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Kreuzweg – Stations of the Cross – 14 Estações de Maria


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Um filme forte. Não apenas pela mensagem, pela reflexão, mas especialmente pela condução da história. Kreuzweg é uma destas produções que não tem como deixar quem assisti impassível. O filme trata dos perigos do fanatismo e da fé levada até o extremo que a mensagem original jamais desejaria. Ao mesmo tempo, esta produção narra a história de doação e de abnegação de uma menina muito especial. Filme marcante e que faz pensar, especialmente para quem segue o cristianismo.

A HISTÓRIA: Começa com a primeira estação: “Jesus é condenado à morte”. Em uma sala, seis jovens fazem anotações solicitadas pelo padre Weber (Florian Stetter). No próximo domingo, eles serão crismados. Na sequência, o padre faz um repasse sobre os ensinamentos que eles tiveram nas últimas semanas, falando sobre o significado do sacramento e sobre o que a Igreja espera deles: que eles atuem como os soldados de Cristo.

Quando o encontro termina, Maria (Lea van Acken) fica um pouco mais para fazer algumas perguntas para o padre. Ela começa perguntando se pode sacrificar algo por outra pessoa, como alguém que esteja doente. O padre diz que sim, mas que às vezes a doença é uma mensagem de Deus. Maria segue querendo saber sobre sacrifício e, apesar do padre não concordar com ela, a jovem seguirá nesta ideia radical.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Kreuzweg): Gostei muito, para começo de conversa, do roteiro da dupla Dietrich Brüggemann e Anna Brüggemann. Achei o trabalho deles muito corajoso e, ao mesmo tempo, bem construído, com uma dinâmica diferente e profunda. No início do filme, já chama a atenção Kreuzweg se dispor a entrar tão profundamente na religião. E com propriedade.

Boa parte do que o padre ensina para os jovens é o que realmente a Igreja Católica defende. Mas lá pelas tantas o discurso começa a se mostrar mais radical. Especialmente quando o padre fala que a TV, alguns tipos de revistas e músicas devem ser evitadas porque são obras de Satanás. Naquele exato momento o espectador sabe que esta história não será sobre uma corrente do cristianismo qualquer, e sim sobre uma de várias que pregam o radicalismo na forma de enxergar os ensinamentos de Cristo e de entender o que a Bíblia comunica.

Achei interessante também a direção de Dietrich Brüggemann. Os 14 minutos iniciais da produção são filmados com uma câmera estática, em apenas um ambiente e com os atores sem ação além do diálogo. Quer um começo mais fantástico e anti o que o grande público está habituado a assistir? Achei genial. Logo no início o filme mostra, desta forma, ao que se propõe: refletir sobre o conteúdo, e não apostar na forma. Kreuzweg não é um filme de ação, com reviravoltas e momentos de suspense. Não.

O filme segue uma linha do princípio ao fim e, dividido nas passagens do sacrifício supremo de Jesus, reproduzidos aqui na história de Maria, ele nos leva pelas mãos pela angústia e o terror compartilhado entre os dois. O primeiro, o filho de Deus, que deu a sua vida para redimir todos os homens e mulheres. A segunda, filha de uma mulher (Franziska Weisz) fanática e, por isso mesmo, louca. Acreditando ser correta, reta e estar fazendo “o que é certo”, a mãe de Maria não dá espaço para a filha viver. Pelo contrário.

Sempre que pode, a mãe de Maria está subjugando a filha, a pressionando e maltratando. É angustiante ver o que acontece. O pai (Michael Kamp) da garota não quer criar discórdia dentro de casa, por isso ele aceita a mão de ferro da mulher e vê ela exagerando na criação dos filhos. Ele se cala, e acaba assistindo a opressão caseira de camarote.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Maria, por sua conta, tem uma visão equivocada do sacrifício e, apesar de ser uma menina com grande potencial para ter uma vida inspiradora, ela se agarra ao desejo de ver o irmão curado – de uma “doença” que ninguém sabe se existe, já que os pais deles não parecem ser muito adeptos da Medicina – e faz o sacrifício supremo.

Acho importante aqui ponderar como, de forma correta, o padre se posiciona toda vez que Maria sugere sacrificar-se pelo irmão. Ele afirma que este não é o caminho. Mesmo ele sendo de uma corrente mais extremista da Igreja, que prega um certo exagero de isolamento das pessoas – o que algumas vezes leva alguns a tornarem-se fanáticos, algo que a Igreja jamais vai apoiar -, ele não apoia a ideia de Maria. Mas tudo acontece muito rápido, em uma questão de pouco mais de uma semana – a contar pelo primeiro encontro entre o padre e os jovens, o domingo seguinte em que eles vão ser crismados e os acontecimentos posteriores que, aparentemente, ocorrem em poucos dias.

O roteiro, apesar de seguir uma linha temporal previsível, vai crescendo conforme as estações vão ocorrendo. O texto dos Brüggemann e a direção “naturalista” de Dietrich torna o que vemos ainda mais angustiante. Afinal, é impossível não se colocar no lugar de Maria e pensar que uma história destas pode estar acontecendo neste exato momento em algum lugar do mundo. Não faltam, infelizmente, correntes religiosas extremistas e pessoas que embarcam em uma visão fanática e prejudicial da fé. Assim como não faltam mães e pais repressores, que não ensinam valores para os seus filhos, mas que os aprisionam e maltratam por acreditarem de forma equivocada que aquela é a maneira certa de agir.

Agora, o filme não tem apenas esta linha de entendimento. Também há a ótica de Maria. Ela acredita firmemente que veio ao mundo para sacrificar-se pelo irmão mais novo. O desejo fundamental dela é belíssimo. Jesus deu a vida para salvar a toda a Humanidade. E Maria, acreditando que está seguindo os passos de Jesus, decide também entregar a vida pelo irmão. O gesto é lindo, digno de admiração, mas é evidente que ele não era necessário. Ainda assim, e apenas para colocar um pouco mais de pólvora no assunto, os Brüggemann tem o cuidado de fazer o irmão dela falar logo depois da morte de Maria.

O que eles querem com isso? Certamente criar debate. Tenho certeza que alguns vão defender que aquela fala comprova que Maria e a mãe dela estavam certas, de que era necessário o sacrifício para ocorrer um milagre. Da minha parte, não acredito nisso. Se Jesus se sacrificou por todos, Deus não quer que os sacrifícios humanos ou de qualquer outro ser vivo continuem sendo feitos em nome Dele. Muito menos exige isso como moeda de troca para milagres. Houve ali uma coincidência que depois seguiu sendo mal interpretada pela mãe equivocada de Maria.

Como disse antes, em outros textos sobre filmes que falam de religião, o propósito deste blog não é falar de credos ou de fé. Mas como trato de filmes, impossível não interpretar o que os roteiros e histórias estão querendo nos dizer. Você tem todo o direito de interpretar este filme da maneira que achar melhor. Mas, por favor, dentro do possível, perceba a crítica para o fanatismo feita por esta história.

Centrado em poucos atores e com uma direção sem peripécias, mas bem naturalista, Kreuzweg valoriza o roteiro, os diálogos e as relações entre os personagens. Acredito que os realizadores não querem apenas alertar para os prejuízos que o fanatismo pode provocar no seio de uma família, mas para também, através deste exemplo, fazer cada um dos espectadores refletirem sobre as suas próprias crenças e atitudes.

Um filme incrível, ousado, e com ótimos atores. Praticamente perfeito – só não gostei do exagero no simbolismo, com Maria partindo após a última comunhão. Entendo o propósito dos realizadores, mas achei que esta parte acabou sendo teatral demais. Também senti uma revolta especial com a atitude do pai de Maria, que esperou até o final para tomar uma atitude. Tardia, infelizmente. Estes pontos, para mim, não permitem que o filme consiga a nota máxima. Mas pelo restante da obra, ele merece aplausos.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei anteriormente, este é um filme com um grupo de atores reduzido. E deste grupo, duas interpretações se destacam – porque também predominam na telona. Primeiramente, admirável o trabalho de Lea van Acken, que interpreta a Maria. Ela consegue o equilíbrio perfeito entre meiguice, bondade, fragilidade, devoção e inocência que a personagem dela pede. A garota está perfeita, com interpretação irretocável. Interessante saber que este é o primeiro trabalho dela em um filme.

Outra pessoa que está de tirar o chapéu é a atriz Franziska Weisz, que interpreta a mãe de Maria. Ela se mantém firme do início ao fim, em um papel duro, cheio de opressão mas também de nuances de chantagem emocional. Convence, a exemplo de Lea. Para finalizar, outra atriz que se destaca é Lucie Aron, que interpreta a Bernadette, a única em quem Maria confia e em quem ela se espelha. Mesmo não concordando com a decisão da jovem, Bernadette se mantém forte perto e dando apoio para a jovem, um gesto muito bonito.

Entre os coadjuvantes, se sai muito bem Florian Stetter como o padre Weber. Gostei também do garoto Moritz Knapp, que interpreta a Christian – ele também convence bem no papel. Os demais, achei um pouco fracos. Vale citar que a roteirista do filme, Anna Brüggemann, faz uma ponta como uma médica. Outros coadjuvantes: Birge Schade como a professora de educação física, Sven Taddicken como enfermeira, Ramin Yazdani como o médico e Georg Wesch como o pequeno Thomas.

Da parte técnica do filme, além do ótimo roteiro de Dietrich e Anna Brüggemann, gostei muito da direção direta, simplificada e elegante de Dietrich. Também merecem ser citados o editor Vincent Assmann e a dupla Mareike Mohmand e Anke Thot pela maquiagem.

Fiquei interessada no trabalho dos Brüggemann. O diretor alemão Dietrich Brüggemann tem 39 anos e 10 filmes no currículo – incluindo cinco curtas e um episódio de uma série de TV. Anna Brüggemann é uma atriz experiente, com 68 títulos variados no currículo, e apenas três trabalhos além deste Kreuzweg no currículo como roteirista. Natural de Munique, na Alemanha, ela tem 34 anos. Os dois, me parecem, são muito promissores.

Kreuzweg estreou em fevereiro de 2014  no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, a produção participaria de outros 28 festivais. Nesta trajetória, Kreuzweg ganhou sete prêmios e foi indicado a outros cinco. Entre os que recebeu, destaque para o prêmio entregue pelo Júri Ecumênico do Festival de Berlim e para o Urso de Prata como o Melhor Roteiro do mesmo festival. Merecido, diga-se. O filme também ganhou três prêmios no Festival Internacional de Cinema de Valladolid, na Espanha.

Produção 100% alemã, Kreuzweg foi todo rodado na cidade de Berlim.

Uma curiosidade sobre o filme: além do alemão, são falados o francês (língua de origem de Bernadette) e o latim durante a produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para Kreuzweg. Uma boa avaliação, considerando as médias do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 13 críticas positivas para o filme – e isso é tudo. Ou seja, Kreuzweg consegue a rara condição de ser uma unanimidade entre os críticos, obtendo 100% de aprovação no Rotten Tomatoes e a nota média de 7,5 – bem parecida com a nota do “público” do IMDb.

CONCLUSÃO: Kreuzweg é um filme diferenciado. Primeiro porque não tem medo de tratar de temas espinhosos. Depois porque faz isso de forma enfática. A produção tem muito conteúdo, bastante texto e vários ensinamentos interessantes, e mesmo quando “exagera” na mensagem, acerta ao revelar que há seguidores de uma certa religião que podem se perder em seus propósitos. Sacrifícios humanos sempre são dignos de admiração, mas a questão central aqui é saber se este sacrifício era necessário. E a quem ele pode interessar. Destas histórias marcantes e que servem para exemplificar caminhos que não devemos seguir. Potente, merece ser visto e debatido.

  1. 11 de maio de 2015 às 19:34

    passando pra dizer que como apreciadora de produções fora do circuito hollywood, ‘A ilha do milharal’ pode ser uma pedida e tanto. Vale cada frame!

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