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Séptimo – 7th Floor – Sétimo


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Ricardo Darín é um destes raros atores que consegue ser bom intérprete e convencer o espectador até calado ou debaixo de chuva. Mas isso não quer dizer, necessariamente, que todo filme que ele encabeça seja bom. Séptimo, por exemplo, é uma produção que tem uma premissa boa e começa bem, mas que não demora muito para demonstrar como faltou desenvolvimento do roteiro. O que era promissor revela-se um bocado frustrante. Mas para os fãs de Darín, provavelmente, isso vai pouco importar.

A HISTÓRIA: Notícias falam dos últimos acontecimentos, enquanto imagens aéreas mostram Buenos Aires. A última notícia diz que o trânsito está carregado, mas a imagem mostra que ele flui bem. Entre os carros que estão trafegando, está o guiado pelo advogado Sebastián (Ricardo Darín). Toca o telefone, e a secretária do chefe dele, Goldstein (Jorge D’Elía), avisa que o patrão quer que Sebastián chegue antes no Tribunal para apoiar um cliente importante. Ele canta a secretária, que dispensa o colega.

Antes de ir para o Tribunal, Sebastián se encontra com a quase ex-mulher, Delia (Belén Rueda), e com os filhos, Luca (Abel Dolz Doval) e Luna (Charo Dolz Doval). Ele deve levá-los para o colégio. Mesmo com o alerta de Delia, Sebastián e os filhos brincam dele descer os sete andares desde onde eles moram e até o térreo de elevador enquanto eles correm pelas escadas. O problema é que chegando na recepção Sebastián descobre que os filhos dele sumiram. Daí começa a busca pelo paradeiro das crianças.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Séptimo): Os minutos iniciais desta produção já dão muitos indicadores para o espectador. Aquela técnica de misturar notícias de rádio e/ou TV com imagens aéreas da cidade e que, no conjunto, dão a entender que a história se passa em “uma grande metrópole” já é para lá de batida. Aqueles minutos iniciais revelam como Séptimo é um filme que mergulha sem medo na escola do cinemão dos Estados Unidos. E não apenas naquele início.

Nas cenas seguintes, temos a apresentação do protagonista como um cara que tenta ser “descolado” – cheio de gracinhas com a colega de trabalho – e também eficiente. Aos poucos vamos entendendo como o personagem de Darín tem um certo problema com a fidelidade – ele gosta de pular a cerca – e com seguir regras. Até aí, tudo certo. Bastante lugar-comum, mas nada que prejudique a história logo de cara.

Quando Belén Rueda surge em cena, chega a ser um alento saber que existe ao menos mais uma atriz em cena de peso além de Darín. Afinal, por mais que ele seja bom, a história mostra como um único ator, sozinho, não consegue salvar uma produção. Quando ele resolve ir conta a orientação da quase ex-mulher e brinca com os filhos, mesmo atrasado, o espectador já está se preparando para o pior. E, de fato, as crianças somem.

Até este momento, o filme vai bem, apesar das obviedades. E os primeiros minutos de “desespero” do protagonista, bem interpretados por Darín, de fato incentivam a angústia do espectador. Mas daí logo surge aquela questão: de duas uma, ou as crianças saíram do prédio, e para isso o porteiro Miguel (Luis Ziembrowski) teria que estar envolvido, ou elas estão em alguma parte do prédio.

Se a premissa é boa – as crianças somem após o pai falhar em infringir uma regra -, a resolução dela acaba sendo vital para esta produção. E aí que o roteiro do diretor Patxi Amezcua com Alejo Flah falha. Justamente na resolução do caso. Oras pois, desde os livros de Agatha Christie aprendemos que o importante é termos bons “possíveis culpados” em cena. Entender a motivação das pessoas é tão ou mais importante que conhecer os fatos que antecederam o problema.

Séptimo é fraco nos possíveis culpados. Lá pelas tantas, Sebastián acaba acreditando que os filhos foram sequestrados a mando do homem poderoso que não quer que ele continue no caso que será defendido no Tribunal – ideia, cá entre nós, bem estapafúrdia e que não chega a convencer, afinal, ninguém foi visto carregando as crianças para fora do prédio – e, por poucos segundos, ele questiona se o ex-marido/namorado da irmão não teria sido o culpado.

Esta segunda opção, que poderia dar mais pano pra manga, é rapidamente descartada. Achei um desperdício – afinal, para que ter aqueles dois personagens (a irmã do protagonista e o perseguidor dela) na trama se eles não dariam muito mais que alguns segundos de tensão/drama?

Antes disso tudo, um ponto importante é que logo Sebastián acredita na tese de sequestro. E, junto com ela, aceita de ficar esperando, já ao lado de Delia, pela famosa ligação pedindo dinheiro. Oras, sério mesmo que um pai aceitaria tão rapidamente esta premissa? E se os filhos tivessem sido sequestrados por um psicopata ou por um pedófilo? O protagonista não teria que trabalhar com outras teorias antes de ficar esperando com a quase ex-mulher no apartamento e, enquanto isso, jogando papo fora sobre como ele havia pisado na bola?

As reações dos personagens também deixam a desejar. Primeiro que o protagonista vai de 0 a 100 em segundos de uma maneira pouco convincente. Ele não deveria ter um desespero crescente desde o sumiço dos filhos e ter mostrado um pouco mais desta preocupação/culpa na procura que começou a fazer apartamento por apartamento antes de estourar na unidade vazia do possível culpado? Também achei pouco factível ele ter tantas dúvidas com aquele policial meio velho – se ainda o ator escalado tivesse um pouco mais de perfil dúbio… mas não era o caso.

Pior que a reação um tanto intempestiva e um tanto tardia do personagem de Darín foi o segundo momento da reação da personagem de Belén Rueda na trama. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não é difícil desconfiar dela depois que, após acusar o quase ex-marido de uma forma um tanto “leve”, ela fica calmamente esperando por uma ligação dos sequestradores em casa. Que mãe, naquela situação, teria reagido com tanta frieza se ela não tivesse alguma ideia de que os filhos estariam bem? Enquanto Sebastián faz teorias mirabolantes, a quase ex-esposa dá sinais estranhos de estar muito controlada para a situação.

Ainda que a condução até aqui seja falha, o pior ainda está por vir. A forma com que Sebastián consegue o dinheiro do chefe dele, no escritório de advocacia, é quase cômica. Não acredito que na vida real alguém conseguiria pegar aquele dinheiro – e, primeiro, ter toda aquela quantia de dólares no escritório do homem que recebe US$ 100 por semana… – e sair daquela forma tão “tranquila”.

Só mesmo em um filme que precisa, urgentemente, de uma saída para a história. Depois, bem difícil de engolir que um homem no centro do furacão como Sebastián se preocuparia em não deixar a linha de celular ocupada e deixaria a bateria terminar no momento decisivo das negociações para a libertação dos filhos. Por favor! São os roteiristas brincando com a nossa inteligência!

E daí que fica ultra suspeita a reta final da produção. Primeiro, até dá para acreditar que as crianças foram ajudar uma mulher que disse ser amiga do pai delas e que estava com problemas após a sacola de compras estourar e que, desta forma, elas entraram no apartamento do quarto andar sem dar na vista e sem resistência. Mas quantas horas passaram depois disso? E as crianças ficaram numa boa, ensinando a mulher a usar o Wii, por diversas horas sem nenhuma delas questionar que elas estavam indo para o colégio e que o pai estava preocupado com elas e que, desta forma, elas deviam sair dali?

Sério mesmo que eles querem nos convencer que as crianças brincaram com o Wii, ganharam umas bolachas, e esqueceram do pai, do colégio e da vida? Difícil de acreditar, hein? Se ao menos elas tivessem sido dopadas… mas não é isso que o filme sugere através da narrativa delas após a saída do apartamento que serviu de cárcere. Depois, estranho o porteiro comentar que Sebastián estava certo e que  as crianças estavam no 4º B. Não lembro em nenhum momento dele insistir nesta ideia.

E para fechar a série de peças mal encaixadas, na mesma noite de um dia em que as crianças foram sequestradas, a mãe delas de fato convence querendo tirar elas do país? Sério mesmo? Que mãe, por mais desesperada que estivesse com a “insegurança” da cidade onde mora, iria tirar as crianças do país – e não para uma viagem curta, mas para algo acima de 10 horas de voo – no final de um dia tenso como aquele, com as crianças ainda “traumatizadas” com um sequestro relâmpago? E o pior é Sebastián concordar com aquilo sem nem questionar muito – e não me digam que a culpa que ele pudesse estar sentindo justificaria aquilo.

Francamente, muito ruim a condução do filme e os pontos questionáveis que ele vai deixando no caminho. O início foi muito bom, apesar de um ou outro lugar-comum, mas boa parte da trama se mostra capenga e incoerente. Darín salva a maior parte das cenas, descontadas as partes do roteiro que prejudicam a interpretação dele – porque não dá para acreditar nas atitudes do personagem. O mesmo acontece com Belén Rueda. Ela está muito bem no início, mas quando o roteiro coloca a personagem em atitudes estranhas, a atriz também não se sai tão bem.

Ainda assim, apesar do problema fundamental do roteiro, é preciso dizer que a escalação do elenco foi muito bem acertada, e que a direção de Patxi Amezcua dá conta do recado. Ele acerta em manter a câmera perto dos atores, para registrar a emoção deles, ao mesmo tempo que explora bem a dinâmica das cenas com cortes bem feitos e uma edição competente. A trilha sonora, vital em produções de suspense como essa, também é acertada. Então, no fim das contas, o filme é bem acabado, apesar de ser falho na trama.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um filme como esse, muitas vezes, só vale a pena por causa do Ricardo Darín. Esse ator, além de ótimo intérprete, é um charme só. Por causa disso, mesmo com a idade que ele tem – 57 anos, perto de completar 58 no dia 16 de janeiro -, ele convence como um “don juan”, um garanhão que pode cantar a secretária do escritório de advocacia de Séptimo e quem mais ele quiser. Mesmo gostando tanto dele – e não conheço ninguém que não goste do ator -, admito que gostei de ver o nome de Belén Rueda no elenco. Não assisti a muitos filmes da atriz, mas em um recente ela manda muito bem: El Orfanato, comentado aqui no blog. Vale assistir.

Um problema de Séptimo é que além destes dois atores, que são protagonistas, o elenco de apoio deixa a desejar. Por exemplo os atores mirins, os irmãos Abel Dolz Doval e Charo Dolz Doval. A impressão que eu tenho é que eles estão ali para cumprir tabela, mas não agregam realmente valor enquanto intérpretes. Não importa se vemos eles antes ou depois do sequestro, porque eles estão sempre iguais. Mornos. Falta experiência e, no caso deste filme, talvez um pouco mais de preparo para eles.

Os outros atores do elenco de apoio são apenas razoáveis. Vale destacar o bom trabalho de Luis Ziembrowski como Miguel, porteiro do prédio que fica sempre com uma cara de semi-culpado e um tanto perdido; Osvaldo Santoro como Rosales, o policial veterano que mora no prédio e que acaba ajudando na procura das crianças – e com quem o protagonista já teve alguns desentendimentos; e Guillermo Arengo como Rubio, amigo e colega de Sebastián e que acaba ajudando o protagonista em diversos momentos. Jorge D’Elía como Goldstein, chefe de Sebastián, está muito mal – ele nem parece ter experiência na área… se bem que o roteiro não o ajuda.

Patricia Gilmour aparece pouco como a “senhora Maria”, vizinha do sexto andar que viu as crianças descendo as escadas; e Gaby Ferrero, identificada como “sequestradora”, apenas confunde ainda mais sobre, afinal, em que local estavam as crianças. Ferrero não é a mulher que aparece primeiro, junto com o namorado, e que era o meu palpite principal. Me parece que ela seria a última mulher que apareceu naquela sequência de apartamentos em que Sebastián procura os filhos, mas não dá para ter certeza.

Da parte técnica do filme, elogios para a direção de fotografia de Lucio Bonelli, que valoriza os ambientes – especialmente o vão central do prédio e sua escadaria – mostrados pelo filme; para a trilha sonora de Roque Baños, que ajuda a impulsionar o clima de tensão e de suspense; e para a edição de Lucas Nolla que, junto com a direção acertada de Patxi Amezcua, especialmente nas sequências iniciais do desespero do protagonista atrás dos filhos, é a responsável pela melhor parte da produção.

Séptimo estreou em setembro de 2013 na Argentina e, dois meses depois, na Espanha. O filme participou de apenas dois festivais, o de Miami e o do Rio de Janeiro. Nesta última semana o filme estreou no circuito comercial brasileiro. No Festival de Cinema de Miami a produção foi indicada para o Prêmio do Grande Júri, mas ela saiu de mãos vazias.

Como o filme sugere, Séptimo foi totalmente rodado em Buenos Aires.

Este é apenas o segundo longa-metragem do diretor Patxi Amezcua. Antes de Séptimo ele havia feito 25 Kilates, de 2008, e o curta Mus, de 2003.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,8 para esta produção. Achei a avaliação justa. Eu dei uma nota um pouco maior porque sou fã da dupla de protagonistas. O site Rotten Tomatoes não tinha nenhuma crítica sobre esta produção, um tanto ignorada fora da Argentina.

CONCLUSÃO: O resumo do que achei do filme já foi esboçado na introdução deste texto. Séptimo começa bem, consegue envolver o espectador em uma situação complicada e angustiante. Não por acaso, lembra um pouco do mestre Hitchcock. Pena que esta lembrança logo se esfumace. Conforme a condução da história vai evoluindo, percebemos que faltou um pouco de cuidado com o texto e com a narrativa. As reações dos protagonistas não condizem exatamente com o que se espera, e a tensão inicial desaparece – ou sobra muito pouco dela.

Não é difícil matar a charada antes do grand finale. E isso é apenas mais uma demonstração de que a trama poderia ter sido melhor desenvolvida. Darín está bem, mas até ele fraqueja em alguns momentos com um roteiro tão fraquinho. De qualquer maneira, algo que o filme acerta é em mostrar bem Buenos Aires. Filmes que exploram o contexto da trama sempre ficam mais interessantes. Pena que o principal ficou faltando: um roteiro melhor acabado.

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