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The Physician – Der Medicus – O Físico


 

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Não falta gente que volta e meia encontra motivos para reclamar da vida hoje em dia. E ainda que muitas queixas tenham uma certa razão de existir, só quando olhamos para o passado fica evidente como avançamos bastante como espécie até agora. Apesar dos pesares. The Physician é um destes filmes históricos que mostram como já vivemos tempos bem tenebrosos e atualmente difíceis até de acreditar que aconteceram, mas que ocorreram de fato. Apesar de uma narrativa um pouco lenta, eis um filme interessante pela mensagem e pelo resgate de uma época que, para a nossa sorte, foi superada.

A HISTÓRIA: Começa na Europa, durante a Idade Média, quando a “arte da cura desenvolvida durante a época dos romanos” praticamente caiu no esquecimento. Não existem médicos, nem hospitais, apenas “barbeiros” com poucos conhecimentos que viajam atendendo pessoas. Naquela mesma época, na outra “ponta do mundo”, a ciência médica floresce. Na Inglaterra do ano 1021, crianças trabalham em minas junto com adultos em troca de pão. Uma destas crianças se chama Rob Cole (Adam Thomas Wright), que fica fascinado com a chegada do “barbeiro”/curandeiro (Stellan Skarsgard) no vilarejo em que ele mora com a mãe Agnes (Jodie McNee) e os dois irmãos, Anne (Lais Benjamin Campos) e Samuel (Aaron Kissiov). Mas quando a responsável pela família passa mal, Cole não consegue o socorro necessário.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Physician): A Idade Média não é chamada de “idade das trevas” por acaso. De fato a vida naquela época não era nada fácil. Primeiro, a regra predominante era “cada um por si”. Não havia muito espaço para generosidade – pelo menos não como a conhecemos hoje. Além disso, as comunidades de diferentes culturas viviam dificuldades incríveis, especialmente em termos de saúde, acesso à comida, educação e liberdade. Qualidade de vida era algo que poucos tinham – e era um termo que ninguém imaginava que um dia poderia existir.

Além disso, no início do século 12, como mostra o filme The Physician, havia uma disputa feroz pelo poder. Seja ele político, econômico ou de “domínio das almas”. O que, muitas vezes, era o mesmo. Há uma briga importante entre as distintas religiões e a ciência – especialmente, naquele tempo, com a vontade de algumas pessoas em fazer avançar a medicina.

Neste sentido, o roteiro de Jan Berger, baseado no romance de Noah Gordon, acerta no olhar detalhado para as principais religiões da época: cristãos, judeus e árabes em uma constante disputa por poder e, ao mesmo tempo, uma salutar  postura de respeito de suas próprias fronteiras. É neste cenário que conhecemos o valente Rob Cole, protagonista da história.

O garoto mostra talento mesmo quando era criança. Trabalhador em uma mina, ele conseguia levar pão para casa e ajudar a alimentar a mãe e os dois irmãos menores. Quando a mãe fica doente, ele tenta buscar socorro com o recém-chegado barbeiro que veio trazendo a promessa de resolver diversos problemas de saúde daquela comunidade – mas sempre males de “fácil” resolução, como dores de dente.

O problema do jovem Cole é que o padre local e os devotos da comunidade haviam chegado antes, e todos concordavam que o barbeiro era um curandeiro que não deveria estar ali. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na prática, ninguém fez nada para salvar a mãe do garoto, e o golpe fatal viria depois: a falta de generosidade dos cristãos locais chega ao ápice quando eles ficam com os irmãos mais novos e desprezam Rob. Isso porque os outros dois poderiam trabalhar por mais tempo e dariam menos “gastos” iniciais.

Que belo exemplo cristão, hein? Há quem argumente que aquela época era complicada e não tinha como ser de outro jeito. O argumento tem o seu fundo de razão, mas se sempre esperarmos a condição ideal para fazer o bem e exercer a generosidade, provavelmente esse momento nunca vai chegar. Mas bueno, avancemos na análise sobre a história.

De forma inteligente o roteiro não demora muito para avançar no tempo. Afinal, aquela infância de Rob Cole interessa apenas para sabermos a motivação do garoto para buscar a medicina e, com ela, ajudar as pessoas. E também para sabermos, claro, como ele vai parar sob a tutela do barbeiro. Interessante como o primeiro “mestre” de Rob não queria, na verdade, que o garoto seguisse os seus passos. Isso porque ele sabia como era difícil ir contra a Igreja – que, na época, queria ser a única detentora da “salvação” – papel que seria perdido, pelo menos no “mundo físico”, para a medicina quando ela avançou.

E como tantas pessoas que fazem bem uma determinada prática durante toda a vida, o barbeiro que adota Rob também tem dificuldade de acreditar que alguém poderá salvar-lhe a visão – quando ele fica com ela toda embaçada por causa de uma catarata. Ele sabe fazer isso, então acha difícil alguém fazer. É a velha descrença de quem acha que já sabe o principal da vida. Mas a vida está cheia de surpresas e de ensinamentos até o final.

Em The Physician o velho acaba cedendo, e aquela conquista de Rob em operar os olhos do barbeiro acaba sendo decisiva para o garoto se lançar para o desconhecido. Primeiro, ela admira o gosto pelo conhecimento dos judeus e a forma com que eles vivem em comunhão entre si. Depois, renega a própria fé para ir aprender com os árabes – naquela época os cristãos eram mortos ao atravessar a fronteira em direção ao Oriente.

Daí o filme agrega um elemento que acaba se revelando quase desnecessário. O romance entre Rob (desde a juventude vivido pelo ator Tom Payne) e a espanhola Rebecca (Emma Rigby), que está sendo protegida pela caravana que leva o protagonista por grande parte do deserto em direção ao seu destino final. Com tantos elementos interessantes no filme, os momentos de “climão” entre Rob e Rebecca fica descolado na história a maior parte do tempo. Apesar da atriz Emma Rigby ser linda, ela não tem o carisma de Tom Payne e a relação deles não empolga – algumas vezes apenas tira o ritmo da história.

O roteiro tem várias frentes que atacar quando Rob chega em seu destino final. Para começar, a falsa sensação de controle e de poder, com uma inveja mal-disfarçada, de Davout Hossein (Fahri Yardim). Conforme o tempo passa, os sentimentos mal-resolvidos do personagem vão acabar sendo decisivos para a virada na história. Isso porque o Shah Ala ad-Daula (Olivier Martinez) está sendo questionado pelos muçulmanos por causa de sua postura tolerante com outras religiões e pelo apoio que ele dá à ciência e à arte.

Novamente o jogo de poder entra em cena e será determinante para a história. Desta vez, o líder muçulmano é questionado pelos seus e traído por eles. Outro elemento interessante na chegada de Rob ao local é o fascínio que o conhecimento desperta no rapaz – e em todos os espectadores, já que o protagonista é bem convincente. Ali ele conhece o grande Ibn Sina (o sempre ótimo Ben Kingsley). Os dois tem uma empatia imediata. Ainda assim, parece um pouco forçada a forma com que o roteiro transforma um recém-chegado, ainda que muito dedicado Rob, como o pupilo favorito do mestre – acompanhando ele nas principais situações.

A parte mais tensa da história acontece quando os invasores seljúcidas – turcos de religião islâmica que gradualmente adotaram a cultura persa – provocam uma epidemia de peste negra na cidade comandada pelo Shah. O grupo liderado por Ibn Sina age rápido, mas eles só conseguem frear o número de mortes com a ajuda de Rob. Mesmo apostando muito na ciência, Ibn Sina sabia respeitar os limites impostos pelas religiões. E nenhuma delas, aparentemente, concordava com a abertura e o trabalho científico utilizando cadáveres. Rob não entende tal limitação e rompe estas regras.

Seria possível o avanço da ciência sem a quebra destes e de outros dogmas?  Certamente não. Eu sou favorável a todo e qualquer avanço da ciência, desde que eles sejam feitos seguindo a ética universal e que não tentem substituir Deus na vida das pessoas. Até porque eu não vejo que existam conflitos entre o uso da ciência para a cura e a fé que procura por valores que transcendem a matéria. E quando existe este conflito, as pessoas devem ter o livre-arbítrio para decidir que caminho seguir – e que nenhuma força externa se sinta superior ao direito inequívoco das pessoas decidirem sobre as suas próprias existências.

Dito isso, voltemos ao desenrolar do filme. Ele tem um bom ritmo durante o suspense e a ação provocada pela peste negra, exceto pelos momentos de romance um tanto deslocados. E depois, na reta final, interessante como a disputa de poder entre as vertentes mais ortodoxa e liberal dos árabes provoca retrocesso nos avanços dos científicos da época. O mesmo aconteceu com outras religiões e governos.

Achei especialmente interessante como mesmo frente ao inimigo Rob tem a coragem de professar a própria fé e declarar-se cristão. O problema é que o sacrifício que ele tinha feito antes serve como contra-testemunho. Finalmente a ousadia dele de romper com uma regra considerada inquestionável por todos os outros – inclusive pelo mestre Ibn Sina – salva a sua pele. E ele consegue começar a cumprir a missão que tinha clara em sua mente voltando para a Inglaterra. Bela história, ainda que o filme seja muito longo e tenha algumas partes dispensáveis.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Caros leitores, esta semana foi complicada. Por isso decidi escrever a crítica acima e deixar as notas de pé de página para um outro momento. Prometo atualizar este espaço logo que possível. Até breve!

Apenas uma rápida reflexão: a postura de Ibn Sina em relação ao protagonista é o grande ponto divisor entre um grande mestre e um homem que aprendeu com a vida, como o barbeiro, mas que não nasceu para ensinar. Existe essa diferença. E ela reside, como Sina nos demonstra, na capacidade não apenas de estimular o jovem aprendiz a fazer bem o ofício que você domina mas, e isso é fundamental, ousar e surpreender o mestre com novos conhecimentos. Essa é a diferença entre quem sabe ensinar e a pessoa que até deseja fazer bem para a outra, mas que não consegue estimular o pupilo a crescer.

Agora retomando os comentários tradicionais… Da parte técnica do filme, gostei de muitos elementos. Para começar, apreciei a direção segura do alemão Philipp Stölzl. Ele não faz nenhuma grande ousadia, mas demonstra que sabe usar bem todos os elementos do cinema moderno nos momentos certos. Valoriza com planos abertos as belas paisagens ou cenários construídos com computação gráfica ao mesmo tempo em que valoriza os atores nas diversas sequências em que o trabalho deles deve ser visto de perto.

Com a ajuda do editor Sven Budelmann ele produz um filme dinâmico, fugindo das tradicionais tomadas do cinema europeu que levam mais tempo para serem concluídas. Fica evidente que a intenção dos realizadores deste filme é produzir uma obra fácil de ser digerida pelo grande público e no mercado internacional.

Este é apenas o quinto longa-metragem de Stölzl. Ele começou a carreira como diretor com um vídeo para a série de documentários Making the Video, em 1999. O primeiro longa dele veio três anos depois: Baby. Não assisti a nenhum outro filme dele. Me parece competente, mas lhe falta uma assinatura como realizador.

Ainda falando da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Hagen Bogdanski. Ele faz um ótimo trabalho independente da complexidade da cena – o filme segue com qualidade nos planos externos, internos, filmados de dia ou à noite.

Esta é uma grande produção histórica, cheia de detalhes e de locações. Para que o filme funcione, vários elementos precisam funcionar bem. Por isso vale destacar o ótimo trabalho de Udo Kramer no design de produção; o de Stefan Hauck, Samuel Jaeger, Anja Müller, Aziz Rafiq e Stefan Speth na direção de arte; o de Idriss El Gholb, Rakaa Mohamed, Mark Rosinski e Heike Wolf com a decoração de set; e o de Thomas Oláh nos figurinos. Muito bom também o trabalho da equipe envolvida com a maquiagem e liderada por Daniela Skala, assim como o trabalho do grupo responsável pelo departamento de som e liderado por Max Walter.

Do elenco, sem dúvida o destaque vai para Tom Payne. O ator tem carisma e sustenta bem a responsabilidade de fazer o protagonista. Gostei também do desempenho do sempre ótimo Ben Kingsley e do competente Stellan Skarsgard.

The Physician estreou em dezembro de 2013 na Alemanha e na Espanha. Depois o filme chegou aos cinemas da Ucrânia, da Polônia e da Macedônia. A previsão para a estreia no Brasil passou do final de junho para o final de setembro. Ou seja, esta produção estreou em poucos mercados até agora, e ainda não foi vista nos Estados Unidos. Por isso mesmo praticamente não teve repercussão relevante entre a crítica e o público.

Produção 100% alemã, Der Medicus, no título original, teve muitas cenas filmadas em seu país de origem. Berlim, Brandenburg e Cologne foram locais utilizados pela produção, assim como o Marrocos – certamente para as cenas no deserto.

The Physician é baseado no livro homônimo do escritor norte-americano Noah Gordon, conhecido por escrever obras históricas que contam a evolução da medicina assim como sobre ética médica, a Inquisição e a cultura judia. Nascido em 1926 em Worcester, no estado de Massachusetts, ele se formou como jornalista em 1950. De acordo com este artigo da Wikipédia e a página oficial do escritor, o livro The Physician, que inspirou este filme e foi lançado em 1986, faz parte de uma trilogia que conta a saga da família Cole. Além deste livro, que virou bestseller, ele lançou as obras Shaman (1992) e Matters of Choice (1996).

Esta produção foi indicada a cinco prêmios no German Film Awards mas, para a infelicidade dos produtores, saiu de mãos vazias da premiação.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para The Physician. Uma avaliação muito boa – e generosa para os padrões do site.

CONCLUSÃO: Filmes de época sempre são interessantes. Mesmo quando usam recursos muito batidos. The Physician não reinventa a roda em termos de produções deste tipo, mas também não deixa a peteca cair. Voltando para a Idade Média, uma das épocas mais tenebrosas da humanidade, este filme mostra como a crescente vontade de aprender e de oferecer ajuda para pessoas simples conseguiu quebrar a forte “ditadura” das religiões. Mais que fé, a questão da briga pelo poder era o que definia alguns dogmas. Vencidos com o tempo e a persistência, estes dogmas deram lugar aos avanços da medicina, foco central desta história bem contada. O filme sofre, contudo, por ser longo demais e lento em alguns momentos. Mas é bem feito.

  1. Klatoo Zakry
    30 de junho de 2014 às 12:21

    Gostei muito da sua crítica e observações. – O filme é uma longa viagem intrigante, divertida e algumas vezes assustadora.

  2. Ana
    11 de julho de 2014 às 17:37

    Adoro seus comentários, mas já estou esperando outra dica e nada, Você não assistiu nada?

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