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The Immigrant – Era Uma Vez em Nova York


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A vida nos leva, muitas vezes, por caminhos complicados. E a solução que conseguimos após cada pedra é o que nos define. Mas algumas vezes, mesmo passos errados podem ser corrigidos. The Immigrant narra a história complicada de uma mulher que acaba cedendo em alguns de seus princípios para sobreviver. A história é dura, e há momentos em que o roteiro mexe com o espectador. A maior qualidade, contudo, está nas interpretações, especialmente na de Marion Cotillard.

A HISTÓRIA: A Estátua da Liberdade aparece de costas, e a câmera vai lentamente se afastando em um dia cinza. Aos poucos, vai aparecendo a silhueta de um homem, de chapéu, que vê ao longe a chegada de mais um navio. As pessoas se preparam para desembarcar. O local é Ellis Island, em Nova York. E o momento histórico, janeiro de 1921. No local cheio de imigrantes, Ewa Cybulska (Marion Cotillard) conversa com a irmã, Magda (Angela Sarafyan).

Ewa tenta disfarçar a tosse discreta, mas incessante, de Magda, mas um guarda percebe e tira a garota da fila. Só entram no país pessoas com plena saúde e que tenham, preferencialmente, uma família esperando – ou que estejam acompanhadas e com uma “conduta ilibada”. Ewa também tem a entrada negada, mas consegue ser resgatada da fila de extradição por Bruno Weiss (Joaquin Phoenix). Com este resgate, começa uma longa e complicada jornada para a imigrante.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Immigrant): Gosto de filmes de época. Mas apenas a imersão no passado não garante o envolvimento do público. É preciso muito mais. Para começar, uma ótima história. E depois, uma forma eficaz de apresentar essa história de qualidade. The Immigrant consegue reunir um ótimo trio de protagonistas, mais um bom grupo de coadjuvantes, um bom roteiro e uma ótima direção ajudada por profissionais competentes de diversas áreas para nos apresentar um pacote bem acabado.

O primeiro destaque evidente da produção é o bom roteiro da dupla James Gray e Ric Menello. Eles se debruçam em uma Nova York do início dos anos 1920. Uma cidade carregada, um bocado sombria, no processo de construção de uma nação que muitos desconhecem – ou fazem questão de esquecer. Afinal, para os estadunidenses não deve ser fácil admitir que a construção de seu país tão virtuoso atualmente foi baseada em corrupção, exploração de mulheres e de imigrantes de todas as origens e, como já nos mostrou diversas obras em HQ, envolta em muita criminalidade.

Alguns filmes já exploraram um pouco desta “origem da nação” obscura. Talvez um dos títulos da filmografia recente dos Estados Unidos mais interessantes nesta linha seja Gangs of New York, dirigido pelo sempre competente Martin Scorsese. Naquela produção é possível conferir a “realidade das ruas”, bastante suja, violenta, corrupta e cheia de nuances – há mais cinza que “preto no branco” na história.

Além do mesmo tempo histórico – de formação da nação – e do tom cínico dos dois roteiros, uma outra semelhança entre Gangs e este novo The Immigrant é o ótimo elenco de protagonistas – ainda que haja uma “uniformidade” maior na entrega do filme dirigido por James Gray do que por Scorsese. Algo interessante em The Immigrant é que o filme não tem nenhuma sobra. Da primeira até a última cena, cada elemento que vemos tem um propósito.

Por exemplo, a imagem inicial desta produção. A Estátua da Liberdade estar de costas para aquele homem bem vestido e impassível, para mim, é bastante ilustrativa. É como se a liberdade, a justiça e o “país de oportunidades” estivesse voltado para o outro lado, com a corrupção, a cobiça e a exploração de homens e mulheres dominando o “background”, todo o cenário por trás da imagem bonita que aparece nas fotografias e na televisão.

No fundo, essa “história real relativa” simbolizada naquela primeira cena e apresentada depois, nos detalhes, no decorrer do filme, não é própria apenas dos Estados Unidos, como muitos que são contra o país gostam de apregoar. Não conheço país em que a propaganda dos governos não seja melhor que a realidade das ruas. E isso não apenas no início dos anos 1920, mas também agora, em pleno ano 14 do século 21.

The Immigrant é interessante por isso, por mostrar sem leveza – pelo contrário, com algumas cenas bem angustiantes – como a realidade de algumas pessoas que não tem, de verdade, as mesmas oportunidades que a maioria, pode ser cruel. Naquele tempo, naquele país, e hoje, em muitas e muitas partes (infelizmente), há muita gente sendo explorada porque “no tiene papeles”, porque são imigrantes ilegais ou porque não tiveram oportunidade de estudar, por exemplo.

O roteiro de Gray e Menello acerta o tom e não perde o foco da análise crítica daquele cenário, daquelas pessoas e, consequentemente, daquela sociedade. Mesmo sendo um filme de época, por ter um roteiro bem escrito, The Immigrant nos faz pensar também nos tempos atuais e nas demais formas de exploração humana. Junto com o roteiro, o grande mérito para tornar este filme instigante e impactante em algumas cenas é o trabalho do trio principal de atores.

E neste sentido, mais uma vez, quem rouba a cena é a atriz Marion Cotillard. Eu já tinha achado ela brilhante em outras produções – com especial destaque para o comentado aqui De Rouille et D’Os -, mas neste filme ela carrega a história. Sem dúvida é a forma com que ela “veste” a personagem, desde o sotaque que simula um inglês mal falado, até a permanente expressão de dor e de força que ela consegue expressar por meio de Ewa que torna este filme tão interessante.

Mesmo Cotillard roubando a cena, não dá para desprezar o grande esforço que Joaquin Phoenix faz para dar profundidade para o vilão Bruno Weiss. O ator se sai tão bem no desafio que passamos a compartilhar, junto com Ewa, uma certa pena do personagem nos minutos finais da produção. Afinal de contas, ele é um desgraçado – em todos os sentidos. Compadecemos dele, da mesma forma que a vítima do algoz, em uma mescla de ódio e pena. Interessante quando um filme consegue não apenas repassar estas emoções, mas provocá-las também no espectador.

Quando isso acontece, preciso tirar o chapéu para o trabalho do diretor e da equipe envolvida. Outro que está bem na produção, além de Cotillard e Phoenix, é o ator Jeremy Renner. Muito diferente vê-lo aqui – sim, ainda tenho na lembrança a interpretação do ator em The Hurt Locker (comentado aqui). Renner está bem, e convence – aqui com muito mais sutileza e até com um bocado de charme. Mas ele fica um pouco ofuscado pelos outros dois protagonistas.

Para não dizer que o filme é perfeito, personagens secundários acabam não acompanhando os papéis principais nem na qualidade do roteiro, nem na interpretação dos atores. A família de Ewa é um elemento importante da história – o resgate da irmã dela, Magda, é o ponto central para tudo que ela acaba fazendo na América contra os próprios princípios. Mas a atriz Angela Sarafyan além de aparecer pouco – por razões bem justificadas pelo roteiro – , não convence tanto quanto deveria.

O mesmo podemos falar sobre os personagens de Edyta Bistricky (Maja Wampuszyc) e Wojtek Bistricky (Ilia Volok), tios de Ewa. Lá pelas tantas, a protagonista decide ir atrás deles, e tem as expectativas mais uma vez frustradas. Apesar da cena ser bem conduzida, apesar de um pouco previsível, e de causar impacto, parece faltar um pouco mais de qualidade para os coadjuvantes. Nada que tire o brilho do filme, mas querendo ou não, esse é um elemento que prejudica um pouco o resultado final.

De qualquer forma, e isso é o que importa, The Immigrant faz um resgate histórico muito bem feito, tanto na qualidade da história, no cuidado com cada detalhe em cena da reconstituição de época, quanto na interpretação dos atores principais. A produção faz pensar, não apenas sobre a construção de cada nação, mas também sobre problemas de marginalização, preconceito, violência e estigmatização social que seguem válidos até hoje.

Para mim, a parte mais importante do filme, além do citado anteriormente, foi nos mostrar como pessoas corretas podem ser levadas por caminhos tortuosos, mas que o importante é nunca perder o foco no caminho certo e, quando restar a mínima chance de trilhá-lo novamente, persistir no acerto. No fim, desta forma, The Immigrant nos transmite uma mensagem cheia de esperança, e de que vale a pena tentar caminhar certo. E mesmo que alguma vez isso não seja possível, não é necessário desistir. A qualquer momento uma luz pode surgir no “fim do túnel” e isso é tudo que você pode precisar.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Há muitos elementos técnicos deste filme que merecem ser mencionados. Além do roteiro de qualidade, bastante abordado anteriormente nesta crítica, devo destacar o excelente trabalho do diretor James Gray. Fica evidente como ele pensou em cada cena, planejou cada take, sem sobrar nenhum elemento em cena que não tenha importância narrativa. Além disso, ele trabalha bem com a equipe envolvida no projeto para valorizar tanto o trabalho dos atores quanto o excelente trabalho de contextualização histórica. Funciona.

Além da direção de Gray, chama muito a atenção o trabalho do diretor de fotografia Darius Khondji. O iraniano de 58 anos – e que fará 59 no próximo dia 21 de outubro – sabe valorizar como poucos a luz e a ausência dela. Desta forma, ele consegue valorizar os atores e o contexto das cenas, nos remetendo para aquele estilo de filme que predominou nos anos 1950 e 1960 e que não exagerava nos recursos artificiais para contar uma história, e sim apostando, essencialmente, nos elementos simples do cinema.

Da parte técnica do filme, vale destacar também o bom trabalho dos editores John Axelrad e Kayla Emter, o design de produção de Happy Massee, a direção de arte de Pete Zumba, a decoração de set de David Schlesinger e os figurinos de Patricia Norris. Também funciona muito bem e ajuda neste trabalho com personagens que precisam de bastante caracterização o trabalho de maquiagem e cabelo feito por Natalie Young, Evelyne Noraz, Rachel Geary e Stanley Tines.

O departamento de arte, um dos grandes “culpados” pela ambientação de época, tem nada menos que 30 profissionais envolvidos. Eles fizeram um belo trabalho.

Além dos atores coadjuvantes já citados, vale comentar o bom trabalho de Elena Solovey como Rosie Hertz, a mulher que comanda o “show” das meninas que também são prostitutas. Outra que acaba ganhando relevância na história, mas que achei um tanto fraquinha na interpretação, é a atriz Dagmara Dominczyk como Belva, a mulher que gosta de Bruno e que morre de ciúme quando entra em cena Ewa – até porque fica evidente, desde o princípio, que Bruno tem um interesse pessoal pela “nova aquisição”. Inveja sempre tem, em histórias como esta, e The Immigrant não foge à regra, uma relevância importante para o desencadear dos fatos.

Esta produção estreou no Festival de Cannes em maio de 2013. Depois, o filme participaria de outros 23 festivais. Um número impressionante, devo dizer! Nesta trajetória, a produção conseguiu abocanhar cinco prêmios e ser indicada a outros cinco. Entre os que recebeu, nenhum prêmio de grande relevância, mas vale citar os de excelência de interpretação de elenco para Marion Cotillard, Joaquin Phoenix e Jeremy Renner e o de excelência em direção para James Gray no Newport Beach Film Festival.

Esta produção teria custado cerca de US$ 16,5 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, até o dia 2 de julho, pouco mais de US$ 2 milhões. Muito pouco. No restante do mundo, o filme teria feito quase US$ 6 milhões. Muito longe de apresentar lucro. Uma pena.

Para quem gosta, como eu, de saber onde os filmes foram rodados, comento que The Immigrant foi todo rodado em Nova York.

Agora uma curiosidade sobre a produção: o roteiro, que tem uma mulher como protagonista, foi especialmente idealizado por Gray tendo Marion Cotillard como alvo para o papel principal. A vontade de escrever uma história focada em uma mulher surgiu depois que ele se emocionou com Il Trittico, baseada na ópera de Giacomo Puccini e dirigida por William Friedkin em 2008. Depois de assistir à ópera, ele comentou com a esposa que faltavam produções, nos dias atuais, focadas na interpretação feminina. Foi aí que ele perguntou porque ele não fazia algo do gênero, e ele teve a ideia de escrever algo para Cotillard. Para Gray, este é o melhor filme de sua carreira.

Este foi o último roteiro de Ric Menello, que morreu de um ataque cardíaco no dia 1 de março de 2013, antes mesmo do filme ser lançado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 88 críticas positivas e 13 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 7,5. Achei a avaliação dos críticos, desta vez, muito mais justas do que do “público” que vota no site IMDb. Não sei se as pessoas estão acostumadas com outro tipo de narrativa e não estão muito propensas a aceitar bem filmes de época, mas acho que The Immigrant poderia ser melhor avaliado.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso mesmo, ela entra na lista de filmes assistidos por aqui e que satisfazem a uma das votações do blog.

CONCLUSÃO: A vida de qualquer imigrante é sofrida. Deixar o país de origem para buscar melhor oportunidades em outro país é um gesto transformador e corajoso. Mas nem sempre as condições são as mais convidativas. The Immigrant narra a história de uma de tantas mulheres que foram exploradas no início do século 20 na chegada aos Estados Unidos. Corrupção, mentiras e exploração fazem parte desta trama. Mas também há um grande exemplo de altruísmo, bondade, coragem e de princípios. A colisão destes ingredientes torna o filme interessante, assim como a interpretação dos atores. Bela história, bem conduzida e envolvente. E que resgata, ainda, um estilo de filme que estava ausente dos cinemas há bastante tempo. Por tudo isso, The Immigrant vale o ingresso, sem dúvidas.

  1. 5 de outubro de 2014 às 15:00

    Não gostei desse filme, achei monótono, mas enfim : gosto é ide cada um. Tu escreves muito bem , parabéns.Já pensou em estudar roteiro? Suas críticas vão um pouco por esse lado de construção de uma obra filmica, bom: é o que acho, bjs e continue.

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