Elle


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Vivemos em sociedades em que a violência, os desejos e a loucura jogam papéis importantes. Talvez cada vez mais relevantes. Elle nos conta uma história interessante, destas sobre as quais precisamos pensar um bocado depois para pensar o que achamos delas. O filme aborda aquelas três questões que citei na primeira frase e tem um bocado delas na história. Mesmo que a violência seja o elemento constante, pincelado aqui e ali, talvez a sobrevivência e a “volta por cima” sejam as mensagens que ficam no final. Filme instigante, interessante, mas não é o melhor desta safra.

A HISTÓRIA: Ouvimos gemidos e um soco. Um gato olha fixo para a frente e resolve ir para outro local. Na cozinha, um homem mascarado acaba de estuprar Michèle Leblanc (Isabelle Huppert) no chão e sai tranquilamente pela porta. Michèle se levanta lentamente. Ela está em choque. Depois, limpa a bagunça deixada pela cena violenta e vai tomar um banho demorado na banheira. Ela pede comida por telefone e espera o filho, Vincent (Jonas Bloquet), que chega atrasado. Ele está em um novo emprego e ficou mais tempo nele. Os dois conversam sobre um apartamento que ele vai alugar, e a mãe oferece ajuda. Michèle segue trabalhando e tenta manter uma vida normal, mas o perigo seguirá rondando a casa dela.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Elle): Um filme que começa com um gato e um estupro já mostra a que veio. Paul Verhoeven é um diretor ousado e aqui, novamente, ele mostra isso. Elle bebe dos filmes clássicos de suspense mas também avança ao mostrar aspectos que não são muito comuns nestas produções. A protagonista não é uma simples vítima de um canalha que a estupra e que mantém ela refém do medo. Não, ela é uma personagem complexa e interessante.

Aliás, possivelmente a construção da protagonista seja a parte mais interessante de Elle. Michèle Leblanc é uma mulher que beira os 50 anos, divorciada, independente, que vive sozinha, tem a sua própria empresa em sociedade com a amiga Anna (Anne Consigny), tem uma vida sexual ativa e “sem sentimentalismos”. Ela é estuprada na cozinha de casa e não para a vida por causa disso. Neste sentido o histórico dela tem um peso muito importante. E não poderia ser de outra forma, convenhamos.

Elle é um filme feito para Isabelle Huppert, uma das grandes atrizes da França, brilhar. E ela realmente faz isso. A personagem dela e toda a sua complexidade/humanidade são, sem dúvida alguma, os pontos fortes da produção. No mais, do que trata a história? Essencialmente de dois pontos: o perigo constante que ronda Michèle que, de forma inteligente, logo percebe que foi estuprada por alguém próximo dela, e o acerto de contas que ela tenta ter com o passado. Curioso que tanto o presente quanto o passado dela são cercados de violência. Mas isso não faz com que ela fique paralisada, o que só mostra a força da mulher e da personagem – um ponto forte que é ainda mais ressaltado na cena final da produção na conversa entre ela e Anna.

O suspense de Elle é garantido pela cena inicial do estupro e que, de forma muito inteligente, é “revivida” por Michèle em duas outras ocasiões. Na primeira, ela apenas revê como tudo aconteceu para tentar compreender melhor a situação. Na segunda ela já imagina o que poderia ter feito para se defender. Interessante este recurso utilizado pelo roteirista David Birke, que trabalha o texto do filme baseado no livro de Philippe Dijan. O filme tem uma forte carga psicológica e, devo dizer, por detalhes como este de Michèle revivendo o trauma, também bem realista.

Inicialmente achamos estranho que a protagonista buscou apenas um médico e não fez queixa na polícia. Mas conforme o roteiro de Elle vai se desenvolvendo e vamos entendendo melhor a personagem, fica claro como o passado trágico da família dela influencia o presente da personagem. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O pai dela, Georges, matou toda a vizinhança quando Michèle tinha 10 anos de idade. Ele entrou nas casas e matou 27 pessoas, incluindo crianças e adultos, além de animais de estimação. A protagonista deixa claro que lutou muito para reconstruir a vida apesar da polícia e da imprensa e, por isso mesmo, prefere lidar com o risco de continuar sendo vítima de um maníaco por sua própria conta.

Pelo desenrolar da história, especialmente pelas mensagens que Michèle recebe no celular e por um vídeo parodiando uma cena de estupro no jogo que a empresa dela está produzindo, fica claro que o algoz da protagonista é alguém próximo. Desde o início eu desconfiei de duas pessoas: Patrick (Laurent Lafitte), o vizinho da frente que teria bastante facilidade de acompanhar a rotina de Michèle (este é um elemento-chave em casos assim), e Kurt (Lucas Prisor), que parece ser o diretor técnico da emrpesa de Michèle e de Anna e que confronta a chefe com alguma regularidade. Os dois dão diversos sinais de comportamento estranho durante o filme.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mesmo aquela sequência em que Michèle chega em casa e a polícia está na rua procurando um “suspeito” que Patrick tinha identificado, não me convenceu. Achei, ali, que ele poderia estar forjando aquela situação. Por isso mesmo não foi totalmente surpresa quando em um novo ataque Michèle conseguiu reagir e desmascarou o vizinho. Mesmo não sendo muito surpreendente, este fato jogou uma luz interessante na história. Michèle estava flertando com o vizinho descaradamente. Havia interesse mútuo entre os dois. Por isso mesmo é tão difícil para ela entender porque ele, podendo ter um caso com ela sem muito esforço, preferiu o caminho da violência e do estupro.

Elle é um filme que retrata, desta forma, desvios de comportamento, obsessões e escolhas pela violência sem maiores explicações. Tanto a chacina praticada pelo pai de Michèle quanto os estupros praticados por Patrick carecem de explicação e ficam sem ela. Afinal, o que explicaria comportamentos tão fora das regras sociais e do que aceitamos como lógico? O filme de Paul Verhoeven não se arrisca a querer explicar isso, mas ele mostra uma sobrevivente de toda esta carga de violência: Michèle.

Por mais que a protagonista se sentisse atraída por Patrick – e todos os homens ao redor dela percebem isso -, ela não aceita aquele jogo maluco em que a violência tinha que ser um elemento básico da “relação” deles. Em certo momento do filme, ao conversar com o ex-marido, Richard (Charles Berling), fica claro que Michèle não gostava de violência. Ela diz que eles se separaram depois que ele bateu nela. Ainda assim, mesmo divorciados, fica claro que ela tem uma certa esperança deles retornarem – tanto que ambos tinham como regra se “aventurarem” apenas com pessoas casadas, sem o risco, assim, de terem uma relação realmente séria.

Richard quebra esta regra ao se relacionar com Hélène (Vimala Pons), o que motiva ainda mais Michèle a buscar novas relações para se distrair. Ela se cansou das aventuras com Robert (Christian Berkel), até porque se sente mal em ficar mentindo para a melhor amiga e sócia. Mas como ela gosta de ter o controle da situação e é sexualmente ativa, ela logo começa a investir em Patrick. Antes de descobrir, é claro, o “segredinho sórdido” do vizinho.

O final é interessantemente dúbio e permite mais de uma leitura. Michèle convida Patrick para a festa de lançamento do novo jogo da empresa dela e, na volta, ela ameaça o vizinho de escancarar o seu lado obscuro para a polícia e para a mulher dele. Eu achei a atitude muito corajosa porque, afinal, seria muito fácil para ele matá-la. A alta voltagem sexual entre os dois e a violência ganham um capítulo final. E a partir daqui há duas questões que podem ter mais de uma leitura.

Primeiro, Michèle estava mesmo falando sério no carro ou o que ela disse era apenas uma forma de provocar Patrick para eles terem mais um encontro “quente” e violento? Da minha parte, acho que ela estava falando sério. Como mulher independente que ela era e, seguindo o que eu observei antes sobre Richard, ela não ter o perfil de mulher que gostasse de ser agredida, acredito sim que ela decidia sempre o que considerava melhor para si, independente do que os outros achassem. Ela não queria seguir com aquele jogo com Patrick e ia mesmo denunciá-lo. Ele resolve se arriscar e conferir de perto se aquilo era apenas uma provocação ou algo que poderia acontecer. O desfecho daquela situação, por outro lado, foi imprevisto e acidental.

Mas na sequência dos fatos – muito acertado, aliás, o filme não terminar naquele desenlace -, há um outro ponto que pode render mais de uma leitura. Na sequência em que Michèle vai conversar com Rebecca (Virginie Efira) está controlada, aparentemente em paz. Inicialmente podemos pensar que ela, por ser muito católica, está se “agarrando na fé”, e por isso aceitou bem tudo que aconteceu.

Mas quando Rebecca fala para Michèle que ela fica feliz de que Patrick tenha encontrado nela o que ele precisava, pelo menos por um tempo, o espectador pode se perguntar se, afinal, ela sabia sobre os “desvios” do marido. Eu acredito que sim. Que ela “aproveitava” o lado bom que Patrick tinha e fechava os olhos para os crimes que ele praticava para satisfazer os seus desejos sexuais regados à violência. Ou seja, Elle inteiro trata sobre as diferentes formas de violência e sobre um bocado de psicologia.

Alguns podem pensar, especialmente sobre a forma com que Michèle reage aos estupros quanto pela maneira com que ela encara a mãe Irène (Judith Magre) e o pai preso que ela era uma psicopata. Afinal, ela não esboça grande emoção nestes diferentes fatos. Não gosto de julgar ninguém, mas para mim ela apenas aprendeu a forjar os seus sentimentos e reações frentes aos fatos após passar pela situação mais absurda que alguém pode imaginar. Ela tinha 10 anos quando o pai foi preso após matar 27 pessoas e ela foi acusada por ser cúmplice apenas por ter entrado na “brincadeira” de colocar fogo nas coisas de casa. Certamente aquilo lhe deu uma carapaça muito forte.

Ela conseguiu, da melhor forma que ela encontrou, conviver com aquele pesadelo que foi perdurado no tempo pela memória das pessoas e o resgate da história pela imprensa. Tornou-se forte, independente, dona do próprio nariz. Mas não acho que ela fosse psicopata porque, afinal de contas, ela teve raiva e ódio do pai por muito tempo. Com o aneurisma que Irène sofre na noite de Natal e por causa do último pedido que ela faz para Michèle, ela resolve encarar o pai depois de quase 30 anos de prisão dele.

Por mais que a protagonista não gostasse de mostrar nenhuma fragilidade e, consequentemente, os seus sentimentos, dá para perceber que ela sofre o baque do que acontece com a mãe e também com as agruras do filho. Vincent se casa com Josie (Alice Isaaz), uma garota que não tem nenhum apreço pela sogra e, aparentemente, nem grande respeito pelo marido. Quando a garota tem o bebê que seria deles, Michèle percebe que ela está manipulando a situação. Em resumo, ela se importa com o filho, com a amiga Anna e com os demais. Não é exatamente um comportamento de uma psicopata.

A história é interessante e envolvente. Para mim, o roteiro não foi tãoooo surpreendente na revelação do criminoso que aterroriza Michèle. Mas isso não torna o roteiro ruim. Pelo contrário. O texto de Birke é bom porque desenvolve bem os personagens, especialmente a protagonista. Contemporâneo, moderno, o filme também escancara a cultura da violência e do machismo, tendo a coragem de apresentar uma mulher que resiste à tudo isso e insiste em sobreviver. Interessante, muito interessante. Poderia ser um filme de Almodòvar, se o diretor estivesse em uma boa fase. Não é o caso, infelizmente. Mas é bom ver que outros diretores conseguem ser tão ousados quanto.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei muito do trabalho de todos os atores envolvidos nesta produção. Claro que o destaque principal é o da sempre ótima Isabelle Huppert. Há quem diga que ela pode ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Realmente ela pode. Faz um grande trabalho aqui. Bastante orgânico, convincente, sem exageros ou forçando a barra. A personagem dela, que é firme, mas complexa, ganha legitimidade pelo talento da atriz. Mas é preciso assistir aos outros filmes das atrizes sempre cotadas nesta categoria para saber se ela realmente poderá chegar lá.

Para Isabelle Huppert brilhar em cena ela precisa de um ótimo elenco para atuar com ela. Paul Verhoeven foi feliz ao escolher aos demais atores da produção. Claro que o outro destaque vai para Laurent Lafitte. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele faz muito bem a transição do vizinho “super boa praça” e atencioso para o sujeito que tem um desvio de comportamento sério e que é violento para dar vasão para a sua tara sexual. Lafitte não perde a mão ou exagera nesta transição, tornando o personagem dele bastante crível. Fundamental para o filme.

Dos atores coadjuvantes, merecem destaque os talentosos Anne Consigny como a sócia e melhor amiga de Michèle; Charles Berling como o escritor e ex-marido da protagonista; e Virginie Efira como a religiosa e sempre simpática vizinha de Michèle. Todos tem desempenhos inspirados e bastante adequados para os seus personagens. Estão muito bem também Judith Magre como Irène, a mãe provavelmente setentona de Michèle que gosta de jovens rapazes; Christian Berkel como o marido sorrateiro de Anna; Alice Isaaz como a maluquete namorada de Vincent; e o próprio Jonas Bloquet como o um tanto tapado (ou inocente/carente) Vincent. Todos estes atores tem papéis com uma certa relevância na produção.

Além deles, vale citar os atores que tem papéis menores, mas que também se saem bem quando aparecem em cena: Vimala Pons como Hélène, a linda nova namorada de Richard; Raphaël Lenglet como Ralf, o mais novo namorado de Irène e visto como Michèle como o novo golpista do pedaço; Arthur Mazet como Kevin, o funcionário de Michèle que a admira que é contratado por ela para descobrir quem fez o vídeo paródia dela sendo estuprada no jogo que eles estão produzindo; Lucas Prisor como Kevin, um dos principais responsáveis pelo jogo que a empresa da protagonista está produzindo; e Stéphane Bak como Omar, colega de trabalho de Vincent e suspeito número 1 de ter um caso com Josie.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma o destaque é a direção de Paul Verhoeven. Ele tem um estilo muito interessante, que valoriza, claro, o trabalho dos atores e torna toda a dinâmica do filme bastante convincente. Muito bom também o roteiro de David Birke – gosto, especialmente, quando Michèle destila toda a sua personalidade. Especialmente interessante o diálogo que ela tem com Patrick após o acidente. Mas há muitos pontos altos e interessantes no filme, com destaque para os diálogos entre os atores. Sem dúvida alguma é o roteiro, com ótimos diálogos, e a interpretação diferenciada de Isabelle Huppert que faz Elle ser melhor do que um thriller regular.

Outros elementos técnicos de destaque do filme são a trilha sonora bem pontual e que ajuda a contar a história de Anne Dudley; a direção de fotografia competente mas sem estrelismos de Stéphane Fontaine; a ótima edição de Job ter Burg; o design de produção de Laurent Ott; os bem definidos e estrategicamente escolhidos figurinos de Nathalie Raoul; e a maquiagem de Sophie Farsat.

Agora, um adendo sobre o filme que eu não comentei antes. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois que a identidade do estuprador é descoberta, Michèle evidentemente se sente desconfortável ao encontrar o vizinho. Mas aí, porque quando ela sofre o acidente, ela liga para ele? Verdade que ela tentou Anna e o ex-marido primeiro, mas ela não teria outras alternativas, como Vincent ou mesmo Robert? Além disso, é verdade que ela não gostava da polícia e de policiais, mas ela não poderia ter chamado ao socorro, aos Bombeiros, ou na França isso não existe? Claro que existe, estou brincando. Ela chama Patrick. Se isso não é muito lógico, pelo menos rende uma conversa reveladora para a história.

Verdade que Michèle está tentando entender o que aconteceu e as motivações dele. Isso faz sentido. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Acho que no início ela fica imaginando se ele, como ela, não tinha um grande desejo mas, com medo de se declarar, preferiu o caminho da violência com “anonimato”. Mas depois ela percebe que não é nada disso.

Naquela conversa reveladora que eu comentei e em fatos que vão acontecer posteriormente Michèle percebe que Patrick não tem coragem de verbalizar os seus desejos e nem lida bem com eles. Na verdade, aquele é um lado obscuro que ele tem e sobre o qual ele não gosta de falar. Mas é um desejo que ele tem e que acredita que deve suprir, mesmo que vá totalmente contra a “versão oficial” que ele tem para a sociedade. Sinistro. E mais um exemplo de que pessoas mal resolvidas são perigosas. O final dele não é planejado, mas não deixa de ser irônico que Vincent, sem nunca ter conhecido o avô, se torne um assassino também.

Elle estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio. Depois, o filme fez (e está fazendo) o impressionante circuito de outros 27 festivais e eventos de cinema pelo mundo. Os últimos nos quais ele vai participar são o Festival de Cinema de Toronto, que começa no dia 18, e da Semana do Festival de Cinema de Cannes, que começa no dia 30.

Nesta trajetória de festivais, Elle conquistou um prêmio e foi indicado a outros seis. Apesar de ter sido indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes, o filme não ganhou o prêmio. O único prêmio que ele recebeu foi o Grand Prix do ICS Cannes Award do Prêmio Internacional da Sociedade Cinéfila francesa. Não deixa de ser curioso que um filme tão bem cotado para o Oscar tenha apenas um prêmio anterior no currículo até o momento. Isso, acredito, não o ajuda muito na corrida para a estatueta dourada.

Esse filme, que é uma coprodução da França, da Alemanha e da Bélgica, tem a predominância dos recursos da França, por isso ele pode ser escolhido pelo país como o candidato francês para o Oscar 2017.

Elle foi totalmente rodado na França, em quatro cidades. Uma fica bastante evidente na história: Paris, com cenas em Port de Montebello (as do restaurante), Rue Soufflot (onde Vincent trabalha), o conhecidíssimo Cemitière du Père-Lachaise (cemitério do final da produção) e a Rue de Beaujolais (quando Michèle bate no carro de Richard); na cidade de Hauts de Seine (cena das cinzas); na cidade de Fresnes, parte de Val-der-Marne (cenas exteriores da prisão); e na cidade de Saint-Germain-en-Laye, na 11bis Rue Charles Rhôné, onde é ambientada a casa dos Leblanc.

Agora, uma curiosidade sobre este filme: Elle inicialmente foi planejado para ser rodado nos Estados Unidos. Mas o diretor Paul Verhoeven não conseguiu encontrar uma protagonista para a produção. O papel foi oferecido para Nicole Kidman, Diane Lane, Julianne Moore, Cate Blanchett, Kate Winslet, Marion Cotillard, Carice van Houten e Sharon Stone (ufa!), mas todas recusaram o papel logo depois de lerem o roteiro. Elas nem esperaram alguns dias para negar o papel, como é de praxe. Pois perderam uma boa oportunidade de brilhar. Seria interessante, agora, ver Isabelle Huppert concorrendo ao um Oscar por Michèle. Não sei se isso vai acontecer, mas seria interessante.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para Elle. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site, mas achei pouco para um filme que quer ganhar uma estatueta dourada. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 73 críticas positivas e apenas seis negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,1. Especialmente a nota chama a atenção. Ela é bastante boa se levarmos em conta a média das críticas listadas no site. Pela crítica sim, o filme pode chegar lá.

CONCLUSÃO: Boa parte da loucura das sociedades modernas está plasmada nesta produção. A violência é um elemento muito presente, assim como as taras envolvendo o sexo, o jogo de poder entre homens e mulheres e a super exposição das pessoas na mídia. Filme bem contemporâneo e com uma história envolvente, ele tem uma grande atriz como protagonista. Mas no final, você se pergunta qual é o sentido de tudo isso. Além de refletirmos sobre o que nos rodeia, sem dúvida Elle nos faz pensar sobre a nossa capacidade de nos reinventar e de sermos verdadeiros com a gente mesmo. Uma boa produção, que terá uma vida dura para conseguir uma ou duas estatuetas douradas.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Elle está sendo apontado sempre como um dos favoritos a uma das cinco vagas finais da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2017. De fato, o filme tem diversas qualidades que o podem levar até lá. Mas ganha a estatueta já é outros 500.

Há muitos filmes ainda para assistir e que estão bem cotados nesta categoria. Mas do que eu vi até agora, acho que Under Sandet (comentado aqui) é a produção com maiores chances, não apenas de figurar entre os finalistas mas também de ganhar o Oscar. Depois, o venezuelano Desde Allá (com crítica neste link) é tão interessante quanto Elle, mas talvez ele tenha até mais força e seja mais surpreendente do que a produção francesa. Aí tudo vai depender do gosto dos votantes da Academia e se eles estão dispostos a apostar em uma escola menos tradicional.

Desta lista inicial, sem dúvida alguma Julieta (comentado por aqui) corre por fora. O filme emplacaria mais pela força do diretor Pedro Almodóvar do que por sua proposta, qualidade ou inovação. O brasileiro Pequeno Segredo, então, corre totalmente por fora, bem distante da história mais impactante destas produções. Novamente, comento, ele tem poucas chances de chegar entre os finalistas. Interessante também observar que Elle e Desde Allá tratam de alguns temas em comum, como desejos, sexo, manipulação e histórias mal resolvidas dos protagonistas com os seus pais.

Os dois roteiros são bem feitos, com uma narrativa interessante, tendo como principal diferença o contexto social e os protagonistas – no filme francês temos uma mulher dando as cartas, enquanto no filme venezuelano é um homem de meia idade. Aí tudo vai depender do gosto dos votantes, sem dúvida. Para mim, qualquer um dos dois poderia chegar lá, mas faz mais sentido que apenas um deles consiga uma vaga – até para não termos dois filmes “parecidos” entre os cinco finalistas. Agora, para mim, Under Sandet é o filme que realmente precisa chegar lá. Ele merece.

Da minha parte, até prefiro a história de Desde Allá do que a de Elle. Certo que a produção francesa tem a ótima Isabelle Huppert como um dos destaques, além de ter uma pegada mais “grandes centros” e tecnologia/mídia, elementos que me interessam, mas prefiro a questão social levantada por Desde Allá. Querendo ou não, no filme venezuelano as pessoas não estão no mesmo patamar de situação e de conhecimento, diferente do que vemos em Elle. Acho que as reflexões levantadas por Desde Allá são um pouco mais interessantes do que as de Elle. Mas essa, claro, é a minha opinião. Logo mais veremos o que os votantes da Academia vão achar disso tudo.

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