What Happened, Miss Simone?


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Uma das tarefas mais difíceis que uma pessoa pode assumir é a de ser um espírito livre. Pensar e agir por sua própria conta sem pedir licença para as convenções sociais ou para o que a maioria está fazendo ou no que está acreditando. What Happened, Miss Simone? trata de uma mulher valente, super talentosa, um espírito livre que, por si só, não era perfeito. Ser livre, aliás, não é sinônimo de perfeição, mas de coragem. Nina Simone, a retratada neste documentário, teve coragem de perseguir os seus sonhos em mais de uma ocasião, mas acabou tendo que se adequar também. Do contrário, provavelmente, ela teria morrido muito antes.

A HISTÓRIA: Começa com uma indagação feita por Maya Angelou: “Miss Simone, a senhora é idolatrada, até mesmo amada, por milhões. Mas o que aconteceu, Miss Simone?”. Escutamos aplausos e assovios. O apresentador dá as boas-vindas para Nina Simone, que aparece no palco e faz uma longa reverência. A plateia aplaude ainda mais forte. Ela levanta o olhar e olha um tanto surpreendida para todos. Fica um bom tempo parada, reta, olhando ao seu redor, até que senta ao piano.

A artista cumprimenta o público, sorri, conta até três e comenta que não vê a todos há muitos anos, desde 1968, porque ela tinha decidido que não se apresentaria mais em festivais de jazz. Complementa dizendo que não mudou de opinião, mas que cantaria e tocaria algumas músicas para o público mesmo assim. Ela comenta que vai começar do início, com uma pequena menina chamada Blue. Então ela começa a tocar o piano com maestria. Esta é a história de Nina Simone, que volta no tempo para Nova York em 1968, oito anos antes das cenas que abriram o filme.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a What Happened, Miss Simone?): Muitas vezes as minhas notas tem mais a ver com o efeito que os filmes provocaram em mim do que, apenas, com as qualidades técnicas das produções. What Happened, Miss Simone? foi, sem dúvida alguma, o documentário que mais me surpreendeu nesta safra de indicados nesta categoria do Oscar 2016.

Antes de mais nada, quero comentar que este filme evidenciou a minha ignorância sobre Nina Simone. Eu conhecia diversas músicas dela e admirava a sua voz, mas não imaginava, nem de longe, que ela teve a trajetória que é apresentada neste filme dirigido com maestria por Liz Garbus.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Nina Simone é uma artista brilhante, mas também é a mulher que aceita ser agredida pelo marido na mesma medida em que ergue os punhos para pedir pelos direitos dos negros. Parece um contrassenso, ou não? Depois que ela dá um basta à violência doméstica sofrida, Nina Simone também a pratica. No fim das contas a diagnosticam como bipolar e ela se medica, mas aparentemente perde o brilho e aquela vontade de viver que tinha antes.

Achei esse filme de uma beleza única. Especialmente porque ele apresenta a complexidade da vida mesma e, especialmente, de uma pessoa que era um espírito livre mas que teve dificuldades de conviver com a sociedade de sua época. Nina Simone, como 99,9% das pessoas de hoje, de ontem e provavelmente de amanhã, não pode ser totalmente livre. Ela não conseguiu fazer tudo o que gostaria ou, mais importante que isso, só fazer o que gostaria. Não. Ela teve que se submeter, de diferentes formas e em diferentes ocasiões, e isso vai sempre minando a energia de uma pessoa.

What Happened, Miss Simone? começa e termina com esta pergunta, mas revelando, no miolo da produção, algumas das respostas que explicam o que aconteceu com aquela artista brilhante. Da minha parte, achei este filme maravilhoso exatamente por isso, por não apenas retratar uma artista importante na história da música, mas especialmente por falar sobre os desafios e a complexidade da existência mesma.

Para adicionar ainda mais pontos, What Happened, Miss Simone? ainda trata com bastante propriedade sobre a luta pelos direitos dos negros nos Estados Unidos. Revisitamos de leve o episódio bem contado pelo filme Selma (comentado aqui), além de ver personagens importantes para aquela luta, como Martin Luther King, Malcolm X e Stokely Carmichael, este último, que por algum tempo foi adepto do radicalismo dos Panteras Negras, era muito mais próximo de Nina Simone do que os demais.

Mas antes de falar sobre este ponto do filme, vamos voltar um pouco na narrativa da produção. Achei brilhante a escolha de Liz Garbus em começar o filme com o momento de retomada da carreira de Nina Simone, depois dela ficar afastada dos palcos por oito anos. Com esta escolha, a diretora fisga o espectador logo no início. Percebemos que Nina Simone não está bem sobre o palco, e aí a pergunta inicial fica reforçada: afinal, o que teria acontecido com ela?

Na sequência, Garbus nos leva para 1968, quando Simone já era uma artista conhecida e estava vivendo um ponto alto na vida pessoal, dando voz para o seu desejo de mais igualdade racial e social. Mas há bastante história para ser contada antes disso. Neste momento entra em cena a filha da artista, Lisa Simone Kelly, uma peça muito importante para contextualizar a mulher, mãe e artista.

Impossível ver aquele começo, em que Kelly comenta que a mãe não era Nina Simone apenas sobre o palco, mas o tempo todo, e não lembrar de nossa Elis Regina. As duas eram artistas muito intensas, cada uma com os seus próprios demônios e dilemas, mas isso não era tudo. As duas tiveram um contexto social que ajudou a defini-las. E é preciso voltar à origem de Nina Simone para entender mais sobre ela, seus desejos e aspirações.

O diretor de What Happened, Miss Simone? faz isso muito bem utilizando fotos e vídeos antigos. A questão racial seria algo fundamental para Nina Simone, especialmente depois que a luta pelos direitos civis dos negros ganhou corpo nos Estados Unidos. Em certo momento, depois que ela torna “consciência” sobre isso, Simone questiona como um artista pode não estar intimamente ligado com as questões problemáticas e significativas de seu tempo.

Esse momento me fez viajar novamente para a nossa realidade, lembrando dos Tropicalistas, de Chico Buarque e de tantos outros artistas que marcaram época durante a ditadura militar no Brasil. Eles cumpriram o seu papel como artistas, mas hoje sentimos falta disso – eu sinto, pelo menos. Nina Simone não concebia, depois de um certo ponto na carreira, fazer música sem levar em conta as questões sociais de seu povo, de sua raça.

Antes disso, ela faz uma carreira de sucesso tendo o marido Andrew Stroud como seu empresário. Ela teve êxito, mas nem sempre fazendo o que queria. E dentro de casa a vida dela era um inferno. Como o diretor não tinha mais a artista para entrevistar, ele preenche as lacunas das perguntas com a música dela, entrevistas de arquivo que ela tinha feito e, o que eu achei mais interessante, trechos do diário que ela tinha escrito. Aquelas palavras com a letra dela foram fundamentais para nos aprofundarmos em sua realidade, forma de pensar e de agir.

Além disso, claro, há depoimentos de pessoas muito próximas dela. Além da filha, é realmente tocante o depoimento de Al Schackman, guitarrista que acompanhou a artista praticamente desde o início da carreira. As imagens dos dois desde 1960 e em diversos anos seguintes de gravação são tocantes, especialmente com o contexto das declarações dele para o filme. Garbus costura muito bem cenas antigas com entrevistas de Nina Simone e das pessoas que ele procurou para esta produção.

Assim, de forma muito natural e interessante adentrarmos na vida desta artista. Junto com ela, temos um recorte daqueles anos importantes para os Estados Unidos e sobre questionamentos sobre a igualdade entre negros e brancos. No pano de fundo ainda está o contexto social do machismo e da violência doméstica, assim como a demora em diagnosticar um distúrbio psiquiátrico, como foi o caso dela.

What Happened, Miss Simone? trata de muitos temas. Em certo momento a artista resolve deixar os Estados Unidos para sempre e vive momentos de alegria na África, até que tem que correr atrás de dinheiro para se sustentar novamente e acaba vivendo em mais de um país da Europa. Ao mesmo tempo que ela acertou ao se livrar de um relacionamento abusivo, ela sofreu tendo as possibilidades limitadas pela falta de dinheiro.

Para muitos ela chegou ao fundo do poço, até que foi ajudada por amigos e voltou a se apresentar. Mas Nina Simone não era mais a mesma. A filha questiona se os remédios lhe faziam bem ou se apenas a domesticavam para que as pessoas lhe aceitassem melhor. Questão difícil. Mulher corajosa, cheia de personalidade, de opinião e de talento, ela teve dificuldades de viver na sua época e, provavelmente e infelizmente, teria dificuldades de viver hoje em dia.

Isso porque as pessoas estão propensas a aceitar a mediocridade, pessoas que pensam igual e que não “criam caso”. Qualquer pessoa que fale além do óbvio e que procure agir diferente do que a “média do mercado” parece incomodar. Certamente Nina Simone incomodaria nos dias atuais. E é isso que devemos lamentar. Que não existam mais Ninas Simones nos nossos dias. Bem construído, com uma narrativa envolvente e que tenta dar conta de todas as nuances da personalidade complexa de Nina Simone, este documentário é um verdadeiro presente desta temporada do Oscar.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como deu para perceber na crítica acima, fiquei encantada com esta produção. Deve ter contribuído para o meu encantamento o fato de eu não saber muito sobre a vida de Nina Simone – diferente do que aconteceu com o filme de Amy Winehouse, uma artista mais contemporânea e sobre a qual o espectador teve mais elementos para acompanhar na superexposição da artista na mídia em anos recentes. Por saber pouco sobre Nina Simone fiquei surpresa com o que vi em cena. Talvez um grande conhecedor sobre a trajetória dela tenha tido uma impressão totalmente diferente.

Falando em Amy Winehouse, pensei em algo enquanto assistia What Happened, Miss Simone?. (SPOILER – não leia se você não assistiu a esse filme). A música teve sorte de que Nina Simone, aparentemente, não embarcou no álcool ou nas drogas. Porque ela, com todos os problemas e desafios que enfrentou, poderia ter perfeitamente abraçado a um destes vícios e ter se perdido para sempre, encurtando a própria vida e trajetória profissional. Como aconteceu com Amy Winehouse e tantos outros artistas que foram marcantes na música e nas artes em geral.

Agora, para não dizer que o filme é perfeito – e por pouco eu não dei um 10 para ele -, senti falta de algo: sabemos um pouco da infância e da família da retratada, mas conforme a história dela avança, não sabemos mais nada sobre os pais da artista. Quem eram? Como reagiram quando ela começou a ficar famosa? Faltou um pouco de contexto aí.

Como comentei antes, achei ótimo o trabalho da diretora Liz Garbus. Verdade que ela utiliza os elementos já conhecidos para contar essa história – imagens de arquivo, fotografias antigas, diários e depoimentos novos -, mas faz isso com maestria. What Happened, Miss Simone? equilibra bem a parte narrativa sobre a biografia da artista com a contemplação para o gênio musical dela. É um deleite ouvir Nina Simone em suas diferentes fases e, especialmente, com o resgate das músicas mais corajosas e panfletárias.

Bacana ver duas produções do Netflix concorrendo ao Oscar deste ano na categoria Melhor Documentário. Além do já comentado Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom, há ainda este filme sobre Nina Simone. Fico feliz que o serviço de streaming esteja seja reconhecido no maior prêmio do cinema como, antes, já tinha sido reconhecido pelas séries de TV. Quanto mais vozes tivermos e fontes de produção, melhor. Mais diversidade de pontos de vista e histórias diferentes terão chances de sair.

Da parte técnica do filme, além da direção de Liz Garbus, merecem aplausos a edição de Joshua L. Pearson e a equipe responsável pelo som da produção composta por Tammy Douglas, Vincent Gregorio, Daniel Timmons e Tony Volante. Competente também o trabalho do diretor de fotografia Igor Martinovic e o design de produção de Markus Kirschner.

What Happened, Miss Simone? estreou em janeiro de 2015 no Festival de Cinema de Sundance. Depois o filme participaria, ainda, de outros sete festivais. Nesta trajetória a produção recebeu dois prêmios e foi indicada a outros 12, incluindo uma indicação na categoria de Melhor Documentário do Oscar 2016. O filme foi reconhecido como o Melhor Documentário no Black Film Critics Circle Awards e com o Josephine Baker Award no Women Film Critics Circle Awards.

A diretora Liz Garbus tem 23 títulos no currículo como diretora. Antes de What Happened, Miss Simone? ela tinha sido indicada ao Oscar por The Farm: Angola, USA, que ela dirigiu junto com Wilbert Rideau e Jonathan Stack. Entre os prêmios que recebeu na carreira, destaque para o Emmy por Ghosts of Abu Ghraib e para o prêmio de Melhor Documentário no Festival de Cinema de Sundance por The Farm: Angola, USA.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 24 críticas positivas e cinco negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 83% e uma nota média de 7,7. As avaliações dos dois sites foram positivas mas, ainda assim, eu acho que as notas conferidas para esta produção poderiam ter sido melhores.

Este é um filme 100% dos Estados Unidos. Por isso ele entra para a lista de produções daquele país que atende a uma votação feita aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme que é, ao mesmo tempo, uma cinebiografia de uma grande artista e um retrato interessante de parte da história dos Estados Unidos. Em tempos em que o racismo volta a ser muito discutido nos Estados Unidos, inclusive pela falta de indicações de negros no Oscar, What Happened, Miss Simone? surge para questionar aonde o sonho de uma sociedade mais igualitária – e não apenas nos Estados Unidos – foi parar.

Construído com muito zelo, este documentário resgata áudios, vídeos e o diário escrito pela artista, assim como depoimentos de pessoas muito próximas dela, para explicar como Nina Simone chegou ao estrelato e como ela deixou ele de lado por um bom período. Complexidade humana e social em cena apresentadas de forma muito competente. Grande e surpreendente filme!

PALPITES PARA O OSCAR 2016: Uma pena pensar que What Happened, Miss Simone? corre por fora na disputa pela estatueta dourada de Melhor Documentário no Oscar deste ano. Francamente, entre os documentários, esse foi o que mais me surpreendeu. Achei ele não apenas muito bem construído, mas feito com cuidado para despertar a reflexão do espectador sobre mais de um aspecto relevante.

Diferente de Amy (comentado aqui), que se debruça na trajetória de Amy Winehouse e mostra a artista como uma vítima das circunstâncias, este documentário de Nina Simone revela a complexidade da personagem retratada. Claro que há razões para isso, como eu comentei lá encima, mas o filme de Simone também é mais completo porque o diretor Liz Garbus buscou isso.

Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom (com crítica neste link) trata de crimes praticados por um governo que não existe mais em um país dividido entre duas realidades conflitantes, enquanto Cartel Land (comentado aqui) e The Look of Silence (com crítica neste link) tratam de realidades duras e que ainda seguem sendo válidas em locais tão distantes quanto o México/fronteira com os Estados Unidos e a Indonésia. Todas estas produções são válidas e cada uma delas tem os seus pontos altos e fortes, mas nenhuma me pareceu tão competente em mostrar a complexidade de um personagem quanto What Happened, Miss Simone?

Em um ano em que muitos artistas questionaram, mais uma vez, a esnobada que o Oscar deu para os artistas negros nas indicações para o prêmio máximo de Hollywood, é interessante ver What Happened, Miss Simone? concorrendo como Melhor Documentário. Este filme nos lembra de uma época em que o assunto era tratado com maior participação das pessoas e com maior mobilização.

O filme, aparentemente, tem poucas chances de levar a estatueta, mas pelo conjunto da obra eu gostaria que a zebra cruzasse a linha de chegada primeiro desta vez. Depois dele, tenho uma pequena torcida por The Look of Silence e, depois, fico dividida entre Amy e Cartel Land. Sem dúvida este é um ano com uma bela seleção de documentários.

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  1. 9 de fevereiro de 2016 às 20:52

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