The Grand Budapest Hotel – O Grande Hotel Budapeste


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Filmes que misturam a fantasia e a realidade e que buscam inovar sem disfarçar a homenagem ao cinema dos primeiros tempo são fascinantes. Muitas vezes mais pela proposta do que pelo resultado final. The Grand Budapest Hotel é uma destas produções que agrada pelo ritmo e pelas diversas referências. O problema é que este título surge após vários outros que traçaram caminhos parecidos e que utilizaram recursos similares para contar histórias cheias de fantasia. Assim, ele parece um tanto “repetitivo” em certa medida.

A HISTÓRIA: Inicia na fronteira europeia mais oriental, a ex-República de Zubrowka, que já foi trono de um Império. Uma garota entra no “antigo cemitério de Lutz”. Ela caminha sobre a neve, passa por alguns homens, e chega até um busto identificado com a inscrição “em memória do nosso tesouro nacional”. Coloca um chaveiro junto a outros pendurados, enquanto a câmera percorre o nome “Autor” e vemos a imagem de um senhor de bigode e óculos. A garota olha para a capa do livro que segura entre as mãos: O Grande Hotel Budapest. Na contracapa, a imagem do Autor (Tom Wilkinson). Corta. Em seguida, o Autor, em 1985, fala sobre a inspiração de escrever antes de explicar a origem da história de seu famoso livro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue lendo quem já assistiu a The Grand Budapest Hotel): Um grande elenco e um grande diretor sempre despertam uma expectativa considerável. Ouvi falar muito bem deste filme, e tendo assistido a ótimos trabalhos do diretor Wes Anderson, incluindo o último Moonrise Kingdom (comentado aqui), admito que eu estava esperando muito de The Grand Budapest Hotel. Infelizmente encontrei bastante “mais do mesmo”, e não consegui ficar impressionante com o resultado final desta produção.

A primeira sensação que eu tive enquanto os minutos da narrativa passavam é que Anderson havia feito mais um filme bem realizado tecnicamente, com bastante estilo e seguindo a linha de produções feitas por ele anteriormente, sabendo convencer um grande elenco para encarnar seus personagens, mas sem inovar muito na entrega. E não sei vocês, mas tenho um pouco de preguiça em ver um realizador repetindo a própria fórmula – algumas vezes, ao variar com ela, ele apena preserva uma assinatura, um estilo, mas quando até os detalhes são repetidos, o espectador fica com a sensação de déjà vu.

Mesmo tendo uma hora e meia de duração – que cada vez mais eu tenho achado perfeita para qualquer história no cinema -, The Grand Budapest Hotel pareceu mais longo que isso para mim. Talvez pelo design de produção burlesco e carregado do filme, ou porque achei a história escrita por Anderson e por Hugo Guinness um pouco carente de novidade… Mas o fato é que não fiquei tão envolvida com a produção quanto eu gostaria.

Achei o design de produção, a direção de fotografia, a direção de arte e os efeitos visuais dignos de aplausos. Mas tudo isso, a exemplo dos doces servidos por Agatha (Saoirse Ronan), me deram a impressão de muito glacê e pouco recheio. A história, que vamos saber apenas no final, foi inspirada nas obras do escritor Stefan Zweig, mistura humor, romance, algumas cenas inspiradas e uma narrativa que corre apressada em vários momentos de muita ação. A salada mista é valorizada por um ótimo elenco, mas só ganha interesse real quando fazemos um paralelo de tudo que vimos com a história de Zweig.

E esse é o ponto fundamental para a nota abaixo. Mais que a qualidade técnica do filme, o que me fez achar The Grand Budapest Hotel interessante foi refletir sobre o que eu tinha visto fazendo um paralelo com o escritor austríaco que decidiu matar-se no Brasil, onde vivia, após ficar desiludido com os rumos que o mundo estava tomando. Daí sim, pensando nisso, este filme passa a ganhar outras tintas.

Quem olha apenas para a cobertura cheia de glacê de The Grand Budapest Hotel vê somente o apuro visual e as interpretações inspiradas do elenco, com destaque para a dobradinha da dupla Ralph Fiennes (como o concierge original do hotel, o Monsier Gustave, ) e Tony Revolori (como o mensageiro, o “lobby boy”, Zero).

Mas a homenagem nos créditos finais fazem a produção ter um outro sabor, escondido por baixo de tanto glacê. Apesar de divertido em muitos momentos, romântico em alguns lampejos e veloz durante os momentos de ação, The Grand Budapest Hotel é um filme sobre princípios e sobre a poesia que resiste em momentos em que a realidade toda parece dominada pela crueldade.

Para começar, fica ainda mais interessante a “introdução” feita pelo Autor que aparece no filme. De fato, Zweig sempre foi inspirado por histórias reais que ele ouviu de outras pessoas e, especialmente, pelas próprias vivências, paisagens e pessoas que ele encontrou pelos diferentes lugares por onde esteve. Quem vive da arte, seja ela escrita, filmada ou cheia de acordes, sabe o quanto a inspiração surge após grande observação, muita audição, sensibilidade nos tratos e trabalho duro. Com Zweig, como com tantos outros, foi assim.

Depois, não por acaso The Grand Budapest Hotel tem como pano de fundo uma história que remonta a uma cidade fictícia no leste europeu no ano de 1932. A manchete de um jornal mostrado no filme pergunta se haverá guerra e noticia a chegada de tanques na fronteira – isso pouco antes de M. Gustave saber da morte da condessa Madame D. (a ótima Tilda Swinton em uma caracterização perfeita) e decidir ir no velório dela.

Apesar da história se passar entre os momentos históricos da Primeira e da Segunda Guerra Mundiais, fica evidente a alusão do roteiro à elas. Especialmente por Zweig, nascido em Viena em 1881, teve a vida definitivamente marcada por estes conflitos. Antes da Primeira Guerra eclodir, o escritor já era conhecido por suas longas viagens e por seus escritos a partir das experiências vividas nelas. Quando estoura o primeiro conflito mundial, ele é pego de surpresa na Bélgica. Consegue voltar para Viena, mas é recrutado como “voluntário” para trabalhar no arquivo de guerra (como bem conta este resumo sobre a vida do autor).

Durante o período de guerra, ele consegue escapar do serviço “voluntário” e compra uma casa na montanha (daí teria surgido a inspiração para o cenário do Hotel Budapeste?), antes de lançar ideias pacifistas no drama Jeremias, de 1917. Judeu, ele se alia a vários autores que defendem a paz, mas acaba sendo perseguido pelos nazistas muito antes da Segunda Guerra Mundial – em 1933, como afirma aquele resumo citado logo acima, os nazistas fazem uma grande queima de livros em Berlim, incluindo obras de Zweig.

Três anos depois, o escritor faz a sua primeira viagem para o Brasil. Pouco antes do início do segundo conflito mundial, Zweig se muda para a cidade de Bath, no sudoeste da Inglaterra, onde ele se casa com Lotte. Conforme a Segunda Guerra vai evoluindo, Zweig fica pouco a pouco mais deprimido. Em 1941, ele e a mulher se mudam para o Brasil, onde cometeriam suicídio um ano depois. Em The Grand Budapest Hotel o horror com a guerra e a presença angustiando da vilania fica evidente.

Claro que o mal, no roteiro de Anderson, não está simbolizado apenas pelos homens de farda que não perdem nenhuma oportunidade em perseguir o imigrante judeu Zero. A maldade está também na cobiça, representada por Dmitri (Adrien Brody), herdeiro de Madame D. e que não aceita repartir nada da riqueza da mulher com M. Gustave; e também na crueldade do capataz de Dmitri, o impassível Jopling (Willem Dafoe em um grande trabalho).

O contexto de invasão militar vai aparecendo aos poucos no filme, até que ele se consolida com a “ocupação” dos homens que lembram os nazistas no hotel. Mas antes e depois deste ponto, em duas sequências no trem, a mensagem de indignação de Zweig ficam muito evidentes.

Primeiro, nas ações do militar Henckels (Edward Norton), que faz lembrar os nazistas, mas que era, na verdade, da “milícia de Lutz”. Ele não deveria aceitar imigrantes, mas abre uma exceção para Zero por causa da amizade com M. Gustave (e sabemos que a amizade contava muito naqueles tempos). E depois, na truculência de um outro militar, desta vez um homem que tinha traços russos, mas que claramente era do grupo que usava uma identificação parecida com a suástica. Ele ignora a permissão dada por Henckels e acaba com a “ousadia” de M. Gustave.

Para mim, Zweig está representado em três personagens: no Autor, em M. Gustave e em Zero. No primeiro, por uma razão evidente: o Autor fala de seu trabalho e é relembrado gerações após gerações. No segundo, por causa da sensibilidade do personagem, um homem que é pacifista e que defende o direito de qualquer pessoa em ter liberdade e ter oportunidades, sendo valorizada conforme se dedica ao trabalho e a melhorar. E no caso de Zero, por ele ser judeu, perseguido, ávido por novidades e por aprender, e por ter uma história bonita de romance com Agatha – a exemplo de Zweig com Lotte. Mas cada um destes personagens pode ter sido apenas inspirado por Zweig, sem a intenção que nenhum deles representasse o autor.

Seja pelo paralelo com o escritor, seja pela bonita intenção de colocar poesia e sensibilidade mesmo em ambientes tão sórdidos e cheios de perseguição, The Grand Budapest Hotel acaba se revelando uma obra mais interessante quando você pensa nela. Durante a vivência do filme, apenas o espetáculo visual sobressai, junto com o trabalho dos atores. Depois, com o tempo, é que vamos degustando o restante dos sabores da produção.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vários aspectos técnicos do filme se sobressaem. Os principais destaques já foram citados acima, mas agora vale dar o nome dos responsáveis. Impecável o design de produção de Adam Stockhausen; belíssima a direção de arte comandada por Stephan O. Gessler e com a ajuda de Gerald Sullivan e Steve Summersgill; bacana a decoração de set de Anna Pinnock e os figurinos de Milena Canonero. Vale destacar, ainda, o excelente trabalho do departamento de maquiagem composto por 25 profissionais e o departamento de arte com dezenas de outros artistas de talento.

Para ajudar na dinâmica do filme, fundamentais as contribuições do editor Barney Pilling, que tem aqui um trabalho meticuloso, e do diretor de fotografia Robert D. Yeoman. O veterano Alexandre Desplat tem um trabalho exemplar com a trilha sonora, que aparece em momentos pontuais, sempre para ressaltar o humor ou o suspense da história.

Este é mais um bom trabalho do estiloso diretor e roteirista Wes Anderson. Nascido no Texas, ele tem filmes muito interessantes no currículo. Vale ter o trabalho acompanhado. Ainda que, espero, ele venha com um pouco mais de ousadia e inovação de uma próxima vez.

The Grand Budapest Hotel estreou no Festival de Berlim em fevereiro deste ano. Depois, o filme participaria ainda de outros quatro festivais. Nesta trajetória, conquistou três prêmios e foi indicado a outros dois. O mais importante que ele recebeu foi o Urso de Prata de Grande Prêmio do Júri para Wes Anderson no Festival de Berlim. A produção também saiu vencedora como Melhor Figurino do prêmio entregue pelo Sindicato Nacional Italiano de Jornalista de Cinema e no prêmio de Melhores Gráficos em um Comercial de TV no Prêmio Golden Trailer.

Este filme foi totalmente rodado na Alemanha e na Polônia. No primeiro país, houve cenas rodadas em diferentes cidades da Saxônia e em Berlim; e no segundo, na Cracóvia.

E uma curiosidade sobre a produção: o nome da fictícia república de Zubrowka foi inspirado na vodca polonesa Zubrowka.

Wes Anderson rodou o filme em três formatos diferentes (1.37, 1.85 e 2.35:1) para demarcar ainda melhor e de forma visual os três períodos diferentes em que a história é ambientada: 1985, 1968 e 1930.

O elenco deste filme impressiona. É um desfile de nomes conhecidos. E ainda que um deles se destaque, o de Ralph Fiennes como M. Gustave, não deixa de ser marcante a forma com que o desconhecido Tony Revolori se destaca em um elenco tão estelar. O rapaz de 18 anos natural de Anaheim, na Califórnia, e que até este filme tinha estrelado principalmente curtas e episódios de séries televisivas, faz um dueto de rara sintonia com Fiennes. Com isso, ele se destaca.

Mas além dos dois, vale citar o ótimo trabalho de F. Murray Abraham como Mr. Moustafa (o Zero envelhecido); Mathieu Amalric como Serge X., empregado de Madame D. e que acaba tendo grande relevância na história por guardar os segredos da mulher assassinada; Adrien Brody como o vilão Dmitri; Willem Dafoe rouba a cena como o sanguinário Jopling; e Jude Law ganha relevância como o escritor quando jovem. Mesmo em papéis menores, vale citar os bons trabalhos de Jeff Goldblum como o advogado perseguido Kovacs; Harvey Keitel como o presidiário Ludwig; e Bill Murray como M. Ivan, da rede de concierges que ajudam M. Gustave. Fazem pontas também Jason Schwartzman, Léa Seydoux, Owen Wilson, Bob Balaban, entre outros.

De acordo com o site Box Office Mojo, The Grand Budapest Hotel teria faturado pouco menos de US$ 58,8 milhões apenas nos Estados Unidos, e outros US$ 108 milhões nos demais mercados em que o filme estreou até o momento. Mesmo sem informações sobre o custo da produção, estes não me parecem resultados ruins.

Esta produção conseguiu uma nota impressionante no site IMDb. Considerando, claro, o padrão normalmente visto naquele banco de dados sobre cinema: 8,3. Essa é uma excelente avaliação! Além disso, os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 205 textos positivos e apenas 19 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,4.

Ah sim, e antes falei que este filme faz lembrar vários outros… Para começar, basta olhar na própria filmografia de Wes Anderson. E depois, vale conferir clássicos recentes do cinema, como Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain. Mesmo bebendo de várias fontes, é fascinante ver como Anderson utiliza bem a tecnologia moderna e enquadramentos antigos, dos primeiros filmes do cinema, ainda na era preto e branco. Bela homenagem, e com muita propriedade.

Este filme é uma coprodução dos Estados Unidos com a Alemanha. Assim sendo, ele entra na lista de filmes dos Estados Unidos, eleito como um dos países que merecia uma série de críticas aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um indicativo sobre o impacto que um filme teve para mim é a vontade que eu tenho de escrever sobre ele logo após o fim da produção. Quando terminei de ver a The Grand Budapest Hotel, admito que não tive um grande interesse de falar sobre ele por aqui. Sinal de que esta produção não me pareceu tão boa quanto poderia. E essa é a vida. O cinema é feito de percepções, vivência e momentos. Refletindo mais sobre o filme depois, percebi que esta produção é interessante se nos focamos mais na homenagem feita para Stefan Zweig e sua obra. Mas descontada essa reverência, há pouco de novo nesta produção. De qualquer forma, vale dizer que ela é bem acabada, com bons princípios e tem qualidade. Que fica mais evidente quando refletimos no paralelo com Zweig. Vale ser conferido sob esta ótica.

  1. 6 de agosto de 2014 às 5:43

    Olá. Senti exactamente o mesmo. Gostei imenso de “Moonrise Kingdom” e vi este filme com uma grande expectativa. Fiquei feliz com o estilo e o humor, mas em termos de história acabei por ficar um pouco decepcionada.

  2. 21 de agosto de 2014 às 12:47

    Fiquei curioso em assistir esse filme!

  3. 25 de agosto de 2014 às 0:18

    Eu li uma ou outra crítica sobre o filme e a única que coincide com o que senti vendo este filme é a sua. A gente fica encantado com a arte toda, com as intenções, com o elenco extraordinário etc. etc….e fica esperando algo que não vem. A gente gostaria que o filme fosse uma coisa, que acaba não sendo. Um mérito que tinha tudo para alcançar e que parece buscar e até atingir…mas na verdade não chega lá e como produto final é absolutamente frustrante e a gente só lembra dele pelo que gostaria que tivesse sido.

  1. 12 de julho de 2014 às 7:58
  2. 15 de janeiro de 2015 às 13:13

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