Southpaw – Nocaute


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Tem filmes que você procura por causa das pessoas envolvidas – o diretor, os atores, ou todo o conjunto da obra. Outros, pela temática. Southpaw me interessou pelo primeiro caso. Gosto do ator Jake Gyllenhaal. Venho acompanhando a carreira dele desde Donnie Darko. Depois, descobri que se tratava de um filme sobre boxe. Pois bem, se você gosta de boxe, do ator e do diretor, há grandes chances de gostar deste filme, mesmo ele tendo uma história bastante previsível. Agora, se você não gosta destes elementos ou de parte deles, avalie bem o risco de assistir a Southpaw e não gostar do que você vai ver. Porque aqui não há surpresas, ou inovação. Apenas uma narrativa conhecida mas bem contada.

A HISTÓRIA: Sonzeira no fone de ouvido e para os espectadores escutarem enquanto a mão de Billy Hope (Jake Gyllenhaal) é enfaixada. Os juízes se certificam que tudo está sendo feito dentro das regras. Diversas pessoas estão ao redor de Billy e do comitê da luta, incluindo o agenciador Jordan Mains (50 Cent). Depois dele ser preparado e de tudo ser conferido, entra no local Maureen Hope (Rachel McAdams), mulher de Billy. Ela diz que ele está preparado e pede para que o marido não seja muito atingido. Corta. Com bastante sangue no rosto e um bom corte no olho, vemos Billy em ação. Ele não se defende muito, mas bate bem e acaba vencendo Jones (Cedric D. Jones) por nocaute. Na volta para casa, Maureen diz para o marido que ele deve se preparar para parar de lutar. Eles não sabem, mas em breve todos os planos da família vão mudar radicalmente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Southpaw): Sempre tive um fraco pelo boxe. Sou do tempo em que este esporte passava na TV e mobilizava uma massa considerável de pessoas para assistir figuras como Mike Tyson e Evander Holyfield. Importante comentar isso para explicar porque Southpaw me interessou. Filme com diversos lugares-comum, é verdade, mas que vale pelo trabalho do diretor e, principalmente, se você é fã de Jake Gyllenhaal.

Esta produção, como comentei antes, não inova. Ela segue aquela velha fórmula de filmes do gênero desde Rocky Balboa de um lutador de boxe que veio do zero, que era pobre, mas que se fez na vida pela própria garra e determinação. Até que ele tem um revés importante na vida, perde tudo, e tem que provar novamente que consegue se reerguer. Sim, meus caros, tudo isso está neste filme também.

Mas mesmo sendo bastante previsível – afinal, alguém duvida que o protagonista dará a “volta por cima” depois da tragédia? – este filme funciona. Por que? Primeiro, por causa da entrega de Jake Gyllenhaal. Sem dúvida alguma o ator é o melhor da produção. Depois, porque o diretor Antoine Fuqua entende bastante do seu ofício. Ele preza por uma direção próxima dos atores e o mais “naturalista” possível. As cenas de boxe são realistas – muito mais do que as do tempo de Rocky Balboa. Nos sentimos como audiência de lutas para valer.

Depois, o roteiro de Kurt Sutter, ainda que cheio de lugares-comum, não alivia em mostrar as dificuldades do protagonista para manter a cabeça no lugar. De fato, e isso ele vai aprender só quando começa a treinar com Tick Wills (o sempre ótimo Forest Whitaker), o que ele precisa dominar é a sua própria explosão. Um ensinamento válido para todos nós. Conhecer-se a si mesmo e saber como controlar-se é um dos grandes desafios para a vida.

Este é um dos acertos do filme. Outro é mostrar como a noção de família persiste apesar das perdas e do desespero. A filha de Billy Hope não sabe lidar com tudo que está acontecendo e passa a ter raiva do pai depois que ele perde o controle e a guarda dela. Dá para entender a reação da menina, assim como parece crível o que ele pensa como saída. Ele só conhece o boxe e procura em um novo confronto se reerguer. Não só não há caminho fácil para essa “redenção” como o cenário ao redor dele segue agreste – prova disso é o menino Hoppy (Skylan Brooks).

A referência de vida e de segurança de Billy é a mulher Maureen. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele fica perdido quando ela morre. E ainda que, em algum momento, a própria filha lembra ele com palavras duras de que ela também perdeu a mãe, ele não tem equilíbrio para saber lidar com aquela ausência. Depois de ser afastado da filha é que ele começa a correr atrás do prejuízo. O restante… bem, já sabemos por onde a banda vai tocar. Mesmo assim, devo admitir que o final é emocionante. Não pelo resultado da luta mais que esperado, mas pela manifestação de amor que ele tem por Maureen após a redenção. São histórias de amor assim que alimentam o cinema.

Além da história de amor e de recomeço que perpassa todo o filme, o que me agradou nesta produção foi o trabalho dos atores e do diretor, além da busca por um certo tom “realista” da produção. A vida é agreste, para muita gente, mas sempre há espaço para buscar o lugar ao sol. O boxe e outros esportes são prodigiosos em exemplos assim, de pessoas que dão o sangue e a vida para se superarem e vencerem. Isso me emociona e me agrada. Mesmo em um filme que parece carecer, muitas vezes, de um pouco mais de inovação.

Essa avaliação, claro, leva em conta que já assisti a vários filmes de boxe. Para as novas gerações e para quem não cresceu com produções de cinema sobre este tema e nem vendo o esporte na televisão, talvez esta produção seja mais surpreendente e inovadora. De qualquer forma, seja por uma ótica ou outra, o fato é que este filme é bem acabado e realista. Qualidades importantes para produções do gênero.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Talvez você, caro(a) leitor(a), pode estar estranhando eu falar de Southpaw apenas agora. O filme estreou há algum tempo no Brasil é verdade. Eu assisti a essa produção há duas ou três semanas, mas só agora consegui parar para escrever sobre ele. Por isso essa demora. Não lembro com toda a perfeição da história, como se a tivesse assistido hoje, ontem ou nos últimos dias, mas a lembrança principal ficou.

O roteirista Kurt Sutter faz um trabalho apenas mediano se levarmos em conta os outros filmes que tem o boxe como pano de fundo principal. Mas ele acerta ao dedicar tempo para revelar a personalidade e um pouco da origem do protagonista, além de contar um pouco da história dos outros personagens. Há espaço para ótimas cenas de ação, ainda que o grosso da história seja o drama particular de Billy Hope. O roteiro é morno, mas o trabalho do diretor Antoine Fuqua não deixa o espectador ficar com sono.

Se Southpaw tem ritmo, parte do mérito é de Fuqua, e a outra parte do editor John Refoua. Os dois juntos registram com precisão os bastidores do boxe e da vida de quem vive do esporte, imprimindo o ritmo correto com a ajuda da trilha sonora marcante e bem planejada por James Horner.

A direção de fotografia de Mauro Fiore é outro elemento importante para a construção da identidade deste filme. Durante boa parte do tempo as imagens são um bocado escuras, com os momentos mais iluminados restritos ao ringue e a festa de arrecadação de fundos para a instituição em que o protagonista cresceu. Desta forma, é como se os realizadores deixassem claro o contraste entre a aridez da vida real e a superficialidade iluminada do circo que se monta ao redor do esporte. Interessante.

Para mim, o nome forte deste filme é o de Jake Gyllenhaal. Ainda que, admito, acho que algumas vezes ele exagera na cara perturbada, mas acho que ele realmente se esforçou em encarnar o personagem, dando legitimidade para a história. Além dele, merecem destaque o sempre excelente Forest Whitaker que, aqui, imprime a dignidade e o espírito de “não ser comprado” na medida certa; Rachel McAdams que, mesmo não aparecendo tanto na história, deixa as suas digitais logo no início e “paira” durante todo o filme na memória não apenas do personagem de Billy, mas também na do espectador; e a jovem Oona Laurence se sai bem como Leila Hope, filha de Billy e Maureen. A garota parece uma pequena prodígio e reage da maneira certa nos diferentes momentos da produção. Belas escolhas.

Falando em Jake Gyllenhaal, fiquei impressionada com o físico do ator. Quanta diferença daquele magrelo de Donnie Darko! Para mim, o papel de pugilista caiu como uma luva para ele. E não sei vocês, mas acho que ele está cada vez melhor – como um vinho envelhecido. Vale acompanhá-lo!

Entre os coadjuvantes do filme, acho que Naomie Harris faz um bom papel como a assistente social Angela Rivera – ainda que aquela sequência dela acompanhando Leila nos bastidores da luta tenha sido forçada demais; Miguel Gomez como Miguel “Magic” Escobar, o grande adversário de Billy, cumpre o seu papel – ainda que ele seja beeeem fraquinho em termos de interpretação; e Beau Knapp como Jon Jon, um dos poucos amigos que não abandonam Billy quando ele está “na pior”, também faz o seu – sem grande destaque porque o próprio papel dele era assim.

Da parte técnica do filme, além dos nomes já citados, vale comentar o excelente trabalho do departamento de maquiagem composto de 11 profissionais e os figurinos acertados de David C. Robinson.

Southpaw estreou em junho no Festival Internacional de Cinema de Xangai, na China. Depois, em agosto, o filme participou do Festival de Cinema de Locarno. E isso foi tudo. O único roteiro de prêmios da produção. Cá entre nós, fica meio evidente o porque disso – extremamente comercial e sem inovação, o filme não foi feito para o circuito de festivais mesmo.

Esta produção teria custado cerca de US$ 30 milhões. Apenas nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de US$ 51,8 milhões. Se juntar o desempenho em outros mercados, certamente o filme conseguiu registrar lucro.

Para quem gosta de saber sobre a locação das produções, Southpaw foi rodado em diferentes locais de Indiana, Pennsylvania (Pittsburgh e Washington) e em Las Vegas, Estado de Nevada. Ou seja, totalmente filmado nos Estados Unidos.

O MMA virou a última mania mundial de lutas. Mas, pessoalmente, eu achava muito mais interessante quando o boxe estava no auge. Ainda que, todos sabemos, e este filme acerta ao citar isso, o esporte decaiu justamente quando virou uma indústria e começou a ter o dinheiro como o verdadeiro juiz. Uma pena.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção: como Antoine Fuqua tinha um dinheiro bem restrito para esta produção – ainda que eu não achei US$ 30 milhões insignificante -, ele acabou não tendo grana para pagar a trilha sonora de James Horner. Mas o compositor veterano gostou tanto da história que teria feito o trabalho “na faixa”. Esse foi o último filme feito por Horner antes dele morrer em um acidente de avião em junho deste ano.

No início, o papel principal deste filme seria feito por Eminem. O rapper aceitou e começou a estrelar o filme, mas como a produção foi “congelada” por um tempo, Eminem resolveu focar na carreira musical e quando o filme voltou a ser rodado ele foi substituído por Jake Gyllenhaal. Claro que Eminem, a exemplo de 50 Cent, daria um “tempero” para a história mas, francamente, Jake é muito mais ator – sorte do público que houve essa troca.

Jake Gyllenhaal estudou o estilo do pugilista Miguel Cotto para construir o seu personagem.

Este é o primeiro roteiro de Kurt Sutter. Muito se explica. Torcemos para que ele evolua e fique melhor com o tempo.

A Universidade da Pensilvânia foi utilizada para simular os ringues de Las Vegas e de Madison Square Garden.

A música que aparece na parte final do filme, Wise Man, de Frank Ocean, foi originalmente escrita para o filme Django Livre, de Quentin Tarantino, mas como o diretor não conseguiu encaixá-la naquele filme, ela entrou agora na produção dirigida por Fuqua.

O título do filme faz referência à posição de mesmo nome adotada por um pugilista canhoto. A mesma expressão é usada também para falar de um lutador canhoto. Curioso que Jake Gyllenhaal é destro e o seu personagem também luta desta forma, até a estratégia final da luta decisiva. Eminem, por outro lado, é canhoto – o que faria o título do filme fazer mais sentido.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção. Acho que eles se empolgaram com o ator e a direção tanto quanto eu – dando um bom desconto para o roteirista estreante. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por outro lado, foram mais “honestos” com a produção, dedicando 111 textos positivos e 76 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 59% e uma nota média 6.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Um filme com estilo, ainda que o roteiro seja fraco e previsível. Os pontos fortes são o trabalho dos atores e o estilo do diretor, que aposta em uma levada “realista”, seja nas cenas das lutas, seja na rotina do protagonista. O filme acerta ao mostrar os desafios de quem tenta viver do boxe e na origem de muitos pugilistas. O caminho é de pedras, mas com a motivação certa é possível superar cada uma delas. Southpaw nos lembra de valores importantes e entretém nas lutas ao mesmo tempo em que mergulha na história do protagonista. Se você gosta de boxe e de Jake Gyllenhaal, provavelmente vai apreciar esta produção.

  1. 19 de dezembro de 2015 às 22:49

    Andressa, Boa noite! Tudo bem?
    Vou reescrever meu comentário.
    Se eu tivesse lido o primeiro parágrafo teria pulado esse filme!
    Assisti porque me interesso por essa “obstinação masculina” que se tornam lutas por honra, como um grande amor ou a família.
    Consegue me entender? Acredito que em Southpaw ele precisa amadurecer para honrar o papel dele como pai.
    O filme é bem previsível, e honestamente boxe não me desperta muito interesse. Mas eu reconheço que foi com muito empenho desenvolvido o personagem com emoções bem nítidas. Realmente o trabalho do elenco foi fundamental para sustentar cada perfil psicológico.
    Gostei muito da maneira como falou do filme, e das curiosidades que pesquisou. Obrigada!

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