Shaun The Sheep Movie – Shaun: O Carneiro


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A rotina cansa e tudo o que você quer é um dia de folga. Essa vontade estava interiorizada, mas se torna sólida quando aparece uma propaganda em um ônibus. Um dia de folga para aliviar a rotina pode ser negociado, mas essa tarefa não é tão fácil se você for uma ovelha (ou um carneiro). Mas aí entra a graça e a criatividade de Shaun The Sheep Movie, um filme leve, com um ótimo ritmo e que resgata alguns elementos clássicos do cinema.

A HISTÓRIA: Um filme antigo mostra o protagonista, Shaun, quando ainda era uma jovem ovelha que precisava ser alimentada com mamadeira. Ao lado dela, o fazendeiro, orgulhoso de seu trabalho. Em seguida, aparece Bitzer, o cão também jovem que cresce junto com Shaun. Nesse vídeo familiar, aparece a dinâmica da fazenda: as ovelhas interagindo com Bitzer e o fazendeiro, enquanto os porcos assistem a tudo e tiram sarro dos outros animais. No vídeo aparece também o filhote de búfalo, que ganha de Shaun e Bitzer em qualquer corrida. No final do vídeo, o fazendeiro faz uma foto de “família” – que, depois, seria importante para ele se encontrar na vida novamente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Shaun The Sheep Movie): Fazia tempo, mas muito tempo mesmo que eu não assistia a um filme de animação. Não me faltou vontade, mas sim prioridade – queria ter assistido aos concorrentes do último Oscar, pelo menos, mas quando tive que fazer uma escolha entre ver a um dos principais filmes na disputa e a uma das animações, o segundo grupo acabou ficando para trás.

Bem, depois de tanto tempo sem assistir a uma animação, que grata surpresa voltar a conferir um trabalho destes com Shaun the Sheep Movie. Gostei especialmente da “filosofia” dos realizadores, com destaque para a dupla de diretores e roteiristas Mark Burton e Richard Starzak, que escreveram esta história baseada nos personagens criados por Nick Park. Eu não tinha visto nunca a série inglesa Shaun the Sheep, então me perdoe se você é fã da série e vai achar esta crítica “perdida” ou desprovida de referências. Mas acho importante situar os leitores na minha compreensão da história – por não assistir a série, não sei maiores detalhes dos personagens ou da filosofia desta obra.

Dito isso, voltamos à linha de pensamento anterior. Gostei muito da filosofia dos realizadores porque eles resgatam a aura dos filmes mudos, do início do cinema, quando o desenrolar da história era mais importante do que os diálogos. Na verdade, e este filme demonstra isso, você pode perfeitamente entender as intenções e os sentimentos dos personagens sem que eles precisem falar. Consequentemente, a trilha sonora ganha um papel bastante relevante, porque é ela que ajuda o filme a ter dinâmica e emoção.

Esta é a pegada de Shaun the Sheep Movie. A história, segue aquela linha clássica de um problema que se instala e os personagens correndo atrás para solucioná-lo. O querido protagonista, Shaun, cansado da rotina na fazenda, resolve conquistar um dia de folga para ele e as demais ovelhas. Mas o plano sai mal, e todos acabam caindo na “cidade grande”. A história, assim, é um clássico, confrontando a tranquilidade, a paz e o amor do “interior”, da fazenda, com a falta de laços, de amor e a vida cheia de aparências da cidade grande.

Neste aspecto, o filme não é novo. Mas acaba apresentando, de uma forma diferente, uma história clássica para, quem sabe, novas gerações pensarem sobre este assunto. O velho confronto entre o campo e a cidade, a vida alternativa e mais legítima versus a rotina de repetições e de aparência aparece renovado. Uma das mensagens do filme, desta forma, é que a simplicidade e os laços afetivos são muito mais importantes do que as oportunidades de dinheiro e reconhecimento que uma cidade parece proporcionar.

Shaun the Sheep Movie também mostra o já conhecido argumento de um desmemoriado que precisa ser resgatado – além da revisão da consciência do protagonista que percebe que uma forma desonesta de conseguir algo positivo nunca termina bem. Esses diversos argumentos desta produção fazem ela ter um bom ritmo e dinâmica do início ao fim.

A motivação do grupo de ovelhas e carneiros, assim como de Bitzer, de resgatar o fazendeiro, faz com que a história tenha uma direção segura para perseguir. Para atrapalhar essa missão do grupo – e uma boa história sempre tem algum elemento para atrapalhar ou tornar o desafio mais difícil – aparece em cena A. Trumper, encarregado de fazer o controle animal da cidade grande.

Ele encarna as pessoas que assumem uma posição na vida e se tornam “firmes” em seus propósitos, custe o que custar. Como um trator, ele passa por cima de quem for preciso para fazer “o seu trabalho”. Alguém assim, e este filme fala a respeito, acaba sendo cruel, porque não consegue se colocar no lugar do outro – seja ele um indivíduo ou um animal. Mas como o cinema bem ensina, para as pessoas cruéis há sempre um final à altura.😉

Além de ser divertido, de ter a duração e a dinâmica corretas, Shaun the Sheep Movie tem uma técnica impressionante e que deixa qualquer um maravilhado. Há tempos eu não via um filme de stop-motion tão perfeito, cheio de recursos e de detalhes. Certamente esta produção deu um trabalho incrível, mas o resultado é irretocável. Se você gosta de filmes de animação, independente da tua idade, vale a pena conferir esta produção. Um trabalho feito com esmero e que equilibra ação, momentos verdadeiramente engraçados e de emoção.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Impressionante o trabalho com o stop-motion neste filme. Cada segundo é perfeito e, em diversos momentos, a produção é bastante complexa, com muito movimento e elementos em cena. Parabéns para os diretores Mark Burton e Richard Starzak. Desde já o filme entra para os bons exemplos do gênero.

Agora, uma boa pergunta é: se eu gostei tanto do filme, por que a nota acima não foi maior? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Vou esclarecer. Enquanto eu assistia ao filme, tudo certo. O stop-motion me deixou admirada, gostei da trilha sonora e dos personagens. Mas depois que a produção terminou, eu pensei: “Ok, muito boa, divertida, mas um pouco previsível demais”. Apesar de bom, o filme não é excelente. Poderia ter sido um pouco mais inovador. Não que resgatar velhos ícones de histórias de cinema seja ruim, mas ao renovar um gênero você não necessariamente coloca o filme entre os grandes. Ou, para resumir, este é um bom filme, e só.

Essa produção, ainda que não tenha falas, tem “vozes” que se comunicam sem palavras. Os destaques vão para Justin Fletcher, que dá a voz para Shaun e Timmy (uma das outras ovelhas); John Sparkes, que dá a voz para o fazendeiro e para Bitzer; e Omid Djalili, a voz de Trumper.

Da parte técnica do filme, o grande destaque é a trilha sonora de Ilan Eshkeri. Também vale destacar a ótima direção de fotografia de Charles Copping e Dave Alex Riddett. Outros aspectos técnicos relevantes são a edição de Sim Evan-Jones, o design de produção de Matt Perry, o departamento de arte com 58 profissionais, e o departamento de animação com 23 pessoas.

Shaun the Sheep Movie estreou no Festival de Cinema de Sundance em janeiro de 2015. Depois, o filme participaria ainda de outros sete festivais. Nesta trajetória a produção ganhou um prêmio e foi indicado a outros quatro. O prêmio que ele recebeu foi o segundo lugar como Melhor Produção no Festival de Cinema de Nantucket.

Não consegui encontrar informações sobre o custo desta produção, mas segundo o site BoxOfficeMojo, Shaun the Sheep Movie conseguiu pouco mais de US$ 17,65 milhões apenas nos Estados Unidos e US$ 64,1 milhões nos demais mercados em que ele já estreou. Desconfio que estes valores, somados, devem trazer um bom lucro para os produtores.

Mesmo que a história não é de todo original, algo é preciso dizer: grande escolha de personagens! As ovelhas são lindas e acabam despertando interesse e simpatia imediata. A empatia é fundamental em um filme assim.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme: 20 animadores – daquela equipe de 23 pessoas do departamento de animação – trabalharam nesta produção. Cada um deles era capaz de produzir dois segundos de filmagem por dia. Ou seja, o filme demorou pouco mais de seis anos para ser totalmente animado.

Aquele cão que aparece preso no “departamento de controle animal” e com olhar fixo amedrontador é uma referência ao personal de Hannibal Lecter, de The Silence of the Lambs.

A história mostra, no total, oito ovelhas: Shaun, Timmy, a mãe de Timmy, Hazel, Shirley, Nuts e The Twins. (SPOILER – não leia se você não viu o filme). Mas temos uma falha em um cena. Quando as ovelhas comemoram o feito de terem colocado o fazendeiro para dormir em um carrinho de mão, aparecem nove ovelhas – a ovelha adicional parece ser uma segunda Hazel. Mas apenas naquela cena.

Como eu comentei antes, a trilha sonora é um dos pontos fortes desta produção. Faz parte da produção músicas interpretadas por Tim Wheeler, M People, Prima Scream, George Thorogood & The Destroyers, Foo Fighters, e Madness.

Como muitos outros filme, Shaun the Sheep Movie merece ser visto até o último minuto. Bem no final há brincadeiras dos animadores – nada que vá revolucionar a sua vida, mas se você gosta de curiosidades dos filmes, vale ir até o final para ver os personagens dizendo adeus.

Esta é uma coprodução do Reino Unido com a França.

Shaun the Sheep Movie conseguiu uma ótima avaliação do público e da crítica. No site IMDb o filme atingiu a nota 7,4 – uma avaliação muito boa levando em conta a média do site. E no Rotten Tomatoes os críticos dedicaram 129 textos positivos e apenas um negativo para o filme, o que lhe garante um raro 99% de aprovação e uma nota média de 8,2. Muito bom!

Os diretores e roteiristas Mark Burton e Richard Starzak tem no currículo como roteiristas Chicken Run e The Curse of the Were-Rabbit. Faz sentido. Ao assistir a este novo filme roteirizado por ele eu vi claramente uma linha de “raciocínio” e/ou uma assinatura que liga estes três filmes. Curiosamente, contudo, Shaun the Sheep Movie marca a estreia de Mark Burton na direção. Starzak, por outro lado, tem outros oito títulos como diretor, incluindo séries para a TV como Shaun the Sheep – para a qual ele empresta a sua assinatura em 33 episódios entre 2003 e 2006.

CONCLUSÃO: Shaun the Sheep Movie é um filme sem diálogos e que resgata, de uma forma muito direta e singela, a tradição e a graça dos filmes mudos. Mas não pense que isso faz a produção ser arrastada. Muito pelo contrário. Como nos melhores filmes mudos, esta produção ganha dinâmica com a trilha sonora e, diferente das produções que deram origem ao cinema, com o adicional de expressões/falas que não expressam palavras, mas que dão sentido para os sentimentos dos personagens. Divertido, ágil e com uma boa reflexão sobre o estilo de vida que escolhemos para nós mesmos, Shaun the Sheep Movie é um bom programa para públicos de todas as idades.

  1. Nenhum comentário ainda.
  1. 14 de janeiro de 2016 às 12:46
  2. 13 de fevereiro de 2016 às 20:19

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