Fuocoammare – Fire at Sea – Fogo no Mar


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Uma das maiores tragédias recentes da Humanidade merecia mais atenção do cinema e da imprensa. A imigração massiva de pessoas dos países árabes e africanos para a Europa passando pela ilha de Lampedusa, na Itália, é um fato histórico que impressiona e que continua acontecendo enquanto eu escrevo este texto. Fuocoammare aborda justamente o que acontece em Lampedusa, mas o filme foge do que o espectador poderia inicialmente esperar. O diretor Gianfranco Rosi tenta ser o mais “ausente” possível da narrativa mas as suas escolhas nos fazem pensar sobre a mensagem que ele quer passar com a produção. Afinal, toda narrativa tem um propósito.

A HISTÓRIA: Começa explicando que a ilha de Lampedusa tem uma superfície de 20 quilômetros quadrados e que está mais próxima da África do que da Sicília. Nos últimos 20 anos, cerca de 400 mil imigrantes desembarcaram em Lampedusa. Na tentativa de atravessar o estreito da Sicília para chegar na Europa, se estima que 15 mil pessoas morreram. Com um cachecol colocado sobre a boca, se protegendo do frio, Samuele olha para os galhos de uma árvore e tenta subir nela. Ele estuda a melhor forma de fazer isso e consegue.

Com uma faca, o garoto consegue tirar um galho propício para um estilingue. Depois ele se encontra com Dick, o seu cachorro, e segue na tarefa de fazer o próprio estilingue. Corta. Em uma estação, o operador pergunta quantas pessoas estão no mar. A voz do outro lado responde que 250. Enquanto a pessoa pede socorro, o operador tenta saber em que local os náufragos estão. Esta história intercala a rotina de Samuele e seus familiares e a dos imigrantes que chegam em Lampedusa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Fuocoammare): Como comentei no início, para mim uma das grandes histórias dos últimos anos é a dos imigrantes que estão desesperados para fugir da morte provocada por guerras, conflitos, perseguições e pela pobreza extrema e que tentam uma saída através da Europa. A tragédia de Lampedusa é uma das maiores que se tem notícia fora de uma Guerra Mundial. Muitos jornalistas e cineastas deveriam colocar esta história no centro de suas atenções.

Por isso mesmo um filme como Fuocoammare é fundamental. Mas admito que eu achei algumas escolhas do diretor Gianfranco Rosi um tanto estranhas. Ao menos para o meu gosto. Entendo porque ele quis mostrar tanto o protagonista Samuele Pucillo e a sua família, amigos e o entorno da vida do garoto. Esta foi a forma dele enfocar o “problema” dos refugiados sob a ótica de pessoas comuns da ilha italiana.

Afinal, a vida deles parece correr o mesmo ritmo de sempre. Fora o momento em que a avó de Samuele está cozinhando e ouvindo a rádio e, entre músicas românticas italianas, ela escuta a notícia de um naufrágio em que foram encontrados 34 corpos e ela solta uma frase “Pobres cristãos”, nada de anormal parece estar acontecendo ao redor deles. Samuele segue preocupado com questões comuns de um menino daquela idade e naquele contexto, como estudar, aprender a lidar com o mar no barco do pai e, a mais recente novidade, “despertar” uma vista “preguiçosa” que ele não tinha percebido que tinha.

Boa parte do filme mostra este cotidiano do garoto e seus pequenos dilemas/desafios. Há sequências inteiras dele e do amigo Mattias Cucina utilizando estilingue e fazendo de conta que tem armas para atacar “inimigos”. Entre uma “aventura” e outra do garoto, o diretor foca o que está acontecendo no mesmo mar em que o pai do protagonista trabalha como pescador. Daquela torre inicial em que ouvimos uma tentativa de resgate até sequências em que o diretor realmente acompanha a retirada de refugiados/imigrantes do mar, a forma com que eles são tratados em terra firme, a triagem e o controle pelo qual eles passam e, finalmente, o atendimento que eles recebem pelas equipes de resgate, finalmente saímos da “bolha” de vida comum de Samuele e entramos na história que realmente interessa.

Nada contra as histórias ordinárias que povoam o mundo – estamos repletos delas. Com certeza essas histórias tem o seu encanto e algo que nos ensinar. Mas francamente, em um filme como Fuocoammare eu estava esperando realmente mergulhar na rotina e na vida dos refugiados e imigrantes. O diretor e roteirista Gianfranco Rosi, que fez este filme utilizando uma ideia de Carla Cattani, até nos mostra um pouco do drama e das histórias dos refugiados, mas ele parece sempre um “observador ausente” de tudo que acontece. Ele apenas filma, fica próximo das pessoas, as acompanha, mas nunca interage com elas.

Concordo que esta é uma forma de fazer um documentário. Segue um pouco a linha da “não interferência”, do observador passivo e que não quer influenciar em nada o seu entorno. Mas francamente, acho isso uma utopia. Ninguém pode realmente acreditar que Samuele ou todos os demais que aparecem em cena agem de forma totalmente “normal” tendo um cinegrafista por perto. Essa ideia de imparcialidade também vigorou por muito tempo no jornalismo, mas a verdade é que não existe um narrador totalmente imparcial ou que não influencie no que está sendo contado.

O resultado desta escolha do diretor é que acompanhamos “personagens” comuns de Lampedusa, habitantes daquela ilha em suas vidas “normais” ao mesmo tempo em que conhecemos um pouco da rotina de pessoas das equipes de resgate e dos refugiados. Mas, apesar de acompanhar estas rotinas, não adentramos na vida e na realidade de ninguém. Eu gostaria de saber muito mais sobre o médico Pietro Bartolo, um dos grandes personagens desta história, assim como saber em detalhes sobre o que alguns ou vários daqueles refugiados passaram até chegar ali.

Gostaria sim de saber de onde cada um veio, porque eles saíram de seus lugares de origem, pelo que eles passaram até chegar ali, com quem eles viajaram (apenas desconhecidos? com amigos ou familiares?) e o que eles esperavam que iria acontecer com eles a partir dali. Também seria interessante, a meu ver mais do que acompanhar a vida “ordinária” de habitantes da ilha, acompanhar um grupo de refugiados após aquele primeiro receptivo. Para onde eles foram? O que aconteceu com eles a partir dali?

Enfim, para mim o diretor quis fazer uma crítica ácida sobre os europeus que, apesar daquela tragédia acontecendo na “porta ao lado”, mantiveram a indiferença. É uma forma de Gianfranco Rosi se posicionar, é claro. Mas eu acho isso um tanto injusto. Primeiro porque eu acho complicado julgar os outros. Alguns tem uma vocação maior para se doar e para ajudar, mas nem todos tem preparo psicológico para isso. Além disso, o que daria para esperar de uma criança como Samuele? Que ele fosse diariamente lá ajudar a alimentar os refugiados? Será que ele teria acesso ou permissão para isso, sendo que boa parte do receptivo parecia estar preocupada com possíveis doenças que aquelas pessoas poderiam estar trazendo para aquele território?

Acho sim que uma família normal de Lampedusa poderia ter ajudado em algo e se voluntariado. Mas certamente muitas pessoas já faziam isso. E as demais famílias da ilha, o que deveriam fazer? Possivelmente não ignorar totalmente o que estava acontecendo mas, de alguma forma, elas teriam que seguir um pouco a sua vida “normal”. Afinal, a localidade não poderia parar totalmente por causa dos refugiados. Enfim, acho sim que a crítica da indiferença é válida, mas eu acho ela um tanto rasa. Também acho que faltou o diretor mergulhar mais na realidade dos refugiados para que o espectador entendesse melhor o que acontecia com eles após a chegada.

No fim, acabamos sabendo mais do cotidiano normal de Samuele do que sobre as pessoas que realmente interessavam neste contexto. Nada contra, volto a dizer, a vida “normal e corrente” dos italianos que vivem em Lampedusa, mas eu estava muito mais interessada em mergulhar na história daqueles sobreviventes que viajaram milhares de quilômetros para tentar uma segunda chance. Enfim, o filme deixou a desejar. Pelo menos sob a minha ótica e avaliando aquilo que me interessava mais naquela realidade.

Não por acaso a melhor parte do filme, e que é de cortar o coração e mexer com qualquer pessoa, é aquela em que o médico Pietro Bartolo conta sobre a realidade que ele encontra em relação aos naufrágios. Impressionante. Também emociona, claro, as cenas em que conseguimos ouvir um pouco da “confissão” dos refugiados, quando eles contam (sem serem provocados pelo diretor) um pouco da sua história, em forma de orações, e quando percebemos a dor daqueles que perderam parentes ou amigos (nunca vamos saber porque o diretor não entrevista ninguém) em um naufrágio. A dor e o desespero dos sobreviventes é algo que não dá para esquecer.

Estes, a meu ver, são os melhores momentos do filme, aqueles que justificam a produção. Pena que eles sejam tão raros e percam muito espaço para a história de Samuele. Para o meu gosto, a história do garoto e da sua família poderia ser diminuída pela metade, ou mais, e termos muito mais oportunidades de saber sobre os refugiados e imigrantes. Daí sim, o filme teria muito mais força. Dá para entender as escolhas do diretor, mas não necessariamente precisamos concordar com elas.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Existe um momento em que o título do filme é explicado. A avó do protagonista está conversando com ele, explicando uma de suas histórias, e fala sobre a época da guerra, quando o “mar ficava vermelho” (de sangue, certamente), quando eles diziam que existia “fogo no mar”. Eis aí mais uma crítica “discreta” do diretor. Afinal, a avó e seus familiares seguem lembrando de um momento triste da história em que italianos estavam envolvidos e perdiam os seus entes queridos ao mesmo tempo em que eles parecem “incapazes” de perceber que uma tragédia similar ou pior está acontecendo naquele momento. O mar novamente está ensanguentado, mas desta vez sem o sangue de italianos em jogo.

A crítica de Gianfranco Rosi é válida, neste sentido, porque ele escancara que os europeus – e outros povos, vamos admitir – não encaram aqueles africanos e árabes como vítimas iguais a eles próprios. Mas em que lugar isso não é assim? No Brasil seria diferente? Não apenas não seria como não é. Afinal, quantas pessoas realmente se sensibilizam com a dor de haitianos e de pessoas de outros países que procuram o Brasil como uma segunda oportunidade? Muitas pessoas daqui se sensibilizam e tentam ajudar, é verdade. Mas a maioria se mostra indiferente. Infelizmente é a realidade que nós vivemos em qualquer parte. Não é algo específico dos europeus.

O filme tem cenas incríveis, e algumas bem difíceis de serem feitas – como aquelas dos resgates ou no fundo do mar. Mas, no geral, achei a direção de Gianfranco Rosi bastante conservadora. Ele faz longos planos de saídas de helicópteros, por exemplo, ou gasta muito tempo do filme em sequências um tanto “repetitivas” das brincadeiras com estilingue dos garotos. Para o meu gosto, o diretor poderia ter feito um filme mais atento aos refugiados, dedicado mais tempo e atenção a eles e menos para Samuele. O próprio diretor é responsável pela direção de fotografia da produção – ou seja, ele estava sozinho na empreitada, sem uma grande equipe lhe dando apoio.

Além dos nomes já citados no filme, vale citar a participação do radialista Giuseppe Fragapane. Da parte técnica do filme, vale citar o trabalho do editor Jacopo Quadri, que é competente, mas não faz nada além do esperado; e de Giuseppe Del Volgo como diretor assistente.

Fuocoammare estreou em fevereiro no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme passou por nada menos que outros 26 festivais de cinema pelo mundo. Nesta trajetória o filme recebeu seis prêmios e foi indicado a outros 10. Entre os que recebeu, destaque para os quatro entregues no Festival de Berlim, especialmente o Urso de Ouro, o Amnesty International Film Prize, o Prêmio do Júri Ecumênico e o Reader Jury of the Berliner Morgenpost.

Não há muitas informações sobre a bilheteria do filme. Não encontrei os valores de custo da produção, mas vi que na semana de estreia na Itália ele fez pouco mais de 384,6 mil euros e, no acumulado entre fevereiro e março, fez quase 692,7 mil. Talvez no acumulado de todos os mercados o filme consiga registrar lucro e não prejuízo.

Esta produção é a indicação da Itália para a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2017. Apesar da produção ser italiana, o filme também tem recursos da França.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Fuocommare, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 51 críticas positivas e apenas quatro negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,9.

CONCLUSÃO: Serei honesta e direta: eu esperava mais de Fuocoammare. Não apenas por ele ser um dos favoritos ao Oscar 2017, apontado por muitos como um forte candidato em duas categorias, mas especialmente por saber, logo no início da produção, do que ela tratava. O drama e a tragédia dos refugiados que passam por Lampedussa merecia um filme melhor acabado. Senti falta de saber sobre a história daquelas pessoas que arriscaram as suas vidas em longas jornadas, entender melhor sobre o contexto que elas deixaram para trás e acompanhar o que aconteceu com elas depois. No lugar de mergulharmos na história dos refugiados, ficamos sabendo em detalhes como a vida “segue normal” na cidade, com italianos tocando a vida como se nada tivesse acontecido. O questionamento de Gianfranco Rosi é válido, mas eu esperava muito mais desta produção.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Nas bolsas de apostas que já estão pipocando nesta temporada pré-Oscar, muitos apontam Fuocoammare como um forte candidato a um das cinco vagas nas categorias Melhor Filme em Língua Estrangeira e em Melhor Documentário. Francamente, não acho que ele tenha realmente chances de ganhar uma estatueta dourada em qualquer uma destas categorias. A Academia vai premiar este filme apenas se quiser “ficar bem na foto” ou se quiser dar relevância para um tema fundamental, apesar do filme não estar à altura dele.

Inicialmente eu assisti a esta produção porque estou mergulhando na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Levando em conta os filmes que eu já assisti nesta categoria e que estão tentando uma vaga na lista final do Oscar, não tenho receio em dizer que achei este o mais fraco entre todos. Até o brasileiro Pequeno Segredo, que concorre em Melhor Filme em Língua Estrangeira (e que tem crítica neste link), achei mais coerente e esforçado do que esta produção dirigida por Gianfranco Rosi.

Para mim, até o momento, Under Sandet (comentado aqui) leva uma certa dianteira na disputa pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, seguido de Desde Allá (com crítica neste link) e por Elle (comentado aqui). Faltam assistir ao concorrente alemão e a alguns dos outros favoritos para poder fechar questão nesta categoria. Fuocoammare até pode chegar lá, mas será mais pela temática do filme do que pelo seu resultado final. Para opinar sobre Melhor Documentário, ainda preciso assistir aos outros concorrentes. Mas somente um ano com safra muito fraca para que a Academia premie esta produção italiana. Veremos.

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