Theeb – O Lobo do Deserto


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O que uma pessoa precisa fazer para sobreviver, a tradição e os costumes versus a modernidade e os conflitos. Tudo isso faz parte da história de Theeb, mais um filme cotado para a categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2016. O contexto da história é muito diferente da nossa realidade mas, ainda assim, não é difícil observar os sentimentos e motivações dos personagens. Um filme interessante, ainda que simples demais para uma disputa como o Oscar. Produção dura, Theeb revela aspectos terríveis da raça humana e os efeitos devastadores e não muito óbvios do progresso em algumas partes do mundo.

A HISTÓRIA: Theeb (Jacir Eid Al-Hwietat) observa o símbolo da famílias inscrito em uma pedra que simboliza o local em que seus parentes estão enterrados. Em seguida, Hussein (Hussein Salameh Al-Sweilhiyeen) chama Theeb para ajudá-lo a dar água para os camelos. O irmão mais velho do jovem lhe ensina não apenas a como retirar água do poço, mas também como Theeb deve fazer para atirar com um rifle.

Depois os dois brincam um pouco antes de voltar para o grupo no acampamento. À noite, enquanto os homens jogam, Hussein percebe a chegada de dois homens. Eles pedem para que alguém da família, conhecida por orientar viajantes, lhes oriente em uma viagem. Hussein aceita o desafio sem saber que esta decisão mudará a história dele e do irmão.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Theeb): O primeiro mérito deste filme é nos apresentar uma cultura muito diferente da nossa e uma história original. Ainda que, para o meu gosto como espectadora, faltou o filme nos orientar um pouco melhor sobre o local e a época desta história. Vou falar do que eu compreendi da produção sem ter essas informações e depois vou situar vocês, meus caros leitores, sobre o tempo e a época em que se passa o filme.

Além de apresentar uma realidade diferente, achei interessante como esse filme tem uma narrativa simples e bons atores. Ainda assim, pela história propriamente dita e por sua dinâmica, acho que ela poderia ser mais direta e curta. Falarei disso várias vezes neste post. Interessante o sentido de honradez e de hospitalidade do povo retratado. E como pede uma história que tem uma criança como protagonista, a curiosidade e a observação são elementos constantes deste filme com direção e roteiro de Naji Abu Nowar – ele contou com a ajuda de Bessel Ghandour para escrever o roteiro.

Para começar, acompanhamos ao protagonista Theeb em fase de aprender os ensinamentos básicos para viver naquela realidade agreste de desertos e busca constante por água. Ele faz parte de uma família conhecida por guiar forasteiros para diferentes partes do país. Ou seja, Theeb descende de uma família de sobreviventes, capazes de enfrentar bandidos e de percorrer longas distâncias por trilhas que eles e alguns poucos conhecem. A introdução rápida de Theeb e do irmão Hussein logo dá espaço para a chegada de dois estranhos.

Neste momento, compreendemos um pouco melhor as frases iniciais da produção. Faz parte da cultura daquele povo nunca negar abrigo para um forasteiro. A hospitalidade é uma parte fundamental daquela sociedade. Quando os estranhos chegam, Hussein corre para, junto com os demais, dar a melhor hospitalidade possível. Algo importante e interessante daquela cultura – quem dera que todos tivessem esse respeito com quem chega de fora. Só que esta hospitalidade pode ser aproveitada por quem não tem uma boa índole para fazer o mal – talvez por isso, com o tempo, esta palavra tenha perdido a sua importância.

Além de estar centrado nos costumes daquele povo, o filme passa um bom tempo em movimento. Na verdade, ele se divide claramente entre movimento e “paralisia”. Contratado pelo inglês Edward (Jack Fox) e por seu empregado e tradutor (Hassan Mutlag Al-Maraiyeh), Hussein guia os dois para um poço em que eles estariam sendo esperados. Curioso e fascinado pelo forasteiro inglês, Theeb dá um jeito de segui-los. Depois, não há mais tempo do garoto voltar para casa – Hussein queria isso, mas o inglês não aceita. Ele tem pressa.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como dava para esperar, quando eles chegam no local do encontro não há ninguém lhes esperando. A partir daí, o filme vira pura crueldade. Os forasteiros são mortos primeiro. Hussein e Theeb conseguem se esconder, mas como os assaltantes querem levar tudo, inclusive os camelos, o irmão mais velho resiste. Ele sabe que eles terão poucas chances de sobreviver sem os animais. Com a morte de Hussein, Theeb tem que esperar por uma salvação.

A ironia do filme é que a salvação que chega para Theeb é o próprio algoz do irmão. O que ele deve fazer? Por instinto de sobrevivência ele ajuda o criminoso mas, quando tem uma oportunidade, se livra dele. A desculpa do assaltante é que o progresso, plasmado em forma da estrada de ferro, lhe tirou o emprego. Por isso ele mata quem aparecer pela frente para roubar e, assim, sobreviver.

A vilania sempre existiu e sempre vai existir. Assim como a honradez. Mas o que separa uns de outros? Francamente eu não acho que a vingança seja a solução. Muito menos o “olho por olho, dente por dente”. A violência só leva a mais violência e essa história nunca terá fim se este for o caminho escolhido. Acredito que a nossa civilização já avançou depois de diversos séculos e décadas, mas ainda há muita gente que precisa aprender que é preciso buscar alternativas e não o crime ou a violência para que alguns consigam sobreviver.

A vida é feita de escolhas, e eu sempre vou achar que é possível escolher um caminho que não signifique a subjugação de outra pessoa. Verdade que o progresso sempre tem duas faces e que é possível encontrar um lado prejudicado a cada avanço. Mas precisamos encontrar, como sociedade, forma de compensar perdas e de dar oportunidades. Todas as pessoas devem ter condições não apenas de sobreviver, mas de viver. E para isso elas não deveriam matar, roubar ou praticar outros crimes. Acredito que é possível.

Depois desta “viajada” na história, devo comentar que achei a direção de Naji Abu Nowar muito cuidadosa e, na maior parte das vezes, interessante. O diretor busca alguns ângulos diferenciados e sempre focar os detalhes da história. Com isso, o espectador se sente envolvido pela narrativa e, principalmente, pela ótica de Theeb. Neste sentido, o filme funciona. Só achei a produção um pouco longa demais, com um roteiro um bocado previsível e sem novidades, apesar de ser uma história original. Vale ser visto, mas não achei tão marcante quanto outras produções.

NOTA: 7,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este filme tem algumas qualidades técnicas bem importantes. Para começar, a ótima direção de fotografia de Wolfgang Thaler. Depois, a trilha sonora pontual e bem expressiva de Jerry Lane. A música é um elemento importante do filme já que ele tem muitos silêncios e, em diversos momentos, poucos diálogos. Neste sentido, o trabalho de Lane ajuda a dar dinâmica para a produção.

Pensando um pouco mais sobre esta produção, me ocorreu agora um questionamento. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Se o protagonista tivesse deixado o algoz do irmão morrer naturalmente, se ele não o tivesse ajudado, teria sido melhor do que a solução final encontrada por ele? No fim das contas o homem não morreria da mesma forma? Francamente eu acho que há uma diferença entre deixar alguém morrer e dar um tiro nesta pessoa. Na primeira hipótese o garoto teria buscado a própria sobrevivência, fugindo, e não teria sido diretamente responsável pela morte do homem. Mas no segundo caso ele teve responsabilidade direta. Francamente eu teria optado pela primeira solução. O filme sugere que o garoto não conseguiu fugir com o camelo sozinho mas, curiosamente, ele consegue fazer isso após atirar no homem. Dá para entender, mas achei estranho.

Uma justificativa para o que eu acabo de comentar é que Theeb, que sempre estava observando a tudo e a todos, aprendeu a andar com o camelo na última “viagem” que ele fez antes do ato derradeiro. Verdade que estamos sempre aprendendo e que ele poderia ter aprendido a andar com o camelo naquele momento. Mas acho difícil de acreditar nisso – afinal, ele tinha visto tantas vezes antes os irmãos e familiares fazendo isso, por que não aprendeu antes?

Theeb tem um estilo bem realista, mostrando os detalhes da “vida como ela é” daquela sociedade. Por isso mesmo me incomodou um pouco essa história do camelo.

Agora sim, vamos falar um pouco do contexto desta história. Depois de assistir ao filme é que soube que ele é ambientado na província otomana de Hijaz durante a Primeira Guerra Mundial. Pesquisando um pouco mais a respeito dos otomanos é que fiquei sabendo que o Império Otomano chegou ao fim justamente após essa guerra, derrotados pelos ingleses. Aqui há um bom resumo sobre a derrocada dos otomanos.

Sem dúvida alguma o grande mérito deste filme, além de mostrar um momento histórico importante e pouco retratado, é a interpretação do jovem Jacir Eid Al-Hwietat. Ele carrega a história nas costas. Convence e comove com os seus olhares e os demais detalhes de sua interpretação. Um grande achado do diretor, não há dúvida.

Este é apenas o segundo trabalho de Naji Abu Nowar na direção e o seu primeiro longa. Antes de Theeb ele dirigiu a Death of a Boxer, um curta de 2009. Acho que vale seguir acompanhando a trajetória dele.

Theeb foi lançado em setembro de 2014 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participou, ainda, de outros 26 festivais mundo afora. Nesta trajetória ele conquistou nove prêmios e foi indicado a outros 11. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Narrativa de Filme e Melhor Filme do Mundo Árabe no Festival de Cinema de Abu Dhabi; o de Melhor Filme de um Novo Diretor no Festival Internacional de Cinema de Beijing; e o de Melhor Diretor no Venice Horizons Award do Festival de Cinema de Veneza.

Para quem gosta de saber aonde as produções são filmadas, Theeb foi totalmente rodado na Jordânia.

Agora, uma curiosidade sobre o filme: o ator que interpreta a Theeb é da mesma tribo de Awda abu Tayeh, uma das lideranças e considerado um herói da revolta árabe contra os otomanos. Awda morava perto de ferrovia Hejaz, que foi invadida pelos turcos perto dos mesmo locais mostrados no filme em 1916.

Theeb é uma palavra árabe que significa “lobo”. Essa expressão representa, entre os balduínos, a masculinidade – ou seja, tudo o que um homem deveria representar em qualidades.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção. Uma avaliação muito boa levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 43 textos positivos e dois negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 7,5. Eis uma rara situação de coincidência entre a avaliação de público e crítica.

Pensando um pouco mais sobre o contexto deste filme, especialmente ao saber, depois de assisti-lo, que ele se passa durante a Primeira Guerra Mundial, penso que Theeb vem em boa hora. Quando os conflitos no Oriente Médio parecem não ter fim, vale a pena ver mais um pouco sobre a história desta longa trajetória de conflitos e disputas. E volto a dizer: violência e vingança sempre levam a mais do mesmo. Os conflitos não terão fim se as pessoas não quiserem buscar outra solução para velhas trajetórias de destruição. Infelizmente ainda hoje tantas crianças coo Theeb aprendem a matar e fazem isso sem ao menos entender o porquê.

Este filme é uma coprodução entre Emirados Árabes Unidos, Catar, Jordânia e Reino Unido.

CONCLUSÃO: “O homem é o lobo do homem”, escreveu o filósofo Thomas Hobbes. Essa foi a primeira ideia que veio na minha cabeça após assistir a Theeb. Segundo Hobbes, todos os homens nascem iguais, mas se não houver um contrato para equilibrar os diferentes interesses, a tendência é que estes mesmos homens lutem e matem em nome da sobrevivência ou de possuir o que lhes interessa.

Neste sentido, Theeb mostra a essência destas ideias, além de revelar o efeito nocivo do progresso que uma ferrovia trouxe para uma região. Sempre alguém ganha e alguém perde. Mas é especialmente duro quando isso afeta a uma criança – afinal, ela simboliza a esperança de um futuro melhor. Filme com uma narrativa simples e com uma história que nos apresenta uma realidade bem diferente da nossa. Interessante, mas nada que realmente impressione. Poderia, tranquilamente, ser um curta.

PALPITE PARA O OSCAR 2016: Este é terceiro filme dos nove que avançaram na disputa na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira do próximo Oscar que eu assisti. Entre os três que assisti (os anteriores podem ser conferidos neste link e neste outro), sem dúvidas, este é o mais simples. Francamente, é o que eu menos gostei. Tudo bem que a história faz refletir e que é bem contada, mas eu acho que o roteiro poderia ter rendido um curta e não um longa. Achei a narrativa um pouco arrastada demais. Ainda considero Mustang o favorito, pelo menos entre os três. Logo mais saberemos quem avança e quem fica pelo caminho. Mas não vejo muitas chances para este filme.

  1. 5 de janeiro de 2016 às 17:56

    Ai que legal, adorei a sinopse juro, quero assistir ! Beijos Maitê
    https://maiteaissa.wordpress.com/ – tem post novo no blog !

  2. roberto
    14 de janeiro de 2016 às 16:57

    Eu acredito o Oscar como premiação já perdeu muito de sua credibilidade.Eu concordo que ele abre portas,mas na maioria das vezes isso significa escravidão nas mãos dos produtores, e do sistema industrial que só visa dinheiro e mais dinheiro. Os grandes diretores do pós guerra, flertaram com esses produtores,mas mantiveram uma distancia segura,longe de suas garras.Eu me refiro a De Sica, Visconti, Bergman,
    Depois que premiaram Nicolas Cage, Robin Willians, Michael Caine, Roberto Benigni entre outras aberrações, eles podiam dar um Oscar póstumo para a Lassie.

  1. 14 de janeiro de 2016 às 13:55
  2. 21 de fevereiro de 2016 às 23:45

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