Brooklyn


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Morar fora de seu habitat natural nunca é algo simples. Mas retornar para “casa” também não é. Até porque, depois de algum tempo, você descobre que a noção de “casa” é muito relativa. Brooklyn nos conta a história de uma imigrante irlandesa que adota os Estados Unidos como a sua nova morada. A trajetória dela resume a de tantos outros imigrantes que fizeram não apenas os Estados Unidos, mas tantos outros países mundo afora.

A HISTÓRIA: Eilis (Saoirse Ronan) sai de casa quando ainda está escuro. Ao lado de Miss Kelly (Brid Brennan) e de Mary (Maeve McGrath) ela participa da missa antes de ir trabalhar no armazém de Miss Kelly. Chegando no local, Eilis pede para falar com a empregadora, mas ela comenta que aquele não é um bom momento. Depois da missa das 9h, o armazém fica cheio. Miss Kelly tem um jeito bem diferenciado de tratar os clientes, o que visivelmente incomoda Eilis.

Quando o estabelecimento fecha, Eilis comunica que está se mudando para a América. Quem arranjou tudo foi o padre Flood (Jim Broadbent), que atendeu a um pedido da irmã mais velha de Eilis, Rose (Fiona Glascott). Acompanhamos a jornada da jovem irlandesa nos Estados Unidos, com ela indo morar e trabalhar no Brooklyn, bairro com grande população vinda da Irlanda.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Brooklyn): O Oscar 2016 está com uma seleção interessante. Ao mesmo tempo que temos filmes ousados na direção e no roteiro, como The Revenant, Room e Mad Max: Fury Road, temos produções muito sensíveis e delicadas, como Carol e esta Brooklyn.

Antes de assistir a este filme, como mandam as minhas regras próprias, eu não sabia nada de Brooklyn. Apenas, claro, que ele tinha uma elogiada atuação de Saoirse Ronan. De fato a atriz é um dos pontos fortes do filme, assim como Cate Blanchett e Rooney Mara são a fortaleza de Carol (com crítica aqui no blog).

A diferença é que a interpretação de Ronan é muito mais “entregue” e destemida do que as interpretações de Blanchett e Mara, destacadas pela expressão dos sentimentos, em muitos momentos, apenas pelos olhares. Ronan não. Ela demonstra uma certa obstinação desde o início, mas com a diferença que faz você sair de um local aonde conhece a todos, está cercada de família e de amigas, para outro local aonde está praticamente sozinha. Quando se muda desta forma de cenário, é inevitável que a pessoa também mude por dentro.

Assim como Carol, Brooklyn é um interessante retrato de uma época e de um local. Nos dois filmes o contexto histórico e social jogam um papel importante. No caso de Brooklyn, é especialmente interessante observar as diferenças entre o local de origem da protagonista, uma Irlanda provinciana aonde as pessoas prezam tanto a ida regular na Igreja quanto a vigilância sobre os vizinhos e conhecidos, e os Estados Unidos que começa a ser cosmopolita e aonde há excesso de gente, de ilusões e de sonhos, com cada pessoa lutando para sobreviver e crescer da melhor forma possível.

Diferente de Carol, Brooklyn mergulha de forma mais franca no romance clássico e sem amarras como o caso proibido do outro filme. De forma muito coerente, Ronan demonstra toda a tristeza de Eilis na primeira fase dela nos Estados Unidos, quando ela ainda tenta se adaptar ao jeito mais franco e mais exigente da sociedade norte-americana. Neste contexto e tentando fugir da nova inquilina da pensão aonde ela mora, a esquisita Dolores (Jenn Murray), Eilis conhece em um baile da colônia irlandesa o italiano Tony (Emory Cohen).

A partir daí o filme mergulha no romance entre os dois. Cohen parece um Al Pacino jovem. Ele tem talento, carisma e uma bela sintonia com Ronan. O casal convence. E aí vem um dos grandes acertos do roteiro de Nick Hornby inspirado no romance de Colm Tóibín: quebrar toda a sequência óbvia de eventos com um fato trágico na história. Além de dar uma nova dinâmica para o filme, esse fato também reproduz o que acontece na vida real. Não estamos no controle das nossas vidas e, quando menos esperamos, fatos marcantes acabam mudando tudo o que esperávamos que aconteceria depois.

Muito antes do que o esperado Eilis se vê obrigada a voltar para a Irlanda. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E para surpresa dela, e do espectador também, ela acaba encontrando a realidade em casa diferente. Tudo parece conspirar para que ela fique lá cuidando da mãe, Mary Lacey (Jane Brennan) e ganhando dinheiro em um bom emprego, que antes era da irmã. Para completar o cenário, ela fica encantada com Jim Farrell (Domhall Gleeson), amigo de sua melhor amiga, Nancy (Eileen O’Higgins), que está prestes a se casar.

O que pareceria ser uma nova e feliz vida nos Estados Unidos acaba ficando em segundo plano. Ela está em casa, se sente bem e feliz. De uma forma que não era antes no mesmo lugar. Mas será que o lugar mudou ou foi ela? Em breve ela terá a resposta para isso. A verdade é que sempre mudamos quando nos desafiamos para isso. Eilis não é mais a mesma e, ao mudar, ela também moveu a roda das oportunidades ao seu redor. A casa que ela conhecia não é a mesma – por um lado, mais triste e vazia, por outro, mais promissora e interessante.

A vida é cheia de possibilidades e cada vez que fazemos uma escolha abrimos certos caminhos e damos costas para outros. Mas se Eilis está em dúvida sobre que caminho seguir – ou pelo menos é isso que o roteiro de Brooklyn sugere -, em breve uma coincidência destas de “mundo menor que uma noz” vai fazer ela lembrar de escolhas que fez e que devem moldar os seus passos.

Interessante como Eilis, assim como nós mesmos, é surpreendida pelos fatos. Ela tinha certeza que iria visitar a mãe na Irlanda e que logo voltaria para a sua nova vida nos Estados Unidos. O que ela não esperava é que a sua casa antiga estivesse tão diferente e com novas possibilidades.

Se não fosse a intromissão de Miss Kelly será que Eilis poderia ter escolhido outro destino? Pode ser que sim, pode ser que não. Nunca saberemos. Ela estava dividida entre obrigações – com a mãe, com Tony – e entre futuros possíveis na Irlanda ou nos Estados Unidos. Mas como não podemos abraçar o mundo, mais cedo ou mais tarde ela teria que tomar uma decisão. A intrometida Miss Kelly apenas apressou uma solução para o problema. Ainda que Eilis já parecia estar propensa a esta decisão.

Desta forma Brooklyn se revela um filme interessante não apenas por tratar de imigração ou por ser uma história de romance clássico. Ele chama a atenção por tratar dos sentimentos de pertencimento a um lugar que todos nós vivenciamos e sobre as escolhas que fazemos na nossa vida e o que elas podem acarretar para o nosso futuro.

Quando saímos de um lugar e caminhamos para a frente, nunca mais podemos olhar a paisagem da mesma forma. A ótica do lugar novo é diferente, para o bem e para o mal. Neste contexto, devemos nos contentar em sentir sempre saudade de algo, mas ter coragem para abraçar as escolhas que fizemos e, assim, vivenciar a felicidade. Sabendo que nunca mais pertenceremos a um lugar totalmente, e que são as pessoas que fazem os lugares e cada um de nós nos sentir em casa ou não. Brooklyn é um filme sobre o desabrochar de uma mulher e sobre a descoberta de uma sociedade mais livre. Vale o ingresso

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este filme tem uma escolha interessante de atores. Apesar de estar centrado no trabalho de Saoirse Ronan, sem dúvida alguma a protagonista feita para brilhar nesta produção, Brooklyn tem um elenco de apoio de peso. Entre os nomes interessantes estão os do já citados Jim Broadbent como o padre Flood; Jane Brennan como Mary Lacey; Fiona Glascott como Rose; Eileen O’Higgins como Nancy; Emory Cohen como Tony e Domhall Gleeson (que parece estar em todas) como Jim Farrell.

Mas além deles, que já foram citados, vale comentar o bom trabalho de Eva Birthistle em uma super ponta como Georgina, a mulher que divide a cabine no navio com Eilis na viagem de ida para os Estados Unidos; Peter Campion como George Sheridan, que se casa com Nancy; Julie Walters quase irreconhecível como Mrs. Keogh, dona da pensão aonde Eilis fica hospedada; Emily Bett Rickards como a deslumbrada Patty, que faz dupla junto com a atriz Nora-Jane Noone, que interpreta Sheila, como as fofoqueiras e engraçadinhas da pensão; e Jessica Paré, que me faz sempre lembrar de Mad Men, como Miss Fortiri, a chefe direta de Eilis na loja de departamento em que ela trabalha no Brooklyn.

Como esta produção se passa nos anos 1950, acaba sendo fundamental para a história diversos aspectos técnicos que ajudam Brooklyn a ser um filme de época. Neste sentido destaco, em especial, o design de produção de François Séguin; a direção de arte de Irene O’Brien e Robert Parle; a decoração de set de Suzanne Cloutier, Jenny Oman e Louise Tremblay; e os figurinos acertados de Odile Dicks-Mireaux.

Algo admirável neste filme é como o diretor John Crowley conduz a narrativa. Ele está sempre atento às expressões da protagonista e dos demais atores em cena. Além disso, claro, ele não ignora os belos cenários e a contextualização das duas sociedades retratadas. Neste sentido, merece ser mencionado também o trabalho do competente diretor de fotografia Yves Bélanger. Outro item importante para o filme é a trilha sonora de Michael Brook, bastante emotiva na maior parte do tempo.

Brooklyn teve uma história longa até chegar ao Oscar. O filme estreou em janeiro de 2015 no Festival de Cinema de Sundance. Depois ele passaria por outros 21 festivais mundo afora. Nesta trajetória a produção colecionou 21 prêmios e foi indicada a outros 105, incluindo três indicações ao Oscar 2016. Entre os prêmios que recebeu, destaque para sete prêmios como Melhor Atriz para Saoirse Ronan; para quatro prêmios conferidos pelo público como Melhor Filme; para um prêmio como Melhor Roteiro Adaptado; e para dois prêmios como Melhor Design de Produção.

Esta produção teve cenas rodadas em Enniscorthy, na Irlanda; em Montreal, no Canadá; e em Coney Island e no Brooklyn, nos Estados Unidos.

Brooklyn teve uma bilheteria bastante singela, até agora, nos Estados Unidos. O filme conseguiu fazer, até ontem, dia 18 de janeiro, pouco mais de US$ 25,1 milhões. Não encontrei informações sobre o custo da produção.

Este filme, aliás, é uma coprodução da Irlanda, do Reino Unido e do Canadá. Uma exceção entre os filmes que estão concorrendo ao Oscar de Melhor Filme – o único que não tem os Estados Unidos como produtor ou coprodutor.

Agora, algumas curiosidades sobre Brooklyn. O diretor John Crowley dividiu o filme em três movimentos visuais diferentes. O primeiro é aquele que acompanha a protagonista antes dela sair da Irlanda e viajar pela primeira vez para os Estados Unidos e se caracteriza por enquadramentos apertados e cheios de tons de verde. O segundo movimento começa quando Eilis chega no Brooklyn e as imagens passam a ser mais amplas e abertas, com cores mais vivas e alegres para marcar a América de 1952 que vivia o auge da cultura pop. O terceiro movimento está na segunda viagem dela para os Estados Unidos, quando as imagens ficam mais brilhantes, com mais glamour e “sutilmente mais colorido” do que no primeiro movimento. O objetivo do diretor era mostrar a mudança pela qual Eilis passou e, no final, ressaltar como ela estava mais sonhadora do que no início. Interessante.

A atriz Saoirse Ronan nasceu no Bronx, em Nova York, mas foi criada na Irlanda por seus pais, que eram irlandeses. Por isso mesmo ela considera Brooklyn como um de seus filmes mais pessoais. Além disso, essa é a primeira vez que ela utiliza o seu sotaque irlandês em uma produção.

Saoirse Ronan estava em uma manicure em Dublin quando recebeu uma ligação dizendo que ela estava concorrendo ao Globo de Ouro pelo seu papel como Eilis. Ela ficou tão contente que mandou comprar champanhe para todos que estavam no salão. Gracioso!😉

O vestido amarelo que Eilis utilizada em uma cena é o preferido da figurinista Odile Dicks-Mireaux. Ele foi comprado em uma loja em Montreal.

A ideia para o romance do escritor irlandês Colm Tóibín surgiu de uma memória de infância dele. O autor lembrou de uma mulher que havia comentado sobre a viagem de sua filha de Enniscorthy, na Irlanda, para o Brooklyn. No ano 2000 Tóibín escreveu uma história curta a partir desta lembrança, mas decidiu ampliá-la depois que ele mesmo morou nos Estados Unidos por algum tempo. O autor também revelou que foi inspirado pela obra de Jane Austen – faz todo o sentido pelo “espírito” que este filme tem.

O Brooklyn que aparece no filme foi ambientado na canadense Montreal por uma questão orçamentária. Sairia muito caro mudar o Brooklyn do tempo atual para o estilo que o bairro tinha nos anos 1950.

Outra curiosidade técnica importante do filme: nas cenas de close-up da atriz Saoirse Ronan o diretor de fotografia Yves Bélanger utilizou lanternas individuais para os olhos da atriz com o objetivo de adicionar mais brilho para as suas expressões. Bélanger também utilizou uma câmera de mão Alexa e uma combinação de luzes de estúdio e de iluminação natural para capturar uma representação mais real e pessoal dos anos 1950.

Michael Brook decidiu usar o violino como o instrumento da personagem de Eilis. Quem executa o violino nas cenas com a atriz é a mulher de Brook, Julie Rogers.

Entre os filmes irlandeses, Brooklyn foi o que teve a melhor estreia em 19 anos. Naquele país o filme teve a maior presença em cinemas da história, superando o filme Michael Collins, de 1996.

Brooklyn foi aplaudido de pé quando estreou no Festival de Cinema de Sundance.

Não li o livro de Tóibín, mas segundo as notas de produção de Brooklyn, o filme tem um final diferente do livro. Quem tiver lido a obra original, por favor, pode comentar aqui qual é a grande diferença do final? Desde já eu agradeço.😉

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, uma boa avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 182 críticas positivas e quatro negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média de 8,6. Bela avaliação, aliás.

CONCLUSÃO: Diferentes paixões movem quem sai de seu lugar de origem e passa a viver em outra parte. Brooklyn conta a história de uma garota que empreende esta jornada sozinha, a exemplo de tantas outras pessoas. Bem conduzido e com uma interpretação muito sensível de Saoirse Ronan, Brooklyn reforça a boa safra do cinema nesta temporada do Oscar.

Além de enfocar um assunto tão em voga quanto a imigração, ele trata de outros temas importantes na formação da Irlanda e dos Estados Unidos, como a religião, os costumes e a busca por autonomia das mulheres. Com roteiro bem construído, Brooklyn dá espaço para Saoirse Ronan brilhar. Além da imigração e da contextualização de época, este filme é um grande romance. Bem ao gosto dos ingleses, coprodutores do filme. Vale especialmente pelo contexto histórico, pelo conjunto da obra e por Ronan.

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Brooklyn foi indicado em três categorias da premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Além de concorrer a Melhor Filme e Melhor Atriz (Saioirse Ronan), a produção concorre também como Melhor Roteiro Adaptado. Francamente, vejo poucas chances dele ganhar qualquer um destes prêmios.

Melhor Filme está fora de cogitação. Melhor Atriz parece estar definido para Brie Larson, de Room (comentado aqui no blog). Outro páreo duro para Ronan, caso Larson perca, seria Cate Blanchett por Carol (com crítica neste link), outro filme de época. Fechando a lista de possibilidades, Brooklyn concorre com The Big Short, Carol, The Martian e Room como Melhor Roteiro Adaptado.

The Big Short parece levar uma certa vantagem, ainda que a minha torcida vá para Room. The Martian e Carol também são grandes adaptações. Não vejo muitas chances para Brooklyn. Ou seja, no fim das contas, o filme deve sair de mãos abanando no Oscar. Não porque não tenha qualidades, mas porque os concorrentes são melhores.

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  1. 19 de janeiro de 2016 às 21:15

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