Violette


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Vidas aparentemente ordinárias podem revelar-se tão extraordinárias quanto a dos ídolos que vamos conhecendo com o tempo. Violette conta a história de uma escritora menos conhecida, mas que foi rodeada por nomes famosos. Nesta história, conhecemos não apenas a trajetória dela e de suas relações com os famosos, mas principalmente refletimos sobre os efeitos duradouros que a rejeição dos pais podem provocar na vida de uma pessoa. Um filme profundo, que trata de vidas complicadas e intensas. Recomendado se você não estiver procurando um filme para “relaxar”. Essa produção é tudo, menos relaxante.

A HISTÓRIA: Começa com a frase de que a feiura em uma mulher é um pecado mortal. Se ela é bela, é notada por isso. E o mesmo vale para a feiura. O dia está amanhecendo, e Violette Leduc (Emmanuelle Devos) caminha depressa por uma floresta, abandonando uma mala pesada no caminho enquanto os latidos dos cães se aproximam. Ela é presa, porque carregava uma mala com comida escondida. Corta. Capítulo 1: Maurice. Violette caminha por uma floresta, mas desta vez sem os latidos dos cães. Ela está chegando em casa. Logo que entra, deve deixar o dinheiro que conseguiu com um velho. Chegando no quarto, Maurice Sachs (Olivier Py) pede que ela não faça barulho. Este é apenas um dos importantes relacionamentos que fará a personagem de Violette ser conhecida como uma escritora libertária.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Violette): Faz mais de uma semana que eu assisti a esse filme, mas só agora consigo escrever sobre ele. Na memória, lembranças frescas do ótimo trabalho da atriz Emmanuelle Devos, que dá peso para a história em uma interpretação firme e convincente. A direção cuidadosa e que valoriza o trabalho da protagonista feita por Martin Provost, que assina o roteiro ao lado de Marc Abdelnour e René de Ceccatt, também é um diferencial da produção.

Sendo franca, eu nunca li nada assinado por Violette Leduc. Por isso mesmo fiquei fascinada com esta história nem tanto pela protagonista, mas pelo círculo que ela frequentou, especialmente por ver um pouco do resgate histórico de uma de tantas leituras possíveis da conhecidíssima Simone de Beauvoir (interpretada por Sandrine Kiberlain). Esta sim, eu li.🙂

Interessante perceber como Simone, apesar de tão conhecida, ser tão acessível. Ao ponto de receber a visita de uma desconhecida Violette e, de forma muito generosa, ler o que ela tinha a apresentar. Vendo ali um potencial a ser incentivado, Simone cuidou em dar apoio para a escritora iniciante, ainda que ela tivesse outras intenções com a aproximação. Francamente não sei até que ponto ela teve ou não um romance com Simone – o filme argumenta que a paixão foi apenas unidirecional, que partiu de Violette e não foi correspondida por Simone, mas francamente fiquei com as minhas dúvidas.

De qualquer forma, o filme é interessante por mostrar alguns ícones da cultura “libertária” e cheia de contradições daquela época, como Simone de Beauvoir, Jean Genet (Jacques Bonnaffé), Maurice Sachs, Yvon Belaval (Fabrizio Rongione), Louis Jouvet (Richard Chevallier), Gaston Gallimard (Marc Faure) e Jacques Lemarchand (Pierre-Alain Chapuis) fora das convenções, em momentos descontraídos e de intimidade. Assim, os ícones perdem um pouco o verniz de “deuses” e se tornam, também (e por que não?) ordinários. Lembrando que Gallimard e Lemarchand aparecem apenas em uma ponta.

Interessante ver a alguns destes nomes famosos em momentos de vida ordinária – especialmente Simone e Jean Genet -, com suas inseguranças, infantilidades e “pisadas na bola”. Mas há também boas intenções, especialmente de Simone, e uma longa jornada de autocompreensão e de perdão de momentos decisivos da própria vida por parte da protagonista. E esta, para mim, foi a parte mais tocante da produção.

Há tempos eu reflito sobre a capacidade que algumas pessoas tem – e outras não – em dar origem a novas gerações. Ter filhos, pelo ato simples de parir, parece fácil. Mas ter filhos é algo muito mais complexo e que exige responsabilidade. E talento, gosto sempre de observar. Nem todo mundo foi feito para ser mãe ou para ser pai. E quanto antes as pessoas se dão conta disso, melhor.

Digo isso porque Violette é, para mim, mais um de tantos exemplos de como a geração de uma pessoa sem responsabilidade pode cobrar um preço alto da pessoa inocente que foi gerada. Violette era uma “bastarda”. O peso de ter sido rejeitada é o que vai determinar boa parte de sua vida. Isso até que ela consegue começar a trilhar o caminho da libertação através da literatura. Uma de tantas artes que podem ajudar no processo de cura e, consequentemente, de libertação.

Pouco a pouco Violette consegue perdoar a mãe, Berthe Leduc (Catherine Hiegel), o pai, que não conheceu, e a própria história. Consequentemente, fica evidente que a carência eterna dela tem como fonte a falta de amor e de aceitação original. Uma constatação difícil de ser feita por quem sempre se sentiu rejeitada, mas que vista em perspectiva e após o início do processo de autoconhecimento e de cura, pode ser alcançada.

Muito bacana como Violette consegue trilhar esse caminho, mesmo que ele seja feito de muitas pedras, sofrimento e decepções. Mas no fim das contas, aparentemente, a escritora conseguiu aceitar melhor a própria história e, principalmente, encontrar um pouco de paz. Algo complicado, que exige paciência e tempo, mas que é possível. E desejável.

Encontrar uma história que trata destes temas de forma tão franca e, inevitavelmente, alguma vezes pesada, é importante. E necessário. Por isso mesmo, recomendo o filme para quem está disposto a confrontar-se com uma história densa, complicada, mas com alguns ensinamentos interessantes. E que, de quebra, ainda nos mostra alguns ídolos da literatura e do teatro por um ângulo diferenciado e mais próximo. Vale conferir, especialmente se você está em um dia de ver um filme mais “denso.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Da parte técnica do filme, destaque para a excelente e bela direção de fotografia de Yves Cape. Também gostei muito da trilha sonora de Hugues Tabar-Nouval e da edição de Ludo Troch. O trio é fundamental para a produção, com destaque especial para a trilha sonora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção. Levando em conta a média do site, esta é uma boa avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 24 críticas positivas e seis negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 80% e uma nota média de 7,1. Excelente nota, diga-se.

O único prêmio recebido por Violette foi uma Menção Especial para Emmanuelle Devos no Festival de Cinema Internacional de Haifa – quando ela foi citada também pelo trabalho na produção Le Temps de l’Aventure.

Eu gosto do diretor Martin Provost. Para ser franca, dos cinco longas e do único curta que ele dirigiu, assisti antes de Violette apenas a Séraphine (comentado aqui no blog). Achei o filme anterior dele mais excepcional que este Violette. Ainda assim, algo é preciso admitir: ele tem bom gosto na seleção de histórias interessantes e inusitadas. Espero que ele continue trilhando este caminho e com o olhar cuidadoso que ele tem, valorizando principalmente a direção de fotografia e as intérpretes em seus trabalhos.

Gente, corri para publicar este texto até o final da noite de domingo. Por isso mesmo, vou ficar devendo estas notas de final de texto. Logo que possível, complemento com mais informações, beleza? Até mais!

CONCLUSÃO: Esse não é um filme fácil. E nem poderia ser diferente. Afinal, a história destrincha boa parte da vida de Violette Leduc, uma escritora que foi contemporânea de Simone de Beauvoir, Jacques Guérin, Jean Genet, Maurice Sachs, Louis Jouvet e de Gaston Gallimard e, mais que isso, circulou entre eles. Honestamente, não sabia nada dela até então. Mas mais que nos mostrar alguns destes ídolos de perto, especialmente Simone de Beauvoir, este filme propicia uma reflexão interessante sobre as cicatrizes que a falta de amor pode provocar em uma pessoa.

Violette é rejeitada, como tantas pessoas que não nascem em lares estruturados, e a busca desesperada por aceitação e por carinho para estas pessoas é algo que deveria qualquer pessoa refletir antes de tomar decisões importantes na vida. Um filme interessante por mergulhar tanto na vida e nos sentimentos de uma escritora que penou muito para ser reconhecida e que, até hoje, não tem a popularidade de outros nomes de sua época. Interessante, mas denso. Por isso mesmo, não recomendo se você estiver apenas procurando um filme para relaxar. Este, definitivamente, não é o caso desta produção.

  1. selma m.
    8 de setembro de 2014 às 14:41

    adorei a sinopse!

  2. 9 de dezembro de 2014 às 7:17

    Incrivel, fantastico. A salvação como diz a Simone🙂

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