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Gravity 3D – Gravidade 3D

8 de novembro de 2013 12 comentários

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A corrida para o Oscar do próximo ano está aquecida desde já. Mas alguns filmes que podem surpreender ainda não estrearam nos Estados Unidos, o que pode alterar as bolsas de apostas feitas até agora porque estes títulos podem surpreender aos críticos e votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ainda assim, ouvi falar tanto de Gravity que eu me vi obrigada a ver ao filme agora, enquanto ele ainda está nos cinemas.

Honestamente, eu gosto do Alfonso Cuarón. Mas esta nova produção dele não tinha me atraído tanto assim para que eu fosse nos primeiros dias a algum cinema. Só que com tanto burburinho sobre a produção e com os especialistas afirmando que ele tem grandes chances de ganhar um monte de estatuetas douradas em 2014, me vi obrigada a ir atrás.

A HISTÓRIA: Se passa a 600 quilômetros acima da superfície da Terra, onde não há oxigênio, não há água e nem atmosfera por onde o som possa se propagar. Logo aparece o nosso planeta, naquela imagem clássica, todo azul, mas agora em alta definição e profundidade. Logo ouvimos o comando da Nasa pedindo para a doutora Ryan Stone (Sandra Bullock) confirmar se ela está bem. Ela, que é a figura mais distante entre os três astronautas que aparecem na telona, afirma que sim, que apenas está um pouco enjoada. Mas segue trabalhando para instalar um novo sistema de comunicação no telescópio Hubble.

Algo está errado com os componentes, e para passar o tempo, o astronauta Matt Kowalski (George Clooney) segue “caminhando” no espaço para tentar bater o recorde do russo Anatoly Slovyev enquanto conta histórias. Mas não demora muito para que os destroços de um satélite russo destruído por um míssil acertem outros satélites e criem uma verdadeira onda de destruição, fazendo os astronautas que estão na operação do Hubble correrem para tentar se salvar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Gravity 3D): Não é por acaso que eu defendo sempre a ignorância em relação aos filmes. Ou, dizendo em outras palavras, que quanto menos você souber sobre uma história, melhor. Falei algumas vezes por aqui, em outros textos, de como as expectativas são ruins para qualquer experiência. Ainda que a gente se esforce para “ser neutro/a” na hora de ver uma produção, quando ouvimos falar bastante dela, é quase impossível não se contaminar com a expectativa de ver algo bom.

Sobre este filme, especificamente, tentei ouvir pouco antes de assisti-lo. Como costumo fazer com todos os demais. Mas foi impossível. Pesquisando em sites gringos sobre as apostas para o próximo Oscar, vi Gravity bem cotado em praticamente todas as categorias. Isso, por si só, alimenta bastante a expectativa. Além disso, não lembro o porquê, mas li em algum lugar que o diretor James Cameron disse que Gravity é o melhor filme sobre o espaço da história. Daí impossível ir até o cinema e não esperar por um grande filme, não é mesmo?

Foi desta maneira que, logo de cara, achei forçado o humor do roteiro escrito pelo diretor Alfonso Cuarón e pelo filho dele, Jonás Cuarón. A dupla teria, ainda, tido a colaboração do ator George Clooney no texto – uma ajuda não creditada, segundo o site IMDb. Entendo que a intenção dos roteiristas foi “desmistificar” um pouco a figura “sisuda” do astronauta. Assim, vemos ao especialista Shariff (com voz de Phaldut Sharma) fazendo uma “dancinha” no espaço depois de saber que tiraria férias no retorno para a Terra, e ouvimos várias histórias sem graça de Kowalski.

Ainda que eu entenda a intenção dos roteiristas, não acho que a técnica tenha funcionado. As falas de Kowalski, exceto aquelas em que ele tenta saber um pouco mais de Stone quando eles estão sozinhos tentando sobreviver, parecem forçadas. As histórias de Kowalski, contadas para quem quisesse ouvir na Nasa e para uma especialista com quem ele não tinha contato algum até então, que era Stone, me fizeram lembrar aquelas pessoas que você mal conhece e que começam a contar todos os detalhes estranhos e/ou sórdidos de suas vidas quando bebem demais.

Pois bem, fora esse início forçado do roteiro, com confissões estranhas de Kowalski, como os “maus pressentimentos” dele com a missão porque ela fazia ele lembrar de quando foi deixada pela mulher em outra ocasião em que estava no espaço, achei que Cuarón fez uma boa escolha em abrir mão da tradicional edição de cortes de cena para fazer um longo plano de aproximação dos personagens no espaço.

Então partimos de um quadro mais amplo, em que vemos a Terra ao longe e o telescópio Hubble com os astronautas, até que chegamos perto da protagonista, Stone. Este jogo de cena é feito como se estivéssemos flutuando no espaço, acompanhando a dinâmica da cena. Uma proposta interessante e que vai ditar o ritmo de grande parte da produção.

Também achei acertada a escolha para que a ação não demorasse muito para acontecer. Verdade que o filme dá bastante espaço para o silêncio, e para sequências de busca dos astronautas sem muita ação. Gravity é uma história de ação no espaço ao mesmo tempo em que escolhe ser um drama, com todas as suas pausas e momentos em que se espera que a audiência “sinta” o que os atores estão passando.

Pena que o roteiro não deixe praticamente espaço algum para surpresas. E isso é ruim em um filme de ação – também em um drama, claro, mas em um filme de ação a surpresa é ainda mais vital. Assim, quando ouvimos a Nasa falar que os astronautas não precisam se preocupar com a explosão do satélite russo, não é preciso ter grande imaginação para saber que justamente aí estará o grande problema da trama. E o risco para os personagens.

Assim, não é nenhuma surpresa quando a Nasa explica que o trio em órbita deve fazer a reentrada no telescópio e, na sequência, uma evacuação de emergência. Mesmo a virada da narrativa sendo esperada, é preciso admitir que Gravity ganha força e mostra quase todas as suas armas com a chegada dos escombros até aquele cenário “tranquilo”.

Interessante a escolha de Cuarón em acompanhar Stone o tempo inteiro. A estrutura em que ela está se desprende e a médica é lançada longe. Por bastante tempo, o espectador fica “perdido no espaço” junto com a especialista que se preparou pouco para a viagem espacial – o que, cá entre nós, é bem difícil de acreditar.

Pelo menos no mundo real uma pessoa, não importa da especialidade que ela fosse, dificilmente iria para uma missão como aquela tão despreparada. (SPOILER – não leia se você ainda não viu o filme). Mas voltando ao filme… funciona bem o recurso de colocar um “tique-taque” na história. E esse contador de tempo, claro, é o oxigênio baixo de Stone. As rodopiadas dela no espaço, a solidão inerente e o desespero da falta de controle são reforçadas com a trilha sonora de Steven Price.

Kowalski acaba encontrando Stone. Agora, ele não deve se preocupar apenas com a nova onda de destroços que deve chegar até eles, mas também com o tempo limitado que a dupla tem até chegar a uma alternativa que dê oxigênio para a médica e possibilidade de fuga para a Terra para os dois. Agora, fora estas escolhas acertadas do diretor e os ótimos recursos técnicos que ele utiliza, pouco sobra de interessante no filme.

Há algumas sequências realmente estranhas e/ou dispensáveis. Por exemplo, para que afinal eles se esforçaram tanto para buscar o corpo de Shariff? Claro que alguém vai argumentar que a ideia era levá-lo para os familiares na Terra… mas tanto que esta ideia é absurda que quando eles se aproximam da nave Explorer, eles soltam Shariff que vai, desculpem a expressão, para o espaço. :) Também achei muito fake a cena em que Stone olha para o rosto destruído de Shariff.

Como nem todas as escolhas deste filme são estranhas, gostei de duas cenas que valem menção. Primeiro, a bela sacada de Kowalski parar de contar as próprias histórias para tentar saber um pouco mais de Stone e, assim, acalmá-la – afinal, ela praticamente não tem mais oxigênio quando eles decidem ir da Explorer para a estação espacial. Quando ela diz que a filha dela de quatro anos morreu e que, fora trabalhar em um hospital, Stone ficava vagando sem rumo de carro, ele olha para ela, que está presa a ele por um cabo, através de um espelho. Bela, bela imagem. Aliás, as cenas da Terra vistas no espaço e do nascer e do pôr-do-sol são lindíssimas.

Outras sequências que achei muito boas foram as que mostram a destruição no interior da estação espacial. Daí que o 3D faz realmente diferença – especialmente nos momentos em que vemos chamas e água flutuando. Não chegar a ser uma surpresa completa, ainda que seja impactante, a cena em que Kowalski afirma para Stone que a única chance dela é ele se desprender. Sem combustível para seguir dando rumo para o próprio “voo”, Kowalski sabe que não terá resgate. De fato Clooney faz um bom trabalho, ainda que ele seja um pouco irritante. Mas a maior entrega, e que deve render vários prêmios pela frente, é mesmo de Sandra Bullock.

Ela entrou neste projeto para valer e fez sacrifícios físicos para aguentar o tranco das gravações. Mas quando ela entra na nave espacial e tira o traje de astronauta, percebemos que ela está muito bem, fisicamente. Com um corpão, alguns podem dizer. E está mesmo. Só achei dispensável ela “relaxar” e se mover ficando em posição fetal – certo que a referência é clara para o filme, este sim genial, 2001 – A Space Odyssey. Também não gostei da trilha sonora em boa parte do filme – porque, para o meu gosto, Price exagerou na dose, especialmente na reta final de Gravity.

O virtuosismo de Cuarón na direção fica mais evidente quando Stone tem que sair da cápsula Soyuz para desprender o paraquedas que lhe impedia de seguir viagem e se distanciar da estação espacial. Aquela sequência, como outras do filme, podem render ao diretor o seu primeiro Oscar. Palmas também, claro, para a edição de Cuarón e de Mark Sanger, que também pode ser premiada.

Mas na sequência surge outro fato que me decepcionou no roteiro. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Stone está vagando sem combustível com a Soyuz da estação chinesa quando consegue fazer contato com a base de comando na China. E daí, entre outros sons, ela ouve latidos de cachorro (WTF??) e um choro de criança. Ah, me desculpem, mas sério mesmo que eles querem fazer a gente acreditar que a “Nasa chinesa” teria um cachorro e um bebê? Ai, ai… Alguém pode argumentar que Stone poderia estar surtando, delirando. Não me pareceu. Depois sim, praticamente sem oxigênio, é compreensível que ela tivesse uma certa “visão”. Mas antes, com condições perfeitas para respirar, não me pareceu que aquilo fosse um delírio.

Bueno, a partir dali, evidentemente, o que acontece também era previsto. Afinal, algum de vocês, por algum momento, duvidou que Stone conseguiria sobreviver? Já imaginaram ela explodindo lá pelas tantas no filme? Não daria certo para uma produção made in Hollywood, não é mesmo? Então a surpresa do final não existe. Gravity passa mais de uma hora nos mostrando como aquela médica com nenhuma experiência no espaço plasmou o instinto de sobrevivência da nossa raça, fazendo tudo que era possível para pisar em terra firme novamente.

Assim, o que vemos é um filme bem acabado tecnicamente, com cenas incríveis de ação no espaço e algumas imagens belíssimas – mérito também do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki. Adicione-se ao cesto de pontos positivos a entrega da atriz Sandra Bullock. E isso é tudo. Gravity tem um roteiro fraco, com final previsível e um desenrolar da história um bocado previsível também.

Com o problema de ter alguns argumentos difíceis de acreditar – como a Nasa enviar alguém tão despreparado e que poderia colocar em risco a missão como a Stone para o espaço e aquela comunicação absurda com a base chinesa – e várias sequências que beiram a chatice (como a trilha que Kowalski insistia em colocar e as histórias que ele contava). Um filme perfeito para agradar quem está de olho nas inovações do cinema. Mas um bom filme tem que ter muito mais que técnica. Deve ter “coração”, ou um bom “espírito”. Em outras palavras, emocionar ou surpreender. E Gravity, mesmo na versão 3D, não consegue nos arrebatar. Fascina, claro, com a tecnologia. Mas nada além disso.

NOTA: 8,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muito já se falou sobre a entrega da atriz Sandra Bullock ao papel. De fato, ela passou por toda a experiência que um astronauta deve passar ao preparar-se para ir para o espaço. Com o adicional de que ela estava sendo filmada para estrelar uma produção milionária e que vai lhe render muitas indicações a prêmios. Para mim, é evidente que ela chegará como favorita ou forte candidata ao Globo de Ouro e ao Oscar do próximo ano. Mas é preciso ver o desempenho de outras concorrentes, incluindo veteranas como Meryl Streep, para saber se ela vai ganhar uma estatueta dourada pelo esforço com Stone.

Há muito tempo eu acompanha ao Oscar. Primeiro, ainda criança e adolescente, por pura curiosidade. Depois, já escrevendo sobre cinema no início da minha carreira como jornalista, passei a acompanhar a maior premiação de Hollywood também com uma expectativa profissional. Desde que comecei este blog, meu interesse por assistir aos favoritos antes da premiação ficou ainda maior. Minha intenção é compartilhar com vocês, caros leitores, minhas impressões sobre os favoritos. Dito isso, achei surpreendente este ano termos um dos favoritos para o Oscar 2014 e, para muitos, o possível grande vencedor da premiação tão cedo nos nossos cinemas.

Afinal, vocês devem lembrar que, normalmente, chega até nós os filmes com maior chance no Oscar no ano em que a premiação será entregue. Normalmente, as produções favoritas ao prêmio entram em cartaz em janeiro ou fevereiro. Desta vez, temos Gravity estreando na primeira quinzena de outubro – e, no mês anterior, o filme passou no Festival Internacional do Rio de Janeiro – e, logo mais, a estreia de outro forte candidato: Captain Phillips. Interessante. E outros devem estrear antes mesmo do início de 2014. Só que me preocupa o outro grande favorito do ano ao lado de Gravity, 12 Years a Slave, ainda não ter data prevista para o Brasil. Sem dúvida o filme do diretor Steve McQueen é o que eu mais estou ansiosa para ver.

Sempre gostei do Alfonso Cuarón, ainda que eu não tenha ele na minha lista de diretores preferidos. Ainda me lembro do primeiro filme que eu vi dele… Great Expectations, um filme bonzinho, lançado em 1998, com Ethan Hawke, Gwyneth Paltrow e Robert De Niro. Com aquela produção já tinha ficado claro que ele é um destes diretores que sabe fazer cinema “autoral”, se necessário. Mas que sua praia é mesmo fazer filmes que conquistem grandes bilheterias – nem que para isso seja necessário fazer um cinema bem “industrial”. Diferente de outro diretor mexicano, Alejandro González Iñarritu – a quem eu prefiro, se tivesse que escolher um dos dois.

Autoral mesmo, Cuarón fez apenas Y Tu Mamá También. Os outros filmes foram forjados com a cara de Hollywood. Por isso mesmo é que eu vejo que ele tem muitas chances de ficar entre os cinco finalistas na categoria Melhor Diretor do Oscar 2014 e, talvez, até levar a estatueta. Se conseguir a indicação, esta será a primeira de sua carreira como diretor. Ele foi indicado, antes, a três Oscar’s: Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição por Children of Men, em 2007, e Melhor Roteiro Original por Y Tu Mamá También. Não deixa de ser irônico que, justamente agora, seja o roteiro o ponto fraco de Gravity.

Os grandes protagonistas de Gravity 3D não aparecem em cena – são o diretor Cuarón e os efeitos especiais, visuais e o departamento de arte da produção. Este último, contou com 47 profissionais liderados por Heather Noble. Os efeitos especiais foram garantidos por 22 feras, e os efeitos visuais, por centenas – sim, centenas – de profissionais. Parei de contar no 300, para vocês terem uma ideia. Sem dúvida os efeitos visuais e especiais vão render duas estatuetas para este filme – falo de todas as minhas apostas sobre o Oscar logo abaixo.

Muitas vezes um diretor pode até não fazer um grande trabalho em um filme. Ou que é o mesmo que dizer que um filme pode ter uma direção apenas correta e ainda assim ser muito bom. Por isso mesmo, acho tão fundamental para que uma produção seja boa que ela tenha um roteiro ótimo. As estatuetas de Melhor Roteiro Original e Melhor Roteiro Adaptado sempre me interessam – muitas vezes até mais do que as dos intérpretes. E esta é a razão principal para que, desde já, eu não esteja torcendo por Gravity no próximo Oscar. Falta um roteiro melhor para o filme.

Ainda que George Clooney tenha uma participação interessante neste filme, Gravity é um título de uma única atriz: Sandra Bullock. A história gira em torno dela. Bullock, assim, tem todo o espaço para brilhar – junto com as imagens do filme, claro.

Fora os dois atores, vale citar Ed Harris como a voz do contato que os astronautas tem com o controle da Nasa.

Da parte técnica do filme, vale comentar o excelente trabalho de Andy Nicholson no design de produção e de Mark Scruton na direção de arte.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. De acordo com os realizadores, Sandra Bullock passou por um treinamento físico de seis meses antes do filme começar a ser rodado. Neste período, ela trabalhou cada trecho do roteiro com Cuarón. O diretor afirmou que o essencial do trabalho deles foi tratar do tema central de Gravity, “a possibilidade do renascimento após a adversidade”. Mas fez parte do trabalho também a discussão sobre cada cena, e a atriz fez anotações sobre as animações que seriam feitas no filme e o movimento dos robôs que garantiram a dinâmica das cenas. A respiração da personagem Stone foi um ponto central do trabalho do diretor e da atriz.

Lendo as notas da produção é que entendi o elogio de James Cameron… ele é o “melhor amigo” de Cuarón. Claro que os sentimentos dele em relação ao amigo influenciaram no julgamento. :) Mas achei interessante a comparação que ele fez do trabalho de Bullock. Ele disse que a dedicação dela ao filme – incluindo aqueles seis meses de preparo – fazem lembrar o empenho dos bailarinos do Cirque du Soleil.

Nem tudo neste filme foi filmado, como Gravity pode dar a entender. Várias cenas de “caminhada no espaço” foram feitas totalmente por computação gráfica. Para dar mais “realismo” para estas cenas, o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki teve que iluminar os rostos dos atores para cada cena conforme o cenário criado digitalmente fosse mudando.

A primeira pessoa a ser cotada para fazer a personagem de Stone foi Angelina Jolie. Mas a atriz desistiu do papel. Depois dela, fizeram teste para o papel ou foram cotadas para ele Rachel Weisz, Naomi Watts, Natalie Portman, Marion Cotillard, Abbie Cornish, Carey Mulligan, Sienna Miller, Scarlett Johansson, Blake Lively, Rebecca Hall e Olivia Wilde. Ufa! Lista grande, e acima do normal para um papel de protagonista. Se Bullock de fato ganhar o Oscar por esse trabalho, várias atrizes vão se perguntar se não deveriam ter pensado melhor no papel.

Este era um projeto para o estúdio Universal que, inicialmente, queria Angelina Jolie no papel principal. Mas a atriz foi descartada, porque tornaria a produção ainda mais cara, e Gravity foi para a gaveta. Daí que a Warner assumiu o projeto e, no final de 2010, Sandra Bullock e Robert Downey Jr. estavam confirmados nos papéis de Stone e Kowalski. Depois, o ator acabou saindo do projeto por causa do famoso “conflito de agenda”, mas Bullock seguiu.

Enquanto filmava uma cena subaquática que depois, em outra tomada, vai aparecer em Gravity, Cuarón prendeu a respiração junto com Sandra Bullock para ter certeza de que não estava exigindo muito da atriz. Mas ele logo descobriu que não poderia igualar o seu fôlego com o de Bullock.

Existe um boato, há muito tempo, de que a Nasa daria pílulas de suicídio para os astronautas no caso deles passarem pelos piores cenários – como aquele que é focado no filme Contact. Mas há décadas a Nasa negou este boato alegando que seria muito mais fácil e confortável para um astronauta reduzir o oxigênio, como é mostrado em Gravity.

Gravity foi totalmente rodado nos Shepperton Studios, na cidade homônima na Inglaterra. Apenas a cena na Terra foi rodada fora do estúdio, mais precisamente no Lake Powell, no estado do Arizona, nos Estados Unidos.

O filme de Cuarón estreou em agosto no Festival de Veneza. Depois, ele participou de outros oito festivais. Neste caminho, ganhou dois prêmios: Atriz do Ano para Sandra Bullock no Hollywood Film Festival e o Prêmio Futuro do Cinema Digital no Festival de Veneza.

Gravity custou a bagatela de US$ 105 milhões. Apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, até o dia 6 de novembro, o filme havia arrecadado pouco mais de US$ 221,8 milhões. No restante dos mercados onde o filme já estreou, foram outros US$ 207,5 milhões. Como um filme de Hollywood precisa arrecadar o triplo, mais ou menos, para dar lucro – especialmente quando for um blockbuster -, podemos dizer que Gravity está se dando bem. Apenas na semana de estreia nos EUA o filme conseguiu US$ 55,78 milhões. Entre os filmes de “disastre”, ele é a quinta melhor bilheteria da história segundo o site Box Office Mojo – e o vigésimo entre os filmes 3D.

Algo que Gravity conseguiu, mais que lucro na bilheteria, foi cair no gosto do público e, principalmente, dos críticos. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,5 para o filme – uma excelente avaliação segundo os padrões da página. E os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 259 críticas positivas e apenas sete negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 9,1. Sim, meus caros, 9,1! Uma excelente média para o Rotten Tomatoes.

Ah sim, e se não deixei claro antes, deixo agora: se você tiver uma sala de 3D disponível, veja este filme em 3D. Sem dúvida é a melhor experiência.

Anatoly Slovyev foi um astronauta russo e coronel da força aérea soviética e russa que conseguiu dois recordes: o de caminhadas no espaço (16, no total) e o de horas passadas fora de naves em órbita (82 horas). Ele nasceu em 1948 e, aos 31 anos, completou o curso para ser um cosmonauta e foi selecionado para fazer missões com as naves Soyuz T e para passar longos períodos nas estações Salyut e Mir. Ele tinha 40 anos quando fez o primeiro voo espacial. Na segunda missão dele, em 1990, integrando a tripulação da Mir, Slovyev ficou 179 dias no espaço. Ele faria outros dois voos para fora da Terra, sendo que o último, quando tinha 49 anos, fez com que ele ficasse 197 dias em órbita.

Sobre as naves Soyuz, uma curiosidade: elas surgiram no programa homônimo soviético datado da época da corrida espacial pela conquista da Lua travada entre EUA e União Soviética. Esse tipo de nave, com capacidade para até três astronautas, foi precedida pelas naves Vostok (para um tripulante) e Voskhod (para dois). Com o fim da União Soviética, as naves Soyuz passaram a servir o programa espacial russo e nas operações com a Estação Espacial Internacional (ISS) em uma parceria com o ex-rival Estados Unidos.

Este é um filme 100% Estados Unidos. Por isso mesmo, ele passa para a lista de críticas daquele país que atendem a uma votação feita aqui no site.

CONCLUSÃO: O tema da incansável vontade do ser humano em sobreviver sempre rende. Muitos filmes já foram feitos a respeito. E este Gravity se junta a eles. Claro que o diretor Alfonso Cuarón e equipe conseguiram dar um passo a mais no cinema que foca a ação no espaço. As técnicas utilizadas neste filme garantem uma experiência nos cinemas 3D que apenas reforça a ideia de que esta nova fronteira da tecnologia veio para ficar. E que é um grande diferencial para encantar as audiências. Dito isso, sim, Gravity 3D é um filme potente tecnicamente. Mas não emociona ou surpreende como deveria para ser considerado o melhor um dos melhores filmes do ano. Para mim, faltou roteiro que me fizesse sair mais envolvida com a história. É um filme de ação no espaço, mas não é o melhor filme do ano – e, muito menos, como disseram alguns por aí, o melhor filme do gênero. Bom entretenimento. E só.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: De fato, tudo indica que Gravity será indicado para um monte de categorias no maior prêmio do cinema global. Certamente ele merece chegar em toda e qualquer categoria técnica, como as de melhores fotografia, efeitos visuais, mixagem de som, edição de som, edição e design de produção. Se isso se confirmar, temos, por baixo, cinco indicações técnicas, que podem chegar a mais, se acrescentarmos trilha sonora, por exemplo.

Mas e sobre as categorias principais? Inicialmente, sem ver ainda aos outros concorrentes fortes de Hollywood, acho que Alfonso Cuarón pode ser indicado como Melhor Diretor e Sandra Bullock, pelo esforço que teve nesta produção, deve ser indicada a Melhor Atriz. Talvez George Clooney consiga uma indicação como Melhor Ator Coadjuvante. E como as últimas premiações comportaram até 10 indicados na categoria Melhor Filme, sem dúvida Gravity chegará lá.

Agora, ele merece ter, por baixo, oito indicações ao Oscar? Com certeza. É um filme que busca o aprimoramento e avanço técnico do cinema. E Hollywood adora isso. E a gente também, claro, porque é ótimo ver a indústria que faz peças de arte avançar. Ainda que, francamente, este filme tenha um apelo muito mais técnico que narrativo ou emocional. Também concordo com muitas indicações para ele porque, não necessariamente, muitas indicações vão significar muitas estatuetas.

Da minha parte, acho que ele merece alguns Oscar’s técnicos (como efeitos visuais, mixagem de som, edição de som e, talvez, edição, design de produção e fotografia, dependendo estes últimos do que outros filmes vão apresentar) e, talvez, Melhor Diretor. Porque Cuarón realmente fez um grande trabalho.

Melhor Atriz… só se outras possíveis concorrentes, como Meryl Streep, Judi Dench, Cate Blanchett, entre outras, não fizeram um trabalho melhor. Acho bacana como Bullock se esforçou, passou por sacrifícios físicos e tudo o mais, mas eu não daria um Oscar para ela por este trabalho. Para mim, lhe faltou profundidade na interpretação – culpa do roteiro e não da atriz, diga-se. Mas logo mais veremos o que vai sair deste mato. No momento, acredito em cerca de nove indicações para o Oscar e em cinco ou seis prêmios – a maioria deles técnicos. Ainda aguardo 12 Years a Slave, Captain Phillips, The Wolf of Wall Street, Inside Llewyn Davis e August: Osage County para conseguir formar a minha opinião melhor.

The Broken Circle Breakdown – Alabama Monroe

3 de novembro de 2013 6 comentários

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Alguns filmes tornam difícil a tarefa de escrever um texto sobre eles. The Broken Circle Breakdown é um destes exemplares. Primeiro porque fazer uma introdução sóbria e sem revelar muito sobre a essência da produção é algo quase impossível. Busco sempre inícios assim porque eu acho que quanto mais uma pessoa sabe sobre um filme antes de assisti-lo, pior. Depois porque este filme é tão perfeito que qualquer início parece pequeno. Mas o que eu posso dizer é que The Broken Circle Breakdown consegue ser, ao mesmo tempo, um filme que inspira porque une como poucos música com história ao passo em que é capaz também de cortar o coração dos desavisados.

A HISTÓRIA: Uma música no estilo country ressoa. Quando a imagem aparece, vemos a Didier Bontinck (Johan Heldenbergh) no centro do grupo que está se apresentando em um bar. Corta. Uma enfermeira prepara a agulha para retirar o sangue de Maybelle (Nell Cattrysse). A menina está acompanha dos pais, Didier e Elise Vandevelde (Veerle Baetens) no hospital de Gent. A história se passa em junho de 2006. Pouco depois, enquanto uma enfermeira cuida de Maybelle, os pais dela encontram o médico. Corta. Didier está visivelmente emocionado quando Elise pede para a filha ficar um pouco sozinha no quarto do hospital, assistindo TV. Elise pede para que ele seja positivo enquanto estiver no hospital, deixando para chorar em casa. A partir daí, acompanhamos a história desta família.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Broken Circle Breakdown): Não é por acaso que eu coloco alguns avisos aqui no blog. De fato, acho que quanto mais uma pessoa sabe de um filme antes de assisti-lo, pior para a experiência do cinema. Afinal, mergulhar em uma história sem saber nada dela, seja em formato de filme, livro ou qualquer outra plataforma criativa e da arte, melhor porque assim está preservado o elemento surpresa.

O meu processo de escolher filmes para assistir e ir atrás deles passa por este respeito ao fator “uau”. Claro que algumas vezes é inevitável saber que determinado filme virou “febre” ou, nesta temporada pré-Oscar, que ele está muito cotado para ser premiado. Levo isso em conta, mas tento esquecer destas informações para me entregar ao trabalho dos realizadores com o mínimo de “contaminação” possível. Tudo isso para dizer que você deve, realmente, ler a respeito deste filme só depois de ter conferido o que ele tem a dizer.

O fator música é sempre fundamental, para mim. Mas é difícil um filme conseguir tratar a trilha sonora como um narrador ou um protagonista da história. Afinal, ainda que o cinema una imagem e som, o texto dos roteiros costuma ter uma relevância maior do que a trilha sonora. Este não é o caso de The Broken Circle Breakdown.

O filme, dirigido por Felix Van Groeningen, com um roteiro escrito por ele e Carl Joos adaptando a peça The Broken Circle Breakdown Featuring the Cover-Ups of Alabama escrita por Johan Heldenbergh e Mieke Dobbels, parece ter preservado a essência musical do original, mas ampliando na narrativa. Busquei informações sobre o original feito para o teatro, e encontrei a página deles no Facebook e este “trailer” da peça no Youtube. Pelo que tudo indica, a versão para o teatro era um musical com alguma dramatização sobre amor e perda no meio.

Agora, é bem diferente fazer um filme. E aí está a magia de The Broken Circle Breakdown. Logo mergulhamos no drama familiar e na dor vivida com muita coragem por Maybelle e compartilhada com os pais dela. Os adultos tentam ser fortes, enquanto não conseguem encontrar respostas para muitas dúvidas. E tudo vai piorar quando Maybelle não resiste e acaba vencida pelo câncer.

A dor de qualquer perda é brutal, mas a de um filho… não consigo nem imaginar, ainda que tenhamos sempre que fazer o exercício de nos colocarmos no lugar de quem passa por uma situação assim. O vazio é devastador, como bem revela esta história. E este é outro elemento que me fez gostar tanto do filme: ele não força a barra no ritmo. Não.

The Broken Circle Breakdown mostra o silêncio que surge após a perda de Maybelle, a dificuldade de diálogo entre Elise e Didier e a tristeza profunda dos dois – ainda que este sentimento seja revelado de forma diferente por cada um – sem pressa, compartilhando o tempo exato de cada um destes elementos com o espectador.

Desta forma, e com uma ajuda importantíssima da música – que fazia parte da vida dos protagonistas -, o espectador mergulha na história do filme. Sente tristeza, angústia, tensão. Como sou uma otimista, a maior parte do tempo, fiquei torcendo para que uma reviravolta positiva acontecesse… ainda que o sentimento era de que algo terrível poderia ocorrer a qualquer momento. Mas, de fato, algo poderia ser pior do que a perda de um filho?

Achei muito interessante a escolha dos roteiristas pela narrativa quebrada, não-linear. Acho que o filme ganha em interesse com isso. E diferente de outras produções, que podem escolher esta dinâmica por puro “capricho”, aqui eu vejo uma lógica nesta preferência. Quando Elise está abraçada com Didier no quarto do hospital olhando para a filha, pouco antes deles começarem o tratamento contra o câncer, parece lógico voltarmos no tempo sete anos, quando a história da menina começa a ser desenhada com a primeira noite em que o casal passa junto na casa dele. Parece que Elise, que não consegue dormir naquela cama de hospital, está relembrando a origem daquele amor eterno pela filha.

E isso acontece em muitos momentos do filme. Retrocedemos no tempo, para entender um pouco melhor como Elise e Didier chegaram naquele ponto, e retomamos para os fatos do presente. Não é apenas uma, mas muitas ocasiões em que parece que a quebra temporal acontece por uma “revisita sentimental” ao passado. O interessante é que essa lógica funciona, até porque o amor e os problemas que percebemos no presente dos personagens deste filme parecem ter uma sequência cíclica e originada no tempo anterior, como se eles estivessem em um “loop infinito”.

Depois que Elise sofre com a dor suprema da perda da filha, parece que ela começa a se estressar com o jeito de Didier em ver tudo com extrema lógica e frequentes discursos. O que não deixa de ser curioso, porque esta é uma característica dele desde o princípio. E aí entramos em uma seara da qual gostamos de falar pouco: de como, quando estamos encantados com alguém, ou apaixonados por uma pessoa, ignoramos os seus defeitos para observar apenas as suas qualidades. E isso é horrível porque os defeitos acabam cobrando um preço alto no futuro. Isso acontece com Elise e Didier.

Ela, em especial, começa a notar tudo o que eles não tinham de sintonia quando a perda da filha cobra deles mais união. Como acontece com muitos casais na vida real, Elise e Didier não se aproximam após a morte de Maybelle. O protagonista parece incapaz de sair da posição do “homem racional” que sabe lidar com tudo que aparecer pela frente. Enquanto isso, Elise fica sozinha lidando com a própria dor, e se abate – e quem não se abateria? Os dois vivem na mesma casa, mas estão sozinhos. Não conseguem dialogar. Até que Elise resolve dar um basta naquela relação.

Existiam diversas alternativas para lidar com uma perda devastadora como aquela. Mas The Broken Circle Breakdown não se esforça em fazer concessões. Felix Van Groeningen quer nos mostrar como muitas vezes não basta amar, ou ter fé, é preciso ter vontade de continuar e de fazer dar certo. E quando se percebe que não é possível dar certo – e o casal Elise e Didier, por mais simpático e afinado que seja na cantoria, parece fadado desde o início a dar errado -, é possível recomeçar.

Mas para ser coerente com a música que é a alma deste filme – o bluegrass, que só fui identificar quando o próprio Didier explica do que se trata -, The Broken Circle Breakdown não poderia ser uma ode ao otimismo. Certo que há músicas animadas no repertório, como este filme mesmo demonstra. Mas quando os personagens começam a descer a ladeira na direção de um fim triste e/ou trágico, a trilha sonora acompanha este movimento e parece que, finalmente, o bluegrass encontra a própria essência.

O filme tem diálogos e cenas de dinâmica entre os atores de arrepiar – aliás, Veerle Baetens e Johan Heldenbergh estão simplesmente fantásticos. Mas é a música que faz grande parte do trabalho e provoca verdadeiros arrepios. Achei fascinante, maravilhosamente belo. E triste, é claro. Da minha parte, sempre gostei de músicas que buscam o fundamental, que tentam ser coerentes com as próprias raízes. E o bluegrass parece ter esta característica. Assim como este filme.

Fora a emoção, The Broken Circle Breakdown ajuda a debater a velha questão entre a fé e a racionalidade. Tema importante nos dias que correm, especialmente nos Estados Unidos – e em outras latitudes também. Não é por acaso que Didier faz um discurso criticando o criacionismo. Não se trata apenas da visão individual do personagem. De fato, nos EUA, esta corrente tem rendido muitos debates e alguma disputa judicial sobre o que deve ser ensinado para as crianças.

Consigo entender os dois pontos de vista representados pelos protagonistas deste filme. Compreendo a indignação de Didier quando ele vê que as pesquisas envolvendo células-tronco poderiam estar mais avançadas. O que, em teoria, poderia ter ajudado a filha dele a superar a doença e viver. Eu também me indignaria no lugar dele.

Mas é preciso agir além da indignação – até porque não se muda o que já aconteceu. E compreendo a busca de Elise por um sentido maior do que a morte. Ela quer ter esperança de que a filha dela simplesmente não “sumiu”, mas que o amor perdura e permanece. Como em uma tatuagem, por mais que você a modifique.

O tema da (parece) eterna disputa entre religião/fé e ciência/lógica está presente neste filme. Mas não vejo ele como um ponto central. Para mim, foi muito mais intensa a dificuldade de Didier em aceitar que alguém pudesse pensar diferente dele do que a própria celeuma entre religião e ciência.

No caso desta história, a incapacidade do protagonista em lidar com a esperança/fé da filha e da mulher foi muito mais determinante. No caso de Maybelle, ele relevou os embates porque se tratava de uma criança e porque ela estava doente – ainda que isso não tenha impedido dele contar a história da morte das estrelas para ela no hospital na reta final. Mas em se tratando de Elise, Didier não conseguia se conter para ridicularizar as “crenças sem fundamento lógico” que ela tinha – e que poderiam ser classificadas como fé.

Achei potente a história justamente porque a falta de compreensão entre as pessoas é o que torna a vida tão complicada e difícil, muitas vezes. Acho que se mais gente se esforçasse em não querer “converter” os demais, seja no caminho da racionalidade ou no da fé, teríamos boas chances de avançar na aceitação dos demais. Falta generosidade e empatia no mundo, o que torna ele muito mais duro do que deveria. E muito mais triste, como bem ensina The Broken Circle Breakdown.

Para finalizar, me pareceu brilhante o desfecho deste filme. Elise resolve mudar o nome para Alabama, porque ela acredita que assim poderá recomeçar a vida. Sendo outra pessoa. Didier não entende a mensagem que a esposa quer passar, evidentemente. Nem todo artista, virtualmente sensível por definição, parece ser capaz de compreender a mensagem quando ela não é escrita com todas as letras. Por isso mesmo achei interessante a escolha do título de Alabama Monroe para o filme no mercado brasileiro. Faz sentido. Ainda que o título original também seja muito bom.

A história de amor entre Elise/Alabama e Didier/Monroe é linda e, por isso mesmo, quando tudo desmorona e eles não conseguem permanecer em pé juntos, a história se revela ainda mais cruel. Ela busca saídas dentro de casa – mudando o quarto da filha, por exemplo. Mas percebe que isso não apaga as memórias.

Busca, então, outros sentidos para a perda, mas não encontra apoio no marido. Que ele, por sua conta, sofre também, mas expressa a amargura de outra forma. Não demora muito para Elise perceber que a relação deles acabou, enquanto Didier insiste – afinal, a experiência dele com a filha foi diferente. No final do filme, mesmo que triste, fica uma mensagem de esperança, de que o amor permanece além da dor e do desespero. Um alento, junto com a música de despedida.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei encantada com a interpretação do casal de protagonistas. A belga Veerle Baetens, de 35 anos, além de linda, parece mergulhar na pele daquela mãe toda estilosa, cheia de tatuagens, ex-namorados e que vai descobrindo ter talento para a música também. Mesmo jovem, Veerle tem no currículo 29 trabalhos como atriz, incluindo oito séries para a TV. O belga Johan Heldenbergh tem 46 anos e uma carreira com 31 trabalhos como ator e um como diretor e roteirista: Schellebelle 1919, um drama lançado em 2011.

Tenho um fraco pelo cinema que é feito no norte da Europa. Gosto do que Dinamarca, Bélgica, Holanda, Noruega, Suécia, entre outros produzem. Infelizmente não consigo encontrar tantos filmes daquelas latitudes quanto eu gostaria. Mas tenho a tendência de gostar dos destaques que são exportados por aqueles países. Acho que eles fazem um cinema diferenciado, normalmente inventivo e com um certo “tom cru” que eu acho importante ser visto.

Quando o Oscar se aproxima, como agora, quando faltam uns poucos meses para sair a lista de indicados, costumo buscar os filmes indicados pelos países europeus, em geral, e especificamente estes da região norte. Normalmente vale o esforço.

Falei dos protagonistas de The Broken Circle Breakdown, mas é preciso citar também que a Nell Cattrysse se sai muito bem nesta que é a estreia da menina no cinema. A memória da menina está muito mais presente do que a interpretação propriamente dita de Nell. Ainda assim, sempre que a menina aparece em cena, normalmente em momentos de sofrimento, vejo que ela dá muita legitimidade para o papel. Realmente acreditamos que ela é uma garota que está passando por aquele momento difícil e pesado.

Este é um filme que tem estilo e identidade própria. Não parece um enlatado ou uma produção destas que poderia ser feita por qualquer realizador. Felix Van Groeningen escolhe cada tomada com precisão. O espectador não vê cenas sobrando, mas encontra, inclusive, sequências de pura liberdade poética. Há vários espaços para o silêncio e, claro, para a música. Um belo trabalho deste belga de 36 anos natural de Gent – onde se passa a história do filme – que fez quatro longas e um curta antes de The Broken Circle Breakdown. Em todos eles o diretor foi responsável também pelo roteiro. Vale anotar este nome e acompanhá-lo.

Da parte técnica do filme, excepcional a trilha sonora de Bjorn Eriksson. Como eu disse antes, as músicas deste filme são tão importantes quanto o roteiro. Depois, lindo o resultado da direção de fotografia de Ruben Impens e bastante precisa a edição de Nico Leunen. Uma equipe que funciona bem, sem dúvida. Gostei ainda da direção de arte de Kurt Rigolle, responsável pelo visual cheio de significado dos lugares que aparecem nesta produção, e dos figurinos de Ann Lauwerys.

Merece uma menção especial o trabalho da artista responsável pelas tatuagens que aparecem no filme, Marie Brabant. Muito interessante, e que também joga um papel importante na história – ajudando ela a ter estilo.

The Broken Circle Breakdown (em uma tradução livre algo como “O colapso do círculo quebrado”) estreou na Bélgica, país de origem do filme, em outubro de 2012. Depois, a produção passaria pelo Festival de Berlim e seria selecionada para outros 16 festivais – fechando a temporada no próximo dia 23 no Festival de Cinema Europeu de Osaka.

Nesta trajetória, o filme de Van Groeningen ganhou sete prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os que recebeu, destaque para dois no Festival de Berlim: o Label Europa Cinemas para Felix Van Groeningen e o prêmio da audiência na mostra Panorama. Vale citar parte da justificativa do júri que conferiu o primeiro prêmio para o diretor: “Felix Van Groeningen é um cineasta de verdade. Esta é uma maneira bonita e original de olhar para a relação de uma mãe e um pai com a filha doente terminal. Gostamos, especialmente, da direção de fotografia, da estrutura não-linear da história e do fato que ele evita a fácil manipulação emocional ao lidar com um assunto difícil. A música da banda de bluegrass dos pais não é apenas a trilha sonora, mas uma fonte de energia e de esperança para todos. A mensagem clara é que devemos investir em pesquisa científica e não permitir que a religião ou a política interfiram nisso”. Baita comentário. Melhor que todo o resto que eu escrevi. :)

Vale citar que o filme recebeu, ainda, os prêmios de Melhor Atriz para Veerle Baetens e Melhor Roteiro no Festival de Cinema de Tribeca. Merecidíssimo.

Fui pesquisar um pouco mais sobre o bluegrass e encontrei este link que traz uma crítica do CD Plum Pitiful: 20 Sad and Tragic Bluegrass Songs, que compila o trabalho de vários artistas. No texto do site AllMusic explicam que o disco tem uma “agenda aparentemente interminável de esperanças frustradas, corações partidos, assassinatos cruéis, acidentes de trem e mortes de soldados” em uma “ladainha de miséria” trazida pelo bluegrass quando ele surgiu no final dos anos 1940 e início dos anos 1950. Uma “tristeza constante”, como afirma o texto. Achei interessante citar estas informações porque elas parecem um complemento bacana para explicar o estilo e a “alma” de The Broken Circle Breakdown.

Falando outra vez da trilha sonora desta produção, vale citar o excelente trabalho dos outros nomes que fazem parte da banda de Didier e que cantam muito: Geert Van Rampelberg interpreta a William (violão), Nils De Caster faz as vezes de Jock (violino), Robbie Cleiren faz Jimmy (guitarra acústica) e Bert Huysentruyt é Jef (baixo acústico). Outro ator coadjuvante na história é Jan Bijvoet, que interpreta a Koen, amigo do grupo que se anima com cada apresentação e ajuda a movimentar a platéia normalmente fria.

Não há informações sobre o custo de produção de The Broken Circle Breakdown. Mas segundo o site Box Office Mojo, a produção arrecadou cerca de US$ 7,1 mil nos Estados Unidos – o que comprova que o filme não teve repercussão alguma por lá ainda – e de pouco mais de US$ 1,7 milhão nas bilheterias no restantes dos mercados em que já estreou. Desempenho muito baixo. Uma pena. Espero que este filme ganhe um pouco mais de repercussão no boca-a-boca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para The Broken Circle Breakdown. Uma boa avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 23 textos positivos e seis negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 79% e uma nota média de 7,4. Sem dúvida alguma eu me empolguei muito mais do que eles. :)

O tema do criacionismo versus o evolucionismo nos Estados Unidos rende bastante pano para manga. Esta notícia de abril de 2012 da revista Exame comentava a aprovação de uma lei no estado do Tennessee, no sul dos EUA, que permite que os professores de escolas públicas questionem o consenso científico em temas como aquecimento global e teoria da evolução. Na boa, não vejo o porquê da religião negar a ciência e vice-versa. Uma pode muito bem coexistir ao lado da outra, basta não levar o que se lê ao pé da letra e buscar conhecer os contextos que formam as religiões e as ciências. Dá trabalho, é verdade. É mais fácil ser um extremista que sabe pouco sobre o que segue e repete dogmas. Mas vale a pena ter um pouco mais de trabalho.

The Broken Circle Breakdown é uma coprodução da Bélgica com a Holanda.

Tenho percebido um movimento interessante por parte de muitos filmes “independentes” ou com orçamento menor que aqueles blockbusters de Hollywood: ao invés de gastar com sites próprios na internet, eles tem apostado em páginas no Facebook. Uma forma fácil e barata de criar um espaço para atualizar informações sobre a divulgação e repercutir estes filmes.

thebrokencircle3Vale comentar que os cartazes deste filme que encontrei por aí são ótimos. Muito estilosos. Fiquei tão em dúvida sobre qual cartaz escolher para abrir este post que resolvi colocar a segunda opção aqui ao lado, mas menor. Lindos, não? E que a formidável atriz Veerle Baetens não faz parte da peça que deu origem a este filme – diferente de Johan Heldenbergh, que é o autor do original e também o ator principal. O que apenas reforça ainda mais a potência do trabalho de Veerle neste filme.

CONCLUSÃO: Eu sou louca por música. Tocada em todo o tipo de ocasião. Concordo com Nietzsche quando ele diz que “sem música a vida não faria sentido”. Por isso mesmo, um filme que trate com tanto respeito a música, tornando a trilha sonora uma das protagonistas, sempre vai mexer comigo. Ainda mais quando ele tem uma história tão incrível que é contada de forma diferenciada como esta de The Broken Circle Breakdown. Gosto quando os realizadores tentam fazer algo diferente e buscam uma narrativa não-linear. Alguma vezes funciona, como nesta produção, outra vezes não.

Gostei tanto de The Broken Circle Breakdown porque ele coloca a música em primeiro plano, é verdade, mas também porque ele trata de assuntos sempre complicados de forma muito honesta e direta. O amor e a morte são temas centrais. Cada um lida com estes assuntos fundamentais da sua forma. Por isso mesmo, não acho ruim este filme não ser “otimista”. É preciso compreender as atitudes múltiplas que existem por aí, e as razões e histórias pessoais dos outros. The Broken Circle Breakdown nos fala um pouco de tudo isso e de uma forma muito potente. Achei perfeito porque mexeu muito comigo, me deixou tensa e emocionada. E o bom cinema é isso.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: The Broken Circle Breakdown está representando a Bélgica entre os 76 indicados este ano para uma vaga na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no próximo Oscar. É uma tarefa complicada para qualquer filme deixar outros 71 para trás – lembrando que a categoria para a qual ele está concorrendo costuma ter cinco finalistas. E esta produção dirigida por Felix Van Groeningen não tem aparecido na lista pré-Oscar feita por especialistas.

Pessoalmente, acho uma pena. Eu iria adorar ver The Broken Circle Breakdown ao lado de Jagten (comentado aqui no blog) e Le Passé (com crítica por aqui) na reta final para a premiação. Acho que eles seriam concorrentes muito fortes entre si, ainda que existam algumas preferências de quem vota pela Academia. Sendo assim, acho sim que este filme merece uma vaga no Oscar, ainda que eu acredite na superioridade de Jagten. Uma pura questão de gosto pessoal, claro. Só que tudo indica que ele não chegará lá. Uma pena.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. The Broken Circle Breakdown é uma das produções que segue tentando uma indicação. Os outros que fazem parte da lista são os seguintes: An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina).

Le Passé – The Past – O Passado

2 de novembro de 2013 5 comentários

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O espaço que o passado ocupa nas nossas vidas depende de uma decisão. O quanto nos faz bem ou nos interessa viver amando algo ou alguém que não existe mais? Le Passé, um dos fortes concorrentes ao próximo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira trata deste assunto. Com a revisita ao passado de alguns personagens, encontramos diversos sentimentos. Todos eles muito presentes no cotidiano destas pessoas, que tem dificuldade em romper com histórias desfeitas. Um filme forte pela forma da narrativa e que faz pensar por muito mais tempo do que a duração da trama.

A HISTÓRIA: Barulho de aeroporto. Marie Brisson (Bérénice Bejo) parece estar procurando alguém. Ela se anima quando vê Ahmad (Ali Mosaffa), e tenta chamá-lo estando fora da área de desembarque. Antes que ele a veja, ela tira a proteção que tinha no braço. Ahmad pergunta sobre o procedimento que deve adotar já que a mala dele não chegou. Ele sorri quando vê Marie, e pergunta sobre Lucie (Pauline Burlet).

Está chovendo fora do aeroporto, e Marie diz que eles devem ir para casa após pegar Lucie. Ele não gosta de saber que Marie não contou para as filhas que ele chegaria e nem reservou um hotel, como ele havia pedido. Mas ela justifica que não fez isso porque tinha dúvidas se ele viria. Depois de não encontrarem Lucie no colégio, Marie e Ahmad vão para a casa dela, onde ele encontra a Fouad (Elyes Aguis), filho do novo namorado de Marie. Este é apenas o início do mergulho de Ahmad no cotidiano da mulher de quem ele vai se separar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Le Passé): Muito interessante a o estilo do roteiro do diretor Asghar Farhadi escrito com a ajuda de Massoumeh Lahidji. Somos apresentados a um turbilhão de fatos sem entender, realmente, o que move aqueles personagens. Mas algo que podemos perceber, desde o início, é que existe uma forte ligação entre os protagonistas, Marie e Ahmad.

A reação dela, ao ver Ahmad no aeroporto, é emblemática. Mas depois, como quando deixamos a emoção por um segundo para que a razão tome conta, ela muda de expressão no carro e o passado mal resolvido começa a falar mais alto. Não sabemos o que aconteceu entre os dois, mas é evidente que nada terminou esclarecido entre eles. Depois, quando ele chega na mesma casa em que eles viveram juntos por vários anos, percebe-se o peso no ar.

Aos poucos vamos entendendo a motivação da visita, e todo o contexto que cerca os personagens principais. Há um conflito visível entre os adultos e as crianças – e a jovem Lucie. Ninguém parece estar feliz. E como se o espectador fosse uma visita invisível que chegou no mesmo voo de Ahmad, vamos descobrindo aos poucos as razões de tanto mal estar.

Este é um filme que trata justamente sobre isto: o peso do mal estar constante na vida das pessoas e das sociedades das quais elas fazem parte. O foco principal está em primeiro plano na tela: o quanto o passado pode comprometer o nosso presente. Mas há outros pontos que estão em segundo e terceiro planos, como o desmantelamento das famílias – especialmente dos casamentos – e a dificuldade nas relações entre diferentes origens étnicas em um país que atrai pessoas de diversas partes do mundo.

Quem nunca sofreu com um grande amor que atire a primeira pedra. Algumas vezes, de fato, é difícil deixar o passado para trás. Tentamos, nos esforçamos, mas parece que algumas ligações são indissolúveis. O quanto vamos deixar o passado ditar as regras do nosso presente é uma questão de escolha. Sim, porque por mais que algumas ligações perdurem e certas memórias insistam em aparecer, começar uma nova história depende, essencialmente, de força de vontade. De uma decisão.

Le Passé trata disto. De como Marie e Samir (Tahar Rahim) se esforçam para recomeçar. Mas a aparente convicção que eles tinham é fragilizada com a chegada de Ahmad. A vinda dele, após uma ausência de quatro anos, justamente é para que o recomeço de Marie possa ser oficializado. Ahmad viaja para assinar os papéis do divórcio. Mas o reencontro mexe com todos. Fica claro que as filhas de Marie gostam de Ahmad, e que ele também não conseguiu que a ligação deles acabasse.

Por essas e por outras que eu sou favorável ao distanciamento completo entre as pessoas quando um relacionamento amoroso termina. Não vejo muito como uma relação pode continuar quando tanto foi vivido, mas quase nada daquilo segue adiante. Como ficar próximo de alguém que se amou tanto e que agora a relação está colocada totalmente em outras bases? Para mim, isso sempre será um mistério. E neste Le Passé fica claro que reativar certas lembranças ou mesmo se aproximar de pessoas com quem se teve um passado não é nada bom para o presente e/ou o futuro que se quer criar diferente.

Como um filme de qualidade pede, vamos mergulhando na história e nos sentimentos dos personagens principais aos poucos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ao lado de Ahmad, vamos descobrindo o porquê de tanto mal estar entre Lucie e a mãe e as razões do comportamento “revoltado” de Fouad. Primeiro, sabemos que Marie terá dificuldades de se casar com Samir porque a mulher dele está em coma no hospital. Na sequência, surge a razão do coma dela e, o mais chocante, o motivo que fazia Lucie resistir tanto à ideia do casamento de Marie e Samir.

Um tema presente do início ao fim desta produção é a dificuldade das pessoas em terem diálogos verdadeiros. De falarem o que estão sentindo e enfrentarem as próprias mágoas, ressentimentos e acessar de peito aberto aquelas gavetas internas cheias de peso e que vivem no breu. Especialmente as crianças neste filme, o que é especialmente interessante, tem dificuldade de expressarem o que estão sentindo. Digo que é especialmente interessante porque, normalmente, pensamos que as crianças e os jovens são mais diretos, francos, sem tantos filtros quanto os adultos.

Mas acredito que isto mude de figura quando crianças e jovens vivem em ambientes repressores. Não sou nenhuma especialista no assunto, mas Le Passé indica esta leitura. Lucie manifesta toda a desaprovação que tem com o novo relacionamento da mãe ao não voltar para casa, ao tentar ficar o máximo de tempo longe daquela realidade com a qual não concorda. Fouad, ainda criança, igualmente não gosta daquele ambiente. Pede para voltar para a casa onde vivia com Samir e a mãe. Ainda que o local traga tantas lembranças ruins. Mas nem Lucie e nem Fouad conseguem, inicialmente, verbalizar o que estão sentindo.

Para mim, ficou claro que Marie, em primeiro lugar, e depois o próprio Samir, não davam o espaço necessário para que as crianças se manifestassem – e daí incluo também Léa (Jeanne Jestin) que, apesar de não mostrar a revolta dos demais, claramente sente falta de Ahmad e parece se sentir um pouco perdida no novo cenário familiar. Marie parece, pelo menos no tempo em que a história transcorre, ser pouco afetuosa com os filhos.

A protagonista, vivida pela maravilhosa Bérénice Bejo, que tem uma interpretação impecável nesta produção, não sabe lidar bem com a situação e fica claramente dividida entre os dois homens – Ahmad e Samir. Eles chegam a disputar quem pode mais em duas situações distintas, pelo menos – nos reparos da casa, como o da pia, e na “orientação” de Fouad. Ahmad sente-se estranho naquele ambiente, mas é bom demais para sair correndo e fazer de conta que não tem responsabilidade com aquela família. Samir, por sua parte, não tem mais tanta certeza se deve seguir com Marie.

Ao mesmo tempo em que as tensões vão se explicando para o espectador, vamos acompanhando o presente e o passado dos personagens intercalando os seus protagonismos. Afinal, será que Marie e Samir vão conseguir caminhar para a frente? Quanto do que aconteceu com a mulher dele, em coma, e quanto da história do término da relação dela com Ahmad, nunca explicada, vai continuar ocupando as mentes e corações dos personagens?

O filme termina sem uma resposta. Até porque as pessoas, muitas vezes, não conseguem responder estas questões. A culpa pode ser devastadora, como comprovam as histórias de Lucie, Naïma (Sabrina Ouazani) e Samir. E a indecisão sobre que caminho trilhar para recomeçar a própria vida desgasta demais, como demonstra Marie.

Ter um filho  para forçar a barra em uma relação que nasce capenga é uma técnica antiga e que normalmente surte efeitos devastadores. Preferir esta via do que tentar um recomeço com quem se quer, ou ao menos buscando entender o passado, me parece uma lástima. Mas, algumas vezes, não restam muitas alternativas. Infelizmente as pessoas são mais complicadas do que deveriam e nem sempre procuram o caminho da honestidade e da franqueza. Esconder os próprios sentimentos e ser desonesto com quem se gosta é como alimentar um tumor. E que pode não ter cura.

Além de mergulhar nestes sentimentos e na vida de pessoas que tem dificuldades de seguir adiante, Le Passé trata dos conflitos entre pessoas de origens diferentes em uma sociedade em que é perigoso ser imigrante ilegal. Samir e Ahmad orbitam ao redor de uma comunidade árabe, mas não sabemos exatamente o quanto desta origem é importante para eles. Tudo fica subentendido.

Parece, por exemplo, que Ahmad ficou deprimido e resolveu sair da casa de Marie quatro anos antes desta história começar porque ele não se encaixava na França onde o filme se passa. Sabemos que ele está vindo de viagem e, pela conversa que ele tem com as crianças e com o amigo Sharyar (Babak Karimi), o roteiro dá a entender que ele voltou para o Irã. Samir tem origem árabe, mas não sabemos até que ponto ela pode ser importante para ele. Naïma é uma imigrante ilegal que consegue emprego com Samir, mas ela não fala francês direito e se sente sempre ameaçada pelo risco da deportação.

Esta vulnerabilidade acaba sendo importante para os personagens que parece estarem sempre em busca de um “encaixe melhor” na realidade em que estão vivendo. Alguns conseguem este feito com maior facilidade, mas outros não – a ponto de terem que sair daquele entorno. Um filme interessante, bem construído e com interpretações fortes. Merece chegar até o Oscar – mesmo que ele não sair vencedor.

NOTA: 9,7 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este filme consegue a proeza de reunir dois atores que me impressionaram muito, na primeira vez que os vi, e que por isso mesmo me “ganharam”: Bérénice Bejo, a atriz fenomenal que ajuda a dar alma para o premiado The Artist (com crítica aqui no blog); e Tahar Rahim, que arrasa no ótimo Un Prophète (comentado aqui). Quando vi que os dois estariam nesta produção, já despertei na minha memória sentimental uma expectativa considerável. Bejo de fato faz um grande trabalho neste filme, mas senti que Rahim poderia ter feito mais. Achei o ator um pouco apagado nesta produção – ele perde muito espaço na comparação com o excelente Ali Mosaffa. Não que Rahim esteja mal, mas acho que lhe faltou um pouco mais de intensidade. Ainda assim, o trio de protagonistas faz toda a diferença no filme.

Não consegui dar a nota máxima para Le Passé porque, apesar de humano, demasiado humano, o filme não me despertou a empatia ou provocou o impacto que outras produções recentes conseguiram. Na comparação com o filme anterior do diretor, por exemplo, achei Le Passé inferior. Mas nada grave. Ele perde pontos, inclusive, porque estou sempre comparando estes filmes que estão na pré-lista para o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira entre si. Ou seja, como falarei melhor logo abaixo, Le Passé obrigatoriamente tem que ter uma nota menor que Jagten.

Aliás, como aconteceu em outros anos em que tentei assistir e comentar ao máximo de filmes cotados para o Oscar, desta vez também pode acontecer de algumas produções terem as suas notas modificadas conforme a lista for avançando. Isso porque, por coerência, tem que receber uma nota maior o filme que eu achei melhor, na comparação uns com os outros. E só vou saber isso conforme a “fila andar”. :)

Dois momentos desta produção ficaram “martelando” na minha cabeça por muito tempo. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, aquela alegria incontida de Marie ao recepcionar Ahmad no aeroporto. Ficou evidente que ali existia muito amor ainda. Na verdade, no início do filme, cheguei a pensar que eles eram um casal – e que ele estava retornando após uma temporada fora de casa à trabalho, por exemplo. Ledo engano. Outra cena que eu acho marcante é quando Marie diz que não quer mais falar do passado, quando Ahmad tenta explicar o porquê a deixou quatro anos antes. É como se o diretor Asghar Farhadi estivesse sempre nos dizendo que as nossas expectativas devem ser frustradas. Afinal, a história – e a vida mesmo, muitas vezes – tem outra dinâmica que não a de acontecimentos perfeitos. Interessante.

O principal atrativo de Le Passé é o roteiro de Farhadi e Lahidji, junto com as interpretações dos atores. Afinal, este é um filme de diálogos, que conta uma história, muito mais do que uma produção de apuro técnico. Ainda assim, vale comentar a competente direção de fotografia de Mahmoud Kalari, a edição de Juliette Welfling e o design de produção de Claude Lenoir.

Le Passé estrou no circuito de cinemas francês e no Festival de Cannes no dia 13 de maio deste ano. Foi a estreia da produção nos cinemas. Depois, ela passaria ainda por outros 14 festivais. Nesta trajetória, o filme recebeu quatro prêmios e foi indicado a outros dois. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Atriz e o Prêmio do Júri Ecumênico do Festival de Cannes. Os outros dois que ganhou foram o de Melhor Roteiro no Festival Internacional de Cinema de Durban e o Prêmio da Audiência no Oslo Films from the South Festival.

O filme é o indicado do Irã na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2014. Agora, acho essa indicação interessante. Ok que o diretor Asghar Farhadi nasceu no Irã em 1972 e tem a sua filmografia naquela país. Mas pelo que informa o site IMDb, Le Passé é uma coprodução da França e da Itália. Sempre achei esse tema da origem dos filmes na indicação ao Oscar curiosa.

Afinal, segundo consta na história da premiação, Orfeu Negro, uma produção do Brasil com a França e a Itália, ganhadora do Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 1960 e com a “alma brasileira”, consta como sendo uma vitória da França – o diretor Marcel Camus era francês. Acho tudo isso muito estranho. Afinal, o que importa é a origem do filme ou do diretor? No caso de Orfeu Negro, para mim parece incrível o filme não ser considerado brasileiro. Enfim, destes mistérios do Oscar que fica difícil de entender.

Falando em local em que o filme é feito, Le Passé não tem apenas nome francês e é falado naquele idioma, mas também foi totalmente rodado em Paris e em Sevran (um subúrbio próximo da capital francesa e que faz parte de Seine-Saint-Denis). Para mim, não é por acaso que Le Passé foi rodado na França. Afinal, aquele país sofreu e continua sofrendo com políticas que não favorecem a imigração.

Agora, uma curiosidade sobre Le Passé. Inicialmente, a atriz Marion Cotillard havia sido escalada para interpretar a protagonista deste filme. Mas ela acabou pulando fora do projeto por uma questão de conflito de agendas. Quando as filmagens de Le Passé começaram, em setembro de 2012, o filme De Rouille et d’Os, que tem uma interpretação incrível de Cotillard, tinha sido selecionado para participar de vários festivais e a atriz teve que viajar para promover a produção – comentada aqui no blog.

De acordo com o site Box Office Mojo, Le Passé teria faturado pouco mais de US$ 6,7 milhões nos mercados em que estreou até o momento. Achei pouco, ainda que me parece que este dado não seja muito atualizado. De acordo com o site IMDb, o filme passou em cinco festivais nos Estados Unidos, mas ainda não estrou no circuito comercial. A previsão é que ele entre em cartaz em poucos cinemas a partir do dia 20 de dezembro. No calendário do site não aparece, ainda, a previsão de estreia no Brasil.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para Le Passé. Uma ótima avaliação, levando em conta o padrão do site. Poucos críticos que linkam os seus textos no Rotten Tomatoes viram o filme até agora. Mas há quase uma unanimidade entre as avaliações: 17 textos são positivos para o filme e apenas um é negativo – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média 8. Excelente nota também, levando em conta que é difícil um filme conseguir 8 ou mais por ali.

CONCLUSÃO: Eis um filme de grandes atores. Através do trabalho deles, nos envolvemos com a história de uma mulher que resolve colocar fim a um relacionamento antigo para se jogar em um novo casamento. Mas como na vida mesma, esta história não pode ser assim, tão simples. Le Passé vai se descortinando aos poucos, sem pressa, em um evidente contraste entre a percepção das crianças e da jovem que faz parte desta trama e dos adultos que tomam as decisões. Ninguém parece estar muito satisfeito com o que está acontecendo. E isso ocorre porque ninguém está feliz com o presente, tão contaminado com um passado aparentemente insolúvel.

Este é um filme que incomoda porque ele explora a nossa incapacidade de resolver os nossos próprios problemas. Trata da dificuldade de esquecermos grandes amores, na mesma medida em que a comunicação entre as pessoas parece ser um intricado quebra-cabeças. De quebra, Le Passé trata das dificuldades no entendimento dos valores e prioridades de diferentes culturas em um mesmo país. Um filme sobre o incômodo contemporâneo da falta de acerto. Bem escrito e com ótimas interpretações, se destaca por sua humanidade e pela capacidade de ser entendido em qualquer parte.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Ainda tenho que assistir a uma lista grande de filmes que estão tentando uma vaga no próximo Oscar mas posso dizer, desde já, que realmente Le Passé tem grandes chances de chegar até os cinco finalistas. Primeiro, porque este é um filme universal. Ou seja, os sentimentos, temas e valores tratados na produção podem ser compreendidas por espectadores de qualquer latitude. Ainda que nem todos tenham vivenciado ou presenciado situações de conflitos entre pessoas de diferentes origens, as dificuldades de comunicação e para recomeçar são compreensíveis em qualquer parte.

Depois porque o filme tem ótimas interpretações, toca em temas importantes, cresce com o passar do tempo e vem de um país que não é tradicional na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood – o primeiro Oscar que o Irã recebeu na história da premiação foi dado em 2012 para o filme anterior de Farhadi, Jodaeiye Nader az Simin, comentado aqui no blog. Além disso, claro, Le Passé firma a ótima fase do diretor, que tem nada menos que 58 prêmios no currículo.

Difícil bater o martelo já sobre o próximo premiado nesta disputada categoria do Oscar 2014. Acho que Le Passé tem vários pontos que fazem ele ter grandes chances de sair vencedor mas, ao mesmo tempo, Farhadi ter sido premiado há pouco tempo pode ser um limitador para o filme. Além disso, Jagten (que tem um texto aqui no blog) me parece um filme mais forte, e com tema igualmente universal. Pessoalmente, entre os três filmes que estão concorrendo nesta categoria que eu assisti até agora – incluindo o brasileiro O Som ao Redor, comentado aqui -, meu voto iria para Jagten. Acho que o filme de Thomas Vinterberg consegue um impacto maior no espectador e também se diferencia mais que os demais.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Le Passé ficou de fora da lista. Seguem na disputa os seguintes filmes: The Broken Circle Breakdown (Bélgica), An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina). Além de Le Passé, outros filmes que apareciam na lista dos especialistas como alguns dos favoritos, Gloria e Wadjda, também ficaram de fora. Interessante.

ATUALIZAÇÃO (10/01/2014): Estou revendo algumas notas de filmes que estavam cotados para o Oscar deste ano – e que, por isso, estão incluídos nesta categoria aqui no blog. E ainda que Le Passé não chegou a avançar na disputa, acho que devo ser coerente e analisa-lo como se tivesse. Sendo assim, reduzi um pouco a nota do filme. E a verdade – vou confessar – é que desde o início eu achei que ele deveria ir com um 9,5. Mas como ele tinha sido tãoooo elogiado por aí, acabei sendo “boazinha” demais no início. Agora, estou mais coerente com a minha opinião.

O Som ao Redor – Neighboring Sounds

27 de outubro de 2013 6 comentários

osomaoredor1

Todo esse som que nos rodeia também nos define. E não é pouco barulho. Afinal, escolhemos o local onde vivemos, correto? Sim e não. Como bem reflete O Som ao Redor, muitas vezes vivemos onde decidimos morar e, outra vezes, herdamos esse ambiente que acaba nos afetando diretamente. Diferenciada na narrativa, esta produção brasileira, indicada para concorrer a uma vaga no próximo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, surpreende nos detalhes, mas não tem o impacto que se espera de um filme vencedor.

A HISTÓRIA: Vários sons tomam conta da cena. Barulho de bichos, de caminhão freando, e aparece na tela os créditos do elenco, naquele estilo conhecido nos anos 1950 e 1960. Entra a trilha sonora, marcante. E surgem as primeiras cenas. Fotografias em preto e branco que mostram uma comunidade de trabalhadores, vastos campos e uma fazenda. Destas fotografias, passamos para duas crianças brincando.

A menina anda de patins “perseguindo” o garoto que anda de bicicleta. Eles brincam em um condomínio fechado onde estão outras crianças e alguns adultos. Algumas crianças observam um trabalhador. Em seguida, diversas cenas urbanas. Dentro de um apartamento, João (Gustavo Jahn) corre junto com Sofia (Irma Brown) para o quarto com a chegada da empregada Mariá (Mauricéia Conceição). Estas e outras histórias vão ser contadas no filme dividido em três partes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a O Som ao Redor): Gostei demais do início deste filme. Mesmo sem aquelas fotos preto e branco fazerem sentido por boa parte da história, eu sabia que em algum momento saberíamos porque elas abriram a produção. E achei muito interessante a escolha de começar o filme apenas com diferentes tipos de som, deixar entrar a trilha sonora vigorosa de DJ Dolores e, em seguida, nos apresentar para aqueles “mundos tão diferentes” das fotografias do passado, estáticas e sem cor, e o presente colorido e movimentado de uma tarde de brincadeiras de crianças. Antagonismos que veremos em muitos momentos desta produção.

Logo percebemos também que as cenas urbanas e os sons que habitam o cotidiano de qualquer pessoa nestes cenários terão protagonismo na produção. Para quem já se aventurou recentemente a ir por aí na cidade sem música no carro ou no fone de ouvido ao pedalar ou andar, sabe que chega a ser assustadora a orquestra de sons que temos ao nosso redor. São dos mais variados possíveis. Criando, eles também, os efeitos mais diferentes nas pessoas.

Quem não está acostumado a andar com música o tempo inteiro – o que é o meu caso, porque sempre tenho alguma canção rolando no carro, quando dirijo, ou som no MP3 quando pedalo ou vou por aí – pode até sofrer com o estresse provocado pela poluição sonora urbana. No caso de O Som ao Redor, essa poluição nem é mostrada. Ela aparece aqui e ali, mas raramente misturada. Quase sempre cada som tem o seu espaço, como em uma sinfonia.

Apesar do cenário e da trilha sonora serem essencialmente urbanas neste filme, é no passado do interior, em uma fazenda onde antigamente existia um engenho, que surge a “alma” da história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com isso, não me refiro apenas ao segredo que será revelado no final, da vingança que motiva dois personagens importantes para a história, mas também às condições desiguais das pessoas que orbitam O Som ao Redor.

O legado de Francisco (W.J. Solha), antigo senhor de engenho, ajuda a definir parte da vida dos herdeiros, principalmente dos netos João e Dinho (Yuri Holanda), que tem papel relevante na trama, assim como de um bairro praticamente inteiro do Recife, onde essa história está ambientada. Mesmo sem o poder que tinha outrora, quando comandava um batalhão de empregados e tinha um capataz para fazer o serviço sujo, Francisco segue tendo o poder dado pelo dinheiro. Um tanto extravagante, ele aparentemente faz o que quer e quando quer. Inclusive a ponto de acobertar o neto bandido.

Através do personagem de João, que vende apartamentos, o público de fora do país pode perceber como, de fato, muitas partes do país estão mudando o perfil de suas cidades. O processo de verticalização não é algo isolado em Recife, mas um fenômeno que está ocorrendo em diversas cidades de médio porte – nas de grande ele está se espalhando para bairros onde antes o que predominavam eram residências.

Assim como achei interessante aquele começo cheio de significados e escolhas estratégicas do diretor Kleber Mendonça Filho, gostei dos detalhes dos créditos. Tanto os iniciais quantos os finais fazem lembrar os filmes antigos, especialmente os dos anos 1960. Mas essas referências também criam um problema. Afinal, esses créditos iniciais e o próprio começo da narrativa me fizeram acreditar que veríamos um filme mais denso, que resgataria a tradição de filmes tensos e que contam a história de um mistério que será revelado com uma ou duas reviravoltas no caminho.

O fato do filme ser dividido em três partes também me fez acreditar que teríamos estágios bem marcados, e história praticamente isoladas que conversariam entre si. Que nada. Boa parte de O Som ao Redor fala do vazio cotidiano. Há tédio, insegurança e insatisfação espalhados por diversas partes. João, por exemplo, odeia o próprio trabalho e parece ter dificuldade em manter um relacionamento por muito tempo. O primo dele, Dinho, vive uma vida confortável e pratica pequenos crimes para ter alguma “diversão” frente a falta de vontade de fazer outra coisa.

E há ainda a personagem que ganha atenção de grande parte desta trama. Bia (Maeve Jinkings) é uma dona de casa que fica praticamente o dia inteiro enfurnada dentro de casa. Em um local com grades, portões trancados, ela se mantém trancada tendo como principais passatempos arranjar formas de controlar o cachorro do vizinho que vive latindo, fumar maconha sempre que pode e dar alguma disciplina para o casal de filhos. O marido dela (Dida Maia) aparece pouco e praticamente não tem voz no filme. Bia parece ser incapaz de dar muito afeto, mas também sabemos pouco sobre ela – apesar do espaço enorme que ela tem no roteiro do diretor.

Menos interessante dos personagens da trama, Bia parece ter tanta relevância no filme para nos mostrar que a “nova” classe média brasileira vive aprisionada e sem muitas aspirações além daquela de comprar uma televisão nova, preferencialmente maior que a do vizinho, e de apostar em novidades importadas para resolver os problemas do cotidiano. É a vida ordinária de quem conseguiu algum conforto e faz de tudo para esconder os seus pequenos “pecados” dos demais – vide o aspirador para disfarçar a fumaça e a cortina fechada durante a masturbação com a máquina de lavar.

Mesmo sendo uma crítica interessante da classe média de jovens casais, o espaço que foi dado para Bia e família me pareceu exagerado. Aliás, acho o filme longo demais. Outras histórias, como a dos seguranças que acabam cobrando dos vizinhos uma taxa para manter aquelas ruas mais seguras ou mesmo a de João, Sofia e Francisco, que parecem mais interessantes, acabam perdendo espaço. Assim, sabemos menos do que deveríamos do passado do engenho, por exemplo, ou mesmo sobre a figura de Sofia.

Um elemento presente do início até o fim da trama é a insegurança. E com ela, os artifícios, a maioria deles inútil, aos quais as pessoas recorrem para se sentirem um pouco mais seguras. A primeira parte de O Som ao Redor, intitulada “Cães de guarda”, apresenta a vida dos personagens principais da trama e marca a chegada de Clodoaldo (Irandhir Santos) na vizinhança. Até o início do serviço prestado por ele e seu grupo, as figuras mostradas pela produção viviam na busca por pequenos prazeres enquanto se esquivavam dos contratempos provocados pela violência – seja ela o furto do aparelho de CD de um carro, seja uma agressão aparentemente gratuita de uma vizinha, como Betânia (Mariangela Valença).

Até o começo do serviço da trupe de Clodoaldo, a sugestão do roteiro é que aquela vizinhança ainda vivia uma forma primária de busca de segurança, utilizando cães – como aquele que tira o sono de Bia -, muros e uma ou outra câmera de vigilância para se proteger. Depois de quase uma hora de filme, começa a segunda parte, “Guardas noturnos”, que marca o início do trabalho de Clodoaldo, Fernando (Nivaldo Nascimento), Ronaldo (Albert Tenorio) e sua equipe no trabalho de vigilância da rua da família de Francisco e nas adjacências.

A história evolui pouco entre a primeira e a segunda parte. A grande mudança, sem dúvida, é o trabalho dos vigilantes, e a estranheza que eles despertam em alguns vizinhos. Bia, por exemplo, comenta que acha muito suspeito que dois carros foram arrombados na noite anterior à chegada deles. Nesta segunda parte, há uma sequência muito boa, que é a da reunião dos moradores do condomínio de João. A disputa das pessoas para saber quem é mais “participante” na vida comunitária e a vontade de uns em desmerecer a opinião de outros revela muito desse nosso tempo, quando as pessoas parecem competir umas com as outras a cada oportunidade – mesmo quando é para discutir a demissão de um vigilante.

Finalmente o filme entra na terceira e última parte, após quase uma hora e 20 minutos, titulada “Guarda-costas”. Daí sim, a história começa a ganhar um pouco mais em informação e interesse, com a ida de João e Sofia para as terras do antigo engenhe do avô do rapaz. Os sons daquela antiga casa de “senhor feudal”, especialmente nas dependências dos empregados, e a incursão do jovem casal por locais da cidade do interior, com destaque para a sequência do cinema abandonado, são das melhores partes do filme.

Ao retornar para aquele ambiente e caminhar com os personagens por ali, depois voltando para o centro urbano do Recife, começamos a ver as peças se juntando. Nesta terceira parte, mais que nas duas anteriores, fica ainda mais evidente as diferenças entre as classes sociais, entre os que estão na posição de “chefes” ou “empregados”. A diferença social que existia no tempo dos senhores feudais e donos de engenhos segue repercutindo na sociedade, mesmo com a ascendência da “nova classe média” brasileira.

Mas ninguém parece estar muito interessado pela vida do outro, mas sim bastante centrados em si mesmos. Exemplo disso é a família de Bia – a mãe e os filhos estão muito ocupados consigo mesmos, sem manifestarem carinho ou preocupação verdadeira uns com os outros. E isso se dissemina por quase todos os outros personagens do filme – a família de Francisco, por exemplo, mantém o costume das reuniões familiares, mas vivem cada um bastante centrado em suas próprias rotinas.

O Som ao Redor é um filme que aborda estes aspectos de forma diferente, valorizando os sentidos da audição – através do som e da trilha sonora marcante – e da visão (com sequências muito interessantes e cenas belíssimas pipocadas aqui e ali). Um bom filme, sem dúvida, mas eu esperava mais. Não apenas porque eu tinha visto que ele tinha sido selecionado para o Brasil para representar o país no próximo Oscar, mas porque eu vi que ele foi muito elogiado pela crítica internacional. Aquele começo da produção também me fez acreditar que eu veria um filme cheio de estilo e significados fortes pela frente. O trabalho de Kleber Mendonça Filho tem intenções muito claras e é bem planejado. Mas senti falta de um pouco mais de emoção ou de impacto na história.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Excelente a direção de Kleber Mendonça Filho. Ele forja cada cena com significado, mesmo quando o que ele quer explorar, como roteirista, é o vazio das conversas desinteressantes ou o vazio do cotidiano de atos repetidos. Mas cada ângulo da câmera é bem pensado, e a dinâmica é arrastada, muitas vezes, para reforçar o sentido que Mendonça Filho quer passar. Este é o primeiro longa de ficção da carreira do diretor que, antes, em 2008, lançou o documentário Crítico, que reúne 70 depoimentos de cineastas e críticos sobre o fazer no cinema.

Após a elogiada estreia em longas de ficção com O Som ao Redor, Mendonça Filho está trabalhando no próximo longa, Bacurau, que vai dirigir ao lado de Juliano Dornelles, que atuou como designer de produção em O Som ao Redor. Previsto para ser lançado no ano que vem, o filme será um drama com roteiro dos dois realizadores. Vale acompanhá-los.

Dois elementos da parte técnica do filme são fundamentais para que O Som ao Redor tenha a qualidade que tem: a direção de fotografia de Pedro Sotero, que contou com a codireção de Fabricio Tadeu, e a já comentada trilha sonora de DJ Dolores. Na direção, destaque para as cenas amplas, especialmente nos ambientes abertos e nos ambientes internos quando Mendonça Filho quer dar a noção de amplitude e busca apresentar o ambiente em que vivem as pessoas, e para a valorização do trabalho dos atores nos momentos mais diferentes – de diálogos ou de “satisfação solitária” dos personagens.

Achei um pouco complexo, até pela quantidade relativamente grande de personagens secundários, encontrar o nome dos atores principais desta produção. Os protagonistas já foram citados por aqui. Além deles, vale comentar o trabalho de Lula Terra como Tio Anco, a quem João vai procurar para saber sobre o rádio com CD que foi roubado de Sofia; e de Clara Pinheiro de Oliveira como Fernanda, a filha de Bia. Queria ter identificado o nome do ator que faz o irmão dela, mas não consegui esta proeza.

Neste filme, é fundamental a captação dos diferentes sons ambientais e, claro, dos diálogos entre os atores. E aqui, novamente, percebo um problema que chega a ser costumeiro em muitos filmes nacionais. A captação de sons funcionou bem, mas em muitos momentos achei muito difícil entender o que os atores falavam. Algumas vezes, porque o som estava baixo. Em outras ocasiões porque o sotaque, bastante carregado em alguns casos, impediu a minha compreensão. Quase procurei uma forma de ver o filme com legendas para ter o entendimento de 100% dos diálogos. Mas não gostei dele tanto assim para repetir a dose, admito. :)

Boa parte das minhas atenções, desde o início de outubro, estão voltadas para o próximo Oscar. É que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou no dia 7 do mês passado a lista de 76 filmes que estão concorrendo a uma vaga na lista de indicados na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Na mesma época, mais ou menos, começaram as primeiras apostas sobre fortes concorrentes que podem chegar até a reta final em algumas das principais categorias da premiação mais badalada do cinema mundial. O Som ao Redor, automaticamente, tinha entrado no meu radar.

Não será fácil para esta produção brasileira deixar pelo menos 71 concorrentes para trás – isso porque, normalmente, cinco filmes acabam sendo indicados na categoria para a qual ele está tentando uma vaga. Dos demais concorrentes, assisti apenas ao dinamarquês Jagten – para o qual publiquei esta crítica. Na comparação entre os dois, não tenho dúvidas de que Jagten é superior. Nesta preparação para o próximo Oscar, estou resgatando o tópico abaixo da conclusão, onde falo mais sobre as minhas impressões sobre as chances de cada filme.

O Som ao Redor teria custado aproximadamente R$ 1,86 milhão. Parte destes recursos veio através do apoio financeiro do Fundo Hubert Bals do Festival Internacional de Cinema de Rotterdam. A produção estreou no mesmo festival no dia 1 de fevereiro de 2012. Depois, O Som ao Redor fez um roteiro de festivais, passando por outras 12 premiações.

Neste caminho, conseguiu acumular 12 prêmios e ser indicado a outros cinco. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Roteiro e o Prêmio do Júri do Festival Latino-americano de Cinema de Lleida; o Fipresci entregue pelo Festival Internacional de Cinema de Rotterdam; os de Melhor Longa Brasileiro pela escolha do público, Melhor Som e Melhor Diretor no Festival de Cinema de Gramado; o de Melhor Filme Brasileiro no Festival Internacional de Cinema de São Paulo; e os de Melhor Filme e Melhor Roteiro entregues pelo Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro.

O candidato brasileiro ao próximo Oscar foi filmado totalmente em Pernambuco, nas cidades de Recife, Palmares e Vitória do Santo Antão.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para esta produção. Uma boa avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais efusivos, dedicando 33 críticas positivas e apenas três negativas para O Som ao Redor, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,8.

Este filme entra na lista de produções que eu estou comentando aqui no blog para satisfazer dois desejos: o meu de ver ao máximo de filmes indicados ao Oscar 2014, e o de vocês, caros leitores, que votaram em uma enquete aqui no blog pedindo para que eu fizesse mais críticas de filmes brasileiros. A lista está crescendo.

Segundo o site Box Office Mojo, Neighboring Sounds, como foi chamado O Som ao Redor nos Estados Unidos, teria faturado pouco mais de US$ 60,2 mil nas bilheterias do país que vai escolher os melhores do ano no Oscar. Um desempenho fraco, muito fraco.

CONCLUSÃO: A valorização da vida cotidiana e do ordinário ganha com O Som ao Redor uma nova dinâmica. Os desafios, os encontros, a noção de família e as alegrias do dia a dia dão substância para a história. Enquanto nos distraímos com o cotidiano de moradores de uma rua, a maioria inquilina de um velho senhor de engenho, a verdadeira narrativa se transveste em mais um fato ordinário. Assim, de forma bastante sutil, O Som ao Redor nos mostra como as relações de poder seguem fortes, mesmo em tempos de desenvolvimento mais igualitário e após a “evolução” da sociedade, e de que os fatos realmente relevantes muitas vezes são ignorados pelas pessoas em meio a tanto barulho cotidiano.

Um belo exercício de cinema, mas que é prejudicado por alguns detalhes e pela falta de um pouco mais de “alma” na produção. Bem feito tecnicamente, exceto por algumas capturas de diálogos, ele surpreende ao revelar como somos prisioneiros de fatos do passado e do presente. O filme faz refletir na frase “o inferno são os outros”, porque cada personagem está incomodado com o que vem “do lado de fora”, sem perceber que ele próprio também cria incômodo para os demais e para si mesmo. Apesar das reflexões interessantes, o filme não emociona ou provoca impacto como gostaríamos. Claro que o problema está na nossa expectativa e não no filme. Ainda assim, vejo O Som ao Redor como um ótimo exemplo do cinema brasileiro conceitual que dá certo, mas que precisa ainda ser aprimorado para chegar mais longe.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: O Som ao Redor tem alma e estilo. Mas não acredito que tenha a história universal que costuma ser premiada em um Oscar. Claro que espectadores de diversas parte do mundo podem compreender a sensação de insegurança, as desigualdades sociais e até se identificarem com algumas das cenas urbanas mostradas no filme. Mas há outras leituras, como a da continuidade do coronelismo e a emergência de uma nova classe média no Brasil que provavelmente só serão bem compreendidas pelo público local. Isso prejudica o filme no exterior.

Também acho que prejudica esta produção em uma disputa pelo Oscar o fato dela não ser arrebatadora. Ela não emociona, durante a narrativa, o que não é obrigatório, mas também não surpreende com cenas de impacto ou reviravoltas. E um destes pontos sim, vejo como obrigatório para um filme ser bem sucedido no Oscar. Preciso assistir ainda aos outros filmes que estão concorrendo a uma vaga na lista dos finalistas ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para poder opinar definitivamente. Mas acho, desde já, que O Som ao Redor até pode chegar na lista dos cinco, mas não tem potencial para ganhar a estatueta.

Digo isso porque o único filme que eu assisti da lista até agora, Jagten (ou The Hunt), tem os elementos que eu comentei antes – é impactante, emociona e tem reviravolta importante na história. Enquanto Jagten é uma pancada e se revela universal, O Som ao Redor parece ser muito cerebral e arquitetado, sem emoção ou o impacto do concorrente dinamarquês. Sem dúvida vejo muito mais potencial de Jagten. Agora, falta ver aos demais filmes bem cotados.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. O Som ao Redor ficou de fora da lista. Seguem na disputa os seguintes filmes: The Broken Circle Breakdown (Bélgica), An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina).

The Way Way Back – O Verão da Minha Vida

24 de outubro de 2013 1 comentário

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Um filme “bobinho” pode ser bom? Com certeza. The Way Way Back é um destes exemplares de filme sem grandes pretensões que acaba surpreendendo justamente pela suavidade. Ele faz rir menos que o previsto, por tratar-se de um filme de comédia. E ganha pontos ao abordar temas sempre relevantes apesar de não fazer grandes discursos sobre eles – para a nossa sorte. De quebra, ele ainda trata de forma bastante irônica de um tema importante para todo norte-americano (e pra gente também): as férias de Verão, que parece que sempre precisam ser extraordinárias. Se você não está buscando uma comédia escrachada e piadas fáceis, esta pode ser uma boa aposta.

A HISTÓRIA: Trent (Steve Carell) está dirigindo, mas não deixa Duncan (Liam James) em paz. Olhando pelo espelho retrovisor do carro, ele pergunta para o adolescente que nota ele se dá em uma escala de um a dez. O garoto, sentado no fundo do carro, de costas para Trent, responde que não sabe. O motorista não aceita esta resposta e diz porque acha que o jovem, filho da nova namorada dele, Pam (Toni Collette), tem uma nota baixa. Mas ele diz que tem uma boa notícia: que Duncan terá muitas pessoas para conhecer e muitas oportunidades de sair e se divertir na casa de veraneio de Trent, para onde a família está indo. De fato, Duncan terá férias diferentes e marcantes pela frente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Way Way Back): A primeira sensação que eu tive com o começo deste filme foi: será que ele vai seguir a linha de Little Miss Sunshine? Um grande filme, lançado em 2006 e dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris e que também tinha no elenco os atores Toni Collette e Steve Carell. Se você ainda não o assistiu, recomendo. Mas para a nossa sorte, The Way Way Back não é um Little Miss Sunshine 2. Digo para a nossa sorte porque cada vez mais eu acho que o cinema deve buscar uma história nova e não seguir velhas fórmulas.

Com isso, não quero dizer que The Way Way Back seja uma verdadeira revolução. Na verdade, o filme mergulha em um tema que já foi explorado em várias outras produções de Hollywood: as férias de Verão. Mas há muitas maneiras de encarar este assunto. Esta nova produção, dirigida e com roteiro da dupla Nat Faxon e Jim Rash, procura uma abordagem engraçada e ao mesmo tempo dramática desta válvula de escape social.

Não é por acaso, e vamos descobrir isso só depois, conforme o filme se desenvolve, que The Way Way Back começa com aquela conversa cheia de pressão e um aparente rancor entre Trent e Duncan. A rivalidade entre os dois vai pontuar toda esta produção. Como ocorre com tantas outras famílias “modernas”, Duncan sente dificuldade em se adaptar ao novo namorado da mãe. Ele quer viver com o pai, mas acaba tendo que passar as férias com o “desafeto” e a filha que busca sempre ser popular, Steph (Zoe Levin).

Claramente Duncan está deslocado. Aparentemente, não apenas naquela junção de famílias, mas também na vida. Ele não sabe muito bem como se comportar entre jovens de sua idade e nem em outros ambientes. Ele é o rapaz que acaba ficando com os adultos na mesa, mas não sente que aquele é o seu lugar. Um sentimento bastante comum entre muitos adolescentes que não estão na categoria de “populares”.

Não demora muito para que Duncan sinta uma certa sintonia com Susanna (AnnaSophia Robb), que parece não fazer esforço algum para agradar a mãe esfuziante Betty (Allison Janney) ou qualquer outra pessoa. Trent faz parte de uma vizinhança que sempre se encontra no Verão. Todos se conhecem, e todos sabem que “papéis” cada um joga durante as férias. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E elas são sinônimos de excessos, de muita bebida, drogas e de troca de casais.

Esta é a “alma” das férias nos Estados Unidos – e em muitas outras latitudes. Parece que tudo aquilo que você deixou de fazer no resto do ano é liberado durante as férias. Relaxamento total e momento de passar todas as fronteiras – muitas, inclusive, do bom senso. Este é o pano de fundo de The Way Way Back. Sem se encaixar entre os jovens locais e com dificuldade cada vez maior de suportar Trent, Duncan descola uma bicicleta nada masculina. Esta é a primeira válvula de escape do adolescente.

Na busca de Duncan por alguma liberdade e satisfação, ele se encontra com o “eternamente jovem” Owen (Sam Rockwell). Mesmo não sendo mais um adolescente, Owen muitas vezes se comporta com o humor de um jovem. Com uma grande interpretação de Rockwell, o personagem de Owen encarna o “Peter Pan”, mas com o viés de um sujeito com grande generosidade.

Afinal, ele é o único que realmente olha para Duncan e percebe que o garoto só precisa de uma oportunidade. O protagonista deste filme necessita que alguém acredite nele para que ele possa começar a ter confiança e, consequentemente, tenha mais autoestima. Muito bacana o exemplo de Owen e a relação que ele estabelece com Duncan.

Em certo momento fica subentendido que Owen segue trabalhando na Water Wizz para seguir o legado do fundador que era, na verdade, pai do agora administrador do parque aquático. Durante o Verão, ele se solta e aproveita para ser o “rei” daquela parte da cidade. Duncan fica fascinado com o local, e com o próprio Owen. Mas, em certo momento, o herói do garoto comenta que aquele local fica vazio e horrível no Inverno.

Esta aí uma das mensagens de The Way Way Back. Quando adolescentes, podemos achar o máximo determinadas pessoas, épocas ou locais. Mas conforme o tempo passa e vemos tudo de forma mais realista, percebemos que não existem heróis, épocas ou locais perfeitos. Tudo tem pelo menos dois lados e altos e baixos. Mas não devemos desanimar com os momentos ruins, mas ter confiança que o sol vai voltar e apostar nesta “época” para curtir e disseminar o bom humor. A exemplo do que Owen faz com aquele parque e com o Verão.

Falando nesta época do ano, Trent encarna o sujeito que aguarda o Verão para extravasar e “curtir a vida adoidado”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não demora muito para percebermos que ele é um verdadeiro “garanhão” naquela vizinhança. Por isso, não é uma novidade quando Joan (Amanda Peet) aperta ele contra a parede. Típico “machista” que precisa dar a última palavra em casa, ele segue o padrão de “faço-besteira-e-depois-peço-desculpas-e-tudo-bem”. E, evidentemente, aguarda que os demais lhe desculpem e que tudo volte ao normal, para que depois ele siga fazendo besteiras e falando mais alto.

Além da busca da autoafirmação e de “um lugar no mundo” do adolescente em vias de chegar na vida adulta, tema bastante comum no cinema, e dos outros temas citados neste texto (perfil “Peter Pan”, dificuldade de adaptação dos jovens filhos de pais separados para os novos “arranjos familiares”), The Way Way Back trata de outro tema sensível: a preocupação de mulheres que já passaram dos 40 e que se separaram sobre a possibilidade de ficarem sozinhas.

Não é por acaso que a personagem de Pam encarne o perfil de tantas mulheres que conhecemos na vida real. Não é fácil ver o amor que se acreditava ser para a “vida inteira” terminar. E tão complicado quanto é ver as oportunidades de encontrar um homem digno e interessante caírem drasticamente quando se passa de uma certa faixa etária. Sei que parece lugar-comum dizer que os homens após os 40 estão mais interessados em mulheres jovens, deixando em segundo plano as mulheres da mesma faixa etária, mas é isso o que se vê em muitas partes.

Pressionada por este cenário e não querendo ficar “sozinha”, Pam cai na armadilha de ceder em muito do que acredita e na preocupação com o próprio filho para tentar fazer o relacionamento com Trent dar certo. Afinal, o sujeito parece ter pegada… e, mesmo sendo um cretino, ele é um cara bem cuidado, bronzeado e que procura, aparentemente, sempre agradar à nova amada.

Verdade que é preciso esforço para fazer uma relação dar certo. Mas a que custo? Até onde vale à pena investir em um relacionamento quando nem todos estão satisfeitos – e no caso desta produção, fica claro que Duncan não se sente mais “em casa” desde que Trent entrou na vida daquela pequena família. Verdade também que, muitas vezes, os jovens viram “aborrecentes” e fazem de tudo para uma nova relação da mãe ou do pai não darem certos. Mas é preciso bom senso e atenção para os detalhes, para ver até que ponto pode ser “birra” do jovem que gostaria de ver os pais juntos ou de fato há incompatibilidades importantes e determinantes na nova relação.

The Way Way Back, que deveria ser, essencialmente, uma comédia, trata de todos estes temas. E o melhor: sem discursos. Tudo vai fluindo com muita tranquilidade e com um trabalho muito bom do elenco, especialmente dos atores mais experientes.

Todos estão bem, e o roteiro dos diretores Faxon e Rash mantém o interesse do espectador, ainda que o filme seja um pouco arrastado. Afinal, na maior parte do tempo parece que falta força nas piadas. O humor é ameno, assim como o drama. Por isso mesmo o filme não tem um grande impacto, apesar de ter bons momentos e ser bem feito.

A verdade é que apesar de esforçado, Liam James cansa um pouco como Duncan. Beleza o personagem dele ser um bocado deslocado, mas muitas vezes ele parece quase um autista. E nada indica que ele seja um. No fim das contas, o que parece mesmo é que o ator deu uma exagerada no tom do personagem. E sendo o protagonista, isso não ajuda ao filme.

Eu também esperava mais deste filme no quesito humor. Especialmente quando vi Jim Rash como Lewis, um dos empregados do parque aquático. Na hora lembrei dele na ótima e super recomendada série Community. Quem acompanha a série, uma das melhores de comédia da TV americana, sabe que Rash é um dos destaques da produção. Mas como roteirista, ele escreveu apenas um episódio da série.

Tendo Community como parâmetro, pensei que o filme seria melhor. Com tiradas mais engraçadas, pelo menos. Mas The Way Way Back não tem esta preocupação de fazer rir. Pelo menos não tanto quanto outros filmes do gênero. Por um lado, isso é bom. Porque melhor um roteiro um tanto ingênuo quanto este do que uma produção escatológica – e há muitas em Hollywood ultimamente. Por outro lado, eu esperava mais de um texto de Rash. Assim como esperava mais de Steve Carell – quem assistiu a The Office sabe do que estou falando. Mesmo sendo um pouco entediante, The Way Way Back tem boas intenções e um final bastante acertado.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além de ser louca por ótimos filmes, admito que sou um bocado viciada em séries de TV. Enquanto as novelas são o filé mignon da TV no Brasil, as séries de TV são o que os Estados Unidos sabe fazer de melhor – além de filmes, é claro. Outros países, como o Reino Unido, também são bons nisso. Mas os EUA são mestres. Gosto de assistir de tudo um pouco. Dramas, séries de ação e comédias.

E nesta última categoria, The Office e Community são das melhores que eu já assisti. Sendo assim, não fica difícil de imaginar o quanto eu esperava da união entre Steve Carell e Jim Rash neste The Way Way Back. Infelizmente o resultado não foi tão arrebatador quanto eu esperava, até porque os dois atores, especialmente Rash, tem papéis menores na produção estrelada por James. Ainda assim, este é um bom filme.

Talvez uma razão para o roteiro de The Way Way Back não ser tão bom quanto poderia ser, pelo menos no quesito comédia, seja que falte um pouco mais de experiência para Rash e Faxon. Os dois tem um longo currículo como atores, mas poucos trabalhos como roteiristas. Antes de The Way Way Back, a dupla tinha escrito junto com Alexander Payne o roteiro de The Descendants (que tem este comentário aqui no blog), bastante elogiado e ganhador de um Oscar. Além de The Descendants, Rash e Faxon trabalharam juntos no roteiro do filme feito para a TV Adopted e Rash escreveu um episódio da série Community e outro do programa Saturday Night Live. E só.

Falando de direção, The Way Way Back marca a estreia da dupla. Algo me diz que eles vão longe na parceria. Afinal, ambos tem moral e talento, basta investir mais em projetos que tenham marca própria.

Para mim, as melhores interpretações deste filme estão com os atores experientes. Destaque especial para Sam Rockwell, que rouba a cena sempre que aparece. Toni Collette e Allison Janney também estão muito bem. Além deles, entre os jovens, ganha destaque AnnaSophia Robb.

Além dos atores já citados, tem um certo destaque na história o trabalho de Maya Rudolph como Caitlin, uma funcionária do parque aquático que planejou trabalhar ali por um verão e acabou ficando três anos por causa de Owen; Rob Corddry como Kip, amigo de Trent e namorado/marido de Joan; River Alexander como Peter, o filho caçula e que vive sendo zoado pela mãe Betty; e o diretor Net Faxon como o braço direito de Owen no parque aquático.

Falando nos filhos que são zoados pelos pais… este é um tema importante em The Way Way Back e que vai de encontro totalmente ao tipo de debate que eu gosto de ter. Este não é o primeiro filme que comento aqui no blog e que me faz dizer que nem todo mundo foi feito para ser pai ou mãe. É preciso querer, em primeiro lugar, e é preciso ter “talento” ou vocação para isso. Há pessoas preparadas, e há outras que nunca estarão.

E é uma verdadeira tristeza ver figuras como Trent que, claramente, não foi feito para ser um pai. Ele não sabe estimular Duncan e nem orientar Steph. Na verdade, o que ele queria era ser um eterno lobo solitário, pelo visto. Betty, por mais tresloucada que seja, pelo menos tem afeto verdadeiro pelos filhos. Isso dá para notar. Ainda que ela também não saiba lidar muito bem com eles – especialmente com Peter. Pais desfuncionais, nada pior.

Da parte técnica do filme, gostei do estilo de direção da dupla Nash e Faxon. Eles valorizam o trabalho dos atores e aquela região dos Estados Unidos, colocando o cenário e o estilo de vida dos personagens como elementos centrais da história. O início do filme é muito promissor, com aquele controle exercido por Trent através do espelho do carro – quase que dizendo a Duncan e para o espectador que ele estará sempre “vigilante”, controlador. A disposição dos personagens naquele começo e a figura de Duncan de costas e “acuado” são muito reveladores. Pena que o restante do filme não siga com a mesma escolha acertada de cenas ilustrativas como esta. Há algumas, aqui e ali, mas estão espalhadas e sem a frequência que seria desejada.

Ainda seguindo nos aspectos técnicos, muito boa a direção de fotografia de John Bailey. O filme tem, de fato, cenas muito bonitas, plásticas, e uma predominância de sol fundamental para deixar The Way Way Back ainda mais firme e forte no “tempo” dramático do Verão. Há muita claridade em cena, e um tom “naturalista” importante. Muito bom também o trabalho da editora Tatiana S. Riegel, bastante precisa na função de dar dinâmica e ritmo para o material dos diretores.

Este é um filme de muitos diálogos. Por isso mesmo a trilha sonora de Rob Simonsen é bastante pontual. Aparece para preencher os momentos em que as pessoas não estão dialogando entre si. Mas ela não é apenas um “tapa-buraco”. Em diversos momentos ela tem importância narrativa. E em outros, quando não está tendo significado direto para os personagens, ajuda a explicar pelo que eles estão passando. Um belo trabalho, e bem planejado.

Como o cenário é um elemento importante da história, acho importante comentar onde The Way Way Back foi rodado. Esta produção está ambientada nas cidades de Marshfield, Wareham, Onset, Duxbury e East Wareham (onde fica o parque Water Wizz), todas em Massachusetts, Estados Unidos. Caso alguém quiser fazer um roteiro reconstruindo este filme. :)

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O diretor e roteirista Jim Rash disse que a inspiração para The Way Way Back foi a sequência inicial do filme, porque ele teve um diálogo parecido com aquele entre Trent e Duncan quando tinha 14 anos e falava com o padrasto.

Como eu imaginava, The Way Way Back foi gravado em um parque aquático real usando frequentadores do local como figurantes. Segundo os produtores, Sam Rockwell costumava improvisar sempre utilizando o auto-falante do local. Em uma certa ocasião ele esqueceu que haviam muitas crianças no local e fez uma piada indecente sobre herpes. Na sequência ele teve que pedir desculpas para o proprietário do parque para que a equipe pudesse seguir trabalhando no filme e no local.

Inicialmente esta produção, com roteiro escrito em 2007, ia levar o nome de The Way Back. Mas os realizadores decidiram mudar o título para que ele não fosse confundido com o filme homônimo lançado em 2010. A ideia do título faz referência ao “way back seat”, uma expressão coloquial dos anos 1970 nos Estados Unidos para o terceiro lugar, espaço muitas vezes oculto no bagageiro de um veículo “station wagon”.

Para economizar dinheiro, os diretores resolveram não alugar trailers para os atores. Ao invés disso, eles alugaram uma casa durante o tempo de filmagens – seis semanas – onde os atores poderiam descansar entre uma gravação e outra. A residência virou ponto de encontro do elenco e da equipe do filme que, muitas vezes, se encontrava no local mesmo nos finais de semana e em dias de folga. Isso explica a sintonia entre as pessoas do elenco.

Inicialmente a personagem de Caitlyn teria pouco espaço no filme. Mas nas versões finais do roteiro ela ganhou a característica de ser mais velha – e não uma adolescente – e de ter mais interações com Owen. Quando Maya Rudolph entrou em cena, os diretores resolveram que ela ganharia importância e deixaram na mão dela e de Sam Rockwell o trabalho para que eles criassem uma dinâmica mais ativa entre os personagens.

Por pouco Steve Carell não pula fora do projeto. Isso porque ele iria passar férias com a família em Massachusetts, como eles fazem todos os Verões. Para a sorte dos realizadores, eles descobriram com o avanço do projeto que o local em que iriam filmar The Way Way Back ficava perto da casa de veraneio dos Carell. Por isso deu certo dele participar do filme.

The Way Way Back teria custado US$ 4,6 milhões, um orçamento bem enxuto para um filme nos Estados Unidos. E o resultado que a produção obteve, até agora, foi excelente. Apenas nas bilheterias dos Estados Unidos ele fez pouco mais de US$ 21,4 milhões. Nos outros mercados em que já estreou, ele acumula outro US$ 1,69 milhão. Um belo lucro.

Este filme estreou no Festival de Sundance em janeiro deste ano. Depois, The Way Way Back participou de outros sete festivais. Neste caminho, recebeu dois prêmios e foi indicado a um terceiro. Ele ganhou os prêmios de Melhor Filme e Melhor Produção dos Estados Unidos no Festival de Cinema de Newport Beach.

Esta é uma produção 100% Estados Unidos. Por isso mesmo ela entra na lista de filmes daquele país que atendem a um pedido de vocês, caros leitores, para que eu comentasse uma série de produções daquela nacionalidade. Sigo na luta! :)

Eu sempre fui do grupo de pessoas que adorava a chegada do Verão para passar as férias na praia. Por isso mesmo, não tenho o “apego sentimental” com o parque aquático mostrado neste filme. Ainda assim, tenho certeza que muita gente vai se identificar com este cenário e relembrar momentos marcantes do passado. E desta forma, The Way Way Back ganhará uns pontos importantes – eu entendo isso, mas não compartilho desta referência sentimental.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para The Way Way Back. Uma avaliação muito boa, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 140 textos positivos e apenas 24 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 85% (muito boa) e uma nota média de 7,3.

Desta vez não achei ruim o título do filme no lançamento no Brasil. Afinal, seria muito complicado traduzir o sentido original. E “O Verão da Minha Vida” combina com a história. Escolha acertada.

CONCLUSÃO: Curioso como o tema da adolescência parece interminável para o cinema. Não se trata apenas da passagem da vida inocente da infância para a vida cheia de responsabilidades dos adultos. Mas o tema da autoafirmação, do autoconhecimento e da busca do próprio caminho estão no centro do picadeiro. Tudo isso acaba sendo importante em The Way Way Back não apenas porque temos um protagonista adolescente, mas porque acompanhamos umas férias de Verão da família dele. E não existe nada mais adolescente que um Verão no litoral – seja ele no hemisfério norte ou na parte sul do globo.

The Way Way Back revela de forma muito honesta como somos cobrados a desempenhar um determinado papel na vida adulta ao mesmo tempo em que muitas pessoas nunca conseguem, aparentemente, crescer. Ao mesmo tempo, há temas sérios em jogo, como a desestruturação familiar, o medo da solidão, o desafio de pertencer a algum lugar e o inevitável e já comentado desafio de um jovem encontrar o seu próprio caminho. Um filme interessante, que acaba não se destacando por elemento algum, mas que entretém e que também faz pensar. Boa diversão, mas sem nenhum grande “achado”.

Kick-Ass 2

20 de outubro de 2013 5 comentários

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Fazer a continuação de um filme bom é sempre um baita desafio. Porque dita a história do cinema que a segunda produção de uma história que não terminou no filme original tende a ser mais fraca que o original. São raras, muito raras as exceções que mostram que o segundo filme foi melhor que o primeiro. Este não é o caso de Kick-Ass 2. Tudo o que eu tinha elogiado na crítica do Kick-Ass original, que você pode ler aqui, morreu neste segundo filme. Então posso dizer: Kick-Ass 2 é totalmente dispensável.

A HISTÓRIA: Mindy Macready (Chloë Grace Moretz) explica para Dave Lizewski (Aaron Taylor-Johnson) que a bala de uma pistola viaja a mais de mil quilômetros por hora. Ele ouve e diz que não vai levar um tiro para experimentar a sensação. Mindy não lhe dá ouvidos e atira. Esta cena faz parte da preparação que Dave pediu para Mindy, a única heroína de verdade que ele conhece. Passaram quatro anos desde o último filme, e agora Mindy vive sob a tutela do policial Marcus Williams (Morris Chestnut). Ao invés de frequentar as aulas na escola, ela segue se preparando para manter a forma como Hit-Girl. Enquanto isso, Dave tinha deixado a fantasia de Kick-Ass, mas estava se sentindo entediado na faculdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Kick-Ass 2): Quando o filme original desta franquia adaptada de uma HQ estreou, me surpreendi com o que eu vi. Ainda que Kick-Ass tivesse vários problemas na adaptação, como bem explicou por aqui o leitor Panthro Samah no comentário escrito no final da crítica publicada em 2010, eu gostei do produto final pela ousadia de romper expectativas e renovar um gênero do cinema bastante desgastado já, que é o dos filmes sobre heróis com superpoderes.

Por esta razão, quando ficou claro que Kick-Ass teria uma continuação, eu pensei: “Bem, continuações sempre são complicadas, mas acho que vale a pena conferir o que virá por aí de um filme que ousou em várias direções”. Ao conferir Kick-Ass 2 percebi que a regra poucas vezes quebrada de que continuações são piores que os originais se confirmou.

Este novo filme, agora dirigido por Jeff Wadlow – quem dirigiu Kick-Ass foi Matthew Vaughn – deixa toda a inovação da primeira produção da grife para trás. O filme ficou careta, por assim dizer. Sem o importante personagem de Damon Macready/Big Daddy, interpretado por Nicolas Cage, a continuação fica centrada no momento de incertezas vivido por Hit-Girl e Kick-Ass. Eles não sabem muito bem que “personagem” seguir… se dos jovens estudantes com suas crises de afirmação social ou a dos heróis que enfrentam bandidos.

Grande parte da história fica girando nesta busca dos dois personagens. Mindy Macready resolve investir nas descobertas juvenis de uma garota que sofre “bullying” no ensino médio. Acaba enfrentando a “maldade” de figuras como a jovem popular da escola, Brooke (Claudia Lee). Algo muito óbvio e menos interessante que o que vimos no filme passado, quando uma menina de 11 anos era treinada para ser implacável pelo pai e não vivia a própria infância. Agora, Mindy cresceu, tem 15 anos e parece ter sido suavizada. Ou, pelo menos, parece muito menos radical que a menina que assistimos em Kick-Ass.

No caminho, um elemento fundamental se perdeu: Mindy adolescente não choca como a garota do filme anterior. O mesmo acontece quando vemos a uma fotografia de guerra. Se é uma criança que empunha um rifle, o impacto é muito diferente do que se o garoto é um adolescente, há poucos anos de entrar na vida adulta. Claro que ver crianças e jovens imersos em contextos de violência não é algo aceitável, muito menos desejável. Mas o impacto de uma criança sendo explorada neste contexto sempre vai chocar mais que vermos a um adolescente na mesma posição.

Desta forma, a protagonista de Kick-Ass 2 nos choca menos que a mesma personagem no filme anterior. E o mesmo acontece com Dave/Kick-Ass. Neste novo filme, ele parece mais pateta e desajeitado que antes. Mesmo que ele se envolva sexualmente com Night Bitch (Lindy Booth), não assistimos a nenhuma cena picante, ou provocadora. Kick-Ass 2 se firma, assim, como uma produção “água-com-açúcar”. Suaviza nas cenas de violência e nas de pegada sexual. Desta forma, deixa de ter qualquer inovação e passa a integrar a imensa lista de filmes sem identidade e que parecem todos iguais.

Além de gastar muito tempo com a indecisão dos personagens principais sobre os seus “verdadeiros papéis no mundo”, Kick-Ass 2 segue avançando na ideia lançada pelo original de que os heróis ordinários são tudo o que a sociedade precisa. Assim, o roteiro escrito pelo diretor Jeff Wadlow baseado na HQ de Mark Millar e John Romita Jr. segue dando espaço para a importância da comunicação estabelecida pela internet para reunir pessoas interessadas em uma mesma causa. Um tema que ficou ainda mais importante com as manifestações sociais no Brasil e em outras parte do mundo neste ano e nos anteriores. Mas um argumento que, evidentemente, já está batido e não apresenta mais nenhuma “sacada”.

Por tudo que eu comentei até aqui, Kick-Ass 2 nasce defasado, antigo, sem muito propósito. Wadlow perdeu uma boa oportunidade de fazer um belo filme, que seguisse ou pelo menos honrasse o original. Mas que nada. O diretor e roteirista executa uma produção sem graça e que tem os seus melhores momentos na escolha dos nomes dos heróis e anti-heróis que vão se enfrentar no final.

Para não dizer que o filme todo é inteiramente um lixo, acho que o único ponto de reflexão que ele sucinta e que é interessante é esta aparente imutável vontade das pessoas de serem aceitas pelas outras e formarem grupos. Diferente de alguns heróis de HQ, em Kick-Ass 2 não há espaço para o “lobo solitário”, para aquele herói que procura fazer justiça com as próprias mãos de forma solitária – seja porque gosta de agir assim, seja porque não quer colocar as pessoas que ama em risco. Algo comum nas HQs.

Não. Em Kick-Ass 2 os protagonistas e as pessoas que lhes cercam acreditam em ação coletiva. Eles querem ser aceitos pelos outros e querem fazer parte de um grupo – seja o da escola, no caso de Mindy, seja o de uma liga de justiceiros, no caso de Dave. Algo interessante de perceber nesta história, especialmente porque ela mostra jovens que cresceram imersos na internet e nas mensagens trocadas por celulares. Contrariando muitos pais preocupados e os teóricos que dizem que a internet pode isolar as pessoas, Kick-Ass 2 aposta na vertente de que a tecnologia serve para tirar os jovens do isolamento.

Outro tema clássico que o filme resgata é o de que o ensino médio é o momento perfeito para criar traumas para o resto da vida, algo muito típico nos Estados Unidos, aparece com tudo nesta produção. Provavelmente uma forma de Wadlow tornar o filme mais “palatável” entre os jovens. O que é ruim, evidentemente. Afinal, toda vez que um filme se esforça para ser aceito, ele perde a chance de fazer algo diferente. Uma pena. Um desperdício.

NOTA: 4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo me chamou a atenção logo no início deste filme. Afinal, quanto tempo se passou desde a história anterior? Pela idade de Mindy, calculamos quatro anos – afinal, em Kick-Ass ela tinha 11 e, agora, tem 15. Mas quando Dave assiste TV com os amigos Marty (Clark Duke) e Todd (Augustus Prew), no noticiário a repórter comenta que o “movimento” dos heróis começou dois anos antes. Para mim, uma falha evidente no roteiro de Wadlow, porque a história, de fato, teria um hiato de quatro anos.

Bastante estranho ver o quanto a atriz Chloë Grace Moretz se desenvolveu no período. Sem dúvida, para a personagem de Mindy/Hit-Girl, ela tinha muito mais “graça” quando era uma criança.

Para a sorte de quem assistiu a este filme, ele tem menos de duas horas de duração. Aliás, ele poderia até ter menos do que os 107 minutos que possui. Uma hora e meia estava de ótimo tamanho. Como eu acho que a maioria dos filmes deveria ter. Poucos são os que valem duas horas ou mais. Muito, muito poucos.

No vácuo deixado pela morte do personagem de Nicolas Cage no filme anterior, os produtores escalaram Jim Carrey para o papel de Colonel Stars and Stripes. Em teoria, os dois atores se “igualariam” na importância e como chamariz do público. Mas francamente? Sem poder fazer as caras e bocas com as quais está acostumado, Carrey acaba ficando bastante apagado, diferente de Cage que faz um bom trabalho como o pai de Hit-Girl no filme original.

Sem um roteiro decente para seguir, até os protagonistas Aaron Taylor-Johnson e Chloë Grace Moretz parecem menos interessantes nesta continuação. Claro que eles se esforçam, mas acabam tendo que falar frases simplórias e viver personagens rasos em Kick-Ass 2. O vilão do filme, encarnado por Christopher Mintz-Plasse no papel de Chris D’Amico/The Motherfucker, também é menos interessante que o mafioso Frank D’Amico, interpretado por Mark Strong.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de outras figuras que aparecem bastante nesta história. Donald Faison interpreta a Dr. Gravity, um dos heróis que se junta à Kick-Ass; Matt Steinberg é o Mr. Radical; Steven Mackintosh e Monica Dolan interpretam aos pais do menino que desapareceu e que resolvem virar “heróis”; Robert Emms interpreta a Insect Man; Garrett M. Brown faz as vezes de pai de Dave; e John Leguizamo interpreta a Javier, que trabalhou para o pai e para a mãe de Chris D’Amico antes de ajudar o adolescente a trilhar o caminho da vingança.

Falando no pai do Dave… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Achei interessante que os protagonistas de Kick-Ass, no fim deste segundo filme, acabam ficando “sozinhos” no mundo, não é mesmo? Dave e Mindy já não tinham a figura materna. Após estes dois filmes, eles perdem também as figuras paternas. E o vilão Chris, que havia perdido o pai no filme anterior, também perde a mãe nesta sequência. Seria uma forma dos autores reforçarem a perda de “valor” das famílias e de dizer que estamos sozinhos no mundo? Curioso. Ah sim, e sigo sem ter lido o HQ original. :) Um dia, quem sabe?

Da parte dos vilões, vale destacar o trabalho de Olga Kurkulina como Mother Russia; Tom Wu como Genghis Carnage; e Andy Nyman como The Tumor. Eles são contratados por Javier e passam a formar o “grupo de elite” de Chris – ainda que, de fato, apenas a vilã russa assuma a ação. Aliás, o filme ficar centrado no embate entre duas “ligas”, uma de heróis e outra de vilões, apenas resume a ideia do original a uma disputa comandada por adolescentes e gente sem muito o que fazer além de se caracterizar como nos HQs que eles gostam de ler.

Kick-Ass 2 mereceria uma nota até mais baixa que aquele 4 ali de cima. Mas resolvi dar esta nota porque, afinal de contas, a ideia de que as coisas podem sair mal quando as pessoas perdem a noção do perigo de fazer “justiça com as próprias mãos” continua ali. O filme perde em muitos sentidos em relação ao original, mas alguns alertas que ele faz, seja sobre o ponto anterior, seja sobre a violência presente em diferentes ambientes – como a dos adolescentes que praticam bullying na escola. Se o filme agradar aos jovens e fizer eles pensarem sobre isso, não terá sido um total desperdício.

Mais uma vez, a exemplo do Kick-Ass original, nesta sequência a trilha sonora acaba ganhando destaque. Um trabalho bem feito pela dupla Henry Jackman e Matthew Margeson, ainda que a trilha de Kick-Ass me pareceu ainda mais interessante. Mas no trabalho feito nesta sequência, até uma música brasileira está no meio… A Minha Menina, de Jorge Ben Jor, aqui interpretada por The Bees, aparece justamente no momento em que Kick-Ass é agarrado pela Night Bitch no banheiro. Como manda a “tradição”, a música brasileira é sempre provocativa e, normalmente, ligada a cenas sensuais. :)

Fora a trilha sonora de Kick-Ass 2, há pouco a destacar da parte técnica. Talvez a edição de Eddie Hamilton, que é bem feita, os figurinos de Sammy Sheldon, a maquiagem da equipe de Lisa Martin e os efeitos especiais coordenados por Laird McMurray. Estes últimos funcionam razoavelmente bem, ainda que a sequência da Hit-Girl sobre o veículo tenha me parecido um tanto mal feita. Além destes profissionais, vale nomear Tim Maurice-Jones como diretor de fotografia, ainda que ele não faça nada demais.

E agora, uma curiosidade sobre Kick-Ass 2: o ator Jim Carrey se recusou a participar da tradicional “turnê” de eventos de divulgação do filme porque ele não concorda com o conteúdo violento ou com o uso de armas para defesa pessoal ou qualquer outro tipo de violência armada. Curioso, não? Então porque cargas d’água ele se envolveu nesta produção? Só para faturar mais uns milhões de dólares? Isso que eu chamo de hipocrisia.

No quarto de Dave há dois cartazes: de American Jesus e Superior. Estes dois títulos são trabalhos do autor da HQ Kick-Ass Mark Millar.

Kick-Ass 2 foi rodado em diversos locais de Toronto, no Canadá, e nos estúdios Pinewood no Reino Unido.

Esta sequência adaptada das HQs estreou no dia 14 de agosto deste ano na Irlanda, no Reino Unido e nas Filipinas. Até o momento, o filme não participou de nenhum festival. Ainda assim, ganhou um prêmio, o Summer’s Biggest Teen Bad A** conferido para Chloë Grace Moretz no MTV Movie Awards. Este prêmio foi criado pela Seventeen Magazine exclusivamente para a última edição do prêmio da MTV.

Kick-Ass 2 teria custado cerca de US$ 28 milhões. Apenas nos Estados Unidos, ele teria faturado quase US$ 28,8 milhões após seis semanas de exibição. No restante dos mercados em que estreou, ele conseguiu outros US$ 30,76 milhões. Ou seja, segue um caminho de obter lucro.

Esta sequência é apenas o terceiro longa da carreira do diretor Jeff Wadlow. Antes de Kick-Ass 2, ele dirigiu três curtas e os filmes Cry_Wolf e Never Back Down. Não assisti a nenhum dos dois, mas eles também não me chamaram a atenção. Acho que os produtores de Kick-Ass poderiam ter entregue a sequência do filme em outras mão, não?

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para Kick-Ass 2. Esta nota, e a vontade de assistir a sequência do filme anterior, do qual eu tinha gostado, me levaram a ver esta nova produção. Achei a avaliação dos usuários do IMDb muuuuuito generosa. E que pode enganar os desavisados. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais duros com o filme. Eles dedicaram 105 críticas negativas e 44 positivas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 30% e uma nota média de 4,7.

Kick-Ass 2 é uma coprodução dos Estados Unidos e do Reino Unido. Assim sendo, ele também entra na lista de filmes que atendem ao pedido dos leitores deste blog, que solicitaram uma série de críticas de filmes made in USA.

CONCLUSÃO: Chamou a minha atenção, em 2010, a violência, a ironia e as boas sacadas de Kick-Ass. Naquela época, no texto que escrevi sobre Kick-Ass, eu já comentava que haveria uma sequência. Como gostei do original, me joguei para ver este segundo filme. Pena que toda a força de Kick-Ass desapareceu no caminho. Menos violento, sem boas tiradas e aquela ironia ácida, Kick-Ass 2 é um filme que praticamente nega o primeiro, porque por boa parte do tempo trilha o caminho do “politicamente correto” e suaviza o drama e o dilema dos protagonistas. Um verdadeiro desperdício.

Prisoners – Os Suspeitos

19 de outubro de 2013 80 comentários

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Filmes policiais nos provocam. Afinal, sobram histórias de crimes ao nosso redor. Desaparecimentos, sequestros, mistérios que nos afetam direta ou indiretamente. Quando um roteiro de filme do gênero é bem escrito, nos fascina pelo mistério. Não por acaso, Seven é um dos meus filmes favoritos do gênero e de sempre. Desde o excelente filme de David Fincher, uma produção do gênero não mexia tanto comigo como esta Prisoners. Envolvente, bem escrito, mas com alguns probleminhas aqui e ali, este é um filme que respeita o gênero policial e a nossa inteligência.

A HISTÓRIA: Cenário de árvores e neve. Keller Dover (Hugh Jackman) reza um Pai Nosso. Lentamente, um cervo começa a aparecer na cena. A câmera vai se afastando, e aparece à esquerda um rifle. O filho de Keller, Ralph (Dylan Minnette) dispara e acerta no alvo, sendo cumprimentado pelo pai. Na volta para casa, Keller explica para o filho o que a esposa lhe ensinou de mais valioso: estar sempre preparado. Ele diz que não importa o que aconteça, a família deles precisa estar preparada para enfrentar problemas. Por isso, ele mantém um estoque de suprimentos em casa. Mas nenhuma preparação vai impedir que a caçula da família, Anna (Erin Gerasimovich), e a filha de um casal de amigos, Joy Birch (Kyla Drew Simmons), desapareçam, tornando a vida de Keller e dos demais um verdadeiro purgatório.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Prisoners): Algo que me chamou a atenção neste filme, desde o princípio, é como ele alimenta a nossa dúvida. Afinal, o que aconteceu com aquelas duas meninas? Será possível que aquele trailer detonado que parou na vizinhança pode não ter nada a ver com o sumiço delas? Pouco provável, não é mesmo? E o estranho Alex Jones (Paul Dano) de fato tem a maturidade de uma criança de 10 anos e não fez nada ou é um sujeito dissimulado?

Estas são apenas algumas das várias perguntas que alimentam o imaginário do espectador enquanto a ação de Prisoners vai se desenvolvendo. E claro, como pede um bom filme policial, o detetive Loki (Jake Gyllenhaal) vai seguindo várias pistas e o próprio instinto e lançando informações que parecem desconexas, sem muito sentido, na nossa frente. Enquanto o próprio detetive tenta ligar os pontos, o espectador é convidado a fazer o mesmo pelo roteiro de Aaron Guzikowski.

Diferente de outros filmes, como muitas produções de Alfred Hitchcock, em Prisoners não temos o privilégio de saber mais da história do que os personagens envolvidos. Sem uma posição privilegiada, nos resta seguir os passos da dupla de protagonistas, o detetive Loki e o pai Keller, para saber quem está mais próximo da verdade. Tendo o risco de nenhum deles estar avançando na direção certa. Esta dúvida constante, esta incerteza é o que torna Prisoners angustiante e atraente.

Não é por acaso que o roteiro fica centrado nas ações destes dois personagens, o detetive e o pai desesperado. No caso de um desaparecimento, quando a polícia funciona, são estes dois agentes, a polícia e a família, mais diretamente afetados pelo acontecimento. Gostei da forma com que Prisoners mostra estes dois elementos. Temos um detetive que parece dedicado ao trabalho, mas que cria dúvidas sobre a sua competência para o espectador na medida em que o tempo vai passando e ele não consegue nada de muito concreto sobre o caso; e temos o pai de família que funciona com a visão de mundo de que ele é o provedor e o protetor, a pessoa que deve garantir a segurança de todos e resolver o problema.

Interessante esta leitura feita pelo roteiro de Guzikowski porque, bem sabemos, em muitos locais – e não apenas nesta ficção ambientada nos Estados Unidos – as coisas funcionam com esta lógica. Percebo que grande parte da população, inclusive no Brasil, pensa bastante com a lógica de “fazer as coisas a sua maneira”. Ou, em um contexto como o mostrado pelo filme, em pensar que a justiça deve ser feita de qualquer forma, a qualquer custo, e que a solução dos problemas está na mão dos envolvidos.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Neste ponto Prisoners nos apresenta dúvida suficiente para pensar se as atitudes de Keller são exageradas ou estão indo na direção certa e necessária, ainda que não seja bonito ver alguém ser tão maltratado, agredido, torturado como Alex. E daí jogam um papel importante o casal Nancy (Viola Davis) e Franklin Birch (Terrence Howard), pais de Joy. Eles querem, evidentemente, que a filha seja resgatada com vida. Assim, tem o mesmo desejo essencial de Keller. Mas é evidente que Franklin não concorda com os métodos e com o grau de crueldade a que chega o amigo. Ainda assim, o que ele faz?

Ele divide o problema com a mulher. Não consegue carregar aquele “fardo” sozinho. E aí os Birch tomam a atitude de muita gente que legitima os absurdos cometidos na nossa e em tantas outras sociedade: eles lavam as próprias mãos. Nancy diz que não vai contribuir para que as torturas continuem, mas que eles também não devem fazer nada para impedir Keller. Esta ânsia por “justiça com as próprias mãos” está difundida e é muito perigosa, além de absurda.

Certo que alguém pode dizer que Keller poderia estar certo. Verdade. Mas de fato ele precisava fazer aquilo? A polícia não chegaria à verdade mais cedo ou mais tarde? A justificativa de Keller é que, quando isso acontecesse, poderia ser tarde demais para a filha dele e dos Birch. Bem, esse é o risco que se corre sempre que um crime é cometido. Mas nem por isso temos o direito de sair culpando pessoas e exigindo que elas paguem por algo que não temos certeza que ocorreu.

A sociedade existe com leis e regras justamente para não vivermos no caos. Imaginaram todos fazendo o que acham certo, sem seguir o que está estabelecido? Seria uma verdadeira loucura e, tenho certeza, muitas outras injustiças seriam cometidas. A Justiça é falha, verdade. Assim como a polícia nem sempre consegue resolver todos os crimes. Mas sem a confiança da sociedade nestas instituições tudo seria ainda pior. Viveríamos na barbárie.

Prisoners trata um pouco de tudo isso. Sobre este desejo das pessoas, especialmente dos “chefes de família”, de ter controle sobre tudo, de resolver os seus problemas sem ter a paciência ou a confiança necessárias nas instituições estabelecidas. Hugh Jackman convence muito bem como o pai desesperado e que segue a própria convicção tendo o resgate da filha e de sua amiga como seu único propósito. Mas quantas pessoas bacanas, corretas e com “fé” podem agir de forma equivocada e provocar absurdos tendo esta arrogância de saber o que é “melhor” a todo o momento?

As pessoas cheias de certezas são as mais perigosas que podem existir. A arrogância é um perigo, assim como a certeza de que temos o controle sobre tudo o que nos cerca. Isso é impossível. Interessante como a família Dover acredita nisto, que estão muito preparados para tudo – mantendo, inclusive, um grande estoque de mantimentos para qualquer catástrofe ou eventualidade que possa acontecer. Acreditando serem muito espertos, e preparados, eles não aceitam quando algo inesperado como o sumiço de Anna acontece. Difícil lidar com pessoas assim, e mais difícil ainda é perceber que há muita gente por aí com esta postura.

Não deixa de ser tragicamente cômico que este filme comece com um Pai Nosso. Porque tudo o que Keller e sua família parece carecer é de fé. Eles não acreditam na polícia. Não apenas Keller resolve fazer a “justiça com as próprias mãos” e resolver o problema sozinho, por não acreditar na eficiência de Loki, como a esposa dele, Grace (Maria Bello) não consegue sair da cama. Parece em depressão constante. Claro que dá para entendê-los. Afinal, o sumiço de uma filha deve ser algo horrível de enfrentar. Mas onde ficou a fé deles? Essa crise de valores, ou de ser coerente com o que se acredita e como se age, é uma leitura crítica interessante dos nosso tempo.

O outro protagonista desta história, o detetive Loki, por sua vez, demonstra uma fé aparentemente incansável no próprio trabalho. Ele segue todas as pistas que considera importantes e não perde a esperança de conseguir chegar a um bom resultado. E aí surge uma das razões principais para o roteiro de Guzikowski funcionar tão bem: o espectador passa a conhecer vários elementos que parecem não se encaixar com a história do sumiço de Anna e Joy.

Como por exemplo a história do padre Patrick Dunn (Len Cariou) e do homem que Loki encontra morto no porão dele. O que ela tem a ver com o caso que o detetive está investigando agora? E por que a senhora Milland (Sandra Ellis Lafferty) tem tanta certeza que a mesma pessoa que levou o filho dela, há 26 anos, cometeu o mesmo crime agora contra Anna e Joy? Puro chute? Ou estas histórias podem estar relacionadas? Não faz muito sentido, mas também seria estranho elas estarem no filme se fossem totalmente descoladas da trama.

Quando o personagem de Bob Taylor (David Dastmalchian) aparece em cena, as dúvidas aumentam. Suspeitíssimo, ele cria tensão ao entrar nas casas dos Birch e dos Dover. O que ele foi fazer lá? Ele é o parceiro de crime de Alex? Sem dúvida o filme ganha com este personagem, enquanto o tempo passa e a pressão fica cada vez maior para que um desfecho aconteça. Você chega a pensar que tudo aquilo pode ser um grande engano, ou que as meninas nunca mais serão encontradas. Muitas dúvidas no ar.

O desafio de um roteiro de filme policial não é apenas envolver o espectador com tensão, cenas de ação e com pistas jogadas aqui e ali para tornar a história interessante. No final, tudo precisa se encaixar e fazer sentido. Cada fato relevante mostrado no filme precisa estar conectado e fazer sentido. E isso acontece em Prisoners. Todos os elementos se encaixam. Mas há pelo menos dois pontos que não se encaixam muito bem e que acabam incomodando e prejudicando o resultado final.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para começar, se de fato Alex era inocente e tinha a mentalidade de uma criança de 10 anos, por que ele não reagiu antes falando a verdade para Keller? Impossível alguém acreditar que uma pessoa aguentaria tanta tortura e agressões apenas com medo de sofrer ainda mais ao dedurar a “tia” Holly Jones (Melissa Leo). Certamente ela e o marido educaram o garoto com medo, mas ainda assim é difícil acreditar que sob tanta tortura ele não falaria que deixou as meninas para a sequestradora. E o longo sequestro de Alex também justifica porque ele ficou com aquela mentalidade subdesenvolvida – afinal, ele não estudou e, certamente, foi bastante maltratado.

Outro ponto difícil de engolir tem a ver com o final. O detetive Loki faz barulho com o carro ao chegar, bate na porta e ainda chama a Holly. E, mesmo assim, a mulher segue com a rotina e não pensa em dispensar o policial ou se ver livre dele de outra maneira? Por que ela desistiria no final? Não faz sentido.

Esses dois pontos incomodam porque o restante do filme funciona muito bem. Além de questionar pontos importantes sobre a perda de fé, a loucura e as formas com que as pessoas lidam com a perda e o imprevisto, Prisoners amarra bem todas as pontas. Só não convence nos dois pontos citados, além de ser difícil de acreditar na resolução final para o drama de Keller. Por quanto tempo ele fez barulho? E como ninguém ouviu antes? O detetive Loki parece que é o único herói desta produção, que consegue envolver bem o espectador e que tem muitas qualidades, mas alguns probleminhas que poderiam ter sido evitados.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Foi difícil chegar a uma nota para este filme. Inicialmente, cheguei a avaliá-lo até melhor. Movida pela tensão criada pela história logo depois que Prisoners terminou. Mas os dias foram passando e, quanto mais eu pensava nos pontos que não se encaixavam, mas eu achava que deveria diminuir a nota do filme. Cheguei na avaliação acima porque acho que Prisoners toca em pontos importantes e que precisam ser discutidos. Se não fosse assim, talvez as pequenas mas importantes falhas do roteiro fariam ele descer ainda mas na minha avaliação.

O diretor Denis Villeneuve faz um belo trabalho. Além de destacar a interpretação dos atores, e de colocá-los sempre em sequências bastante extremas, ele não economia nas cenas noturnas e de impacto. O filme tem ritmo e valoriza o bom roteiro de Guzikowski. Mais um belo trabalho do diretor canadense que já acumula 53 prêmios na carreira que tem apenas seis longas, quatro curtas, uma série de TV e a participação em outro longa com um segmento até agora.

O personagem de Bob Taylor acaba se revelando ainda mais interessante no final. Ele e Alex Jones ganham uma dimensão totalmente diferente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Descobrimos que Bob foi o segundo garoto sequestrado pelo casal Jones e que, depois de fugir, nunca mais se recuperou. Ele descobriu o livro Finding the Invisible Man e resolveu recriar o roteiro de terror que viveu de uma forma bastante sinistra. E sem ser compreendido. O símbolo do labirinto, compartilhado por Bob e Alex, tinha origem no medalhão do marido de Holly, o mesmo homem que acaba sendo preso após confessar para o padre Patrick Dunn que havia matado a 16 crianças. Bob e Alex foram tão traumatizados que não conseguiram se livrar daquele terror, mas o detetive Loki acaba chegando à verdade.

Aliás, outro ponto interessante deste filme é a ironia do final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Desprezível a violência empregada por Keller contra Alex que, no fim das contas, foi a maior vítima de toda esta história. Mas se não fosse o cativeiro que ele provocou, o detetive Loki não teria ido até a casa de Holly para avisá-la do resgate de Alex e, consequentemente, não teria descoberto a verdade. Interessante esta provocação da história, após fazer toda aquele reflexão de que a justiça com as próprias mãos pode ser bastante injusta.

Os atores envolvidos nesta história fazem um belo trabalho. A ponto de convencer o espectador sobre o momento que cada um deles vive. O destaque, claro, fica para Jake Gyllenhaal e Hugh Jackman, que dominam a cena. Em papéis menores, mas igualmente convincentes, estão Viola Davis, Maria Bello e Terrence Howard. Mesmo aparecendo muito menos que os protagonistas, os suspeitos desta produção se saíram muito bem. Em papéis delicados, os atores Paul Dano e David Dastmalchian convencem pelo tanto que eles se revelam “desfuncionais”. Melissa Leo também está bem, se bem que eu acho que o excesso de maquiagem/caracterização atrapalha um pouco a atriz.

Da parte técnica do filme, vale destacar o ótimo trabalho do veterano diretor de fotografia Roger Deakins. Ele tem que lidar com várias cenas escuras e em penumbra e consegue um belo resultado final. Muito bom também o trabalho de edição da dupla Joel Cox e Gary Roach. A trilha sonora de Jóhann Johannsson é fundamental para o filme, ainda que não seja nada inovadora. Ela apenas segue o peso e o estilo de outros filmes de suspense policial.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Hugh Jackman entrou no projeto quando Antoine Fuqua era o diretor escalado para Prisoners. Depois, os dois saíram do projeto. Após vários anos de desenvolvimento para o filme sair do papel, Jackman acabou voltando.

Mark Wahlberg e Christian Bale chegaram a ser cogitados para estrelar o filme tendo Bryan Singer como diretor. Hummm… essa junção teria sido interessante também.

Prisoners estreou em agosto deste ano no Festival de Cinema de Telluride. Depois, ele passou pelos festivais de Toronto, San Sebastián e Zurique. Nesta trajetória, a produção ganhou dois prêmios: Melhor Ator Coadjuvante para Jake Gyllenhaal no Hollywood Film Festival e o terceiro lugar na escolha da audiência no Festival de Cinema de Toronto.

Aliás, gostei muito do nome original deste filme. Prisoners… o conceito de prisioneiros pode ser aplicado a vários personagens deste filme. Não apenas às vítimas diretas, as crianças, mas também aos familiares, que ficam aprisionados no drama da falta de respostas, e aos personagens Bob e Alex.

No Brasil, o filme acabou levando o nome de Os Suspeitos. Não é um nome equivocado, evidentemente. Mas acho que o original tinha mais força. Sem contar que já existe um filme com este nome no mercado nacional – tradução de The Usual Suspects, ótimo filme de 1995 dirigido por Bryan Singer.

Prisoners teria custado cerca de US$ 46 milhões. Nas bilheterias dos Estados Unidos, até ontem, dia 18, o filme faturou pouco mais de US$ 55,8 milhões. Nos demais mercados onde o filme já estreou, ele teria acumulado outros US$ 22,6 milhões. Ou seja, está dando lucro.

Esta produção foi filmada em três cidades do estado da Georgia, nos Estados Unidos: Porterdale, Conyers e Atlanta.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para Prisoners. Uma excelente nota, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 170 textos positivos e 39 negativos para Prisoners, o que lhe garante uma aprovação de 81% e uma nota média de 7,3.

A disputa entre os bonitões neste filme é dura. E os papéis que eles desempenham não favorecem muito para as fãs. :) Mas apesar do cacoete com o olho, acho que eu votaria no Jake Gyllenhaal como o mais interessante do filme.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Sendo assim, ela se soma a outras publicadas recentemente aqui no blog e que satisfazem a votação em que os EUA ganharam como alvo de uma série de críticas aqui no site. Espero que esteja sendo do agrado de vocês, caros leitores.

CONCLUSÃO: Crimes envolvendo crianças são mais cruéis. Mexem com qualquer pessoa, sendo ela mãe, pai, ou não tendo filhos. Prisoners pega o espectador pelo estômago quando duas meninas desaparecem e o tempo corre sem uma solução para o mistério. Um policial e um pai dividem a atenção na busca pela verdade. Busca essa que coloca a nossa apreensão e crença em uma solução em xeque. Normalmente, as pessoas querem que os bandidos se ferrem.

Mas e quando não temos certeza sobre quem é o bandido? E mesmo tendo esta certeza… a melhor saída é realmente a vingança? Este filme vai bem, coloca muitas pistas no caminho e explica tudo no final de forma satisfatória. Mesmo assim, tem alguns probleminhas para convencer ao público nos detalhes, o que não permite que ele seja perfeito. Mas é bom e angustiante.

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