Remember – Memórias Secretas


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Não é algo simples pegar um gênero do cinema e subvertê-lo. Quanto mais pegar duas temáticas bem utilizadas na Sétima Arte e mostrar uma forma diferente do público relacionar-se com elas. Pois é exatamente isso que Remember faz. Este não é um filme fácil de ser assistido, e por muitas razões. Especialmente pela fragilidade dos personagens principais – ao menos para mim esse fato teve um grande impacto. Além disso, nesta produção não será difícil, além da sensação de mal estar, você constantemente esperar que algo de ruim aconteça. É um filme forte e interessante.

A HISTÓRIA: Zev (Christopher Plummer) dorme profundamente e, quando começa a acordar, chama por Ruth. Ele não a encontra na cama, mas vê sua roupa e chapéu pendurados no cabideiro. Ao sair do quarto, ele pergunta pela sua esposa. A cuidadora Paula (Kim Roberts) lhe informa que Ruth faleceu há uma semana. Ele se senta, e Paula sugere que ele vá tomar o café da manhã. Lá ele se encontra com Max (Martin Landau), que comenta que aquele será o último dia do shivá em homenagem a Ruth. Daí Max pergunta a Zev se ele lembra o que ele prometeu que faria após a morte de Ruth. Zev não se recorda, mas Max diz que não há problema algum porque ele escreveu tudo em uma carta para ele se lembrar. A partir desta carta Zev vai empreender a sua própria missão.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Remember): Não sei vocês, mas em diversas ocasiões eu já pensei que se eu tiver sorte de viver muitos anos, não seria nada raro ser acometida de alguma doença degenerativa. Isso é algo que pode acontecer com qualquer um de nós se chegarmos a uma idade avançada. Essa fragilidade do protagonista de Remember é um elemento fundamental para esta produção.

Para muitos será fácil se colocar no lugar de Zev. E mesmo quem não faz esse exercício dificilmente vai ficar alheio à fragilidade do personagem. Ele sofre de demência, mas isso não me impediu de lembrar de dois outros filmes que tratam sobre as angústias do esquecimento: Memento e Eternal Sunshine of the Spotless Mind. Aliás, recomendo muito estas duas produções, caso você, meu caro leitor e leitora, não tenha tido ainda a oportunidade de assisti-los.

Mas voltemos para Remember. Esta produção trata o esquecimento com franqueza. Sempre é angustiante pensar na rotina de alguém que tem a memória recente “zerada” de tempos em tempos. A exemplo do que acontece com o personagem de Memento, Zev utiliza de diferentes maneiras para começar a driblar o esquecimento, de anotar no punho que deve ler a carta até manter a carta com todas as informações principais sobre a sua circunstância atual e sobre o que ele se propôs a fazer por perto.

O esquecimento é um elemento fundamental desta história. Conforme a narrativa se desenrola, vamos conhecendo melhor as motivações de Zev, o que ele está procurando e de que forma o plano foi bem arquitetado para que ele avançasse. Mas daí vem o primeiro grande questionamento desta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas eu não demorei muito para duvidar sobre a origem dos planos de Zev. Afinal, foi ele mesmo que planejou tudo aquilo e que queria se vingar ou isso seria um plano de Max que, sabendo do estado mental do amigo, estava o utilizando para conseguir os seus fins?

Mesmo pensando isso já meio no início do filme – mais ou menos à altura do roteiro em que Zev compra a arma -, admito que o final da produção me surpreendeu mesmo assim. Mas falemos do final mais tarde. Novamente o diretor Atom Egoyan, desta vez trabalhando com o roteiro de Benjamin August, subverte uma história e a torna provocativa. Se o esquecimento não é, exatamente, uma novidade no cinema, e muito menos uma história de vingança, por que este filme impacta tanto?

Para mim, primeiro, pela fragilidade dos personagens principais. Depois, pelo suspense do ótimo roteiro de August que nos faz acompanhar Zev sem a segurança de que ele não poderá se perder no caminho. A exemplo do que acontece com a personagem de Julianne Moore no ótimo Still Alice (comentado aqui), Zev também pode se perder a qualquer momento porque a sua lucidez não é mais tão à prova do desenrolar dos fatos.

Depois, existe a insegurança sobre a verdade por trás da motivação da vingança. Realmente o que está escrito na carta é verdadeiro? Como Zev pode ter certeza sobre a legitimidade dos seus atos – ainda que, aparentemente, ele não questione isso em momento algum. Mas nós, espectadores, sim podemos questionar as suas ações no lugar dele. Christopher Plummer é um ator gigante, e ele passa muita veracidade em cada ato no filme. Então é de cortar o coração pensar que ele pode estar sendo movido por algo que não a sua própria vontade.

Além desta angústia permanente durante a produção, é interessante ver como um filme de vingança pode ser tão diferenciado do que estamos acostumados a ver. Não apenas pelas características do justiceiro, mas pela motivação dele. E aí entramos em outro tema bem tratado pelo cinema: as feridas deixadas pelo nazismo entre os sobreviventes do Holocausto. Alguns filmes já trataram deste tema especificamente – como Wakolda (com crítica aqui no blog). Mas poucos – pessoalmente eu não lembro de nenhum – se deteve em contar um pouco da história dos sobreviventes judeus e alemães.

Remember faz essa imersão interessante em um tema tão controverso. Grupos de judeus realmente procuraram caçar os algozes nazistas, mas normalmente os filmes a esse respeito mostram mais a caçada do que a realidade ou um pouco da história dos diferentes personagens. O roteiro de August tem o cuidado de fazer as duas coisas, mostrar o processo de vingança de Zev e Max e também um pouco dos personagens que o primeiro vai encontrando no caminho. Cada um tem a sua história e ela é rapidamente mostrada nesta produção.

Enquanto isso, pincelado aqui e ali no filme, vemos a preocupação do filho de Zev, Charles Guttman (Henry Czerny), em encontrar o pai. De forma muito inteligente a viagem de Zev é planejada para pagamentos em dinheiro. Desta forma, ele acaba não sendo rastreado pelo uso do cartão de crédito. Perto do final, contudo, ele acaba usando o cartão, e é aí que o desfecho da história ganha um interesse e um testemunho de Charles Guttman especial.

O trabalho de Plummer e o de Landau mereciam indicações ao Oscar, a meu ver. Eles estão soberbos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Sobre o final, ainda que eu desconfiasse que Zev estava sendo usado por Max para que ele atingisse o seu próprio propósito, eu jamais poderia imaginar que a identidade de Zev seria descoberta daquela forma. Impressionante a força do final. Max esperava que não apenas Zev cumprisse a missão de encontrar e eliminar o algoz nazista, mas que ele próprio tivesse o fim que teve.

Neste ponto vem o único porém que eu tive com este filme. Afinal, tendo feito tudo o que fez, Zev realmente optaria por aquele tiro final? Eu acho questionável mas, por outro lado, entendo a proposta de August e Egoyan. Por maior criminoso que alguém for, se ele não tiver a memória de seus atos e for “surpreendido” lá pelas tantas pela verdade vindo à tona, ele não se arrependerá? Ele não terá tanta vergonha de ter os atos descobertos que não terá vontade de morrer?

Não sabemos exatamente a motivação do ato de Zev – ela está aberta para interpretações -, mas a saída que ele encontrou certamente era a que Max esperava. Jogada de mestre dele, pois. Mas honestamente eu tenho as minhas dúvidas se o Zev original realmente faria aquilo. Ele até poderia atirar no ex-amigo, mas acho que dificilmente teria aquele ato final. Enfim… De qualquer forma, é um filme impactante sob qualquer ótica. Mais um acerto de Egoyan.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O elenco escolhido a dedo pelo diretor Atom Egoyan e sua equipe é de tirar o chapéu. Christopher Plummer ganha o protagonismo que ele merece e dá um show de interpretação. Como ele é o personagem que puxa a narrativa, os outros atores em cena tem um papel bem menor que ele, são interpretações secundárias. Ainda assim, sem dúvida alguma merece destaque o bom trabalho de outro veteraníssimo de tirar o chapéu: Martin Landau. Apenas por ter unido estes dois gigantes e dado para eles o protagonismo deste filme, Egoyan e equipe já estão de parabéns.

Além destes dois gigantes do cinema, Remember tem alguns nomes interessantes em papéis secundários. Além do já citado Henry Czerny, que interpreta ao filho do protagonista, temos os veteranos e muito bons atores Bruno Ganz como o primeiro Rudy Kurlander; e Jürgen Prochnow com uma maquiagem pesada – ele é o mais jovem dos atores que vivem o personagem-alvo de Zev – como o quarto Rudy Kurlander. Vale destacar o trabalho de Dean Norris como John Kurlander, filho do terceiro Rudy Kurlander que o protagonista procura. Quem assistiu Breaking Bad vai se lembrar bem do ator. Ele está muito bem no filme – e a sequência dele com Rev é de arrepiar.

Outros atores em papéis secundários que merecem ser citados: James Cade como o vendedor da loja de armas; Peter DaCunha como Tyler, o garoto que interage com Zev no primeiro trecho da viagem dele, no trem; Sofia Wells como Molly, a menina que ajuda Zev no hospital ao ler a carta para ele; Heinz Lieven como o segundo Rudy Kurlander; Stefani Kimber como Inge e Jane Spidell como a mãe dela, Kristin, respectivamente neta e filha do último Rudy Kurlander.

O estilo de direção de Atom Egoyan é estar sempre próximo dos atores, especialmente de Christopher Plummer. A câmera atenta do diretor mostra cada expressão, momento de tensão e medo do personagem, assim como o seu caminhar e a sua forma de lidar com cada situação. Egoyan também utiliza diferentes planos de câmera para reforçar a mensagem que ele quer passar – exemplo disso são as diferenças de nível na sequência entre Zev e John Kurlander. Enfim, o diretor sabe muito bem utilizar os recursos técnicos a favor da narrativa.

Sempre alguns elementos técnicos se destacam mais que outros em uma produção. No caso de Remember, a trilha sonora é um ponto-chave. Mychael Danna faz um bom trabalho com uma trilha bastante presente e de suspense. Quando a trilha não está presente é para tornar o momento ainda mais especial – como no final da sequência entre Zev e John Kurlander. Outros destaques na parte técnica deste filme são a direção de fotografia de Paul Sarossy; a edição de Christopher Donaldson; e a decoração de set de Danny Burke, Elizabeth Calderhead, Brett Jones e Helen Kaneva. Fazem um bom trabalho também Debra Hanson com os figurinos; Rory Cheyne com a direção de arte e Matthew Davies com o design de produção.

Remember estreou em setembro de 2015 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme passaria ainda por outros 11 festivais pelo mundo. Nesta trajetória o filme recebeu três prêmios e foi indicado a outros 14. Os que ele recebeu foram o de Melhor Roteiro Original no Canadian Screen Awards; o Cinecolor Audience Award para Atom Egoyan no Festival de Cinema de Mar del Plata; e o Vittorio Veneto Film Festival Award para Atom Egoyan no Festival de Cinema de Veneza. Ele também ficou em segundo lugar na escolha do público na categoria World Cinema do Festival de Cinema de Mill Valley.

Esta é uma coprodução entre o Canadá e a Alemanha.

Remember teria custado 13 milhões de dólares canadenses. Nos cinemas dos Estados Unidos o filme teria feito pouco mais de US$ 600 mil, uma quantia bem pequena para os padrões americanos. Segundo o site Box Office Mojo, levando em conta a bilheteria mundial da produção, ela teria conseguido pouco mais de US$ 1,95 milhão. Ou seja, até o momento, dando um belo prejuízo. Pena que este filme não foi descoberto por mais gente. Ele merece ser visto, especialmente pelo roteiro e por Plummer.

O filme foi totalmente rodado no Canadá, em locais como Toronto, Alberta, Hamilton e Sault Ste Marie.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme. O roteiro de Remember consultou especialistas em Alzheimer para que eles garantissem que a história retratasse as condições de um idoso que sofre com a demência com precisão.

As cenas em que Christopher Plummer toca piano são realistas. O ator realmente executou as peças que aparecem no filme.

Durante o Holocausto, os prisioneiros dos campos de concentração só receberam tatuagens no complexo de Auschwitz. Apenas os prisioneiros escolhidos para o trabalho forçado recebiam números em série. Os outros prisioneiros, que chegavam de trem, eram enviados diretamente para as câmaras de gás, onde eram mortos. Estes prisioneiros nunca foram registrados e não recebiam tatuagens. Esta é uma razão que dificulta, até hoje, saber o número exato de mortes no local.

Inicialmente o ator alemão Günter Lamprecht foi escalado para dar vida ao quarto Rudy Kurlander, mas como o ator teve uma lesão no joelho, ele acabou sendo substituído por Jürgen Prochnow.

Christopher Plummer ficou irado quando o diretor sugeriu fazer a cena do sofá com um dublê. Ele mesmo fez questão de fazer aquela sequência.

O diretor egípcio Atom Egoyan tem 39 títulos no currículo, incluindo longas, curtas, séries e filmes para a TV. Até o momento ele acumula 56 prêmios e duas indicações para o Oscar – ambas pelo filme The Sweet Hereafter, de 1997. O cinema trilhado por ele é provocador. Que eu tenho lembrança, assisti dele, entre os filmes mais recentes, Chloe (comentado aqui) e lá atrás, quase no começo do blog, quando o formato de publicações ainda não era bem o atual, o filme Where The Truth Lies (que pode ser acessado neste link). Vale acompanhá-lo, apesar do cinema dele nem sempre ter tanta qualidade quanto ele gostaria.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção. Uma avaliação muito boa para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram menos entusiastas da produção. Eles dedicaram 52 críticas positivas e 22 negativas para o filme, o que lhe garantiu uma aprovação de 70% e uma nota média de 6,4.

CONCLUSÃO: Este filme trata de dois temas, basicamente: vingança e Auschwitz. Ou seja, dois temas já beeeeeem tratados pelo cinema mundial – especialmente o americano. Por isso mesmo, Remember poderia ser um filme previsível, “mais do mesmo”, mas ele é tudo menos isso. Da escolha dos personagens até a narrativa e, especialmente o final, Remember é uma destas produções que consegue subverter os gêneros que o filme aborda. A angústia é uma sensação presente, assim como a curiosidade sobre o desenrolar da história. Mais um belo trabalho do diretor Atom Egoyan, geralmente provocativo. Vale ser visto, com certeza, mas tenha certeza que não sairás deste filme incólume.

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