Archive

Archive for the ‘Cinema latino-americano’ Category

Pequeno Segredo – Little Secret

9 de novembro de 2016 3 comentários

poster_finalfull_littlesecret_64x94cm

Um filme sensível, muito bem realizado, tecnicamente, e com um elenco escolhido à dedo. Ouvimos falar muito de Pequeno Segredo, e não foi pelos motivos certos. Até agora o burburinho principal sobre o filme foi gerado pelo fato dele ter “roubado” a vaga de Aquarius como o candidato do Brasil ao Oscar 2017. Pouco se falou sobre as diversas qualidades e um par de defeitos da produção dirigida por David Schürmann. Pois bem, ontem eu assisti à pré-estreia do filme em Florianópolis e é sobre isto que eu quero falar.

A HISTÓRIA: Lentamente o nosso olhar vai deslizando pela imensidão do mar. Depois de um bom tempo, a câmera passa por alguns rochedos até apontar para a terra firme. O dia está cinzento e abriga uma celebração típica na praia. Heloísa Schürmann (Júlia Lemmertz), que faz parte da celebração, está séria, mas parece serena. Em um determinado momento ela segura a mão de Barbara (Fionnula Flanagan). Depois, cumprimenta os celebrantes. Corta. Heloísa e o marido dela, Vilfredo (Marcello Antony), são acordados no barco por Kat (Mariana Goulart), que quer nadar. Os pais cedem aos apelos da menina e Heloísa comenta que muitos temem o mar, mas que ela escolheu viver nele. Agora, com Kat um pouco maior, ela sente que a filha precisa ir para a escola, mas a mãe teme justamente a terra firme.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Pequeno Segredo): As principais qualidades deste filme são apresentadas logo no início, na sequência inicial da produção. A direção bem pensada e com tom claramente hollywoodiano do diretor David Schürmann; a trilha sonora magnífica do melhor compositor brasileiro da atualidade, Antonio Pinto, e a intocável direção de fotografia de Inti Briones.

Mas antes de falar sobre outras características do filme e comentar sobre o que eu achei dele, quero ressaltar que há pelo menos três maneiras de assistir à esta produção. A que eu tentei perseguir por todo o tempo foi a de tentar ver o filme com o olhar de um crítico estrangeiro e/ou votante da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ou seja, tentei ver o filme da forma mais isenta possível, esquecendo inclusive o que eu já sabia sobre a história que ele iria me contar. Para mim, esta é a melhor forma de assistir a Pequeno Segredo.

A segunda forma de ver o filme é um pouco também a maneira com que eu o assisti: de alguém que já sabe boa parte da história. Infelizmente (ou felizmente) por eu ser catarinense eu já conhecia o essencial da história de Kat e da família Schürmann. Quem conhece a história, especialmente após ter lido o livro escrito por Heloísa Schürmann, terá uma leitura totalmente diferente da produção. A minha visão, por mais que eu me esforçasse para assistir ao filme com a primeira ótica, foi um tanto “contaminada” por esta segunda.

A terceira forma de assistir a Pequeno Segredo é ver o filme comparando ele com Aquarius ou com alguma das outras produções que estavam concorrendo à indicação do Brasil para o Oscar. Esta leitura comparativa também terá um efeito muito diferente daquela de quem não assistiu Aquarius ou aos outros concorrentes. Da minha parte, estou nesta turma. Não assisti aos demais filmes brasileiros e, desta forma, pude ver Pequeno Segredo por si só, sem comparações – apenas comparando ele com os filmes estrangeiros que eu já assisti e que estão habilitados a avançar nas listas finais para o prêmio da Academia. Falo um pouco deles logo abaixo.

Depois destas considerações feitas, vamos ao que interessa. Assisti Pequeno Segredo sem maiores preconceitos ou comparações, tentando compreendê-lo como uma obra cinematográfica em si. E a verdade é que me surpreendi positivamente com o filme. Este é o oitavo título no currículo do diretor David Schürmann, incluindo quatro séries para a TV, um documentário, um curta documentários e apenas um longa de ficção – Desaparecidos, que tem a nota 2,3 no IMDb.

Eu estreei assistindo aos filmes do diretor com Pequeno Segredo. Tecnicamente falando, o filme é muito bem feito, com uma direção cuidadosa, atenta aos detalhes e com bastante ritmo de David Schürmann. O diretor sabe muito bem valorizar os detalhes das interpretações de seus atores, destacar detalhes de roupas, gestos e locais e, nos momentos certos, ampliar a visão do público para que ele veja “o quadro completo” e, a exemplo dos pais do diretor, vejam toda a beleza e magnitude da Natureza.

Tudo isso está em Pequeno Segredo. Mas esta não é uma história qualquer. Como o filme bem sinaliza no início, esta produção é baseada em fatos reais. E não de uma história qualquer, mas da própria família do diretor. É preciso saber disso para entender algumas das escolhas dele que, no fim das contas, é o capitão do barco nesta produção. Agora, voltando a falar do filme com os olhos de um “votante da Academia”.

Pequeno Segredo começa muito bem, com belas imagens, cenas bem planejadas, filmadas e que já dão o tom do que veremos na sequência. Após a introdução inicial, o filme se divide em duas narrativas: a que foca o cotidiano de Kat aos 12 anos, estudante do Colégio Catarinense, em Florianópolis, e uma adolescente normal cheia de planos, e a que aborda a relação entre o neozelandês Robert (Erroll Shand) e a brasileira Jeanne (Maria Flor), uma história de amor, encontros e desencontros que se desenvolve no Pará.

Sob a ótica de um “gringo”, este começo do filme é fascinante. Os estrangeiros adoram “mergulhar” na cultura dos países que eles estão assistindo, e Pequeno Segredo consegue apresentar bem o contraste entre Santa Catarina e o Pará. Especialmente a cultura muito típica do Pará deve fascinar o estrangeiro. Contudo, já neste início, duas sequências – a de Robert querendo colocar uma carta nos Correios e, um pouco mais para a frente, a dele correndo pelas ruas da cidade buscando Jeanne – me incomodaram um pouco porque elas me fizeram lembrar Central do Brasil.

Não sei se vocês notaram, mas os roteiristas deste filme são Victor Atherino e Marcos Bernstein. Ligaram o segundo nome à pessoa? Bernstein foi o roteirista de Central do Brasil (junto com João Emanuel Carneiro e Walter Salles). Então as duas cenas citadas me fizeram lembrar muito Central do Brasil. Enfim… Conforme a história de Pequeno Segredo vai se desenrolando, percebemos que o filme busca contar a história sob a ótica de Kat.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, ao mostrar os anseios e o cotidiano da garota na pré-adolescência e, depois, ao contar, em paralelo, a origem da menina ao revelar a história de amor entre os seus pais. Para quem não conhece absolutamente nada da história dos Schürmann, pode ser uma surpresa, mais tarde, descobrir que Robert e Jeanne eram os pais da protagonista. Assim como o descobrir o segredo que cerca a doença da menina. Para quem não tem conhecimento nenhum sobre a história, a primeira dica de que algo estranho está acontecendo é dada quando Heloísa Schürmann tira o rótulo dos remédios (“vitaminas”) que a menina toma.

Sem dúvida alguma o impacto da história será maior para quem a desconhece totalmente. Não era o meu caso. Como a família Schürmann é catarinense, eu conhecia em linhas gerais a história de Kat. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Eu sabia o essencial: que ela tinha sido adotada eu que faleceu jovem como vítima do HIV. Sabendo da história, me chamou muito a atenção a forma delicada com que o roteiro e a direção tratam a trajetória de Kat.

Inicialmente o filme se divide justamente entre a história de uma “pré-adolescente comum” e todos os seus sonhos, “pequenos dramas” e anseios, e a história de amor do gringo Robert e a linda, linda brasileira Jeanne. A escolha dos atores é outro ponto a destacar desta produção. Todos estão ótimos em seus papéis, sem nenhum deles destoando dos demais.

Ainda assim, se destacam os excelentes desempenhos de Maria Flor, Júlia Lemmertz, Mariana Goulart e Fionnula Flanagan – fiquei encantada, especialmente, com as três primeiras. Erroll Shand também está bem, ainda que ele tenha me “desconcentrado” um pouco por me lembrar o personagem principal de Avatar – me desculpem por esse comentário, mas realmente isso me afligiu em vários momentos do filme.

O desenvolvimento de Pequeno Segredo é de um típico filme de Hollywood. Você e eu já assistimos a várias produções do gênero. A história começa “pelo final”, com uma espécie de “pílula” de um momento importante da história, e depois a narrativa é dividida em duas partes que se desenvolvem paralelamente. Até aí, nenhuma novidade. Pequeno Segredo realmente não apresenta nada de muito novo, seja na história, seja na técnica narrativa. Mas é um filme muito bem acabado, com belas cenas, bem conduzido pelo diretor e com um ótimo elenco, além de uma trilha sonora que é um verdadeiro presente para os ouvidos.

O roteiro convence por grande parte do tempo. Mas acho que a história perde força do meio para o final, quando a relação de Kat com a família não é tão desenvolvida quanto poderia e quando, principalmente, a narrativa perde as cores e o caráter típico do Pará para abraçar o menos interessante cenário de Auckland, na Nova Zelândia. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas o momento em que o roteiro realmente deixou a desejar foi quando Atherino e Bernstein “forçam uma barra” na discussão entre Heloísa e Barbara. Aquele discurso da mãe da protagonista sobre o amor eu achei bem complicado. Poderia ser, a meu ver, melhor escrito.

Mas, no geral, a perspectiva do filme sob a ótica dos sonhos e dos desejos de Kat, valorizando a relação dela com a mãe, em especial, e a história da menina desde a sua origem através da relação de amor entre Robert e Jeanne são acertadas. Só eu senti falta de ver mais da relação de Kat com as demais pessoas da família – os irmãos praticamente não aparecem e o pai, muito pouco -, assim como entender um pouco melhor qual foi a relação dela com os pais biológicos e a avó. Afinal, pelo que dá para entender na “visita” surpresa de Barbara no aniversário de 13 anos de Kat, a avó não era uma desconhecida, mas alguém com quem Kat mantinha uma certa relação.

O roteiro do filme, para mim o único ponto mais fraco da produção, acaba apostando demais na vida comum da pré-adolescente do que em mostrar com profundidade as suas relações familiares. Dá para entender isso sob a perspectiva de que os realizadores talvez quiseram mostrar como uma menina soropositiva (ainda que ela não soubesse disso) pode ter uma vida normal, tendo os mesmos anseios, dúvidas e medos que qualquer menina de sua idade. Quando todos sabem sobre o “segredo” de Kat, o filme abre mão de explorar a fase derradeira da doença para mostrar a menina no auge do seu sonho.

Neste momento, fica claro que Pequeno Segredo é uma homenagem de David Schürmann para a sua irmã – algo que ele torna claro na dedicatória final, quando homenageia também a mãe. Há que se entender isso para compreender as escolhas artísticas do filme. É algo bacana, e honroso. Pensando de forma artística, contudo, teria sido interessante explorar melhor as demais relações da menina e, de alguma forma, mesmo que com imagens de flashbacks de lembranças dela ou da mãe, mostrar mais da vida que Kat levou antes daqueles últimos anos.

A história em si é fabulosa. A doação dos Schürmann, especialmente de Heloísa, para aquela menina, assim como a vida maravilhosa que ela teve sobre a Terra. Senti falta de ver mais desta vida incrível, cheia de aventuras e de conhecimento. Sobre a mensagem do filme, acho que Pequeno Segredo nos faz pensar sobre o quanto a vida é valiosa. Que não importa se vivemos 10 ou 90 anos, desde que esta vida tenha sido plena, com a realização de sonhos e com muito amor recebido e doado. Apenas por estas reflexões e pelo cuidado com que este filme homenageia pessoas especiais, ele merece ser visto. E também receber a nota abaixo.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pequeno Segredo é um filme tipicamente hollywoodiano. Tanto pela forma com que a história é contada, como pela linguagem adotada pelo diretor. Se o filme tivesse o selo “made in Hollywood”, não seria estranho que ele pudesse ser indicado no Oscar 2017 para categorias como Melhor Trilha Sonora ou Melhor Direção de Fotografia. Mas como ele é um filme brasileiro, dificilmente vai conseguir qualquer indicação. Afinal, Hollywood gosta de premiar Hollywood nas categorias principais do Oscar – mesmo nas técnicas.

O filme de David Schürmann está concorrendo com outras 84 produções de países de todos os continentes a uma das cinco vagas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2017. O problema é que ele é um bom filme em uma categoria errada. Para aparecer na pré-lista dos nove filmes indicados nesta categoria e, principalmente, para figurar na lista dos cinco finalistas é preciso ter muito mais do que Pequeno Segredo nos apresenta.

A história recente do Oscar demonstra que os votantes da Academia procuram filmes ousados na narrativa ou na técnica. Histórias fortes, surpreendentes, com grandes interpretações ou que apresentem histórias conhecidas mas de forma diferenciada. Isso aconteceu no Oscar 2016, com Saul Fia (comentado aqui), que tratou de um tema conhecido, o Holocausto, mas com uma técnica refinada e diferenciada; em 2015 com Ida (com crítica neste link), que tem um roteiro com uma pegada interessante e diferenciada; em 2014 com La Grande Bellezza (comentado por aqui), um filme interessantíssimo tanto pela técnica quanto pelo roteiro; em 2013 com Amour, um filme excepcional (com crítica neste link), e assim poderíamos seguir comentando mais alguns anos. Todos estes tem em comum uma produção excepcional e grandes acertos de roteiro, direção e em outros elementos das produções.

Na pré-estreia de Pequeno Segredo para a qual eu fui convidada nesta terça-feira, Priscila Beleli, que faz parte da Ocean Films, responsável por esta produção junto com a Schurmann Film Company, comentou que realmente o grande desafio da equipe é fazer os votantes da Academia assistirem a Pequeno Segredo. Ela comentou que a maioria não fica nem sabendo de todos os 85 indicados como Melhor Filme em Língua Estrangeira. Então o primeiro desafio é fazer Pequeno Segredo ser conhecido nos Estados Unidos e, depois, convencer os votantes a conferir a produção.

Para ajudar na divulgação do filme nos Estados Unidos, a Ocean Films e a Schurmann Film Company contrataram uma equipe nos Estados Unidos para promover sessões de divulgação do filme e para providenciar anúncios em jornais e revistas especializadas. Depois de ter pré-estreia no Festival Internacional de Cinema do Rio, Pequeno Segredo teve duas exibições na semana passada em Los Angeles e, nesta segunda-feira, teve pré-estreia em São Paulo. De acordo com Priscila Beleli, o filme foi bem recebido nas sessões em Los Angeles. Os pais do diretor, Heloísa e Vilfredo Schürmann, teriam visto pela primeira vez a produção neste último domingo.

Ainda de acordo com Priscila Beleli, que trabalha com o produtor João Roni, no dia 17 será feita uma sessão de Pequeno Segredo para os votantes do Oscar organizada pela própria Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. No dia 2 de dezembro a assessoria americana contratada pelos produtores do filme fará uma sessão para convidados – a ideia é ter neste encontro votantes da Academia. “A campanha conta com anúncios em revistas especializadas como Variety, The Hollywood Reporter, Los Angeles Times e as mídias digitais The Wrap e Indie Wire”, detalhou.

Nesta “cruzada” da campanha dos produtores de Pequeno Segredo para o Oscar – é tão importante fazer uma boa campanha quanto ter um bom filme para a disputa -, eles contam com o apoio da Ancine, do MRE (Ministério das Relações Exteriores), do Programa Cinema do Brasil/Apex, do Ministério da Cultura e da Embratur. O primeiro objetivo dos realizadores do filme é conseguir fazer com que ele apareça na lista de nove filmes da pré-lista da categoria e que deve ser divulgada em dezembro e também fazer com que o filme emplaque no Globo de Ouro 2017.

Da parte técnica do filme, além dos nomes já destacados, vale citar o bom trabalho do editor Gustavo Giani, o design de produção de Brigitte Broch e o competente trabalho do departamento de arte com 11 profissionais.

Depois de estrear em circuito limitado no Brasil no dia 22 de setembro – a tempo de poder se habilitar para o Oscar -, Pequeno Segredo vai estrear oficialmente no país nesta quinta-feira, dia 10 de novembro. Espero que ele se saia bem nas bilheterias. É uma história que merece ser conhecida, sem dúvidas.

Para mim foi um verdadeiro deleite ver várias imagens da minha querida cidade adotiva, Florianópolis, na telona. Realmente é uma cidade belíssimas. Os outros locais em que o filme foi rodado foi a cidade de Belém, no Pará, e de Auckland, na Nova Zelândia.

Até o momento o filme de David Schürmann não participou de nenhum festival competindo a prêmios e nem ganhou nenhum prêmio da crítica. Veremos que caminho o filme fará a partir de agora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,4 para a produção. Levando em conta os padrões do site, esta até que é uma boa avaliação. Mas o filme ainda é desconhecido no Exterior. Prova disso é que ele nem aparece na lista de produções do Rotten Tomatoes, site que reúne críticas de diversos países, mas especialmente dos Estados Unidos.

Algumas pessoas podem achar estranho como o ator Marcello Antony praticamente não abre a boca no filme. Realmente o personagem dele acaba tendo um papel bastante secundário. Eu não sou próxima da família Schürmann, mas falando com pessoas que os conhecem bem, me disseram que realmente o pai da família, Vilfredo, é uma pessoa de poucas palavras. Muito diferente da esposa, Heloísa, que falaria bastante. Isso ajuda a explicar, pois, o personagem de Antony.

Este filme entra na lista de produções que atendem a votações aqui no blog porque há tempos atrás vocês pediram mais produções do Brasil por aqui.

CONCLUSÃO: Um filme bem acabado, com uma direção cuidadosa e bem ritmada, Pequeno Segredo tem muito mais qualidades do que defeitos. Algumas de suas qualidades maiores – a trilha sonora soberba, a ótima direção de fotografia e a competente direção geral – estão logo nos primeiros minutos da produção. Apenas o roteiro, que começa muito bem intercalando dois tempos narrativos, poderia ter sido um pouco mais lapidado até a reta final. Ainda assim, está claro que o filme atinge o seu objetivo, que é nos fazer pensar sobre questões importantes da vida e, principalmente, homenagear uma menina que soube viver muito bem a sua vida. Sem dúvida o Brasil está bem representado no Oscar, apesar deste ser um ano muito complicado para um filme como Pequeno Segredo.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Pequeno Segredo não está concorrendo em uma categoria qualquer do prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele está concorrendo justamente como Melhor Filme em Língua Estrangeira, uma categoria que tem várias particularidades. Pelos motivos que eu comentei anteriormente, a tarefa de Pequeno Segredo de deixar 80 concorrentes de fora da disputa e figurar entre os cinco finalistas desta categoria é bastante improvável, para não dizer impossível.

Um tanto “hollywoodiano” demais para a competitiva e alternativa categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, Pequeno Segredo deve se esforçar muito para ser visto este ano. A preferência dos votantes da Academia estará para assistir aos favoritos Elle, da França, dirigido pelo sempre interessante Paul Verhoeven e protagonizado pela excelente Isabelle Huppert (adianto por aqui que ele será o meu próximo na fila); Toni Erdmann, da Alemanha, produção que já acumula sete prêmios na temporada pré-Oscar; Neruda, do Chile, dirigido por Pablo Larraín e estrelado por Gabriel García Bernal; The Salesman, do Irã, do sempre talentoso e premiado Asghar Farhadi e que já tem cinco prêmios no currículo por esta produção; e Land of Mine, da Dinamarca, o mais premiado desta temporada, com nada menos que 21 conquistas até agora.

Estes filmes – Elle, Neruda, The Salesman, Toni Erdmann e Land of Mine – são os mais apontados pelas listas de apostas de especialistas que começam a despontar aqui e ali. Apenas com eles, a lista das cinco produções que vão concorrer à estatueta dourada estaria completa. Mas alguns destes filmes pode ficar de fora (como Neruda, por exemplo), o que deixaria a quinta vaga em aberto. O problema é que Pequeno Segredo é ainda bastante desconhecido fora do Brasil e há outros nomes que aparecem na sequência entre os filmes que podem conseguir esta quinta vaga.

São exemplo de concorrentes com chances maiores do que o brasileiro o filme espanhol Julieta, de Pedro Almodóvar, fruto de uma safra menos interessante do diretor espanhol (e comentado aqui); o italiano Fire at Sea, que tem seis prêmios até o momento; e o venezuelano Desde Allá, que pode não ser excepcional, mas tem um roteiro mais forte que Pequeno Segredo (a crítica sobre ele pode ser acessada neste link). Ou seja, Pequeno Segredo corre muito por fora. Só mesmo uma grande campanha pré-Oscar e bastante lobby para fazer o filme aparecer na lista das nove produções que avançam na disputa e que será divulgada em dezembro.

Desde Allá – From Afar – De Longe Te Observo

30 de julho de 2016 6 comentários

desdealla1

Há histórias que são bem complicadas. Olhe você pelo ângulo que você quiser. Desde Allá é uma destas histórias. Um filme interessante ao apostar em dois personagens centrais que não gostam muito de falar – e, consequentemente, sabemos pouco sobre as suas próprias motivações. Quando eles falam, raramente tratam do que realmente interessa. Isso torna a história um bocado aberta e, por isso, suscetível a surpresas. E elas existem. Filme duro e que faz pensar.

A HISTÓRIA: Do alto de um viaduto, Armando (Alfredo Castro) observa o movimento de um ponto de ônibus. Ele desce e se aproxima de várias pessoas, especialmente de um jovem rapaz. O ônibus chega, e Armando pega ele seguindo o rapaz. No ônibus Armando mostra um maço de dinheiros para o jovem. Os dois vão para o apartamento de Armando, que pede para o rapaz ficar de costas e tirar a camisa e abaixar a calça até uma certa altura.

Armando se masturba e vai para dentro da casa enquanto o rapaz pega o dinheiro e vai embora. No trabalho, Armando lapida mais uma prótese e depois ganha bem de um cliente. Em breve ele procurará mais um jovem que poderá visitá-lo em casa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Desde Allá): Gosto de filmes que não são óbvios. Tanto na narrativa quanto na história. Desde Allá é um destes filmes surpreendentes porque, aparentemente, ele é muito singelo. Começa simples, mas vai ficando complicado pouco a pouco. No início, temos um cara de meia idade que paga jovens para que eles sirvam de objeto para o seu desejo.

Inicialmente esta é a leitura fácil do personagem principal desta história. Mas ele vai se mostrando mais complexo com o tempo. Assim como a própria narrativa vai ficando mais complexa. O roteiro do diretor Lorenzo Vigas baseado na história de Vigas e de Guillermo Arriaga é uma verdadeira aula de cinema. Ele vai se revelando pouco a pouco, camada a camada, e não responde a tudo que o espectador gostaria de ter respondido. Alguns podem ficar chateados com isso, mas eu acho sempre uma escolha corajosa dos realizadores fazerem isso. Afinal, quando você não responde tudo, deixa parte da obra aberta e suscetível a interpretações. Isso é sempre positivo.

No início, parece algo evidente que Armando é gay ou, ao menos, tem uma grande inclinação gay – em momento algum fica claro se ele apenas pagava para os jovens servirem de objeto de desejo ou se ele já tinha tido uma relação física homossexual. Mas não demora muito para o filme introduzir outra questão que parece secundária mas que, com o tempo, não vai se mostrar de segundo plano: o ódio que o protagonista tem do próprio pai.

Este acaba sendo um ponto importante da história. (SPOILER – não leia se você não viu ao filme). Logo depois de Armando levar o primeiro jovem para o apartamento, ele faz uma visita à sua irmã e cobra dela uma reação mais enérgica sobre a volta do pai deles. O que não sabemos, e vamos ficar sem saber, é exatamente o que o pai dos dois aprontou. Essa questão fica no ar, o que ajuda a pensarmos sobre o quanto ele teria de responsabilidade por Armando gostar de rapazes. Ele teria sido abusado pelo pai na infância e/ou adolescência, assim como a irmã dele? Mais tarde, quando Armando diz que a mãe já morreu, chegamos a pensar se ela teria sido morta pelo pai dele.

Estas questões não são respondidas. O que apenas deixa muitas perguntas sobre Armando no ar. Depois do primeiro jovem que vemos Armando levando para o apartamento, ele sai para “caçar” o seu mais novo objeto de desejo. E é assim que Elder (Luis Silva) entra na história. De forma muito inteligente Vigas constrói um filme que se divide entre os dois personagens, acompanhando a rotina deles juntos e separados. Desta forma vamos conhecendo mais sobre os dois. A diferença é que a vida de Elder acaba sendo bem mais aberta que a de Armando. E isso, vamos saber no final, fará toda a diferença.

Em diversos momentos deste filme você, como eu, pode pensar: “Que coragem!”. Primeiro, sempre achei muito corajosos os gays – e os heterossexuais, geralmente homens – que acolhem qualquer desconhecido(a) em casa para sanarem o seus desejos e apetites sexuais. Já ouvi algumas histórias de assassinato de gays que foram alvo de jovens, geralmente, que não aceitaram alguma parte da relação amorosa. Por isso mesmo achei muito corajoso Armando e sua caça permanente de jovens. Nem todos são gays e muitos aceitam aquela situação apenas porque precisam (ou querem simplesmente) dinheiro.

No início Elder acha um absurdo aquela situação com Armando. Mas o nosso protagonista não pensa em retroceder. Você imaginaria que o mais fácil seria ele ir atrás de um outro garoto, mas ele acaba procurando novamente Elder. Por muito tempo a relação do jovem com Armando é de resistência. Mas quando ele leva uma boa surra e não tem ninguém para ajudá-lo, Armando acaba fazendo este papel.

E daí surgem algumas das muitas perguntas deste filme. Afinal, o que Armando quer com Elder? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Caso ele tenha sido abusado pelo pai e percebe que tem a carência afetiva que ele tem por causa disso, ele resolve fazer diferente e dar uma oportunidade para o jovem que, claramente, tem poucos recursos? Ou ele encara Elder como um objeto de desejo que precisa ser conquistado e que precisa ter a resistência vencida? Em certo momento do filme, quando os dois estão em uma festa e Elder parte para cima de Armando, ele resiste. Naquele momento eu pensei que a primeira teoria estava certa. Que ele não queria, no final das contas, uma relação amorosa com o rapaz, mas apenas ajudá-lo.

Mas nada é simples em Desde Allá. Como eu disse antes, o roteiro de Vigas é muito inteligente ao avançar aos poucos na história dos dois protagonistas. Aparentemente a história de Elder é mais simples e franca do que a de Armando. Depois que cuida do jovem machucado, Armando começa a ganhar a confiança dele. Aos poucos o garoto vai abrindo a sua vida, mostrando o local em que ele trabalha, levando Armando para a festa da família e, depois que o novo “amigo” dele lhe ajuda a comprar um carro, os dois vão até a praia e Elder conta a verdade sobre o pai. Antes ele tinha dito que ele estava morto, mas naquele momento Elder revela que ele está preso.

Neste momento percebemos que Elder e Armando tem ao menos um ponto em comum: ambos tiveram pais abusivos e/ou criminosos. A diferença é que Elder ainda é jovem e frágil. Ainda que ele pratique pequenos crimes aqui e ali, ele está suscetível a ser manipulado. Armando já vive outra condição. Primeiro que ele tem dinheiro de sobra e, depois, ele sabe manipular – ele não parece, mas é um caçador nato e experiente.

Elder, como tantos jovens venezuelanos e também do nosso país, vem de uma família desestruturada e sem bons exemplos. Vive em um local complicado, sem recursos, apanhava muito quando era criança e teve um amigo morto pelo pai que, depois, foi preso. “Largado na vida”, por assim dizer, ele faz o que é preciso para conseguir o que quer. Daí os pequenos crimes – furtos e roubos – e a condição de alvo fácil de Armando. Ele quer conquistar as coisas, como comprar um carro restaurado após um acidente, mas não sabe exatamente o caminho certo para fazer isso.

Armando vê naquele garoto exatamente o que ele precisa. Só que como ele é um sujeito que observa muito e fala pouco, não sabemos muito bem, pelo menos até o final, o que realmente ele quer de Elder. Infelizmente o rapaz acaba sendo manipulado por Armando na medida certa. Experiente, Armando sabe exatamente como cuidar de Elder – algo que ninguém fez por ele até então – e atraí-lo da forma correta. Tanto que quando o rapaz já está fascinado por Armando, ele sabe muito bem não “entregar o ouro” até que ele tenha conseguido exatamente o que ele quer.

Por isso mesmo, no início de Desde Allá, fiquei com raiva de Armando porque sempre acho um absurdo um adulto se aproveitar de alguém mais frágil – neste caso adolescentes, mas em outros casos são crianças – para satisfazer os seus desejos. Ainda que os jovens atraídos pelo dinheiro de Armando não fossem tocados ou não estivessem de frente vendo a masturbação dele, sem dúvida alguma eles estavam sofrendo ali um abuso psicológico de caráter sexual.

Por que ele não procurava um gay como ele para desenvolver uma relação ao invés de abusar de jovens em vulnerabilidade social? Por isso, no início, fiquei com raiva dele. Depois, ao achar que ele realmente tivesse boas intenções com Elder, dei a ele o privilégio da dúvida. Mas aí veio o final… que grande, grande FDP! Impossível não terminar este filme odiando ele. Haja coragem para ser tão “hijo de puta”.

E muitos podem se perguntar: ok, mas como um rapaz que tinha “ódio”, aparentemente, de gays, acaba desenvolvendo desejo sexual e se apaixonando por um homem com bem mais idade que ele? Ora, para mim esta questão tem duas explicações. Primeiro que Armando soube manipular muito bem Elder ao ponto de despertar nele interesse e atração. O jovem, sem uma figura paterna em casa – e a figura que ele teve era violenta – acaba encontrando “proteção”, carinho e segurança na figura de Armando. Sem contar, claro, que o dinheiro dele atraia o jovem interessado em obter o que ele queria.

A segunda explicação é que eu acho que todos nós podemos nos interessar pelas pessoas independente do gênero que elas tenham. Podemos achar sexy ou bonitas pessoas do mesmo sexo, mesmo que não sejamos bissexuais ou homossexuais, mas daí a ter desejo e de realizá-lo são outros quinhentos. Quando se é jovem, me parece, as pessoas estão mais sujeitas a experimentar. Agora, quanto mais idade uma pessoa tem, mais ela vai tendo claro o que ela gosta e o que pode lhe atrair. Acho que tudo isso ajuda a explicar a mudança de comportamento de Elder.

Desde Allá é um filme muito bem construído e bem planejado. A história vai crescendo aos poucos ao mesmo tempo em que vai entregando pequenas colheradas de informação sobre os personagens principais. A relação entre os dois também vai se tornando mais complexa, e o entorno social acaba jogando um papel fundamental. Por tudo isso o filme faz pensar. Nos faz refletir sobre como pessoas em condições sociais frágeis podem ser manipuladas e exploradas por pessoas com um poder aquisitivo e cultural maior. Também nos faz refletir sobre os desejos e as carências, e sobre como devemos controlá-los para não sermos controlados por eles. Grande filme.

NOTA: 9,7 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei impressionada pelo trabalho dos dois atores principais. Incríveis, ambos. Também excepcional o roteiro de Lorenzo Vigas. Muito bem construído e com diálogos precisos. Alfredo Castro está incrível em um trabalho cirúrgico como o silencioso e observador Armando. Por outro lado, Luis Silva dá um show como um jovem aparentemente capaz de tudo mas que é, também, muito sensível. Elder tinha um grande potencial, pena que ele próprio não tenha enxergado isso.

Em muitos e muitos momentos o trabalho dos atores é resolvido olho no olho, em silêncio. Uma escolha acertadíssima de Lorenzo Viegas e equipe. Desta forma que o espectador percebe a intensidade das interpretações que, por consequência, passam muita legitimidade.

Este filme é centrado em Armando e Elder. Mas há alguns atores coadjuvantes da história interessantes. Pena que poucos são chamados pelo nome na produção, o que dificulta saber exatamente quem é quem. Consegui mais ou menos identificar Jericó Montilla como Amelia, mãe de Elder; Catherina Cardozo como Maria, irmã de Armando; e Jorge Luis Bosque como Fernando, cunhado de Armando. Merecem destaque também os rapazes que fazem parte do grupo de amigos de Elder, mas infelizmente não consegui identificar o nome deles na história.

Da parte técnica do filme, mérito principal para o diretor e roteirista Lorenzo Vigas. Ele não apenas constrói a história muito bem como sabe conduzi-la privilegiando sempre a interpretação dos atores sem esquecer de outro elemento importante no filme: o entorno no qual eles vivem. Em muitos momentos Vigas recorre a planos de câmera que não são muito usuais, mas que são muito acertados e inteligentes ao valorizar alguns aspectos da narrativa. Belo trabalho.

Outros aspectos importante e que são muito bem realizados nesta produção são a direção de fotografia de Sergio Armstrong; a ótima edição de Isabela Monteiro de Castro; e os recursos que ajudam a dar o clima certo e a contar a história dos personagens centrais como a direção de arte de Matías Tikas, a decoração de set de Carolina Carlini Bellazzini e os figurinos de Marisela Marin. Tudo muito moderno, contemporâneo, mas escolhido à dedo para casar com cada um dos personagens centrais. Muito bom também o trabalho do departamento de som com 11 profissionais envolvidos. Aliás, vale comentar que Isabela Monteiro de Castro é brasileira e tem no currículo filmes como Madame Satã, Cidade Baixa, O Céu de Suelly e Praia do Futuro.

Algo importante que este filme e a vida real também mostra: os manipuladores são muito bons no que eles fazem. Alguém que manipula outra pessoa nunca parece estar realmente fazendo isso. Por isso, meus caros, fica a dica: muita atenção para quem vocês colocam para dentro da vida de vocês.

Desde Allá estreou no Festival de Cinema de Veneza em setembro de 2015. Depois o filme passaria ainda por outros 28 festivais, sendo o mais recente deles o Festival Internacional de Cinema de Melbourne que começa no próximo dia 5 de agosto.

Como o filme mesmo sugere, ele se passa e foi todo rodado na cidade de Caracas, na Venezuela.

Desde Allá é o primeiro longa do diretor Lorenzo Vigas. Este venezuelano de Mérida que tem 49 anos de idade fez a faculdade de Biologia Molecular na Universidade de Tampa, na Flórida, e em 1995 resolveu dar uma guinada na vida e estudar cinema na Universidade de Nova York. Em 1998 ele voltou para a Venezuela para filmar a série de documentários para a TV Expedition. A primeira produção dele para o cinema foi o curta Los Elefantes Nunca Olvidan, de 2004, que ganhou diversos prêmios. Certamente é um nome que merece ser acompanhado.

O ator Alfredo Castro tem 60 anos de idade e nasceu em Recoleta, da região metropolitana de Santiago do Chile. Ele tem 51 trabalhos no currículo como ator e nove prêmios. Sobre Luis Silva eu não encontrei mais informações, mas gostei muito do trabalho dele. Acho que ele merece ser acompanhado.

Desde Allá ganhou sete prêmios e foi indicado a outros nove. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Leão de Ouro como Melhor Filme no Festival de Cinema de Veneza. Além deste prêmio, ele ganhou os de Melhor Ator para Alfredo Castro e de Melhor Roteiro para Lorenzo Vigas no Festival de Cinema de Thessaloniki; o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cinema de Miami; o prêmio de Primeiro Trabalho no Grand Coral do Festival de Cinema de Havana; e a Menção Honrosa do Horizons Award para Luis Silva no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção e os críticos que tem os seus textos linkados pelo Rotten Tomatoes dedicaram 29 críticas positivas e sete negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 81% e uma nota média de 7,1. Achei as avaliações boas, mas eu considerei o filme melhor do que a maioria do público e da crítica.

Desde Allá é uma coprodução da Venezuela e do México. Belo filme que só demonstra a forma do cinema latino.

CONCLUSÃO: A vida está repleta de fragilidades, desejos, fraquezas e coragem. Há pessoas que fazem escolhas e tomam certas atitudes que nos chocam. Desde Allá nos conta histórias que misturam tudo isso. Um filme forte, com ótimos atores interpretando os personagens principais e uma história que nos faz pensar sobre a fragilidade humana. Quantas pessoas vivem uma vida de carências que as faz serem alvos fáceis de gente inescrupulosa? E o pior de tudo é que estas pessoas “do mal” dificilmente são identificáveis. Elas sabem fingir bem. Desde Allá é um soco no estômago sobre famílias desestruturadas, abuso das mais diversas formas e um bocado da realidade que é possível encontrar por aí, se você quiser ver e não tapar os olhos. Potente e indicado para quem não temem ficar mal após o final.

ATUALIZAÇÃO (13/11): Meus caros leitores, tenho que fazer uma ressalva por aqui. Quando assisti Desde Allá, a lista dos 85 filmes que estavam habilitados para concorrer na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar ainda não tinha saído. Depois sim, o filme passou a figurar na lista como o candidato da Venezuela para a maior premiação do cinema de Hollywood e uma das principais do mundo.

Como vocês sabem, se me acompanharam em coberturas anteriores do Oscar, quando um filme passa a ter chances, avalio ele não apenas isoladamente, como faria normalmente, mas levando em conta também os seus concorrentes na disputa. Por isso que eu acabei abaixando a nota de Desde Allá. O filme, isoladamente, merecia realmente a nota 9,7, mas se eu analiso ele comparando com os concorrentes, ele não pode ter a mesma nota de Under Sandet (comentado aqui) – este sim merecedor de 9,7. Por isso o ajuste na nota acima, beleza?

PALPITES PARA O OSCAR 2017: A Venezuela escolheu bem o representante do país para o Oscar 2017. Desde Allá é um filme forte, interessante, provocador. Ele se parece, um pouco, com outro forte concorrente na disputa para o próximo ano, o francês Elle. Os dois filmes tem em comum o forte apelo sexual, a manipulação e a busca pela sobrevivência, além de contas mal ajustadas de seus protagonistas com os seus pais.

A diferença entre eles reside mais no tipo do protagonista (no filme venezuelano temos um homem na meia idade e, no francês, uma mulher que também está entrando nesta faixa etária) e no contexto social de cada um deles. A desigualdade social e de condições é muito mais explorada e evidente em Desde Allá, enquanto em Elle são ressaltadas a vida independente de uma mulher e a força das mídias (televisão, imprensa em geral e games).

Pessoalmente, até prefiro Desde Allá do que Elle. Os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood podem acabar optando por Elle, tanto pelo trabalho da atriz, que realmente está impecável, mas especialmente pela tradição do cinema francês – muito mais conhecido dos votantes do que o venezuelano. Veremos se eles vão optar pelo mais “óbvio” ou vão ousar na escolha. De qualquer forma, acho que só há espaço para um dos dois em uma vaga na disputa.

Truman

30 de abril de 2016 2 comentários

truman1

O nosso coração sempre sabe de quem gostar, em quem confiar. Pelo menos quando falamos de amizade e de relações a longo prazo. Truman fala sobre amor, amizade, reencontros e decisões que não são fáceis de encarar. Um filme sensível, singelo, despretensioso e com dois dos maiores atores do cinema em língua espanhola dos últimos tempos como protagonistas e fazendo um dueto incrível. Procure não saber muito do filme antes de assisti-lo. Só assim vais aproveitar ao máximo tudo o que os realizadores de Truman prepararam pelo caminho.

A HISTÓRIA: Uma rua de um bairro residencial com casas cobertas de neve. Chega um táxi. Dentro da casa, Tomás (Javier Cámara) toma uma bebida quente, confere que as crianças estão dormindo e vai até a cama dar um beijo na mulher. Depois, ele termina de se arrumar para encarar o frio novamente. Desta vez, ele se prepara para viajar. Com atenção, contempla no caminho as paisagens cheias de neve e geladas. Com o passaporte espanhol na mão, Tomás voa para o seu país de origem. Em Madri, ele fica hospedado em um hotel, muito próximo da casa de Julián (Ricardo Darín), motivo de sua viagem de retorno, de reencontros e de novas descobertas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Truman): Caros leitores, realmente só leiam este texto depois de terem assistido ao filme. Repito isso pela enésima vez e sendo até chata porque, sem dúvida, uma das forças de Truman é o roteiro fantástico escrito por Cesc Gay e Tomàs Aragay. E o texto deles só tem o impacto desejado se a história for descoberta assistindo ao filme e não antes.

Dito isso, impossível não comentar: que filme é esse, minha gente? Estrelado por dois atores magistrais, fantásticos, que repassam para quem vê esta produção a emoção adequada do primeiro até o último minuto. Não há excessos em Truman. O roteiro de Gay e Aragay é justo em cada palavra e em cada silêncio, e Cámara e Darín são soberbos ao viver as emoções de seus personagens em cada momento, especialmente nos olhares e momentos de silêncio.

Vou admitir, logo aqui no início, que chorei um bocado neste filme. Pelo menos em dois momentos as lágrimas caíram sem vergonha. Na verdade, acho difícil alguém assistir a Truman e não se emocionar, inclusive chorando em um ou mais momentos. Mas sei também que cada um vivencia o cinema e as suas histórias de uma maneira, é claro. Isso sempre foi assim e sempre será. Possivelmente esse filme faça pessoas que já tem uma certa trajetória de vida entender na plenitude o que Gay e Aragay quiseram dizer. Imagino eu adolescente assistindo a Truman e não tendo a mesma leitura que a Alessandra de agora, possivelmente com metade da vida já vivida e tendo presenciado tantas histórias de dores e mortes pelo caminho.

Porque este filme tem muito a ver com a passagem do tempo, com uma vida bem vivida e com o enfrentamento do fim inevitável. E tudo isso fica mais claro conforme vivemos, presenciamos despedidas e encaramos a nossa própria fragilidade. Mas Truman não é apenas isso, mas uma reflexão comovente sobre as relações que realmente são importantes e sobre a aceitação dos limites que cada um de nós tem.

No início desta produção, cheguei a me perguntar sobre a natureza da relação entre os protagonistas, entre Tomás e Julián. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Naquele primeiro contato entre eles, os segundos em que ficaram se olhando e não falaram nada, mil sentimentos passaram na nossa frente. Tomás poderia ter tido uma relação amorosa com Julián e depois ter casado e tido filhos? Mas não demora muito para essa possibilidade desvanecer e ficar claro que eles são apenas grandes amigos. Ou melhor, são um o melhor amigo do outro.

Pouco a pouco o roteiro também vai deixando claro a razão da viagem de Tomás. Ele voltou para Madri para tentar convencer o amigo a não desistir da vida. Depois que eles se encontram, Julián primeiro vai consultar o veterinário (Alex Brendemühl) que cuida de Truman para saber como ele pode ajudar o cão a ter uma adaptação melhor sem ele. Na sequência, todas as dúvidas são respondidas quando Julián vai em mais uma consulta com o seu médico (Pedro Casablanc). Depois de batalhar bastante contra um câncer agressivo, agora a doença retornou com mais força e ele está cansado.

Quando Tomás viaja para visitar o amigo, ele ainda tem a esperança de que Julián pode mudar de ideia. Que ele pode decidir por continuar lutando contra a doença. Mas Julián é muito claro, ao falar com o médico, de que ele está cansado e que quer viver o resto do tempo que ele tem com dignidade e não definhando em uma cama de hospital. Tomás é sutil nas tentativas, como quando ele vai com o amigo para uma livraria. Só que nada surte efeito porque Julián está tranquilo, em paz com a decisão que tomou.

Como tantas pessoas que já viveram um bocado de tempo, ele está tranquilo com o que fez da própria vida e tem por estilo não ter muitas “papas na língua”. Há vários exemplos dele sendo sincero com diversas pessoas no filme, em uma espécie de acerto de contas com todos que encontra. Ainda que ele tenha muita coragem, algo inerente para quem enfrenta algo tão duro quanto o fim da própria vida, ele é humano e também tem momentos de “covardia”. Como quando não consegue contar para o filho exatamente o que está passando.

Uma das belezas de Truman é que este filme é humano, demasiadamente humano. Por isso mesmo ele trata da vida e da morte, e de boa parte dos frutos destas duas realidades, como os afetos, os amores, o perdão, a raiva, a compreensão e a incompreensão. Tomás viaja sabendo que possivelmente esta será a última vez em que ele verá o seu grande amigo. Pensa que talvez consiga fazer alguma diferença, mas logo aceita que não e que o melhor é realmente respeitar a vontade de Julián. Isso é amor. Você respeitar a vontade da pessoa que você ama, mesmo não concordando com ela.

Julián, por sua vez, vive altos e baixos. Ao mesmo tempo que está seguro e sereno sobre a decisão que tomou e parece ter coragem de enfrentar o que virá, em alguns momentos ele revela fragilidade, insegurança e carência. Todos sentimentos previsíveis de quem está encarando o próprio fim. Altruísta, ele está preocupado com Truman, o seu grande companheiro de muitos anos. Quem já teve um cão ou outro animal de estimação com quem compartilhou vários anos de sua vida vai, com certeza, entender a preocupação pela que passa Julián.

Para mim, as peripécias de Julián para encontrar a “pessoa certa” para ficar com Truman revela todo o amor e sensibilidade do personagem. Não é porque ele vai morrer que ele deve entregar o seu “companheirão” para qualquer pessoa ou deixá-lo em qualquer lugar. Tomás acompanha o amigo em cada passo e é doloroso fazer isso. Mas, ao mesmo tempo, ele também acaba aceitando melhor a situação que está se apresentando. Os dois amigos, na verdade, estão em processo de aceitação. A despedida derradeira nunca é fácil, apesar disso.

Vale destacar também a diferença entre Tomás e Paula (Dolores Fonzi). Ela é a pessoa mais próxima de Julián e, por ser de sua família, não consegue aceitar que ele vai embora para sempre. Normalmente os familiares tem esse problema de aceitação. Eles querem que a pessoa lute e brigue até o final, e fica difícil aceitar qualquer outra alternativa. Para um amigo também não é fácil, não estou dizendo isso.

Mas o interessante é que Tomás e Paula encarnam duas personalidades diferentes e bem comuns em situações assim. Ele aceita a decisão do amigo, mesmo lhe doendo muito. Ela não, porque gostaria que ele lutasse até o final. Honestamente, entendo e consigo me colocar no lugar dos dois. Isso não é fácil, qualquer espectador mais sensível sente a dor de cada um dos personagens, porque esta história é de alta empatia. Mas apesar de toda a força de Paula, no fim, e isso Truman nos mostra muito bem, cada um sabe onde lhe aperta o calo. Cada um sabe as alegrias e as dores por que passou como ninguém mais.

Então, até podemos argumentar, torcer mas, no fim das contas, cada um deveria saber a forma com que quer viver e acabar a própria trajetória. Aceitar nem sempre é fácil, mas obrigatoriamente fará parte do processo. Quanto antes conseguimos sair do campo do que queremos e passamos para o campo de aceitar, entender e respeitar o desejo de quem amamos, melhor. Por mais que a situação seja difícil e definitiva. Porque, no fim das contas, o que realmente fica e vale é o que vivemos juntos, o que demonstramos e como passamos o nosso tempo. Truman fala disso tudo com muita sinceridade e interpretações maravilhosas. Não é preciso nada mais.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sou uma apaixonada por filmes que nos fazem imergir em uma realidade, em uma história, especialmente quando o foco desta narrativa são pessoas e suas relações e sentimentos. Para mim, estes são filmes “humanistas”, porque tratam de pessoas e da própria humanidade. São, justamente, os que eu mais aprecio. Truman é um grande exemplar deste tipo de filme.

Além de dois atores soberbos, Truman tem um roteiro exemplar. O diretor Cesc Gay escreveu Truman junto com Tomàs Aragay e fez desta união um grande trabalho. Truman tem momentos de pura emoção e vários trechos de humor na medida – afinal a vida, mesmo perto da tragédia, não deixa de ser cômica. Como este filme trata de vida e de morte, não tinha como ele ignorar o drama e a comédia, a base de qualquer grande obra.

Enquanto a história se desenvolve, Julián vai prestando contas e fazendo tudo que ele acha necessário fazer antes de partir. Curioso que nós deveríamos fazer isso mais vezes também. Afinal, nunca sabemos quando será a nossa vez. Julián teve a “sorte” de fazer o que queria antes de partir porque sabia que a “sua hora” estava chegando. Mas e todas aquelas pessoas que partem repentinamente e que não podem fazer o mesmo? Seja mortas por acidente, crime ou por um ataque cardíaco fulminante? Ninguém está livre disso e, por mais que não gostemos de pensar na nossa mortalidade com muita frequência, deveríamos agir mais vezes como se “não tivéssemos amanhã”. Seria mais fácil encarar o fim quando ele realmente aparecesse.

Outro elemento que faz Truman entrar na minha lista de grandes filmes é que ele se passa em Madri. Como vocês sabem, o cinema é uma ótima forma de viajarmos no tempo e no espaço e a visitar e/ou revisitar lugares que não conhecemos ou aqueles que amamos e que não podemos vivenciar tanto quanto gostaríamos. Como eu vivi em Madri por três anos e voltei algumas vezes para lá desde então, sempre é um prazer ver a cidade na telona. Meu coração bateu forte ao ver o Café de Belén logo no início, um dos pontos queridos de quem vive naquela cidade.

Sou fã de carteirinha de Ricardo Darín (e quem não é?) e de Javier Cámara. Aqui eles fazem mais uma grande entrega. Palmas para Cesc Gay que conseguiu reunir estes dois monstros em uma mesma produção. Além deles e dos atores já citados, com destaque especial para Dolores Fonzi, que faz um grande trabalho também, vale comentar a atuação de outros atores muito bons em papéis secundários. Para começar, destaco Eduard Fernández, um competente ator espanhol, que faz uma ponta como Luis, amigo de Julián que foi traído por ele e com o qual ele se encontra em um restaurante; Oriol Pla como Nico, filho de Julián; José Luis Gómez, outro veterano ator espanhol, como o produtor de teatro que acaba dispensando Julián da peça que ele estava fazendo; Javier Gutiérrez como o assessor da funerária; Elvira Mínguez como Gloria, ex-mulher de Julián e mãe de Nico; e Lucie Desclozeaux como Sophie, namorada de Nico. Ah sim, e o cão que “interpreta” Truman se chama Troilo.😉

O roteiro de Truman é, junto com a dupla de protagonistas, o ponto forte do filme. Assim como a direção de Cesc Gay que está sempre cuidando da câmara estar perto dos atores e enfocando as suas emoções, expressões e reações. Além disso, o diretor não se esquece de mostrar o ambiente e a atmosfera em que estas pessoas se movem e onde elas vivem. Elementos fundamentais quando estamos contando uma história de vida.

Da parte técnica do filme, além da direção e do roteiro, vale destacar a direção de fotografia de Andreu Rebés e a edição de Pablo Barbieri Carrera. Também funcionam bem o design de produção de Irene Montcada, a direção de arte de Jorien Sont e os figurinos de Anna Güell. A trilha sonora de Nico Cota e Toti Soler é pouco presente, mas é boa e casa bem com a história.

Truman estreou em setembro de 2015 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, ele participou de outros oito festivais pelo mundo. Nesta trajetória o filme colecionou 26 prêmios e foi indicado a outros 21. Uma bela coleção – e merecida, diga-se. Entre os prêmios que recebeu, destaque para as seis categorias que abocanhou no Prêmio Gaudí, o principal do cinema catalão; para cinco estatuetas que recebeu no Prêmio Goya, o mais importante da Espanha; e para o SIGNIS Award – Special Mention no Festival Internacional de Cinema de Hong Kong.

Agora, uma curiosidade sobre o filme: depois da estreia de Truman nos cinemas, o diretor Cesc Gay informou a imprensa que Troilo, o cão que dá vida a Truman no filme, morreu de causas naturais alguns meses depois das filmagens terem terminado. Em alguns eventos com tapete vermelho para divulgação do filme nos quais o ator Ricardo Darín participou ele levou uma das filhas de Troilo na apresentação da produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para esta produção. Uma boa avaliação se levarmos em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 22 textos positivos para a produção. E isso é tudo. Este é um raro, muito raro exemplo de um filme que conseguiu 100% de aprovação dos críticos que deram a nota média de 7,7 para a produção. Tenho que admitir que estou com os críticos. Acho que isso ficou evidente com a nota acima, não é mesmo? Acho esse filme perfeito, simplesmente.

Truman é uma coprodução da Espanha com a Argentina. Ele teria custado cerca de 3,8 milhões de euros. Para comparação, Batman vs Superman: Dawn of Justice teria custado US$ 250 milhões. Não assisti ao filme, antes que alguém me questione, e francamente nem tenho a intenção de fazer isso. Não porque não gosto de filme de super-heróis ou baseados em HQ. Mas ouvi muitos comentários negativos dele e, francamente, não tenho tempo para perder com produções ruins. Além disso, desconfio que ele nem roce na humanidade deste Truman. E, volto a dizer, é deste tipo de filme que me interessa.

CONCLUSÃO: Para ser grande não é preciso ter ambições muito altas. Truman é um exemplo de que uma história aparentemente simples pode ter grande profundidade e emocionar por tudo aquilo que nos apresenta e também por tudo aquilo que nos faz resgatar de nós mesmos. Um filme exemplar na história e na forma com que ela é narrada, dando evidência para o trabalho excepcional de dois intérpretes gigantes. Vale mais que 10 filmes medianos de heróis em quadrinhos e sem metade do dinheiro gasto por um deles. Porque bom cinema não precisa de pirotecnia, ele precisa nos contar uma história convincente e, preferencialmente, envolvente e com empatia. Este é um belo exemplar deste tipo. Tendo a possibilidade de assistir a esta produção, não a desperdice.

Curtas de Animação Indicados ao Oscar 2016

27 de fevereiro de 2016 2 comentários

bearstory1

 

Olá, meus caros leitores e leitoras do blog.

Amanhã à noite vai terminar a nossa expectativa sobre os premiados do Oscar 2016. Em outros anos eu comentei sobre os curtas que concorrem à premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Nem sempre sobrou tempo para fazer isso, mas resolvi retomar os comentários sobre os curtas neste ano.

Infelizmente no Brasil não temos tanto o hábito de assistir a curtas quanto deveríamos. Afinal, este é um produto tão interessante quanto um longa e, geralmente, é nos curtas que grandes diretores e outros profissionais começam. Diferente dos longas, também é mais difícil de encontrar estes curtas para assistir – seja nos cinemas ou mesmo na internet. Por isso vou divulgar, por aqui, um resumo de cada curta e disponibilizar os trailers.

Vou começar os comentários sobre os curtas indicados este ano pela categoria Melhor Curta de Animação. Os cinco indicados são Bear Story (Historia de un Orso); Prologue; Sanjay’s Super Team; We Can’t Live Without Cosmos; e World of Tomorrow. Vamos falar um pouco de cada um deles.

 

1. Bear Story (Historia de un Orso) ou A História de Um Urso

Primeiro curta-metragem de animação produzido pelo Chile a concorrer a um Oscar, Historia de un Orso é dirigido por Gabriel Osorio Vargas. O curta com 11 minutos de duração marca a estreia do diretor na direção para o cinema – antes ele dirigiu apenas a série de TV Flipos.

De acordo com o site oficial do filme, Historia de un Orso é inspirado no exílio do avô de Osorio Vargas durante o regime militar chileno. No curta, um velho urso solitário conta a sua própria história através de um diorama mecânico. Ainda conforme o site oficial, a história é sobre “um urso que deseja voltar para a sua família, onde ele pertence”. Dirigido por Gabriel Osorio Vargas, o curta é produzido por Pato Escala.

Depois de estrear no Festival de Animação de Annecy, em 2014, o curta já contabiliza pouco mais de 50 prêmios em festivais mundo afora, incluindo reconhecimentos no Palm Springs Shortfest, Nashville, Cleveland Film Festival, Animamundi, além de prêmios do público em Zagreb, Florida Film Festival e Klik! Holland Festival de Animação.

No site oficial o diretor também escreveu uma mensagem contando o pano de fundo do filme e comentou: “Este curta-metragem é o resultado de mais de dois anos de trabalho duro. Alguns dos melhores animadores chilenos e artistas se uniram para fazer isso acontecer”.

Francamente eu não vi mais do que o que vocês vão ver abaixo. Ou seja, assisti apenas ao trailer do filme. Mas gostei muito do que eu vi. E ainda por ter essa mensagem de fundo, além de ser produto de um país do nosso continente, sinceramente a minha torcida amanhã irá para este curta. Para quem ficou interessado no curta, há ainda a página dele no Facebook. Na bolsa de apostas do Oscar, contudo, este curta aparece na terceira posição entre os favoritos. No site IMDb o curta tem a nota 7,6. Confira o trailer:

 

 

2. Prologue

Com seis minutos de duração, Prologue é ambientado há 2,4 mil anos e mostra uma violenta batalha entre dois grupos de espartanos e guerreiros atenienses. Esse curta é dirigido pelo experiente Richard Williams, um dos grandes nomes da animação dos Estados Unidos. Perto de fazer 86 anos, esse diretor nascido em Ontário, no Canadá, fez carreira em Hollywood.

Ele tem, no currículo, trabalhos como diretor de animação dos filmes The Pink Panther Strikes Again, Who Framed Roger Rabbit e The Thief and the Cobbler. Como diretor, ele tem nada menos que 10 curtas no currículo – como longas, apenas Raggedy Ann & Andy: A Musical Adventure e The Thief and the Cobbler. Por Who Framed Roger Rabbit ele ganhou dois Oscar’s em 1989.

Curta produzido no Reino Unido, Prologue tem apresenta uma técnica interessante, como de desenhos em stop motion, mas os comentários que eu li de pessoas que viram o curta é de que ele carece de uma boa história. É, basicamente, um trabalho de boa técnica e artístico.

Na bolsa de apostas para o Oscar ele aparecem em quarto lugar. Independente se o curta merece ou não ganhar, é bom ver um veterano como este ainda produzindo, filmando e chegando a ser indicado pela Academia. No site IMDb o curta tem a nota 6,1. Encontrei o vídeo abaixo que mostra um pouco da técnica do curta e também um depoimento de Richard Williams:

 

 

3. Sanjay’s Super Team ou Os Heróis de Sanjay

Nada como um bom material de divulgação. Faz toda a diferença para um curta não apenas ficar mais conhecido, mas também para ganhar votos. E isso é algo que a Pixar sabe fazer muito bem. Outro indicado na categoria Melhor Curta de Animação é este Sanjay’s Super Team, dirigido por Sanjay Patel.

O curta também tem uma história interessante por trás – com requinte um tanto autobiográfico, a exemplo do concorrente chileno. A sinopse de Sanjay’s Super Team é de que “um garoto indiano, entediado com as meditações do pai, imagina os deuses hindus como super-heróis”. Pelo que eu pude ver do trailer do filme e do vídeo com comentários do diretor, o curta vai além desta “brincadeira” inter-geracional.

Para começar, esta produção resgata as memórias afetivas do diretor, além da cultura de seus pais. Há uma reflexão interessante sobre as diferenças entre gerações e, pelo visto, um resgate interessante de diferentes culturas. A exemplo dos outros concorrentes eu não achei o curta completo na internet, mas encontrei o trailer e o depoimento do diretor, que já dão uma boa prévia da produção.

Com sete minutos de duração, Sanjay’s Super Team tem produção executiva de John Lasseter, um dos chefões da Pixar. Antes de estrear na direção com este curta, Patel tinha trabalhado no departamento de animação de 10 longas, incluindo Toy Story 2; Monsters, Inc.; The Incredibles; Ratatouille; e Monsters University. Este curta acompanha o lançamento da Pixar The Good Dinosaur.

No site oficial do curta, Sanjay’s Super Team comenta que o diretor utilizou a sua própria experiência para contar a história de um menino cujo “amor pela cultura pop ocidental entra em conflito com as tradições de seu pai”. Sanjay é fascinado por desenhos animados e por quadrinhos, e o pai tem um belo desafio para tentar apresentar para o filho as tradições da prática hindu.

A imaginação do menino transforma as divindades Hanaman, Durga e Vishnu em super-heróis, e o diretor se inspirou nas tradições das danças Bharatanatyam, Odissi e Kathakali para dar uma personalidade diferente para cada uma delas. Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para o curta.

Confira um dos trailers do curta por aqui:

 

E neste vídeo o making off da produção – incluindo comentários do diretor:

 

 

4. We Can’t Live Without Cosmos

Com 16 minutos de duração, este curta russo conta a história de dois cosmonautas que são amigos e que batalham todos os dias, juntos, para realizar o sonho de viajarem para o espaço. O curta é dirigido por Kostantin Bronzit, 49 anos, que tem nove curtas no currículo como diretor, um longa e um episódio de série para a TV.

Esta é a segunda indicação de Bronzit para o Oscar na categoria Melhor Curta de Animação. Ele concorreu, antes, com Lavatory – Love Story, no Oscar de 2009. We Can’t Live Without Cosmos ganhou, até o momento, seis prêmios, e foi indicado a outros quatro – incluindo aí o Oscar.

Na lista das bolsas de apostas o filme aparece em último lugar. Não consegui assistir aos curtas na íntegra mas, pelos trailers, ele me pareceu um dos mais interessantes – junto com o curta chileno. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção.

Confira o trailer do curta:

 

E confira esta matéria da rede RT sobre a indicação da animação russa:

 

 

5. World of Tomorrow

Este curta finaliza a lista de indicados deste ano mostrando a diversidade de produções do mercado e a escolha igualmente diversificada do Oscar. World of Tomorrow é uma produção filosófica que promove o encontro de uma mulher com a sua versão mais nova, mostrando para a menina que um dia ela já foi que tipo de futuro ela terá.

Este curta com produção 100% dos Estados Unidos é dirigido por Don Hertzfeldt, diretor californiano de 39 anos que tem 12 curtas e um longa no currículo como diretor. O único longa dele até agora foi It’s Such a Beautiful Day, lançado em 2012.

Antes de ser indicado ao Oscar por World of Tomorrow, Hertzfeldt concorreu também a uma estatueta dourada da Academia por Rejected no Oscar de 2001. De acordo com o site da produtora do curta, World of Tomorrow já ganhou 42 prêmios, incluindo o Grande Prêmio de Curtas no Festival de Cinema de Sundance.

De acordo com as notas de produção, este é o primeiro curta animado digitalmente por Hertzfeldt. Os outros curtas dele foram filmados em 16 mm e 35 mm e animados com um tablet Cintiq, usando Photoshop e Final Cut Pro. O diretor disse que escolheu a animação digital porque a história se passa em um futuro abstrato e que teria sido muito demorado se ele fizesse a animação diretamente no filme.

Francamente, pelo trailer, achei este curta um dos fortes concorrentes do ano. Ele tem 17 minutos de duração. Na bolsa de apostas ele aparece em segundo lugar, atrás apenas de Sanjay’s Super Team. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para o filme. Confira o trailer aqui:

 

PALPITE PARA O OSCAR 2016: Difícil avaliar os curtas apenas pelos trailers. Não vejo a hora de conferir cada um deles na íntegra. Mas pelo que é possível ver da proposta de cada um dos curtas, levando em conta a proposta artística e narrativa de cada produção, os três mais interessantes são World of Tomorrow, Historia de un Orso e We Can’t Live Without Cosmos.

Os três me chamaram a atenção pela técnica e pela história. Minha torcida particular vai para os “hermanos” chilenos representados por Historia de un Orso. Ainda assim, neste caso, assim como na categoria de Melhor Animação, o favoritismo é do filme com maior recursos e uma marca forte por trás. Neste caso, leva vantagem Sanjay’s Super Team. Logo mais saberemos quem se sairá melhor.

O Menino e o Mundo – The Boy and the World – Boy & The World

14 de fevereiro de 2016 1 comentário

omeninoeomundo1

Há muitas formas de encarar a realidade em que alguém vive. Independente da ótica, do filtro ou da bandeira que se use, o importante é volta e meia repensar a respeito. O Menino e o Mundo tem uma ótica muito específica sobre a realidade em que um homem deve sair de sua terra para buscar trabalho longe e em meio a uma sociedade do consumo aonde a vontade coletiva tem pouco valor. É um filme com uma bandeira muito clara. Essencialmente artístico e sem diálogos, é uma produção que foge do que a indústria está acostumada. E, por isso, é importante.

A HISTÓRIA: Começa com um ponto. Depois surgem círculos coloridos, até que os desenhos vão ficando mais complexos. Todos muito coloridos, vão se multiplicando e se sobrepondo enquanto surge a música também. Tudo termina em um ovo colorido. O Menino olha para o ovo e tenta entendê-lo. Mas quando surge uma borboleta, a atenção do menino vai para ela. E depois para um pintinho, passando por uma ninhada, uma lata, e assim a curiosidade do Menino vai o levando cada vez mais longe. Até que ele ouve uma sineta e corre para casa. Ele chega a tempo de ver a mãe dele se despedindo do marido. O Menino também se despede do pai mas, depois, começa a sua própria aventura de procurá-lo pelo mundo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a O Menino e o Mundo): A essência do cinema está neste filme. Esqueça os diálogos e as palavras. O que precisa ser contado pode ser entendido pela junção de imagens e música. O trabalho de Alê Abreu é realente artístico, do primeiro até o último segundo. Achei a produção encantadora, especialmente na parte inicial, quando assumimos a ótica de um menino que explora as cores e os sons do mundo.

Mas não demora muito para o filme assumir a sua bandeira. Muito válida, diga-se. Quando o pai do Menino vai embora, em busca de um trabalho, esta produção mergulha no sentimento de ausência que ele deixa no protagonista. O Menino resgata as lembranças que tem do pai antes de procurar ele mesmo o patriarca da família. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Até perto do final o filme sugere que a busca do Menino pelo pai não passa de uma fantasia. Afinal, como um menino como aquele sairia do interior sem dinheiro e passaria por tantas aventuras e lugares sozinho. Então teríamos que encarar tudo isso como algo lúdico, uma fantasia na imaginação do menino.

Mas não. E aí que o filme ganha realmente relevância perto do final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Na reta final da produção é que entendemos que os dois personagens importantes que o menino encontrou em sua busca pelo pai eram, na verdade, ele mesmo em duas fases posteriores de sua vida. Aí sim, o filme não apenas faz muito mais sentido, mas revela-se muito mais interessante. O Menino acaba passando pelo mesmo processo que o pai, seguindo um dos caminhos possíveis que ele tenha percorrido.

Curiosa a escolha de Alê Abreu em nos apresentar o encontro do Menino primeiro com o Velho, sua fase mais recente no tempo, que trabalha na colheita do algodão. Depois é que o protagonista se encontra com a versão dele mais Jovem, na cidade, trabalhando em um tear. Talvez seja a forma do diretor reforçar a ideia de que, com o tempo, nos aproximamos cada vez mais do básico, do essencial. Até porque, no final, mais uma vez demitido após o avanço das máquinas, o Velho retorna para a sua terra da infância, retomando lembranças do Menino.

Algo interessante da proposta de O Menino e o Mundo é assumir o olhar do Menino como observador das duas fases importantes de sua vida na passagem do tempo. Ele olha e analisa de uma forma essencial o que acontece ao redor do Velho e do Jovem, que são ele mesmo no futuro. O olhar é diferente, é curioso, e está mais atento ao que é o essencial. No fundo cada um de nós carrega o nosso Menino ou Menina da infância nas fases seguintes, ainda que nem sempre percebemos a presença deles ali.

Esta produção também nos faz refletir de como a nossa parte criança avalia ou poderia avaliar o que fazemos nas fases seguintes da nossa vida. O que a nossa criança diria para o nosso adulto? O Velho e o Jovem são observados e também observam o Menino – por isso, e só dá para entender isso no final, eles não oferecem comida para o protagonista em nenhum momento. Afinal, ele não “existe” de fato. Apenas no sentimento e na memória.

Agora, algo que me chamou muito a atenção é a forma com que Alê Abreu defende um argumento. Isso é mais comum de ser visto em documentários do que em filmes de animação. Normalmente em documentários temos uma ótica muito bem defendida, o que percebemos neste O Menino e o Mundo também. Logo percebemos a diferença entre a beleza e o colorido do lugar de origem do Menino, da terra de seus pais, e as cores e/ou a falta delas nos outros locais em que as pessoas são trabalhadoras em série.

Para que o choque não fosse tão grande logo de cara, passamos do interior da infância do Menino para a lavoura em que o Velho trabalha. Lá ainda há verde, há um tom mais pueril e de liberdade do que na fase seguinte, em que temos o Menino e o Jovem na cidade. Fica clara a defesa do argumento de que o homem deveria preservar o seu contato e relação com a natureza e não abrir mão de tudo isso por um desenvolvimento que só traz caos e destruição.

Na primeira fase de descoberta do Menino existe a exploração do trabalhador – não apenas por eles serem vistos como peça de uma engrenagem, mas especialmente porque não se aceitam pessoas “fracas” ou doentes no grupo -, mas também existe a beleza do Carnaval e a de uma rotina simples acompanhada de um cachorro. Há mais diversão do que na segunda fase de descoberta, aonde as condições para os trabalhadores parecem muito piores na grande cidade aonde as pessoas trabalham distantes do local em que moram e que devem se sacrificar para sobreviver.

Claramente Alê Abreu defende que esta sociedade do consumo torna as pessoas descartáveis e que a única forma de conter a revolução popular é a repressão. A presença do Exército e o posterior confronto entre ele e as pessoas que estão se manifestando lembram do nosso próprio passado – e da realidade de muitos locais ainda. Além da exploração do indivíduo e da subjugação dele, o filme explora o resultado de tudo isso na degradação do meio ambiente e dos recursos naturais. Quando o Velho volta para a casa da infância, tudo o que vimos belo e colorido no início do filme está acabado.

Honestamente esse é um filme importante. Faz pensar em questões importantes, ainda que ele não utilize os recursos mais simples para chegar ao grande público. Me lembro de The Artist (com crítica aqui), o filme mais recente que explorou a linguagem do cinema mudo que eu tenha visto. A exemplo de O Menino e o Mundo, The Artist não chegou ao grande público. Foi um filme bem elogiado pela crítica, mas que não teve o mesmo apelo da audiência.

Com isso não quero dizer que um filme não possa explorar outras linguagens, sair do lugar-comum do cinemão. Pode e deve, claro. Mas isso não fará dele um filme popular. O Menino e o Mundo está para a arte como outras produções estão para o cinema de grande público. Quem vai conseguir fazer a sua mensagem chegar mais longe? Eu não tenho dúvida sobre esta resposta.

O diretor Alê Abreu fez uma escolha de tornar os diálogos deste filme incompreensíveis. Talvez essa tenha sido a forma dele de dizer que nenhuma explicação, nenhuma palavra faria muito sentido em um mundo carente de significado. Pode ser. Ou pode ser a forma dele destacar que os sons e a música criada por eles são mais significativos do que as palavras.

É válida a escolha do diretor, mas francamente eu acho que o filme teria sido mais interessante e mais “palatável” para o grande público se ele tivesse os seus diálogos. Ou então que ninguém nunca falasse nada, como em alguns raros filmes do cinema mudo – lembrando que antes do cinema ter som os diálogos eram manifestados através de intertítulos de fala. No caso de O Menino e o Mundo não temos falas inteligíveis e nem intertítulos de fala. O que conta é a narrativa das imagens e, claro, a música.

Como nos primórdios da sétima arte, quando os filmes eram acompanhados de orquestras, em O Menino e o Mundo tudo está plasmado em desenhos, sons e música. O trabalho artístico é incrível, realmente uma obra de arte. A narrativa também tem ritmo e uma trilha sonora fantástica. Respeito a ideia defendida pelo realizador, mas só discordo dela um pouco.

É verdade que deveríamos estar debatendo com muito mais constância e energia a degradação do meio ambiente e dos recursos naturais, assim como o estilo de vida que a maioria tem nas grandes cidades, mas daí a considerar que tudo o que vemos na sociedade de consumo é ruim… bem, vejo um certo endeusamento do que é natural um tanto pueril.

Sabemos que não há Terra o suficiente para todos viverem no campo. Somos muitos e é preciso uma produção além da básica de uma família para a própria subsistência. Precisamos, de fato, de uma produção em larga escala de alimentos para suprir a necessidade de toda a população, para falar apenas de sobrevivência. Se entrarmos na criação artística, se abandonássemos a tecnologia e abraçássemos apenas o giz e a cera, o que é uma forma bacana de criar, teríamos apenas um tipo de produto. Já imaginaram? Enfim, a discussão é longa.

Se entrarmos na área da saúde, então… uma saída seria abandonar as pesquisas e a alta tecnologia para retrocedermos em técnicas mais simples, talvez de prevenção das doenças? Prevenir sem dúvida é melhor que remediar, mas quanto mais se vive, mais inevitável se torna a aparição de doenças. E daí como procederíamos sem a assistência adequada?

Enfim, acho válido questionar a realidade atual, mas não tenho a mesma visão do realizador de que todo o progresso é ruim e que as cidades são apenas terreno de confronto e de precariedade da vida, enquanto o interior é local de beleza e de graça. Nem a cidade é tão feia e nem o interior é tão bonito. Este filme é panfletário e tem uma bandeira bem definida. Deve ser respeitado por isso. Mas para o meu gosto ele é lindo, válido, mas não me convenceu ou me emocionou como outras animações.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Logo nos créditos iniciais do filme chama a atenção que ele foi escolhido pelo Programa Petrobras Cultural e que ele recebeu recursos do BNDES e do Governo de São Paulo através da Sabesp. Essa é a grande diferença entre os filmes que estão concorrendo ao Oscar nesta categoria neste ano. Enquanto os demais se sustentam por conta própria, com recursos dos estúdios e captação na iniciativa privada, o nosso filme e o cinema brasileiro ainda depende de verba pública porque falta não apenas uma indústria de verdade – que tenha recursos para se autofinanciar e lucrar – mas também apoio da iniciativa privada que sustente novas produções. Uma pena.

Agora, sem dúvida, os créditos iniciais me fizeram pensar que parte pequena dos recursos da Petrobras serviu para algo bacana, que foi viabilizar este filme. Certamente se todo o dinheiro desviado no Petrolão tivesse sido aplicado no cinema brasileiro, teríamos muitos outros projetos de qualidade saindo do papel. Faz pensar.

O Menino e o Mundo tem uma forte carga política. E um bocado de ironia sobre a nossa realidade. Por exemplo quando o filme mostra a “cobertura” da TV – claramente uma alusão ao Jornal Nacional – da repressão sofrida pela população pelo Exército. Aparecem cenas do confronto como se tivesse sido uma repressão “natural” e, em seguida, partimos para o futebol, para desfile de moda e para outros assuntos que logo vão “anestesiar” e tirar o foco das pessoas dos assuntos realmente relevantes.

Achei curioso que o filme mostra, perto do final também, cenas reais de degradação – saindo dos desenhos. Mais uma forma do diretor reforçar a mensagem de que ele não está falando de fantasias, mas da realidade. Curioso.

Os desenhos, claro, são fundamentais para esta história. Mas a trilha sonora também. Tiro o meu chapéu não apenas para a arte de Alê Abreu, mas também para a trilha sonora de Ruben Feffer e Gustavo Kurlat; e para a sonoplastia do departamento de som comandado por Marcelo Cyro, Pedro Lima e Teo Oliver. Também merece ser destacado o trabalho de edição de som de Vicente Falek e a mixagem de som de Ariel Henrique. Turma de primeira e fundamental para esta produção. Também há participações especiais de Naná Vasconcelos na percussão e no vocal; de Barbatuques na percussão corporal e vocal; e do Emicida com a música-título do filme. Um time de primeira.

O Menino e o Mundo estreou em setembro de 2013 no Festival Internacional de Animação do Canadá. Depois o filme faria uma longa trajetória de festivais, passando por 20 outros festivais mundo afora. Até o momento esta produção ganhou 12 prêmios e foi indicada a outros oito segundo o site IMDb, incluindo a inédita indicação para uma animação brasileira na categoria Melhor Filme de Animação do Oscar. De acordo com este texto da Ancine, O Menino e o Mundo já conquistou mais de 40 prêmios em festivais internacionais.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Filme na escolha da crítica e da audiência no Annecy International Animated Film Festival, considerado o mais importante evento do gênero no mundo; para o prêmio de Melhor Animação Independente no Annie Awards, outra premiação fundamental do gênero; para o One Future Prize – Honorable Mention no Festival de Cinema de Munique; para o de Melhor Filme Brasileiro no Youth Award do Festival Internacional de Cinema de São Paulo; e para os prêmios de Melhor Filme de Animação e Melhor Filme Infantil no Cinema Brazil Grand Prize.

O filme fez, apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, pouco menos de US$ 76,9 mil. Uma bilheteria simbólica, claro. Poucos assistiram o filme, apesar dele ter sido indicado ao Oscar. E ele não deve dar um voo muito maior, até pelo perfil da produção. Mais uma produção artística do Brasil que chegará em poucas pessoas. Filme não-comercial.

Agora, algumas curiosidades sobre O Menino e o Mundo. De acordo com as notas da produção, todos os desenhos do filme foram feitos à mão pelo diretor Alê Abreu.

Alguns diálogos da produção são falados em uma língua imaginária que, na verdade, são falas em português colocadas de trás para a frente. As falas invertidas, claro, ficam incompreensíveis.

O filme mostra uma fazenda de algodão que, na verdade, realmente foi uma das primeiras a se adaptar às mudanças trazidas pelo início da Revolução Industrial.

No início o diretor Alê Abreu tinha a ideia de fazer um documentário sobre a América Latina. Depois surgiu a vontade de fazer uma animação. Segundo as notas de produção, no final, o diretor considera que fez dois filmes em um. Além de animação, O Menino e o Mundo teria um documentário embutido.

Este é apenas o quarto filme do diretor Alê Abreu. Ele teria estreado na direção com o curta Espantalho, de 1998. Depois viria o curta Passo, de 2007 e, naquele mesmo ano, o longa Garoto Cósmico.

Como o IMDb, minha base natural sobre os filmes, tinha pouco material de O Menino e o Mundo e sobre o diretor Alê Abreu, procurei alguma entrevista com o diretor. Encontrei esta, bem interessante, do Correio Braziliense (free apenas a versão resumida). Nela o diretor paulistano de 44 anos comenta sobre o trabalho de três anos e meio que resultou no longo indicado ao Oscar: “Dizia a todos: ‘a tela do seu computador tem que ser vista como uma página de papel em branco – esqueça que a tela é de vidro. Trate como um papel sulfite, que permita colagem, folha amassada e expressão viva e rica”. Vale conferir a entrevista inteira.

Nesta matéria assinada por Maria Clara Moreira, da Folha de S. Paulo, mais informações sobre a trajetória de Alê Abreu. Vale conferir. Fez parte da trajetória do diretor um estágio com o Mauricio de Souza quando Abreu tinha 11 anos. Mas desde aquela época ele gostava de ser independente – o que fez ele não seguir desenhando o personagem Horário e nem mandar desenhos para um concurso da Disney. Agora, ironicamente, ele tenta ganhar um Oscar do filme feito pela Pixar e distribuído pela Disney. Essas são as voltas que a vida dá.😉

De acordo com a matéria a Folha e diferente do que consta no IMDb, Alê Abreu fez o primeiro curta em 1993, Sírius, que fez junto com colegas. O primeiro curto totalmente assinado por ele foi mesmo Espantalho, de 1998.

Como comentei antes, este filme não tem diálogos. Ao menos não diálogos compreensíveis. Ainda assim, aparecem os nomes de pessoas que dão as vozes para os personagens que falam o português invertido. Vale citar: Vinicius Garcia empresa a sua voz para o Menino; Felipe Zilse para o Jovem, assim como para as vozes adicionais; Alê Abreu para o Velho; Lu Horta para a Mãe; e Marco Aurélio Campos para o Pai.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para O Menino e o Mundo. Uma bela avaliação, levando em conta o padrão do site. Ainda assim, menor que o 8,3 recebido por Inside Out. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 38 críticas positivas e apenas duas negativas para a produção, o que lhe garante 95% de aprovação e uma nota média de 7,6.

Esta é uma produção 100% do Brasil. Sendo assim, esta crítica entra para a lista de filmes que atendem a uma votação feita aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme que não é para todos. Assim como um filme do cinema mudo também não é. Em uma época em que sobram palavras e em que a tecnologia estimula filmes 3D e muita ação, O Menino e o Mundo convida o público para o contrário. Este é um filme artístico, artesanal, contrário a tudo que estamos acostumados nos filmes de animação. A proposta do diretor Alê Abreu é clara: rever o que estamos fazendo e pedir para que as pessoas pensem na roda viva em que elas estão imersas.

Um filme importante, bem feito, com algumas imagens verdadeiramente lindas, tem propósito e proposta. Como quase todo documentário, ele tem um ponto de vista para defender muito claro. Para o meu gosto, ele dá pouco espaço para a discordância, o que nunca acho muito positivo. De qualquer forma, é um filme que ganha pontos especialmente no final, quando ele se explica. Bonito, singelo e com uma bandeira bem clara, é uma animação que vai continuar sendo elogiada pelos críticos, mas que dificilmente cairá no gosto do grande público habituado a outro estilo de filme. Faz pensar e, pelo estilo onírico, fica bastante tempo ressoando na memória. Independente do gosto pessoal, algo é necessário comentar: esse é um filme para deixar os brasileiros orgulhosos.

PALPITE PARA O OSCAR 2016: Uma decisão bacana da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ter selecionado O Menino e o Mundo entre os cinco finalistas na categoria de Melhor Filme de Animação deste ano. Esta produção, de fato, pode ser imaginada facilmente em festivais e premiações que deem destaque para produções mais artísticas e alternativas mas, inicialmente, este não parece ser o foco do Oscar.

Ainda assim, a maior premiação de Hollywood colocou o filme brasileiro lá. Acho bacana porque isso só demonstra como o “mainstream” também gosta do que é bem feito e de produtos que defendam ideias diferentes ou até críticas às suas. Este é o caso de O Menino e o Mundo, um filme claramente libertário e contrário ao sistema consumista. Quando saíram as indicações para o Oscar deste ano, vi muitos comentários de que teríamos “Davi contra Golias” – em uma referência entre a disputa de O Menino e o Mundo e Inside Out (com crítica neste link).

Me perdoem os ultranacionalistas (que acham sempre que algo do Brasil deve ganhar independente de qualidade ou do que for) e os super fãs de O Menino e o Mundo, mas para o meu gosto não se aplica aqui a comparação “Davi contra Golias”. Sempre em uma comparação há filmes melhores e outros nem tanto. Ponto. E isso, claro, varia conforme o gosto, a percepção de mundo e o momento atual de quem está avaliando.

Para o meu gosto Inside Out vai levar a estatueta de Melhor Filme de Animação não porque é “mainstream”, tem o poder dos grandes estúdios ou porque rendeu mais dinheiro que o artístico e alternativo O Menino e o Mundo. Ele vai ganhar porque é melhor. Achei francamente Inside Out mais complexo e com um roteiro mais criativo, um desenvolvimento mais interessante e pensado para todos os públicos do que O Menino e o Mundo, que acho mais restritivo, previsível e limitado na criatividade da história – não do desenvolvimento, que é bem feito.

Respeito as opiniões divergentes, desde já, mas quero deixar claro que se tivesse que votar, certamente daria meu voto para Inside Out. Com todo o respeito ao que O Menino e o Mundo apresenta e representa. Acho realmente que o Oscar irá para Inside Out. E será merecido.

Séptimo – 7th Floor – Sétimo

30 de novembro de 2014 Deixe um comentário

septimo4

Ricardo Darín é um destes raros atores que consegue ser bom intérprete e convencer o espectador até calado ou debaixo de chuva. Mas isso não quer dizer, necessariamente, que todo filme que ele encabeça seja bom. Séptimo, por exemplo, é uma produção que tem uma premissa boa e começa bem, mas que não demora muito para demonstrar como faltou desenvolvimento do roteiro. O que era promissor revela-se um bocado frustrante. Mas para os fãs de Darín, provavelmente, isso vai pouco importar.

A HISTÓRIA: Notícias falam dos últimos acontecimentos, enquanto imagens aéreas mostram Buenos Aires. A última notícia diz que o trânsito está carregado, mas a imagem mostra que ele flui bem. Entre os carros que estão trafegando, está o guiado pelo advogado Sebastián (Ricardo Darín). Toca o telefone, e a secretária do chefe dele, Goldstein (Jorge D’Elía), avisa que o patrão quer que Sebastián chegue antes no Tribunal para apoiar um cliente importante. Ele canta a secretária, que dispensa o colega.

Antes de ir para o Tribunal, Sebastián se encontra com a quase ex-mulher, Delia (Belén Rueda), e com os filhos, Luca (Abel Dolz Doval) e Luna (Charo Dolz Doval). Ele deve levá-los para o colégio. Mesmo com o alerta de Delia, Sebastián e os filhos brincam dele descer os sete andares desde onde eles moram e até o térreo de elevador enquanto eles correm pelas escadas. O problema é que chegando na recepção Sebastián descobre que os filhos dele sumiram. Daí começa a busca pelo paradeiro das crianças.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Séptimo): Os minutos iniciais desta produção já dão muitos indicadores para o espectador. Aquela técnica de misturar notícias de rádio e/ou TV com imagens aéreas da cidade e que, no conjunto, dão a entender que a história se passa em “uma grande metrópole” já é para lá de batida. Aqueles minutos iniciais revelam como Séptimo é um filme que mergulha sem medo na escola do cinemão dos Estados Unidos. E não apenas naquele início.

Nas cenas seguintes, temos a apresentação do protagonista como um cara que tenta ser “descolado” – cheio de gracinhas com a colega de trabalho – e também eficiente. Aos poucos vamos entendendo como o personagem de Darín tem um certo problema com a fidelidade – ele gosta de pular a cerca – e com seguir regras. Até aí, tudo certo. Bastante lugar-comum, mas nada que prejudique a história logo de cara.

Quando Belén Rueda surge em cena, chega a ser um alento saber que existe ao menos mais uma atriz em cena de peso além de Darín. Afinal, por mais que ele seja bom, a história mostra como um único ator, sozinho, não consegue salvar uma produção. Quando ele resolve ir conta a orientação da quase ex-mulher e brinca com os filhos, mesmo atrasado, o espectador já está se preparando para o pior. E, de fato, as crianças somem.

Até este momento, o filme vai bem, apesar das obviedades. E os primeiros minutos de “desespero” do protagonista, bem interpretados por Darín, de fato incentivam a angústia do espectador. Mas daí logo surge aquela questão: de duas uma, ou as crianças saíram do prédio, e para isso o porteiro Miguel (Luis Ziembrowski) teria que estar envolvido, ou elas estão em alguma parte do prédio.

Se a premissa é boa – as crianças somem após o pai falhar em infringir uma regra -, a resolução dela acaba sendo vital para esta produção. E aí que o roteiro do diretor Patxi Amezcua com Alejo Flah falha. Justamente na resolução do caso. Oras pois, desde os livros de Agatha Christie aprendemos que o importante é termos bons “possíveis culpados” em cena. Entender a motivação das pessoas é tão ou mais importante que conhecer os fatos que antecederam o problema.

Séptimo é fraco nos possíveis culpados. Lá pelas tantas, Sebastián acaba acreditando que os filhos foram sequestrados a mando do homem poderoso que não quer que ele continue no caso que será defendido no Tribunal – ideia, cá entre nós, bem estapafúrdia e que não chega a convencer, afinal, ninguém foi visto carregando as crianças para fora do prédio – e, por poucos segundos, ele questiona se o ex-marido/namorado da irmão não teria sido o culpado.

Esta segunda opção, que poderia dar mais pano pra manga, é rapidamente descartada. Achei um desperdício – afinal, para que ter aqueles dois personagens (a irmã do protagonista e o perseguidor dela) na trama se eles não dariam muito mais que alguns segundos de tensão/drama?

Antes disso tudo, um ponto importante é que logo Sebastián acredita na tese de sequestro. E, junto com ela, aceita de ficar esperando, já ao lado de Delia, pela famosa ligação pedindo dinheiro. Oras, sério mesmo que um pai aceitaria tão rapidamente esta premissa? E se os filhos tivessem sido sequestrados por um psicopata ou por um pedófilo? O protagonista não teria que trabalhar com outras teorias antes de ficar esperando com a quase ex-mulher no apartamento e, enquanto isso, jogando papo fora sobre como ele havia pisado na bola?

As reações dos personagens também deixam a desejar. Primeiro que o protagonista vai de 0 a 100 em segundos de uma maneira pouco convincente. Ele não deveria ter um desespero crescente desde o sumiço dos filhos e ter mostrado um pouco mais desta preocupação/culpa na procura que começou a fazer apartamento por apartamento antes de estourar na unidade vazia do possível culpado? Também achei pouco factível ele ter tantas dúvidas com aquele policial meio velho – se ainda o ator escalado tivesse um pouco mais de perfil dúbio… mas não era o caso.

Pior que a reação um tanto intempestiva e um tanto tardia do personagem de Darín foi o segundo momento da reação da personagem de Belén Rueda na trama. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não é difícil desconfiar dela depois que, após acusar o quase ex-marido de uma forma um tanto “leve”, ela fica calmamente esperando por uma ligação dos sequestradores em casa. Que mãe, naquela situação, teria reagido com tanta frieza se ela não tivesse alguma ideia de que os filhos estariam bem? Enquanto Sebastián faz teorias mirabolantes, a quase ex-esposa dá sinais estranhos de estar muito controlada para a situação.

Ainda que a condução até aqui seja falha, o pior ainda está por vir. A forma com que Sebastián consegue o dinheiro do chefe dele, no escritório de advocacia, é quase cômica. Não acredito que na vida real alguém conseguiria pegar aquele dinheiro – e, primeiro, ter toda aquela quantia de dólares no escritório do homem que recebe US$ 100 por semana… – e sair daquela forma tão “tranquila”.

Só mesmo em um filme que precisa, urgentemente, de uma saída para a história. Depois, bem difícil de engolir que um homem no centro do furacão como Sebastián se preocuparia em não deixar a linha de celular ocupada e deixaria a bateria terminar no momento decisivo das negociações para a libertação dos filhos. Por favor! São os roteiristas brincando com a nossa inteligência!

E daí que fica ultra suspeita a reta final da produção. Primeiro, até dá para acreditar que as crianças foram ajudar uma mulher que disse ser amiga do pai delas e que estava com problemas após a sacola de compras estourar e que, desta forma, elas entraram no apartamento do quarto andar sem dar na vista e sem resistência. Mas quantas horas passaram depois disso? E as crianças ficaram numa boa, ensinando a mulher a usar o Wii, por diversas horas sem nenhuma delas questionar que elas estavam indo para o colégio e que o pai estava preocupado com elas e que, desta forma, elas deviam sair dali?

Sério mesmo que eles querem nos convencer que as crianças brincaram com o Wii, ganharam umas bolachas, e esqueceram do pai, do colégio e da vida? Difícil de acreditar, hein? Se ao menos elas tivessem sido dopadas… mas não é isso que o filme sugere através da narrativa delas após a saída do apartamento que serviu de cárcere. Depois, estranho o porteiro comentar que Sebastián estava certo e que  as crianças estavam no 4º B. Não lembro em nenhum momento dele insistir nesta ideia.

E para fechar a série de peças mal encaixadas, na mesma noite de um dia em que as crianças foram sequestradas, a mãe delas de fato convence querendo tirar elas do país? Sério mesmo? Que mãe, por mais desesperada que estivesse com a “insegurança” da cidade onde mora, iria tirar as crianças do país – e não para uma viagem curta, mas para algo acima de 10 horas de voo – no final de um dia tenso como aquele, com as crianças ainda “traumatizadas” com um sequestro relâmpago? E o pior é Sebastián concordar com aquilo sem nem questionar muito – e não me digam que a culpa que ele pudesse estar sentindo justificaria aquilo.

Francamente, muito ruim a condução do filme e os pontos questionáveis que ele vai deixando no caminho. O início foi muito bom, apesar de um ou outro lugar-comum, mas boa parte da trama se mostra capenga e incoerente. Darín salva a maior parte das cenas, descontadas as partes do roteiro que prejudicam a interpretação dele – porque não dá para acreditar nas atitudes do personagem. O mesmo acontece com Belén Rueda. Ela está muito bem no início, mas quando o roteiro coloca a personagem em atitudes estranhas, a atriz também não se sai tão bem.

Ainda assim, apesar do problema fundamental do roteiro, é preciso dizer que a escalação do elenco foi muito bem acertada, e que a direção de Patxi Amezcua dá conta do recado. Ele acerta em manter a câmera perto dos atores, para registrar a emoção deles, ao mesmo tempo que explora bem a dinâmica das cenas com cortes bem feitos e uma edição competente. A trilha sonora, vital em produções de suspense como essa, também é acertada. Então, no fim das contas, o filme é bem acabado, apesar de ser falho na trama.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um filme como esse, muitas vezes, só vale a pena por causa do Ricardo Darín. Esse ator, além de ótimo intérprete, é um charme só. Por causa disso, mesmo com a idade que ele tem – 57 anos, perto de completar 58 no dia 16 de janeiro -, ele convence como um “don juan”, um garanhão que pode cantar a secretária do escritório de advocacia de Séptimo e quem mais ele quiser. Mesmo gostando tanto dele – e não conheço ninguém que não goste do ator -, admito que gostei de ver o nome de Belén Rueda no elenco. Não assisti a muitos filmes da atriz, mas em um recente ela manda muito bem: El Orfanato, comentado aqui no blog. Vale assistir.

Um problema de Séptimo é que além destes dois atores, que são protagonistas, o elenco de apoio deixa a desejar. Por exemplo os atores mirins, os irmãos Abel Dolz Doval e Charo Dolz Doval. A impressão que eu tenho é que eles estão ali para cumprir tabela, mas não agregam realmente valor enquanto intérpretes. Não importa se vemos eles antes ou depois do sequestro, porque eles estão sempre iguais. Mornos. Falta experiência e, no caso deste filme, talvez um pouco mais de preparo para eles.

Os outros atores do elenco de apoio são apenas razoáveis. Vale destacar o bom trabalho de Luis Ziembrowski como Miguel, porteiro do prédio que fica sempre com uma cara de semi-culpado e um tanto perdido; Osvaldo Santoro como Rosales, o policial veterano que mora no prédio e que acaba ajudando na procura das crianças – e com quem o protagonista já teve alguns desentendimentos; e Guillermo Arengo como Rubio, amigo e colega de Sebastián e que acaba ajudando o protagonista em diversos momentos. Jorge D’Elía como Goldstein, chefe de Sebastián, está muito mal – ele nem parece ter experiência na área… se bem que o roteiro não o ajuda.

Patricia Gilmour aparece pouco como a “senhora Maria”, vizinha do sexto andar que viu as crianças descendo as escadas; e Gaby Ferrero, identificada como “sequestradora”, apenas confunde ainda mais sobre, afinal, em que local estavam as crianças. Ferrero não é a mulher que aparece primeiro, junto com o namorado, e que era o meu palpite principal. Me parece que ela seria a última mulher que apareceu naquela sequência de apartamentos em que Sebastián procura os filhos, mas não dá para ter certeza.

Da parte técnica do filme, elogios para a direção de fotografia de Lucio Bonelli, que valoriza os ambientes – especialmente o vão central do prédio e sua escadaria – mostrados pelo filme; para a trilha sonora de Roque Baños, que ajuda a impulsionar o clima de tensão e de suspense; e para a edição de Lucas Nolla que, junto com a direção acertada de Patxi Amezcua, especialmente nas sequências iniciais do desespero do protagonista atrás dos filhos, é a responsável pela melhor parte da produção.

Séptimo estreou em setembro de 2013 na Argentina e, dois meses depois, na Espanha. O filme participou de apenas dois festivais, o de Miami e o do Rio de Janeiro. Nesta última semana o filme estreou no circuito comercial brasileiro. No Festival de Cinema de Miami a produção foi indicada para o Prêmio do Grande Júri, mas ela saiu de mãos vazias.

Como o filme sugere, Séptimo foi totalmente rodado em Buenos Aires.

Este é apenas o segundo longa-metragem do diretor Patxi Amezcua. Antes de Séptimo ele havia feito 25 Kilates, de 2008, e o curta Mus, de 2003.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,8 para esta produção. Achei a avaliação justa. Eu dei uma nota um pouco maior porque sou fã da dupla de protagonistas. O site Rotten Tomatoes não tinha nenhuma crítica sobre esta produção, um tanto ignorada fora da Argentina.

CONCLUSÃO: O resumo do que achei do filme já foi esboçado na introdução deste texto. Séptimo começa bem, consegue envolver o espectador em uma situação complicada e angustiante. Não por acaso, lembra um pouco do mestre Hitchcock. Pena que esta lembrança logo se esfumace. Conforme a condução da história vai evoluindo, percebemos que faltou um pouco de cuidado com o texto e com a narrativa. As reações dos protagonistas não condizem exatamente com o que se espera, e a tensão inicial desaparece – ou sobra muito pouco dela.

Não é difícil matar a charada antes do grand finale. E isso é apenas mais uma demonstração de que a trama poderia ter sido melhor desenvolvida. Darín está bem, mas até ele fraqueja em alguns momentos com um roteiro tão fraquinho. De qualquer maneira, algo que o filme acerta é em mostrar bem Buenos Aires. Filmes que exploram o contexto da trama sempre ficam mais interessantes. Pena que o principal ficou faltando: um roteiro melhor acabado.

Heli

23 de maio de 2014 1 comentário

heli2

Há lugares no mundo onde o risco de uma pessoa ser morta ou de ter a vida modificada de forma radical por praticamente razão alguma é muito maior que em outras partes. O México é um destes lugares. Mas há periferias de vários outros países latinos, africanos, do leste europeu, e de praticamente quase todas as latitudes do mundo onde o risco de tragédias acontecerem também é grande. Em Heli somos apresentados a um cenário complicado em diferentes sentidos no México, onde a vida de um jovem e de sua família muda radicalmente. Um filme humano, que dá espaço para vários silêncios, mas que sofre com um bocado de previsibilidade.

A HISTÓRIA: Dois pés, sangue e uma cabeça encostada no chão com uma bota pressionando-a contra a lataria. O rapaz que está com o rosto pressionado pisca, tem uma fita na boca e algumas vezes tenta se livrar daquela bota. A câmera percorre a carroceria da caminhonete mostrando os dois corpos, passa pelo motorista e pelo caroneiro e se fixa no cenário que vai surgindo à frente do veículo. Os homens que estão nele chegam até uma passarela para pedestres que passa sobre a rodovia, carregam os dois corpos e largam um deles lá do alto enforcado. Depois, deixam o local. Corta. Heli (Armando Espitia) tenta namorar com a mulher, Sabrina (Linda González), mas é contido por ela. Batem à porta. Uma garota que está fazendo o censo (Berenice Arnold Hernández) registra os dados da família de Heli. Em pouco tempo eles terão a rotina interrompida de forma trágica.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Heli): Vários filmes gostam de usar a técnica de mostrar uma cena importante, próxima do final, logo no início para, só depois, retomar no tempo para explicar como os protagonistas chegaram naquele ponto. Algumas vezes essa técnica funciona, porque estimula o espectador a ficar atento a cada detalhe do que virá para saber como os personagens chegaram naquele extremo. Mas outras vezes, como em Heli, esse recurso vai contra a história.

Logo nos primeiros minutos do filme a câmera comandada pelo diretor Amat Escalante, responsável pelo roteiro ao lado de Gabriel Reyes – a dupla ainda contou com a colaboração de Zümrüt Çavusoglu e Ayhan Ergürsel -, revelam dois corpos que sofreram com a violência. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois que um dos corpos é jogado da passarela para pedestres, não é difícil desconfiar que o rosto que estava com uma bota sobre ele era o de Heli – afinal, o rapaz aparece na sequência com a mulher. E mesmo de costas, não é difícil desconfiarmos (e não me admira se alguém teve certeza) que a outra vítima era Beto (Juan Eduardo Palacios).

Conforme a história vai se desenvolvendo, achei ruim sabermos logo no início que os dois serão vítimas de um grupo de bandidos. A surpresa, ainda mais em um filme que conta a história de gente simples e marginalizada em diversos sentidos, acaba sendo vital. Heli abre mão deste recurso para tentar despertar a curiosidade do espectador. Uma escolha que vai contra a própria história, não apenas por ser um recurso batido, mas principalmente porque a surpresa da reviravolta sem aquelas cenas teria sido mais impactante.

Se a história de Heli perde impacto ao mostrar parte do desfecho do protagonista e de Beto, o mesmo não pode ser dito do momento em que o filme entra no “castigo” sofrido pelos dois. As cenas são fortes e muito realistas. Especialmente a tortura e a surra sofrida por Beto gela a espinha de qualquer pessoa. Cenas que não podem ser vistas por qualquer pessoa – especialmente pelos jovens, ainda que naquele cenário menores de 18 anos estavam presentes para serem “moldados” por aquela violência.

Como eu disse lá no início, em alguns lugares do mundo a vida é dura e pode ficar radicalmente pior de uma hora para a outra. O ambiente ao redor do personagem Heli é marginalizante. Não apenas porque há perspectiva praticamente nula de melhora de vida, mas também porque o perigo de confrontos entre cartéis de narcotraficantes e de policiais/militares corruptos é constante.

Interessante como o diretor e roteirista Amat Escalante narra esta história. A câmera dele está sempre próxima dos personagens, mas não fica alheia ao ambiente. Pelo contrário. A escassez de oportunidades de trabalho e de estudo, a violência do treinamento militar e dos traficantes, tudo é explorado através das ações das pessoas e do ambiente inóspito e de escassez de recursos – da estrada de terra e dos quilômetros que devem ser percorridos para ir da casa até o trabalho, até os locais “de lazer” sem nada para fazer procurados por Beto e Estela (Andrea Vergara).

Neste sentido, este filme mostra como uma família e uma cidade podem ser moldados pelo ambiente social. Heli e sua família não conseguem se libertar daquele cenário e acabam, por causa da tentativa mal planejada de Beto em quebrar com aquela rotina, tendo a violência que sempre ficou do lado de fora da porta de entrada entrando com força e mudando a vida de todos.

Sacaneado pelos colegas militares, muitas vezes porque não conseguia acompanhar o ritmo de treinamentos, Beto enxerga no furto de pacotes de cocaína desviados de uma operação que deveria significar a destruição de toda a droga uma oportunidade de fazer dinheiro fácil, rápido e, assim, de buscar uma vida diferente ao lado de Estela, com quem queria casar.

O problema destas “ideias de liberdade” é que elas dão errado em 99,999999% dos casos. E é isso o que acontece com Beto. Imaturo, ele esconde a droga roubada na propriedade da namorada. E é aí que a família de Heli se vê envolvida em algo que eles jamais chegariam perto. A violência surge destruidora, invade a residência e faz quase todos de vítima – apenas Sabrina escapa porque foi se consultar com uma espécie de vidente local.

Escalante acerta ao continuar a história após a cena do enforcamento. Um terço do filme, mais ou menos, revela os desdobramentos daqueles fatos. A vida continuou dura após a morte do patriarca dos Silva, especialmente porque Heli não tem notícias da irmã, acaba sendo visto com reticências pela polícia e ainda perde o emprego. Não há generosidade naquele ambiente. Apenas desconfiança, penalização no primeiro erro e ressentimento.

Criado em um ambiente de extrema simplicidade, Heli não tem muita paciência com a mulher que após dar a luz ao primeiro filho do casal, está se preservando porque não quer abortar. Para ela, é difícil ter abandonado a própria família para viver com o jovem naquele local agreste. Levando em conta o que acontece com Beto e Estela, o romance neste filme é visto com desconfiança – afinal, que frutos o amor pode dar? Apenas a continuidade da pobreza e da vida cheia de explorações?

A dúvida que fica no ar, quando Sabrina diz que não quer abortar, é se aquela comunidade está habituada a resolver a gravidez com abortos ou tendo filhos sem refletir nas condições para dar-lhes uma boa vida, com oportunidades de crescimento satisfatórias. Ou seja, planejamento familiar nulo, como acontece em tantos outros lugares. E aí a pobreza apenas segue de geração em geração.

O que Heli nos ensina, como tantos outros filmes com histórias complicadas, é que a vida segue após a tragédia. Nesta produção, de forma dura, com outros problemas, como a vida real. Ainda assim, há esperança e pequenas surpresas. Como o retorno de Estela, que aparentemente foge do cativeiro e consegue voltar para a casa da família caminhando. E o próprio Heli, mesmo demitido, pouco a pouco parece retomar a própria vida. Tanto ele quanto a irmã conseguiram sobreviver. E mesmo sob condições complicadas, não existe presente maior que este. Esta produção vale por esse tipo de reflexão que surge após os créditos finais.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo interessante no trabalho de Escalante neste filme é como o diretor varia entre extremos. De cenas em que ele se aproxima dos atores e valoriza as suas interpretações até aqueles planos abertos em que a paisagem praticamente oprime os personagens. Na questão da fotografia, com direção de Lorenzo Hagerman, os tons são naturalistas, valorizando a claridade e a escuridão quando é o momento de cada uma delas aparecer. Também vale destacar a ótima edição de Natalia López.

Sobre o roteiro, outro acerto de Escalante e de seus parceiros é dar bastante espaço para o silêncio. Nestes momentos não importam as palavras ou as intenções, e sim as atitudes dos personagens e a expressão dos atores – o que, em teoria, demonstraria muito mais a vontade de cada um deles. O cinema dos Estados Unidos não está muito acostumado a estes recursos, mas eles funcionam bem na cinematografia latina e na europeia. Para a nossa sorte.

Falando em cinematografia… Heli é uma coprodução do México com a França, a Alemanha e a Holanda. O filme foi rodado em duas cidades mexicanas: Calderones e Guanajuato, ambas no distrito de Guanajuato.

Dos atores presentes neste filme, vale citar o trabalho dos coadjuvantes Reina Torres como a detetive Maribel; Gabriel Reyes como o detetive Omar; e Ramón Álvarez como Evaristo, pai de Heli e de Estela.

Heli é o quarto longa-metragem do diretor espanhol Amat Escalante. Nascido em Barcelona no dia 28 de fevereiro de 1979, Escalante estreou na direção com o curta Amarrados, em 2002, produzido no México, e lançou o primeiro longa três anos depois, Sangre. Heli, sua produção mais recente, foi a escolha do México para representar o país na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2014. Mas o filme não chegou a ficar entre os cinco finalistas da categoria.

Heli estreou em maio de 2013 no Festival de Cannes. Depois, o filme passaria por outros 21 festivais – um número impressionante! O mais recente foi o Festival de Cinema de Skopje, no dia 26 de abril. Nesta trajetória o filme conquistou 10 prêmios e foi indicado a outros cinco. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Diretor no Festival de Cannes; Melhor Direção de Fotografia no Festival de Cinema de Estocolmo; Melhor Filme no Prêmio ARRI/OSRAM do Festival de Cinema de Munique; e o Melhor Filme no Elcine First Prize do Festival de Cinema Latino-americano de Lima.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para Heli. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 13 críticas positivas e sete negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 65% e uma nota média de 6,3.

Dos atores envolvidos no filme, achei todos competentes – apesar de, aparentemente, inexperientes. Mas de todos eles, sem dúvida alguma o destaque é a jovem Andrea Vergara. Muito expressiva, ela dá credibilidade para a personagem que é fundamental para a história – afinal, toda a ação se desenvolve a partir desta personagem. Ela simboliza a perda da inocência de uma sociedade agredida pela violência.

Procurei saber um pouco mais sobre Escalante e encontrei esta entrevista interessante dele para o site Butaca Ancha. Logo na primeira pergunta ele comenta porque gosta de trabalhar com atores não-profissionais. De como busca, para um filme como Heli, pessoas do local em que ele vai contar a história. Para começar, Escalante comenta, ele gostaria de fazer documentários.

Depois, afirma que as pessoas precisam acreditar nas histórias e nos personagens e que, por isso, já não é tão fácil pegar uma jovem de um centro urbano e fazer ela se passar por alguém do interior. Ele tem razão, ainda que eu ache que, muitas vezes, um grande ator consegue se fazer passar por qualquer pessoa – e que trabalhar sempre com não-profissionais é uma forma de desvalorizar a categoria. Mas concordo que, algumas vezes, é necessário – como é o caso de Heli.

Outra entrevista interessante com o diretor é esta do TimeOut México. Nela, Escalante comenta como quis mostrar através de imagens a insegurança relacionada ao crime organizado no país – onde não sabe de onde pode vir o perigo. Ele comenta que utilizou fatos reais para se inspirar para a história – como vídeos que vazaram de treinamentos militares em que havia humilhações como a sequência do rapaz tendo que passar sobre o próprio vômito e um sequestro seguido de morte que aconteceu em Guanajuato envolvendo militares. Interessante e recomendada a entrevista.

CONCLUSÃO: A história de pessoas simples normalmente não é contada. Há inúmeros filmes sobre personalidades famosas e histórias incríveis, mas o que acontece com gente comum em lugares complicados geralmente não importa para o cinema. Heli rompe com essa regra não oficial e nos apresenta uma história dura, com pelo menos uma cena de arrepiar, e que faz cada espectador refletir sobre a capacidade das pessoas – e da gente mesmo – em sobreviver independente do que aconteça. Ainda que a produção perca força porque as cenas iniciais “estragam” boa parte da surpresa, após os créditos finais a reflexão sobre o que vimos bate forte. Há esperança no final, por mais difícil que algumas retomadas possam parecer.

%d blogueiros gostam disto: