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Kollektivet – The Commune – A Comunidade


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Alguns filmes tem propósitos pouco claros. A interpretação sobre o que vemos na telona é livre e depende do tipo de olhar de quem assiste. Kollektivet é um destes filmes. O diretor Thomas Vinterberg sempre tem um estilo muito próprio de fazer cinema mas, em outras produções, ele deixou mais claro o que ele queria com a história que ele estava contando. Este filme, mais uma vez, toca em temas importantes tanto sob a ótica individual quanto sob a ótica coletiva, da sociedade. Pessoalmente, fiquei um pouco incomodada com o “andar da carruagem” da história. Explico as razões logo abaixo.

A HISTÓRIA: Um corretor caminha com passos largos por uma rua residencial até encontrar Erik Moller (Ulrich Thomsen). Ele dá os pêsames para o homem que está voltando para a casa familiar após perder o pai. Residência esta que ele não via há muito tempo, já que não tinha contato com a família desde os 22 anos de idade. Erik quer se livrar logo da casa, que considera muito grande e com manutenção cara. Mas a mulher dele, Anna (Trine Dyrholm) tem outros planos para o lugar. Ela acha a casa espaçosa perfeita para que o casal e a filha Freja (Martha Sofie Wallstrom Hansen) possam viver em comunidade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Kollektivet): Este filme trata de muitos assuntos. Alguns óbvios, outros nem tanto. Um dos pontos fundamentais do filme, e não sabemos sobre isso quando as frases são ditas, estão justamente bem no início da produção com roteiro do diretor Thomas Vinterberg e de Tobias Lindholm.

A questão essencial de Kollektivet está em um dos primeiros diálogos dos protagonistas Erik e Anna. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na visão de Erik, para duas pessoas viverem juntas, elas precisam “ver e ouvir um ao outro”. Ou seja, para ele, é fundamental que o casal e a filha sigam vivendo em um local pequeno, no qual eles mantenham proximidade e tenham intimidade. Emma, por outro lado, não está satisfeita apenas com esta realidade e rotina. Ela quer mais. Como comenta em uma sequência seguinte, ela precisa “ouvir outras vozes”, ouvir outras pessoas além de Erik para “não enlouquecer”.

No início, tudo é maravilhoso. Primeiro, o casal Erik e Emma parece muito feliz e satisfeito consigo mesmo. Freja claramente ama e admira os pais. Estão todos felizes. Especialmente Emma ao imaginar a vida que eles poderão ter naquela grande casa familiar de Erik e que ela planeja transformar em reduto de uma comunidade de amigos e conhecidos. Cada um com um estilo de vida e características para somar ao grupo.

Pouco a pouco o casal vai “entrevistando” os pretendentes a morarem naquela casa. O grupo acaba formando uma forma de se autogestionar que leva em conta como cada um está se sentindo e como cada um pode contribuir para as contas do mês. Novamente a felicidade está presente. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Até que em um certo dia Erik fala com Emma e simplesmente não consegue ser ouvido em meio ao falatório dos demais.

Pronto, aí está a ruptura fundamental de Kollektivet. Como se refletisse sobre a própria coletividade e sobre o sentido que cada indivíduo tem sobre a importância de suas próprias necessidades, o filme demonstra como o que acaba predominando no final das contas é mesmo a supremacia de alguns desejos particulares sobre o dos demais. A ideia de comunidade é bonita, bacana, mas simplesmente não funciona, parece que Vinterberg está nos dizendo, porque o poder econômico sempre prevalece sobre o bem estar comum.

Como eu disse lá no início, há muitas interpretações possíveis sobre Kollektivet. Mas esta foi a que “gritou” mais forte para mim. Com este filme Vinterberg parece nos dizer que o desejo utópico e que se tornou realidade por um período de tempo de Emma de ter em um mesmo espaço várias pessoas com estilos de vida e visões diferentes vivendo de forma harmoniosa e um apoiando o outro perde na queda de braço para os desejos particulares de Erik.

Quando o protagonista não consegue o que ele quer e se dá conta disso – a cena crucial é aquela em que ele não consegue ser ouvido pela mulher, Anna -, ele decide buscar o que ele deseja fora de casa. Como a maioria dos homens – e me perdoem vocês, espécimes do sexo masculino que não são assim -, Erik é um idiota inseguro que precisa se sentir importante ao ser desejado e amado por uma linda (e preferencialmente jovem) mulher. Então dane-se o casamento de 15 anos com Anna e tudo que eles passaram juntos. Dane-se o choque e o medo que a dissolução da família pode causar na filha Freja. O importante para Erik é sentir-se desejado por uma bela mulher.

Para muitos homens isso significa poder, significa massagem para o ego. E é isso que vemos em Kollektivet. Erik acaba dando corda para a bela aluna Emma (Helene Reingaard Neumann) que vai até a sala dele questioná-lo sobre o tratamento dado para um colega e os dois começam um caso. Como é dono da casa em que vive o coletivo de amigos, Erik não pensa duas vezes em levantar a amante para lá quando ele sabe que todos estão fora. Mas ao ser flagrado pela filha, ele resolve não esconder a relação da qual ele não quer abrir mão.

A partir daí e porque Erik passa a deixar claro que quer ficar com Anna, ele se distancia cada vez mais de Anna, o que deixa a vida da mulher dele cada vez mais miserável. No fim das contas, Erik acaba mergulhando no trabalho e passa a dormir fora de casa também para ficar mais com Emma, abandonando Anna na prática. A mulher dele, que parecia querer mais que o relacionamento apenas dos dois no início do filme – afinal, é ela que diz que precisa de outras pessoas e que gostaria de ter diversidade na convivência diária em casa -, não lida bem com a ausência do marido. Muito pelo contrário. Ela desmorona.

Quando o filme migra para esta realidade em que Erik é mais um marido carente de atenção e que acaba traindo a mulher para satisfazer o seu próprio vazio e que Emma vira esta mulher frágil que desmorona quando não tem a atenção do marido canalha, Kollektivet perdeu boa parte da graça para mim. Na verdade, fiquei um tanto revoltada e frustrada. Mas aí, quando o filme acabou, pensei que talvez esta tenha sido exatamente a intenção de Thomas Vinterberg. Nos mostrar “a vida como ela é” para muitas pessoas e nos fazer refletir sobre isso.

Alguns, certamente, vão achar que “as coisas são assim mesmo”, e que é natural e aceitável que Erik tenha traído a esposa e não se importado em deixá-la naquele estado lastimável porque, afinal de contas, ele tinha o “direito” de buscar o que lhe parecia melhor apenas para si mesmo. É como uma ode ao egoísmo. Outros, como eu, podem ficar indignados com isso e refletir não apenas sobre a canalhice da situação, mas também sobre o comportamento da comunidade.

O grupo formado por Ole (Lars Ranthe), Mona (Julie Agnete Vang), Steffen (Magnus Millang), Allon (Fares Fares) e Ditte (Anne Gry Henningsen) fica perplexo, claro, com a situação de conflito que eles acabam presenciando entre a diferença de desejos de Erik e Anna. Afinal, o casal é o que chamou todos para aquela convivência. Acreditando que poderia ter alguma “migalha” de atenção de Erik ao chamá-lo de volta para a casa junto com Anna, Emma faz o grupo votar pela adição da jovem amante do marido.

Aquela comunidade, a meu ver fazendo as “vezes” da sociedade em geral, acaba sendo até certo ponto “receptiva” com Anna. Não a julga, mas também, claramente, se sente constrangida em aceitá-la sem ressalvas. No fundo, o grupo quer que o “status quo” permaneça como era antes, quando todos viviam bem e harmoniosamente, aparentemente todos felizes. Erik fica surpreso quando, apesar da receptividade amistosa, o grupo vota para que Anna não seja aceita. E ele se revolta. Novamente o que deve predominar é a vontade individual de Erik e não o que é melhor para a maioria – ou mesmo para a que era, até então, a família dele.

Daí entra a crítica principal de Kollektivet, a meu ver. Como Erik é o dono da casa, ele ameaça todos de expulsão se não aceitarem a vontade dele. E o grupo, a comunidade, acaba cedendo para não perder o que eles tem. A generosidade e a preocupação com o bem estar de todos cai por terra naquele instante. Todos abrem mão da felicidade e do bem estar de Emma até o ponto em que fica impossível ignorar a miséria pela qual ela está passando. Neste momento o grupo coloca o casal contra a parede e, finalmente, a jovem Freja pede para que a mãe tome uma atitude e busque a felicidade em outro lugar.

Neste momento, em especial, o filme me incomodou. Afinal, realmente a única saída de Anna seria sentir-se tão miserável e sofrer tanto pela ruptura do casamento? Ela não poderia ter buscado ser feliz de outra forma e sem ter que ser a pessoa a sair de casa? A comunidade, assim como a sociedade, aceita o traidor e o canalha para a preservação do “bem comum”. Será mesmo o bem comum? Enquanto a sociedade machista seguir aceitando o sujeito que não se preocupa com os demais mas sim apenas em satisfazer os próprios desejos, para onde iremos?

Me incomodou, por exemplo, a filha Freja ficar do lado do pai – afinal, ela não sugere para ele, o traidor, sair de casa, e sim a mãe. Claro, o próprio Freud pode ajudar a explicar isso – classicamente as filhas ficam do lado dos pais porque se sentem “inconscientemente” atraídas por eles. Ainda assim, me incomoda pensar que Freja iria repetir velhos padrões e não pensar realmente no que estava acontecendo e em quem era a “parte frágil” do processo. Consequentemente, ao não fazer isso, ela não pensou sobre ela própria.

Agora, claro, sem dúvida alguma Emma estava certa em buscar a própria felicidade após a falência do casamento. Ela não poderia seguir sofrendo daquela forma. A protagonista assim mostra determinação e coragem – ainda que um tanto tardia. Mas ok, afinal, esta produção se passa nos anos 1960 – um tempo que ainda exigiria amadurecimento das mulheres. Mas o que virá depois daquela saída de Anna de casa? Na sequência final, Freja se declara para Peter (Rasmus Lind Rubin) que está em “outro mundo”.

Há formas diferentes de interpretar aquela sequência, assim como outras partes do filme, mas para mim aquela cena quer mostrar que a história vai seguir se repetindo. Ou seja, que Freja vai dedicar toda a sua vida, atenção e afeto para um sujeito que, a exemplo do pai dela, estará sempre mais preocupado com si mesmo do que com ela ou os demais. Um egoísta clássico, cretino e babaca que, quando não tiver todos os seus desejos atendidos, irá procurar quem poderá satisfazê-los fora de casa. E o círculo vicioso irá se repetir.

Esta aparente “imutabilidade” das coisas me incomodou um bocado no filme. Ainda que esta possa ser a realidade como ela se apresenta para a maioria, gosto de pensar que existe esperança além do cinismo. De que se existem história como a contada por Kollektivet, existem também histórias de quebra de ciclos de dependência e onde o egoísmo prevalece. De que há histórias de grandeza, doação e generosidade. Kollektivet me parece cheio de cinismo e de desesperança. E não é exatamente filmes assim que eu gosto de ver. Ainda que, eu admita, ele tem um propósito de ser. E talvez seja exatamente este de deixar alguns como eu incomodados.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como manda o figurino nos filmes de Thomas Vinterberg, o diretor escolheu o seu elenco a dedo. Todos os atores são ótimos e estão muito bem em seus respectivos papéis. Vinterberg sempre exige interpretações convincentes, fazendo com que os atores mergulhem na história de seus personagens. Nenhuma linha do roteiro é falada sem convicção. Isso fica evidente em mais este filme do diretor. Não por acaso esse tom “naturalista” dos filmes de Vinterberg faz com que realmente acreditemos em sua história. É como se víssemos um documentário na nossa frente. O envolvimento de quem assiste ao filme, desta forma, é inevitável. Mais uma vez o diretor consegue isso com Kollektivet.

Há dois protagonistas claros neste filme. Outros atores e seus respectivos personagens acabam ganhando destaque, aqui e ali, mas claramente esta produção tem na dianteira o excelente trabalho dos atores Trine Dyrholm e Ulrich Thomsen. Os dois estão perfeitos, sem tirar e nem por. Acreditamos em cada detalhe da interpretação de Trine, enquanto Ulrich dificilmente não vai despertar indignação de quem assistir a este filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Lá pelas tantas eu não consigo ver a cara do ator sem ter uma certa raiva dele – especialmente quando ele “desabafa” com Anna de que ele deve se concentrar no trabalho e não em “coisas de mulher”. Uma sequência que também fez o meu queixo cair um bocado foi aquela em que a personagem de Trine diz que entende que o marido tem as suas “necessidades”. Ah, por favor! Se devemos sempre saciar as nossas necessidades e sem se importar com as consequências o que nos diferencia exatamente dos outros animais?

Duas outras atrizes tem um papel de bastante relevância na história: a jovem Martha Sofie Wallstrom Hansen e a bela e carismática Helene Reingaard Neumann. As duas fazem um belo trabalho, ainda que chame a atenção como Martha está, em muitas situações, apenas com olhar de perplexidade, enquanto Helene tenha mais espaço para demonstrar nuances diferentes de sua personalidade. Por mais que ela seja linda e a beleza sempre “ajuda” a perdoar pecados, não dá para ignorar que a personagem de Helene também está pouco se importando com os efeitos de sua “nova paixão”. A sequência em que as duas personagens se encontram pela primeira vez, em especial, achei um bocado reveladora sobre o “real espírito” da personagem de Helene.

Todos os outros atores coadjuvantes estão bem em seus papéis, mas gostei, em especial, do trabalho de Lars Ranthe como Ole. Acho que ele acaba se destacando um pouco mais que os demais. Além de todos os atores já citados, vale comentar o bom trabalho de Sebastian Gronnegaard Milbrat como Vilads, garoto que sofre de uma doença e que vive repetindo que não vai viver além dos nove anos de idade.

Da parte técnica do filme, um elemento bastante presente no filme, especialmente na parte inicial, é a trilha sonora de Fons Merkies. Depois, conforme a história vai se desenrolando, curiosamente a música perde um bocado de sua importância – seria uma forma de reforçar que a “fase dourada” da história já passou? Possivelmente. Sempre que um filme começa com uma presença marcante de música, o que, para mim, significa “alegria na vida”, e depois vai perdendo esse elemento pouco a pouco, é como se a história também perdesse em graça. Acho que é o que acontece em Kollektivet, especialmente porque a frustração, a decepção e a tristeza vão ganhando corpo lá pelas tantas.

Outros elementos importantes para esta produção ter a aura que ela tem – lembrando que a história se passa nos anos 1960 – são a direção de fotografia de Jesper Toffner e os figurinos escolhidos à dedo por Ellen Lens. Características complementares a estas são o design de produção de Niels Sejer; a decoração de set de Salli Lindgreen e Didde Hojlund Olsen; e o departamento de maquiagem com oito profissionais. Os editores Janus Billeskov Jansen e Anne Osterud também fazem um bom trabalho e merecem ser citados.

Kollektivet estreou na Dinamarca em janeiro deste ano. No mês seguinte o filme estreou no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme passaria ainda por outros 10 festivais mundo afora – o último deles será o Festival Internacional de Cinema de Toronto que começa nesta próxima semana, no dia 8 de setembro.

Nesta trajetória, o filme recebeu um prêmio e foi indicado a outro. O prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Atriz para Trine Dyrholm no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Muito justo. A atriz está divina e perfeita nesta produção. Merecia ganhar um prêmio pelo seu desempenho. Ela e o parceiro de cena como protagonista estão impecáveis – ainda que ela consiga chegar a um grau um pouco acima dele até pela personagem que ela tem, mais humana e sem dúvida alguma mais complexa.

Agora, uma curiosidade sobre Kollektivet: o roteiro do filme é baseado em uma peça com o mesmo nome escrita por Thomas Vinterberg e que é, por sua vez, inspirada na infância que ele teve em uma comunidade acadêmica na região Norte de Copenhague.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para esta produção. Uma boa avaliação se levarmos em conta os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 18 críticas positivas e seis negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média 6.

Este filme é uma coprodução da Dinamarca, da Suécia e da Holanda.

Eu gosto do diretor Thomas Vinterberg. Assisti a boa parte da filmografia dele – ainda que nem todos os filmes estejam comentados aqui no blog. Este dinamarquês de 47 anos estreou na direção com Sneblind, em 1990. O primeiro filme que eu assisti dele foi Festen, uma obra-prima que não está comentada aqui porque eu não tinha começado o blog ainda – o filme foi lançado em 1998. Depois viria Dear Wendy, filme de 2004 do qual eu gostei muito e que merece ser visto. Depois do blog já ter sido criado, assisti e comentei por aqui Submarino (com crítica neste link) e o ótimo Jagten (comentado aqui). Se Kollektivet é o seu primeiro filme do Vinterberg, recomendo que você volte alguns anos e assista Jagten, Dear Wendy e Festen, principalmente. Ele é um diretor interessante e que merece ser assistido – até por integrar o grupo do Dogma 95 que pedia um cinema mais “original” e visceral.

Procurei alguma entrevista com o diretor para ver se ele “aclarava” um pouco mais para mim as suas intenções com Kollektivet. Pois bem, encontrei esta entrevista interessante. Para começar, na introdução à conversa eu fiquei sabendo que o filme se passa no final dos anos 1970 e não nos anos 1960 como eu imaginava. Depois, fiquei sabendo que a atriz que interpreta Emma, a bela Helene Reingaard Neumann, é a mulher de Vinterberg e estudante de Teologia. Segundo o texto, Kollektivet é uma homenagem à comunidade em que ele próprio viveu entre os sete e os 19 anos de idade.

De acordo com Vinterberg, ele viveu em uma comunidade formada por 12 pessoas em 1975 e que começou com cada um pagando o que podia para o aluguel. Todos faziam tudo, e “todos abraçavam as suas diferenças”. Depois, no final, em 1985, tinham restado três famílias e o “amor havia acabado”. Isso também teria acontecido com a sociedade que, segundo o diretor, “foi de Anker para Schlüter e de Carter a Reagan”.

E o diretor segue (vou citar o trecho inteiro porque achei muito interessante): “Hoje estamos mais individualistas do que nunca. E também está mais difícil dizer eu te amo. O amor é algo que está acontecendo por telefone e online. As pessoas estão se transportando o tempo todo, e eu vejo muitas pessoas que estão pensando sobre o trabalho quando estão com a família, e eles estão no trabalho no mundo inteiro sem tempo para perder com suas famílias. Acho que as pessoas não estão tão presentes hoje. E isso vale para mim. As pessoas vivem mais em trânsito. Estamos constantemente na estrada para novos lugares e, portanto, nunca realmente presentes. E isso dá condições precárias tanto para o amor quanto para o sexo. Acho que as pessoas terão muito menos sexo do que eles fizeram nos anos 1970, assim como eles festejaram, dançaram e beberam mais naquela época”.

Ainda segundo o diretor, “As comunidades físicas são substituídas pelo Facebook, onde vamos construir pequenas versões ideais de nós mesmos”. E ele segue argumentando na entrevista que vale ser conferida. Vinterberg também defende que poderíamos aprender algo com os anos 1970. Não há dúvidas. Vinterberg defende a ideia de que deveríamos viver cada dia como se fosse o último porque, afinal, “tudo é perecível, mesmo amizades, parcerias e casamentos. O coletivo em que eu cresci, de fato, também foi”.

O diretor também defende na entrevista que o “público deve pensar por si mesmo”, que ele, como diretor, deve dar espaço para as pessoas interpretarem a sua própria história. Vinterberg afirma que se perdemos a coesão presente nos anos 1980, ganhamos em “liberdade e individualismo”. “Eu acho que é claro que o amor ainda existe, ele é imortal, mas ele tem condições mais apertadas (de existir). E o risco de continuamente estar ocupado faz com que você se esqueça de viver a vida”. Belas ponderações, devo admitir. Pena que elas não ficaram tãoooo evidentes no filme. Quem sabe em um próximo filme o diretor consiga deixar as suas ideias mais claras?

CONCLUSÃO: Até um certo ponto de Kollektivet eu tinha gostado da proposta do filme. Afinal, é sempre interessante ver a uma pessoa, um casal e um grupo que resolvem quebrar “as regras” e a normalidade e buscar formas diferentes de convivência pacífica e harmoniosa. Mas aquela coletividade acaba perdendo terreno para uma questão muito particular e individual e que acaba caindo no lugar-comum de uma disputa particular entre homem e mulher. Claro que há outras nuances nesta história e personagens complementares, mas no fim das contas Kollektivet acaba girando muito sobre a falência do casamento. Quando isso acontece, o filme perde boa parte da sua graça. Uma pena. Poderia ser melhor e mais ousado. Ainda assim, vale por algumas reflexões que sucinta.

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