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Arquivo para a categoria ‘Cinema latino-americano’

Gloria

15 de dezembro de 2013 2 comentários

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Algumas buscas são, verdadeiramente, complicadas. Se você não é mais jovem, está sozinha e gosta de se divertir, é preciso ter muita coragem para procurar o que se deseja. Gloria é um filme que fala sobre uma mulher que não se cansa de buscar. Quer dizer, em certo momento, ela até se cansa. Mas depois, volta a mexer o esqueleto. Porque não dá para parar. Especialmente uma mulher como Gloria.

A HISTÓRIA: Toca uma música destas da era disco. Em um salão, muitos homens e mulheres de meia e “melhor” idade estão se divertindo dançando. A câmera vai se aproximando do bar, onde vemos a uma mulher de vestido preto, óculos e batom vermelho tomando um drink. Depois, esta mulher caminha entre as pessoas até encontrar com Joaquín. Então ela se apresenta: Gloria Cumplido (Paulina García). Ele a reconhece, mesmo que faz muito tempo que os dois não se encontram.

Ela calcula 10 ou 12 anos, desde que ela se separou do marido. Eles brindam e dançam, mas ela vai embora sozinha. Chegando em casa, ela retira um gato do vizinho do apartamento e tem dificuldade de dormir com os barulhos que o vizinho descontrolado faz. No dia seguinte, Gloria vai cantando de carro até o trabalho, de onde liga para os filhos. Em breve, em outra noite de dança no clube, ela vai conhecer a Rodolfo (Sergio Hernández), com quem vai começar uma nova relação.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Gloria): O grande trunfo deste filme, e disto eu não tenho nenhuma dúvida, é o roteiro escrito pelo diretor Sebastián Lelio junto com Gonzalo Maza. Que maravilha de texto! Nem tanto por causa dos diálogos, ainda que todos eles sejam bastante coerentes. Mas principalmente pela dinâmica da história e pela construção da personagem que dá título para o filme.

Gloria é uma mulher independente, que vive sozinha após ter se separado do marido e criado os dois filhos. Ela trabalha, para as próprias contas e sai em busca da felicidade sempre que tem uma chance. Assim, ela não se importa de ir sozinha até o baile, onde flerta com o homem que achar interessante. Sempre que é convidada, ela vai a encontros de amigos, onde ouve música, conversa e toma alguns drinks.

Em sua busca, Gloria também experimenta o yôga, faz dinâmica de teatro e canta no carro músicas conhecidas. É uma mulher fascinante, dona de si e do próprio nariz. Mas vive os dilemas da vida comum. Por exemplo, a “invasão” diária do próprio apartamento pelo gato do vizinho e pelos rompantes de descontrole de seu dono. Mesmo tendo amado os filhos e, aparentemente, ter ensinado a eles o valor da família e de serem independentes, Gloria tem que sempre tomar a dianteira e ligar para saber como eles estão.

Mesmo aparentemente sendo feliz com a própria independência, a protagonista desta história sente falta de um companheiro. Ou, ao menos, de ter sexo com frequência. Por isso, ela não se cansa de sair para conhecer novas pessoas. Sim, porque quando ela sai para dançar, não está saindo apenas para soltar o corpo e se divertir. Ela também flerta. E normalmente é Gloria que toma a atitude.

Por tudo isso, achei este filme tão interessante. Porque ele é realista. E conta a história comum de tantas mulheres de meia idade que casaram, criaram os filhos e, agora que eles são adultos e elas não tem mais um marido em casa para “cuidar”, buscam formas diferentes de se divertirem. E neste caminho, vão passando por distintos momentos de autodescoberta.

O roteiro, desta forma, é o ponto forte do filme. Junto com a convincente e encantadora interpretação da protagonista, a ótima Paulina García. Dito isso, só achei que o filme tem o azar de estar no meio de uma safra muito boa de produções de diversas partes do mundo que estão pré-cotadas para o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Sim, porque apesar de ser uma crônica interessante sobre este perfil de mulher adulta independente bem típico do nosso tempo, Gloria não tem a inventividade narrativa ou a força de estilo de outras produções desta safra.

Ainda assim, e falarei disso logo abaixo, ele está sempre cotado entre os favoritos para chegar na lista final do Oscar. Seria algo importante para o cinema chileno. E para valorizar o trabalho do diretor e roteirista Sebastián Lelio. Agora, voltando para a história de Gloria… achei interessante o choque de realidades entre a personagem principal deste filme e o personagem de Rodolfo, com quem ela engata um novo romance.

Gloria me parece ser o novo perfil de mulher chilena – perfil esse repetido em quase todas as partes do mundo: independente, dona de si, que não tem medo de tomar a iniciativa em uma festa para tentar conquistar um homem que lhe chamou a atenção. Mas Rodolfo é o modelo “antigo” (mas ainda muito presente, ao que tudo indica) de homem: aquele que assume integralmente a postura de provedor da casa, do qual a família deve depender. De quebra, e isso vamos percebendo com o desenrolar da história, ele me parece um sujeito bastante carente.

Para mim, é o modelo clássico do homem adulto: ele teve que assumir muitas responsabilidades ainda jovem e, aparentemente, não teve tempo de amadurecer emocionalmente. Não por acaso, após deixar a Marinha, Rodolfo abriu um parque onde as pessoas podem “brincar de fazer guerra” com o paintball. Separado da mulher há cerca de um ano, ele não consegue se desvencilhar da família – socorrendo a ex-mulher e as duas filhas sempre que possível. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Aliás, uma dúvida que fica nesta história é até que ponto ele realmente se separou da ex-mulher. Ainda que ele estava morando sozinho, será que realmente não continuava tendo uma relação afetiva e amorosa com a ex?

Eu não me surpreenderia se a resposta para a última pergunta fosse “sim”. Mas isso, na verdade, pouco importa. Porque ele tem atitudes realmente desprezíveis com Gloria. Atitudes estas, especialmente a que ele toma no aniversário do filho dela, Pedro (Diego Fontecilla), que apenas reforçam a minha leitura de que ele era um homem bastante inseguro. Afinal, quem mais deixaria aquela casa daquele jeito e com aquela justificativa se não tivesse uma necessidade extrema de ser visto e valorizado? Certo que ele pode ter saído também por outras razões… mas há outros indicativos da insegurança.

No discurso e em algumas atitudes, Rodolfo deixa claro que quer iniciar uma nova vida. Ele insiste com Gloria que eles podem fazer isso juntos. Rodolfo explica, por exemplo, como procurou ser um “novo homem” ao buscar uma cirurgia de redução de estômago. Mas ele comprova que para mudar não basta alterar o próprio aspecto físico. Mais importante que isso é a mudança das atitudes.

Apesar de toda a insistência que ele tem com Gloria, sempre que ele é acionado por uma das filhas, Rodolfo cede. E a segunda vez que ele “abandona” Gloria… foi muito cruel. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ela, por sua parte, tem atitudes surpreendentes. Acredito que aquele foi o principal momento de surpresa da produção, juntamente com o momento em que ela resolve, sozinha, experimentar maconha em casa. Depois de ser abandonada no restaurante por Rodolfo, Gloria embarca em uma noite de exageros, regada por muita bebida e uma ficada divertida. Suas atitudes são de uma garota muito mais jovem. Sem dúvida, Gloria sabe aproveitar a vida.

A questão que fica deste filme, tenho certeza, é que grande parte da audiência vai se perguntar “até quando?”. Existe limite para alguém viver desfrutando a vida sem barreiras como Gloria parece estar fazendo? Uma mãe que tem os filhos crescidos e que será avó pela segunda vez pode ter aquelas atitudes? Tenho certeza que Lelio construiu este filme para levantar estas questões.

Da minha parte, não acho que Gloria esteja fazendo nada demais. Admiro mulheres que são responsáveis, cumpriram o seu papel e que não se cansam de buscar a felicidade. Como elas buscam isso é um problema delas, na minha opinião, desde que elas não estejam ferindo, machucando ou fazendo mal a ninguém. E, para mim, este é o caso de Gloria.

Ela continua sendo uma mãe amorosa e atenciosa. É independente porque trabalha, paga as próprias contas, mora sozinha e dirige para onde quiser. Ainda assim, ela sofre com os problemas da vida moderna – distância dos filhos, família desfeita, dificuldade em encontrar um novo parceiro, vizinho problemático. Mas sabe levar tudo com bastante suavidade. Olha de frente para as pessoas, conhecendo os artifícios que elas usam e, mesmo assim, buscando acreditar sempre outra vez que o amor é possível. Mesmo após uma desilusão, ela encontra forças e ânimo para se jogar em uma pista de dança. Grande mulher, e que sabe se divertir!

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Curioso o efeito deste filme. Logo depois que o assisti, achei que ele não era “nada demais”. Tinha até pensado em uma nota 9 para Gloria. Mas aí as horas foram passando e hoje, ao pensar na história escrita por Lelio e Maza, achei o filme mais interessante do que em uma primeira reflexão. A verdade é que, conforme eu fui me lembrando da história, ela me pareceu cada vez mais interessante e bem acabada. Por isso fui aumentando a nota até a avaliação acima.

Antes falei do essencial do filme, mas deixei de fora aquele trecho em que há uma troca de diálogo sobre o Chile atual. Infelizmente, o que para mim é uma vergonha, ainda não conheço o Chile pessoalmente. Mas tenho um bom amigo de lá e conheço outras pessoas deste país que é o meu fornecedor de vinhos preferido na América. :) Conhecendo as pessoas que eu conheço de lá, a minha leitura do Chile é que este é um país de gente educada e engajada. Que se preocupam com a política e com os temas contemporâneos.

Pois bem, por tudo isso, achei bem interessante o diálogo entre Gloria, Rodolfo e os amigos dele, um sociólogo e a dona de uma loja. Eles falam de um Chile que não existe mais, que é uma cópia imperfeita do que já foi e, agora, contaminada pela cobiça. Rodolfo critica a falta de líderes, enquanto Gloria reclama dos preços altos. O sociólogo faz as declarações mais interessantes e elaboradas, inclusive sobre a “revolução mais espirital” da multidão que forma as redes sociais. Interessante.

A direção de Sebastián Lelio é firme e mostra convicção na tarefa de acompanhar de perto os detalhes da vida da protagonista desta história. Assim, a câmera dele está sempre próxima dela, focada em cada uma de suas manifestações e expressões. Um trabalho atento e dedicado, que mostra a clareza do diretor na busca pelo produto de seu roteiro.

Sem dúvida Paulina García é o grande nome deste Gloria. Mas mesmo que o filme seja dela, vale comentar que o ator que divide boa parte dos cenas com Paulina, Sergio Hernández, também faz um grande trabalho. Ele seduz, no mesmo passo que sua parceira de cena, com a mesma naturalidade e fragilidade. Muito interessante o que os dois atores conseguem desenvolver em cena.

Procurei alguma entrevista com o diretor de Gloria para saber o que ele pensava sobre este filme. Encontrei esta, em espanhol, na qual ele fala sobre a ótima recepção que o filme teve no Festival de Berlim. E ele comenta também a razão de ter escolhido o Dia das Mães para que Gloria estreasse no Chile: “Porque Gloria explora o arquétipo de uma mãe. E nos puxa pela mão para enfrentarmos aspectos deste arquétipo que, como sociedade, temos a tendência de tratar de forma evasiva ou com muito eufemismo: a mãe nua ou a mãe amante. Mas também aborda a ideia da mulher que se aproxima dos 60 anos com otimismo e com a cabeça erguida. Gloria é uma mulher que reivindica o direito de sua geração de seguir vivendo, amando e sentindo e isso (porque todos nós vamos chegar lá) é algo divino de ser visto”. Bacana.

Da parte técnica do filme, vale citar a direção de fotografia com tons sempre “cálidos” e meio envelhecidos de Benjamín Echazarreta e a edição cuidadosa de Lelio com Soledad Salfate. Gostei também da trilha sonora e das escolhas bem estudadas de cada música que faz parte deste filme, mas não encontrei o nome do responsável por este trabalho meticuloso e importante para a narrativa. Pena.

Este é o décimo filme no currículo de Sebastián Lelio. O diretor de 39 anos nascido em Santiago, a capital do Chile, começou a carreira com o curta 4, de 1995. Cinco anos depois, ele estrearia em longas com Smog. Dos 10 filmes que ele dirigiu até agora, cinco são longas e cinco são curtas. Destes, ele foi responsável por todos os roteiros, exceto por El Año del Tigre, de 2011.

Gloria estreou no Festival de Berlim em fevereiro deste ano. Depois, ele passou por outros 19 festivais – um número bem significativo. Nesta trajetória, ele recebeu seis prêmios e foi indicado a outros cinco. No Festival de Berlim, Gloria recebeu os prêmios de Melhor Atriz para Paulina García, o Prize of the Guild of German Art House Cinemas e o Prêmio do Júri Ecumênico. Este último foi dado pelo “apelo refrescante e contagiante (de Gloria) de que a vida é uma festa para a qual todos nós somos convidados, independentemente da idade ou condição social, e que sua complexidade só aumenta o desafio de vivê-la integralmente”. Outro prêmio relevante recebido pelo filme foi o entregue pelo National Board of Review, que colocou Gloria no Top 5 dos Filmes em Língua Estrangeira – ao lado de Jagten (comentado aqui), Dupa Dealuri, Yi Dai Zong Shi (comentado aqui) e Kapringen.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Gloria teve cenas rodadas em Santiago e em Viña del Mar, distante 123 quilômetros da capital chilena.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Gloria. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram ainda mais generosos, dedicando 24 textos positivos e apenas um negativo para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,1.

Gloria é uma coprodução do Chile e da Espanha.

CONCLUSÃO: Um filme bastante humano e atento a um tipo de personagem pouco mostrado pelo cinema. Gloria valoriza a mulher de meia idade – ou que já passou um pouco da meia idade – e que continua procurando o amor e aquilo que ela tem prazer de fazer. Não é por acaso que a atriz que protagoniza este filme ganhou alguns prêmios. Ela está perfeita, sem parecer artificial em nenhum momento. Por isso, esta produção parece tão legítima.

Certamente conhecemos alguém com o perfil de Gloria. E isso faz com que a história se aproxime das pessoas. Bem dirigido, com um roteiro que vai crescendo com o tempo e que guarda algumas pequenas surpresas no caminho, Gloria mostra que o cinema chileno tem valor e futuro. Para arrematar, em certo momento, o filme trata da própria sociedade daquele país, em um dos diálogos mais consistentes da produção. Vale a pena assistir, especialmente pelo roteiro tratar a personagem central com tanto respeito. Ainda assim, este não é o melhor filme em língua estrangeira da temporada.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Gloria chamou a minha atenção logo que comecei a pesquisar sobre a opinião dos especialistas em cinema e que acompanham as bolsas de apostas para o Oscar. Tanto na lista da crítica Anne Thompson quanto na de Peter Knegt, entre outros, o filme chileno aparece entre os favoritos para uma estatueta de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Como eu já havia assistido a outros dos principais concorrentes, tinha grande expectativa para ver ao filme de Sebastián Lelio e, assim, fechar a “coroa” dos favoritos. Pois bem, como eu já disse por aqui e repito, cinema é uma experiência muito, muito pessoal. Por isso mesmo, devo comentar que concordo com os críticos que Gloria é um belo filme, bastante interessante, diferente, e que merece ser visto.

Mas entre os filmes que eu assisti até agora, vejo Gloria correndo por fora na disputa pela estatueta dourada. Sem dúvida prefiro Jagten, The Broken Circle Breakdown, Wadjda e La Grande Bellezza antes de Gloria. Sendo assim, se eu acho que os filmes citados merecem estar na lista de cinco, Gloria não poderia figurar na última vaga? Até pode, mas daí acho que ele concorre de “igual para igual”, praticamente, com O Som ao Redor e Le Passé.

Pelo menos em temática da história e em profundidade dos enredos. Agora, se formos analisar o apuro técnico, Yi Dai Zong Shi levaria vantagem. Isso só para falar de alguns dos filmes mais citados pelos críticos. Ainda falta assistir a outros que estão concorrendo a uma vaga para que eu possa realmente bater o martelo. Mas agora, com o que eu vi, acho que Gloria até pode figurar entre os cinco indicados ao Oscar, mas vejo como muito, muito difícil este filme levar a estatueta.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Gloria ficou de fora da lista. Seguem na disputa os seguintes filmes: The Broken Circle Breakdown (Bélgica), An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina). Além de Gloria, outro filme que aparecia na lista dos especialistas como um dos favoritos, Le Passé, também ficou de fora. Interessante.

Tesis sobre un Homicidio – Tese sobre um Homicídio

8 de setembro de 2013 5 comentários

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O cinema argentino dificilmente entrega um produto ruim. E um sinônimo de qualidade deste cinema é o ator Ricardo Darín. Gosto de assisti-lo em cena porque, além do talento evidente, ele é um intérprete que claramente se entrega em cada papel. E em Tesis sobre un Homicidio ele segue esta regra, abraçando um personagem cheio de controvérsia. Um filme interessante, especialmente pela conclusão final, mas com alguns exageros no caminho que acabam prejudicando a produção.

A HISTÓRIA: Uma moeda rola pelo chão em uma visão desfocada. O cenário tem garrafa vazia deitada, muitos papéis e livros no chão. A mão enfaixada, a cara amassada, e o cenário desolador revelam que Roberto Bermúdez (Ricardo Darín) não passa por um bom momento. Deitado no sofá, ele levanta com dificuldade. Corta. Em um ringue, Roberto treina boxe. Na saída, conversa com um colega sobre a tarefa de lecionar e, pouco tempo depois, inicia uma nova turma de pós-graduação. Ali, ele reencontra o filho de um casal de amigos que há muito tempo não vê, Gonzalo Ruiz Cordera (Alberto Ammann). Em pouco tempo, os dois vão se aproximar e se estranhar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Tesis sobre un Homicidio): O primeiro elemento que me chamou a atenção neste filme foi a trilha sonora exagerada de Sergio Moure. Pensei que ela poderia começar forte daquela forma mas que, conforme a história se desenrolasse, o trabalho entraria em uma sintonia melhor com a produção. Mas não foi isso que aconteceu. A trilha começa e termina pelo menos um tom acima do desejado. Primeiro ponto que joga contra a perfeição neste filme.

O segundo elemento que me chamou a atenção foi a ótima direção de fotografia de Rolo Pulpeiro e a direção estilosa de Hernán Goldfrid. Esta dupla criou uma identidade interessante para o filme desde o princípio. Um clima de mistério, mas com qualidade nas inúmeras cenas escuras, que é muito importante para a história. Depois, o principal desta produção: a interpretação precisa e envolvente de Ricardo Darín.

Ele é o melhor de Tesis sobre un Homicidio, não tenho dúvidas. Pouco a pouco o personagem principal desta história vai mergulhando em sua própria tese sobre o crime que ocorre em frente à universidade onde dá aula. Bebendo e fumando cada vez mais, Roberto está próximo de perder o controle. Mas sua teoria parece bem construída o que, evidentemente, levanta ainda mais dúvidas. Afinal, ele está chegando perto da verdade ou apenas ficando obcecado com a culpabilidade de um sujeito jovem, bonito, e com quem ele parece rivalizar?

Da minha parte, quanto mais crescia a teoria de Roberto sobre Gonzalo ser o culpado pela morte de uma das irmãs Di Natale, mais eu me convencia que aquela não deveria ser a verdade. Isso porque o mistério acabaria muito rápido. E não deu outra. O roteiro de Patricio Vega, baseado no livro de Diego Paszkowski, não fecha a questão, no final do filme, mas praticamente mata a charada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como a maioria dos espectadores deve ter suspeitado antes, Roberto estava exagerando as cores de sua teoria para comprovar que estava certo, ignorando as dúvidas e se agarrando a detalhes que poderiam ser facilmente refutados. Ainda que uma das cenas finais mostre o “fim” da adaga procurada, vejo aquela imagem como mais uma alucinação de Roberto. A imaginação dele falando mais alto.

Tesis sobre un Homicidio tem um bom ritmo, e não deixa a peteca cair em nenhum momento. A trilha sonora exagerada incomoda um pouco, mas os outros elementos técnicos, especialmente a direção segura de Goldfrid, equilibram a balança para o lado positivo. Uma pena que o roteiro tenha algumas falhas importantes. Para começar, não fica muito claro porque Roberto se interessa tanto pela morte de Di Natale. De fato ele está tão interessado pelo crime porque ele ocorreu perto dele, na frente da janela de sua sala de aula? Duvido muito que ele se interessaria pela morte de um rapaz no mesmo local.

Pouco a pouco outras leituras vão surgindo no horizonte para este abrupto interesse de Roberto por Di Natale. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Em mais de uma ocasião, quando perguntam para o professor se ele conhecia a garota morta, ele não tem segurança para dizer que não. Depois, quando conclui que o assassino procurou a sua vítima porque ela era parecida com a mãe, uma morena com cabelos muito curtos, surge a primeira resposta para esta dúvida de Roberto se ele conhecia ou não a garota. Inconscientemente, parece, ele reconheceu o antigo caso naquela garota vitimada perto dele.

Mas há uma outra leitura mais psicológica para essa obsessão de Roberto para desvendar o crime. A verdade é que Gonzalo insiste em se aproximar de seu ídolo desde o início – o que é um pouco estranho, mas compreensível. Roberto parece ficar um pouco incomodado com isso e, logo em seguida, reage ao aluno como ele sendo um rival. Isso mesmo. Bonito, jovem e inteligente, Gonzalo parece ser um problema para o professor que acredita que o aluno pode estar lhe superando. E logo no início deste filme percebemos que Roberto tem um ego considerável, além de vestir a pele de galanteador.

Há como pano de fundo nesta produção, portanto, um choque entre gerações. E a derrocada de um sujeito que chegou à meia idade sem a vida que ele gostaria – talvez. Roberto tem prestígio, mas quando começa a exagerar a dose na investigação, logo tem as suas ações vistas com receio pelas pessoas que o cercam. E daí outro problema do roteiro. Apesar de um caso antigo em que ele se equivocou ser lembrado em mais de uma ocasião, não sabemos o que Roberto fez de errado no “caso da torre”. E vejo isso como uma falha no texto – afinal, para que citar este caso mais de uma vez e não explicá-lo? Qual é o propósito que ajuda o filme?

Além da obsessão de Roberto por Gonzalo que, para mim, passa pela competição entre eles como “machos dominantes”, chama a atenção a postura de Laura Di Natale (Calu Rivero) mais no final da produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Impressiona quando ela corta o cabelo como a irmã morta, mimetizando-a. Não me pareceu que Gonzalo teria incitado a garota a fazer isso – afinal, eles mal se conheciam. Então por que ela cortou o cabelo daquela forma? Antes, Laura tinha iniciado o mesmo curso que a irmã. Curioso como algumas pessoas repetem os atos e modos de uma pessoa que elas perderam – seria uma forma de tornar a ausência “menor”?

Para mim, a conclusão desta produção acaba sendo o melhor do filme – junto com a interpretação de Darín. Qualquer tese pode ser refutada. Porque o “investigador” está propenso a encontrar, observar e analisar os elementos que servem para reforçar a sua teoria, ignorando outros elementos que podem enfraquecê-la. No fim das contas, Gonzalo está certo. De que não há forma de sabermos que tese é correta. Aparentemente Roberto estava errado sobre Gonzalo. Mas o filme deixa uma pequena lacuna para a dúvida. O que é sempre válido.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tesis sobre un Homicidio tem um ritmo interessante, é bem conduzido, mas poderia ser melhor. Especialmente o roteiro, que não deixa a dúvida pairar tanto no ar quanto deveria. Sem contar pelo menos um ponto não explicado na história. Essas são as razões principais para a nota acima.

Ricardo Darín está ótimo neste filme. Como sempre, aliás. Mas aqui ele tem um jovem ator competente para duelar. Alberto Ammann, que já tinha mostrado competência em Celda 211 (comentado aqui) e em Lope (neste texto no blog), faz um duelo à altura de Darín. Se o roteiro fosse melhor, deixando mais espaço para ele fazer um papel dúbio, tenho certeza que Ammann teria se saído ainda melhor. Eis um nome bom para ser acompanhado – assim como Darín.

O filme passa grande parte do tempo concentrado no protagonista. Além dele, do personagem de Ammann e o de Calu Rivero, há alguns coadjuvantes importantes. Vale citar o bom trabalho de Mara Bestelli como Mónica, ex-mulher de Roberto e psicóloga que opina durante a produção; Arturo Puig como Alfredo Hernández, policial responsável pela investigação da morte de Di Natale e marido de Mónica; Antonio Ugo como Mario Passalaqua, delegado que repassa as informações preliminares do caso para Roberto; e José Luis Mazza como Robles, que faz a autópsia da vítima.

Da parte técnica do filme, além da direção de fotografia, já comentada, vale destacar o bom trabalho de edição feita por Pablo Barbieri Carrera.

Tesis sobre un Homicidio estreou em janeiro deste ano na Argentina. Até o momento, a produção participou de apenas dois festivais: o de Miami e o de filmes policiais de Beaune, na França.

Esta produção foi totalmente rodada em Buenos Aires.

Este filme é apenas o segundo na filmografia de Hernán Goldfrid. Antes ele havia dirigido Música en Espera, lançado em 2009.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para Tesis sobre un Homicidio. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão de avaliações do site.

Tesis sobre un Homicidio é uma coprodução da Argentina com a Espanha.

CONCLUSÃO: Um filme policia e de suspense precisa ter bons atores e um ótimo roteiro, correto? Tesis sobre un Homicidio tem o primeiro, mas patina um pouco no segundo. Quem já assistiu a várias produções do gêneros fica bem desconfiado(a) com esta história, porque ela parece “coerente” demais para um estilo de filme que sempre procura surpreender o espectador. E, no fim das contas, Tesis sobre un Homicidio acaba não surpreendendo. Cumpre o seu papel, com alguns exageros no meio, como a trilha sonora, mas não reinventa nada. Um passatempo competente, ainda que não consiga trazer nenhuma renovação para o gênero. Mas tem o Darín, que sempre é um prazer assistir.

Karen Llora en un Bus – Karen Chora no Ônibus

18 de agosto de 2013 1 comentário

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Os cinemas brasileiros não exibem com a frequência que deveriam os filmes produzidos na América Latina. Por isso mesmo, não é todo dia que conseguimos assistir a um filme como Karen Llora en un Bus, produção da Colômbia dirigida pelo estreante Gabriel Rojas Vera. Apenas por isso, por ter chegado até aqui, o filme merece algum crédito. Afinal, é um sobrevivente nesta seara onde proliferam produções norte-americanas, europeias e, em menor grau, argentinas. E ele não chegou tão longe por acaso. Com seu estilo low profile, Karen Llora en un Bus apresenta uma história interessante, moderna – especialmente em países latinos menos liberais que o Brasil – e com uma grande atuação.

A HISTÓRIA: Noite. Uma mulher (Ángela Carrizosa Aparicio) chora muito dentro de um ônibus, olhando para a cidade que passa fora do coletivo. Aos poucos, ela se acalma. Ela deixa a linha F23 – Port Americas puxando uma mala e carregando uma bolsa. Anda um bocado, até chegar a uma pensão. Insiste com a proprietária (Margarita Rosa Gallardo) para que ela possa entrar, apesar do horário adiantado. Para isso, paga três meses de aluguel. Neste local Karen, a mulher que chorava no ônibus, vai conhecer a jovem Patricia (Maria Angélica Sanchez Parra), que vai lhe ajudar nesta nova fase de sua vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomento que continue a ler quem já assistiu a Karen Llora en un Bus): Este não é um filme complicado. Pelo contrário. Ele conta uma história simples do início até o final: a reconstrução de Karen, uma mulher de meia idade que decide mudar radicalmente de vida. Ela deixa um lar confortável, onde vivia com o marido Mario (Edgar Alexea), para buscar a própria independência.

Claro que ninguém entende a atitude dela. Como manda uma boa (só que não) sociedade machista, essa busca de Karen parece absurda. A mãe dela (interpretada por María León Arias), do início ao fim, estimula Karen a voltar para Mario. Fica evidente como a mulher fica do lado do marido da filha, sem ao menos tentar saber os motivos de Karen. E o primeiro reencontro dela com o marido deixa evidente como eles não tem mais nada.

As cenas do casal são típicas – o que evidencia, ainda mais, a qualidade do jovem diretor Gabriel Rojas Vera como roteirista. Mario e Karen não falam a mesma língua. Isso quando eles conseguem se comunicar. No jantar que deveria ser de conversa entre eles, Mario chama uma parceira de negócios que levou um bolo para ficar com eles. Típica ação absurda de um sujeito que não consegue enxergar as necessidades da parceira de vida. Algo muito mais comum do que gostaríamos. No jantar, por falar de negócios, Mario tem conversa fácil. Depois, indo para casa com Karen, eles emudecem.

Existem muitos tipos de silêncio. Da minha parte, adoro a maioria deles. Gosto do silêncio quando você está sozinho e pode contemplar a vida. Também aprecio o silêncio quando você está com quem você ama e contempla esta pessoa em todos os detalhes, algumas vezes usando a visão, outras vezes, apenas o tato. Existe o silêncio em um grupo de amigos também, quando todos estão percebendo o quanto é valioso um laço antigo. Mas o silêncio revelado pelo casal Karen e Mario é o fim. Porque ele está carregado de desencontros, de falta de sintonia, de ausência de propósitos em conjunto.

Karen, muito corajosa, especialmente na sociedade em que vive, decide romper com aquela infelicidade. E passa por maus bocados para conseguir reerguer-se sozinha. Sem sentir apoio da mãe, ela não pede ajuda, mesmo quando tem a bolsa roubada. Aliás, esse episódio merece um parêntese. De fato, a bolsa preta e grande que ela tinha até chegar ao restaurante some. Mas depois, ela aparece novamente com uma bolsa com a mesma cor. Demorei um tempo para perceber que não houve uma falha na continuidade. As bolsas são um pouco diferentes, no final das contas.

Me chamou a atenção como o roteiro valoriza a solidariedade dos colombianos. Se, por um lado, Karen bate cabeça para achar algum emprego – aparentemente ela não tem qualificação e, por isso, só consegue concorrer a subempregos -, por outro lado ela consegue sobreviver com a ajuda de doações dos moradores da cidade, especialmente dos usuários do sistema público de transporte para quem ela pede dinheiro diariamente após ter tido a bolsa furtada.

Mas nem todos são bacanas. O dono do restaurante (Julio César Bula) onde Karen perde a bolsa age como um cretino. Sinal de que pessoas imbecis existem por todas as partes. Além de trazer uma mensagem bacana, de reinício, este filme revela uma atriz muito talentosa.

Ángela Carrizosa Aparicio carrega o filme e faz uma parceria bacana com os outros dois nomes fortes da produção: Maria Angélica Sanchez Parra como Patricia, um contraponto interessante para a “certinha” e antiquada Karen, e Juan Manuel Díaz Oróztegui, como Eduardo, um escritor de livros e de peças de teatro que conquista a protagonista. Acompanhamos a transformação de Ángela, que muda não apenas na aparência, mas também no comportamento. É lindo de se ver como sai de cena aquela personagem contida, reprimida, com corte de cabelo de “tia” e roupas escuras e entra em cena uma mulher segura de si, que retoma as leituras, os sorrisos, assume um corte de cabelo mais ousado e roupas coloridas.

Um filme simples, que vai evoluindo com o tempo, e que ganha pontos por sua premissa singela, mas corajosa. Não há ousadia na técnica da direção, ou em um roteiro com grandes reviravoltas. Mas a atriz principal ganha o espectador, e a mensagem de que recriar-se vale a pena é o que fica no final. Sempre haverá alguém chorando em um ônibus, ou em outra parte qualquer, mas é preciso ter paciência e coragem para mudar aquela situação de sofrimento.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme começa em uma noite e termina em um dia ensolarado. A simbologia está presente do primeiro até o último minuto. O que demonstra que a estreia de Gabriel Rojas Vera foi bem planejada. A noite inicial representa o fim, o término de um período da vida de Karen. O dia ensolarado, ainda que tenha outra personagem chorando, representa um novo alvorecer, uma nova vida. Simples, mas eficaz.

Gostei da forma direta com que o diretor e roteirista contou esta história. Sem firulas, sem prometer mais do que poderia cumprir. Esta produção também funciona porque trilha o caminho do “realismo”, explorando bem a vida na cidade e as relações comuns que aparecem no cotidiano das pessoas que vivem naquele espaço urbano. Por isso o filme mantêm o interesse dos espectadores.

Além dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho de Emerson Rodríguez Gómez como Alberto, o homem casado que mantém um caso com Patricia, e a ponta de David Guerrero como o homem que oferece emprego para Karen no curso de inglês. Os dois aparecem pouco, mas acabam sendo marcantes na produção.

A parte técnica do filme não apresenta nenhum grande destaque. Mas vale citar o bom trabalho do diretor de fotografia Manuel Castañeda, a montagem de Carlos Cordero e a trilha sonora de Rafael Escandón.

Karen Llora en un Bus estreou em fevereiro de 2011 no Festival de Berlim. Depois, a produção passaria por outros seis festivais, terminando a trajetória no de Biarritz, em setembro de 2012. Nesta trajetória, a produção foi indicada como Melhor Filme no Festival de Cartagena, na Colômbia, mas perdeu o prêmio para Post Mortem, uma co-produção do Chile com a Alemanha e o México. Lendo a página oficial do filme, vi que ele recebeu pelo menos um prêmio: a Caravela de Prata como a Melhor Obra Prima do Festival de Cinema de Huelva.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção. Não existem críticas sobre o filme no Rotten Tomatoes.

Lendo a página oficial do filme, no Facebook, achei curioso que esta produção já estreou na televisão colombiana. Ela passou em rede nacional em setembro do ano passado – e nos cinemas brasileiros, está chegando apenas agora.

Antes eu falei da importância do silêncio. E algo que eu gostei neste filme é que ele dá espaço para ele existir. Isso é bom, especialmente frente a outros filmes do gênero que apresentam um excesso de discursos.

Para os curiosos sobre a locação dos filmes, Karen Llora en un Bus foi totalmente rodado em Bogotá.

O diretor Gabriel Rojas Vera nasceu em Bogotá em 1977 e estudou Cinema e Televisão na Universidade Nacional da Colômbia. Ele escreveu e dirigiu vários curtas e codirigiu o documentário Falsos Positivos em Extradición, de 2010. Segundo esta página do Festival do Rio, ele dirigiu o primeiro longa em 2005, Cristina, uma produção ainda não finalizada.

CONCLUSÃO: Karen Llora en un Bus não é um filme arrebatador. Ainda bem. Esqueça o estilo dramático das novelas mexicanas, ou a parte do cinema exagerado de Pedro Almodóvar – que não vive em um país da América Latina, mas que influenciou esta e outras escolas de cinema pelo mundo. Esta produção dirigida por Rojas Vera flerta bastante com o teatro, em alguns momentos, e apresenta os seus argumentos sem pressa. Quem nunca reinventou a própria vida que atire a primeira pedra.

Este filme é sobre uma mulher que tem a coragem de encarar a ruptura de um casamento falido e de recomeçar tudo do zero sem apoio algum. Haja coragem! Mas é esta atitude que une Karen a tantas outras mulheres latinas. Em sociedades onde ainda o machismo dita muitas regras e comportamentos, Karen Llora en un Bus é um filme que rompe conceitos e formas de pensar. Por essa razão, principalmente, e também por ter um ótimo trabalho da atriz Angela Carrizosa Aparicio, que eu me rendo a este filme singelo, mas carregado de boas intenções.

Faroeste Caboclo

16 de junho de 2013 5 comentários

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Uma música corajosa que abalou o país quando foi lançada. E que fez diversas gerações cantarem os seus 159 versos sem pestanejar. Os fãs da banda Legião Urbana sempre tiveram “um filme” de Faroeste Caboclo na cabeça. E o sonho de que, um dia, alguém de fato transformaria aquela história para o cinema. E foi isso que o diretor René Sampaio fez com a produção homônima ao clássico da Legião. Demorou muito para este filho nascer. E ele não foi, exatamente, idêntico à obra original. Um problema para pessoas que, como eu, esperavam por um pouco mais de fidelidade com o trabalho de Renato Russo.

A HISTÓRIA: Close nos olhos de Santo Cristo (Fabrício Boliveira). Olhos estes que fitam ao seu  rival, Jeremias (Felipe Abib). A troca de ângulos lembra os clássicos do faroeste. Até que o tiro ecoa. E João relembra a sua vida desde a infância, quando pegava água em um poço ao lado da mãe. O herói desta história afirma que “nasceu com muitas contas para acertar”, e logo vemos ele, já adulto, queimando um policial após a morte da mãe. A partir daí, a história de João de Santo Cristo começa a se desdobrar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já tenha assistido a Faroeste Caboclo): Logo no início deste filme, fiquei com uma pulga atrás da orelha. Afinal, na sequência inicial, parece que João leva um tiro de Jeremias após uma longa encarada. E um frente a frente ao outro. Mas só um pouquinho, e a música? Onde fica a história de Faroeste Caboclo, o clássico da Legião Urbana?

Porque se você conhece os versos originais como eu, sabe que João levou um tiro nas costas, e não de frente. Sem contar que, ao redor dos rivais, nada de povo, de bandeirinhas, de sorveteiro ou câmeras da TV. Mas como assim? Logo de cara pensei: demoraram tanto para filmar esta história e distorcem tudo, no final? Mas como era apenas o começo do filme, acreditei que talvez aquela fosse uma “licença poética”, como se os rivais tivessem se transportado para um ambiente de rivalidade “isolada” na hora do tiro, e que quando chegasse o momento, todo o circo estaria armado.

Mas qual nada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na Hora H, o final “intimista” entre os inimigos segue valendo. João é atingido pela frente, e não pelas costas – o que, na música, apenas reforça o quanto Jeremias era covarde. Além de perder um ponto fundamental da música com o tiro pela frente, o filme perde uma grande oportunidade de mostrar algo que a música trata: a dificuldade das pessoas em compreenderem histórias que lhe são estranhas. Ou, em outras palavras, como a maioria não consegue colocar-se no lugar do outro.

Na música, isso fica claro com o “circo” armado ao redor do duelo, assim como pela repercussão que a morte de João acaba tendo pela televisão. As pessoas não conseguem perceber a própria desgraça ao viverem em um país em que a falta de opção de quem nasce preto e pobre é uma verdadeira afronta ao crescimento de um Brasil mais igualitário e justo. Esta é a essência de Faroeste Caboclo, a música. Mas o filme, que trata do preconceito racial, roça pouco nas demais desigualdades e despreza toda a reflexão sobre a ignorância das pessoas que não conseguem compreender a sua própria realidade.

Mas não foi apenas este ponto que me incomodou nesta produção. Sério mesmo que, logo no começo do filme, presenciamos a um João assassino de policial? Isso que eu chamo de interpretação criativa dos roteiristas Victor Atherino, Marcos Bernstein e José Carvalho para a história de João. Na música, Renato Russo escreveu que “quando criança só pensava em ser bandido/ ainda mais quando com um tiro de um soldado o pai morreu”. Mas daí a João de fato matar um policial para vingar o pai… em momento algum a música afirma que ele sera um assassino.

Outras característica de João, por outro lado, são deixadas de lado. Como de que ele “comia todas as menininhas da cidade” e de que “ia para a igreja só para roubar o dinheiro/ que as velhinhas colocavam na caixinha do altar”. Uma coisa é ele roubar balas do dono de um bar. Outra muito diferente é pegar moedas em uma igreja. Ele aprontava, como qualquer criança, mas não consigo imaginá-lo como um ladrão para qualquer hora. Assim como nunca imaginei ele como um assassino vingador do pai.

Faroeste Caboclo, o filme, ignora completamente os sonhos de João – como sua vontade de conhecer o mar “e as coisas que ele via na televisão” – e a sua viagem para Salvador. Era vital o encontro do herói com o boiadeiro? Não. Mas para que ignorar uma parte da história assim, olimpicamente? Quem conhece a música também sabe que ele começou a trabalhar como aprendiz de carpinteiro por conta própria, antes de conhecer a Pablo (que no filme é interpretado por César Troncoso).

Novamente o filme ignora o jeito “pegador” de João, que gastava “todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador” na zona da cidade. João trabalha como um cão, mas não consegue pagar as próprias contas – algo muito mais contundente do que ele apenas viver mais ou menos, como o filme mostra. Novamente, segundo a música, a TV aparece como algo importante – ele ouve o noticiário com promessas de políticos, o que lhe deixa ainda mais indignado.

O filme mostra ele virando traficante. Beleza. Mas não explora a forma com que ele acabou com todos os traficantes da região, e nem o mergulho que ele faz na noite da Asa Norte antes de conhecer Maria Lúcia. A produção igualmente ignora o roubo que faz ele ser estuprado e agredido – esta violência tem uma “releitura” muito mais inocente no filme. Na música, fica claro que ele revida ao ataque que sofreu com muita violência – algo que a produção de Sampaio ignora.

Só depois de ter vivido tudo isso, pela música de Renato Russo, é que João conhece Maria Lúcia. Até ali, ele fez e aconteceu como bandido. Causou terror, ficou rico, era “destemido e temido no Distrito Federal”. Diferente do filme, João abandona o crime e volta a ser carpinteiro – na história filmada por Sampaio ele não deixa o tráfico definitivamente depois que começa a fazer negócios com Pablo. O filme também ignora um personagem fundamental da música: o “senhor de alta classe com dinheiro na mão”.

Na canção de Renato, essa figura representa muitos interesses daquele país que começava a redescobrir a democracia – e que deixava para trás uma história de “bomba em banca de jornal” ou em “colégio de criança”. O tal rico garante que João está perdido, e de fato isso acontece. Na música, não fica claro como. Esse era um ponto interessante de explorar no filme que, infelizmente, ignora completamente o assunto.

Outro ponto importante da história: Jeremias aparece no local e resolve acabar com João. Muito diferente do filme, que mostra Jeremias como um sujeito consolidado e que acaba tendo o mercado “ameaçado” por Santo Cristo. Mais uma vez, Faroeste Caboclo, o filme, segue uma linha “pueril” e não mostra o lado “canalha” de Jeremias, que “desvirginava mocinhas inocentes/ e dizia que era crente mas não sabia rezar”.

Algo interessante que o filme faz a história avançar é de como Maria Lúcia “esqueceu” João e se entregou para Jeremias. Na música, essa “virada” da mocinha não fica clara – e sim a critério da interpretação de cada ouvinte. No filme, a justificativa é bastante plausível. Assim como é bacana todo o romance contado entre o carpinteiro João e a filhinha de político Maria Lúcia.

Finalmente, e ainda seguindo a história original da música, incomoda muito não ouvir João declamando a sua intimação para Jeremias, e todo o circo que segue a partir daí – incluindo o acerto de contas após ser atingido pelas costas. Finalmente, a música dá a entender que Maria Lúcia se mata após João ter sido acertado e Jeremias ser morto por ele. A sequência que o filme mostra também vai contra a narrativa da música.

Dito tudo isso, também comento que Faroeste Caboclo visto como um filme “western moderno”, até que funciona bem. Ele é bem filmado, tem interpretações convincentes e um roteiro que funciona em muitos momentos. Há ritmo nesta produção, e fidelidade ao gênero. Sem dúvida esta produção ganharia uma nota melhor se fosse um filme independente, sem uma história clássica por trás. Só que esta não é a verdadeira face de Faroeste Caboclo. Um filme que demorou tanto tempo para sair e que, após ter ficado pronto, apenas decepciona aos fãs da música pela falta de fidelidade com a obra original.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Novamente, meus bons leitores, peço desculpa a vocês por demorar tanto para escrever um texto por aqui e, mesmo quando consigo fazê-lo, não publicar todos os detalhes de uma vez. Mas o tempo está curto. Por isso resolvi publicar esta crítica hoje, rapidamente, deixando para registrar curiosidades sobre esta produção em outro momento.

Corrupção policial é algo interessante de explorar em uma história. Mas o personagem de Marco Aurélio (Antonio Calloni) ganha uma relevância neste filme que a música não lhe dá na história original. Achei desnecessário.

Os protagonistas desta produção fazem muito bem o seu trabalho. Gostei de Fabrício Boliveira e, especialmente, de Isis Valverde, que me surpreendeu positivamente. Uma pena que o roteiro não lhes ajuda muito na construção de seus personagens.

Na música de Renato Russo, não fica claro que Maria Lúcia é uma menina de alta classe. Pelo contrário. Eu tinha, na verdade, a ideia de que ela era uma menina interiorana, bastante inocente e que, por isso mesmo, teria sido enganada por alguma história de Jeremias. O preconceito por classe social e por raça fazia parte da história por trás da música lançada pela Legião Urbana, mas estes não eram os fundamentos principais da história. Acho que o filme se prende demais a estes preconceitos e esquece todo o resto do retrato social que a música faz. Uma pena.

Apesar dos problemas no roteiro deste filme, é preciso registrar que a direção de René Sampaio tem algumas sacadas muito boas. Ele tem ritmo e sabe valorizar algumas cenas muito bem, com algumas inovações aqui e ali.

Além da página oficial do filme, que demorei um pouco a encontrar – porque achei que seria muito óbvio ter uma página faroestecaboclo.com.br – vale destacar a página oficial do filme no Facebook, que acompanha a trajetória da produção.

Da parte técnica do filme, vale destacar a direção de fotografia de Gustavo Hadba e o ótimo resgate de “época” encabeçado pelo diretor de arte Tiago Marques, com os figurinos de Valéria Stefani.

Bom comentar que este filme segue uma sequência de críticas focando o cinema brasileiro, pedido feito pelos leitores deste blog através do resultado de uma enquete feita por aqui.

CONCLUSÃO: Há duas formas de assistir a Faroeste Caboclo: apenas com uma produção brasileira ou como um filme que é fruto de uma das músicas mais conhecidas da banda Legião Urbana. Não sei vocês, mas eu consigo pensar nesta produção sob estas duas óticas. Por isso mesmo, para tentar ser justa, não dei uma nota mais baixa para o filme. Se eu fosse analisá-los apenas como uma grande fã da banda e das letras do Renato Russo, certamente, daria uma nota muito mais baixa. Talvez um 5.

Se eu fosse analisá-lo apenas como um filme nacional, possivelmente eu lhe daria uma nota um pouco maior, talvez um 9 ou um 9,5. Mas seria injusto avaliá-lo apenas por uma ótica. Faroeste Caboclo é um belo filme, bem trabalhado, cuidadoso nos detalhes, com uma fotografia muito bonita e cuidada e uma direção com vários momentos inspirados. Tem atores dedicados e um roteiro com vários acertos. Mas ao mesmo tempo, este filme perdeu uma ótima oportunidade de ser realmente fiel à obra de Renato Russo. Muito daquela música clássica do rock brasilis ficou de fora desta produção. O que, para mim, é algo incompreensível. Afinal, se demoraram tanto para filmar Faroeste Caboclo, por que não ser fiel à música? Os envolvidos nesta produção perderam uma ótima oportunidade de fazer história ao levar para as telas uma das canções mais cinematográficas do RR da forma correta. Uma pena, pois.

Sudoeste

5 de maio de 2013 1 comentário

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Sempre fui da opinião que se é para fazer algo parecido com algo que já foi feito, que seja feito, pelo menos, algo melhor. Ou então, que se faça diferente. E foi este segundo caminho que o diretor Eduardo Nunes escolheu ao fazer o filme Sudoeste. Eis uma produção diferenciada, que resgata algumas das qualidades de clássicos do cinema nacional e que, mesmo assim, ainda apresenta uma identidade interessante. A história, em si, acaba sendo um tanto óbvia demais. Mas o filme é belíssimo e tem na qualidade das imagens e do estilo o seu principal trunfo.

A HISTÓRIA: Em primeiro plano, mato. Na sequência da imagem, parece que existe uma estrada. Ouvimos o som da Natureza, ao mesmo tempo que começa a se solidificar o barulho do que parece ser uma carroça. A imagem vai deslizando para a direita até que vemos, de fato, uma carroça se aproximando. Nela, está a parteira, também chamada por alguns de bruxa, Darci (Léa Garcia). Ela é chamada para atender a uma mulher que está dando a luz em uma pensão. Só que Darci chega tarde, e Clarice (Simone Spoladore) morre antes de sua criança nascer. Mas a história dela não termina ali.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes da história, por isso sugiro que só continue a ler quem já assistiu a Sudoeste): A primeira característica que me chamou a atenção neste filme foi a escolha do diretor em contar a história utilizando longos planos de câmera, uma vista panorâmica dos diferentes locais por onde esta história se passa. Até porque, tudo indica, o cenário é fundamental. Para entender como vive aquela gente, e que tipo de (falta de) perspectiva e limites eles tem acessíveis.

Gostei daquela significação em cada plano, em cada escolha de ângulo e do ritmo. Com bastante frequência a câmera do diretor Eduardo Nunes percorre a tela sem interrupção, mas de forma muito lenta, tanto para dar ritmo para o filme quanto para nos mostrar que o tempo não passa com rapidez naquele cenário que poderia compor diversos lugares do interior brasileiro. O gesto de guiar o olhar do espectador para a direita ou para a esquerda, lentamente e em um movimento contínuo, dá ritmo para o filme e também serve de fio condutor para diferentes cenas, ajudando a montar a identidade desta produção.

Depois, me chamou a atenção a escolha do diretor do que filmar. Na primeira cena do filme, mas em outros momentos de Sudoeste também, aparentemente enxergamos um elemento pouco significativo – seja o mato, no início, seja as pás de um catavento, em outro momento. Um recurso interessante porque estimula o espectador a utilizar outros sentidos que geralmente ficam em segundo plano no momento de assistir a um filme, como a audição.

Se o que aparece em primeiro plano é menos significativo do que aquilo que ouvimos, nossa atenção parte para identificar o som antes de dar importância para a imagem. Assim, Nunes nos mostra que nem tudo que é visível, de fato, é importante. Ou, como diria uma certa canção, que as aparências enganam, tanto àqueles que amam quanto aqueles que odeiam. Neste filme, o elemento predominante é o amor. Ainda que a raiva e a indignação estejam presentes – não, neste caso, no enredo, mas na possível reação do público.

Nem tudo que se vê é real. Esta afirmação acaba sintetizando a experiência de Clarice. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois de morrer, antes de dar a luz a sua primeira e única filha, a personagem vivida pela atriz Simone Spoladore “renasce” na figura de sua filha. Em um dia, ela acaba passando de bebê até uma senhora idosa que ela não chegou, de fato, a vivenciar. Nesta trajetória, ela se reencontra com a própria família e com outras pessoas para relembrar pelo que passou. É como se esse fosse um rito de passagem dela para a morte. Uma forma de encarar a própria trajetória e, ao mesmo tempo, se despedir das pessoas que amava antes de partir definitivamente deste plano para outro.

Não vou discutir aqui as diferentes crenças religiosas. Até porque, e os leitores que me acompanham há mais tempo sabem disso, este não é o propósito deste blog. Ainda assim, Sudoeste segue a linha de várias doutrinas. Especialmente aquelas que acreditam que alguém, quando morre de forma trágica – o que é o caso de Clarice -, precisa de um “tempo” e/ou de um rito de passagem para entender porque deixou a vida de forma tão prematura.

O que eu achei mais interessante neste filme, além do estilo da direção e do virtuosismo da direção de fotografia de Mauro Pinheiro Jr., foi a reação dos vivos à presença de Clarice. A família dela, certamente, não a enxergou de forma realista. Do contrário, não teria reagido tão bem ao seu “retorno” à vida. Na fase dela como menina, interpretada pela ótima atriz Raquel Bonfante, até podemos imaginar que a garota não seguiu a mesma fisionomia da Clarice real. Mas depois, quando ela é interpretada por Simone Spoladore novamente, não deixa de ser curioso como as pessoas reagem à ela de forma natural – quando todos sabem que ela morreu.

Uma outra forma de justificar essa naturalidade com que os familiares tratam o retorno da garota ao seu convívio é que nada daquilo, de fato, aconteceu. Ou seja, que ao invés de encarar a passagem de Clarice como sendo uma “despedida” de seus familiares e a adaptação do espírito dela antes de sua partida para outro plano, ver que aquela experiência de “uma vida em um dia” foi vivida por ela sozinha. Talvez até antes de morrer – sua experiência de projeção mental ocorreu sem a respectiva interação com aquelas pessoas. É outra forma de explicar o que Sudoeste explora.

Independente de uma interpretação ou outra, esta produção conta a história de uma garota sofrida, que teve um destino trágico por causa do pai, Sebastião (Julio Adrião). (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Como acontece em tantas partes do interior do país, meninas e moças são estupradas por seus pais e não encontram espaço para falar deste abuso com ninguém. A mãe de Clarice, Luzia, interpretada com perfeição e profundidade pela atriz Mariana Lima, assume a pele de muitas mulheres submissas deste país. Que ignoram os abusos do marido por duas razões, basicamente: por amor, por uma parte, e por dependência financeira, por outra. Sem perspectivas e sentindo-se dependentes dos maridos abusivos, elas sofrem diariamente, mas não conseguem romper com aquela dependência e por fim aos abusos e crimes dos homens que elas escolheram para casar.

Desta forma, Sudoeste trata de uma realidade nacional que segue sendo válida em várias latitudes do país. O cenário é agreste, mas esta mesma história poderia ter sido contada em um ambiente urbano. E acredito que não apenas no Brasil, mas em outras parte do mundo também. Infelizmente. Este filme, além de belo nas imagens e com estilo na narrativa, trata de um tema universal e muito duro. Fala sobre abuso sexual, mas também sobre falta de perspectivas, relações desiguais de poder, família e necessidade de compreensão da própria realidade e de perdão. Porque nem sempre é possível perdoar um agressor, mas é preciso desculpar a si mesmo e às pessoas que estavam perto, mas que não sabiam de nada ou que, mesmo sabendo, foram incapazes de agir de outra forma.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Filme em preto e branco e com um ritmo muito diferente daquele que as pessoas acostumadas ao cinemão comercial – seja brasileiro, seja de Hollywood – estão habituadas a assistir. Sudoeste pode não ser um filme fácil para a maioria dos perfis de espectadores. Mas honestamente eu espero que as pessoas dêem uma chance para ele. Afinal, este é o estilo de cinema nacional que foge da preocupação com a bilheteria e tenta produzir algo diferenciado e com estilo. Existe vida inteligente e que foge dos padrões no Brasil. Graças a Deus!

Com Sudoeste, sigo a minha promessa de abraçar a uma série de filmes brasileiros. Resultado de uma votação feita aqui no blog, na qual eu pedia para vocês indicarem que país da América do Sul deveria ser foco de uma série de críticas. Não tenho previsão de até quando vou com esta série de críticas. Mas tenham certeza que a vontade é que a lista siga forte por muito tempo. Só devo intercalar estes textos sobre filmes nacionais com outros lançamentos, para não ignorar boas produções que vão aparecer nos cinemas nos próximos meses.

Sudoeste faz referência a vários filmes nacionais. A mais evidente, especialmente quando Darci coloca o bebê no barco, é feita para o clássico Limite, uma das produções que marcaram a história do cinema brasileiro.

Duas atrizes roubam a cena nesta produção: Simone Spoladore e Mariana Lima, respectivamente filha e mãe. Elas convencem e, mais que isso, comovem com as suas interpretações sensíveis e sofridas. Mas vale destacar outras participações. Como Dira Paes na pele de Conceição, uma mulher que tem um caso com Sebastião e que acompanha Clarice em sua fase de isolamento e gravidez quase secreta. Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Everaldo Pontes como o comerciante Malaquias – que defende “a bruxa” Darci, sem sucesso.

Falando na personagem de Darci, eis um ponto curioso do roteiro desta produção. Mulher forte e que vive isolada, ela sintetiza muitas brasileiras que, no interior ignorante de várias latitudes do país, tem conhecimento sobre a vida que outros não tem e, por isso, é vista com ressalvas pelas pessoas que tem medo de tudo aquilo que elas desconhecem. Além de parteira, Darci é um tipo de curandeira – em outras palavras, alguém que domina as propriedades de diferentes tipos de plantas. Ela ajuda a trazer pessoas para a vida e a curar quem precisa. Desta forma, é vista com respeito e com temor pelas pessoas. Vira alvo de brincadeiras de desafio entre as crianças, assim como de ataques dos adultos. Como todas as bruxas que já foram combatidas na história da Humanidade, Darci é poderosa porque sabe muito sobre o que a maioria desconhece. Segue a própria intuição e sabe perceber os sinais que estão em todas as partes.

Gostei do roteiro de Guilherme Sarmiento e do diretor Eduardo Nunes, especialmente pela imersão dele em um estilo de Brasil que eu gostaria que fizesse parte apenas de obras de ficção. O texto equilibra a dura realidade com a fantasia. Isso é bacana e funciona. Mas só achei o “grande segredo” da produção muito previsível. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas para mim ficou logo evidente que o pai da criança que matou Clarice era o próprio Sebastião. As falas dele, ao saber da morte da filha, praticamente terminam com o mistério. Uma pena. O filme seria mais interessante se a informação chocante, de fato, chegasse no momento certo e de forma estratégica.

Da parte técnica do filme, vale citar o ótimo trabalho do editor Flávio Zettel e a trilha sonora de Leandro Lima e Gabriel d’Angelo.

Sudoeste estreou nos cinemas brasileiros em outubro do ano passado. Antes, ele participou do Festival Internacional de Cinema de Rotterdam, na Holanda, em janeiro de 2012; foi exibido, em maio, no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, na França e, em setembro, participou do Festival de Cinema Independente Katowice, na Polônia. O filme participaria, ainda, dos festivais de cinema de Thessaloniki, na Grécia, e do Mar del Plata, na Argentina. Nos Estados Unidos, a produção estreou em janeiro deste ano.

Nesta trajetória, Sudoeste ganhou sete prêmios e foi indicado a outros quatro. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Contribuição Artística no Festival de Cinema de Havana para Eduardo Nunes; os prêmios de Melhor Filme Latino-Americano, Melhor Fotografia e Prêmio Especial do Júri no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro; Melhor Fotografia e Melhor Diretor pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA); e o Melhor Longa Metragem no Vitória Cine Video. Bastante premiado, pois, entre os anos 2011 e 2013.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para esta produção. Uma bela avaliação, especialmente porque este filme foge dos padrões mais comuns do cinema comercial. Apenas dois críticos relacionados no Rotten Tomatoes dedicaram textos para esta produção. O texto do Stephen Holden, do New York Times, elogia a produção brasileira, enquanto o crítico Tomas Hachard, da Slant Magazine, não gostou do que assistiu.

Algo curioso sobre Sudoeste: ao procurar a página oficial do filme, não consegui encontrá-la. Por outro lado, encontrei a página do filme no Facebook. Sinal dos tempos?

Sem dúvida a fotografia deste filme está entre as melhores que eu já vi no cinema nacional. E entre as melhores que eu assisti nos últimos tempos no cinema mundial. Grande trabalho!

CONCLUSÃO: Beleza, disse um dia o poeta, é fundamental. E Sudoeste é um filme duro, árido, triste, lírico, mas também muito belo. As principais qualidades dele estão, em ordem de importância, na direção de fotografia, na direção e no trabalho dos atores. Longos planos de câmera, perspectivas estendidas, e a dinâmica própria da produção, que estimula o espectador primeiro a ouvir, depois a ver e, por fim, a entender, tornam esta produção diferenciada. Um belo trabalho do diretor Eduardo Nunes e que merece ser descoberto. Com fotografia preto e branco e com um estilo muito diferente do que as pessoas estão acostumadas a ver, seja nas novelas brasileiras, seja nos filmes de Hollywood, Sudoeste pode demorar um pouco para fazer sentido para você. Mas se deixe levar por um projeto que beira o experimental e abra os sentidos. A história, dura, poderia ter alguns elementos menos previsíveis. Mas nada que tire os méritos da produção.

Elefante Blanco – Elefante Branco

28 de outubro de 2012 4 comentários

Eu tenho uma quedinha pelo Ricardo Darín. Na verdade, é uma queda considerável. Ao ponto de, quando vejo o nome dele em uma produção, tento assistí-la, não importa a história. No caso de Elefante Blanco, além de Darín, me chamou a atenção o filme ser dirigido por Pablo Trapero, diretor que me conquistou com Carancho (comentado aqui). Mas o filme não me convenceu, no final. Sim, a Argentina também tem problemas sociais como o Brasil, ainda que as favelas e comunidades criadas em locais irregulares não tenham ganho a mídia tanto quanto as made in Rio de Janeiro. Certo também que a Igreja tem um trabalho social importante. Mas o foco nestas duas realidades e o estilo de Darín e de Trapero não são suficiente para salvarem uma história que se revela longa demais e pouco interessante.

A HISTÓRIA: O padre Julián (Ricardo Darín) faz um exame complexo e delicado. Em outra parte, um homem se esconde na mata enquanto vários outros tentam encontrá-lo à noite. O padre Nicolás (Jérémie Renier) se esgueira enquanto escuta pessoas serem mortas porque não apontam para que lado ele fugiu.  Não demora muito para que Julián busque a Nicolás, resgatado após a morte de todos do vilarejo. A ideia de Julián é que Nicolás possa ajudá-lo a cuidar da comunidade formada ao redor de um elefante branco deixado pelo governo argentino. Pelos cálculos da Igreja, que tem um projeto social ali, há pelo menos 30 mil pessoas vivendo próximas ao projeto abandonado do maior hospital da América Latina lançado em 1937. Enquanto tentam erguer moradias mais dignas para aquelas pessoas,  padres, assistentes sociais e voluntários devem lidar com uma realidade violenta criada pelo tráfico de drogas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importante do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Elefante Blanco): O diretor e roteirista Pablo Trapero tem um estilo de cinema interessante. Ele gosta de tratar assuntos complexos da realidade argentina, buscando uma forma de fazer “cinema social”. Relembrando o neo realismo italiano – guardadas todas as proporções de diferenças históricas e de realidades diferentes, mas ambos buscavam os “marginalizados” e beber da dureza de algumas realidades.

Trapero gosta desta abordagem. Não assisti ao premiado Leonera, mas assistindo a Carancho se percebe esta identidade como algo determinante para o diretor. Essa verve realística e seu estilo de dirigir e de escrever que incorpora o jeito de falar, de agir e a velocidade da vida cotidiana funcionaram bem em Carancho. Mas em Elefante Blanco o discurso não funcionou tão bem.

Primeiro porque não há esperança em parte alguma. A realidade é ruim e nada sinaliza para uma melhora do quadro. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Vejamos: o protagonista está doente e tem tudo para ter uma morte súbida a qualquer minuto. Pressentindo isso, ele busca um “pupilo” para deixar em seu lugar. Esta promessa, contudo, está em dúvidas sobre o que fará da vida. Problema clássico quando o mestre tenta encontrar segurança na busca por “passar o bastão”. Como se não bastasse este ponto clássico, essa troca de “poder” entre heróis é buscada em meio a uma realidade caótica em que transbordam exemplos ruins – de gangues rivais aliciando jovens e empregados insatisfeitos com falta de pagamento – e onde falta mais ações heróicas.

Certo que a realidade é complicada. E o filme de Trapero mostra que este tipo de dificuldade em encontrar saídas para realidades violentas e contaminadas pelo tráfico de drogas não é algo que acontece apenas com o Brasil e a Colômbia, na América Latina. A Argentina, tão culta e que passou por tantos problemas econômicos nas últimas duas décadas, também tem as suas favelas e projetos sociais conturbados. Mas além desta constatação, o que nos sobra?

A importância da Igreja naquela realidade mostrada pelo filme é evidente. O trabalho dos personagens de Darín e Renier me fizeram lembrar muito a corrente da Teologia da Libertação, que mergulhou na realidade brasileira. E claro, de várias outras correntes da Igreja que, igualmente, buscam desenvolver no contato com as pessoas que mais precisam a verdadeira vocação do cristão. Só que isso não bastou para Trapero, e os roteiristas que ajudaram o diretor a escrever esta história, Alejandro Fadel, Martín Mauregui e Santiago Mitre.

Os quatro também precisaram tocar em outra dificuldade de um dos dogmas da Igreja: a castidade. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Nicolás sucumbe aos encantos da charmosa, determinada e linda Luciana (a sempre excelente Martina Gusman). E o discurso que os realizadores parecem nos deixar, no final das contas, é que tipo de homem pode ser santo? Aquele que se mantém fiel a todos os dogmas da Igreja e, desta forma, fica mais isolado da realidade (como nos retiros nos quais Nicolás se coloca de tempos em tempos) ou aquele que se “contamina” com os problemas do mundo e tenta participar das soluções para eles? Aliás, o homem mais santo seria aquele que consegue estes dois feitos? Manter-se “isolado” dos pecados, sem sucumbir às tentações, enquanto mergulha nos ambientes cheios de mazelas e tentações?

Apenas este último parágrafo renderia um texto inteiro. Mas como eu disse antes, quando comentava outros filmes que tratam sobre fé e religião, não é esta a proposta deste site. Aqui falamos de cinema. E voltando a ele, Elefante Blanco traz uma realidade complicada e homens que buscam permanecer santos (sejam eles homens ou mulheres) tentando fazer o melhor que eles podem naquele contexto.

Não é comum um filme ter esta abordagem. Por isso mesmo ele tem boas intenções, pena que a ideia não funcione muito bem no cinema. Porque o discurso cansa, e a falta de surpresa na história diminui o envolvimento que esta produção poderia ter junto ao público. Também prejudica a história não sabermos mais sobre os personagens principais. Sobre os seus passados, o que lhes trouxe até aquele ponto.

A falta de profundidade sobre os personagens em um filme centrado em três pessoas dificulta a compaixão de quem assiste e a capacidade do espectador colocar-se no lugar de qualquer um dos personagens. Uma pena. Porque histórias carregadas de humanidade, como esta, só funcionam bem quando esta “mágica” acontece.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme, propriamente, merecia uma nota menor. Talvez um 6. Mas é difícil dar uma nota muito baixa para uma história que tem Ricardo Darín como protagonista. Também gosto muito da Martina Gusman, ainda que o seu papel, nesta produção, seja tão “ligeiro” e sem profundidade. Unidimensional, pode-se dizer.

Jérémie Renier é carismático, tem um sorriso lindo, é bonito e tem uma boa sintonia com Martina Gusman, especialmente nas cenas “provocantes”, mas, infelizmente, ele não convence no papel. É de doer as cenas em que ele demonstra estar “arrependido por ter sobrevivido”, dizendo sentir-se culpado de ter causado a morte de tantas pessoas e não ter morrido também. Aliás, boa parte da fraqueza do filme está neste personagem, que deveria ser o mais complexo da trama, mas que encontra um ator sem força para levar o papel ao máximo que ele poderia ir.

A trilha de sonora é uma das melhores qualidades de Elefante Blanco. Bela seleção feita por Michael Nyman. Me fez descobrir, por exemplo, a interessantíssima música Las Cosas que No se Tocan, de Pity Álvarez interpretada por Intoxicados.

Elefante Blanco estreou em maio, na Argentina. Depois, no mesmo mês, participou do Festival de Cannes. Em setembro e outubro, dos festivais de Hamburgo e Warsaw. Nesta trajetória, só foi indicado para um prêmio, no Um Certo Olhar, de Cannes. Mas não levou ele para casa – perdeu para Después de Lucía, uma co-produção México e França.

Para quem gosta de saber onde as produções foram rodadas, Elefante Blanco foi filmado em Buenos Aires, com cenas externas, mais precisamente, na Praça Guemes.

Pablo Trapero tem 14 filmes no currículo como diretor. Faz parte desta lista três curtas, um documentário, uma série de TV e um segmento no longa Stories on Human Rights, de 2008, codirigido por vários nomes. A parceria com Martina Gusman iniciou em 2006 com o filme Nacido y Criado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para esta produção. Uma nota boa que, tenho certeza, foi bastante provocada pelo fascínio de Darín, Gusman e Trapero – mais do que pelo resultado do filme propriamente. No site Rotten Tomatoes, até o momento, há apenas duas críticas citadas. Ambas positivas.

Da parte técnica do filme, pouco a destacar. Achei a direção de Trapero muito “tradicional”, sem ousadia ou um trabalho de edição interessante. O mesmo sobre a direção de fotografia, que garante apenas imagens utilizáveis, por assim dizer, mas nada além da média.

Elefante Blanco é uma co-produção da Argentina com a Espanha.

CONCLUSÃO: A trilha sonora e a ideia original de Elefante Blanco é o que esta produção tem de melhor. Pena que nem sempre uma ideia original resulte em um bom filme. E este é o caso. Elefante Blanco nasce com uma premissa bacana, de apresentar uma face da Argentina pouco conhecida e de mostrar que a complexidade da vida não permite leituras preto e branco, como muitos gostam de fazer acreditar. Mesmo homens que buscam fazer o bem e seguir o caminho da santidade apresentam fraquezas e caem em suas imperfeições. E há realidades de degradação e de vulnerabilidade das pessoas difícil de mudar. Porque todos tem pressa, com razão, mas há muita gente que prefere que estas realidades não mudem. A intenção de Elefante Blanco é boa, há ótimos atores em cena, mas o filme acaba sendo arrastado demais, previsível e mesmo quando surpreende, não é para deixar um gosto de “quero mais”, mas o desejo que tudo termine logo. Não funciona, infelizmente. Mas vale uma nota 7, especialmente por Darín, que sempre faz um trabalho de excelência.

Biutiful

9 de julho de 2011 8 comentários

Um grande diretor, um ator sempre acima da média e uma Barcelona que poucos conhecem. Biutiful mistura estes três elementos em um drama com toques sobrenaturais, reflexão sociológica ligeira, dureza argumentativa e um leve toque de esperança. No melhor estilo “a vida como ela é”, o diretor Alejandro González Iñarritu presta homenagem aos antepassados com esta produção que busca, de forma bastante inusitada, destacar a importância dos laços familiares e das origens que cada um de nós possui. Sem dúvida um filme diferente, que retrata uma Espanha que não é vista pelos turistas, mas por aqueles que convivem diariamente com diferentes formas de exploração nos bairros e subúrbios de cidades como Barcelona. Vale pela curiosidade e por uma ou outra reflexão, muito mais que por um resultado final realmente arrebatador ou instigante.

A HISTÓRIA: Uma mão diminuta mexe em um anel que ocupa todo o dedo mínimo da mão de um homem. A voz de uma menina pergunta para aquele homem se o anel é de verdade, e ele responde que sim, que a joia foi um presente do pai para a mãe dele. Ela pergunta porque ele está com o anel, e ele responde que é porque o avô da menina deu a joia para a mãe dele antes de sair da Espanha. Depois disso, a mãe dele, que estava grávida, nunca mais teria visto o marido. A menina então pede para colocar o anel no dedo, e ele deixa, antes dela comentar que a mãe sempre usava o objeto no dedo anelar e que afirmava que a joia era de mentira. Corta. Em um bosque cheio de neve, uma coruja aparece estirada sobre o cenário branco. A voz de Uxbal (Javier Bardem) segue contando para a filha, Ana (Hanaa Bouchaib), que a mãe da garota nunca ouviu aquele som, o de mar. Depois destas cenas, passamos a acompanhar a vida de Uxbal e a sua luta para criar Ana e Mateo (Guillermo Estrella), os filhos que ele teve com a instável Marambra (Maricel Álvarez). Faz parte do cotidiano de Uxbal, além da educação e da busca do sustento dos filhos, negociações com imigrantes ilegais e policiais, tratativas para a venda de um espaço no cemitério onde foi sepultado o pai dele e a relação muito próxima que este espanhol tem com a morte.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Biutiful): Curioso que Biutiful sofre, como outros filmes que concorreram ao Oscar deste ano, com um certo problema de “amarra” argumentativa. A exemplo do que aconteceu com Haevnen, que arrebatou o prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira, com este filme de González Iñarritu se percebe uma junção de histórias amarradas de forma meio displicente e/ou forçada como tentativa de montar um quadro de realidades complexas. Algumas vezes essa fórmula pode dar certo, como ocorreu anteriormente com Short Cuts, Magnolia, Babel e outras produções, mas isso não funcionou tão bem com Biutiful e Haevnen.

Certo, não é difícil entender que o diretor mexicano e talentoso Alejandro González Iñarritu não queria, com Biutiful, apenas contar um drama humano. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Se torna evidente que ele queria transcender da história da proximidade da morte de Uxbal e tudo que essa “trajetória” significou para o personagem e retratar também a doença de uma sociedade em que as pessoas são tratadas como antigamente, em castas muito bem definidas. Biutiful trata, desta forma, não apenas da doença física de uma pessoa, mas da sua enfermidade moral e, junto com ela, da doença de um coletivo.

Beleza. Isso nós podemos entender e achar, talvez, interessante. A intenção é boa. Mas francamente, todas as histórias exploradas pela produção se mostram necessárias? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Francamente, eu acho que não. Como aconteceu com Haevnen, Biutiful sofre com excessos. Os dois filmes teriam sido bem mais interessantes se eles tivessem escolhido o caminho da simplicidade. Não eram necessárias tantas histórias paralelas. Para que, exatamente, explorar tanto a fragilidade da personagem de Marambra ou a sua relação com Tito (Eduard Fernández)? Ou porque debruçar-se sobre a história de infidelidade de Hai (Cheng Tai Shen)?

A razão deve ser a mesma de quando um jornalista tenta contar um pouco mais a história de uma pessoa que foi vítima de um acidente, além do óbvio ululante de contar a história do que aconteceu: tornar aquele fato menos impessoal e mais “humano”. Certo, a razão está clara. Mas sempre é preciso pensar se essa “humanização” da história terá o efeito desejado. Faz diferença, realmente, o que Hai faz longe da vista dos empregados e da família? Interessa, muito, que Lili (Lang Sofia Lin) fosse a babá dos filhos de Uxbal nas horas vagas? Talvez apenas para tornar a culpa do protagonista ainda maior. Mas esse fato, propriamente, não “aprofundou” muito a personagem chinesa ou tornou ela muito diferente dos demais imigrantes de sua etnia que são retratados na produção.

Então para que gastar tanto do tempo do filme traçando estas questões? Não teria sido mais interessante aprofundar em alguns outros aspectos da história? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Por exemplo, eu acharia mais interessante sabermos mais sobre o passado de Uxbal, o que aconteceu com ele e com Marambra além do que é sugerido – de que ela, por ser bipolar, tenha passado por tratamentos, sem contar a dependência química. Mas e ele, o que ele fez até ali? Há quanto tempo ele vivia de explorar a fragilidade de outras pessoas – sejam elas imigrantes ilegais ou pessoas que perderam algum ente querido. Aliás, quando e como ele descobriu a “vocação” para lidar com os mortos?

A ótima atriz Ana Wagener é pouco explorada na história como a personagem de Bea, uma medium que é clara em dizer que o dom que eles tem não deve ser utilizado para conseguir dinheiro. Mas esta personagem, por exemplo, que é mais importante na vida do protagonista do que outros que aparecem no filme, tem pouco de sua história explicada. Então a regra de “aprofundar nos dramas humanos” não vale para todos. Na verdade, é usada de maneira bastante desigual – e, volto a repetir, de uma forma um pouco confusa, sem uma real motivação ou mesmo contribuição para que a história se torne mais interessante. Outro personagem que tem um pouco de sua história/perfil explorado, mas sem grande contribuição para o filme, é o do policial Zanc (Rubén Ochandiano).

Bem, se nem todos os personagens e a exploração de seus dramas se justifica como algo que contribua para a história se tornar mais densa ou interessante, isso são falhas do roteiro assinado por Iñarritu, Armando Bo e Nicolás Giacobone. Por outro lado, os temas propostos pela produção se mostram interessantes – ainda que eles sejam explorados de forma um pouco confusa. (SPOILER) Pela ótica dos roteiristas, todos são infiéis, de alguma forma. Algumas vezes, sexualmente – como é o caso de Marambra e Hai. Outra vezes, moralmente – como ocorre com Uxbal, o policial Zanc, o chefão dos esquemas de exploração, inclusive o uso de mão de obra ilegal na construção civil Mendoza (Karra Elejalde), entre outros. A impressão é que todos estão corrompidos, de alguma forma, e que apenas a morte pode trazer algum reconforto. Ainda assim, Uxbal quer manter-se vivo, especialmente porque ele tem medo de ser esquecido – e de não viver o que gostaria de viver com os filhos.

Sem dúvida o peso desta perspectiva torna os dias do protagonista bastante doloridos. Mas mesmo com tanta desgraça, exploração e infidelidade, Biutiful mostra pelo menos algo interessante: o elo que une as diferentes gerações de uma família, e de como nos aproximamos muito mais dos nossos antepassados quando refletimos, com um pouco mais de tempo, sobre nossos próprios sonhos, características e herdeiros. O antigo e o novo se aproxima, desta forma. E torna cada indivíduo mais completo. Esta talvez seja a ideia mais interessante de Biutiful, e a que consegue ser melhor explorada por seus realizadores. Outras questões, como a “crítica à sociedade que explora”, poderia ter sido melhor trabalhada.

Falando nisso, claro que todo o roteiro de Biutiful é construído para que os espectadores simpatizem e se solidarizem – para não dizer que sintam pena – com o personagem de Uxbal. (SPOILER). Mas francamente, acho bastante difícil não indignar-se com ele. Afinal, ele explora as pessoas até o final, capturando até o futuro de Ige (Diaryatou Daff), tornando as escolhas dela quase impossíveis. Injusto. Mais uma exploração feita pelo protagonista – dentre outras tantas. Ok, alguém pode dizer que todos nós somos humanos e, por isso, erramos. Mas quanto mais uma pessoa conhece sobre as coisas – e no caso de Uxbal, ele tinha bastante conhecimento sobre a vida e a morte, sobre certo e errado -, maior a responsabilidade dela ao escolher caminhos equivocados. Claro que o perdão está aí para redimir a todos nós, mas nem por isso é de se bater palma para o que assistimos no filme. A busca pelo caminho do bem é cotidiana, e sempre que nos afastamos dele, nos aproximamos mais das sombras que tanto pertubavam Uxbal. Nada escapa da lógica da vida e da morte. E ainda assim, sempre há reencontros e a possibilidade da redenção. Por isso, mesmo com toda a imperfeição retratada pelo filme – e a convicção errada plasmada na palavra Biutiful -, existe sim beleza e esperança. O resumo está no título, pois.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Alguém pode me perguntar: “Mas e aí, na Espanha as coisas são do jeito que Biutiful mostra? Chineses e africanos são explorados sem dó nem piedade? Os policiais são corruptos? Existe uma máfia que se beneficia dos imigrantes ilegais?”. Vou falar, como sempre, do que eu vi: sim, há redes de exploração de imigrantes. Eles ocupam sempre os espaços marginais em cidades como Madrid. Estão lá, vendendo DVDs com filmes pirata, ocupam ruas e lojas em que comercializam os mais diferentes produtos “alternativos”. Os espanhóis vão lá, compram estes produtos, mas deixam claro que aquelas pessoas são “invasores”.

Não sei como hoje está o clima entre “nativos” e os imigrantes ilegais. Com um nível de desemprego maior, muita gente no “paro” (recebendo seguro desemprego) e pouca oportunidade de trabalho, eu imagino que o clima piorou. Não sei se continuam chegando “bateras” (embarcações pequenas e normalmente precárias) com imigrantes ilegais africanos na costa Sul da Espanha. Imagino que sim. Porque tanto para chineses quanto para africanos, como bem mostra Biutiful, mesmo a exploração na Espanha é melhor do que as condições de vida que eles tem, muitas vezes, em seus próprios países.

Nas ruas de Madrid, à noite, as pessoas costumam recorrer aos “chinos” (como são chamados os chineses) para comer após “salieren de fiesta” (saírem de festa, de bar em bar). Nesta hora, os “chinos” são bacanas. O mesmo nos sábados e domingos, quando muitos comércios tradicionais estão fechados, e há sempre “un chino” aberto para vender fones de ouvido, MP3 e os mais diferentes artigos em lojas espalhadas por quase todos os bairros. Nesta hora, esses imigrantes – muitos legais, outros tantos “sin papeles”/ilegais – são bastante úteis. Assim como os africanos que vendem “paraguas” (guarda-chuvas) nas ruas quando o clima está castigando os desprevenidos. Mas no restante do tempo, para os espanhóis – e acredito que franceses, e outras nacionalidades que se vêem “invadidas” pelos ilegais -, essas pessoas são indesejáveis.

Lamentável o conflito cotidiano entre as pessoas que se sentem donas de uma terra e de uma realidade e aquelas que tiveram que deixar os seus países, suas famílias e raízes para buscar uma melhor oportunidade de vida. No curso que fiz, em Madrid, falamos muito sobre xenofobia e como a mídia tratava esses temas de imigração. Estar atento aos absurdos e responder a eles é algo fundamental. Seja no país que for, com o desenvolvimento e as relações que se forjarem em cada local. Sobre corrupção policial ou “vistas grossas” de autoridades para o problema eu não posso falar, mas eu imagino que exista. E há, sem dúvida, uma rede que explora estas pessoas, seja na construção civil, nas ruas das cidades ou através da prostituição. Há muita gente ganhando dinheiro com a falta de perspectiva e a fragilidade de outras pessoas.

O diretor e os roteiristas misturam drama com um pouco de suspense, carga policial e sobrenatural. O resultado é um filme tenso quase todo o tempo, com algumas “baixadas” de ritmo aqui e ali e uma velocidade constante até o final. Eventualmente ele pode parecer um pouco arrastado, mas consegue manter o interesse do espectador até o final.

Para reforçar o clima “pesado”, um pouco cru e estranhamente “sobrenatural” da história, o diretor de fotografia Rodrigo Prieto fez uso de lentes que reforçam o azul e o cinza, tornando as imagens mais “agrestes”. O mexicano Prieto é um dos grandes diretores de fotografia atuantes no mercado. Ele foi responsável pela “alma” de filmes como Babel, 21 Grams, Amores Perros, State of Play, Los Abrazos Rotos, Frida, entre outros. Antigo colaborador de Iñarritu, como se pode notar pela lista.

Falando no diretor, quem acompanha a sua carreira sabe que ele gosta de histórias fragmentadas e que questionam algumas “situações dadas” da realidade. Para mim, ele é um dos grandes diretores de origem latina e que souberam manter-se criativos em Hollywood. Biutiful não é o melhor de seus filmes mas, ainda assim, é uma produção com a marca do diretor e com os diferenciais que isso significa. Ele merece todo o respeito, não há dúvidas.

Da equipe técnica de Biutiful, vale destacar o trabalho competente do editor Stephen Mirrione e a trilha sonora bastante pontual e pouco expressiva de Gustavo Santaolalla.

Biutiful é uma homenagem do diretor ao pai, Héctor González Gama, citado nos créditos finais do filme. Em Amores Perros e 21 Grams o pai do diretor tinha sido citado nos agradecimentos.

E uma curiosidade sobre a produção: Iñarritu demorou 14 meses para editar Biutiful. Um prazo bastante longo e que talvez sinalize a dificuldade do diretor em encontrar um resultado satisfatório para a produção.

Biutiful foi rodado em Barcelona, onde se passa a história, e também no Monte de San Donato Berain e na Sierra de Abodi, ambos pertencentes a Navarra, na Espanha.

Essa produção estreou em maio de 2010 no Festival de Cannes. Depois, Biutiful passou por outros 12 festivais, incluindo os de Toronto, Londres, Estocolmo, Oslo, Jacarta e Dubai.

Até o dia 5 de junho deste ano, esta co-produção entre México e Espanha tinha faturado pouco mais de US$ 5,1 milhões nos Estados Unidos. Um resultado baixo, se levarmos em conta que Biutiful foi indicado a dois Oscar e tem nomes como Javier Bardem e Iñarritu como chamarizes.

Falando em premiações, Biutiful saiu de mãos vazias do Oscar, onde concorreu como Melhor Filme em Língua Estrangeira e com Bardem na categoria Melhor Ator. Mas recebeu 11 prêmios, até agora, e foi indicado a outros 22. Entre os que embolsou, destaque para os prêmios de Melhor Ator para Bardem no Festival de Cannes e no Prêmio Goya, da Espanha. Biutiful também foi considerado o melhor filme estrangeiro de 2010 pela votação das associações de críticos de Washington DC, Phoenix e Dallas-Fort Worth.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para Biutiful. Os críticos que tem os textos linkados no site Rotten Tomatoes foram menos generosos: eles dedicaram 86 críticas positivas e 50 negativas, o que rendeu para a produção uma aprovação de 63% – e uma nota média de 6,4. Interessantes que críticos respeitados, como Peter Howell, Tom Long, Steven Rea e Lisa Kennedy publicaram críticas positivas para a produção – o que dá uma certa moral para Iñarritu.

Sobre o filme, o diretor disse o seguinte: “às vezes nossas vidas são assim: fraturadas, saturadas, emocionalmente eletrizantes e, até nos deixar sem fôlego, belas”. No site oficial da produção, ele ainda fala sobre a necessidade, após filmar Babel, de produzir um filme que tivesse apenas um personagem central e uma linha narrativa direta – e não fragmentada, com idas e voltas no tempo. Iñarritu disse que se Babel pudesse ser comparada com uma ópera, Biutiful seria mais um réquiem, um adágio. O diretor também classifica Biutiful como uma tragédia, a tentativa de “um poema sórdido sobre um homem que está se iluminando enquanto cai no escuro poço da morte”. E o diretor segue com uma longa explicação sobre as suas intenções com este filme. Para quem se interessar, esta lá no site oficial, em espanhol.

Ah sim, e para não dizer que não falei de flores: sim, Javier Bardem mereceu os prêmios que recebeu como melhor ator por este filme. Eis mais uma produção em que ele faz um grande trabalho. Ainda que, pela história ter sido construída totalmente sobre o personagem dele, e com a carga emotiva, dramática e de “doença” que a história abriga, era mais que esperado que o ator que interpretasse a Uxbal se destacasse. Por isso mesmo que eu acho, por exemplo, que foi merecido o Colin Firth ter recebido o Oscar este ano. Bardem está bem, mas ainda prefiro a interpretação de Firth, do James Franco e do Jesse Eisenberg em seus respectivos filmes que concorreram ao Oscar este ano.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho competente dos coadjuvantes Cheikh Ndiaye como o senegalês Ekweme, que acaba sendo deportado e Luo Jin como o chinês interesseiro Liwei.

Entre Biutiful e Haevnen, difícil escolher. Para mim, ambos não chegam ao nível de serem excepcionais. Continuo achando Kynodontas mais original e impactante. Mas se for realmente para escolher, ainda acho que Haevnen é um pouco melhor que Biutiful. Ainda falta assistir às outras duas produções que concorreram como Melhor Filme em Língua Estrangeira este ano mas, avaliando apenas os três que vi até agora, este ano não teve a melhor das safras recentes da premiação nesta categoria.

CONCLUSÃO: Mais um filme meio “existencialista”, meio sociológico, que aborda temas importantes sobre a realidade conflitante de grandes cidades/países. Com uma levada interessante, mas sem a costura adequada para todas as suas histórias, Biutiful soma-se a outras produções do gênero sem grande brilhantismo. Claro que Javier Bardem faz um grande trabalho, assim como o diretor Alejandro González Iñarritu. Mas, francamente? Não há muita novidade nesta história. O maior mérito do filme talvez seja o de mostrar uma parte de Barcelona que poucos conhecem – exceto os que já moraram por lá por algum tempo. Na verdade, o que Biutiful mostra sobre imigrantes ilegais, corrupção policial e explorações desta realidade ocorre em outras partes da Europa, incluindo Madrid, Paris e um bom etcétera. Interessante também a “homenagem” que o diretor faz aos antepassados e a esta linha amorosa que une distintas gerações de uma família. Bacana estas ideias, bem executada a realização delas, mas o filme sofre de excesso de histórias sem muitas amarras. Mediano, apenas.

Carancho – Abutres

17 de outubro de 2010 15 comentários

Muitos temas unem brasileiros e argentinos. E não falo de futebol. Vizinhos, colonizados, com uma história que envolve ditaduras militares, épocas de “euforia” e queda econômica, entre tantos outros fatores, a verdade é que compartilhamos de mais semelhanças do que gostaríamos algumas vezes de admitir. Contamos também com alguns grandes filmes em nossas histórias ainda que, a cada ano que passe, fica mais evidente que o cinema brasileiro está ficando para trás. Cada vez mais. Carancho, filme que representa a Argentina no próximo Oscar, torna isto ainda mais evidente. E também mostra como há sempre espaço para a criatividade e a inovação no cinema. O diretor Pablo Trapero, ao lado de outros três roteiristas, mostra como um tema “corriqueiro” e tratado com certo descaso pelas pessoas pode render uma grande, impactante e envolvente história. O grande cinema argentino, mais uma vez, mostra as suas armas – e torço, desde já, para que este filme esteja entre os cinco finalistas ao prêmio de Hollywood.

A HISTÓRIA: Fotos em preto e branco de um acidente. Pequenos pedaços de uma tragédia. Cinco linhas de texto revelam o tamanho do problema dos acidentes de trânsito na Argentina. Por ano, 8 mil pessoas morrem, em média, no país devido a este tipo de ocorrência. No final do texto, comenta-se que esta realidade sustenta no país um negócio milionário de indenizações. Um homem leva uma surra de outro dois. Corta. Uma pessoa aplica uma injeção em um pé. Esta pessoa é Luján (Martina Gusman), uma médica que dobra os horários de trabalho em um hospital e no socorro de emergências. Lentamente, o homem ferido se levanta. Ele vai até um carro e sai dirigindo. Pouco depois, Luján encontra ele na cena de um acidente. Neste momento, ela conhece a Sosa (Ricardo Darín), um advogado que trabalha representando vítimas e familiares de vítimas de acidentes de trânsito.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à  seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Carancho): O ritmo certo, os melhores atores, um roteiro envolvente, o cuidado de destacar o essencial de forma diferenciada e, para arrematar, uma história que pode ser entendida por diferentes camadas. Este é o grande cinema visto em Carancho. Mais uma vez, termino de assistir a um filme argentino e me pergunto: como eles são tão bons?

Parece quase uma senha. Quando Ricardo Darín está em uma produção, isto é praticamente sinônimo de um grande filme. Não gostei muito – e quem acompanha o blog sabe disto – de El Secreto de Sus Ojos (comentado aqui) ter ganho o último Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Não porque o filme não seja bom. Mas porque eu acho que outros concorrentes da última edição do prêmio são melhores que o filme que acabou sendo premiado. Mas enfim, sempre é merecido premiar ao cinema dos nossos vizinhos. Porque eles realmente tem uma produção de filmes admirável. Acho improvável que Carancho consiga abocanhar outro prêmio, assim seguido. Também admito que ainda não assisti a nenhum dos outros concorrentes. Mas, como falei antes, torço para que ele esteja entre os finalistas.

Bato palmas para todo filme que demonstra que a criatividade é uma qualidade infinita. Não importa o quanto falamos de amor, morte, traições, disputas e um longo etcétera desde o início dos tempos. O quanto os temas se repetem desde os primeiros e grandes clássicos da literatura e do teatro. Há sempre algo novo para falar, um olhar diferenciado sobre o óbvio. Carancho faz isso. Pega um tema “corriqueiro” nas páginas de qualquer jornal de qualquer país, como é o extermínio de pessoas no trânsito das grandes urbes, e o transforma em uma trama deliciosa.

Nesta produção há romance, intriga, uma levada policial, crimes e uma boa dose de realidade inquietante. O cinema argentino não tem medo de tocar em feridas. Diferente do nosso que, na maioria das vezes, prefere concentrar-se apenas em histórias “edificantes”. Aqui a violência do trânsito é desbravada em duas frentes: a da médica socorrista e a do advogado “carancho”. Aliás, este é um bom momento para comentar sobre o título do filme – que é, também, o “apelido” do protagonista. Carancho é uma ave de rapina comum na Argentina. Ela se alimenta de animais mortos – uma interessante alusão ao que Sosa faz – insetos e répteis. Por ser uma espécie de gavião, o carancho é ao mesmo tempo visto como um símbolo de força, de caça, como de bicho solitário e “aproveitador”. Aqui algumas informações, em espanhol, sobre o termo.

Desde o princípio, o roteiro de Trapero, Alejandro Fadel, Martín Mauregui e Santiago Mitre deixa claro que haverá um romance entre Sosa e Luján. Sem forçar a barra, os quatro roteiristas nos poupam tempo e “expectativa”. Afinal, Carancho não tem muito tempo a perder com rodeios. Com precisão cirúrgica a história vai, pouco a pouco, mergulhando no cotidiano complicado de cada um dos protagonistas. Os dois, cada um a sua maneira, parecem ser prisioneiros de uma realidade para a qual eles não encontram muita saída. E esta realidade é dura, injusta e se torna, cada vez mais, cruel.

O tema dos acidentes ganha uma complexidade social muito maior. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Por um lado, vemos aos socorristas e médicos do sistema de saúde sendo explorados por cargas de trabalho absurdas. Por outro lado, somos apresentados a uma máfia de advogados que vive da exploração de pessoas desinformadas e fragilizadas pela perda de parentes ou por serem vítimas, elas próprias, da violência do trânsito. Carancho não alivia na crítica a estas duas formas de exploração e coloca os dedos todos nas feridas. Denuncia, ao mesmo tempo em que não faz discursos. Produz e apresenta, isso sim, um roteiro envolvente e uma direção que consegue transformar grandes ideias em imagens precisas.

Não há sobras neste filme. E nem falta nada para a história. Pablo Trapero tem o cuidado de buscar o ângulo certo para cada cena. Focando o trabalho exemplar dos atores, ele também tem o cuidado de explorar o entorno, revelando a crueza da cidade, de suas ruas; uma certa “falta de esperança” nos hospitais e nas salas dos advogados e repartições públicas. A direção de fotografia de Julián Apezteguia, que utiliza lentes para tornar ainda mais evidentes as cores duras e cruas da realidade, tem um grande papel neste belo desempenho do diretor. Filmado grande parte de noite, Carancho evidencia os contraste das cores de emergência, especialmente, com o escuro de uma permanente sensação de “falta de esperança”.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como em outras produções, Carancho segue uma ladeira abaixo que deixa o espectador com a permanente sensação de que o pior ainda está por vir. E realmente está. Como em outros filmes, também, nesta produção há pequenos momentos de “paz e deleite”. Mas o espectador com um pouco de experiência sabe que isto não deve durar muito. E os roteiristas, por sua vez, sabem que este tipo de “armadilha” prende a atenção e faz com que as pessoas torçam pelos protagonistas. Ainda que – e especialmente se – eles não sejam santos. Luján é uma drogada – encontrou nas agulhas uma forma de ter alívio em uma rotina de exploração absurda. Sosa é um aproveitador que usa como muleta o fato de ter perdido a licença para trabalhar por conta própria como advogado. E ainda assim, por serem tão explorados e vítimas, torcemos por eles.

Mesmo com um roteiro brilhante, uma dupla de protagonistas de primeira grandeza e tantos outros acertos técnicos, Carancho tem um ou dois problemas. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, ele não explica alguns detalhes que seriam importantes para a história. Como a razão que fez Sosa perder a sua licença para trabalhar como advogado. Depois, comete um ou dois deslizes de continuidade. Como na cena em que Sosa é golpeado por Casal. O chefe do protagonista não chega nem perto de golpeá-lo na cabeça com a garrafa – e, ainda assim, Sosa aparece com um corte profundo depois. Mas francamente? Nenhum destes pequenos “pecados” faz a história perder a força, o ritmo ou as diferentes camadas de leitura.

Sem artifícios, Carancho não evita o drama e nem a crítica. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Expõe as dores de quem perdeu ou continua perdendo com a violência no trânsito. Revela os abusos de poder e a forma com que a cobiça pelo dinheiro levam para longe da virtude hospitais e “fundações” que acabam burlando a lei para conseguir mais dinheiro dos seguros. E o melhor de tudo é que Carancho explora a antiga história de “redenção” de maneira diferenciada, fazendo com que o espectador torça pelos protagonistas porque eles estão, mais que nada, tentando libertar-se de uma realidade pela qual eles não exatamente escolheram. Existe uma diferença gigante entre escolher uma profissão e se tornar prisioneiro de práticas infames de conduta para sobreviver. Além disso, existe a história de amor. A velha promessa deste sentimento como saída para pessoas perdidas. Por tudo isso, Carancho é este grande filme.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Saudade de assistir a um filme que me convencesse do início até o final. E não porque ele trate de assuntos novos. Mas porque tem o respeito de tornar velhos temas como atrativos. Depois de uma sequência de filmes que repetiram velhos padrões e ideias, nada como encontrar uma bela produção argentina com seus ventos inovadores.

O ritmo de Carancho é acelerado. E toda a aura que lhe acompanha casa bem com esta “jovialidade”. Uma prova disto é a trilha sonora, sempre no último volume. Algumas vezes, inclusive, a música e o som ambiente acabam dificultando para entender as falas dos personagens. Pequenos “erros” que não tiram o brilho da produção.

Gostaria, aliás, de saber de quem é a trilha sonora do filme. Assim como conseguir identificar os atores com seus respectivos personagens. Mas, infelizmente, nem o site oficial de Carancho e nem a “bíblia” do IMDb trazem estas informações.

De qualquer forma, vale comentar o trabalho dos atores. Além de Ricardo Darín, que está incrível – só para não variar – e demonstra, mais uma vez, que é um “monstro” como intérprete, um dos grandes nomes do cinema argentino e, quem sabe, do mundo, vale tirar o chapéu para Martina Gusman. A atriz faz um par perfeito com Darín. Cada olhar que eles trocam, cada momento em que ela está sozinha e com dor, sono, apreensão, valem o filme. Ouvi falar muito bem de Leonera, filme protagonizado por ela e dirigido, também, por Trapero. Mas ainda não o assisti. Agora, fiquei ainda mais curiosa. Porque a atriz é grande, e está fantástica e precisa em Carancho.

Infelizmente não consigo linkar cada ator com cada personagem, mas devo dizer que a equipe inteira de Carancho faz um belo trabalho. Destaco, em especial, aos intérpretes de Casal, Rinaldi, Pico e o vendedor dos carros de ferro-velho para o protagonista. Consegui identificar alguns pelos créditos finais do filme: Carlos Weber interpreta Pico; José Luis Arias a Casal; e Roberto Maciel a Rinaldi.

Merece uma menção a parte também o belo trabalho de edição feito pelo diretor ao lado de Ezequiel Borovinsky. Sem dúvida os dois conseguem o ritmo exato para a produção e escolhem bem os recursos para narrar de forma diferenciada esta história.

Carancho estreou na Argentina em maio. No mesmo mês, o filme participou do Festival de Cannes. Depois, esteve ainda nos festivais de Toronto, San Sebastian, Rio de Janeiro e, agora em outubro, em Hamburgo e Londres. Mesmo com todas as suas qualidades, o filme ainda não abocanhou nenhum prêmio. O que já sinaliza poucas chances para que ele chegue com força para o próximo Oscar.

Co-produzido pela Argentina, pelo Chile e pela França – contando ainda com dinheiro coreano -, Carancho foi todo filmado na cidade de Buenos Aires.

Antes deste filme, Pablo Trapero dirigiu outras seis produções. Com Leonera, de 2008, o diretor conquistou 16 prêmios e 27 indicações. Ele foi responsável, ainda, pelo roteiro de 10 de seus trabalhos, incluindo sete longas e três curtas. Um diretor que, sem dúvida, merece ser melhor conhecido – sim, este foi um momento “mea culpa”. :)

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Carancho. O filme praticamente não foi comentado pela imprensa internacional. Tanto que o site Rotten Tomatoes – literalmente um termômetro neste sentido – apresenta apenas uma crítica: a de Enrique Buchichio, do Uruguay Total. Neste texto, Buchichio afirma que a produção de Trapero é um “thriller urbano escuro, denso, pessimista, com grandes destaques técnicos (especialmente fotografia, som e montagem) e um retrato hiperrealista de ambientes e personagens que fecham em uma história de amor. Muito bom cinema, apesar de alguma superficialidade”.

O crítico comenta ainda que Carancho é uma das produções “mais notáveis” que chegou da Argentina em seu país – o Uruguai. Ele afirma que, para sorte do espectador, o filme não cai na “denúncia social”. Ainda que o filme não fuja de uma certa denúncia, para Buchichio ele se revela, basicamente, “uma história de amor entre dois perdedores que estão tratando de sobreviver”. Concordo com ele, ainda que eu ache que Carancho é, ao mesmo tempo, estas duas coisas e mais. Curioso que Buchichio afirma que falta química entre os protagonistas. Não percebi isso. Até porque uma certa “estranheza” entre eles se justifica pelo tipo de ambiente e relações com os quais eles estão acostumados. Percebe-se, com um bocado de esforço, o quanto o tempo vai fazendo eles quebrarem as armaduras e se aproximarem realmente – especialmente Luján.

O crítico reconhece uma levada noir no filme. Com toda a razão. Eu não tinha observado isso antes, mas é bem verdade. Seja pelo tipo de história, pelos personagens ou pelos rumos que o roteiro vai tendo, assim como a violência e a levada embebida na urbe, tudo isso faz de Carancho um exemplar que segue a escola noir. Buchichio afirma que Carancho só não é melhor por alguns deslizes do elenco, inclusive citando a Martina Gusman que, segundo ele, repete no filme alguns vícios vistos anteriormente – não tenho esse conhecimento para concordar ou discordar.

Através da crítica do uruguaio é que fiquei sabendo que a protagonista de Carancho é a esposa do diretor.

CONCLUSÃO: A violência do trânsito vista de uma maneira diferenciada. Não apenas as colisões são violentas, mas todo o cenário que envolve as cenas de batidas e atropelamentos. Pessoas morrem, outras ficam incapacitadas. E ao redor delas, gira muito dinheiro. Seja através da estrutura de socorro, de ambulâncias até hospitais, seja por fundações e profissionais que correm atrás de indenizações para as vítimas e seus familiares. Adicione-se aí as seguradoras e seus interesses. Carancho, novo filme do diretor e roteirista argentino Pablo Trapero, apresenta uma história intricada, violenta, cheia de nuances, sordidez e algo de romance e esperança. Pessoas aprisionadas em estilos de vida que não gostam acabam se encontrando e buscando saídas. E ainda que o horizonte pareça cada vez mais complicado, o espectador segue com elas na busca por uma alternativa. Com um ritmo ágil, um roteiro bem amarrado e uma direção atenta aos melhores ângulos, Carancho revela mais um grande trabalho dos atores Ricardo Darín e Martina Gusman. O elenco de apoio também se sai muito bem, em uma produção essencialmente urbana e que segue a desesperança do cinema noir. Mais um grande exemplo do cinema da Argentina.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: Comentei anteriormente que estou na torcida por este filme. E isso porque ele é o primeiro da lista de pré-selecionados para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro que eu assisti. hehehehehe. Mas vocês que acompanham este blog acho que já me conhecem: sou assim mesmo, meio “passional”. Quando um filme me convence, porque tem ao mesmo tempo criatividade, qualidade técnica, bom roteiro, elenco e direção, abraço a causa, dou nota máxima e torço para que ele se dê bem nas premiações. Mas fora o meu lado passional, sou realista. Até o momento, Carancho não ganhou prêmio algum nos festivais pelos quais passou. Além disso, a crítica internacional tem falado pouco ou quase nada dele. Estes são dois bons termômetros para saber sobre as chances de uma produção estrangeira para o Oscar. Assim, sendo, acho que Carancho pode até chegar, com um pouco de sorte e um tanto de lobby, a figurar entre os cinco finalistas ao prêmio. Mas dificilmente – e também porque a Argentina acaba de sair de um Oscar vencedora – ele terá chances de levar a estatueta. Ainda assim, é um belo filme que merece ser visto.

Gigante

14 de março de 2010 17 comentários

Uma história de amor inusitada contada de forma inteligente e cheia de sutilezas. Gigante, filme uruguaio co-produzido por outros três países que encantou os críticos do Festival de Berlim do ano passado, é um grande trabalho de seu diretor e roteirista Adrián Biniez. A produção reforça o talento dos realizadores latinos ao transformar uma história bastante simples e singela em uma produção divertida, tensa e emocionante ao mesmo tempo. Um filme perfeito, que dá espaço para o desenvolvimento de seus personagens principais e trabalha a história em um ritmo particular muito marcante.

A HISTÓRIA: Uma figura grandalhona escuta rock pesado no ônibus a caminho do trabalho. Ele consulta o relógio para se certificar que chegará a tempo para começar seu turno de vigia no supermercado as 23h. Jarra, conhecido também como Jarita (Horacio Camandule) cumprimenta Omar (Diego Artucio), um dos outros funcionários responsáveis pela segurança do local e segue sério para seu posto de trabalho. Todos os dias ele acompanha pelas câmeras de segurança os mesmos movimentos do pessoal de limpeza, repositores, funcionários da padaria e do açougue. Até que um dia ele fica encantado por uma funcionária em especial, Julia (Leonor Svarcas). A partir deste dia, ele começa a seguí-la e a viver parte de sua rotina, enquanto toma coragem para se aproximar da garota.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Gigante): Há quem acredite que um filme inteligente precisa ter grandes “sacadas” ou reviravoltas marcantes que deixem os queixos dos espectadores caídos. Mas uma produção pode ser inteligente por seus detalhes, com sutileza. Este é o caso de Gigante. O filme não conta nenhuma história fantástica, apenas desvela e dá importância para um romance ordinário e que, por seus detalhes, se torna tão especial.

Gigante, à sua maneira, é uma crônica interessante do nosso tempo. Uma era em que muitas pessoas trabalham em subempregos para se manter. Pessoas invisíveis que fazem com que um supermercado fique aberto 24 horas ou que garantem a diversão dos demais em boates disputadas. Gente que dorme de dia porque trabalha durante a noite e a madrugada. Homens e mulheres com poucas oportunidades de lazer ou de romance.

A história, por si só, é muito interessante. Mas a forma com que ela é contada tira este filme do balaio de produções corretas para colocá-lo no grupo de filmes excepcionais. Adrián Biniez vai sacando sorrisos em detalhes como a descoberta de um pedaço de um Falcon pelo protagonista quando ele está vigiando Julia na praia. Ou na maneira com que o rapaz sem vida própria vai se transformando no segurança/acompanhante da amada, mesmo de forma anônima.

Gigante é um filme delicioso que segue a técnica narrativa de várias produções européias – especialmente do cinema francês – em contar sua história sem pressa, de forma natural e atenta aos detalhes. Desta forma o espectador vai se aproximando do cotidiano diferenciado dos protagonistas, se colocando ao lado de Jara e se identificando com o seu fascínio pela vida de Julia. Ela não faz nada de excepcional, mas guarda uma vitalidade e um interesse por aproveitar seu tempo que a torna tão diferente de outras pessoas – como Jara.

Movido pelo encantamento, o protagonista vai pouco a pouco mudando a própria rotina. Para muitos, seu costume de seguir e vigiar Julia pode ser assustador – e até um certo ponto, realmente é. Afinal, aquela história pode muito bem virar pura obsessão e terminar mal. Biniez não foge de questionar este ponto – ainda que seu filme não tenha uma função didática a respeito. Jara segue Julia, é verdade, mas o exemplo da garota lhe faz pensar em si mesmo. Ele começa a fazer exercícios, começa a se preocupar com a própria aparência. Sai do estado de aparente letargia.

Como tantos outros “grandões”, Jara assume de forma relativamente confortável a imagem que as pessoas projetam sobre ele. Normalmente sisudo, o protagonista de Gigante é visto como um rapaz trabalhador que foi moldado para o trabalho de segurança. Sua presença realmente impõe respeito. Mas por trás daquela couraça respira um garotão que gosta de dormir vendo televisão, adora música pesada e joga, com o sobrinho, o Playstation. Até ele ficar fascinado por Julia, sua vida se resumia a comer, dormir, assistir a televisão, trabalhar e pouco mais.

Gigante é uma história de amor que rompe os estereótipos do gênero. Primeiro, ao mostrar como o fascínio pode surgir em um lugar tão inusitado como os corredores de um supermercado monitorados por câmeras de vigilância. Depois, porque o filme em si não revela o cortejo de uma garota por um homem, mas o amor platônico de um sujeito adulto que até então desconhecia a paixão ou o amor. Gigante revitaliza personagens esquecidos pelo cinema e lhes dá cores, aspirações, necessidades e desejos. E tudo isso sem exageros e sem apelar para lugares-comum.

De quebra, o filme de Adrián Biniez brinca ainda com a era da “vigilância”, do Big Brother tornado realidade. As câmeras que se tornaram parte do cotidiano da maioria das cidades servem como “cupido” no interesse de Jara por Julia, mas elas também aparecem como um espelho incômodo para o protagonista em dois momentos. Sem debater o assunto, o diretor e roteirista questiona o poder destes aparatos em nos aproximar ou distanciar uns dos outros. Um filme sensível, inteligente e repleto de várias sacadas sutis que nos enche de orgulho pela produção latina. Imperdível.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Possivelmente muitas pessoas vão achar a minha nota exagerada. Mas é que fiquei encantada com o filme. E acho que ele atinge todos os seus propósitos. Então quando um filme consegue comunicar tudo que gostaria de forma criativa e envolvente, sem nenhum grande “pecado” na forma com que foi realizado, para mim ele é uma peça perfeita de cinema. Gigante não apresenta nenhum defeito. Algumas vezes o ritmo pode parecer lento demais, mas quando ele começa a esboçar esta característica, surge em cena alguma pequena mensagem sutil ou detalhe que surpreende e encanta. Preciso, criativo, acertado.

O filme de Adrián Biniez começou a sua trajetória em fevereiro de 2009 no Festival de Berlim. Daquela premiação ele saiu consagrado com os prêmios de Melhor Filme de Estréia, o Urso de Prata (ou Grande Prêmio do Júri) e ainda o Prêmio Alfred Bauer. Depois, em março, a produção participou do Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires. Até março deste ano, seguiram-se mais 18 festivais. Além de ser exibido para diferentes públicos em mercados distintos, Gigante ainda abocanhou outros quatro prêmios, além daqueles de Berlim, com destaque para o que recebeu no Festival Internacional de San Sebástian, o Prêmio Horizons.

Antes de escrever o roteiro e dirigir Gigante, o argentino radicado no Uruguai Adrián Biniez havia escrito e dirigido dois curtas: 8 horas, de 2006, e Total Disponibilidad, de 2008. Gigante é o seu primeiro longa, o que torna Biniez uma das grandes promessas do cinema latino atualmente. Agora é esperar o seu próximo projeto.

Gigante é uma história debruçada sobre dois personagens: Jara e Julia. Mas é o ator Horacio Camandule que rouba a cena, exprimindo força, timidez, inocência, uma pitada de obsessão e senso de humor sempre que seu personagem pede um destes elementos. Uma grande descoberta o seu talento.

Além da direção precisa e do excelente texto de Biniez, o filme conta com uma direção de fotografia acertadíssima de Arauco Hernández Holz. Através de suas lentes fica reforçada a idéia do realismo e o contraste entre ambientes fechados e “acinzentados” e a liberdade da rua e da praia uruguaias. A trilha sonora do filme também é um elemento importantíssimo e interessante, mérito de Hector Pauluk. Vale citar ainda o trabalho de montagem de Fernando Epstein e a direção de arte de Alejandro Castiglioni.

Gigante agradou o público e, especialmente, a crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para a produção – achei ela um bocado baixa, o que talvez comprove que nem todos estão habituados a filmes não muito óbvios. O site Rotten Tomatoes, por sua vez, abriga links para 11 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 92%. (Logo mais acrescento por aqui algumas das críticas positivas para a produção).

Uma das críticas positivas para o filme foi escrita por Stephen Holden, do The New York Times. Ele escreveu, neste texto, que Gigante é um filme pequeno e despretensioso que integra a corrente do neo-realismo uruguaio. O crítico comenta que o protagonista não parece um tarado obcecado, mas um rapaz tímido que se sente como o protetor da frágil Julia. “Embora o filme observe o descontentamento rebelde que começa a ferver entre trabalhadores, ele não se mostra abertamente político. É um atraente, gentil prólogo cômico para uma história de amor”, definiu Holden.

Outro texto que elogiou o trabalho de Adrián Biniez foi este, escrito por Kevin Thomas do Los Angeles Times. O crítico comentou que em lugar de filmar um thriller em sua estréia, o diretor preferiu “explorar o funcionamento do coração humano com um toque de melancolia e uma pitada de humor”. Thomas classifica Biniez como um “observador agudo compassivo” que “tem a coragem de tomar um caminho arriscado, ousado na observação da vida comum cotidiana de um rapaz solitário”. Gostei quando o crítico ressalta como a tensão vai surgindo nesta história de forma muito sutil.

Para o crítico do Los Angeles Times, Gigante não é de todo previsível. Ainda que desde cedo o espectador assume o conceito de que o protagonista do filme é um homem “digno e de bom coração com quem vale a pena se preocupar”, o diretor mantêm “vivo um sentimento de incerteza quanto a forma com que a sua crescente obsessão  em relação à Julia” pode terminar. O crítico classificou Gigante como uma verdadeira jóia, devido a sua despretensão. Eu assino embaixo desta sua leitura.

O filme de Adrián Biniez é estrelado por um bom moço. Ainda assim, é meio que inevitável não pensar em como a obsessão pode nascer de forma singela e chegar a pontos catastróficos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas eu cheguei a temer por Julia em alguns momentos. Afinal, o que aconteceria se Jara fosse simplesmente desprezado pela garota? Se ela fosse um pouquinho menos singela e carente e, como disse um de seus últimos pretendentes, realmente estivesse buscando um “homem perfeito”? A violência de gênero muitas vezes surge justamente de uma paixão mal correspondida, de um homem obcecado que, aparentemente, era “boa gente” mas que, por várias razões, não consegue lidar com o desprezo ou o rechaço. Mesmo que Gigante não esteja aí para contar uma história trágica neste sentido, ele é importante também para fazer pensar a esse respeito.

Achei especialmente interessante a forma com que Gigante trata a realidade de duas pessoas muito diferentes: Jara e Julia. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ambos trabalham em algo que não lhes dá nenhum prazer para sobreviver. Mas enquanto Jara passas seus dias em jornadas duplas e em uma rotina de tédio, Julia busca aproveitar cada minuto de seu tempo livre. Ela faz karatê, vai à praia, passeia na vizinhança, vai ao cinema, bate ponto em cibercafés para conhecer pessoas através de chats. Quando Jara começa a perceber tudo o que ela faz, em contraste com a sua própria vida, ele fica fascinado – como nós. Gigante, assim, nos ensina como uma mesma realidade pode ser encarada de maneiras muito diferentes. E que as oportunidades para a felicidade também podem ser criadas – tudo depende de nós. Bela reflexão esta – e não muito comum no cinema.

Gigante é uma co-produção do Uruguai, da Argentina, da Alemanha e da Espanha. Quando o filme começou a ser premiado, chegou a render certa polêmica sobre sua “paternidade”, como bem explica este texto do jornal digital Sociedad Uruguaya. Argentinos e uruguaios começaram a querer puxar cada um para si a nacionalidade do filme. O Sociedad Uruguaya cita uma declaração de Biniez para elucidar a questão: “Naci em Buenos Aires, mas vivo em Montevideo há cinco anos e foi aqui onde começou a fazer cinema. É uma produção cinematográfica mínima (a uruguaia), comparada com a da Argentina”. Uma maneira de resolver estes conflitos é a de, em sua próxima produção, conseguir dinheiro basicamente em seu país adotivo. ;)

CONCLUSÃO: Um filme que apresenta uma história de amor muito diferente dos padrões de Hollywood. Contado de forma linear e honesta, Gigante se debruça sobre a vida de dois personagens solitários que se cruzam através do cotidiano cheio de tédio do trabalho em um supermercado. Inserindo-se na gama de “histórias excepcionais de gente ordinária”, este filme destaca a forma com que o amor pode surgir nos lugares mais inesperados. Também destaca como o fascínio por uma pessoa pode modificar a vida do ser apaixonado. Contado de forma singela mas repleto de achados geniais inseridos na história de forma sutil, Gigante também pode ser visto como uma crônica do nosso tempo. Uma era em que muitas pessoas lutam para sobreviver como podem, muitas vezes deixando suas vidas pessoais, desejos e necessidades em segundo plano. Sem contar a reflexão que o filme faz sobre a solidão, o isolamento e a vigilância eletrônica como elementos constantes do cotidiano das cidades. Simples e genial na medida certa.

El Secreto de Sus Ojos – O Segredo dos Seus Olhos

5 de dezembro de 2009 17 comentários

Entre os países da América Latina, a Argentina possivelmente tem o cinema mais regular da região – produzindo sempre uma média de filmes de qualidade. El Secreto de Sus Ojos, representante do país por uma vaga no próximo Oscar, não foge desta regra. Ainda que narrado de forma bastante tradicional, este filme sobre uma investigação policial inconclusa e a busca de um oficial de Justiça aposentado por respostas sobre o seu passado tem pelo menos duas grandes qualidades: a presença sempre gratificante do talentoso Ricardo Darín e a sua parceria com a encantadora/convincente Soledad Villamil. Inspirado em uma obra literária, El Secreto de Sus Ojos mantêm duas linhas narrativas – presente e passado – em uma história de crimes, desejos contidos, paixões, Justiça e literatura.

A HISTÓRIA: Entre as plataformas 7 e 8 de uma estação de trem, uns olhos se destacam. Um homem tenta superá-los e pega uma pasta de couro, caminhando em seguida junto ao trem parado. Esta é uma cena de despedida. Ela habita a memória do agora aposentado Benjamín Esposito (Ricardo Darín). O antigo oficial de Justiça insiste em escrever um romance sobre o seu passado, que envolve não apenas aquela separação emocionada na estação de trem, mas também um crime hediondo. Utilizando como pretexto a sua busca pelo que realmente ocorreu com o culpado do caso Morales, Benjamín tenta também fazer as pazes com o seu próprio passado, especialmente no que se refere a sua antiga chefe, a juíza Irene Menéndez Hastings (Soledad Villamil).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a El Secreto de Sus Ojos): Grande parte do que acontece na história contada por esta produção é previsível. Esperamos que o amor entre Benjamín e Irene vá ficando cada vez mais evidente, assim como confiamos que o culpado por ter matado a jovem e encantadora Liliana Coloto (Carla Quevedo) perca o controle e tenha alguma forma de julgamento justo. Ainda assim, e mesmo se tratando de uma adaptação de um romance no melhor estilo tradicional, El Secreto de Sus Ojos nos guarda algumas surpresas interessantes e bastante pontuais.

O diretor Juan José Campanella adaptou para a forma de um roteiro o livro La Pregunta de Sus Ojos com a ajuda de seu próprio autor, Eduardo Sacheri. Algo que me chamou a atenção, logo no início do filme, é que ele não alivia em seu linguajar. Não lembro de ter assistido, recentemente, a outro filme argentino que tenha tantos palavrões, xingamentos e “linguagem coloquial”. Algo curioso, se pensamos o tempo e o ambiente em que se passa a história – provavelmente algo planejado pelo escritor para diferenciar esta publicação de outras do gênero. A verdade é que o texto de Sacheri tira o véu do ambiente formal do Judiciário e nos aproxima de seus bastidores, onde existem disputas por poder, traições, assédio sexual, alcoolismo e, claro, algo de Justiça.

Como todo filme com duas narrativas principais em paralelo e um protagonista que busca solucionar dois problemas, El Secreto de Sus Ojos corria o risco de se perder em “costuras” de roteiro mal feitas. Mas não. As histórias paralelas são bem amarradas e prendem o interesse do espectador. O mérito principal, claro, fica por conta dos atores envolvidos no projeto. Darín, mais uma vez, confirma o seu posto como o principal – ou um dos, pelo menos – ator do cinema argentino. Em um filme em que “os olhos” – que simbolizam as expressões sem diálogos – devem comunicar tanto ou mais que as palavras proferidas pelos personagens, ninguém melhor que Darín para comandar o elenco. Mas para a sorte do espectador, junto com ele há outros atores muito competentes em cena.

Para começar, Soledad Villamil. Junto com Darín, ela consegue sugerir, sempre na medida exata, a proximidade, o desejo e os valores contrastantes da relação de uma “superiora” com o seu “subordinado” em um ambiente tão rígido quanto o do Judiciário. Logo no primeiro encontro entre Benjamín e Irene sabemos que algo ocorreu – ou deveria ter ocorrido – entre os dois. Buscando sempre olhar para o futuro, Irene não consegue mensurar o quanto de sua vida pode ainda ser mudada. Benjamín, por sua vez, parece não aceitar o rumo que sua vida tomou – e insiste, mais que Irene, em olhar para o passado. Não apenas para entendê-lo mas, especialmente, para tentar ajustá-lo.

É sempre gratificante assistir a dois grandes atores em cena. E o melhor: atores maduros. Junto com Darín e Villamil, El Secreto de Sus Ojos conta com o talento do ótimo Guillermo Francella, que interpreta a Pablo Sandoval, “subalterno” e amigo de Benjamín. O lado “mais fraco” entre os intérpretes fica por conta de Pablo Rago, como Ricardo Morales, marido de Liliana Coloto, e Javier Godino como Isidoro Gómez, o assassino confesso da moça de lindo sorriso. Não quero dizer que os atores sejam ruins, não. Mas perto do trio de protagonistas experientes, realmente fica evidente que lhes falta estrada.

De qualquer forma, El Secreto de Sus Ojos funciona bem. Consegue manter a atenção do público mesmo em seus momentos de “baixada narrativa”. Tem algumas cenas fortes e certa surpresa, o que garante que, junto com o desempenho dos atores, o filme se mantenha acima da média. No quesito direção, não há nenhuma surpresa ou virtuosismo. Na verdade, Campanella faz um trabalho apenas correto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mesmo que seja, aparentemente, um filme sobre uma “investigação policial”, El Secreto de Sus Ojos se mostra, essencialmente, uma produção sobre paixões. Ele reflete, como poucos ultimamente, sobre a energia que nos move em uma direção – seja ela um amor, a justiça ou o crime. Francamente, o roteiro fez com que eu duvidasse permanentemente do marido de Liliana. Achei que Morales podia ser o verdadeiro culpado. Mas que boa surpresa a do final, quando fica ainda mais claro como a verdadeira “justiça” nunca poderá residir no “olho por olho, dente por dente”.

Por ser protagonizada por personagens “com mais idade”, El Secreto de Sus Ojos também reserva outra mensagem importante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A de que nunca é tarde para buscar a paz com o próprio passado e, principalmente, viver uma grande paixão. Ok, a mensagem pode parecer até piegas – e talvez seja, um pouco -, mas nem por isso ela deixa de funcionar. O que apenas comprova como bons atores e um roteiro escrito com certo cuidado podem fazer com que idéias “batidas” ainda convençam.

Merece certa atenção também a crítica velada de Sacheri a época em que Isabel Perón governou o país. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Durante seu governo, o desafeto de Benjamín, Romano (Mariano Argento), coloca o assassino de Liliana Coloto em uma posição importante entre o corpo de segurança da presidenta. De fato, durante o mandato de Isabel Perón, muitos abusos foram cometidos contra seus opositores. Um pouco de fundo histórico em uma história que brinca com a fronteira entre realidade, recordações distorcidas e a imaginação de um escritor que tenta encontrar sentido em fatos do seu passado que não ficaram totalmente esclarecidos. O espectador não sabe, com 100% de segurança, se tudo que está assistindo – pelo menos na narrativa sobre o passado dos protagonistas – é parte de uma ficção ou reflete, exatamente, o que ocorreu com Benjamín e os demais há 25 anos. Algo que ficará sem resposta – o que torna a história ainda mais interessante e realista.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O ator Javier Godino me enganou. Eu podia jurar, quando ele apareceu pela primeira vez em cena, que ele era o jovem ator destacado no último filme do Almodóvar. Ledo engano. Eu o confundi com Rubén Ochandiano, que interpreta a Ray X/Ernesto Jr. em Los Abrazos Rotos (comentado aqui no blog). Certo que eles guardam certa semelhança, mas acho que no fundo o que eu precisava mesmo era descansar os meus olhos cansados. ;)

Ambientado em duas épocas, no final dos anos 1990/início dos anos 2000 e em 1974, El Secreto de Sus Ojos compartilha personagens e a cidade de Buenos Aires. Como todo filme “de época” pede, esta produção é bem acabada em seus detalhes. Dos figurinos assinados por Cecilia Monti até o design de produção de Marcelo Pont Vergés, tudo funciona a serviço da história, auxiliando na ambientação de épocas e costumes. A direção de fotografia do brasileiro Félix Monti, contudo, não marca nenhuma mudança entre as épocas – o que não deixa de ser algo raro. Monti preferiu, tudo indica, o uso de um mesmo jogo de cores e de lentes para registrar a história. Por isso mesmo, acaba sendo tão fundamental o uso de figurinos, objetos de cena e da maquiagem idealizada por Fernanda Cacivio e Lucila Robirosa para distinguir os diferentes tempos narrativos.

El Secreto de Sus Ojos estreou na Argentina em agosto deste ano. Até o momento, o filme participou de apenas cinco festivais. Entre eles, o de Toronto, o de San Sebastián, o do Rio de Janeiro, o da AFI e, em novembro, do festival de Mar del Plata. Até o momento, a produção dirigida por Campanella não recebeu nenhum prêmio.

Para os que gostaram da trilha sonora, vale a pena citar o nome de seus realizadores: Federico Jusid e Emilio Kauderer.

O cinema argentino tem um grande incentivo: a constante parceria de investidores e organismos oficiais da Espanha. El Secreto de Sus Ojos segue esta linha, tendo recebido um importante aporte dos espanhóis. O filme de Campanella teria custado, aproximadamente, 2 milhões de euros. Apenas na Espanha, onde estreou em setembro, El Secreto de Sus Ojos arrecadou pouco mais de 3,5 milhões de euros até o final de outubro.

Nascido em Buenos Aires há exatos 50 anos, Juan José Campanella leva em seu currículo como diretor pelo menos 21 projetos. Entre eles, destaque para El Mismo Amor, La Misma Lluvia, produção de 1999 protagonizada por Ricardo Darín e Soledad Villamil (sim, a dupla repetiu a dose nesta nova produção, uma década depois); El Hijo de la Novia, de 2001, e Luna de Avellaneda, de 2004, ambas estreladas por Darín; e por seu trabalho como diretor de alguns episódios de House M.D., Law & Order, 30 Rock, entre outros projetos para a TV dos Estados Unidos e da Argentina.

Poucos críticos comentaram, até o momento, este novo filme de Campanella. Mas neste site, Hugo Zapata afirma que El Secreto de Sus Ojos é melhor que a obra literária que o originou. Ele afirma, por exemplo, que o filme desenvolve com “maior profundidade a relação dos personagens principais”. “Mais que um policial negro clássico, o diretor apresenta um grande thriller aonde o mistério está muito bem construído”, na avaliação do crítico do site argentino.

O crítico Carlos Boyero, do jornal espanhol El País, comentou neste texto que após o açucarado e “enervante” Luna de Avellaneda, ele tinha medo de assistir a outro filme ruim e/ou pretensioso de Campanella. Mas, após assistir a nova produção, o crítico se sentiu feliz. Ele se disse admirado pela “capacidade de seu autor para combinar com fluidez, tensão, harmonia, dureza e verossimilhança o cinema negro e a tragédia sentimental, a violência e o tom autenticamente lírico”. Boyero destaca ainda a linguagem expressiva do autor que consegue ser “tão sutil quanto poderosa”. Para o crítico, os espectadores de El Secreto de Sus Ojos adentram no “território do grande cinema, do classicismo, de um universo tão rico como complexo no qual tudo tem sentido, te envolve, te sugere, te implica e te comove”.

La Pregunta de Sus Ojos, obra que inspirou o filme de Campanella, foi editada pela primeira vez em 2005. Na Espanha, o livro de Eduardo Sachari foi editado com o título de El Secreto de Sus Ojos. Este foi seu primeiro romance – anteriormente Sachari, um professor licenciado em História, havia publicado apenas livros de contos. Encontrei neste site uma comparação entre o livro e o filme (texto em espanhol).

A história policial que motiva uma revisão da vida dos protagonistas de El Secreto de Sus Ojos se passa nos anos 1970, uma década conturbada para a Argentina. Em março de 1973 o país viveu as primeiras eleições presidenciais em uma década. Aqueles anos foram marcados pela vitória do peronismo – nome como ficou conhecida a “era” do militar Juan Domingo Perón. Depois de governar o país entre 1946 e 1955, Perón voltou ao poder em 1973, ficando no cargo até o ano seguinte, quando morreu em julho. Sua mulher na época, Isabel Perón, sucedeu o militar até que foi derrubada do poder por um novo golpe militar, em março de 1976.

Em 2007, segundo esta reportagem da Folha de S. Paulo, um juiz argentino pediu a prisão da ex-presidente Isabel Perón como “parte de uma investigação sobre a morte de dissidentes antes da ditadura militar na Argentina”. Isabel Perón, que foi condenada por corrupção em 1981 – e, posteriormente, perdoada – se exilou na Espanha. Segundo promotores argentinos, ela teria assinado “três decretos que permitiriam a realização de atos de terrorismo de Estado durante seu governo”, documentos estes que também teriam permitido a “aniquilação de elementos subversivos de esquerda e facilitado a ação do Triplo A” (como ficou conhecido o esquadrão da morte direitista atuante na época).

CONCLUSÃO: Um dos diretores argentinos mais conhecidos internacionalmente volta a investir na dupla de atores Ricardo Darín e Soledad Villamil em um filme que mistura drama e enredo policial na mesma medida. El Secreto de Sus Ojos busca equilibrar constantemente a verborragia argentina, com diálogos rápidos e carregados de regionalismos/humor/palavrões com uma certa levada sentimentalista – que privilegia troca de olhares românticos e sedutores. Narrada em dois tempos, esta história segue uma linha de direção tradicional por Juan José Campanella. O diretor consegue, com pulso firme, envolver o espectador em uma história que joga com múltiplas dúvidas e a incerteza entre o limite entre realidade, distorções da memória e ficção. O mérito principal desta produção, contudo, reside no excelente trabalho de Darín e a sua parceria afinada com Villamil e o comediante (aqui em papel dramático) Guillermo Francella.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: El Secreto de Sus Ojos é um filme bem acabado e que revela a experiência de um diretor que sabe manejar muito bem os diferentes recursos narrativos do cinema atual. O espectador é levado pela narrativa, dividida em dois tempos históricos, através de closes, panorâmicas, câmeras na mão, e demais planos de filmagem conhecidos por quem acompanha as diferentes séries televisivas atuais. Ainda que tenha estas características, este não é um filme inesquecível. E nem primordial. Por isso mesmo, não acredito que El Secreto de Sus Ojos conseguirá uma das cinco vagas na categoria de Melhor Fime Estrangeiro no próximo Oscar. E mesmo que consiga chegar lá, ele não tem chances de ganhar a estatueta se comparado com Un Prophète ou outras produções que tiveram uma cotação melhor nas críticas recentes aqui no blog – e que estão pré-selecionadas para a votação da Academia.

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