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Vic+Flo Ont Vu Un Ours – Vic+Flo Saw a Bear – Vic+Flo Viram Um Urso


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A história pode ser a mais simples do mundo, mas o cinema francês consegue fazer diferente do que o público normalmente espera. Vic+Flo Ont Vu Un Ours se junta a tantos outros filmes daquele país neste sentido. O ponto central desta produção você já viu algumas vezes, mas nunca com uma narrativa como esta e com a imersão na vivência das protagonistas como é feito neste filme. Aliás, eis mais uma qualidade do cinema francês: mergulhar no cotidiano dos personagens e nas suas relações. Mas fica uma dica para você que ainda não viu ao filme: não leia nada a respeito antes. Isso fará bem para a sua experiência.

A HISTÓRIA: Um garoto se esforça para tocar um trompete. Ao lado dele, outro menino não disfarça a desconfiança sobre a qualidade do que o outro está fazendo. Volta e meia, o garoto maior olha para a mulher que está ao lado. Quando o menino para de tocar, ela pergunta se ele realmente ganha a vida tocando trompete. O garoto diz que sim, e ela comenta que ele deve treinar muito mais antes de pedir dinheiro para alguém por aquilo. Depois, ela segue caminhando com uma mala a tiracolo.

Corta. Na beira da estrada, um garoto brinca com um helicóptero próximo de um velho imóvel em uma cadeira-de-rodas. Em pouco tempo, a mulher com a mala vai se apresentar como Victoria Champagne (Pierrette Robitaille), sobrinha do velho Émile (Georges Molnar), o senhor na cadeira-de-rodas, que é cuidado pelo jovem Charlot (Pier-Luc Funk). A rotina naquela fazenda vai mudar com a chegada de Victoria.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Vic+Flo Ont Vu Un Ours): Repito por aqui o conselho dado antes: procure saber nada sobre esse filme antes de assisti-lo. Fiz isso e não me arrependi. Porque se você souber antes que esta produção aborda um tema bem batido no cinema, talvez isso lhe desestimule a assistir a Vic+Flo. E isso seria uma pena.

O grande trunfo deste filme não é a originalidade da história. Ou, melhor dizendo, da premissa principal. Vejamos. Qual é o núcleo da história contada pelo roteiro do diretor Denis Côté? Basicamente a velha premissa de um ex-presidiário que procura retomar a vida após sair da cadeia e que não consegue fazer isso porque o “passado o persegue/condena”. A diferença aqui é que o personagem central não é um homem, e sim uma mulher – e que também não tem o perfil “básico”, de uma jovem bonita e perigosa, mas se materializa em uma senhora de 61 anos.

Para completar, não é exatamente essa protagonista que tem o passado como problema. Claro que ela não está totalmente livre, mesmo em “liberdade”. Mas o azar de Victoria é que ela ama uma outra ex-presidiária, Florence Richemont (Romane Bohringer). E é ela, mais jovem, atraente e volúvel, que tem um passado que não perdoa. Mas não sabemos nada disso no início. E o roteiro de Côté acerta ao ir contando isso aos poucos, lentamente, cozinhando a fogo baixo as relações que sustentam a trama.

Por que ele acerta? Simples. Porque como não sabemos nada sobre Victoria ou Florence, dedicamos nosso tempo para observar a relação entre elas e o que elas fazem no tempo em que não estão juntas. Pouco a pouco vamos vendo os acertos, os deslizes, as escolhas certas e erradas. Sem pré-julgamentos. Como deveria ser a vida, caso nossa sociedade não estivesse habituada a usar tantas etiquetas para as pessoas.

Além disso, o diretor e roteirista acerta nas escolhas narrativas, quebrando o ritmo em diversos momentos para “aflorar” os nervos dos espectadores. Um exemplo clássico disto ocorre quando Flo chama Vic para uma conversa junto ao lago perto da casa dos Champagne. Elas apenas começam a conversar quando o “assistente de Jackie” (interpretado pelo grandão Ramon Cespedes) começa a tocar violão na parte traseira de um caminhão.

Naquele momento o público não tem a mínima ideia do que a dupla de “vilões” está aprontando e o que eles guardam dentro daquele caminhão. Cheguei até a pensar que seria um urso – por causa do título do filme.🙂 Mas não. A surpresa maligna tem a ver com um urso, mas não é o animal propriamente dito. Mas isso pouco importa. O que interessa para o funcionamento do filme é que ele quebra as expectativas do público em diversos momentos. E isso faz bem para a história.

O início do filme é ótimo. Um tanto “nonsense” e, ao mesmo tempo, irônico. No começo, quando Vic se apresenta para Charlot, achei que ela estava mentindo e que nem era parente do velho Émile. A personagem tinha feito de tudo antes – pelo menos é o que fica sugerido quando o oficial da Justiça boa-gente Guillaume Perreira-Leduc (Marc-André Grondin comenta que ela tinha sido condenada à prisão perpétua -, mas não parecia disposta a mentir.

Logo de cara me chamaram a atenção diversos elementos que definem a qualidade deste filme. Para começar, as escolhas de ângulos de câmera diferenciadas feitas pelo diretor Denis Côté. Ele imprime ritmo e uma fluência de câmera que normalmente sai de planos mais abertos ou específicos até chegar para o principal da ação em cada momento. Faz escolhas interessantes e inteligentes, garantindo um estilo próprio na na direção e escolha de cenas.

Gostei muito também da direção de fotografia que valoriza os contrastes e a luz feita por Ian Lagarde, assim como da trilha sonora marcante e que imprime o ritmo necessário para a história assinada por Mélissa Lavergne. O trabalho dela aparece em momentos pontuais e para valorizar as emoções que o diretor quer imprimir em diferentes momentos – como tensão, humor, expectativa, e por aí vai.

Estes são os valores que ressaltam aos olhos logo no início. Mas conforme a história vai se desenrolando, o roteiro de Côté valoriza o estilo e as relações das personagens principais, guardando de tempos em tempos pequenas surpresas para o espectador. O roteiro, junto com o estilo de direção dele e a atuação dos protagonistas vai ganhando relevância.

A narrativa tem um bom ritmo, com pequenas surpresas surgindo aos poucos e volta e meia – seja na relação entre Vic e Flo, seja no “risco” da reprovação de Guillaume ou dos vizinhos do casal de mulheres, até a grande surpresa da história introduzida por Marina St-Jean/Jackie (Marie Brassard).

Outro interesse desta história é que a dupla de protagonistas de Vic+Flo não é nada comum. Primeiro, porque elas são duas bandidas em fase de retomada de vida fora da cadeia – atenção, duas mulheres, e não o “tradicional” dois homens ou, pelo menos, um homem e uma mulher. Depois, porque formam um casal lésbico – alguém lembra de outro casal de mulheres que tinham esse perfil de retomada da vida após uma fase de crimes? Eu não.

O terceiro ponto já foi comentado aqui antes: as duas mulheres fogem do perfil de filmes de “suspense” ou ação. Uma tem 61 anos e a outra não é mais tão jovem. A diferença de idade e de interesses afeta a relação das duas – ou assim parece ser. E por mais que Guillaume torça por Victoria, simpatizando com ela – até porque ela lembra a mãe do agente -, ficamos sempre em dúvida sobre o caminho que ela vai tomar quando a história com Flo desandar. E o roteiro vai sugerindo isso pouco a pouco.

A expectativa se mantém forte até o final. Bem escrito, o roteiro faz com que o espectador torça por Vic e por Flo – especialmente pela primeira. Afinal, por não sabermos os crimes que ela cometeu antes – o que é um acerto para a história -, a tendência é que a opinião vá pelo lado de que ela deveria ter o direito a uma segunda chance. De recomeçar a vida, mesmo com um pouco da liberdade cerceada – pela constante presença de Guillaume.

O problema é que, como acontece com tantas outras histórias – dentro e fora dos cinemas -, há pouco espaço para a redenção. Algumas vezes as pessoas tem tempo de refazer a própria vida e oportunidades para isto, mas em tantas outras não é isso que acontece. No caso deste filme, pelo menos Vic e Flo puderam ter o gostinho da liberdade e da felicidade mais uma vez. O que choca é como há pessoas que colocam o preconceito em primeiro lugar – vide o pai de Charlot, Nicolas (Olivier Aubin).

Infelizmente, na vida fora da telona, há muita gente que segue esta linha. Coloca o preconceito em primeiro lugar, antes da solidariedade e da compreensão que todos somos iguais e temos os mesmos direitos à vida e à felicidade, independente dos passos errados ou da nossa parceria na cama. Vic+Flo conta uma história importante, ainda que triste e com um final cruel. E tão boa quanto a história, é a forma com que ela é contada.

A nota abaixo só não é melhor porque achei um tanto desnecessário o “final feliz transcendental” do filme. Ele tenta suavizar a dureza do fim trágico das protagonistas, mas nada apaga que Vic e Flo morreram lentamente, sentindo muitas dores e esvaindo em sangue. Por algum tempo acreditamos que a salvação poderá chegar, mas a aparição do garotinho tocando melhor o seu trompete apenas ressalta a ironia mórbida da história. Não há salvação no horizonte, mesmo com a pegada angelical dos minutos finais. O foco em uma Vic enlameada e conformada com o fim é muito mais decisivo e coerente com o restante da história.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Momento interessante aquele do garoto nos minutos finais da produção. O que realmente aconteceu não fica evidente. Mas tenho a minha teoria. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A primeira versão é que o garotinho realmente apareceu, na expectativa de arrancar uma nova opinião de Victoria, mas que ele não pensou em pedir ajuda para a mulher e sua companheira porque, oras bolas, ele é uma criança e não precisa ter esse “desconfiômetro”. O diálogo deles é tão cômico quanto o que abre o filme, por isso não dá para dizer que apenas aquela troca nonsense entre os personagens é prova de que o novo encontro não aconteceu. A outra versão é que Vic estava tendo uma ilusão perto do fim – tomada pela dor. Particularmente, acredito na segunda hipótese – até porque o garotinho aparece sozinho e não com o amigo inseparável. Mas aqui, como em tantos outros casos, não existe apenas uma resposta possível.

Os destaques do filme já foram comentados antes. Mas do elenco, vale citar ainda alguns outros nomes. Ainda que a cena seja dominada pelas ótimas atrizes Pierrette Robitaille e Romane Bohringer, acompanhadas de perto pela perigosa, singela e enigmática Marie Brassard, há alguns coadjuvantes com presença marcante – o que apenas ressalta a qualidade do diretor e roteirista em introduzir apenas figuras interessantes na história. Vale comentar o bom trabalho de Guy Thauvette como Yvon Champagne, irmão de Victoria; e o de Ted Pluviose como o amante de Florence. E é só.

Vic+Flo Ont Vu Un Ours estreou em fevereiro de 2013 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme participaria de outros 18 festivais, incluindo um que iniciou hoje, dia 22 de junho de 2014, o Cinema City International Film Festival. Uma bela trajetória que garantiu três prêmios e sete indicações para o filme. Vic+Flo conquistou os prêmios Alfred Bauer do Festival de Berlim para Denis Côté; de melhor atriz para Pierrette Robitaille no Jutra Awards; e de Melhor Diretor para Côté no Festival de Cinema de Philadelphia. Todos muito merecidos.

O canadense Denis Côté tem 40 anos e 10 filmes no currículo como diretor – sendo dois deles de curtas-metragens e três documentários. Gostei do estilo dele. Acho que vale ficar de olho em seus próximos trabalhos.

Vic+Flo foi totalmente rodado na cidade de St-Antoine-sur-Richelieu, na província de Quebec, no Canadá. Aliás, este filme é uma produção 100% canadense.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para Vic+Flo Ont Vu Un Ours. A avaliação não é ruim, mas poderia ter sido melhor. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos: dedicaram 16 textos positivos e dois negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,1.

CONCLUSÃO: Os franceses não aliviam quando o assunto é cinema. É difícil assistir a um filme produzido por eles e que não seja bom e/ou apresente diversas qualidades. Vic+Flo Ont Vu Un Ours não foge desta regra. A história tem um desenvolvimento interessante, que algumas vezes deixa o espectador apreensivo com o que virá em seguida, utilizando daquela preciosa sabedoria de manter o suspense mesmo sem recursos desgastados. O trabalho do elenco é exemplar, assim como a direção. O roteiro surpreende, inclusive por uma inesperada crueldade, mas sem nunca esquecer do olhar sensível. Agora, se você gosta de tudo bem explicado, guarde distância desta produção. Muitos detalhes não são explicados – especialmente o passado das protagonistas. Mas isso não faz nenhuma diferença.

  1. Nenhum comentário ainda.
  1. 19 de setembro de 2014 às 8:04

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