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A Walk Among the Tombstones – Caçada Mortal


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Filmes de ação que mostram um longo e doloroso processo de vingança fazem parte da história do cinema. Dezenas deles já foram feitos. Outros tantos também se debruçam no perfil de policiais que tiveram um problema grave em sua trajetória, o que fez eles mudarem de rumo. A Walk Among the Tombstones junta estas duas vertentes de filmes de ação sem reinventar a roda mas, ao mesmo tempo, respeitando a inteligência e o bom gosto do espectador.

A HISTÓRIA: Nova York, 1991. O policial Matt Scudder (Liam Neeson) escuta algumas recomendações do colega policial, Danny Ortiz (Maurice Compte). No puxão de orelha, Ortiz diz que está preocupado com Scudder, e que ele não está afundando apenas a si mesmo, mas colocando o parceiro em risco também. Scudder entra no bar e recebe o de sempre: duas doses de destilado e um café, enquanto lê o jornal.

Mas logo entram criminosos no local, que atiram no dono do bar (Patrick McDade). Scudder persegue os criminosos e acaba matando os três. Cenas de uma mulher. Corta. Nova York, 1999. Scudder está lendo o jornal em uma lanchonete quando chega Peter (Boyd Holbrook), que ele conheceu em uma reunião do AA (Alcoólicos Anônimos). Como detetive particular, Scudder é chamado para ajudar o irmão de Peter, Kenny Kristo (Dan Stevens), que está vivendo um drama pessoal pesado.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a produção A Walk Among the Tombstones): Gosto do Liam Neeson. Ele é um ator que soube, pouco a pouco, se especializar em um tipo de papel e de filme bem específicos. A expressão dele é dura, e a seriedade no semblante convence toda vez que ele encarna o personagem de durão. Funciona, em especial, em filmes como este A Walk Among the Tombstones, em que Neeson não é apenas um sujeito durão, mas um homem que tem uma dívida profunda com o próprio passado.

Os primeiros minutos desta produção juntam dois gêneros com filmes bem interessantes: western e os film noir. São momentos eletrizantes e que provocam o espectador, servindo de um belo cartão de visitas do diretor e roteirista Scott Frank. Pouco depois, mergulhamos em alguns lugares-comuns, como o protagonista sendo convidado para investigar um crime que levará ele a confrontar o próprio passado e escolhas equivocadas que ele tomou.

O ex-policial Matt Scudder, há vários anos frequentando encontros de AA, é levado por um colega deste ambiente a encontrar um sujeito com o qual ele jamais trabalharia em conjunto no passado: o traficante Kenny Kristo. No início, achei o ator Dan Stevens muito ruim. Mas pouco a pouco vamos entendendo aquele jeito estranho do personagem – ainda que, na comparação com Neeson, ele fique sempre atrás. O mesmo acontece com o ator que interpreta o irmão dele, Boyd Holbrook. Todos se esforçam, mas nenhum deles consegue realmente convencer em seus papéis. Atores melhor preparados teriam conseguido um resultado melhor com estes mesmos personagens.

Mas voltando para a história: Scudder acaba caindo no enredo de vingança pessoal de Kenny de uma forma um tanto previsível – primeiro ele nega trabalhar para ele, depois acaba cedendo porque percebe que deve contribuir para terminar com uma série de crimes cruéis. A lógica é que se existe alguém pior para ser combatido, por que não se juntar com alguém que você desprezaria normalmente?

Como nos film noirs clássicos, aqui também o limiar entre o herói e o bandido muitas vezes tem a densidade de uma fumaça. Daí que no decorrer da história surge o garoto TJ (Brian “Astro” Bradley). O protagonista encontra ele “vivendo” na biblioteca onde ele começa a investigar crimes similares ao da mulher de Kenny. Volta e meia o garoto surge, principalmente para o protagonista exercer um pouco de sua verve paterna e cheia de conselhos sábios. Daí que eu não sei vocês, mas eu fiquei me perguntando se essa era realmente a finalidade do garoto: servir de trampolim para um pouco de filosofia contra o crime do ex-policial Scudder.

Muitas vezes o personagem de TJ me parecia uma tentativa do roteirista em dar um lado mais “humano” e um pouco “cômico” para a história, para que ela não ficasse macabra demais. Fiquei feliz quando vi que o garoto tinha um propósito maior e uma participação decisiva na reta final da produção. Desta forma, o personagem de TJ nos faz pensar de como nem sempre percebemos que relações “sem grande importância” aparente podem ser, no fim das contas, decisivas em determinados momentos das nossas vidas.

Quem disse que um filme de ação não pode ter um pouco de filosofia no meio?🙂 O desenrolar da trama, propriamente dita, ocorre de maneira um tanto previsível e sem nenhuma inovação narrativa. Há um começo, um meio e um fim. Pouco a pouco o experiente Scudder vai montando o quebra-cabeças do perfil dos criminosos até que, de forma inteligente, ele alerta através de Kenny outros bandidos que tinham as características de possíveis futuros alvos dos bandidos.

Não demora muito para que um novo caso ocorra – afinal, o roteirista tinha pressa para deslanchar o filme. Esqueçam o modus operandi normal de uma dupla de serial killers que, normalmente, dão um certo espaço de tempo entre um crime e outro. Em A Walk Among the Tombstones esses tempo não existe. Logo depois de estuprar, matar e esquartejar a mulher de Kenny, os criminosos Ray (David Harbour) e Albert (Adam David Thompson) querem mesmo é atacar a próxima vítima.

Interessante como o filme de Scott Frank, baseado na obra homônima de Lawrence Block, desconfia dos “homens da lei”. Além de termos um protagonista que se arrepende de um ato do passado, quando ele era alcoólatra e acabou matando não apenas três bandidos, mas causando também a morte acidental de uma menina, temos ainda dois criminosos interessados em dinheiro e que tem um gosto macabro por cortar pessoas que trabalhavam para o DEA (Drug Enforcement Administration ou, em uma tradução livre, Órgão para o Combate das Drogas). Ironia e autocrítica pura.

O filme vai bem, especialmente pelo trabalho de Neeson, até que o protagonista começa a negociar com os bandidos. Claro que há diálogos bons ali, mas fica especialmente estranho quando Scudder fala para Ray que conhece ele, que lembra do “maldito degenerado” que ele conheceu há 10 anos e que ele jogou por uma janela. Hein? Essa é a parte comprometedora do roteiro. Porque em nenhum momento da produção, antes, ficamos sabendo dos dois terem se esbarrado ou conhecido. Até aquela troca de diálogos, não há nenhum indício de que eles tiveram algum encontro antes.

Essa é uma lacuna importante da trama que, até então, estava bem amarrada. Ok, alguém pode argumentar que a fala de Scudder era genérica. Que ele não estava falando especificamente de Ray, mas de qualquer maluco com aquele perfil que ele tivesse encontrado 10 anos antes. Com bastante esforço de imaginação, até podemos pensar nisso. Mas francamente, da forma com que os diálogos foram escritos, não é isso que aparenta. E por mais que Scudder seja bom, fica um pouco difícil de acreditar que os bandidos jogariam o jogo dele daquela forma tão facilitada.

Se eles eram, de fato, e como nos quer fazer acreditar o roteirista e diretor, tão cruéis, dificilmente eles dariam margem para o azar para ganhar uma bolada de mais um traficante. Sendo perseguidos da forma com que eles estavam, era muito mais lógico, segundo o pensamento dos criminosos, matar a refém e partir para uma série de novos crimes longe dali. Mas bueno, o filme precisa seguir, e Scott Frank escolhe o caminho mais rápido para terminar essa história.

Na reta final da trama, gostei das perdas que ocorrem na história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, Kenny era um traficante que vivia bem, mas não tinha vocação para ser um bandido familiarizado com o confronto. E o irmão dele, o pobre Peter, tinha deixado bem para trás a experiência com o rifle – recentemente ele estava mais alucinado com drogas e com a culpa do que afiado no gatilho. Os dois são mortos no confronto com bandidos muito mais experientes e preparados para tudo.

Esta conclusão, junto com outra lição de moral de Scudder para TJ, quando o garoto está com uma arma que pegou em um beco, reforçam as boas intenções do filme – que apesar de cruel, deixam essa mensagem de que o confronto e a busca de vingança contra bandidos nunca é a melhor saída. No fim das contas, Scudder não apenas ajudar a resolver a mais uma série de crimes, como também, através dos cuidados com TJ, ajuda a resolver o próprio passado. Uma trama interessante, bem contada, apesar de uma ou outra falha aqui e ali. E com o grande Liam Neeson.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ajuda bastante na história e funciona muito bem a mudança de visual do personagem de Matt Scudder. Ele começa “sem limites”, com atitude típica de quem vive acima do razoável (leia-se alcoólatra) e com uma pegada de western e, passado aquele momento decisivo na vida e nas certezas do personagem, ele surge sóbrio não apenas na atitude e na forma de falar e caminhar, mas também no visual. Acerto importante auxiliado pelos profissionais responsáveis pelo figurino (Betsy Heimann) e pela maquiagem (Shellie Biviens, Maya Hardinge, Craig Lindberg, Amanda Miller, Kyra Panchenko e Kerrie Smith).

Falando na parte técnica do filme, além da direção bem afinada de Scott Frank, vale citar o ótimo trabalho do diretor de fotografia Mihai Malaimare Jr., livremente inspirado nos film noir e nos western e que, desta forma, sabe valorizar bastante o jogo entre luzes e sombras.

A trilha sonora de Carlos Rafael Rivera aparece em momentos pontuais e ajuda a colocar a trama no compasso adequado, que faz o espectador relembrar de filmes de crime de algumas décadas atrás. Outro nome importante para a produção é o de Jill Savitt, responsável pela edição do filme.

A Walk Among the Tombstones estrou no dia 18 de setembro em 13 países, incluindo Dinamarca, Israel, Itália e México. No dia seguinte, o filme estreou em outros nove países, incluindo Canadá, Reino Unido e Estados Unidos.

A produção, que teria custado cerca de US$ 28 milhões, conseguiu nas bilheterias, apenas dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 26,3 milhões até o dia 19 de setembro, de acordo com o site Box Office Mojo. No restante dos países do mundo onde já estreou, a produção conseguiu quase US$ 26,9 milhões. Ou seja: a produção conseguiu se pagar e, agora, busca lucrar. Deve conseguir isso.

A Walk Among the Tombstones foi totalmente rodado em Nova York, nos Estados Unidos. A cidade, querendo ou não, acaba sendo uma personagem adicional da trama.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: a atriz Ruth Wilson filmou diversas cenas como Joe Durkin, personagem que na obra original é feita por um homem. Ela deveria atuar como parceria do protagonista, mas acabou tendo todas as cenas deletadas na versão final do filme porque o diretor achou que a história funcionaria com o protagonista em uma cruzada solitária. Cá entre nós, acho que ele teve razão.

De acordo com o site IMDb, graças à popularidade do ator Liam Neeson em outros filmes de ação, A Walk Among the Tombstones já estava no lucro antes mesmo de ser lançado por causa das vendas robustas que a produção conseguiu nos diferentes mercados mundo afora. Interessante. Liam Neeson, de fato, virou uma grife.

Esta é a segunda vez que o personagem de Matt Scudder aparece em um filme. A aparição anterior foi na produção 8 Million Ways to Die, quando o personagem foi vivido por Jeff Bridges.

O personagem de Matt Scudder aparece em uma série de 17 obras do escritor Lawrence Block. Ou seja, há bastante trama ainda para ser explorada no cinema – espero que com Liam Neeson ou atores deste calibre.

Há alguns personagens secundários da produção que ganham certa relevância. Do time de mulheres, geralmente vítimas, estão Laura Birn como Leila Alvarez; Razane Jammal como Carrie Kristo; Marielle Heller como Marie Gotteskind; Liana De Laurent como a mulher do traficante Yuri Landau (Sebastian Roché), e Danielle Rose Russell como Lucia, filha do traficante. Por falar no personagem de Roché, interessante ver a esse ator veterano em ação novamente, ainda que em um papel tão secundário.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 84 avaliações positivas e 43 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 66% e uma nota média de 6,1. De fato, o filme deve merecer uma nota nesta média, talvez próximo de 7… dei uma avaliação muito melhor, admito, porque sou fã de Neeson.😉

CONCLUSÃO: Produção dura, com uma pegada obscura e algumas vezes pesada, A Walk Among the Tombstones só é tão bom porque tem Liam Neeson como protagonista. Este ator, a exemplo de Clint Eastwood, se especializou de uma maneira tão profunda que virou grife de certos filmes: os de ação. Ele está perfeito como o protagonista em busca de redenção que ajuda um traficante a buscar vingança. A dupla inusitada acaba se justificando conforme vamos conhecendo mais sobre cada personagem. O desenrolar da história é bom, apesar de uma pequena falha no caminho. Mas nada que comprometa muito a mensagem que o filme quer passar. Envolvente, apesar de alguns atores fracos, esta produção vale o ingresso. Ainda que apenas requente várias premissas já trabalhadas antes em outros filmes do gênero. Só que Liam Neeson está lá para salvar esta e qualquer outra produção.

  1. Marcus
    26 de dezembro de 2014 às 20:28

    Mais uma vez, sempre que posso, venho checar uma resenha sua…

    Sou fã do Liam Neeson também, como você bem descreveu, o cara virou grife, não tinha pensado nisso, e concordo… não perco um filme, da mesma forma que não perdia os da grife Eastwood.
    Esse filme parece mais uma história que já vimos em algum outro filme, mas é incrível como Neeson lidera a película de forma que ela cumpra seu papel fundamental o de divertir.
    Grande abraço e até!

  2. LOURIVAL CARLOS DA SILVA
    26 de outubro de 2015 às 11:42

    FAVOR ME ENVIAR AS 12 REGRAS DO ALCOÓLICOS ANÔNIMOS
    MUITO OBRIGADO, LOURIVAL CARLOS

  1. 14 de dezembro de 2014 às 21:03

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