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Ich Seh Ich Seh – Goodnight Mommy – Boa Noite, Mamãe


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A loucura e a violência se manifestam e, muitas vezes, não conseguimos ver além de seus estragos e efeitos. As causas, as razões e a história que antecederam a insanidade não são conhecidos. Goodnight Mommy é um filme perturbador não apenas por mostrar uma situação fora do esquadro o tempo todo até que a violência domina a cena, mas principalmente por abrir espaço mais para perguntas do que para respostas. Um filme forte, cruel, indicado apenas para os que estão mais preparados para ver a crueldade em sua forma mais bruta.

A HISTÓRIA: Um grupo de crianças cerca uma mulher loira e canta com ela uma canção de ninar. Corta. Um menino corre em um milharal. Ele olha ao redor e não vê nada, até que o seu irmão gêmeo o acerta e o derruba. Depois, os dois meninos voltam para casa. No caminho, Elias (Elias Schwarz) chama por Lukas (Lukas Schwarz), que tomou a dianteira. No lago Elias faz o mesmo, chama por Lukas. Corta. Um carro se aproxima da casa e buzina. Os dois meninos correm e encontram a mãe (Susanne Wuest) com o rosto todo enfaixado. O encontro não é dos mais afetivos. Acompanhamos a relação destes personagens.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Goodnight Mommy): O tom predominante neste filme é o de estranheza. Os meninos, irmãos gêmeos, vivem colados, parecem não ter uma vida independente. Quando a mãe chega, com o rosto e a cabeça toda enfaixada, sabemos que algo de muito errado aconteceu antes. O que aconteceu com eles é apenas a primeira de muitas perguntas que esta história irá levantar.

O encontro entre os meninos e a mãe não demora muito para acontecer. E daquele momento em diante o espectador fica se perguntando o que está acontecendo. Afinal, por que a mãe dos gêmeos não reconhece e não interage com um deles? Em certo momento esta resposta vem à tona mas, até lá, você tem dois caminhos lógicos para seguir – dentro do que um filme como este permite de lógica, claro.

Fiquei observando os gêmeos. Além deles estarem sempre quase colados, claramente eles praticamente falam a mesma coisa. E quando falam algo diferente, quem realmente é “escutado” é Elias. Ora, será que a mãe deles está desprezando de fato alguém real? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Daí surgem duas interpretações possíveis e bem diferentes para esta história. Francamente, desde o início do filme, acreditei na primeira. Mas a segunda é tão viável quanto a primeira – dependendo das tuas crenças e pontos de vista.

Conforme as poucas informações que o espectador vai recebendo no desenrolar da história, sabemos que a mãe dos gêmeos está se recuperando de um acidente gravíssimo. Não sabemos com certeza se foi nesse acidente que Lukas morreu, mas de fato o menino foi vítima de algum acidente do qual a mãe faz questão de inocentar o outro filho. Após o acidente, a mãe dos meninos se divorciou e, agora, tem que lidar com a própria recuperação e com o comportamento estranho de Elias.

Logo no início do filme achei o comportamento dos gêmeos muito estranho. E comecei a reparar que um deles, provavelmente, não existia. Daí surge a primeira interpretação possível deste filme – e foi a que eu adotei durante praticamente a história toda. Lukas, na verdade, só existe na imaginação de Elias. Antes de saber que o garoto realmente existiu, eu achei que Lukas fosse o “irmão imaginário” de Elias. Depois que a mãe insiste com o filho de que ele não foi culpado pela morte de Lukas, temos certeza que o garoto existiu.

Mas então por que Elias segue tratando Lukas como se ele ainda existisse? Novamente, duas interpretações possíveis. Da minha parte, acho que Elias, como tantas outras pessoas, teve dificuldade de lidar com a perda. Ao invés de aceitar que o irmão morreu, ele seguiu imaginando Lukas do lado dele como antes. Como se o irmão fosse um amigo invisível, ele interage com Lukas o tempo todo, inclusive ao ponto de tomar algumas atitudes como se o irmão estivesse o levando àquilo – comportamento explicável após um trauma importante.

O erro da mãe do menino foi não levar tão a sério essa situação. Ela não deveria ter desprezado o fato do filho seguir interagindo com Lukas mesmo depois do garoto ter morrido. Claro que ela estava também em choque e ainda tendo que lidar com a própria perda e com a recuperação de sua saúde, mas ela deveria ter pedido ajuda de alguém, talvez de algum familiar ou, especialmente, de um psiquiatra ou psicólogo. O garoto deveria, imediatamente, ter passado por um tratamento. Ao desprezar o que estava acontecendo ela abriu caminho para a loucura do menino chegar ao extremo.

Essa é uma forma de analisar o que aconteceu. Outra forma, e que acho menos plausível, é a de que Lukas de fato estava junto com Elias o tempo todo, mas como espírito. Ou seja, o menino que tinha sido morto tragicamente voltou para acompanhar o irmão, pela forte ligação que os gêmeos tem e, de fato, influenciou nas decisões de Elias. Juntos eles não aceitaram a mãe quando ela voltou, torturando-a para saber a “verdade” e, depois, acabando com ela sem, aparentemente, sentir remorso. Afinal, “ela não era a mamãe”.

Aparentemente Elias, que é a pessoa real em questão, parece não sentir nada. Ele tem um comportamento estranho, deslocado da realidade. Procurando saber um pouco mais sobre o estresse pós-traumático, encontrei esse interessante artigo que ajuda a explicar, talvez, pelo que o garoto passou: distresse. Vale citar um trecho: “Há uma organização psicofísica que sustenta a pessoa no estado de distresse, criando a percepção de que o mundo é de um certo modo – no caso, hostil – e produzindo repetições infinitas de pensamentos, fantasias, pesadelos e sentimentos em torno de uma mesma questão, criada e mantida por um padrão alterado de funcionamento”.

Há mais informações sobre essa situação de distresse. Francamente, vejo que Goodnight Mommy se justifica não pela crueldade e violência que o filme apresenta, mas pelo alerta que ele nos dá sobre o perigo que situações traumáticas podem ter quando o estresse e o distresse causados por elas não são levados a sério e tratados. Esta é a minha leitura do filme. Acho que Elias não aceitou a morte do irmão e que reagiu muito mal com o retorno da mãe, vivendo uma realidade recheada de terror e de fantasia. Os pais dele desprezaram os efeitos deste trauma e deu no que deu. De arrepiar a crueldade do garoto.

Outra forma de interpretar o que aconteceu é aquela que eu comentei antes, esquecendo o viés psicológico e abraçando o viés paranormal. Lukas seria, assim, o espírito “vingador”, aquele que não aceitou que morreu e que volta para tentar ter a vida que tinha antes. Como ele não é reconhecido pela mãe, ele também não a reconhece e “inspira” o irmão a acabar com tudo aquilo.

No fim do filme, independente da interpretação que se faça para a reação de Elias e a relação dele com Lukas, o filme dá a entender que todos ficam juntos “após a morte”. Um final um tanto estranho, fantasioso, como o próprio começo do filme. No fim, tudo parece um tanto irreal. Seria a forma dos diretores e roteiristas Severin Fiala e Veronika Franz encararem histórias como essa com certo tom de fantasia e irrealidade?

Sabemos que histórias como a mostrada por Goodnight Mommy aconteceram e/ou podem acontecer. O filme acerta quando mostra as situações com crueza – ainda que várias cenas sejam perturbadoras demais. Por isso mesmo é estranho aquele final que tenta “embelezar” ou deixar uma mensagem fantasiosa sobre o que aconteceu. Achei tão sinistro quando o restante do filme que, francamente, não é fácil de assistir. Mas algo tem que ser dito: o trabalho de Fiala e Franz leva a sério a loucura e a violência que pode advir de um distúrbio psicológico. Que o filme sirva de alerta para muitas famílias e pessoas que passam por situações de violência e ficam traumatizadas com elas.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tudo neste filme foi pensado para que reforçar o tom de estranheza e de deslocamento da realidade. Do roteiro e da direção da dupla Severin Fiala e Veronika Franz até a trilha sonora asfixiante em muitos momentos de Olga Neuwirth e a direção de fotografia exageradamente luminosa e com muitos contrastes de Martin Gschlacht.

Da parte técnica do filme, vale comentar também o bom trabalho do editor Michael Palm. Funcionam bem também o design de produção de Hubert Klausner e Hannes Salat e os figurinos de Tanja Hausner. Como é um filme contemporâneo, as escolhas que ressaltam a ideia de “história de pessoas comuns” funcionam.

Os meninos Lukas Schwarz e Elias Schwarz fazem um trabalho bastante honesto e, dentro da proposta do filme, bastante convincentes e assustadores. A atriz Susanne Wuest também ajuda no reforço desta mensagem de estranheza. A tensão está no ar o tempo todo e o espectador, de forma acertada, fica esperando que algo de ruim aconteça. Ainda assim, quando o pior de fato acontece, não estamos suficientemente preparados para isso. Mérito da criatividade dos realizadores, que levam à fundo a crueldade e o deslocamento da realidade. É preciso ter muito cuidado com distúrbios psicológicos, está claro.

O filme é centrado nos dois irmãos e na mãe deles. Mas vale citar a rápida aparição de outros atores, como Hans Escher como o padre que leva os meninos de volta para casa; Christian Steindl como o sacristão que recebe Elias; Christian Schatz como o fazendeiro que pede para o menino se afastar das chamas; e Georg Deliovsky como o entregador de pizzas. Como se pode notar, fora os meninos que protagonizam a história, todos os demais não tem nome, são identificados apenas por suas “funções” na história.

Francamente eu não gostei muito desse filme. Daria, originalmente, uma nota ainda menor que a que dei acima. Achei um filme muito pesado, muito cruel e perturbador. Mas depois que o filme terminou, refleti sobre ele e vi um alerta importante nesta história para as situações traumáticas e seus efeitos. Além disso, também observei a forma com que ele deixa pelo menos duas interpretações possíveis. O que, inicialmente, é sempre válido. Analisando tudo isso, resolvi dar a nota acima. Ainda que, para o meu gosto pessoal, o filme merecia uma avaliação um tanto menor. Só dei o 8 porque acho que a mensagem de alerta dele é importante – se levarmos em conta a interpretação de que Elias reagiu daquela forma por causa do distresse.

Goodnight Mommy estreou em agosto de 2014 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participou de outros 41 festivais mundo afora. Uma carreira impressionante entre festivais, sem dúvida. Neste trajetória o filme ganhou 17 prêmios e foi indicado a outros 25.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Direção de Fotografia, Melhor Maquiagem e Melhor Design de Produção no Festival de Cinema Austríaco. O filme também ficou na lista dos cinco melhores filmes em língua estrangeira da National Board of Review.

Não há informações sobre o custo de Goodnight Mommy, um filme 100% produzido pela Áustria, mas há informação sobre o resultado dele nas bilheterias dos Estados Unidos: cerca de US$ 1,18 milhão. Pouco, muito pouco.

Agora, algumas curiosidades sobre este filme: os atores não receberam o roteiro do Goodnight Mommy, para decorá-lo antes, e a produção foi totalmente rodada em ordem cronológica. No total, 240 gêmeos fizeram os testes para os papéis principais.

Goodnight Mommy foi a indicação da Áustria para o Oscar 2016. O filme acabou não ficando entre os cinco finalistas ao prêmio. Francamente, não merecia mesmo.

Para quem gosta de saber aonde os filmes são rodados, Goodnight Mommy teve como locação a propriedade em Schlossgasse, 2, em Raabs an der Thaya, na Áustria.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 98 críticas positivas e 18 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média de 7,3.

Fiquei curiosa para saber mais sobre os realizadores deste filme. Goodnight Mommy é o quarto filme no currículo do diretor Severin Fiala e o segundo no currículo da diretora Veronika Franz. Antes deste filme Fiala dirigiu a dois curtas e ao documentário Kern – este último codirigido por Veronika Franz.

CONCLUSÃO: Um dos filmes mais cruéis que eu assisti em muito tempo. Goodnight Mommy parece fora do esquadro desde o início. Sabemos que algo está muito errado naquela história, e ela só vai piorando com o tempo até que acaba em um desfecho trágico. Filme psicológico ou paranormal, ele tem duas possibilidades de interpretação muito claras. Da minha parte, achei violento demais e sem um propósito definido além de provocar repúdio no espectador. Entre as produções mais estranhas dos últimos tempos, ele deixa mais perguntas que respostas no ar. Algumas vezes isso funciona mas, em outras, nos faz perguntar a razão de tudo aquilo. Talvez a falta de razão seja a resposta.

  1. Poliana Peres
    6 de março de 2016 às 4:43

    Olá Alessandra! Assisti esse filme alguns meses atrás, e talvez pela mãe não levar a sério as reivindicações do garoto vivo, só no final percebi toda a historia. Apesar de toda a crueldade resolvi vê-lo novamente para ver quando caí na cilada de que era só a um que ela se dirigia. Foi logo que encontra os “filhos”. Ordens simples como tomar banho, trocar de roupa e etc… Muita falta de atenção de minha parte, mas tenho o hábito de devorar os filmes e deixei passar a tradução.
    Foi um dos filmes mais assustadores que assisti nos últimos tempos, mas o comportamento da mãe também não condiz com a realidade. Ela parece não prestar atenção nas atitudes do garoto, dando a entender que ela está também fazendo uma pirraça ao não dar atenção ao outro filho. O objetivo do filme era esse, chocar no final mostrando que era só um.
    O filme não tem nada de sobrenatural. Ele mostra a loucura e a capacidade da crueldade no ápice.
    Particularmente eu me surpreendi com o filme por causa do final, mas analisando o todo a história é muito mal contada.
    Abraços!!
    Poliana

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