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Pour Une Femme – For A Woman – Por Uma Mulher

25 de outubro de 2014 Deixe um comentário

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Procurar entender o próprio passado é uma demonstração de respeito. Não apenas com a própria história, mas principalmente com quem construiu os alicerces dela antes de você. Pour Une Femme narra uma busca destas, e a recriação histórica possível quando as fontes de informação não estão acessíveis. Um filme bem contado e que faz um resgate interessante da França do momento da Segunda Guerra Mundial e após esse período. Mas mesmo tendo elementos históricos, este filme se debruça mesmo é nos fatos particulares de uma família. Ganha e perde pontos por isso.

A HISTÓRIA: França, nos anos 1980. Um homem serve o café com as mãos trêmulas, perto de uma cesta com remédios. Ele abre a porta e deixa o cão sair. Na rádio, informações sobre a crise do Greenpeace e o risco ao governo Mitterrand. Anne (Sylvie Testud) comenta que a mãe dela e de Tania (Julie Ferrier) havia morrido três meses antes, deixando mais uma vez o pai das garotas, Michel (Benoît Magimel). As irmãs conferem as fotos antigas dos pais, e recordam da relação um bocado distante que tiveram com a mãe, Léna (Mélanie Thierry), depois que ela se divorciou do marido. Anne se surpreende com um anel de homem encontrado entre os pertences da mãe. A partir daí, ela resolve revisitar a história dos pais, e reconta tudo o que teria acontecido com eles, baseada na história real e em um bocado de imaginação.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Por Une Femme): Demorei para entender a pegada deste filme. O cartaz e o início sinalizam para uma história de amor. Não deixa de ser, mas Pour Une Femme não é apenas isso. A parte que o filme não aparenta ser é o que ele tem de mais interessante. Assim como a mensagem da história intrínseca ao triângulo amoroso.

O primeiro elemento bacana desta produção, como eu comentei lá no início, é a forma com que ela faz uma homenagem de uma filha para os seus pais. Quando Anne a irmã perdem a mãe e, (SPOILER – não leia se você não viu o filme), poucos meses depois, o pai, Anne percebe que há um vazio de histórias nunca contadas, de conversas que não foram estabelecidas por ela ou pelos pais com ela e a irmã. Neste vazio, ela começa a pesquisar e a recriar o que aconteceu.

O admirável é essa vontade de Anne em reencontrar os pais, em entender pelo que eles passaram e o que eles sentiram. Humanizar os nossos antepassados não é algo tão comum quanto deveria ser. Mas é bonito, necessário e uma forma de entender a gente mesmo. Além, evidentemente, de homenagear a quem veio antes. Quando Anne faz o exercício de tentar compreender a história dos próprios pais sem a “paixão” condicionada de uma filha que cresceu respeitando, temendo e considerando os pais como modelos, ela consegue ver que eles tiveram qualidades, defeitos, fraquezas e valores muito nobres que lhes aproximam dela mesma e de tantas outras pessoas.

Não é o exercício mais simples do mundo, mas é muito enriquecedor quando percebemos as pessoas que amamos sem filtros, tirando o sentimento que temos por elas de lado e apenas observando suas histórias com suavidade e generosidade. Daí é possível perceber que somos humano, demasiado humanos e, por isso mesmo, tão parecidos uns com os outros – mais do que muitas vezes nos damos conta. Esta é a parte bacana do filme, aquilo que faz Por Une Femme ser diferenciado em relação a outras produções.

Mas e a história propriamente dita? O roteiro de Diane Kurys, que também dirige o filme, vai dos anos 1980, na França, para a cidade francesa de Lyon em 1945. O primeiro tempo é vivido pelas irmãs Anne e Tania, que começam a formar as próprias famílias enquanto elas começam a se despedir dos pais. E o segundo, é o tempo de alguns dos principais acontecimentos envolvendo os pais das garotas, Michel e Léna. Na narrativa de Kurys, esses dois tempos vão se intercalando, com a história indo e vindo entre os anos 1980 e 1945.

O recurso narrativo desta quebra temporal não é novo, e não incomoda aqui – porque é bem ordenado. Ainda assim, a retomada do tempo “presente” das irmãs na convivência com o pai idoso pouco contribui para a narrativa. Apenas reforça a falta de diálogo entre eles, e a busca das irmãs por conseguir preservar um pouco daquele relacionamento que muitas vezes foi atribulado. Mas grande parte da narrativa está mesmo no tempo transcorrido logo após a Segunda Guerra Mundial.

E aí que o filme ganha outro elemento de interesse. Pouco a pouco o roteiro vai nos mostrando os conflitos que perduraram no ambiente pós-guerra. Desde a resistência comunista que começava a ganhar força, inclusive na Europa, com o desejo de estabelecer a “ditadura do proletariado” em diversos países, até as cicatrizes e o desejo de vingança dos descentes de judeus mortos. Neste último elemento é que surge a outra ponta do triângulo amoroso: Jean (Nicolas Duvauchelle), irmão há muito desaparecido de Michel.

Logo que ele aparece em cena, é inevitável não desconfiar do personagem. É evidente que ele está escondendo algo. A primeira impressão é que ele está mentindo, e que pode não ser quem diz ser – o irmão de Michel. Mas conforme o tempo vai passando, a impressão crescente é que ele está ali por algum motivo, provavelmente para usar o irmão de “fachada” para que ele possa se vingar de alguém. E não dá outra. Jean, junto com Sacha (Clément Sibony), fazem parte de um grupo de judeus que busca vingar-se dos inimigos nazistas eliminando-os do mapa.

São poucos os filmes que já mostraram essa “força-tarefa” de descendentes de judeus que buscaram na violência e na represália de mortes um pouco de justiça após o massacre de milhões de judeus, homossexuais, inimigos políticos dos nazistas e outras minorias feito durante a Segunda Guerra Mundial. E não lembro de outra produção que tenha contado esta história a partir de uma ótica tão pessoal e familiar quanto este Pour Une Femme.

Até agora, falei apenas dos pontos positivos deste filme. Mas, infelizmente, ele não tem apenas qualidades. Pour Une Femme gasta bastante tempo nas “sutilezas” do relacionamento do casal Michel e Léna e na aproximação que Jean faz da mulher do irmão. Para mim, o filme perde força e ritmo sempre que a diretora e roteirista Diane Kurys gasta momentos preciosos da narrativa no tradicional “cortejo” do homem que busca seduzir uma mulher compromissada – item fundamental em um triângulo amoroso que se preze.

Claro que o distanciamento de Léna do marido e a aproximação que ela faz do irmão dele não se justifica apenas por uma atração física. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mesmo sendo mais jovem e bonito – isso vai depender dos gostos de cada uma -, vejo que esta não é a questão principal em jogo. Léna, como tantas outras mulheres, se casa com Michel não por amor, mas por gratidão – ele ajudou a salvá-la da morte. Mas conforme a história se desenvolve, fica evidente as diferenças entre o casal – incluindo o desejo dela de ter liberdade e fazer as próprias escolhas e o estilo machista dele que torna esse desejo quase impossível.

Como acontece em tantas outras histórias, a motivação para a traição tem elementos de interesse pelo “novo partido”, mas vale mais aqui a promessa que aquela transgressão poderia resultar na vida da protagonista. Ela quer se libertar da vida cheia de “privações” do marido. Claro que ela poderia conseguir isso de outras formas, mas acaba cedendo para um caminho transgressor. O melhor ator do elenco, Benoît Magimel, que interpreta Michel, dá um show de interpretação durante todo o filme, mas especialmente quando ele se dá conta da traição da mulher.

Diferente de Léna, que provavelmente gostou de Michel, mas não o amou como ele amou ela, Michel tinha uma verdadeira devoção pela esposa. Não por acaso o filme tem o título que tem e Anne encontra a “relíquia” que simbolizava o cuidado do pai dela com a mãe preservada após tanto tempo. Não importa se Léna o traiu e se eles se separaram. Michel de fato amava a mulher. Pena que nem sempre esse sentimento é, de fato, correspondido. Isso não acontece neste filme, e daí vem outro ponto interessante desta produção: uma história pode ser bonita e bacana, mesmo imperfeita.

Esta é outra lição de Pour Une Femme. O filme gasta tempo depois no cortejo de Jean com Léna e vice-versa, tem nos atores que interpretam estes personagens outro de seu ponto fraco, mas apesar dos problemas, este é um bom filme. Porque tem um ótimo ator para segurar as pontas e pelo menos duas reflexões paralelas ao triângulo amoroso que valem a pena ser feitas. Entra para a lista de produções com toque bastante autoral que não tiveram uma grande divulgação ou importância para o país de origem, mas que se revela digna de ser conferida.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O elenco deste filme é reduzido e esforçado. Mas não são todos os atores que conseguem apresentar um ótimo trabalho. O destaque, para mim, fica com Benoît Magimel, que convence como o correto, político, empreendedor e apaixonado Michel. Nicolas Duvauchelle é bonito, mas fraquinho na interpretação, e Mélanie Thierry se esforça, mas não consegue demonstrar a força que a personagem dela exige. Os últimos dois atores prejudicam um pouco o filme, assim como as atrizes que interpretam as filhas de Michel e Léna.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Gilles Henry, que acerta na escolha de cores em cada momento histórico, e da trilha sonora de Armand Amar, essencialmente romântica, e que tem um papel importante durante a narração da história.

Por ser um filme de época, Pour Une Femme investe em elementos que ajudam a situar o espectador no passado. Destaque para os figurinos assinados por Eric Perron, pelo design de produção de Tony Egry e para a direção de arte de Maxime Rebière. Um outro elemento que acaba tendo um pouco de relevância, especialmente no envelhecimento do personagem Michel, é a maquiagem, liderada por Thi Thanh Tu Nguyen. Que, na minha opinião, é um pouco exagerada.

Pour Une Femme estreou em junho de 2013 no Festival de Cinema de Cabourg. Depois, o filme participaria ainda de outros seis festivais, entre eles o do Rio de Janeiro em setembro deste ano. Nesta trajetória, o filme ganhou um prêmio e foi indicado a um outro. O que recebeu foi o de Menção Honrosa para Diane Kurys pela “excelência na direção” no Festival Internacional de Cinema de Santa Barbara.

Esta produção foi totalmente rodada na França, em Lyon e em outros lugares da província de Rhône-Alpes.

De acordo com o site BoxOffice, Pour Une Femme teria arrecadado pouco mais de US$ 32,6 mil nos Estados Unidos. Nos outros mercados do mundo, a produção teria acumulado pouco mais de US$ 1,23 milhão.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para esta produção. Uma avaliação muito boa, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem as suas críticas linkadas no Rotten Tomatoes dedicaram 8 textos positivos e um negativo para a produção, o que garante aprovação de 89% para o filme e uma nota média de 6,6.

Esta é uma produção 100% francesa.

CONCLUSÃO: Esse é um filme simpático. Narra uma história de amor em meio a uma realidade de paz aparente. Porque nos bastidores, havia uma guerra sendo travada. Pour Une Femme ganha pontos ao explorar a história de uma família e a busca de uma das descendentes do casal de protagonistas para conhecer melhor as suas próprias origens. A proposta é bacana, mas o filme acaba perdendo pontos e um bocado do potencial por centrar-se demais em um triângulo amoroso. De qualquer forma, ele cumpre bem o papel dos resgates históricos e da reflexão sobre os “sonhos perdidos” – seja políticos, seja pessoais. É interessante, mas nada fenomenal ou que possa marcar a sua vida para sempre.

The Immigrant – Era Uma Vez em Nova York

3 de outubro de 2014 1 comentário

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A vida nos leva, muitas vezes, por caminhos complicados. E a solução que conseguimos após cada pedra é o que nos define. Mas algumas vezes, mesmo passos errados podem ser corrigidos. The Immigrant narra a história complicada de uma mulher que acaba cedendo em alguns de seus princípios para sobreviver. A história é dura, e há momentos em que o roteiro mexe com o espectador. A maior qualidade, contudo, está nas interpretações, especialmente na de Marion Cotillard.

A HISTÓRIA: A Estátua da Liberdade aparece de costas, e a câmera vai lentamente se afastando em um dia cinza. Aos poucos, vai aparecendo a silhueta de um homem, de chapéu, que vê ao longe a chegada de mais um navio. As pessoas se preparam para desembarcar. O local é Ellis Island, em Nova York. E o momento histórico, janeiro de 1921. No local cheio de imigrantes, Ewa Cybulska (Marion Cotillard) conversa com a irmã, Magda (Angela Sarafyan).

Ewa tenta disfarçar a tosse discreta, mas incessante, de Magda, mas um guarda percebe e tira a garota da fila. Só entram no país pessoas com plena saúde e que tenham, preferencialmente, uma família esperando – ou que estejam acompanhadas e com uma “conduta ilibada”. Ewa também tem a entrada negada, mas consegue ser resgatada da fila de extradição por Bruno Weiss (Joaquin Phoenix). Com este resgate, começa uma longa e complicada jornada para a imigrante.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Immigrant): Gosto de filmes de época. Mas apenas a imersão no passado não garante o envolvimento do público. É preciso muito mais. Para começar, uma ótima história. E depois, uma forma eficaz de apresentar essa história de qualidade. The Immigrant consegue reunir um ótimo trio de protagonistas, mais um bom grupo de coadjuvantes, um bom roteiro e uma ótima direção ajudada por profissionais competentes de diversas áreas para nos apresentar um pacote bem acabado.

O primeiro destaque evidente da produção é o bom roteiro da dupla James Gray e Ric Menello. Eles se debruçam em uma Nova York do início dos anos 1920. Uma cidade carregada, um bocado sombria, no processo de construção de uma nação que muitos desconhecem – ou fazem questão de esquecer. Afinal, para os estadunidenses não deve ser fácil admitir que a construção de seu país tão virtuoso atualmente foi baseada em corrupção, exploração de mulheres e de imigrantes de todas as origens e, como já nos mostrou diversas obras em HQ, envolta em muita criminalidade.

Alguns filmes já exploraram um pouco desta “origem da nação” obscura. Talvez um dos títulos da filmografia recente dos Estados Unidos mais interessantes nesta linha seja Gangs of New York, dirigido pelo sempre competente Martin Scorsese. Naquela produção é possível conferir a “realidade das ruas”, bastante suja, violenta, corrupta e cheia de nuances – há mais cinza que “preto no branco” na história.

Além do mesmo tempo histórico – de formação da nação – e do tom cínico dos dois roteiros, uma outra semelhança entre Gangs e este novo The Immigrant é o ótimo elenco de protagonistas – ainda que haja uma “uniformidade” maior na entrega do filme dirigido por James Gray do que por Scorsese. Algo interessante em The Immigrant é que o filme não tem nenhuma sobra. Da primeira até a última cena, cada elemento que vemos tem um propósito.

Por exemplo, a imagem inicial desta produção. A Estátua da Liberdade estar de costas para aquele homem bem vestido e impassível, para mim, é bastante ilustrativa. É como se a liberdade, a justiça e o “país de oportunidades” estivesse voltado para o outro lado, com a corrupção, a cobiça e a exploração de homens e mulheres dominando o “background”, todo o cenário por trás da imagem bonita que aparece nas fotografias e na televisão.

No fundo, essa “história real relativa” simbolizada naquela primeira cena e apresentada depois, nos detalhes, no decorrer do filme, não é própria apenas dos Estados Unidos, como muitos que são contra o país gostam de apregoar. Não conheço país em que a propaganda dos governos não seja melhor que a realidade das ruas. E isso não apenas no início dos anos 1920, mas também agora, em pleno ano 14 do século 21.

The Immigrant é interessante por isso, por mostrar sem leveza – pelo contrário, com algumas cenas bem angustiantes – como a realidade de algumas pessoas que não tem, de verdade, as mesmas oportunidades que a maioria, pode ser cruel. Naquele tempo, naquele país, e hoje, em muitas e muitas partes (infelizmente), há muita gente sendo explorada porque “no tiene papeles”, porque são imigrantes ilegais ou porque não tiveram oportunidade de estudar, por exemplo.

O roteiro de Gray e Menello acerta o tom e não perde o foco da análise crítica daquele cenário, daquelas pessoas e, consequentemente, daquela sociedade. Mesmo sendo um filme de época, por ter um roteiro bem escrito, The Immigrant nos faz pensar também nos tempos atuais e nas demais formas de exploração humana. Junto com o roteiro, o grande mérito para tornar este filme instigante e impactante em algumas cenas é o trabalho do trio principal de atores.

E neste sentido, mais uma vez, quem rouba a cena é a atriz Marion Cotillard. Eu já tinha achado ela brilhante em outras produções – com especial destaque para o comentado aqui De Rouille et D’Os -, mas neste filme ela carrega a história. Sem dúvida é a forma com que ela “veste” a personagem, desde o sotaque que simula um inglês mal falado, até a permanente expressão de dor e de força que ela consegue expressar por meio de Ewa que torna este filme tão interessante.

Mesmo Cotillard roubando a cena, não dá para desprezar o grande esforço que Joaquin Phoenix faz para dar profundidade para o vilão Bruno Weiss. O ator se sai tão bem no desafio que passamos a compartilhar, junto com Ewa, uma certa pena do personagem nos minutos finais da produção. Afinal de contas, ele é um desgraçado – em todos os sentidos. Compadecemos dele, da mesma forma que a vítima do algoz, em uma mescla de ódio e pena. Interessante quando um filme consegue não apenas repassar estas emoções, mas provocá-las também no espectador.

Quando isso acontece, preciso tirar o chapéu para o trabalho do diretor e da equipe envolvida. Outro que está bem na produção, além de Cotillard e Phoenix, é o ator Jeremy Renner. Muito diferente vê-lo aqui – sim, ainda tenho na lembrança a interpretação do ator em The Hurt Locker (comentado aqui). Renner está bem, e convence – aqui com muito mais sutileza e até com um bocado de charme. Mas ele fica um pouco ofuscado pelos outros dois protagonistas.

Para não dizer que o filme é perfeito, personagens secundários acabam não acompanhando os papéis principais nem na qualidade do roteiro, nem na interpretação dos atores. A família de Ewa é um elemento importante da história – o resgate da irmã dela, Magda, é o ponto central para tudo que ela acaba fazendo na América contra os próprios princípios. Mas a atriz Angela Sarafyan além de aparecer pouco – por razões bem justificadas pelo roteiro – , não convence tanto quanto deveria.

O mesmo podemos falar sobre os personagens de Edyta Bistricky (Maja Wampuszyc) e Wojtek Bistricky (Ilia Volok), tios de Ewa. Lá pelas tantas, a protagonista decide ir atrás deles, e tem as expectativas mais uma vez frustradas. Apesar da cena ser bem conduzida, apesar de um pouco previsível, e de causar impacto, parece faltar um pouco mais de qualidade para os coadjuvantes. Nada que tire o brilho do filme, mas querendo ou não, esse é um elemento que prejudica um pouco o resultado final.

De qualquer forma, e isso é o que importa, The Immigrant faz um resgate histórico muito bem feito, tanto na qualidade da história, no cuidado com cada detalhe em cena da reconstituição de época, quanto na interpretação dos atores principais. A produção faz pensar, não apenas sobre a construção de cada nação, mas também sobre problemas de marginalização, preconceito, violência e estigmatização social que seguem válidos até hoje.

Para mim, a parte mais importante do filme, além do citado anteriormente, foi nos mostrar como pessoas corretas podem ser levadas por caminhos tortuosos, mas que o importante é nunca perder o foco no caminho certo e, quando restar a mínima chance de trilhá-lo novamente, persistir no acerto. No fim, desta forma, The Immigrant nos transmite uma mensagem cheia de esperança, e de que vale a pena tentar caminhar certo. E mesmo que alguma vez isso não seja possível, não é necessário desistir. A qualquer momento uma luz pode surgir no “fim do túnel” e isso é tudo que você pode precisar.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Há muitos elementos técnicos deste filme que merecem ser mencionados. Além do roteiro de qualidade, bastante abordado anteriormente nesta crítica, devo destacar o excelente trabalho do diretor James Gray. Fica evidente como ele pensou em cada cena, planejou cada take, sem sobrar nenhum elemento em cena que não tenha importância narrativa. Além disso, ele trabalha bem com a equipe envolvida no projeto para valorizar tanto o trabalho dos atores quanto o excelente trabalho de contextualização histórica. Funciona.

Além da direção de Gray, chama muito a atenção o trabalho do diretor de fotografia Darius Khondji. O iraniano de 58 anos – e que fará 59 no próximo dia 21 de outubro – sabe valorizar como poucos a luz e a ausência dela. Desta forma, ele consegue valorizar os atores e o contexto das cenas, nos remetendo para aquele estilo de filme que predominou nos anos 1950 e 1960 e que não exagerava nos recursos artificiais para contar uma história, e sim apostando, essencialmente, nos elementos simples do cinema.

Da parte técnica do filme, vale destacar também o bom trabalho dos editores John Axelrad e Kayla Emter, o design de produção de Happy Massee, a direção de arte de Pete Zumba, a decoração de set de David Schlesinger e os figurinos de Patricia Norris. Também funciona muito bem e ajuda neste trabalho com personagens que precisam de bastante caracterização o trabalho de maquiagem e cabelo feito por Natalie Young, Evelyne Noraz, Rachel Geary e Stanley Tines.

O departamento de arte, um dos grandes “culpados” pela ambientação de época, tem nada menos que 30 profissionais envolvidos. Eles fizeram um belo trabalho.

Além dos atores coadjuvantes já citados, vale comentar o bom trabalho de Elena Solovey como Rosie Hertz, a mulher que comanda o “show” das meninas que também são prostitutas. Outra que acaba ganhando relevância na história, mas que achei um tanto fraquinha na interpretação, é a atriz Dagmara Dominczyk como Belva, a mulher que gosta de Bruno e que morre de ciúme quando entra em cena Ewa – até porque fica evidente, desde o princípio, que Bruno tem um interesse pessoal pela “nova aquisição”. Inveja sempre tem, em histórias como esta, e The Immigrant não foge à regra, uma relevância importante para o desencadear dos fatos.

Esta produção estreou no Festival de Cannes em maio de 2013. Depois, o filme participaria de outros 23 festivais. Um número impressionante, devo dizer! Nesta trajetória, a produção conseguiu abocanhar cinco prêmios e ser indicada a outros cinco. Entre os que recebeu, nenhum prêmio de grande relevância, mas vale citar os de excelência de interpretação de elenco para Marion Cotillard, Joaquin Phoenix e Jeremy Renner e o de excelência em direção para James Gray no Newport Beach Film Festival.

Esta produção teria custado cerca de US$ 16,5 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, até o dia 2 de julho, pouco mais de US$ 2 milhões. Muito pouco. No restante do mundo, o filme teria feito quase US$ 6 milhões. Muito longe de apresentar lucro. Uma pena.

Para quem gosta, como eu, de saber onde os filmes foram rodados, comento que The Immigrant foi todo rodado em Nova York.

Agora uma curiosidade sobre a produção: o roteiro, que tem uma mulher como protagonista, foi especialmente idealizado por Gray tendo Marion Cotillard como alvo para o papel principal. A vontade de escrever uma história focada em uma mulher surgiu depois que ele se emocionou com Il Trittico, baseada na ópera de Giacomo Puccini e dirigida por William Friedkin em 2008. Depois de assistir à ópera, ele comentou com a esposa que faltavam produções, nos dias atuais, focadas na interpretação feminina. Foi aí que ele perguntou porque ele não fazia algo do gênero, e ele teve a ideia de escrever algo para Cotillard. Para Gray, este é o melhor filme de sua carreira.

Este foi o último roteiro de Ric Menello, que morreu de um ataque cardíaco no dia 1 de março de 2013, antes mesmo do filme ser lançado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 88 críticas positivas e 13 negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 87% e uma nota média de 7,5. Achei a avaliação dos críticos, desta vez, muito mais justas do que do “público” que vota no site IMDb. Não sei se as pessoas estão acostumadas com outro tipo de narrativa e não estão muito propensas a aceitar bem filmes de época, mas acho que The Immigrant poderia ser melhor avaliado.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso mesmo, ela entra na lista de filmes assistidos por aqui e que satisfazem a uma das votações do blog.

CONCLUSÃO: A vida de qualquer imigrante é sofrida. Deixar o país de origem para buscar melhor oportunidades em outro país é um gesto transformador e corajoso. Mas nem sempre as condições são as mais convidativas. The Immigrant narra a história de uma de tantas mulheres que foram exploradas no início do século 20 na chegada aos Estados Unidos. Corrupção, mentiras e exploração fazem parte desta trama. Mas também há um grande exemplo de altruísmo, bondade, coragem e de princípios. A colisão destes ingredientes torna o filme interessante, assim como a interpretação dos atores. Bela história, bem conduzida e envolvente. E que resgata, ainda, um estilo de filme que estava ausente dos cinemas há bastante tempo. Por tudo isso, The Immigrant vale o ingresso, sem dúvidas.

Violette

7 de setembro de 2014 2 comentários

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Vidas aparentemente ordinárias podem revelar-se tão extraordinárias quanto a dos ídolos que vamos conhecendo com o tempo. Violette conta a história de uma escritora menos conhecida, mas que foi rodeada por nomes famosos. Nesta história, conhecemos não apenas a trajetória dela e de suas relações com os famosos, mas principalmente refletimos sobre os efeitos duradouros que a rejeição dos pais podem provocar na vida de uma pessoa. Um filme profundo, que trata de vidas complicadas e intensas. Recomendado se você não estiver procurando um filme para “relaxar”. Essa produção é tudo, menos relaxante.

A HISTÓRIA: Começa com a frase de que a feiura em uma mulher é um pecado mortal. Se ela é bela, é notada por isso. E o mesmo vale para a feiura. O dia está amanhecendo, e Violette Leduc (Emmanuelle Devos) caminha depressa por uma floresta, abandonando uma mala pesada no caminho enquanto os latidos dos cães se aproximam. Ela é presa, porque carregava uma mala com comida escondida. Corta. Capítulo 1: Maurice. Violette caminha por uma floresta, mas desta vez sem os latidos dos cães. Ela está chegando em casa. Logo que entra, deve deixar o dinheiro que conseguiu com um velho. Chegando no quarto, Maurice Sachs (Olivier Py) pede que ela não faça barulho. Este é apenas um dos importantes relacionamentos que fará a personagem de Violette ser conhecida como uma escritora libertária.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Violette): Faz mais de uma semana que eu assisti a esse filme, mas só agora consigo escrever sobre ele. Na memória, lembranças frescas do ótimo trabalho da atriz Emmanuelle Devos, que dá peso para a história em uma interpretação firme e convincente. A direção cuidadosa e que valoriza o trabalho da protagonista feita por Martin Provost, que assina o roteiro ao lado de Marc Abdelnour e René de Ceccatt, também é um diferencial da produção.

Sendo franca, eu nunca li nada assinado por Violette Leduc. Por isso mesmo fiquei fascinada com esta história nem tanto pela protagonista, mas pelo círculo que ela frequentou, especialmente por ver um pouco do resgate histórico de uma de tantas leituras possíveis da conhecidíssima Simone de Beauvoir (interpretada por Sandrine Kiberlain). Esta sim, eu li.:)

Interessante perceber como Simone, apesar de tão conhecida, ser tão acessível. Ao ponto de receber a visita de uma desconhecida Violette e, de forma muito generosa, ler o que ela tinha a apresentar. Vendo ali um potencial a ser incentivado, Simone cuidou em dar apoio para a escritora iniciante, ainda que ela tivesse outras intenções com a aproximação. Francamente não sei até que ponto ela teve ou não um romance com Simone – o filme argumenta que a paixão foi apenas unidirecional, que partiu de Violette e não foi correspondida por Simone, mas francamente fiquei com as minhas dúvidas.

De qualquer forma, o filme é interessante por mostrar alguns ícones da cultura “libertária” e cheia de contradições daquela época, como Simone de Beauvoir, Jean Genet (Jacques Bonnaffé), Maurice Sachs, Yvon Belaval (Fabrizio Rongione), Louis Jouvet (Richard Chevallier), Gaston Gallimard (Marc Faure) e Jacques Lemarchand (Pierre-Alain Chapuis) fora das convenções, em momentos descontraídos e de intimidade. Assim, os ícones perdem um pouco o verniz de “deuses” e se tornam, também (e por que não?) ordinários. Lembrando que Gallimard e Lemarchand aparecem apenas em uma ponta.

Interessante ver a alguns destes nomes famosos em momentos de vida ordinária – especialmente Simone e Jean Genet -, com suas inseguranças, infantilidades e “pisadas na bola”. Mas há também boas intenções, especialmente de Simone, e uma longa jornada de autocompreensão e de perdão de momentos decisivos da própria vida por parte da protagonista. E esta, para mim, foi a parte mais tocante da produção.

Há tempos eu reflito sobre a capacidade que algumas pessoas tem – e outras não – em dar origem a novas gerações. Ter filhos, pelo ato simples de parir, parece fácil. Mas ter filhos é algo muito mais complexo e que exige responsabilidade. E talento, gosto sempre de observar. Nem todo mundo foi feito para ser mãe ou para ser pai. E quanto antes as pessoas se dão conta disso, melhor.

Digo isso porque Violette é, para mim, mais um de tantos exemplos de como a geração de uma pessoa sem responsabilidade pode cobrar um preço alto da pessoa inocente que foi gerada. Violette era uma “bastarda”. O peso de ter sido rejeitada é o que vai determinar boa parte de sua vida. Isso até que ela consegue começar a trilhar o caminho da libertação através da literatura. Uma de tantas artes que podem ajudar no processo de cura e, consequentemente, de libertação.

Pouco a pouco Violette consegue perdoar a mãe, Berthe Leduc (Catherine Hiegel), o pai, que não conheceu, e a própria história. Consequentemente, fica evidente que a carência eterna dela tem como fonte a falta de amor e de aceitação original. Uma constatação difícil de ser feita por quem sempre se sentiu rejeitada, mas que vista em perspectiva e após o início do processo de autoconhecimento e de cura, pode ser alcançada.

Muito bacana como Violette consegue trilhar esse caminho, mesmo que ele seja feito de muitas pedras, sofrimento e decepções. Mas no fim das contas, aparentemente, a escritora conseguiu aceitar melhor a própria história e, principalmente, encontrar um pouco de paz. Algo complicado, que exige paciência e tempo, mas que é possível. E desejável.

Encontrar uma história que trata destes temas de forma tão franca e, inevitavelmente, alguma vezes pesada, é importante. E necessário. Por isso mesmo, recomendo o filme para quem está disposto a confrontar-se com uma história densa, complicada, mas com alguns ensinamentos interessantes. E que, de quebra, ainda nos mostra alguns ídolos da literatura e do teatro por um ângulo diferenciado e mais próximo. Vale conferir, especialmente se você está em um dia de ver um filme mais “denso.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Da parte técnica do filme, destaque para a excelente e bela direção de fotografia de Yves Cape. Também gostei muito da trilha sonora de Hugues Tabar-Nouval e da edição de Ludo Troch. O trio é fundamental para a produção, com destaque especial para a trilha sonora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção. Levando em conta a média do site, esta é uma boa avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 24 críticas positivas e seis negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 80% e uma nota média de 7,1. Excelente nota, diga-se.

O único prêmio recebido por Violette foi uma Menção Especial para Emmanuelle Devos no Festival de Cinema Internacional de Haifa – quando ela foi citada também pelo trabalho na produção Le Temps de l’Aventure.

Eu gosto do diretor Martin Provost. Para ser franca, dos cinco longas e do único curta que ele dirigiu, assisti antes de Violette apenas a Séraphine (comentado aqui no blog). Achei o filme anterior dele mais excepcional que este Violette. Ainda assim, algo é preciso admitir: ele tem bom gosto na seleção de histórias interessantes e inusitadas. Espero que ele continue trilhando este caminho e com o olhar cuidadoso que ele tem, valorizando principalmente a direção de fotografia e as intérpretes em seus trabalhos.

Gente, corri para publicar este texto até o final da noite de domingo. Por isso mesmo, vou ficar devendo estas notas de final de texto. Logo que possível, complemento com mais informações, beleza? Até mais!

CONCLUSÃO: Esse não é um filme fácil. E nem poderia ser diferente. Afinal, a história destrincha boa parte da vida de Violette Leduc, uma escritora que foi contemporânea de Simone de Beauvoir, Jacques Guérin, Jean Genet, Maurice Sachs, Louis Jouvet e de Gaston Gallimard e, mais que isso, circulou entre eles. Honestamente, não sabia nada dela até então. Mas mais que nos mostrar alguns destes ídolos de perto, especialmente Simone de Beauvoir, este filme propicia uma reflexão interessante sobre as cicatrizes que a falta de amor pode provocar em uma pessoa.

Violette é rejeitada, como tantas pessoas que não nascem em lares estruturados, e a busca desesperada por aceitação e por carinho para estas pessoas é algo que deveria qualquer pessoa refletir antes de tomar decisões importantes na vida. Um filme interessante por mergulhar tanto na vida e nos sentimentos de uma escritora que penou muito para ser reconhecida e que, até hoje, não tem a popularidade de outros nomes de sua época. Interessante, mas denso. Por isso mesmo, não recomendo se você estiver apenas procurando um filme para relaxar. Este, definitivamente, não é o caso desta produção.

Only Lovers Left Alive – Amantes Eternos

17 de agosto de 2014 Deixe um comentário

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Interessante como o cinema está sempre nos mostrando que é possível ser inteligente e criativo utilizando elementos já conhecidos. Ou, em outras palavras, que para entregar uma boa obra não é preciso recriar a roda. Basta fazer diferente, ainda que utilizando recursos um tanto desgastados. Only Lovers Left Alive se soma a outros filmes que conseguem exatamente isso.

Com um realizador inteligente à frente do projeto, esta produção revela estilo, uma boa dinâmica e elementos pop certeiros para cair no gosto de alguns públicos. E para você que quer saber sobre esse filmes mas não quer estragar surpresas, recomendo que não leias mais nada além do parágrafo seguinte.

A HISTÓRIA: Um céu estrelado gira lentamente. Depois, mais veloz, até que a imagem se funde em um vinil que começa a tocar. Enquanto a música toca, a câmera gira no mesmo compasso e mostra Eve (Tilda Swinton) em um quarto cercada por livros. Em outro local, o mesmo giro mostra Adam (Tom Hiddleston) deitado em um sofá com uma guitarra sobre o corpo. O fluxo segue entre uns e outros, até que Adam e Eve despertam do transe. Ele vê a chegada de Ian (Anton Yelchin), enquanto ela observa o movimento na rua. Cada um obtém o que necessita, mas não é o suficiente. A história dos dois será narrada neste filme.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Only Lovers Left Alive): O início desta produção é um tanto estranho, mas ao mesmo tempo estimulante. Evidentemente por causa da trilha sonora, mas também pela direção cuidadosamente planejada de Jim Jarmusch. Ele se preocupa no ritmo e na fluência da história, assim como em que cada elemento converse entre si. É como se as imagens tivessem que seguir sempre em um compasso lírico, como a própria música que ajuda a contar a história.

Gostei das sequências iniciais. E quando falo delas, me refiro naquelas que apresentaram os protagonistas e a primeira de várias músicas importantes da história. Jarmusch, que também assina o roteiro, logo se preocupou em nos apresentar o contexto em que vive cada personagem. Importante, especialmente para o futuro da narrativa. Mas mesmo com aquele começo promissor, admito que senti preguiça quando percebi que esta era uma história de vampiros.

Meu primeiro pensamento foi: “Ah, fala sério! Mais uma história de vampiros? Ninguém merece”. Afinal, tanto já foi falado deles. E há clássicos no cinema deste gênero muito difíceis de serem batidos. Perceber que os vampiros estavam no centro da história me tirou um pouco do ânimo. Mas esse foi um ledo engano. Isso porque uma das graças de Only Lovers Left Alive é, justamente, a forma com que o filme brinca com o gênero, seus estereótipos e “tradição”.

E daí volto para o início deste texto. Como é gratificante quando encontramos uma obra que consegue, apesar de tantos filmes anteriores terem tocado naquele tema, apresentar uma roupagem e elementos novos! Isso só comprova que o talento pode sempre tornar uma antiga história, lenda ou mesmo imaginário popular em algo refrescante e que tem uma certa levada moderna.

Claramente Jarmusch se esforçou para conseguir fazer a sua própria história definitiva sobre vampiros. E cá entre nós, eu acho que ele conseguiu. Para mim, que gosto do gênero e tenho ótimas lembranças de clássicos sobre estes personagens que gostam de sangue, Only Lovers Left Alive conseguiu a proeza de entrar na seleta lista de bons filmes do gênero. Destes que merecem ser vistos.

Além daquelas qualidades iniciais já citadas, impressiona a ironia do roteiro de Jarmusch, que brinca com três elementos fundamentais destes personagens seculares, porém com certa mortalidade: a genialidade de quem tem a possibilidade de viver por séculos e acompanhar a história se desdobrar frente aos seus olhos; a admiração da beleza que a criatividade, o talento e a inteligência dos “zumbis” (humanos mortais) pode criar; e a revolta com a falta de evolução dos “zumbis” como espécie.

Os personagens centrais desta história vivem sempre equilibrando o gosto pela beleza, pela arte, pelo gesto de apreciar o que há de mais sublime no mundo, com o tédio e a depressão (principalmente Adam) por não ver a civilização humana avançar tanto quanto poderia. E daí Jarmusch consegue, com muito rock pesado e uma direção cheia de estilo, nos fazer pensar como vampiros. E isso é magnífico!

Como você se sentiria se pudesse viver durante séculos e ver o belo e o medonho que os humanos são capazes de fazer, geração após geração? Eu provavelmente teria que ter ao meu lado um amor “eterno”, como sugere o título do filme para o mercado brasileiro, para dar uma equilibrada no meu humor. Provavelmente eu ficaria no meio termo entre Eve e Adam… ao mesmo tempo em permanente admiração pelo belo, mas também deprimida com tanto desperdício de potencial dos “zumbis”.

Sem desperdiçar recurso em nenhuma cena, Jarmusch adentra na vida deste casal de vampiros, grandes amantes da arte – ela dos livros, ele da música. De forma inteligente, ao escolher estas vertentes artísticas, o cineasta consegue destilar um roteiro com algumas referências literárias e uma trilha sonora de arrepiar – e que merece ser escutada independente do filme. Ao mesmo tempo, ele não se amarra em um filme cheio de referências demais. Pelo contrário.

O roteiro desta produção acerta na mosca em equilibrar as referências interessantes a obras de diferentes períodos e estilos com uma linguagem contemporânea nos diálogos e nas relações dos protagonistas com os demais personagens. Com esta escolha, Jarmusch consegue fazer um filme que respeita a filmografia anterior sobre vampiros – especialmente a dos melhores filmes -, avança na aproximação destes personagens com a gente, os “zumbis” espectadores desta produção, e também no exercício de imaginar como estes seres quase-eternos viveriam hoje, em pleno século XXI.

A história funciona bem, e convence. Ajuda muito também a excelente trilha sonora. Mas para não dizer que tudo é perfeito, algumas vezes o filme perde um pouco o ritmo, como quando a irmã de Eve, Ava (Mia Wasikowska) aparece em cena.

Dá para entender a intenção do realizador, de mostrar como uma geração mais nova de vampiros carece de “modos” e até de princípios. Mas ter apenas uma personagem com essa pegada e ela ser, justamente, “desmiolada”, ajuda a estigmatizar os jovens como figuras sempre sem ponderação ou valores. E sabemos que nem sempre é assim. Há todos os tipos de jovem no mercado, assim como adultos que seguem também diferentes linhas de pensamento e de ação.

Sendo assim, apesar de entender as intenções de Jarmusch com a personagem de Ava, achei um tanto pueril a toada desta personagem. O filme vinha bem até ali, mas perdeu um pouco do interesse com a chegada da garota. Por outro lado, claro, ela tem relevância na narrativa porque insere o elemento surpresa – aquele mesmo que faz você esperar que algo de ruim aconteça a qualquer momento. Por este lado, Ava é interessante. Mas não pelo estereótipo desmiolado.

De qualquer forma, e para resumir, Only Lovers Left Alive acaba surpreendendo pelo lado positivo. Chega com uma ótima direção, um roteiro que equilibra ironia e autorreferências de outras obras (de vampiros ou da arte em geral), uma trilha sonora empolgante, uma direção de fotografia bacana, edição idem e um elenco escolhido a dedo e que funciona muito bem. Por pouco, não é perfeito. Mas, sem dúvida, consegue a difícil tarefa de entrar na lista dos bons exemplares do gênero.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sempre achei a atriz Tilda Swinton única em sua estranheza. Ela é facilmente reconhecida não importa o trabalho em que faça. Figura um bocado andrógina, ela caiu como uma luva como intérprete da personagem Eve. Aliás, não me admira se o cineasta escreveu o papel pensando na atriz. Ela é digna de inspirar uma personagem linda, forte e quase efêmera como aquela.

Por falar nos intérpretes deste filme, acredito que Only Lovers Left Alive me apresentou, pela primeira vez, todo o potencial do ator Tom Hiddleston. Ele está perfeito como Adam, par bem afinado de Swinton nesta produção. De longe, sua melhor interpretação da qual eu tenho lembrança. Os dois embalam a história e são o mais interessante do filme, sem dúvida.

Ainda que vale a pena citar o bom trabalho de Anton Yelchin como Ian, o mais próximo de amigo “zumbi” que Adam tem e uma espécie de “faz-tudo” para o protagonista; o veterano John Hurt como o interessante, ainda que em papel pequeno, Marlowe – aquele que acaba revelando a fragilidade dos vampiros; e Mia Wasikowska na personagem mais fraca da produção, Ava. A atriz está muito bem, mas é o papel dela mesmo que carece de densidade. Em papéis menores, mas que também tem o seu charme e relevância, estão Jeffrey Wright como o Dr. Watson, fornecedor do sangue para Adam; e Slimane Dazi como Bilal, o braço direito de Marlowe.

Algumas cenas são verdadeiramente belas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Uma delas, a despedida emocionada de Bilal quando o mestre dele parte. Bacana a forma com que Eve, mesmo enlutada, se compadece da dor do “zumbi” que sofre verdadeiramente com a perda. E essa relação entre os vampiros, sábios após observar com paciência e sensibilidade única o passar do tempo, e os “zumbis” que tropeçam e acertas em seus respectivos caminhares, é o que torna o filme ainda mais interessante.

Da parte técnica do filme, primeiro é preciso tirar o chapéu pelas ótimas escolhas na direção e no roteiro de Jim Jarmusch. Ele realmente forja cada cena com cuidado, cuidando para que os elementos conversem entre si e, desta forma, para que o filme tenha ritmo e flua como uma música bem orquestrada. Depois, fundamental a trilha sonora digna de ser colecionada de Carter Logan e Jozef van Wissem. Eu que gosto de um rock pesado, achei perfeita a escolha do repertório. E tenho certeza que os músicos, em especial, vão ficar arrepiados com os instrumentos que Adam vai colecionando.

Junto com a direção de Jarmusch, funciona muito bem a direção de fotografia de Yorick Le Saux. Ainda que ele não tenha nenhum achado que torne este o elemento forte do filme, já que as escolhas de ângulos e de ritmo de narrativa de Jarmusch é o que tornam o filme diferenciado. Para ajudá-lo nesta tarefa, vale destacar o excepcional trabalho de edição de Affonso Gonçalves. Também gostei do design de produção de Marco Bittner Rosser; da direção de arte de Anja Fromm e Anu Schwartz; e, e esse elemento é outro que se destaca sobre os outros nesta produção, os refinados e muito contemporâneos figurinos de Bina Daigeler.

Only Lovers Left Alive estreou em maio de 2013 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participou de outros 26 festivais. Uau! Um número impressionante, sem dúvidas. Nesta trajetória, a produção abocanhou três prêmios e foi indicada a outros seis. O mais relevante, entre os recebidos, foi o Prêmio Especial do Júri para Jim Jarmusch dado no Sitges – Festival Internacional de Cinema da Catalunha.

Esta produção teria custado cerca de US$ 7 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco menos de US$ 1,86 milhão. Pouco, o que é uma pena. Mas dá para entender porque esta é a típica produção sem um grande nome no elenco – pelo menos destes óbvios, que lotam as salas independente do que façam – e que não teve a distribuição massiva de outros filmes. Mas acredito que a propaganda boca-a-boca deve fazer o filme ser mais visto e, talvez, se pagar.

Only Lovers Left Alive foi rodado em três países diferentes: Alemanha, Estados Unidos e Marrocos. As cenas no clube de rock foram feitas em Hamburgo. Também houve cenas rodadas no estúdio MMC, em Colônia; em uma mansão de Detroit (utilizada como a casa de Adam); e em Tânger, no Marrocos. Ou seja, para a história, as duas cidades mais importantes da trama, Detroit e Tânger, de fato são utilizadas pelos produtores. Isso ajuda para embarcar o espectador na história.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para Only Lovers Left Alive. Uma ótima avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 129 textos positivos e 22 negativos para a produção, o que lhe garante 85% de aprovação e uma nota média 7,3. Números muito bons também.

CONCLUSÃO: Histórias de vampiros estão mais que batidas no cinema. Basta olhar para o histórico de produções lançadas nos últimos 100 anos para saber que muito já foi falado sobre eles. E mesmo assim, o diretor e roteirista Jim Jarmusch consegue nos entregar uma obra fresca e interessante sobre estes personagens tão “desgastados”. Isso, para mim, é a essência do cinema. Recriar o que é interessante, trazendo elementos novos para o que já pareceria batido, assim como a capacidade que outros têm de contar histórias totalmente novas.

Only Lovers Left Alive acerta na mosca na ironia, na ode à arte e ao amor, e na aposta decisiva na trilha sonora e em um estilo de direção que leva a assinatura do realizador. Divertido, instigante, renovador do gênero. Vale ser visto, especialmente se você gosta de ironias e de repensar velhos personagens que estão entranhados no imaginário popular.

One Chance – Apenas Uma Chance

11 de agosto de 2014 Deixe um comentário

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Os programas musicais proliferaram nos últimos anos, e alguns demonstraram ser um verdadeiro deleite para quem gosta da boa música. Um dos talentos revelado por um destes programas, o Britains’s Got Talent, virou febre no Reino Unido e ganhou notoriedade. A história deste talento, Paul Potts, é contada no filme One Chance. A produção segue o humor inglês clássico e garante boas risadas. Envolvente, o filme é um bom passatempo.

A HISTÓRIA: Um grupo de garotos canta no coral da Igreja. Um deles se sobressai no gogó muito mais que os outros. Ele se dedica tanto que acaba desmaiando. Ao entrar no hospital, com nove anos de idade, Paul Pott (Christopher Bull aos 9, Ewan Austin aos 14, James Corden na vida adulta) parece ter rompido um tímpano. Acompanhando o menino, os pais dele, Yvonne (Julie Walters) e Roland (Colm Meaney).

A história começa em Port Talbot, cidade de Wales, em 1985. As vistas da cidade mostram como lá predomina o trabalho em fábricas. Na narração, Paul conta que sempre quis cantar, e que a mãe lhe dizia que ele tinha voz para a ópera. Mas logo no início fica claro que ele vive sofrendo bullying (perseguição de um bando de valentões da escola). Ainda assim, ele segue o sonho e chega muito mais longe que o esperado.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a One Chance): Há pessoas que são “zoadas” a vida inteira. E mesmo assim, não desistem dos próprios sonhos. Esta é a parte bonita e que inspira deste filme.

Afinal, One Chance mostra claramente como o protagonista Paul Pott foi zoado a vida inteira – seja pelo nome, parecido com o do carrasco do Camboja, Pol Pot, seja por ele sempre ser gordinho ou, e principalmente, porque ele era o “estranho” que gostava de cantar ópera.

Mas o bacana do filme é que ele mostra como Paul Pott venceu todo o preconceito, dentro e fora de casa – o pai dele, Roland, teve dificuldade em aceitar aquele filho “estranho” -, e seguiu o próprio sonho. E como essa obstinação nunca é simples, ele passou por uma série de dificuldades no caminho. Sem inovar na história, até porque ela é quase um “conto de fadas” de um ganhador de um programa musical, o filme ganha o espectador pelo humor.

O roteiro de Justin Zackham destila o melhor estilo do humor inglês, com tiradas ótimas e muito humor atualmente considerado “politicamente incorreto”. Para os ingleses não é problema tirar sarro de aspectos físicos das pessoas – incluindo gordinhos – e nem dos estereótipos. O filme dirigido por David Frankel funciona por causa disso e também pelo trabalho dos atores, com destaque para o carisma e a sintonia dos protagonistas – James Corden e Alexandra Roach.

A linha narrativa de One Chance é clássica e linear, começando com Paul ainda criança e já soltando a voz no coral da Igreja, e acompanhando ele um pouco mais crescido, e ainda sendo perseguido, até chegar à vida adulta. Inevitável não lembrar de Billy Elliot assistindo a esta nova produção.

O filme de Stephen Daldry mergulha na história de um garoto que foi zoado, repreendido e que teve que enfrentar diversas barreiras para seguir a vocação e o sonho de fazer balé. O mesmo acontece com o protagonista de One Chance em relação à música erudita. Bacana ver a mais uma produção que segue a boa linha do filme de Daldry.

Desta forma, e sendo breve porque estou com pouco tempo para escrever esta crítica, posso afirmar que One Chance é um filme sem inovação, que segue a narrativa linear clássica, mas que tem graça pela narrativa com humor inglês e pelo talento dos intérpretes. E para quem gosta de música ou de programas de TV que valorizam este tipo de talento, esta produção tem um interesse especial, porque há uma boa trilha sonora durante todo o filme. Vale a pena.

NOTA: 9 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Caros leitores, vocês já devem ter percebido que o meu tempo ficou mais escasso. Mas quero ver se a partir desta próxima semana eu consigo deixar esta página mais atualizada. Este filme, assisti há duas semanas, mas só agora consegui escrever este texto rápido sobre ele. Veremos se da próxima vez sobra mais tempo. Obrigada para você que segue me visitando por aqui.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para One Chance. Uma boa avaliação, levando em conta a média do site. Os críticos que tem os textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 23 textos positivos e 11 negativos para a produção – garantindo aprovação de 68% e nota média de 5,5.

Quem não acompanhou a trajetória do Paul Potts original mas, como eu, ficou curioso(a) para saber como o “original” se apresentou no início do programa, neste vídeo no YouTube é possível matar a curiosidade. E neste outro link do site os finalistas do programa e o anúncio do vencedor.:)

Em outro momento falo dos destaques da ficha técnica da produção. Até mais! Agora consegui um tempinho, então vou falar sobre os aspectos técnicos do filme que me chamaram a atenção. Como dito anteriormente, a principal qualidade do filme é o humor inglês do roteiro de Justin Zackham. Esta característica chama mais a atenção que a direção de David Frankel, já que o realizador não ousa na linguagem em momento algum – diferente de outros nomes do cinema inglês que tem inovado na narrativa nos últimos anos.

Mesmo sem ousar, um acerto de Frankel é aproximar a câmera sempre dos atores. É assim que os intérpretes ganham destaque com entregas convincentes – especialmente o inglês James Corden, que está perto de completar 36 anos – no próximo dia 22 – e que tem 47 trabalhos no currículo como ator. Um nome a ser acompanhado e que vale ser visto em outras produções. Corden está bem acompanhado na produção, tendo como “pais” na trama os veteranos Julie Walters e Colm Meaney e a interessante Alexandra Roach, com 20 trabalhos no currículo.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Florian Ballhaus, que sabe diferenciar bem os tempos narrativos da produção utilizando lentes diferenciadas e também, junto com o diretor Frankel, valoriza alguns dos belos cenários pelos quais a trama passa – especialmente Veneza.

Importante também a condução da trilha sonora de Theodore Shapiro, assim como a edição de Wendy Greene Bricmont.

One Chance estreou em setembro de 2013 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme passaria ainda por outros sete festivais. Nesta trajetória ele recebeu um prêmio e foi indicado a outros quatro – incluindo o Globo de Ouro de Melhor Canção Original para Jack Antonoff e Taylor Swift pela música Sweeter than Fiction. O único prêmio que ele recebeu foi o dado pela audiência para David Frankel no Festival Internacional de Cinema de Chicago.

Do elenco de apoio, merece uma menção a atriz Valeria Bilello como Alessandra, com quem Paul faz um dueto em Veneza; e Mackenzie Crook como Braddon, o melhor amigo do protagonista e chefe dele na loja que vende celulares. Stanley Townsend se esforça como Luciano Pavarotti, ídolo supremo de Paul, mas a versão acaba ficando caricatura demais.

One Chance foi rodado quase totalmente no Reino Unido – em locais como Londres, Wales e Surrey -, mas teve algumas sequências produzidas também em Veneza.

Na trilha sonora, peças clássicas de Wolfgang Amadeus Mozart, Giacomo Puccini, Ruggero Leoncavallo, Frederick Chopin e Giuseppe Verdi. Mas predomina, sem dúvida, entre estes compositores, o trabalho de Puccini.

CONCLUSÃO: O cinema inglês normalmente vale o ingresso pelo estilo do roteiro e do humor típico daquela cultura. One Chance confirma a regra. O filme rende algumas boas risadas, ainda que a maioria delas seja bem previsível. Mas o roteiro e os atores principais conseguem envolver bem o espectador em uma história que lembra muito outro filme: Billy Elliot. Enquanto no filme de Stephen Daldry o nosso “herói inusitado” era um garoto que queria fazer balé a qualquer custo, aqui o “peixinho fora do aquário” e/ou pária social é um rapaz gordinho que quer cantar ópera. Os dois filmes são envolventes, contagiam e dão bom exemplo do prêmio que pode vir com a obstinação e o talento. Divertido.

Zwei Leben – Two Lives – Duas Vidas

19 de julho de 2014 4 comentários

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Duas histórias pouco contadas e interessantes em um mesmo pacote. Isso não é fácil de encontrar. Mas Zwei Leiben apresenta esse pacote de forma eficaz, apesar da complexidade do assunto. Para quem gosta de filmes que se debruçam sobre histórias recentes de países importantes no cenário internacional, esta é uma boa pedida. Envolvente, esta produção tem ritmo, drama e suspense em partes bem dosadas.

A HISTÓRIA: Diferentes narradores comentam sobre a queda do Muro de Berlim e a unificação da Alemanha. Um deles afirma que a população, após “28 anos atrás do arame farpado”, não pode acreditar no que está acontecendo. Outra afirma que muitos manifestantes querem que as lições da RDA (República Democrática Alemã, criada em 1949 e sob a influência dos soviéticos) não sejam esquecidas.

Neste cenário, Katrine Evensen Myrdal (Juliane Köhler) caminha com passos firmes pelo aeroporto de Tyskland em novembro de 1990. Ela passa pelo controle do aeroporto e segue até o banheiro, onde coloca uma peruca e troca de roupa. Saindo dali, Katrine pega um trem, depois um táxi, e chega no local em que ela teria morado quando era criança. Dali, ela segue para o arquivo de Leipzig, onde encontra o nome que tanto estava procurando, de Hiltrud Schlömer. Em breve a história daquele orfanato virá à tona.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Zwei Leben): Muito especial a forma com que o roteiro dos diretores Georg Maas e Judith Kaufmann, com a ajuda de Christoph Tölle, Stale Stein Berg e da colaboradora Hannelore Hippe foi construído. Nos primeiros segundos da produção o espectador é imerso no ambiente da história, ouvindo diferentes narradores falando do final do período de divisão alemã. Quem conhece um pouco da história mundial sabe o peso que isso teve para os alemães, para a Europa e para o mundo.

Em seguida, as primeiras cenas gravadas pelos diretores surgem na tela com a presença marcante da trilha sonora de Christoph Kaiser e Julian Maas. O suspense preenche a narrativa com a troca de “personagem” feita pela protagonista. Não entendemos porque ela está se disfarçando, e a primeira impressão é que ela não quer que a família saiba que ela está correndo atrás do próprio passado. Mas então por que ela diz que se a antiga enfermeira do abrigo mantido por nazistas, Hiltrud Schlömer, estiver morta, o problema dela está resolvido?

Com o tempo é que vamos perceber que o problema de Katrine não é tão óbvio assim. E também identificamos que a narrativa não é linear. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Isso fica evidente não apenas com a esclarecedora volta ao passado para explicar a evolução da protagonista como espiã, mas também quando sabemos que os fatos iniciais ocorreram algumas semanas depois do que a narrativa que veremos após aparecer o nome da produção. Ou seja, Katrine se disfarça após a aparição do representante da firma de advogados Hogseth & Co., Sven Solbach (Ken Duken).

A chegada dele quebra em duas partes a farsa de Katrine/Vera. Antes dele aparecer, ela mantinha uma vida muito tranquila nas redondezas de Bergen, a segunda maior cidade da Noruega. Mulher de temperamento forte, Katrine trabalhava e tinha uma família para cuidar. A maior preocupação dela até a chegada de Sven era levar e trazer o neto para ser cuidado pela avó (a mãe de Katrine, Ase Evensen, interpretada pela veterana Liv Ullmann), enquanto a filha, Anne Myrdal (Julia Bache-Wiig) tenta entrar na universidade e criar a filha que ainda é um bebê.

Os problemas familiares de Katrine vão parecer brincadeira de criança quando Sven Solbach aparece para desenterrar o passado. Sim, eis a história clássica de uma mudança radical na narrativa de uma família quando alguém resolve mexer em vespeiros antigos. Mas aí está a graça deste filme. Ele não apenas conta a história de uma garota e de sua mãe que foram separadas quando a menina veio ao mundo por causa de resquícios repressivos da Segunda Guerra Mundial. Há ainda uma importante história de espiões no meio.

E de história de espiões o cinema está cheio. Mas não sob a ótima deste Zwei Leben. Porque aqui o espectador se aproxima da intimidade de uma espiã realista, com uma história fácil de acreditar. Por isso volto a afirmar o que eu comentei lá no início, de que não é fácil um filme ter duas histórias interessantes e complexas em um mesmo pacote. Acho que quem gosta de história, como eu, vai ficar fascinado com estes acontecimentos pós-Segunda Guerra.

Por um lado, temos a uma história de repressão das mulheres de um país invadido – a Noruega – que se relacionaram com soldados invasores – no caso, os alemães nazistas. Estas mulheres foram mantidas em campos na Noruega. O filme esboça esta explicação em um primeiro momento, mas de forma muito acertada o roteiro faz uma parada, mais ou menos no meio da produção, para explicar em detalhes como os alemães criaram clínicas maternais e orfanatos para diminuir o número de abortos e retirar de mães norueguesas os filhos que eles consideravam importantes – por terem os genes alemães – e levaram estas crianças para a Alemanha.

Em orfanatos como onde cresceu Katrine, a organização chamada Lebensborn mantinha as crianças com “sangue nobre alemão”. Representando a firma de advogados, Sven Solbach procura testemunhos para reabrir o caso destas crianças e apresentá-lo para uma comissão em Estrasburgo. A ideia deles é pedir reparação para aquelas famílias através do tribunal europeu dos direitos humanos. Daí ele insiste em contar com os depoimentos de Katrine e da mãe dela, Ase, porque elas seriam um raro caso de reencontro entre mãe e filha.

De forma bem acertada o roteiro de Zwei Leben apresenta esse momento de ruptura da família Evensen Myrdal sem entregar todo o “ouro” logo de cara. Assim, por um tempo, ficamos pensando se a resistência de Katrine se justifica pelos abusos que ela sofreu ou se há algo mais em jogo. Quando ela se encontra de forma misteriosa com Kahlmann (Thomas Lawincky) e explica para ele o que está acontecendo, e que alguém precisa agir para silenciar a testemunha que pode colocar o disfarce dela em risco, tudo vai ficando mais claro. Ela não é, exatamente, a vítima que se previa.

E daí surge a outra história interessante e complicada da trama baseada na novela manuscrita Eiszeiten, de Hannelore Hippe – que contribui com o roteiro de Zwei Leben. A heroína aqui é vilã, porque ela se infiltrou na família da norueguesa Ase Evensen fazendo-se passar pela filha dela que havia sido levada para a Alemanha. Cooptada quando também estava em um orfanato, Vera Freund, o verdadeiro nome da mulher que se passou por Katrine Evensen, trabalhou para o serviço secretor da RDA. Em todas as voltas para o passado, é especialmente interessante ver como ela foi preparada para o serviço.

Depois que o disfarce dela é descoberto e Vera/Katrine é confrontada pela família – especialmente na cena em que a filha lhe questiona na cozinha -, fica mais claro que apesar de ser vilã, ela também é vítima. Mas de uma maneira diferente do que poderíamos imaginar. Algo a destacar, além destas duas histórias interessantes sobre os bastidores de uma Alemanha dividida durante e após a Segunda Guerra Mundial, é a forma humana com que o filme é narrado. Nos aproximamos muito dos personagens principais, nos deliciando com ótimas interpretações e com um roteiro que não perde o ritmo em momento algum. Um grande trabalho da dupla Georg Maas e Judith Kaufmann e sua equipe.

Mas para não dizer que tudo são flores, algo me incomodou no desfecho desta produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Uma pessoa como Vera, treinada por muito tempo para assumir um disfarce e, com ele, conseguir informações valiosas para o sistema ao qual ela servia, vai de fato capitular e contar toda a verdade para a família que ela enganou por tanto tempo?

O previsível, para mim, seria ela seguir mentindo, mesmo confrontada com o vídeo da verdadeira Kathrin Lehnhaber, filha de Ase Evensen (interpretada, quando jovem, por Vicky Krieps). Ou se ela resolvesse contar a verdade naquele momento, ela não insistiria em tentar fazer as pazes com aquela família após a casa inteira ter “desmoronado”. A Vera que fez tudo o que ela fez teria seguido naquele avião e escapado.

Apenas esse “desvio” do esperado é que achei um pouco difícil de acreditar, frente a um filme que, até então, era bastante crível. Ainda assim, admito que é bacana a tentativa do roteiro em redimir a personagem. Desta forma, os realizadores apostam que os piores criminosos podem se colocar no lugar dos outros e ter atos de compaixão mesmo após diversos anos de mentira. É bacana pensar desta forma, mas só acho pouco realista. E em um filme que vinha tão bem nesse quesito, seria interessante ver Vera recomeçando outra vez.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além de uma história fascinante, Zwei Leben conta com outro trunfo muito importante: um grande elenco. Todos os atores envolvidos na produção estão muito bem em seus respectivos papeis, mas é preciso tirar o chapéu para a dupla de atrizes que dá vida a Katrine Evensen: Juliane Köhler na fase adulta, quando começamos a acompanhar a sua história, e Klara Manzel nas reconstituições de época de quando ela estava sendo preparada para desenvolver o papel que marcaria a sua trajetória de forma definitiva. Brilhantes as duas atrizes.

Para que elas consigam fazer um bom trabalho, faz falta um elenco de apoio também talentoso. Daí entram em cena figuras como a veterana Liv Ullmann, que interpreta a Ase Evensen e que comunica como poucas apenas pelo olhar; Sven Nordin como Bjarte Myrdal, o homem que passa boa parte da vida ao lado de Katrine Evensen; e o veterano Rainer Bock como Hugo, o “chefão” de Katrine e uma figura sempre misteriosa e perigosa na trama. Mesmo em um papel relativamente pequeno, Vicky Krieps consegue imprimir uma identidade importante e marcante como Kathrin Lehnhaber.

Outros atores com papeis menores merecem ser citados. Dennis Storhoi como o advogado Hogseth, chefe de Sven Solbach; Ursula Werner como Hiltrud Schlömer, testemunha importante da história de Katrine; e Thorbjorn Harr como o jovem Bjarte Myrdal. Eles complementam bem o elenco. Gostei do posicionamento do ator Ken Duken com o personagem Sven, mas não senti a mesma firmeza da atriz Julia Bache-Wiig, que interpreta Anne, filha de Katrine e Bjarte.

Para o filme funcionar tão bem, além do ótimo roteiro e de um elenco afinado, faz falta os outros elementos técnicos funcionarem bem. O primeiro elemento que chama a atenção no filme e que já comentei antes é a trilha sonora marcante da dupla Christoph Kaiser e Julian Maas. Diferente de outras produções recentes que eu assisti, neste filme a música é um elemento narrativo importante – e não complementar, como em outros casos.

Pouco a pouco também vai se destacando a direção de fotografia de Judith Kaufmann que, além de registrar o ambiente de cada cenário, ainda faz uma diferenciação bem marcante dos diferentes “tempos” narrativos. Destaque também para a edição precisa de Hansjörg Weissbrich e, evidentemente, pelo excepcional trabalho dos diretores.

Falando neles, é interessante observar a trajetória de cada um destes diretores alemães. Georg Maas tem sete trabalhos no currículo como diretor, sendo dois deles documentários feitos para a TV e um terceiro um filme produzido também para a TV. Das outras quatro produções, duas são documentários. Além de Zwei Leben, Maas dirigiu apenas outro filme para o cinema: NeuFundLand, lançado em 2003. Depois de Zwei Leben ele lançou um documentário para a TV sobre Liv Ullmann. Judith Kaufmann, por sua vez, tem uma carreira consolidada como diretora de fotografia. Ela tem 46 trabalhos atuando desta maneira. Como diretora, tem apenas Zwei Leben.

Para quem gosta de saber sobre os locais em que os filmes foram rodados, esta produção foi totalmente feita na Alemanha e com algumas cenas na Noruega. As cenas foram rodadas em locais como North Rhine, Leipzig, Halle, Bergen, Bonn, Hamburgo e Schleswig-Holstein.

Zwei Leben estreou em outubro de 2012 na Noruega. Depois, em janeiro de 2013, o filme participaria de seu primeiro festival: o de Palm Springs. A trajetória do filme em festivais somaria outras 11 participações. Neste caminho, Zwei Leben abocanhou sete prêmios e foi indicado a outros cinco. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Filme entregues no Festival de Cinema Biberach e no Festival de Cinema Independente de Biberach. A produção ganhou também dois prêmios da audiência no Festival Internacional de Cinema de Emden e os prêmios de Melhor Elenco e Melhor Edição no Festival de Cinema Alemão.

Este filme, coproduzido pela Alemanha e pela Noruega, foi escolhido para representar a Alemanha como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2014.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Zwei Leben. Uma boa avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 11 textos positivos e apenas dois negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 85% e uma nota média de 6,5. Achei baixa a nota, apesar do nível de aprovação estar bom.

CONCLUSÃO: Interessante quando um filme parece contar uma história e, depois, ele se revela bem mais complexo. Este é o caso de Zwei Leben. Reforçando uma das escolas de cinema mais propensa a esmiuçar e repensar a própria história, esta produção foca no período imediato após a unificação da Alemanha. Com o fim das divisões do país, vários expurgos do passado foram feitos, e muitas histórias duplas, reveladas. Esta produção de interesse histórico e humano parte de uma história particular para refletir sobre um sentimento mais generalizado. Bem narrado e com ótimos atores, o filme só peca um pouco para a solução final da história. Mas nada que comprometa a boa experiência anterior. Recomendo.

The Grand Budapest Hotel – O Grande Hotel Budapeste

12 de julho de 2014 5 comentários

thegrandbudapest2

Filmes que misturam a fantasia e a realidade e que buscam inovar sem disfarçar a homenagem ao cinema dos primeiros tempo são fascinantes. Muitas vezes mais pela proposta do que pelo resultado final. The Grand Budapest Hotel é uma destas produções que agrada pelo ritmo e pelas diversas referências. O problema é que este título surge após vários outros que traçaram caminhos parecidos e que utilizaram recursos similares para contar histórias cheias de fantasia. Assim, ele parece um tanto “repetitivo” em certa medida.

A HISTÓRIA: Inicia na fronteira europeia mais oriental, a ex-República de Zubrowka, que já foi trono de um Império. Uma garota entra no “antigo cemitério de Lutz”. Ela caminha sobre a neve, passa por alguns homens, e chega até um busto identificado com a inscrição “em memória do nosso tesouro nacional”. Coloca um chaveiro junto a outros pendurados, enquanto a câmera percorre o nome “Autor” e vemos a imagem de um senhor de bigode e óculos. A garota olha para a capa do livro que segura entre as mãos: O Grande Hotel Budapest. Na contracapa, a imagem do Autor (Tom Wilkinson). Corta. Em seguida, o Autor, em 1985, fala sobre a inspiração de escrever antes de explicar a origem da história de seu famoso livro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue lendo quem já assistiu a The Grand Budapest Hotel): Um grande elenco e um grande diretor sempre despertam uma expectativa considerável. Ouvi falar muito bem deste filme, e tendo assistido a ótimos trabalhos do diretor Wes Anderson, incluindo o último Moonrise Kingdom (comentado aqui), admito que eu estava esperando muito de The Grand Budapest Hotel. Infelizmente encontrei bastante “mais do mesmo”, e não consegui ficar impressionante com o resultado final desta produção.

A primeira sensação que eu tive enquanto os minutos da narrativa passavam é que Anderson havia feito mais um filme bem realizado tecnicamente, com bastante estilo e seguindo a linha de produções feitas por ele anteriormente, sabendo convencer um grande elenco para encarnar seus personagens, mas sem inovar muito na entrega. E não sei vocês, mas tenho um pouco de preguiça em ver um realizador repetindo a própria fórmula – algumas vezes, ao variar com ela, ele apena preserva uma assinatura, um estilo, mas quando até os detalhes são repetidos, o espectador fica com a sensação de déjà vu.

Mesmo tendo uma hora e meia de duração – que cada vez mais eu tenho achado perfeita para qualquer história no cinema -, The Grand Budapest Hotel pareceu mais longo que isso para mim. Talvez pelo design de produção burlesco e carregado do filme, ou porque achei a história escrita por Anderson e por Hugo Guinness um pouco carente de novidade… Mas o fato é que não fiquei tão envolvida com a produção quanto eu gostaria.

Achei o design de produção, a direção de fotografia, a direção de arte e os efeitos visuais dignos de aplausos. Mas tudo isso, a exemplo dos doces servidos por Agatha (Saoirse Ronan), me deram a impressão de muito glacê e pouco recheio. A história, que vamos saber apenas no final, foi inspirada nas obras do escritor Stefan Zweig, mistura humor, romance, algumas cenas inspiradas e uma narrativa que corre apressada em vários momentos de muita ação. A salada mista é valorizada por um ótimo elenco, mas só ganha interesse real quando fazemos um paralelo de tudo que vimos com a história de Zweig.

E esse é o ponto fundamental para a nota abaixo. Mais que a qualidade técnica do filme, o que me fez achar The Grand Budapest Hotel interessante foi refletir sobre o que eu tinha visto fazendo um paralelo com o escritor austríaco que decidiu matar-se no Brasil, onde vivia, após ficar desiludido com os rumos que o mundo estava tomando. Daí sim, pensando nisso, este filme passa a ganhar outras tintas.

Quem olha apenas para a cobertura cheia de glacê de The Grand Budapest Hotel vê somente o apuro visual e as interpretações inspiradas do elenco, com destaque para a dobradinha da dupla Ralph Fiennes (como o concierge original do hotel, o Monsier Gustave, ) e Tony Revolori (como o mensageiro, o “lobby boy”, Zero).

Mas a homenagem nos créditos finais fazem a produção ter um outro sabor, escondido por baixo de tanto glacê. Apesar de divertido em muitos momentos, romântico em alguns lampejos e veloz durante os momentos de ação, The Grand Budapest Hotel é um filme sobre princípios e sobre a poesia que resiste em momentos em que a realidade toda parece dominada pela crueldade.

Para começar, fica ainda mais interessante a “introdução” feita pelo Autor que aparece no filme. De fato, Zweig sempre foi inspirado por histórias reais que ele ouviu de outras pessoas e, especialmente, pelas próprias vivências, paisagens e pessoas que ele encontrou pelos diferentes lugares por onde esteve. Quem vive da arte, seja ela escrita, filmada ou cheia de acordes, sabe o quanto a inspiração surge após grande observação, muita audição, sensibilidade nos tratos e trabalho duro. Com Zweig, como com tantos outros, foi assim.

Depois, não por acaso The Grand Budapest Hotel tem como pano de fundo uma história que remonta a uma cidade fictícia no leste europeu no ano de 1932. A manchete de um jornal mostrado no filme pergunta se haverá guerra e noticia a chegada de tanques na fronteira – isso pouco antes de M. Gustave saber da morte da condessa Madame D. (a ótima Tilda Swinton em uma caracterização perfeita) e decidir ir no velório dela.

Apesar da história se passar entre os momentos históricos da Primeira e da Segunda Guerra Mundiais, fica evidente a alusão do roteiro à elas. Especialmente por Zweig, nascido em Viena em 1881, teve a vida definitivamente marcada por estes conflitos. Antes da Primeira Guerra eclodir, o escritor já era conhecido por suas longas viagens e por seus escritos a partir das experiências vividas nelas. Quando estoura o primeiro conflito mundial, ele é pego de surpresa na Bélgica. Consegue voltar para Viena, mas é recrutado como “voluntário” para trabalhar no arquivo de guerra (como bem conta este resumo sobre a vida do autor).

Durante o período de guerra, ele consegue escapar do serviço “voluntário” e compra uma casa na montanha (daí teria surgido a inspiração para o cenário do Hotel Budapeste?), antes de lançar ideias pacifistas no drama Jeremias, de 1917. Judeu, ele se alia a vários autores que defendem a paz, mas acaba sendo perseguido pelos nazistas muito antes da Segunda Guerra Mundial – em 1933, como afirma aquele resumo citado logo acima, os nazistas fazem uma grande queima de livros em Berlim, incluindo obras de Zweig.

Três anos depois, o escritor faz a sua primeira viagem para o Brasil. Pouco antes do início do segundo conflito mundial, Zweig se muda para a cidade de Bath, no sudoeste da Inglaterra, onde ele se casa com Lotte. Conforme a Segunda Guerra vai evoluindo, Zweig fica pouco a pouco mais deprimido. Em 1941, ele e a mulher se mudam para o Brasil, onde cometeriam suicídio um ano depois. Em The Grand Budapest Hotel o horror com a guerra e a presença angustiando da vilania fica evidente.

Claro que o mal, no roteiro de Anderson, não está simbolizado apenas pelos homens de farda que não perdem nenhuma oportunidade em perseguir o imigrante judeu Zero. A maldade está também na cobiça, representada por Dmitri (Adrien Brody), herdeiro de Madame D. e que não aceita repartir nada da riqueza da mulher com M. Gustave; e também na crueldade do capataz de Dmitri, o impassível Jopling (Willem Dafoe em um grande trabalho).

O contexto de invasão militar vai aparecendo aos poucos no filme, até que ele se consolida com a “ocupação” dos homens que lembram os nazistas no hotel. Mas antes e depois deste ponto, em duas sequências no trem, a mensagem de indignação de Zweig ficam muito evidentes.

Primeiro, nas ações do militar Henckels (Edward Norton), que faz lembrar os nazistas, mas que era, na verdade, da “milícia de Lutz”. Ele não deveria aceitar imigrantes, mas abre uma exceção para Zero por causa da amizade com M. Gustave (e sabemos que a amizade contava muito naqueles tempos). E depois, na truculência de um outro militar, desta vez um homem que tinha traços russos, mas que claramente era do grupo que usava uma identificação parecida com a suástica. Ele ignora a permissão dada por Henckels e acaba com a “ousadia” de M. Gustave.

Para mim, Zweig está representado em três personagens: no Autor, em M. Gustave e em Zero. No primeiro, por uma razão evidente: o Autor fala de seu trabalho e é relembrado gerações após gerações. No segundo, por causa da sensibilidade do personagem, um homem que é pacifista e que defende o direito de qualquer pessoa em ter liberdade e ter oportunidades, sendo valorizada conforme se dedica ao trabalho e a melhorar. E no caso de Zero, por ele ser judeu, perseguido, ávido por novidades e por aprender, e por ter uma história bonita de romance com Agatha – a exemplo de Zweig com Lotte. Mas cada um destes personagens pode ter sido apenas inspirado por Zweig, sem a intenção que nenhum deles representasse o autor.

Seja pelo paralelo com o escritor, seja pela bonita intenção de colocar poesia e sensibilidade mesmo em ambientes tão sórdidos e cheios de perseguição, The Grand Budapest Hotel acaba se revelando uma obra mais interessante quando você pensa nela. Durante a vivência do filme, apenas o espetáculo visual sobressai, junto com o trabalho dos atores. Depois, com o tempo, é que vamos degustando o restante dos sabores da produção.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vários aspectos técnicos do filme se sobressaem. Os principais destaques já foram citados acima, mas agora vale dar o nome dos responsáveis. Impecável o design de produção de Adam Stockhausen; belíssima a direção de arte comandada por Stephan O. Gessler e com a ajuda de Gerald Sullivan e Steve Summersgill; bacana a decoração de set de Anna Pinnock e os figurinos de Milena Canonero. Vale destacar, ainda, o excelente trabalho do departamento de maquiagem composto por 25 profissionais e o departamento de arte com dezenas de outros artistas de talento.

Para ajudar na dinâmica do filme, fundamentais as contribuições do editor Barney Pilling, que tem aqui um trabalho meticuloso, e do diretor de fotografia Robert D. Yeoman. O veterano Alexandre Desplat tem um trabalho exemplar com a trilha sonora, que aparece em momentos pontuais, sempre para ressaltar o humor ou o suspense da história.

Este é mais um bom trabalho do estiloso diretor e roteirista Wes Anderson. Nascido no Texas, ele tem filmes muito interessantes no currículo. Vale ter o trabalho acompanhado. Ainda que, espero, ele venha com um pouco mais de ousadia e inovação de uma próxima vez.

The Grand Budapest Hotel estreou no Festival de Berlim em fevereiro deste ano. Depois, o filme participaria ainda de outros quatro festivais. Nesta trajetória, conquistou três prêmios e foi indicado a outros dois. O mais importante que ele recebeu foi o Urso de Prata de Grande Prêmio do Júri para Wes Anderson no Festival de Berlim. A produção também saiu vencedora como Melhor Figurino do prêmio entregue pelo Sindicato Nacional Italiano de Jornalista de Cinema e no prêmio de Melhores Gráficos em um Comercial de TV no Prêmio Golden Trailer.

Este filme foi totalmente rodado na Alemanha e na Polônia. No primeiro país, houve cenas rodadas em diferentes cidades da Saxônia e em Berlim; e no segundo, na Cracóvia.

E uma curiosidade sobre a produção: o nome da fictícia república de Zubrowka foi inspirado na vodca polonesa Zubrowka.

Wes Anderson rodou o filme em três formatos diferentes (1.37, 1.85 e 2.35:1) para demarcar ainda melhor e de forma visual os três períodos diferentes em que a história é ambientada: 1985, 1968 e 1930.

O elenco deste filme impressiona. É um desfile de nomes conhecidos. E ainda que um deles se destaque, o de Ralph Fiennes como M. Gustave, não deixa de ser marcante a forma com que o desconhecido Tony Revolori se destaca em um elenco tão estelar. O rapaz de 18 anos natural de Anaheim, na Califórnia, e que até este filme tinha estrelado principalmente curtas e episódios de séries televisivas, faz um dueto de rara sintonia com Fiennes. Com isso, ele se destaca.

Mas além dos dois, vale citar o ótimo trabalho de F. Murray Abraham como Mr. Moustafa (o Zero envelhecido); Mathieu Amalric como Serge X., empregado de Madame D. e que acaba tendo grande relevância na história por guardar os segredos da mulher assassinada; Adrien Brody como o vilão Dmitri; Willem Dafoe rouba a cena como o sanguinário Jopling; e Jude Law ganha relevância como o escritor quando jovem. Mesmo em papéis menores, vale citar os bons trabalhos de Jeff Goldblum como o advogado perseguido Kovacs; Harvey Keitel como o presidiário Ludwig; e Bill Murray como M. Ivan, da rede de concierges que ajudam M. Gustave. Fazem pontas também Jason Schwartzman, Léa Seydoux, Owen Wilson, Bob Balaban, entre outros.

De acordo com o site Box Office Mojo, The Grand Budapest Hotel teria faturado pouco menos de US$ 58,8 milhões apenas nos Estados Unidos, e outros US$ 108 milhões nos demais mercados em que o filme estreou até o momento. Mesmo sem informações sobre o custo da produção, estes não me parecem resultados ruins.

Esta produção conseguiu uma nota impressionante no site IMDb. Considerando, claro, o padrão normalmente visto naquele banco de dados sobre cinema: 8,3. Essa é uma excelente avaliação! Além disso, os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 205 textos positivos e apenas 19 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,4.

Ah sim, e antes falei que este filme faz lembrar vários outros… Para começar, basta olhar na própria filmografia de Wes Anderson. E depois, vale conferir clássicos recentes do cinema, como Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain. Mesmo bebendo de várias fontes, é fascinante ver como Anderson utiliza bem a tecnologia moderna e enquadramentos antigos, dos primeiros filmes do cinema, ainda na era preto e branco. Bela homenagem, e com muita propriedade.

Este filme é uma coprodução dos Estados Unidos com a Alemanha. Assim sendo, ele entra na lista de filmes dos Estados Unidos, eleito como um dos países que merecia uma série de críticas aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um indicativo sobre o impacto que um filme teve para mim é a vontade que eu tenho de escrever sobre ele logo após o fim da produção. Quando terminei de ver a The Grand Budapest Hotel, admito que não tive um grande interesse de falar sobre ele por aqui. Sinal de que esta produção não me pareceu tão boa quanto poderia. E essa é a vida. O cinema é feito de percepções, vivência e momentos. Refletindo mais sobre o filme depois, percebi que esta produção é interessante se nos focamos mais na homenagem feita para Stefan Zweig e sua obra. Mas descontada essa reverência, há pouco de novo nesta produção. De qualquer forma, vale dizer que ela é bem acabada, com bons princípios e tem qualidade. Que fica mais evidente quando refletimos no paralelo com Zweig. Vale ser conferido sob esta ótica.

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