Intolerance: Love’s Struggle Throughout the Ages – Intolerância


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Imagine como era o cinema há exatos 100 anos. Conseguiu imaginar? Provavelmente você pensou “ah, filme mudo, com poucos atores, mais ao estilo de teatro”. Imaginou algo assim? Bem, você não está de todo errado(a). Muito do cinema feito em 1916 tinha esta característica, mas não vamos falar aqui, na estreia de uma nova seção no blog, de um filme qualquer. Vamos estrear com um dos grandes filmes de todos os tempos, Intolerance: Love’s Struggle Throughout the Ages, dirigido por um dos grandes cineastas da Sétima Arte, D.W. Griffith. Vale a pena nos debruçarmos nesta produção e em tudo que a define como um dos maiores clássicos do cinema. Com este filme, que está completando em 2016 exatos 100 anos, marcamos a estreia da seção “Um olhar para trás”. Boa leitura e bom filme!

A HISTÓRIA: Logo no início, junto com o nome do filme, sabemos que esta história tem “um prólogo e dois atos”. A trilha sonora é marcante, e vemos a apresentação de Intolerance: Love’s Struggle Throughout the Ages em um daqueles quadros clássicos das primeiras décadas do cinema. Na sequência do nome do filme, aparece uma tela informando que o filme é constituído por “quatro histórias separadas, ambientadas em diferentes períodos da História, cada uma com o seu grupo de personagens. Cada história demonstra como o ódio e intolerância, através dos tempos, trava batalha contra o amor e a caridade. Assim, você vai notar que o nosso filme passa de uma história para a outra das quatro histórias, mas tendo o tema central sempre presente. Começamos com o berço divino balançando sem parar”. Estas frases se sucedem em uma série de telas, com a música mudando conforme a trama se desenvolve.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Intolerance): Que obra impressionante, meus bons leitores e leitoras! Admito que há muito tempo eu queria ter assistido a este filme de D.W. Griffith, mas nunca tinha tido a oportunidade de fazer isso como se deve, com calma e com tempo. Não haveria filme melhor para começar esta nova seção aqui no blog.

Há muito tempo, também, eu queria estrear esta seção de filmes históricos. Olhar para trás no cinema é um verdadeiro aprendizado e deleite. Não apenas para ver como a Sétima Arte se desenvolveu com o tempo, mas inclusive para perceber como diferentes artistas e diferentes épocas entenderam a nossa própria evolução enquanto civilização. É um verdadeiro prazer, desta forma, voltar exatamente 100 anos na História para assistir a um filme tão ousado em diversos sentidos.

Sempre ouvi falar em alguns nomes do cinema, evidentemente. Muitos destes nomes eu já assisti, aqui e ali, um ou outro filme, mas nem sempre tive a oportunidade de ver a todos os filmes que estes grandes nomes produziram. D.W. Griffith é uma unanimidade, entre os conhecedores do cinema, como um dos nomes principais da História da Sétima Arte. Ao assistir Intolerance não sobra nenhuma dúvida das razões para isto.

Como comento na conclusão deste texto, este é um filme que, aos olhos do espectador de 2016, é um grande desafio para ser assistido. Não é fácil, admito, ver a um filme mudo tão longo – 163 minutos na versão original, quando o filme estreou, 178 minutos na versão lançada nos anos 2000, a qual eu assisti, e 197 minutos na versão do DVD. Houve ainda uma versão mais curta, de 123 minutos, que foi lançada na TV.

Mas vamos lá, eu assisti a esta versão de quase três horas que foi lançada no ano 2000. Quase três horas de um filme mudo exige paciência e vontade de aprender, sem dúvida. Mas quero dizer para você, caro leitor e leitora, que vale à pena. Intolerance é uma aula de cinema do primeiro ao último minuto.

Primeiro, é preciso nos imaginarmos no ano de 1916, quando este filme foi lançado nos cinema. Apenas para contextualizar um pouco, vocês devem recordar que em 1916 o mundo estava no meio – exatamente no meio – da Primeira Guerra Mundial. Ou seja, a obra de Griffith não poderia ter sido lançada em um momento melhor para falarmos de ódio e intolerância. Claro, naquele momento, ainda não se sabia que a Humanidade viveria a Segunda Guerra Mundial e outros conflitos.

Por isso mesmo, nos imaginemos no meio da Primeira Guerra Mundial, quando as pessoas ainda eram mortas, principalmente, com baionetas… ok, começou a se matar também com lança-chamas, granadas, morteiros e aviões, mas no dia a dia da guerra predominavam as baionetas. No cinema, as produções eram mais elaboradoras do que há duas décadas, quando a Sétima Arte surgiu, mas muitos filmes basicamente tentavam reproduzir peças de teatro – inclusive com ambientações parecidas.

Daí, neste contexto, surge o ousadíssimo Intolerance. Achei o filme ousado logo nos primeiros minutos. Tanto pela coragem da narrativa, que misturava mais de uma história com um desenvolvimento paralelo de cada trama, mas entrelaçando as suas narrativas, quanto e principalmente pela técnica. Quem assistir a Intolerance com olhar acurado, vai notar boa parte do cinema que seria feito nas décadas seguintes e por grandes nomes neste filme. Há desde Hitchcock nas cenas do crime envolvendo o jovem casal até grandes produções de batalha como Ben-Hur nas sequências da Babilônia.

Griffith também foi muito ousado em fazer um filme tão longo e tão difícil  naquela época. É bom lembrar que todas as cenas em que vemos dezenas, centenas de figurantes realmente tinham esta quantidade de gente envolvida diretamente nas filmagens. Em 1916, muito antes de qualquer computador ser inventado, as cenas que vemos não contavam com efeitos especiais ou computação gráfica. Claro que há técnicas para reproduzir alguns cenários, como o uso de maquetes, e alguns recursos utilizando lentes para dar maior relevância para alguns aspectos da cena, mas isso era tudo. O cinema estava em sua infância e, por isso mesmo, não lembra nem um pouco o que é feito hoje.

Então seja pelas condições da época, tanto históricas quanto técnicas, seja pela ousadia de apresentar algo totalmente diferente para o espectador que ia aos cinemas, Intolerance é um marco. Deve ser visto e apreciado com calma. Volto a dizer: vale muito a pena enfrentar o desafio de ver a um filme mudo de quase três horas.

Falando um pouco mais da narrativa e das técnicas utilizadas no filme, chama demais a atenção o talento e o olhar diferenciado de Griffith. Gostei do fato de Intolerance dizer logo nos primeiros caracteres ao que o filme se propõe. De fato, todas as histórias narradas pela produção estão focadas na luta entre o ódio e o amor, a intolerância e a caridade. Sentimentos e gestos que podem ser identificados em todas as épocas e que acabam sendo o foco da história ambientada nos “tempos atuais” (lembrando, por volta de 1916); na “velha Jerusalém”, no tempo de Jesus; em Paris no ano 1572, no tempo de Catarina de Médici e sua perseguição aos protestantes; e, finalmente, no tempo da Babilônia como a nação mais poderosa da Terra, em 539 a.C.

Falando em técnica, chama a atenção, depois da introdução e apresentação do filme, a impressionante fotografia de G.W. Bitzer na sequência inicial do “berço divino” que nunca pára de balançar. Bitzer trabalha ali a essência da fotografia, que é o contraste entre luz e sombra. O quadro estático também ajuda, assim como a trilha sonora fundamental de Felix Günther e Joseph Carl Breil – o primeiro assinou a trilha da versão de 1924, enquanto o segundo não teve o nome creditado na trilha sonora -, além de Carl Davis, que contribuiu com a versão de 1989.

Como mandava o figurino do cinema mudo, volta e meia a ação era “explicada” ou contextualizada por telas com textos que ajudavam a dar perspectiva e compreensão para as cenas que o espectador via e que eram acompanhadas apenas pela trilha sonora – o cinema começou a agregar as falas dos atores/personagens apenas 11 anos depois de Intolerance, em 1927. Nas primeiras décadas do cinema, a Sétima Arte utiliza muito recursos já conhecidos do teatro e da literatura. Por isso achei especialmente interessante como Intolerance utiliza o recurso de “um livro que vai se abrindo” para nos contar esta história.

Naqueles anos, era muito comum que o diretor por trás do filme tivesse uma importância muito grande – afinal, ele era o “maestro” da obra, o grande realizador que, na maioria das vezes, colocava boa parte do dinheiro do próprio bolso para que os filmes fossem realizados. Em Intolerance percebemos isso claramente porque o nome de Griffith é uma assinatura bastante presente na produção – observem o DG (de David Griffith) volta e meia no canto inferior das telas.

Por isso mesmo, o nome do diretor e, pouco a pouco, dos atores, vai ganhando cada vez mais protagonismo e destaque – na história do cinema esta evolução é facilmente identificável. A consequência disso é que muitos nomes envolvido em produções como Intolerance acabavam não sendo creditados. O interessante roteiro deste filme, bastante ousado para a época – e que inspiraria vários trabalhos posteriormente, especialmente por ter uma narrativa fragmentada e com diversas histórias correndo em paralelo -, teve nada menos que sete nomes envolvidos no projeto direta ou indiretamente.

O roteiro, incluindo os textos que vemos nos quadros que ajudam a explicar a narrativa e também a ação propriamente dita, é assinado por D.W. Griffith e Anita Loos, oficialmente, mas teve ainda a colaboração de Hettie Grey Baker, Tod Browning, Mary H. O’Connor e Frank E. Woods, todos sem crédito, e ainda um poema de Walt Whitman também não creditado.

É interessante refletir sobre os momentos históricos retratados em Intolerance. Griffith e companhia se debruçam sobre as práticas, ações e atitudes de pessoas ricas e pobres em quatro épocas diferentes. De forma ousada, o diretor retorna quase 2 mil anos na História para retratar a Babilônia de 539 anos antes de Cristo, assim como a época do próprio Jesus e, o que era mais fácil para ele nos anos 1910, a Paris de quase 500 anos antes, quando os protestantes foram massacrados na noite de São Bartolomeu.

Cada época escolhida por Griffith e seus roteiristas tinha uma dificuldade específica – assim como cada fato que ele queria retratar. Apesar de serem quatro histórias diferentes, mas todas confluindo na crítica ácida dos mais ricos e “poderosos” hipócritas e que poderiam fazer mais pelos pobres e pelos necessitados mas que, no fim das contas, só os exploram, Intolerance claramente dá mais destaque para dois destes momentos históricos.

O tempo de Jesus Cristo, as relações entre fariseus e o povo e a própria trajetória de Cristo são pouco explorados. Ganha mais evidência, especialmente por algumas cenas fortes de estupro e assassinato, a Paris de Catarina de Médici e do massacre “em nome de Deus” contra os protestantes. Mas, sem dúvida alguma, o maior destaque, tanto no tempo de narrativa quando no aprofundamento das relações e dos personagens, se passa nos extremos dos “tempos” das quatro histórias, ou seja, na Babilônia antes de Cristo e nos “tempos atuais”.

Nestes quatro momentos, contudo, como comentei antes, há em comum um fio condutor em que os ricos e poderosos são claramente e duramente criticados porque fazem muito pouco pelos outros – pelo contrário, aliás. Em muitos casos eles exploram as outras pessoas, apesar de se dizerem “caridosos” – isso fica evidente nos “tempos atuais” e na época de Jesus Cristo, segundo Intolerance. Outra característica marcante é a traição e a violência sem escrúpulos, o que fica ainda mais evidente na Paris de 1572 e na Babilônia. Parece sempre que o mal quer vencer o bem, e que consegue isso, aparentemente, em diferentes épocas e momentos.

O filme é duro, é pesado, bastante crítico e irônico com a alta sociedade e os poderosos. Há um bocado de violência e de ignomínia em cena, mas nem tudo é crítica e desesperança. Na reta final do filme, que parece ter muitos gêneros misturados – do época até o histórico, do drama até o policial e a comédia -, Griffith resolve apostar na história da “queridinha do papai” e/ou The Dear One (maravilhosamente interpretada por Mae Marsh) e do “jovem” e/ou The Boy (o bastante competente Robert Harron).

Essa história pessoal do casal que é separado injustamente e que, no final, corre um sério risco de ser separado para sempre, acaba resumindo, como tantas outras histórias particulares, a essência de Intolerance. The Boy é um rapaz que tem a vida mudada por causa da avareza dos ricos e, por sua própria responsabilidade, em um segundo momento, acaba fazendo escolhas erradas e caindo no crime. Mas como tantas outras histórias clássicas de redenção, ele encontra o amor junto de The Dear One e acaba buscando o caminho correto.

Só que, claro, nada é tão fácil assim. O chefe do bando de criminosos, chamado de The Musketeer (Walter Long) não aceita ser “deixado” por um de seus subordinados e acaba traindo o ex-pupilo – inclusive se interessando por roubar a mulher dele. Há novamente violência e traição em cena – ou intolerância, segundo a ótica de Griffith. Mas esta história, que acaba roubando boa parte da reta final da produção, deixa um tom de otimismo e esperança no ar. É a única em que o ódio, a intolerância e a injustiça não conseguiram predominar. Ufa, um verdadeiro alívio para um filme que é bastante ousado na crítica ácida e na reflexão que ele provoca. Brilhante e indispensável. Não poderia haver melhor estreia para esta nova seção no blog.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sei que o texto foi longo, além da média do blog, mas vocês hão de me perdoar.😉 Mesmo escrevendo muito, acho que nunca eu poderia falar tudo que Intolerance merece. É um filme gigante, indispensável para quem gosta de cinema. Não por acaso ele já mereceu tantos textos, teses, escritos e reflexões. Sem dúvida é digno de tudo isso.

Esta nova seção do blog tem como premissa voltar no tempo do cinema mundial, buscando filmes que são referência em todas as épocas. A ideia é, a cada ano, selecionar filmes que estão fazendo “aniversário”. Ou seja, agora em 2016, assistir a filmes de 1916, 1926, 1936, 1946 e assim por diante. Como vou fazer a seleção inicial? Bem, tenho que partir de algum ponto, e escolhi como referência “mestra” desta seleção o livro “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”, editado por Steven Jay Schneider. Ali estão alguns dos maiores filmes de todos os tempos, em um resultado que levou em conta as listas mais conhecidas de “melhores filmes” e mais a opinião de críticos de cinema.

Então a partir de agora, com esta seção, vou voltar sempre no tempo, seguindo a lista de filmes que estão fazendo aniversário e que estão listados em “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”. Algumas destas produções são novas para mim, como este Intolerance, mas outras serão revistas, assistidas mais uma vez – e com bastante tempo de distância desde a primeira vez que as vi. Vou seguir a lista dos filmes indicados pelo livro, mas também aceito sugestões de vocês, caros leitores. A cada década abordada por esta série de críticas, vou comentar se assistirei a mais de um filme de um determinado ano e, depois de comentar todos da lista (se ela existir, já que há anos com apenas um filme sugerido pelo livro), vocês poderão indicar também filmes interessantes do respectivo ano.

Dito isso, quero comentar que o único filme de 1916 citado pelo livro de Schneider e que eu pretendo assistir é realmente este Intolerance. Se houver algum outro clássico “inevitável” daquele ano que você quiser recomendar, por favor, é só comentar.

Da parte técnica do filme, achei realmente impressionante a visão diferenciada de D.W. Griffith. O diretor sabia muito bem o que queria em cada cena, e soube narrar muito bem essa história em um longa marcante para a época – e para todas as épocas, me arrisco a dizer. Gostei tanto das cenas em que ele privilegia os cenários e o grande trabalho com diversos figurantes, até aquelas em que ele dá closes bem precisos e dramáticos em personagens importantes para a história – em especial nas mulheres protagonistas e em personagens como The Boy.

Além da direção precisa e cirúrgica de Griffith, quero destacar a direção de fotografia de G.W. Bitzer, já comentada anteriormente; a edição bem trabalhosa de Griffith, James Smith e Rose Smith; o design de produção de Griffith; a direção de arte de Walter L. Hall; e os figurinos de Griffith e Clare West. Não era fácil, sem dúvida, ter todo este trabalho naquela época – prova disso é o envolvimento de Griffith em praticamente todos os processos do filme.

Interessante, analisando todos os nomes envolvidos na produção – praticamente todos eles sem crédito no filme original -, observar que nada menos que 18 diretores trabalharam como “diretores de segunda unidade” ou como assistentes de diretor de Griffith. Ou seja, o filme foi uma grande escola para muita gente.

Fez parte deste grupo de assistentes de direção de Griffith nomes como Tod Browning, que teve 62 filmes no currículo e ganhou dois prêmios por sua carreira; Jack Conway, diretor com 113 filmes no currículo e dois prêmios por Viva Villa!; Allan Dwan, com impressionantes 406 filmes no currículo como diretor e dois prêmios pela carreira; Victor Fleming, diretor com 50 filmes no currículo e vencedor do Oscar de Melhor Diretor por Gone with the Wind em 1940; e W.S. Van Dyke, com 91 títulos no currículo de diretor e indicado duas vezes ao Oscar por The Thin Man e San Francisco. Impressionante.

Além da trilha sonora, que veio posteriormente, vale citar os nomes envolvidos com o departamento de música original. Trabalharam como arranjadores musicais Griffith, Joseph Carl Breil e, para o lançamento no Reino Unido em 1917, A.J. Beard. Depois, na versão do filme de 1918 que chegou aos cinemas, trabalhou como arranjador musical também Louis F. Gottschalk. Finalmente, na versão do filme de 1989, atuaram como regentes da trilha sonora de Carl Davis os músicos Colin Matthews e David Matthews.

Intolerance estreou no dia 5 de agosto de 1916 em Riverside, na Califórnia. Em setembro o filme passou a ser exibido no circuito comercial dos Estados Unidos. Apenas dois anos depois, em 1918, ele estreou na Dinamarca e, no ano seguinte, em 1919, no Japão, na França e na Suécia. Nos anos seguintes, o filme chegaria aos cinemas de mais cinco países, sendo o último deles a Alemanha, em 1924. A produção participou de festivais recentemente: em 2007 no Festival de Cinema de Veneza e, em 2010, Festival de Cinema Mudo da Grécia.

No total, Intolerance foi rodado em cinco locações diferentes: em Baldwin Hills, em Los Angeles; em dois locais diferentes do Fine Arts Studio, em Hollywood (onde foi construído o cenário da Babilônia); no Silver Lake, em Los Angeles (outra parte do cenário da Babilônia); e em Saint-Mihiel, em Meuse, na França (a sequência da Guerra Mundial).

As companhias responsáveis por esta produção são duas empresas que não sobreviveram com o passar do tempo: a Triangle Film Corporation e a Wark Producing. De acordo com o site IMDb, a Triangle foi responsável por 287 filmes feitos entre os anos de 1916 e 1922, e a Wark Producing tem apenas Intolerance no currículo.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção.😉 Durante as filmagens das sequências de batalha, alguns figurantes realmente “vestiram a camisa”, ao ponto de vários deles terem provocados ferimentos em seus colegas de trabalho. No final do dia de filmagens, foram contabilizadas 60 lesões que tiveram que ser tratadas na barraca de primeiros socorros da produção.

A inspiração para este filme surgiu da surpresa sentida por Griffith depois que o seu filme anterior, o clássico The Birth of a Nation, de 1915, provocou fortes protestos. Para responder a esta polêmica, o diretor quis fazer um filme sobre a intolerância a partir do ponto de vista das pessoas.

A sequência da orgia na Babilônia teria custado, sozinha, US$ 200 mil para ser rodada. Este valor é quase o dobro do custo total do filme The Birth of a Nation.

No final dos anos 1910 Intolerance foi um grande sucesso na então União Soviética. Mas Griffith nunca viu a cor deste dinheiro porque o filme foi distribuído sem o seu consentimento e através de cópias piratas – para vocês verem que o problema da pirataria é beeeeeem antigo. Curioso, não?

Segundo a terceira parte da série de documentários American Masters: D.W. Griffith, de Kevin Brownlow, Intolerance conseguiu um resultado nas bilheterias que fez o filme se pagar. O que a produção não conseguiu foi pagar os custos das exibições luxuosas que Griffith pediu, naquela época, e que incluíam uma decoração especial nos cinemas e a presença de orquestras ao vivo.

Por outro lado, existe outra versão que diz que Griffith gastou pouco mais de US$ 2 milhões para fazer Intolerance – uma quantia inconcebível para um filme na época – e que ele jamais conseguiu reaver toda esta quantia de dinheiro. Isso se explica pelo fato de que o público daquele época não estava habituado a ver a uma produção tão longa – imagino e consigo entender completamente. Mesmo quando o diretor cortou o filme e o dividiu em duas partes, lançando ele como “The Fall of Babylon” e “The Mother and the Law”, ele não conseguiu fazer dinheiro o suficiente para pagar todo o investimento inicial.

A fundação de Jenkins foi criada para o filme após a criação da fundação de John D. Rockefeller, e a sequência do massacre dos trabalhadores que aparece no início de Intolerance foi rodado após o massacre de Ludlow de 1914 no qual o próprio Rockfeller estava envolvido. Interessante.

Depois das filmagens de Intolerance terminarem, o Departamento dos Bombeiros de Los Angeles considerou o cenário construído para as cenas da Babilônia como um potencial risco para incêndios e ordenou que ele fosse demolido. Mas Griffith descobriu que não tinha sobrado dinheiro para pagar pela demolição, e por isso o local ficou abandonado e em ruínas por quase quatro anos, até que finalmente foi derrubado em 1919 – neste período ele tinha sido degradado naturalmente o suficiente para ter o restante da demolição feito a baixo custo. Eita fase!

O título e algumas linhas do poema “Out of the Cradle Endlessly Rocking” de Walt Whitman foram usados nos textos que aparecem no filme. Um outro intertítulo do filme cita trechos de The Ballad of Reading Gaol, de Oscar Wilde.

Em 2007 o The American Film Institute classificou Intolerance como o 49º Grande Filme de Todos os Tempos.

Este filme é anterior ao surgimento do Oscar e de vários outros prêmios de cinema. Por isso ele tem apenas um prêmio no currículo, dado em 1989: Intolerance passou, então, a figurar no National Film Registry do National Film Preservation Board dos Estados Unidos.

Esta produção tem alguns atores que dominam a cena – além daquelas centenas de figurantes que chamam a atenção pela quantidade e pela ousadia de Griffith. Além dos nomes de Mae Marsh (divina!) e de Robert Harron (muito bem no papel) já destacados, vale citar os trabalhos de Lillian Gish, como The Woman Who Rocks the Cradle, personagem fundamental do trecho da Babilônia, e que também interpreta a Eternal Mother; F.A. Turner como o pai de The Dear One; Sam De Grasse como Arthur Jenkins; Vera Lewis como Mary Jenkins; Howard Gaye como Jesus Cristo e como  Cardial de Lorraine; Margery Wilson como Brown Eyes; Eugene Pallette como Prosper Latour; Allan Sears como o Mercenário; Frank Bennett como Charles IX; Maxfield Stanley como Henri III; Josephine Crowell como Catarina de Médici; Alfred Paget como o Príncipe Belshazzar; Constance Talmdge como Marguerite de Navarre e como The Mountain Girl; Carl Stockdale como King Nabonidus; Tully Marshall como High Priest of Bel e um amigo do The Musketeer; e Seena Owen como The Princess Beloved.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso ele entra naquela lista de filmes de países que foram votados por vocês, caros leitores.

O diretor D.W. Griffith, ou David Llewelyn Wark Griffith, nasceu na rural LaGrange, no Estado do Kentucky. Filho de Jacob Griffith, conhecido como Roaring Jake, um ex-coronel do Exército Confederado e herói da Guerra Civil americana. David Griffith cresceu ouvindo as histórias de guerra românticas de seu pai, além de apreciar a literatura melodramática do século XIX. Em 1897 Griffith partiu para tentar a carreira como ator e escritor de teatro, mas como não conseguiu muito sucesso, ele acabou, inicialmente de forma relutante, trabalhando como ator em uma produção de Edwin S. Porter para a Edison Company.

Na sequência, Griffith acabou trabalhando na cambaleante American Mutoscope & Biograph Company, empresa para a qual ele dirigiu cerca de 450 curtas-metragens, experimentando e aperfeiçoando técnicas que ele utilizaria, em 1915, para fazer o longa The Birth of a Nation. Nos anos seguintes, após ter lançado este seu clássico, Griffith nunca mais teve o mesmo sucesso. Isso fez com que, em 1931, após fracassos crescentes nas bilheterias, o diretor fosse obrigado a se aposentar.

Apesar de ser muito elogiado por sua técnica, Griffith também sempre foi muito criticado pelo seu racismo flagrante. Ele foi casado duas vezes, com Linda Arvidson entre 1906 e 1936, e com Evelyn Baldwin entre 1936 e 1947. Griffith morreu em 1948, em Los Angeles, aos 73 anos de idade.

No total, Griffith tem 520 filmes no currículo como diretor – a maioria, disparada, de curtas. O último filme que ele dirigiu e que foi lançado nos cinemas foi The Struggle, de 1931. Ele recebeu quatro prêmios, dois antes de morrer e dois depois. Em vida ele foi reconhecido com um Prêmio Honorário no Oscar de 1936 e, dois anos depois, com um DGA Honorary Life Member Award da Directors Guild of America. Em 1960 o diretor recebeu um estrela na Calçada da Fama e, em 2009, um OFTA Film Hall of Fame do Online Film & Television Association.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 31 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,1.

Vale citar o trecho inicial do texto de R. Barton Palmer sobre Intolerance que consta no livro “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”: “Talvez em parte como resposta àqueles que criticaram a política racial de O Nascimento de Uma Nação, D.W. Griffith mostrou-se igualmente preocupado em se posicionar contra a censura no cinema. Esse assunto foi abordado mais diretamente no panfleto publicado na época da exibição de Intolerância, chamado Ascensão e queda da liberdade de expressão na América. A intenção de Griffith com este filme, finalizado nas semanas que se seguiram ao lançamento de sua produção épica anterior, é sobrepor quatro histórias de diferentes períodos que ilustrassem ‘as lutas do amor através dos tempos’.(…)”. Recomendo, aliás, o texto inteiro, assim como o livro.😉

Com isso, estreio essa nova seção no blog. Que bom fazer isso ainda em 2016, antes do Crítica (non)Sense da 7Arte completar 10 anos de caminhada. Espero que vocês gostem da nova seção e que possam comentar e sugerir novos filmes. Aliás, comento que a enquete aí do lado, sobre qual década vocês preferem para uma série de críticas, tem tudo a ver com esta nova seção. Estão listadas ali as décadas com uma variedade maior de filmes que vou assistir. Abraços e até a próxima!😉

Este não é um filme difícil de ser encontrado. Mas, caso você tiver alguma dificuldade, fica a dica deste link em que Intolerance está disponível. Como o filme foi considerado de “domínio público”, ele é divulgado livremente. Bacana que o mesmo site tem outros clássicos listados e acessíveis. Fica a dica.

CONCLUSÃO: Para entender bem qualquer filme antigo, ainda mais um lançado em 1916, é preciso nos transportarmos no tempo. Nos imaginarmos naquela época, ainda nos princípios do cinema. Ao fazer este exercício de “viagem no tempo e no espaço” fica mais fácil compreender a engenhosidade, a criatividade e a maestria do diretor D.W. Griffith com este Intolerance. Muito do cinema que seria feito depois – e até hoje – bebe de muitos conceitos, da narrativa e da técnica apresentada por Griffith neste filme. Uma aula de cinema, ainda que seja duro, para um espectador atual, ver um filme tão longo de cinema mudo. Mas eu garanto, vale o esforço. Sem dúvida é um dos grandes filmes de todos os tempos, com justiça para esta classificação, e uma aula de cinema para quem gosta do tema. Assista, com calma, sem pressa, porque há muito para ser analisado e é uma produção longa.

  1. 12 de junho de 2016 às 20:08

    Republicou isso em O LADO ESCURO DA LUA.

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