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Il Capitale Umano – Human Capital – Capital Humano


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Em um mundo em que o que vale e interessa é o que a outra pessoa tem, quem pensa diferente só pode ser considerado louco. Il Capitale Umano trata de uma realidade que muitos de nós queremos ignorar, por ser tão vazia, tão torta e tão absurda. Não por acaso vivemos tempos duros. Quando o capital que interessa é o do ter, do possuir, o dinheiro e não o humano, a esperança está em quem consegue resistir a isso e dar o exemplo da compaixão, do amor e do afeto apesar do cenário agreste. Este é um filme forte, bem construído e um pouco desconcertante.

A HISTÓRIA: Fim de festa. Os funcionários de um clube recolhem tudo após a premiação de um colégio de elite e tradicional. Fabrizio (Gianluca Di Lauro) é um destes funcionários com pressa para ir para casa. Como ele chegou mais cedo naquele dia, ele também sai mais cedo e vai para casa de bicicleta. Em um certo ponto de uma estrada, um carro que anda rápido atinge o ciclista e faz Fabrizio sair para fora da pista. O motorista não para. Em seguida, quatro capítulos contam o que aconteceu naquela noite e os personagens envolvidos direta e indiretamente naquele episódio.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Il Capitale Umano): Esse filme me deixou impressionada e me fez demorar um pouco para dormir. Isso porque não tem como assistir a Il Capitale Humano e ficar indiferente. Muitas vezes não queremos ver, fazemos questão de ignorar essas realidades em que o capital, o dinheiro é o que vale.

Da minha parte, não convivo com pessoas que colocam o dinheiro como o seu deus, mas elas existem. E são muitas. E tantas outras são como Divo, ambiciosas e invejosas e que fariam tudo para ser como os Bernaschi. Literalmente tudo. Ao abordar os estragos provocados pelo “Deus-dinheiro”, Il Capitale Umano se aprofunda em relações familiares, amorosas e de negócio. Tudo é contaminado por essa lógica do “ter” em lugar do “ser”.

Lembro bem da Campanha da Fraternidade de 2010, que citava Mateus para relembrar que as pessoas não podem servir a Deus e ao dinheiro. Não por acaso é corajoso quem prega uma vida diferente. Há espaço para esta figura em Il Capitale Umano. Esta pessoa é Luca Ambrosini (Giovanni Anzaldo), um jovem com vocação artística que acaba sendo penalizado por um tio sem escrúpulos e que colocou nas costas dele o crime de ser traficante. Ele foi culpado como tantos outros adolescentes na história do Brasil simplesmente para que o criminoso adulto escapasse da cadeia.

Pelo que passou, Luca é um tanto “desajustado”. Ele precisa de acompanhamento psicológico porque tem uma certa tendência depressiva e autodestrutiva. Nem todos os que se voltam contra o sistema movido pelo dinheiro precisam perder a “razão”, serem classificados como “desajustados”, mas é fato que a pressão para quem não segue essa lógica é grande. Quando ele de fato comete um delito, está apavorado o suficiente para não assumir a culpa. Afinal, ele não tinha “ficha limpa”. E aí entra outra reflexão interessante deste filme.

Nem tudo o que parece, é. No início da produção, o espectador fica indignado com a brutalidade do atropelamento de Fabrizio e a fuga do motorista. Mas nem desconfiamos a história que está por trás daquele fato. Por isso mesmo o roteiro volta seis meses no tempo, para contar o que aconteceu. E não é por acaso que Dino é a figura central da primeira parte.

Ele encarna uma das figuras mais desprezíveis desta lógica sem futuro e destrutiva do dinheiro no centro das ações e atenções. Dino é a figura capaz de vender a mãe – ou a filha – para conseguir o que deseja. Ele tem inveja de quem tem mais e quer se igualar a eles. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme).

O exemplo e a pressão dele sufocam a filha Serena Ossola (Matilde Gioli) que, por um tempo, vive uma relação sem futuro com Massimiliano Bernaschi (Guglielmo Pinelli). Ele é o típico jovem que sempre teve tudo o que quis e que não tem limites. Ela claramente não tem nada a ver com ele, mas fica na relação por comodismo e também por pressão do pai que, evidentemente, quer um “bom partido” para a filha.

Mas voltando ao que eu comentava antes, de que nem tudo é o que parece. Depois de Fabrizio ser atropelado, começa a investigação sobre o caso. Quando chegam ao carro de Massimiliano, toda a imprensa e a sociedade tem certeza de que ele é o culpado. Afinal, ele é rico, e os ricos não tem “limites” e merecem ser “punidos”. Essa é a ironia da nossa sociedade. A maioria tem inveja dos abastados e querem ter o mesmo que eles, mas quando eles estão sob suspeita, todos querem derrubá-los o mais rápido possível.

Era verdade que o carro envolvido no acidente era o de Massimiliano, mas o motorista não era ele. E aí entra novamente em cena o oportunista Dino. Quando descobre a verdade, ele resolve tirar proveito, ganhar dinheiro sobre a situação, não se importando com a filha e muito menos em saber sobre a história de Luca. Neste enredo, outros personagens ajudam a engrossar o coro do absurdo.

Carla Bernaschi (Valeria Bruni Tedeschi), por exemplo, não tem nada a ver com o marido Giovanni Bernaschi (Fabrizio Gifuni). Ela é, a exemplo de Luca, uma pessoa sensível e “artística”. Mas ela decidiu que o mais importante era a segurança e o conforto que o dinheiro poderia proporcionar-lhe – mais que a liberdade de ser quem ela era. Essas escolhas, feitas por tanta gente diariamente, transformam grandes potenciais em mercadorias de troca. As pessoas são compradas, abrem mão de sua própria liberdade em troca de que?

Por um breve período do filme, Carla Bernaschi acredita que poderá usar parte da fortuna do marido para uma “boa causa”. Doce ilusão. O dinheiro é sempre atraído por mais dinheiro, quer ser multiplicado. Não lhe interessa a arte, as pessoas, os valores. A frustração é enorme, especialmente para pessoas como Carla e Luca.

A diferença é que a primeira decidiu gastar a vida em troca de nada de valor. O segundo, mesmo pagando por erros de outros e dos seus próprios, ainda tem alguma esperança no amor de Serena. E desta forma, apesar de duro e de nos mostrar com franqueza o cinismo do mundo, Il Capitale Umano também nos revela a esperança. Sempre é possível escolher um caminho mais digno, coerente, libertário e solidário. Depende apenas de cada indivíduo fazer as escolhas certas na vida – e é sempre possível mudar de rumo. O que não dá é para viver na ilusão de que o capital terá alguma preocupação benéfica. Isso é meio caminho andado para a frustração.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos pontos fortes da produção dirigida por Paolo Virzi é a narrativa da produção. Além de ter um bom ritmo, o filme não descuida em imergir em um punhado de personagens principais mostrando não apenas as suas atitudes, mas principalmente o que lhes motiva e as suas personalidades. Além disso, e o que é um ganho para o espectador, a história começa bem e prossegue cada vez mais aumentando o tom, nos fazendo mudar de perspectivas mais de uma vez. Virzi consegue um bom ritmo pela forma com que ele dirige os atores e entende a própria narrativa, tornando algumas vezes as cenas mais contemplativas e, em outras, sequências bastante ágeis.

Ponto fundamental do filme é o roteiro de Virzi escrito em conjunto com Francesco Bruni e Francesco Piccolo baseado na obra de Stephen Amidon. A divisão em capítulos, as diferentes óticas narrativas e a ação crescente da produção apenas revelam o bom trabalho do trio de roteiristas.

Este é um filme de atores. O roteiro é competente, mas sem a escolha certa dos intérpretes, este filme não teria o poder que ele tem de fazer pensar e de impactar o espectar. Todo o elenco principal está muito bem, mas gostei, em especial, do trabalho de Fabrizio Bentivoglio, Matilde Gioli, Valeria Bruni Tedeschi e Giovanni Anzaldo. Cada um deles convence a cada minuto em cena. Estão estupendos! Outros coadjuvantes ajudam na narrativa, a exemplo de Valeria Golino (Roberta, mãe de Serena).

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Jérôme Alméras e de Simon Beaufils, assim como da ótima edição de Cecilia Zanuso. A trilha sonora praticamente não existe durante o filme, mas entra nos créditos finais, que são matadores – e é assinada por Carlo Virzi. No mais, funcionam bem os figurinos de Bettina Pontiggia; a decoração de set de Monica Sironi e o trabalho do departamento de arte de Andrea Bottazzini e Mauro Radaelli.

Il Capitale Umano estreou na Itália em dezembro de 2013. A partir daí, o filme participou de nada menos que 33 festivais em diversos países do mundo. Nesta trajetória ele colecionou 42 prêmios e foi indicado a outros 29. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme no Globo de Ouro da Itália e o de Melhor Atriz para Valeria Bruni Tedeschi no Festival de Cinema de Tribeca.

Esta produção teria custado 6 milhões de euros e faturado, apenas na Itália, cerca de 5,65 milhões de euros até o dia 7 de julho de 2014. Considerando os outros mercados em que ele estreou, dá para presumir que ele ao menos se pagou.

Co-produzido pela Itália e pela França, Il Capitale Umano foi praticamente todo rodado na região de Lombardia, na Itália – apenas as cenas de Luca na prisão foram rodadas na Casa di Reclusione di Bollate, em Milão.

Il Capitale Umano foi o filme da Itália indicado para o Oscar 2015. No fim das contas, ele não conseguiu figurar nem entre os cinco finalistas ao prêmio. Uma injustiça, na minha humilde opinião. Não assisti a Relatos Salvajes e Timbuktu, mas ainda que Leviathan e Mandariinid sejam bons, achei Il Capitale Umano melhor que eles. Para resumir, ele deveria ter ficado entre os finalistas.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção,  que é uma boa avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 47 textos positivos e 12 negativos para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 80%.

Meus caros leitores e leitoras aqui do blog, sei que fiquei ausente por bastante tempo. Peço desculpas por isso. Mas entrei em diversas semanas de muito trabalho. Assisti a Il Capitale Umano há mais de um mês, mas só hoje consegui parar para terminar o texto. Agora, de férias, devo ficar ausente mais umas duas semanas, mas depois vou voltar com bem mais tempo e periodicidade.

Como estamos no final do ano e quase em 2016, tenham certeza que o meu foco será o próximo Oscar. Para seguir a tradição deste espaço. Obrigada a cada um@ de vocês que segue fiel a este espaço. Continuem visitando, comentando e compartilhando esta página. Em 2016 quero publicar mais textos por aqui e colocar a conversa com vocês em dia. Eis bons planos para o Ano-Novo.😉 Abraços grandes.

CONCLUSÃO: Um filme potente e que não deixa ninguém indiferente. Il Capitale Umano é destas produções para quem gosta de pensar sobre uma história muito mais do que apenas passar o tempo vendo a um filme. Ele nos provoca, nos faz pensar, mexe com as estruturas. Muito bem narrado e dividido em quatro partes, além do prólogo, Il Capitale Umano questiona os valores atuais das sociedades, as relações familiares e o papel do amor neste processo. Destas produções que podem render horas de debates. Para mim, uma preciosidade que vale ser vista, divulgada e debatida.

  1. Joao Vicente
    7 de dezembro de 2015 às 16:41

    Adorei o filme, muito bem escrito e realizado com excelentes actores cinema italiano no seu melhor.

    Continue com o blog e muito bom e tem criticas sempre muito bem conseguidas, continuação de um excelente trabalho.

    Cumprimentos de Portugal

  2. 10 de dezembro de 2015 às 14:09

    Oiii, amei a publicação, gostei mesmo ! Passe no meu blog, me dê referências e dicas. Beijoos.

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