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Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados – Viver é Fácil com os Olhos Fechados


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Ter sonhos e persegui-los é algo fundamental. Especialmente em tempos duros e complicados. Vivir es Facil con los Ojos Cerrados se passa em uma época difícil para a Espanha, de ditadura, quando a liberdade de sonhar não era um artigo comum. Além de tratar daquela época e de uma Espanha pouco difundida mundo afora, esta produção aborda um momento cultural único, dos The Beatles e dos questionamentos que John Lennon levantou em sua época. Especialmente sobre o que de fato é importante na vida.

A HISTÓRIA: Um rádio antigo é sintonizado. Nas notícias de uma emissora, a apresentadora comenta que muitas pessoas se perguntam o que estaria acontecendo com John Lennon. Havia, na época, rumores de que ele iria acabar com a banda The Beatles. Em uma reportagem de jornal, aparece a notícia de que Lennon está em Almería, na Espanha, para participar de um filme.

A notícia segue contextualizando a época, comentando sobre a histeria que circunda os Beatles, trata das ameaças que começam a surgir pelas declarações de Lennon e sobre como pode ser desagradável para eles se apresentarem em países com ditaduras como a Espanha. É neste país que o professor Antonio (Javier Cámara) ensina inglês para os seus alunos com músicas dos Beatles. Fã da banda e de Lennon, ele decide viajar para Almería para se encontrar com o ídolo. No caminho, ele encontra Belén (Natalia de Molina) e Juanjo (Francesc Colomer) em suas peregrinações pessoais.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Vivir es Facil con los Ojos Cerrados): Tinha ouvido falar desse filme, há tempos, mas não tinha conseguido assisti-lo até agora. Gosto do cinema espanhol e de filmes que se debruçam sobre uma certa época na história. Especialmente quando esta época é delicada para o país.

Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados é ambientado em 1966, durante a ditadura do general Francisco Franco – que esteve no poder entre 1939 e 1976. Interessante um filme falar sobre falta de liberdade e pobreza nas ruas naquela época já que a imagem que o regime franquista sempre procurou passar foi de um país unido e aonde tudo ia bem. Não é apenas no Brasil, infelizmente, que muita gente se diz saudosista da época da ditadura. Na Espanha há muita gente que ainda diz ter saudade de Franco, enquanto outros simplesmente não viveram aquela época e não tem lembrança dos horrores da ditadura – a exemplo do que acontece no país.

Mas voltemos ao filme. Vivir (tratarei do filme assim, desta forma abreviada) é um filme interessante por unir dois temas importantes: a falta de liberdade individual e a falta de liberdade coletiva versus a busca por essas liberdades. Ao mesmo tempo que esta produção fala de uma época bem específica em um país, a Espanha, ela também aborda um fenômeno cultural que ultrapassou todas as barreiras de território, que foi a beatlemania.

O filme, em si, é bem simplista. A história gira em torno de três personagens que buscam, cada uma sua maneira, o seu próprio caminho. O professor Antonio ensina inglês para crianças através das letras das músicas do The Beatles. Belén é uma jovem que não tem muitas perspectivas e que está procurando reencontrar a mãe em um momento delicado de sua vida. Enquanto isso, Juanjo sai de casa porque não aguenta a repressão paterna e quer experimentar a experiência de viver por conta própria.

Ao saber que John Lennon está rodando um filme em Almería, Antonio decide viajar de Albacete até a pequena cidade na Andalucía, no Sul da Espanha, para tentar se encontrar com o líder da sua banda preferida. A primeira parte do filme mostra a vida de Antonio e a sua viagem até lá. No caminho, ele encontra Belén em um posto de gasolina e Juanjo na estrada. Acaba dando carona para os dois, e os três acabam juntos em Almería.

Bonita a forma com que o diretor e roteirista David Trueba conta essa história. De forma clara ele contrapõe as pessoas mais velhas e sua forma dura de lidar com a realidade com a forma fresca e mais leve dos jovens, ao mesmo tempo que mostra uma Espanha igualmente fechada e cheia de problemas contra uma cultura estrangeira que não tem fronteiras e que fascina a qualquer pessoa. Com isso, Trueba não quer dizer que a grama do vizinho é sempre mais verde, mas que alguns países e pessoas demoram mais tempo para perceber o que é importante e o que simplesmente é a continuação de velhos costumes e modos de agir que não incluem aos demais.

Ainda que praticamente não vejamos Madri ou outra grande cidade maior da Espanha neste filme, parece ficar evidente a intenção de Trueba nos falar da “Espanha profunda”, ou seja, do interior que vai demorar mais para evoluir. Ao mesmo tempo que em Almería temos pessoas simples e sem pompas e circunstâncias, temos figuras que são grosseiras, preconceituosas, e que só aceitam pessoas que sejam iguais a elas.

O exemplo mais claro deste perfil é o valentão da cidade que, gratuitamente, zomba de Juanjo por causa de seu cabelo e agride o adolescente quando tem uma oportunidade. Outros homens da localidade simplesmente não fazem nada. Esse é um comportamento que ainda se vê muito na Espanha – por isso chamei de “Espanha profunda” antes -, aonde “o que vem de fora” não é bem aceito. Talvez, tolerado. Neste sentido, Antonio encarna um modelo de adulto mais moderno, que não tem problemas em admirar o que vem de fora quando o modelo é bom e positivo – como no caso de Lennon e The Beatles. Além disso, fica claro que ele defende sempre Belén e Juanjo. De fato ele se preocupa com os demais.

Mas além deste recorte histórico e comportamental de um país, Vivir trata de questões que independem da fronteira. Ao se debruçar em canções dos The Beatles, o filme repercute o que muitas músicas de Lennon e companhia queriam evidenciar, como a solidão de estar rodeado de pessoas e estar sozinho, os valores que são realmente importantes versus o ouro de tolo que a fama propicia, entre outros questionamentos. Antonio representa um sujeito solitário e libertário que se identifica com as músicas e suas reflexões. Pouco a pouco ele vai contaminando com esperança aos demais personagens desta história.

Falando em personagens, sem dúvida alguma os melhores construídos são os de Antonio e Juanjo. Do primeiro, já falei bastante. O segundo, representa os jovens bem educados e que não se satisfazem com o regime repressor – seja o de casa, seja o de fora de casa. Responsável, amável, ele está pronto para a vida, mas quer mudanças. É o lado corajoso da história. Belén demonstra, para mim, a perda da inocência – seja de uma pessoa em uma época da vida, seja do próprio país, a Espanha. Mas ela, no filme, acaba tendo um papel um pouco controverso.

Ao mesmo tempo que Belén é admirável, pela beleza e pela honestidade, ela parece ser a peça sempre desejável da história. Então ela ainda é vista de forma machista, em uma sociedade que é assim e que, por ser assim, acha que ela deve se casar com alguém e ter filhos – essa é a sua única opção. Ela, por outro lado, parece querer ser dona de si mesma – é libertária e, algumas vezes, me pareceu que até demais. Desejada por Antonio e por Juanjo, ela acaba sendo a peça de um tradicional triângulo amoroso – que, no fundo, não se concretiza.

Desta forma, Vivir fala de muitos temas e tem diversas nuances. Esse emaranhado todo percebemos em parte enquanto o filme está se desenrolando. O restante surge com o tempo e depois que a produção acaba. Mas algo bonito que a história deixa como mensagem é que é possível sonhar e ir atrás dos seus sonhos, independente da idade ou do quanto as outras pessoas possam achar a sua ideia maluca.

Antonio não era o perfil clássico do cara que parte de uma cidade para outra para falar com o seu ídolo. Mas ele faz isso e dá exemplo para os jovens que parecem ser mais libertários que ele. Buscar os sonhos exige vontade, saída e perseverança. Independe de idade, classe social ou profissão. Apenas essa mensagem já vale o filme. Assim como outros detalhes espalhados aqui e ali. Uma das minhas cenas preferidas é quando Juanjo consegue fazer o gravador de Antonio funcionar na volta para casa. Momento delicado e cheio de esperança. Esse é um filme bacana, mas faltou um pouco mais de emoção, talvez, para que eu o considerasse marcante.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: David Trueba é um nome relativamente conhecido do cinema espanhol. Nascido em Madri em 1969, ele tem 16 prêmios no currículo e outras 24 indicações a prêmios. De sua filmografia com 17 trabalhos como diretor, os destaques, além deste Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados, são La Buena Vida, de 1996; e Soldados de Salamina, de 2003. Ele é o irmão mais novo do Trueba mais conhecido do cinema espanhol, o veterano Fernando Trueba. Fernando, o irmão mais velho de David, tem 29 prêmios e 26 indicações no currículo, incluindo uma indicação ao Oscar em 2012 pelo filme Chico & Rita.

O roteiro deste filme, claramente, está focado no trabalho de três atores. Javier Cámara, mais uma vez, demonstra ser um ótimo ator, sensível e atento aos detalhes. Ele convence no papel que for. Faz o mesmo aqui. Os jovens Natalia de Molina e Francesc Colomer, especialmente o segundo, também demonstram talento e convencem. Além deles, tem um certo destaque o trabalho de Ramon Fontserè, que interpreta a Ramón, o dono do restaurante que acaba sendo um ponto de encontro importante dos viajantes; Rogelio Fernández como Bruno, o filho cadeirante de Ramón; Jorge Sanz como o pai de Juanjo e Ariadna Gil como a mãe do jovem. Os demais tem papeis pouco relevantes.

A direção de David Trueba é bem tradicional, assim como o seu roteiro, que é linear e revisita aspectos conhecidos de road movie e de filmes que mesclam drama e humor. Nada a destacar do trabalho dele como diretor ou roteirista, apenas que ele valoriza o trabalho dos atores. Da parte técnica do filme, vale comentar o bom trabalho do diretor de fotografia Daniel Vilar e da editora Marta Velasco. A trilha sonora de Pat Metheny também é boa.

Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados estreou em setembro de 2013 no Festival de Cinema de San Sebastián. Depois, o filme passou por outros 14 festivais de cinema. Nesta trajetória, o filme recebeu 16 prêmios e foi indicado a outros 18. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Filme, Melhor Roteiro Original e Melhor Nova Atriz para Natalia de Molina pelo Prêmio do Círculo de Roteiristas de Cinema da Espanha; e para os de Melhor Ator para Javier Cámara, Melhor Nova Atriz para Natalia de Molina, Melhor Diretor, Melhor Trilha Sonora, Melhor Roteiro Original e Melhor Filme no Prêmio Goya.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Vivir foi filmado em duas cidades da Espanha: Madri e Almería.

Esta produção foi a indicação oficial da Espanha para o Oscar 2015.

Agora, pequena curiosidade sobre o filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). De acordo com a história criada por Trueba, Lennon mostrou para Antonio uma música nova na qual ele estava trabalhando. Isso aconteceu durante o encontro deles no trailer do compositor nos intervalos das filmagens em Almería. Inicialmente, Antonio achou que a música não tinha sido gravada. Mas depois, voltando para Madri, Juanjo percebe que faltava um ajuste na velocidade do gravador para escutar a música. Quem conhece um pouco de The Beatles e de Lennon sabe que aquela música era uma primeira versão de Strawberry Fields Forever.

Muito bacana essa “tirada” do filme. Afinal, como tantas outras músicas, o filme trata esta música como tendo um título provisório diferente, “Living is Easy with Eyes Closed”, o título do próprio filme e que cai como uma luva para aquela realidade. Afinal, se você ignorar que vive em uma ditadura, ignorar a pobreza e os valores deturpados da sociedade, poderá viver de forma mais fácil. Mas se você se importa com tudo isso, certamente ficará incomodado e terá uma vida mais “difícil”. A escolha é sempre sua/nossa.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 13 textos positivos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 100% e uma nota média de 7,8. Este é um raríssimo caso de um filme com 100% de aprovação dos críticos. Interessante.

Esta é uma produção 100% espanhola.

CONCLUSÃO: Este é um filme simpático, com diversas nuances críticas e de reflexão. Bem dirigido, com atores comprometidos, só não é arrebatador por causa do roteiro, um tanto singelo demais. Ainda assim, Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados tem diversas provocações, seja na análise de uma época, na reflexão sobre a formação de uma identidade nacional, ou na ponderação sobre um fenômeno cultural “invasor”. Um dos acertos do filme é mostrar um pouco da “Espanha” profunda e pouco conhecida, assim como no desejo dos realizadores de valorizar os bons exemplos e a aposta nos jovens. Por outro lado, a história é singela, bacaninha, mas não arrebata e nem surpreende. Um filme simpático, que vale ser conferido em uma tarde ou noite tranquila.

  1. 25 de outubro de 2015 às 4:32

    Sinceramente acho que o filme merece no minimo um 9,5; Genial e poético !

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