Blind


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Muitos elementos fazem um bom filme. Mas o roteiro é um item mágico no processo. Blind é um exemplo disso. O filme ganha em interesse conforme vamos entendendo do que se trata. E o trabalho de Eskil Vogt se mostra, mais uma vez, surpreendente. Poucas vezes conheci um trabalho que alia tanto o mergulho na personagem com a imaginação e o próprio processo criativo. Entrar na mente de uma pessoa não é algo simples. Ainda mais quando essa mente passa a ser o centro da vida da pessoa, limitada em parte de seus sentidos. Eis um trabalho vigoroso e fascinante.

A HISTÓRIA: Inicia com Ingrid (Ellen Dorrit Petersen) dizendo que vai começar com algo simples. Com algo que ela tenha visto muitas vezes. Ela começa com um carvalho. Além das palavras, surge a imagem. Ela fala da casca e dos nós, partindo para os detalhes. Depois, surge a imagem de um pepino com um preservativo. Ela fala de um cão, e aparecem algumas opções em cena. Especifica um pastor alemão, e então vemos os detalhes do pelo do animal. Comenta que os lugares são mais complicados, mesmo que a pessoa já os tenha visto antes. Ingrid diz que é necessário usar as lembranças, mas ter cuidado para não tropeçar nelas. Ela conta sobre a perda da visão, e aos poucos vamos mergulhando em sua realidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Blind): Cada pessoa é um universo. Essa grande verdade nem sempre é percebida. Cruzamos com diversas pessoas todos os dias, e nem sempre nos damos ao trabalho de pensar que elas passaram por inúmeras situações, muitas interessantes e bacanas e tantas outras difíceis. Blind é um filme excepcional por fazer esse exercício de mergulhar no cotidiano rico em imaginação de Ingrid, uma mulher que nasceu com visão perfeita e foi perdendo esse sentido aos poucos, até ficar completamente cega.

Quando perde a visão, ela deixa de conhecer o mundo de forma prática e passa a imaginá-lo. Sem sentir-se segura para desbravar o mundo fora do apartamento que divide com o marido Morten (Henrik Rafaelsen), ela passa os dias ali, esperando por ele, imaginando os lugares e pessoas com quem ele se encontra. E nesse exercício, ela fantasia. Muito. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em casa, exercita o talento de escritora dando vida para dois personagens fascinantes: Elin (Vera Vitali) e Einar (Marius Kolbenstvedt). Mas na parte inicial do filme, não sabemos nada disso.

E esse é, justamente, um dos primeiros acertos do roteiro do diretor Eskil Vogt. Ele nos apresenta os personagens de forma isolada, e por mais que Ingrid seja a narradora da produção, demora um pouco para percebermos que Elin e Einar não são reais. Enquanto essa “ficha não cai”, a ótima direção e texto de Vogt nos faz sentir aflição com o isolamento dos personagens, e com um certo “risco” que o comportamento de Einar parece imprimir a cada aproximação dele de uma mulher com cabelos longos.

A outra personagem da produção, Elin, é separada e tem um filho/a chamado Kim (primeiro interpretado por Isak Nikolai Moller, depois por Stella Kvam Young). Por mais que todos os personagens centrais do filme compartilhem entre si a solidão, no fundo Ingrid está sempre na expectativa pela chegada de Morten. Ela fantasia, escreve, curte o próprio corpo, vive pequenos prazeres no dia a dia enquanto espera o retorno dele. Algumas vezes, ela fantasia que ele está ali, vigiando ela em silêncio – uma das melhores sequências da produção, inclusive, brinca com essa fantasia/obsessão dela pela presença do marido.

Depois de meia hora de filme, com um roteiro interessante e criativo, que joga com a construção mental da protagonista, percebemos que os outros personagens centrais da trama – Elin e Einar – são criações de Ingrid. Eles fazem companhia para ela e, mais que isso, fazem ela projetar uma vida que não tem mais coragem de viver. Ou, segundo o próprio parâmetro dela, não tem mais “capacidade” de saborear. Claro que ela restringe a si mesma. Porque ela seria capaz de vivenciar muitas experiências ainda, mas por medo ou por não ter conseguido ainda se adaptar à nova condição, ela não se arrisca a tentar. E a fantasia, desta forma, é a válvula de escape dela para experiências que ela não se sente mais livre para ter.

Interessante como, volta e meia, uma imagem fálica e de liberdade sexual aparece em cena. Há quem defenda que o homem e a mulher são seres sexuais e que, volta e meia, pensam nisso. Nos momentos mais inesperados. Por isso mesmo, Blind é corajoso ao tratar o tema com franqueza. Eskil Vogt não perde a oportunidade de explorar as fantasias da protagonista, algumas veze plasmadas em seu próprio cotidiano, outras vezes na imaginação que conduz os passos dos outros personagens, principalmente Einar. Apesar de sentir-se sozinha, Ingrid brinca com a sua obsessão pelo marido. Desta forma, é ele quem interage com Elin e Einar, expandindo a vivência dela com ele além do pouco tempo que eles tem para passar juntos.

Não por acaso os filhos fictícios de Elin mudam de sexo. Primeiro, ela é mãe de um menino. Depois, de uma menina. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). No final, quando sabemos que Ingrid está grávida, fica claro a divisão de sentimentos que ela vivencia. Ela ama o marido, vive pensando nele, e fantasia tudo que não consegue viver fora de casa. Quando sabe que está grávida, no fundo, ela se sente confusa sobre o sexo da criança que deseja – seria um menino ou uma menina? A indecisão fica plasmada na personagem Elin. Aparentemente, Ingrid pensa em seguir com a gravidez. Ainda que o casamento dela esteja em crise, e ela, sozinha, não saiba muito bem como resolver a situação.

Por tudo isso, Blind se revela um filme interessante. Não apenas pelo roteiro, criativo e bem escrito, mas também pela forma com que Vogt conta a história visualmente, explorando muito bem as imagens simbólicas e colocando cada elemento em cena com um propósito. Mesmo que não faça sentido na hora em que aparece um pepino com camisinha pela primeira vez, depois ele fará sentido, assim como todas as outras cenas da produção.

Um belo trabalho deste realizador, que soube escolher um elenco de primeira e, de quebra, nos fazer não apenas fantasiar junto com Ingrid, mas também ter um pouco mais de generosidade ao olhar para cada pessoa como se ela fosse um baú de memórias, vivências e desejos algumas vezes realizados, outras vezes não. Por isso mesmo, devemos ter um pouco mais de paciência, e saber perceber as pessoas em suas particularidades. Mesmo os que nos parecem “limitados” em alguma capacidade ou sentido tem uma riqueza de histórias e imaginação fascinante. E por tudo isso, merecem o nosso respeito e, especialmente, algo do nosso afeto e atenção.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os pontos fortes deste filme, como manda a regra do cinema de qualidade, são o roteiro e a direção. A criatividade de Eskil Vogt, o cuidado que ele tem com o desenvolvimento de cada personagem e da história, jogando com cenas icônicas sempre que possível e aproximando a câmera dos protagonistas, deixando claro quem conduz esta história, são irretocáveis. De tirar o chapéu. E uma boa aula de cinema para quem gosta de aprender alguns recursos e se inspirar.

Claro que apenas escrever um bom roteiro e saber narrar a história com competência não garante a satisfação do espectador. Ter um elenco competente também é fundamental. Vogt acerta nisso também. Ellen Dorrit Petersen dá um show de interpretação, convencendo como uma mulher inteligente e segura de si que perdeu a autoconfiança quando deixou de enxergar. Isolada do mundo, ela centra a vida na relação com o marido, enquanto fantasia outras vidas. Ellen fala com o corpo, com os gestos e, especialmente, com o olhar. Na maioria das vezes, a atriz está sozinha em cena, mas repassa para quem a vê todas as emoções que a personagem dela estaria sentido. Fascinante.

Junto com Ellen, estão muito bem em seus papéis Henrik Rafaelsen, marido de Ingrid e que aparece agindo como ele é, na vida real, e também se sai bem dentro das fantasias da mulher; Vera Vitali destila fascínio e muito mais vulnerabilidade que Ellen, o que é algo positivo para o papel dela; e Einar consegue dar realismo para o personagem dele, a ponto de nos fazer temer por mulheres que aparecem em cena – e mesmo na relação dele com Morten. Todos eles parecem pessoas comuns, um acerto de Vogt que, desta forma, permite que as pessoas possam se identificar ou identificar indivíduos próximos e que lembram estes personagens.

Este é um filme de poucos personagens. O que apenas reforça o isolamento da protagonista. Mais um acerto do realizador.

Da parte técnica do filme, vale bater palma para a direção de fotografia de Thimios Bakatakis e para a edição precisa de Jens Christian Fodstad. Também vale citar o bom trabalho de Solfrid Kjetsa na direção de arte, de Solfrid Kjetsa na decoração de set e de Jorgen Stangebye Larsen no design de produção.

Blind estrou em janeiro deste ano no Festival de Cinema de Sundance. No mês seguinte, o filme participou do Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme participaria ainda de outros nove festivais. O último no horizonte será o Festival Internacional de Cinema de Denver, que começa no próximo dia 21. Nesta trajetória o filme conquistou 10 prêmios e foi indicado a outros cinco.

Entre os que recebeu, destaque para o prêmio Label Europa Cinemas para Eskil Vogt no Festival Internacional de Cinema de Berlim; para o prêmio de Melhor Roteiro na categoria World Cinema – Drama no Festival de Cinema de Sundance; e para quatro prêmios no Amanda, o principal prêmio da Noruega – incluindo Melhor Direção para Eskil Vogt, Melhor Atriz para Ellen Dorrit Petersen, Melhor Edição para Jens Christian Fodstad, e Melhor Design de Som para Gisle Tveito.

Blind foi totalmente rodado em Oslo, na Noruega. Aliás, essa produção é 100% norueguesa.

Um dos primeiros elementos que me chamou a atenção para selecionar esse filme foram as ótimas notas que ele recebeu. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para Blind, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram sete críticas positivas – o que garante 100% de aprovação para o filme, que tem nota média 8,6 segundo os críticos. Aprovação de 100% e nota tão alta assim são elementos raríssimos. Impossível não assistir com uma moral tão grande precedendo a experiência. E o melhor: apesar da expectativa, o filme ainda vale a pena.

CONCLUSÃO: Você demora um bocado para entender o que está acontecendo em Blind. Uma pergunta que perdura durante a parte inicial do filme é: afinal, qual é a ligação entre aqueles três personagens centrais? E a resposta para esta pergunta não é óbvia. O filme ganha em interesse quando vamos descobrindo as intenções do realizador. E conforme a “brincadeira” criativa dele vai sendo ampliada. Um filme cheio de detalhes e que potencializa a imersão na vida, na imaginação e nos desejos da protagonista. De uma mulher comum, que poderia ser muitos de nós. Fascinante. Instigante. Com ótimos atores, história bem conduzida e cheia de cuidado nos detalhes, é uma produção irretocável.

  1. 7 de dezembro de 2014 às 17:40

    Ale, novamente usando a tua “cartelera” vamos ver mais um dos teus.
    Obrigado. Depois digo o que achei🙂

  2. roberto
    8 de novembro de 2015 às 10:50

    filme muito bom, agora aquela bunda gostosa no final não é da atriz kkk

  1. 10 de novembro de 2014 às 5:58

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