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Séptimo – 7th Floor – Sétimo

30 de novembro de 2014 Deixe um comentário

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Ricardo Darín é um destes raros atores que consegue ser bom intérprete e convencer o espectador até calado ou debaixo de chuva. Mas isso não quer dizer, necessariamente, que todo filme que ele encabeça seja bom. Séptimo, por exemplo, é uma produção que tem uma premissa boa e começa bem, mas que não demora muito para demonstrar como faltou desenvolvimento do roteiro. O que era promissor revela-se um bocado frustrante. Mas para os fãs de Darín, provavelmente, isso vai pouco importar.

A HISTÓRIA: Notícias falam dos últimos acontecimentos, enquanto imagens aéreas mostram Buenos Aires. A última notícia diz que o trânsito está carregado, mas a imagem mostra que ele flui bem. Entre os carros que estão trafegando, está o guiado pelo advogado Sebastián (Ricardo Darín). Toca o telefone, e a secretária do chefe dele, Goldstein (Jorge D’Elía), avisa que o patrão quer que Sebastián chegue antes no Tribunal para apoiar um cliente importante. Ele canta a secretária, que dispensa o colega.

Antes de ir para o Tribunal, Sebastián se encontra com a quase ex-mulher, Delia (Belén Rueda), e com os filhos, Luca (Abel Dolz Doval) e Luna (Charo Dolz Doval). Ele deve levá-los para o colégio. Mesmo com o alerta de Delia, Sebastián e os filhos brincam dele descer os sete andares desde onde eles moram e até o térreo de elevador enquanto eles correm pelas escadas. O problema é que chegando na recepção Sebastián descobre que os filhos dele sumiram. Daí começa a busca pelo paradeiro das crianças.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Séptimo): Os minutos iniciais desta produção já dão muitos indicadores para o espectador. Aquela técnica de misturar notícias de rádio e/ou TV com imagens aéreas da cidade e que, no conjunto, dão a entender que a história se passa em “uma grande metrópole” já é para lá de batida. Aqueles minutos iniciais revelam como Séptimo é um filme que mergulha sem medo na escola do cinemão dos Estados Unidos. E não apenas naquele início.

Nas cenas seguintes, temos a apresentação do protagonista como um cara que tenta ser “descolado” – cheio de gracinhas com a colega de trabalho – e também eficiente. Aos poucos vamos entendendo como o personagem de Darín tem um certo problema com a fidelidade – ele gosta de pular a cerca – e com seguir regras. Até aí, tudo certo. Bastante lugar-comum, mas nada que prejudique a história logo de cara.

Quando Belén Rueda surge em cena, chega a ser um alento saber que existe ao menos mais uma atriz em cena de peso além de Darín. Afinal, por mais que ele seja bom, a história mostra como um único ator, sozinho, não consegue salvar uma produção. Quando ele resolve ir conta a orientação da quase ex-mulher e brinca com os filhos, mesmo atrasado, o espectador já está se preparando para o pior. E, de fato, as crianças somem.

Até este momento, o filme vai bem, apesar das obviedades. E os primeiros minutos de “desespero” do protagonista, bem interpretados por Darín, de fato incentivam a angústia do espectador. Mas daí logo surge aquela questão: de duas uma, ou as crianças saíram do prédio, e para isso o porteiro Miguel (Luis Ziembrowski) teria que estar envolvido, ou elas estão em alguma parte do prédio.

Se a premissa é boa – as crianças somem após o pai falhar em infringir uma regra -, a resolução dela acaba sendo vital para esta produção. E aí que o roteiro do diretor Patxi Amezcua com Alejo Flah falha. Justamente na resolução do caso. Oras pois, desde os livros de Agatha Christie aprendemos que o importante é termos bons “possíveis culpados” em cena. Entender a motivação das pessoas é tão ou mais importante que conhecer os fatos que antecederam o problema.

Séptimo é fraco nos possíveis culpados. Lá pelas tantas, Sebastián acaba acreditando que os filhos foram sequestrados a mando do homem poderoso que não quer que ele continue no caso que será defendido no Tribunal – ideia, cá entre nós, bem estapafúrdia e que não chega a convencer, afinal, ninguém foi visto carregando as crianças para fora do prédio – e, por poucos segundos, ele questiona se o ex-marido/namorado da irmão não teria sido o culpado.

Esta segunda opção, que poderia dar mais pano pra manga, é rapidamente descartada. Achei um desperdício – afinal, para que ter aqueles dois personagens (a irmã do protagonista e o perseguidor dela) na trama se eles não dariam muito mais que alguns segundos de tensão/drama?

Antes disso tudo, um ponto importante é que logo Sebastián acredita na tese de sequestro. E, junto com ela, aceita de ficar esperando, já ao lado de Delia, pela famosa ligação pedindo dinheiro. Oras, sério mesmo que um pai aceitaria tão rapidamente esta premissa? E se os filhos tivessem sido sequestrados por um psicopata ou por um pedófilo? O protagonista não teria que trabalhar com outras teorias antes de ficar esperando com a quase ex-mulher no apartamento e, enquanto isso, jogando papo fora sobre como ele havia pisado na bola?

As reações dos personagens também deixam a desejar. Primeiro que o protagonista vai de 0 a 100 em segundos de uma maneira pouco convincente. Ele não deveria ter um desespero crescente desde o sumiço dos filhos e ter mostrado um pouco mais desta preocupação/culpa na procura que começou a fazer apartamento por apartamento antes de estourar na unidade vazia do possível culpado? Também achei pouco factível ele ter tantas dúvidas com aquele policial meio velho – se ainda o ator escalado tivesse um pouco mais de perfil dúbio… mas não era o caso.

Pior que a reação um tanto intempestiva e um tanto tardia do personagem de Darín foi o segundo momento da reação da personagem de Belén Rueda na trama. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não é difícil desconfiar dela depois que, após acusar o quase ex-marido de uma forma um tanto “leve”, ela fica calmamente esperando por uma ligação dos sequestradores em casa. Que mãe, naquela situação, teria reagido com tanta frieza se ela não tivesse alguma ideia de que os filhos estariam bem? Enquanto Sebastián faz teorias mirabolantes, a quase ex-esposa dá sinais estranhos de estar muito controlada para a situação.

Ainda que a condução até aqui seja falha, o pior ainda está por vir. A forma com que Sebastián consegue o dinheiro do chefe dele, no escritório de advocacia, é quase cômica. Não acredito que na vida real alguém conseguiria pegar aquele dinheiro – e, primeiro, ter toda aquela quantia de dólares no escritório do homem que recebe US$ 100 por semana… – e sair daquela forma tão “tranquila”.

Só mesmo em um filme que precisa, urgentemente, de uma saída para a história. Depois, bem difícil de engolir que um homem no centro do furacão como Sebastián se preocuparia em não deixar a linha de celular ocupada e deixaria a bateria terminar no momento decisivo das negociações para a libertação dos filhos. Por favor! São os roteiristas brincando com a nossa inteligência!

E daí que fica ultra suspeita a reta final da produção. Primeiro, até dá para acreditar que as crianças foram ajudar uma mulher que disse ser amiga do pai delas e que estava com problemas após a sacola de compras estourar e que, desta forma, elas entraram no apartamento do quarto andar sem dar na vista e sem resistência. Mas quantas horas passaram depois disso? E as crianças ficaram numa boa, ensinando a mulher a usar o Wii, por diversas horas sem nenhuma delas questionar que elas estavam indo para o colégio e que o pai estava preocupado com elas e que, desta forma, elas deviam sair dali?

Sério mesmo que eles querem nos convencer que as crianças brincaram com o Wii, ganharam umas bolachas, e esqueceram do pai, do colégio e da vida? Difícil de acreditar, hein? Se ao menos elas tivessem sido dopadas… mas não é isso que o filme sugere através da narrativa delas após a saída do apartamento que serviu de cárcere. Depois, estranho o porteiro comentar que Sebastián estava certo e que  as crianças estavam no 4º B. Não lembro em nenhum momento dele insistir nesta ideia.

E para fechar a série de peças mal encaixadas, na mesma noite de um dia em que as crianças foram sequestradas, a mãe delas de fato convence querendo tirar elas do país? Sério mesmo? Que mãe, por mais desesperada que estivesse com a “insegurança” da cidade onde mora, iria tirar as crianças do país – e não para uma viagem curta, mas para algo acima de 10 horas de voo – no final de um dia tenso como aquele, com as crianças ainda “traumatizadas” com um sequestro relâmpago? E o pior é Sebastián concordar com aquilo sem nem questionar muito – e não me digam que a culpa que ele pudesse estar sentindo justificaria aquilo.

Francamente, muito ruim a condução do filme e os pontos questionáveis que ele vai deixando no caminho. O início foi muito bom, apesar de um ou outro lugar-comum, mas boa parte da trama se mostra capenga e incoerente. Darín salva a maior parte das cenas, descontadas as partes do roteiro que prejudicam a interpretação dele – porque não dá para acreditar nas atitudes do personagem. O mesmo acontece com Belén Rueda. Ela está muito bem no início, mas quando o roteiro coloca a personagem em atitudes estranhas, a atriz também não se sai tão bem.

Ainda assim, apesar do problema fundamental do roteiro, é preciso dizer que a escalação do elenco foi muito bem acertada, e que a direção de Patxi Amezcua dá conta do recado. Ele acerta em manter a câmera perto dos atores, para registrar a emoção deles, ao mesmo tempo que explora bem a dinâmica das cenas com cortes bem feitos e uma edição competente. A trilha sonora, vital em produções de suspense como essa, também é acertada. Então, no fim das contas, o filme é bem acabado, apesar de ser falho na trama.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um filme como esse, muitas vezes, só vale a pena por causa do Ricardo Darín. Esse ator, além de ótimo intérprete, é um charme só. Por causa disso, mesmo com a idade que ele tem – 57 anos, perto de completar 58 no dia 16 de janeiro -, ele convence como um “don juan”, um garanhão que pode cantar a secretária do escritório de advocacia de Séptimo e quem mais ele quiser. Mesmo gostando tanto dele – e não conheço ninguém que não goste do ator -, admito que gostei de ver o nome de Belén Rueda no elenco. Não assisti a muitos filmes da atriz, mas em um recente ela manda muito bem: El Orfanato, comentado aqui no blog. Vale assistir.

Um problema de Séptimo é que além destes dois atores, que são protagonistas, o elenco de apoio deixa a desejar. Por exemplo os atores mirins, os irmãos Abel Dolz Doval e Charo Dolz Doval. A impressão que eu tenho é que eles estão ali para cumprir tabela, mas não agregam realmente valor enquanto intérpretes. Não importa se vemos eles antes ou depois do sequestro, porque eles estão sempre iguais. Mornos. Falta experiência e, no caso deste filme, talvez um pouco mais de preparo para eles.

Os outros atores do elenco de apoio são apenas razoáveis. Vale destacar o bom trabalho de Luis Ziembrowski como Miguel, porteiro do prédio que fica sempre com uma cara de semi-culpado e um tanto perdido; Osvaldo Santoro como Rosales, o policial veterano que mora no prédio e que acaba ajudando na procura das crianças – e com quem o protagonista já teve alguns desentendimentos; e Guillermo Arengo como Rubio, amigo e colega de Sebastián e que acaba ajudando o protagonista em diversos momentos. Jorge D’Elía como Goldstein, chefe de Sebastián, está muito mal – ele nem parece ter experiência na área… se bem que o roteiro não o ajuda.

Patricia Gilmour aparece pouco como a “senhora Maria”, vizinha do sexto andar que viu as crianças descendo as escadas; e Gaby Ferrero, identificada como “sequestradora”, apenas confunde ainda mais sobre, afinal, em que local estavam as crianças. Ferrero não é a mulher que aparece primeiro, junto com o namorado, e que era o meu palpite principal. Me parece que ela seria a última mulher que apareceu naquela sequência de apartamentos em que Sebastián procura os filhos, mas não dá para ter certeza.

Da parte técnica do filme, elogios para a direção de fotografia de Lucio Bonelli, que valoriza os ambientes – especialmente o vão central do prédio e sua escadaria – mostrados pelo filme; para a trilha sonora de Roque Baños, que ajuda a impulsionar o clima de tensão e de suspense; e para a edição de Lucas Nolla que, junto com a direção acertada de Patxi Amezcua, especialmente nas sequências iniciais do desespero do protagonista atrás dos filhos, é a responsável pela melhor parte da produção.

Séptimo estreou em setembro de 2013 na Argentina e, dois meses depois, na Espanha. O filme participou de apenas dois festivais, o de Miami e o do Rio de Janeiro. Nesta última semana o filme estreou no circuito comercial brasileiro. No Festival de Cinema de Miami a produção foi indicada para o Prêmio do Grande Júri, mas ela saiu de mãos vazias.

Como o filme sugere, Séptimo foi totalmente rodado em Buenos Aires.

Este é apenas o segundo longa-metragem do diretor Patxi Amezcua. Antes de Séptimo ele havia feito 25 Kilates, de 2008, e o curta Mus, de 2003.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,8 para esta produção. Achei a avaliação justa. Eu dei uma nota um pouco maior porque sou fã da dupla de protagonistas. O site Rotten Tomatoes não tinha nenhuma crítica sobre esta produção, um tanto ignorada fora da Argentina.

CONCLUSÃO: O resumo do que achei do filme já foi esboçado na introdução deste texto. Séptimo começa bem, consegue envolver o espectador em uma situação complicada e angustiante. Não por acaso, lembra um pouco do mestre Hitchcock. Pena que esta lembrança logo se esfumace. Conforme a condução da história vai evoluindo, percebemos que faltou um pouco de cuidado com o texto e com a narrativa. As reações dos protagonistas não condizem exatamente com o que se espera, e a tensão inicial desaparece – ou sobra muito pouco dela.

Não é difícil matar a charada antes do grand finale. E isso é apenas mais uma demonstração de que a trama poderia ter sido melhor desenvolvida. Darín está bem, mas até ele fraqueja em alguns momentos com um roteiro tão fraquinho. De qualquer maneira, algo que o filme acerta é em mostrar bem Buenos Aires. Filmes que exploram o contexto da trama sempre ficam mais interessantes. Pena que o principal ficou faltando: um roteiro melhor acabado.

Heli

23 de maio de 2014 1 comentário

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Há lugares no mundo onde o risco de uma pessoa ser morta ou de ter a vida modificada de forma radical por praticamente razão alguma é muito maior que em outras partes. O México é um destes lugares. Mas há periferias de vários outros países latinos, africanos, do leste europeu, e de praticamente quase todas as latitudes do mundo onde o risco de tragédias acontecerem também é grande. Em Heli somos apresentados a um cenário complicado em diferentes sentidos no México, onde a vida de um jovem e de sua família muda radicalmente. Um filme humano, que dá espaço para vários silêncios, mas que sofre com um bocado de previsibilidade.

A HISTÓRIA: Dois pés, sangue e uma cabeça encostada no chão com uma bota pressionando-a contra a lataria. O rapaz que está com o rosto pressionado pisca, tem uma fita na boca e algumas vezes tenta se livrar daquela bota. A câmera percorre a carroceria da caminhonete mostrando os dois corpos, passa pelo motorista e pelo caroneiro e se fixa no cenário que vai surgindo à frente do veículo. Os homens que estão nele chegam até uma passarela para pedestres que passa sobre a rodovia, carregam os dois corpos e largam um deles lá do alto enforcado. Depois, deixam o local. Corta. Heli (Armando Espitia) tenta namorar com a mulher, Sabrina (Linda González), mas é contido por ela. Batem à porta. Uma garota que está fazendo o censo (Berenice Arnold Hernández) registra os dados da família de Heli. Em pouco tempo eles terão a rotina interrompida de forma trágica.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Heli): Vários filmes gostam de usar a técnica de mostrar uma cena importante, próxima do final, logo no início para, só depois, retomar no tempo para explicar como os protagonistas chegaram naquele ponto. Algumas vezes essa técnica funciona, porque estimula o espectador a ficar atento a cada detalhe do que virá para saber como os personagens chegaram naquele extremo. Mas outras vezes, como em Heli, esse recurso vai contra a história.

Logo nos primeiros minutos do filme a câmera comandada pelo diretor Amat Escalante, responsável pelo roteiro ao lado de Gabriel Reyes – a dupla ainda contou com a colaboração de Zümrüt Çavusoglu e Ayhan Ergürsel -, revelam dois corpos que sofreram com a violência. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois que um dos corpos é jogado da passarela para pedestres, não é difícil desconfiar que o rosto que estava com uma bota sobre ele era o de Heli – afinal, o rapaz aparece na sequência com a mulher. E mesmo de costas, não é difícil desconfiarmos (e não me admira se alguém teve certeza) que a outra vítima era Beto (Juan Eduardo Palacios).

Conforme a história vai se desenvolvendo, achei ruim sabermos logo no início que os dois serão vítimas de um grupo de bandidos. A surpresa, ainda mais em um filme que conta a história de gente simples e marginalizada em diversos sentidos, acaba sendo vital. Heli abre mão deste recurso para tentar despertar a curiosidade do espectador. Uma escolha que vai contra a própria história, não apenas por ser um recurso batido, mas principalmente porque a surpresa da reviravolta sem aquelas cenas teria sido mais impactante.

Se a história de Heli perde impacto ao mostrar parte do desfecho do protagonista e de Beto, o mesmo não pode ser dito do momento em que o filme entra no “castigo” sofrido pelos dois. As cenas são fortes e muito realistas. Especialmente a tortura e a surra sofrida por Beto gela a espinha de qualquer pessoa. Cenas que não podem ser vistas por qualquer pessoa – especialmente pelos jovens, ainda que naquele cenário menores de 18 anos estavam presentes para serem “moldados” por aquela violência.

Como eu disse lá no início, em alguns lugares do mundo a vida é dura e pode ficar radicalmente pior de uma hora para a outra. O ambiente ao redor do personagem Heli é marginalizante. Não apenas porque há perspectiva praticamente nula de melhora de vida, mas também porque o perigo de confrontos entre cartéis de narcotraficantes e de policiais/militares corruptos é constante.

Interessante como o diretor e roteirista Amat Escalante narra esta história. A câmera dele está sempre próxima dos personagens, mas não fica alheia ao ambiente. Pelo contrário. A escassez de oportunidades de trabalho e de estudo, a violência do treinamento militar e dos traficantes, tudo é explorado através das ações das pessoas e do ambiente inóspito e de escassez de recursos – da estrada de terra e dos quilômetros que devem ser percorridos para ir da casa até o trabalho, até os locais “de lazer” sem nada para fazer procurados por Beto e Estela (Andrea Vergara).

Neste sentido, este filme mostra como uma família e uma cidade podem ser moldados pelo ambiente social. Heli e sua família não conseguem se libertar daquele cenário e acabam, por causa da tentativa mal planejada de Beto em quebrar com aquela rotina, tendo a violência que sempre ficou do lado de fora da porta de entrada entrando com força e mudando a vida de todos.

Sacaneado pelos colegas militares, muitas vezes porque não conseguia acompanhar o ritmo de treinamentos, Beto enxerga no furto de pacotes de cocaína desviados de uma operação que deveria significar a destruição de toda a droga uma oportunidade de fazer dinheiro fácil, rápido e, assim, de buscar uma vida diferente ao lado de Estela, com quem queria casar.

O problema destas “ideias de liberdade” é que elas dão errado em 99,999999% dos casos. E é isso o que acontece com Beto. Imaturo, ele esconde a droga roubada na propriedade da namorada. E é aí que a família de Heli se vê envolvida em algo que eles jamais chegariam perto. A violência surge destruidora, invade a residência e faz quase todos de vítima – apenas Sabrina escapa porque foi se consultar com uma espécie de vidente local.

Escalante acerta ao continuar a história após a cena do enforcamento. Um terço do filme, mais ou menos, revela os desdobramentos daqueles fatos. A vida continuou dura após a morte do patriarca dos Silva, especialmente porque Heli não tem notícias da irmã, acaba sendo visto com reticências pela polícia e ainda perde o emprego. Não há generosidade naquele ambiente. Apenas desconfiança, penalização no primeiro erro e ressentimento.

Criado em um ambiente de extrema simplicidade, Heli não tem muita paciência com a mulher que após dar a luz ao primeiro filho do casal, está se preservando porque não quer abortar. Para ela, é difícil ter abandonado a própria família para viver com o jovem naquele local agreste. Levando em conta o que acontece com Beto e Estela, o romance neste filme é visto com desconfiança – afinal, que frutos o amor pode dar? Apenas a continuidade da pobreza e da vida cheia de explorações?

A dúvida que fica no ar, quando Sabrina diz que não quer abortar, é se aquela comunidade está habituada a resolver a gravidez com abortos ou tendo filhos sem refletir nas condições para dar-lhes uma boa vida, com oportunidades de crescimento satisfatórias. Ou seja, planejamento familiar nulo, como acontece em tantos outros lugares. E aí a pobreza apenas segue de geração em geração.

O que Heli nos ensina, como tantos outros filmes com histórias complicadas, é que a vida segue após a tragédia. Nesta produção, de forma dura, com outros problemas, como a vida real. Ainda assim, há esperança e pequenas surpresas. Como o retorno de Estela, que aparentemente foge do cativeiro e consegue voltar para a casa da família caminhando. E o próprio Heli, mesmo demitido, pouco a pouco parece retomar a própria vida. Tanto ele quanto a irmã conseguiram sobreviver. E mesmo sob condições complicadas, não existe presente maior que este. Esta produção vale por esse tipo de reflexão que surge após os créditos finais.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo interessante no trabalho de Escalante neste filme é como o diretor varia entre extremos. De cenas em que ele se aproxima dos atores e valoriza as suas interpretações até aqueles planos abertos em que a paisagem praticamente oprime os personagens. Na questão da fotografia, com direção de Lorenzo Hagerman, os tons são naturalistas, valorizando a claridade e a escuridão quando é o momento de cada uma delas aparecer. Também vale destacar a ótima edição de Natalia López.

Sobre o roteiro, outro acerto de Escalante e de seus parceiros é dar bastante espaço para o silêncio. Nestes momentos não importam as palavras ou as intenções, e sim as atitudes dos personagens e a expressão dos atores – o que, em teoria, demonstraria muito mais a vontade de cada um deles. O cinema dos Estados Unidos não está muito acostumado a estes recursos, mas eles funcionam bem na cinematografia latina e na europeia. Para a nossa sorte.

Falando em cinematografia… Heli é uma coprodução do México com a França, a Alemanha e a Holanda. O filme foi rodado em duas cidades mexicanas: Calderones e Guanajuato, ambas no distrito de Guanajuato.

Dos atores presentes neste filme, vale citar o trabalho dos coadjuvantes Reina Torres como a detetive Maribel; Gabriel Reyes como o detetive Omar; e Ramón Álvarez como Evaristo, pai de Heli e de Estela.

Heli é o quarto longa-metragem do diretor espanhol Amat Escalante. Nascido em Barcelona no dia 28 de fevereiro de 1979, Escalante estreou na direção com o curta Amarrados, em 2002, produzido no México, e lançou o primeiro longa três anos depois, Sangre. Heli, sua produção mais recente, foi a escolha do México para representar o país na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2014. Mas o filme não chegou a ficar entre os cinco finalistas da categoria.

Heli estreou em maio de 2013 no Festival de Cannes. Depois, o filme passaria por outros 21 festivais – um número impressionante! O mais recente foi o Festival de Cinema de Skopje, no dia 26 de abril. Nesta trajetória o filme conquistou 10 prêmios e foi indicado a outros cinco. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Diretor no Festival de Cannes; Melhor Direção de Fotografia no Festival de Cinema de Estocolmo; Melhor Filme no Prêmio ARRI/OSRAM do Festival de Cinema de Munique; e o Melhor Filme no Elcine First Prize do Festival de Cinema Latino-americano de Lima.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para Heli. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 13 críticas positivas e sete negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 65% e uma nota média de 6,3.

Dos atores envolvidos no filme, achei todos competentes – apesar de, aparentemente, inexperientes. Mas de todos eles, sem dúvida alguma o destaque é a jovem Andrea Vergara. Muito expressiva, ela dá credibilidade para a personagem que é fundamental para a história – afinal, toda a ação se desenvolve a partir desta personagem. Ela simboliza a perda da inocência de uma sociedade agredida pela violência.

Procurei saber um pouco mais sobre Escalante e encontrei esta entrevista interessante dele para o site Butaca Ancha. Logo na primeira pergunta ele comenta porque gosta de trabalhar com atores não-profissionais. De como busca, para um filme como Heli, pessoas do local em que ele vai contar a história. Para começar, Escalante comenta, ele gostaria de fazer documentários.

Depois, afirma que as pessoas precisam acreditar nas histórias e nos personagens e que, por isso, já não é tão fácil pegar uma jovem de um centro urbano e fazer ela se passar por alguém do interior. Ele tem razão, ainda que eu ache que, muitas vezes, um grande ator consegue se fazer passar por qualquer pessoa – e que trabalhar sempre com não-profissionais é uma forma de desvalorizar a categoria. Mas concordo que, algumas vezes, é necessário – como é o caso de Heli.

Outra entrevista interessante com o diretor é esta do TimeOut México. Nela, Escalante comenta como quis mostrar através de imagens a insegurança relacionada ao crime organizado no país – onde não sabe de onde pode vir o perigo. Ele comenta que utilizou fatos reais para se inspirar para a história – como vídeos que vazaram de treinamentos militares em que havia humilhações como a sequência do rapaz tendo que passar sobre o próprio vômito e um sequestro seguido de morte que aconteceu em Guanajuato envolvendo militares. Interessante e recomendada a entrevista.

CONCLUSÃO: A história de pessoas simples normalmente não é contada. Há inúmeros filmes sobre personalidades famosas e histórias incríveis, mas o que acontece com gente comum em lugares complicados geralmente não importa para o cinema. Heli rompe com essa regra não oficial e nos apresenta uma história dura, com pelo menos uma cena de arrepiar, e que faz cada espectador refletir sobre a capacidade das pessoas – e da gente mesmo – em sobreviver independente do que aconteça. Ainda que a produção perca força porque as cenas iniciais “estragam” boa parte da surpresa, após os créditos finais a reflexão sobre o que vimos bate forte. Há esperança no final, por mais difícil que algumas retomadas possam parecer.

Gloria

15 de dezembro de 2013 3 comentários

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Algumas buscas são, verdadeiramente, complicadas. Se você não é mais jovem, está sozinha e gosta de se divertir, é preciso ter muita coragem para procurar o que se deseja. Gloria é um filme que fala sobre uma mulher que não se cansa de buscar. Quer dizer, em certo momento, ela até se cansa. Mas depois, volta a mexer o esqueleto. Porque não dá para parar. Especialmente uma mulher como Gloria.

A HISTÓRIA: Toca uma música destas da era disco. Em um salão, muitos homens e mulheres de meia e “melhor” idade estão se divertindo dançando. A câmera vai se aproximando do bar, onde vemos a uma mulher de vestido preto, óculos e batom vermelho tomando um drink. Depois, esta mulher caminha entre as pessoas até encontrar com Joaquín. Então ela se apresenta: Gloria Cumplido (Paulina García). Ele a reconhece, mesmo que faz muito tempo que os dois não se encontram.

Ela calcula 10 ou 12 anos, desde que ela se separou do marido. Eles brindam e dançam, mas ela vai embora sozinha. Chegando em casa, ela retira um gato do vizinho do apartamento e tem dificuldade de dormir com os barulhos que o vizinho descontrolado faz. No dia seguinte, Gloria vai cantando de carro até o trabalho, de onde liga para os filhos. Em breve, em outra noite de dança no clube, ela vai conhecer a Rodolfo (Sergio Hernández), com quem vai começar uma nova relação.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Gloria): O grande trunfo deste filme, e disto eu não tenho nenhuma dúvida, é o roteiro escrito pelo diretor Sebastián Lelio junto com Gonzalo Maza. Que maravilha de texto! Nem tanto por causa dos diálogos, ainda que todos eles sejam bastante coerentes. Mas principalmente pela dinâmica da história e pela construção da personagem que dá título para o filme.

Gloria é uma mulher independente, que vive sozinha após ter se separado do marido e criado os dois filhos. Ela trabalha, para as próprias contas e sai em busca da felicidade sempre que tem uma chance. Assim, ela não se importa de ir sozinha até o baile, onde flerta com o homem que achar interessante. Sempre que é convidada, ela vai a encontros de amigos, onde ouve música, conversa e toma alguns drinks.

Em sua busca, Gloria também experimenta o yôga, faz dinâmica de teatro e canta no carro músicas conhecidas. É uma mulher fascinante, dona de si e do próprio nariz. Mas vive os dilemas da vida comum. Por exemplo, a “invasão” diária do próprio apartamento pelo gato do vizinho e pelos rompantes de descontrole de seu dono. Mesmo tendo amado os filhos e, aparentemente, ter ensinado a eles o valor da família e de serem independentes, Gloria tem que sempre tomar a dianteira e ligar para saber como eles estão.

Mesmo aparentemente sendo feliz com a própria independência, a protagonista desta história sente falta de um companheiro. Ou, ao menos, de ter sexo com frequência. Por isso, ela não se cansa de sair para conhecer novas pessoas. Sim, porque quando ela sai para dançar, não está saindo apenas para soltar o corpo e se divertir. Ela também flerta. E normalmente é Gloria que toma a atitude.

Por tudo isso, achei este filme tão interessante. Porque ele é realista. E conta a história comum de tantas mulheres de meia idade que casaram, criaram os filhos e, agora que eles são adultos e elas não tem mais um marido em casa para “cuidar”, buscam formas diferentes de se divertirem. E neste caminho, vão passando por distintos momentos de autodescoberta.

O roteiro, desta forma, é o ponto forte do filme. Junto com a convincente e encantadora interpretação da protagonista, a ótima Paulina García. Dito isso, só achei que o filme tem o azar de estar no meio de uma safra muito boa de produções de diversas partes do mundo que estão pré-cotadas para o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Sim, porque apesar de ser uma crônica interessante sobre este perfil de mulher adulta independente bem típico do nosso tempo, Gloria não tem a inventividade narrativa ou a força de estilo de outras produções desta safra.

Ainda assim, e falarei disso logo abaixo, ele está sempre cotado entre os favoritos para chegar na lista final do Oscar. Seria algo importante para o cinema chileno. E para valorizar o trabalho do diretor e roteirista Sebastián Lelio. Agora, voltando para a história de Gloria… achei interessante o choque de realidades entre a personagem principal deste filme e o personagem de Rodolfo, com quem ela engata um novo romance.

Gloria me parece ser o novo perfil de mulher chilena – perfil esse repetido em quase todas as partes do mundo: independente, dona de si, que não tem medo de tomar a iniciativa em uma festa para tentar conquistar um homem que lhe chamou a atenção. Mas Rodolfo é o modelo “antigo” (mas ainda muito presente, ao que tudo indica) de homem: aquele que assume integralmente a postura de provedor da casa, do qual a família deve depender. De quebra, e isso vamos percebendo com o desenrolar da história, ele me parece um sujeito bastante carente.

Para mim, é o modelo clássico do homem adulto: ele teve que assumir muitas responsabilidades ainda jovem e, aparentemente, não teve tempo de amadurecer emocionalmente. Não por acaso, após deixar a Marinha, Rodolfo abriu um parque onde as pessoas podem “brincar de fazer guerra” com o paintball. Separado da mulher há cerca de um ano, ele não consegue se desvencilhar da família – socorrendo a ex-mulher e as duas filhas sempre que possível. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aliás, uma dúvida que fica nesta história é até que ponto ele realmente se separou da ex-mulher. Ainda que ele estava morando sozinho, será que realmente não continuava tendo uma relação afetiva e amorosa com a ex?

Eu não me surpreenderia se a resposta para a última pergunta fosse “sim”. Mas isso, na verdade, pouco importa. Porque ele tem atitudes realmente desprezíveis com Gloria. Atitudes estas, especialmente a que ele toma no aniversário do filho dela, Pedro (Diego Fontecilla), que apenas reforçam a minha leitura de que ele era um homem bastante inseguro. Afinal, quem mais deixaria aquela casa daquele jeito e com aquela justificativa se não tivesse uma necessidade extrema de ser visto e valorizado? Certo que ele pode ter saído também por outras razões… mas há outros indicativos da insegurança.

No discurso e em algumas atitudes, Rodolfo deixa claro que quer iniciar uma nova vida. Ele insiste com Gloria que eles podem fazer isso juntos. Rodolfo explica, por exemplo, como procurou ser um “novo homem” ao buscar uma cirurgia de redução de estômago. Mas ele comprova que para mudar não basta alterar o próprio aspecto físico. Mais importante que isso é a mudança das atitudes.

Apesar de toda a insistência que ele tem com Gloria, sempre que ele é acionado por uma das filhas, Rodolfo cede. E a segunda vez que ele “abandona” Gloria… foi muito cruel. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ela, por sua parte, tem atitudes surpreendentes. Acredito que aquele foi o principal momento de surpresa da produção, juntamente com o momento em que ela resolve, sozinha, experimentar maconha em casa. Depois de ser abandonada no restaurante por Rodolfo, Gloria embarca em uma noite de exageros, regada por muita bebida e uma ficada divertida. Suas atitudes são de uma garota muito mais jovem. Sem dúvida, Gloria sabe aproveitar a vida.

A questão que fica deste filme, tenho certeza, é que grande parte da audiência vai se perguntar “até quando?”. Existe limite para alguém viver desfrutando a vida sem barreiras como Gloria parece estar fazendo? Uma mãe que tem os filhos crescidos e que será avó pela segunda vez pode ter aquelas atitudes? Tenho certeza que Lelio construiu este filme para levantar estas questões.

Da minha parte, não acho que Gloria esteja fazendo nada demais. Admiro mulheres que são responsáveis, cumpriram o seu papel e que não se cansam de buscar a felicidade. Como elas buscam isso é um problema delas, na minha opinião, desde que elas não estejam ferindo, machucando ou fazendo mal a ninguém. E, para mim, este é o caso de Gloria.

Ela continua sendo uma mãe amorosa e atenciosa. É independente porque trabalha, paga as próprias contas, mora sozinha e dirige para onde quiser. Ainda assim, ela sofre com os problemas da vida moderna – distância dos filhos, família desfeita, dificuldade em encontrar um novo parceiro, vizinho problemático. Mas sabe levar tudo com bastante suavidade. Olha de frente para as pessoas, conhecendo os artifícios que elas usam e, mesmo assim, buscando acreditar sempre outra vez que o amor é possível. Mesmo após uma desilusão, ela encontra forças e ânimo para se jogar em uma pista de dança. Grande mulher, e que sabe se divertir!

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Curioso o efeito deste filme. Logo depois que o assisti, achei que ele não era “nada demais”. Tinha até pensado em uma nota 9 para Gloria. Mas aí as horas foram passando e hoje, ao pensar na história escrita por Lelio e Maza, achei o filme mais interessante do que em uma primeira reflexão. A verdade é que, conforme eu fui me lembrando da história, ela me pareceu cada vez mais interessante e bem acabada. Por isso fui aumentando a nota até a avaliação acima.

Antes falei do essencial do filme, mas deixei de fora aquele trecho em que há uma troca de diálogo sobre o Chile atual. Infelizmente, o que para mim é uma vergonha, ainda não conheço o Chile pessoalmente. Mas tenho um bom amigo de lá e conheço outras pessoas deste país que é o meu fornecedor de vinhos preferido na América. :) Conhecendo as pessoas que eu conheço de lá, a minha leitura do Chile é que este é um país de gente educada e engajada. Que se preocupam com a política e com os temas contemporâneos.

Pois bem, por tudo isso, achei bem interessante o diálogo entre Gloria, Rodolfo e os amigos dele, um sociólogo e a dona de uma loja. Eles falam de um Chile que não existe mais, que é uma cópia imperfeita do que já foi e, agora, contaminada pela cobiça. Rodolfo critica a falta de líderes, enquanto Gloria reclama dos preços altos. O sociólogo faz as declarações mais interessantes e elaboradas, inclusive sobre a “revolução mais espirital” da multidão que forma as redes sociais. Interessante.

A direção de Sebastián Lelio é firme e mostra convicção na tarefa de acompanhar de perto os detalhes da vida da protagonista desta história. Assim, a câmera dele está sempre próxima dela, focada em cada uma de suas manifestações e expressões. Um trabalho atento e dedicado, que mostra a clareza do diretor na busca pelo produto de seu roteiro.

Sem dúvida Paulina García é o grande nome deste Gloria. Mas mesmo que o filme seja dela, vale comentar que o ator que divide boa parte dos cenas com Paulina, Sergio Hernández, também faz um grande trabalho. Ele seduz, no mesmo passo que sua parceira de cena, com a mesma naturalidade e fragilidade. Muito interessante o que os dois atores conseguem desenvolver em cena.

Procurei alguma entrevista com o diretor de Gloria para saber o que ele pensava sobre este filme. Encontrei esta, em espanhol, na qual ele fala sobre a ótima recepção que o filme teve no Festival de Berlim. E ele comenta também a razão de ter escolhido o Dia das Mães para que Gloria estreasse no Chile: “Porque Gloria explora o arquétipo de uma mãe. E nos puxa pela mão para enfrentarmos aspectos deste arquétipo que, como sociedade, temos a tendência de tratar de forma evasiva ou com muito eufemismo: a mãe nua ou a mãe amante. Mas também aborda a ideia da mulher que se aproxima dos 60 anos com otimismo e com a cabeça erguida. Gloria é uma mulher que reivindica o direito de sua geração de seguir vivendo, amando e sentindo e isso (porque todos nós vamos chegar lá) é algo divino de ser visto”. Bacana.

Da parte técnica do filme, vale citar a direção de fotografia com tons sempre “cálidos” e meio envelhecidos de Benjamín Echazarreta e a edição cuidadosa de Lelio com Soledad Salfate. Gostei também da trilha sonora e das escolhas bem estudadas de cada música que faz parte deste filme, mas não encontrei o nome do responsável por este trabalho meticuloso e importante para a narrativa. Pena.

Este é o décimo filme no currículo de Sebastián Lelio. O diretor de 39 anos nascido em Santiago, a capital do Chile, começou a carreira com o curta 4, de 1995. Cinco anos depois, ele estrearia em longas com Smog. Dos 10 filmes que ele dirigiu até agora, cinco são longas e cinco são curtas. Destes, ele foi responsável por todos os roteiros, exceto por El Año del Tigre, de 2011.

Gloria estreou no Festival de Berlim em fevereiro deste ano. Depois, ele passou por outros 19 festivais – um número bem significativo. Nesta trajetória, ele recebeu seis prêmios e foi indicado a outros cinco. No Festival de Berlim, Gloria recebeu os prêmios de Melhor Atriz para Paulina García, o Prize of the Guild of German Art House Cinemas e o Prêmio do Júri Ecumênico. Este último foi dado pelo “apelo refrescante e contagiante (de Gloria) de que a vida é uma festa para a qual todos nós somos convidados, independentemente da idade ou condição social, e que sua complexidade só aumenta o desafio de vivê-la integralmente”. Outro prêmio relevante recebido pelo filme foi o entregue pelo National Board of Review, que colocou Gloria no Top 5 dos Filmes em Língua Estrangeira – ao lado de Jagten (comentado aqui), Dupa Dealuri, Yi Dai Zong Shi (comentado aqui) e Kapringen.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Gloria teve cenas rodadas em Santiago e em Viña del Mar, distante 123 quilômetros da capital chilena.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Gloria. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram ainda mais generosos, dedicando 24 textos positivos e apenas um negativo para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,1.

Gloria é uma coprodução do Chile e da Espanha.

CONCLUSÃO: Um filme bastante humano e atento a um tipo de personagem pouco mostrado pelo cinema. Gloria valoriza a mulher de meia idade – ou que já passou um pouco da meia idade – e que continua procurando o amor e aquilo que ela tem prazer de fazer. Não é por acaso que a atriz que protagoniza este filme ganhou alguns prêmios. Ela está perfeita, sem parecer artificial em nenhum momento. Por isso, esta produção parece tão legítima.

Certamente conhecemos alguém com o perfil de Gloria. E isso faz com que a história se aproxime das pessoas. Bem dirigido, com um roteiro que vai crescendo com o tempo e que guarda algumas pequenas surpresas no caminho, Gloria mostra que o cinema chileno tem valor e futuro. Para arrematar, em certo momento, o filme trata da própria sociedade daquele país, em um dos diálogos mais consistentes da produção. Vale a pena assistir, especialmente pelo roteiro tratar a personagem central com tanto respeito. Ainda assim, este não é o melhor filme em língua estrangeira da temporada.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Gloria chamou a minha atenção logo que comecei a pesquisar sobre a opinião dos especialistas em cinema e que acompanham as bolsas de apostas para o Oscar. Tanto na lista da crítica Anne Thompson quanto na de Peter Knegt, entre outros, o filme chileno aparece entre os favoritos para uma estatueta de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Como eu já havia assistido a outros dos principais concorrentes, tinha grande expectativa para ver ao filme de Sebastián Lelio e, assim, fechar a “coroa” dos favoritos. Pois bem, como eu já disse por aqui e repito, cinema é uma experiência muito, muito pessoal. Por isso mesmo, devo comentar que concordo com os críticos que Gloria é um belo filme, bastante interessante, diferente, e que merece ser visto.

Mas entre os filmes que eu assisti até agora, vejo Gloria correndo por fora na disputa pela estatueta dourada. Sem dúvida prefiro Jagten, The Broken Circle Breakdown, Wadjda e La Grande Bellezza antes de Gloria. Sendo assim, se eu acho que os filmes citados merecem estar na lista de cinco, Gloria não poderia figurar na última vaga? Até pode, mas daí acho que ele concorre de “igual para igual”, praticamente, com O Som ao Redor e Le Passé.

Pelo menos em temática da história e em profundidade dos enredos. Agora, se formos analisar o apuro técnico, Yi Dai Zong Shi levaria vantagem. Isso só para falar de alguns dos filmes mais citados pelos críticos. Ainda falta assistir a outros que estão concorrendo a uma vaga para que eu possa realmente bater o martelo. Mas agora, com o que eu vi, acho que Gloria até pode figurar entre os cinco indicados ao Oscar, mas vejo como muito, muito difícil este filme levar a estatueta.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Gloria ficou de fora da lista. Seguem na disputa os seguintes filmes: The Broken Circle Breakdown (Bélgica), An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina). Além de Gloria, outro filme que aparecia na lista dos especialistas como um dos favoritos, Le Passé, também ficou de fora. Interessante.

Tesis sobre un Homicidio – Tese sobre um Homicídio

8 de setembro de 2013 8 comentários

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O cinema argentino dificilmente entrega um produto ruim. E um sinônimo de qualidade deste cinema é o ator Ricardo Darín. Gosto de assisti-lo em cena porque, além do talento evidente, ele é um intérprete que claramente se entrega em cada papel. E em Tesis sobre un Homicidio ele segue esta regra, abraçando um personagem cheio de controvérsia. Um filme interessante, especialmente pela conclusão final, mas com alguns exageros no caminho que acabam prejudicando a produção.

A HISTÓRIA: Uma moeda rola pelo chão em uma visão desfocada. O cenário tem garrafa vazia deitada, muitos papéis e livros no chão. A mão enfaixada, a cara amassada, e o cenário desolador revelam que Roberto Bermúdez (Ricardo Darín) não passa por um bom momento. Deitado no sofá, ele levanta com dificuldade. Corta. Em um ringue, Roberto treina boxe. Na saída, conversa com um colega sobre a tarefa de lecionar e, pouco tempo depois, inicia uma nova turma de pós-graduação. Ali, ele reencontra o filho de um casal de amigos que há muito tempo não vê, Gonzalo Ruiz Cordera (Alberto Ammann). Em pouco tempo, os dois vão se aproximar e se estranhar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Tesis sobre un Homicidio): O primeiro elemento que me chamou a atenção neste filme foi a trilha sonora exagerada de Sergio Moure. Pensei que ela poderia começar forte daquela forma mas que, conforme a história se desenrolasse, o trabalho entraria em uma sintonia melhor com a produção. Mas não foi isso que aconteceu. A trilha começa e termina pelo menos um tom acima do desejado. Primeiro ponto que joga contra a perfeição neste filme.

O segundo elemento que me chamou a atenção foi a ótima direção de fotografia de Rolo Pulpeiro e a direção estilosa de Hernán Goldfrid. Esta dupla criou uma identidade interessante para o filme desde o princípio. Um clima de mistério, mas com qualidade nas inúmeras cenas escuras, que é muito importante para a história. Depois, o principal desta produção: a interpretação precisa e envolvente de Ricardo Darín.

Ele é o melhor de Tesis sobre un Homicidio, não tenho dúvidas. Pouco a pouco o personagem principal desta história vai mergulhando em sua própria tese sobre o crime que ocorre em frente à universidade onde dá aula. Bebendo e fumando cada vez mais, Roberto está próximo de perder o controle. Mas sua teoria parece bem construída o que, evidentemente, levanta ainda mais dúvidas. Afinal, ele está chegando perto da verdade ou apenas ficando obcecado com a culpabilidade de um sujeito jovem, bonito, e com quem ele parece rivalizar?

Da minha parte, quanto mais crescia a teoria de Roberto sobre Gonzalo ser o culpado pela morte de uma das irmãs Di Natale, mais eu me convencia que aquela não deveria ser a verdade. Isso porque o mistério acabaria muito rápido. E não deu outra. O roteiro de Patricio Vega, baseado no livro de Diego Paszkowski, não fecha a questão, no final do filme, mas praticamente mata a charada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como a maioria dos espectadores deve ter suspeitado antes, Roberto estava exagerando as cores de sua teoria para comprovar que estava certo, ignorando as dúvidas e se agarrando a detalhes que poderiam ser facilmente refutados. Ainda que uma das cenas finais mostre o “fim” da adaga procurada, vejo aquela imagem como mais uma alucinação de Roberto. A imaginação dele falando mais alto.

Tesis sobre un Homicidio tem um bom ritmo, e não deixa a peteca cair em nenhum momento. A trilha sonora exagerada incomoda um pouco, mas os outros elementos técnicos, especialmente a direção segura de Goldfrid, equilibram a balança para o lado positivo. Uma pena que o roteiro tenha algumas falhas importantes. Para começar, não fica muito claro porque Roberto se interessa tanto pela morte de Di Natale. De fato ele está tão interessado pelo crime porque ele ocorreu perto dele, na frente da janela de sua sala de aula? Duvido muito que ele se interessaria pela morte de um rapaz no mesmo local.

Pouco a pouco outras leituras vão surgindo no horizonte para este abrupto interesse de Roberto por Di Natale. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Em mais de uma ocasião, quando perguntam para o professor se ele conhecia a garota morta, ele não tem segurança para dizer que não. Depois, quando conclui que o assassino procurou a sua vítima porque ela era parecida com a mãe, uma morena com cabelos muito curtos, surge a primeira resposta para esta dúvida de Roberto se ele conhecia ou não a garota. Inconscientemente, parece, ele reconheceu o antigo caso naquela garota vitimada perto dele.

Mas há uma outra leitura mais psicológica para essa obsessão de Roberto para desvendar o crime. A verdade é que Gonzalo insiste em se aproximar de seu ídolo desde o início – o que é um pouco estranho, mas compreensível. Roberto parece ficar um pouco incomodado com isso e, logo em seguida, reage ao aluno como ele sendo um rival. Isso mesmo. Bonito, jovem e inteligente, Gonzalo parece ser um problema para o professor que acredita que o aluno pode estar lhe superando. E logo no início deste filme percebemos que Roberto tem um ego considerável, além de vestir a pele de galanteador.

Há como pano de fundo nesta produção, portanto, um choque entre gerações. E a derrocada de um sujeito que chegou à meia idade sem a vida que ele gostaria – talvez. Roberto tem prestígio, mas quando começa a exagerar a dose na investigação, logo tem as suas ações vistas com receio pelas pessoas que o cercam. E daí outro problema do roteiro. Apesar de um caso antigo em que ele se equivocou ser lembrado em mais de uma ocasião, não sabemos o que Roberto fez de errado no “caso da torre”. E vejo isso como uma falha no texto – afinal, para que citar este caso mais de uma vez e não explicá-lo? Qual é o propósito que ajuda o filme?

Além da obsessão de Roberto por Gonzalo que, para mim, passa pela competição entre eles como “machos dominantes”, chama a atenção a postura de Laura Di Natale (Calu Rivero) mais no final da produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Impressiona quando ela corta o cabelo como a irmã morta, mimetizando-a. Não me pareceu que Gonzalo teria incitado a garota a fazer isso – afinal, eles mal se conheciam. Então por que ela cortou o cabelo daquela forma? Antes, Laura tinha iniciado o mesmo curso que a irmã. Curioso como algumas pessoas repetem os atos e modos de uma pessoa que elas perderam – seria uma forma de tornar a ausência “menor”?

Para mim, a conclusão desta produção acaba sendo o melhor do filme – junto com a interpretação de Darín. Qualquer tese pode ser refutada. Porque o “investigador” está propenso a encontrar, observar e analisar os elementos que servem para reforçar a sua teoria, ignorando outros elementos que podem enfraquecê-la. No fim das contas, Gonzalo está certo. De que não há forma de sabermos que tese é correta. Aparentemente Roberto estava errado sobre Gonzalo. Mas o filme deixa uma pequena lacuna para a dúvida. O que é sempre válido.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tesis sobre un Homicidio tem um ritmo interessante, é bem conduzido, mas poderia ser melhor. Especialmente o roteiro, que não deixa a dúvida pairar tanto no ar quanto deveria. Sem contar pelo menos um ponto não explicado na história. Essas são as razões principais para a nota acima.

Ricardo Darín está ótimo neste filme. Como sempre, aliás. Mas aqui ele tem um jovem ator competente para duelar. Alberto Ammann, que já tinha mostrado competência em Celda 211 (comentado aqui) e em Lope (neste texto no blog), faz um duelo à altura de Darín. Se o roteiro fosse melhor, deixando mais espaço para ele fazer um papel dúbio, tenho certeza que Ammann teria se saído ainda melhor. Eis um nome bom para ser acompanhado – assim como Darín.

O filme passa grande parte do tempo concentrado no protagonista. Além dele, do personagem de Ammann e o de Calu Rivero, há alguns coadjuvantes importantes. Vale citar o bom trabalho de Mara Bestelli como Mónica, ex-mulher de Roberto e psicóloga que opina durante a produção; Arturo Puig como Alfredo Hernández, policial responsável pela investigação da morte de Di Natale e marido de Mónica; Antonio Ugo como Mario Passalaqua, delegado que repassa as informações preliminares do caso para Roberto; e José Luis Mazza como Robles, que faz a autópsia da vítima.

Da parte técnica do filme, além da direção de fotografia, já comentada, vale destacar o bom trabalho de edição feita por Pablo Barbieri Carrera.

Tesis sobre un Homicidio estreou em janeiro deste ano na Argentina. Até o momento, a produção participou de apenas dois festivais: o de Miami e o de filmes policiais de Beaune, na França.

Esta produção foi totalmente rodada em Buenos Aires.

Este filme é apenas o segundo na filmografia de Hernán Goldfrid. Antes ele havia dirigido Música en Espera, lançado em 2009.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para Tesis sobre un Homicidio. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão de avaliações do site.

Tesis sobre un Homicidio é uma coprodução da Argentina com a Espanha.

CONCLUSÃO: Um filme policia e de suspense precisa ter bons atores e um ótimo roteiro, correto? Tesis sobre un Homicidio tem o primeiro, mas patina um pouco no segundo. Quem já assistiu a várias produções do gêneros fica bem desconfiado(a) com esta história, porque ela parece “coerente” demais para um estilo de filme que sempre procura surpreender o espectador. E, no fim das contas, Tesis sobre un Homicidio acaba não surpreendendo. Cumpre o seu papel, com alguns exageros no meio, como a trilha sonora, mas não reinventa nada. Um passatempo competente, ainda que não consiga trazer nenhuma renovação para o gênero. Mas tem o Darín, que sempre é um prazer assistir.

Karen Llora en un Bus – Karen Chora no Ônibus

18 de agosto de 2013 1 comentário

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Os cinemas brasileiros não exibem com a frequência que deveriam os filmes produzidos na América Latina. Por isso mesmo, não é todo dia que conseguimos assistir a um filme como Karen Llora en un Bus, produção da Colômbia dirigida pelo estreante Gabriel Rojas Vera. Apenas por isso, por ter chegado até aqui, o filme merece algum crédito. Afinal, é um sobrevivente nesta seara onde proliferam produções norte-americanas, europeias e, em menor grau, argentinas. E ele não chegou tão longe por acaso. Com seu estilo low profile, Karen Llora en un Bus apresenta uma história interessante, moderna – especialmente em países latinos menos liberais que o Brasil – e com uma grande atuação.

A HISTÓRIA: Noite. Uma mulher (Ángela Carrizosa Aparicio) chora muito dentro de um ônibus, olhando para a cidade que passa fora do coletivo. Aos poucos, ela se acalma. Ela deixa a linha F23 – Port Americas puxando uma mala e carregando uma bolsa. Anda um bocado, até chegar a uma pensão. Insiste com a proprietária (Margarita Rosa Gallardo) para que ela possa entrar, apesar do horário adiantado. Para isso, paga três meses de aluguel. Neste local Karen, a mulher que chorava no ônibus, vai conhecer a jovem Patricia (Maria Angélica Sanchez Parra), que vai lhe ajudar nesta nova fase de sua vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomento que continue a ler quem já assistiu a Karen Llora en un Bus): Este não é um filme complicado. Pelo contrário. Ele conta uma história simples do início até o final: a reconstrução de Karen, uma mulher de meia idade que decide mudar radicalmente de vida. Ela deixa um lar confortável, onde vivia com o marido Mario (Edgar Alexea), para buscar a própria independência.

Claro que ninguém entende a atitude dela. Como manda uma boa (só que não) sociedade machista, essa busca de Karen parece absurda. A mãe dela (interpretada por María León Arias), do início ao fim, estimula Karen a voltar para Mario. Fica evidente como a mulher fica do lado do marido da filha, sem ao menos tentar saber os motivos de Karen. E o primeiro reencontro dela com o marido deixa evidente como eles não tem mais nada.

As cenas do casal são típicas – o que evidencia, ainda mais, a qualidade do jovem diretor Gabriel Rojas Vera como roteirista. Mario e Karen não falam a mesma língua. Isso quando eles conseguem se comunicar. No jantar que deveria ser de conversa entre eles, Mario chama uma parceira de negócios que levou um bolo para ficar com eles. Típica ação absurda de um sujeito que não consegue enxergar as necessidades da parceira de vida. Algo muito mais comum do que gostaríamos. No jantar, por falar de negócios, Mario tem conversa fácil. Depois, indo para casa com Karen, eles emudecem.

Existem muitos tipos de silêncio. Da minha parte, adoro a maioria deles. Gosto do silêncio quando você está sozinho e pode contemplar a vida. Também aprecio o silêncio quando você está com quem você ama e contempla esta pessoa em todos os detalhes, algumas vezes usando a visão, outras vezes, apenas o tato. Existe o silêncio em um grupo de amigos também, quando todos estão percebendo o quanto é valioso um laço antigo. Mas o silêncio revelado pelo casal Karen e Mario é o fim. Porque ele está carregado de desencontros, de falta de sintonia, de ausência de propósitos em conjunto.

Karen, muito corajosa, especialmente na sociedade em que vive, decide romper com aquela infelicidade. E passa por maus bocados para conseguir reerguer-se sozinha. Sem sentir apoio da mãe, ela não pede ajuda, mesmo quando tem a bolsa roubada. Aliás, esse episódio merece um parêntese. De fato, a bolsa preta e grande que ela tinha até chegar ao restaurante some. Mas depois, ela aparece novamente com uma bolsa com a mesma cor. Demorei um tempo para perceber que não houve uma falha na continuidade. As bolsas são um pouco diferentes, no final das contas.

Me chamou a atenção como o roteiro valoriza a solidariedade dos colombianos. Se, por um lado, Karen bate cabeça para achar algum emprego – aparentemente ela não tem qualificação e, por isso, só consegue concorrer a subempregos -, por outro lado ela consegue sobreviver com a ajuda de doações dos moradores da cidade, especialmente dos usuários do sistema público de transporte para quem ela pede dinheiro diariamente após ter tido a bolsa furtada.

Mas nem todos são bacanas. O dono do restaurante (Julio César Bula) onde Karen perde a bolsa age como um cretino. Sinal de que pessoas imbecis existem por todas as partes. Além de trazer uma mensagem bacana, de reinício, este filme revela uma atriz muito talentosa.

Ángela Carrizosa Aparicio carrega o filme e faz uma parceria bacana com os outros dois nomes fortes da produção: Maria Angélica Sanchez Parra como Patricia, um contraponto interessante para a “certinha” e antiquada Karen, e Juan Manuel Díaz Oróztegui, como Eduardo, um escritor de livros e de peças de teatro que conquista a protagonista. Acompanhamos a transformação de Ángela, que muda não apenas na aparência, mas também no comportamento. É lindo de se ver como sai de cena aquela personagem contida, reprimida, com corte de cabelo de “tia” e roupas escuras e entra em cena uma mulher segura de si, que retoma as leituras, os sorrisos, assume um corte de cabelo mais ousado e roupas coloridas.

Um filme simples, que vai evoluindo com o tempo, e que ganha pontos por sua premissa singela, mas corajosa. Não há ousadia na técnica da direção, ou em um roteiro com grandes reviravoltas. Mas a atriz principal ganha o espectador, e a mensagem de que recriar-se vale a pena é o que fica no final. Sempre haverá alguém chorando em um ônibus, ou em outra parte qualquer, mas é preciso ter paciência e coragem para mudar aquela situação de sofrimento.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme começa em uma noite e termina em um dia ensolarado. A simbologia está presente do primeiro até o último minuto. O que demonstra que a estreia de Gabriel Rojas Vera foi bem planejada. A noite inicial representa o fim, o término de um período da vida de Karen. O dia ensolarado, ainda que tenha outra personagem chorando, representa um novo alvorecer, uma nova vida. Simples, mas eficaz.

Gostei da forma direta com que o diretor e roteirista contou esta história. Sem firulas, sem prometer mais do que poderia cumprir. Esta produção também funciona porque trilha o caminho do “realismo”, explorando bem a vida na cidade e as relações comuns que aparecem no cotidiano das pessoas que vivem naquele espaço urbano. Por isso o filme mantêm o interesse dos espectadores.

Além dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho de Emerson Rodríguez Gómez como Alberto, o homem casado que mantém um caso com Patricia, e a ponta de David Guerrero como o homem que oferece emprego para Karen no curso de inglês. Os dois aparecem pouco, mas acabam sendo marcantes na produção.

A parte técnica do filme não apresenta nenhum grande destaque. Mas vale citar o bom trabalho do diretor de fotografia Manuel Castañeda, a montagem de Carlos Cordero e a trilha sonora de Rafael Escandón.

Karen Llora en un Bus estreou em fevereiro de 2011 no Festival de Berlim. Depois, a produção passaria por outros seis festivais, terminando a trajetória no de Biarritz, em setembro de 2012. Nesta trajetória, a produção foi indicada como Melhor Filme no Festival de Cartagena, na Colômbia, mas perdeu o prêmio para Post Mortem, uma co-produção do Chile com a Alemanha e o México. Lendo a página oficial do filme, vi que ele recebeu pelo menos um prêmio: a Caravela de Prata como a Melhor Obra Prima do Festival de Cinema de Huelva.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção. Não existem críticas sobre o filme no Rotten Tomatoes.

Lendo a página oficial do filme, no Facebook, achei curioso que esta produção já estreou na televisão colombiana. Ela passou em rede nacional em setembro do ano passado – e nos cinemas brasileiros, está chegando apenas agora.

Antes eu falei da importância do silêncio. E algo que eu gostei neste filme é que ele dá espaço para ele existir. Isso é bom, especialmente frente a outros filmes do gênero que apresentam um excesso de discursos.

Para os curiosos sobre a locação dos filmes, Karen Llora en un Bus foi totalmente rodado em Bogotá.

O diretor Gabriel Rojas Vera nasceu em Bogotá em 1977 e estudou Cinema e Televisão na Universidade Nacional da Colômbia. Ele escreveu e dirigiu vários curtas e codirigiu o documentário Falsos Positivos em Extradición, de 2010. Segundo esta página do Festival do Rio, ele dirigiu o primeiro longa em 2005, Cristina, uma produção ainda não finalizada.

CONCLUSÃO: Karen Llora en un Bus não é um filme arrebatador. Ainda bem. Esqueça o estilo dramático das novelas mexicanas, ou a parte do cinema exagerado de Pedro Almodóvar – que não vive em um país da América Latina, mas que influenciou esta e outras escolas de cinema pelo mundo. Esta produção dirigida por Rojas Vera flerta bastante com o teatro, em alguns momentos, e apresenta os seus argumentos sem pressa. Quem nunca reinventou a própria vida que atire a primeira pedra.

Este filme é sobre uma mulher que tem a coragem de encarar a ruptura de um casamento falido e de recomeçar tudo do zero sem apoio algum. Haja coragem! Mas é esta atitude que une Karen a tantas outras mulheres latinas. Em sociedades onde ainda o machismo dita muitas regras e comportamentos, Karen Llora en un Bus é um filme que rompe conceitos e formas de pensar. Por essa razão, principalmente, e também por ter um ótimo trabalho da atriz Angela Carrizosa Aparicio, que eu me rendo a este filme singelo, mas carregado de boas intenções.

Faroeste Caboclo

16 de junho de 2013 7 comentários

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Uma música corajosa que abalou o país quando foi lançada. E que fez diversas gerações cantarem os seus 159 versos sem pestanejar. Os fãs da banda Legião Urbana sempre tiveram “um filme” de Faroeste Caboclo na cabeça. E o sonho de que, um dia, alguém de fato transformaria aquela história para o cinema. E foi isso que o diretor René Sampaio fez com a produção homônima ao clássico da Legião. Demorou muito para este filho nascer. E ele não foi, exatamente, idêntico à obra original. Um problema para pessoas que, como eu, esperavam por um pouco mais de fidelidade com o trabalho de Renato Russo.

A HISTÓRIA: Close nos olhos de Santo Cristo (Fabrício Boliveira). Olhos estes que fitam ao seu  rival, Jeremias (Felipe Abib). A troca de ângulos lembra os clássicos do faroeste. Até que o tiro ecoa. E João relembra a sua vida desde a infância, quando pegava água em um poço ao lado da mãe. O herói desta história afirma que “nasceu com muitas contas para acertar”, e logo vemos ele, já adulto, queimando um policial após a morte da mãe. A partir daí, a história de João de Santo Cristo começa a se desdobrar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já tenha assistido a Faroeste Caboclo): Logo no início deste filme, fiquei com uma pulga atrás da orelha. Afinal, na sequência inicial, parece que João leva um tiro de Jeremias após uma longa encarada. E um frente a frente ao outro. Mas só um pouquinho, e a música? Onde fica a história de Faroeste Caboclo, o clássico da Legião Urbana?

Porque se você conhece os versos originais como eu, sabe que João levou um tiro nas costas, e não de frente. Sem contar que, ao redor dos rivais, nada de povo, de bandeirinhas, de sorveteiro ou câmeras da TV. Mas como assim? Logo de cara pensei: demoraram tanto para filmar esta história e distorcem tudo, no final? Mas como era apenas o começo do filme, acreditei que talvez aquela fosse uma “licença poética”, como se os rivais tivessem se transportado para um ambiente de rivalidade “isolada” na hora do tiro, e que quando chegasse o momento, todo o circo estaria armado.

Mas qual nada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na Hora H, o final “intimista” entre os inimigos segue valendo. João é atingido pela frente, e não pelas costas – o que, na música, apenas reforça o quanto Jeremias era covarde. Além de perder um ponto fundamental da música com o tiro pela frente, o filme perde uma grande oportunidade de mostrar algo que a música trata: a dificuldade das pessoas em compreenderem histórias que lhe são estranhas. Ou, em outras palavras, como a maioria não consegue colocar-se no lugar do outro.

Na música, isso fica claro com o “circo” armado ao redor do duelo, assim como pela repercussão que a morte de João acaba tendo pela televisão. As pessoas não conseguem perceber a própria desgraça ao viverem em um país em que a falta de opção de quem nasce preto e pobre é uma verdadeira afronta ao crescimento de um Brasil mais igualitário e justo. Esta é a essência de Faroeste Caboclo, a música. Mas o filme, que trata do preconceito racial, roça pouco nas demais desigualdades e despreza toda a reflexão sobre a ignorância das pessoas que não conseguem compreender a sua própria realidade.

Mas não foi apenas este ponto que me incomodou nesta produção. Sério mesmo que, logo no começo do filme, presenciamos a um João assassino de policial? Isso que eu chamo de interpretação criativa dos roteiristas Victor Atherino, Marcos Bernstein e José Carvalho para a história de João. Na música, Renato Russo escreveu que “quando criança só pensava em ser bandido/ ainda mais quando com um tiro de um soldado o pai morreu”. Mas daí a João de fato matar um policial para vingar o pai… em momento algum a música afirma que ele sera um assassino.

Outras característica de João, por outro lado, são deixadas de lado. Como de que ele “comia todas as menininhas da cidade” e de que “ia para a igreja só para roubar o dinheiro/ que as velhinhas colocavam na caixinha do altar”. Uma coisa é ele roubar balas do dono de um bar. Outra muito diferente é pegar moedas em uma igreja. Ele aprontava, como qualquer criança, mas não consigo imaginá-lo como um ladrão para qualquer hora. Assim como nunca imaginei ele como um assassino vingador do pai.

Faroeste Caboclo, o filme, ignora completamente os sonhos de João – como sua vontade de conhecer o mar “e as coisas que ele via na televisão” – e a sua viagem para Salvador. Era vital o encontro do herói com o boiadeiro? Não. Mas para que ignorar uma parte da história assim, olimpicamente? Quem conhece a música também sabe que ele começou a trabalhar como aprendiz de carpinteiro por conta própria, antes de conhecer a Pablo (que no filme é interpretado por César Troncoso).

Novamente o filme ignora o jeito “pegador” de João, que gastava “todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador” na zona da cidade. João trabalha como um cão, mas não consegue pagar as próprias contas – algo muito mais contundente do que ele apenas viver mais ou menos, como o filme mostra. Novamente, segundo a música, a TV aparece como algo importante – ele ouve o noticiário com promessas de políticos, o que lhe deixa ainda mais indignado.

O filme mostra ele virando traficante. Beleza. Mas não explora a forma com que ele acabou com todos os traficantes da região, e nem o mergulho que ele faz na noite da Asa Norte antes de conhecer Maria Lúcia. A produção igualmente ignora o roubo que faz ele ser estuprado e agredido – esta violência tem uma “releitura” muito mais inocente no filme. Na música, fica claro que ele revida ao ataque que sofreu com muita violência – algo que a produção de Sampaio ignora.

Só depois de ter vivido tudo isso, pela música de Renato Russo, é que João conhece Maria Lúcia. Até ali, ele fez e aconteceu como bandido. Causou terror, ficou rico, era “destemido e temido no Distrito Federal”. Diferente do filme, João abandona o crime e volta a ser carpinteiro – na história filmada por Sampaio ele não deixa o tráfico definitivamente depois que começa a fazer negócios com Pablo. O filme também ignora um personagem fundamental da música: o “senhor de alta classe com dinheiro na mão”.

Na canção de Renato, essa figura representa muitos interesses daquele país que começava a redescobrir a democracia – e que deixava para trás uma história de “bomba em banca de jornal” ou em “colégio de criança”. O tal rico garante que João está perdido, e de fato isso acontece. Na música, não fica claro como. Esse era um ponto interessante de explorar no filme que, infelizmente, ignora completamente o assunto.

Outro ponto importante da história: Jeremias aparece no local e resolve acabar com João. Muito diferente do filme, que mostra Jeremias como um sujeito consolidado e que acaba tendo o mercado “ameaçado” por Santo Cristo. Mais uma vez, Faroeste Caboclo, o filme, segue uma linha “pueril” e não mostra o lado “canalha” de Jeremias, que “desvirginava mocinhas inocentes/ e dizia que era crente mas não sabia rezar”.

Algo interessante que o filme faz a história avançar é de como Maria Lúcia “esqueceu” João e se entregou para Jeremias. Na música, essa “virada” da mocinha não fica clara – e sim a critério da interpretação de cada ouvinte. No filme, a justificativa é bastante plausível. Assim como é bacana todo o romance contado entre o carpinteiro João e a filhinha de político Maria Lúcia.

Finalmente, e ainda seguindo a história original da música, incomoda muito não ouvir João declamando a sua intimação para Jeremias, e todo o circo que segue a partir daí – incluindo o acerto de contas após ser atingido pelas costas. Finalmente, a música dá a entender que Maria Lúcia se mata após João ter sido acertado e Jeremias ser morto por ele. A sequência que o filme mostra também vai contra a narrativa da música.

Dito tudo isso, também comento que Faroeste Caboclo visto como um filme “western moderno”, até que funciona bem. Ele é bem filmado, tem interpretações convincentes e um roteiro que funciona em muitos momentos. Há ritmo nesta produção, e fidelidade ao gênero. Sem dúvida esta produção ganharia uma nota melhor se fosse um filme independente, sem uma história clássica por trás. Só que esta não é a verdadeira face de Faroeste Caboclo. Um filme que demorou tanto tempo para sair e que, após ter ficado pronto, apenas decepciona aos fãs da música pela falta de fidelidade com a obra original.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Novamente, meus bons leitores, peço desculpa a vocês por demorar tanto para escrever um texto por aqui e, mesmo quando consigo fazê-lo, não publicar todos os detalhes de uma vez. Mas o tempo está curto. Por isso resolvi publicar esta crítica hoje, rapidamente, deixando para registrar curiosidades sobre esta produção em outro momento.

Corrupção policial é algo interessante de explorar em uma história. Mas o personagem de Marco Aurélio (Antonio Calloni) ganha uma relevância neste filme que a música não lhe dá na história original. Achei desnecessário.

Os protagonistas desta produção fazem muito bem o seu trabalho. Gostei de Fabrício Boliveira e, especialmente, de Isis Valverde, que me surpreendeu positivamente. Uma pena que o roteiro não lhes ajuda muito na construção de seus personagens.

Na música de Renato Russo, não fica claro que Maria Lúcia é uma menina de alta classe. Pelo contrário. Eu tinha, na verdade, a ideia de que ela era uma menina interiorana, bastante inocente e que, por isso mesmo, teria sido enganada por alguma história de Jeremias. O preconceito por classe social e por raça fazia parte da história por trás da música lançada pela Legião Urbana, mas estes não eram os fundamentos principais da história. Acho que o filme se prende demais a estes preconceitos e esquece todo o resto do retrato social que a música faz. Uma pena.

Apesar dos problemas no roteiro deste filme, é preciso registrar que a direção de René Sampaio tem algumas sacadas muito boas. Ele tem ritmo e sabe valorizar algumas cenas muito bem, com algumas inovações aqui e ali.

Além da página oficial do filme, que demorei um pouco a encontrar – porque achei que seria muito óbvio ter uma página faroestecaboclo.com.br – vale destacar a página oficial do filme no Facebook, que acompanha a trajetória da produção.

Da parte técnica do filme, vale destacar a direção de fotografia de Gustavo Hadba e o ótimo resgate de “época” encabeçado pelo diretor de arte Tiago Marques, com os figurinos de Valéria Stefani.

Bom comentar que este filme segue uma sequência de críticas focando o cinema brasileiro, pedido feito pelos leitores deste blog através do resultado de uma enquete feita por aqui.

CONCLUSÃO: Há duas formas de assistir a Faroeste Caboclo: apenas com uma produção brasileira ou como um filme que é fruto de uma das músicas mais conhecidas da banda Legião Urbana. Não sei vocês, mas eu consigo pensar nesta produção sob estas duas óticas. Por isso mesmo, para tentar ser justa, não dei uma nota mais baixa para o filme. Se eu fosse analisá-los apenas como uma grande fã da banda e das letras do Renato Russo, certamente, daria uma nota muito mais baixa. Talvez um 5.

Se eu fosse analisá-lo apenas como um filme nacional, possivelmente eu lhe daria uma nota um pouco maior, talvez um 9 ou um 9,5. Mas seria injusto avaliá-lo apenas por uma ótica. Faroeste Caboclo é um belo filme, bem trabalhado, cuidadoso nos detalhes, com uma fotografia muito bonita e cuidada e uma direção com vários momentos inspirados. Tem atores dedicados e um roteiro com vários acertos. Mas ao mesmo tempo, este filme perdeu uma ótima oportunidade de ser realmente fiel à obra de Renato Russo. Muito daquela música clássica do rock brasilis ficou de fora desta produção. O que, para mim, é algo incompreensível. Afinal, se demoraram tanto para filmar Faroeste Caboclo, por que não ser fiel à música? Os envolvidos nesta produção perderam uma ótima oportunidade de fazer história ao levar para as telas uma das canções mais cinematográficas do RR da forma correta. Uma pena, pois.

Sudoeste

5 de maio de 2013 1 comentário

sudoeste1

Sempre fui da opinião que se é para fazer algo parecido com algo que já foi feito, que seja feito, pelo menos, algo melhor. Ou então, que se faça diferente. E foi este segundo caminho que o diretor Eduardo Nunes escolheu ao fazer o filme Sudoeste. Eis uma produção diferenciada, que resgata algumas das qualidades de clássicos do cinema nacional e que, mesmo assim, ainda apresenta uma identidade interessante. A história, em si, acaba sendo um tanto óbvia demais. Mas o filme é belíssimo e tem na qualidade das imagens e do estilo o seu principal trunfo.

A HISTÓRIA: Em primeiro plano, mato. Na sequência da imagem, parece que existe uma estrada. Ouvimos o som da Natureza, ao mesmo tempo que começa a se solidificar o barulho do que parece ser uma carroça. A imagem vai deslizando para a direita até que vemos, de fato, uma carroça se aproximando. Nela, está a parteira, também chamada por alguns de bruxa, Darci (Léa Garcia). Ela é chamada para atender a uma mulher que está dando a luz em uma pensão. Só que Darci chega tarde, e Clarice (Simone Spoladore) morre antes de sua criança nascer. Mas a história dela não termina ali.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes da história, por isso sugiro que só continue a ler quem já assistiu a Sudoeste): A primeira característica que me chamou a atenção neste filme foi a escolha do diretor em contar a história utilizando longos planos de câmera, uma vista panorâmica dos diferentes locais por onde esta história se passa. Até porque, tudo indica, o cenário é fundamental. Para entender como vive aquela gente, e que tipo de (falta de) perspectiva e limites eles tem acessíveis.

Gostei daquela significação em cada plano, em cada escolha de ângulo e do ritmo. Com bastante frequência a câmera do diretor Eduardo Nunes percorre a tela sem interrupção, mas de forma muito lenta, tanto para dar ritmo para o filme quanto para nos mostrar que o tempo não passa com rapidez naquele cenário que poderia compor diversos lugares do interior brasileiro. O gesto de guiar o olhar do espectador para a direita ou para a esquerda, lentamente e em um movimento contínuo, dá ritmo para o filme e também serve de fio condutor para diferentes cenas, ajudando a montar a identidade desta produção.

Depois, me chamou a atenção a escolha do diretor do que filmar. Na primeira cena do filme, mas em outros momentos de Sudoeste também, aparentemente enxergamos um elemento pouco significativo – seja o mato, no início, seja as pás de um catavento, em outro momento. Um recurso interessante porque estimula o espectador a utilizar outros sentidos que geralmente ficam em segundo plano no momento de assistir a um filme, como a audição.

Se o que aparece em primeiro plano é menos significativo do que aquilo que ouvimos, nossa atenção parte para identificar o som antes de dar importância para a imagem. Assim, Nunes nos mostra que nem tudo que é visível, de fato, é importante. Ou, como diria uma certa canção, que as aparências enganam, tanto àqueles que amam quanto aqueles que odeiam. Neste filme, o elemento predominante é o amor. Ainda que a raiva e a indignação estejam presentes – não, neste caso, no enredo, mas na possível reação do público.

Nem tudo que se vê é real. Esta afirmação acaba sintetizando a experiência de Clarice. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois de morrer, antes de dar a luz a sua primeira e única filha, a personagem vivida pela atriz Simone Spoladore “renasce” na figura de sua filha. Em um dia, ela acaba passando de bebê até uma senhora idosa que ela não chegou, de fato, a vivenciar. Nesta trajetória, ela se reencontra com a própria família e com outras pessoas para relembrar pelo que passou. É como se esse fosse um rito de passagem dela para a morte. Uma forma de encarar a própria trajetória e, ao mesmo tempo, se despedir das pessoas que amava antes de partir definitivamente deste plano para outro.

Não vou discutir aqui as diferentes crenças religiosas. Até porque, e os leitores que me acompanham há mais tempo sabem disso, este não é o propósito deste blog. Ainda assim, Sudoeste segue a linha de várias doutrinas. Especialmente aquelas que acreditam que alguém, quando morre de forma trágica – o que é o caso de Clarice -, precisa de um “tempo” e/ou de um rito de passagem para entender porque deixou a vida de forma tão prematura.

O que eu achei mais interessante neste filme, além do estilo da direção e do virtuosismo da direção de fotografia de Mauro Pinheiro Jr., foi a reação dos vivos à presença de Clarice. A família dela, certamente, não a enxergou de forma realista. Do contrário, não teria reagido tão bem ao seu “retorno” à vida. Na fase dela como menina, interpretada pela ótima atriz Raquel Bonfante, até podemos imaginar que a garota não seguiu a mesma fisionomia da Clarice real. Mas depois, quando ela é interpretada por Simone Spoladore novamente, não deixa de ser curioso como as pessoas reagem à ela de forma natural – quando todos sabem que ela morreu.

Uma outra forma de justificar essa naturalidade com que os familiares tratam o retorno da garota ao seu convívio é que nada daquilo, de fato, aconteceu. Ou seja, que ao invés de encarar a passagem de Clarice como sendo uma “despedida” de seus familiares e a adaptação do espírito dela antes de sua partida para outro plano, ver que aquela experiência de “uma vida em um dia” foi vivida por ela sozinha. Talvez até antes de morrer – sua experiência de projeção mental ocorreu sem a respectiva interação com aquelas pessoas. É outra forma de explicar o que Sudoeste explora.

Independente de uma interpretação ou outra, esta produção conta a história de uma garota sofrida, que teve um destino trágico por causa do pai, Sebastião (Julio Adrião). (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como acontece em tantas partes do interior do país, meninas e moças são estupradas por seus pais e não encontram espaço para falar deste abuso com ninguém. A mãe de Clarice, Luzia, interpretada com perfeição e profundidade pela atriz Mariana Lima, assume a pele de muitas mulheres submissas deste país. Que ignoram os abusos do marido por duas razões, basicamente: por amor, por uma parte, e por dependência financeira, por outra. Sem perspectivas e sentindo-se dependentes dos maridos abusivos, elas sofrem diariamente, mas não conseguem romper com aquela dependência e por fim aos abusos e crimes dos homens que elas escolheram para casar.

Desta forma, Sudoeste trata de uma realidade nacional que segue sendo válida em várias latitudes do país. O cenário é agreste, mas esta mesma história poderia ter sido contada em um ambiente urbano. E acredito que não apenas no Brasil, mas em outras parte do mundo também. Infelizmente. Este filme, além de belo nas imagens e com estilo na narrativa, trata de um tema universal e muito duro. Fala sobre abuso sexual, mas também sobre falta de perspectivas, relações desiguais de poder, família e necessidade de compreensão da própria realidade e de perdão. Porque nem sempre é possível perdoar um agressor, mas é preciso desculpar a si mesmo e às pessoas que estavam perto, mas que não sabiam de nada ou que, mesmo sabendo, foram incapazes de agir de outra forma.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Filme em preto e branco e com um ritmo muito diferente daquele que as pessoas acostumadas ao cinemão comercial – seja brasileiro, seja de Hollywood – estão habituadas a assistir. Sudoeste pode não ser um filme fácil para a maioria dos perfis de espectadores. Mas honestamente eu espero que as pessoas dêem uma chance para ele. Afinal, este é o estilo de cinema nacional que foge da preocupação com a bilheteria e tenta produzir algo diferenciado e com estilo. Existe vida inteligente e que foge dos padrões no Brasil. Graças a Deus!

Com Sudoeste, sigo a minha promessa de abraçar a uma série de filmes brasileiros. Resultado de uma votação feita aqui no blog, na qual eu pedia para vocês indicarem que país da América do Sul deveria ser foco de uma série de críticas. Não tenho previsão de até quando vou com esta série de críticas. Mas tenham certeza que a vontade é que a lista siga forte por muito tempo. Só devo intercalar estes textos sobre filmes nacionais com outros lançamentos, para não ignorar boas produções que vão aparecer nos cinemas nos próximos meses.

Sudoeste faz referência a vários filmes nacionais. A mais evidente, especialmente quando Darci coloca o bebê no barco, é feita para o clássico Limite, uma das produções que marcaram a história do cinema brasileiro.

Duas atrizes roubam a cena nesta produção: Simone Spoladore e Mariana Lima, respectivamente filha e mãe. Elas convencem e, mais que isso, comovem com as suas interpretações sensíveis e sofridas. Mas vale destacar outras participações. Como Dira Paes na pele de Conceição, uma mulher que tem um caso com Sebastião e que acompanha Clarice em sua fase de isolamento e gravidez quase secreta. Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Everaldo Pontes como o comerciante Malaquias – que defende “a bruxa” Darci, sem sucesso.

Falando na personagem de Darci, eis um ponto curioso do roteiro desta produção. Mulher forte e que vive isolada, ela sintetiza muitas brasileiras que, no interior ignorante de várias latitudes do país, tem conhecimento sobre a vida que outros não tem e, por isso, é vista com ressalvas pelas pessoas que tem medo de tudo aquilo que elas desconhecem. Além de parteira, Darci é um tipo de curandeira – em outras palavras, alguém que domina as propriedades de diferentes tipos de plantas. Ela ajuda a trazer pessoas para a vida e a curar quem precisa. Desta forma, é vista com respeito e com temor pelas pessoas. Vira alvo de brincadeiras de desafio entre as crianças, assim como de ataques dos adultos. Como todas as bruxas que já foram combatidas na história da Humanidade, Darci é poderosa porque sabe muito sobre o que a maioria desconhece. Segue a própria intuição e sabe perceber os sinais que estão em todas as partes.

Gostei do roteiro de Guilherme Sarmiento e do diretor Eduardo Nunes, especialmente pela imersão dele em um estilo de Brasil que eu gostaria que fizesse parte apenas de obras de ficção. O texto equilibra a dura realidade com a fantasia. Isso é bacana e funciona. Mas só achei o “grande segredo” da produção muito previsível. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas para mim ficou logo evidente que o pai da criança que matou Clarice era o próprio Sebastião. As falas dele, ao saber da morte da filha, praticamente terminam com o mistério. Uma pena. O filme seria mais interessante se a informação chocante, de fato, chegasse no momento certo e de forma estratégica.

Da parte técnica do filme, vale citar o ótimo trabalho do editor Flávio Zettel e a trilha sonora de Leandro Lima e Gabriel d’Angelo.

Sudoeste estreou nos cinemas brasileiros em outubro do ano passado. Antes, ele participou do Festival Internacional de Cinema de Rotterdam, na Holanda, em janeiro de 2012; foi exibido, em maio, no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, na França e, em setembro, participou do Festival de Cinema Independente Katowice, na Polônia. O filme participaria, ainda, dos festivais de cinema de Thessaloniki, na Grécia, e do Mar del Plata, na Argentina. Nos Estados Unidos, a produção estreou em janeiro deste ano.

Nesta trajetória, Sudoeste ganhou sete prêmios e foi indicado a outros quatro. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Contribuição Artística no Festival de Cinema de Havana para Eduardo Nunes; os prêmios de Melhor Filme Latino-Americano, Melhor Fotografia e Prêmio Especial do Júri no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro; Melhor Fotografia e Melhor Diretor pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA); e o Melhor Longa Metragem no Vitória Cine Video. Bastante premiado, pois, entre os anos 2011 e 2013.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para esta produção. Uma bela avaliação, especialmente porque este filme foge dos padrões mais comuns do cinema comercial. Apenas dois críticos relacionados no Rotten Tomatoes dedicaram textos para esta produção. O texto do Stephen Holden, do New York Times, elogia a produção brasileira, enquanto o crítico Tomas Hachard, da Slant Magazine, não gostou do que assistiu.

Algo curioso sobre Sudoeste: ao procurar a página oficial do filme, não consegui encontrá-la. Por outro lado, encontrei a página do filme no Facebook. Sinal dos tempos?

Sem dúvida a fotografia deste filme está entre as melhores que eu já vi no cinema nacional. E entre as melhores que eu assisti nos últimos tempos no cinema mundial. Grande trabalho!

CONCLUSÃO: Beleza, disse um dia o poeta, é fundamental. E Sudoeste é um filme duro, árido, triste, lírico, mas também muito belo. As principais qualidades dele estão, em ordem de importância, na direção de fotografia, na direção e no trabalho dos atores. Longos planos de câmera, perspectivas estendidas, e a dinâmica própria da produção, que estimula o espectador primeiro a ouvir, depois a ver e, por fim, a entender, tornam esta produção diferenciada. Um belo trabalho do diretor Eduardo Nunes e que merece ser descoberto. Com fotografia preto e branco e com um estilo muito diferente do que as pessoas estão acostumadas a ver, seja nas novelas brasileiras, seja nos filmes de Hollywood, Sudoeste pode demorar um pouco para fazer sentido para você. Mas se deixe levar por um projeto que beira o experimental e abra os sentidos. A história, dura, poderia ter alguns elementos menos previsíveis. Mas nada que tire os méritos da produção.

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