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En Man Som Heter Ove – A Man Called Ove – Um Homem Chamado Ove


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Quando encontramos uma pessoa ranzinza ou apenas “estranha” pela frente, devemos sempre parar alguns segundos para pensar: “eu não sei nada sobre a vida desta pessoa, então terei calma neste andor”. Porque não sabemos mesmo nada ou quase nada sobre aquela pessoa. Por isso mesmo, não devemos logo colocar esta pessoa em uma caixa ou colar uma etiqueta nela. Afinal, não temos ideia pelo que ela já passou, está passando, sobre os seus sonhos, medos, desejos ou frustrações. En Man Som Heter Ove começa com um sujeito destes, um tanto ranzinza, um tanto estranho. E é justamente a história dele que nos dá muitas lições.

A HISTÓRIA: Em uma loja de plantas e artigos para o jardim, Ove (Rolf Lassgard) vê uma placa de promoção de buquês de rosa e escolhe um ramalhete. Na fila do caixa, ele impede que uma senhora passe na frente dele. Ao ser atendido, ele quer pagar 35 coroas por um buquê alegando que isto é metade da promoção que prevê dois buquês por 70 coroas. Ele discute com a caixa e diz que não acha correta a forma com que eles trabalham. No fim das contas, ele leva os dois buquês para o cemitério, e diz em frente ao túmulo de Sonja que sente a falta dela. No dia seguinte, ele sai para a sua ronda matinal na vizinhança antes de ir para o trabalho. Pouco a pouco vamos conhecendo este sujeito com hábitos bem definidos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a En Man Som Heter Ove): Em algum momento da sua vida você já deve ter cruzado com alguém do tipo de Ove. Um sujeito obstinado em fazer tudo certo e que não tem muita paciência com os “idiotas” que ele vai encontrando pelo caminho. Eu mesma, devo admitir, muitas vezes tenho que me esforçar para ter paciência com quem não dá a mínima para as regras da boa civilidade.

Por isso mesmo, logo me apaixonei pelo protagonista. Claro que contou muito para isso o ótimo trabalho do ator Rolf Lassgard. Ele consegue, mesmo no momento em que ele tem uma crise de chatice, ser de alguma forma terno e gracioso. Quando o filme começa, nós temos uma impressão sobre o que vai acontecer. Depois de mais uma ronda pela vizinhança, o protagonista vai para o trabalho, rotina que ele mantêm nos últimos 43 anos. Esse tempo todo na empresa não impede que ele seja poupado da demissão.

Neste início do filme, pensei que a história teria uma forte carga social. E ainda que a produção tenha vários elementos de análise da sociedade sueca atual, En Man Som Heter Ove é bem mais filosófico e humano do que poderíamos pensar no princípio. A trilha sonora de Gaute Storaas e o ótimo roteiro do diretor Hannes Holm logo mostram que esta produção tem uma boa carga de comédia. Aliás, esta é a primeira produção pré-indicada na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira que tem a comédia como um elemento importante.

Baseado no livro de Fredrik Backman, este filme acerta na mosca no equilíbrio entre comédia e drama. Após aquela introdução curiosa sobre a personalidade de Ove, vamos pouco a pouco desbravando a sua história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Esta não é a primeira produção que mostra um protagonista que tenta se matar e que não consegue porque acaba sendo impedido em cada uma de suas tentativas. Os novos vizinhos de Ove, uma família de imigrantes, acaba sendo decisiva para esta guinada na trajetória do protagonista. Mas não são apenas eles. Até um jovem que resolve sair do armário acaba impedindo Ove de se matar.

Como acontece na vida real, mas certamente com menos frequência do que nesta comédia, todas as vezes que alguém impede Ove de seu intento é por acidente. Não é nada planejado. Mas eis aí uma das belas lições deste filme: como a boa relação entre vizinhos e a preocupação genuína das pessoas uma como as outras fazem toda a diferença na vida de uma comunidade e dos indivíduos. Ove parece um chato de galocha no início, sob a ótica de alguns, mas pouco a pouco ele vai se revelando um homem corretíssimo e muito zeloso com a vida da comunidade.

Quando Ove parece que vai realizar o seu desejo, “um filme” passa pela sua cabeça e ele começa a lembrar da própria trajetória. E é aí que o roteiro de Holm fica ainda mais rico e interessante. Mergulhamos na vida do personagem desde a sua infância, sabendo como ele perdeu a mãe cedo e como era a relação dele com um pai bastante calado e pouco afetuoso. Ele próprio, aparentemente, sempre foi um homem de poucas palavras. Mas ele encontrou a felicidade e uma parceira para a vida quando conheceu acidentalmente em um trem a bela Sonja (Ida Engvoll).

Seguindo a linha de muitos outros filmes, En Man Som Heter Ove também mescla dois tempos narrativos, em um constante e bem construído “ir e vir” do tempo atual, quando Ove tenta dar um fim em sua vida “sem graça”, e a sua vida passada. Uma outra lição desta produção é que por mais que algumas vezes pensemos que a nossa vida não tem saída ou que faz mais sentido morrermos para encontrarmos em outro lugar quem a gente mais amou e que partiu antes de nós, a vida sempre tem as suas surpresas e reviravoltas.

Ove acaba sendo fundamental para vários eventos importantes na comunidade, mesmo quando ele achou que não tinha mais “utilidade” nenhuma neste mundo. Ele não apenas ajuda a família de Parvaneh (Bahar Pars), mas também cria uma relação muito afetuosa com eles, especialmente com as filhas dela. Ove também consegue recuperar a amizade com Rune (Börje Lundberg), vizinho do qual ele foi parceiro muito tempo mas do qual se afastou porque a relação deles foi abalada por causa de “convicções” envolvendo carros e a nacionalidade deles. Isso mostra como uma pessoa simples, que acha que pode não ter grande importância no mundo, pode sim fazer muita diferença para várias pessoas.

En Man Som Heter Ove é bem construído em todos os seus elementos. O roteiro de Hannes Holm acerta ao começar com a comédia e com a parte “mais esquisita” e uma das mais atrativas do protagonista, facilmente identificada entre o público, para depois ir mergulhando na história do personagem. Como a história vai crescendo aos poucos, é praticamente inevitável se emocionar com o final – eu chorei, e com gosto, eu admito. Ove tem uma história maravilhosa porque nos ensina a grandeza das pessoas simples, corretas, que procuram sempre fazer o bem. O que não lhes impede de serem exigentes e um tanto esquisitas em muitos momentos.

Da minha parte, também me senti um pouco “representada” por Ove. Nem sempre eu sou direta e meio “grossa” como ele com as pessoas sem educação deste mundo, mas certamente eu também me “estresso” com várias pequenas demonstrações de falta de respeito no cotidiano. Além disso, certamente já encontrei com um ou dois sujeitos um tanto “ranzinzas” como Ove.

Pessoas que se acostumaram a ficar sozinhas, na maioria das vezes a contragosto, e que não sabem lidar muito bem com isso. A resposta para esta infelicidade é elas acabarem se isolando ainda mais, se afastando das pessoas. Mas tudo que elas querem é um pouco de atenção e de afeto, algo que Ove recebe quase sem querer por parte de Parvaneh e suas filhas. Sempre é bonito de ver como pessoas um tanto “desajeitadas” para o afeto são tocadas por ele.

Finalmente, acho que uma das grandes belezas deste filme é mostrar como vale a pena ser honesto, ser correto e dedicado. Ove é um sujeito que sempre buscou fazer o que era certo e ajudar a quem ele podia. Ele nunca se isentou, nunca virou as costas, e foi extremamente dedicado para a sua mulher, Sonja, além de ser generoso com Parvaneh e com outras pessoas. Um lado totalmente desconhecido para quem lidava apenas com o lado “ranzinza” e exigente dele.

Com isso, de forma muito sutil e bonita, En Man Som Heter Ove nos lembra que uma pessoa nunca é apenas uma coisa. Normalmente ela tem uma diversidade que poucos conhecem e que merece ser conhecida quando damos a oportunidade para que a pessoa revele a sua parte mais bonita. Mas para isso, é claro, essa pessoa precisa ter a oportunidade de mostrar este “outro lado”, mais vulnerável e muitas vezes difícil de perceber em um contato mais superficial. Belo filme, muito sensível e bem construído.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O primeiro elemento que me chamou a atenção nesta produção foi a ótima trilha sonora de Gaute Storaas. Depois, conforme o filme avança e percebemos os dois tempos narrativos, chama a atenção a direção de fotografia que diferencia bem estes dois tempos e que é assinada por Göran Hallberg. O tempo presente parece um tanto “cinza”, ou “azulado”, passando a impressão de realidade “nua e crua”, enquanto as lembranças de Ove parecem ter cores mais “quentes”, nos remetendo a um tempo mais “colorido” na vida do protagonista.

Conforme a história vai avançando também percebemos como o roteiro é um dos pontos fortes da produção, assim como a direção cuidadosa de Hannes Holm. O diretor sempre está atento aos detalhes, valorizando as interpretações dos atores e também os detalhes interessantes de cada momento da história, desde um porta-retrato de Sonja até a mais nova “amiga” do protagonista, uma gatinha da vizinhança que precisa de cuidados. Tanto a direção quanto o roteiro dele tem um ritmo adequado e interessante, que envolve o espectador e que cresce até o final. Como sempre, são os detalhes que fazem toda a diferença.

O elenco é pequeno, mas escolhido à dedo. Sem dúvida o grande destaque é o ator Rolf Lassgard. Mas outros nomes também merecem aplausos. Especialmente Bahar Pars, que tem uma interpretação muito sensível e interessante, e Ida Engvoll que, toda vez que aparece, ilumina a cena. Entre os atores com papéis menores, vale destacar Filip Berg como o jovem Ove e Viktor Baagoe como Ove aos sete anos de idade; Tobias Almborg como Patrik, o marido meio “trapalhão” de Parvaneh; Anna-Lena Brundin como a jornalista Lena, que tenta contar a história de Ove; Stefan Gödicke como o pai de Ove; Chatarina Larsson como Anita, mulher de Rune, e o próprio Börje Lundberg em um papel difícil, mas bem interpretado; e Simeon da Costa Maya como o jovem Rune.

Ainda da parte técnica do filme, vale destacar a competente edição de Fredrik Morheden; o design de produção de Jan Olof Agren;os figurinos de Camilla Olai Lindblom e a ótima maquiagem feita por cinco profissionais: Paulina Hilding, Hanna Holm, Love Larson, Mattias Tobiasson, Eva Von Bahr e Oskar Wallroth.

En Man Som Heter Ove estreou em dezembro de 2015 na Suécia e na Noruega. Em abril deste ano ele participou do primeiro festival, o Festival Internacional de Cinema de Newport Beach. Depois o filme participaria ainda de outros nove festivais em diversos países.

Até o momento este filme conquistou 12 prêmios e foi indicado a outros nove. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Filme segundo a audiência do Festival de Cinema Romântico de Cabourg; para o de Melhor Ator para Rolf Lassgard no Festival Internacional de Cinema de Seattle; para o de Melhor Filme na categoria World Cinema segundo escolha do público do Festival de Cinema de Mill Valley; e para os de Melhor Filme, Melhor Ator para Rolf Lassgard, Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Estória segundo o Film Club’s The Lost Weekend.

En Man Som Heter Ove conseguiu, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 2,9 milhões. Não é uma bilheteria desprezível por se tratar de um filme estrangeiro. Esse é um ponto favorável para o filme que é o indicado da Suécia para o Oscar 2017 na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Se ele é um pouco mais conhecido do público, pode facilitar a sua vida para avançar na disputa e aparecer na lista dos nove pré-selecionados logo mais, em dezembro, e depois seguir para uma disputadíssima lista final de cinco indicados.

Esta produção, 100% sueca, foi totalmente rodada na Suécia, em cidades como Göteborg, Uddevalla e Trollättan, todas em Västra Götalands Iän.

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: o ator Rolf Lassgard tinha 59 anos quando o filme começou a ser rodado, mesma idade do personagem dele na produção. Curioso que, mesmo eles tendo a mesma idade, fica claro como a equipe de maquiagem trabalhou bastante no ator para caracteriza-lo como Ove.

Dois gatos foram usados neste filme: Magic e Orlando. O primeiro foi escolhido por ser muito curioso, amistoso e por não se assustar facilmente. Orlando foi escolhido porque ele era capaz de ficar muito tempo parado em uma mesma posição. Os dois gatos nasceram na Polônia.

Fiquei curiosa para saber mais sobre o diretor Hannes Holm. Justamente hoje, dia 26 de novembro, ele está completando 54 anos de idade. Holm tem 17 títulos no currículo como diretor, incluindo longas, séries para a TV e um curta, e oito prêmios, a maioria por En Man Som Heter Ove. Ele também foi premiado por Adam & Eva, produção de 1997.

Ah sim, e vale falar da parte mais “social” do filme. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para começar, temos um grupo de pessoas simples em uma comunidade singela da Suécia mas que poderia estar em quase qualquer parte. Depois, temos um senhorzinho sendo demitido de seu trabalho depois de décadas de serviços prestados e sem muita “consideração” dos seus empregadores – que tem o discurso correto, dão uma “pá” de lembrança – bem simbólico, não? -, mas sem dúvida não tem a atitude correta. Sinal dos tempos em que as pessoas são apenas números para muitas empresas. Depois, temos a defesa singela e bacana dos imigrantes, que chegam para enriquecer a sociedade local – e que são simbolizados por Parvaneh e suas filhas -, e dos homossexuais através do garoto que é protegido por Ove. Muito bacana. Uma mensagem de tolerância e de afeto mútuo entre todas as pessoas, independente de suas origens ou de sua sexualidade, desde que todas tenham atitudes corretas e de respeito aos demais.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 44 críticas positivas e apenas quatro negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,4.

CONCLUSÃO: As vidas mais “ordinárias” são aquelas que estão mais repletas de sutilezas, de pequenas belezas cotidianas e de lições. Alguém que percorreu a vida buscando fazer o que era certo, estando coerente com a própria consciência e buscando valorizar a bondade e a beleza de quem estava do lado tem uma grande história para contar. Mesmo que ela pareça “ordinária” ou comum. En Man Som Heter Ove nos conta a história de um homem que foi justo, honesto, soube amar e ser amado e sempre procurou fazer o bem. Apesar de suas teimosias e manias. E quem não as tem? Um grande filme contado de maneira simples e milimetricamente planejada para ir se revelando aos poucos e nos emocionando no momento correto. Uma bela, bela peça de cinema cheia de humanidade.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Digam o que disserem, mas se tem algo que o prêmio anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood faz por nós, amantes do cinema, é nos apresentar grandes filmes a cada ano. De que outra forma esta produção despertaria a minha atenção e me faria assisti-la se não pelo fato de En Man Som Heter Ove ser um dos pré-indicados ao Oscar e um dos títulos que aparecem nas listas de apostas para a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira?

Dificilmente eu veria esta produção se não fosse por uma indicação ao Oscar. Pois bem, que bela surpresa este filme! Sem dúvida alguma ele merece estar na lista das possíveis produções que vão conquistar uma das cinco vagas decisivas da premiação. Mas por ser totalmente diferente de todos os filmes que eu vi até agora, é até difícil compará-lo com os demais. Mas para palpitar aqui, isso se faz necessário.

En Man Som Heter Ove caminha na trilha da comédia por grande parte do tempo, ainda que não deixe de ter retoques de drama aqui e ali, muito diferente dos outros filmes que estão concorrendo com ele que eu já vi. Das produções que eu assisti até agora, acredito que Under Sandet (comentado por aqui) ainda leve uma certa vantagem na disputa, seguido de Elle (com crítica neste link) e de En Man Som Heter Ove. Fuocoammare (comentado por aqui), apesar de não ser tão bom, pode acabar levando vantagem por tratar de um assunto fundamental nestes dias, que é o drama e a catástrofe dos refugiados e imigrantes que buscam uma saída para os seus drama através da Europa.

Desde Allá também é um filme que tem chances de chegar entre os cinco indicados. Para o meu gosto, até agora, estariam “classificados” para a grande disputa do Oscar Under Sandet, En Man Som Heter Ove, Elle e Desde Allá (com crítica neste link). Mas acho que estes dois últimos, até por guardarem muitas semelhanças entre si em vários sentidos, podem disputar apenas uma vaga. Ainda que seja um belo filme, En Man Som Heter Ove corre um tanto por fora para ganhar a estatueta dourada. Neste sentido e analisando apenas os filmes que eu vi até agora, vejo a Academia pendendo mais para Under Sandet, Fuocoammare (que pode levar como Melhor Documentário) ou Elle.

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