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La Grande Bellezza – The Great Beauty – A Grande Beleza

1 de dezembro de 2013 7 comentários

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Há tanta beleza no mundo. E também há tanta solidão. Mas é possível se “armar” de virtudes para aprender com o que nos rodeia e para desfrutar desta vida de prazeres e sacrifícios. La Grande Bellezza é uma destas produções que capricha no visual e também acerta nas reflexões e críticas. Um filme como há bastante tempo não se via. Um deleite para quem gosta do cinema que aposta no realismo fantástico em determinados momentos e, em outros, no puro realismo observador contundente.

A HISTÓRIA: Começa com o trecho de Viaggio al Termine della Notte de Louis-Ferdinand Céline que diz que viajar é algo útil porque exercita a imaginação. Todo o resto é “desilusão e fadiga”. E essa viagem totalmente imaginária vai da vida até a morte, podendo ser feita por qualquer pessoa. Tiro de canhão e aplausos. Tocam os sinos, e vemos um homem observando o monumento com a frase “Roma ou morte”.

A câmera passeia por pessoas, estátuas e lugares desta cidade italiana que será vital para a história. Um turista asiático se separa de um grupo e morre. Do canto clássico que serve de pano de fundo para o colapso do turista, pulamos para a música eletrônica de mais uma festa na casa de Jep Gambardella (Toni Servillo). Ele está celebrando mais um aniversário, sem saber que em breve fará uma revisita ao passado enquanto segue desfrutando dos prazeres da boa vida em Roma.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a La Grande Bellezza): Estava com saudade de uma produção que encarnasse algumas das características mais admiráveis do cinema italiano. Aquele realismo fantástico que serviu como arma potente de Fellini e que embalou tanto os nossos devaneios como público que gosta do belo, do lírico e da arte. Pois bem, La Grande Bellezza nos remete a todo esse passado, mas com uma visão bastante moderna do que é belo e do que é essencial. Um cinema que não é muito comum, nos dias de hoje, e que por isso mesmo nos fazia tanta falta. Porque não envelhece.

O problema deste filme é que ele, a exemplo do recentemente comentado por aqui Stories We Tell, poderia render uma tese de doutorado, praticamente. Estes são filmes tão ricos e cheios de significo que um simples texto como este já nasce limitado. Mesmo sabendo disso, tentarei jogar por aqui algumas impressões do que eu achei de mais importante nesta produção maravilhosamente dirigida pelo admirável Paolo Sorrentino.

Como eu comentava antes, impossível não lembrar de Federico Fellini ao assistir a La Grande Bellezza. O mestre do cinema italiano que morreu aos 73 anos em outubro de 1993 – há exatos 20 anos – fez diversos filmes em que brincou com as noções de realidade e ilusão/fantasia, além de ser conhecido por uma direção de fotografia primorosa. E como esta nova produção de Sorrentino é ambientada em Roma, que acaba sendo quase uma personagem da trama – a exemplo de vários filmes de Woody Allen -, imediatamente vem à lembrança La Dolce Vita e mesmo Roma, mesmo que eu já não lembre de muita coisa destes filmes que marcaram a filmografia de Fellini.

Dito isso, vamos mergulhar em La Grande Bellezza. Para começar, gostei muito daquele passeio que o diretor e roteirista Sorrentino faz por diferentes lados da Roma moderna. Iniciamos o “giro” de dia, vendo a italianos e turistas se misturando em locais belíssimos da cidade. Em seguida, mergulhamos na noite, no seio de um grupo de pessoas influentes da cidade – formado por artistas e intelectuais. E ainda que o protagonista se revele um homem que adora a noite e as festas, no restante do filme vamos orbitar entre as belezas diurnas e noturnas da cidade romana.

Em cada escolha de câmera, uma bela imagem. É como se não houvesse um segundo de desperdício em La Grande Bellezza. Algo milimetricamente planejado por Sorrentino, que teve a ideia da história deste filme mas que escreveu o roteiro de La Grande Bellezza ao lado de Umberto Contarello. É necessário também, pela grandeza das imagens desta produção, tirar o chapéu para o diretor de fotografia Luca Bigazzi.

Como pede um bom roteiro, em La Grande Bellezza vamos mergulhando na vida de Jep Gambardella aos poucos. Ao acompanhar os passos do protagonista, percebemos que ele não é apenas um homem frívolo, que gosta de festas e da beleza. Ele é um sujeito que desfrutou muito da vida, foi capaz de escrever uma obra bastante elogiada, mas não conseguiu ir além disso. Ainda assim, é um sujeito que tem um olhar curioso sempre e generoso na vontade de conhecer as pessoas e o que elas fazem. A ponto de conhecer e ser reconhecido por aparentemente quase todas as pessoas que vivem em Roma.

Interessante como o personagem de Jep é construído, tanto pelo roteiro quanto pelo ator que o interpreta. Para mim, foi impossível não simpatizar com o trabalho de Toni Servillo. Ele torna o homem frívolo e escritor “fracassado” que não conseguiu produzir uma outra obra além daquela inicial em um sujeito simpático, que olha com atenção para tudo e para todos, e que não demora muito para ser confrontado com as reminiscências de um amor do passado. Talvez o seu único grande amor – e que ele deixou escondido nas gavetas mais escuras da própria lembrança.

Seguindo os passos de Jep vamos nos confrontar com múltiplos ambientes artísticos – a maioria deles se revela uma trágica caricatura do que pensamos, de fato, ser arte, em uma crítica interessante deste gosto artístico que me parece geralmente perdido no nosso tempo. Tudo vale em arte, praticamente, como já nos mostrou Andy Warhol a partir dos anos 1960. E esta tendência só “piorou” nos anos 2000. Pois bem, esta beleza “sem fim” do belo, e arte normalmente é uma expressão desta busca, está plasmada em diferentes manifestações artísticas em La Grande Bellezza. E junto com estes cenários, conhecemos a fauna mais diferente de indivíduos.

O objetivo parece claro. Brincar com os estereótipos mais diversos – da editora anã até a amiga magra e moralista, do autor que busca a aprovação na mulher que deseja até as belas mulheres que são ótimas companhias na cama e na noite mas com quem o protagonista não se envolve de verdade – para fazer um quadro dos tipos, ambientes e desejos de uma Itália atual. Roma, como tantas outras cidades cosmopolitas do mundo, acaba virando um celeiro de pessoas e de acontecimentos, desejos, aspirações e frustrações. Parte deles está neste filme.

Além disso, algo que achei marcante em La Grande Bellezza é como ele está sempre jogando com o realismo fantástico. Em diversos momentos mergulhamos nas reminiscências do protagonista, que viaja no tempo e nos sentimentos para resgatar seus melhores momentos. E em outros, a realidade é tão fantástica e cheia de simbolismos que parece que tudo não passa de um devaneio – como na cena em que ele passa por diferentes figuras envelhecidas, como ele próprio, quando vai comprar cigarros em um bar.

O bacana deste filme é que ele não é apenas uma junção de belas cenas, um trabalho elogiável de direção e de um diretor de fotografia. Além de ritmo e beleza, La Grande Bellezza tem conteúdo. E ele começa a se tornar mais sério e profundo no encontro entre amigos na casa de Jep quando ele confronta a amiga Stefania (Galatea Ranzi).

A arrogância demonstrada por ela, somada a sua vontade de julgar aos demais, seguida de uma avaliação sem filtro do protagonista, poderia resumir o comportamento de grande parte da população mundial. Pelo menos destas pessoas que vivem na cultura do “eu, eu, eu” e que escondem com este comportamento, como explica Jep, “uma certa fragilidade e sentimento de inadequação”. Perfeito. Como bem ensina nosso amigo Jep, o melhor que as pessoas podem fazer é alimentar relações vitais de amizade, tratando as pessoas com afeto e compaixão.

Além da arte, La Grande Bellezza flerta com diferentes fórmulas de busca da felicidade e de “salvação”. Interessantes diversas cenas neste sentido, especialmente a sequência do “professor” que, aparentemente, resolve as “crises existenciais” com doses de botox. hehehehehehehe. Não consigo imaginar uma crítica mais mordaz ao culto da beleza plastificada e falsa que habita parte das rodas da sociedade. E tudo para evitarmos ao máximo a nossa mortalidade e decadência física e mental – partes inevitáveis da vida.

Na parte final do filme, La Grande Bellezza explora ainda mais esta distinção entre o verdadeiro e a ilusão. Antes, há uma sequência interessante em que Jep nos ensina a etiqueta de um velório. Tudo parece encenado, e a elegância, brinca o roteiro, tem a ver com esta encenação para a busca do maior efeito possível de cada ato. Tudo planejado, só que nem sempre a vida se molda ao nosso desejo, como também revela o fim de dito funeral.

Finalmente, e como acontece com todo o indivíduo quando ele sente a própria fragilidade, Jep verbaliza alguns questionamentos existenciais. Aparentemente ele viveu uma grande e prazerosa vida. Teve contato com pessoas formidáveis e acesso a diversões quase inesgotáveis. Mas tudo tem o seu fim… mas ele segue sendo um sujeito cheio de esperança e graça. Ao ponto de dançar com Stefania e dizer que o futuro será maravilhoso.

Impossível tratar de todos os temas que La Grande Bellezza aborda. Mas alguns dos centrais, sem dúvida, é a busca do indivíduo pela beleza, por desfrutar da vida, e o grande valor das amizades nesta nossa existência. E do amor também, é claro. Este último o sentimento que nos eleva e “santifica”. E por falar em santos… muito interessante a personagem da irmã Maria (Giusi Merli). Evidentemente que ela surge para contrastar com o protagonista. Mas o curioso é que eles acabam fazendo uma dupla interessante.

Diferente do que outros poderiam imaginar, a freira dedicada que deve se tornar santa admira o frívolo Jep e deseja se encontrar com ele. Jep, por sua parte, também admira Maria, e os dois tem uma grande curiosidade um pelo outro – especialmente porque eles fazem parte de mundos muito diferentes. Bacana isso. O encontro destes extremos provoca uma grande reflexão em Jep, que já vinha em um crescente questionamento. E daí temos o derradeiro final, que nos dá um gostinho de “sentido da vida”.

Mas antes, e este é mais um acerto de La Grande Bellezza, o filme mostra como um padre cotado para ser o futuro Papa pode ser tão desinteressante. Se deixarem, ele não para de falar. O oposto da “santa” Maria que, como ela mesmo explica, vive o que acredita – e não precisa ficar falando a respeito. Um tapa na cara de tantos integrantes da Igreja que vivem de ilusão e de palavras e quase nada de ação – crítica do atual Papa Francisco, inclusive. Esta sequência tem tudo a ver com o final. Que como o resto do filme, é brilhante.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tudo funciona com perfeição em La Grande Bellezza. Paolo Sorrentino comprova que sabe usar todos os recursos que o cinema atual permite – descontados os efeitos especiais, claro, porque este não é um filme que necessite deles. O diretor sabe conduzir o espectador pela mão em uma corrente de imagens interessantes. E o roteiro também funciona com fluidez, mesclando o realismo e a fantasia, como comentei antes. Ainda que este filme tenha mais de duas horas, você não percebe o tempo passar porque ele é preciso a cada momento.

Da parte técnica do filme, também só tenho elogios. Além da ótima direção de fotografia de Luca Bigazzi, citada anteriormente, vale bater palma para a edição precisa de Cristiano Travaglioli e para a ótima trilha sonora de Lele Marchitelli. Ele faz jus à tradição dos grandes compositores do cinema italiano. Há música para todos os gostos neste filme, do clássico ao eletrônico, passando pela ópera e pelo pop. Um trabalho bem afinado e que ajuda a contar a história de Sorrentino. Além deles, vale destacar o ótimo trabalho dos figurinos de Daniela Ciancio, o design de produção de Stefania Cella e a direção de arte de Ludovica Ferrario. Os italianos, assim como os gregos, entendem de beleza e de fazer tudo se encaixar no seu devido lugar. :)

O elenco de La Grande Bellezza é considerável. Mas todos os demais atores orbitam, como satélites, ao redor do “sol” do personagem Jep Gambardella. Reforço o que eu comentei antes de que o ator Toni Servillo faz toda a diferença neste filme. Ele está perfeito na pele do personagem. E consegue fazer com que o espectador lhe admire, apesar da crítica inicial de frivolidade. Sempre elegante, com um olhar curioso e atento e com um sorriso no rosto grande parte do tempo, Servillo revela-se encantador. E ainda que tudo orbite ao redor dele, vale citar o trabalho de outros atores.

Entre os coadjuvantes, destaco Carlo Verdone como Romano, fiel amigo de Jep e que, frustrado, resolve deixar Roma, uma cidade que lhe trouxe muitos desgostos; Sabrina Ferilli como Romana, uma mulher de meia idade que segue fazendo streap-tease e que acaba se revelando, a exemplo de Jep, muito mais interessante do que à primeira vista (aliás, este é um dos ensinamentos do filme); Pamela Villoresi como Viola, amiga de Jep que tem um filho depressivo e problemático; a já citada Galatea Ranzi como Stefania, uma das mulheres que compõe aquele grupo e que mais se expressa no filme; Carlo Buccirosso como Lello Cava, um dos mais fieis amigos de Jep – e com quem ele tem uma troca divertida de frases; Giovanna Vignola está ótima como Dadina, a editora anã que publica entrevistas feitas por Jep; Dario Cantarelli como o ajudante da “santa” Maria; e a também já citada Giusi Merli como a “santa”, em um desempenho muito coerente e bem equilibrado.

A lista acima é apenas dos principais coadjuvantes e dos atores que acabam tendo um destaque um pouco maior. Mas a lista de personagens é muito, muito maior. Um trabalho muito rico, sem dúvida. E o que eu achei mais interessante: grande parte do filme ironiza a própria Itália, e este “italian way of life” bonachão, fanfarrão, que tanto faz mal para o próprio país. Vide um dos símbolos maiores deste “jeito de ser”, que é o famigerado Silvio Berlusconi. Em muitos aspectos Jep é um tipo de Berlusconi – mas sem a política, a máfia e tudo o mais inerente, como corrupção, crimes e etc. De qualquer forma, é certo que La Grande Bellezza faz uma crítica mordaz às aparências em geral e, especificamente, trata dos problemas na identidade italiana. Potente.

E antes que alguém me entenda mal, La Grande Bellezza tem sim efeitos especiais. Feitos por Luca Ricci. Mas o que eu quis dizer antes é que este filme não deixa evidentes estes efeitos, porque não tem neles a sua principal qualidade.

La Grande Bellezza estreou em maio no Festival de Cannes. Depois, o filme participaria ainda de outros 12 festivais, incluindo o Karlovy Vary, o de Munique, o de Toronto e o do Rio de Janeiro. Nesta trajetória, a produção ganhou sete prêmios e foi indicada a outros 16. Entre os que recebeu, destaque para o Globo de Ouro italiano de Melhor Direção de Fotografia para Luca Bigazzi; o de Melhor Edição para Cristiano Travaglioli no Festival de Cinema Europeu; e para os prêmios de Melhor Ator Coadjuvante para Carlo Verdone, Melhor Atriz Coadjuvante para Sabrina Ferilli, Melhor Som, Melhor Direção de Fotografia e Melhor Ator para Toni Servillo pelo conjunto de trabalhos (que inclui também Viva la Libertà e Bella Addormentata) dados pelo Sindicato Nacional de Jornalistas de Cinema Italiano.

Como o próprio filme sugere, grande parte de La Grande Bellezza foi rodado em Roma. As cenas na praia, para quem quiser conhecer aquele paraíso, foram feitas na cidade de Grosseto, na Toscana.

La Grande Bellezza teria custado 9,2 milhões de euros e, até o dia 25 de novembro, teria conseguido quase 12,1 milhões de euros nas bilheterias nos mercados em que já estreou. Falta a produção chegar a outros países mas, aparentemente, ela conseguirá algum lucro. Nada perto de um blockbuster, mas um resultado importante para um filme com uma característica tão diferenciada e artística.

Agora, uma curiosidade sobre este filme: ele é dedicado a Giuseppe D’Avanzo, jogador de rugby e jornalista italiano que era amigo do diretor Sorrentino e que morreu no período em que La Grande Bellezza estava sendo rodado.

Paolo Sorrentino é um sujeito a ser acompanhado. Aos 43 anos, este diretor natural de Nápoles tem um currículo com 16 trabalhos, sendo seis curtas (incluindo um feito para a TV), um vídeo documentário, sete longas e dois segmentos em dois longas. O primeiro trabalho dele foi o curta Un Paradiso, de 1994, que Sorrentino dirigiu ao lado de Stefano Russo. Mas ele começaria a ser conhecido 10 anos depois com Le Conseguenze Dell’Amore, um filme que recebeu 10 prêmios e que era estrelado por Toni Servillo e Olivia Magnani. O auge chegou em 2008, quando teve Il Divo: La Spettacolare Vita di Giulio Andreotti indicado ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Eu perdi a oportunidade de assistir a Il Divo. Mas vi a This Must Be the Place, comentado aqui no blog, e que me chamou a atenção pelo estilo.

Agora, Sorrentino está filmando um dos segmentos do filme coletivo Rio, Eu Te Amo, que tem previsão de estrear em 2014. Depois, ele deve abraçar o drama In the Future, em fase de pré-produção e com previsão para chegar aos cinemas em 2015 estrelado por Michael Caine. Não há informações ainda sobre o restante do elenco. Mas algo interessante de observar sobre Sorrentino é que ele tinha, desde o primeiro longa, L’uomo in Più, de 2001, e até La Grande Bellezza, Toni Servillo como o protagonista da maioria de seus filmes.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para La Grande Bellezza. Uma boa avaliação levando em conta a tradição do site. Já os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 55 textos positivos e cinco negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,8. A nota, em especial, é muito boa para os padrões do site. Bacana.

Estão habilitados para concorrer na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no próximo Oscar o total de 76 filmes. A jornada para chegar na lista de cinco finalistas indicados é longa. Mas La Grande Bellezza aparece entre os 10 mais cotados na lista do crítico Peter Knegt, da IndieWire.

La Grande Bellezza é uma coprodução da Itália com a França.

CONCLUSÃO: Em certo momento derradeiro do filme entendemos a razão de seu título. A tal busca pela “grande beleza” pode ser entendida também como a busca pelo “sentido da vida”. Afinal, o que buscamos, o que desejamos no mais profundo do nosso ser? E o que justifica a nossa existência? São as velhas perguntas existenciais que tem múltiplas respostas e, neste filme, algumas delas. Além de provocador, La Grande Bellezza é visualmente maravilhoso. Uma ode à lindas imagens, enquanto mergulhamos em uma Roma de exageros, frivolidade, ambientes cheios de artistas e uma busca despreocupada por algo verdadeiro. Filme marcante, belíssimo e crítico. Lembra o melhor de Fellini. Reformulado, talvez, para a nova geração.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: A cada produção bem cotada na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira do próximo Oscar que eu assisto fica mais evidente como a disputa será das boas. Difícil fazer uma aposta certeira, seja para a lista dos cinco indicados, seja para o filme que sairá vencedor.

A minha torcida estará dividida nesta categoria, não tenho dúvidas. Primeiro porque há muitos filmes realmente bons e merecedores fazendo a tradicional quebra-de-braço. Depois porque eles são tão diferentes entre si que é difícil bater o martelo em apenas um como preferido. O que deve acontecer com a minha torcida é “puxar a sardinha” para alguns mais que para outros.

Por exemplo, não acho que o tão badalado Le Passé (comentado aqui no blog) seja, no fim das contas, o filme com maior quantidade de méritos para levar uma estatueta. É fato que ele tem muitas qualidades, como comentei aqui neste post. Mas em uma disputa com La Grande Bellezza, Jagten (comentado aqui) e Wadjda (com crítica aqui), sem dúvida prefiro estes últimos. Agora, decidir entre um deles está ficando cada vez mais difícil.

Ainda que eu tenha gostado muito de Wadjda, como comentei por aqui, por considerá-lo um filme diferenciado e corajoso, acredito que meu coração e mente ficam mesmo divididos entre a força e ousadia crítica de Jagten e a beleza e o lirismo filosófico de La Grande Bellezza. Estes filmes são extremamente diferentes mas igualmente marcantes. Bem, isso levando em conta que faltam vários filmes para assistir ainda. De qualquer forma, a cada nova produção da lista, fica mais evidente que a disputa será boa. Espero que os melhores cheguem até a reta final.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. La Grande Bellezza (ou The Great Beauty) está na lista das produções que estão mais perto de uma indicação. Os outros filmes que seguem tentando uma estatueta são os seguintes: The Broken Circle Breakdown (Bélgica), An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria) e Omar (Palestina).

Stories We Tell – Histórias Que Contamos

24 de novembro de 2013 6 comentários

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Cada pessoa é uma ilha, um indivíduo completo e cheio de referências, de heranças, capaz de sobreviver por conta própria até um certo ponto mas que se conecta com outras ilhas por escolha e seguindo a característica das relações da nossa sociedade. Mas o que acontece quando uma ilha destas submergiu, não está mais visível, mas as outras ilhas que a conheceram resolvem falar sobre ela? A quem interessa a nossa história, ou a história de qualquer indivíduo? Por que as pessoas querem lembrar, querem ter legado, desejam saber mais sobre as suas origens? Stories We Tell é um destes documentários fascinantes, de derrubar o queixo, não apenas pela história que conta, mas pelas perguntas que desperta em quem assiste ao filme. Um público que não sairá igual após a sessão.

A HISTÓRIA: Cenas de estrada com uma paisagem cheia de neve. O narrador comenta que quando alguém está no meio de uma história, ela não se parece em nada como uma história. Na verdade, tudo parece confuso. Ele dá vários exemplos desta confusão e afirma que apenas tempos depois é possível perceber o que aconteceu como uma história. E isso acontece quando você conta o que aconteceu a si mesmo ou a outra pessoa. Corta. Michael Polley pergunta para a filha, Sarah Polley, diretora do filme, quanto ele deve subir. Ela responde que três andares. Ele continua subindo, até chegar ao estúdio em que vai gravar o áudio como narrador deste filme, um documentário sobre a história da família Polley.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Stories We Tell): Este filme é um verdadeiro perigo. Porque ele merecia um longo texto sobre tudo o que abriga. Impossível escrever aqui, no blog, mesmo que os textos normalmente sejam extensos, tudo o que deveria ser dito sobre Stories We Tell. Mas tentarei falar dos pontos principais.

Toda família é uma confusão. Há segredos, aqui e ali, e leituras muito diferentes sobre as mesmas pessoas. Nenhuma história é simples, aparentemente, e há muito em jogo que jamais será entendido ou explicado. Stories We Tell trata destes pontos, mas vai além. Este documentário fala do próprio interesse ou repulsa das pessoas por exporem as próprias intimidades. Achei muito, mas muito corajoso mesmo o projeto de Sarah Polley em contar a história familiar. Resgatar a memória da mãe morta, personagem onipresente do filme e que jamais terá a capacidade de explicar a própria versão dos fatos. E não é isso que acontece ao nosso redor cotidianamente?

Quantos personagens conhecemos, sejam familiares ou históricos, dos quais ouvimos falar mas que nunca tiveram uma oportunidade de explicar-se? O que sabemos sobre eles é a verdade? E aí Stories We Tell nos lança, mais para o final do filme, a derradeira pergunta: o que é a verdade? Como jornalista, há muito tempo estou convencida de que a verdade não existe. O que conhecemos são fragmentos da verdade. E apenas isso. Porque a verdade completa, plena, não está ao alcance de ninguém. Ainda assim, o que conhecemos não pode ser considerado mentira.

Vejamos. Os sentimentos de uma pessoa sobre o que aconteceu são parte da verdade. E para aquela pessoa, naquelas circunstâncias, são a própria verdade. Daí que seja tão importante Stories We Tell e toda a reflexão que você pode ter feito sobre isso antes ou depois do filme. Saber que o que você presenciou, viu e sentiu é a verdade mas que existem outras verdades tão importantes e relevantes quanto é fundamental. Para não ficarmos tão cheios de nós mesmos, da nossa capacidade de compreender ou de acreditar que tudo pode ser explicado de forma simples. A vida não é assim. E as famílias, consequentemente, também não.

Mas vamos falar diretamente do trabalho de Sarah Polley. Achei fascinante como ela conduziu esta história. Primeiramente, ela mergulha o espectador no meio de uma narrativa confusa. Como a introdução do filme mesmo explica, é como se a gente estivesse vivendo aqueles fatos, no meio da história e, consequentemente, sem perceber que ela é uma história. Quer dizer, até sabemos que ela é uma história, mas somos incapazes de entendê-la. Ajuda neste processo o fato da diretora não identificar as pessoas mais que com o nome delas. Então é com o passar do tempo que entendemos quem é quem. Qual é a relação entre as pessoas.

Esta escolha da diretora faz com que tudo seja uma surpresa para quem assiste a esta história. E ela vai ficando mais e mais complicada e interessante com o tempo. Também bacana a forma com que Sarah foca o próprio trabalho, mostrando desde a chegada do pai dela no estúdio até o trabalho dos dois juntos. Ela não desaparece do processo, como uma narradora “oculta”. Até porque, e o nosso grande Eduardo Coutinho já tinha nos mostrado isso, ela é parte da história. Nada mais justo que vermos como ela trabalha e como ela conseguiu fazer este documentário.

Só depois de bastante tempo é que vamos entender a importância daquelas palavras do narrador. O que desperta a vontade de assistir novamente ao filme, para perceber as palavras de outra forma. Afinal, a história se torna mais fascinante conforme ela evoluiu e entendemos a responsabilidade e o papel de cada um dos “personagens” que aparecem nela. E essa lógica é como a vida mesma. Só vamos perceber a importância e o papel que nós mesmos e a outras pessoas que conhecemos desempenham ou desempenharam conforme o tempo passa.

Impossível assistir Stories We Tell e não ficar fascinado pela história dos Polley e dos Gulkin na mesma medida em que refletimos sobre a nossa própria história. E das nossas famílias. O quanto você sabe sobre o seu pai, ou sua mãe? Além da história deles, sobre o que eles sentiram ou pensaram? E você mesmo, o quanto você é transparente com os demais? No fim das contas, fica evidente que a tentativa de Sarah em contar a história da própria família e, consequentemente, dela própria, é falha. Como será falha qualquer tentativa de tentar chegar na verdade completa.

Mas tentar é importante. E é tão bonito! E o que eu achei mais bacana desta fascinante e muito humana história de Stories We Tell é a forma com que cada pessoa enxerga tudo o que aconteceu. Cada um tem a própria ótica mas, e o bacana de tudo isso, é que os filhos de Diane não olham para ela com dureza. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pelo contrário. Exceto talvez por Mark, o mais sério dos irmãos de Sarah e o que parece ter se decepcionado mais com a mãe ao descobrir que ela foi infiel no casamento com Michael, os demais tinham uma leitura aparentemente bastante justa sobre as diferenças do casal Diane e Michael e sobre o “bacana” que foi a mãe deles ter se sentido valorizada e encontrado o amor junto a Harry.

Achei essa visão generosa muito interessante. E um desafio para a maturidade de qualquer filho que, normalmente, tem a tendência de buscar a perfeição nos pais. Mas vamos lá, nossos pais são humanos como a gente. E se nós somos falhos e cometemos erros, por que nossos pais não seriam assim também? E afinal de contas, o que de fato é errar? O primeiro choque de Stories We Tell para mim foi quando os entrevistados no filme revelam que Diane pensou em abortar a última filha que era, justamente… Sarah! Uau! Inicialmente, me coloquei no lugar dela e fiquei pensando o quanto difícil deve ser você saber que os seus pais pensaram em não ter você.

Mas daí, por várias razões, Diane mudou de ideia. E Sarah nasceu. E o mundo ganhou uma ótima atriz e diretora. E conforme Stories We Tell vai se desenvolvendo, passamos a entender melhor o porquê da ideia do aborto ter passado pela cabeça de Diane. E não foi apenas porque ela tinha mais de 40 anos. E daí surgem os outros “choques” da história. Interessante como todos lidaram com os novos fatos, especialmente Sarah.

Este filme, que pelo gosto de Harry Gulkin seria totalmente narrado por ele – que chegou a escrever um livro a este respeito, mas teve a ideia criticada por Sarah -, ganha diversas matizes pela forma com que a diretora resolveu contar a história. Além dos depoimentos de pessoas diretamente envolvidas nos fatos, temos a narração de Michael, que nada mais é que um corajoso texto de sua autoria escrito logo após saber da real paternidade de Sarah, e uma interessante troca de e-mails pessoais entre a diretora e seus dois pais.

Dando ritmo e dinâmica para o filme, além dele seguir uma lógica temática do início ao fim – começando pelas cenas de bastidores e dos principais entrevistados se arrumando para as perguntas frente às câmeras até as perguntas similares sobre o câncer de Diane e etc. -, ajuda na narrativa o vasto material de imagens de época pessoais da família. Elas estão presentes desde o princípio, garantindo que Stories We Tell tenha uma personagem ausente que ajuda a contar a história o tempo inteiro: Diane, através destas imagens de arquivo e com as pessoas falando dela.

Agora, não demora muito para o espectador perguntar-se sobre o que teria levado Sarah Polley a expor a família e a si própria tanto assim? E o mais bacana de Stories We Tell é que esta pergunta está presente. Assim como o “desconforto” de alguns dos entrevistados, especialmente os pais de Sarah, Michael e Harry, em não terem o controle da história nas mãos. Isto é o que torna este filme tão diferenciado. Porque ele não conta apenas uma história muito humana e fascinante, mas também questiona a si próprio e as motivações das pessoas. Além do próprio sentido da exposição e da verdade. Quantos filmes você conhece que já fizeram ou fazem isso?

Para mim, houve dois momentos especialmente importantes. Quando Michael, depois de saber de toda a verdade, pondera sobre “porque falamos, falamos e sem transmitir o que realmente somos” e quando, motivada por um e-mail de Michael, Sarah pensa sobre as razões “escondidas” que podem estar motivando-a a fazer este filme – além daqueles citados antes, de resgate da memória familiar e para discutir o próprio sentido de verdade.

De fato, muitas vezes na nossa vida percebemos que falamos demais. Não por ser exagerado, mas porque muito foi dito de fato. E no fim das contas, o que de verdade cada um de nós falou sobre si mesmo? O quanto fomos e/ou somos verdadeiros? E o quanto representamos por uma série de convenções ou necessidades? O questionamento de Michael é válido. Assim como a reflexão de Sarah sobre a própria motivação. E o questionamento dela é pertinente para qualquer um de nós em época de Facebook, Twitter e afins: por que, afinal, nos expomos?

No caso de Sarah, fica evidente que ela está buscando a identidade da mãe que morreu. E não apenas dela, mas da própria família e, por consequência, de si mesma. No fim das contas, ela presta uma corajosa homenagem para a mãe e, por tabela, a todas as mães e famílias que seguem dando continuidade para a humanidade.

A história também conta a busca da diretora pelo próprio pai – evidentemente. Mas não é apenas isto. Diz aquela velha frase que “recordar é viver”. E resgatar a história de alguém é como que tentar prolongar aquela vida, aquelas lembranças e sentimentos. Por isso homenageamos os mortos. E por isso seguimos contando as nossas próprias histórias.

Não tenho dúvidas de que a exposição das pessoas atualmente, muito mais simples e ampla do que antigamente, é esta nossa busca por permanecer. Por seguir com alguma presença e relevância além da nossa insignificância e mortalidade. O ser humano, acredito que desde o princípio, tenta ser menos efêmero do que é de fato. Acho que esta é uma condição tão inerente a nossa condição quanto a de querer viver o máximo possível – sentido de sobrevivência.

Stories We Tell fala de tudo isso de uma forma muito bonita, corajosa e como homenagem à memória das pessoas que ajudaram a moldar a vida uma das outras. Lindo filme. Inteligente, sensível e muito bem acabado. Sarah conta a sua história mas, porque não dizer, a nossa também.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Teve um outro tema levantado por Stories We Tell que eu não mencionei antes: o amor sempre é desigual. Interessante o filme tratar disso porque esta é, sem dúvida alguma, uma das grandes verdades que vamos aprender com o passar do tempo. Em uma relação sempre, mas sempre mesmo, há uma entrega diferente entre as pessoas. Por isso mesmo, sempre achei inútil e idiota as pessoas perderem tempo “medindo” afeto. Ele é e sempre vai ser desigual.

Isso vale para qualquer relação. Mas especialmente nos casamentos eu acho que esta constatação é válida. Uma pessoa ama e se entrega mais para a outra do que vice-versa. E não vejo isso como um problema, desde que as pessoas não cobrem um retorno diferente. E nem queiram sempre medir o amor.

Duas pessoas estarem e ficarem juntas por muito tempo, como foi o caso de Michael e Diane, depende mais que tudo de uma escolha. Decisão esta baseada em amor, compromisso, afeto, respeito e tantos outros elementos. Mas dificilmente uma pessoa vai encontrar na outra aquilo que lhe falta. Ter estas expectativas pode ser natural, mas também é uma grande cilada. Stories We Tell nos fala um pouco sobre tudo isso.

Sarah Polley é uma pessoa fantástica. Falo isso sem conhecê-la, evidentemente. :) Mas admiro a diretora, roteirista e atriz há muito tempo. Como atriz, passei a observá-la com muito mais atenção desde My Life Without Me, de 2003, dirigido pela ótima Isabel Coixet. E como realizadora, atuando como diretora e roteirista, desde o lindo e sensível Away From Her, de 2006, comentado aqui no blog. Admiro Sarah pelas escolhas que ela fez – e sabemos que as escolhas de alguém falam muito sobre aquela pessoa.

Vale comentar um pouco sobre a trajetória de Sarah Polley. Ela começou a atuar como atriz muito, muito jovem. Fez uma ponta na série de TV Night Heat em 1985, quando tinha apenas seis anos. No mesmo ano, participaria do primeiro filme, One Magic Christmas. Nesta época a mãe dela ainda estava viva – Diane Polley iria falecer apenas em 1990. Os pais de Sarah ficaram mais conhecidos pela carreira no teatro, mas buscando mais informações sobre eles no site IMDb foi possível perceber que Diane participou de algumas séries de TV e que Michael também fez alguns papéis no cinema.

Algo que achei interessante neste filme é a postura de Sarah Polley em querer defender a história da própria família. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, ela não acha que seja adequado Harry Gulkin sair publicando a sua ótica do que aconteceu. Por outro lado, ela torna Michael Polley o narrador de Stories We Tell. É como se ela deixasse muito claro de que família ela veio. Ok, Harry é o pai biológico dela. Sarah é fruto de uma paixão verdadeira. Mas quem esteve com ela desde o princípio? Quem foi mãe e pai de Sarah quando Diane morreu? Certo que Michael parecia não satisfazer as necessidades de Diane, mas é evidente em Stories We Tell o cuidado e o amor que Sarah tem por ele. Achei muito bonita a homenagem que ela faz para Michael e Diane, independente dos problemas que eles tiveram ou dos defeitos que possam ter tido. Eis uma linda declaração de amor familiar.

Stories We Tell funciona porque ele é feito de surpresa, momentos engraçados e emocionantes. Tudo está ali. E há trechos verdadeiramente preciosos. Um dos meus preferidos, na parte de humor, é quando Michael brinca sobre a “falta de coração” da filha, Sarah, quando ela está trabalhando. Ele se recorda de um vídeo que ela fez com ele mergulhando na piscina, uma alegoria para a “falta de tato” que ela está tendo agora, com Stories We Tell. Interessante.

Da parte técnica do filme, além da ótima direção e narrativa feita por Sarah Polley, logo no início do filme me chamou a atenção a ótima trilha sonora com arranjos de Jonathan Goldsmith. A maioria das músicas é de composições de Abraham Lass. Também excepcional o trabalho da diretora de fotografia Iris Ng e a edição de Mike Munn. Trabalho irretocável.

Vale citar o comentário de Sarah no início do filme: eles não estavam fazendo apenas um documentário, mas haviam desenvolvido um “processo de interrogatório”. Em alguns momentos, é isso que parece. Mas de forma muito sutil. E daí fiquei pensando: e o que um documentário e uma matéria jornalística são, de fato, além de espécies de interrogatórios? Perguntar e não parar de buscar respostas são recursos básicos para uns e outros.

Como comentei antes, Stories We Tell tem diversos momentos divertidos. Engraçadas, por exemplo, as reações dos irmãos de Sarah e de seus pais em diversos momentos. A própria diretora é personagem da história, não apenas por ser um ponto fundamental de tudo o que aconteceu com a família, mas por ser a condutora do filme. Interessante como algumas vezes ela faz uma pergunta, especialmente a primeira da produção, e ri do que está fazendo porque sabe como os outros vão reagir.

Como em qualquer família, na de Sarah as personalidades de cada um dos irmãos é diferente. Joanna é, para mim, a mais divertida. Ela tem um espírito sarcástico e direto muito interessante. Susy aparece menos, parece ser mais séria e emotiva. Mark faz as vezes do irmão mais sério, e aquele que fica um tanto decepcionado com Diane, enquanto John é o mais descontraído e aquele que entende as fraquezas e fortalezas de todos com naturalidade. Interessantes todos eles. Esta diversidade ajuda a dar graça para Stories We Tell.

Em certo momento, quando Harry questiona o filme da filha, interessante como ele tenta explicar a probabilidade da verdade ser contada. Quando ele fala sobre as pessoas diretamente envolvidas nos fatos e nos círculos de gente que vão se aglutinando a estas pessoas, fica ainda mais clara a identidade e o envolvimento dos entrevistados no filme.

Os personagens diretos, claro, são Harry e Michael – ainda que Harry acredite que apenas ele e Diane poderiam contar aquela história de forma legítima. Ele está certo sobre a história do romance deles, mas sobre o quadro completo, sem dúvida, Michael e os demais, especialmente os filhos que ficaram com o primeiro marido dela, tinham elementos importantes para revelar. Depois de Harry e Michael, o círculo seguinte de “contato com a verdade” é dos filhos. Depois, vem o círculo de amigos e outros familiares que acompanharam as histórias em segundo plano. Interessante pensar nestas “camadas narrativas” ao pensar sobre qualquer história.

Aliás, vale deixar um pouco mais clara a filiação de cada um dos irmãos de Sarah. Susy e John nasceram no primeiro casamento de Diane e acabaram ficando sob a guarda do pai. Mark, Joanna e Sarah nasceram do casamento de Diane e Michael.

Stories We Tell estrou em agosto de 2012 no Festival de Cinema de Veneza. Depois o filme participaria de outros 19 festivais, sendo o último deles o Festival de Cinema de Lisboa e Estoril agora, em novembro. Nesta trajetória, o filme conquistou cinco prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Documentário e Melhor Filme Canadense dado pela Associação de Críticos de Cinema de Toronto.

Não encontrei informações sobre o custo de Stories We Tell. Mas segundo o site Box Office Mojo, a produção conseguiu pouco mais de US$ 1,6 milhão nas bilheterias dos Estados Unidos. Ou seja, até o momento, este é um filme muito mais popular nos festivais de cinema do que entre o grande público. Reparei também que o filme nunca chegou a muitas salas de cinema. O máximo, segundo o site IMDb, foram 70 salas durante uma semana, em junho deste ano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para Stories We Tell. Uma avaliação muito boa, levando em conta a média do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 100 textos positivos e apenas cinco negativos para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média de 8,6.

De acordo com alguns críticos, como Peter Knegt da IndieWire, Stories We Tell é um forte candidato ao Oscar 2014 de Melhor Documentário. Disputariam com ele, segundo Knegt, filmes como 20 Feet From Stardom, Tim’s Vermeer e Blackfish. Logo mais veremos se, de fato, Stories We Tell consegue uma vaga na lista final de indicados ao Oscar.

Stories We Tell é uma produção 100% do Canadá.

Ah, como eu estava com saudade de um bom documentário. Infelizmente eu acabo assistindo a eles principalmente na época pré-Oscar. Mas este gênero de filmes é excelente. Especialmente pela diversidade de histórias e de formas de narrativa. Quero ver se vejo a outros documentários em breve.

CONCLUSÃO: Brilhante. Esta foi a primeira definição para este filme que passou pela minha cabeça quando ele já tinha se desenvolvido além da metade. Contar histórias é algo fascinante e talvez uma das mais nobres e bonitas capacidades do ser humano. Mas nem todos sabem contá-las com maestria. A diretora Sarah Polley é uma destas pessoas que sabe como fazê-lo. Neste documentário forte e que explora a intimidade dela e da família de forma contundente, Polley dá uma aula de cinema. Nos mostra como contar uma história não é apenas encadear fatos ou, tratando-se de um documentário, fazer as pessoas falarem de forma sincera e surpreendente. Contar uma história é esconder e revelar fatos com inteligência e de forma com que o espectador sinta-se quase um personagem.

Stories We Tell é fascinante não apenas por ter histórias muito humanas, com valores potentes como o amor pela vida, a valorização da família, a fortaleza e a fraqueza que compõe qualquer indivíduo. Mas também porque aborda temas tão caros para o nosso tempo, como podem ser a exposição da intimidade das pessoas para desconhecidos, a busca pela própria identidade e pela verdade. O que é a verdade? A quem interessa uma história particular? Perguntas importantes e para as quais Stories We Tell joga alguma luz, mas com a sabedoria de deixar a reflexão e as respostas ao gosto de cada espectador. Brilhante. Perfeito. Uma aula de cinema e de contemporaneidade.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Não existe, ainda, uma pré-lista de documentários para o próximo prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Por enquanto, a Academia divulgou apenas a lista de filmes que estão disputando uma vaga na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, assim como os longas e os curtas de animação que estão habilitados para o próximo Oscar e os finalistas para Melhor Curta de Ficção.

O que existe, por enquanto, são especulações sobre os filmes que podem chegar na reta final da categoria Melhor Documentário. O crítico Peter Knegt, como eu comentei antes, é um dos que acredita que Stories We Tell tem grandes chances de estar entre os cinco indicados ao Oscar. Ainda não vi aos outros candidatos bem cotados, mas posso afirmar, desde já, que Stories We Tell merece chegar lá.

Primeiro porque é um documentário bem diferente do que estamos habituados a assistir. Ele inova na narrativa e na proposta conceitual. Além de funcionar muito bem porque tem humor, surpresas e emoção. Além de ser um filme que fala muito sobre o nosso tempo – tanto pela busca incessante pela importância da família quanto pela crescente preocupação sobre a privacidade e/ou a exposição das pessoas. É cedo ainda para falar se este é o meu favorito ao Oscar. Mas, sem dúvida, sou uma apaixonada por esse filme e, até assistir aos demais, meu voto iria para ele. :)

Out In The Dark – Além da Fronteira

23 de novembro de 2013 6 comentários

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O amor não conhece qualquer barreira. Mas elas existem. Em alguns lugares, de forma muito mais presente, cotidiana e física do que em outros. Out In The Dark conta a história de amor de dois jovens que se encontram em uma noite qualquer, como tantos outros jovens já se encontraram. E que acabam desafiando as diversas fronteiras que existem ao redor para tentar viver este amor. Uma forma muito diferente de ver a questão Israel versus Palestina. Acima de tudo, uma narrativa universal.

A HISTÓRIA: Um jovem anda à noite. Passa por terrenos baldios, sobe em um morro, até que se esconde ao avistar uma patrulha. Depois que ela passa, Nimr Mashrawi (Nicholas Jacob) corre e consegue passar pela fronteira. Ele vê a cidade por um vidro até que chega a uma boate. Ele assiste ao final do show e quando tenta pedir uma bebida, sem êxito, conhece a Roy Schaefer (Michael Aloni), que está ao lado dele no balcão do bar. Eles começam a flertar, até que aparece Mustafa Na’amne (Loai Nofi), amigo de Nimr. No fim da noite, depois de conversarem muito, Nimr consegue uma carona para voltar para Ramallah, na Palestina, distante 10 quilômetros de Jerusalém. Mas este é apenas o começo dos encontros entre Nimr e Roy em Tel Aviv.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Out In The Dark): O primeiro acerto deste filme é a naturalidade com que o roteiro do diretor Michael Mayer, escrito junto com Yael Shafrir, evolui conforme o tempo vai passando. E o segundo acerto é a duração de Out In The Dark.

As histórias de Nimr e de Roy se assemelham a de tantos outros casais. Homossexuais ou heterossexuais, tanto faz. Quantas pessoas já encontram o amor (ou um amor) em um bar, em uma aparente noite qualquer com uma apresentação musical com chamariz? Uma conversa despretensiosa mas cheia de intenções começa meio sem querer perto de um balcão e se estende por horas. Até é possível lembrar daquela música da Legião Urbana: “… Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer/ e conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer…”. E a vontade, o desejo de seguir, de conhecer a pessoa, leva a um segundo encontro, e a outro, e a outro…

Em Out In The Dark é isso o que acontece entre os protagonistas. Mas há uma série de elementos que cerca a realidade deles e que torna o filme ainda mais interessante – afinal, esta não apenas uma história de amor. Pouco a pouco o roteiro de Mayer e Shafrir mostra a ótica dos palestinos e dos israelenses sobre uns e outros. A família de Nimr, uma destas famílias árabes que parecem ser comuns na fronteira da Palestina com Israel, não admite o contato entre os dois povos.

O irmão de Nimr, Nabil (Jamil Khoury), em especial, não entende o porquê do irmão querer estudar em Tel Aviv. Em certo momento do filme, ainda no início da história, Nabil diz que confia que o irmão vai conseguir avançar nos estudos fora do país sem “se submeter” à ajuda dos israelenses. Na verdade, ele defende um boicote às universidades do país vizinho – como se fosse possível os “inimigos históricos” contaminarem os árabes com o aprendizado acadêmico.

Pela história da família de Nimr – e, depois, pelo comportamento dos agentes da Segurança Nacional israelense – não há espaço para entendimento entre os dois povos. Para eles, o ideal seria uma fronteira inviolável e contato zero entre palestinos e israelenses. Mas a divisa é porosa. Israel tem mais oportunidades e, como qualquer país com esta característica, atrai pessoas que buscam avançar além das limitações dadas em seu ambiente próprio.

Além disso, e esta informação começa a ficar evidente com o fim trágico de Mustafa, existe o tratamento muito desigual dos homossexuais naquele contexto. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Segundo a reação da família de Nimr, para uma família árabe é uma verdadeira “desgraça”, uma grande vergonha e degradação ter um homossexual entre os seus integrantes. Do lado israelense, parece que o preconceito é menor – ainda que a mãe de Roy, Rina (Chelli Goldenberg), não parece aprovar o comportamento “espalhafatoso” e de “esfregar na cara” dos pais a “condição” de homossexual do filho, ele não viu problema de se assumir frente aos pais e de viver uma vida aberta. Muito diferente de Nimr, que sabe que será um “párea” social – e rejeitado pela própria família.

Não é por acaso que alguns árabes queiram buscar a “liberdade” maior que o lado israelense parece oferecer. Há mais oportunidades por lá em todos os sentidos. Mas aí entra o trabalho de espionagem e controle social dos agentes da Segurança Nacional de Israel, que buscam de todas as formas controlar a fronteira e impedir uma “invasão árabe”. Do lado palestino, muitas pessoas, a exemplo de Nabil, consideram uma verdadeira traição quem cruza a fronteira e “troca” a Palestina por Israel – mesmo que forem motivados pela legítima busca por melhores condições de vida.

Conforme a história de Out In The Dark vai passando, o espectador espera que algo terrível aconteça com Nimr. Ou mesmo com Roy – ainda que o perfil do filho do aparentemente poderoso Eitan Schaefer (Alon Oleartchik) pareça ser mais de “costas quentes”. A química entre os protagonistas, que são lindos e encarnam bem os respectivos papéis, e essa tensão crescente alimentada pelo roteiro de que a qualquer momento algo de trágico vai acontecer, segura a atenção do público até o final.

Porque os riscos de Nimr são maiores. Ele é pressionado pela Segurança Nacional, que busca um delator do lado palestino. Sofre pressão do “segredo” de ser gay e pelo perigo das armas que o irmão esconde na casa da família servirem de estopim para algum ato violento. Quando ele perde o visto para continuar estudando em Tel Aviv, algo que ele batalhou por muito tempo, o desespero aumenta não apenas porque ele foi ameaçado pela Segurança Nacional, mas porque ele terá que deixar de ver Roy. Talvez para sempre.

Parece aquela situação de “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Se ele resolve ir para Tel Aviv sem o visto, corre sério risco de ser preso. E depois que é “descoberto” pela família, se ele é “deportado” de volta para Ramallah, provavelmente será morto pela família, por causa da “vergonha” de ser gay, ou assassinado pelo grupo de palestinos que considera pessoas como ele traidoras da “causa”.

A forma natural e “reconhecível” com que a história é contada e a tensão crescente da narrativa funcionam muito bem. E a produção, como 99% dos filmes do mundo deveriam, tem o tempo adequado de 1h30min de duração. Este é o “timing” adequado para quase todas as histórias, porque ajuda a manter a atenção do espectador e facilita a história a não sofrer com as terríveis “baixadas” narrativas – ou, em alguns casos, enrolação pura e simples. Não há espaço para isso em Out In The Dark, que dá o tempo exato para apresentar os personagens, os entornos deles e o romance que começou naquele bar no início na história.

Diferente de outros filmes, Out In The Dark mergulha na disputa entre palestinos e israelenses com uma história muito humana e que não se restringe ao público gay. Porque qualquer pessoa é capaz de discordar do risco que paira sobre a cabeça de Nimr. Ninguém deve ser perseguido ou executado de forma sumária sem ter feito nada contra ninguém – “ser atacado por ser inocente”, para citar outra letra da Legião.

Mas há quem ficará insatisfeito com o final aberto de Out In The Dark. E eu até entendo este incômodo… afinal, o espectador ficou envolvido com a história e, de repente, ela termina sem uma conclusão óbvia. Diferente de outros filmes, em que o que acontece após o minuto final da produção está mais subentendido. Em Out In The Dark tanto Nimr pode ser pego no meio do caminho pela Segurança Nacional de Israel quanto ele pode chegar até um local seguro em que peça asilo por questão humanitária. Roy de fato pode ficar preso bastante tempo ou, por intermédio do pai, conseguir uma liberdade provisória e escapar para encontrar-se com Nimr no Exterior. Impossível saber. Fica ao gosto dos mais esperançosos ou dos descrentes o desfecho para esta história de amor.

Independente do que possa ter acontecido, este é um filme que funciona. E da minha parte, como sempre tendo para o lado da esperança, acredito sim que Nimr conseguiu se livrar a tempo e que ele iria encontrar Roy tempos depois, quando a Segurança Nacional de Israel desse uma liberdade provisória para o amante preso. Ainda que a liberdade de Roy fosse mais difícil, já que o tema da segurança nacional muitas vezes passa por cima dos direitos básicos dos cidadãos. Mas Roy fez o que deveria fazer, provavelmente salvando a vida de uma pessoa inocente – e de quem ele amava.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei muito curiosa para saber mais sobre a realidade dos homossexuais nos países árabes. E encontrei neste site, o Instituto Cultura Árabe, uma valiosa entrevista com Georges Azzi, coordenador em 2005 da Organização Não-Governamental Helem, o primeiro grupo criado para defender o reconhecimento dos direitos dos homossexuais nos países árabes. Ele fala não apenas do surgimento da ONG e da proposta do grupo, mas sobre a realidade difícil dos gays naquele cenário. Bem interessante.

A disputa entre israelenses e palestinos parece um destes conflitos que não tem fim. Algumas vezes a discussão avançou para, depois, retroceder outra vez. As razões para uma disputa como esta durar tanto tempo, claro, não tem a ver apenas com religião. Passa por questões econômicas (dinheiro, sempre dinheiro!), históricas e políticas. Este texto introduz o assunto de forma didática. Da minha parte, evidentemente que eu torço pelo fim dos conflitos e disputas. Mas também acho que, até hoje, os israelenses foram sempre mais favorecidos e protegidos que os árabes. O que fica difícil de achar correto. Agora, inevitável perceber os absurdos praticados pelos dois lados desde o século 19. Lamentável.

Achei a proposta de Out In The Dark bastante corajosa e potente. E buscando saber um pouco mais sobre o filme, após escrever a crítica acima, descobri em textos como este, do Blouin Artinfo, que ele virou um “hit discreto” mundo afora por causa da participação de sucesso em diversos festivais. Como bem pondera o texto do site, a produção dirigida por Michael Mayer faz parte de uma leva de produções reconhecidas por crítica e público e que tiram os filmes com protagonistas gays do circuito restrito ao público homossexual ou de simpatizantes. Blue is the Warmest Color e Jellyfish são exemplos de como o “tabu” sobre estes filmes está sendo quebrado, para citar a interpretação de Robert Michael Poole.

No mesmo texto citado acima há uma entrevista com o diretor de Out In The Dark. Mayer explica, por exemplo, porque estreou em longas com esta história entre um “amor proibido” entre um casal gay em zona de conflito. Interessante que ele foi motivado pelas histórias que um amigo que trabalhou em uma ONG em Tel Aviv ouviu e que fez ele ficar chocado. Daí que ele resolveu compartilhar aquele cenário com quem quisesse ver/ouvir. Isso é fazer diferença com o cinema. Ou tentar, pelo menos.

Gostei da definição do diretor: “Esse filme não coloca os ativistas (da ONG do amigo dele) em primeiro plano. É uma história de amor íntima na qual os dois protagonistas estão tentando se desprender e viver suas vidas”. Apenas isso. E por que é preciso ser tão complicado?

Falando em algo complicado, houve um pequeno detalhe do filme que eu achei forçado e que, infelizmente, diminui uns pontos na avaliação de Out In The Dark. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O que explica a Segurança Nacional de Israel invadir de forma tão fácil uma residência familiar em Hamallah? Afinal, segundo o Google Maps, Hamallah fica a cerca de 21 quilômetros da fronteira com Israel, algo como 25 minutos de carro. Sério mesmo que os palestinos não tem uma boa proteção de fronteira para impedir que um grupo do país vizinho chegue em uma casa e leve armas e pessoas? Achei bem pouco provável aquilo. Além disso, outro fator que fez o filme receber a nota que recebeu, e não uma maior, é que eu acho que ele poderia ser um pouco mais contundente. Havia espaço para ousar mais.

Achei curioso saber, na entrevista com Mayer, que Michael Aloni, que interpreta a Roy, é uma grande estrela em Israel. Bacana um ator que está tão na “crista da onda” entrar em um projeto como este, corajoso em abordar temas polêmicos e que ajuda a denunciar absurdos que, mesmo apenas inspirados em histórias reais, revela-se bastante legítimo. Interessante também saber que está “acontecendo uma onda recente de filmes israelenses gays”. Que, diferente das novelas da Globo, não evitam de mostrar a intimidade entre amantes gays.

Além dos atores já citados, vale citar o bom trabalho de Khawlah Hag-Debsy como Hiam, mãe de Nimr; Maysa Daw como a irmã do protagonista – e a única que parece se importar pouco com o fato do irmão ser gay; e Alon Pdut como Gil, o chefão daquele grupo da Segurança Nacional israelense.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de Michael Mayer, que segue a linha de um filme “naturalista”, quase um documentário. Funciona bem a edição de Maria Gonzales, a captação dos sons ambientes e a trilha sonora de Mark Holden e Michael Lopez.

Out In The Dark estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto em setembro de 2012. Depois, ele fez uma longa caminhada por diversos festivais. O último foi agora, em setembro, no Festival de Cinema Queer de Lisboa. Nesta trajetória, o filme acumulou 11 prêmios e foi indicado a outros cinco. Dos que recebeu, quatro foram em festivais abertos para qualquer tipo de filme e, o restante, em eventos dirigidos para o cinema gay.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para Out In The Dark, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 16 críticas positivas e seis negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 73% e uma nota média de 6,6. Eis um destes raros empates “técnicos” entre os dois sites. :)

Out In The Dark é uma coprodução de Israel com os Estados Unidos e a Palestina. Por ser majoritariamente um filme israelense, não vou colocá-lo na lista de filmes dos EUA que estão rendendo uma série de comentários no blog como fruto de uma votação feita por aqui.

CONCLUSÃO: Este não é um filme tradicional. Ainda bem. Porque o mundo está cheio de histórias não tradicionais e que são ignoradas pelas pessoas. Importante dizer, logo de cara, que esta produção é protagonizada por dois gays. Então se você é um preconceituoso, faça um favor para todos nós e vença o teu preconceito ou fique longe deste filme. Dito isso, acredito que qualquer espectador interessado em assistir a bons filmes, independente da origem, deve ter visto algumas histórias sobre a aparentemente eterna disputa entre palestinos e israelenses. Out In The Dark foca os efeitos práticos desta disputa na fronteira. Há alguma arma, aqui e ali, mas não é a questão armamentista que está em jogo. E sim a vigilância e o medo constante, especialmente sobre pessoas que não seguem o “padrão desejado”.

Os gays sofrem uma perseguição ainda pior neste cenário, e Out In The Dark tem a coragem de abordar este tema. Uma verdadeira vergonha, na minha opinião. E uma questão humanitária. Não por acaso o pedido de ajuda exterior é o último recurso vislumbrado por um dos protagonistas. Filme bem dirigido, com ótimos atores nos papéis centrais e com um roteiro envolvente, Out In The Dark foge do lugar-comum do início até o final. Não sabemos bem o que irá acontecer depois da última cena. Mas ainda que as perspectivas não sejam boas, há esperança. Terminar com esta mensagem, apesar de todo o contexto, também é um ato de coragem. Bela história, ainda que triste. Mas é importante tratar destes romances que ainda são, de forma absurda, proibidos, para que um dia esse cenário mude.

Captain Phillips – Capitão Phillips

15 de novembro de 2013 9 comentários

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As histórias reais contadas pelo cinema sempre guardam elementos de interesse para o público. Captain Phillips não foge da regra. Neste filme somos apresentados a procedimentos de resistência e de ataque no mar, o que garante a parte da ação. E também a uma história emocionante, de um sujeito que comum que é muito bom no que faz e que vive períodos de tensão extrema. De quebra, existe de fundo um debate interessante sobre o abismo social que existe no mundo – e que, surpresa para o espectador, também coloca em posições opostas algumas pessoas no mar.

A HISTÓRIA: Na cidade de Underhill, em Vermont, o capitão Richard Phillips (Tom Hanks) se prepara para zarpar em mais uma viagem no dia 28 de março de 2009. Ele adiciona na bagagem o documento de marinheiro mercante e uma foto de família. A mulher dele, Andrea (Catherine Keener) acompanha o marido no carro e diz que, ao invés destas viagens ficarem mais fáceis conforme o tempo passa, elas parecem mais difíceis. No caminho até o aeroporto, o casal fala sobre os dois filhos.

Andrea está preocupada que tudo parece estar mudando muito rápido, enquanto Richard se diz preocupado com o mercado de trabalho, muito mais exigente que antigamente, o que poderá tornar o caminho de um dos filhos, Danny, que anda matando aula, muito mais difícil. Depois, acompanhamos a jornada do capitão Phillips em mais uma viagem. Que diferente das outras, será interrompida por piratas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Captain Phillips): Um bom roteiro faz toda a diferença. Recentemente eu comentei isso por aqui, quando falei de Gravity, um dos fortes candidatos em várias categorias do próximo Oscar. Enquanto no filme estrelado por Sandra Bullock falta um texto melhor, em Capitan Phillips o trabalho de Billy Ray sobre o original de Richard Phillips e Stephan Talty é exemplar.

Não é fácil adaptar para o cinema uma história em que sobram dados técnicos e que mexe com um tema que pouca gente se importa: a batalha entre grandes empresas comerciais, sediadas em países ricos, e os pobres coitados do litoral africano. Não tenho ideia de como o trabalho de Phillips e Talty se desenvolvem no livro A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALS, and Dangerous Days at Sea, que inspirou o filme. Mas sei que Ray conseguiu dividir bem os momentos de ação, que cercam grande parte da trama, com vários de tensão e um final arrebatador.

Claro que apenas um ótimo roteiro não adianta. Quantos filmes você já assistiu que até tinham um bom texto, mas que decepcionaram com a escalação e/ou atuação do elenco? Pois bem, outra qualidade de Captain Phillips foi a escolha do protagonista e do principal coadjuvante. Não é por acaso que muitas bolsas de apostas apontam boas chances de indicações para o Oscar para Tom Hanks e Barkhad Abdi (Richard Phillips e Muse, respectivamente).

Mas vamos falar do filme propriamente dito. Primeiro, achei importante que o roteiro de Ray apresenta rapidamente, e na sequência, as realidades de Phillips e Muse. Afinal, eles seriam as principais figuras da queda-de-braço que acompanharíamos nesta produção. Somos apresentados a eles e ao local em que eles vivem, e pouco mais que isso. A ideia do roteiro é não perder muito tempo com a história de vida de cada um deles – afinal, quanto menos soubermos, maior o nível de incerteza sobre as suas motivações, sobre a formação que tiveram para aqueles momentos de tensão e sobre o que eles podem temer perder.

Claro que seria interessante sabermos mais de cada personagem, para termos uma contextualização maior da vida dos protagonistas. Por outro lado, é acertada a escolha do roteirista em deixar esta lacuna no filme porque ela, como afirmei há pouco, alimenta a dúvida no espectador. Para quem gosta de ação, Captain Phillips não demora muito para desenvolver as situações de conflito.

Achei interessante como Muse, apesar de ser o cara que escolhe a tripulação para as missões de ataque a navios cargueiro, tem uma posição frágil no grupo. É possível perceber a tensão entre os piratas desde o início. E como Muse não é um cara forte, ele não impõe a autoridade naturalmente. Mas conforme o filme se desenvolve, percebemos que ele sabe agir nos momentos precisos porque é inteligente e também sabe ser violento.

De qualquer forma, desde o princípio, e isso é um elemento importante, percebemos que existem discordâncias e rivalidades entre os homens que vão atacar o navio comandado por Phillips. E no próprio navio cargueiro também existem divergências – mas elas são de outro tipo. E aqui fica evidente o abismo que separa os dois lados desta história: enquanto os piratas ameaçam agressões por quase nada, como uma “encarada” em momento errado, os tripulantes do navio Maersk Alabama discordam por estarem em uma situação frágil, sem armas, e tem em alguns sindicalizados a figura do protesto. Que facilmente é contornado – muito diferente da realidade de Muse.

Com o desenrolar do filme, observamos procedimentos e um linguajar técnico desconhecidos dos leigos. Um elemento a mais de interesse na história e que não chega a pesar porque o filme logo parte para a ação do ataque de quatro piratas ao navio Maersk Alabama. Mesmo inicialmente parecendo improvável que quatro caras armados em uma lancha conseguiriam render um navio cargueiro gigante como aquele, Captain Phillips comprova que a tarefa não é tão difícil para homens que conhecem o mar e que encontram pela frente pessoas desarmadas.

Mas do lado do navio Maersk Alabama existe a figura do capitão Phillips. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A postura dele é fundamental para que o ataque dos piratas seja frustrado. Ele ganha a disputa nos detalhes, mandando a tripulação esconder-se no local correto, deixando o rádio aberto para que eles soubessem por onde ele seguiria levando os bandidos para percorrer o navio e avisando Shane (Michael Chernus) da chegada deles no local em que eles guardavam os alimentos. Também é fundamental a dica sobre a armadilha com vidros estilhaçados.

A calma de Phillips e os atos inteligentes nos momentos de crise são fundamentais para que a história se reverta a favor da tripulação do cargueiro. Mas a mesma inteligência o espectador não percebe nos companheiros de Phillips. Afinal, como eles conseguiram fazer aquela trapalhada na troca de Muse por Phillips? A ação deveria ter sido outra, mesmo com o nervosinho Bilal (Barkhad Abdirahman) a ponto de sair atirando para todos os lados.

E daí começa o segundo round de tensão no filme. Sabemos que será quase impossível que aquele plano de Muse dê certo. E conforme o filme vai passando, e entram em cena a Força-Tarefa Combinada 151 das Forças Marítimas Combinadas e, na sequência final, os SEALs (força de operações especiais da Marinha dos Estados Unidos), essa sensação fica ainda mais clara. Inicialmente, a impressão do espectador é que Phillips vai sobreviver – afinal, ele é o “mocinho” e não teria graça o filme terminar com a morte dele.

Mas dois elementos me deixaram com uma boa dúvida sobre esta certeza perto do final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por mais que Phillips tenha sido esperto em dizer em que local ele estava sentado no bote baleeiro, as confusões armadas com a tentativa de fuga dele e com o nervosismo do violento Bilal fazem ele ficar fora daquele local, aumentando as chances dele levar um tiro de quem foi para lá salvá-lo. E quando ele começa a escrever uma carta para a família… achei aquele um péssimo sinal. Logo imaginei que o filme terminaria com a morte dele e com Andrea lendo a mensagem final do marido. Detalhes sobre a captura dele poderiam ser passadas pelo oficial que fez filmagens da baleeira e com relatos de outras testemunhas. Essa dúvida na reta final ajuda o filme a alimentar a tensão do espectador – o que reforça a nossa capacidade de nos colocarmos no lugar de Hanks na catarse derradeira.

Deu gosto de ver uma trama tão bem escrita e com uma direção primorosa de Paul Greengrass. O diretor se firma, mais uma vez, como um especialista em filmes de ação. O ritmo não cai neste filme, e mesmo quando vivemos momentos de “baixo estímulo”, como podem ser algumas sequências dentro do barco baleeiro, as dúvidas sobre o que a tensão entre os personagens pode desencadear e a movimentação das equipes de resgate não deixam o filme ficar arrastado. Em diversos momentos a trilha sonora de Henry Jackman se mostra fundamental para a história, assim como o excelente trabalho do editor Christopher Rouse.

Tom Hanks e Barkhad Abdi duelam nos olhares, nos silêncios e nos diálogos. Mas é o personagem de Muse que tem algumas das tiradas mais brilhantes. Achei ótimas, em especial, as seguintes: quando Phillips diz que eles tem US$ 30 mil no cofre do navio cargueiro e oferece este dinheiro para os piratas, Muse pergunta se Phillips acha que ele é um mendigo (hahahahaha); e outra é quando ele diz “eu amo os EUA” após ser rendido na casa de máquinas.

Agora, para não dizer que o filme é perfeito, acho que faltou apresentar para o espectador a repercussão daquele evento nos Estados Unidos e na comunidade mundial. Afinal, os SEALs entram em cena e tem a ordem expressa de impedir que aquele sequestro terminasse na costa somali porque o caso teria tido um grande repercussão. Sem vermos isto na prática, fica um pouco difícil acreditar que o sequestro de um capitão renderia uma mobilização tão grande.

Além de um ótimo filme de ação, Captain Phillips explora a desigualdade absurda de condições que encontrávamos no mundo em 2009 – e que continua seguindo válida agora, quatro anos depois. Em mais de uma ocasião Phillips observa os atos dos sequestradores e questiona o que eles, especialmente para Muse e para o mais jovem do grupo, Elmi (Mahat M. Ali), estão fazendo. Há um momento emblemático no questionamento, quando Phillips diz que Muse pode fazer algo diferente além de ser pescador (após o sequestrador dizer que os barcos internacionais acabaram com a pesca dos somalis) ou sequestrador. No que Muse responde que há outras opções nos EUA, mas não ali.

De fato, é difícil dizer para um jovem que vive na favela ou em locais como a Somália de que existem muitas opções no mundo. São ótimas as histórias de quem vence as mazelas e as condições precárias e consegue vencer na vida, seguir um caminho dos sonhos. Mas elas são muito raras, e sabemos disso. Por mais que não queiramos muitas vezes admitir. Por isso mesmo, acredito que muitos espectadores vão simplesmente torcer por Phillips e desejar que os sequestradores sejam mortos. Porque para estas pessoas a norma ideal é aquela de “bandido bom é bandido morto”.

Mas acho que este filme quer apontar outro sentido. Phillips não tenta apenas sobreviver, mas ele tem vários gestos de pura humanidade – especialmente com o ferido Elmi. E ele não faz isso apenas porque acha que deve dobrar os sequestradores. De fato ele pensa no abismo que lhes separa. Nunca fui e nunca serei da opinião que pessoas em ambientes muito diferentes podem julgar-se umas às outras. Consequentemente, jamais vou achar que “bandido bom é bandido morto”. O que precisamos ou deveríamos fazer, ao invés de alimentar o ódio e a vingança, é agir para romper com estes estigmas de “pobres tem que se ferrar” ou “se virar” enquanto eu tenho uma vida boa.

Apesar de imaginarmos como seria o final de Captain Phillips, ele não é bonito. Tanto é que o próprio Phillips grita “não” quando percebe o que aconteceu. Mesmo ele, tendo passado por tudo o que passou, tendo sido agredido e humilhado, principalmente por Bilal, não desejava a morte dos sequestradores. Uma lição para nós e para quem mais quiser ouvir. Porque enquanto alguns ganharem milhões – inclusive os chefes de Muse – e outros viverem na miséria, vamos ver absurdos acontecerem diariamente neste mundo. Seja em mar, terra ou ar. Captain Phillips não se exime de fazer esta ponderação, o que torna o filme um verdadeiro achado entre as grandes produções de Hollywood.

NOTA: 9,9 9,8 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei muito em dúvida sobre que nota dar para Captain Phillips. Afinal, logo após assisti-lo, sai do cinema com a sensação de “que maravilha”. Me emocionei com o final, após ser surpreendida por alguns momentos de tensão verdadeiramente bem feitos. Só que eu estava na dúvida sobre dar-lhe um 9,7 ou 9,8… ou então me render à nota máxima. Eu ia dando um 9,8 até que escrevi o final do texto sobre a produção, refletindo sobre o questionamento que Captain Phillips deixa no ar. E mesmo podendo abaixar a nota depois, já que tenho grandes expectativas com 12 Years A Slave, vou me arriscar a dar uma nota bem próxima do máximo por enquanto. ATUALIZAÇÃO (10/01/2014): No fim das contas, me rendi mesmo ao 9,8. Mas não foi após assistir a 12 Years a Slave, e sim a Dallas Buyers Club. Quem diria!

Captain Phillips começa apresentando dois lugares muito diferentes entre si: Underhill, nos Estados Unidos, onde mora o protagonista, e Eyl, na Somália. Esta última, uma cidade litorânea no país africano, foi considerada em 2008 a Capital Pirata do Mundo devido à alta atividade de sequestro de navios cargueiros feita naquela região. Detalhe: ela ganhou esse título nada honroso um ano antes dos fatos que acontecem no filme. Na cidade de Eyl teria surgido toda uma “indústria” de ataques piratas no Índico, envolvendo sequestradores, mediadores, contatos, casas de prostituição e até um serviço de “comida para levar” destinada a piratas e reféns seguindo um estudo de Miguel Salvatierra publicado na revista Politica Exterior XXIII de março/abril de 2009.

Em certo momento, Muse diz que ele participou de um ataque no ano anterior em que eles conseguiram US$ 6 milhões. Imediatamente Phillips pergunta porque ele segue fazendo sequestros se ganhou tanto dinheiro. O silêncio de Muse deixa claro que ele é apenas mais um explorado naquela indigna indústria de fazer dinheiro com ataques a navios cargueiros. Mesmo comandando as operações ele deve ganhar uma miséria – e os outros então, muito menos. O que faz com que eles nunca deixem de praticar seus crimes. A mesma lógica de quem trabalha para traficantes.

A direção de Paul Greengrass é perfeita. Ele se aproxima de Tom Hanks no início, quando o capitão está preocupado com o navio antes dele partir. Neste momento, a câmera comandada por ele, com o fundamental trabalho do diretor de fotografia Barry Ackroyd, fica próxima de Tom Hanks – logo atrás, no ombro do ator, ou logo à frente. É como se seguíssemos os passos do homem que está no comando. Depois, no momento da ação, ele troca planos gerais com o close dos atores principais e com a dinâmica dos espaços. Uma das melhores sequências, de tantas ótimas de ação, é a do desembarque dos SEAL que pulam de uma avião. Um profissional que conhece bem o próprio ofício.

Muse, Bilal, Najee (interpretado por Faysal Ahmed, que fica marcado no filme por comandar o barco baleeiro) e Elmi escolhem um ótimo navio para atacar. Maersk Alabama estava carregado com 2.400 toneladas de carga comercial. Valia uma verdadeira fortuna.

Interessante como o público da sessão em que eu estava tinha pressa de sair da sala de cinema. Muitos se movimentaram antes mesmo de aparecerem as informações finais sobre a trama. Quase perderam as informações de que Muse foi levado para os Estados Unidos e condenado a 33 anos de prisão pelo crime de pirataria e de que Phillips, mesmo tendo passado por todo o drama que passou, voltou a trabalhar na Marinha mercante no ano seguinte, em 2010. Impressionante a determinação deste capitão. Com seu exemplo, ele nos ensina que alguém que tem uma vocação deve segui-la, apesar das dificuldades, dos riscos e dos dramas.

Esta é uma produção em que Tom Hanks brilha. Durante o filme inteiro mas, especialmente, na sequência final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Gente, o que foi aquela entrega do ator ao ser atendido por uma médica? Acredito que ele verdadeiramente se emocionou com aquela cena. E nós vamos com ele, nos colocando em seu lugar ao perceber, pela primeira vez, que ele estava vivo apesar de tudo. Merece ser premiado, sem dúvida. E interessante saber que aquela sequência foi no improviso. Hanks contracenou com a oficial da Marinha na vida real Danielle Albert. Ela foi instruída a seguir um procedimento médico normal mas, por ser muito fã de Hanks, na primeira tomada ela simplesmente travou. Foi aí que Hanks brincou que ele deveria ser o único a estar em estado de choque. E daí filmaram outra vez. E ele fez aquele assombro de interpretação.

Além de Hanks, é importante citar o ótimo trabalho de Barkhad Abdi como Muse. Ele dá uma interpretação bastante realista e humana para o “anti-herói” deste filme.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de outros coadjuvantes que acabam tendo certa relevância para a história: David Warshofsky interpreta a Mike Perry, o piloto da casa das máquinas que coloca força total no Maersk Alabama sob as ordens de Phillips; Corey Johnson interpreta a Ken Quinn, que está na sala de comando quando o barco cargueiro é tomado pelos sequestradores e acaba sendo ameaçado de levar um tiro na cabeça; o veterano Chris Mulkey faz John Cronan, o trabalhador sindicalizado que reclama da falta de armas; Yul Vazquez faz o capitão Frank Castellano, da Força-Tarefa Combinada 151; e Max Martini faz o comandante dos SEAL.

Falando na força de elite da Marinha dos EUA, impressionante o preparo dos militares. Não por acaso eles são considerado os “top” da Marinha. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quando o comandante dos SEAL percebe onde está a arma de Bilal, automaticamente ele pede para pararem o reboque porque sabe que ele terá que dar um passo à frente. E “pimba”! Problema resolvido.

A trilha sonora de Henry Jackman começa a entrar em ação com mais força a partir da perseguição das duas lanchas de piratas ao navio cargueiro. Momento de quebra da narrativa. A partir daí, ela não sai de cena como elemento importante para a narrativa.

Tem um detalhe que achei interessante. Esta história se passa em 2009. E naquele ano o uso de drones (naves não-tripuladas) já era importante para os EUA. Ele é utilizado para sobrevoar o barco baleeiro quando a Força-Tarefa Combinada 151 está planejando a ação que vai fazer. Hoje, mais do que naquele ano, os drones são usados a rodo para várias operações, inclusive de ataque, feita pelos EUA mundo afora.

Agora, teve um momento do filme que eu achei que a Força-Tarefa Combinada 151 fez uma verdadeira “babada”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quando Phillips tem a ação corajosa de se jogar na água e começa a nadar, eles deveriam ter identificado o capitão e ter acabado com o sequestro naquele momento. Mas não. Literalmente eles “comem poeira” e deixam os sequestradores retomarem o comando. Uma grande tropeçada.

Da parte técnica do filme, tudo funciona muito bem. Além do show de direção de Greengrass, da envolvente trilha sonora de Jackman e da ágil e precisa edição de Rouse, vale destacar o ótimo trabalho do já citado diretor de fotografia Barry Ackroyd, além dos efeitos sonoros e visuais que aparecem em cena para ajudar a história – e não para tomar o lugar do enredo sendo mais importante que ele.

Captain Phillips foi rodado em diversos lugares, incluindo estúdios em Malta e no Reino Unido, e com cenas externas em mais de uma cidade dos Estados Unidos, em Malta e nos Marrocos.

E agora, uma curiosidade sobre este filme: em uma entrevista para a rádio NPR, Tom Hanks disse que a primeira vez que ele encontrou os atores que interpretam aos piratas foi quando Greengrass filmou a invasão à sala de comando. O diretor revelou que este contato “tardio” foi proposital, para criar uma tensão real entre os atores “invasores” e os que estavam tendo o espaço “invadido”.

A história real do sequestro do Maersk Alabama foi fundamental para outra obra, a Djibouti, de 2010, lançada pelo escritor Elmore Leonard.

Captain Phillips estreou no Festival de Cinema de Nova York em setembro. Depois, ele participaria ainda dos festivais de Londres e de Tokyo. Até o momento, o filme conseguiu um prêmio e foi indicado a outros dois. Mas, certamente, ele será bem indicado nas premiações dos círculos de críticos de cinema nos EUA e também nas principais premiações norte-americanas. O único prêmio que recebeu foi o de Produtor do Ano para Michael De Luca no Hollywood Film Festival.

Esta produção teria custado cerca de US$ 55 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, até a última quarta-feira (dia 13/11), quase US$ 92,7 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou, Captain Phillips conseguiu outros US$ 55,1 milhões.

De acordo com este resumo da Amazon sobre o livro que inspirou o filme, o sequestro do capitão Phillips “dominou a mídia durante cinco dias em abril de 2009”. O romance é narrado em primeira pessoa. Apesar da experiência angustiante, comenta o texto, Phillips permaneceu com a fé inabalável, assim como um “senso de humor infalível”. Phillips tinha 30 anos de experiência no mar quando foi sequestrado na costa somali. No livro, segundo o texto, Phillips apresenta os sequestradores “com compaixão e equilíbrio”.

Procurando saber um pouco mais sobre o assunto, encontrei este texto da Folha de S. Paulo do dia 9 de abril de 2009 que tenta explicar os ataques piratas na costa da Somália. Há algumas informações interessantes ali. Achei informativa também esta resolução do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a “questão da pirataria na Somália” publicada em 2010.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para Captain Phillips. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 203 textos positivos e 12 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,4.

Esta é uma produção 100% EUA. Sendo assim, ela entra para a lista de filmes que eu estou comentando, produzidas naquela país, e que satisfaz o pedido feito por vocês, caros leitores, que votaram nos EUA para uma série de críticas aqui no blog.

CONCLUSÃO: Não é fácil fazer um filme sobre pirataria na região marítima da Somália. O assunto, por si só, não tem grande interesse para o público. Os ataques começaram há muito tempo e seguem ocorrendo e ninguém parece se importar muito com isso. Assim como com as milhares de pessoas que morrem no mar tentando sair da África para viver na Europa – recentemente o Papa Francisco chamou a atenção para o assunto. Por isso mesmo é impressionante como Captain Phillips funciona tão bem.

Mérito do diretor e dos roteiristas, não há dúvidas. Eles fazem um excelente trabalho, junto com um Tom Hanks comprometido e entregue na interpretação – o que deve lhe render uma indicação ao Oscar. De forma acertada, somos logo apresentados ao “herói” e ao “anti-herói” e seus respectivos “bandos”. Há muitas falas técnicas no filme, mas elas não incomodam, apenas tornam a história ainda mais verossímil. E o principal: Captain Phillips não se revela apenas um ótimo filme de ação, mas também uma produção que aborda questões difíceis de desigualdade social, frieza e humanismo e que, de quebra, ainda emociona. Não há como não se colocar no lugar do protagonista no final. Por ser tão humano, este filme se revela maravilhoso. Vale ser visto.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Não tenho dúvidas que Captain Phillips será um dos filmes indicados na próxima premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A dúvida é sobre quantas indicações ele vai receber e se conseguirá levar alguma estatueta para casa.

Como sempre, é difícil opinar sobre as chances de cada concorrente sem ter visto aos principais nomes que estão sendo cotados para a disputa. Então, sem medo de errar, e explicando que ainda falta ter o quadro mais completo, posso dizer que eu acredito que este filme terá pelo menos cinco indicações, com boas chances de chegar a seis e até passar este número.

Para mim, é certo que ele será indicado como Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator (Tom Hanks) e, possivelmente, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora e, quem sabe, Melhor Diretor. O crítico Peter Knegt, do IndieWire, também vê como possíveis as indicações de Captain Phillips como Melhor Ator Coadjuvante (Barkhad Abdi), Melhor Fotografia, Mixagem de Som e Edição de Som.

De todas estas categorias, francamente vejo ele com boas chances como Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha Sonora e Melhor Ator. Tudo vai depender do quanto 12 Years A Slave realmente é bom. Porque vejo os dois filmes concorrendo nas categorias principais. Comparado com outro “favorito” do ano, Gravity, não tenho dúvidas de que Captain Phillips é melhor. Os dois filmes competem, especialmente, nas categorias técnicas.

A Academia e o resto do mundo gostam de Tom Hanks. E faz tempo que ele não ganha um Oscar. Ele tem duas estatuetas na estante de casa: uma por Philadelphia, dada em 1994, e outra, no ano seguinte, por Forrest Gump. Hanks tem ainda outras três indicações – todas como Melhor Ator. Seria bacana ele receber mais um Oscar – que ele merece, especialmente, pelo final de Captain Phillips.

A performance dele é arrebatadora. Mas vai depender muito de vermos os outros concorrentes dele, especialmente Chiwetel Ejiofer por 12 Years A Slave e Leonardo DiCaprio por The Wolf of Wall Street. Há outros nomes bem cotados, mas que eu não acho que tenham o apelo para derrubar Hanks. Logo veremos.

Wadjda – O Sonho de Wadjda

12 de novembro de 2013 2 comentários

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Uma bicicleta pode ser vista apenas como a junção de duas rodas com seus respectivos pneus, um quadro, mais guidão, selim, câmbio, correia e dois pedais, além de outras peças menores. Mas ela pode significar também uma revolução. Ou a liberdade extrema. Sou uma adepta fervorosa da bike. Mas não foi por isso (ou só por isso) que me rendi a Wadjda. O representante da Arábia Saudita na disputa pela estatueta de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2014 ganha o espectador com uma história simples, mas carregada de significados e que emociona.

A HISTÓRIA: Pés de meninas se movem lentamente e de forma ritmada enquanto um canto sobre a fé ecoa pelo ambiente. A professora desliga a música e pede para as alunas voltarem para as suas posições. Ela também diz para as meninas recomeçarem a cantar. Duas alunas passam perto, e Wadjda (Waad Mohammed) acena para elas. A professora pede que ela se aproxime – e vemos o par de tênis da menina, o único da turma – e para que cante os primeiros versos da música. Como Wadjda não consegue, ela acaba saindo. Este é o apenas o primeiro sinal de que Wadjda não se encaixa no perfil de estudante modelo da sociedade saudita.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Wadjda): Gosto de personagens que pensam por sua própria conta, que tem ousadia e autonomia. E não demora muito para a protagonista de Wadjda mostrar todas estas qualidades.

Não foi a primeira sequência que me fez abrir um sorriso. Mas quando saímos do ambiente da escola da menina e entramos na intimidade do quarto dela. Vários elementos ali são muito significativos e me despertaram ótimas lembranças.

Para começar, achei interessante a “gambiarra” feita com cabides para sintonizar uma rádio de pop rock no quarto da pré-adolescente. Depois, o ânimo de Wadjda por fazer cópias daquele tipo de música em fitas-cassete e ao embalar pulseiras feitas com fios. Minha identificação foi imediata. Eu sou do tempo em que a gente tinha que aguardar o fim dos comerciais das rádios com o dedo no “pause” para fazer fitas com seleções musicais bacanas e, depois, quando embarcávamos durante horas na tarefa de fazer estas pulseiras “estilo hippie”.

Identificação estabelecida nesta cena, não fica difícil simpatizar com Wadjda e a busca da garota por ter independência. Ela vive em uma sociedade em que as regras para as mulheres estão muito bem postas. É na Arábia Saudita onde elas devem casar cedo, andar nas ruas quase completamente cobertas e são proibidas de dirigir. De forma muito natural, o roteiro escrito pela diretora Haifaa Al-Mansour mostra estas e outras particularidades daquele ambiente ao acompanhar os passos de Wadjda e das pessoas que lhe cercam.

Interessante a escolha do diretor em focar uma garota com aquela idade. Afinal, Wadjda está perto de chegar na fase de ser prometida em casamento, como ocorre com Salma (Dana Abdullilah), colega de escola da protagonista. Enquanto a maioria das colegas dela parecem conformadas em seguir as regras, Wadjda está fascinada pela liberdade que o amigo Abdullah (Abdullrahman Al Gohani, um fofo) tem. E não apenas eles, mas todos os outros rapazes e homens que ela conhece.

Como é típico das crianças e dos jovens, Wadjda não entende muito bem as razões para o tratamento entre ela e Abdullah ser tão diferente. Afinal, porque ele e os outros rapazes podem andar de bicicleta e se vestir de maneira muito mais confortável e ela e as outras meninas não? São questionamentos simples, que podem ser entendidos por qualquer pessoa, e feitos por uma cineasta que nasceu e cresceu naquela realidade – ninguém melhor que ela para entender aquelas restrições e ousar apresentando questionamentos interessantes.

Uma qualidade de Wadjda é que o filme realmente se preocupa em mostrar a realidade da protagonista. Assim, o espectador pode conhecer tanto a intimidade do lar de Wadjda quanto o “ambiente social” onde ela circula. Caminhamos, assim, pelas ruas da cidade de Riyadh, no trajeto entre a casa da menina e a escola em que ela estuda. Percebemos a enorme admiração que ela tem pela mãe (Reem Abdullah) e a forma diferente com que ela encara os estudos e as colegas.

Mas além de um roteiro divertido e sem grandes discursos, apesar de cheio de mensagens espalhadas aqui e ali, este filme tem o grande mérito de ter a jovem Waad Mohammed como protagonista. A menina tem carisma e demonstra muita atitude. Seja para defender a mãe, quando ela é criticada pelo motorista Iqbal (Mohammed Zahir), seja nos pequenos detalhes como no tênis que usa, na forma com que ganha dinheiro (vendendo fitas-cassete e pulseiras proibidas), na recusa em tampar o rosto com um véu ao caminhar pelas ruas ou pela insistência em conseguir uma bicicleta.

Agora, sem dúvida, uma das grandes “tiradas” do filme é o questionamento sobre a fé e os costumes. Afinal, as colegas de Wadjda e ela própria cantam aqueles versos sobre seguir os “preceitos” de Deus, estudam o Alcorão e seguem as recomendações da diretora Ms. Hussa (Ahd) porque elas acreditam que é o certo a fazer ou porque temem serem punidas pelos adultos ou pela sociedade? O filme deixa bem claro, especialmente através do exemplo de Wadjda, que podemos seguir tudo o que nos dizem que é o certo, como os ensinamentos do Alcorão, os 10 mandamentos da Bíblia cristã ou o indicado em outros “livros sagrados” sem, de verdade, acreditarmos naquilo.

Como já ouvi tantos freis franciscanos falarem, há muitas pessoas que “batem cartão” na Igreja todos os domingos mas, saindo pela porta, elas parecem esquecer tudo o que ouviram ou o que rezaram. São uma espécie de “cordeiros robóticos”, ou seja, pessoas que cumprem um “papel social”, talvez para se sentirem bem aceitos no grupo social, mas que de fato não acreditam e/ou refletem no que estão fazendo. Assim, agem como animais quando comandam um carro em alta velocidade ou percebem que a fila está enorme no supermercado.

Achei brilhante a forma com que a diretora Al-Mansour aborda este tema em Wadjda. Ela não faz grandes discursos, não existe nenhum momento de “confronto com extrema reflexão” no filme. Mas estas questões todas estão nas entrelinhas e fazem o espectador pensar durante a após a projeção. O importante para a diretora, e isso fica bem evidente, é retratar aquela realidade que ela conhece bem, mesmo que de uma forma ficcional.

Neste filme, Al-Mansour também consegue plasmar bem um movimento que está cada vez mais evidente na Arábia Saudita e em outros países muçulmanos: a pressão que a cultura ocidental faz em sociedades que querem preservar seus velhos costumes. Nós do Brasil, país colonizado há mais de 500 anos, e que seguiu sendo colonizado desde então, sabemos bem sobre a potência das influências de “países dominantes” ocidentais. Usamos palavras derivadas do francês, do inglês e de outros idiomas, compramos produtos de diversas partes e consumimos com gosto produtos culturais norte-americanos, europeus e de outras latitudes.

O resultado destas influências é que nossa sociedade, assim como tantas outras, luta para preservar alguns elementos culturais “originais” (eles ainda existem?) enquanto mergulhamos nas influências de outras partes e recriamos tudo em um imenso caldeirão cultural. Agora, imaginem se o Brasil fosse um país preocupado em preservar uma série de regras e costumes que não tivessem paralelo nestas outras sociedades que nos influenciam? Este é um dos temas de Wadjda. Que mostra uma protagonista “reformista”, com vontade de quebrar regras, mas que se vê podada por quase todos os lados.

As cenas de Wadjda são lindas, e há um final muito bonito em cena. Mas após aquela pedalada, o que o futuro vai reservar para a menina? O provável é que ela seja obrigada a casar com alguém logo, diminuindo os riscos de “se perder no caminho”. E o marido vai exigir que ela tenha filhos, preferencialmente homens, e que siga todas as regras. Mas, talvez, e apenas talvez, ela siga o exemplo da diretora Al-Mansour e se torne a primeira mulher a dirigir um filme na Arábia Saudita. Nunca saberemos – o que é bom, porque o futuro da personagem fica à critério do público.

Independente do que aconteça com ela, Wadjda nos dá ótimos exemplos de como é possível “ser humana” mesmo em ambientes agrestes. Afinal, em mais de uma ocasião ela é provocada pela diretora Ms. Hussa a dedurar colegas que teriam seguido o “mau caminho”. Mas sem entender porque as garotas eram perseguidas e/ou temendo pelo que poderia acontecer com elas, Wadjda não seguiu as regras e ficou calada.

Eis outra mensagem interessante. Porque ela nos lembra que sempre temos uma escolha. Podemos fazer o que esperam da gente, mesmo que seja algo que não acreditamos, apenas para ficar bem, para sermos “salvos” ou para termos uma ampla aceitação social, ou podemos fazer aquilo que a nossa consciência acha melhor. Seguir a própria ética, especialmente se ela surge de uma profunda observação e reflexão, é algo difícil, mas libertador. Wadjda nos mostra isso de forma muito bacana, singela e envolvente.

O filme tem ritmo, uma protagonista carismática, um ambiente que pode ser compreendido por qualquer pessoa e uma mensagem libertadora também universal. Todos passaram pelo colégio, presenciaram algum conflito familiar – seja na própria casa ou em outra parte – e podem, assim, compreender o que acontece na trama, mesmo sem saber quase nada sobre a realidade na Arábia Saudita. E como a história flui bem, tenho certeza que Wadjda vai incentivar muita gente a procurar saber mais sobre aquele país, seus costumes e conflitos.

Agora, serei franca. Não gostei tanto deste filme apenas pelas qualidade todas citadas. Ele me afetou, especialmente, por causa do “sonho de consumo” da protagonista. E não apenas porque, um dia, ainda criança, eu também sonhei em ter uma bicicleta. Mas porque hoje, adulta, depois de passar por tantas experiências na vida, vejo na minha bike o meu principal instrumento de libertação três vezes por semana. Pedalando pela cidade para “manter a forma”, acompanhada de boa música, vejo belas paisagens, pessoas, sinto aromas, suo a camisa e vivencio a liberdade que Wadjda percebe ao seguir veloz com seu próprio esforço – e contrariando as regras e expectativas. A bike, neste caso, faz toda a diferença.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Talvez muitos de vocês se lembrem da história daquela saudita que foi presa depois de ter postado um vídeo na internet em que ela dirigia um carro… lembro que na época fiquei bem impressionada. Não apenas pelo fato do YouTube e tantos outros serviços na internet ajudarem as pessoas a manifestarem o que pensam e sentem, mas também por achar incrível que uma mulher precisasse se esconder para dirigir.

Pois bem, este e outros pontos da realidade da mulher saudita são mostrados em Wadjda. No filme, por exemplo, a mãe da protagonista fica impedida de sair para trabalhar porque perde o motorista – e ela não tinha outra maneira de sair de casa de automóvel que não fosse pagando um homem para levá-la. Incrível!

Muita gente, como eu, deve se perguntar quanto deste filme aborda a vida comum real de uma família na Arábia Saudita. Pois bem, lendo este texto bem interessante, publicado em junho do ano passado por uma mulher saudita que diz ter passado a maior parte da infância no Kansas, mas que voltou para o país de origem depois, é possível perceber que existe muito realismo em Wadjda. E que há, também, muito preconceito e desconfiança nos dois lados da questão: tanto por parte de sauditas, em relação aos ocidentais, quanto vice-versa.

De fato, e como já comentei aqui quando opinei sobre outros filmes, o que precisamos é abrir o leque de entendimento. Tanto buscar compreender o passado e o presente de culturas diferentes que as nossas, como tentar se aproximar das pessoas que vivem estes cenários distintos para saber o que elas pensam e sentem. Dentro das nossas possibilidades, é claro. E quando a outra realidade é muito distante, o cinema é sempre um bom aliado neste sentido – além da literatura e da imprensa, é claro.

Para a diretora da escola de Wadjda, ela poderia ser um mau exemplo a ser combatido. E, por isso mesmo, objeto de vigilância constante. Mas a menina não tinha maldade e nem malícia. Prova disso é que ela falava sempre o que pensava e o que queria, “chocando” muita gente daquela ambiente que queria apenas seguir as regras. Inocência que fica clara quando ela revela o que faria com o prêmio do concurso sobre o Alcorão.

A reação da diretora é cruel, ainda que compreensível dentro daquele contexto. Ms. Hussa é paga para fazer aquelas meninas andarem nas “regras” e se esforça ao máximo para tentar “salvar” Wadjda. Como ela confessa em certo momento, Ms. Hussa se identifica com aquela menina rebelde – e tem certeza que, no futuro, a garota será “domesticada” como ela.

Achei fascinante o trabalho da diretora Haifaa Al-Mansour antes mesmo de saber mais sobre a história dela. Primeiro, porque gostei muito do roteiro de Wadjda e da condução da história. Al-Mansour está atenta aos detalhes de cada cena, valoriza a atuação dos atores e também ressalva bastante os cenários em que eles se movem. Conhecemos, desta forma, a forma de vida de pessoas aparentemente comuns na Arábia Saudita.

Depois, ao buscar mais informações sobre Al-Mansour, fiquei ainda mais fascinada com a diretora. Descobri, lendo a minibiografia dela no site IMDb, que Al-Mansour é a primeira mulher a fazer cinema na Arábia Saudita e, atualmente, é vista como uma das referências do cinema naquele país.

Ela fez Letras na Universidade Americana do Cairo e cursou mestrado em Direção e Estudos de Cinema na Universidade de Sydney. O sucesso da diretora em três curtas e o reconhecimento internacional com o documentário Women Without Shadows teria influenciado uma nova geração de cineastas sauditas. Mas ela divide opiniões na Arábia Saudita, tendo o próprio trabalho elogiado e difamado por incentivar a discussão sobre temas que são tabus naquela sociedade.

Al-Mansour está casada há seis anos com Brad Niemann e é mãe de dois filhos. Ela cresceu em uma pequena cidade saudita e é a oitava filha de um casal que teve 12 crianças. Achei a diretora muito bonita e, após assistir a Wadjda, muito talentosa. Vale acompanhá-la.

Agora, uma curiosidade sobre Wadjda: a diretor Al-Mansour teve que dirigir as cenas externas da produção de dentro de uma van, de onde observava os atores através de monitores. Ela se comunicava com a equipe através de walkie-talkies e sem sair do veículo. Teve que fazer isso porque no país segregado as mulheres não devem trabalhar em público com homens.

Além de um ótimo roteiro e de uma direção bastante cuidadosa e atenta, Wadjda conta com a edição competente de Andreas Wodraschke, com a direção de fotografia “calorosa” (em tons claros, especialmente pastéis) de Lutz Reitemeier e com a interessante e animada trilha sonora de Max Richter. Eles são importantes para que o filme funcione bem. Junto com os atores – especialmente a protagonista, o garoto Al Gohani e a atriz que faz a mãe de Wadjda.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de alguns coadjuvantes que tem certa relevância na produção: Sultan Al Assaf interpreta ao pai de Wadjda; Sara Aljaber a Leila, amiga da mãe da menina e uma mulher que resolve trabalhar em um hospital com outros homens – rompendo com certos preceitos daquela sociedade; e Rehab Ahmed faz Noura, uma das finalistas do concurso do Alcorão e colega de Wadjda.

Por mais que eu ache importante entender realidades diferentes da nossa, há algumas cenas em Wadjda que me deixaram um pouco perplexa. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Uma delas foi a forma com que trabalhadores de uma obra mexeram com Wadjda. Cheguei a temer pela menina naquele momento. E aquela foi apenas a primeira cena que mostrou o machismo daquela sociedade – onde os homens, aparentemente, podem tudo enquanto as mulheres devem baixar a cabeça e serem subjugadas. Outra sequência é a forma com que o pai de Wadjda enfrenta a mulher, que logo será deixada para trás e substituída por outra porque não pode dar para ele um filho. Nem preciso dizer que acho estas situações absurdas, não é mesmo?

Achei um pouco surpreendente Wadjda ser o filme indicado pela Arábia Saudita para o próximo Oscar. Afinal, a diretora Haifaa Al-Mansour é uma figura controversa no país e este filme é beeeeeem ousado, no sentido de questionar valores da sociedade saudita, mostrar certa “invasão” de elementos ocidentais naquele país e, principalmente, elogiar a rebeldia de uma garota que busca liberdade. Ao mesmo tempo que é surpreendente, esta indicação oficial merece aplausos. Neste sentido, o Brasil, que vive um momento de discussão sobre aceitar apenas biografias autorizadas, poderia aprender algo com a Arábia Saudita.

Wadjda estreou no Festival de Veneza em agosto do ano passado. De lá para cá, ele participou de pelo menos outros oito festivais de cinema relevantes. Nesta trajetória, ele ganhou 16 prêmios e foi indicado a outros cinco. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Atriz para Waad Mohammed e Melhor Filme no Festival de Cinema Internacional de Dubai; prêmio do público como Melhor Produção Internacional no Festival de Cinema de Los Angeles; Prêmio “Diretores para Assistir” para Haifaa Al-Mansour no Festival de Cinema Internacional de Palm Springs; e três prêmios secundários (CinemAvvenire Award, C.I.C.A.E. Award e Interfilm Award) para Haifaa Al-Mansour no Festival de Veneza.

Não encontrei informações sobre o quanto custou fazer Wadjda. Mas o site IMDb traz a bilheteria que o filme conseguiu obter nos Estados Unidos: pouco mais de US$ 1,06 milhão. Claro que é pouco, mas não é um resultado ruim para um filme estrangeiro com o perfil de Wadjda e sem um grande apoio de estúdio para “acontecer”. Nos EUA, Wadjda foi distribuído pela Sony Pictures Classics, que é uma marca consagrada, mas que não deve ter se preocupado em espalhá-lo com muitas cópias pelo país.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para o filme. Uma avaliação muito boa. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 73 textos positivos e apenas um negativo para a produção, o que lhe garante uma impressionante aprovação de 99% e uma nota média de 8,1. Resultado fantástico! E bastante justo.

Algo que eu achei incrível ao buscar mais informações sobre os principais nomes deste filme: tanto a diretora quanto a atriz que faz Wadjda estão vivendo, aqui, os seus primeiros trabalhos em longas de ficção. A diretora havia dirigido antes apenas a curtas e a um documentário. E Waad Mohammed não havia feito filmes. Incrível!

Falarei mais sobre as chances de Wadjda no próximo Oscar logo mais, abaixo, mas queria comentar que este filme também é o franco favorito no Globo de Ouro 2014. Ele e Jagten, junto com Le Passé, devem fazer uma quebra-de-braços interessante nas duas disputas.

CONCLUSÃO: Wadjda é um filme que vai crescendo conforme a narrativa evolui. Ele permite que o espectador mergulhe naquela cultura, diferente de grande parte do mundo ocidental, com calma, e que vá torcendo pela protagonista. No final, não tem como o público não estar envolvido com Wadjda e o sonho de quase toda criança. Quem nunca desejou profundamente, inclusive rezou para um dia ter uma bicicleta? Mas em alguns lugares este sonho é impossível para uma menina. Sabermos disso, e tentarmos entender aquela lógica diferente, é um desafio. Mas que vale ser vencido.

Wadjda segue a tradição de vários filmes que tem o olhar infantil como condutor, e consegue entregar o que promete com perfeição. No final, fica a mensagem de que vale ter um sonho e persegui-lo. E que sim, o mundo inteiro está contaminado com valores diferentes. Quanto antes aprendermos a respeitá-los e conviver com eles, melhor. Bela narrativa, construída de maneira precisa, que emociona e faz pensar sobre os conflitos de um país que não consegue ficar ilhado no mundo e vive o conflito entre as tradições e a “modernidade”.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Este filme tem alguns elementos que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood adora. Para começar, esta é uma história contada sob a ótica de uma criança – ou pré-adolescente, se você preferir. Depois, é um filme que sabe crescer com o passar do tempo, e surpreende pela ousadia de quebrar tabus e elevar alguns dos valores que os Estados Unidos adora “vender”. Apesar disso, ou além disso, Wadjda é um filme realmente bem feito e que funciona.

Analisando os filmes que eu vi até agora e que estão na lista das 76 produções que buscam lugar entre cinco finalistas ao Oscar, vejo que Wadjda está no extremo oposto de outro filme impecável: Jagten (comentado aqui no blog). Até agora, a produção dirigida por Thomas Vinterberg tinha o “meu” voto. Era a minha preferida. Mas fica difícil escolher entre ela e Wadjda porque estes são filmes tão diferentes entre si… que é uma questão quase de tirar cara-e-coroa para saber qual deveria ser o vencedor.

Sem dúvida Jagten é mais ousado na narrativa e na crítica, e tem algumas surpresas no roteiro que Wadjda não possui. Por outro lado, o filme dirigido por Haifaa Al-Mansour tem a ousadia de questionar parte da realidade social da qual ele é originário – somando-se a várias outras manifestações que questionam alguns costumes tradicionais da Arábia Saudita. É preciso coragem para fazer isso. E por isso mesmo, fico dividida entre as ousadias diferentes de Jagten e Wadjda.

De qualquer forma, não tenho dúvida de que Le Passé (comentado aqui) e O Som ao Meu Redor (aqui) estariam em segundo plano na disputa. Se bem que a Academia sempre pode surpreender… De qualquer forma, até aqui, me parece que Wadjda tem o perfil do Oscar, não apenas por trazer a sempre premiada ótica infantil como protagonista, como também por evidenciar a busca pelo próprio sonho de um indivíduo e a rebeldia ocidental em um país árabe que os EUA adorariam conquistar culturalmente. Faria sentido dar uma estatueta para um filme com esta “pegada” – e que, além disso, é bem feito.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Wadjda ficou de fora da lista. Seguem na disputa os seguintes filmes: The Broken Circle Breakdown (Bélgica), An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina). Além de Wadjda, outros filme que apareciam na lista dos especialistas como alguns dos favoritos, Le Passé e Gloria, também ficaram de fora. Interessante.

Gravity 3D – Gravidade 3D

8 de novembro de 2013 12 comentários

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A corrida para o Oscar do próximo ano está aquecida desde já. Mas alguns filmes que podem surpreender ainda não estrearam nos Estados Unidos, o que pode alterar as bolsas de apostas feitas até agora porque estes títulos podem surpreender aos críticos e votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ainda assim, ouvi falar tanto de Gravity que eu me vi obrigada a ver ao filme agora, enquanto ele ainda está nos cinemas.

Honestamente, eu gosto do Alfonso Cuarón. Mas esta nova produção dele não tinha me atraído tanto assim para que eu fosse nos primeiros dias a algum cinema. Só que com tanto burburinho sobre a produção e com os especialistas afirmando que ele tem grandes chances de ganhar um monte de estatuetas douradas em 2014, me vi obrigada a ir atrás.

A HISTÓRIA: Se passa a 600 quilômetros acima da superfície da Terra, onde não há oxigênio, não há água e nem atmosfera por onde o som possa se propagar. Logo aparece o nosso planeta, naquela imagem clássica, todo azul, mas agora em alta definição e profundidade. Logo ouvimos o comando da Nasa pedindo para a doutora Ryan Stone (Sandra Bullock) confirmar se ela está bem. Ela, que é a figura mais distante entre os três astronautas que aparecem na telona, afirma que sim, que apenas está um pouco enjoada. Mas segue trabalhando para instalar um novo sistema de comunicação no telescópio Hubble.

Algo está errado com os componentes, e para passar o tempo, o astronauta Matt Kowalski (George Clooney) segue “caminhando” no espaço para tentar bater o recorde do russo Anatoly Slovyev enquanto conta histórias. Mas não demora muito para que os destroços de um satélite russo destruído por um míssil acertem outros satélites e criem uma verdadeira onda de destruição, fazendo os astronautas que estão na operação do Hubble correrem para tentar se salvar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Gravity 3D): Não é por acaso que eu defendo sempre a ignorância em relação aos filmes. Ou, dizendo em outras palavras, que quanto menos você souber sobre uma história, melhor. Falei algumas vezes por aqui, em outros textos, de como as expectativas são ruins para qualquer experiência. Ainda que a gente se esforce para “ser neutro/a” na hora de ver uma produção, quando ouvimos falar bastante dela, é quase impossível não se contaminar com a expectativa de ver algo bom.

Sobre este filme, especificamente, tentei ouvir pouco antes de assisti-lo. Como costumo fazer com todos os demais. Mas foi impossível. Pesquisando em sites gringos sobre as apostas para o próximo Oscar, vi Gravity bem cotado em praticamente todas as categorias. Isso, por si só, alimenta bastante a expectativa. Além disso, não lembro o porquê, mas li em algum lugar que o diretor James Cameron disse que Gravity é o melhor filme sobre o espaço da história. Daí impossível ir até o cinema e não esperar por um grande filme, não é mesmo?

Foi desta maneira que, logo de cara, achei forçado o humor do roteiro escrito pelo diretor Alfonso Cuarón e pelo filho dele, Jonás Cuarón. A dupla teria, ainda, tido a colaboração do ator George Clooney no texto – uma ajuda não creditada, segundo o site IMDb. Entendo que a intenção dos roteiristas foi “desmistificar” um pouco a figura “sisuda” do astronauta. Assim, vemos ao especialista Shariff (com voz de Phaldut Sharma) fazendo uma “dancinha” no espaço depois de saber que tiraria férias no retorno para a Terra, e ouvimos várias histórias sem graça de Kowalski.

Ainda que eu entenda a intenção dos roteiristas, não acho que a técnica tenha funcionado. As falas de Kowalski, exceto aquelas em que ele tenta saber um pouco mais de Stone quando eles estão sozinhos tentando sobreviver, parecem forçadas. As histórias de Kowalski, contadas para quem quisesse ouvir na Nasa e para uma especialista com quem ele não tinha contato algum até então, que era Stone, me fizeram lembrar aquelas pessoas que você mal conhece e que começam a contar todos os detalhes estranhos e/ou sórdidos de suas vidas quando bebem demais.

Pois bem, fora esse início forçado do roteiro, com confissões estranhas de Kowalski, como os “maus pressentimentos” dele com a missão porque ela fazia ele lembrar de quando foi deixada pela mulher em outra ocasião em que estava no espaço, achei que Cuarón fez uma boa escolha em abrir mão da tradicional edição de cortes de cena para fazer um longo plano de aproximação dos personagens no espaço.

Então partimos de um quadro mais amplo, em que vemos a Terra ao longe e o telescópio Hubble com os astronautas, até que chegamos perto da protagonista, Stone. Este jogo de cena é feito como se estivéssemos flutuando no espaço, acompanhando a dinâmica da cena. Uma proposta interessante e que vai ditar o ritmo de grande parte da produção.

Também achei acertada a escolha para que a ação não demorasse muito para acontecer. Verdade que o filme dá bastante espaço para o silêncio, e para sequências de busca dos astronautas sem muita ação. Gravity é uma história de ação no espaço ao mesmo tempo em que escolhe ser um drama, com todas as suas pausas e momentos em que se espera que a audiência “sinta” o que os atores estão passando.

Pena que o roteiro não deixe praticamente espaço algum para surpresas. E isso é ruim em um filme de ação – também em um drama, claro, mas em um filme de ação a surpresa é ainda mais vital. Assim, quando ouvimos a Nasa falar que os astronautas não precisam se preocupar com a explosão do satélite russo, não é preciso ter grande imaginação para saber que justamente aí estará o grande problema da trama. E o risco para os personagens.

Assim, não é nenhuma surpresa quando a Nasa explica que o trio em órbita deve fazer a reentrada no telescópio e, na sequência, uma evacuação de emergência. Mesmo a virada da narrativa sendo esperada, é preciso admitir que Gravity ganha força e mostra quase todas as suas armas com a chegada dos escombros até aquele cenário “tranquilo”.

Interessante a escolha de Cuarón em acompanhar Stone o tempo inteiro. A estrutura em que ela está se desprende e a médica é lançada longe. Por bastante tempo, o espectador fica “perdido no espaço” junto com a especialista que se preparou pouco para a viagem espacial – o que, cá entre nós, é bem difícil de acreditar.

Pelo menos no mundo real uma pessoa, não importa da especialidade que ela fosse, dificilmente iria para uma missão como aquela tão despreparada. (SPOILER – não leia se você ainda não viu o filme). Mas voltando ao filme… funciona bem o recurso de colocar um “tique-taque” na história. E esse contador de tempo, claro, é o oxigênio baixo de Stone. As rodopiadas dela no espaço, a solidão inerente e o desespero da falta de controle são reforçadas com a trilha sonora de Steven Price.

Kowalski acaba encontrando Stone. Agora, ele não deve se preocupar apenas com a nova onda de destroços que deve chegar até eles, mas também com o tempo limitado que a dupla tem até chegar a uma alternativa que dê oxigênio para a médica e possibilidade de fuga para a Terra para os dois. Agora, fora estas escolhas acertadas do diretor e os ótimos recursos técnicos que ele utiliza, pouco sobra de interessante no filme.

Há algumas sequências realmente estranhas e/ou dispensáveis. Por exemplo, para que afinal eles se esforçaram tanto para buscar o corpo de Shariff? Claro que alguém vai argumentar que a ideia era levá-lo para os familiares na Terra… mas tanto que esta ideia é absurda que quando eles se aproximam da nave Explorer, eles soltam Shariff que vai, desculpem a expressão, para o espaço. :) Também achei muito fake a cena em que Stone olha para o rosto destruído de Shariff.

Como nem todas as escolhas deste filme são estranhas, gostei de duas cenas que valem menção. Primeiro, a bela sacada de Kowalski parar de contar as próprias histórias para tentar saber um pouco mais de Stone e, assim, acalmá-la – afinal, ela praticamente não tem mais oxigênio quando eles decidem ir da Explorer para a estação espacial. Quando ela diz que a filha dela de quatro anos morreu e que, fora trabalhar em um hospital, Stone ficava vagando sem rumo de carro, ele olha para ela, que está presa a ele por um cabo, através de um espelho. Bela, bela imagem. Aliás, as cenas da Terra vistas no espaço e do nascer e do pôr-do-sol são lindíssimas.

Outras sequências que achei muito boas foram as que mostram a destruição no interior da estação espacial. Daí que o 3D faz realmente diferença – especialmente nos momentos em que vemos chamas e água flutuando. Não chegar a ser uma surpresa completa, ainda que seja impactante, a cena em que Kowalski afirma para Stone que a única chance dela é ele se desprender. Sem combustível para seguir dando rumo para o próprio “voo”, Kowalski sabe que não terá resgate. De fato Clooney faz um bom trabalho, ainda que ele seja um pouco irritante. Mas a maior entrega, e que deve render vários prêmios pela frente, é mesmo de Sandra Bullock.

Ela entrou neste projeto para valer e fez sacrifícios físicos para aguentar o tranco das gravações. Mas quando ela entra na nave espacial e tira o traje de astronauta, percebemos que ela está muito bem, fisicamente. Com um corpão, alguns podem dizer. E está mesmo. Só achei dispensável ela “relaxar” e se mover ficando em posição fetal – certo que a referência é clara para o filme, este sim genial, 2001 – A Space Odyssey. Também não gostei da trilha sonora em boa parte do filme – porque, para o meu gosto, Price exagerou na dose, especialmente na reta final de Gravity.

O virtuosismo de Cuarón na direção fica mais evidente quando Stone tem que sair da cápsula Soyuz para desprender o paraquedas que lhe impedia de seguir viagem e se distanciar da estação espacial. Aquela sequência, como outras do filme, podem render ao diretor o seu primeiro Oscar. Palmas também, claro, para a edição de Cuarón e de Mark Sanger, que também pode ser premiada.

Mas na sequência surge outro fato que me decepcionou no roteiro. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Stone está vagando sem combustível com a Soyuz da estação chinesa quando consegue fazer contato com a base de comando na China. E daí, entre outros sons, ela ouve latidos de cachorro (WTF??) e um choro de criança. Ah, me desculpem, mas sério mesmo que eles querem fazer a gente acreditar que a “Nasa chinesa” teria um cachorro e um bebê? Ai, ai… Alguém pode argumentar que Stone poderia estar surtando, delirando. Não me pareceu. Depois sim, praticamente sem oxigênio, é compreensível que ela tivesse uma certa “visão”. Mas antes, com condições perfeitas para respirar, não me pareceu que aquilo fosse um delírio.

Bueno, a partir dali, evidentemente, o que acontece também era previsto. Afinal, algum de vocês, por algum momento, duvidou que Stone conseguiria sobreviver? Já imaginaram ela explodindo lá pelas tantas no filme? Não daria certo para uma produção made in Hollywood, não é mesmo? Então a surpresa do final não existe. Gravity passa mais de uma hora nos mostrando como aquela médica com nenhuma experiência no espaço plasmou o instinto de sobrevivência da nossa raça, fazendo tudo que era possível para pisar em terra firme novamente.

Assim, o que vemos é um filme bem acabado tecnicamente, com cenas incríveis de ação no espaço e algumas imagens belíssimas – mérito também do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki. Adicione-se ao cesto de pontos positivos a entrega da atriz Sandra Bullock. E isso é tudo. Gravity tem um roteiro fraco, com final previsível e um desenrolar da história um bocado previsível também.

Com o problema de ter alguns argumentos difíceis de acreditar – como a Nasa enviar alguém tão despreparado e que poderia colocar em risco a missão como a Stone para o espaço e aquela comunicação absurda com a base chinesa – e várias sequências que beiram a chatice (como a trilha que Kowalski insistia em colocar e as histórias que ele contava). Um filme perfeito para agradar quem está de olho nas inovações do cinema. Mas um bom filme tem que ter muito mais que técnica. Deve ter “coração”, ou um bom “espírito”. Em outras palavras, emocionar ou surpreender. E Gravity, mesmo na versão 3D, não consegue nos arrebatar. Fascina, claro, com a tecnologia. Mas nada além disso.

NOTA: 8,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muito já se falou sobre a entrega da atriz Sandra Bullock ao papel. De fato, ela passou por toda a experiência que um astronauta deve passar ao preparar-se para ir para o espaço. Com o adicional de que ela estava sendo filmada para estrelar uma produção milionária e que vai lhe render muitas indicações a prêmios. Para mim, é evidente que ela chegará como favorita ou forte candidata ao Globo de Ouro e ao Oscar do próximo ano. Mas é preciso ver o desempenho de outras concorrentes, incluindo veteranas como Meryl Streep, para saber se ela vai ganhar uma estatueta dourada pelo esforço com Stone.

Há muito tempo eu acompanha ao Oscar. Primeiro, ainda criança e adolescente, por pura curiosidade. Depois, já escrevendo sobre cinema no início da minha carreira como jornalista, passei a acompanhar a maior premiação de Hollywood também com uma expectativa profissional. Desde que comecei este blog, meu interesse por assistir aos favoritos antes da premiação ficou ainda maior. Minha intenção é compartilhar com vocês, caros leitores, minhas impressões sobre os favoritos. Dito isso, achei surpreendente este ano termos um dos favoritos para o Oscar 2014 e, para muitos, o possível grande vencedor da premiação tão cedo nos nossos cinemas.

Afinal, vocês devem lembrar que, normalmente, chega até nós os filmes com maior chance no Oscar no ano em que a premiação será entregue. Normalmente, as produções favoritas ao prêmio entram em cartaz em janeiro ou fevereiro. Desta vez, temos Gravity estreando na primeira quinzena de outubro – e, no mês anterior, o filme passou no Festival Internacional do Rio de Janeiro – e, logo mais, a estreia de outro forte candidato: Captain Phillips. Interessante. E outros devem estrear antes mesmo do início de 2014. Só que me preocupa o outro grande favorito do ano ao lado de Gravity, 12 Years a Slave, ainda não ter data prevista para o Brasil. Sem dúvida o filme do diretor Steve McQueen é o que eu mais estou ansiosa para ver.

Sempre gostei do Alfonso Cuarón, ainda que eu não tenha ele na minha lista de diretores preferidos. Ainda me lembro do primeiro filme que eu vi dele… Great Expectations, um filme bonzinho, lançado em 1998, com Ethan Hawke, Gwyneth Paltrow e Robert De Niro. Com aquela produção já tinha ficado claro que ele é um destes diretores que sabe fazer cinema “autoral”, se necessário. Mas que sua praia é mesmo fazer filmes que conquistem grandes bilheterias – nem que para isso seja necessário fazer um cinema bem “industrial”. Diferente de outro diretor mexicano, Alejandro González Iñarritu – a quem eu prefiro, se tivesse que escolher um dos dois.

Autoral mesmo, Cuarón fez apenas Y Tu Mamá También. Os outros filmes foram forjados com a cara de Hollywood. Por isso mesmo é que eu vejo que ele tem muitas chances de ficar entre os cinco finalistas na categoria Melhor Diretor do Oscar 2014 e, talvez, até levar a estatueta. Se conseguir a indicação, esta será a primeira de sua carreira como diretor. Ele foi indicado, antes, a três Oscar’s: Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição por Children of Men, em 2007, e Melhor Roteiro Original por Y Tu Mamá También. Não deixa de ser irônico que, justamente agora, seja o roteiro o ponto fraco de Gravity.

Os grandes protagonistas de Gravity 3D não aparecem em cena – são o diretor Cuarón e os efeitos especiais, visuais e o departamento de arte da produção. Este último, contou com 47 profissionais liderados por Heather Noble. Os efeitos especiais foram garantidos por 22 feras, e os efeitos visuais, por centenas – sim, centenas – de profissionais. Parei de contar no 300, para vocês terem uma ideia. Sem dúvida os efeitos visuais e especiais vão render duas estatuetas para este filme – falo de todas as minhas apostas sobre o Oscar logo abaixo.

Muitas vezes um diretor pode até não fazer um grande trabalho em um filme. Ou que é o mesmo que dizer que um filme pode ter uma direção apenas correta e ainda assim ser muito bom. Por isso mesmo, acho tão fundamental para que uma produção seja boa que ela tenha um roteiro ótimo. As estatuetas de Melhor Roteiro Original e Melhor Roteiro Adaptado sempre me interessam – muitas vezes até mais do que as dos intérpretes. E esta é a razão principal para que, desde já, eu não esteja torcendo por Gravity no próximo Oscar. Falta um roteiro melhor para o filme.

Ainda que George Clooney tenha uma participação interessante neste filme, Gravity é um título de uma única atriz: Sandra Bullock. A história gira em torno dela. Bullock, assim, tem todo o espaço para brilhar – junto com as imagens do filme, claro.

Fora os dois atores, vale citar Ed Harris como a voz do contato que os astronautas tem com o controle da Nasa.

Da parte técnica do filme, vale comentar o excelente trabalho de Andy Nicholson no design de produção e de Mark Scruton na direção de arte.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. De acordo com os realizadores, Sandra Bullock passou por um treinamento físico de seis meses antes do filme começar a ser rodado. Neste período, ela trabalhou cada trecho do roteiro com Cuarón. O diretor afirmou que o essencial do trabalho deles foi tratar do tema central de Gravity, “a possibilidade do renascimento após a adversidade”. Mas fez parte do trabalho também a discussão sobre cada cena, e a atriz fez anotações sobre as animações que seriam feitas no filme e o movimento dos robôs que garantiram a dinâmica das cenas. A respiração da personagem Stone foi um ponto central do trabalho do diretor e da atriz.

Lendo as notas da produção é que entendi o elogio de James Cameron… ele é o “melhor amigo” de Cuarón. Claro que os sentimentos dele em relação ao amigo influenciaram no julgamento. :) Mas achei interessante a comparação que ele fez do trabalho de Bullock. Ele disse que a dedicação dela ao filme – incluindo aqueles seis meses de preparo – fazem lembrar o empenho dos bailarinos do Cirque du Soleil.

Nem tudo neste filme foi filmado, como Gravity pode dar a entender. Várias cenas de “caminhada no espaço” foram feitas totalmente por computação gráfica. Para dar mais “realismo” para estas cenas, o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki teve que iluminar os rostos dos atores para cada cena conforme o cenário criado digitalmente fosse mudando.

A primeira pessoa a ser cotada para fazer a personagem de Stone foi Angelina Jolie. Mas a atriz desistiu do papel. Depois dela, fizeram teste para o papel ou foram cotadas para ele Rachel Weisz, Naomi Watts, Natalie Portman, Marion Cotillard, Abbie Cornish, Carey Mulligan, Sienna Miller, Scarlett Johansson, Blake Lively, Rebecca Hall e Olivia Wilde. Ufa! Lista grande, e acima do normal para um papel de protagonista. Se Bullock de fato ganhar o Oscar por esse trabalho, várias atrizes vão se perguntar se não deveriam ter pensado melhor no papel.

Este era um projeto para o estúdio Universal que, inicialmente, queria Angelina Jolie no papel principal. Mas a atriz foi descartada, porque tornaria a produção ainda mais cara, e Gravity foi para a gaveta. Daí que a Warner assumiu o projeto e, no final de 2010, Sandra Bullock e Robert Downey Jr. estavam confirmados nos papéis de Stone e Kowalski. Depois, o ator acabou saindo do projeto por causa do famoso “conflito de agenda”, mas Bullock seguiu.

Enquanto filmava uma cena subaquática que depois, em outra tomada, vai aparecer em Gravity, Cuarón prendeu a respiração junto com Sandra Bullock para ter certeza de que não estava exigindo muito da atriz. Mas ele logo descobriu que não poderia igualar o seu fôlego com o de Bullock.

Existe um boato, há muito tempo, de que a Nasa daria pílulas de suicídio para os astronautas no caso deles passarem pelos piores cenários – como aquele que é focado no filme Contact. Mas há décadas a Nasa negou este boato alegando que seria muito mais fácil e confortável para um astronauta reduzir o oxigênio, como é mostrado em Gravity.

Gravity foi totalmente rodado nos Shepperton Studios, na cidade homônima na Inglaterra. Apenas a cena na Terra foi rodada fora do estúdio, mais precisamente no Lake Powell, no estado do Arizona, nos Estados Unidos.

O filme de Cuarón estreou em agosto no Festival de Veneza. Depois, ele participou de outros oito festivais. Neste caminho, ganhou dois prêmios: Atriz do Ano para Sandra Bullock no Hollywood Film Festival e o Prêmio Futuro do Cinema Digital no Festival de Veneza.

Gravity custou a bagatela de US$ 105 milhões. Apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, até o dia 6 de novembro, o filme havia arrecadado pouco mais de US$ 221,8 milhões. No restante dos mercados onde o filme já estreou, foram outros US$ 207,5 milhões. Como um filme de Hollywood precisa arrecadar o triplo, mais ou menos, para dar lucro – especialmente quando for um blockbuster -, podemos dizer que Gravity está se dando bem. Apenas na semana de estreia nos EUA o filme conseguiu US$ 55,78 milhões. Entre os filmes de “disastre”, ele é a quinta melhor bilheteria da história segundo o site Box Office Mojo – e o vigésimo entre os filmes 3D.

Algo que Gravity conseguiu, mais que lucro na bilheteria, foi cair no gosto do público e, principalmente, dos críticos. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,5 para o filme – uma excelente avaliação segundo os padrões da página. E os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 259 críticas positivas e apenas sete negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 9,1. Sim, meus caros, 9,1! Uma excelente média para o Rotten Tomatoes.

Ah sim, e se não deixei claro antes, deixo agora: se você tiver uma sala de 3D disponível, veja este filme em 3D. Sem dúvida é a melhor experiência.

Anatoly Slovyev foi um astronauta russo e coronel da força aérea soviética e russa que conseguiu dois recordes: o de caminhadas no espaço (16, no total) e o de horas passadas fora de naves em órbita (82 horas). Ele nasceu em 1948 e, aos 31 anos, completou o curso para ser um cosmonauta e foi selecionado para fazer missões com as naves Soyuz T e para passar longos períodos nas estações Salyut e Mir. Ele tinha 40 anos quando fez o primeiro voo espacial. Na segunda missão dele, em 1990, integrando a tripulação da Mir, Slovyev ficou 179 dias no espaço. Ele faria outros dois voos para fora da Terra, sendo que o último, quando tinha 49 anos, fez com que ele ficasse 197 dias em órbita.

Sobre as naves Soyuz, uma curiosidade: elas surgiram no programa homônimo soviético datado da época da corrida espacial pela conquista da Lua travada entre EUA e União Soviética. Esse tipo de nave, com capacidade para até três astronautas, foi precedida pelas naves Vostok (para um tripulante) e Voskhod (para dois). Com o fim da União Soviética, as naves Soyuz passaram a servir o programa espacial russo e nas operações com a Estação Espacial Internacional (ISS) em uma parceria com o ex-rival Estados Unidos.

Este é um filme 100% Estados Unidos. Por isso mesmo, ele passa para a lista de críticas daquele país que atendem a uma votação feita aqui no site.

CONCLUSÃO: O tema da incansável vontade do ser humano em sobreviver sempre rende. Muitos filmes já foram feitos a respeito. E este Gravity se junta a eles. Claro que o diretor Alfonso Cuarón e equipe conseguiram dar um passo a mais no cinema que foca a ação no espaço. As técnicas utilizadas neste filme garantem uma experiência nos cinemas 3D que apenas reforça a ideia de que esta nova fronteira da tecnologia veio para ficar. E que é um grande diferencial para encantar as audiências. Dito isso, sim, Gravity 3D é um filme potente tecnicamente. Mas não emociona ou surpreende como deveria para ser considerado o melhor um dos melhores filmes do ano. Para mim, faltou roteiro que me fizesse sair mais envolvida com a história. É um filme de ação no espaço, mas não é o melhor filme do ano – e, muito menos, como disseram alguns por aí, o melhor filme do gênero. Bom entretenimento. E só.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: De fato, tudo indica que Gravity será indicado para um monte de categorias no maior prêmio do cinema global. Certamente ele merece chegar em toda e qualquer categoria técnica, como as de melhores fotografia, efeitos visuais, mixagem de som, edição de som, edição e design de produção. Se isso se confirmar, temos, por baixo, cinco indicações técnicas, que podem chegar a mais, se acrescentarmos trilha sonora, por exemplo.

Mas e sobre as categorias principais? Inicialmente, sem ver ainda aos outros concorrentes fortes de Hollywood, acho que Alfonso Cuarón pode ser indicado como Melhor Diretor e Sandra Bullock, pelo esforço que teve nesta produção, deve ser indicada a Melhor Atriz. Talvez George Clooney consiga uma indicação como Melhor Ator Coadjuvante. E como as últimas premiações comportaram até 10 indicados na categoria Melhor Filme, sem dúvida Gravity chegará lá.

Agora, ele merece ter, por baixo, oito indicações ao Oscar? Com certeza. É um filme que busca o aprimoramento e avanço técnico do cinema. E Hollywood adora isso. E a gente também, claro, porque é ótimo ver a indústria que faz peças de arte avançar. Ainda que, francamente, este filme tenha um apelo muito mais técnico que narrativo ou emocional. Também concordo com muitas indicações para ele porque, não necessariamente, muitas indicações vão significar muitas estatuetas.

Da minha parte, acho que ele merece alguns Oscar’s técnicos (como efeitos visuais, mixagem de som, edição de som e, talvez, edição, design de produção e fotografia, dependendo estes últimos do que outros filmes vão apresentar) e, talvez, Melhor Diretor. Porque Cuarón realmente fez um grande trabalho.

Melhor Atriz… só se outras possíveis concorrentes, como Meryl Streep, Judi Dench, Cate Blanchett, entre outras, não fizeram um trabalho melhor. Acho bacana como Bullock se esforçou, passou por sacrifícios físicos e tudo o mais, mas eu não daria um Oscar para ela por este trabalho. Para mim, lhe faltou profundidade na interpretação – culpa do roteiro e não da atriz, diga-se. Mas logo mais veremos o que vai sair deste mato. No momento, acredito em cerca de nove indicações para o Oscar e em cinco ou seis prêmios – a maioria deles técnicos. Ainda aguardo 12 Years a Slave, Captain Phillips, The Wolf of Wall Street, Inside Llewyn Davis e August: Osage County para conseguir formar a minha opinião melhor.

The Broken Circle Breakdown – Alabama Monroe

3 de novembro de 2013 6 comentários

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Alguns filmes tornam difícil a tarefa de escrever um texto sobre eles. The Broken Circle Breakdown é um destes exemplares. Primeiro porque fazer uma introdução sóbria e sem revelar muito sobre a essência da produção é algo quase impossível. Busco sempre inícios assim porque eu acho que quanto mais uma pessoa sabe sobre um filme antes de assisti-lo, pior. Depois porque este filme é tão perfeito que qualquer início parece pequeno. Mas o que eu posso dizer é que The Broken Circle Breakdown consegue ser, ao mesmo tempo, um filme que inspira porque une como poucos música com história ao passo em que é capaz também de cortar o coração dos desavisados.

A HISTÓRIA: Uma música no estilo country ressoa. Quando a imagem aparece, vemos a Didier Bontinck (Johan Heldenbergh) no centro do grupo que está se apresentando em um bar. Corta. Uma enfermeira prepara a agulha para retirar o sangue de Maybelle (Nell Cattrysse). A menina está acompanha dos pais, Didier e Elise Vandevelde (Veerle Baetens) no hospital de Gent. A história se passa em junho de 2006. Pouco depois, enquanto uma enfermeira cuida de Maybelle, os pais dela encontram o médico. Corta. Didier está visivelmente emocionado quando Elise pede para a filha ficar um pouco sozinha no quarto do hospital, assistindo TV. Elise pede para que ele seja positivo enquanto estiver no hospital, deixando para chorar em casa. A partir daí, acompanhamos a história desta família.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Broken Circle Breakdown): Não é por acaso que eu coloco alguns avisos aqui no blog. De fato, acho que quanto mais uma pessoa sabe de um filme antes de assisti-lo, pior para a experiência do cinema. Afinal, mergulhar em uma história sem saber nada dela, seja em formato de filme, livro ou qualquer outra plataforma criativa e da arte, melhor porque assim está preservado o elemento surpresa.

O meu processo de escolher filmes para assistir e ir atrás deles passa por este respeito ao fator “uau”. Claro que algumas vezes é inevitável saber que determinado filme virou “febre” ou, nesta temporada pré-Oscar, que ele está muito cotado para ser premiado. Levo isso em conta, mas tento esquecer destas informações para me entregar ao trabalho dos realizadores com o mínimo de “contaminação” possível. Tudo isso para dizer que você deve, realmente, ler a respeito deste filme só depois de ter conferido o que ele tem a dizer.

O fator música é sempre fundamental, para mim. Mas é difícil um filme conseguir tratar a trilha sonora como um narrador ou um protagonista da história. Afinal, ainda que o cinema una imagem e som, o texto dos roteiros costuma ter uma relevância maior do que a trilha sonora. Este não é o caso de The Broken Circle Breakdown.

O filme, dirigido por Felix Van Groeningen, com um roteiro escrito por ele e Carl Joos adaptando a peça The Broken Circle Breakdown Featuring the Cover-Ups of Alabama escrita por Johan Heldenbergh e Mieke Dobbels, parece ter preservado a essência musical do original, mas ampliando na narrativa. Busquei informações sobre o original feito para o teatro, e encontrei a página deles no Facebook e este “trailer” da peça no Youtube. Pelo que tudo indica, a versão para o teatro era um musical com alguma dramatização sobre amor e perda no meio.

Agora, é bem diferente fazer um filme. E aí está a magia de The Broken Circle Breakdown. Logo mergulhamos no drama familiar e na dor vivida com muita coragem por Maybelle e compartilhada com os pais dela. Os adultos tentam ser fortes, enquanto não conseguem encontrar respostas para muitas dúvidas. E tudo vai piorar quando Maybelle não resiste e acaba vencida pelo câncer.

A dor de qualquer perda é brutal, mas a de um filho… não consigo nem imaginar, ainda que tenhamos sempre que fazer o exercício de nos colocarmos no lugar de quem passa por uma situação assim. O vazio é devastador, como bem revela esta história. E este é outro elemento que me fez gostar tanto do filme: ele não força a barra no ritmo. Não.

The Broken Circle Breakdown mostra o silêncio que surge após a perda de Maybelle, a dificuldade de diálogo entre Elise e Didier e a tristeza profunda dos dois – ainda que este sentimento seja revelado de forma diferente por cada um – sem pressa, compartilhando o tempo exato de cada um destes elementos com o espectador.

Desta forma, e com uma ajuda importantíssima da música – que fazia parte da vida dos protagonistas -, o espectador mergulha na história do filme. Sente tristeza, angústia, tensão. Como sou uma otimista, a maior parte do tempo, fiquei torcendo para que uma reviravolta positiva acontecesse… ainda que o sentimento era de que algo terrível poderia ocorrer a qualquer momento. Mas, de fato, algo poderia ser pior do que a perda de um filho?

Achei muito interessante a escolha dos roteiristas pela narrativa quebrada, não-linear. Acho que o filme ganha em interesse com isso. E diferente de outras produções, que podem escolher esta dinâmica por puro “capricho”, aqui eu vejo uma lógica nesta preferência. Quando Elise está abraçada com Didier no quarto do hospital olhando para a filha, pouco antes deles começarem o tratamento contra o câncer, parece lógico voltarmos no tempo sete anos, quando a história da menina começa a ser desenhada com a primeira noite em que o casal passa junto na casa dele. Parece que Elise, que não consegue dormir naquela cama de hospital, está relembrando a origem daquele amor eterno pela filha.

E isso acontece em muitos momentos do filme. Retrocedemos no tempo, para entender um pouco melhor como Elise e Didier chegaram naquele ponto, e retomamos para os fatos do presente. Não é apenas uma, mas muitas ocasiões em que parece que a quebra temporal acontece por uma “revisita sentimental” ao passado. O interessante é que essa lógica funciona, até porque o amor e os problemas que percebemos no presente dos personagens deste filme parecem ter uma sequência cíclica e originada no tempo anterior, como se eles estivessem em um “loop infinito”.

Depois que Elise sofre com a dor suprema da perda da filha, parece que ela começa a se estressar com o jeito de Didier em ver tudo com extrema lógica e frequentes discursos. O que não deixa de ser curioso, porque esta é uma característica dele desde o princípio. E aí entramos em uma seara da qual gostamos de falar pouco: de como, quando estamos encantados com alguém, ou apaixonados por uma pessoa, ignoramos os seus defeitos para observar apenas as suas qualidades. E isso é horrível porque os defeitos acabam cobrando um preço alto no futuro. Isso acontece com Elise e Didier.

Ela, em especial, começa a notar tudo o que eles não tinham de sintonia quando a perda da filha cobra deles mais união. Como acontece com muitos casais na vida real, Elise e Didier não se aproximam após a morte de Maybelle. O protagonista parece incapaz de sair da posição do “homem racional” que sabe lidar com tudo que aparecer pela frente. Enquanto isso, Elise fica sozinha lidando com a própria dor, e se abate – e quem não se abateria? Os dois vivem na mesma casa, mas estão sozinhos. Não conseguem dialogar. Até que Elise resolve dar um basta naquela relação.

Existiam diversas alternativas para lidar com uma perda devastadora como aquela. Mas The Broken Circle Breakdown não se esforça em fazer concessões. Felix Van Groeningen quer nos mostrar como muitas vezes não basta amar, ou ter fé, é preciso ter vontade de continuar e de fazer dar certo. E quando se percebe que não é possível dar certo – e o casal Elise e Didier, por mais simpático e afinado que seja na cantoria, parece fadado desde o início a dar errado -, é possível recomeçar.

Mas para ser coerente com a música que é a alma deste filme – o bluegrass, que só fui identificar quando o próprio Didier explica do que se trata -, The Broken Circle Breakdown não poderia ser uma ode ao otimismo. Certo que há músicas animadas no repertório, como este filme mesmo demonstra. Mas quando os personagens começam a descer a ladeira na direção de um fim triste e/ou trágico, a trilha sonora acompanha este movimento e parece que, finalmente, o bluegrass encontra a própria essência.

O filme tem diálogos e cenas de dinâmica entre os atores de arrepiar – aliás, Veerle Baetens e Johan Heldenbergh estão simplesmente fantásticos. Mas é a música que faz grande parte do trabalho e provoca verdadeiros arrepios. Achei fascinante, maravilhosamente belo. E triste, é claro. Da minha parte, sempre gostei de músicas que buscam o fundamental, que tentam ser coerentes com as próprias raízes. E o bluegrass parece ter esta característica. Assim como este filme.

Fora a emoção, The Broken Circle Breakdown ajuda a debater a velha questão entre a fé e a racionalidade. Tema importante nos dias que correm, especialmente nos Estados Unidos – e em outras latitudes também. Não é por acaso que Didier faz um discurso criticando o criacionismo. Não se trata apenas da visão individual do personagem. De fato, nos EUA, esta corrente tem rendido muitos debates e alguma disputa judicial sobre o que deve ser ensinado para as crianças.

Consigo entender os dois pontos de vista representados pelos protagonistas deste filme. Compreendo a indignação de Didier quando ele vê que as pesquisas envolvendo células-tronco poderiam estar mais avançadas. O que, em teoria, poderia ter ajudado a filha dele a superar a doença e viver. Eu também me indignaria no lugar dele.

Mas é preciso agir além da indignação – até porque não se muda o que já aconteceu. E compreendo a busca de Elise por um sentido maior do que a morte. Ela quer ter esperança de que a filha dela simplesmente não “sumiu”, mas que o amor perdura e permanece. Como em uma tatuagem, por mais que você a modifique.

O tema da (parece) eterna disputa entre religião/fé e ciência/lógica está presente neste filme. Mas não vejo ele como um ponto central. Para mim, foi muito mais intensa a dificuldade de Didier em aceitar que alguém pudesse pensar diferente dele do que a própria celeuma entre religião e ciência.

No caso desta história, a incapacidade do protagonista em lidar com a esperança/fé da filha e da mulher foi muito mais determinante. No caso de Maybelle, ele relevou os embates porque se tratava de uma criança e porque ela estava doente – ainda que isso não tenha impedido dele contar a história da morte das estrelas para ela no hospital na reta final. Mas em se tratando de Elise, Didier não conseguia se conter para ridicularizar as “crenças sem fundamento lógico” que ela tinha – e que poderiam ser classificadas como fé.

Achei potente a história justamente porque a falta de compreensão entre as pessoas é o que torna a vida tão complicada e difícil, muitas vezes. Acho que se mais gente se esforçasse em não querer “converter” os demais, seja no caminho da racionalidade ou no da fé, teríamos boas chances de avançar na aceitação dos demais. Falta generosidade e empatia no mundo, o que torna ele muito mais duro do que deveria. E muito mais triste, como bem ensina The Broken Circle Breakdown.

Para finalizar, me pareceu brilhante o desfecho deste filme. Elise resolve mudar o nome para Alabama, porque ela acredita que assim poderá recomeçar a vida. Sendo outra pessoa. Didier não entende a mensagem que a esposa quer passar, evidentemente. Nem todo artista, virtualmente sensível por definição, parece ser capaz de compreender a mensagem quando ela não é escrita com todas as letras. Por isso mesmo achei interessante a escolha do título de Alabama Monroe para o filme no mercado brasileiro. Faz sentido. Ainda que o título original também seja muito bom.

A história de amor entre Elise/Alabama e Didier/Monroe é linda e, por isso mesmo, quando tudo desmorona e eles não conseguem permanecer em pé juntos, a história se revela ainda mais cruel. Ela busca saídas dentro de casa – mudando o quarto da filha, por exemplo. Mas percebe que isso não apaga as memórias.

Busca, então, outros sentidos para a perda, mas não encontra apoio no marido. Que ele, por sua conta, sofre também, mas expressa a amargura de outra forma. Não demora muito para Elise perceber que a relação deles acabou, enquanto Didier insiste – afinal, a experiência dele com a filha foi diferente. No final do filme, mesmo que triste, fica uma mensagem de esperança, de que o amor permanece além da dor e do desespero. Um alento, junto com a música de despedida.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei encantada com a interpretação do casal de protagonistas. A belga Veerle Baetens, de 35 anos, além de linda, parece mergulhar na pele daquela mãe toda estilosa, cheia de tatuagens, ex-namorados e que vai descobrindo ter talento para a música também. Mesmo jovem, Veerle tem no currículo 29 trabalhos como atriz, incluindo oito séries para a TV. O belga Johan Heldenbergh tem 46 anos e uma carreira com 31 trabalhos como ator e um como diretor e roteirista: Schellebelle 1919, um drama lançado em 2011.

Tenho um fraco pelo cinema que é feito no norte da Europa. Gosto do que Dinamarca, Bélgica, Holanda, Noruega, Suécia, entre outros produzem. Infelizmente não consigo encontrar tantos filmes daquelas latitudes quanto eu gostaria. Mas tenho a tendência de gostar dos destaques que são exportados por aqueles países. Acho que eles fazem um cinema diferenciado, normalmente inventivo e com um certo “tom cru” que eu acho importante ser visto.

Quando o Oscar se aproxima, como agora, quando faltam uns poucos meses para sair a lista de indicados, costumo buscar os filmes indicados pelos países europeus, em geral, e especificamente estes da região norte. Normalmente vale o esforço.

Falei dos protagonistas de The Broken Circle Breakdown, mas é preciso citar também que a Nell Cattrysse se sai muito bem nesta que é a estreia da menina no cinema. A memória da menina está muito mais presente do que a interpretação propriamente dita de Nell. Ainda assim, sempre que a menina aparece em cena, normalmente em momentos de sofrimento, vejo que ela dá muita legitimidade para o papel. Realmente acreditamos que ela é uma garota que está passando por aquele momento difícil e pesado.

Este é um filme que tem estilo e identidade própria. Não parece um enlatado ou uma produção destas que poderia ser feita por qualquer realizador. Felix Van Groeningen escolhe cada tomada com precisão. O espectador não vê cenas sobrando, mas encontra, inclusive, sequências de pura liberdade poética. Há vários espaços para o silêncio e, claro, para a música. Um belo trabalho deste belga de 36 anos natural de Gent – onde se passa a história do filme – que fez quatro longas e um curta antes de The Broken Circle Breakdown. Em todos eles o diretor foi responsável também pelo roteiro. Vale anotar este nome e acompanhá-lo.

Da parte técnica do filme, excepcional a trilha sonora de Bjorn Eriksson. Como eu disse antes, as músicas deste filme são tão importantes quanto o roteiro. Depois, lindo o resultado da direção de fotografia de Ruben Impens e bastante precisa a edição de Nico Leunen. Uma equipe que funciona bem, sem dúvida. Gostei ainda da direção de arte de Kurt Rigolle, responsável pelo visual cheio de significado dos lugares que aparecem nesta produção, e dos figurinos de Ann Lauwerys.

Merece uma menção especial o trabalho da artista responsável pelas tatuagens que aparecem no filme, Marie Brabant. Muito interessante, e que também joga um papel importante na história – ajudando ela a ter estilo.

The Broken Circle Breakdown (em uma tradução livre algo como “O colapso do círculo quebrado”) estreou na Bélgica, país de origem do filme, em outubro de 2012. Depois, a produção passaria pelo Festival de Berlim e seria selecionada para outros 16 festivais – fechando a temporada no próximo dia 23 no Festival de Cinema Europeu de Osaka.

Nesta trajetória, o filme de Van Groeningen ganhou sete prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os que recebeu, destaque para dois no Festival de Berlim: o Label Europa Cinemas para Felix Van Groeningen e o prêmio da audiência na mostra Panorama. Vale citar parte da justificativa do júri que conferiu o primeiro prêmio para o diretor: “Felix Van Groeningen é um cineasta de verdade. Esta é uma maneira bonita e original de olhar para a relação de uma mãe e um pai com a filha doente terminal. Gostamos, especialmente, da direção de fotografia, da estrutura não-linear da história e do fato que ele evita a fácil manipulação emocional ao lidar com um assunto difícil. A música da banda de bluegrass dos pais não é apenas a trilha sonora, mas uma fonte de energia e de esperança para todos. A mensagem clara é que devemos investir em pesquisa científica e não permitir que a religião ou a política interfiram nisso”. Baita comentário. Melhor que todo o resto que eu escrevi. :)

Vale citar que o filme recebeu, ainda, os prêmios de Melhor Atriz para Veerle Baetens e Melhor Roteiro no Festival de Cinema de Tribeca. Merecidíssimo.

Fui pesquisar um pouco mais sobre o bluegrass e encontrei este link que traz uma crítica do CD Plum Pitiful: 20 Sad and Tragic Bluegrass Songs, que compila o trabalho de vários artistas. No texto do site AllMusic explicam que o disco tem uma “agenda aparentemente interminável de esperanças frustradas, corações partidos, assassinatos cruéis, acidentes de trem e mortes de soldados” em uma “ladainha de miséria” trazida pelo bluegrass quando ele surgiu no final dos anos 1940 e início dos anos 1950. Uma “tristeza constante”, como afirma o texto. Achei interessante citar estas informações porque elas parecem um complemento bacana para explicar o estilo e a “alma” de The Broken Circle Breakdown.

Falando outra vez da trilha sonora desta produção, vale citar o excelente trabalho dos outros nomes que fazem parte da banda de Didier e que cantam muito: Geert Van Rampelberg interpreta a William (violão), Nils De Caster faz as vezes de Jock (violino), Robbie Cleiren faz Jimmy (guitarra acústica) e Bert Huysentruyt é Jef (baixo acústico). Outro ator coadjuvante na história é Jan Bijvoet, que interpreta a Koen, amigo do grupo que se anima com cada apresentação e ajuda a movimentar a platéia normalmente fria.

Não há informações sobre o custo de produção de The Broken Circle Breakdown. Mas segundo o site Box Office Mojo, a produção arrecadou cerca de US$ 7,1 mil nos Estados Unidos – o que comprova que o filme não teve repercussão alguma por lá ainda – e de pouco mais de US$ 1,7 milhão nas bilheterias no restantes dos mercados em que já estreou. Desempenho muito baixo. Uma pena. Espero que este filme ganhe um pouco mais de repercussão no boca-a-boca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para The Broken Circle Breakdown. Uma boa avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 23 textos positivos e seis negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 79% e uma nota média de 7,4. Sem dúvida alguma eu me empolguei muito mais do que eles. :)

O tema do criacionismo versus o evolucionismo nos Estados Unidos rende bastante pano para manga. Esta notícia de abril de 2012 da revista Exame comentava a aprovação de uma lei no estado do Tennessee, no sul dos EUA, que permite que os professores de escolas públicas questionem o consenso científico em temas como aquecimento global e teoria da evolução. Na boa, não vejo o porquê da religião negar a ciência e vice-versa. Uma pode muito bem coexistir ao lado da outra, basta não levar o que se lê ao pé da letra e buscar conhecer os contextos que formam as religiões e as ciências. Dá trabalho, é verdade. É mais fácil ser um extremista que sabe pouco sobre o que segue e repete dogmas. Mas vale a pena ter um pouco mais de trabalho.

The Broken Circle Breakdown é uma coprodução da Bélgica com a Holanda.

Tenho percebido um movimento interessante por parte de muitos filmes “independentes” ou com orçamento menor que aqueles blockbusters de Hollywood: ao invés de gastar com sites próprios na internet, eles tem apostado em páginas no Facebook. Uma forma fácil e barata de criar um espaço para atualizar informações sobre a divulgação e repercutir estes filmes.

thebrokencircle3Vale comentar que os cartazes deste filme que encontrei por aí são ótimos. Muito estilosos. Fiquei tão em dúvida sobre qual cartaz escolher para abrir este post que resolvi colocar a segunda opção aqui ao lado, mas menor. Lindos, não? E que a formidável atriz Veerle Baetens não faz parte da peça que deu origem a este filme – diferente de Johan Heldenbergh, que é o autor do original e também o ator principal. O que apenas reforça ainda mais a potência do trabalho de Veerle neste filme.

CONCLUSÃO: Eu sou louca por música. Tocada em todo o tipo de ocasião. Concordo com Nietzsche quando ele diz que “sem música a vida não faria sentido”. Por isso mesmo, um filme que trate com tanto respeito a música, tornando a trilha sonora uma das protagonistas, sempre vai mexer comigo. Ainda mais quando ele tem uma história tão incrível que é contada de forma diferenciada como esta de The Broken Circle Breakdown. Gosto quando os realizadores tentam fazer algo diferente e buscam uma narrativa não-linear. Alguma vezes funciona, como nesta produção, outra vezes não.

Gostei tanto de The Broken Circle Breakdown porque ele coloca a música em primeiro plano, é verdade, mas também porque ele trata de assuntos sempre complicados de forma muito honesta e direta. O amor e a morte são temas centrais. Cada um lida com estes assuntos fundamentais da sua forma. Por isso mesmo, não acho ruim este filme não ser “otimista”. É preciso compreender as atitudes múltiplas que existem por aí, e as razões e histórias pessoais dos outros. The Broken Circle Breakdown nos fala um pouco de tudo isso e de uma forma muito potente. Achei perfeito porque mexeu muito comigo, me deixou tensa e emocionada. E o bom cinema é isso.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: The Broken Circle Breakdown está representando a Bélgica entre os 76 indicados este ano para uma vaga na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no próximo Oscar. É uma tarefa complicada para qualquer filme deixar outros 71 para trás – lembrando que a categoria para a qual ele está concorrendo costuma ter cinco finalistas. E esta produção dirigida por Felix Van Groeningen não tem aparecido na lista pré-Oscar feita por especialistas.

Pessoalmente, acho uma pena. Eu iria adorar ver The Broken Circle Breakdown ao lado de Jagten (comentado aqui no blog) e Le Passé (com crítica por aqui) na reta final para a premiação. Acho que eles seriam concorrentes muito fortes entre si, ainda que existam algumas preferências de quem vota pela Academia. Sendo assim, acho sim que este filme merece uma vaga no Oscar, ainda que eu acredite na superioridade de Jagten. Uma pura questão de gosto pessoal, claro. Só que tudo indica que ele não chegará lá. Uma pena.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. The Broken Circle Breakdown é uma das produções que segue tentando uma indicação. Os outros que fazem parte da lista são os seguintes: An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina).

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