Modern Times – Os Tempos Modernos


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Um dos maiores clássicos de todos os tempos. Não é exagero e nem sai de moda falar isso de Modern Times, um dos grandes filmes do gigante Charles Chaplin. Parece incrível, mas Modern Times é um filme muito atual mesmo 80 anos depois dele ter sido lançado nos cinemas. Sim, estamos falando de oito décadas de distância entre esta produção ter ficado pronta e os dias de hoje. Sem dúvida Chaplin foi um dos visionários do cinema – e digo isso sem essa palavra estar deslocada. Modern Times é um dos grandes exemplos disso.

A HISTÓRIA: Começa com um relógio e o tempo avançando rápido com o ponteiro dos segundos. Na apresentação do filme, ele se apresenta como “uma história sobre a indústria, a iniciativa privada e a humanidade em busca de felicidade”. Corta. Diversas ovelhas caminham juntas na mesma direção. Em seguida, vários homens fazem o mesmo e vão para uma indústria. Lá, eles batem o ponto e seguem para os seus postos. Um capataz controla o ritmo dos trabalhadores. Em sua sala, o presidente da empresa se cansa do puzzle e do jornal e confere o ritmo dos trabalhadores na fábrica. Ele manda o ritmo aumentar na seção cinco, onde vários trabalhadores atuam na linha de montagem, incluindo o protagonista vivido por Charles Chaplin.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Modern Times): Que grande deleite ver um gênio em cena. Charles Chaplin é um gigante. E isso fica evidente em cada detalhe deste filme. Primeiro ele é genial pela trilha sonora, marcante e fundamental na produção, e que é de autoria dele. Depois, ele tem uma visão precisa e detalhada de cada cena, de cada ideia que ele plasma através de imagens. Do bando de ovelhas que dão lugar para o grupo de funcionários, todos muito obedientes ao trabalho, até todas as sequências que virão depois.

Artista completo, ele não é apenas um grande diretor e compositor com visão bem clara do que ele quer passar para o espectador. Ele também é um ator genial. Modern Times é mais um exemplo de um grande trabalho dele na atuação. Simplesmente genial como o personagem do Trabalhador de Fábrica (Charles Chaplin) trabalha como uma peça da engrenagem em movimentos repetitivos que, após terminar o turno e ser substituído ou na folga para o almoço, segue por um bom tempo ainda fazendo o mesmo gesto de apertar parafusos.

Afinal, quantos trabalhadores não vivem o seu trabalho muito além das horas que eles, de fato, dedicam dentro das suas empresas? E isso não serve apenas para fábricas e para funcionários que apertam parafusos. Os tempos modernos sobre os quais Chaplin fala no início deste filme e de forma muito visionária seguem com o mesmo princípio até hoje, quando cada vez mais as pessoas tem menos horas livres e de descanso e são cobradas quase que em tempo integral para terem dedicação ao trabalho e à sua profissão.

Modern Times trata sobre isso também quando o presidente da empresa recebe um vendedor que quer convencê-lo a adquirir uma máquina que vai cortar o horário do almoço dos funcionários. Este é a primeira grande crítica corajosa desta produção feita por Chaplin. Ele declara, desta forma, de maneira muito clara, que os presidentes e donos das empresas querem tirar o máximo do seus funcionários, sugarem o máximo do sangue deles, ao ponto de pensarem em adquirir uma máquina que fará com que os empregados não tenham nem o horário do almoço.

Curioso como Modern Times se torna um filme especialmente moderno atualmente, quando a Europa, especialmente a França, questiona por meio de greves e manifestações as discussões sobre a flexibilização do trabalho. Algumas vezes as greves de trabalhadores são vistas como “resistências burras” ao progresso. Mas a verdade é que é preciso ter cuidado com qualquer discussão sobre direitos trabalhistas e sobre busca de eficiência.

O ideal é buscarmos o meio termo entre o aumento da produtividade e as limitações humanas de dedicação ao trabalho. Afinal, a crise do Trabalhador da Fábrica vivido por Chaplin demonstra como o esgotamento físico e mental pode cobrar um preço caro do indivíduo e, de forma conjunta, da sociedade. Isso não é bom para ninguém. Agora, é interessante perceber que apenas a parte inicial de Modern Times trata da rotina de uma fábrica. Mas está neste trecho inicial as cenas mais conhecidas do filme. Além da já citada sequência da máquina que alimenta o funcionário para impedir que ele tenha horário de almoço, é um grande clássico do cinema a sequência em que Chaplin é engolido pela máquinas e passa a fazer parte da engrenagem da fábrica.

A mensagem que o diretor, roteirista, ator e compositor da trilha sonora quer passar com esta sequência é a desumanização da sociedade. As pessoas não são apenas parte do rebanho que serve para dar lucro para as empresas, mas também uma peça a mais na engrenagem do lucro. Depois de sofrer uma crise de esgotamento que acaba sendo uma espécie de “desforra” do funcionário contra o sistema, o Trabalhador da Fábrica é internado. Após receber alta, ele acaba sendo confundido com o líder de um movimento grevista e é preso.

Neste sentido o filme avança em sua crítica social. Nem todos os “carneirinhos” seguem mansos e Modern Times mostra a resistência dos grevistas aos abusos dos empresários. Mesmo não participando do movimento, o Trabalhador da Fábrica acaba pagando o pato e é preso. Antes ela era um excluído da sociedade por estar desempregado, mas ao ser preso ele se torna ainda mais excluído. Junto com Chaplin, estrela este filme uma jovem pobre que vivia de roubar comida no porto para não passar fome e que perde o pai em uma confusão envolvendo grevistas logo após o protagonista ser preso.

Essa Jovem (a ótima Paulette Goddard) já era uma excluída da sociedade, mas a sua situação se agrava com a morte do pai. Até então ela tinha um teto aonde dormir, mas quando o pai das meninas morre, ela deve ficar aos cuidados da assistência social. Mas a Jovem consegue escapar e começa a sua própria cruzada para sobreviver. Na prisão, o Trabalhador da Fábrica acaba frustrando uma fuga e cai nas graças da administração do presídio. Quando ele está para ser solto, Chaplin dá outra estocada de crítica social quando o protagonista pede para continuar preso, afinal, ali ele é “tão feliz”.

No fundo, o protagonista de Modern Times sabe que uma situação mais dura ainda do que a que ele tem na prisão o espera do lado de fora. Quer crítica mais pesada que essa? A situação da sociedade é tão complicada e injusta que um homem correto prefere ficar preso do que ser livre e passar fome, frio e estar em risco ao ser livre. Crítica mordaz sobre os anos 1930 que lutavam para dar uma resposta para a grande crise provocada pela quebra da bolsa de Nova York de 1929. Vale lembrar que aquela década terminaria com o início da Segunda Guerra Mundial, distante poucos anos deste filme.

Mas voltando à Modern Times. Ao sair da prisão, nosso protagonista tem como “trunfo” uma carta de recomendação do administrador do presídio. Ele primeiro busca emprego em um estaleiro, mas acaba provocando ali uma grande confusão e logo vai embora. Na sequência, ele se encontra pela primeira vez com a Jovem, que é denunciada por roubar um pão. Ele, louco para voltar para a cadeia, assume a culpa no lugar dela. O plano não dá muito certo, porque a mulher que a viu roubando insiste para que ela pague pelo crime dela. Mas o Trabalhador da Fábrica não se dá por rogado e acaba conseguindo ser preso novamente após se recusar a pagar contas em um restaurante e em uma banca de revistas.

Enquanto ele não se importa em ser livre – afinal, já viveu momentos piores do que a prisão na fábrica em que ele trabalhava -, a Jovem ama a liberdade. Na primeira chance que tem para fugir, ela escapa. E fascinada por aquele homem que a defendeu gratuitamente, gentileza com a qual ela não está acostumada, a Jovem pede que ele fuja com ela. A partir daí o filme entra em outro patamar, naquela busca pela felicidade dos dois protagonistas comentadas lá no início.

E de que forma eles buscam esta felicidade? A argumentação de Chaplin é muito simples. Felicidade significa ter um trabalho do qual se goste e no qual a pessoa exerça os seus talentos – isso é vivido pelos dois quando eles tem espaço de demonstrar os dotes artísticos na casa de shows e restaurante no qual a Jovem é contratada primeiro – e ter um teto para morar e comida na mesa. Nada muito complicado, mas algo que infelizmente não é todo mundo que tem chance de conquistar.

Claro que há diversos momentos engraçados e graciosos no filme, mas também vi algumas sequências de aflição pura e simples, como naquela sequência em que o pobre Trabalhador da Fábrica sofre com aquela maldita máquina de comida. Ou quando, de forma muito corajosa, Chaplin encena os efeitos da cocaína que o Trabalhador da Fábrica coloca na própria comida e cheira de forma acidental no presídio.

Alguns podem achar graça nestas cenas, mas elas me causaram aflição. Agora, algo que Chaplin sabia fazer muito bem era crítica social e intercalar ela e os momentos de aflição com muita graciosidade. Exemplo disto são as sequências do Trabalhador da Fábrica patinando na loja de departamento e quando os dois se apresentam no bar e restaurante. Momentos incríveis e geniais.

Enfim, este filme é uma coleção de momentos incríveis e de um grande equilíbrio narrativo. Afinal, e esta parece ser uma mensagem forte neste filme, por mais que a vida seja dura, injusta e muitas vezes cheia de desgraças, ela também é graciosa, divertida e cheia de esperança. Um grande, grande acerto desta produção no final é este tom otimista que Chaplin nos deixa. A Jovem pergunta porque insistir e continuar, já que eles tinham acabado de ter mais uma vez os seus sonhos frustrados, mas o Trabalhador da Fábrica diz que eles devem sempre continuar e que eles vão conseguir. E para finalizar, ele sugere que eles recomecem com um sorriso no rosto. Quer lição maior? Magnífico. Genial. Uma obra-prima indispensável para qualquer amante do cinema.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pena que a nota 10 seja a máxima. Este filme merecia mais do que uma simples nota 10. Merece, aliás. Eu não lembro se alguma vez eu tinha assistido a Modern Times na íntegra ou conferido apenas alguns trechos da produção. Certamente as cenas mais conhecidas eu já tinha assistido, mas francamente não lembro de ter visto ao filme inteiro. Que falha! Que grande filme! Sem dúvida um dos melhores que já assisti até hoje, sem exagero. É uma produção brilhante por tudo que ela contempla e, especialmente, pela constante busca de equilíbrio narrativo. Afinal, um filme não pode fazer apenas rir, ou ser apenas tragédia e drama. Ele deve ter um pouco de tudo, assim como a nossa própria vida.

Algo fundamental de Modern Times e que faz este filme ser tão bom é o olhar crítico de Charles Chaplin para a realidade. Esta produção não alivia na crítica social e mostra diversos problemas que estavam presentes nos Estados Unidos dos anos 1930 e que seguem válidos até hoje, como a falta de oportunidades para todos, as desigualdades sociais, as drogas, a criminalidade e as injustiças que cobram um preço alto de quem apenas quer ser feliz. Mesmo sendo tão crítico, este filme não é pesado. O que também mostra muita sabedoria de Chaplin. Afinal, com a ajuda do humor é muito mais fácil fazer as pessoas pensarem sobre as suas próprias realidades.

Outra característica fascinante de Modern Times é o trabalho genial dos atores. Todos estão muito bem no filme, mas o destaque vai, claro, para Chaplin e para a ótima Paulette Goddard. Chaplin é um gênio. Ele construiu com maestria o seu personagem The Tramp (O Vagabundo) que, aqui, ganha o viés de Trabalhador de Fábrica.

Valente, honrado, honesto, ele busca sempre defender os mais fracos e não segue, exatamente, o padrão de comportamento de sua época. Com sorte, ele consegue sempre estar no “lugar certo e na hora certa”, ainda que isso não o impeça de se dar mal em diversos momentos – o grande “pulo do gato” do personagem porque, ao se tornar um “herói falho”, ele é bastante humano e com fácil identificação com o próprio público. Além de ser ótimo no gestual e nos detalhes do personagem, Chaplin ganha o espectador nas cenas sensíveis ao demonstrar muita sensibilidade no olhar e nas expressões faciais. Incrível.

Importante observar que Modern Times também é uma peça de resistência por si mesmo. Vale lembrar que em 1936 já tínhamos o cinema falado. Ainda assim, este filme segue o que fez o sucesso de Chaplin, ou seja, o cinema mudo. Apenas alguns trechos do filme apresentam falas. E vocês observaram em que momentos isso acontece? Quem tem voz apenas são o presidente da fábrica e as máquinas – como os rádios. Trabalhadores, moradores de rua, presos e demais personagens não tem voz. Mais uma crítica poderosa de Chaplin e uma forma de resistência do diretor.

No início dos créditos do filme, apenas Chaplin e Paulette Goddard tem os seus trabalhos creditados. Mas no site IMDb é possível conferir os outros créditos da produção. Vale citar alguns dos coadjuvantes de Modern Times. Para começar, o Proprietário do Café em que os dois protagonistas vão trabalhar é vivido por Henry Bergman; o colega da fábrica de Chaplin no início do filme, chamado Big Bill, é interpretado por Tiny Sandford; o Mecânico, por Chester Conklin; o pai da Jovem, por Stanley Blystone (que me impressionou por sua forte expressão); o presidente da Electro Steel Corp. por Al Ernest Garcia; e o chefe da prisão, por Richard Alexander.

Charles Chaplin criou uma marca forte e impressionante. E ele era um “faz-tudo” de seus filmes. Literalmente um cinema de autor. Além de escrever o roteiro e de dirigir Modern Times e seus outros filmes, Chaplin era o protagonista e o compositor da trilha sonora – sempre marcante e um elemento narrativo importantíssimo para o cinema mudo. No caso de Modern Times, ele ainda atuou como produtor do filme e como editor junto com Willard Nico. A direção dele é impecável. Chaplin tem em mente como precisão cada cena e sequência. Impecável e uma aula de cinema.

Da parte técnica do filme, além dos aspectos já citados, vale comentar o bom trabalho de Ira H. Morgan e de Roland Totheroh na direção de fotografia; o design de produção de Charles D. Hall; a direção de arte de J. Russell Spencer; o trabalho destes últimos dois também na decoração de set; e a maquiagem de Elizabeth Arden.

Modern Times fez a sua première nos cinemas de Nova York no dia 5 de fevereiro de 1936. No dia 11 daquele mesmo mês o filme entrou no circuito comercial do Reino Unido e, no dia seguinte, no circuito comercial de Los Angeles. No restante dos cinemas dos Estados Unidos o filme estreou no dia 25 de fevereiro de 1936. Depois, ele foi relançado nos cinemas em alguns países em 1972. No Brasil ele não chegou a ser lançado nos cinemas. Uma pena.

Esta produção não custou pouco para os padrões da época. Modern Times teria custado US$ 1,5 milhão. Mas foi um sucesso nos cinemas. Faturou, apenas nos Estados Unidos, cerca de US$ 3,92 milhões.

Para quem gosta de saber sobre o local em que os filmes foram rodados, Modern Times teve cenas rodadas no Porto de Los Angeles e no Porto de San Pedro (as cenas no porto que aparecem no filme), em Hollywood Boulevard & Vine Street (cenas da loja de departamentos), na Massachusetts Avenue com a Sawtelle Boulevard (a rua em que os protagonistas escapam após o acidente com a viatura), na Riverton Avenue & Bluffside Drive (sequência da casa dos sonhos) e em Sierra Hwy. & Penman Road (sequência final na estrada). Ou seja, todo filme foi rodado em Los Angeles, Long Beach e Santa Clarita, na Califórnia.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Sem contar algumas paródias e alguns filmes inovadores, Modern Times foi o último grande filme de Hollywood que utilizou os princípios do cinema mudo, como cartões com textos para representar os diálogos dos personagens. Sendo assim, o último cartão de cinema mudo realmente significativo termina com uma fala de The Tramp que diz “Buck up – never say die! We’ll get along”.

Pela primeira vez Chaplin permite que The Tramp fale diretamente para a câmera em uma das sequências no bar restaurante. Mas a condição para isso é que ele falasse algo universal. A canção que ele canta não tem letra, mas entendemos a mensagem através de seus gestos.

Uma das inspirações do filme foi uma conversa entre Chaplin e Mohandas K. Gandhi. Neste diálogo, Gandhi se queixou sobre a forma com que as máquinas estavam tomando conta de tudo, mas Chaplin ponderou que elas seriam utilizadas apenas para o bem na maioria. Depois desta conversa, contudo, Chaplin percebeu que as máquinas estavam sendo utilizadas apenas para aumentar os lucros dos empresários, e por isso ele fez aquela reflexão no início do filme.

O filme original terminava com o personagem de Chaplin internado após um colapso nervoso e com a Jovem o visitando após ter se tornado freira. Estas cenas foram rodadas, mas Chaplin mudou de ideia e resolveu terminar o filme com uma mensagem mais esperançosa – ainda bem! Foi uma boa escolha do diretor. Ainda assim, as fotografias deste final inicial e que acabou ficando fora do filme acabaram sendo incluídas na versão em DVD da produção de 2003.

Uma exibição de Modern Times encerrou o Festival de Cinema de Cannes de 2003. Uma parte emocionante da apresentação é que eles deixaram uma cadeira vazia e que foi iluminada com um holofote para homenagear Chaplin.

Este era para ser o primeiro filme falado de Chaplin, mas o diretor resolveu, como eu comentei anteriormente, utilizar a voz em apenas algumas cenas, de forma muito pontual, e apenas para demonstrar a desumanização da sociedade – as vozes são sempre escutadas através de dispositivos mecânicos.

Modern Times foi um dos filmes que, por causa de suas críticas sociais, foi apontado como prova pelo Comitê de Atividades Antiamericanas de que Chaplin seria comunista – algo que ele sempre negou.

O título original deste filme era The Masses.

As filmagens de Modern Times começaram em outubro de 1934 e terminaram em agosto de 1935.

Segundo a publicidade feita para o filme, 400 pessoas foram contratadas para a sequência no café restaurante. Existem fotografias em que Chaplin aparece sobre uma torre dirigindo outra centena de coadjuvantes naquele cena inicial do filme em que uma multidão se dirige para as fábricas da cidade. Esses aspectos são interessantes porque mostram o envolvimento de Chaplin em toda a produção – a prática na época era que estas cenas com muito figurantes fossem dirigidas por um assistente do diretor.

Em 2007 o American Film Institute considerou Modern Times como o 78º grande filme de todos os tempos.

O diretor musical da United Artists, Alfred Newman, foi o condutor da orquestra para a gravação da trilha sonora de Modern Times. Mas como Chaplin tinha ficado insatisfeito com o resultado da trilha de City Lights, desta vez ele resolveu acompanhar de perto a gravação, corrigindo pontos em que ele discordava do maestro e fazendo diversas correções. Após uma noite tensa em que Chaplin chamou Newman de preguiçoso, o maestro abandonou o trabalho e indicou o seu assistente Eddie Powell para seguir com a condução da orquestra. Na reta final do trabalho com a produção, Chaplin trabalhava de 16 a 18 horas por dia na finalização do filme.

A máquina que Chaplin atravessa era feita de borracha e de madeira mas, ainda assim, era desconfortável o suficiente para que o ator e diretor quisesse fazer a cena uma única vez. Tanto é que a sequência em que ele volta na imagem é, literalmente, o filme sendo rebobinado.

O presidente da fábrica é inspirado em Henry Ford, figura que Chaplin tinha conhecido pessoalmente e que teve o seu processo fabril como um dos fatos inspiradores desta produção.

Algumas vezes não temos noção sobre a dificuldade de rodar certas cenas. A sequência da máquina de comida levou sete dias para ser filmada.

Modern Times recebeu quatro prêmios e foi indicado a um quinto. Dos prêmios que recebeu, apenas um foi entregue no mesmo ano em que o filme foi lançado. Em 1936 o National Board of Review colocou a produção no Top Ten Films daquele ano. Modern Times também recebeu o Prêmio Jussi como Melhor Diretor Estrangeiro para Charles Chaplin pelo conjunto da obra em 1974; o National Film Registry do National Film Preservation Board, em 1989; e o OFTA Film Hall of Fame no Online Film & Television Association em 2016.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,6 para esta produção, uma avaliação excelente se levarmos em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 53 críticas positivas e nenhuma negativa para esta produção, em um raro caso de filme com 100% de aprovação. A nota média dos críticos foi 9. Caso raríssimo, pois, mas muito, muito merecido. Para mim, Modern Times é um exemplo de filme excepcional e que não foi muito premiado em sua época. Sinal de que nem sempre os melhores filmes recebem prêmios ou o reconhecimento devido.

Como vocês sabem, quando eu crie a seção “Um Olhar para Trás” aqui no blog, a base para a escolha dos filmes antigos e que vão ser focados nesta seção é o livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer. Vale citar o começo do texto de David Robinson sobre Modern Times que está no livro: “Tempos Modernos foi o último filme em que Charles Chaplin fez o papel de Carlitos, personagem que ele criara em 1914 e que lhe trouxe fama e carinho universais. Nesse meio-tempo, o mundo havia mudado. Quando Carlitos nasceu, o século XIX ainda estava próximo. Em 1936, com o mundo ainda sob os efeitos da Depressão, ele confrontou as ansiedades que não diferem tanto daquelas do século XXI: pobreza, desemprego, greves e fura-greves, intolerância política, desigualdade econômica, a tirania das máquinas e os narcóticos”. O texto todo, assim como o livro, merecem ser conferidos.

Acho que vale também falar um pouquinho sobre Charles Chaplin. Nascido na no bairro londrino de Walworth no dia 16 de abril de 1899 como Charles Spencer Chaplin, ele faleceu aos 88 anos de idade na cidade de Vaud, na Suíça. Ele teve 88 trabalhos como ator, o mesmo número como roteirista, 72 filmes como diretor e 20 como compositor. O primeiro trabalho dele como diretor teria sido o curta Twenty Minutes of Love, de 1914, que também era estrelado por ele.

Naquele ano, aliás, ele teria dirigido na menos que 17 curtas, muitos deles sem que ele fosse oficialmente creditado como diretor. Naquele ano Chaplin lançou, como citado por Robinson, o personagem The Tramp (O Vagabundo ou, no Brasil e em outras partes, conhecido como Carlitos). O primeiro longa de Chaplin seria Chase Me Charlie, de 1918 – que, na verdade, era um compêndio de curtas lançados anteriormente. O primeiro longa para valer, concebido como tal, teria sido The Kid, de 1921, um grande clássico também do cinema mudo.

Chaplin era filho de um casal de cantores. Depois que os pais se separaram, a mãe dele teve um problema com a voz em uma apresentação e Charles Chaplin foi levado ao palco com cinco anos de idade para cantar uma música popular. Charles e seu meio-irmão Syd viveram boa parte da infância e adolescência entre casas de caridade e asilos enquanto a mãe deles tinha crises de insanidade. Charles Chaplin começou oficialmente a carreira como ator aos oito anos de idade em uma turnê da The Eight Lancashire Lads.

Com 18 anos ele se juntou ao grupo de Fred Karno em uma turnê pelos Estados Unidos. Em 1913 ele assinou com o Keystone Studio após o diretor de comédias Mack Sennett ter visto ele em turnê. A partir daí ele passou pelo Keystone, pelo Essanay, pelo Mutual e pelo First National Studios fazendo diversos filmes com Carlitos até que, em 1919 ele e Douglas Fairbanks, Mary Pickford e D.W. Griffith criaram a United Artists. Todo o restante é história.

No total, Charles Chaplin recebeu 19 prêmios em sua carreira, além de um Oscar Honorário em 1972 pela grande contribuição que ele deu para o cinema – ou seja, uma estatueta por sua carreira.

Modern Times é um filme produzido com 100% de recursos dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: As cenas na fábrica de Modern Times são as mais conhecidas do filme. E talvez por isso as pessoas que não assistiram a esta produção possam pensar que o filme fala apenas sobre o trabalho repetitivo de operários. Mas não. Modern Times é um dos grandes filmes de todos os tempos porque ele trata de trabalho mas também sobre a busca incessante da pessoas por boas oportunidades na vida, sobre justiça e sobre felicidade. Uma obra-prima, sem dúvida, e que tem muito mais do que a comédia que sempre esperamos de Charles Chaplin. Há momentos de risada franca nesta produção, mas há muitos momentos também de drama, aflição e crítica social. Simplesmente assista. E se já tiver visto ao filme alguma vez, reveja. Ele vale o seu tempo.

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