ambição e a busca de riqueza a qualquer preço, inclusive passando por cima de diversas pessoas e as explorando e, principalmente, esta produção faz uma defesa fundamental da vida. It’s a Wonderful Life deixa muito claro que toda a vida tem valor e que, quando nos doamos para os outros e fazemos o bem, nossa influência é ainda mais decisiva.

Honestamente, considero este um dos melhores filmes que vi até hoje. Sem dúvida alguma ele merece ser recomendado e assistido sempre que possível (mas na versão original). Acho fundamental ouvir todos os detalhes das interpretações dos atores principais e do ótimo elenco de apoio, assim como a trilha sonora escolhida a dedo. Inesquecível e uma aula de roteiro e de cinema. Assista.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tudo funciona à perfeição em It’s a Wonderful Life. Do roteiro, já bastante elogiado, até a direção muito precisa e cuidadosa de Frank Capra, passando pelas ótimas interpretações de todos os atores e pelos elementos técnicos que não tem nenhum deslize. A trilha sonora, por exemplo, assinada por Dimitri Tiomkin, é irretocável. Ela aparece nos momentos adequados e ajuda muito a dar a profundidade narrativa de cada fase da história, além de ritmo e emoção para a produção. Um filme a ser estudado em seus detalhes.

Há dois pontos deste filme que eu gostaria de comentar aqui e que não fiz antes. (SPOILER – não leia este e o próximo parágrafo se você ainda não assistiu a esta produção). O primeiro é que It’s a Wonderful Life aposta em uma filosofia da qual eu sou grande partidária. O importante não é focarmos a nossa energia e a nossa atenção naquilo que não conquistamos – afinal, é impossível alguém conquistar tudo que poderia desejar em uma vida – e sim colocarmos a nossa energia e a nossa atenção em tudo que já fizemos.

Em outras palavras, sermos muito mais gratos com a vida e todos os presentes que ela nos deu do que acumularmos frustração ou descontentamento com o que não deu certo. George Bailey acaba se dando conta disto no final. Ele percebe tudo o que ele tem e que poderia perder caso realmente desaparecesse da face da Terra. Mas como não teremos um Clarence para nos mostrar isso, o ideal é fazermos este exercício de gratidão por nosso conta. Quanto mais fizermos, melhor pra gente.

O outro ponto que eu gostaria de comentar tem a ver com a parte derradeira da história. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Alguns podem pensar, ao ver aquele povo todo dando dinheiro para Bailey, que o problema estava apenas sendo adiado. Afinal, em algum momento o protagonista seria cobrado para devolver aqueles empréstimos. Mas, na verdade, acho que a maioria deu apenas o que tinha disponível, que “estava sobrando”, e a pequena quantidade dada por cada um, recursos que não fariam falta individualmente, já seria o suficiente para salvar a pele dos Bailey. Então acho que a maior parte das doações não será devolvida no futuro. E a que for preciso devolver, eles terão capacidade para isso. O gesto daquelas pessoas todas foi uma retribuição pelo que eles receberam anteriormente. E a mensagem de Capra é que “a união faz a força”.

O filme está cheio de ótimas tiradas. Mas uma das minhas preferidas é quando um vizinho assiste a aproximação desajeitada de George em uma noite de lua cheia e solta que “o problema é que os jovens desperdiçam a juventude”.😉 Achei ótimo aquilo!

It’s a Wonderful Life estreou em Nova York no dia 20 de dezembro de 1946. Ou seja, como a própria história narra, pertinho da noite de Natal. No Brasil o filme estreou pela primeira vez em 14 de fevereiro de 1947. Em 1977, mais de 30 anos depois dele estrear nos cinemas, It’s a Wonderful Lifeparticipou do Festival Internacional de Cinema de Toronto. Em 1997, quando o filme completava 50 anos de estreia em diversos países, ele voltou aos cinemas do Reino Unido. Nos Estados Unidos ele voltou aos cinemas de Nova York em 2013 e em 2014.

Entre as tiradas deste filme, tem uma perto do final que chama a atenção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). George Bailey está no bar e ensaia uma oração para Deus pedindo que Ele lhe mostre um caminho, uma luz, uma solução para o problemão que ele está enfrentando. Na sequência, quando ele vai se despedir dos amigos e eles lhe chamam pelo nome, ele leva um soco do Sr. Welch (Stanley Andrews). E daí ele comenta “Isso que dá rezar”. Achei cômico. Isso é o que acontece com muita gente, querendo jogar para Deus a responsabilidade sobre os efeitos de seus próprios atos. Claro que ele levou um soco por ter falado um monte de grosserias para a esposa do Sr. Welch e não porque ele tinha rezado. Devemos aprender a saber que nossos atos tem consequências e não achar que tudo é “vontade de Deus”. Bobagem.

É uma delícia assistir a um filme com James Stewart. Lembrava dele mais dos filmes de Hitchcock, por isso achei interessante vê-lo em um papel tão diferente, de cidadão comum um bocado atrapalhado mas com grandes qualidades. Grande ator. Mas como eu já o conhecia, para mim a grande surpresa de It’s a Wonderful Life foi mesmo a atriz Donna Reed. Achei ela divina, encantadora, maravilhosa. Ela brilha no filme do início ao fim. Um belo par para este filme. Os dois fazem um trabalho muito bom e que acaba sendo bem equilibrado.

Fiquei impressionada também com a qualidade dos coadjuvantes. Todos muito bons. Dos papéis menores até os que ganham mais relevância na história, não tem ninguém que não se saia bem. Algo raro nos dias de hoje. Mais um exemplo de como Hollywood já teve a sua idade de ouro. Entre os coadjuvantes, destaque para Lionel Barrymore, que interpreta o Sr. Potter – impossível não odiá-lo; Thomas Mitchell como o singelo e um tanto atrapalhado Tio Billy; Henry Travers ótimo e roubando a cena como o anjo Clarence; Beulah Bondi cativante como a Sra. Bailey, mãe de George e de Harry; Frank Faylen como Ernie, taxista e um dos melhores amigos do protagonista; Ward Bond ótimo como o policial Bert, amigo também de George.

A lista segue com Gloria Grahame como Violet, a outra pretendente do protagonista; H.B. Warner como Sr. Gower, primeiro patrão de George; Todd Karns como Harry Bailey, irmão mais novo de George; Samuel S. Hinds como o Sr. Bailey, pai dos meninos; Frank Albertson como Sam Wainwright, o amigo de infância do protagonista que faz a mesma brincadeira com ele a vida inteira; William Edmunds como Sr. Martini, dono do bar que acaba comprando a casa própria com a ajuda da empresa dos Bailey’s; e o elenco infantil, com destaque para Robert J. Anderson como o jovem George; Ronnie Ralph como o jovem Sam; Jean Gale como a jovem Mary; Jeanine Ann Roose como a jovem Violet; e Georgie Nokes como o jovem Harry Bailey. Também vale citar as crianças que interpretam os filhos de George e Mary: Carol Coombs interpreta Janie; Karolyn Grimes interpreta Zuzu; Larry Simms interpreta Pete e Jimmy Hawkins interpreta Tommy.

It’s a Wonderful Life teria custado US$ 3,18 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, cerca de US$ 7,27 milhões. Se juntarmos com o que filme fez em outros países, certamente ele deu lucro.

Esta produção foi totalmente rodada na Califórnia. Entre as locações estiveram o RKO Encino Ranch, em Los Angeles, onde foi montada a cidade de Bedford Falls; a Beverly Hills High School, em Beverly Hills, que dá vida para a cena de dança em Charleston; um endereço em La Cañada-Flintridge foi usado como o exterior da casa do Martini; e mais cenas no RKO-Pathé Studios.

Bacana o filme indicar um clássico da literatura e leitura do anjo Clarence: As Aventuras de Tom Sawyer. A obra pode ter chegado a muita gente por causa do filme.

Agora, algumas curiosidades sobre It’s a Wonderful Life. Para a cena em que a atriz Donna Reed deveria jogar uma pedra e acertar um vidro da casa Granville, o diretor Frank Capra contratou um atirador que pudesse acertar o alvo. Mas na hora de rodar a cena todos se surpreenderam com a atriz acertando o alvo sozinha. Ela tira uma boa mira e força no braço porque no colégio ela tinha jogado baseball.

O piso do ginásio na cena de dança que se abre era real e estava localizado na Beverly Hills High School.

Na cena no bar em que George começa a rezar, James Stewart estava realmente abalado e começou a soluçar. Mais tarde, Frank Capra aproximou a imagem do rosto do ator além do que havia sido planejado na hora que a cena foi rodada para tornar ainda mais evidente a emoção de Stewart – por isso aquela imagem aparece mais granulada que o restante da produção.

Na cena em que o tio Billy vai para casa bêbado, o som que aparece em cena foi, na verdade, uma pessoa da equipe de filmagens que deixou cair uma bandeja cheia de adereços. Como o som apareceu na cena, James Stewart começou a rir e o ator Thomas Mitchell improvisou um “Estou bem, estou bem!”. O diretor Frank Capra gostou daquele resultado e resolveu deixar ele no corte final, dando um prêmio de US$ 10 para o assistente de direção trapalhão desde que ele melhorasse o som final da sequência.

Uma explicação para o orçamento alto do filme, para os padrões da época, foi o gasto que os produtores tiveram com o conjunto habitacional criado para dar vida para a cidade de Bedford Falls. Construído em dois meses, o set feito para a cidade foi um dos mais longos já utilizados em um filme americano. Ele tinha extensão de 16,2 mil metros quadrados e 75 lojas e edifícios, a rua principal, um distrito com fábrica e uma grande área residencial e uma área com cortiço.

James Stewart estava nervoso com a cena após a conversa por telefone porque era o primeiro beijo dele no cinema desde que ele tinha retornado para Hollywood após a guerra – sim, ele lutou na Segunda Guerra Mundial. A cena do beijo foi rodada em apenas um take por Capra. A sequência funcionou tão bem que parte do abraço entre os atores foi cortado porque ele era tão apaixonado que poderia não passar pelos censores da época. Hoje, certamente, não teria problema deixar a sequência inteira.😉

Em diversas ocasiões o diretor Frank Capra disse que este era o filme favorito entre aqueles que ele dirigiu. Interessante. Achei ele, realmente, genial.

Uma fotografia de James Stewart de quando ele tinha apenas seis meses e que foi doada pelos pais do ator foi usada na casa dos Bailey’s.

O ator James Stewart também declarou que George Bailey foi o seu personagem favorito. O roteiro do filme foi originalmente escrito para outro estúdio tendo Cary Grant como o protagonista. Quando Frank Capra assumiu o projeto o texto foi adaptado para que fosse estrelado por Stewart.

O diretor Frank Capra estimou que It’s a Wonderful Life fosse rodado em 90 dias e este foi realmente o prazo de filmagens da produção.

A família Martini do filme foi inspirada na própria família do diretor Frank Capra. Eles emigraram da Sicília em 1903 e tinham uma cabra que os acompanhava – Capra, aliás, quer dizer cabra em italiano.

Apesar da história de It’s a Wonderful Life se passar em um Natal com neve artificial, o filme foi rodado em meio a uma onda de calor. Em um dos dias mais quentes foi rodada a sequência na ponte – em alguns takes é possível ver James Stewart suando.

Em 2004 a BBC fez uma votação com o público sobre o Melhor Filme que acabou não ganhando um Oscar. It’s a Wonderful Life ficou em segundo lugar, atrás de The Shawshank Redemption – outro dos meus filmes favoritos.

It’s a Wonderful Life marcou a estreia de Donna Reed como protagonista.

O trabalho de James Stewart como George Bailey foi classificada como a oitava melhor interpretação no ranking 100 Greatest Performances of All Time da revista Premiere.

Depois da Segunda Guerra Mundial o diretor Frank Capra criou a Liberty Films junto com George Stevens e William Wyler com o objetivo de fazer filmes mais séries e que despertassem um certo “exame de consciência” dos públicos.

Esta foi a primeira e a única vez em que o diretor Frank Capra colaborou com um de seus filmes no roteiro.

It’s a Wonderful Life foi escolhido como o filme mais inspirador de todos os tempos segundo a eleição 100 Years, 100 Cheers feita no dia 14 de junho de 2006. No ano seguinte o American Film Institute classificou o filme como o 20º grande filme de todos os tempos. Justo, muito justo.

Dalton Trumbo, Dorothy Parker, Marc Connelly e Clifford Odets teriam trabalhado no roteiro do filme apesar dos nomes deles não constarem nos créditos de It’s a Wonderful Life.

E há uma marca registrada de Frank Capra neste filme: o corvo Jimmy. Ele aparece em todos os filmes de Capra a partir de 1938.

It’s a Wonderful Life foi indicado a cinco Oscar’s e não ganhou nenhum. Incrível. No ano em que ele perdeu, 1947, o filme que venceu na categoria principal do Oscar foi The Best Years of Our Lives, do diretor William Wyler. Não assisti a esta produção, mas será mesmo que era melhor que It’s a Wonderful Life? James Stewart perdeu a estatueta para Fredric March, de The Best Years of Our Lives; Frank Capra perdeu para William Wyler pelo mesmo filme; It’s a Wonderful Life perdeu em Melhor Som para The Jolson Story; e o filme de Capra perdeu em Melhor Edição para The Best Years of Our Lives. Mas quem hoje fala deste filme? A História parece ter premiado It’s a Wonderful Life.

Mesmo tendo saído de mãos vazias do Oscar, It’s a Wonderful Life conseguiu cinco indicações na premiação máxima de Hollywood. Isso, certamente, já foi um tipo de premiação para os realizadores. O filme também ganhou seis prêmios e foi nomeado para um sétimo. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Diretor para Frank Capra no Globo de Ouro de 1947 – isso comprova como, às vezes, o Globo de Ouro acerta mais que o Oscar.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,6 para It’s a Wonderful Life. Uma bela avaliação se levarmos em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 64 críticas positivas e quatro negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,9. Especialmente a nota dos críticos é muito relevante – talvez uma das maiores que eu já vi no Rotten Tomatoes.

Este filme faz parte daquela série de críticas aqui do blog para filmes antigos. Como vocês sabem, estas críticas fazem parte da seção “Um Olhar para Trás”. Escolhi este filme entre os sugeridos pelo livro “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”. Em sua crítica no livro, Karen Krizanowich comenta: “Depois de celebrar o homem comum em clássicos da década de 1930 como Aconteceu Naquela Noite, A Mulher Faz o Homem e Do Mundo Nada Se Leva, o primeiro filme de Frank Capra realizado no pós-guerra enaltece, sem o menor pudor, a bondade das pessoas comuns e o valor dos sonhos humildes, mesmo que eles não se tornem realidades”.

Este filme é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso essa crítica também atende a uma votação feita aqui há algum tempo e que pedia produções daquele país.

CONCLUSÃO: Há filmes que nos surpreendem por causa de suas reviravoltas. Outros, pela originalidade da história ou da forma com que ela é contada. E outros, como este It’s a Wonderful Life, nos surpreende pela potência das mensagens da história. Que grande filme, meus amigos e amigas! Ele merece ser visto com carinho, na versão original, para que aproveitemos cada detalhe da interpretação dos atores e do texto original. Destas produções que conseguem, e de forma muito singela, explicar algumas das razões da vida. Apenas grandes realizadores se arriscariam a fazer isso e, além de se arriscar, alcançariam êxito em tal tarefa. Uma grande homenagem à “vida ordinária” mas cheia de valor. Bem ao estilo de Frank Capra. Como eu disse antes, imperdível.

Desde Allá – From Afar – De Longe Te Observo

30 de julho de 2016 1 comentário

desdealla1

Há histórias que são bem complicadas. Olhe você pelo ângulo que você quiser. Desde Allá é uma destas histórias. Um filme interessante ao apostar em dois personagens centrais que não gostam muito de falar – e, consequentemente, sabemos pouco sobre as suas próprias motivações. Quando eles falam, raramente tratam do que realmente interessa. Isso torna a história um bocado aberta e, por isso, suscetível a surpresas. E elas existem. Filme duro e que faz pensar.

A HISTÓRIA: Do alto de um viaduto, Armando (Alfredo Castro) observa o movimento de um ponto de ônibus. Ele desce e se aproxima de várias pessoas, especialmente de um jovem rapaz. O ônibus chega, e Armando pega ele seguindo o rapaz. No ônibus Armando mostra um maço de dinheiros para o jovem. Os dois vão para o apartamento de Armando, que pede para o rapaz ficar de costas e tirar a camisa e abaixar a calça até uma certa altura.

Armando se masturba e vai para dentro da casa enquanto o rapaz pega o dinheiro e vai embora. No trabalho, Armando lapida mais uma prótese e depois ganha bem de um cliente. Em breve ele procurará mais um jovem que poderá visitá-lo em casa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Desde Allá): Gosto de filmes que não são óbvios. Tanto na narrativa quanto na história. Desde Allá é um destes filmes surpreendentes porque, aparentemente, ele é muito singelo. Começa simples, mas vai ficando complicado pouco a pouco. No início, temos um cara de meia idade que paga jovens para que eles sirvam de objeto para o seu desejo.

Inicialmente esta é a leitura fácil do personagem principal desta história. Mas ele vai se mostrando mais complexo com o tempo. Assim como a própria narrativa vai ficando mais complexa. O roteiro do diretor Lorenzo Vigas baseado na história de Vigas e de Guillermo Arriaga é uma verdadeira aula de cinema. Ele vai se revelando pouco a pouco, camada a camada, e não responde a tudo que o espectador gostaria de ter respondido. Alguns podem ficar chateados com isso, mas eu acho sempre uma escolha corajosa dos realizadores fazerem isso. Afinal, quando você não responde tudo, deixa parte da obra aberta e suscetível a interpretações. Isso é sempre positivo.

No início, parece algo evidente que Armando é gay ou, ao menos, tem uma grande inclinação gay – em momento algum fica claro se ele apenas pagava para os jovens servirem de objeto de desejo ou se ele já tinha tido uma relação física homossexual. Mas não demora muito para o filme introduzir outra questão que parece secundária mas que, com o tempo, não vai se mostrar de segundo plano: o ódio que o protagonista tem do próprio pai.

Este acaba sendo um ponto importante da história. (SPOILER – não leia se você não viu ao filme). Logo depois de Armando levar o primeiro jovem para o apartamento, ele faz uma visita à sua irmã e cobra dela uma reação mais enérgica sobre a volta do pai deles. O que não sabemos, e vamos ficar sem saber, é exatamente o que o pai dos dois aprontou. Essa questão fica no ar, o que ajuda a pensarmos sobre o quanto ele teria de responsabilidade por Armando gostar de rapazes. Ele teria sido abusado pelo pai na infância e/ou adolescência, assim como a irmã dele? Mais tarde, quando Armando diz que a mãe já morreu, chegamos a pensar se ela teria sido morta pelo pai dele.

Estas questões não são respondidas. O que apenas deixa muitas perguntas sobre Armando no ar. Depois do primeiro jovem que vemos Armando levando para o apartamento, ele sai para “caçar” o seu mais novo objeto de desejo. E é assim que Elder (Luis Silva) entra na história. De forma muito inteligente Vigas constrói um filme que se divide entre os dois personagens, acompanhando a rotina deles juntos e separados. Desta forma vamos conhecendo mais sobre os dois. A diferença é que a vida de Elder acaba sendo bem mais aberta que a de Armando. E isso, vamos saber no final, fará toda a diferença.

Em diversos momentos deste filme você, como eu, pode pensar: “Que coragem!”. Primeiro, sempre achei muito corajosos os gays – e os heterossexuais, geralmente homens – que acolhem qualquer desconhecido(a) em casa para sanarem o seus desejos e apetites sexuais. Já ouvi algumas histórias de assassinato de gays que foram alvo de jovens, geralmente, que não aceitaram alguma parte da relação amorosa. Por isso mesmo achei muito corajoso Armando e sua caça permanente de jovens. Nem todos são gays e muitos aceitam aquela situação apenas porque precisam (ou querem simplesmente) dinheiro.

No início Elder acha um absurdo aquela situação com Armando. Mas o nosso protagonista não pensa em retroceder. Você imaginaria que o mais fácil seria ele ir atrás de um outro garoto, mas ele acaba procurando novamente Elder. Por muito tempo a relação do jovem com Armando é de resistência. Mas quando ele leva uma boa surra e não tem ninguém para ajudá-lo, Armando acaba fazendo este papel.

E daí surgem algumas das muitas perguntas deste filme. Afinal, o que Armando quer com Elder? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Caso ele tenha sido abusado pelo pai e percebe que tem a carência afetiva que ele tem por causa disso, ele resolve fazer diferente e dar uma oportunidade para o jovem que, claramente, tem poucos recursos? Ou ele encara Elder como um objeto de desejo que precisa ser conquistado e que precisa ter a resistência vencida? Em certo momento do filme, quando os dois estão em uma festa e Elder parte para cima de Armando, ele resiste. Naquele momento eu pensei que a primeira teoria estava certa. Que ele não queria, no final das contas, uma relação amorosa com o rapaz, mas apenas ajudá-lo.

Mas nada é simples em Desde Allá. Como eu disse antes, o roteiro de Vigas é muito inteligente ao avançar aos poucos na história dos dois protagonistas. Aparentemente a história de Elder é mais simples e franca do que a de Armando. Depois que cuida do jovem machucado, Armando começa a ganhar a confiança dele. Aos poucos o garoto vai abrindo a sua vida, mostrando o local em que ele trabalha, levando Armando para a festa da família e, depois que o novo “amigo” dele lhe ajuda a comprar um carro, os dois vão até a praia e Elder conta a verdade sobre o pai. Antes ele tinha dito que ele estava morto, mas naquele momento Elder revela que ele está preso.

Neste momento percebemos que Elder e Armando tem ao menos um ponto em comum: ambos tiveram pais abusivos e/ou criminosos. A diferença é que Elder ainda é jovem e frágil. Ainda que ele pratique pequenos crimes aqui e ali, ele está suscetível a ser manipulado. Armando já vive outra condição. Primeiro que ele tem dinheiro de sobra e, depois, ele sabe manipular – ele não parece, mas é um caçador nato e experiente.

Elder, como tantos jovens venezuelanos e também do nosso país, vem de uma família desestruturada e sem bons exemplos. Vive em um local complicado, sem recursos, apanhava muito quando era criança e teve um amigo morto pelo pai que, depois, foi preso. “Largado na vida”, por assim dizer, ele faz o que é preciso para conseguir o que quer. Daí os pequenos crimes – furtos e roubos – e a condição de alvo fácil de Armando. Ele quer conquistar as coisas, como comprar um carro restaurado após um acidente, mas não sabe exatamente o caminho certo para fazer isso.

Armando vê naquele garoto exatamente o que ele precisa. Só que como ele é um sujeito que observa muito e fala pouco, não sabemos muito bem, pelo menos até o final, o que realmente ele quer de Elder. Infelizmente o rapaz acaba sendo manipulado por Armando na medida certa. Experiente, Armando sabe exatamente como cuidar de Elder – algo que ninguém fez por ele até então – e atraí-lo da forma correta. Tanto que quando o rapaz já está fascinado por Armando, ele sabe muito bem não “entregar o ouro” até que ele tenha conseguido exatamente o que ele quer.

Por isso mesmo, no início de Desde Allá, fiquei com raiva de Armando porque sempre acho um absurdo um adulto se aproveitar de alguém mais frágil – neste caso adolescentes, mas em outros casos são crianças – para satisfazer os seus desejos. Ainda que os jovens atraídos pelo dinheiro de Armando não fossem tocados ou não estivessem de frente vendo a masturbação dele, sem dúvida alguma eles estavam sofrendo ali um abuso psicológico de caráter sexual.

Por que ele não procurava um gay como ele para desenvolver uma relação ao invés de abusar de jovens em vulnerabilidade social? Por isso, no início, fiquei com raiva dele. Depois, ao achar que ele realmente tivesse boas intenções com Elder, dei a ele o privilégio da dúvida. Mas aí veio o final… que grande, grande FDP! Impossível não terminar este filme odiando ele. Haja coragem para ser tão “hijo de puta”.

E muitos podem se perguntar: ok, mas como um rapaz que tinha “ódio”, aparentemente, de gays, acaba desenvolvendo desejo sexual e se apaixonando por um homem com bem mais idade que ele? Ora, para mim esta questão tem duas explicações. Primeiro que Armando soube manipular muito bem Elder ao ponto de despertar nele interesse e atração. O jovem, sem uma figura paterna em casa – e a figura que ele teve era violenta – acaba encontrando “proteção”, carinho e segurança na figura de Armando. Sem contar, claro, que o dinheiro dele atraia o jovem interessado em obter o que ele queria.

A segunda explicação é que eu acho que todos nós podemos nos interessar pelas pessoas independente do gênero que elas tenham. Podemos achar sexy ou bonitas pessoas do mesmo sexo, mesmo que não sejamos bissexuais ou homossexuais, mas daí a ter desejo e de realizá-lo são outros quinhentos. Quando se é jovem, me parece, as pessoas estão mais sujeitas a experimentar. Agora, quanto mais idade uma pessoa tem, mais ela vai tendo claro o que ela gosta e o que pode lhe atrair. Acho que tudo isso ajuda a explicar a mudança de comportamento de Elder.

Desde Allá é um filme muito bem construído e bem planejado. A história vai crescendo aos poucos ao mesmo tempo em que vai entregando pequenas colheradas de informação sobre os personagens principais. A relação entre os dois também vai se tornando mais complexa, e o entorno social acaba jogando um papel fundamental. Por tudo isso o filme faz pensar. Nos faz refletir sobre como pessoas em condições sociais frágeis podem ser manipuladas e exploradas por pessoas com um poder aquisitivo e cultural maior. Também nos faz refletir sobre os desejos e as carências, e sobre como devemos controlá-los para não sermos controlados por eles. Grande filme.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei impressionada pelo trabalho dos dois atores principais. Incríveis, ambos. Também excepcional o roteiro de Lorenzo Vigas. Muito bem construído e com diálogos precisos. Alfredo Castro está incrível em um trabalho cirúrgico como o silencioso e observador Armando. Por outro lado, Luis Silva dá um show como um jovem aparentemente capaz de tudo mas que é, também, muito sensível. Elder tinha um grande potencial, pena que ele próprio não tenha enxergado isso.

Em muitos e muitos momentos o trabalho dos atores é resolvido olho no olho, em silêncio. Uma escolha acertadíssima de Lorenzo Viegas e equipe. Desta forma que o espectador percebe a intensidade das interpretações que, por consequência, passam muita legitimidade.

Este filme é centrado em Armando e Elder. Mas há alguns atores coadjuvantes da história interessantes. Pena que poucos são chamados pelo nome na produção, o que dificulta saber exatamente quem é quem. Consegui mais ou menos identificar Jericó Montilla como Amelia, mãe de Elder; Catherina Cardozo como Maria, irmã de Armando; e Jorge Luis Bosque como Fernando, cunhado de Armando. Merecem destaque também os rapazes que fazem parte do grupo de amigos de Elder, mas infelizmente não consegui identificar o nome deles na história.

Da parte técnica do filme, mérito principal para o diretor e roteirista Lorenzo Vigas. Ele não apenas constrói a história muito bem como sabe conduzi-la privilegiando sempre a interpretação dos atores sem esquecer de outro elemento importante no filme: o entorno no qual eles vivem. Em muitos momentos Vigas recorre a planos de câmera que não são muito usuais, mas que são muito acertados e inteligentes ao valorizar alguns aspectos da narrativa. Belo trabalho.

Outros aspectos importante e que são muito bem realizados nesta produção são a direção de fotografia de Sergio Armstrong; a ótima edição de Isabela Monteiro de Castro; e os recursos que ajudam a dar o clima certo e a contar a história dos personagens centrais como a direção de arte de Matías Tikas, a decoração de set de Carolina Carlini Bellazzini e os figurinos de Marisela Marin. Tudo muito moderno, contemporâneo, mas escolhido à dedo para casar com cada um dos personagens centrais. Muito bom também o trabalho do departamento de som com 11 profissionais envolvidos. Aliás, vale comentar que Isabela Monteiro de Castro é brasileira e tem no currículo filmes como Madame Satã, Cidade Baixa, O Céu de Suelly e Praia do Futuro.

Algo importante que este filme e a vida real também mostra: os manipuladores são muito bons no que eles fazem. Alguém que manipula outra pessoa nunca parece estar realmente fazendo isso. Por isso, meus caros, fica a dica: muita atenção para quem vocês colocam para dentro da vida de vocês.

Desde Allá estreou no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2015. Depois o filme passaria ainda por outros 28 festivais, sendo o mais recente deles o Festival Internacional de Cinema de Melbourne que começa no próximo dia 5 de agosto.

Como o filme mesmo sugere, ele se passa e foi todo rodado na cidade de Caracas, na Venezuela.

Desde Allá é o primeiro longa do diretor Lorenzo Vigas. Este venezuelano de Mérida que tem 49 anos de idade fez a faculdade de Biologia Molecular na Universidade de Tampa, na Flórida, e em 1995 resolveu dar uma guinada na vida e estudar cinema na Universidade de Nova York. Em 1998 ele voltou para a Venezuela para filmar a série de documentários para a TV Expedition. A primeira produção dele para o cinema foi o curta Los Elefantes Nunca Olvidan, de 2004, que ganhou diversos prêmios. Certamente é um nome que merece ser acompanhado.

O ator Alfredo Castro tem 60 anos de idade e nasceu em Recoleta, da região metropolitana de Santiago do Chile. Ele tem 51 trabalhos no currículo como ator e nove prêmios. Sobre Luis Silva eu não encontrei mais informações, mas gostei muito do trabalho dele. Acho que ele merece ser acompanhado.

Desde Allá ganhou sete prêmios e foi indicado a outros nove. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Leão de Ouro como Melhor Filme no Festival de Cinema de Veneza. Além deste prêmio, ele ganhou os de Melhor Ator para Alfredo Castro e de Melhor Roteiro para Lorenzo Vigas no Festival de Cinema de Thessaloniki; o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cinema de Miami; o prêmio de Primeiro Trabalho no Grand Coral do Festival de Cinema de Havana; e a Menção Honrosa do Horizons Award para Luis Silva no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção e os críticos que tem os seus textos linkados pelo Rotten Tomatoes dedicaram 29 críticas positivas e sete negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 81% e uma nota média de 7,1. Achei as avaliações boas, mas eu considerei o filme melhor do que a maioria do público e da crítica.

Desde Allá é uma coprodução da Venezuela e do México. Belo filme que só demonstra a forma do cinema latino.

CONCLUSÃO: A vida está repleta de fragilidades, desejos, fraquezas e coragem. Há pessoas que fazem escolhas e tomam certas atitudes que nos chocam. Desde Allá nos conta histórias que misturam tudo isso. Um filme forte, com ótimos atores interpretando os personagens principais e uma história que nos faz pensar sobre a fragilidade humana. Quantas pessoas vivem uma vida de carências que as faz serem alvos fáceis de gente inescrupulosa? E o pior de tudo é que estas pessoas “do mal” dificilmente são identificáveis. Elas sabem fingir bem. Desde Allá é um soco no estômago sobre famílias desestruturadas, abuso das mais diversas formas e um bocado da realidade que é possível encontrar por aí, se você quiser ver e não tapar os olhos. Potente e indicado para quem não temem ficar mal após o final.

The Nice Guys – Dois Caras Legais

24 de julho de 2016 Deixe um comentário

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Uma bela trilha sonora, figurinos, um clima que nos transporta novamente para os anos 1970 e dois atores que se divertem em um filme despretensioso. The Nice Guys não apenas é ambientado nos anos 1970 e resgata o espírito dos filmes daquela época, mas também e principalmente tira sarro dos filmes de detetive. Feito para rir, ele tem algumas sequências realmente interessantes, especialmente de ação e de ironia.

A HISTÓRIA: Vista da cidade e música bacaninha. Estamos em Los Angeles, Califórnia, em 1977. Um garoto chama o cão para dentro. Sorrateiramente ele entra no quarto dos pais e pega uma revista de mulher pelada sob a cama. Ele vê a atriz pornô Misty Mountains (Murielle Telio), termina de tomar um copo de leite na cozinha enquanto vemos a um carro caindo morro abaixo. O veículo atravessa a casa e cai no quintal do garoto, que vê a mesma Misty Mountain semi nua pouco antes dela morrer. Corta.

Uma turma de estudantes assiste a um vídeo de aula da natação que tira sarro de uma toalha gay. Uma das alunas desta turma é o novo alvo do detetive Jackson Healy (Russell Crowe). Ele dá uma dura no novo namorado dela, muito mais velho e que tem um carrão e grana para comprar maconha para os dois. Ele é contratado sempre para resolver casos como este. Mas uma cliente, Amelia Kuttner (Margaret Qualley) acaba aproximando Healy de outro detetive particular, Holland March (Ryan Gosling). Os dois, na verdade, acabam se envolvendo por causa de Amelia.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Nice Guys): Logo no início deste filme quem tem um pouco mais de memória ou idade vai se sentir no clima de Dancing Days. A trilha sonora de The Nice Guys é um dos pontos altos do filme. Assim como a proposta dele de tirar sarro dos filmes de detetive e/ou investidores particulares dos anos 1970 – e de outros tempos depois.

Para alívio de quem está incomodado com o politicamente correto exagerado dos nossos tempos, The Nice Guys apresenta um antídoto que, diferente de The Hangover (comentado aqui), não cai na piada simples e nem no exagero que pode provocar o efeito oposto. Não. The Nice Guys tem a ironia e a tiração de sarro dos protagonistas e do estilo de filme na medida certa. Não tem um humor boboca e nem recorre ao preconceito de qualquer categoria para fazer rir. Apenas isso já é um grande alívio.

Verdade que o filme utiliza o clima de suspense e de produções policiais como desculpa para existir. A história em si é meio boba, meio exagerada, centrada em uma grande investigação sobre uma jovem atriz que é meio sem pé nem cabeça. A própria definição da história também gira um pouco sobre o nonsense, mas é justamente aí que reside a graça deste filme. Sem disfarçar os roteiristas Shane Black e Anthony Bagarozzi deixam claro que os filmes de detetive são uma grande desculpa para entreter. Não vais tirar deles nenhuma grande mensagem ou lição. A diversão é o que conta.

E neste sentido de diversão este filme se sai muito, muito bem. The Nice Guys está para os filmes de detetive assim como Kick-Ass (comentado aqui) está para os filmes de super-heróis. O que eles tem em comum? Primeiro, ambos tiram sarro da essência dos filmes do gênero. Depois, ambos tem bastante estilo – que pode ser visto pela trilha sonora escolhida à dedo, ótimas edições e trabalho do elenco.

Terceiro ponto: os dois filmes não tratam as crianças como coadjuvantes, mas como protagonistas que não tem papas na língua e nem medo de tiroteio. Nesta tiração de sarro que os dois filmes fazem de seus respectivos gêneros também sobram sequências politicamente incorretas – mas nada que extrapole muito a sensibilidade das pessoas.

O diretor Shane Black fez um belo trabalho de pesquisa e realmente levou todo o espírito dos anos 1970 para este filme. O que é um verdadeiro deleite para os espectadores já que, convenhamos, os anos 1970 foram maravilhosos para o cinema. A exemplo do que Quentin Tarantino tinha feito, antes, com Jack Brown, aqui novamente é apresentado com talento por Black. A diferença é que The Nice Guys é bem mais engraçado e irônico com os seus protagonistas e com aquela época do que o respeitoso filme de Tarantino.

O roteiro de Black e Bagarozzi faz lembrar Tarantino em sua melhor forma na rapidez dos diálogos e pela “filosofia do cotidiano”. Além disso, o filme funciona bem, além dos elementos técnicos que ajudam a mergulhar o espectador no clima dos anos 1970, porque os dois protagonistas claramente se divertem muito ao participar desta produção. Fundamental para esta produção também é a jovem atriz Angourie Rice que vive a filha de March, Holly. Ela é a revelação da produção, com diálogos e atitudes ótimas e que dão muito humor para a produção.

O próprio título desta produção é uma ironia. Os protagonistas do filme são tudo, menos caras legais. Como acontece em muitos filmes, o roteiro de The Nice Guys trabalha para que gostemos deles, mas eles tem mais a ver com vilões do que com heróis. Ou podem ser vistos como clássicos anti-heróis bonachões que amamos odiar – ou que, muitas vezes, não chegamos a odiar.

Ambos são trapalhões, levam e dão bastante porrada e fazem quase tudo para conseguir o que querem – incluindo intimidar pessoas e matá-las no caminho para conseguirem o que querem. Quer dizer, Healy tem mais esta vertente de bater até matar, se necessário. Não há dúvidas de que Healy tem mais experiência que March e de que ele é o especialista da dupla em bater. March aparentemente é o mais esperto – mas ele tem uma quedinha por bebidas e mulheres que muitas vezes não o ajuda nas missões. A sorte dele é que Holly sempre está por perto, contrariando o próprio pai e, muitas vezes, se colocando em risco.

No início do filme Healy ganha uma grana de Amelia para que ele afaste as pessoas que estão tentando localizá-la. Por causa disso ele conhece March. March, por sua vez, está atrás de Amelia não pelas razões que ela ou Healy imaginam, mas porque ele está investigando o sumiço da atriz pornô Misty Mountains – ele foi contratado por Mrs. Glenn (Lois Smith) para encontrar a sobrinha dela. Não demora muito, contudo, para os dois se aliarem para buscar Amelia. Outros personagens entram em cena para complicar a história – como bandidos que estão atrás de Amelia – e a resolução para a trama tem um ponto alto com a perseguição final do filme que acabou causando tudo isso.

Filme bem construído, com os detalhes técnicos funcionando muito bem, tem um roteiro também bem pensado e que funciona bem praticamente o tempo inteiro. Apenas algumas sequências sem muito pé nem cabeça – como Amelia que, em teoria, estava querendo se esconder, naquela festa cheia de pessoas do cinema, e aquele sonho alucinante de March no carro – poderiam ter sido cortadas ou construídas de outra forma. Elas acabam enfraquecendo um pouco a narrativa, mas sem comprometer tanto o resultado final.

Os roteiristas também exageraram um pouco na dose de colocar crianças falando sacanagem – isso vale, em especial, para a sequência de Holly com a atriz pornô na festa do diretor de cinema. Por outro lado são brilhantes a sequência envolvendo a recuperação do filme de Amelia e amigos no final e o próprio destino da jovem atriz – afinal, se na vida real acontecem sequências impressionantes para o bem, também acontecem fatos inacreditáveis negativos. Gostei de um filme mostrar a segunda situação, só para variar.😉

Também é um belo acerto do filme ter uma certa reviravolta no final – quando parecia que a história já tinha terminado, ainda temos um “grand finale”. E ainda que a história seja apenas uma desculpa para muito humor e cenas de ação, no final é interessante uma certa reflexão sobre como os poderosos de Detroit poderiam chegar muito longe para defenderam os seus negócios e que os mocinhos tem um efeito limitado na vida real. No fim das contas, há uma grama de crítica neste filme focado em diversão. Bastante politicamente incorreto, mas sem cair na avacalhação ou na piada fácil, este filme vale a diversão. Com alguns descontos aqui e ali, é um bom divertimento.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei muito interessante a união entre o experiente Russell Crowe, que não vemos muito fazendo comédia, com o versátil e cada vez mais interessante Ryan Gosling. Crowe segue sendo o cara mais sério da produção, aquele que normalmente tem o controle da situação e está atento a cada detalhe, mas ele também se mete em encrenca e se atrapalha. É bom ver o ator saindo um pouco do lugar-comum e fazendo algo diferente. Ryan Gosling está ótimo, como normalmente o vemos. Sem dúvida alguma um dos melhores nomes da sua geração e uma figura que merece ser acompanhada de perto.

A jovem Angourie Rice, ao lado destas duas figuraças e com o roteiro de Shane Black e Anthony Bagarozzi para se divertir, acaba sendo a grande revelação deste filme. O estilo dela em The Nice Guys nos faz lembrar As Panteras. Uma garota destemida e pronta sempre para impedir os bandidos e para defender quem está sendo perseguido. Filha de atores, ela tem 13 produções no currículo. Ela estreou com o curta Hidden Clouds, de 2009, e fez o seu primeiro longa em 2013, a produção These Final Hours. Depois de The Nice Guys ela fez Jasper Jones, atualmente em fase de pós-produção, e está filmando Spider-Man: Homecoming. Vale acompanhá-la também.

Os detalhes técnicos deste filme fazem toda a diferença. Para começar, vale aplaudir a trilha sonora deliciosa e muito bem escolhida de David Buckley e John Ottman. Depois, funciona muito bem a direção de fotografia de Philippe Rousselot, a edição de Joel Negron, os ótimos figurinos de Kym Barrett, o design de produção de Richard Bridgland, a direção de arte de David Utley, a decoração de set de Danielle Berman, e o trabalho competente da equipe de maquiagem com 23 profissionais. Todos estes elementos são importantes para a história e para o resultado final da produção, assim como a edição de som e a mixagem de som e os efeitos visuais.

The Nice Guys é um filme centrado nos dois protagonistas e com destaque, entre os coadjuvantes, para a filha de March. Mas ele também tem vários coadjuvantes que ajudam a dar molho para a história. Além das atrizes já citadas, que estão muito bem como Amelia (a jovem Margaret Qualley) e Mrs. Glenn (Lois Smith), vale citar as ótimas participações de Matt Bomer como John Boy (o assassino profissional mais fera da história); Yaya DaCosta como Tally, secretária de Judith Kuttner (Kim Basinger em uma ponta de luxo); Keith David ótimo como Older Guy, um dos bandidos que procura Amelia; Beau Knapp também muito bem como Blueface (o outro bandido em busca da jovem atriz); e Daisy Tahan como Jessica, amiga de Holly e que acaba envolvida em uma das cenas de ação da história. Todos estão muito bem, ainda que muitos tenham poucos diálogos na história – mas a participação de todos é importante. Como ponta, vale ainda citar Lance Valentine Butler como o garoto da bicicleta.😉

Fiquei curiosa para saber um pouco mais sobre Shane Black. Fiquei surpresa com o trabalho dele – especialmente com o roteiro. Daí fiquei sabendo que ele é considerado um dos roteiristas pioneiros do gênero de ação como o conhecemos atualmente. Ele foi responsável, por exemplo, pelo roteiro de Lethal Weapon, filme de 1987 com Mel Gibson e Danny Glover que tem em comum, com este The Nice Guys, a ação e o humor. Ele não tem muitos roteiros no currículo – soma apenas 16 desde então. Mas tem um trabalho também como ator e, aparentemente, tem altos e baixos como roteirista – afinal, não dá para achar o roteiro de Last Action Hero com algo bom, não é mesmo?

The Nice Guys estreou no dia 15 de maio na Bélgica e no Festival de Cinema de Cannes. Até agora este foi o único festival em que ele participou. Dá para entender isso porque este é um filme essencialmente comercial.

Este filme teria custado cerca de US$ 50 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos e até o último dia 17, pouco mais de US$ 36 milhões. Com este ritmo e levando em conta os outros mercados em que o filme já estreou e vai estrear, provavelmente ele vai registrar um lucro satisfatório.

The Nice Guys é uma produção 100% dos Estados Unidos e foi rodada totalmente naquele país em cidades como Los Angeles, Covina e Atlanta.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. Inicialmente The Nice Guys foi pensado para ser uma série de TV. Mas os realizadores mudaram de ideia porque o piloto parecia não estar levando a lugar nenhum. Bem, até daria para desenvolver uma série com a mesma filosofia do filme, mas realmente acho que ficou melhor em quase duas horas do que em diversas horas de uma série de TV.

Uma marca registrada do diretor Shane Black e que volta a ser utilizada neste filme é que uma das cenas finais da produção se passa na época de Natal. E a última curiosidade: a contagem de mortos neste filme chega a perto de 20.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção. Uma bela avaliação se levarmos em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 222 críticas positivas e apenas 21 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 7,6. Um belo nível de aprovação, sem dúvida. E merecido, cá entre nós.

Não sei vocês, mas com este sucesso de crítica e um bom resultado nas bilheterias, não acho difícil esse filme ter uma continuação. Até pela forma com que ele termina. Não me surpreenderei se isso acontecer. Só espero que uma segunda produção mantenha as qualidades desta primeira.

CONCLUSÃO: Este é o típico filme “arranje uma desculpa qualquer de enredo para fazermos um filme de ação”. The Nice Guys tem uma história um tanto forçada, tirada de uma cartola, mas que torna ainda mais evidente o conceito de que o que importa é o desenrolar da história e nem tanto a essência dela. Casa bem com os nossos dias de gente opinando sobre tudo nas redes sociais, não? Para quem gosta dos filmes dos anos 1970 – como não gostar deles? – esta produção faz uma bela homenagem para todo aquele estilo e aura. E para completar, temos os atores Ryan Gosling e Russell Crowe realmente se divertindo em seus papéis. Além disso, é bom ver um filme “politicamente incorreto” na medida para variar. Incorreto, mas com inteligência. Um belo achado para pura diversão.

Les Innocentes – The Innocents – Agnus Dei

23 de julho de 2016 Deixe um comentário

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Cada um lida com o horror de uma maneira diferente. Há quem o encare como uma forma de superação e de aprendizado, após conseguir “lidar” com ele, e desta forma o horror passa a ser um ponto de partida para conquistar algo maior e melhor. Outros encaram o horror como um abismo contra o qual não há como escapar, não há saída do escuro, motivação ou alavanca que propicie a superação. Neste segundo caso, o horror pode ser um ponto final.

Les Innocentes nos conta uma história de horror que convida o espectador a conhecer de perto mais uma das chagas pouco comentadas e que foram deixadas pela Segunda Guerra Mundial. Além de apresentar uma história menos conhecida, o filme convida especialmente as mulheres a fazerem um exercício de empatia que é duro, mas necessário.

A HISTÓRIA: Começa dizendo que o filme está inspirado em eventos que realmente aconteceram. Som de sino batendo e de passos. Vemos um grupo de freiras caminhando em um convento. Elas rezam através de cantos. Gritos cortam o ar, e eles parecem afetar a uma das freiras. As cenas que vemos se passam na Polônia em dezembro de 1945. Aquela freira preocupada aproveita uma oportunidade para sair do convento.

Ela anda por cenários brancos de neve e chega até o vilarejo mais próximo, onde pede ajuda de alguns meninos para encontrar um médico – desde que ele não seja “polaco ou russo”. É assim que ela encontra a Mathilde Beaulieu (Lou de Laâge), uma médica francesa que acaba ajudando as freiras do convento em segredo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Les Innocentes): Primeiramente, quero pedir desculpas para vocês, meus bons leitores e leitoras, por ter demorado tanto para voltar a atualizar o blog. A verdade é que eu vi a Les Innocentes há pouco mais de uma semana, mas só agora eu consegui escrever sobre o filme. Me desculpem. Prometo me esforçar para tentar atualizar mais vezes este espaço precioso.

Bem, agora falando do filme. Les Innocentes começa muito bem. Com uma boa construção de imagens logo no início e uma bela fotografia que relembra filmes recentes protagonizados por mulheres em fase de descoberta e de superação. Mas estes elementos logo dão espaço para uma história mais centrada no roteiro, no drama pessoal das personagens e no desenvolvimento de algumas delas. Como outras produções centradas em um grupo de personagens, Les Innocentes acaba perdendo um pouco a força por tornar um pouco difícil a identificação dos espectadores com as personagens centrais da história.

Claro que um punhado de personagens acaba se desenvolvendo bem neste filme. São exemplo deste desenvolvimento “melhor acabado” as protagonistas – acredito que podemos considerá-las assim – Mathilde Beaulieu, médica francesa que ajuda as freiras grávidas em segredo; a freira Maria (Agata Buzek), que é como um braço direito da Madre Superiora; e a própria Madre Superiora (Agata Kulesza).

Outras freiras que aparecem bastante, algumas delas interpretadas inclusive por atrizes europeias já conhecidas, acabam sendo identificadas apenas com a ajuda das fotos da produção. É que o fato de todas usarem hábitos não ajuda a identificá-las bem. Além disso, poucas tem realmente um desenvolvimento de personagem que vai além do superficial.

Eu diria que, neste sentido, de desenvolvimento de personagem, as que tem um espaço melhor no filme são mesmo as protagonistas. Em segundo plano estão as freiras Teresa (Eliza Rycembel), que vai buscar ajuda para a amiga que está dando a luz; Zofia (Anna Próchniak), a amiga de Teresa que é a primeira a dar a luz no filme; Irena (Joanna Kulig), que acaba deixando o filho dela no convento para as freiras cuidarem e resolve seguir outro rumo na vida; Anna (Katarzyna Dabrowska), freira que acaba duvidando da própria fé e, após dar a luz, assume com alegria a nova função de ser mãe; e a freira Ludwika (Helena Sujecka) que, de tão traumatizada, não tinha percebido que estava grávida e não tinha se dado conta de ter dado a luz sentada na própria cama.

Este filme é essencialmente de mulheres. Mas alguns homens aparecem em cena – especialmente no cotidiano de Mathilde, cercada de homens no hospital militar. Um destes homens tem destaque na produção: o médico Samuel (Vincent Macaigne). Ele aparece, na verdade, para reforçar a leitura da personagem de Mathilde e para ajudar a contrastar a vida dela com a das freiras do convento.

Feitos estes comentários, vamos entrar na história propriamente dita. Les Innocentes agrega valor à leitura variada que nós temos dos efeitos da Segunda Guerra Mundial especialmente porque conta uma história pouco conhecida e sob uma ótica bem feminina. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A guerra tinha acabado, mas os efeitos dela ainda estavam bem presentes nos países que tinham vivido o horror do confronto na própria carne.

Neste contexto conhecemos duas realidades muito diferentes: a de mulheres enclausuradas que acabaram tendo as suas vidas invadidas e agredidas de forma covarde e sem possibilidade de defesa em contraste com a vida independente de uma médica que fez a escolha de dedicar a vida para ajudar as pessoas na Cruz Vermelha. Mathilde é solteira, tem uma profissão, sai com o homem que ela quer, fuma, tem origem familiar um tanto comunista e, basicamente, faz o que ela quer e acha correto. Em contrapartida as freiras que ela encontra em situação de vergonha e medo devem seguir ordens, hierarquia, terem obediência e dedicarem todo o seu tempo para adorar a Deus.

Inicialmente estas duas realidades femininas poderiam se chocar e se confrontar, mas não é isso que acontece. Pelo lado da Madre Superiora há uma resistência inicial com Mathilde não por seu perfil, mas porque ela está muito preocupada em guardar o segredo de suas freiras grávidas. E pelo lado de Mathilde, ela olha para aquela realidade tão diferente da dela com curiosidade, respeito, mas nunca com resistência. Ainda assim, para ela é um pouco difícil se colocar no lugar daquelas jovens mulheres que, em sua maioria, eram virgens antes de serem estupradas. Mas em certa noite ela passa por uma situação muito parecida e então consegue se colocar no lugar delas.

Neste sentido Les Innocentes é um filme muito interessante. Ele faz qualquer mulher, independente do estilo de vida que ela leve, se colocar no lugar de garotas inocentes, puras e que tiveram esta inocência e pureza roubadas de forma bruta. É ultrajante. Não tem como não ficar mexida e indignada com o que vemos em cena. A direção cuidadosa de Anne Fontaine nos leva pela mão e faz com que não seja difícil nos colocarmos no lugar daquelas vítimas – especialmente se o público for feminino.

Como disse lá no início, o que aconteceu com elas foi puro horror, mas cada um reage em relação a esse horror de forma diferente. Quase todas as freiras se questionaram “Por que Deus permitiu que isso acontecesse?”. Na verdade, esta é uma grande questão. Pessoalmente eu não acho que Deus quer ou permite que muitos absurdos e horrores aconteçam. Mas a grande questão é que ele nos deu o livre arbítrio, ou seja, a liberdade de decidir os nossos caminhos e os nossos atos. Ao fazer isso, ao nos dar a liberdade para escolher, ele nos dá a possibilidade de escolher o caminho do bem, da partilha e da doação, assim como nos permite escolher o caminho da maldade, do crime e do ultraje.

Deus nos permitiu escolher, mas jamais concorda com que escolhamos o caminho da maldade. Concordar é uma coisa, nos dar a liberdade para fazer é outra bem diferente. Muitas freiras questionam Deus e inclusive a própria fé, mas depois desta fase muitas acabam entendendo que Deus não teve nada a ver com aquilo. A partir deste momento, em que elas percebem que não devem agradecer ou culpar Deus pelo que soldados calhordas fizeram, elas passam a aceitar ou não a maternidade. Novamente é uma escolha individual de cada uma.

Para morrer basta estar vivo. E para acontecer coisas boas e ruins também. Esta é a verdade nua e crua e da qual não gostamos de ouvir falar muitas vezes. Nada justifica o que aqueles invasores covardes fizeram. Mas a partir do momento em que o “estrago” está feito, o que cada uma daquelas freiras poderiam fazer a respeito? Daí é uma questão muito individual, porque não foi dado para elas o poder da escolha. Há mulheres com vocação para ser mãe, mas nem todas nasceram com esta vocação. Por isso acho perfeitamente compreensível que algumas daquelas freiras se encontraram na maternidade enquanto outras não quiseram saber disso.

Achei o roteiro de Sabrina B. Karine e Alice Vidal, com diálogos de Pascal Bonitzer e Anne Fontaine baseados no conceito original de Philippe Maynial muito sensível. Ele dá o espaço adequado para o drama daquelas freiras se desenvolverem, assim como para a aproximação de Mathilde para aquela história – no fim das contas ela faz a vez dos espectadores que, como ela, devem “mergulhar” aos poucos naquela realidade do convento tão diferente ao que estamos acostumados. A forma com que Anne Fontaine e equipe trabalham funciona muito bem.

Da minha parte, eu apenas encurtaria um pouco a história de Mathilde e de Samuel. É a parte menos interessante da produção e que poderia ter sido ainda mais secundária. Eles tem uma química relativa e se a mensagem era mostrar a independência de Mathilde, não precisava tanto tempo de romance morno entre os dois. O filme perde um pouco de ritmo quando ele tenta descobrir o que Mathilde anda fazendo e tenta se aproximar. Algo que não ajuda na história principal.

Mas algo interessante do filme, e volto a tocar neste ponto, é a aproximação de realidades tão diferentes como o “mundo externo” e o “mundo interno” de um convento. No fim, desmistificamos tanto o papel das freiras quanto o papel da jovem independente. As primeiras são humanas, frágeis mas também fortes, com grande convicção mas também com momentos de dúvidas e questionamentos. E a mulher independente é capaz de se colocar no lugar do outro e também de ser sensível, de se aproximar e conhecer com respeito as realidades que ela não conhecia até há pouco tempo.

Também há o segundo ponto chocante do filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O primeiro ponto chocante é o estupro coletivo das freiras e muitas delas terem ficado grávidas contra as suas vontade. Mas há um outro ponto chocante e que é revelado na parte final da produção e que, este sim, dependia de uma escolha de uma das mulheres enclausuradas. Eu já tinha ficado desconfiada com aquela história da Madre Superiora sempre sair sozinha e só ela dar uma “destinação” para os recém-nascidos. Por isso não foi exatamente uma grande surpresa quando fica claro que ela abandonava as crianças para, se tivessem sorte, fossem encontradas por alguém em meio à neve.

Agora, a troco de quê ela fazia isso? A Igreja é feita por pessoas e, consequentemente, é falha. Tem muitos méritos, virtudes, mas também apresenta, uma ou outra vez, falhas graves. O que Madre Superiora deveria fazer e com o que ela deveria se preocupar? Sem dúvida alguma, por ser cristã, ela deveria buscar preservar a vida sempre, sob qualquer circunstância. Mas com a justificativa de “defender” as freiras ela fez aquele absurdo de abandonar os recém-nascidos. Na verdade o que ela queria era levar para longe a “vergonha” pela qual elas tinham passado. Mas ao sacrificar crianças inocentes ela só tornava o horror ainda maior e mais absurdo.

Enfim, este é um belo filme, com uma história forte e que faz pensar. Ele também convida as mulheres, em especial, a se colocarem no lugar de pessoas interessantes e em um cenário muito diferente. Os homens, imagino, também conseguem dimensionar o horror – ainda que, francamente, eles nunca vão conseguir se colocar totalmente no lugar de uma mulher, neste caso. Mas encarar este absurdo e se conscientizar a respeito dele repudiando qualquer violência contra uma mulher já pode ser um bom começo.

NOTA: 8,8 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos pontos fortes deste filme é, sem dúvida alguma, as ótimas atrizes envolvidas nos papéis principais. Lou de Lâage, que eu já tinha visto antes em outro filme, Respire (com crítica neste link), está ótima. Ela sempre mostra um espírito bastante independente mas, ao mesmo tempo, tem um olhar atento e curioso que casa muito bem com as suas personagens. Uma atriz que vale ser acompanhada, especialmente porque ela costuma se entregar bastante aos seus papéis.

Neste filme a grande revelação para mim foi Agata Buzek. Ela é a freira com a maior complexidade nesta história. Visivelmente ela tem na fé uma de suas fortalezas mas, ao mesmo tempo, ela não é dogmática. Ela realmente se interessa pelas colegas freiras e pelas crianças, assim como pela preservação da vida. Ela tem uma preocupação menor em proteger a Igreja ou a “vergonha” delas e está mais focada em que todas fiquem bem. Sem dúvida alguma uma das personagens melhor desenvolvidas da trama. Merece destaque também a atriz Agata Kulesza, que interpreta a Madre Superiora. Ela é bem mais rígida – até o extremo, podemos dizer -, mas tem um trabalho preciso e que foge, por pouco, do estereótipo.

Como comentei antes, o roteiro deste filme é bom, mas poderia ser um pouco mais curto e reduzir a trama de Mathilde e Samuel. A direção de Anne Fontaine equilibra a valorização do trabalho das atrizes, em especial, ao mesmo tempo que explora as peculiaridades daquele local e daquela época. Na maior parte do tempo a câmera dela está perto das atrizes, flagrando as nuances de suas interpretações, mas em alguns momentos importantes ela valoriza as paisagens cheias de neve – e que, neste caso, representam também perigo.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma o principal destaque vai para a direção de fotografia de Caroline Champetier. Também fazem um bom trabalho Annette Dutertre na edição; Joanna Macha no design de produção; Anna Pabisiak na direção de arte; Kinga Babczynska na decoração de set; e Katarzyna Lewinska nos figurinos. Puxa, agora ao buscar os nomes das pessoas envolvidas no projeto é que me dei conta de como este filme é repleto de mulheres. Muito bacana isso. Por causa deste detalhe importante – fico feliz de ver uma diretora chamando uma equipe basicamente de mulheres e contando uma história importante para elas – vou aumentar um pouco a nota que eu ia dar para este filme originalmente. A proposta da diretora merece.

A trilha sonora de Les Innocentes é muito, muito pontual. Ainda assim, vale citar o seu responsável: Grégoire Hetzel.

Les Innocentes estreou em janeiro deste ano no Festival de Cinema de Sundance. Depois o filme participaria, ainda, de outros sete festivais de cinema pelo mundo. Nesta trajetória o filme colecionou um prêmio e três indicações. O prêmio que ele recebeu foi o dado pelo público como Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema de Princetown.

Coproduzido pela França e pela Polônia, Les Innocentes teria custado 6 milhões de euros. Nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de US$ 487 mil – não há informações, ainda, sobre as bilheterias nos outros países.

Agora, uma curiosidade sobre a produção: a atriz Adèle Haenel foi cotada para interpretar Mathilde Beaulieu antes de Lou de Laâge. Bela disputa, eu diria.

Esta produção foi totalmente gravada na Polônia, em cidades como Orneta e Krosno.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para Les Innocentes. Por sua vez, os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 41 críticas positivas e apenas quatro críticas negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 7,7. Belas avaliações, diga-se.

CONCLUSÃO: Provavelmente este filme terá diferentes leituras conforme o gênero do espectador. As mulheres devem ter uma percepção muito mais aguda do que os homens sobre o que significa este Les Innocentes. Mas independente do gênero do público, algo é fato: esta produção acrescenta mais uma colherada importante na leitura diversificada e múltipla que temos hoje sobre a desgraça que foi a Segunda Guerra Mundial. O tema não parece ter fim, e isso é bom.

Bem construído e com um bom elenco, este filme só peca um pouco pela duração – ele poderia ter, facilmente, meia hora a menos. Mas nada que tire a força da história. Além disso, Les Innocentes tem belas imagens e dramas plausíveis que tornam esta produção mais um importante documento sobre aquela fase tenebrosa da nossa história. Vale ser visto, ainda que ele não esteja na lista dos melhores do gênero. Há filmes mais contundentes e inovadores, mesmo recentes, sobre a Segunda Guerra. Adicione este especialmente se já conferiu aos demais.

Janis: Little Girl Blue

10 de julho de 2016 1 comentário

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Houve um tempo em que parecia natural grandes talentos morrerem cedo. Criou-se uma aura de “viver intensamente e morrer jovem” e este parecia ser o destino de grandes nomes. Esta ideia surgiu após a morte prematura de pessoas como Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison e James Dean, entre outros. Conhecemos os mitos, mas dificilmente a história um pouco mais detalhada deles. Pois bem, Janis: Little Girl Blue é uma grande oportunidade de saber um pouco mais sobre esta grande artista que teve uma vida conturbada, mas que tinha um grande potencial para seguir carreira e que morreu de maneira estúpida.

A HISTÓRIA: Começa com uma gravação de áudio feita com Janis Joplin na qual ela conta porque ela gosta de cantar. Segundo a artista, a graça de cantar é que isso permite ela experimentar muitos sentimentos, e isso é divertido. Janis diz que pode sentir o que está na imaginação dela e que no show que ela fará na sequência ela espera que as pessoas se soltem, porque o “rock é muito rítmico” e faz as pessoas se deixarem levar. Na sequência vemos um trecho de uma apresentação da artista. Pouco a pouco o filme mergulha na vida dela utilizando depoimentos, cartas, fotos e diferentes gravações de shows e de bastidores.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Janis: Little Girl Blue): Não é algo simples falar de um ícone da música como Janis Joplin, ainda mais tanto tempo depois da morte dela. Esta produção, muito bem construída por Amy Berg, foi lançada no ano passado, exatamente 45 anos depois da morte de Janis Joplin. É de arrepiar o resgate que a diretora consegue fazer.

Com uma ajuda fundamental dos irmãos de Janis, ela resgata um material muito pessoal e importante da artista. É de arrepiar aquelas cartas que a artista escreveu para os pais e irmãos dela. E uma carta destas abre o filme, com Janis comentando que está surpresa dela ter completado 27 anos e ao admitir que dois anos antes ela não queria viver mais. Esse material dá um bom fio condutor para o que veremos na sequência.

Janis era uma pessoa que sofria um bocado porque sempre foi diferente. Ela não se parecia com nenhuma outra garota de sua idade em Port Arthur, onde nasceu em 1943. Desde aquela época ela gostava de estar com os meninos e parecia nunca se encaixar realmente. Isso só demonstra, assim como tantos outros exemplos, como a nossa infância e adolescência nos marca de forma decisiva. Alguns conseguem exorcizar os fantasmas dos passado, enquanto outros parecem carregar aquele peso gigante da rejeição como uma carga definitiva para o restante da vida.

De forma muito inteligente, a diretora Amy Berg parte daquela introdução que mostra o sentimento de Janis com a música para retornar para as origens da artista. Através de depoimentos dos irmãos da cantora e de seus amigos de infância, voltamos para a origem familiar e para a formação de Janis. Há um resgate importante e interessante aí dos sentimentos de Janis e da forma como ela não se sentia “em casa” em Port Arthur. Não por acaso, quando teve a oportunidade de sair dali, ela agarrou esta chance com toda a força que tinha.

Além de resgatar a história da artista, este filme faz uma grande homenagem para o talento dela. O espectador tem diversas oportunidades de ouvir Janis fazendo o que ela fazia de melhor, que era cantar e se entregar totalmente à música nos palcos da vida. Impressionante o talento dela, a força que ela tinha como artista e a inovação que ela apresentava naquele cenário do rock e do blues.

Assistindo a Janis: Little Girl Blue, impossível não recordar de outro filme que resgata uma grande artista e que eu vi no início deste ano por causa do Oscar: Amy (com crítica neste link). Elas tem muito, mas muito mesmo em comum. As duas pareciam sofrer muito e carregar muitas dores dentro do peito. Elas tiveram problemas com a família e, principalmente, com amores que não deram certo. Os problemas de origem, desde a infância – Janis mais pelos colegas de escola enquanto Amy parecia ser mais pela separação dos pais e a traição do pai dela -, pareciam ter formado bastante o caráter delas e a carência que ambas sentiam.

Essa energia foi toda concentrada na música, e as duas apresentaram um talento fenomenal. Depois, quando já na trajetória musical e de sucesso, elas tiveram o azar de se relacionarem com homens que não lhe ajudaram em nada. Quer dizer, Janis ainda teve a sorte de encontrar um cara bacana e que a fez feliz por um tempo, mas a separação deles não a ajudou em nada depois. Claro que os dissabores amorosos não explicam a fuga delas através das drogas e do álcool, mas não dá para desprezar que os “corações partidos” também não ajudaram no processo.

O que eu acho impressionante tanto em Janis: Little Girl Blue quanto em Amy é a forma clara com que as drogas e o abuso de álcool são mostrados. Para mim, os dois filmes deveriam ser mostrados para os pré-adolescentes e servir de exemplo como estes abusos não trazem nada de bom, apenas encurtam a vida de pessoas que tinham todo o potencial do mundo e que acabaram sucumbindo para a força destruidora destes itens.

Algo interessante neste filme de Janis, na parte final, é quando um amigo da artista comenta que eles sabiam que muitos amigos e colegas estavam morrendo por causa das drogas, mas que Janis achava que isso não aconteceria com ela. É como hoje tanta gente transando sem camisinha e achando que nunca vai pegar Aids. Este documentário serve para dizer “Hello!!! Vamos acordar para a vida?”. É claro que se você fizer sexo sem camisinha você tem grandes chances de pegar Aids ou outra doença sexualmente transmissível e que se você se drogar e abusar do álcool você tem grandes chances de morrer jovem!!! Caramba!!!

Mas achei importante esse trecho do filme para dar um tapa na cara dos mais desavisados. Espero que o espectador que ver Janis: Little Girl Blue preste a atenção neste e nos demais trechos para se ligar que não há mágica nesta vida. Janis acreditava que ela não iria morrer, como estava acontecendo com os amigos e conhecidos dela, e foi exatamente desta forma que ela morreu aos 27 anos de idade no dia 4 de outubro de 1970, menos de um mês depois da morte de Jimi Hendrix, que morreu no dia 18 de setembro daquele mesmo ano. Nove meses depois, no dia 3 de julho de 1971, seria a vez de Jim Morrison morrer.

Voltando para o início do filme, é especialmente de cortar o coração aquela carta de Janis escrita para os pais em que ela “comemora” que chegou aos 27 anos. Aquelas palavras foram escritas sem ela imaginar, claro, que não chegaria aos 28 anos. Tenho certeza que se todos os artistas que morreram jovens e vítimas de asneiras como drogas e álcool soubessem que eles iriam ser vítimas desta estupidez, eles teriam evitado “viver intensamente e morrer jovem”.

Claro que é complicado saber o que teria acontecido com eles se eles tivessem vivido. Porque, como bem conta este filme e o documentário de Amy, estes grandes nomes também foram grandes porque sentiam demais, tinham uma intensidade insana, praticamente. Ainda assim, sou do grupo que acha que eles poderiam ser grandes e seguir grandes lidando com os seus próprios demônios. Talvez não os vencendo, mas sabendo conviver com eles.

Penso que figuras como Mick Jagger, Keith Richards, Ozzy Osbourne, Steven Tyler, Eric Clapton, entre outros, são exemplo disso. Eles sobreviveram aos “anos malucos” e estão aí até hoje mostrando o talento deles. Alguém pode argumentar que eles não são tão talentosos ou tão intensos quanto Janis, ou que não são tão frágeis quanto ela. A verdade é que não sabemos a vida das pessoas depois que elas saem do palco e dos holofotes. Não acompanhamos o que acontece com elas na vida privada e após todos terem ido embora.

Essa solidão e a dor que vem dela é muito bem mostrada em Janis: Little Girl Blue. Em certo momento do filme isso fica bem claro. No fundo, todas as pessoas tem a sua carga de carência, de necessidade de ser amada e querida. Cada um resolve esta carência de uma forma muito específica e particular. Tem gente que consegue resolver isso bem, valorizando os momentos, mesmo que raros, de afeto, e vivendo bem apesar de se sentirem sozinhos na maior parte do tempo. Mas tem gente que não consegue lidar bem com isso.

O que determina uma realidade e outra? Acredito que diversos fatores. É importante, para começar, a meu ver, ter tido uma infância feliz, em que a pessoa realmente conseguiu ser criança sem maiores traumas. Depois, conforme o tempo foi passando e a pessoa amadurecendo, também é necessário saber construir relações saudáveis e buscar a autossuficiência, a maturidade emocional e o autocontrole.

Particularmente, acredito também que a espiritualidade e a religiosidade (cada um escolhe um destes caminhos) buscadas de forma inteligente e que façam sentido para a pessoa podem fazer uma grande diferença para suportar todos os desafios que a vida traz para qualquer pessoa. Enfim, com o tempo é preciso buscar o equilíbrio e ter boas relações, não cair em relacionamentos destrutivos.

Vendo Amy e agora Janis: Little Girl Blue eu acho que fim trágico das duas não teve apenas a ver com elas “sentirem demais” ou “não serem deste mundo” pelo talento enorme que elas tinham. Muitos gostam deste tipo de resposta. Sim, de fato elas “sentiam demais”, eram muito sensíveis e grandes, grandes talentos. Agora, lhes pergunto: se elas tivessem aprendido a conviver com as dores e fantasmas que todos nós temos, elas não teriam conseguido seguir adiante e mostrado o talento delas por muito mais tempo? Não acho, evidentemente, que isto era apenas uma questão de escolha ou mesmo um esforço que elas deveriam fazer sozinhas.

Sempre que vejo uma história trágica, penso que o entorno delas também não era muito favorável. Sim, várias pessoas perto poderiam gostar muito delas. Mas muitos dos amigos, familiares e colegas de Janis seguiram vivos para contar a história dela. O que diferencia uns e outros? Primeiro, como eu disse antes, eles conseguiram lidar com as suas próprias dores e carências de maneira que a época de drogas, álcool e rock and roll não os consumiu. Como eles conseguiram isso? Bem, acho que parte do mérito foi deles, em uma questão particular e individual, mas parte também porque, talvez em algum momento mais duro, alguém conseguiu ler os sinais de desespero e ajudá-los.

Não estou aqui querendo encontrar culpados. Apenas refletir sobre a razão que faz alguns sobreviverem às angústias da juventude e outros não ultrapassarem aquele momento. Vários fatores influenciam, evidentemente. E, o que Janis: Little Girl Blue fala muito alto para mim, é que ninguém realmente sabe da vida do outro. Por isso mesmo não vale nunca julgarmos ou compararmos.

Cada pessoa é um mundo, e este conjunto de fatores complexos precisa ser respeitado. Ainda assim, devemos estar alertas e, dentro do possível, quando identificamos algum sinal preocupante de alguém que a gente gosta, tentar ajudar de alguma forma. Sabendo, de qualquer maneira, que cada pessoa escolhe a vida que quer ter. Sempre. Esta é a beleza e a grande responsabilidade que cada um de nós tem. Temos toda a liberdade de fazer as nossas escolhas, mas sabendo que elas terão consequências e que precisaremos lidar com elas. É preciso sabedoria e, em alguns momentos, ajuda dos amigos e dos familiares para fazer as escolhas certas.

Mas algo é certo: este filme é, ao mesmo tempo, um grande deleite e um belo soco no estômago. As histórias trágicas de grandes talentos que morrem cedo são assim. Deveríamos tirar lições quando nos deparamos com a narrativa destes meteoros. Janis: Little Girl Blue faz este favor para todos nós. Resgata o imenso talento de Janis Joplin – esta é a parte bacana do filme – e também nos ajuda a conhecer melhor a pessoa por trás da artista. Ela era linda de todas as formas e chega a ser chocante como ela era jovem e tão talentosa com aquela cara de menina inocente do interior. Mas a inocência pode ser consumida com voracidade pelos vícios deste mundo. Este é o soco no estômago.

Para mim, este filme ajuda a ver o belo e o chocante com a mesma atenção. E a não desprezarmos nem um e nem outro. Janis era poderosa e me parecia muito inocente, apesar de carregar tanta dor. No Brasil ela viveu alguns dias de felicidade, e ainda bem que estas imagens estão no filme e estiveram na vida dela. É um certo alento em uma história tão triste e bem contada por Amy Berg. Vale tanto como documento histórico quanto como alerta para os jovens que, igual que Janis e tantos outros, não enxergam bem os perigos que os cercam. Veja e recomende.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vejo sempre com bons olhos filmes que ajudam a humanizar os mitos. Quanto mais temos documentos como este que mostram que os artistas são “pessoas comuns”, mas que nasceram com um talento artístico especial, assim como cada pessoa tem um talento especial para algo, fica mais fácil de tirar estes nomes dos pedestais e de vê-los sem lentes de aumento ou fantasias. Acho que isso ajuda a todos. Desde as pessoas que viveram com eles até todas aquelas que “endeusam” pessoas que deveriam ser vistas com mais humanidade.

Eis mais um grande trabalho desta documentarista californiana chamada Amy Berg. Ela estreou em 2006 na direção de documentários com o ótimo Deliver Us From Evil (comentado aqui no blog).  Assisti ao filme em 2007 porque ele tinha recebido uma certa atenção naquele ano por ter sido indicado ao Oscar como Melhor Documentário. Mesmo perdendo a disputa, o filme serviu como um belo cartão-de-visitas da diretora. Depois daquele documentário ela dirigiu um curta, três documentários e o filme sobre crime/drama Every Secret Thing. Depois do filme sobre Amy, ela dirigiu um episódio da série de documentários para a TV American Masters e, atualmente, trabalha na pós-produção de Ring Girls. Vale acompanhá-la.

A personagem central deste filme, como não poderia deixar de ser, é Janis Joplin. Ela aparece de diferentes formas, em imagens de show, quando resgatamos parte do talento que ela tinha, em gravações feitas pela imprensa e em imagens de bastidores bastante raras, além de arquivo fotográfico e de gravações de áudio. Agora, há uma curiosidade interessante sobre este filme: é Cat Power quem “interpreta” Janis Joplin ao narrar as cartas que a artista deixou para os pais e para os seus ex-namorados. A “interpretação” de Cat Power é um elemento interessante do filme.

Entre as pessoas que falam sobre Janis estão os seus dois irmãos, Laura Joplin e Michael Joplin, e amigos da época de colégio e parceiros de banda e da fase dela de San Francisco como Karleen Bennett, J. Dave Moriaty, Jack Smith, Travis Rivers, Jae Whitaker, Powell St. John, Dave Getz, Sam Andrew, Bob Weir, Peter Albin, D.A. Pennebaker, Dick Cavett, John Coke, Kris Kristofferson, entre outros. A diretora conseguiu também depoimentos interessantes de figuras que acompanharam a trajetória meteórica de Janis como David Dalton, editor fundador da Rolling Stones; Clive Davis, presidente da Columbia Records quando Janis trabalhou para a gravadora; Julius Karpen, manager da Big Brother and the Holding Company em 1967, quando Janis fez parte da banda e despontou, entre outros. Ou seja, Amy Berg fez um grande trabalho de resgate e entrevistou todo mundo que era possível para estabelecer um retrato muito interessante e amplo de Janis Joplin.

Além de humanizar o mito Janis Joplin, este filme acaba resgatando boa parte da “aura” dos músicos que fizeram San Francisco ficar conhecida nos anos 1960 e 1970. Bacana também por isso e por mostrar alguns dos principais artistas da época – pelo menos aqueles que tiveram algum contato com Janis.

Janis: Little Girl Blue estreou em setembro de 2015 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme passaria ainda por 14 festivais em diversas partes do mundo e, no próximo dia 30, será exibido no Festival Internacional de Cinema de Melbourne. Nesta trajetória ele apenas foi apreciado por diferentes públicos porque não recebeu nenhum prêmio até agora.

Não encontrei informações sobre o custo do filme, mas o site Box Office Mojo traz o resultado desta produção nas bilheterias. Nos Estados Unidos o documentário fez pouco mais de US$ 410 mil, enquanto nos outros países em que ele já estrou ele fez outros US$ 1,2 milhão. No total, pois, cerca de US$ 1,63 milhão. Não está mal, mas poderia fazer bem mais – ajude com a propaganda boca-a-boca, pois.😉

Para quem gosta de saber que locais aparecem nos filmes, Janis: Little Girl Blue tem imagens antigas gravadas e em fotografia de Haight Ashbury, em San Francisco; imagens do Monterey Pop Festival, de 1967; cenas do festival de Woodstock promovido em Nova York em 1969; e cenas de arquivo e imagens atuais na casa de família de Janis em Port Arthur, no Texas.

Este documentário é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ele entra naquela lista de países votados por vocês, meus caros leitores, em enquetes passadas aqui no blog.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção. Esta é uma boa avaliação se levarmos em conta o padrão exigente do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 54 críticas positivas e apenas cinco negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,5 também – uma rara coincidência de avaliações.

CONCLUSÃO: Não é fácil mergulhar na história de um ícone do rock 45 anos depois dele ter morrido – este filme é de 2015. Mas a diretora Amy Berg faz um bom trabalho ao resgatar diversas cenas e imagens da época e cobrir o que estas cenas não contam com depoimentos de pessoas que conheceram Janis Joplin de perto. Para quem gosta da artista ou mesmo para quem se interessa por saber um pouco mais sobre este ícone do rock esta é uma grande oportunidade.

Resgate bem feito e bem amarrado, Janis: Little Girl Blue só sofre um pouco com a distância temporal dos fatos e com a limitação em conseguir mais material sobre a protagonista. Ainda assim, é um belo trabalho que, para a nossa sorte, está recheado de boa música. Era de arrepiar o talento de Janis Joplin. E a morte dela foi mais uma fatalidade estúpida e que poderia ter sido evitada. A história dela, assim como de tantos outros, deveria servir de alerta para quem acha que usar drogas não tem nada demais. Nossos problemas e demônios podem e devem ser exorcizados de outra forma. Janis: Little Girl Blue serve, entre outros fins, também para dar este aviso. Belo trabalho.

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