A Torinói Ló – The Turin Horse – O Cavalo de Turim


Um filme que começa citando a Nietzsche não pode ser ruim, certo? Sim e não. Depende, claro, do ponto de vista. Tenho certeza que os intelectuais e alguns apreciadores do cinema vão tirar o chapéu para este A Torinói Ló. Da minha parte, achei um filme chato, longo, teoricamente artístico, mas essencialmente insuportável. Não pelo que acontece, mas pelo que deixa de acontecer.

A HISTÓRIA: Uma voz conta, sem imagens, que em Turin, no dia 3 de janeiro de 1889, Friedrich Nietzsche saiu pela porta do número 6 da Via Carlo Alberto para caminhar ou para buscar suas correspondências nos Correios. “Não muito longe, aliás, bastante longe dele, um cacheiro estava tendo problemas com o seu teimoso cavalo”, conta o narrador. Apesar de todos os esforços do cacheiro, o animal se recusava a mover-se. O dono do cavalo perdeu a paciência e começou a chicoteá-lo. Nietzsche teria surgido no meio da “multidão” e interrompe a sessão de tortura ao colocar os braços ao redor do pescoço do cavalo, para a ira do cocheiro. Levado por um vizinho para casa, ele teria ficado dois dias silencioso no sofá, até que teria dito: “Mãe, eu sou um tolo”. Segundo o narrador, Nietzsche teria vivido mais 10 anos, calmo e louco, aos cuidados da mãe e das irmãs. Mas sobre o cavalo, não se soube mais nada. A partir daí, mergulhamos na história de um cavalo castigado, seu dono e filha. Uma história silenciosa e louca, que reflete o “fim do mundo” ou, pelo menos, da “Humanidade”.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a A Torinói Ló): Eu entendo as intenções dos diretores Béla Tarr e Ágnes Hranitzky. Eles buscaram imprimir em película a falta de esperanças em uma Humanidade violenta, fria e que age de forma automática. Sem refletir, sem relacionar-se afetivamente. O fim dos tempos, neste cenário, deveria ser visto quase como uma recompensa.

Compreendo também que eles viram na crueza do neorrealismo italiano o recurso natural para contar essa história, embebida até a raiz da crítica de Nietzsche, o homenageado da produção. Tudo isso é compreensível. Mas, francamente? Não vejo muito espaço, atualmente, no cinema moderno (ou pós-moderno) para fazermos um filme tão embebido no neorrealismo italiano. Não tenho problema algum, pelo contrário, em assistir aos clássicos do gênero. Mas clássicos são clássicos. Eles ajudaram a definir uma época, surgiram para contrapor uma realidade específica. Não vejo problemas em homenagear um gênero do cinema, mas é preciso fazer algo novo e condizente com a realidade em que vivemos agora.

A Torinói Ló poderia, muito bem, ser um filme mudo. Bem, ele quase é um filme mudo – mas sem o significado e a criatividade que os filmes mudos, em sua época, tinham. Qualquer filme de Charles Chaplin, na fase do cinema mudo, é mais criativo e dinâmico que esta produção dirigida por Tarr e Hranitzky. Para mim, ficou evidente a intenção do filme em angustiar o espectador, tornar a experiência de ver a este filme tudo, menos prazerosa. Compreensível, especialmente pela crítica que a produção busca fazer. Mas serei franca mais uma vez: para um filme ser crítico e provocar angústia, ele não precisa ser interminável, sonolento, chato até o extremo. Se eu quiser passar por esta experiência, busco outras formas de tortura, e não o cinema.

Bem, mas falemos da produção. O roteiro escrito por László Krasznahorkai e Béla Tarr começa contando, apenas em narrativa em “off” (sem imagens) a história da defesa de Nietzsche de um cavalo que era fustigado pelo seu proprietário. Para a época em que vivia e, até pela ótica de muitas pessoas atualmente, aquela manifestação do filósofo já era um indicativo de que ele estava ficando louco. Mas aí aparece a pergunta fundamental: o que é a loucura? Muitas vezes uma pessoa é considerada louca apenas porque ousa pensar e agir diferente dos padrões. E o que A Torinói Ló deixa claro é que, tantas e tantas vezes, na história das nossas civilizações, os padrões sociais eram absurdos. E deveriam ser combatidos.

Depois da narrativa em “off” da atitude de Nietzsche, mergulhamos na história do cavalo que foi defendido pelo filósofo. Uma história possível, é claro. E com ela, assistimos a uma alegoria do “ocaso da Humanidade”. Pai e filha que acompanhamos são autômatas. Simbolizam, desta forma, a própria Humanidade. Afinal, quantas pessoas não “fazem todo dia tudo sempre igual”, como diria o Chico? Muitas, certamente. Agem sem pensar, sem realmente sentir os sabores, cheiros, nada. Seus corações pulsam por hábito, não por convicção.

Desta forma, acompanhamos pais e filhas, miseráveis. Mas a miséria deles está menos na ausência de móveis e de comida farta na mesa e muito mais na falta de carinho, de esperança, de emoção. Eles praticamente não trocam palavras. O único momento “verborrágico” no filme acontece quando a família “de dois” recebe a visita do vizinho Bernhard (Mihály Kormos). Ele fala sobre a destruição da “cidade” (certamente uma alegoria para “civilização”), e comenta sobre a responsabilidade “deles” (das pessoas que integravam essa civilização) na própria destruição. Aí está o tratado do filme. De que o cataclismo que assistimos não é algo “divino” (Nietzsche dizia que o homem teve que inventar Deus), mas um efeito do vício pelo julgamento, mais a cobiça e a ganância dos homens e mulheres que integram as diferentes sociedades. “Porque tudo que eles tocam, e eles tocam tudo, foi degradado”, diz o personagem.

Quem lê o resumo anterior, pode achar que o filme é inteligente, interessante. Até que a crítica é pertinente. Mas a forma de apresentá-la é excessiva. Para nos mostrar o que ele nos mostra, A Torinói Ló poderia ter 30 minutos de duração. E não duas horas e 46 minutos! Mesmo provocando um desejo irrepreensível de deixar de assistí-lo pela metade e, nos insistentes, uma vontade de dormir profunda, este filme tem algumas particularidades interessantes. Primeiro, que mesmo não “acontecendo muita coisa” no filme, o diretor nos mostra maneiras diferenciadas de “prender” a atenção e/ou variar a narrativa de forma simples. O “eles fazem tudo sempre igual” se mostra diferente com uma simples variação de câmera. Em um momento, acompanhamos a rotina da filha vestindo o pai por um ângulo. No outro dia, acompanhamos o mesmo, mas por outro ângulo. E isso, mais um ou outro detalhe, é o que fazem o filme não ser uma repetição permanente. Há uma certa variação no ar, ainda que ela seja restrita.

Primeira parte da produção: clima inglório, sacrifício, os mais fracos (simbolizados pelo cavalo) explorados até o osso pelos mais fortes (dono do cavalo). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois, ela segue mostrando que o cataclismo não iria ceder. Pelo contrário. E como as pessoas lidam com isso? Pelo que mostra o filme, fazendo o mesmo. Não mudam a sua rotina. Depois de um tempo, tentam uma saída, mas já sem chance alguma de conseguir um resultado diferente do desastre. Retornam. Escutam o pior – o que contribui para a decisão de buscar uma saída -, mas se fazem de surdos. Depois, quando agem, descobrem que o pior está acontecendo. O cavalo é o primeiro a perceber que aquela forma de vida havia terminado. Mas pai e filha continuam. Antes, recebem a visita de “bárbaros”. Pessoas que eles não entendem. A quem eles temem. Mas que podem, eles sim, encontrar uma saída – até porque acreditam que ela existe. Em seu caminho, vão encontrando e intensificando a destruição. E, no final, os protagonistas decidem seguir com a vida quase igual (exceto pelo contato com o exterior, que fica impossibilitado). Mas descobrem suas próprias limitações e que, sem esse contato com o exterior, eles não vão conseguir sobreviver.

O filme é angustiante. Sonolento. Primeiro, pela falta de ação. Depois, pela repetição do que acontece. E, finalmente, pela decadência da humanidade simbolizada pelos protagonistas. Entendo que o filme foi feito da maneira que foi justamente para provocar estes sentimentos no espectador. Mas francamente? Não acho que você precise colocar alfinetes sob as unhas de alguém para fazê-lo sentir dor. Há outras formas, mais interessantes, para fazer alguém ficar angustiado. Não recomendo, pois, A Torinói Ló para ninguém. Há muitas e muitas outras produções mais bacanas para serem assistidas.

NOTA: 3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Logo que terminei de assistir a esse filme, fiquei pensando que nota dar para ele. Provavelmente, “no calor da hora”, teria dado uma nota ainda mais baixa que este 3. Mas resolvi dar a nota acima em homenagem ao cavalo – gostei muito dele – e pela ousadia dos diretores. Afinal, é preciso ter coragem para lançar um filme como este hoje em dia, no ano 2011. Também gostei dos atores principais, ainda que eles tenham me dado sono. Eu teria aceitado melhor o que eu vi se eu estivesse em um teatro – onde, provavelmente, eu daria um cochilo, aqui e ali. Além do mais, a nota se justifica pela “dificuldade” de algumas cenas, especialmente pela intensificação da tempestade. Foi bem feito.

Os principais responsáveis pelo filme, além dos diretores já citados, são os roteiristas. Ainda que eles não tiveram muito trabalho para escrever diálogos – poucos estão espalhados pela produção -, eles são os “culpados” pela dinâmica e essência da história. O diretor Béla Tarr assina o texto junto com László Krasznahorkai. A direção de fotografia em preto e branco, esta sim, trabalhosa e que merece 15 segundos de palmas, é assinada por Fred Kelemen. E a trilha sonora, muito pontual – restrita à abertura, essencialmente, leva a assinatura de Mihály Vig.

Eis um filme fácil de conduzir… afinal, ele tem, basicamente, dois atores. Um único cenário. Por isso mesmo, vale a pena citar a dupla de protagonistas: János Derzsi interpreta ao pai de Erika Bók.

Uma curiosidade: A Torinói Ló foi rodado totalmente na cidade de Budapeste, na Hungria.

O filme de Tarr e Hranitzky estreou no Festival de Berlin em fevereiro deste ano. Depois, ele participou de outros 13 festivais e mostras. Nesta trajetória, ganhou quatro prêmios: o Urso de Prata como melhor filme segundo os jurados do Festival de Berlin e o Prêmio FIPRESCI no mesmo evento; e dois prêmios Golden Camera 300 para o diretor de fotografia Fred Kelemen no Festival Internacional de Cinema Brothers Manaki, promovido na cidade de Bitola, na Macedônia.

E outra curiosidade sobre o filme: A Torinói Ló é uma co-produção da Hungria, da França, da Alemanha, da Suíça e dos Estados Unidos.

Para a minha surpresa, A Torinói Ló registra uma ótima nota no site IMDb: 8,3. Muito, muito acima do que eu acho que o filme mereça – por mais “artístico” que ele seja, no fim das contas, ele é apenas chato e longo demais. Apesar de todas as suas intenções… mas ele funcionaria muito melhor no teatro. Mas não são apenas os usuários do site IMDb que acharam esse filme mais interessante do que eu achei. Não há muitas críticas linkadas no site Rotten Tomatoes. Mas dos textos que podem ser acessados lá, seis são positivos e dois, negativos. O que garante para a produção uma aprovação de 75% – e uma nota média de 7,6.

CONCLUSÃO: Representante da Hungria no próximo Oscar, A Torinói Ló deveria render uma estatueta dourada para cada pessoa que consegue assistí-lo até o final. Porque é dura, bastante complicada esta tarefa. A premissa do filme é interessante: mostrar a decadência da Humanidade através da exploração criativa de um fato ocorrido com Nietzsche. Mas francamente, não era preciso tanta angústia, tanta tortura para o espectador. Planos infindáveis, um estilo de cinema de extremo realismo, ao ponto de sobrarem silêncios e expectativas. Palmas para quem conseguir assistir este filme até o final e, principalmente, para aqueles que gostarem do que acabaram de ver. Da minha parte, achei esta produção excessivamente pretensiosa, cansativa. Talvez rendesse um curta. Mas jamais um longa.

PALPITES PARA O OSCAR: A Torinói Ló representa a Hungria na disputa por uma vaga no Oscar. Francamente? O filme pode agradar aos críticos e a uma parte dos espectadores. Mas não acho que ele tenha qualquer vocação para chegar entre os finalistas do Oscar. E muito menos levar a estatueta para casa. Acredito que ele ficará de fora da lista dos cinco e, consequentemente, não terá chances de ganhar o prêmio. Se isso acontecer, será uma boa revolução na premiação que, pela primeira vez em muito tempo, premiaria um filme artístico, conceitual e nada popular.

  1. Le
    18 de dezembro de 2011 às 2:48

    Olá! Adorei seu blog, muito criativo! Também tenho um blog e gostaria que vc desse uma olhada. O endereço é: http://www.criticaretro.blogspot.com/ Passe por lá! Lê ^_^

    • 16 de janeiro de 2012 às 23:38

      Oi Le!

      Muito obrigada. Fico feliz que tenhas gostado do blog.

      Dei uma passada no teu, agorinha. Bacana teres dedicado um espaço para os filmes clássicos. A compreensão deles e uma olhada para o passado do cinema sempre ensina muito. Sucesso pra ti nesta tua empreitada!

      E volte por aqui mais vezes, ok? Inclusive para falares de filmes que tenhas gostado.

      Abraços e inté!

  2. Johannah
    4 de janeiro de 2012 às 20:37

    Nossa! eu já adorei o filme e até dei 11,0 de nota rsss.
    É dificl, sim pelas exaustivas repetições, ams dái tem lá aquelas cenas deles olhando pela janela, que te faz perguntar oq ue esperam, o que pensam…
    Ea insitencia em ver o filme é tu ficar esperando que algo venha e os arrebate dessa mesmice, mas estranhamente nem a destruição parece atingi-los…não a fisica pelo menos.
    Sem falar na simbiose perturbadora do som do vento se misturando com a música…aff!
    Ah, Gostei demais !

    • 25 de fevereiro de 2012 às 14:51

      Oi Johannah!

      Antes de mais nada, seja bem-vinda por aqui.

      Então, tens razão nestes pontos. Concordo que aqueles planos longos que mostram eles olhando pela janela nos fazem pensar sobre o que se passa naquelas mentes… e do que poderá vir depois.

      Mas a falta de esperança e as repetições cansam. E digamos que a “mensagem geral” da história não faz valer toda aquela espera, todo aquele “sofrimento” por não acontecer nada – ou melhor, apenas o caos.

      Mas super respeito a tua opinião. E, honestamente, fico feliz que para alguém o filme tenha sido uma delícia, que tenha valido a pena.

      Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. E volte por aqui mais vezes, inclusive para falar de outros filmes, beleza?

      Abraços e inté!

  3. Mangabeira
    5 de janeiro de 2012 às 18:27

    o orçamento do filme, poderia patrocinar anti-depressivos pra serem distribuídos aos expectadores. Não passei dos 10 minutos assistindo.

    • 25 de fevereiro de 2012 às 14:53

      Oi Mangabeira!

      hahahahaha

      Boa. Antidepressivos para quem precisa – e não tem outra alternativa mais “natural” para resolver o problema – sempre é uma boa pedida.🙂

      Pois é, eu achei um filme beeeeeeeeeeem difícil de ser assistido. Cheguei ao final, mas com um mega esforço.

      Obrigada por mais este comentário e visita. Abraços e inté!

  4. Alberto
    12 de janeiro de 2012 às 23:51

    Acredito que a sua crítica foi arrogante, pois excluiu a hipótese de que você não tenha entendido o sentido principal do filme, que não é compreendido pela lógica comum. O filme é irretocável, em minha opinião. Meus parabéns pelo blog.

    • 25 de fevereiro de 2012 às 15:45

      Oi Alberto!

      Antes de mais nada, seja bem-vindo por aqui!

      Então, não acho que eu fui arrogante. Eu fui a autora de um texto. Apenas isto.

      Minha opinião não te agradou? Sinto muito. Mas não escrevo para ser unanimidade.

      Escrevo as críticas explanando o que eu entendi sobre eles – e poderia ser diferente? Se outras pessoas chegaram a outras conclusões, ótimo. Esse blog existe para isso, para as pessoas falarem sobre os seus pontos de vista.

      O espaço, contudo, não foi criado para você, eu ou outro leitor ficarmos medindo interpretações, fazendo quebra-de-braço para saber quem é melhor. Isso não existe. Todas as opiniões são válidas, porque o cinema é uma obra aberta e que rende múltiplas interpretações.

      Eu jamais te chamaria de arrogante, caso você tivesse publicado um texto e eu discordasse dele. Refletir sobre teus atos é sempre algo positivo. Fica a dica.

      De qualquer forma, honestamente, fico feliz que tenhas gostado do filme. Como eu disse antes, para a Johannah, que também gostou, que isso é o bacana. Não há filme que seja um completo desperdício. Sempre alguém gosta muito. Sempre alguém detesta. E assim continua rodando a roda da indústria.

      Abraços e obrigada pela visita e comentário, ainda que eu ache que, no fundo, tenhas te equivocado com o julgamento apressado.

      Abraços e inté!

  5. D.
    20 de janeiro de 2012 às 19:57

    O Cavalo de Turin foi pensado em cada detalhe, li várias entrevistas feitas com o diretor… e a cada dia fico mais fascinado por este filme. O cinema de Tarr não é para entreter ou para agradar a grande massa, é para refletir. Este é o fato, pretensioso seria gastar centenas de milhões em filmes que não passam uma noite sequer na memória.

    Deixo um trecho de uma das entrevistas:

    BELA TARR: You know, this film is much more simple. We are just talking about day by day. Our life is getting weaker and weaker and by the end it just disappears without any noise. You know? And this is the most tragic thing. And that’s what I want to show. I really don’t want to do more or less. It’s totally enough. That’s all I could say now about the world. With this fucking pain when you are watching the world, what you feel and you are just being. This is something, which is important for me and totally enough. And I really don’t want to represent anything. I don’t really want to say anything because if we are talking about the death this is the most horrible thing and afterwards I cannot anything. We cannot say more. There’s no reason.

    Obs.: já assisti 5 vezes ao filme, em todas elas tive sensações diferentes.

    • 26 de fevereiro de 2012 às 14:50

      Oi D.!

      Entendo completamente o teu comentário e teu ponto de vista. De veras.

      Gostei também do trecho que citaste do Bela Tarr. Não tenho dúvidas que ele quis fazer um filme artístico, e isso ele conseguiu.

      A questão aqui é os nossos gostos diferentes. Não me atrai muito – ou quase nada – assistir a um filme que reproduza a vida em tempo real, mostrando “dia após dia” para refletir sobre o momento da desolação, da morte. Porque isso é inevitável, e já assisto a este desgaste, desperdício e morte todos os dias, de diferentes formas, na “vida real” fora do cinema.

      Para mim, o cinema é uma arte que conta histórias, desperta fantasias e emoções, e que faz refletir. Mas o segmento que “reproduz” a vida bruta não me interessa muito. Porque ao invés de assistir a um filme que trate disto, prefiro viver. O mesmo eu posso falar sobre experimentos como o Big Brother.

      Acho legal que você veja de outro jeito, e que consiga se emocionar com A Torinói Ló. Eu não consegui ver e/ou sentir isso, porque estou mais interessada em outras coisas. Paciência.

      Mas muito obrigada pelo teu comentário. Ele deveria inspirar o de outras pessoas que, infeizmente, não sabem discordar. Você deu uma lição de como discordar com elegância e aportando informações. Parabéns!

      Abraços e inté! Espero que voltes por aqui mais vezes.

  6. Mangabeira
    22 de janeiro de 2012 às 15:09

    Tudo bem Ale! Mudando de assunto e falando de bons filmes, acredito que esses dois já devem estar na sua lista:
    ‘A separação’ do mesmo diretor do excelente ‘Darbareye Elly’
    e
    ‘We Need to Talk About Kevin’ que também me surpreendeu.

    bjão e inté mais

    • 26 de fevereiro de 2012 às 14:55

      Oi Mangabeira!

      Legal.

      Os dois já estavam na minha lista sim. Tanto que pensando no Oscar, já assisti ao filme A Separation – só não tinha visto a tua recomendação… vou agora citar isso lá na crítica.

      We Need to Talk About Kevin também está na lista, mas ainda não sei quando vou poder assistí-lo. Mas obrigada por reforçar essa recomendação. Tentarei assistir em breve…

      Muito obrigada por mais esta visita e pelas dicas. Beijos e inté!

  7. nalpaz
    23 de julho de 2012 às 4:37

    Olá!

    Primeiramente quero dizer que me apaixonei por esse filme, mas que meu comentário aqui não é necessariamente em sua defesa.
    Em segundo, talvez, como você falou (desculpe não saber seu nome), tudo não passe de só mais uma questão de gosto, mas existem pontos interessantes, como você mesmo comentou, o primeiro deles é a alusão feita ao neorealismo italiano, algo perfeitamente compreensível mesmo porque até o próprio Tarr diz ter como principal influência Fassbinder (que também possui filmes bastante próximos do neorelismo), mas há uma diferença imensa desse filme para o que ficou conhecido como neorealismo italiano, diferença essa que não é somente temporal mas também de temas, planos de câmera, movimentação,… questões que, infelizmente, não há como pôr sem cair no estereótipo de “filme artístico”.
    Confesso que não gostei muito da “mensagem” do filme (acho até que foi isso que pôs todo o filme a perder), declínio da humanidade… e essa chatice toda. O que me chamou atenção nesse filme foi exatamente a repetição no contexto do campo, por exemplo, tenho parentes que vivem distantes da cidade, sempre que vamos os visitar minha mãe sempre fala do quanto aquela vida no campo é qualquer coisa menos vida, minha mãe diz que eles existem apenas para comer e dormir, a imensa maioria das pessoas habituadas a um modo qualquer de se viver tenderá a deixar implícito algum comentário como o da minha mãe, assim como as pessoas que vivem no campo, quando vem para a cidade, acabam deixando implícito as mesmas noções.
    O que quis dizer é que foi isso o que me chamou atenção. Comparo este filme com um outro de imensa beleza e que também não é bem popular: “O Sétimo Continente” de Michael Haneke, ambos são incrivelmente bem feitos, porém, este, como disse Orson Welles, não fecha os caminhos que o cinema deve abrir, enquanto “O Cavalo de Turin” claramente se reduz à uma ideia, no caso à visão de Tarr sobre Nietsche, excluindo toda uma vida ou a humanidade. Quando assisti pela primeira vez “O Sétimo Continente”, infelizmente assisti com um grupo de mais ou menos dez pessoas dentre as quais umas oito estavam habituadas ao cinema norte-americano (o que foi muito penoso pra mim já que só gosto de assistir filmes sozinho), ao término do filme ninguém se atreveu a dizer que aquele filme falava de suicídio ou depressão ou desilusão, certamente que devido ao enredo e elaboração e… “O Cavalo de Turin” perde muito por isso, além de contribuir para o velho estereótipo de Nietzsche como pessimista e… (se existe uma coisa que Nietzsche verdadeiramente enuncia é possibilidade, a decadência da humanidade em favor outras possibilidades de se viver, já que o termo humanidade remete a uma forma pronta, que é a que conhecemos… mas deixa pra lá, já me prolonguei demais…)

    Talvez Tarr devesse assistir mais aos filmes do Gaspar Noé (hahahaha!!), como disse o diretor do Festival de Cannes sobre o filme “Enter the Void” após sua exibição: “Esse é o futuro do cinema!”

    • 4 de setembro de 2013 às 19:58

      Olá nalpaz!

      Antes de mais nada, seja bem-vindo(a?) por aqui!

      Então, meu nome está em cada post aqui do blog e também na seção “Sobre a autora” que aparece abaixo do nome do site. Observando estes detalhes, podes ver que me chamo Alessandra. Muito prazer!

      Bem interessante o teu comentário. Concordo contigo que para a maioria das pessoas é muito difícil observar com atenção e sem os próprios filtros uma outra realidade que não a sua. Agora, acho que esta tua leitura é mais bacana que o próprio A Torinói Ló.🙂

      Anotei também a indicação do filme do Haneke. Este, especificamente, eu perdi – assisti a outros dele. Bacana a lembrança do Orson Welles – até porque concordo com ela, ainda que eu ache que nem todo filme pode ser assim.

      Interessante o teu gosto de assistir aos filmes sozinho. Eu abro algumas exceções mas, admito, normalmente também gosto de “degustar” uma produção sem companhia.🙂 E estás completamente certo sobre Nietzsche. Não gosto quando olham para a obra dele como pessimista já que, como bem disseste, ele acreditava na destruição como passo para uma nova realidade – a reconstrução libertária.

      Anotei também a outra sugestão que deste. Tenho certeza que vou gostar das tuas dicas.

      Obrigada pela tua visita e por um comentário tão agregador. Espero que voltes por aqui outras vezes, inclusive para falar de outros filmes que tenhas gostado.

      Abraços e até a próxima!

  8. 17 de novembro de 2012 às 0:22

    Olá!

    Fiquei feliz de encontrar um comentário mais ou menos atencioso à um filme tão incomum, mesmo diante dos prêmios que levou. Mas, infelizmente, não gostei muito do que li.

    Concordo que o filme é cansativo, longo e talvez um pouco pretensioso. A fotografia é tão bem pensada que se torna previsível que, na cena seguinte, será explorado algo ainda mais intenso no seu enquadramento. Por outro lado, em qualquer segundo do filme, é possível pausar, dar um print screen e mandar fazer um quadro. Como diz Susan Sontag, “Fotos podem ser mais memoráveis do que imagens em movimento porque são uma nítida fatia do tempo, e não um fluxo”, e o andamento do filme, sem dúvida, fará com que muitos espectadores tenham diversas cenas, para toda a vida, no inconsciente desenvolver do imaginário.

    Mas o meu problema com o seu texto não é esse, mas o fato de deixar a sua opinião acima da crítica. Crítica não é opinião. Crítica é construção de ideias; ou, antes, reconstrução dessas fatias que não são apenas suas (pessoais, particulares), mas de muitos. Para se criticar é preciso estudar o mais profundamente possível a obra em si, bem como o contexto da obra e aquilo que levou a ela, as intenções de criação e depois as suas apropriações externas; entrar naquele mundo de cabeça, ver e rever (ler ou reler), compreender as suas nuances, olhar de dentro, de fora, tentar pensar como o fotógrafo, o diretor, os atores… depois como nós mesmos. Aí sim, talvez seja pertinente recomendar ou não. Uma crítica não deveria recomendar ou não, pois não é esse o seu papel. “Não recomendo, pois, A Torinói Ló para ninguém.” – “Ninguém” não é muito forte?

    Quando um filme começa falando de um grande pensador (e aqui fica o meu incômodo, pois Nietzsche é um dos poucos filósofos a serem citados repetidas vezes no cinema, sem dar muito espaço aos argumentos de outros), é preciso compreender o porquê! O seu texto, em momento algum, citou uma questão que me parece óbvia no filme: o Eterno Retorno – metáfora do pensador. Um filme que começa com Nietzsche, exige, do espectador, o mínimo de entendimento de Nietzsche. O filósofo não aparece ali por acaso ou pra parecer “cult” (bom, talvez pra isso também! rs). Se fosse a história de outro alguém, qualquer, que se deparou com a violência contra um animal indefeso, o filme não nos levaria, desde a primeira cena, a pensar no que pode estar por “trás”, nas camadas mais finas, claramente inspiradas no niilismo… de Nietzsche (e aqui fico atento àquilo que disse o Nalpaz, no comentário acima). Outra deixa fica clara quando o vizinho da família aparece. Seu monólogo trata de questões recorrentes dos textos do filósofo, como a ausência de deuses, o problema dos homens, a necessidade de se pensar a morte de uma cultura (que o pai ignora), e, se me recordo bem (preciso rever o filme), a ideia de retorno.

    Além de tudo, o seu texto precisa de revisão. Você se estende e se repete muito, com menos categoria do que o filme; retoma o que já havia dito no início, às vezes com as mesmas palavras – “francamente?” – numa rodapé quase tão extenso quanto o corpo do texto.

    Todavia, seu texto me inspirou a rever e a, quem sabe, escrever sobre. Por favor, não se ofenda com absolutamente nada do que eu disse acima (não conheço seus humores – não quero ser indelicado –, mas sei que muitos se ofenderiam), pois almejo que o seu blog enriqueça. Ele já é muito raro e apreciável!

    Obrigado e continue postando!

    • 5 de janeiro de 2014 às 18:43

      Olá Victor!

      Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. Seja bem-vindo por aqui.

      Realmente, A Torinói Ló é um filme belíssimo, com uma fotografia irretocável – e que, como você mesmo disse, poderia render muitos quadros com o congelamento das cenas. Bela citação da Sontag, mas para mim, cinema não é fotografia. Ainda que eu goste de filmes que tenha neste recurso um dos seus predicados principais, espero de um filme mais do que belos “quadros” para guardar na memória. Apesar de comentar isto, respeito a tua opinião e entendo que para você a fotografia seja tão importante.

      Sobre o restante do teu comentário. Obrigado por me dizer o que é fazer crítica e de como eu não sei fazer isto. Novamente, respeito a tua opinião. Mas tenho toda a liberdade – espero que sim, ao menos – de discordar dela. Não acho que toda crítica deva esmiuçar a obra como você citou, vendo ela “por dentro e por fora” para, finalmente, discorrer sobre ela sem opinar ao mesmo tempo. Até porque isso me parece um pouco incoerente. Por mais que eu contextualize uma crítica e explique as intenções de um realizador, não devo apresentar o meu próprio conhecimento sobre aquele tipo de arte, fazer comparações e ponderações para, finalmente, e apenas sob o meu ponto de vista, sugerir que o meu leitor veja ou não a produção – o que sempre será uma escolha dele? Não me parece muito lógico isso.

      De qualquer forma, entendo que você tenha gostado muito de A Torinói Ló e que não tenha gostado da minha crítica, que não foi positiva. Tenho certeza que se eu tivesse dado um 10 para a produção, teu comentário teria sido bem diferente. Mas isso pouco importa. As pessoas que vem aqui tem a total liberdade de concordar ou discordar de mim, assim como de seguir ou não os meus “conselhos” – e foi isso que eu dei ao não recomendar o filme, mesmo que pareça dura para ti este tipo de afirmação.

      Sobre Nietzsche, de fato, admito que eu poderia ter falado mais dele. Mas é que achei este filme tão chato, que nem quis me dar ao trabalho. Erro meu? Provavelmente. Mas é evidente que a Nietzsche sim eu recomendo.

      Obrigada também pela tua crítica sobre o meu texto. Por mais que ele seja repetitivo algumas vezes – e eu não ignoro isso -, vejo que ele serviu para “mexer no teu brio”. Só por isso, ele serviu de algo.

      Não me senti nem um pouco ofendida com o teu texto. Até porque ficaram muito evidentes as tuas intenções com ele.

      Volte por aqui mais vezes. Gostando ou não do que eu escrevo. Abraços e até mais!

  1. 29 de junho de 2012 às 11:23

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