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Les Innocentes – The Innocents – Agnus Dei


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Cada um lida com o horror de uma maneira diferente. Há quem o encare como uma forma de superação e de aprendizado, após conseguir “lidar” com ele, e desta forma o horror passa a ser um ponto de partida para conquistar algo maior e melhor. Outros encaram o horror como um abismo contra o qual não há como escapar, não há saída do escuro, motivação ou alavanca que propicie a superação. Neste segundo caso, o horror pode ser um ponto final.

Les Innocentes nos conta uma história de horror que convida o espectador a conhecer de perto mais uma das chagas pouco comentadas e que foram deixadas pela Segunda Guerra Mundial. Além de apresentar uma história menos conhecida, o filme convida especialmente as mulheres a fazerem um exercício de empatia que é duro, mas necessário.

A HISTÓRIA: Começa dizendo que o filme está inspirado em eventos que realmente aconteceram. Som de sino batendo e de passos. Vemos um grupo de freiras caminhando em um convento. Elas rezam através de cantos. Gritos cortam o ar, e eles parecem afetar a uma das freiras. As cenas que vemos se passam na Polônia em dezembro de 1945. Aquela freira preocupada aproveita uma oportunidade para sair do convento.

Ela anda por cenários brancos de neve e chega até o vilarejo mais próximo, onde pede ajuda de alguns meninos para encontrar um médico – desde que ele não seja “polaco ou russo”. É assim que ela encontra a Mathilde Beaulieu (Lou de Laâge), uma médica francesa que acaba ajudando as freiras do convento em segredo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Les Innocentes): Primeiramente, quero pedir desculpas para vocês, meus bons leitores e leitoras, por ter demorado tanto para voltar a atualizar o blog. A verdade é que eu vi a Les Innocentes há pouco mais de uma semana, mas só agora eu consegui escrever sobre o filme. Me desculpem. Prometo me esforçar para tentar atualizar mais vezes este espaço precioso.

Bem, agora falando do filme. Les Innocentes começa muito bem. Com uma boa construção de imagens logo no início e uma bela fotografia que relembra filmes recentes protagonizados por mulheres em fase de descoberta e de superação. Mas estes elementos logo dão espaço para uma história mais centrada no roteiro, no drama pessoal das personagens e no desenvolvimento de algumas delas. Como outras produções centradas em um grupo de personagens, Les Innocentes acaba perdendo um pouco a força por tornar um pouco difícil a identificação dos espectadores com as personagens centrais da história.

Claro que um punhado de personagens acaba se desenvolvendo bem neste filme. São exemplo deste desenvolvimento “melhor acabado” as protagonistas – acredito que podemos considerá-las assim – Mathilde Beaulieu, médica francesa que ajuda as freiras grávidas em segredo; a freira Maria (Agata Buzek), que é como um braço direito da Madre Superiora; e a própria Madre Superiora (Agata Kulesza).

Outras freiras que aparecem bastante, algumas delas interpretadas inclusive por atrizes europeias já conhecidas, acabam sendo identificadas apenas com a ajuda das fotos da produção. É que o fato de todas usarem hábitos não ajuda a identificá-las bem. Além disso, poucas tem realmente um desenvolvimento de personagem que vai além do superficial.

Eu diria que, neste sentido, de desenvolvimento de personagem, as que tem um espaço melhor no filme são mesmo as protagonistas. Em segundo plano estão as freiras Teresa (Eliza Rycembel), que vai buscar ajuda para a amiga que está dando a luz; Zofia (Anna Próchniak), a amiga de Teresa que é a primeira a dar a luz no filme; Irena (Joanna Kulig), que acaba deixando o filho dela no convento para as freiras cuidarem e resolve seguir outro rumo na vida; Anna (Katarzyna Dabrowska), freira que acaba duvidando da própria fé e, após dar a luz, assume com alegria a nova função de ser mãe; e a freira Ludwika (Helena Sujecka) que, de tão traumatizada, não tinha percebido que estava grávida e não tinha se dado conta de ter dado a luz sentada na própria cama.

Este filme é essencialmente de mulheres. Mas alguns homens aparecem em cena – especialmente no cotidiano de Mathilde, cercada de homens no hospital militar. Um destes homens tem destaque na produção: o médico Samuel (Vincent Macaigne). Ele aparece, na verdade, para reforçar a leitura da personagem de Mathilde e para ajudar a contrastar a vida dela com a das freiras do convento.

Feitos estes comentários, vamos entrar na história propriamente dita. Les Innocentes agrega valor à leitura variada que nós temos dos efeitos da Segunda Guerra Mundial especialmente porque conta uma história pouco conhecida e sob uma ótica bem feminina. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A guerra tinha acabado, mas os efeitos dela ainda estavam bem presentes nos países que tinham vivido o horror do confronto na própria carne.

Neste contexto conhecemos duas realidades muito diferentes: a de mulheres enclausuradas que acabaram tendo as suas vidas invadidas e agredidas de forma covarde e sem possibilidade de defesa em contraste com a vida independente de uma médica que fez a escolha de dedicar a vida para ajudar as pessoas na Cruz Vermelha. Mathilde é solteira, tem uma profissão, sai com o homem que ela quer, fuma, tem origem familiar um tanto comunista e, basicamente, faz o que ela quer e acha correto. Em contrapartida as freiras que ela encontra em situação de vergonha e medo devem seguir ordens, hierarquia, terem obediência e dedicarem todo o seu tempo para adorar a Deus.

Inicialmente estas duas realidades femininas poderiam se chocar e se confrontar, mas não é isso que acontece. Pelo lado da Madre Superiora há uma resistência inicial com Mathilde não por seu perfil, mas porque ela está muito preocupada em guardar o segredo de suas freiras grávidas. E pelo lado de Mathilde, ela olha para aquela realidade tão diferente da dela com curiosidade, respeito, mas nunca com resistência. Ainda assim, para ela é um pouco difícil se colocar no lugar daquelas jovens mulheres que, em sua maioria, eram virgens antes de serem estupradas. Mas em certa noite ela passa por uma situação muito parecida e então consegue se colocar no lugar delas.

Neste sentido Les Innocentes é um filme muito interessante. Ele faz qualquer mulher, independente do estilo de vida que ela leve, se colocar no lugar de garotas inocentes, puras e que tiveram esta inocência e pureza roubadas de forma bruta. É ultrajante. Não tem como não ficar mexida e indignada com o que vemos em cena. A direção cuidadosa de Anne Fontaine nos leva pela mão e faz com que não seja difícil nos colocarmos no lugar daquelas vítimas – especialmente se o público for feminino.

Como disse lá no início, o que aconteceu com elas foi puro horror, mas cada um reage em relação a esse horror de forma diferente. Quase todas as freiras se questionaram “Por que Deus permitiu que isso acontecesse?”. Na verdade, esta é uma grande questão. Pessoalmente eu não acho que Deus quer ou permite que muitos absurdos e horrores aconteçam. Mas a grande questão é que ele nos deu o livre arbítrio, ou seja, a liberdade de decidir os nossos caminhos e os nossos atos. Ao fazer isso, ao nos dar a liberdade para escolher, ele nos dá a possibilidade de escolher o caminho do bem, da partilha e da doação, assim como nos permite escolher o caminho da maldade, do crime e do ultraje.

Deus nos permitiu escolher, mas jamais concorda com que escolhamos o caminho da maldade. Concordar é uma coisa, nos dar a liberdade para fazer é outra bem diferente. Muitas freiras questionam Deus e inclusive a própria fé, mas depois desta fase muitas acabam entendendo que Deus não teve nada a ver com aquilo. A partir deste momento, em que elas percebem que não devem agradecer ou culpar Deus pelo que soldados calhordas fizeram, elas passam a aceitar ou não a maternidade. Novamente é uma escolha individual de cada uma.

Para morrer basta estar vivo. E para acontecer coisas boas e ruins também. Esta é a verdade nua e crua e da qual não gostamos de ouvir falar muitas vezes. Nada justifica o que aqueles invasores covardes fizeram. Mas a partir do momento em que o “estrago” está feito, o que cada uma daquelas freiras poderiam fazer a respeito? Daí é uma questão muito individual, porque não foi dado para elas o poder da escolha. Há mulheres com vocação para ser mãe, mas nem todas nasceram com esta vocação. Por isso acho perfeitamente compreensível que algumas daquelas freiras se encontraram na maternidade enquanto outras não quiseram saber disso.

Achei o roteiro de Sabrina B. Karine e Alice Vidal, com diálogos de Pascal Bonitzer e Anne Fontaine baseados no conceito original de Philippe Maynial muito sensível. Ele dá o espaço adequado para o drama daquelas freiras se desenvolverem, assim como para a aproximação de Mathilde para aquela história – no fim das contas ela faz a vez dos espectadores que, como ela, devem “mergulhar” aos poucos naquela realidade do convento tão diferente ao que estamos acostumados. A forma com que Anne Fontaine e equipe trabalham funciona muito bem.

Da minha parte, eu apenas encurtaria um pouco a história de Mathilde e de Samuel. É a parte menos interessante da produção e que poderia ter sido ainda mais secundária. Eles tem uma química relativa e se a mensagem era mostrar a independência de Mathilde, não precisava tanto tempo de romance morno entre os dois. O filme perde um pouco de ritmo quando ele tenta descobrir o que Mathilde anda fazendo e tenta se aproximar. Algo que não ajuda na história principal.

Mas algo interessante do filme, e volto a tocar neste ponto, é a aproximação de realidades tão diferentes como o “mundo externo” e o “mundo interno” de um convento. No fim, desmistificamos tanto o papel das freiras quanto o papel da jovem independente. As primeiras são humanas, frágeis mas também fortes, com grande convicção mas também com momentos de dúvidas e questionamentos. E a mulher independente é capaz de se colocar no lugar do outro e também de ser sensível, de se aproximar e conhecer com respeito as realidades que ela não conhecia até há pouco tempo.

Também há o segundo ponto chocante do filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). O primeiro ponto chocante é o estupro coletivo das freiras e muitas delas terem ficado grávidas contra as suas vontade. Mas há um outro ponto chocante e que é revelado na parte final da produção e que, este sim, dependia de uma escolha de uma das mulheres enclausuradas. Eu já tinha ficado desconfiada com aquela história da Madre Superiora sempre sair sozinha e só ela dar uma “destinação” para os recém-nascidos. Por isso não foi exatamente uma grande surpresa quando fica claro que ela abandonava as crianças para, se tivessem sorte, fossem encontradas por alguém em meio à neve.

Agora, a troco de quê ela fazia isso? A Igreja é feita por pessoas e, consequentemente, é falha. Tem muitos méritos, virtudes, mas também apresenta, uma ou outra vez, falhas graves. O que Madre Superiora deveria fazer e com o que ela deveria se preocupar? Sem dúvida alguma, por ser cristã, ela deveria buscar preservar a vida sempre, sob qualquer circunstância. Mas com a justificativa de “defender” as freiras ela fez aquele absurdo de abandonar os recém-nascidos. Na verdade o que ela queria era levar para longe a “vergonha” pela qual elas tinham passado. Mas ao sacrificar crianças inocentes ela só tornava o horror ainda maior e mais absurdo.

Enfim, este é um belo filme, com uma história forte e que faz pensar. Ele também convida as mulheres, em especial, a se colocarem no lugar de pessoas interessantes e em um cenário muito diferente. Os homens, imagino, também conseguem dimensionar o horror – ainda que, francamente, eles nunca vão conseguir se colocar totalmente no lugar de uma mulher, neste caso. Mas encarar este absurdo e se conscientizar a respeito dele repudiando qualquer violência contra uma mulher já pode ser um bom começo.

NOTA: 8,8 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um dos pontos fortes deste filme é, sem dúvida alguma, as ótimas atrizes envolvidas nos papéis principais. Lou de Lâage, que eu já tinha visto antes em outro filme, Respire (com crítica neste link), está ótima. Ela sempre mostra um espírito bastante independente mas, ao mesmo tempo, tem um olhar atento e curioso que casa muito bem com as suas personagens. Uma atriz que vale ser acompanhada, especialmente porque ela costuma se entregar bastante aos seus papéis.

Neste filme a grande revelação para mim foi Agata Buzek. Ela é a freira com a maior complexidade nesta história. Visivelmente ela tem na fé uma de suas fortalezas mas, ao mesmo tempo, ela não é dogmática. Ela realmente se interessa pelas colegas freiras e pelas crianças, assim como pela preservação da vida. Ela tem uma preocupação menor em proteger a Igreja ou a “vergonha” delas e está mais focada em que todas fiquem bem. Sem dúvida alguma uma das personagens melhor desenvolvidas da trama. Merece destaque também a atriz Agata Kulesza, que interpreta a Madre Superiora. Ela é bem mais rígida – até o extremo, podemos dizer -, mas tem um trabalho preciso e que foge, por pouco, do estereótipo.

Como comentei antes, o roteiro deste filme é bom, mas poderia ser um pouco mais curto e reduzir a trama de Mathilde e Samuel. A direção de Anne Fontaine equilibra a valorização do trabalho das atrizes, em especial, ao mesmo tempo que explora as peculiaridades daquele local e daquela época. Na maior parte do tempo a câmera dela está perto das atrizes, flagrando as nuances de suas interpretações, mas em alguns momentos importantes ela valoriza as paisagens cheias de neve – e que, neste caso, representam também perigo.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma o principal destaque vai para a direção de fotografia de Caroline Champetier. Também fazem um bom trabalho Annette Dutertre na edição; Joanna Macha no design de produção; Anna Pabisiak na direção de arte; Kinga Babczynska na decoração de set; e Katarzyna Lewinska nos figurinos. Puxa, agora ao buscar os nomes das pessoas envolvidas no projeto é que me dei conta de como este filme é repleto de mulheres. Muito bacana isso. Por causa deste detalhe importante – fico feliz de ver uma diretora chamando uma equipe basicamente de mulheres e contando uma história importante para elas – vou aumentar um pouco a nota que eu ia dar para este filme originalmente. A proposta da diretora merece.

A trilha sonora de Les Innocentes é muito, muito pontual. Ainda assim, vale citar o seu responsável: Grégoire Hetzel.

Les Innocentes estreou em janeiro deste ano no Festival de Cinema de Sundance. Depois o filme participaria, ainda, de outros sete festivais de cinema pelo mundo. Nesta trajetória o filme colecionou um prêmio e três indicações. O prêmio que ele recebeu foi o dado pelo público como Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema de Princetown.

Coproduzido pela França e pela Polônia, Les Innocentes teria custado 6 milhões de euros. Nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de US$ 487 mil – não há informações, ainda, sobre as bilheterias nos outros países.

Agora, uma curiosidade sobre a produção: a atriz Adèle Haenel foi cotada para interpretar Mathilde Beaulieu antes de Lou de Laâge. Bela disputa, eu diria.

Esta produção foi totalmente gravada na Polônia, em cidades como Orneta e Krosno.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para Les Innocentes. Por sua vez, os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 41 críticas positivas e apenas quatro críticas negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 7,7. Belas avaliações, diga-se.

CONCLUSÃO: Provavelmente este filme terá diferentes leituras conforme o gênero do espectador. As mulheres devem ter uma percepção muito mais aguda do que os homens sobre o que significa este Les Innocentes. Mas independente do gênero do público, algo é fato: esta produção acrescenta mais uma colherada importante na leitura diversificada e múltipla que temos hoje sobre a desgraça que foi a Segunda Guerra Mundial. O tema não parece ter fim, e isso é bom.

Bem construído e com um bom elenco, este filme só peca um pouco pela duração – ele poderia ter, facilmente, meia hora a menos. Mas nada que tire a força da história. Além disso, Les Innocentes tem belas imagens e dramas plausíveis que tornam esta produção mais um importante documento sobre aquela fase tenebrosa da nossa história. Vale ser visto, ainda que ele não esteja na lista dos melhores do gênero. Há filmes mais contundentes e inovadores, mesmo recentes, sobre a Segunda Guerra. Adicione este especialmente se já conferiu aos demais.

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