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Ya Tayr El Tayer – The Idol – O Ídolo


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Muitas pessoas fascinaram o mundo pelo seu talento. Alguns realmente estavam muito acima da média, enquanto outros foram galgados a um posto de destaque também por causa de sua história de superação. Ya Tayr el Tayer conta uma destas histórias, de um talento que se destaca também por suas origens. O representante da Palestina no Oscar 2017 sabe explorar a história real de um ídolo de Gaza e dos palestinos para tornar a produção sobre ele um tanto universal e um tanto “nos moldes” para fascinar os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

A HISTÓRIA: Começa avisando que o filme é inspirado em uma história real, mas que alguns fatos são ficção. Tudo começa em Gaza, na Palestina, em 2005. Um grupo de crianças está jogando futebol, até que uma confusão começa. Nour (Hiba Attalah) pede para Ahmad (Ahmad Qasem) jogar o dinheiro. Ela e o irmão, Mohammed (Kais Attalah) saem correndo, perseguidos por meninos maiores. Correndo pelas ruas da cidade eles conseguem escapar, até que ficam encurralados.

Mas Nour consegue enxergar uma saída inusitada. Eles são rápidos e conseguem chegar em casa, onde ficam a salvo. Em seguida, eles começam a estudar, mas não escapam de receber uma bronca da mãe. Eles já juntaram 337 shekels. O sonho dos irmãos e de dois amigos é comprar bons instrumentos musicais para fazerem sucesso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ya Tayr el Tayer): Esta produção começa bem ao apresentar logo os personagens principais e os seus sonhos, assim como o seu entorno. Crianças em um local que logo será de conflito e de destruição sempre rende uma boa história e, claro, entra no tipo de filme que a Academia gosta.

Primeiro, Ya Tayr el Tayer tem crianças corajosas e que vão atrásd e seus sonhos. Depois, é um filme que ilustra bem uma realidade complicada. Quer dizer, ao menos parece que ele ilustra bem. Sabemos que a realidade de Gaza foi muito pior do que este filme mostra, mas até nisso Ya Tayr el Tayer se encaixa bem no estilo do Oscar. Afinal, Hollywood é pura fantasia, e ainda que a Academia tenha apostado mais em filmes independentes e interessantes nos últimos anos, entre os premiados ela costuma escolher filmes geralmente menos ousados. Ya Tayr el Tayer é exatamente isso, um filme pouco ousado.

Francamente eu não conhecia a história do ídolo de Gaza e da Palestina Mohammed Assaf. Perdi as notícias que falaram sobre este fenômeno da música. Mas, depois de assistir a Ya Tayr el Tayer, claro que eu fui atrás de saber mais detalhes sobre ele. Daí também percebi o quanto o filme embarcou em “licenças poéticas” para se tornar mais “palatável” para as audiências de outros países.

Mas antes de falar das mudanças na história real que o filme produz, vamos retornar um pouco na história. Gostei da pegada inicial do filme porque ela mostra crianças sendo crianças em um território de refugiados. Isso é importante. Mostrar que a vida segue apesar das mortes, do luto e dos conflitos. Apesar disso, aquele início de correria me fez lembrar outras produções muito conhecidas, como Cidade de Deus (grande filme brasileiro) e até mesmo o ótimo Slumdog Millionaire (comentado aqui).

Aliás, se pararmos para pensar, Ya Tayr el Tayer lembra bastante Slumdog Millionaire. A diferença é que o candidato da Palestina para o Oscar se passa em um terreno de conflitos e de destruição mais do que de pobreza. Mas justamente aí reside um dos problemas do filme. Quando ele avança sete anos na vida do protagonista, passando de 2005 para 2012, vamos claramente a diferença da Faixa de Gaza neste período. A cidade, que antes tinha poucos sinais de conflito – um rapaz sem perna em um momento, uma cerca que isola a população mostrada em outro momento -, neste segundo momento da história se mostra um terreno quase todo arrasado.

As pessoas vivem entre escombros, se virando aqui e ali e tentando sobreviver. E há mais pessoas, como o amigo do protagonista, Omar (Abdel Kareem Barakeh quando criança, Ahmed Al Rokh quando adulto), que resolvem radicalizar e pegar em armas. No caso de Omar, ele atua na fronteira, mas está envolvido na “causa palestina”. Só que o problema do filme, apesar de mostrar bem esta mudança de paisagem, é não entrar mais profundamente no drama palestino. Vemos uns dois mutilados no filme inteiro, mas quase ninguém trata das mortes, do luto, das perdas da comunidade. O assunto é tratado de forma muito “ligeira”.

Para mim, este é um dos problemas do filme. O outro é que ele se torna muito previsível. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois daquele começo que lembra outras produções mas que até é interessante, logo que Nour fica doente, prevemos que fim ela vai ter. Daí a história avança sete anos e já prevemos também qual será o destino de Mohammed (vivido na fase adulta por Tawfeek Barhom).

Comento isso me colocando na posição de quem não conhecia a história real por trás do filme. Para quem já conhecia a história de Mohammed Assaf, este filme deve ser ainda mais previsível. Bem, isso se descontarmos as “licenças poéticas” do roteiro da dupla Hany Abu-Assad e Sameh Zoabi. Não consegui descobrir se Mohammed realmente teve uma irmã que morreu ainda criança, mas algo eu descobri: diferente do que Ya Tayr el Tayer sugere e mostra, ele não tinha apenas uma irmã, e sim seis irmãos e irmãs.

Lendo a uma entrevista do diretor Hany Abu-Assad, ele justificou a mudança, de mostrar o garoto com apenas uma irmã, para tornar o filme mais “impactante” e para tornar mais universal a história – afinal, todo mundo entende uma relação afetuosa entre um irmão e uma irmã. Dá para entender essa intenção do diretor, mas acho que teria sido mais interessante tentar contar a história da forma mais fiel possível. Afinal, Ya Tayr el Tayer atende também a um público aficionado pelo protagonista, e este público merecia ter uma história mais legítima.

Quando o filme fica previsível, ele não apenas perde um pouco do impacto e da força, mas especialmente no desenrolar da doença da irmã do protagonista ele se torna um tanto sentimentalista. Achei que os roteiristas perderam um pouco a mão na sequência final da menina, quando Mohammed insiste para ela repetir a frase que havia dito antes, de que “seremos grandes e mudaremos o mundo”. Quando esta cena acontece já estamos preparados para ela. Provavelmente a sequência funcionou para a cultura árabe, mas tenho as minhas dúvidas se funciona para outras latitudes.

Agora, dois aspectos mostrados neste filme provocam reflexão. Primeiro, ainda que não seja bem explorada, a questão da cultura machista na Palestina. Nour trilha o caminho da independência e isso incomoda a muitas pessoas que mexem com ela por ela “parecer um menino”. O comportamento da mulher, na média, deveria ser outro, bem mais “amistoso” e serviçal.

O outro aspecto é a própria saída apresentada para a menina quando ela fica doente. Ou a família consegue um doador voluntário (o irmão se candidata, mas não tem o sangue compatível), ou tem que pagar US$ 15 mil para conseguir um órgão saudável. Ou seja, por lá não existe lista de doadores. Sobrevive quem tem dinheiro. É a dura realidade de muitos lugares, infelizmente.

A parte do passado do protagonista, desta forma, acaba sendo bem modificada e “floreada” para tornar o filme mais palatável. Depois, quando entramos na fase do concurso musical propriamente dito, a história fica mais próxima da realidade. Realmente Mohammed chegou tarde para a classificatória do concurso Arab Idol (versão árabe do popular American Idol) e entrou no local em que estavam outros candidatos fugindo dos seguranças. Uma outra “liberdade poética” do filme é mostrar ele cantando no banheiro e, desta forma, convencendo um outro candidato e lhe dar o bilhete para a audição.

Na verdade, Mohammed escapou dos seguranças e acabou cantando na frente de diversos candidatos. Um deles, também palestino, percebendo o talento do rapaz, realmente resolveu lhe dar o bilhete para a audição. No mais, a história é a que a maioria das pessoas – ao menos as que acompanham Arab Idol – já conhece. Semana após semana Mohammed foi mostrando o seu talento até chegar na grande final. Nesta parte, achei um pouco o estranho o filme mesclar imagens reais e as da produção, com as cenas do verdadeiro Mohammed sendo mostradas sempre à distância e as imagens do ator que o interpreta, Tawfeek Barhom, sendo colocadas na tela de uma forma meio fake.

Enfim, o filme tem as suas boas intenções, mas eu acho que ele foi feito mesmo sob medida para agradar aos fãs de Mohammed Assaf. Ele conta uma história bacana de um morador da Faixa de Gaza que deixa um cenário de destruição para mostrar o seu dom e obter êxito. De fato, dá para entender porque os moradores daquele local se encheram de tanto orgulho. Apesar das mortes, das perdas e da destruição, é preciso falar de talento, de superação e da vida. A história de Assaf tem tudo isso, mas o filme sobre ele não é tão interessante quanto poderia ser.

NOTA: 7,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A melhor parte do filme é, sem dúvida alguma, o elenco infantil. As crianças estão muito bem. São a parte bacana da história. Ainda que ninguém esteja mal, as quatro crianças fazem um belo trabalho, os irmãos Assaf são o destaque. Hiba Attalah está ótima como Nour, com uma interpretação que convence pelo olhar. O mesmo pode ser dito por Kais Attalah – que, ainda que Tawfeek Barhom seja bom, me convenceu mais até que o ator adulto. Estão bem também, com interpretações coerentes e que passam credibilidade, os jovens Abdel Kareem Barakeh e Ahmad Qasem. Eles são, sem nenhuma dúvida, o melhor de Ya Tayr el Tayer.

Eu gostei da parte “se vira nos trinta” das crianças na primeira parte do filme. Eles buscam ganhar dinheiro para comprar os instrumentos musicais apostando dinheiro no futebol, depois pescando e vendendo peixe para quem passasse e, finalmente, Mohammed tem a ideia de começar a ganhar dinheiro com a própria voz. Primeiro, na mesquita e, depois, em festas de casamento. Ahmad descobre, lá pelas tantas, como vender Wacdonald’s (sim, uma versão de Macdonald’s) de forma ilegal em Gaza e faturar dinheiro com isso. Eles se viram, como qualquer garotada que vive em um local com poucos recursos.

Depois de assistir a Ya Tayr el Tayer eu fui atrás da história real de Mohammed Assaf. Há muito material sobre ele na internet. No filme já percebemos, perto do final, que ele é do estilo galã. Muito bonito, carismático, ele tem uma presença marcante, além de uma voz potente e linda. Achei que o filme Ya Tayr el Tayer explorou pouco estas qualidades dele. Faltou mostrar ele cantando em mais momentos e, claro, escolher um ator que tivesse mais a ver com ele. Nada contra Tawfeek Barhom, mas ele não faz jus para o original.

Da parte técnica do filme, não há nada para realmente destacar. O roteiro, como eu disse, acho que poderia ser melhor. A direção de Hany Abu-Assad é boa, especialmente com o bom ritmo do início, mas depois segue uma linha um tanto confortável. Talvez a trilha sonora de Hani Asfari se destaque e mereça uma menção especial. A edição de Eyas Salman é boa, mas nada excepcional, assim como a direção de fotografia de Ehab Assal.

Além dos atores já citados, vale destacar outros coadjuvantes com papel significativo na história: Dima Awawdeh como Amal e Teya Hussein como Amal quando criança, as duas vivendo a personagem que conhece Mohammed e a irmã dele, Nour, quando ela está fazendo tratamento no hospital; Amer Hlehel como Kamal, o músico que ajuda a turma de garotos quando eles estão querendo melhorar e, depois, segue ajudando Mohammed; Manal Awad como a mãe de Mohammed e Nour e Walid Abed Elsalam como o pai dos dois; e Azmi Al-Hasani como Ismael, o palestino que resolve doar o seu ticket para Mohammed tentar uma vaga no Arab Idol. Aliás, Azmi Al-Hasani tem masi a ver com o Mohammed original do que o próprio Barhom.

Fora o óbvio “vale a pena lutar pelos seus sonhos” e de que as pessoas devem lutar pelas “causas certas” (no caso do protagonista deste filme, ele briga para dar voz para os moradores de Gaza, para os palestinos, e também para homenagear a irmã), Ya Tayr El Tayer tem uma outra reflexão interessante: de que na hora de um grande desafio, devemos nos apegar ao simples, a uma motivação mais concreta do que pensar em toda a repercussão que algo que fazemos pode ter. Comento isso por causa do ataque de pânico que Mohammed sofre ao perceber que o seu sonho está tomando uma proporção gigantesca e que ele não esperava. No final, ele se apega ao efeito que o seu talento tem para Amal e, com isso, tornando tudo mais simples, ele segue em frente. Esta é uma boa dica.

Ya Tayr El Tayer estreou no Festival Internacional de Toronto em setembro de 2015. Depois, o filme passaria ainda por outros nove festivais, incluindo o de Londres, Warsaw, Torino, Hong Kong e Munique. Até o momento o filme recebeu um prêmio e foi indicado a outros quatro. O único prêmio que Ya Tayr El Tayer recebeu foi o Prêmio Unesco dado pelo Asia Pacific Screen Awards.

Esta produção, 100% da Palestina, foi também totalmente rodada no país árabe, mais precisamente na cidade de Jenin.

Mohammed Assaf é um fenômeno. Seus vídeos no YouTube tem milhares de visualizações. Este aqui, de três anos atrás e do Arab Idol, tem nada menos que 47,69 milhões de visualizações. Nele é possível perceber, realmente, como o intérprete tem uma voz incrível. Interessante também este vídeo de uma música que ele lançou após o Arab Idol e que foi gravado em Gaza – produção que mistura as tradições e o “patriotismo” de Mohammed com uma pegada mais moderna e contemporânea.

Como comentei antes, em determinado momento o filme mostra o verdadeiro Mohammed Assaf. É perto de ser anunciada a vitória dele no programa. Daí o cantor faz uma pequena ponta no filme aparecendo no lugar do ator que o interpreta. Escolha curiosa do diretor.

O diretor israelense Hany Abu-Assad tem 55 anos e 11 filmes no currículo como diretor. Ele estreou no cinema com Het 14e Kippetje, em 1998, e tem 17 prêmios em sua trajetória até o momento. A maior parte dos prêmios ele recebeu pelos filmes Omar, de 2013, e Paradise Now, de 2005 – ambos indicados ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Ou seja, Abu-Assad é um velho conhecido da Academia. Eu não assisti a nenhum dos filmes anteriores dele, sou franca em dizer. Quem sabe agora é hora de ir atrás? Até porque estes dois filmes, além de terem sido indicados ao Oscar, tem notas melhores no IMDb do que Ya Tayr el Tayer.

Ya Tayr el Tayer é a indicação oficial da Palestina para o Oscar 2017 de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 35 críticas positivas e apenas seis negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 85% e uma nota média de 6,7.

CONCLUSÃO: Este filme tem, sem dúvida alguma, a “cara do Oscar”. Pelo menos quando a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira era mais tradicional – nos últimos anos ela se mostrou um pouco menos óbvia. Ya Tayr el Tayer conta a história de sucesso de um personagem improvável, valorizando o talento e a obstinação por um sonho. É bonitinho, é interessante, mas é fraco. Sem dúvida alguma está abaixo da média de filmes que eu vi até o momento e que concorrem ao Oscar 2017. Achei ele curioso apenas no início, porque depois Ya Tayr el Tayer cai em um lugar-comum e em roteiro bastante previsível. Vale ser visto se você é fã do artista que inspirou o filme. No mais, vale apenas pela curiosidade. Não é um filme que vai marcar a sua vida.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Como eu adiantei logo acima, para mim Ya Tayr el Tayer é o mais fraco entre os concorrentes que eu vi até o momento da categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. Apesar do começo promissor, o filme depois embarca em um tipo de roteiro bastante previsível e que se esforça para nos fazer nos emocionar – comigo, ao menos, a estratégia não funcionou.

Mesmo sem conhecer a história de Mohammed Assaf até então, eu não me surpreendi nem um pouco como o desenrolar de sua história e das pessoas que o cercam. Mas ser surpreende não é pré-requisito para o Oscar. Como uma obra de cinema, achei o filme apenas mediano. Mas se a Academia resolver ser “tradicional”, ela até pode fazer Ya Tayr el Tayer avançar e ficar entre os nove pré-indicados. Especialmente para passar uma mensagem de que a história dos palestinos merece ser ouvida. Isso pode acontecer, mas acho improvável.

Apesar de figurar em diversas listas como um dos filmes que pode chegar lá, acho Ya Tayr el Tayer muito fraco e previsível para conseguir uma das nove vagas bastante disputadas – tem menos chances ainda de ficar entre os cinco finalistas. Surpresas sempre podem acontecer, mas não acho que este será o caso de Ya Tayr el Tayer. Apesar de ter uma história previsível, o filme acerta ao mostrar o “antes e o depois” da tragédia chamada Faixa de Gaza, com toda a destruição que foi provocada no local em poucos anos. Só acho que o filme poderia ser mais contundente.

  1. 27 de novembro de 2016 às 16:41

    Republicou isso em O LADO ESCURO DA LUA.

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