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Pour Une Femme – For A Woman – Por Uma Mulher


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Procurar entender o próprio passado é uma demonstração de respeito. Não apenas com a própria história, mas principalmente com quem construiu os alicerces dela antes de você. Pour Une Femme narra uma busca destas, e a recriação histórica possível quando as fontes de informação não estão acessíveis. Um filme bem contado e que faz um resgate interessante da França do momento da Segunda Guerra Mundial e após esse período. Mas mesmo tendo elementos históricos, este filme se debruça mesmo é nos fatos particulares de uma família. Ganha e perde pontos por isso.

A HISTÓRIA: França, nos anos 1980. Um homem serve o café com as mãos trêmulas, perto de uma cesta com remédios. Ele abre a porta e deixa o cão sair. Na rádio, informações sobre a crise do Greenpeace e o risco ao governo Mitterrand. Anne (Sylvie Testud) comenta que a mãe dela e de Tania (Julie Ferrier) havia morrido três meses antes, deixando mais uma vez o pai das garotas, Michel (Benoît Magimel). As irmãs conferem as fotos antigas dos pais, e recordam da relação um bocado distante que tiveram com a mãe, Léna (Mélanie Thierry), depois que ela se divorciou do marido. Anne se surpreende com um anel de homem encontrado entre os pertences da mãe. A partir daí, ela resolve revisitar a história dos pais, e reconta tudo o que teria acontecido com eles, baseada na história real e em um bocado de imaginação.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Por Une Femme): Demorei para entender a pegada deste filme. O cartaz e o início sinalizam para uma história de amor. Não deixa de ser, mas Pour Une Femme não é apenas isso. A parte que o filme não aparenta ser é o que ele tem de mais interessante. Assim como a mensagem da história intrínseca ao triângulo amoroso.

O primeiro elemento bacana desta produção, como eu comentei lá no início, é a forma com que ela faz uma homenagem de uma filha para os seus pais. Quando Anne a irmã perdem a mãe e, (SPOILER – não leia se você não viu o filme), poucos meses depois, o pai, Anne percebe que há um vazio de histórias nunca contadas, de conversas que não foram estabelecidas por ela ou pelos pais com ela e a irmã. Neste vazio, ela começa a pesquisar e a recriar o que aconteceu.

O admirável é essa vontade de Anne em reencontrar os pais, em entender pelo que eles passaram e o que eles sentiram. Humanizar os nossos antepassados não é algo tão comum quanto deveria ser. Mas é bonito, necessário e uma forma de entender a gente mesmo. Além, evidentemente, de homenagear a quem veio antes. Quando Anne faz o exercício de tentar compreender a história dos próprios pais sem a “paixão” condicionada de uma filha que cresceu respeitando, temendo e considerando os pais como modelos, ela consegue ver que eles tiveram qualidades, defeitos, fraquezas e valores muito nobres que lhes aproximam dela mesma e de tantas outras pessoas.

Não é o exercício mais simples do mundo, mas é muito enriquecedor quando percebemos as pessoas que amamos sem filtros, tirando o sentimento que temos por elas de lado e apenas observando suas histórias com suavidade e generosidade. Daí é possível perceber que somos humano, demasiado humanos e, por isso mesmo, tão parecidos uns com os outros – mais do que muitas vezes nos damos conta. Esta é a parte bacana do filme, aquilo que faz Por Une Femme ser diferenciado em relação a outras produções.

Mas e a história propriamente dita? O roteiro de Diane Kurys, que também dirige o filme, vai dos anos 1980, na França, para a cidade francesa de Lyon em 1945. O primeiro tempo é vivido pelas irmãs Anne e Tania, que começam a formar as próprias famílias enquanto elas começam a se despedir dos pais. E o segundo, é o tempo de alguns dos principais acontecimentos envolvendo os pais das garotas, Michel e Léna. Na narrativa de Kurys, esses dois tempos vão se intercalando, com a história indo e vindo entre os anos 1980 e 1945.

O recurso narrativo desta quebra temporal não é novo, e não incomoda aqui – porque é bem ordenado. Ainda assim, a retomada do tempo “presente” das irmãs na convivência com o pai idoso pouco contribui para a narrativa. Apenas reforça a falta de diálogo entre eles, e a busca das irmãs por conseguir preservar um pouco daquele relacionamento que muitas vezes foi atribulado. Mas grande parte da narrativa está mesmo no tempo transcorrido logo após a Segunda Guerra Mundial.

E aí que o filme ganha outro elemento de interesse. Pouco a pouco o roteiro vai nos mostrando os conflitos que perduraram no ambiente pós-guerra. Desde a resistência comunista que começava a ganhar força, inclusive na Europa, com o desejo de estabelecer a “ditadura do proletariado” em diversos países, até as cicatrizes e o desejo de vingança dos descentes de judeus mortos. Neste último elemento é que surge a outra ponta do triângulo amoroso: Jean (Nicolas Duvauchelle), irmão há muito desaparecido de Michel.

Logo que ele aparece em cena, é inevitável não desconfiar do personagem. É evidente que ele está escondendo algo. A primeira impressão é que ele está mentindo, e que pode não ser quem diz ser – o irmão de Michel. Mas conforme o tempo vai passando, a impressão crescente é que ele está ali por algum motivo, provavelmente para usar o irmão de “fachada” para que ele possa se vingar de alguém. E não dá outra. Jean, junto com Sacha (Clément Sibony), fazem parte de um grupo de judeus que busca vingar-se dos inimigos nazistas eliminando-os do mapa.

São poucos os filmes que já mostraram essa “força-tarefa” de descendentes de judeus que buscaram na violência e na represália de mortes um pouco de justiça após o massacre de milhões de judeus, homossexuais, inimigos políticos dos nazistas e outras minorias feito durante a Segunda Guerra Mundial. E não lembro de outra produção que tenha contado esta história a partir de uma ótica tão pessoal e familiar quanto este Pour Une Femme.

Até agora, falei apenas dos pontos positivos deste filme. Mas, infelizmente, ele não tem apenas qualidades. Pour Une Femme gasta bastante tempo nas “sutilezas” do relacionamento do casal Michel e Léna e na aproximação que Jean faz da mulher do irmão. Para mim, o filme perde força e ritmo sempre que a diretora e roteirista Diane Kurys gasta momentos preciosos da narrativa no tradicional “cortejo” do homem que busca seduzir uma mulher compromissada – item fundamental em um triângulo amoroso que se preze.

Claro que o distanciamento de Léna do marido e a aproximação que ela faz do irmão dele não se justifica apenas por uma atração física. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mesmo sendo mais jovem e bonito – isso vai depender dos gostos de cada uma -, vejo que esta não é a questão principal em jogo. Léna, como tantas outras mulheres, se casa com Michel não por amor, mas por gratidão – ele ajudou a salvá-la da morte. Mas conforme a história se desenvolve, fica evidente as diferenças entre o casal – incluindo o desejo dela de ter liberdade e fazer as próprias escolhas e o estilo machista dele que torna esse desejo quase impossível.

Como acontece em tantas outras histórias, a motivação para a traição tem elementos de interesse pelo “novo partido”, mas vale mais aqui a promessa que aquela transgressão poderia resultar na vida da protagonista. Ela quer se libertar da vida cheia de “privações” do marido. Claro que ela poderia conseguir isso de outras formas, mas acaba cedendo para um caminho transgressor. O melhor ator do elenco, Benoît Magimel, que interpreta Michel, dá um show de interpretação durante todo o filme, mas especialmente quando ele se dá conta da traição da mulher.

Diferente de Léna, que provavelmente gostou de Michel, mas não o amou como ele amou ela, Michel tinha uma verdadeira devoção pela esposa. Não por acaso o filme tem o título que tem e Anne encontra a “relíquia” que simbolizava o cuidado do pai dela com a mãe preservada após tanto tempo. Não importa se Léna o traiu e se eles se separaram. Michel de fato amava a mulher. Pena que nem sempre esse sentimento é, de fato, correspondido. Isso não acontece neste filme, e daí vem outro ponto interessante desta produção: uma história pode ser bonita e bacana, mesmo imperfeita.

Esta é outra lição de Pour Une Femme. O filme gasta tempo depois no cortejo de Jean com Léna e vice-versa, tem nos atores que interpretam estes personagens outro de seu ponto fraco, mas apesar dos problemas, este é um bom filme. Porque tem um ótimo ator para segurar as pontas e pelo menos duas reflexões paralelas ao triângulo amoroso que valem a pena ser feitas. Entra para a lista de produções com toque bastante autoral que não tiveram uma grande divulgação ou importância para o país de origem, mas que se revela digna de ser conferida.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O elenco deste filme é reduzido e esforçado. Mas não são todos os atores que conseguem apresentar um ótimo trabalho. O destaque, para mim, fica com Benoît Magimel, que convence como o correto, político, empreendedor e apaixonado Michel. Nicolas Duvauchelle é bonito, mas fraquinho na interpretação, e Mélanie Thierry se esforça, mas não consegue demonstrar a força que a personagem dela exige. Os últimos dois atores prejudicam um pouco o filme, assim como as atrizes que interpretam as filhas de Michel e Léna.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Gilles Henry, que acerta na escolha de cores em cada momento histórico, e da trilha sonora de Armand Amar, essencialmente romântica, e que tem um papel importante durante a narração da história.

Por ser um filme de época, Pour Une Femme investe em elementos que ajudam a situar o espectador no passado. Destaque para os figurinos assinados por Eric Perron, pelo design de produção de Tony Egry e para a direção de arte de Maxime Rebière. Um outro elemento que acaba tendo um pouco de relevância, especialmente no envelhecimento do personagem Michel, é a maquiagem, liderada por Thi Thanh Tu Nguyen. Que, na minha opinião, é um pouco exagerada.

Pour Une Femme estreou em junho de 2013 no Festival de Cinema de Cabourg. Depois, o filme participaria ainda de outros seis festivais, entre eles o do Rio de Janeiro em setembro deste ano. Nesta trajetória, o filme ganhou um prêmio e foi indicado a um outro. O que recebeu foi o de Menção Honrosa para Diane Kurys pela “excelência na direção” no Festival Internacional de Cinema de Santa Barbara.

Esta produção foi totalmente rodada na França, em Lyon e em outros lugares da província de Rhône-Alpes.

De acordo com o site BoxOffice, Pour Une Femme teria arrecadado pouco mais de US$ 32,6 mil nos Estados Unidos. Nos outros mercados do mundo, a produção teria acumulado pouco mais de US$ 1,23 milhão.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para esta produção. Uma avaliação muito boa, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem as suas críticas linkadas no Rotten Tomatoes dedicaram 8 textos positivos e um negativo para a produção, o que garante aprovação de 89% para o filme e uma nota média de 6,6.

Esta é uma produção 100% francesa.

CONCLUSÃO: Esse é um filme simpático. Narra uma história de amor em meio a uma realidade de paz aparente. Porque nos bastidores, havia uma guerra sendo travada. Pour Une Femme ganha pontos ao explorar a história de uma família e a busca de uma das descendentes do casal de protagonistas para conhecer melhor as suas próprias origens. A proposta é bacana, mas o filme acaba perdendo pontos e um bocado do potencial por centrar-se demais em um triângulo amoroso. De qualquer forma, ele cumpre bem o papel dos resgates históricos e da reflexão sobre os “sonhos perdidos” – seja políticos, seja pessoais. É interessante, mas nada fenomenal ou que possa marcar a sua vida para sempre.

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