Arrival – A Chegada

3 de dezembro de 2016 Deixe um comentário

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Este filme é recomendado para quem gosta de ficção científica, de ciência pura e dura e de comunicação. Se você não está neste grupo, pense bem antes de assistir a Arrival. Digo isso porque, me perdoem a expressão, mas esse filme é cabecice pura. Sim senhor, sim senhora. Arrival leva várias questões dos fãs de ficção científica para outro patamar. Por mais que desconfiemos de algo aqui e ali, é só no final mesmo que o filme faz todo o sentido. E é aí que você percebe a genialidade da história. Mais um grande filme do Sr. Dennis Villeneuve.

A HISTÓRIA: Da sala de uma casa vemos a uma linda paisagem. Louise Banks (Amy Adams) está admirando a filha, ainda bebê. Na sequência, ela aparece sentada e pede para a filha voltar para ela. Depois, Louise aparece brincando com Hannah (Abigail Pniowsky) maiorzinha. A menina corre, sorri, mas depois Louise aparece chorando no hospital e se despedindo da filha. “Volte para mim”, Louise diz novamente.

Após comentar que não sabe exatamente onde está o começo ou o fim, Louise afirma que existem dias que “definem a sua história além da sua vida”. Então ela recorda do dia em que “eles” chegaram. Ela percebe a sala bastante vazia, na universidade, e então fica sabendo que naves estacionaram em 12 locais do mundo. Assim começa a história do envolvimento de Louise com a chegada de seres de fora do Planeta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu à produção Arrival): Este é um filme em que não dá para dormir no ponto. Como é preciso ter atenção em cada detalhe, também não é recomendado assistir a Arrival cansado. Outros filmes já trataram de extraterrestres e da forma com que a Humanidade lidou com ele em uma possível “invasão” ao nosso Planeta. Mas Arrival leva o tema para um outro patamar.

Na verdade, por incrível que possa parecer, este filme segue a linha do diretor Denis Villeneuve em desbravar alguns dos principais dilemas individuais e coletivos das sociedades. Temos dilemas morais aqui, como em outros filmes dele, e mais que uma produção sobre extraterrestres, esta é uma produção sobre pessoas, seres humanos. Essa é uma das questões brilhantes do filme, mas ela não é a única.

Voltemos um pouquinho. Para começar, mais uma vez, Villeneuve trabalha bem com a questão temporal da história. A exemplo do que vimos antes em Prisoners (comentado aqui) e em Enemy (com crítica neste link), em Arrival, novamente, não temos certeza sobre a ordem dos fatos. Afinal, em que momento os acontecimentos que abrem esta produção estão situados?

A impressão que o roteiro de Eric Heisserer, baseado na história “Story of Your Life” de Ted Chiang, nos dá é que aquele começo são lembranças da protagonista sobre o que aconteceu com a filha dela. Só muito mais para a frente é que vamos saber exatamente do que se trata. Villeneuve a cada filme mostra o seu talento para a narrativa. Depois daquela introdução das memórias de Louise, mergulhamos na ação propriamente dita. A protagonista acompanha as notícias pela TV, como a maioria da população do mundo, mas por ser uma reconhecida especialista em linguística, ela acaba sendo chamada pelo Exército americano, mais especificamente pelo coronel Weber (Forest Whitaker) para ajudar.

Como já foi mostrado em outros filmes, sendo o clássico Close Encounters of the Third Kind talvez o exemplo mais conhecido, a comunicação é um elemento-chave em um encontro de humanos com seres extraterrestres. De forma magistral e irretocável Villeneuve vai construindo a expectativa e a tensão até que pessoas comuns como Louise e o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner) se encontrem com os seres extraterrestres. A escolha é a acertada e funciona muito bem porque cria, desde o início, a empatia no público. Teria sido muito diferente mostrar “uma palhinha” de um encontro de um grupo de militares, por exemplo, como ocorreu no primeiro contato.

A primeira cena impactante é quando o público vê a nave. Impossível para mim, naquele momento, não lembrar do final de outro clássico, 2001: A Space Odyssey. Aliás, lembrei muito destes dois clássicos enquanto assistia a Arrival. E isso só fez ficar mais claro, para mim, como o filme de Villeneuve leva produções deste gênero para outro patamar. Diferente de outros filmes que apostam no confronto e na guerra entre humanos e extraterrestres, estas outras produções tem em comum um olhar muito mais cuidadoso, atento, e que observa, sobretudo, o nosso comportamento em relação ao diferente e ao estranho do que realmente os efeitos destes contatos.

De forma inteligente, o roteirista e o diretor de Arrival constroem a narrativa em um crescente. A primeira tensão é o encontro inicial dos protagonistas com os seres que eles deverão “desvendar”. Depois entra a parte superinteressante e lógica do trabalho linguístico de Louise. Enquanto os militares tem pressa para uma resposta, achando que ela virá simples em um entendimento sobre sons que eles nem sabem se tem algum significado, Louise mostra que é preciso sair do “modelo mental” humano e buscar conhecer a forma com que os seres de fora da Terra pensam.

Esta é a grande sacada do filme, a meu ver. E a grande explicação para o que a história nos revela está em um diálogo entre Louise e Ian. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em determinado momento, quando todos trabalham para compreender a linguagem dos extraterrestres mas ainda não chegaram a parte alguma, Ian pergunta para Louise se ela já está sonhando no idioma deles. E daí ele observa que quando uma pessoa realmente mergulha em um outro idioma, ela passa a pensar de outra forma, a ter a compreensão do mundo modificada e, consequentemente, começa a “sonhar” naquele idioma.

Aí está a grande resposta para o enigma de Arrival. Até então eu ficava me pergunta qual era a razão de, volta e meia, Louise ficar lembrando de momentos com a filha. A primeira resposta, e a mais óbvia, é que fatos do presente estavam fazendo ela relembrar de momentos com Hannah. Essa é a forma linear de pensar, acreditando que a vida tem começo, meio e fim e que, consequentemente, nossa memória também funciona assim. Só que Louise descobre depois de investigar a linguagem dos extraterrestres que eles não tinham uma forma de comunicação linear.

A “viagem” do argumento de Arrival é que se eles não tinham uma linguagem linear, eles também não pensavam ou viam a realidade de forma linear. Desta forma, de fato não existiria passado, presente e futuro, mas todo o conhecimento de alguém que tivesse essa forma de comunicação e, consequentemente, este mapa mental seria também não-linear. Ou seja, atemporal. A genialidade de Arrival ao ter este argumento é que conforme a especialista em linguística Louise ia realmente entendendo a forma de comunicação não-linear, ela própria passava a ver o mundo desta maneira. Assim, ela passou a vivenciar o futuro com a filha que nem havia nascido. Genial, não?

Enquanto todos os outros estavam com pensamento linear, Louise começou a enxergar a realidade de forma não-linear. Mas a compreensão dela, assim como a de qualquer um de nós que se aventura em um novo idioma e em uma nova forma de pensar, vai acontecendo aos poucos e de forma gradativa. Só perto do sinal que ela tem tudo claro. Por isso aquela sequência aparentemente maluca dela com o general Shang (Tzi Ma), manda-chuva da China, faz sentido.

No presente ela não sabia como evitar uma catástrofe mundial, mas conforme o entendimento dela ia ficando mais claro, ela foi buscar “no futuro” a resposta do que ela deveria dizer para Shang. Alguém que pensa de forma linear pode dizer: “Mas não faz sentido, como Shang poderia estar lembrando para ela sobre algo que ela contou para ele no passado se o passado ainda não tinha acontecido e, consequentemente, aquela cena da festa de lançamento do livro dela após o conflito resolvido também não seria uma realidade ainda”.

A questão, e a grande sacada deste filme é esta, é que quando Louise passa a pensar da mesma forma que os extraterrestres, ela tem conhecimento sobre todo o espaço temporal, inclusive do que acontece no futuro. Isso não impede, claro, que ações diferentes dela no presente não modifiquem o futuro. Mas ela tem acesso a conhecimentos prováveis do futuro e, com isso, consegue agir no presente e tomar decisões. Por um tempo depois de ter assistido ao filme me pareceu sem sentido, ainda assim, as cenas iniciais de Arrival.

Afinal, eu ficava pensando, não fazia sentido aquele começo de Louise indo para casa sozinha, como se já tivesse sido abandonada pelo marido e tivesse perdido a filha, e depois ela entrando na missão dos extraterrestres. Afinal, a história de Hannah estava no futuro. Mas aquele começo se explica não como um fato linear, e sim como lembranças de Louise depois que tudo aquilo tinha acontecido. É como se fosse uma introdução para a história que, a partir da chegada dos extraterrestres, volta para trás no tempo.

Enfim, diferente do que pensei inicialmente, Arrival não tem furos. Ele faz sentido, especialmente se você entende a proposta da não-linearidade. Uma dúvida que acho que muitos podem ter é porque no futuro Ian ia abandonar Louise quando ela contou para ele que Hannah iria morrer se ele, como ela, poderia ter a compreensão completa do tempo. Se fosse assim, ele já saberia o que iria acontecer com a filha antes mesmo dela nascer.

Para mim, a explicação para isso é simples: como acontece com diferentes idiomas que temos no mundo atualmente, nem todo mundo tem a capacidade de dominar certas linguagens. Há pessoas que aprendem, que mergulham e que realmente passam a pensar em outro idioma, mas tem outros que não tem esta capacidade. Ian era uma destas pessoas que certamente não entendeu/decifrou profundamento o idioma extraterrestre. Louise escreve um livro sobre aquela linguagem, mas certamente poucas pessoas no mundo tiveram a capacidade dela para realmente compreender o “presente” deixado pelos visitantes de fora da Terra.

Achei a premissa de Arrival brilhante, assim como a forma com que o filme é construído. A narrativa fragmentada e cheia de inserções de diferentes tempos da história de Louise é intricada, não é simples de entender. Mas é brilhante por realmente mergulhar e demonstrar o que a história quer nos mostrar de diferenciado em relação a filmes do gênero. A linguagem e a descoberta dela é fundamental para qualquer relação, e isso fica evidente neste filme.

Além das ponderações envolvendo a linguagem e a comunicação, gostei também de como o filme se debruça na raça humana. Este é outro atrativo da produção. Arrival mostra claramente como, apesar do início as diferentes nações colaborarem entre si, passado algum tempo predomina a característica egoísta e competitiva do ser humano. Isso é demonstrada pela “guerra fria” entre a China, os Estados Unidos e outros países. A tão falada geopolítica se apresenta com toda a sua divisão quando alguns países se sentem ameaçados e querem demonstrar mais força que os outros.

Neste sentido, Arrival apresenta algumas reflexões importantes sobre o nosso mundo. Primeiro, o pavor e o medo das pessoas sobre o desconhecido. Há revolta, depredação e falta de civilidade em várias partes do globo quando as naves aparecem. Depois, conforme o tempo passa e as nações não encontram respostas, a insegurança dos governos também marca posição. Como aconteceu com o 11 de Setembro e em outras ocasiões, a resposta para o medo é a ameaça e o confronto. Primeiro acabam as cooperações entre os países e, depois, muitos se armam para confrontar uma presença que eles não entendem. E quando você não entende, você se sente ameaçado.

Então Arrival não apenas apresenta um conceito interessante e diferenciado sobre o que motivaria a “visita” de extraterrestres na Terra, mas também nos coloca frente a um grande espelho. Como sugere um dos extraterrestres, eles estão “ajudando” a Humanidade desde os primórdios e, desta vez, vieram entregar a sua forma de se comunicar e de “pensar” para que tenhamos um entendimento completo do tempo. Desta forma, se este conhecimento for bem utilizado, catástrofes podem ser minimizadas e guerras podem ser evitadas. Em troca os extraterrestres querem ajuda nossa no futuro. Fica em aberto a razão para isso, mas não deixa de ser inteligente.

O filme precisa de muita atenção, até porque tem várias “interferências” de outros tempos no “presente” da protagonista, mas Arrival é construído de forma inteligente e funciona muito bem. Para finalizar, a produção reflete sobre algo que o brasileiro Pequeno Segredo (comentado aqui) também aborda: como você agiria frente a uma criança que você sabe que vai morrer e que é a sua filha? Você cuidaria para que ela fosse o mais feliz possível ou, de alguma forma, você evitaria aquele sofrimento.

Se em Pequeno Segredo o casal Schürmann deve decidir se vai ou não adotar uma menina que eles sabem que não deverá viver muito tempo, em Arrival Louise deve decidir se vai casar com Ian e ter uma filha com ele sabendo que ela vai morrer ainda jovem. Nos dois casos as duas mulheres optam por viver ao máximo ao lado de suas filhas, cuidando para dar todas as oportunidades de felicidade para elas e sem escapar da dor. Tocante. E nos faz pensar sobre as nossas próprias escolhas e sobre a vida. Ela é bela não porque não tenha dor e sofrimento, mas porque aprendemos com absolutamente tudo, especialmente na relação amorosa com as pessoas, e nisto está a sua beleza.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não é impossível que, conforme eu vá assistindo aos outros favoritos ao Oscar, eu reveja a nota acima. Na verdade, mesmo agora eu fiquei muito em dúvida sobre que avaliação dar para Arrival. A indecisão estava entre o 10 acima e uma nota mais “modesta” como um 9,8. Mas decide dar a nota máxima porque, realmente, não vi nenhum defeito neste filme. O “furo” na história que eu achei que Arrival tinha acabou ficando claro depois de pensar um pouco mais. Arrival é bem redondo e bem acabado, então merece um ótimo conceito.

A direção de Denis Villeneuve, irretocável, e o ótimo roteiro de Eric Heisserer são realmente destaques importantes da produção. Mas não são os únicos. Amy Adams estava inspirada nesta produção, mostrando muita maturidade na interpretação e também muita veracidade na condução de sua personagem. Jeremy Renner está bem, mas ele fica um pouco eclipsado pela parceira de cena. Além deles, os outros atores tem papéis bem secundários, sem nenhum grande destaque.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia difícil e bem planejada e executada de Bradford Young. Também funcionam bem a edição de Joe Walker, a trilha sonora muito pontual de Jóhann Jóhannsson, o ótimo e interessante design de produção de Patrice Vermette, o departamento de som com um trabalho incrível de uma equipe de 33 profissionais, os efeitos especiais com cinco profissionais e os efeitos visuais envolvendo impressionantes 358 profissionais – sim, isso mesmo que você leu, uma equipe gigantesca de 358 profissionais. Não lembro de ter visto a um outro filme, pelo menos recentemente, que tenha envolvido uma equipe tão grande que trabalhou nos efeitos visuais da produção. Realmente o trabalho de toda esta equipe é impressionante e fundamental para Arrival.

Sobre o elenco, além dos atores que eu já destaque, vale citar o bom trabalho – ainda que sem graaaande expressão – dos atores Forest Whitaker como o coronel Weber, que convoca Louis e Ian; Michael Stuhlbarg, que interpreta o agente Halpern, que está coordenando as ações em Montana; Tzi Ma como o general Shang, presidente da China; Abigail Pniowsky como a Hannah de oito anos de idade; Mark O’Brien como o capitão Marks, um dos militares incomodados com a “falta de ação” contra os extraterrestres; Jadyn Malone como a Hannah de seis anos de idade; Julia Scarlett Dan como a Hannah com 12 anos de idade; e Carmela Nossa Guizzo como a Hannah de quatro anos.

Arrival estreou no Festival de Cinema de Veneza no dia 1º de setembro. Até o final de outubro ele participou e outros 12 festivais, uma verdadeira maratona, e em novembro, de mais dois. Com esta trajetória o filme conseguiu um prêmios e foi indicado a outros 13. O único que ele recebeu, até agora, foi o Silver Frog no Camerimage.

Esta produção, que teria custado cerca de US$ 47 milhões, faturou apenas nos Estados Unidos cerca de R$ 67,8 milhões. Nos outros países em que já estreou o filme fez outros US$ 32,2 milhões. Batendo a marca de US$ 100 milhões e tendo muito ainda para faturar, Arrival é uma produção que sairá no lucro apesar do seu alto custo.

Arrival foi totalmente rodado no Canadá, em lugares como Montreal e Bas-Saint-Laurent. Entre outros locais, um dos pontos que foi aproveitado como cenário da produção foi a Universidade de Montreal.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O diretor Denis Villeneuve e o roteirista Eric Heisserer criaram uma linguagem visual alienígena funcional. Eles criaram um tipo de “glossário” de logogramas com 100 tipos diferentes de imagens com “significados”, sendo que 70 delas são vistas no filme.

Na história de Ted Chiang, desembarcam na Terra 112 naves muito menores dos que as apresentadas no filme. Mas, sem dúvida, para o cinema, funcionou melhor a escolha feita pelos realizadores de Arrival.

Antes das filmagens começarem, Amy Adams não sabia falar mandarim. Mas ela acaba tendo que dizer uma frase neste idioma em certo momento. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aliás, a frase que o general Shang sussurra para ela e que teria sido dita pela mulher dele no leito de morte foi: “Na guerra não existem vencedores, apenas viúvas”. Uma boa frase para ele repensar o que estava prestes a fazer na história, realmente.

Descobri algumas coisas interessantes ao ler as notas da produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Inicialmente o filme teria “presentes” diferentes deixados pelos alienígenas em cada um dos oito países em que eles pararam as suas naves. Mas Villeneuve mudou de ideia após assistir a Interstellar. Ele não queria que um filme lembrasse o outro. A exemplo de quando Louise conta para Hannah que ela tinha recebido este nome porque ele era um palíndromo, o próprio filme e a última música que aparecem nele também são um palíndromo. Ou seja, as cenas iniciais do filme são também como a produção termina, uma forma de mostrar que a linguagem e a forma de pensar dos extraterrestres que nos é “presenteada” e compreendida por Louise não é linear e nem tem início, meio ou fim.

Denis Villeneuve é, sem dúvida alguma, um dos novos diretores que vale a pena acompanhar. Gostei muito dos dois filmes anteriores dele, que eu citei lá mais no início deste texto. Além deles, sei que tem outros filmes de Villeneuve que eu perdi e que foram bem elogiados – um dia, ainda, quero assisti-los. A próxima produção dirigida por ele também promete. Ele já está trabalhando na pós-produção de Blade Runner 2049, filme que dá continuidade para o clássico de Ridley Scott e que tem no elenco, entre outros nomes, Robin Wright, Harrison Ford, Ryan Gosling, Jared Leto, Barkhad Abdi, entre outros. Promete.

Assisti a este filme no cinema, e ele realmente pede ser apreciado em uma telona e com um grande som.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para Arrival, enquanto os críticos do site Rotten Tomatoes dedicaram 248 críticas positivas e 18 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,4. Tanto a nota do público quanto da crítica comprovam que o filme foi aprovado por estes dois públicos e que está bem credenciado para emplacar alguns prêmios e indicações daqui para a frente.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Que filme, meus amigos! Ainda que ele não ignore outras referências de filmes com “contatos alienígenas”, ele nos leva a outro patamar neste tipo de produção. Mais do que nos fazer pensar sobre os “visitantes”, Arrival nos faz refletir sobre nós mesmos e sobre o tipo de organização global em que estamos. Este é um nível de análise. Mas há outro existencialista e um terceiro sobre a importância da comunicação. De forma muito genial o filme nos constrói uma narrativa que fará sentido realmente no final.

Com um roteiro primoroso, ótimos atores e uma direção competente, Arrival é realmente uma das grandes pedidas deste período pré-Oscar. Mais uma vez o diretor Dennis Villeneuve soube me conquistar. Por pouco ele não apresenta nenhum furo ou defeito. Por isso ele vai merecer as indicações que deverá receber no próximo Oscar. Agora, como eu comentei antes, este filme é super difícil de entender. É preciso estar atento e gostar dos temas para não ficar “perdido” no final. Para quem está familiarizado com boa parte dos temas tratados, contudo, Arrival é um deleite. Recomendo para estas pessoas. Para as demais, acredito que outros filmes podem funcionar melhor.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Este é um dos filmes inevitáveis nesta temporada pré-Oscar segundo muitas bolsas de apostas de especialistas. Ao assistir a Arrival eu percebi o porquê do filme ser apontado como promissor em diversas categorias. Só não sei se a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood vai topar o desafio de dar evidência para um filme tão complexo. Porque este filme não tem nada de simples ou de muito palatável para o grande público.

Caso a Academia resolver dar o devido crédito para o filme, apesar dele não ser muito simples, Arrival realmente pode chegar longe no Oscar. Há quem aposte que Arrival poderá ser indicado como Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado. Realmente eu acho que ele pode emplacar todas estas indicações, além de algumas outras técnicas, como Melhores Efeitos Visuais, Melhor Mixagem de Som e, talvez, Melhor Edição de Som.

Entre as categorias principais, talvez apenas Melhor Diretor pode ser mais difícil do filme figurar. Nas demais, acredito que ela consiga emplacar uma indicação. Agora, saber se ela tem chance de ganhar em alguma ou mais de uma, só esperando para ver a outros dos favoritos. Aparentemente Arrival corre por fora, mas vou conseguir falar com mais propriedade sobre isso após assistir a outros favoritos, como La La Land, Jackie, Fences, Silence e Manchester by the Sea. Veremos.

Ya Tayr El Tayer – The Idol – O Ídolo

27 de novembro de 2016 1 comentário

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Muitas pessoas fascinaram o mundo pelo seu talento. Alguns realmente estavam muito acima da média, enquanto outros foram galgados a um posto de destaque também por causa de sua história de superação. Ya Tayr el Tayer conta uma destas histórias, de um talento que se destaca também por suas origens. O representante da Palestina no Oscar 2017 sabe explorar a história real de um ídolo de Gaza e dos palestinos para tornar a produção sobre ele um tanto universal e um tanto “nos moldes” para fascinar os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

A HISTÓRIA: Começa avisando que o filme é inspirado em uma história real, mas que alguns fatos são ficção. Tudo começa em Gaza, na Palestina, em 2005. Um grupo de crianças está jogando futebol, até que uma confusão começa. Nour (Hiba Attalah) pede para Ahmad (Ahmad Qasem) jogar o dinheiro. Ela e o irmão, Mohammed (Kais Attalah) saem correndo, perseguidos por meninos maiores. Correndo pelas ruas da cidade eles conseguem escapar, até que ficam encurralados.

Mas Nour consegue enxergar uma saída inusitada. Eles são rápidos e conseguem chegar em casa, onde ficam a salvo. Em seguida, eles começam a estudar, mas não escapam de receber uma bronca da mãe. Eles já juntaram 337 shekels. O sonho dos irmãos e de dois amigos é comprar bons instrumentos musicais para fazerem sucesso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ya Tayr el Tayer): Esta produção começa bem ao apresentar logo os personagens principais e os seus sonhos, assim como o seu entorno. Crianças em um local que logo será de conflito e de destruição sempre rende uma boa história e, claro, entra no tipo de filme que a Academia gosta.

Primeiro, Ya Tayr el Tayer tem crianças corajosas e que vão atrásd e seus sonhos. Depois, é um filme que ilustra bem uma realidade complicada. Quer dizer, ao menos parece que ele ilustra bem. Sabemos que a realidade de Gaza foi muito pior do que este filme mostra, mas até nisso Ya Tayr el Tayer se encaixa bem no estilo do Oscar. Afinal, Hollywood é pura fantasia, e ainda que a Academia tenha apostado mais em filmes independentes e interessantes nos últimos anos, entre os premiados ela costuma escolher filmes geralmente menos ousados. Ya Tayr el Tayer é exatamente isso, um filme pouco ousado.

Francamente eu não conhecia a história do ídolo de Gaza e da Palestina Mohammed Assaf. Perdi as notícias que falaram sobre este fenômeno da música. Mas, depois de assistir a Ya Tayr el Tayer, claro que eu fui atrás de saber mais detalhes sobre ele. Daí também percebi o quanto o filme embarcou em “licenças poéticas” para se tornar mais “palatável” para as audiências de outros países.

Mas antes de falar das mudanças na história real que o filme produz, vamos retornar um pouco na história. Gostei da pegada inicial do filme porque ela mostra crianças sendo crianças em um território de refugiados. Isso é importante. Mostrar que a vida segue apesar das mortes, do luto e dos conflitos. Apesar disso, aquele início de correria me fez lembrar outras produções muito conhecidas, como Cidade de Deus (grande filme brasileiro) e até mesmo o ótimo Slumdog Millionaire (comentado aqui).

Aliás, se pararmos para pensar, Ya Tayr el Tayer lembra bastante Slumdog Millionaire. A diferença é que o candidato da Palestina para o Oscar se passa em um terreno de conflitos e de destruição mais do que de pobreza. Mas justamente aí reside um dos problemas do filme. Quando ele avança sete anos na vida do protagonista, passando de 2005 para 2012, vamos claramente a diferença da Faixa de Gaza neste período. A cidade, que antes tinha poucos sinais de conflito – um rapaz sem perna em um momento, uma cerca que isola a população mostrada em outro momento -, neste segundo momento da história se mostra um terreno quase todo arrasado.

As pessoas vivem entre escombros, se virando aqui e ali e tentando sobreviver. E há mais pessoas, como o amigo do protagonista, Omar (Abdel Kareem Barakeh quando criança, Ahmed Al Rokh quando adulto), que resolvem radicalizar e pegar em armas. No caso de Omar, ele atua na fronteira, mas está envolvido na “causa palestina”. Só que o problema do filme, apesar de mostrar bem esta mudança de paisagem, é não entrar mais profundamente no drama palestino. Vemos uns dois mutilados no filme inteiro, mas quase ninguém trata das mortes, do luto, das perdas da comunidade. O assunto é tratado de forma muito “ligeira”.

Para mim, este é um dos problemas do filme. O outro é que ele se torna muito previsível. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois daquele começo que lembra outras produções mas que até é interessante, logo que Nour fica doente, prevemos que fim ela vai ter. Daí a história avança sete anos e já prevemos também qual será o destino de Mohammed (vivido na fase adulta por Tawfeek Barhom).

Comento isso me colocando na posição de quem não conhecia a história real por trás do filme. Para quem já conhecia a história de Mohammed Assaf, este filme deve ser ainda mais previsível. Bem, isso se descontarmos as “licenças poéticas” do roteiro da dupla Hany Abu-Assad e Sameh Zoabi. Não consegui descobrir se Mohammed realmente teve uma irmã que morreu ainda criança, mas algo eu descobri: diferente do que Ya Tayr el Tayer sugere e mostra, ele não tinha apenas uma irmã, e sim seis irmãos e irmãs.

Lendo a uma entrevista do diretor Hany Abu-Assad, ele justificou a mudança, de mostrar o garoto com apenas uma irmã, para tornar o filme mais “impactante” e para tornar mais universal a história – afinal, todo mundo entende uma relação afetuosa entre um irmão e uma irmã. Dá para entender essa intenção do diretor, mas acho que teria sido mais interessante tentar contar a história da forma mais fiel possível. Afinal, Ya Tayr el Tayer atende também a um público aficionado pelo protagonista, e este público merecia ter uma história mais legítima.

Quando o filme fica previsível, ele não apenas perde um pouco do impacto e da força, mas especialmente no desenrolar da doença da irmã do protagonista ele se torna um tanto sentimentalista. Achei que os roteiristas perderam um pouco a mão na sequência final da menina, quando Mohammed insiste para ela repetir a frase que havia dito antes, de que “seremos grandes e mudaremos o mundo”. Quando esta cena acontece já estamos preparados para ela. Provavelmente a sequência funcionou para a cultura árabe, mas tenho as minhas dúvidas se funciona para outras latitudes.

Agora, dois aspectos mostrados neste filme provocam reflexão. Primeiro, ainda que não seja bem explorada, a questão da cultura machista na Palestina. Nour trilha o caminho da independência e isso incomoda a muitas pessoas que mexem com ela por ela “parecer um menino”. O comportamento da mulher, na média, deveria ser outro, bem mais “amistoso” e serviçal.

O outro aspecto é a própria saída apresentada para a menina quando ela fica doente. Ou a família consegue um doador voluntário (o irmão se candidata, mas não tem o sangue compatível), ou tem que pagar US$ 15 mil para conseguir um órgão saudável. Ou seja, por lá não existe lista de doadores. Sobrevive quem tem dinheiro. É a dura realidade de muitos lugares, infelizmente.

A parte do passado do protagonista, desta forma, acaba sendo bem modificada e “floreada” para tornar o filme mais palatável. Depois, quando entramos na fase do concurso musical propriamente dito, a história fica mais próxima da realidade. Realmente Mohammed chegou tarde para a classificatória do concurso Arab Idol (versão árabe do popular American Idol) e entrou no local em que estavam outros candidatos fugindo dos seguranças. Uma outra “liberdade poética” do filme é mostrar ele cantando no banheiro e, desta forma, convencendo um outro candidato e lhe dar o bilhete para a audição.

Na verdade, Mohammed escapou dos seguranças e acabou cantando na frente de diversos candidatos. Um deles, também palestino, percebendo o talento do rapaz, realmente resolveu lhe dar o bilhete para a audição. No mais, a história é a que a maioria das pessoas – ao menos as que acompanham Arab Idol – já conhece. Semana após semana Mohammed foi mostrando o seu talento até chegar na grande final. Nesta parte, achei um pouco o estranho o filme mesclar imagens reais e as da produção, com as cenas do verdadeiro Mohammed sendo mostradas sempre à distância e as imagens do ator que o interpreta, Tawfeek Barhom, sendo colocadas na tela de uma forma meio fake.

Enfim, o filme tem as suas boas intenções, mas eu acho que ele foi feito mesmo sob medida para agradar aos fãs de Mohammed Assaf. Ele conta uma história bacana de um morador da Faixa de Gaza que deixa um cenário de destruição para mostrar o seu dom e obter êxito. De fato, dá para entender porque os moradores daquele local se encheram de tanto orgulho. Apesar das mortes, das perdas e da destruição, é preciso falar de talento, de superação e da vida. A história de Assaf tem tudo isso, mas o filme sobre ele não é tão interessante quanto poderia ser.

NOTA: 7,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A melhor parte do filme é, sem dúvida alguma, o elenco infantil. As crianças estão muito bem. São a parte bacana da história. Ainda que ninguém esteja mal, as quatro crianças fazem um belo trabalho, os irmãos Assaf são o destaque. Hiba Attalah está ótima como Nour, com uma interpretação que convence pelo olhar. O mesmo pode ser dito por Kais Attalah – que, ainda que Tawfeek Barhom seja bom, me convenceu mais até que o ator adulto. Estão bem também, com interpretações coerentes e que passam credibilidade, os jovens Abdel Kareem Barakeh e Ahmad Qasem. Eles são, sem nenhuma dúvida, o melhor de Ya Tayr el Tayer.

Eu gostei da parte “se vira nos trinta” das crianças na primeira parte do filme. Eles buscam ganhar dinheiro para comprar os instrumentos musicais apostando dinheiro no futebol, depois pescando e vendendo peixe para quem passasse e, finalmente, Mohammed tem a ideia de começar a ganhar dinheiro com a própria voz. Primeiro, na mesquita e, depois, em festas de casamento. Ahmad descobre, lá pelas tantas, como vender Wacdonald’s (sim, uma versão de Macdonald’s) de forma ilegal em Gaza e faturar dinheiro com isso. Eles se viram, como qualquer garotada que vive em um local com poucos recursos.

Depois de assistir a Ya Tayr el Tayer eu fui atrás da história real de Mohammed Assaf. Há muito material sobre ele na internet. No filme já percebemos, perto do final, que ele é do estilo galã. Muito bonito, carismático, ele tem uma presença marcante, além de uma voz potente e linda. Achei que o filme Ya Tayr el Tayer explorou pouco estas qualidades dele. Faltou mostrar ele cantando em mais momentos e, claro, escolher um ator que tivesse mais a ver com ele. Nada contra Tawfeek Barhom, mas ele não faz jus para o original.

Da parte técnica do filme, não há nada para realmente destacar. O roteiro, como eu disse, acho que poderia ser melhor. A direção de Hany Abu-Assad é boa, especialmente com o bom ritmo do início, mas depois segue uma linha um tanto confortável. Talvez a trilha sonora de Hani Asfari se destaque e mereça uma menção especial. A edição de Eyas Salman é boa, mas nada excepcional, assim como a direção de fotografia de Ehab Assal.

Além dos atores já citados, vale destacar outros coadjuvantes com papel significativo na história: Dima Awawdeh como Amal e Teya Hussein como Amal quando criança, as duas vivendo a personagem que conhece Mohammed e a irmã dele, Nour, quando ela está fazendo tratamento no hospital; Amer Hlehel como Kamal, o músico que ajuda a turma de garotos quando eles estão querendo melhorar e, depois, segue ajudando Mohammed; Manal Awad como a mãe de Mohammed e Nour e Walid Abed Elsalam como o pai dos dois; e Azmi Al-Hasani como Ismael, o palestino que resolve doar o seu ticket para Mohammed tentar uma vaga no Arab Idol. Aliás, Azmi Al-Hasani tem masi a ver com o Mohammed original do que o próprio Barhom.

Fora o óbvio “vale a pena lutar pelos seus sonhos” e de que as pessoas devem lutar pelas “causas certas” (no caso do protagonista deste filme, ele briga para dar voz para os moradores de Gaza, para os palestinos, e também para homenagear a irmã), Ya Tayr El Tayer tem uma outra reflexão interessante: de que na hora de um grande desafio, devemos nos apegar ao simples, a uma motivação mais concreta do que pensar em toda a repercussão que algo que fazemos pode ter. Comento isso por causa do ataque de pânico que Mohammed sofre ao perceber que o seu sonho está tomando uma proporção gigantesca e que ele não esperava. No final, ele se apega ao efeito que o seu talento tem para Amal e, com isso, tornando tudo mais simples, ele segue em frente. Esta é uma boa dica.

Ya Tayr El Tayer estreou no Festival Internacional de Toronto em setembro de 2015. Depois, o filme passaria ainda por outros nove festivais, incluindo o de Londres, Warsaw, Torino, Hong Kong e Munique. Até o momento o filme recebeu um prêmio e foi indicado a outros quatro. O único prêmio que Ya Tayr El Tayer recebeu foi o Prêmio Unesco dado pelo Asia Pacific Screen Awards.

Esta produção, 100% da Palestina, foi também totalmente rodada no país árabe, mais precisamente na cidade de Jenin.

Mohammed Assaf é um fenômeno. Seus vídeos no YouTube tem milhares de visualizações. Este aqui, de três anos atrás e do Arab Idol, tem nada menos que 47,69 milhões de visualizações. Nele é possível perceber, realmente, como o intérprete tem uma voz incrível. Interessante também este vídeo de uma música que ele lançou após o Arab Idol e que foi gravado em Gaza – produção que mistura as tradições e o “patriotismo” de Mohammed com uma pegada mais moderna e contemporânea.

Como comentei antes, em determinado momento o filme mostra o verdadeiro Mohammed Assaf. É perto de ser anunciada a vitória dele no programa. Daí o cantor faz uma pequena ponta no filme aparecendo no lugar do ator que o interpreta. Escolha curiosa do diretor.

O diretor israelense Hany Abu-Assad tem 55 anos e 11 filmes no currículo como diretor. Ele estreou no cinema com Het 14e Kippetje, em 1998, e tem 17 prêmios em sua trajetória até o momento. A maior parte dos prêmios ele recebeu pelos filmes Omar, de 2013, e Paradise Now, de 2005 – ambos indicados ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Ou seja, Abu-Assad é um velho conhecido da Academia. Eu não assisti a nenhum dos filmes anteriores dele, sou franca em dizer. Quem sabe agora é hora de ir atrás? Até porque estes dois filmes, além de terem sido indicados ao Oscar, tem notas melhores no IMDb do que Ya Tayr el Tayer.

Ya Tayr el Tayer é a indicação oficial da Palestina para o Oscar 2017 de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 35 críticas positivas e apenas seis negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 85% e uma nota média de 6,7.

CONCLUSÃO: Este filme tem, sem dúvida alguma, a “cara do Oscar”. Pelo menos quando a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira era mais tradicional – nos últimos anos ela se mostrou um pouco menos óbvia. Ya Tayr el Tayer conta a história de sucesso de um personagem improvável, valorizando o talento e a obstinação por um sonho. É bonitinho, é interessante, mas é fraco. Sem dúvida alguma está abaixo da média de filmes que eu vi até o momento e que concorrem ao Oscar 2017. Achei ele curioso apenas no início, porque depois Ya Tayr el Tayer cai em um lugar-comum e em roteiro bastante previsível. Vale ser visto se você é fã do artista que inspirou o filme. No mais, vale apenas pela curiosidade. Não é um filme que vai marcar a sua vida.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Como eu adiantei logo acima, para mim Ya Tayr el Tayer é o mais fraco entre os concorrentes que eu vi até o momento da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Apesar do começo promissor, o filme depois embarca em um tipo de roteiro bastante previsível e que se esforça para nos fazer nos emocionar – comigo, ao menos, a estratégia não funcionou.

Mesmo sem conhecer a história de Mohammed Assaf até então, eu não me surpreendi nem um pouco como o desenrolar de sua história e das pessoas que o cercam. Mas ser surpreende não é pré-requisito para o Oscar. Como uma obra de cinema, achei o filme apenas mediano. Mas se a Academia resolver ser “tradicional”, ela até pode fazer Ya Tayr el Tayer avançar e ficar entre os nove pré-indicados. Especialmente para passar uma mensagem de que a história dos palestinos merece ser ouvida. Isso pode acontecer, mas acho improvável.

Apesar de figurar em diversas listas como um dos filmes que pode chegar lá, acho Ya Tayr el Tayer muito fraco e previsível para conseguir uma das nove vagas bastante disputadas – tem menos chances ainda de ficar entre os cinco finalistas. Surpresas sempre podem acontecer, mas não acho que este será o caso de Ya Tayr el Tayer. Apesar de ter uma história previsível, o filme acerta ao mostrar o “antes e o depois” da tragédia chamada Faixa de Gaza, com toda a destruição que foi provocada no local em poucos anos. Só acho que o filme poderia ser mais contundente.

En Man Som Heter Ove – A Man Called Ove – Um Homem Chamado Ove

26 de novembro de 2016 Deixe um comentário

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Quando encontramos uma pessoa ranzinza ou apenas “estranha” pela frente, devemos sempre parar alguns segundos para pensar: “eu não sei nada sobre a vida desta pessoa, então terei calma neste andor”. Porque não sabemos mesmo nada ou quase nada sobre aquela pessoa. Por isso mesmo, não devemos logo colocar esta pessoa em uma caixa ou colar uma etiqueta nela. Afinal, não temos ideia pelo que ela já passou, está passando, sobre os seus sonhos, medos, desejos ou frustrações. En Man Som Heter Ove começa com um sujeito destes, um tanto ranzinza, um tanto estranho. E é justamente a história dele que nos dá muitas lições.

A HISTÓRIA: Em uma loja de plantas e artigos para o jardim, Ove (Rolf Lassgard) vê uma placa de promoção de buquês de rosa e escolhe um ramalhete. Na fila do caixa, ele impede que uma senhora passe na frente dele. Ao ser atendido, ele quer pagar 35 coroas por um buquê alegando que isto é metade da promoção que prevê dois buquês por 70 coroas. Ele discute com a caixa e diz que não acha correta a forma com que eles trabalham. No fim das contas, ele leva os dois buquês para o cemitério, e diz em frente ao túmulo de Sonja que sente a falta dela. No dia seguinte, ele sai para a sua ronda matinal na vizinhança antes de ir para o trabalho. Pouco a pouco vamos conhecendo este sujeito com hábitos bem definidos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a En Man Som Heter Ove): Em algum momento da sua vida você já deve ter cruzado com alguém do tipo de Ove. Um sujeito obstinado em fazer tudo certo e que não tem muita paciência com os “idiotas” que ele vai encontrando pelo caminho. Eu mesma, devo admitir, muitas vezes tenho que me esforçar para ter paciência com quem não dá a mínima para as regras da boa civilidade.

Por isso mesmo, logo me apaixonei pelo protagonista. Claro que contou muito para isso o ótimo trabalho do ator Rolf Lassgard. Ele consegue, mesmo no momento em que ele tem uma crise de chatice, ser de alguma forma terno e gracioso. Quando o filme começa, nós temos uma impressão sobre o que vai acontecer. Depois de mais uma ronda pela vizinhança, o protagonista vai para o trabalho, rotina que ele mantêm nos últimos 43 anos. Esse tempo todo na empresa não impede que ele seja poupado da demissão.

Neste início do filme, pensei que a história teria uma forte carga social. E ainda que a produção tenha vários elementos de análise da sociedade sueca atual, En Man Som Heter Ove é bem mais filosófico e humano do que poderíamos pensar no princípio. A trilha sonora de Gaute Storaas e o ótimo roteiro do diretor Hannes Holm logo mostram que esta produção tem uma boa carga de comédia. Aliás, esta é a primeira produção pré-indicada na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira que tem a comédia como um elemento importante.

Baseado no livro de Fredrik Backman, este filme acerta na mosca no equilíbrio entre comédia e drama. Após aquela introdução curiosa sobre a personalidade de Ove, vamos pouco a pouco desbravando a sua história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Esta não é a primeira produção que mostra um protagonista que tenta se matar e que não consegue porque acaba sendo impedido em cada uma de suas tentativas. Os novos vizinhos de Ove, uma família de imigrantes, acaba sendo decisiva para esta guinada na trajetória do protagonista. Mas não são apenas eles. Até um jovem que resolve sair do armário acaba impedindo Ove de se matar.

Como acontece na vida real, mas certamente com menos frequência do que nesta comédia, todas as vezes que alguém impede Ove de seu intento é por acidente. Não é nada planejado. Mas eis aí uma das belas lições deste filme: como a boa relação entre vizinhos e a preocupação genuína das pessoas uma como as outras fazem toda a diferença na vida de uma comunidade e dos indivíduos. Ove parece um chato de galocha no início, sob a ótica de alguns, mas pouco a pouco ele vai se revelando um homem corretíssimo e muito zeloso com a vida da comunidade.

Quando Ove parece que vai realizar o seu desejo, “um filme” passa pela sua cabeça e ele começa a lembrar da própria trajetória. E é aí que o roteiro de Holm fica ainda mais rico e interessante. Mergulhamos na vida do personagem desde a sua infância, sabendo como ele perdeu a mãe cedo e como era a relação dele com um pai bastante calado e pouco afetuoso. Ele próprio, aparentemente, sempre foi um homem de poucas palavras. Mas ele encontrou a felicidade e uma parceira para a vida quando conheceu acidentalmente em um trem a bela Sonja (Ida Engvoll).

Seguindo a linha de muitos outros filmes, En Man Som Heter Ove também mescla dois tempos narrativos, em um constante e bem construído “ir e vir” do tempo atual, quando Ove tenta dar um fim em sua vida “sem graça”, e a sua vida passada. Uma outra lição desta produção é que por mais que algumas vezes pensemos que a nossa vida não tem saída ou que faz mais sentido morrermos para encontrarmos em outro lugar quem a gente mais amou e que partiu antes de nós, a vida sempre tem as suas surpresas e reviravoltas.

Ove acaba sendo fundamental para vários eventos importantes na comunidade, mesmo quando ele achou que não tinha mais “utilidade” nenhuma neste mundo. Ele não apenas ajuda a família de Parvaneh (Bahar Pars), mas também cria uma relação muito afetuosa com eles, especialmente com as filhas dela. Ove também consegue recuperar a amizade com Rune (Börje Lundberg), vizinho do qual ele foi parceiro muito tempo mas do qual se afastou porque a relação deles foi abalada por causa de “convicções” envolvendo carros e a nacionalidade deles. Isso mostra como uma pessoa simples, que acha que pode não ter grande importância no mundo, pode sim fazer muita diferença para várias pessoas.

En Man Som Heter Ove é bem construído em todos os seus elementos. O roteiro de Hannes Holm acerta ao começar com a comédia e com a parte “mais esquisita” e uma das mais atrativas do protagonista, facilmente identificada entre o público, para depois ir mergulhando na história do personagem. Como a história vai crescendo aos poucos, é praticamente inevitável se emocionar com o final – eu chorei, e com gosto, eu admito. Ove tem uma história maravilhosa porque nos ensina a grandeza das pessoas simples, corretas, que procuram sempre fazer o bem. O que não lhes impede de serem exigentes e um tanto esquisitas em muitos momentos.

Da minha parte, também me senti um pouco “representada” por Ove. Nem sempre eu sou direta e meio “grossa” como ele com as pessoas sem educação deste mundo, mas certamente eu também me “estresso” com várias pequenas demonstrações de falta de respeito no cotidiano. Além disso, certamente já encontrei com um ou dois sujeitos um tanto “ranzinzas” como Ove.

Pessoas que se acostumaram a ficar sozinhas, na maioria das vezes a contragosto, e que não sabem lidar muito bem com isso. A resposta para esta infelicidade é elas acabarem se isolando ainda mais, se afastando das pessoas. Mas tudo que elas querem é um pouco de atenção e de afeto, algo que Ove recebe quase sem querer por parte de Parvaneh e suas filhas. Sempre é bonito de ver como pessoas um tanto “desajeitadas” para o afeto são tocadas por ele.

Finalmente, acho que uma das grandes belezas deste filme é mostrar como vale a pena ser honesto, ser correto e dedicado. Ove é um sujeito que sempre buscou fazer o que era certo e ajudar a quem ele podia. Ele nunca se isentou, nunca virou as costas, e foi extremamente dedicado para a sua mulher, Sonja, além de ser generoso com Parvaneh e com outras pessoas. Um lado totalmente desconhecido para quem lidava apenas com o lado “ranzinza” e exigente dele.

Com isso, de forma muito sutil e bonita, En Man Som Heter Ove nos lembra que uma pessoa nunca é apenas uma coisa. Normalmente ela tem uma diversidade que poucos conhecem e que merece ser conhecida quando damos a oportunidade para que a pessoa revele a sua parte mais bonita. Mas para isso, é claro, essa pessoa precisa ter a oportunidade de mostrar este “outro lado”, mais vulnerável e muitas vezes difícil de perceber em um contato mais superficial. Belo filme, muito sensível e bem construído.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O primeiro elemento que me chamou a atenção nesta produção foi a ótima trilha sonora de Gaute Storaas. Depois, conforme o filme avança e percebemos os dois tempos narrativos, chama a atenção a direção de fotografia que diferencia bem estes dois tempos e que é assinada por Göran Hallberg. O tempo presente parece um tanto “cinza”, ou “azulado”, passando a impressão de realidade “nua e crua”, enquanto as lembranças de Ove parecem ter cores mais “quentes”, nos remetendo a um tempo mais “colorido” na vida do protagonista.

Conforme a história vai avançando também percebemos como o roteiro é um dos pontos fortes da produção, assim como a direção cuidadosa de Hannes Holm. O diretor sempre está atento aos detalhes, valorizando as interpretações dos atores e também os detalhes interessantes de cada momento da história, desde um porta-retrato de Sonja até a mais nova “amiga” do protagonista, uma gatinha da vizinhança que precisa de cuidados. Tanto a direção quanto o roteiro dele tem um ritmo adequado e interessante, que envolve o espectador e que cresce até o final. Como sempre, são os detalhes que fazem toda a diferença.

O elenco é pequeno, mas escolhido à dedo. Sem dúvida o grande destaque é o ator Rolf Lassgard. Mas outros nomes também merecem aplausos. Especialmente Bahar Pars, que tem uma interpretação muito sensível e interessante, e Ida Engvoll que, toda vez que aparece, ilumina a cena. Entre os atores com papéis menores, vale destacar Filip Berg como o jovem Ove e Viktor Baagoe como Ove aos sete anos de idade; Tobias Almborg como Patrik, o marido meio “trapalhão” de Parvaneh; Anna-Lena Brundin como a jornalista Lena, que tenta contar a história de Ove; Stefan Gödicke como o pai de Ove; Chatarina Larsson como Anita, mulher de Rune, e o próprio Börje Lundberg em um papel difícil, mas bem interpretado; e Simeon da Costa Maya como o jovem Rune.

Ainda da parte técnica do filme, vale destacar a competente edição de Fredrik Morheden; o design de produção de Jan Olof Agren;os figurinos de Camilla Olai Lindblom e a ótima maquiagem feita por cinco profissionais: Paulina Hilding, Hanna Holm, Love Larson, Mattias Tobiasson, Eva Von Bahr e Oskar Wallroth.

En Man Som Heter Ove estreou em dezembro de 2015 na Suécia e na Noruega. Em abril deste ano ele participou do primeiro festival, o Festival Internacional de Cinema de Newport Beach. Depois o filme participaria ainda de outros nove festivais em diversos países.

Até o momento este filme conquistou 12 prêmios e foi indicado a outros nove. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Filme segundo a audiência do Festival de Cinema Romântico de Cabourg; para o de Melhor Ator para Rolf Lassgard no Festival Internacional de Cinema de Seattle; para o de Melhor Filme na categoria World Cinema segundo escolha do público do Festival de Cinema de Mill Valley; e para os de Melhor Filme, Melhor Ator para Rolf Lassgard, Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Estória segundo o Film Club’s The Lost Weekend.

En Man Som Heter Ove conseguiu, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 2,9 milhões. Não é uma bilheteria desprezível por se tratar de um filme estrangeiro. Esse é um ponto favorável para o filme que é o indicado da Suécia para o Oscar 2017 na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Se ele é um pouco mais conhecido do público, pode facilitar a sua vida para avançar na disputa e aparecer na lista dos nove pré-selecionados logo mais, em dezembro, e depois seguir para uma disputadíssima lista final de cinco indicados.

Esta produção, 100% sueca, foi totalmente rodada na Suécia, em cidades como Göteborg, Uddevalla e Trollättan, todas em Västra Götalands Iän.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: o ator Rolf Lassgard tinha 59 anos quando o filme começou a ser rodado, mesma idade do personagem dele na produção. Curioso que, mesmo eles tendo a mesma idade, fica claro como a equipe de maquiagem trabalhou bastante no ator para caracteriza-lo como Ove.

Dois gatos foram usados neste filme: Magic e Orlando. O primeiro foi escolhido por ser muito curioso, amistoso e por não se assustar facilmente. Orlando foi escolhido porque ele era capaz de ficar muito tempo parado em uma mesma posição. Os dois gatos nasceram na Polônia.

Fiquei curiosa para saber mais sobre o diretor Hannes Holm. Justamente hoje, dia 26 de novembro, ele está completando 54 anos de idade. Holm tem 17 títulos no currículo como diretor, incluindo longas, séries para a TV e um curta, e oito prêmios, a maioria por En Man Som Heter Ove. Ele também foi premiado por Adam & Eva, produção de 1997.

Ah sim, e vale falar da parte mais “social” do filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para começar, temos um grupo de pessoas simples em uma comunidade singela da Suécia mas que poderia estar em quase qualquer parte. Depois, temos um senhorzinho sendo demitido de seu trabalho depois de décadas de serviços prestados e sem muita “consideração” dos seus empregadores – que tem o discurso correto, dão uma “pá” de lembrança – bem simbólico, não? -, mas sem dúvida não tem a atitude correta. Sinal dos tempos em que as pessoas são apenas números para muitas empresas. Depois, temos a defesa singela e bacana dos imigrantes, que chegam para enriquecer a sociedade local – e que são simbolizados por Parvaneh e suas filhas -, e dos homossexuais através do garoto que é protegido por Ove. Muito bacana. Uma mensagem de tolerância e de afeto mútuo entre todas as pessoas, independente de suas origens ou de sua sexualidade, desde que todas tenham atitudes corretas e de respeito aos demais.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 44 críticas positivas e apenas quatro negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,4.

CONCLUSÃO: As vidas mais “ordinárias” são aquelas que estão mais repletas de sutilezas, de pequenas belezas cotidianas e de lições. Alguém que percorreu a vida buscando fazer o que era certo, estando coerente com a própria consciência e buscando valorizar a bondade e a beleza de quem estava do lado tem uma grande história para contar. Mesmo que ela pareça “ordinária” ou comum. En Man Som Heter Ove nos conta a história de um homem que foi justo, honesto, soube amar e ser amado e sempre procurou fazer o bem. Apesar de suas teimosias e manias. E quem não as tem? Um grande filme contado de maneira simples e milimetricamente planejada para ir se revelando aos poucos e nos emocionando no momento correto. Uma bela, bela peça de cinema cheia de humanidade.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Digam o que disserem, mas se tem algo que o prêmio anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood faz por nós, amantes do cinema, é nos apresentar grandes filmes a cada ano. De que outra forma esta produção despertaria a minha atenção e me faria assisti-la se não pelo fato de En Man Som Heter Ove ser um dos pré-indicados ao Oscar e um dos títulos que aparecem nas listas de apostas para a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira?

Dificilmente eu veria esta produção se não fosse por uma indicação ao Oscar. Pois bem, que bela surpresa este filme! Sem dúvida alguma ele merece estar na lista das possíveis produções que vão conquistar uma das cinco vagas decisivas da premiação. Mas por ser totalmente diferente de todos os filmes que eu vi até agora, é até difícil compará-lo com os demais. Mas para palpitar aqui, isso se faz necessário.

En Man Som Heter Ove caminha na trilha da comédia por grande parte do tempo, ainda que não deixe de ter retoques de drama aqui e ali, muito diferente dos outros filmes que estão concorrendo com ele que eu já vi. Das produções que eu assisti até agora, acredito que Under Sandet (comentado por aqui) ainda leve uma certa vantagem na disputa, seguido de Elle (com crítica neste link) e de En Man Som Heter Ove. Fuocoammare (comentado por aqui), apesar de não ser tão bom, pode acabar levando vantagem por tratar de um assunto fundamental nestes dias, que é o drama e a catástrofe dos refugiados e imigrantes que buscam uma saída para os seus drama através da Europa.

Desde Allá também é um filme que tem chances de chegar entre os cinco indicados. Para o meu gosto, até agora, estariam “classificados” para a grande disputa do Oscar Under Sandet, En Man Som Heter Ove, Elle e Desde Allá (com crítica neste link). Mas acho que estes dois últimos, até por guardarem muitas semelhanças entre si em vários sentidos, podem disputar apenas uma vaga. Ainda que seja um belo filme, En Man Som Heter Ove corre um tanto por fora para ganhar a estatueta dourada. Neste sentido e analisando apenas os filmes que eu vi até agora, vejo a Academia pendendo mais para Under Sandet, Fuocoammare (que pode levar como Melhor Documentário) ou Elle.

Fuocoammare – Fire at Sea – Fogo no Mar

20 de novembro de 2016 1 comentário

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Uma das maiores tragédias recentes da Humanidade merecia mais atenção do cinema e da imprensa. A imigração massiva de pessoas dos países árabes e africanos para a Europa passando pela ilha de Lampedusa, na Itália, é um fato histórico que impressiona e que continua acontecendo enquanto eu escrevo este texto. Fuocoammare aborda justamente o que acontece em Lampedusa, mas o filme foge do que o espectador poderia inicialmente esperar. O diretor Gianfranco Rosi tenta ser o mais “ausente” possível da narrativa mas as suas escolhas nos fazem pensar sobre a mensagem que ele quer passar com a produção. Afinal, toda narrativa tem um propósito.

A HISTÓRIA: Começa explicando que a ilha de Lampedusa tem uma superfície de 20 quilômetros quadrados e que está mais próxima da África do que da Sicília. Nos últimos 20 anos, cerca de 400 mil imigrantes desembarcaram em Lampedusa. Na tentativa de atravessar o estreito da Sicília para chegar na Europa, se estima que 15 mil pessoas morreram. Com um cachecol colocado sobre a boca, se protegendo do frio, Samuele olha para os galhos de uma árvore e tenta subir nela. Ele estuda a melhor forma de fazer isso e consegue.

Com uma faca, o garoto consegue tirar um galho propício para um estilingue. Depois ele se encontra com Dick, o seu cachorro, e segue na tarefa de fazer o próprio estilingue. Corta. Em uma estação, o operador pergunta quantas pessoas estão no mar. A voz do outro lado responde que 250. Enquanto a pessoa pede socorro, o operador tenta saber em que local os náufragos estão. Esta história intercala a rotina de Samuele e seus familiares e a dos imigrantes que chegam em Lampedusa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Fuocoammare): Como comentei no início, para mim uma das grandes histórias dos últimos anos é a dos imigrantes que estão desesperados para fugir da morte provocada por guerras, conflitos, perseguições e pela pobreza extrema e que tentam uma saída através da Europa. A tragédia de Lampedusa é uma das maiores que se tem notícia fora de uma Guerra Mundial. Muitos jornalistas e cineastas deveriam colocar esta história no centro de suas atenções.

Por isso mesmo um filme como Fuocoammare é fundamental. Mas admito que eu achei algumas escolhas do diretor Gianfranco Rosi um tanto estranhas. Ao menos para o meu gosto. Entendo porque ele quis mostrar tanto o protagonista Samuele Pucillo e a sua família, amigos e o entorno da vida do garoto. Esta foi a forma dele enfocar o “problema” dos refugiados sob a ótica de pessoas comuns da ilha italiana.

Afinal, a vida deles parece correr o mesmo ritmo de sempre. Fora o momento em que a avó de Samuele está cozinhando e ouvindo a rádio e, entre músicas românticas italianas, ela escuta a notícia de um naufrágio em que foram encontrados 34 corpos e ela solta uma frase “Pobres cristãos”, nada de anormal parece estar acontecendo ao redor deles. Samuele segue preocupado com questões comuns de um menino daquela idade e naquele contexto, como estudar, aprender a lidar com o mar no barco do pai e, a mais recente novidade, “despertar” uma vista “preguiçosa” que ele não tinha percebido que tinha.

Boa parte do filme mostra este cotidiano do garoto e seus pequenos dilemas/desafios. Há sequências inteiras dele e do amigo Mattias Cucina utilizando estilingue e fazendo de conta que tem armas para atacar “inimigos”. Entre uma “aventura” e outra do garoto, o diretor foca o que está acontecendo no mesmo mar em que o pai do protagonista trabalha como pescador. Daquela torre inicial em que ouvimos uma tentativa de resgate até sequências em que o diretor realmente acompanha a retirada de refugiados/imigrantes do mar, a forma com que eles são tratados em terra firme, a triagem e o controle pelo qual eles passam e, finalmente, o atendimento que eles recebem pelas equipes de resgate, finalmente saímos da “bolha” de vida comum de Samuele e entramos na história que realmente interessa.

Nada contra as histórias ordinárias que povoam o mundo – estamos repletos delas. Com certeza essas histórias tem o seu encanto e algo que nos ensinar. Mas francamente, em um filme como Fuocoammare eu estava esperando realmente mergulhar na rotina e na vida dos refugiados e imigrantes. O diretor e roteirista Gianfranco Rosi, que fez este filme utilizando uma ideia de Carla Cattani, até nos mostra um pouco do drama e das histórias dos refugiados, mas ele parece sempre um “observador ausente” de tudo que acontece. Ele apenas filma, fica próximo das pessoas, as acompanha, mas nunca interage com elas.

Concordo que esta é uma forma de fazer um documentário. Segue um pouco a linha da “não interferência”, do observador passivo e que não quer influenciar em nada o seu entorno. Mas francamente, acho isso uma utopia. Ninguém pode realmente acreditar que Samuele ou todos os demais que aparecem em cena agem de forma totalmente “normal” tendo um cinegrafista por perto. Essa ideia de imparcialidade também vigorou por muito tempo no jornalismo, mas a verdade é que não existe um narrador totalmente imparcial ou que não influencie no que está sendo contado.

O resultado desta escolha do diretor é que acompanhamos “personagens” comuns de Lampedusa, habitantes daquela ilha em suas vidas “normais” ao mesmo tempo em que conhecemos um pouco da rotina de pessoas das equipes de resgate e dos refugiados. Mas, apesar de acompanhar estas rotinas, não adentramos na vida e na realidade de ninguém. Eu gostaria de saber muito mais sobre o médico Pietro Bartolo, um dos grandes personagens desta história, assim como saber em detalhes sobre o que alguns ou vários daqueles refugiados passaram até chegar ali.

Gostaria sim de saber de onde cada um veio, porque eles saíram de seus lugares de origem, pelo que eles passaram até chegar ali, com quem eles viajaram (apenas desconhecidos? com amigos ou familiares?) e o que eles esperavam que iria acontecer com eles a partir dali. Também seria interessante, a meu ver mais do que acompanhar a vida “ordinária” de habitantes da ilha, acompanhar um grupo de refugiados após aquele primeiro receptivo. Para onde eles foram? O que aconteceu com eles a partir dali?

Enfim, para mim o diretor quis fazer uma crítica ácida sobre os europeus que, apesar daquela tragédia acontecendo na “porta ao lado”, mantiveram a indiferença. É uma forma de Gianfranco Rosi se posicionar, é claro. Mas eu acho isso um tanto injusto. Primeiro porque eu acho complicado julgar os outros. Alguns tem uma vocação maior para se doar e para ajudar, mas nem todos tem preparo psicológico para isso. Além disso, o que daria para esperar de uma criança como Samuele? Que ele fosse diariamente lá ajudar a alimentar os refugiados? Será que ele teria acesso ou permissão para isso, sendo que boa parte do receptivo parecia estar preocupada com possíveis doenças que aquelas pessoas poderiam estar trazendo para aquele território?

Acho sim que uma família normal de Lampedusa poderia ter ajudado em algo e se voluntariado. Mas certamente muitas pessoas já faziam isso. E as demais famílias da ilha, o que deveriam fazer? Possivelmente não ignorar totalmente o que estava acontecendo mas, de alguma forma, elas teriam que seguir um pouco a sua vida “normal”. Afinal, a localidade não poderia parar totalmente por causa dos refugiados. Enfim, acho sim que a crítica da indiferença é válida, mas eu acho ela um tanto rasa. Também acho que faltou o diretor mergulhar mais na realidade dos refugiados para que o espectador entendesse melhor o que acontecia com eles após a chegada.

No fim, acabamos sabendo mais do cotidiano normal de Samuele do que sobre as pessoas que realmente interessavam neste contexto. Nada contra, volto a dizer, a vida “normal e corrente” dos italianos que vivem em Lampedusa, mas eu estava muito mais interessada em mergulhar na história daqueles sobreviventes que viajaram milhares de quilômetros para tentar uma segunda chance. Enfim, o filme deixou a desejar. Pelo menos sob a minha ótica e avaliando aquilo que me interessava mais naquela realidade.

Não por acaso a melhor parte do filme, e que é de cortar o coração e mexer com qualquer pessoa, é aquela em que o médico Pietro Bartolo conta sobre a realidade que ele encontra em relação aos naufrágios. Impressionante. Também emociona, claro, as cenas em que conseguimos ouvir um pouco da “confissão” dos refugiados, quando eles contam (sem serem provocados pelo diretor) um pouco da sua história, em forma de orações, e quando percebemos a dor daqueles que perderam parentes ou amigos (nunca vamos saber porque o diretor não entrevista ninguém) em um naufrágio. A dor e o desespero dos sobreviventes é algo que não dá para esquecer.

Estes, a meu ver, são os melhores momentos do filme, aqueles que justificam a produção. Pena que eles sejam tão raros e percam muito espaço para a história de Samuele. Para o meu gosto, a história do garoto e da sua família poderia ser diminuída pela metade, ou mais, e termos muito mais oportunidades de saber sobre os refugiados e imigrantes. Daí sim, o filme teria muito mais força. Dá para entender as escolhas do diretor, mas não necessariamente precisamos concordar com elas.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Existe um momento em que o título do filme é explicado. A avó do protagonista está conversando com ele, explicando uma de suas histórias, e fala sobre a época da guerra, quando o “mar ficava vermelho” (de sangue, certamente), quando eles diziam que existia “fogo no mar”. Eis aí mais uma crítica “discreta” do diretor. Afinal, a avó e seus familiares seguem lembrando de um momento triste da história em que italianos estavam envolvidos e perdiam os seus entes queridos ao mesmo tempo em que eles parecem “incapazes” de perceber que uma tragédia similar ou pior está acontecendo naquele momento. O mar novamente está ensanguentado, mas desta vez sem o sangue de italianos em jogo.

A crítica de Gianfranco Rosi é válida, neste sentido, porque ele escancara que os europeus – e outros povos, vamos admitir – não encaram aqueles africanos e árabes como vítimas iguais a eles próprios. Mas em que lugar isso não é assim? No Brasil seria diferente? Não apenas não seria como não é. Afinal, quantas pessoas realmente se sensibilizam com a dor de haitianos e de pessoas de outros países que procuram o Brasil como uma segunda oportunidade? Muitas pessoas daqui se sensibilizam e tentam ajudar, é verdade. Mas a maioria se mostra indiferente. Infelizmente é a realidade que nós vivemos em qualquer parte. Não é algo específico dos europeus.

O filme tem cenas incríveis, e algumas bem difíceis de serem feitas – como aquelas dos resgates ou no fundo do mar. Mas, no geral, achei a direção de Gianfranco Rosi bastante conservadora. Ele faz longos planos de saídas de helicópteros, por exemplo, ou gasta muito tempo do filme em sequências um tanto “repetitivas” das brincadeiras com estilingue dos garotos. Para o meu gosto, o diretor poderia ter feito um filme mais atento aos refugiados, dedicado mais tempo e atenção a eles e menos para Samuele. O próprio diretor é responsável pela direção de fotografia da produção – ou seja, ele estava sozinho na empreitada, sem uma grande equipe lhe dando apoio.

Além dos nomes já citados no filme, vale citar a participação do radialista Giuseppe Fragapane. Da parte técnica do filme, vale citar o trabalho do editor Jacopo Quadri, que é competente, mas não faz nada além do esperado; e de Giuseppe Del Volgo como diretor assistente.

Fuocoammare estreou em fevereiro no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme passou por nada menos que outros 26 festivais de cinema pelo mundo. Nesta trajetória o filme recebeu seis prêmios e foi indicado a outros 10. Entre os que recebeu, destaque para os quatro entregues no Festival de Berlim, especialmente o Urso de Ouro, o Amnesty International Film Prize, o Prêmio do Júri Ecumênico e o Reader Jury of the Berliner Morgenpost.

Não há muitas informações sobre a bilheteria do filme. Não encontrei os valores de custo da produção, mas vi que na semana de estreia na Itália ele fez pouco mais de 384,6 mil euros e, no acumulado entre fevereiro e março, fez quase 692,7 mil. Talvez no acumulado de todos os mercados o filme consiga registrar lucro e não prejuízo.

Esta produção é a indicação da Itália para a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2017. Apesar da produção ser italiana, o filme também tem recursos da França.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Fuocommare, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 51 críticas positivas e apenas quatro negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,9.

CONCLUSÃO: Serei honesta e direta: eu esperava mais de Fuocoammare. Não apenas por ele ser um dos favoritos ao Oscar 2017, apontado por muitos como um forte candidato em duas categorias, mas especialmente por saber, logo no início da produção, do que ela tratava. O drama e a tragédia dos refugiados que passam por Lampedussa merecia um filme melhor acabado. Senti falta de saber sobre a história daquelas pessoas que arriscaram as suas vidas em longas jornadas, entender melhor sobre o contexto que elas deixaram para trás e acompanhar o que aconteceu com elas depois. No lugar de mergulharmos na história dos refugiados, ficamos sabendo em detalhes como a vida “segue normal” na cidade, com italianos tocando a vida como se nada tivesse acontecido. O questionamento de Gianfranco Rosi é válido, mas eu esperava muito mais desta produção.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Nas bolsas de apostas que já estão pipocando nesta temporada pré-Oscar, muitos apontam Fuocoammare como um forte candidato a um das cinco vagas nas categorias Melhor Filme em Língua Estrangeira e em Melhor Documentário. Francamente, não acho que ele tenha realmente chances de ganhar uma estatueta dourada em qualquer uma destas categorias. A Academia vai premiar este filme apenas se quiser “ficar bem na foto” ou se quiser dar relevância para um tema fundamental, apesar do filme não estar à altura dele.

Inicialmente eu assisti a esta produção porque estou mergulhando na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Levando em conta os filmes que eu já assisti nesta categoria e que estão tentando uma vaga na lista final do Oscar, não tenho receio em dizer que achei este o mais fraco entre todos. Até o brasileiro Pequeno Segredo, que concorre em Melhor Filme em Língua Estrangeira (e que tem crítica neste link), achei mais coerente e esforçado do que esta produção dirigida por Gianfranco Rosi.

Para mim, até o momento, Under Sandet (comentado aqui) leva uma certa dianteira na disputa pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, seguido de Desde Allá (com crítica neste link) e por Elle (comentado aqui). Faltam assistir ao concorrente alemão e a alguns dos outros favoritos para poder fechar questão nesta categoria. Fuocoammare até pode chegar lá, mas será mais pela temática do filme do que pelo seu resultado final. Para opinar sobre Melhor Documentário, ainda preciso assistir aos outros concorrentes. Mas somente um ano com safra muito fraca para que a Academia premie esta produção italiana. Veremos.

Elle

13 de novembro de 2016 2 comentários

elle1

Vivemos em sociedades em que a violência, os desejos e a loucura jogam papéis importantes. Talvez cada vez mais relevantes. Elle nos conta uma história interessante, destas sobre as quais precisamos pensar um bocado depois para pensar o que achamos delas. O filme aborda aquelas três questões que citei na primeira frase e tem um bocado delas na história. Mesmo que a violência seja o elemento constante, pincelado aqui e ali, talvez a sobrevivência e a “volta por cima” sejam as mensagens que ficam no final. Filme instigante, interessante, mas não é o melhor desta safra.

A HISTÓRIA: Ouvimos gemidos e um soco. Um gato olha fixo para a frente e resolve ir para outro local. Na cozinha, um homem mascarado acaba de estuprar Michèle Leblanc (Isabelle Huppert) no chão e sai tranquilamente pela porta. Michèle se levanta lentamente. Ela está em choque. Depois, limpa a bagunça deixada pela cena violenta e vai tomar um banho demorado na banheira. Ela pede comida por telefone e espera o filho, Vincent (Jonas Bloquet), que chega atrasado. Ele está em um novo emprego e ficou mais tempo nele. Os dois conversam sobre um apartamento que ele vai alugar, e a mãe oferece ajuda. Michèle segue trabalhando e tenta manter uma vida normal, mas o perigo seguirá rondando a casa dela.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Elle): Um filme que começa com um gato e um estupro já mostra a que veio. Paul Verhoeven é um diretor ousado e aqui, novamente, ele mostra isso. Elle bebe dos filmes clássicos de suspense mas também avança ao mostrar aspectos que não são muito comuns nestas produções. A protagonista não é uma simples vítima de um canalha que a estupra e que mantém ela refém do medo. Não, ela é uma personagem complexa e interessante.

Aliás, possivelmente a construção da protagonista seja a parte mais interessante de Elle. Michèle Leblanc é uma mulher que beira os 50 anos, divorciada, independente, que vive sozinha, tem a sua própria empresa em sociedade com a amiga Anna (Anne Consigny), tem uma vida sexual ativa e “sem sentimentalismos”. Ela é estuprada na cozinha de casa e não para a vida por causa disso. Neste sentido o histórico dela tem um peso muito importante. E não poderia ser de outra forma, convenhamos.

Elle é um filme feito para Isabelle Huppert, uma das grandes atrizes da França, brilhar. E ela realmente faz isso. A personagem dela e toda a sua complexidade/humanidade são, sem dúvida alguma, os pontos fortes da produção. No mais, do que trata a história? Essencialmente de dois pontos: o perigo constante que ronda Michèle que, de forma inteligente, logo percebe que foi estuprada por alguém próximo dela, e o acerto de contas que ela tenta ter com o passado. Curioso que tanto o presente quanto o passado dela são cercados de violência. Mas isso não faz com que ela fique paralisada, o que só mostra a força da mulher e da personagem – um ponto forte que é ainda mais ressaltado na cena final da produção na conversa entre ela e Anna.

O suspense de Elle é garantido pela cena inicial do estupro e que, de forma muito inteligente, é “revivida” por Michèle em duas outras ocasiões. Na primeira, ela apenas revê como tudo aconteceu para tentar compreender melhor a situação. Na segunda ela já imagina o que poderia ter feito para se defender. Interessante este recurso utilizado pelo roteirista David Birke, que trabalha o texto do filme baseado no livro de Philippe Dijan. O filme tem uma forte carga psicológica e, devo dizer, por detalhes como este de Michèle revivendo o trauma, também bem realista.

Inicialmente achamos estranho que a protagonista buscou apenas um médico e não fez queixa na polícia. Mas conforme o roteiro de Elle vai se desenvolvendo e vamos entendendo melhor a personagem, fica claro como o passado trágico da família dela influencia o presente da personagem. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O pai dela, Georges, matou toda a vizinhança quando Michèle tinha 10 anos de idade. Ele entrou nas casas e matou 27 pessoas, incluindo crianças e adultos, além de animais de estimação. A protagonista deixa claro que lutou muito para reconstruir a vida apesar da polícia e da imprensa e, por isso mesmo, prefere lidar com o risco de continuar sendo vítima de um maníaco por sua própria conta.

Pelo desenrolar da história, especialmente pelas mensagens que Michèle recebe no celular e por um vídeo parodiando uma cena de estupro no jogo que a empresa dela está produzindo, fica claro que o algoz da protagonista é alguém próximo. Desde o início eu desconfiei de duas pessoas: Patrick (Laurent Lafitte), o vizinho da frente que teria bastante facilidade de acompanhar a rotina de Michèle (este é um elemento-chave em casos assim), e Kurt (Lucas Prisor), que parece ser o diretor técnico da emrpesa de Michèle e de Anna e que confronta a chefe com alguma regularidade. Os dois dão diversos sinais de comportamento estranho durante o filme.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mesmo aquela sequência em que Michèle chega em casa e a polícia está na rua procurando um “suspeito” que Patrick tinha identificado, não me convenceu. Achei, ali, que ele poderia estar forjando aquela situação. Por isso mesmo não foi totalmente surpresa quando em um novo ataque Michèle conseguiu reagir e desmascarou o vizinho. Mesmo não sendo muito surpreendente, este fato jogou uma luz interessante na história. Michèle estava flertando com o vizinho descaradamente. Havia interesse mútuo entre os dois. Por isso mesmo é tão difícil para ela entender porque ele, podendo ter um caso com ela sem muito esforço, preferiu o caminho da violência e do estupro.

Elle é um filme que retrata, desta forma, desvios de comportamento, obsessões e escolhas pela violência sem maiores explicações. Tanto a chacina praticada pelo pai de Michèle quanto os estupros praticados por Patrick carecem de explicação e ficam sem ela. Afinal, o que explicaria comportamentos tão fora das regras sociais e do que aceitamos como lógico? O filme de Paul Verhoeven não se arrisca a querer explicar isso, mas ele mostra uma sobrevivente de toda esta carga de violência: Michèle.

Por mais que a protagonista se sentisse atraída por Patrick – e todos os homens ao redor dela percebem isso -, ela não aceita aquele jogo maluco em que a violência tinha que ser um elemento básico da “relação” deles. Em certo momento do filme, ao conversar com o ex-marido, Richard (Charles Berling), fica claro que Michèle não gostava de violência. Ela diz que eles se separaram depois que ele bateu nela. Ainda assim, mesmo divorciados, fica claro que ela tem uma certa esperança deles retornarem – tanto que ambos tinham como regra se “aventurarem” apenas com pessoas casadas, sem o risco, assim, de terem uma relação realmente séria.

Richard quebra esta regra ao se relacionar com Hélène (Vimala Pons), o que motiva ainda mais Michèle a buscar novas relações para se distrair. Ela se cansou das aventuras com Robert (Christian Berkel), até porque se sente mal em ficar mentindo para a melhor amiga e sócia. Mas como ela gosta de ter o controle da situação e é sexualmente ativa, ela logo começa a investir em Patrick. Antes de descobrir, é claro, o “segredinho sórdido” do vizinho.

O final é interessantemente dúbio e permite mais de uma leitura. Michèle convida Patrick para a festa de lançamento do novo jogo da empresa dela e, na volta, ela ameaça o vizinho de escancarar o seu lado obscuro para a polícia e para a mulher dele. Eu achei a atitude muito corajosa porque, afinal, seria muito fácil para ele matá-la. A alta voltagem sexual entre os dois e a violência ganham um capítulo final. E a partir daqui há duas questões que podem ter mais de uma leitura.

Primeiro, Michèle estava mesmo falando sério no carro ou o que ela disse era apenas uma forma de provocar Patrick para eles terem mais um encontro “quente” e violento? Da minha parte, acho que ela estava falando sério. Como mulher independente que ela era e, seguindo o que eu observei antes sobre Richard, ela não ter o perfil de mulher que gostasse de ser agredida, acredito sim que ela decidia sempre o que considerava melhor para si, independente do que os outros achassem. Ela não queria seguir com aquele jogo com Patrick e ia mesmo denunciá-lo. Ele resolve se arriscar e conferir de perto se aquilo era apenas uma provocação ou algo que poderia acontecer. O desfecho daquela situação, por outro lado, foi imprevisto e acidental.

Mas na sequência dos fatos – muito acertado, aliás, o filme não terminar naquele desenlace -, há um outro ponto que pode render mais de uma leitura. Na sequência em que Michèle vai conversar com Rebecca (Virginie Efira) está controlada, aparentemente em paz. Inicialmente podemos pensar que ela, por ser muito católica, está se “agarrando na fé”, e por isso aceitou bem tudo que aconteceu.

Mas quando Rebecca fala para Michèle que ela fica feliz de que Patrick tenha encontrado nela o que ele precisava, pelo menos por um tempo, o espectador pode se perguntar se, afinal, ela sabia sobre os “desvios” do marido. Eu acredito que sim. Que ela “aproveitava” o lado bom que Patrick tinha e fechava os olhos para os crimes que ele praticava para satisfazer os seus desejos sexuais regados à violência. Ou seja, Elle inteiro trata sobre as diferentes formas de violência e sobre um bocado de psicologia.

Alguns podem pensar, especialmente sobre a forma com que Michèle reage aos estupros quanto pela maneira com que ela encara a mãe Irène (Judith Magre) e o pai preso que ela era uma psicopata. Afinal, ela não esboça grande emoção nestes diferentes fatos. Não gosto de julgar ninguém, mas para mim ela apenas aprendeu a forjar os seus sentimentos e reações frentes aos fatos após passar pela situação mais absurda que alguém pode imaginar. Ela tinha 10 anos quando o pai foi preso após matar 27 pessoas e ela foi acusada por ser cúmplice apenas por ter entrado na “brincadeira” de colocar fogo nas coisas de casa. Certamente aquilo lhe deu uma carapaça muito forte.

Ela conseguiu, da melhor forma que ela encontrou, conviver com aquele pesadelo que foi perdurado no tempo pela memória das pessoas e o resgate da história pela imprensa. Tornou-se forte, independente, dona do próprio nariz. Mas não acho que ela fosse psicopata porque, afinal de contas, ela teve raiva e ódio do pai por muito tempo. Com o aneurisma que Irène sofre na noite de Natal e por causa do último pedido que ela faz para Michèle, ela resolve encarar o pai depois de quase 30 anos de prisão dele.

Por mais que a protagonista não gostasse de mostrar nenhuma fragilidade e, consequentemente, os seus sentimentos, dá para perceber que ela sofre o baque do que acontece com a mãe e também com as agruras do filho. Vincent se casa com Josie (Alice Isaaz), uma garota que não tem nenhum apreço pela sogra e, aparentemente, nem grande respeito pelo marido. Quando a garota tem o bebê que seria deles, Michèle percebe que ela está manipulando a situação. Em resumo, ela se importa com o filho, com a amiga Anna e com os demais. Não é exatamente um comportamento de uma psicopata.

A história é interessante e envolvente. Para mim, o roteiro não foi tãoooo surpreendente na revelação do criminoso que aterroriza Michèle. Mas isso não torna o roteiro ruim. Pelo contrário. O texto de Birke é bom porque desenvolve bem os personagens, especialmente a protagonista. Contemporâneo, moderno, o filme também escancara a cultura da violência e do machismo, tendo a coragem de apresentar uma mulher que resiste à tudo isso e insiste em sobreviver. Interessante, muito interessante. Poderia ser um filme de Almodòvar, se o diretor estivesse em uma boa fase. Não é o caso, infelizmente. Mas é bom ver que outros diretores conseguem ser tão ousados quanto.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei muito do trabalho de todos os atores envolvidos nesta produção. Claro que o destaque principal é o da sempre ótima Isabelle Huppert. Há quem diga que ela pode ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Realmente ela pode. Faz um grande trabalho aqui. Bastante orgânico, convincente, sem exageros ou forçando a barra. A personagem dela, que é firme, mas complexa, ganha legitimidade pelo talento da atriz. Mas é preciso assistir aos outros filmes das atrizes sempre cotadas nesta categoria para saber se ela realmente poderá chegar lá.

Para Isabelle Huppert brilhar em cena ela precisa de um ótimo elenco para atuar com ela. Paul Verhoeven foi feliz ao escolher aos demais atores da produção. Claro que o outro destaque vai para Laurent Lafitte. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele faz muito bem a transição do vizinho “super boa praça” e atencioso para o sujeito que tem um desvio de comportamento sério e que é violento para dar vasão para a sua tara sexual. Lafitte não perde a mão ou exagera nesta transição, tornando o personagem dele bastante crível. Fundamental para o filme.

Dos atores coadjuvantes, merecem destaque os talentosos Anne Consigny como a sócia e melhor amiga de Michèle; Charles Berling como o escritor e ex-marido da protagonista; e Virginie Efira como a religiosa e sempre simpática vizinha de Michèle. Todos tem desempenhos inspirados e bastante adequados para os seus personagens. Estão muito bem também Judith Magre como Irène, a mãe provavelmente setentona de Michèle que gosta de jovens rapazes; Christian Berkel como o marido sorrateiro de Anna; Alice Isaaz como a maluquete namorada de Vincent; e o próprio Jonas Bloquet como o um tanto tapado (ou inocente/carente) Vincent. Todos estes atores tem papéis com uma certa relevância na produção.

Além deles, vale citar os atores que tem papéis menores, mas que também se saem bem quando aparecem em cena: Vimala Pons como Hélène, a linda nova namorada de Richard; Raphaël Lenglet como Ralf, o mais novo namorado de Irène e visto como Michèle como o novo golpista do pedaço; Arthur Mazet como Kevin, o funcionário de Michèle que a admira que é contratado por ela para descobrir quem fez o vídeo paródia dela sendo estuprada no jogo que eles estão produzindo; Lucas Prisor como Kevin, um dos principais responsáveis pelo jogo que a empresa da protagonista está produzindo; e Stéphane Bak como Omar, colega de trabalho de Vincent e suspeito número 1 de ter um caso com Josie.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma o destaque é a direção de Paul Verhoeven. Ele tem um estilo muito interessante, que valoriza, claro, o trabalho dos atores e torna toda a dinâmica do filme bastante convincente. Muito bom também o roteiro de David Birke – gosto, especialmente, quando Michèle destila toda a sua personalidade. Especialmente interessante o diálogo que ela tem com Patrick após o acidente. Mas há muitos pontos altos e interessantes no filme, com destaque para os diálogos entre os atores. Sem dúvida alguma é o roteiro, com ótimos diálogos, e a interpretação diferenciada de Isabelle Huppert que faz Elle ser melhor do que um thriller regular.

Outros elementos técnicos de destaque do filme são a trilha sonora bem pontual e que ajuda a contar a história de Anne Dudley; a direção de fotografia competente mas sem estrelismos de Stéphane Fontaine; a ótima edição de Job ter Burg; o design de produção de Laurent Ott; os bem definidos e estrategicamente escolhidos figurinos de Nathalie Raoul; e a maquiagem de Sophie Farsat.

Agora, um adendo sobre o filme que eu não comentei antes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois que a identidade do estuprador é descoberta, Michèle evidentemente se sente desconfortável ao encontrar o vizinho. Mas aí, porque quando ela sofre o acidente, ela liga para ele? Verdade que ela tentou Anna e o ex-marido primeiro, mas ela não teria outras alternativas, como Vincent ou mesmo Robert? Além disso, é verdade que ela não gostava da polícia e de policiais, mas ela não poderia ter chamado ao socorro, aos Bombeiros, ou na França isso não existe? Claro que existe, estou brincando. Ela chama Patrick. Se isso não é muito lógico, pelo menos rende uma conversa reveladora para a história.

Verdade que Michèle está tentando entender o que aconteceu e as motivações dele. Isso faz sentido. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Acho que no início ela fica imaginando se ele, como ela, não tinha um grande desejo mas, com medo de se declarar, preferiu o caminho da violência com “anonimato”. Mas depois ela percebe que não é nada disso.

Naquela conversa reveladora que eu comentei e em fatos que vão acontecer posteriormente Michèle percebe que Patrick não tem coragem de verbalizar os seus desejos e nem lida bem com eles. Na verdade, aquele é um lado obscuro que ele tem e sobre o qual ele não gosta de falar. Mas é um desejo que ele tem e que acredita que deve suprir, mesmo que vá totalmente contra a “versão oficial” que ele tem para a sociedade. Sinistro. E mais um exemplo de que pessoas mal resolvidas são perigosas. O final dele não é planejado, mas não deixa de ser irônico que Vincent, sem nunca ter conhecido o avô, se torne um assassino também.

Elle estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio. Depois, o filme fez (e está fazendo) o impressionante circuito de outros 27 festivais e eventos de cinema pelo mundo. Os últimos nos quais ele vai participar são o Festival de Cinema de Toronto, que começa no dia 18, e da Semana do Festival de Cinema de Cannes, que começa no dia 30.

Nesta trajetória de festivais, Elle conquistou um prêmio e foi indicado a outros seis. Apesar de ter sido indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes, o filme não ganhou o prêmio. O único prêmio que ele recebeu foi o Grand Prix do ICS Cannes Award do Prêmio Internacional da Sociedade Cinéfila francesa. Não deixa de ser curioso que um filme tão bem cotado para o Oscar tenha apenas um prêmio anterior no currículo até o momento. Isso, acredito, não o ajuda muito na corrida para a estatueta dourada.

Esse filme, que é uma coprodução da França, da Alemanha e da Bélgica, tem a predominância dos recursos da França, por isso ele pode ser escolhido pelo país como o candidato francês para o Oscar 2017.

Elle foi totalmente rodado na França, em quatro cidades. Uma fica bastante evidente na história: Paris, com cenas em Port de Montebello (as do restaurante), Rue Soufflot (onde Vincent trabalha), o conhecidíssimo Cemitière du Père-Lachaise (cemitério do final da produção) e a Rue de Beaujolais (quando Michèle bate no carro de Richard); na cidade de Hauts de Seine (cena das cinzas); na cidade de Fresnes, parte de Val-der-Marne (cenas exteriores da prisão); e na cidade de Saint-Germain-en-Laye, na 11bis Rue Charles Rhôné, onde é ambientada a casa dos Leblanc.

Agora, uma curiosidade sobre este filme: Elle inicialmente foi planejado para ser rodado nos Estados Unidos. Mas o diretor Paul Verhoeven não conseguiu encontrar uma protagonista para a produção. O papel foi oferecido para Nicole Kidman, Diane Lane, Julianne Moore, Cate Blanchett, Kate Winslet, Marion Cotillard, Carice van Houten e Sharon Stone (ufa!), mas todas recusaram o papel logo depois de lerem o roteiro. Elas nem esperaram alguns dias para negar o papel, como é de praxe. Pois perderam uma boa oportunidade de brilhar. Seria interessante, agora, ver Isabelle Huppert concorrendo ao um Oscar por Michèle. Não sei se isso vai acontecer, mas seria interessante.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para Elle. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site, mas achei pouco para um filme que quer ganhar uma estatueta dourada. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 73 críticas positivas e apenas seis negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,1. Especialmente a nota chama a atenção. Ela é bastante boa se levarmos em conta a média das críticas listadas no site. Pela crítica sim, o filme pode chegar lá.

CONCLUSÃO: Boa parte da loucura das sociedades modernas está plasmada nesta produção. A violência é um elemento muito presente, assim como as taras envolvendo o sexo, o jogo de poder entre homens e mulheres e a super exposição das pessoas na mídia. Filme bem contemporâneo e com uma história envolvente, ele tem uma grande atriz como protagonista. Mas no final, você se pergunta qual é o sentido de tudo isso. Além de refletirmos sobre o que nos rodeia, sem dúvida Elle nos faz pensar sobre a nossa capacidade de nos reinventar e de sermos verdadeiros com a gente mesmo. Uma boa produção, que terá uma vida dura para conseguir uma ou duas estatuetas douradas.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Elle está sendo apontado sempre como um dos favoritos a uma das cinco vagas finais da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2017. De fato, o filme tem diversas qualidades que o podem levar até lá. Mas ganha a estatueta já é outros 500.

Há muitos filmes ainda para assistir e que estão bem cotados nesta categoria. Mas do que eu vi até agora, acho que Under Sandet (comentado aqui) é a produção com maiores chances, não apenas de figurar entre os finalistas mas também de ganhar o Oscar. Depois, o venezuelano Desde Allá (com crítica neste link) é tão interessante quanto Elle, mas talvez ele tenha até mais força e seja mais surpreendente do que a produção francesa. Aí tudo vai depender do gosto dos votantes da Academia e se eles estão dispostos a apostar em uma escola menos tradicional.

Desta lista inicial, sem dúvida alguma Julieta (comentado por aqui) corre por fora. O filme emplacaria mais pela força do diretor Pedro Almodóvar do que por sua proposta, qualidade ou inovação. O brasileiro Pequeno Segredo, então, corre totalmente por fora, bem distante da história mais impactante destas produções. Novamente, comento, ele tem poucas chances de chegar entre os finalistas. Interessante também observar que Elle e Desde Allá tratam de alguns temas em comum, como desejos, sexo, manipulação e histórias mal resolvidas dos protagonistas com os seus pais.

Os dois roteiros são bem feitos, com uma narrativa interessante, tendo como principal diferença o contexto social e os protagonistas – no filme francês temos uma mulher dando as cartas, enquanto no filme venezuelano é um homem de meia idade. Aí tudo vai depender do gosto dos votantes, sem dúvida. Para mim, qualquer um dos dois poderia chegar lá, mas faz mais sentido que apenas um deles consiga uma vaga – até para não termos dois filmes “parecidos” entre os cinco finalistas. Agora, para mim, Under Sandet é o filme que realmente precisa chegar lá. Ele merece.

Da minha parte, até prefiro a história de Desde Allá do que a de Elle. Certo que a produção francesa tem a ótima Isabelle Huppert como um dos destaques, além de ter uma pegada mais “grandes centros” e tecnologia/mídia, elementos que me interessam, mas prefiro a questão social levantada por Desde Allá. Querendo ou não, no filme venezuelano as pessoas não estão no mesmo patamar de situação e de conhecimento, diferente do que vemos em Elle. Acho que as reflexões levantadas por Desde Allá são um pouco mais interessantes do que as de Elle. Mas essa, claro, é a minha opinião. Logo mais veremos o que os votantes da Academia vão achar disso tudo.

Under Sandet – Land of Mine – Terra de Minas

12 de novembro de 2016 4 comentários

undersandet1

Se há um capítulo da história da Humanidade que foi muito e bem retratado pelo cinema é o da Segunda Guerra Mundial. Nós já vimos dezenas de filmes sobre o assunto, e quase todos com abordagens muito diferentes entre si. Mas aquele período parece não ter fim, rendendo até hoje novas produções a cada ano. Novamente temos com este Under Sandet um filme impactante sobre aquele período. E eu diria mais que impactante: angustiante. Diferente de tantas outras produções que são ambientadas no “calor” da guerra, este filme tem uma abordagem interessante de um episódio pós-guerra. Impossível ficar impassível com esta produção.

A HISTÓRIA: Começa na Dinamarca, em maio de 1945. Após o fim dos cinco anos de ocupação nazista no país. Sentado em um jipe, o sargento Carl Rasmussen (Roland Moller) observa a marcha de soldados derrotados. Ele acelera o veículos e examina a fila até que, depois de um bom tempo, freia e retorna até encarar um soldado e pedir para que ele pare. Ele fica indignado porque o alemã está levando uma bandeira da Dinamarca com ele. Rasmussen agride o soldado e um outro alemão que vai tentar ajudá-lo e manda eles irem embora porque aquele país é dele. Depois, ele segue para uma praia onde delimita um espaço. É ali que ele vai trabalhar com um grupo de alemães para limpar o local de bombas enterradas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Under Sandet): Achei esse filme impressionante. Pela crueza da história e pela sinceridade na abordagem. O Brasil não viveu uma invasão como a nazista por cinco anos. Tivemos outro tipo de invasões, é verdade. Mas nada naquele nível de crueldade. Então dá para entender, logo no início do filme, a reação do protagonista. Ele certamente, por ter se tornado um sargento, deve ter visto muita barbárie e ter ele mesmo protagonizado muitas cenas complicadas durante a guerra.

Agora, após a vitória dos aliados contra os nazistas, todos estão aliviados e felizes por terem o seu país de volta. O filme começa com parte dos alemães sendo enviados de volta para casa. Mas uma outra parte dos derrotados vai ficar na Dinamarca. A missão deles é uma das mais arriscadas e angustiantes que alguém poderia imaginar: limpar a costa da Dinamarca das 2,2 milhões de minas que foram colocadas pelos nazistas.

O roteiro do diretor Martin Zandvliet é uma aula de como planejar um filme. Cada minuto é pensado com inteligência e sem economizar a tensão ou a emoção. E sem cair no lugar-comum ou nos recursos simplistas de outros filmes. Depois daquela cena forte do início, vemos um grupo de jovens em um jipe. Alguns parecem serenos, outros estão visivelmente com medo do que pode acontecer na sequência. Mas eles se apoiam, e esta é uma característica que aparece entre colegas de armas no filme inteiro.

Depois do início com o protagonista, quando vemos plasmado o desejo dos dinamarqueses de verem pelas costas os inimigos recentemente vencidos, e de termos um primeiro olhar para o grupo que dividirá a parte central da produção com o sargento Carl Rasmussen, entramos na questão crucial da história. O tenente Ebbe Jensen (Mikkel Boe Folsgaard) explica para um grupo grande de jovens alemães que eles não vão encontrar simpatia alguma na Dinamarca, mas que eles estão ali com um único propósito: limpar a costa do país desarmando 2,2 milhões de minas deixadas pelos nazistas.

Segundo o próprio Jensen, essa concentração de minas é maior do que a deixada em todos os outros países da Europa. Alguém, segundo ele, imaginou a invasão dos aliados contra os nazistas naquele litoral – e errou, evidentemente. O treinamento dado por Jensen para aquele grupo, com poucos alemães tendo conhecimento sobre uma mina ou como desarmá-la, já é uma prévia da angústia que teremos durante o filme. O trabalho deles é altamente arriscado, com risco de explosão iminente, e o desprezo com que eles são tratados só aumenta ainda mais a crueldade da situação.

Uma parte daquele grupo – 14 jovens soldados alemães, para ser exata – acaba sendo enviada para o sargento Carl Rasmussen. A rotina deles é de passar grande parte do dia se arrastando na areia, cavucando ela até encontrar uma bomba e cuidar ao máximo para não acioná-la e ir para os ares com o aparato. As bombas perto da água são mais fáceis de desarmar, mas as que estão enterradas são bem mais complicadas – especialmente quando tem alguma “armadilha” prevista.

O risco de explosões e de morrer a qualquer momento não é o único problema daquele grupo de prisioneiros. Em pouco tempo eles deixam de receber as rações de comida e o risco de sofrerem um acidente se torna ainda maior. Martin Zandvliet conta essa história muito bem, com muito realismo e sem aliviar na dureza dos acontecimentos até perto do final.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A câmera está sempre próxima do elenco, mostrando em detalhes não apenas as reações dos atores mas também a ação perigosa em que eles estão envolvidos. Ainda que tenhamos um jovem explodindo na parte de treinamento, sem dúvida alguma tem um impacto muito maior quando vemos o primeiro dos 14 jovens sendo vítima de uma explosão na praia. Não apenas porque vimos que Wilhem Hahn (Leon Seidel) é um dos mais sensíveis do grupo, mas também porque ele sofre o acidente após passar por muita fome. Diferente de outros, que vão “desaparecer” com a explosão, ele também sobrevive, em um primeiro momento. O que torna a angústia de quem assiste ainda maior.

Enfim, não há momento fácil nesta produção. A expectativa da morte é uma constante. Ainda assim, muitos daqueles jovens alemães tentam se manter e segurar com a esperança de, após o trabalho feito, eles conseguirem voltar para casa. Entendemos a ótica dos dinamarqueses, mas o protagonista também mostra como, passada a resistência ao “inimigo”, o olhar começa a mudar para enxergá-los como humanos, como garotos que eles são.

A responsabilidade de Rasmussen é fazer com que aquele grupo de jovens alemães desarme 45 mil minas de uma praia na qual ele esteve antes delimitando zonas com tipos de bombas devidamente identificadas. Não é difícil o espectador colocar-se no lugar daqueles jovens que, se tudo der certo, vão trabalhar dia após dia e acabar a tarefa perigosa após três meses. Quando a comida para de ser enviada para o grupo, inicialmente Rasmussen diz para Sebastian Schumann (Louis Hofmann), prisioneiro que acaba mantendo mais contato com o sargento, que os alemães não são prioridade para receber comida.

Mas quando o primeiro garoto explode, o próprio Rasmussen cuida de pegar alimentos na base mais próxima. Esta é a primeira ação dele com duplo sentido: primeiro, claro, ele está preocupado em cumprir a sua missão e, para isso, ele sabe, aquele grupo não pode morrer de fome ou, sem comida, em explosões; depois, ali ele começa a ter uma visão diferente dos “inimigos”. Como eu disse antes, pouco a pouco, no convívio com aqueles jovens, especialmente nas conversas com Schumann, ele percebe como são todos iguais.

Para mim, é realmente a aproximação com Schumann que faz Rasmussen dar uma certa “amolecida”. Relativa porque, e isso é um acerto do diretor, ele não passa a ver os jovens como amigos, ou como filhos, mas apenas começa a ser um pouco menos cruel com eles. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ainda assim, e isso eu achei um acerto do diretor e roteirista, ele reage muito mal quando o cachorro dele é morto por uma mina que foi esquecida. Mas ao se aproximar de Schumann, Rasmussen parece ver nele – e nos outros garotos por tabela – um possível filho. Tipo um filho que ele não teve – ou que perdeu, já que não sabemos nada sobre a sua vida.

Aliás, essa é uma escolha interessante de Zandvliet. Com pinceladas aqui e ali, ele acaba contando um pouco da história de parte dos jovens alemães prisioneiros, mas o mesmo não pode ser dito sobre os militares dinamarqueses. Observamos como eles agem e que atitude eles tem frente aos inimigos, mas não sabemos nada sobre as suas vidas. Ainda que o grupo de alemães se apresente para Rasmussen, poucos acabam tendo uma relevância maior na história. Essa também é uma escolha acertada. Porque ao focar em uma pequena parte daquele grupo, o diretor e roteirista consegue explorar melhor as relações entre eles.

Como comentei antes, Zandvliet tem uma direção precisa. Ele sabe equilibrar o foco na atuação dos personagens ao mesmo tempo que valoriza os detalhes das cenas quando elas pedem este detalhamento, abrir o foco quando a intenção é valorizar a passagem e, na cena do desespero de Ernst Lessner (Emil Belton) na praia, ele deixa a segurança de uma câmera estática para adotar uma câmera na mão que mostra correria e confusão, ajudando a transportar o espectador para o estado emocional do garoto em procura do irmão Werner (Oskar Belton).

Under Sandet se destaca, desta forma, pela excelente direção e pelo roteiro inteligente de Martin Zandvliet. Ele sabe usar todos os recursos a seu favor. Também são pontos fortes da produção o ótimo elenco, escolhido à dedo e com atuações que ganham o espectador pelo olhar e pelos detalhes, em muitos momentos. Há pontos altos da história, como a emocionante cena entre Rasmussen e Schumann após a morte de Werner. Sem dúvida alguma, um dos grandes momentos do filme. Também é impactante a cena do resgate de Elisabeth (Zoe Zandvliet) na praia.

Com belíssimas imagens e uma trilha sonora perfeita, Under Sandet tem na história, na direção, na atuação do elenco e nos detalhes técnicos alguns de seus pontos fortes. Mas para não dizer que o filme é perfeito, teve um pequeno detalhe que me incomodou um pouco porque me pareceu exagerado.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Após a morte de Werner e da conversa com Schumann, Rasmussen não apenas vai pegar mais comida para o grupo às escondidas, mas também libera os rapazes para um dia de “lazer”. Até aí, tudo bem. Não chega a ser absurdo Rasmussen pensar em um dia de “folga” para aliviar um pouco a tensão do grupo. Afinal, ele precisava deles. O que me incomodou não foi o “dia de folga”, e sim o sargento se juntar ao grupo na diversão. Naquele momento eu acho que ele foi de 0 a 100 sem nos convencer exatamente que ele seria capaz disso. Uma coisa é pensar no que seria necessário para o grupo continuar trabalhando, outra muito diferente seria sair do estágio anterior em que ele estava e, de um dia para o outro, se tornar amigo dos prisioneiros.

Estrategicamente falando, tal atitude do sargento era, inclusive, perigosa. Afinal, como “amigo” do grupo ele poderia se tornar displicente com alguma fuga ou com alguma rebelião. E, certamente, seria penalizado por isso. Difícil acreitar que um militar que ascendeu até o posto de sargento teria tal atitude. Esse seria o único “porém” da produção. O único ponto da história que não me convenceu. Por isso mesmo o filme, apesar de ser muito bem construído e realizado, não tira a nota máxima.

Quanto ao final propriamente dito, achei muito coerente. Tem a ver tanto com o desenrolar da história quanto com o caráter do protagonista. Acima de tudo, Rasmussen era um sujeito honrado, alguém que acreditava na força da palavra, do que foi prometido. Apesar daquele pequeno deslize no roteiro que eu comentei, este filme merece, sem dúvida, ser assistido e ter uma trajetória de ainda mais êxito.

Ele mostra com muita propriedade como a “razão” pode ceder espaço para a compaixão, e que há esperança quando isso acontece. Uma mensagem importante em um momento como este, quando começa a crescer, pelo mundo, novamente a lógica de “nós” contra “eles”. Também achei importante ele mostrar que não apenas os alemães foram os “vilões” da Segunda Guerra Mundial. Eles também foram tratados com crueldade. Em um filme de pós-guerra, interessante mostrar como as vítimas anteriores deles também não pensaram duas vezes em “dar o troco”. Quando agimos da mesma forma, será que somos realmente melhores do que aqueles que nos fizeram mal?

Esse filme levanta diversas reflexões e mostra um lado da história pouco difundido. É corajoso ao fazer esta escolha. A lógica dos dinamarqueses é “melhor eles morrerem do que a gente”. Mas realmente aquela era a única saída para o problema? Certamente que não. Sempre há outra saída que não a de exterminar pessoas. Sejam elas consideradas “inimigas” ou não. Por tudo isso, não é por acaso que este filme está sendo apontado como um dos favoritos para o próximo Oscar.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Achei interessante como cada personagem com relevância neste filme foi bem pensado. Do protagonista, que mostra autoridade e clareza de seus objetivos, até cada um dos prisioneiros alemães que ele tem sob a sua responsabilidade. Como eu disse antes, apenas uma pequena parte do grupo ganha uma relevância maior. Gostei, em especial, do trabalho sensível de Louis Hofmann como Sebastian Schumann. Mas também se destacam Oskar Bökelmann como Ludwig Haffke; Emil Belton e Oskar Belton como os irmãos Ernst e Werner Lessner; e Joel Basman como Helmut Morbach, prisioneiro que lutou na guerra e que, algumas vezes, parece o mais inconstante psicologicamente do grupo, com muitos altos e baixos.

Ainda que em papéis menores, outros atores merecem ser citados porque tem um trabalho interessante. A pessoa mais fácil de identificar neste sentido é Laura Bro, atriz que interpreta Karin, uma dinamarquesa que mora perto da praia e que tem como principal preocupação manter a filha Elisabeth em segurança. Os outros atores que interpretam os alemães estão bem, mas nenhum com grande destaque na interpretação.

Da parte técnica do filme, vale citar o excelente trabalho da diretora de fotografia Camilla Hjelm; a edição precisa e muito bem feita de Per Sandholt e Molly Marlene Stensgaard; a trilha sonora colocada nos momentos adequados e sem exageros de Sune Martin; o design de produção de Gitte Malling; o excelente trabalho dos 15 profissionais do departamento de som (um dos pontos fortes da produção); o trabalho preciso e convincente dos 10 profissionais envolvidos com os efeitos visuais e os quatro responsáveis pelos efeitos especiais.

Lembrei, agora, de um detalhe importante do filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Em certo momento da história, um dos irmãos gêmeos encontra um rato. E começa a cuidar dele. Isso me fez lembrar daquela frase: “afinal, estamos falando de homens ou de ratos?”. Pois bem, este filme trata de homens ou de ratos? Acho que esta é uma questão subliminar da história. Para mim, quando as pessoas perdem a noção de humanidade, perdem o valor do outro como ser humano, elas deixam de ser “homens” e “mulheres” e passam a ser ratos. Sem mais.

Under Sandet estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto em setembro de 2015. De lá para cá, o filme participou ainda de outros 14 festivais pelo mundo, incluindo os importantes festivais de Londres, Tóquio, Thessaloniki e Sundance (este último em janeiro deste ano). Nesta trajetória, ele recebeu nada menos que 21 prêmios e foi indicado a outros 17. Números importantes para um filme que quer aparecer na lista dos finalistas ao Oscar.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Ator para Louis Hofmann no Festival Internacional de Cinema de Beijing; o prêmio da audiência para Martin Zandvliet dado no Festival Internacional de Cinema de Gijón; o prêmio SIGNIS no Festival Internacional de Cinema de Hong Kong para Martin Zandvliet; e o de Melhor Ator para Roland Moller e Louis Hofmann no Festival Internacional de Cinema de Tóquio.

Uma lógica recorrente neste filme é utilizada hoje também nos nossos centros urbanos. (SPOILER – não leia se você não tiver assistido ao filme). A ideia de que “se eles tem idade para lutar na guerra eles tem idade também para morrer” hoje foi adaptada para “se eles tem idade para roubar, eles tem idade também para morrer”. É ou não é assim? Já ouvi muito isso. E claro que discordo. Não devemos assumir a postura de justiceiros ou de “pessoas acima de qualquer suspeita”. Não devemos julgar e sim dar oportunidades e alternativas para pessoas que talvez não tiveram isso antes. Ninguém, se tivesse sã consciência do que uma guerra representa e se tivesse outras possibilidades escolheria ir para a guerra. O mesmo vale para quem comete crimes. Vale refletir sobre isso.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. De acordo com as notas de produção de Under Sandet, o uso de crianças alemãs para o desarmamento de minas após o fim da Segunda Guerra Mundial foi considerado por muitos historiadores como o pior crime de guerra já praticado pelo Estado dinamarquês.

No filme um sargento dinamarquês está no comando do grupo de desarme de minas na praia. Mas na vida real estas missões eram controladas pelas forças britânicas que colocavam oficiais alemães no comando de cada equipe.

A estimativa é que pouco mais de 2 mil soldados alemães foram forçados a fazer o desarme das minas terrestres e que cerca de metade deles morreram na tarefa ou perderam braços e pernas neste intento.

A produção foi filmada em locais em que os fatos narrados na história realmente aconteceram, inclusive no campo militar de Oksbollejren e em áreas de Varde, litoral na Dinamarca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para a produção. Uma avaliação muito boa se levarmos em conta o padrão do site. Curioso, no entanto, que apesar de ser apontado como um dos favoritos ao Oscar, Under Sandet tenha apenas três críticas no Rotten Tomatoes – o número é tão baixo que o site ainda não dá uma média de nota ou de avaliações. Destas três críticas, duas são positivas e uma negativa. Digo que é curioso tão pouco interesse porque o filme deveria ser um pouco mais conhecido, especialmente por ter passado por tantos festivais. Para chegar a uma das vagas decisivas do Oscar, certamente, os produtores do filme vão precisar torná-lo mais conhecido nos Estados Unidos.

Este filme é uma coprodução da Dinamarca e da Alemanha. Ainda assim, vale lembrar, predominam os recursos da Dinamarca, tanto que o filme foi escolhido pelo país para representá-lo no Oscar 2017, buscando uma vaga entre os finalistas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Com uma carreira mais extensa como editor, Martin Zandvliet tem neste filme apenas o seu terceiro longa de ficção. Ele estreou como diretor em 2002 com o documentário Angels of Brooklyn e, depois, fez dois curtas (Jeg Somregel e Mon Petit-Enfant) antes de fazer o primeiro longa sem ser documentário em 2009, Applaus e, em 2011, Dirch. Mas ele parece ter engrenado. Tanto que agora está rodando The Outsider, um filme que se passa também após a Segunda Guerra Mundial, mas desta vez no Japão. No elenco, entre outros nomes, ele tem Jared Leto.

CONCLUSÃO: A premissa deste filme é um soco no estômago desde o princípio. A essência da história faz com que esperemos sempre o pior em Under Sandet. E não são poucas as vezes em que isso acontece. De forma muito sensível e ao mesmo tempo angustiante este filme nos mostra mais uma das várias faces desumanas da guerra. Quando as vidas dos inimigos, suas histórias, famílias e sonhos não tem importância alguma. Pelo olhar do protagonista, acompanhamos a lógica de limpeza das praias sendo alterada aos poucos para a compreensão de que todos somos iguais. Qualquer um poderia estar naquele lugar. Um filme tenso, cheio de mortes e de lições. Corajoso, Under Sandet consegue surpreender ao contar uma história pouco conhecida da guerra tão falada e filmada. Um dos achados da temporada pré-Oscar, sem dúvidas.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: É verdade que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood gosta de um filme sobre o Holocausto. Mas esta produção, apesar de tratar de fatos relacionados à Segunda Guerra Mundial, passa longe do extermínio de judeus e de outros grupos perseguidos pelos nazistas. Muito pelo contrário. O filme tem a coragem de mostrar que os alemães também sofreram na pele, e não foi pouco, após perderem a guerra.

Para mim, seria uma grande injustiça Under Sandet não avançar para a lista dos finalistas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2017. Claro, eu admito, tenho muitos filmes para ver ainda. Mas ao assistir Under Sandet eu entendi porque ele é apontado por muitas listas pré-Oscar como um forte candidato para uma das cinco vagas nesta categoria. Para mim, desde já, ele deve estar lá. Pela qualidade técnica do filme e pelo inusitado da história, não seria difícil para esta produção também levar a estatueta para casa.

Sem dúvida alguma que das produções que estão na lista dos 85 filmes habilitados que eu já assisti, até o momento, Under Sandet é a melhor delas. Mas tenho muitos filmes para assistir ainda antes de cravar um palpite. Mas algo é certo: Under Sandet merece estar entre os finalistas e pode sim ganhar o Oscar no final. O jeito agora é conferir os outros favoritos e, depois, dar o palpite final. De qualquer forma, vale assistir a este filme. Isso se você não tiver problemas com crueldade, sangue, mortes e explosões, é claro.

Pequeno Segredo – Little Secret

9 de novembro de 2016 3 comentários

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Um filme sensível, muito bem realizado, tecnicamente, e com um elenco escolhido à dedo. Ouvimos falar muito de Pequeno Segredo, e não foi pelos motivos certos. Até agora o burburinho principal sobre o filme foi gerado pelo fato dele ter “roubado” a vaga de Aquarius como o candidato do Brasil ao Oscar 2017. Pouco se falou sobre as diversas qualidades e um par de defeitos da produção dirigida por David Schürmann. Pois bem, ontem eu assisti à pré-estreia do filme em Florianópolis e é sobre isto que eu quero falar.

A HISTÓRIA: Lentamente o nosso olhar vai deslizando pela imensidão do mar. Depois de um bom tempo, a câmera passa por alguns rochedos até apontar para a terra firme. O dia está cinzento e abriga uma celebração típica na praia. Heloísa Schürmann (Júlia Lemmertz), que faz parte da celebração, está séria, mas parece serena. Em um determinado momento ela segura a mão de Barbara (Fionnula Flanagan). Depois, cumprimenta os celebrantes. Corta. Heloísa e o marido dela, Vilfredo (Marcello Antony), são acordados no barco por Kat (Mariana Goulart), que quer nadar. Os pais cedem aos apelos da menina e Heloísa comenta que muitos temem o mar, mas que ela escolheu viver nele. Agora, com Kat um pouco maior, ela sente que a filha precisa ir para a escola, mas a mãe teme justamente a terra firme.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Pequeno Segredo): As principais qualidades deste filme são apresentadas logo no início, na sequência inicial da produção. A direção bem pensada e com tom claramente hollywoodiano do diretor David Schürmann; a trilha sonora magnífica do melhor compositor brasileiro da atualidade, Antonio Pinto, e a intocável direção de fotografia de Inti Briones.

Mas antes de falar sobre outras características do filme e comentar sobre o que eu achei dele, quero ressaltar que há pelo menos três maneiras de assistir à esta produção. A que eu tentei perseguir por todo o tempo foi a de tentar ver o filme com o olhar de um crítico estrangeiro e/ou votante da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ou seja, tentei ver o filme da forma mais isenta possível, esquecendo inclusive o que eu já sabia sobre a história que ele iria me contar. Para mim, esta é a melhor forma de assistir a Pequeno Segredo.

A segunda forma de ver o filme é um pouco também a maneira com que eu o assisti: de alguém que já sabe boa parte da história. Infelizmente (ou felizmente) por eu ser catarinense eu já conhecia o essencial da história de Kat e da família Schürmann. Quem conhece a história, especialmente após ter lido o livro escrito por Heloísa Schürmann, terá uma leitura totalmente diferente da produção. A minha visão, por mais que eu me esforçasse para assistir ao filme com a primeira ótica, foi um tanto “contaminada” por esta segunda.

A terceira forma de assistir a Pequeno Segredo é ver o filme comparando ele com Aquarius ou com alguma das outras produções que estavam concorrendo à indicação do Brasil para o Oscar. Esta leitura comparativa também terá um efeito muito diferente daquela de quem não assistiu Aquarius ou aos outros concorrentes. Da minha parte, estou nesta turma. Não assisti aos demais filmes brasileiros e, desta forma, pude ver Pequeno Segredo por si só, sem comparações – apenas comparando ele com os filmes estrangeiros que eu já assisti e que estão habilitados a avançar nas listas finais para o prêmio da Academia. Falo um pouco deles logo abaixo.

Depois destas considerações feitas, vamos ao que interessa. Assisti Pequeno Segredo sem maiores preconceitos ou comparações, tentando compreendê-lo como uma obra cinematográfica em si. E a verdade é que me surpreendi positivamente com o filme. Este é o oitavo título no currículo do diretor David Schürmann, incluindo quatro séries para a TV, um documentário, um curta documentários e apenas um longa de ficção – Desaparecidos, que tem a nota 2,3 no IMDb.

Eu estreei assistindo aos filmes do diretor com Pequeno Segredo. Tecnicamente falando, o filme é muito bem feito, com uma direção cuidadosa, atenta aos detalhes e com bastante ritmo de David Schürmann. O diretor sabe muito bem valorizar os detalhes das interpretações de seus atores, destacar detalhes de roupas, gestos e locais e, nos momentos certos, ampliar a visão do público para que ele veja “o quadro completo” e, a exemplo dos pais do diretor, vejam toda a beleza e magnitude da Natureza.

Tudo isso está em Pequeno Segredo. Mas esta não é uma história qualquer. Como o filme bem sinaliza no início, esta produção é baseada em fatos reais. E não de uma história qualquer, mas da própria família do diretor. É preciso saber disso para entender algumas das escolhas dele que, no fim das contas, é o capitão do barco nesta produção. Agora, voltando a falar do filme com os olhos de um “votante da Academia”.

Pequeno Segredo começa muito bem, com belas imagens, cenas bem planejadas, filmadas e que já dão o tom do que veremos na sequência. Após a introdução inicial, o filme se divide em duas narrativas: a que foca o cotidiano de Kat aos 12 anos, estudante do Colégio Catarinense, em Florianópolis, e uma adolescente normal cheia de planos, e a que aborda a relação entre o neozelandês Robert (Erroll Shand) e a brasileira Jeanne (Maria Flor), uma história de amor, encontros e desencontros que se desenvolve no Pará.

Sob a ótica de um “gringo”, este começo do filme é fascinante. Os estrangeiros adoram “mergulhar” na cultura dos países que eles estão assistindo, e Pequeno Segredo consegue apresentar bem o contraste entre Santa Catarina e o Pará. Especialmente a cultura muito típica do Pará deve fascinar o estrangeiro. Contudo, já neste início, duas sequências – a de Robert querendo colocar uma carta nos Correios e, um pouco mais para a frente, a dele correndo pelas ruas da cidade buscando Jeanne – me incomodaram um pouco porque elas me fizeram lembrar Central do Brasil.

Não sei se vocês notaram, mas os roteiristas deste filme são Victor Atherino e Marcos Bernstein. Ligaram o segundo nome à pessoa? Bernstein foi o roteirista de Central do Brasil (junto com João Emanuel Carneiro e Walter Salles). Então as duas cenas citadas me fizeram lembrar muito Central do Brasil. Enfim… Conforme a história de Pequeno Segredo vai se desenrolando, percebemos que o filme busca contar a história sob a ótica de Kat.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, ao mostrar os anseios e o cotidiano da garota na pré-adolescência e, depois, ao contar, em paralelo, a origem da menina ao revelar a história de amor entre os seus pais. Para quem não conhece absolutamente nada da história dos Schürmann, pode ser uma surpresa, mais tarde, descobrir que Robert e Jeanne eram os pais da protagonista. Assim como o descobrir o segredo que cerca a doença da menina. Para quem não tem conhecimento nenhum sobre a história, a primeira dica de que algo estranho está acontecendo é dada quando Heloísa Schürmann tira o rótulo dos remédios (“vitaminas”) que a menina toma.

Sem dúvida alguma o impacto da história será maior para quem a desconhece totalmente. Não era o meu caso. Como a família Schürmann é catarinense, eu conhecia em linhas gerais a história de Kat. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Eu sabia o essencial: que ela tinha sido adotada eu que faleceu jovem como vítima do HIV. Sabendo da história, me chamou muito a atenção a forma delicada com que o roteiro e a direção tratam a trajetória de Kat.

Inicialmente o filme se divide justamente entre a história de uma “pré-adolescente comum” e todos os seus sonhos, “pequenos dramas” e anseios, e a história de amor do gringo Robert e a linda, linda brasileira Jeanne. A escolha dos atores é outro ponto a destacar desta produção. Todos estão ótimos em seus papéis, sem nenhum deles destoando dos demais.

Ainda assim, se destacam os excelentes desempenhos de Maria Flor, Júlia Lemmertz, Mariana Goulart e Fionnula Flanagan – fiquei encantada, especialmente, com as três primeiras. Erroll Shand também está bem, ainda que ele tenha me “desconcentrado” um pouco por me lembrar o personagem principal de Avatar – me desculpem por esse comentário, mas realmente isso me afligiu em vários momentos do filme.

O desenvolvimento de Pequeno Segredo é de um típico filme de Hollywood. Você e eu já assistimos a várias produções do gênero. A história começa “pelo final”, com uma espécie de “pílula” de um momento importante da história, e depois a narrativa é dividida em duas partes que se desenvolvem paralelamente. Até aí, nenhuma novidade. Pequeno Segredo realmente não apresenta nada de muito novo, seja na história, seja na técnica narrativa. Mas é um filme muito bem acabado, com belas cenas, bem conduzido pelo diretor e com um ótimo elenco, além de uma trilha sonora que é um verdadeiro presente para os ouvidos.

O roteiro convence por grande parte do tempo. Mas acho que a história perde força do meio para o final, quando a relação de Kat com a família não é tão desenvolvida quanto poderia e quando, principalmente, a narrativa perde as cores e o caráter típico do Pará para abraçar o menos interessante cenário de Auckland, na Nova Zelândia. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas o momento em que o roteiro realmente deixou a desejar foi quando Atherino e Bernstein “forçam uma barra” na discussão entre Heloísa e Barbara. Aquele discurso da mãe da protagonista sobre o amor eu achei bem complicado. Poderia ser, a meu ver, melhor escrito.

Mas, no geral, a perspectiva do filme sob a ótica dos sonhos e dos desejos de Kat, valorizando a relação dela com a mãe, em especial, e a história da menina desde a sua origem através da relação de amor entre Robert e Jeanne são acertadas. Só eu senti falta de ver mais da relação de Kat com as demais pessoas da família – os irmãos praticamente não aparecem e o pai, muito pouco -, assim como entender um pouco melhor qual foi a relação dela com os pais biológicos e a avó. Afinal, pelo que dá para entender na “visita” surpresa de Barbara no aniversário de 13 anos de Kat, a avó não era uma desconhecida, mas alguém com quem Kat mantinha uma certa relação.

O roteiro do filme, para mim o único ponto mais fraco da produção, acaba apostando demais na vida comum da pré-adolescente do que em mostrar com profundidade as suas relações familiares. Dá para entender isso sob a perspectiva de que os realizadores talvez quiseram mostrar como uma menina soropositiva (ainda que ela não soubesse disso) pode ter uma vida normal, tendo os mesmos anseios, dúvidas e medos que qualquer menina de sua idade. Quando todos sabem sobre o “segredo” de Kat, o filme abre mão de explorar a fase derradeira da doença para mostrar a menina no auge do seu sonho.

Neste momento, fica claro que Pequeno Segredo é uma homenagem de David Schürmann para a sua irmã – algo que ele torna claro na dedicatória final, quando homenageia também a mãe. Há que se entender isso para compreender as escolhas artísticas do filme. É algo bacana, e honroso. Pensando de forma artística, contudo, teria sido interessante explorar melhor as demais relações da menina e, de alguma forma, mesmo que com imagens de flashbacks de lembranças dela ou da mãe, mostrar mais da vida que Kat levou antes daqueles últimos anos.

A história em si é fabulosa. A doação dos Schürmann, especialmente de Heloísa, para aquela menina, assim como a vida maravilhosa que ela teve sobre a Terra. Senti falta de ver mais desta vida incrível, cheia de aventuras e de conhecimento. Sobre a mensagem do filme, acho que Pequeno Segredo nos faz pensar sobre o quanto a vida é valiosa. Que não importa se vivemos 10 ou 90 anos, desde que esta vida tenha sido plena, com a realização de sonhos e com muito amor recebido e doado. Apenas por estas reflexões e pelo cuidado com que este filme homenageia pessoas especiais, ele merece ser visto. E também receber a nota abaixo.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pequeno Segredo é um filme tipicamente hollywoodiano. Tanto pela forma com que a história é contada, como pela linguagem adotada pelo diretor. Se o filme tivesse o selo “made in Hollywood”, não seria estranho que ele pudesse ser indicado no Oscar 2017 para categorias como Melhor Trilha Sonora ou Melhor Direção de Fotografia. Mas como ele é um filme brasileiro, dificilmente vai conseguir qualquer indicação. Afinal, Hollywood gosta de premiar Hollywood nas categorias principais do Oscar – mesmo nas técnicas.

O filme de David Schürmann está concorrendo com outras 84 produções de países de todos os continentes a uma das cinco vagas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2017. O problema é que ele é um bom filme em uma categoria errada. Para aparecer na pré-lista dos nove filmes indicados nesta categoria e, principalmente, para figurar na lista dos cinco finalistas é preciso ter muito mais do que Pequeno Segredo nos apresenta.

A história recente do Oscar demonstra que os votantes da Academia procuram filmes ousados na narrativa ou na técnica. Histórias fortes, surpreendentes, com grandes interpretações ou que apresentem histórias conhecidas mas de forma diferenciada. Isso aconteceu no Oscar 2016, com Saul Fia (comentado aqui), que tratou de um tema conhecido, o Holocausto, mas com uma técnica refinada e diferenciada; em 2015 com Ida (com crítica neste link), que tem um roteiro com uma pegada interessante e diferenciada; em 2014 com La Grande Bellezza (comentado por aqui), um filme interessantíssimo tanto pela técnica quanto pelo roteiro; em 2013 com Amour, um filme excepcional (com crítica neste link), e assim poderíamos seguir comentando mais alguns anos. Todos estes tem em comum uma produção excepcional e grandes acertos de roteiro, direção e em outros elementos das produções.

Na pré-estreia de Pequeno Segredo para a qual eu fui convidada nesta terça-feira, Priscila Beleli, que faz parte da Ocean Films, responsável por esta produção junto com a Schurmann Film Company, comentou que realmente o grande desafio da equipe é fazer os votantes da Academia assistirem a Pequeno Segredo. Ela comentou que a maioria não fica nem sabendo de todos os 85 indicados como Melhor Filme em Língua Estrangeira. Então o primeiro desafio é fazer Pequeno Segredo ser conhecido nos Estados Unidos e, depois, convencer os votantes a conferir a produção.

Para ajudar na divulgação do filme nos Estados Unidos, a Ocean Films e a Schurmann Film Company contrataram uma equipe nos Estados Unidos para promover sessões de divulgação do filme e para providenciar anúncios em jornais e revistas especializadas. Depois de ter pré-estreia no Festival Internacional de Cinema do Rio, Pequeno Segredo teve duas exibições na semana passada em Los Angeles e, nesta segunda-feira, teve pré-estreia em São Paulo. De acordo com Priscila Beleli, o filme foi bem recebido nas sessões em Los Angeles. Os pais do diretor, Heloísa e Vilfredo Schürmann, teriam visto pela primeira vez a produção neste último domingo.

Ainda de acordo com Priscila Beleli, que trabalha com o produtor João Roni, no dia 17 será feita uma sessão de Pequeno Segredo para os votantes do Oscar organizada pela própria Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. No dia 2 de dezembro a assessoria americana contratada pelos produtores do filme fará uma sessão para convidados – a ideia é ter neste encontro votantes da Academia. “A campanha conta com anúncios em revistas especializadas como Variety, The Hollywood Reporter, Los Angeles Times e as mídias digitais The Wrap e Indie Wire”, detalhou.

Nesta “cruzada” da campanha dos produtores de Pequeno Segredo para o Oscar – é tão importante fazer uma boa campanha quanto ter um bom filme para a disputa -, eles contam com o apoio da Ancine, do MRE (Ministério das Relações Exteriores), do Programa Cinema do Brasil/Apex, do Ministério da Cultura e da Embratur. O primeiro objetivo dos realizadores do filme é conseguir fazer com que ele apareça na lista de nove filmes da pré-lista da categoria e que deve ser divulgada em dezembro e também fazer com que o filme emplaque no Globo de Ouro 2017.

Da parte técnica do filme, além dos nomes já destacados, vale citar o bom trabalho do editor Gustavo Giani, o design de produção de Brigitte Broch e o competente trabalho do departamento de arte com 11 profissionais.

Depois de estrear em circuito limitado no Brasil no dia 22 de setembro – a tempo de poder se habilitar para o Oscar -, Pequeno Segredo vai estrear oficialmente no país nesta quinta-feira, dia 10 de novembro. Espero que ele se saia bem nas bilheterias. É uma história que merece ser conhecida, sem dúvidas.

Para mim foi um verdadeiro deleite ver várias imagens da minha querida cidade adotiva, Florianópolis, na telona. Realmente é uma cidade belíssimas. Os outros locais em que o filme foi rodado foi a cidade de Belém, no Pará, e de Auckland, na Nova Zelândia.

Até o momento o filme de David Schürmann não participou de nenhum festival competindo a prêmios e nem ganhou nenhum prêmio da crítica. Veremos que caminho o filme fará a partir de agora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para a produção. Levando em conta os padrões do site, esta até que é uma boa avaliação. Mas o filme ainda é desconhecido no Exterior. Prova disso é que ele nem aparece na lista de produções do Rotten Tomatoes, site que reúne críticas de diversos países, mas especialmente dos Estados Unidos.

Algumas pessoas podem achar estranho como o ator Marcello Antony praticamente não abre a boca no filme. Realmente o personagem dele acaba tendo um papel bastante secundário. Eu não sou próxima da família Schürmann, mas falando com pessoas que os conhecem bem, me disseram que realmente o pai da família, Vilfredo, é uma pessoa de poucas palavras. Muito diferente da esposa, Heloísa, que falaria bastante. Isso ajuda a explicar, pois, o personagem de Antony.

Este filme entra na lista de produções que atendem a votações aqui no blog porque há tempos atrás vocês pediram mais produções do Brasil por aqui.

CONCLUSÃO: Um filme bem acabado, com uma direção cuidadosa e bem ritmada, Pequeno Segredo tem muito mais qualidades do que defeitos. Algumas de suas qualidades maiores – a trilha sonora soberba, a ótima direção de fotografia e a competente direção geral – estão logo nos primeiros minutos da produção. Apenas o roteiro, que começa muito bem intercalando dois tempos narrativos, poderia ter sido um pouco mais lapidado até a reta final. Ainda assim, está claro que o filme atinge o seu objetivo, que é nos fazer pensar sobre questões importantes da vida e, principalmente, homenagear uma menina que soube viver muito bem a sua vida. Sem dúvida o Brasil está bem representado no Oscar, apesar deste ser um ano muito complicado para um filme como Pequeno Segredo.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Pequeno Segredo não está concorrendo em uma categoria qualquer do prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele está concorrendo justamente como Melhor Filme em Língua Estrangeira, uma categoria que tem várias particularidades. Pelos motivos que eu comentei anteriormente, a tarefa de Pequeno Segredo de deixar 80 concorrentes de fora da disputa e figurar entre os cinco finalistas desta categoria é bastante improvável, para não dizer impossível.

Um tanto “hollywoodiano” demais para a competitiva e alternativa categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, Pequeno Segredo deve se esforçar muito para ser visto este ano. A preferência dos votantes da Academia estará para assistir aos favoritos Elle, da França, dirigido pelo sempre interessante Paul Verhoeven e protagonizado pela excelente Isabelle Huppert (adianto por aqui que ele será o meu próximo na fila); Toni Erdmann, da Alemanha, produção que já acumula sete prêmios na temporada pré-Oscar; Neruda, do Chile, dirigido por Pablo Larraín e estrelado por Gabriel García Bernal; The Salesman, do Irã, do sempre talentoso e premiado Asghar Farhadi e que já tem cinco prêmios no currículo por esta produção; e Land of Mine, da Dinamarca, o mais premiado desta temporada, com nada menos que 21 conquistas até agora.

Estes filmes – Elle, Neruda, The Salesman, Toni Erdmann e Land of Mine – são os mais apontados pelas listas de apostas de especialistas que começam a despontar aqui e ali. Apenas com eles, a lista das cinco produções que vão concorrer à estatueta dourada estaria completa. Mas alguns destes filmes pode ficar de fora (como Neruda, por exemplo), o que deixaria a quinta vaga em aberto. O problema é que Pequeno Segredo é ainda bastante desconhecido fora do Brasil e há outros nomes que aparecem na sequência entre os filmes que podem conseguir esta quinta vaga.

São exemplo de concorrentes com chances maiores do que o brasileiro o filme espanhol Julieta, de Pedro Almodóvar, fruto de uma safra menos interessante do diretor espanhol (e comentado aqui); o italiano Fire at Sea, que tem seis prêmios até o momento; e o venezuelano Desde Allá, que pode não ser excepcional, mas tem um roteiro mais forte que Pequeno Segredo (a crítica sobre ele pode ser acessada neste link). Ou seja, Pequeno Segredo corre muito por fora. Só mesmo uma grande campanha pré-Oscar e bastante lobby para fazer o filme aparecer na lista das nove produções que avançam na disputa e que será divulgada em dezembro.

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