Mandariinid – Tangerines


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Como comentei recentemente por aqui, um filme para ser bom não precisa ser longo. E o mais importante de tudo: pode ser bem simples. Mandariinid é uma produção muito simples, que gira sobre uma proposta interessante: o que pode acontecer quando dois inimigos mortais são “obrigados” a conviver sob o mesmo teto e sob a regra de não se matarem lá dentro? A tensão e a aproximação entre eles é inevitável, e o resultado desta proposta é muito interessante. Um filme simples, curto, e excelente ao revelar-se um grande libelo pela vida e pela paz.

A HISTÓRIA: Começa explicando que aldeias estonianas foram formadas na Abecásia na segunda metade do século 19. A guerra entre Geórgia e Abecásia começou em 1992, alterando a vida dos moradores estonianos. A maioria deles decidiu voltar para a sua terra natal. Isso esvazio as aldeias, aonde poucos resistiram à debandada. Uma destas pessoas é Ivo (o ótimo Lembit Ulfsak), que trabalha em caixas para armazenar e transportar tangerinas, cultivadas por ele e, principalmente, pelo vizinho e amigo Margus (Elmo Nüganen). Mas a vida tranquila dos vizinhos será modificada com a chegada de Ahmed (Giorgi Nakashidze) e a aproximação da guerra.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mandariinid): Que filme maravilhoso! Esse é o primeiro comentário que quero deixar claro por aqui. Focado em poucos personagens e no trabalho de ótimos atores, com um roteiro preciso e bem construído pelo diretor e roteirista Zaza Urushadze.

Como eu disse lá no início, Urushadze parte de uma premissa simples e muito interessante: o que aconteceria se dois inimigos mortais fossem reunidos frente a frente em uma mesa, sem a possibilidade matarem um ao outro? Ora, a resposta é evidente: eles teriam que vencer as próprias resistência e começarem a dialogar. Como bem apresenta Mandariinid, inicialmente a troca entre os dois se resume a farpas e provocações.

Mas para intermediar o conflito, temos o genial Ivo. Um homem com olhar atento, muita sabedoria e que sabe tratar as pessoas da forma justa, na medida certa para que elas o respeitem e para que saibam que ele as respeita. Aliás, a honra e o respeito são dois elementos fundamentais nas relações estabelecidas nesta história. De forma muito acertada, Urushadze decide fazer a história crescer lentamente.

Primeiro, ele dedica aquelas linhas iniciais para situar o espectador no cenário do filme. A produção se passa na Abecásia, região no Caucásio, entre a Ásia e a Europa, que fez parte da extinta União Soviética. A Abecásia é uma república autônoma em busca de independência da Geórgia, que fica ao Sul da Abecásia. É ali que, segundo o diretor, desde o século 19, vivem estonianos em aldeias.

De acordo com este texto da Wikipédia, com o fima da União Soviética em 1991, as tensões étnicas entre abecásios e georgianos cresceram com os movimentos de independência da república da Geórgia. A guerra civil matou milhares de pessoas em 1992 e 1993, até que foi declarado cessar-fogo em 1994. Sem o problema ser resolvido completamente, os conflitos retornaram no local nos anos 2000.

Pois bem, depois daquela breve introdução do problema na Abecásia, Urushadze nos apresenta o protagonista do filme, Ivo, tendo a rotina tranquila interrompida pelo cenário de guerra do país. O mercenário da Chechênia que é pago para lutar ao lado dos abecácios Ahmed pede comida para ele e o seu amigo e companheiro de armas. Não há negociação, e o primeiro pensamento que eu tenho é de “que bom que aquele homem vive ali sozinho e não tem nenhuma mulher em casa”. Sabemos como as guerras são cruéis.

A dupla de chechenos fica pouco tempo na casa de Ivo. Quando eles vão embora, ele não volta para a produção de caixas. Ivo procura o amigo Margus, produtor de tangerinas, e aí se apresenta o segundo drama da história: a luta dos dois vizinhos para continuar com a tradição do plantio e colheita de tangerinas. Os pés estão carregados de frutas, e os dois acham uma pena desperdiçar tudo aquilo. Mas eles tem pouco tempo para colher tudo e transportar a mercadoria – e, para isso, eles contam com a ajuda de homens que estão na luta armada e que prometeram trabalhar para eles por alguns dias.

Em pouco tempo o roteiro de Urushadze nos apresenta dois dramas que, ao mesmo tempo, são muito particulares daquela região do mundo e, também, bastante universais. Afinal, quantos países já contabilizaram guerras e conflitos em sua história? E quantos lugares tem práticas de busca de renda e de preservação das tradições e/ou culturas como aquele simples plantio de tangerinas mostrado no filme?

Não demora muito tempo para que Ivo seja retirado da tranquilidade novamente. E desta vez os fatos vão mudar a rotina dele definitivamente. Ahmed e o amigo entram em conflito com um grupo de georgianos. Aparentemente, apenas Ahmed sobrevive. Mas na hora de enterrar os mortos, Ivo e Margus encontram um georgiano sobrevivente: Niko (Misha Meskhi). Humanista e defensor da vida, Ivo não pensa duas vezes em fazer de tudo para salvar Niko.

Ele não se importa em abrigar sob o mesmo teto os dois inimigos mortais. Pelo contrário. Pelo seu olhar e risada contida, muitas vezes parece que ele acredita que aquela fatalidade foi perfeita. Ele pede para Ahmed que não mate o inimigo sob o seu teto, e o checheno dá a sua palavra. Niko está muito ferido para tentar qualquer vingança. E assim os dois inimigos começam a conviver. No início, chega a ser hilário o conflito entre os dois. Eles parecem duas crianças brigando para saber quem tem direito à terra, quem sabe lutar melhor ou quem é menos ignorante.

A birra um tanto infantil me parece bem calculada por Urushadze. Afinal, toda a guerra é baseada em disputas deste gênero, de quem chegou primeiro ou de quem tem mais direito à propriedade do que o outro. No fim das contas, e Ivo demonstra isso diariamente, sob a compreensão progressiva de Ahmed e Niko, pouco importa quem acredita ter mais direito que o outro. Todos são iguais e merecem viver. Esta é uma das grandes mensagens deste filme. Mas não é a única.

Depois da lição envolvendo os dois inimigos mortais, que pouco a pouco vão notando que não tem reais razões para se odiarem e desejarem a morte um do outro, o filme tem nova reviravolta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na reta final da produção, um grupo de militares pró-independência da Abecásia chegam na propriedade e questionam a origem de Ahmed. Ele diz que é checheno, mas eles não acreditam no que ele fala. Em poucos minutos ocorrem duas mortes.

Elas comprovam e ensinam dois importantes valores: primeiro, que a guerra não poupa ninguém e tira amigos de todos os lados; e segundo, que ela termina com os sonhos e talentos de jovens promissores. Pouco antes, sabemos um pouco mais sobre Niko. Apenas para ver que tipo de pessoa daria a vida para defender os seus protetores. Não importa o quanto uma luta seja justa, ou correta, ela nunca vai nos levar a algo positivo porque significará mortes, perdas irreparáveis.

Para fechar a narrativa, Ivo ainda tem um último gesto maravilhoso. Ficamos sabendo um pouco mais sobre ele, sua perda irreparável e, com isso, o espectador fica ainda mais maravilhado com o gesto de homenagem final para um jovem talento que ele ajudou a salvar, mas que foi morto por uma guerra sem justificativa.

Como ele bem defende nos minutos finais da produção, pouco importa se a pessoa morta era abecasiana, georgiana ou chechena. Ela era filha de alguém e um indivíduo que poderia ter contribuído muito para uma comunidade. A guerra é sempre uma lástima. Essa é a principal mensagem de Mandariinid, um filme simples e fantástico justamente por isso.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um filme não precisa ter um grande elenco, mas é fundamental ter ótimos atores em cena. Pessoas comprometidas com o trabalho e com passar cada pequeno aspecto da personalidade e das reações de seus personagens para o espectador. É isso o que comprova Mandariinid. A produção tem claramente quatro atores como destaque. Os demais, fazem apenas pontas. Por isso mesmo, o primeiro destaque desta produção são os atores Lembit Ulfsak, com especial atenção, porque ele é o protagonista; seguido de Giorgi Nakashidze, Misha Meskhi e Elmo Nüganen.

Outro elemento importante nesta produção é a marcante e muito presente trilha sonora de Niaz Diasamidze. O trabalho dele é vigoroso e nos remete para a tradição daquela região. Outro elemento importante e que funciona bem é a direção de fotografia de Rein Kotov. Ainda que o filme não saia das propriedades de Ivo e Margus, o cuidado com os contrastes e as cores daquele local valoriza as cenas que o espectador confere atentamente. Também muito competente e acertada a edição de Alexander Kuranov.

A equipe é pequena, e todos os envolvidos fazem um bom trabalho. Mas além dos elementos citados acima, acredito que outro elemento fundamental para esta história seja o som. Um bom trabalho do trio Harmo Kallaste, Valter Jakovlev e Ranno Tislar.

Mandariinid estreou em outubro de 2013 no Festival de Cinema de Varsóvia. Depois, o filme participaria ainda de sete festivais – o último deles o Festival Internacional de Cinema de Palm Springs, em janeiro deste ano. Estranhamente ele não participou de nenhum dos grandes festivais. Nesta trajetória, a produção ganhou 10 prêmios e foi indicada a outros sete, incluindo a indicação para Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2015.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para uma menção honrosa na categoria de Melhor Filme no Festival de Cinema de Jerusalém, e para os prêmios de Melhor Filme e Melhor Diretor no Festival Internacional de Cinema de Varsóvia.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Mandariinid foi filmado na cidade de Guria, na Geórgia.

O diretor Zaza Urushadze tem apenas cinco títulos no currículos. Todos longas. A estreia dele como diretor foi feita em 1989 com o filme Mattvis Vints Mamam Miatova. Depois, ele só voltaria a lançar um novo longa em 1998: Ak Tendeba. Fiquei com vontade de assistir aos filmes anteriores do diretor. Natural da Geórgia, em outubro ele completa 50 anos.

Giorgi Nakashidze, que interpreta ao checheno Ahmed, na verdade é georgiano – nacionalidade que ele é pago para matar no filme. Essa foi a única curiosidade desta produção que eu encontrei para comentar aqui.

Para quem quiser saber mais sobre a Abecásia, recomendo este texto da Wikipédia e também esta notícia publicada na revista Exame que registra um acordo firmado pela Rússia com a Abecásia no final de 2014. Como o segundo texto deixa bem claro, a região da Abecásia se separou da Geórgia “mas não teve a sua independência reconhecida internacionalmente”. Enquanto isso, os conflitos continuam. O que faz com que Mandariinid seja um filme ainda mais corajoso – afinal, além de ser um libelo pela paz e contra qualquer guerra, ele ainda fala de um assunto bastante atual e que mexe com muitos brios atualmente.

Não encontrei informações sobre o custo de Mandariinid, mas imagino que ele tenha sido baixo – especialmente se comparado com o padrão de Hollywood. Também não vi notícias sobre a bilheteria do filme, mas para ele ser tão pouco falado, certamente foi pouco assistido nos Estados Unidos e em países importantes para a crítica de cinema.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,7 para esta produção. Uma ótima, estupenda avaliação se levarmos em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes praticamente ignoraram este filme até aqui. O site abriga apenas quatro críticas – todas positivas, o que daria uma aprovação para o filme de 100%. Essa quase ausência de críticas também reforça a minha observação acima, de que esta produção acabou sendo prejudicada porque quase não foi vista – ela teve uma distribuição restrita, aparentemente.

CONCLUSÃO: O essencial sobre a guerra, as divergências entre as pessoas, a busca pela paz e pelo entendimento está neste filme. Todos esses assuntos parecem ser complicados demais para serem resumidos em menos de 1h30 de uma produção, correto? Mas eis mais um ensinamento maravilhoso de Mandariinid: tudo pode ser simplificado até o essencial. Este filme é o contrário de Birdman e, para o meu gosto, mereceria muito mais evidência do que o filme de Inãrritu. Mas como o mundo não é justo e Hollywood está preocupada com os seus próprios filmes, teremos muito mais gente assistindo a Birdman do que a Mandariinid. O que é uma pena. Ainda assim, se puder, por favor, não evite esse filme. Ele é grandioso em sua simplicidade.

PALPITE PARA O OSCAR 2015: Representante do pouco conhecido no Brasil país Estônia, Mandariinid revela como uma história sem complicações e que aposta em uma boa ideia pode ser potente. Infelizmente pouco falado no Oscar 2015, para o qual os holofotes estão sendo direcionados para Ida (comentado aqui) e para Leviathan (com crítica neste link), este filme mexeu mais comigo que os outros dois.

Mas a verdade é que Mandariinid corre por fora na disputa, assim como Relatos Salvajes e Timbuktu. Pelo menos é isso o que sinalizam os burburinhos e as notícias de bastidores da premiação. Surpresas sempre podem acontecer, é verdade, ainda mais em uma categoria aonde a pressão dos grandes estúdios costuma influenciar menos. Mas acho difícil esse filme, o melhor da categoria para mim até agora, levar a estatueta.

De qualquer forma, muito boas e acima da média as três produções que concorrem a Melhor Filme em Língua Estrangeira que eu assisti até agora. O que apenas comprova que esta categoria, colocada em segundo plano no Oscar, sempre é uma das melhores e que tem todos os indicados dignos de serem vistos. Este é mais um grande ano nesta categoria. E ainda que Mandariinid ganhar seria uma grata surpresa, ainda acho que os favoritos são Leviathan e Ida – o primeiro com apelo de crítica à Rússia, e o segundo, aos crimes contra os judeus (grupo que tem grande peso nos Estados Unidos e, consequentemente, em Hollywood).

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  1. 16 de fevereiro de 2015 às 20:53
  2. 17 de fevereiro de 2015 às 5:58
  3. 17 de fevereiro de 2015 às 6:37

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