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Captain Phillips – Capitão Phillips

15 de novembro de 2013 9 comentários

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As histórias reais contadas pelo cinema sempre guardam elementos de interesse para o público. Captain Phillips não foge da regra. Neste filme somos apresentados a procedimentos de resistência e de ataque no mar, o que garante a parte da ação. E também a uma história emocionante, de um sujeito que comum que é muito bom no que faz e que vive períodos de tensão extrema. De quebra, existe de fundo um debate interessante sobre o abismo social que existe no mundo – e que, surpresa para o espectador, também coloca em posições opostas algumas pessoas no mar.

A HISTÓRIA: Na cidade de Underhill, em Vermont, o capitão Richard Phillips (Tom Hanks) se prepara para zarpar em mais uma viagem no dia 28 de março de 2009. Ele adiciona na bagagem o documento de marinheiro mercante e uma foto de família. A mulher dele, Andrea (Catherine Keener) acompanha o marido no carro e diz que, ao invés destas viagens ficarem mais fáceis conforme o tempo passa, elas parecem mais difíceis. No caminho até o aeroporto, o casal fala sobre os dois filhos.

Andrea está preocupada que tudo parece estar mudando muito rápido, enquanto Richard se diz preocupado com o mercado de trabalho, muito mais exigente que antigamente, o que poderá tornar o caminho de um dos filhos, Danny, que anda matando aula, muito mais difícil. Depois, acompanhamos a jornada do capitão Phillips em mais uma viagem. Que diferente das outras, será interrompida por piratas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Captain Phillips): Um bom roteiro faz toda a diferença. Recentemente eu comentei isso por aqui, quando falei de Gravity, um dos fortes candidatos em várias categorias do próximo Oscar. Enquanto no filme estrelado por Sandra Bullock falta um texto melhor, em Capitan Phillips o trabalho de Billy Ray sobre o original de Richard Phillips e Stephan Talty é exemplar.

Não é fácil adaptar para o cinema uma história em que sobram dados técnicos e que mexe com um tema que pouca gente se importa: a batalha entre grandes empresas comerciais, sediadas em países ricos, e os pobres coitados do litoral africano. Não tenho ideia de como o trabalho de Phillips e Talty se desenvolvem no livro A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALS, and Dangerous Days at Sea, que inspirou o filme. Mas sei que Ray conseguiu dividir bem os momentos de ação, que cercam grande parte da trama, com vários de tensão e um final arrebatador.

Claro que apenas um ótimo roteiro não adianta. Quantos filmes você já assistiu que até tinham um bom texto, mas que decepcionaram com a escalação e/ou atuação do elenco? Pois bem, outra qualidade de Captain Phillips foi a escolha do protagonista e do principal coadjuvante. Não é por acaso que muitas bolsas de apostas apontam boas chances de indicações para o Oscar para Tom Hanks e Barkhad Abdi (Richard Phillips e Muse, respectivamente).

Mas vamos falar do filme propriamente dito. Primeiro, achei importante que o roteiro de Ray apresenta rapidamente, e na sequência, as realidades de Phillips e Muse. Afinal, eles seriam as principais figuras da queda-de-braço que acompanharíamos nesta produção. Somos apresentados a eles e ao local em que eles vivem, e pouco mais que isso. A ideia do roteiro é não perder muito tempo com a história de vida de cada um deles – afinal, quanto menos soubermos, maior o nível de incerteza sobre as suas motivações, sobre a formação que tiveram para aqueles momentos de tensão e sobre o que eles podem temer perder.

Claro que seria interessante sabermos mais de cada personagem, para termos uma contextualização maior da vida dos protagonistas. Por outro lado, é acertada a escolha do roteirista em deixar esta lacuna no filme porque ela, como afirmei há pouco, alimenta a dúvida no espectador. Para quem gosta de ação, Captain Phillips não demora muito para desenvolver as situações de conflito.

Achei interessante como Muse, apesar de ser o cara que escolhe a tripulação para as missões de ataque a navios cargueiro, tem uma posição frágil no grupo. É possível perceber a tensão entre os piratas desde o início. E como Muse não é um cara forte, ele não impõe a autoridade naturalmente. Mas conforme o filme se desenvolve, percebemos que ele sabe agir nos momentos precisos porque é inteligente e também sabe ser violento.

De qualquer forma, desde o princípio, e isso é um elemento importante, percebemos que existem discordâncias e rivalidades entre os homens que vão atacar o navio comandado por Phillips. E no próprio navio cargueiro também existem divergências – mas elas são de outro tipo. E aqui fica evidente o abismo que separa os dois lados desta história: enquanto os piratas ameaçam agressões por quase nada, como uma “encarada” em momento errado, os tripulantes do navio Maersk Alabama discordam por estarem em uma situação frágil, sem armas, e tem em alguns sindicalizados a figura do protesto. Que facilmente é contornado – muito diferente da realidade de Muse.

Com o desenrolar do filme, observamos procedimentos e um linguajar técnico desconhecidos dos leigos. Um elemento a mais de interesse na história e que não chega a pesar porque o filme logo parte para a ação do ataque de quatro piratas ao navio Maersk Alabama. Mesmo inicialmente parecendo improvável que quatro caras armados em uma lancha conseguiriam render um navio cargueiro gigante como aquele, Captain Phillips comprova que a tarefa não é tão difícil para homens que conhecem o mar e que encontram pela frente pessoas desarmadas.

Mas do lado do navio Maersk Alabama existe a figura do capitão Phillips. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A postura dele é fundamental para que o ataque dos piratas seja frustrado. Ele ganha a disputa nos detalhes, mandando a tripulação esconder-se no local correto, deixando o rádio aberto para que eles soubessem por onde ele seguiria levando os bandidos para percorrer o navio e avisando Shane (Michael Chernus) da chegada deles no local em que eles guardavam os alimentos. Também é fundamental a dica sobre a armadilha com vidros estilhaçados.

A calma de Phillips e os atos inteligentes nos momentos de crise são fundamentais para que a história se reverta a favor da tripulação do cargueiro. Mas a mesma inteligência o espectador não percebe nos companheiros de Phillips. Afinal, como eles conseguiram fazer aquela trapalhada na troca de Muse por Phillips? A ação deveria ter sido outra, mesmo com o nervosinho Bilal (Barkhad Abdirahman) a ponto de sair atirando para todos os lados.

E daí começa o segundo round de tensão no filme. Sabemos que será quase impossível que aquele plano de Muse dê certo. E conforme o filme vai passando, e entram em cena a Força-Tarefa Combinada 151 das Forças Marítimas Combinadas e, na sequência final, os SEALs (força de operações especiais da Marinha dos Estados Unidos), essa sensação fica ainda mais clara. Inicialmente, a impressão do espectador é que Phillips vai sobreviver – afinal, ele é o “mocinho” e não teria graça o filme terminar com a morte dele.

Mas dois elementos me deixaram com uma boa dúvida sobre esta certeza perto do final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por mais que Phillips tenha sido esperto em dizer em que local ele estava sentado no bote baleeiro, as confusões armadas com a tentativa de fuga dele e com o nervosismo do violento Bilal fazem ele ficar fora daquele local, aumentando as chances dele levar um tiro de quem foi para lá salvá-lo. E quando ele começa a escrever uma carta para a família… achei aquele um péssimo sinal. Logo imaginei que o filme terminaria com a morte dele e com Andrea lendo a mensagem final do marido. Detalhes sobre a captura dele poderiam ser passadas pelo oficial que fez filmagens da baleeira e com relatos de outras testemunhas. Essa dúvida na reta final ajuda o filme a alimentar a tensão do espectador – o que reforça a nossa capacidade de nos colocarmos no lugar de Hanks na catarse derradeira.

Deu gosto de ver uma trama tão bem escrita e com uma direção primorosa de Paul Greengrass. O diretor se firma, mais uma vez, como um especialista em filmes de ação. O ritmo não cai neste filme, e mesmo quando vivemos momentos de “baixo estímulo”, como podem ser algumas sequências dentro do barco baleeiro, as dúvidas sobre o que a tensão entre os personagens pode desencadear e a movimentação das equipes de resgate não deixam o filme ficar arrastado. Em diversos momentos a trilha sonora de Henry Jackman se mostra fundamental para a história, assim como o excelente trabalho do editor Christopher Rouse.

Tom Hanks e Barkhad Abdi duelam nos olhares, nos silêncios e nos diálogos. Mas é o personagem de Muse que tem algumas das tiradas mais brilhantes. Achei ótimas, em especial, as seguintes: quando Phillips diz que eles tem US$ 30 mil no cofre do navio cargueiro e oferece este dinheiro para os piratas, Muse pergunta se Phillips acha que ele é um mendigo (hahahahaha); e outra é quando ele diz “eu amo os EUA” após ser rendido na casa de máquinas.

Agora, para não dizer que o filme é perfeito, acho que faltou apresentar para o espectador a repercussão daquele evento nos Estados Unidos e na comunidade mundial. Afinal, os SEALs entram em cena e tem a ordem expressa de impedir que aquele sequestro terminasse na costa somali porque o caso teria tido um grande repercussão. Sem vermos isto na prática, fica um pouco difícil acreditar que o sequestro de um capitão renderia uma mobilização tão grande.

Além de um ótimo filme de ação, Captain Phillips explora a desigualdade absurda de condições que encontrávamos no mundo em 2009 – e que continua seguindo válida agora, quatro anos depois. Em mais de uma ocasião Phillips observa os atos dos sequestradores e questiona o que eles, especialmente para Muse e para o mais jovem do grupo, Elmi (Mahat M. Ali), estão fazendo. Há um momento emblemático no questionamento, quando Phillips diz que Muse pode fazer algo diferente além de ser pescador (após o sequestrador dizer que os barcos internacionais acabaram com a pesca dos somalis) ou sequestrador. No que Muse responde que há outras opções nos EUA, mas não ali.

De fato, é difícil dizer para um jovem que vive na favela ou em locais como a Somália de que existem muitas opções no mundo. São ótimas as histórias de quem vence as mazelas e as condições precárias e consegue vencer na vida, seguir um caminho dos sonhos. Mas elas são muito raras, e sabemos disso. Por mais que não queiramos muitas vezes admitir. Por isso mesmo, acredito que muitos espectadores vão simplesmente torcer por Phillips e desejar que os sequestradores sejam mortos. Porque para estas pessoas a norma ideal é aquela de “bandido bom é bandido morto”.

Mas acho que este filme quer apontar outro sentido. Phillips não tenta apenas sobreviver, mas ele tem vários gestos de pura humanidade – especialmente com o ferido Elmi. E ele não faz isso apenas porque acha que deve dobrar os sequestradores. De fato ele pensa no abismo que lhes separa. Nunca fui e nunca serei da opinião que pessoas em ambientes muito diferentes podem julgar-se umas às outras. Consequentemente, jamais vou achar que “bandido bom é bandido morto”. O que precisamos ou deveríamos fazer, ao invés de alimentar o ódio e a vingança, é agir para romper com estes estigmas de “pobres tem que se ferrar” ou “se virar” enquanto eu tenho uma vida boa.

Apesar de imaginarmos como seria o final de Captain Phillips, ele não é bonito. Tanto é que o próprio Phillips grita “não” quando percebe o que aconteceu. Mesmo ele, tendo passado por tudo o que passou, tendo sido agredido e humilhado, principalmente por Bilal, não desejava a morte dos sequestradores. Uma lição para nós e para quem mais quiser ouvir. Porque enquanto alguns ganharem milhões – inclusive os chefes de Muse – e outros viverem na miséria, vamos ver absurdos acontecerem diariamente neste mundo. Seja em mar, terra ou ar. Captain Phillips não se exime de fazer esta ponderação, o que torna o filme um verdadeiro achado entre as grandes produções de Hollywood.

NOTA: 9,9 9,8 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei muito em dúvida sobre que nota dar para Captain Phillips. Afinal, logo após assisti-lo, sai do cinema com a sensação de “que maravilha”. Me emocionei com o final, após ser surpreendida por alguns momentos de tensão verdadeiramente bem feitos. Só que eu estava na dúvida sobre dar-lhe um 9,7 ou 9,8… ou então me render à nota máxima. Eu ia dando um 9,8 até que escrevi o final do texto sobre a produção, refletindo sobre o questionamento que Captain Phillips deixa no ar. E mesmo podendo abaixar a nota depois, já que tenho grandes expectativas com 12 Years A Slave, vou me arriscar a dar uma nota bem próxima do máximo por enquanto. ATUALIZAÇÃO (10/01/2014): No fim das contas, me rendi mesmo ao 9,8. Mas não foi após assistir a 12 Years a Slave, e sim a Dallas Buyers Club. Quem diria!

Captain Phillips começa apresentando dois lugares muito diferentes entre si: Underhill, nos Estados Unidos, onde mora o protagonista, e Eyl, na Somália. Esta última, uma cidade litorânea no país africano, foi considerada em 2008 a Capital Pirata do Mundo devido à alta atividade de sequestro de navios cargueiros feita naquela região. Detalhe: ela ganhou esse título nada honroso um ano antes dos fatos que acontecem no filme. Na cidade de Eyl teria surgido toda uma “indústria” de ataques piratas no Índico, envolvendo sequestradores, mediadores, contatos, casas de prostituição e até um serviço de “comida para levar” destinada a piratas e reféns seguindo um estudo de Miguel Salvatierra publicado na revista Politica Exterior XXIII de março/abril de 2009.

Em certo momento, Muse diz que ele participou de um ataque no ano anterior em que eles conseguiram US$ 6 milhões. Imediatamente Phillips pergunta porque ele segue fazendo sequestros se ganhou tanto dinheiro. O silêncio de Muse deixa claro que ele é apenas mais um explorado naquela indigna indústria de fazer dinheiro com ataques a navios cargueiros. Mesmo comandando as operações ele deve ganhar uma miséria – e os outros então, muito menos. O que faz com que eles nunca deixem de praticar seus crimes. A mesma lógica de quem trabalha para traficantes.

A direção de Paul Greengrass é perfeita. Ele se aproxima de Tom Hanks no início, quando o capitão está preocupado com o navio antes dele partir. Neste momento, a câmera comandada por ele, com o fundamental trabalho do diretor de fotografia Barry Ackroyd, fica próxima de Tom Hanks – logo atrás, no ombro do ator, ou logo à frente. É como se seguíssemos os passos do homem que está no comando. Depois, no momento da ação, ele troca planos gerais com o close dos atores principais e com a dinâmica dos espaços. Uma das melhores sequências, de tantas ótimas de ação, é a do desembarque dos SEAL que pulam de uma avião. Um profissional que conhece bem o próprio ofício.

Muse, Bilal, Najee (interpretado por Faysal Ahmed, que fica marcado no filme por comandar o barco baleeiro) e Elmi escolhem um ótimo navio para atacar. Maersk Alabama estava carregado com 2.400 toneladas de carga comercial. Valia uma verdadeira fortuna.

Interessante como o público da sessão em que eu estava tinha pressa de sair da sala de cinema. Muitos se movimentaram antes mesmo de aparecerem as informações finais sobre a trama. Quase perderam as informações de que Muse foi levado para os Estados Unidos e condenado a 33 anos de prisão pelo crime de pirataria e de que Phillips, mesmo tendo passado por todo o drama que passou, voltou a trabalhar na Marinha mercante no ano seguinte, em 2010. Impressionante a determinação deste capitão. Com seu exemplo, ele nos ensina que alguém que tem uma vocação deve segui-la, apesar das dificuldades, dos riscos e dos dramas.

Esta é uma produção em que Tom Hanks brilha. Durante o filme inteiro mas, especialmente, na sequência final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Gente, o que foi aquela entrega do ator ao ser atendido por uma médica? Acredito que ele verdadeiramente se emocionou com aquela cena. E nós vamos com ele, nos colocando em seu lugar ao perceber, pela primeira vez, que ele estava vivo apesar de tudo. Merece ser premiado, sem dúvida. E interessante saber que aquela sequência foi no improviso. Hanks contracenou com a oficial da Marinha na vida real Danielle Albert. Ela foi instruída a seguir um procedimento médico normal mas, por ser muito fã de Hanks, na primeira tomada ela simplesmente travou. Foi aí que Hanks brincou que ele deveria ser o único a estar em estado de choque. E daí filmaram outra vez. E ele fez aquele assombro de interpretação.

Além de Hanks, é importante citar o ótimo trabalho de Barkhad Abdi como Muse. Ele dá uma interpretação bastante realista e humana para o “anti-herói” deste filme.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de outros coadjuvantes que acabam tendo certa relevância para a história: David Warshofsky interpreta a Mike Perry, o piloto da casa das máquinas que coloca força total no Maersk Alabama sob as ordens de Phillips; Corey Johnson interpreta a Ken Quinn, que está na sala de comando quando o barco cargueiro é tomado pelos sequestradores e acaba sendo ameaçado de levar um tiro na cabeça; o veterano Chris Mulkey faz John Cronan, o trabalhador sindicalizado que reclama da falta de armas; Yul Vazquez faz o capitão Frank Castellano, da Força-Tarefa Combinada 151; e Max Martini faz o comandante dos SEAL.

Falando na força de elite da Marinha dos EUA, impressionante o preparo dos militares. Não por acaso eles são considerado os “top” da Marinha. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quando o comandante dos SEAL percebe onde está a arma de Bilal, automaticamente ele pede para pararem o reboque porque sabe que ele terá que dar um passo à frente. E “pimba”! Problema resolvido.

A trilha sonora de Henry Jackman começa a entrar em ação com mais força a partir da perseguição das duas lanchas de piratas ao navio cargueiro. Momento de quebra da narrativa. A partir daí, ela não sai de cena como elemento importante para a narrativa.

Tem um detalhe que achei interessante. Esta história se passa em 2009. E naquele ano o uso de drones (naves não-tripuladas) já era importante para os EUA. Ele é utilizado para sobrevoar o barco baleeiro quando a Força-Tarefa Combinada 151 está planejando a ação que vai fazer. Hoje, mais do que naquele ano, os drones são usados a rodo para várias operações, inclusive de ataque, feita pelos EUA mundo afora.

Agora, teve um momento do filme que eu achei que a Força-Tarefa Combinada 151 fez uma verdadeira “babada”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quando Phillips tem a ação corajosa de se jogar na água e começa a nadar, eles deveriam ter identificado o capitão e ter acabado com o sequestro naquele momento. Mas não. Literalmente eles “comem poeira” e deixam os sequestradores retomarem o comando. Uma grande tropeçada.

Da parte técnica do filme, tudo funciona muito bem. Além do show de direção de Greengrass, da envolvente trilha sonora de Jackman e da ágil e precisa edição de Rouse, vale destacar o ótimo trabalho do já citado diretor de fotografia Barry Ackroyd, além dos efeitos sonoros e visuais que aparecem em cena para ajudar a história – e não para tomar o lugar do enredo sendo mais importante que ele.

Captain Phillips foi rodado em diversos lugares, incluindo estúdios em Malta e no Reino Unido, e com cenas externas em mais de uma cidade dos Estados Unidos, em Malta e nos Marrocos.

E agora, uma curiosidade sobre este filme: em uma entrevista para a rádio NPR, Tom Hanks disse que a primeira vez que ele encontrou os atores que interpretam aos piratas foi quando Greengrass filmou a invasão à sala de comando. O diretor revelou que este contato “tardio” foi proposital, para criar uma tensão real entre os atores “invasores” e os que estavam tendo o espaço “invadido”.

A história real do sequestro do Maersk Alabama foi fundamental para outra obra, a Djibouti, de 2010, lançada pelo escritor Elmore Leonard.

Captain Phillips estreou no Festival de Cinema de Nova York em setembro. Depois, ele participaria ainda dos festivais de Londres e de Tokyo. Até o momento, o filme conseguiu um prêmio e foi indicado a outros dois. Mas, certamente, ele será bem indicado nas premiações dos círculos de críticos de cinema nos EUA e também nas principais premiações norte-americanas. O único prêmio que recebeu foi o de Produtor do Ano para Michael De Luca no Hollywood Film Festival.

Esta produção teria custado cerca de US$ 55 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, até a última quarta-feira (dia 13/11), quase US$ 92,7 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou, Captain Phillips conseguiu outros US$ 55,1 milhões.

De acordo com este resumo da Amazon sobre o livro que inspirou o filme, o sequestro do capitão Phillips “dominou a mídia durante cinco dias em abril de 2009″. O romance é narrado em primeira pessoa. Apesar da experiência angustiante, comenta o texto, Phillips permaneceu com a fé inabalável, assim como um “senso de humor infalível”. Phillips tinha 30 anos de experiência no mar quando foi sequestrado na costa somali. No livro, segundo o texto, Phillips apresenta os sequestradores “com compaixão e equilíbrio”.

Procurando saber um pouco mais sobre o assunto, encontrei este texto da Folha de S. Paulo do dia 9 de abril de 2009 que tenta explicar os ataques piratas na costa da Somália. Há algumas informações interessantes ali. Achei informativa também esta resolução do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a “questão da pirataria na Somália” publicada em 2010.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para Captain Phillips. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 203 textos positivos e 12 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,4.

Esta é uma produção 100% EUA. Sendo assim, ela entra para a lista de filmes que eu estou comentando, produzidas naquela país, e que satisfaz o pedido feito por vocês, caros leitores, que votaram nos EUA para uma série de críticas aqui no blog.

CONCLUSÃO: Não é fácil fazer um filme sobre pirataria na região marítima da Somália. O assunto, por si só, não tem grande interesse para o público. Os ataques começaram há muito tempo e seguem ocorrendo e ninguém parece se importar muito com isso. Assim como com as milhares de pessoas que morrem no mar tentando sair da África para viver na Europa – recentemente o Papa Francisco chamou a atenção para o assunto. Por isso mesmo é impressionante como Captain Phillips funciona tão bem.

Mérito do diretor e dos roteiristas, não há dúvidas. Eles fazem um excelente trabalho, junto com um Tom Hanks comprometido e entregue na interpretação – o que deve lhe render uma indicação ao Oscar. De forma acertada, somos logo apresentados ao “herói” e ao “anti-herói” e seus respectivos “bandos”. Há muitas falas técnicas no filme, mas elas não incomodam, apenas tornam a história ainda mais verossímil. E o principal: Captain Phillips não se revela apenas um ótimo filme de ação, mas também uma produção que aborda questões difíceis de desigualdade social, frieza e humanismo e que, de quebra, ainda emociona. Não há como não se colocar no lugar do protagonista no final. Por ser tão humano, este filme se revela maravilhoso. Vale ser visto.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: Não tenho dúvidas que Captain Phillips será um dos filmes indicados na próxima premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A dúvida é sobre quantas indicações ele vai receber e se conseguirá levar alguma estatueta para casa.

Como sempre, é difícil opinar sobre as chances de cada concorrente sem ter visto aos principais nomes que estão sendo cotados para a disputa. Então, sem medo de errar, e explicando que ainda falta ter o quadro mais completo, posso dizer que eu acredito que este filme terá pelo menos cinco indicações, com boas chances de chegar a seis e até passar este número.

Para mim, é certo que ele será indicado como Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator (Tom Hanks) e, possivelmente, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora e, quem sabe, Melhor Diretor. O crítico Peter Knegt, do IndieWire, também vê como possíveis as indicações de Captain Phillips como Melhor Ator Coadjuvante (Barkhad Abdi), Melhor Fotografia, Mixagem de Som e Edição de Som.

De todas estas categorias, francamente vejo ele com boas chances como Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha Sonora e Melhor Ator. Tudo vai depender do quanto 12 Years A Slave realmente é bom. Porque vejo os dois filmes concorrendo nas categorias principais. Comparado com outro “favorito” do ano, Gravity, não tenho dúvidas de que Captain Phillips é melhor. Os dois filmes competem, especialmente, nas categorias técnicas.

A Academia e o resto do mundo gostam de Tom Hanks. E faz tempo que ele não ganha um Oscar. Ele tem duas estatuetas na estante de casa: uma por Philadelphia, dada em 1994, e outra, no ano seguinte, por Forrest Gump. Hanks tem ainda outras três indicações – todas como Melhor Ator. Seria bacana ele receber mais um Oscar – que ele merece, especialmente, pelo final de Captain Phillips.

A performance dele é arrebatadora. Mas vai depender muito de vermos os outros concorrentes dele, especialmente Chiwetel Ejiofer por 12 Years A Slave e Leonardo DiCaprio por The Wolf of Wall Street. Há outros nomes bem cotados, mas que eu não acho que tenham o apelo para derrubar Hanks. Logo veremos.

Wadjda – O Sonho de Wadjda

12 de novembro de 2013 2 comentários

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Uma bicicleta pode ser vista apenas como a junção de duas rodas com seus respectivos pneus, um quadro, mais guidão, selim, câmbio, correia e dois pedais, além de outras peças menores. Mas ela pode significar também uma revolução. Ou a liberdade extrema. Sou uma adepta fervorosa da bike. Mas não foi por isso (ou só por isso) que me rendi a Wadjda. O representante da Arábia Saudita na disputa pela estatueta de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2014 ganha o espectador com uma história simples, mas carregada de significados e que emociona.

A HISTÓRIA: Pés de meninas se movem lentamente e de forma ritmada enquanto um canto sobre a fé ecoa pelo ambiente. A professora desliga a música e pede para as alunas voltarem para as suas posições. Ela também diz para as meninas recomeçarem a cantar. Duas alunas passam perto, e Wadjda (Waad Mohammed) acena para elas. A professora pede que ela se aproxime – e vemos o par de tênis da menina, o único da turma – e para que cante os primeiros versos da música. Como Wadjda não consegue, ela acaba saindo. Este é o apenas o primeiro sinal de que Wadjda não se encaixa no perfil de estudante modelo da sociedade saudita.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Wadjda): Gosto de personagens que pensam por sua própria conta, que tem ousadia e autonomia. E não demora muito para a protagonista de Wadjda mostrar todas estas qualidades.

Não foi a primeira sequência que me fez abrir um sorriso. Mas quando saímos do ambiente da escola da menina e entramos na intimidade do quarto dela. Vários elementos ali são muito significativos e me despertaram ótimas lembranças.

Para começar, achei interessante a “gambiarra” feita com cabides para sintonizar uma rádio de pop rock no quarto da pré-adolescente. Depois, o ânimo de Wadjda por fazer cópias daquele tipo de música em fitas-cassete e ao embalar pulseiras feitas com fios. Minha identificação foi imediata. Eu sou do tempo em que a gente tinha que aguardar o fim dos comerciais das rádios com o dedo no “pause” para fazer fitas com seleções musicais bacanas e, depois, quando embarcávamos durante horas na tarefa de fazer estas pulseiras “estilo hippie”.

Identificação estabelecida nesta cena, não fica difícil simpatizar com Wadjda e a busca da garota por ter independência. Ela vive em uma sociedade em que as regras para as mulheres estão muito bem postas. É na Arábia Saudita onde elas devem casar cedo, andar nas ruas quase completamente cobertas e são proibidas de dirigir. De forma muito natural, o roteiro escrito pela diretora Haifaa Al-Mansour mostra estas e outras particularidades daquele ambiente ao acompanhar os passos de Wadjda e das pessoas que lhe cercam.

Interessante a escolha do diretor em focar uma garota com aquela idade. Afinal, Wadjda está perto de chegar na fase de ser prometida em casamento, como ocorre com Salma (Dana Abdullilah), colega de escola da protagonista. Enquanto a maioria das colegas dela parecem conformadas em seguir as regras, Wadjda está fascinada pela liberdade que o amigo Abdullah (Abdullrahman Al Gohani, um fofo) tem. E não apenas eles, mas todos os outros rapazes e homens que ela conhece.

Como é típico das crianças e dos jovens, Wadjda não entende muito bem as razões para o tratamento entre ela e Abdullah ser tão diferente. Afinal, porque ele e os outros rapazes podem andar de bicicleta e se vestir de maneira muito mais confortável e ela e as outras meninas não? São questionamentos simples, que podem ser entendidos por qualquer pessoa, e feitos por uma cineasta que nasceu e cresceu naquela realidade – ninguém melhor que ela para entender aquelas restrições e ousar apresentando questionamentos interessantes.

Uma qualidade de Wadjda é que o filme realmente se preocupa em mostrar a realidade da protagonista. Assim, o espectador pode conhecer tanto a intimidade do lar de Wadjda quanto o “ambiente social” onde ela circula. Caminhamos, assim, pelas ruas da cidade de Riyadh, no trajeto entre a casa da menina e a escola em que ela estuda. Percebemos a enorme admiração que ela tem pela mãe (Reem Abdullah) e a forma diferente com que ela encara os estudos e as colegas.

Mas além de um roteiro divertido e sem grandes discursos, apesar de cheio de mensagens espalhadas aqui e ali, este filme tem o grande mérito de ter a jovem Waad Mohammed como protagonista. A menina tem carisma e demonstra muita atitude. Seja para defender a mãe, quando ela é criticada pelo motorista Iqbal (Mohammed Zahir), seja nos pequenos detalhes como no tênis que usa, na forma com que ganha dinheiro (vendendo fitas-cassete e pulseiras proibidas), na recusa em tampar o rosto com um véu ao caminhar pelas ruas ou pela insistência em conseguir uma bicicleta.

Agora, sem dúvida, uma das grandes “tiradas” do filme é o questionamento sobre a fé e os costumes. Afinal, as colegas de Wadjda e ela própria cantam aqueles versos sobre seguir os “preceitos” de Deus, estudam o Alcorão e seguem as recomendações da diretora Ms. Hussa (Ahd) porque elas acreditam que é o certo a fazer ou porque temem serem punidas pelos adultos ou pela sociedade? O filme deixa bem claro, especialmente através do exemplo de Wadjda, que podemos seguir tudo o que nos dizem que é o certo, como os ensinamentos do Alcorão, os 10 mandamentos da Bíblia cristã ou o indicado em outros “livros sagrados” sem, de verdade, acreditarmos naquilo.

Como já ouvi tantos freis franciscanos falarem, há muitas pessoas que “batem cartão” na Igreja todos os domingos mas, saindo pela porta, elas parecem esquecer tudo o que ouviram ou o que rezaram. São uma espécie de “cordeiros robóticos”, ou seja, pessoas que cumprem um “papel social”, talvez para se sentirem bem aceitos no grupo social, mas que de fato não acreditam e/ou refletem no que estão fazendo. Assim, agem como animais quando comandam um carro em alta velocidade ou percebem que a fila está enorme no supermercado.

Achei brilhante a forma com que a diretora Al-Mansour aborda este tema em Wadjda. Ela não faz grandes discursos, não existe nenhum momento de “confronto com extrema reflexão” no filme. Mas estas questões todas estão nas entrelinhas e fazem o espectador pensar durante a após a projeção. O importante para a diretora, e isso fica bem evidente, é retratar aquela realidade que ela conhece bem, mesmo que de uma forma ficcional.

Neste filme, Al-Mansour também consegue plasmar bem um movimento que está cada vez mais evidente na Arábia Saudita e em outros países muçulmanos: a pressão que a cultura ocidental faz em sociedades que querem preservar seus velhos costumes. Nós do Brasil, país colonizado há mais de 500 anos, e que seguiu sendo colonizado desde então, sabemos bem sobre a potência das influências de “países dominantes” ocidentais. Usamos palavras derivadas do francês, do inglês e de outros idiomas, compramos produtos de diversas partes e consumimos com gosto produtos culturais norte-americanos, europeus e de outras latitudes.

O resultado destas influências é que nossa sociedade, assim como tantas outras, luta para preservar alguns elementos culturais “originais” (eles ainda existem?) enquanto mergulhamos nas influências de outras partes e recriamos tudo em um imenso caldeirão cultural. Agora, imaginem se o Brasil fosse um país preocupado em preservar uma série de regras e costumes que não tivessem paralelo nestas outras sociedades que nos influenciam? Este é um dos temas de Wadjda. Que mostra uma protagonista “reformista”, com vontade de quebrar regras, mas que se vê podada por quase todos os lados.

As cenas de Wadjda são lindas, e há um final muito bonito em cena. Mas após aquela pedalada, o que o futuro vai reservar para a menina? O provável é que ela seja obrigada a casar com alguém logo, diminuindo os riscos de “se perder no caminho”. E o marido vai exigir que ela tenha filhos, preferencialmente homens, e que siga todas as regras. Mas, talvez, e apenas talvez, ela siga o exemplo da diretora Al-Mansour e se torne a primeira mulher a dirigir um filme na Arábia Saudita. Nunca saberemos – o que é bom, porque o futuro da personagem fica à critério do público.

Independente do que aconteça com ela, Wadjda nos dá ótimos exemplos de como é possível “ser humana” mesmo em ambientes agrestes. Afinal, em mais de uma ocasião ela é provocada pela diretora Ms. Hussa a dedurar colegas que teriam seguido o “mau caminho”. Mas sem entender porque as garotas eram perseguidas e/ou temendo pelo que poderia acontecer com elas, Wadjda não seguiu as regras e ficou calada.

Eis outra mensagem interessante. Porque ela nos lembra que sempre temos uma escolha. Podemos fazer o que esperam da gente, mesmo que seja algo que não acreditamos, apenas para ficar bem, para sermos “salvos” ou para termos uma ampla aceitação social, ou podemos fazer aquilo que a nossa consciência acha melhor. Seguir a própria ética, especialmente se ela surge de uma profunda observação e reflexão, é algo difícil, mas libertador. Wadjda nos mostra isso de forma muito bacana, singela e envolvente.

O filme tem ritmo, uma protagonista carismática, um ambiente que pode ser compreendido por qualquer pessoa e uma mensagem libertadora também universal. Todos passaram pelo colégio, presenciaram algum conflito familiar – seja na própria casa ou em outra parte – e podem, assim, compreender o que acontece na trama, mesmo sem saber quase nada sobre a realidade na Arábia Saudita. E como a história flui bem, tenho certeza que Wadjda vai incentivar muita gente a procurar saber mais sobre aquele país, seus costumes e conflitos.

Agora, serei franca. Não gostei tanto deste filme apenas pelas qualidade todas citadas. Ele me afetou, especialmente, por causa do “sonho de consumo” da protagonista. E não apenas porque, um dia, ainda criança, eu também sonhei em ter uma bicicleta. Mas porque hoje, adulta, depois de passar por tantas experiências na vida, vejo na minha bike o meu principal instrumento de libertação três vezes por semana. Pedalando pela cidade para “manter a forma”, acompanhada de boa música, vejo belas paisagens, pessoas, sinto aromas, suo a camisa e vivencio a liberdade que Wadjda percebe ao seguir veloz com seu próprio esforço – e contrariando as regras e expectativas. A bike, neste caso, faz toda a diferença.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Talvez muitos de vocês se lembrem da história daquela saudita que foi presa depois de ter postado um vídeo na internet em que ela dirigia um carro… lembro que na época fiquei bem impressionada. Não apenas pelo fato do YouTube e tantos outros serviços na internet ajudarem as pessoas a manifestarem o que pensam e sentem, mas também por achar incrível que uma mulher precisasse se esconder para dirigir.

Pois bem, este e outros pontos da realidade da mulher saudita são mostrados em Wadjda. No filme, por exemplo, a mãe da protagonista fica impedida de sair para trabalhar porque perde o motorista – e ela não tinha outra maneira de sair de casa de automóvel que não fosse pagando um homem para levá-la. Incrível!

Muita gente, como eu, deve se perguntar quanto deste filme aborda a vida comum real de uma família na Arábia Saudita. Pois bem, lendo este texto bem interessante, publicado em junho do ano passado por uma mulher saudita que diz ter passado a maior parte da infância no Kansas, mas que voltou para o país de origem depois, é possível perceber que existe muito realismo em Wadjda. E que há, também, muito preconceito e desconfiança nos dois lados da questão: tanto por parte de sauditas, em relação aos ocidentais, quanto vice-versa.

De fato, e como já comentei aqui quando opinei sobre outros filmes, o que precisamos é abrir o leque de entendimento. Tanto buscar compreender o passado e o presente de culturas diferentes que as nossas, como tentar se aproximar das pessoas que vivem estes cenários distintos para saber o que elas pensam e sentem. Dentro das nossas possibilidades, é claro. E quando a outra realidade é muito distante, o cinema é sempre um bom aliado neste sentido – além da literatura e da imprensa, é claro.

Para a diretora da escola de Wadjda, ela poderia ser um mau exemplo a ser combatido. E, por isso mesmo, objeto de vigilância constante. Mas a menina não tinha maldade e nem malícia. Prova disso é que ela falava sempre o que pensava e o que queria, “chocando” muita gente daquela ambiente que queria apenas seguir as regras. Inocência que fica clara quando ela revela o que faria com o prêmio do concurso sobre o Alcorão.

A reação da diretora é cruel, ainda que compreensível dentro daquele contexto. Ms. Hussa é paga para fazer aquelas meninas andarem nas “regras” e se esforça ao máximo para tentar “salvar” Wadjda. Como ela confessa em certo momento, Ms. Hussa se identifica com aquela menina rebelde – e tem certeza que, no futuro, a garota será “domesticada” como ela.

Achei fascinante o trabalho da diretora Haifaa Al-Mansour antes mesmo de saber mais sobre a história dela. Primeiro, porque gostei muito do roteiro de Wadjda e da condução da história. Al-Mansour está atenta aos detalhes de cada cena, valoriza a atuação dos atores e também ressalva bastante os cenários em que eles se movem. Conhecemos, desta forma, a forma de vida de pessoas aparentemente comuns na Arábia Saudita.

Depois, ao buscar mais informações sobre Al-Mansour, fiquei ainda mais fascinada com a diretora. Descobri, lendo a minibiografia dela no site IMDb, que Al-Mansour é a primeira mulher a fazer cinema na Arábia Saudita e, atualmente, é vista como uma das referências do cinema naquele país.

Ela fez Letras na Universidade Americana do Cairo e cursou mestrado em Direção e Estudos de Cinema na Universidade de Sydney. O sucesso da diretora em três curtas e o reconhecimento internacional com o documentário Women Without Shadows teria influenciado uma nova geração de cineastas sauditas. Mas ela divide opiniões na Arábia Saudita, tendo o próprio trabalho elogiado e difamado por incentivar a discussão sobre temas que são tabus naquela sociedade.

Al-Mansour está casada há seis anos com Brad Niemann e é mãe de dois filhos. Ela cresceu em uma pequena cidade saudita e é a oitava filha de um casal que teve 12 crianças. Achei a diretora muito bonita e, após assistir a Wadjda, muito talentosa. Vale acompanhá-la.

Agora, uma curiosidade sobre Wadjda: a diretor Al-Mansour teve que dirigir as cenas externas da produção de dentro de uma van, de onde observava os atores através de monitores. Ela se comunicava com a equipe através de walkie-talkies e sem sair do veículo. Teve que fazer isso porque no país segregado as mulheres não devem trabalhar em público com homens.

Além de um ótimo roteiro e de uma direção bastante cuidadosa e atenta, Wadjda conta com a edição competente de Andreas Wodraschke, com a direção de fotografia “calorosa” (em tons claros, especialmente pastéis) de Lutz Reitemeier e com a interessante e animada trilha sonora de Max Richter. Eles são importantes para que o filme funcione bem. Junto com os atores – especialmente a protagonista, o garoto Al Gohani e a atriz que faz a mãe de Wadjda.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de alguns coadjuvantes que tem certa relevância na produção: Sultan Al Assaf interpreta ao pai de Wadjda; Sara Aljaber a Leila, amiga da mãe da menina e uma mulher que resolve trabalhar em um hospital com outros homens – rompendo com certos preceitos daquela sociedade; e Rehab Ahmed faz Noura, uma das finalistas do concurso do Alcorão e colega de Wadjda.

Por mais que eu ache importante entender realidades diferentes da nossa, há algumas cenas em Wadjda que me deixaram um pouco perplexa. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Uma delas foi a forma com que trabalhadores de uma obra mexeram com Wadjda. Cheguei a temer pela menina naquele momento. E aquela foi apenas a primeira cena que mostrou o machismo daquela sociedade – onde os homens, aparentemente, podem tudo enquanto as mulheres devem baixar a cabeça e serem subjugadas. Outra sequência é a forma com que o pai de Wadjda enfrenta a mulher, que logo será deixada para trás e substituída por outra porque não pode dar para ele um filho. Nem preciso dizer que acho estas situações absurdas, não é mesmo?

Achei um pouco surpreendente Wadjda ser o filme indicado pela Arábia Saudita para o próximo Oscar. Afinal, a diretora Haifaa Al-Mansour é uma figura controversa no país e este filme é beeeeeem ousado, no sentido de questionar valores da sociedade saudita, mostrar certa “invasão” de elementos ocidentais naquele país e, principalmente, elogiar a rebeldia de uma garota que busca liberdade. Ao mesmo tempo que é surpreendente, esta indicação oficial merece aplausos. Neste sentido, o Brasil, que vive um momento de discussão sobre aceitar apenas biografias autorizadas, poderia aprender algo com a Arábia Saudita.

Wadjda estreou no Festival de Veneza em agosto do ano passado. De lá para cá, ele participou de pelo menos outros oito festivais de cinema relevantes. Nesta trajetória, ele ganhou 16 prêmios e foi indicado a outros cinco. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Atriz para Waad Mohammed e Melhor Filme no Festival de Cinema Internacional de Dubai; prêmio do público como Melhor Produção Internacional no Festival de Cinema de Los Angeles; Prêmio “Diretores para Assistir” para Haifaa Al-Mansour no Festival de Cinema Internacional de Palm Springs; e três prêmios secundários (CinemAvvenire Award, C.I.C.A.E. Award e Interfilm Award) para Haifaa Al-Mansour no Festival de Veneza.

Não encontrei informações sobre o quanto custou fazer Wadjda. Mas o site IMDb traz a bilheteria que o filme conseguiu obter nos Estados Unidos: pouco mais de US$ 1,06 milhão. Claro que é pouco, mas não é um resultado ruim para um filme estrangeiro com o perfil de Wadjda e sem um grande apoio de estúdio para “acontecer”. Nos EUA, Wadjda foi distribuído pela Sony Pictures Classics, que é uma marca consagrada, mas que não deve ter se preocupado em espalhá-lo com muitas cópias pelo país.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para o filme. Uma avaliação muito boa. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 73 textos positivos e apenas um negativo para a produção, o que lhe garante uma impressionante aprovação de 99% e uma nota média de 8,1. Resultado fantástico! E bastante justo.

Algo que eu achei incrível ao buscar mais informações sobre os principais nomes deste filme: tanto a diretora quanto a atriz que faz Wadjda estão vivendo, aqui, os seus primeiros trabalhos em longas de ficção. A diretora havia dirigido antes apenas a curtas e a um documentário. E Waad Mohammed não havia feito filmes. Incrível!

Falarei mais sobre as chances de Wadjda no próximo Oscar logo mais, abaixo, mas queria comentar que este filme também é o franco favorito no Globo de Ouro 2014. Ele e Jagten, junto com Le Passé, devem fazer uma quebra-de-braços interessante nas duas disputas.

CONCLUSÃO: Wadjda é um filme que vai crescendo conforme a narrativa evolui. Ele permite que o espectador mergulhe naquela cultura, diferente de grande parte do mundo ocidental, com calma, e que vá torcendo pela protagonista. No final, não tem como o público não estar envolvido com Wadjda e o sonho de quase toda criança. Quem nunca desejou profundamente, inclusive rezou para um dia ter uma bicicleta? Mas em alguns lugares este sonho é impossível para uma menina. Sabermos disso, e tentarmos entender aquela lógica diferente, é um desafio. Mas que vale ser vencido.

Wadjda segue a tradição de vários filmes que tem o olhar infantil como condutor, e consegue entregar o que promete com perfeição. No final, fica a mensagem de que vale ter um sonho e persegui-lo. E que sim, o mundo inteiro está contaminado com valores diferentes. Quanto antes aprendermos a respeitá-los e conviver com eles, melhor. Bela narrativa, construída de maneira precisa, que emociona e faz pensar sobre os conflitos de um país que não consegue ficar ilhado no mundo e vive o conflito entre as tradições e a “modernidade”.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Este filme tem alguns elementos que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood adora. Para começar, esta é uma história contada sob a ótica de uma criança – ou pré-adolescente, se você preferir. Depois, é um filme que sabe crescer com o passar do tempo, e surpreende pela ousadia de quebrar tabus e elevar alguns dos valores que os Estados Unidos adora “vender”. Apesar disso, ou além disso, Wadjda é um filme realmente bem feito e que funciona.

Analisando os filmes que eu vi até agora e que estão na lista das 76 produções que buscam lugar entre cinco finalistas ao Oscar, vejo que Wadjda está no extremo oposto de outro filme impecável: Jagten (comentado aqui no blog). Até agora, a produção dirigida por Thomas Vinterberg tinha o “meu” voto. Era a minha preferida. Mas fica difícil escolher entre ela e Wadjda porque estes são filmes tão diferentes entre si… que é uma questão quase de tirar cara-e-coroa para saber qual deveria ser o vencedor.

Sem dúvida Jagten é mais ousado na narrativa e na crítica, e tem algumas surpresas no roteiro que Wadjda não possui. Por outro lado, o filme dirigido por Haifaa Al-Mansour tem a ousadia de questionar parte da realidade social da qual ele é originário – somando-se a várias outras manifestações que questionam alguns costumes tradicionais da Arábia Saudita. É preciso coragem para fazer isso. E por isso mesmo, fico dividida entre as ousadias diferentes de Jagten e Wadjda.

De qualquer forma, não tenho dúvida de que Le Passé (comentado aqui) e O Som ao Meu Redor (aqui) estariam em segundo plano na disputa. Se bem que a Academia sempre pode surpreender… De qualquer forma, até aqui, me parece que Wadjda tem o perfil do Oscar, não apenas por trazer a sempre premiada ótica infantil como protagonista, como também por evidenciar a busca pelo próprio sonho de um indivíduo e a rebeldia ocidental em um país árabe que os EUA adorariam conquistar culturalmente. Faria sentido dar uma estatueta para um filme com esta “pegada” – e que, além disso, é bem feito.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Wadjda ficou de fora da lista. Seguem na disputa os seguintes filmes: The Broken Circle Breakdown (Bélgica), An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina). Além de Wadjda, outros filme que apareciam na lista dos especialistas como alguns dos favoritos, Le Passé e Gloria, também ficaram de fora. Interessante.

Gravity 3D – Gravidade 3D

8 de novembro de 2013 12 comentários

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A corrida para o Oscar do próximo ano está aquecida desde já. Mas alguns filmes que podem surpreender ainda não estrearam nos Estados Unidos, o que pode alterar as bolsas de apostas feitas até agora porque estes títulos podem surpreender aos críticos e votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ainda assim, ouvi falar tanto de Gravity que eu me vi obrigada a ver ao filme agora, enquanto ele ainda está nos cinemas.

Honestamente, eu gosto do Alfonso Cuarón. Mas esta nova produção dele não tinha me atraído tanto assim para que eu fosse nos primeiros dias a algum cinema. Só que com tanto burburinho sobre a produção e com os especialistas afirmando que ele tem grandes chances de ganhar um monte de estatuetas douradas em 2014, me vi obrigada a ir atrás.

A HISTÓRIA: Se passa a 600 quilômetros acima da superfície da Terra, onde não há oxigênio, não há água e nem atmosfera por onde o som possa se propagar. Logo aparece o nosso planeta, naquela imagem clássica, todo azul, mas agora em alta definição e profundidade. Logo ouvimos o comando da Nasa pedindo para a doutora Ryan Stone (Sandra Bullock) confirmar se ela está bem. Ela, que é a figura mais distante entre os três astronautas que aparecem na telona, afirma que sim, que apenas está um pouco enjoada. Mas segue trabalhando para instalar um novo sistema de comunicação no telescópio Hubble.

Algo está errado com os componentes, e para passar o tempo, o astronauta Matt Kowalski (George Clooney) segue “caminhando” no espaço para tentar bater o recorde do russo Anatoly Slovyev enquanto conta histórias. Mas não demora muito para que os destroços de um satélite russo destruído por um míssil acertem outros satélites e criem uma verdadeira onda de destruição, fazendo os astronautas que estão na operação do Hubble correrem para tentar se salvar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Gravity 3D): Não é por acaso que eu defendo sempre a ignorância em relação aos filmes. Ou, dizendo em outras palavras, que quanto menos você souber sobre uma história, melhor. Falei algumas vezes por aqui, em outros textos, de como as expectativas são ruins para qualquer experiência. Ainda que a gente se esforce para “ser neutro/a” na hora de ver uma produção, quando ouvimos falar bastante dela, é quase impossível não se contaminar com a expectativa de ver algo bom.

Sobre este filme, especificamente, tentei ouvir pouco antes de assisti-lo. Como costumo fazer com todos os demais. Mas foi impossível. Pesquisando em sites gringos sobre as apostas para o próximo Oscar, vi Gravity bem cotado em praticamente todas as categorias. Isso, por si só, alimenta bastante a expectativa. Além disso, não lembro o porquê, mas li em algum lugar que o diretor James Cameron disse que Gravity é o melhor filme sobre o espaço da história. Daí impossível ir até o cinema e não esperar por um grande filme, não é mesmo?

Foi desta maneira que, logo de cara, achei forçado o humor do roteiro escrito pelo diretor Alfonso Cuarón e pelo filho dele, Jonás Cuarón. A dupla teria, ainda, tido a colaboração do ator George Clooney no texto – uma ajuda não creditada, segundo o site IMDb. Entendo que a intenção dos roteiristas foi “desmistificar” um pouco a figura “sisuda” do astronauta. Assim, vemos ao especialista Shariff (com voz de Phaldut Sharma) fazendo uma “dancinha” no espaço depois de saber que tiraria férias no retorno para a Terra, e ouvimos várias histórias sem graça de Kowalski.

Ainda que eu entenda a intenção dos roteiristas, não acho que a técnica tenha funcionado. As falas de Kowalski, exceto aquelas em que ele tenta saber um pouco mais de Stone quando eles estão sozinhos tentando sobreviver, parecem forçadas. As histórias de Kowalski, contadas para quem quisesse ouvir na Nasa e para uma especialista com quem ele não tinha contato algum até então, que era Stone, me fizeram lembrar aquelas pessoas que você mal conhece e que começam a contar todos os detalhes estranhos e/ou sórdidos de suas vidas quando bebem demais.

Pois bem, fora esse início forçado do roteiro, com confissões estranhas de Kowalski, como os “maus pressentimentos” dele com a missão porque ela fazia ele lembrar de quando foi deixada pela mulher em outra ocasião em que estava no espaço, achei que Cuarón fez uma boa escolha em abrir mão da tradicional edição de cortes de cena para fazer um longo plano de aproximação dos personagens no espaço.

Então partimos de um quadro mais amplo, em que vemos a Terra ao longe e o telescópio Hubble com os astronautas, até que chegamos perto da protagonista, Stone. Este jogo de cena é feito como se estivéssemos flutuando no espaço, acompanhando a dinâmica da cena. Uma proposta interessante e que vai ditar o ritmo de grande parte da produção.

Também achei acertada a escolha para que a ação não demorasse muito para acontecer. Verdade que o filme dá bastante espaço para o silêncio, e para sequências de busca dos astronautas sem muita ação. Gravity é uma história de ação no espaço ao mesmo tempo em que escolhe ser um drama, com todas as suas pausas e momentos em que se espera que a audiência “sinta” o que os atores estão passando.

Pena que o roteiro não deixe praticamente espaço algum para surpresas. E isso é ruim em um filme de ação – também em um drama, claro, mas em um filme de ação a surpresa é ainda mais vital. Assim, quando ouvimos a Nasa falar que os astronautas não precisam se preocupar com a explosão do satélite russo, não é preciso ter grande imaginação para saber que justamente aí estará o grande problema da trama. E o risco para os personagens.

Assim, não é nenhuma surpresa quando a Nasa explica que o trio em órbita deve fazer a reentrada no telescópio e, na sequência, uma evacuação de emergência. Mesmo a virada da narrativa sendo esperada, é preciso admitir que Gravity ganha força e mostra quase todas as suas armas com a chegada dos escombros até aquele cenário “tranquilo”.

Interessante a escolha de Cuarón em acompanhar Stone o tempo inteiro. A estrutura em que ela está se desprende e a médica é lançada longe. Por bastante tempo, o espectador fica “perdido no espaço” junto com a especialista que se preparou pouco para a viagem espacial – o que, cá entre nós, é bem difícil de acreditar.

Pelo menos no mundo real uma pessoa, não importa da especialidade que ela fosse, dificilmente iria para uma missão como aquela tão despreparada. (SPOILER – não leia se você ainda não viu o filme). Mas voltando ao filme… funciona bem o recurso de colocar um “tique-taque” na história. E esse contador de tempo, claro, é o oxigênio baixo de Stone. As rodopiadas dela no espaço, a solidão inerente e o desespero da falta de controle são reforçadas com a trilha sonora de Steven Price.

Kowalski acaba encontrando Stone. Agora, ele não deve se preocupar apenas com a nova onda de destroços que deve chegar até eles, mas também com o tempo limitado que a dupla tem até chegar a uma alternativa que dê oxigênio para a médica e possibilidade de fuga para a Terra para os dois. Agora, fora estas escolhas acertadas do diretor e os ótimos recursos técnicos que ele utiliza, pouco sobra de interessante no filme.

Há algumas sequências realmente estranhas e/ou dispensáveis. Por exemplo, para que afinal eles se esforçaram tanto para buscar o corpo de Shariff? Claro que alguém vai argumentar que a ideia era levá-lo para os familiares na Terra… mas tanto que esta ideia é absurda que quando eles se aproximam da nave Explorer, eles soltam Shariff que vai, desculpem a expressão, para o espaço. :) Também achei muito fake a cena em que Stone olha para o rosto destruído de Shariff.

Como nem todas as escolhas deste filme são estranhas, gostei de duas cenas que valem menção. Primeiro, a bela sacada de Kowalski parar de contar as próprias histórias para tentar saber um pouco mais de Stone e, assim, acalmá-la – afinal, ela praticamente não tem mais oxigênio quando eles decidem ir da Explorer para a estação espacial. Quando ela diz que a filha dela de quatro anos morreu e que, fora trabalhar em um hospital, Stone ficava vagando sem rumo de carro, ele olha para ela, que está presa a ele por um cabo, através de um espelho. Bela, bela imagem. Aliás, as cenas da Terra vistas no espaço e do nascer e do pôr-do-sol são lindíssimas.

Outras sequências que achei muito boas foram as que mostram a destruição no interior da estação espacial. Daí que o 3D faz realmente diferença – especialmente nos momentos em que vemos chamas e água flutuando. Não chegar a ser uma surpresa completa, ainda que seja impactante, a cena em que Kowalski afirma para Stone que a única chance dela é ele se desprender. Sem combustível para seguir dando rumo para o próprio “voo”, Kowalski sabe que não terá resgate. De fato Clooney faz um bom trabalho, ainda que ele seja um pouco irritante. Mas a maior entrega, e que deve render vários prêmios pela frente, é mesmo de Sandra Bullock.

Ela entrou neste projeto para valer e fez sacrifícios físicos para aguentar o tranco das gravações. Mas quando ela entra na nave espacial e tira o traje de astronauta, percebemos que ela está muito bem, fisicamente. Com um corpão, alguns podem dizer. E está mesmo. Só achei dispensável ela “relaxar” e se mover ficando em posição fetal – certo que a referência é clara para o filme, este sim genial, 2001 – A Space Odyssey. Também não gostei da trilha sonora em boa parte do filme – porque, para o meu gosto, Price exagerou na dose, especialmente na reta final de Gravity.

O virtuosismo de Cuarón na direção fica mais evidente quando Stone tem que sair da cápsula Soyuz para desprender o paraquedas que lhe impedia de seguir viagem e se distanciar da estação espacial. Aquela sequência, como outras do filme, podem render ao diretor o seu primeiro Oscar. Palmas também, claro, para a edição de Cuarón e de Mark Sanger, que também pode ser premiada.

Mas na sequência surge outro fato que me decepcionou no roteiro. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Stone está vagando sem combustível com a Soyuz da estação chinesa quando consegue fazer contato com a base de comando na China. E daí, entre outros sons, ela ouve latidos de cachorro (WTF??) e um choro de criança. Ah, me desculpem, mas sério mesmo que eles querem fazer a gente acreditar que a “Nasa chinesa” teria um cachorro e um bebê? Ai, ai… Alguém pode argumentar que Stone poderia estar surtando, delirando. Não me pareceu. Depois sim, praticamente sem oxigênio, é compreensível que ela tivesse uma certa “visão”. Mas antes, com condições perfeitas para respirar, não me pareceu que aquilo fosse um delírio.

Bueno, a partir dali, evidentemente, o que acontece também era previsto. Afinal, algum de vocês, por algum momento, duvidou que Stone conseguiria sobreviver? Já imaginaram ela explodindo lá pelas tantas no filme? Não daria certo para uma produção made in Hollywood, não é mesmo? Então a surpresa do final não existe. Gravity passa mais de uma hora nos mostrando como aquela médica com nenhuma experiência no espaço plasmou o instinto de sobrevivência da nossa raça, fazendo tudo que era possível para pisar em terra firme novamente.

Assim, o que vemos é um filme bem acabado tecnicamente, com cenas incríveis de ação no espaço e algumas imagens belíssimas – mérito também do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki. Adicione-se ao cesto de pontos positivos a entrega da atriz Sandra Bullock. E isso é tudo. Gravity tem um roteiro fraco, com final previsível e um desenrolar da história um bocado previsível também.

Com o problema de ter alguns argumentos difíceis de acreditar – como a Nasa enviar alguém tão despreparado e que poderia colocar em risco a missão como a Stone para o espaço e aquela comunicação absurda com a base chinesa – e várias sequências que beiram a chatice (como a trilha que Kowalski insistia em colocar e as histórias que ele contava). Um filme perfeito para agradar quem está de olho nas inovações do cinema. Mas um bom filme tem que ter muito mais que técnica. Deve ter “coração”, ou um bom “espírito”. Em outras palavras, emocionar ou surpreender. E Gravity, mesmo na versão 3D, não consegue nos arrebatar. Fascina, claro, com a tecnologia. Mas nada além disso.

NOTA: 8,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muito já se falou sobre a entrega da atriz Sandra Bullock ao papel. De fato, ela passou por toda a experiência que um astronauta deve passar ao preparar-se para ir para o espaço. Com o adicional de que ela estava sendo filmada para estrelar uma produção milionária e que vai lhe render muitas indicações a prêmios. Para mim, é evidente que ela chegará como favorita ou forte candidata ao Globo de Ouro e ao Oscar do próximo ano. Mas é preciso ver o desempenho de outras concorrentes, incluindo veteranas como Meryl Streep, para saber se ela vai ganhar uma estatueta dourada pelo esforço com Stone.

Há muito tempo eu acompanha ao Oscar. Primeiro, ainda criança e adolescente, por pura curiosidade. Depois, já escrevendo sobre cinema no início da minha carreira como jornalista, passei a acompanhar a maior premiação de Hollywood também com uma expectativa profissional. Desde que comecei este blog, meu interesse por assistir aos favoritos antes da premiação ficou ainda maior. Minha intenção é compartilhar com vocês, caros leitores, minhas impressões sobre os favoritos. Dito isso, achei surpreendente este ano termos um dos favoritos para o Oscar 2014 e, para muitos, o possível grande vencedor da premiação tão cedo nos nossos cinemas.

Afinal, vocês devem lembrar que, normalmente, chega até nós os filmes com maior chance no Oscar no ano em que a premiação será entregue. Normalmente, as produções favoritas ao prêmio entram em cartaz em janeiro ou fevereiro. Desta vez, temos Gravity estreando na primeira quinzena de outubro – e, no mês anterior, o filme passou no Festival Internacional do Rio de Janeiro – e, logo mais, a estreia de outro forte candidato: Captain Phillips. Interessante. E outros devem estrear antes mesmo do início de 2014. Só que me preocupa o outro grande favorito do ano ao lado de Gravity, 12 Years a Slave, ainda não ter data prevista para o Brasil. Sem dúvida o filme do diretor Steve McQueen é o que eu mais estou ansiosa para ver.

Sempre gostei do Alfonso Cuarón, ainda que eu não tenha ele na minha lista de diretores preferidos. Ainda me lembro do primeiro filme que eu vi dele… Great Expectations, um filme bonzinho, lançado em 1998, com Ethan Hawke, Gwyneth Paltrow e Robert De Niro. Com aquela produção já tinha ficado claro que ele é um destes diretores que sabe fazer cinema “autoral”, se necessário. Mas que sua praia é mesmo fazer filmes que conquistem grandes bilheterias – nem que para isso seja necessário fazer um cinema bem “industrial”. Diferente de outro diretor mexicano, Alejandro González Iñarritu – a quem eu prefiro, se tivesse que escolher um dos dois.

Autoral mesmo, Cuarón fez apenas Y Tu Mamá También. Os outros filmes foram forjados com a cara de Hollywood. Por isso mesmo é que eu vejo que ele tem muitas chances de ficar entre os cinco finalistas na categoria Melhor Diretor do Oscar 2014 e, talvez, até levar a estatueta. Se conseguir a indicação, esta será a primeira de sua carreira como diretor. Ele foi indicado, antes, a três Oscar’s: Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição por Children of Men, em 2007, e Melhor Roteiro Original por Y Tu Mamá También. Não deixa de ser irônico que, justamente agora, seja o roteiro o ponto fraco de Gravity.

Os grandes protagonistas de Gravity 3D não aparecem em cena – são o diretor Cuarón e os efeitos especiais, visuais e o departamento de arte da produção. Este último, contou com 47 profissionais liderados por Heather Noble. Os efeitos especiais foram garantidos por 22 feras, e os efeitos visuais, por centenas – sim, centenas – de profissionais. Parei de contar no 300, para vocês terem uma ideia. Sem dúvida os efeitos visuais e especiais vão render duas estatuetas para este filme – falo de todas as minhas apostas sobre o Oscar logo abaixo.

Muitas vezes um diretor pode até não fazer um grande trabalho em um filme. Ou que é o mesmo que dizer que um filme pode ter uma direção apenas correta e ainda assim ser muito bom. Por isso mesmo, acho tão fundamental para que uma produção seja boa que ela tenha um roteiro ótimo. As estatuetas de Melhor Roteiro Original e Melhor Roteiro Adaptado sempre me interessam – muitas vezes até mais do que as dos intérpretes. E esta é a razão principal para que, desde já, eu não esteja torcendo por Gravity no próximo Oscar. Falta um roteiro melhor para o filme.

Ainda que George Clooney tenha uma participação interessante neste filme, Gravity é um título de uma única atriz: Sandra Bullock. A história gira em torno dela. Bullock, assim, tem todo o espaço para brilhar – junto com as imagens do filme, claro.

Fora os dois atores, vale citar Ed Harris como a voz do contato que os astronautas tem com o controle da Nasa.

Da parte técnica do filme, vale comentar o excelente trabalho de Andy Nicholson no design de produção e de Mark Scruton na direção de arte.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. De acordo com os realizadores, Sandra Bullock passou por um treinamento físico de seis meses antes do filme começar a ser rodado. Neste período, ela trabalhou cada trecho do roteiro com Cuarón. O diretor afirmou que o essencial do trabalho deles foi tratar do tema central de Gravity, “a possibilidade do renascimento após a adversidade”. Mas fez parte do trabalho também a discussão sobre cada cena, e a atriz fez anotações sobre as animações que seriam feitas no filme e o movimento dos robôs que garantiram a dinâmica das cenas. A respiração da personagem Stone foi um ponto central do trabalho do diretor e da atriz.

Lendo as notas da produção é que entendi o elogio de James Cameron… ele é o “melhor amigo” de Cuarón. Claro que os sentimentos dele em relação ao amigo influenciaram no julgamento. :) Mas achei interessante a comparação que ele fez do trabalho de Bullock. Ele disse que a dedicação dela ao filme – incluindo aqueles seis meses de preparo – fazem lembrar o empenho dos bailarinos do Cirque du Soleil.

Nem tudo neste filme foi filmado, como Gravity pode dar a entender. Várias cenas de “caminhada no espaço” foram feitas totalmente por computação gráfica. Para dar mais “realismo” para estas cenas, o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki teve que iluminar os rostos dos atores para cada cena conforme o cenário criado digitalmente fosse mudando.

A primeira pessoa a ser cotada para fazer a personagem de Stone foi Angelina Jolie. Mas a atriz desistiu do papel. Depois dela, fizeram teste para o papel ou foram cotadas para ele Rachel Weisz, Naomi Watts, Natalie Portman, Marion Cotillard, Abbie Cornish, Carey Mulligan, Sienna Miller, Scarlett Johansson, Blake Lively, Rebecca Hall e Olivia Wilde. Ufa! Lista grande, e acima do normal para um papel de protagonista. Se Bullock de fato ganhar o Oscar por esse trabalho, várias atrizes vão se perguntar se não deveriam ter pensado melhor no papel.

Este era um projeto para o estúdio Universal que, inicialmente, queria Angelina Jolie no papel principal. Mas a atriz foi descartada, porque tornaria a produção ainda mais cara, e Gravity foi para a gaveta. Daí que a Warner assumiu o projeto e, no final de 2010, Sandra Bullock e Robert Downey Jr. estavam confirmados nos papéis de Stone e Kowalski. Depois, o ator acabou saindo do projeto por causa do famoso “conflito de agenda”, mas Bullock seguiu.

Enquanto filmava uma cena subaquática que depois, em outra tomada, vai aparecer em Gravity, Cuarón prendeu a respiração junto com Sandra Bullock para ter certeza de que não estava exigindo muito da atriz. Mas ele logo descobriu que não poderia igualar o seu fôlego com o de Bullock.

Existe um boato, há muito tempo, de que a Nasa daria pílulas de suicídio para os astronautas no caso deles passarem pelos piores cenários – como aquele que é focado no filme Contact. Mas há décadas a Nasa negou este boato alegando que seria muito mais fácil e confortável para um astronauta reduzir o oxigênio, como é mostrado em Gravity.

Gravity foi totalmente rodado nos Shepperton Studios, na cidade homônima na Inglaterra. Apenas a cena na Terra foi rodada fora do estúdio, mais precisamente no Lake Powell, no estado do Arizona, nos Estados Unidos.

O filme de Cuarón estreou em agosto no Festival de Veneza. Depois, ele participou de outros oito festivais. Neste caminho, ganhou dois prêmios: Atriz do Ano para Sandra Bullock no Hollywood Film Festival e o Prêmio Futuro do Cinema Digital no Festival de Veneza.

Gravity custou a bagatela de US$ 105 milhões. Apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, até o dia 6 de novembro, o filme havia arrecadado pouco mais de US$ 221,8 milhões. No restante dos mercados onde o filme já estreou, foram outros US$ 207,5 milhões. Como um filme de Hollywood precisa arrecadar o triplo, mais ou menos, para dar lucro – especialmente quando for um blockbuster -, podemos dizer que Gravity está se dando bem. Apenas na semana de estreia nos EUA o filme conseguiu US$ 55,78 milhões. Entre os filmes de “disastre”, ele é a quinta melhor bilheteria da história segundo o site Box Office Mojo – e o vigésimo entre os filmes 3D.

Algo que Gravity conseguiu, mais que lucro na bilheteria, foi cair no gosto do público e, principalmente, dos críticos. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,5 para o filme – uma excelente avaliação segundo os padrões da página. E os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 259 críticas positivas e apenas sete negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 9,1. Sim, meus caros, 9,1! Uma excelente média para o Rotten Tomatoes.

Ah sim, e se não deixei claro antes, deixo agora: se você tiver uma sala de 3D disponível, veja este filme em 3D. Sem dúvida é a melhor experiência.

Anatoly Slovyev foi um astronauta russo e coronel da força aérea soviética e russa que conseguiu dois recordes: o de caminhadas no espaço (16, no total) e o de horas passadas fora de naves em órbita (82 horas). Ele nasceu em 1948 e, aos 31 anos, completou o curso para ser um cosmonauta e foi selecionado para fazer missões com as naves Soyuz T e para passar longos períodos nas estações Salyut e Mir. Ele tinha 40 anos quando fez o primeiro voo espacial. Na segunda missão dele, em 1990, integrando a tripulação da Mir, Slovyev ficou 179 dias no espaço. Ele faria outros dois voos para fora da Terra, sendo que o último, quando tinha 49 anos, fez com que ele ficasse 197 dias em órbita.

Sobre as naves Soyuz, uma curiosidade: elas surgiram no programa homônimo soviético datado da época da corrida espacial pela conquista da Lua travada entre EUA e União Soviética. Esse tipo de nave, com capacidade para até três astronautas, foi precedida pelas naves Vostok (para um tripulante) e Voskhod (para dois). Com o fim da União Soviética, as naves Soyuz passaram a servir o programa espacial russo e nas operações com a Estação Espacial Internacional (ISS) em uma parceria com o ex-rival Estados Unidos.

Este é um filme 100% Estados Unidos. Por isso mesmo, ele passa para a lista de críticas daquele país que atendem a uma votação feita aqui no site.

CONCLUSÃO: O tema da incansável vontade do ser humano em sobreviver sempre rende. Muitos filmes já foram feitos a respeito. E este Gravity se junta a eles. Claro que o diretor Alfonso Cuarón e equipe conseguiram dar um passo a mais no cinema que foca a ação no espaço. As técnicas utilizadas neste filme garantem uma experiência nos cinemas 3D que apenas reforça a ideia de que esta nova fronteira da tecnologia veio para ficar. E que é um grande diferencial para encantar as audiências. Dito isso, sim, Gravity 3D é um filme potente tecnicamente. Mas não emociona ou surpreende como deveria para ser considerado o melhor um dos melhores filmes do ano. Para mim, faltou roteiro que me fizesse sair mais envolvida com a história. É um filme de ação no espaço, mas não é o melhor filme do ano – e, muito menos, como disseram alguns por aí, o melhor filme do gênero. Bom entretenimento. E só.

PALPITES PARA O OSCAR 2014: De fato, tudo indica que Gravity será indicado para um monte de categorias no maior prêmio do cinema global. Certamente ele merece chegar em toda e qualquer categoria técnica, como as de melhores fotografia, efeitos visuais, mixagem de som, edição de som, edição e design de produção. Se isso se confirmar, temos, por baixo, cinco indicações técnicas, que podem chegar a mais, se acrescentarmos trilha sonora, por exemplo.

Mas e sobre as categorias principais? Inicialmente, sem ver ainda aos outros concorrentes fortes de Hollywood, acho que Alfonso Cuarón pode ser indicado como Melhor Diretor e Sandra Bullock, pelo esforço que teve nesta produção, deve ser indicada a Melhor Atriz. Talvez George Clooney consiga uma indicação como Melhor Ator Coadjuvante. E como as últimas premiações comportaram até 10 indicados na categoria Melhor Filme, sem dúvida Gravity chegará lá.

Agora, ele merece ter, por baixo, oito indicações ao Oscar? Com certeza. É um filme que busca o aprimoramento e avanço técnico do cinema. E Hollywood adora isso. E a gente também, claro, porque é ótimo ver a indústria que faz peças de arte avançar. Ainda que, francamente, este filme tenha um apelo muito mais técnico que narrativo ou emocional. Também concordo com muitas indicações para ele porque, não necessariamente, muitas indicações vão significar muitas estatuetas.

Da minha parte, acho que ele merece alguns Oscar’s técnicos (como efeitos visuais, mixagem de som, edição de som e, talvez, edição, design de produção e fotografia, dependendo estes últimos do que outros filmes vão apresentar) e, talvez, Melhor Diretor. Porque Cuarón realmente fez um grande trabalho.

Melhor Atriz… só se outras possíveis concorrentes, como Meryl Streep, Judi Dench, Cate Blanchett, entre outras, não fizeram um trabalho melhor. Acho bacana como Bullock se esforçou, passou por sacrifícios físicos e tudo o mais, mas eu não daria um Oscar para ela por este trabalho. Para mim, lhe faltou profundidade na interpretação – culpa do roteiro e não da atriz, diga-se. Mas logo mais veremos o que vai sair deste mato. No momento, acredito em cerca de nove indicações para o Oscar e em cinco ou seis prêmios – a maioria deles técnicos. Ainda aguardo 12 Years a Slave, Captain Phillips, The Wolf of Wall Street, Inside Llewyn Davis e August: Osage County para conseguir formar a minha opinião melhor.

The Broken Circle Breakdown – Alabama Monroe

3 de novembro de 2013 6 comentários

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Alguns filmes tornam difícil a tarefa de escrever um texto sobre eles. The Broken Circle Breakdown é um destes exemplares. Primeiro porque fazer uma introdução sóbria e sem revelar muito sobre a essência da produção é algo quase impossível. Busco sempre inícios assim porque eu acho que quanto mais uma pessoa sabe sobre um filme antes de assisti-lo, pior. Depois porque este filme é tão perfeito que qualquer início parece pequeno. Mas o que eu posso dizer é que The Broken Circle Breakdown consegue ser, ao mesmo tempo, um filme que inspira porque une como poucos música com história ao passo em que é capaz também de cortar o coração dos desavisados.

A HISTÓRIA: Uma música no estilo country ressoa. Quando a imagem aparece, vemos a Didier Bontinck (Johan Heldenbergh) no centro do grupo que está se apresentando em um bar. Corta. Uma enfermeira prepara a agulha para retirar o sangue de Maybelle (Nell Cattrysse). A menina está acompanha dos pais, Didier e Elise Vandevelde (Veerle Baetens) no hospital de Gent. A história se passa em junho de 2006. Pouco depois, enquanto uma enfermeira cuida de Maybelle, os pais dela encontram o médico. Corta. Didier está visivelmente emocionado quando Elise pede para a filha ficar um pouco sozinha no quarto do hospital, assistindo TV. Elise pede para que ele seja positivo enquanto estiver no hospital, deixando para chorar em casa. A partir daí, acompanhamos a história desta família.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Broken Circle Breakdown): Não é por acaso que eu coloco alguns avisos aqui no blog. De fato, acho que quanto mais uma pessoa sabe de um filme antes de assisti-lo, pior para a experiência do cinema. Afinal, mergulhar em uma história sem saber nada dela, seja em formato de filme, livro ou qualquer outra plataforma criativa e da arte, melhor porque assim está preservado o elemento surpresa.

O meu processo de escolher filmes para assistir e ir atrás deles passa por este respeito ao fator “uau”. Claro que algumas vezes é inevitável saber que determinado filme virou “febre” ou, nesta temporada pré-Oscar, que ele está muito cotado para ser premiado. Levo isso em conta, mas tento esquecer destas informações para me entregar ao trabalho dos realizadores com o mínimo de “contaminação” possível. Tudo isso para dizer que você deve, realmente, ler a respeito deste filme só depois de ter conferido o que ele tem a dizer.

O fator música é sempre fundamental, para mim. Mas é difícil um filme conseguir tratar a trilha sonora como um narrador ou um protagonista da história. Afinal, ainda que o cinema una imagem e som, o texto dos roteiros costuma ter uma relevância maior do que a trilha sonora. Este não é o caso de The Broken Circle Breakdown.

O filme, dirigido por Felix Van Groeningen, com um roteiro escrito por ele e Carl Joos adaptando a peça The Broken Circle Breakdown Featuring the Cover-Ups of Alabama escrita por Johan Heldenbergh e Mieke Dobbels, parece ter preservado a essência musical do original, mas ampliando na narrativa. Busquei informações sobre o original feito para o teatro, e encontrei a página deles no Facebook e este “trailer” da peça no Youtube. Pelo que tudo indica, a versão para o teatro era um musical com alguma dramatização sobre amor e perda no meio.

Agora, é bem diferente fazer um filme. E aí está a magia de The Broken Circle Breakdown. Logo mergulhamos no drama familiar e na dor vivida com muita coragem por Maybelle e compartilhada com os pais dela. Os adultos tentam ser fortes, enquanto não conseguem encontrar respostas para muitas dúvidas. E tudo vai piorar quando Maybelle não resiste e acaba vencida pelo câncer.

A dor de qualquer perda é brutal, mas a de um filho… não consigo nem imaginar, ainda que tenhamos sempre que fazer o exercício de nos colocarmos no lugar de quem passa por uma situação assim. O vazio é devastador, como bem revela esta história. E este é outro elemento que me fez gostar tanto do filme: ele não força a barra no ritmo. Não.

The Broken Circle Breakdown mostra o silêncio que surge após a perda de Maybelle, a dificuldade de diálogo entre Elise e Didier e a tristeza profunda dos dois – ainda que este sentimento seja revelado de forma diferente por cada um – sem pressa, compartilhando o tempo exato de cada um destes elementos com o espectador.

Desta forma, e com uma ajuda importantíssima da música – que fazia parte da vida dos protagonistas -, o espectador mergulha na história do filme. Sente tristeza, angústia, tensão. Como sou uma otimista, a maior parte do tempo, fiquei torcendo para que uma reviravolta positiva acontecesse… ainda que o sentimento era de que algo terrível poderia ocorrer a qualquer momento. Mas, de fato, algo poderia ser pior do que a perda de um filho?

Achei muito interessante a escolha dos roteiristas pela narrativa quebrada, não-linear. Acho que o filme ganha em interesse com isso. E diferente de outras produções, que podem escolher esta dinâmica por puro “capricho”, aqui eu vejo uma lógica nesta preferência. Quando Elise está abraçada com Didier no quarto do hospital olhando para a filha, pouco antes deles começarem o tratamento contra o câncer, parece lógico voltarmos no tempo sete anos, quando a história da menina começa a ser desenhada com a primeira noite em que o casal passa junto na casa dele. Parece que Elise, que não consegue dormir naquela cama de hospital, está relembrando a origem daquele amor eterno pela filha.

E isso acontece em muitos momentos do filme. Retrocedemos no tempo, para entender um pouco melhor como Elise e Didier chegaram naquele ponto, e retomamos para os fatos do presente. Não é apenas uma, mas muitas ocasiões em que parece que a quebra temporal acontece por uma “revisita sentimental” ao passado. O interessante é que essa lógica funciona, até porque o amor e os problemas que percebemos no presente dos personagens deste filme parecem ter uma sequência cíclica e originada no tempo anterior, como se eles estivessem em um “loop infinito”.

Depois que Elise sofre com a dor suprema da perda da filha, parece que ela começa a se estressar com o jeito de Didier em ver tudo com extrema lógica e frequentes discursos. O que não deixa de ser curioso, porque esta é uma característica dele desde o princípio. E aí entramos em uma seara da qual gostamos de falar pouco: de como, quando estamos encantados com alguém, ou apaixonados por uma pessoa, ignoramos os seus defeitos para observar apenas as suas qualidades. E isso é horrível porque os defeitos acabam cobrando um preço alto no futuro. Isso acontece com Elise e Didier.

Ela, em especial, começa a notar tudo o que eles não tinham de sintonia quando a perda da filha cobra deles mais união. Como acontece com muitos casais na vida real, Elise e Didier não se aproximam após a morte de Maybelle. O protagonista parece incapaz de sair da posição do “homem racional” que sabe lidar com tudo que aparecer pela frente. Enquanto isso, Elise fica sozinha lidando com a própria dor, e se abate – e quem não se abateria? Os dois vivem na mesma casa, mas estão sozinhos. Não conseguem dialogar. Até que Elise resolve dar um basta naquela relação.

Existiam diversas alternativas para lidar com uma perda devastadora como aquela. Mas The Broken Circle Breakdown não se esforça em fazer concessões. Felix Van Groeningen quer nos mostrar como muitas vezes não basta amar, ou ter fé, é preciso ter vontade de continuar e de fazer dar certo. E quando se percebe que não é possível dar certo – e o casal Elise e Didier, por mais simpático e afinado que seja na cantoria, parece fadado desde o início a dar errado -, é possível recomeçar.

Mas para ser coerente com a música que é a alma deste filme – o bluegrass, que só fui identificar quando o próprio Didier explica do que se trata -, The Broken Circle Breakdown não poderia ser uma ode ao otimismo. Certo que há músicas animadas no repertório, como este filme mesmo demonstra. Mas quando os personagens começam a descer a ladeira na direção de um fim triste e/ou trágico, a trilha sonora acompanha este movimento e parece que, finalmente, o bluegrass encontra a própria essência.

O filme tem diálogos e cenas de dinâmica entre os atores de arrepiar – aliás, Veerle Baetens e Johan Heldenbergh estão simplesmente fantásticos. Mas é a música que faz grande parte do trabalho e provoca verdadeiros arrepios. Achei fascinante, maravilhosamente belo. E triste, é claro. Da minha parte, sempre gostei de músicas que buscam o fundamental, que tentam ser coerentes com as próprias raízes. E o bluegrass parece ter esta característica. Assim como este filme.

Fora a emoção, The Broken Circle Breakdown ajuda a debater a velha questão entre a fé e a racionalidade. Tema importante nos dias que correm, especialmente nos Estados Unidos – e em outras latitudes também. Não é por acaso que Didier faz um discurso criticando o criacionismo. Não se trata apenas da visão individual do personagem. De fato, nos EUA, esta corrente tem rendido muitos debates e alguma disputa judicial sobre o que deve ser ensinado para as crianças.

Consigo entender os dois pontos de vista representados pelos protagonistas deste filme. Compreendo a indignação de Didier quando ele vê que as pesquisas envolvendo células-tronco poderiam estar mais avançadas. O que, em teoria, poderia ter ajudado a filha dele a superar a doença e viver. Eu também me indignaria no lugar dele.

Mas é preciso agir além da indignação – até porque não se muda o que já aconteceu. E compreendo a busca de Elise por um sentido maior do que a morte. Ela quer ter esperança de que a filha dela simplesmente não “sumiu”, mas que o amor perdura e permanece. Como em uma tatuagem, por mais que você a modifique.

O tema da (parece) eterna disputa entre religião/fé e ciência/lógica está presente neste filme. Mas não vejo ele como um ponto central. Para mim, foi muito mais intensa a dificuldade de Didier em aceitar que alguém pudesse pensar diferente dele do que a própria celeuma entre religião e ciência.

No caso desta história, a incapacidade do protagonista em lidar com a esperança/fé da filha e da mulher foi muito mais determinante. No caso de Maybelle, ele relevou os embates porque se tratava de uma criança e porque ela estava doente – ainda que isso não tenha impedido dele contar a história da morte das estrelas para ela no hospital na reta final. Mas em se tratando de Elise, Didier não conseguia se conter para ridicularizar as “crenças sem fundamento lógico” que ela tinha – e que poderiam ser classificadas como fé.

Achei potente a história justamente porque a falta de compreensão entre as pessoas é o que torna a vida tão complicada e difícil, muitas vezes. Acho que se mais gente se esforçasse em não querer “converter” os demais, seja no caminho da racionalidade ou no da fé, teríamos boas chances de avançar na aceitação dos demais. Falta generosidade e empatia no mundo, o que torna ele muito mais duro do que deveria. E muito mais triste, como bem ensina The Broken Circle Breakdown.

Para finalizar, me pareceu brilhante o desfecho deste filme. Elise resolve mudar o nome para Alabama, porque ela acredita que assim poderá recomeçar a vida. Sendo outra pessoa. Didier não entende a mensagem que a esposa quer passar, evidentemente. Nem todo artista, virtualmente sensível por definição, parece ser capaz de compreender a mensagem quando ela não é escrita com todas as letras. Por isso mesmo achei interessante a escolha do título de Alabama Monroe para o filme no mercado brasileiro. Faz sentido. Ainda que o título original também seja muito bom.

A história de amor entre Elise/Alabama e Didier/Monroe é linda e, por isso mesmo, quando tudo desmorona e eles não conseguem permanecer em pé juntos, a história se revela ainda mais cruel. Ela busca saídas dentro de casa – mudando o quarto da filha, por exemplo. Mas percebe que isso não apaga as memórias.

Busca, então, outros sentidos para a perda, mas não encontra apoio no marido. Que ele, por sua conta, sofre também, mas expressa a amargura de outra forma. Não demora muito para Elise perceber que a relação deles acabou, enquanto Didier insiste – afinal, a experiência dele com a filha foi diferente. No final do filme, mesmo que triste, fica uma mensagem de esperança, de que o amor permanece além da dor e do desespero. Um alento, junto com a música de despedida.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei encantada com a interpretação do casal de protagonistas. A belga Veerle Baetens, de 35 anos, além de linda, parece mergulhar na pele daquela mãe toda estilosa, cheia de tatuagens, ex-namorados e que vai descobrindo ter talento para a música também. Mesmo jovem, Veerle tem no currículo 29 trabalhos como atriz, incluindo oito séries para a TV. O belga Johan Heldenbergh tem 46 anos e uma carreira com 31 trabalhos como ator e um como diretor e roteirista: Schellebelle 1919, um drama lançado em 2011.

Tenho um fraco pelo cinema que é feito no norte da Europa. Gosto do que Dinamarca, Bélgica, Holanda, Noruega, Suécia, entre outros produzem. Infelizmente não consigo encontrar tantos filmes daquelas latitudes quanto eu gostaria. Mas tenho a tendência de gostar dos destaques que são exportados por aqueles países. Acho que eles fazem um cinema diferenciado, normalmente inventivo e com um certo “tom cru” que eu acho importante ser visto.

Quando o Oscar se aproxima, como agora, quando faltam uns poucos meses para sair a lista de indicados, costumo buscar os filmes indicados pelos países europeus, em geral, e especificamente estes da região norte. Normalmente vale o esforço.

Falei dos protagonistas de The Broken Circle Breakdown, mas é preciso citar também que a Nell Cattrysse se sai muito bem nesta que é a estreia da menina no cinema. A memória da menina está muito mais presente do que a interpretação propriamente dita de Nell. Ainda assim, sempre que a menina aparece em cena, normalmente em momentos de sofrimento, vejo que ela dá muita legitimidade para o papel. Realmente acreditamos que ela é uma garota que está passando por aquele momento difícil e pesado.

Este é um filme que tem estilo e identidade própria. Não parece um enlatado ou uma produção destas que poderia ser feita por qualquer realizador. Felix Van Groeningen escolhe cada tomada com precisão. O espectador não vê cenas sobrando, mas encontra, inclusive, sequências de pura liberdade poética. Há vários espaços para o silêncio e, claro, para a música. Um belo trabalho deste belga de 36 anos natural de Gent – onde se passa a história do filme – que fez quatro longas e um curta antes de The Broken Circle Breakdown. Em todos eles o diretor foi responsável também pelo roteiro. Vale anotar este nome e acompanhá-lo.

Da parte técnica do filme, excepcional a trilha sonora de Bjorn Eriksson. Como eu disse antes, as músicas deste filme são tão importantes quanto o roteiro. Depois, lindo o resultado da direção de fotografia de Ruben Impens e bastante precisa a edição de Nico Leunen. Uma equipe que funciona bem, sem dúvida. Gostei ainda da direção de arte de Kurt Rigolle, responsável pelo visual cheio de significado dos lugares que aparecem nesta produção, e dos figurinos de Ann Lauwerys.

Merece uma menção especial o trabalho da artista responsável pelas tatuagens que aparecem no filme, Marie Brabant. Muito interessante, e que também joga um papel importante na história – ajudando ela a ter estilo.

The Broken Circle Breakdown (em uma tradução livre algo como “O colapso do círculo quebrado”) estreou na Bélgica, país de origem do filme, em outubro de 2012. Depois, a produção passaria pelo Festival de Berlim e seria selecionada para outros 16 festivais – fechando a temporada no próximo dia 23 no Festival de Cinema Europeu de Osaka.

Nesta trajetória, o filme de Van Groeningen ganhou sete prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os que recebeu, destaque para dois no Festival de Berlim: o Label Europa Cinemas para Felix Van Groeningen e o prêmio da audiência na mostra Panorama. Vale citar parte da justificativa do júri que conferiu o primeiro prêmio para o diretor: “Felix Van Groeningen é um cineasta de verdade. Esta é uma maneira bonita e original de olhar para a relação de uma mãe e um pai com a filha doente terminal. Gostamos, especialmente, da direção de fotografia, da estrutura não-linear da história e do fato que ele evita a fácil manipulação emocional ao lidar com um assunto difícil. A música da banda de bluegrass dos pais não é apenas a trilha sonora, mas uma fonte de energia e de esperança para todos. A mensagem clara é que devemos investir em pesquisa científica e não permitir que a religião ou a política interfiram nisso”. Baita comentário. Melhor que todo o resto que eu escrevi. :)

Vale citar que o filme recebeu, ainda, os prêmios de Melhor Atriz para Veerle Baetens e Melhor Roteiro no Festival de Cinema de Tribeca. Merecidíssimo.

Fui pesquisar um pouco mais sobre o bluegrass e encontrei este link que traz uma crítica do CD Plum Pitiful: 20 Sad and Tragic Bluegrass Songs, que compila o trabalho de vários artistas. No texto do site AllMusic explicam que o disco tem uma “agenda aparentemente interminável de esperanças frustradas, corações partidos, assassinatos cruéis, acidentes de trem e mortes de soldados” em uma “ladainha de miséria” trazida pelo bluegrass quando ele surgiu no final dos anos 1940 e início dos anos 1950. Uma “tristeza constante”, como afirma o texto. Achei interessante citar estas informações porque elas parecem um complemento bacana para explicar o estilo e a “alma” de The Broken Circle Breakdown.

Falando outra vez da trilha sonora desta produção, vale citar o excelente trabalho dos outros nomes que fazem parte da banda de Didier e que cantam muito: Geert Van Rampelberg interpreta a William (violão), Nils De Caster faz as vezes de Jock (violino), Robbie Cleiren faz Jimmy (guitarra acústica) e Bert Huysentruyt é Jef (baixo acústico). Outro ator coadjuvante na história é Jan Bijvoet, que interpreta a Koen, amigo do grupo que se anima com cada apresentação e ajuda a movimentar a platéia normalmente fria.

Não há informações sobre o custo de produção de The Broken Circle Breakdown. Mas segundo o site Box Office Mojo, a produção arrecadou cerca de US$ 7,1 mil nos Estados Unidos – o que comprova que o filme não teve repercussão alguma por lá ainda – e de pouco mais de US$ 1,7 milhão nas bilheterias no restantes dos mercados em que já estreou. Desempenho muito baixo. Uma pena. Espero que este filme ganhe um pouco mais de repercussão no boca-a-boca.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para The Broken Circle Breakdown. Uma boa avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 23 textos positivos e seis negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 79% e uma nota média de 7,4. Sem dúvida alguma eu me empolguei muito mais do que eles. :)

O tema do criacionismo versus o evolucionismo nos Estados Unidos rende bastante pano para manga. Esta notícia de abril de 2012 da revista Exame comentava a aprovação de uma lei no estado do Tennessee, no sul dos EUA, que permite que os professores de escolas públicas questionem o consenso científico em temas como aquecimento global e teoria da evolução. Na boa, não vejo o porquê da religião negar a ciência e vice-versa. Uma pode muito bem coexistir ao lado da outra, basta não levar o que se lê ao pé da letra e buscar conhecer os contextos que formam as religiões e as ciências. Dá trabalho, é verdade. É mais fácil ser um extremista que sabe pouco sobre o que segue e repete dogmas. Mas vale a pena ter um pouco mais de trabalho.

The Broken Circle Breakdown é uma coprodução da Bélgica com a Holanda.

Tenho percebido um movimento interessante por parte de muitos filmes “independentes” ou com orçamento menor que aqueles blockbusters de Hollywood: ao invés de gastar com sites próprios na internet, eles tem apostado em páginas no Facebook. Uma forma fácil e barata de criar um espaço para atualizar informações sobre a divulgação e repercutir estes filmes.

thebrokencircle3Vale comentar que os cartazes deste filme que encontrei por aí são ótimos. Muito estilosos. Fiquei tão em dúvida sobre qual cartaz escolher para abrir este post que resolvi colocar a segunda opção aqui ao lado, mas menor. Lindos, não? E que a formidável atriz Veerle Baetens não faz parte da peça que deu origem a este filme – diferente de Johan Heldenbergh, que é o autor do original e também o ator principal. O que apenas reforça ainda mais a potência do trabalho de Veerle neste filme.

CONCLUSÃO: Eu sou louca por música. Tocada em todo o tipo de ocasião. Concordo com Nietzsche quando ele diz que “sem música a vida não faria sentido”. Por isso mesmo, um filme que trate com tanto respeito a música, tornando a trilha sonora uma das protagonistas, sempre vai mexer comigo. Ainda mais quando ele tem uma história tão incrível que é contada de forma diferenciada como esta de The Broken Circle Breakdown. Gosto quando os realizadores tentam fazer algo diferente e buscam uma narrativa não-linear. Alguma vezes funciona, como nesta produção, outra vezes não.

Gostei tanto de The Broken Circle Breakdown porque ele coloca a música em primeiro plano, é verdade, mas também porque ele trata de assuntos sempre complicados de forma muito honesta e direta. O amor e a morte são temas centrais. Cada um lida com estes assuntos fundamentais da sua forma. Por isso mesmo, não acho ruim este filme não ser “otimista”. É preciso compreender as atitudes múltiplas que existem por aí, e as razões e histórias pessoais dos outros. The Broken Circle Breakdown nos fala um pouco de tudo isso e de uma forma muito potente. Achei perfeito porque mexeu muito comigo, me deixou tensa e emocionada. E o bom cinema é isso.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: The Broken Circle Breakdown está representando a Bélgica entre os 76 indicados este ano para uma vaga na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no próximo Oscar. É uma tarefa complicada para qualquer filme deixar outros 71 para trás – lembrando que a categoria para a qual ele está concorrendo costuma ter cinco finalistas. E esta produção dirigida por Felix Van Groeningen não tem aparecido na lista pré-Oscar feita por especialistas.

Pessoalmente, acho uma pena. Eu iria adorar ver The Broken Circle Breakdown ao lado de Jagten (comentado aqui no blog) e Le Passé (com crítica por aqui) na reta final para a premiação. Acho que eles seriam concorrentes muito fortes entre si, ainda que existam algumas preferências de quem vota pela Academia. Sendo assim, acho sim que este filme merece uma vaga no Oscar, ainda que eu acredite na superioridade de Jagten. Uma pura questão de gosto pessoal, claro. Só que tudo indica que ele não chegará lá. Uma pena.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. The Broken Circle Breakdown é uma das produções que segue tentando uma indicação. Os outros que fazem parte da lista são os seguintes: An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina).

Le Passé – The Past – O Passado

2 de novembro de 2013 5 comentários

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O espaço que o passado ocupa nas nossas vidas depende de uma decisão. O quanto nos faz bem ou nos interessa viver amando algo ou alguém que não existe mais? Le Passé, um dos fortes concorrentes ao próximo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira trata deste assunto. Com a revisita ao passado de alguns personagens, encontramos diversos sentimentos. Todos eles muito presentes no cotidiano destas pessoas, que tem dificuldade em romper com histórias desfeitas. Um filme forte pela forma da narrativa e que faz pensar por muito mais tempo do que a duração da trama.

A HISTÓRIA: Barulho de aeroporto. Marie Brisson (Bérénice Bejo) parece estar procurando alguém. Ela se anima quando vê Ahmad (Ali Mosaffa), e tenta chamá-lo estando fora da área de desembarque. Antes que ele a veja, ela tira a proteção que tinha no braço. Ahmad pergunta sobre o procedimento que deve adotar já que a mala dele não chegou. Ele sorri quando vê Marie, e pergunta sobre Lucie (Pauline Burlet).

Está chovendo fora do aeroporto, e Marie diz que eles devem ir para casa após pegar Lucie. Ele não gosta de saber que Marie não contou para as filhas que ele chegaria e nem reservou um hotel, como ele havia pedido. Mas ela justifica que não fez isso porque tinha dúvidas se ele viria. Depois de não encontrarem Lucie no colégio, Marie e Ahmad vão para a casa dela, onde ele encontra a Fouad (Elyes Aguis), filho do novo namorado de Marie. Este é apenas o início do mergulho de Ahmad no cotidiano da mulher de quem ele vai se separar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Le Passé): Muito interessante a o estilo do roteiro do diretor Asghar Farhadi escrito com a ajuda de Massoumeh Lahidji. Somos apresentados a um turbilhão de fatos sem entender, realmente, o que move aqueles personagens. Mas algo que podemos perceber, desde o início, é que existe uma forte ligação entre os protagonistas, Marie e Ahmad.

A reação dela, ao ver Ahmad no aeroporto, é emblemática. Mas depois, como quando deixamos a emoção por um segundo para que a razão tome conta, ela muda de expressão no carro e o passado mal resolvido começa a falar mais alto. Não sabemos o que aconteceu entre os dois, mas é evidente que nada terminou esclarecido entre eles. Depois, quando ele chega na mesma casa em que eles viveram juntos por vários anos, percebe-se o peso no ar.

Aos poucos vamos entendendo a motivação da visita, e todo o contexto que cerca os personagens principais. Há um conflito visível entre os adultos e as crianças – e a jovem Lucie. Ninguém parece estar feliz. E como se o espectador fosse uma visita invisível que chegou no mesmo voo de Ahmad, vamos descobrindo aos poucos as razões de tanto mal estar.

Este é um filme que trata justamente sobre isto: o peso do mal estar constante na vida das pessoas e das sociedades das quais elas fazem parte. O foco principal está em primeiro plano na tela: o quanto o passado pode comprometer o nosso presente. Mas há outros pontos que estão em segundo e terceiro planos, como o desmantelamento das famílias – especialmente dos casamentos – e a dificuldade nas relações entre diferentes origens étnicas em um país que atrai pessoas de diversas partes do mundo.

Quem nunca sofreu com um grande amor que atire a primeira pedra. Algumas vezes, de fato, é difícil deixar o passado para trás. Tentamos, nos esforçamos, mas parece que algumas ligações são indissolúveis. O quanto vamos deixar o passado ditar as regras do nosso presente é uma questão de escolha. Sim, porque por mais que algumas ligações perdurem e certas memórias insistam em aparecer, começar uma nova história depende, essencialmente, de força de vontade. De uma decisão.

Le Passé trata disto. De como Marie e Samir (Tahar Rahim) se esforçam para recomeçar. Mas a aparente convicção que eles tinham é fragilizada com a chegada de Ahmad. A vinda dele, após uma ausência de quatro anos, justamente é para que o recomeço de Marie possa ser oficializado. Ahmad viaja para assinar os papéis do divórcio. Mas o reencontro mexe com todos. Fica claro que as filhas de Marie gostam de Ahmad, e que ele também não conseguiu que a ligação deles acabasse.

Por essas e por outras que eu sou favorável ao distanciamento completo entre as pessoas quando um relacionamento amoroso termina. Não vejo muito como uma relação pode continuar quando tanto foi vivido, mas quase nada daquilo segue adiante. Como ficar próximo de alguém que se amou tanto e que agora a relação está colocada totalmente em outras bases? Para mim, isso sempre será um mistério. E neste Le Passé fica claro que reativar certas lembranças ou mesmo se aproximar de pessoas com quem se teve um passado não é nada bom para o presente e/ou o futuro que se quer criar diferente.

Como um filme de qualidade pede, vamos mergulhando na história e nos sentimentos dos personagens principais aos poucos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ao lado de Ahmad, vamos descobrindo o porquê de tanto mal estar entre Lucie e a mãe e as razões do comportamento “revoltado” de Fouad. Primeiro, sabemos que Marie terá dificuldades de se casar com Samir porque a mulher dele está em coma no hospital. Na sequência, surge a razão do coma dela e, o mais chocante, o motivo que fazia Lucie resistir tanto à ideia do casamento de Marie e Samir.

Um tema presente do início ao fim desta produção é a dificuldade das pessoas em terem diálogos verdadeiros. De falarem o que estão sentindo e enfrentarem as próprias mágoas, ressentimentos e acessar de peito aberto aquelas gavetas internas cheias de peso e que vivem no breu. Especialmente as crianças neste filme, o que é especialmente interessante, tem dificuldade de expressarem o que estão sentindo. Digo que é especialmente interessante porque, normalmente, pensamos que as crianças e os jovens são mais diretos, francos, sem tantos filtros quanto os adultos.

Mas acredito que isto mude de figura quando crianças e jovens vivem em ambientes repressores. Não sou nenhuma especialista no assunto, mas Le Passé indica esta leitura. Lucie manifesta toda a desaprovação que tem com o novo relacionamento da mãe ao não voltar para casa, ao tentar ficar o máximo de tempo longe daquela realidade com a qual não concorda. Fouad, ainda criança, igualmente não gosta daquele ambiente. Pede para voltar para a casa onde vivia com Samir e a mãe. Ainda que o local traga tantas lembranças ruins. Mas nem Lucie e nem Fouad conseguem, inicialmente, verbalizar o que estão sentindo.

Para mim, ficou claro que Marie, em primeiro lugar, e depois o próprio Samir, não davam o espaço necessário para que as crianças se manifestassem – e daí incluo também Léa (Jeanne Jestin) que, apesar de não mostrar a revolta dos demais, claramente sente falta de Ahmad e parece se sentir um pouco perdida no novo cenário familiar. Marie parece, pelo menos no tempo em que a história transcorre, ser pouco afetuosa com os filhos.

A protagonista, vivida pela maravilhosa Bérénice Bejo, que tem uma interpretação impecável nesta produção, não sabe lidar bem com a situação e fica claramente dividida entre os dois homens – Ahmad e Samir. Eles chegam a disputar quem pode mais em duas situações distintas, pelo menos – nos reparos da casa, como o da pia, e na “orientação” de Fouad. Ahmad sente-se estranho naquele ambiente, mas é bom demais para sair correndo e fazer de conta que não tem responsabilidade com aquela família. Samir, por sua parte, não tem mais tanta certeza se deve seguir com Marie.

Ao mesmo tempo em que as tensões vão se explicando para o espectador, vamos acompanhando o presente e o passado dos personagens intercalando os seus protagonismos. Afinal, será que Marie e Samir vão conseguir caminhar para a frente? Quanto do que aconteceu com a mulher dele, em coma, e quanto da história do término da relação dela com Ahmad, nunca explicada, vai continuar ocupando as mentes e corações dos personagens?

O filme termina sem uma resposta. Até porque as pessoas, muitas vezes, não conseguem responder estas questões. A culpa pode ser devastadora, como comprovam as histórias de Lucie, Naïma (Sabrina Ouazani) e Samir. E a indecisão sobre que caminho trilhar para recomeçar a própria vida desgasta demais, como demonstra Marie.

Ter um filho  para forçar a barra em uma relação que nasce capenga é uma técnica antiga e que normalmente surte efeitos devastadores. Preferir esta via do que tentar um recomeço com quem se quer, ou ao menos buscando entender o passado, me parece uma lástima. Mas, algumas vezes, não restam muitas alternativas. Infelizmente as pessoas são mais complicadas do que deveriam e nem sempre procuram o caminho da honestidade e da franqueza. Esconder os próprios sentimentos e ser desonesto com quem se gosta é como alimentar um tumor. E que pode não ter cura.

Além de mergulhar nestes sentimentos e na vida de pessoas que tem dificuldades de seguir adiante, Le Passé trata dos conflitos entre pessoas de origens diferentes em uma sociedade em que é perigoso ser imigrante ilegal. Samir e Ahmad orbitam ao redor de uma comunidade árabe, mas não sabemos exatamente o quanto desta origem é importante para eles. Tudo fica subentendido.

Parece, por exemplo, que Ahmad ficou deprimido e resolveu sair da casa de Marie quatro anos antes desta história começar porque ele não se encaixava na França onde o filme se passa. Sabemos que ele está vindo de viagem e, pela conversa que ele tem com as crianças e com o amigo Sharyar (Babak Karimi), o roteiro dá a entender que ele voltou para o Irã. Samir tem origem árabe, mas não sabemos até que ponto ela pode ser importante para ele. Naïma é uma imigrante ilegal que consegue emprego com Samir, mas ela não fala francês direito e se sente sempre ameaçada pelo risco da deportação.

Esta vulnerabilidade acaba sendo importante para os personagens que parece estarem sempre em busca de um “encaixe melhor” na realidade em que estão vivendo. Alguns conseguem este feito com maior facilidade, mas outros não – a ponto de terem que sair daquele entorno. Um filme interessante, bem construído e com interpretações fortes. Merece chegar até o Oscar – mesmo que ele não sair vencedor.

NOTA: 9,7 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este filme consegue a proeza de reunir dois atores que me impressionaram muito, na primeira vez que os vi, e que por isso mesmo me “ganharam”: Bérénice Bejo, a atriz fenomenal que ajuda a dar alma para o premiado The Artist (com crítica aqui no blog); e Tahar Rahim, que arrasa no ótimo Un Prophète (comentado aqui). Quando vi que os dois estariam nesta produção, já despertei na minha memória sentimental uma expectativa considerável. Bejo de fato faz um grande trabalho neste filme, mas senti que Rahim poderia ter feito mais. Achei o ator um pouco apagado nesta produção – ele perde muito espaço na comparação com o excelente Ali Mosaffa. Não que Rahim esteja mal, mas acho que lhe faltou um pouco mais de intensidade. Ainda assim, o trio de protagonistas faz toda a diferença no filme.

Não consegui dar a nota máxima para Le Passé porque, apesar de humano, demasiado humano, o filme não me despertou a empatia ou provocou o impacto que outras produções recentes conseguiram. Na comparação com o filme anterior do diretor, por exemplo, achei Le Passé inferior. Mas nada grave. Ele perde pontos, inclusive, porque estou sempre comparando estes filmes que estão na pré-lista para o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira entre si. Ou seja, como falarei melhor logo abaixo, Le Passé obrigatoriamente tem que ter uma nota menor que Jagten.

Aliás, como aconteceu em outros anos em que tentei assistir e comentar ao máximo de filmes cotados para o Oscar, desta vez também pode acontecer de algumas produções terem as suas notas modificadas conforme a lista for avançando. Isso porque, por coerência, tem que receber uma nota maior o filme que eu achei melhor, na comparação uns com os outros. E só vou saber isso conforme a “fila andar”. :)

Dois momentos desta produção ficaram “martelando” na minha cabeça por muito tempo. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Primeiro, aquela alegria incontida de Marie ao recepcionar Ahmad no aeroporto. Ficou evidente que ali existia muito amor ainda. Na verdade, no início do filme, cheguei a pensar que eles eram um casal – e que ele estava retornando após uma temporada fora de casa à trabalho, por exemplo. Ledo engano. Outra cena que eu acho marcante é quando Marie diz que não quer mais falar do passado, quando Ahmad tenta explicar o porquê a deixou quatro anos antes. É como se o diretor Asghar Farhadi estivesse sempre nos dizendo que as nossas expectativas devem ser frustradas. Afinal, a história – e a vida mesmo, muitas vezes – tem outra dinâmica que não a de acontecimentos perfeitos. Interessante.

O principal atrativo de Le Passé é o roteiro de Farhadi e Lahidji, junto com as interpretações dos atores. Afinal, este é um filme de diálogos, que conta uma história, muito mais do que uma produção de apuro técnico. Ainda assim, vale comentar a competente direção de fotografia de Mahmoud Kalari, a edição de Juliette Welfling e o design de produção de Claude Lenoir.

Le Passé estrou no circuito de cinemas francês e no Festival de Cannes no dia 13 de maio deste ano. Foi a estreia da produção nos cinemas. Depois, ela passaria ainda por outros 14 festivais. Nesta trajetória, o filme recebeu quatro prêmios e foi indicado a outros dois. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Atriz e o Prêmio do Júri Ecumênico do Festival de Cannes. Os outros dois que ganhou foram o de Melhor Roteiro no Festival Internacional de Cinema de Durban e o Prêmio da Audiência no Oslo Films from the South Festival.

O filme é o indicado do Irã na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira do Oscar 2014. Agora, acho essa indicação interessante. Ok que o diretor Asghar Farhadi nasceu no Irã em 1972 e tem a sua filmografia naquela país. Mas pelo que informa o site IMDb, Le Passé é uma coprodução da França e da Itália. Sempre achei esse tema da origem dos filmes na indicação ao Oscar curiosa.

Afinal, segundo consta na história da premiação, Orfeu Negro, uma produção do Brasil com a França e a Itália, ganhadora do Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 1960 e com a “alma brasileira”, consta como sendo uma vitória da França – o diretor Marcel Camus era francês. Acho tudo isso muito estranho. Afinal, o que importa é a origem do filme ou do diretor? No caso de Orfeu Negro, para mim parece incrível o filme não ser considerado brasileiro. Enfim, destes mistérios do Oscar que fica difícil de entender.

Falando em local em que o filme é feito, Le Passé não tem apenas nome francês e é falado naquele idioma, mas também foi totalmente rodado em Paris e em Sevran (um subúrbio próximo da capital francesa e que faz parte de Seine-Saint-Denis). Para mim, não é por acaso que Le Passé foi rodado na França. Afinal, aquele país sofreu e continua sofrendo com políticas que não favorecem a imigração.

Agora, uma curiosidade sobre Le Passé. Inicialmente, a atriz Marion Cotillard havia sido escalada para interpretar a protagonista deste filme. Mas ela acabou pulando fora do projeto por uma questão de conflito de agendas. Quando as filmagens de Le Passé começaram, em setembro de 2012, o filme De Rouille et d’Os, que tem uma interpretação incrível de Cotillard, tinha sido selecionado para participar de vários festivais e a atriz teve que viajar para promover a produção – comentada aqui no blog.

De acordo com o site Box Office Mojo, Le Passé teria faturado pouco mais de US$ 6,7 milhões nos mercados em que estreou até o momento. Achei pouco, ainda que me parece que este dado não seja muito atualizado. De acordo com o site IMDb, o filme passou em cinco festivais nos Estados Unidos, mas ainda não estrou no circuito comercial. A previsão é que ele entre em cartaz em poucos cinemas a partir do dia 20 de dezembro. No calendário do site não aparece, ainda, a previsão de estreia no Brasil.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para Le Passé. Uma ótima avaliação, levando em conta o padrão do site. Poucos críticos que linkam os seus textos no Rotten Tomatoes viram o filme até agora. Mas há quase uma unanimidade entre as avaliações: 17 textos são positivos para o filme e apenas um é negativo – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média 8. Excelente nota também, levando em conta que é difícil um filme conseguir 8 ou mais por ali.

CONCLUSÃO: Eis um filme de grandes atores. Através do trabalho deles, nos envolvemos com a história de uma mulher que resolve colocar fim a um relacionamento antigo para se jogar em um novo casamento. Mas como na vida mesma, esta história não pode ser assim, tão simples. Le Passé vai se descortinando aos poucos, sem pressa, em um evidente contraste entre a percepção das crianças e da jovem que faz parte desta trama e dos adultos que tomam as decisões. Ninguém parece estar muito satisfeito com o que está acontecendo. E isso ocorre porque ninguém está feliz com o presente, tão contaminado com um passado aparentemente insolúvel.

Este é um filme que incomoda porque ele explora a nossa incapacidade de resolver os nossos próprios problemas. Trata da dificuldade de esquecermos grandes amores, na mesma medida em que a comunicação entre as pessoas parece ser um intricado quebra-cabeças. De quebra, Le Passé trata das dificuldades no entendimento dos valores e prioridades de diferentes culturas em um mesmo país. Um filme sobre o incômodo contemporâneo da falta de acerto. Bem escrito e com ótimas interpretações, se destaca por sua humanidade e pela capacidade de ser entendido em qualquer parte.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Ainda tenho que assistir a uma lista grande de filmes que estão tentando uma vaga no próximo Oscar mas posso dizer, desde já, que realmente Le Passé tem grandes chances de chegar até os cinco finalistas. Primeiro, porque este é um filme universal. Ou seja, os sentimentos, temas e valores tratados na produção podem ser compreendidas por espectadores de qualquer latitude. Ainda que nem todos tenham vivenciado ou presenciado situações de conflitos entre pessoas de diferentes origens, as dificuldades de comunicação e para recomeçar são compreensíveis em qualquer parte.

Depois porque o filme tem ótimas interpretações, toca em temas importantes, cresce com o passar do tempo e vem de um país que não é tradicional na premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood – o primeiro Oscar que o Irã recebeu na história da premiação foi dado em 2012 para o filme anterior de Farhadi, Jodaeiye Nader az Simin, comentado aqui no blog. Além disso, claro, Le Passé firma a ótima fase do diretor, que tem nada menos que 58 prêmios no currículo.

Difícil bater o martelo já sobre o próximo premiado nesta disputada categoria do Oscar 2014. Acho que Le Passé tem vários pontos que fazem ele ter grandes chances de sair vencedor mas, ao mesmo tempo, Farhadi ter sido premiado há pouco tempo pode ser um limitador para o filme. Além disso, Jagten (que tem um texto aqui no blog) me parece um filme mais forte, e com tema igualmente universal. Pessoalmente, entre os três filmes que estão concorrendo nesta categoria que eu assisti até agora – incluindo o brasileiro O Som ao Redor, comentado aqui -, meu voto iria para Jagten. Acho que o filme de Thomas Vinterberg consegue um impacto maior no espectador e também se diferencia mais que os demais.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Le Passé ficou de fora da lista. Seguem na disputa os seguintes filmes: The Broken Circle Breakdown (Bélgica), An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina). Além de Le Passé, outros filmes que apareciam na lista dos especialistas como alguns dos favoritos, Gloria e Wadjda, também ficaram de fora. Interessante.

ATUALIZAÇÃO (10/01/2014): Estou revendo algumas notas de filmes que estavam cotados para o Oscar deste ano – e que, por isso, estão incluídos nesta categoria aqui no blog. E ainda que Le Passé não chegou a avançar na disputa, acho que devo ser coerente e analisa-lo como se tivesse. Sendo assim, reduzi um pouco a nota do filme. E a verdade – vou confessar – é que desde o início eu achei que ele deveria ir com um 9,5. Mas como ele tinha sido tãoooo elogiado por aí, acabei sendo “boazinha” demais no início. Agora, estou mais coerente com a minha opinião.

O Som ao Redor – Neighboring Sounds

27 de outubro de 2013 6 comentários

osomaoredor1

Todo esse som que nos rodeia também nos define. E não é pouco barulho. Afinal, escolhemos o local onde vivemos, correto? Sim e não. Como bem reflete O Som ao Redor, muitas vezes vivemos onde decidimos morar e, outra vezes, herdamos esse ambiente que acaba nos afetando diretamente. Diferenciada na narrativa, esta produção brasileira, indicada para concorrer a uma vaga no próximo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, surpreende nos detalhes, mas não tem o impacto que se espera de um filme vencedor.

A HISTÓRIA: Vários sons tomam conta da cena. Barulho de bichos, de caminhão freando, e aparece na tela os créditos do elenco, naquele estilo conhecido nos anos 1950 e 1960. Entra a trilha sonora, marcante. E surgem as primeiras cenas. Fotografias em preto e branco que mostram uma comunidade de trabalhadores, vastos campos e uma fazenda. Destas fotografias, passamos para duas crianças brincando.

A menina anda de patins “perseguindo” o garoto que anda de bicicleta. Eles brincam em um condomínio fechado onde estão outras crianças e alguns adultos. Algumas crianças observam um trabalhador. Em seguida, diversas cenas urbanas. Dentro de um apartamento, João (Gustavo Jahn) corre junto com Sofia (Irma Brown) para o quarto com a chegada da empregada Mariá (Mauricéia Conceição). Estas e outras histórias vão ser contadas no filme dividido em três partes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a O Som ao Redor): Gostei demais do início deste filme. Mesmo sem aquelas fotos preto e branco fazerem sentido por boa parte da história, eu sabia que em algum momento saberíamos porque elas abriram a produção. E achei muito interessante a escolha de começar o filme apenas com diferentes tipos de som, deixar entrar a trilha sonora vigorosa de DJ Dolores e, em seguida, nos apresentar para aqueles “mundos tão diferentes” das fotografias do passado, estáticas e sem cor, e o presente colorido e movimentado de uma tarde de brincadeiras de crianças. Antagonismos que veremos em muitos momentos desta produção.

Logo percebemos também que as cenas urbanas e os sons que habitam o cotidiano de qualquer pessoa nestes cenários terão protagonismo na produção. Para quem já se aventurou recentemente a ir por aí na cidade sem música no carro ou no fone de ouvido ao pedalar ou andar, sabe que chega a ser assustadora a orquestra de sons que temos ao nosso redor. São dos mais variados possíveis. Criando, eles também, os efeitos mais diferentes nas pessoas.

Quem não está acostumado a andar com música o tempo inteiro – o que é o meu caso, porque sempre tenho alguma canção rolando no carro, quando dirijo, ou som no MP3 quando pedalo ou vou por aí – pode até sofrer com o estresse provocado pela poluição sonora urbana. No caso de O Som ao Redor, essa poluição nem é mostrada. Ela aparece aqui e ali, mas raramente misturada. Quase sempre cada som tem o seu espaço, como em uma sinfonia.

Apesar do cenário e da trilha sonora serem essencialmente urbanas neste filme, é no passado do interior, em uma fazenda onde antigamente existia um engenho, que surge a “alma” da história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com isso, não me refiro apenas ao segredo que será revelado no final, da vingança que motiva dois personagens importantes para a história, mas também às condições desiguais das pessoas que orbitam O Som ao Redor.

O legado de Francisco (W.J. Solha), antigo senhor de engenho, ajuda a definir parte da vida dos herdeiros, principalmente dos netos João e Dinho (Yuri Holanda), que tem papel relevante na trama, assim como de um bairro praticamente inteiro do Recife, onde essa história está ambientada. Mesmo sem o poder que tinha outrora, quando comandava um batalhão de empregados e tinha um capataz para fazer o serviço sujo, Francisco segue tendo o poder dado pelo dinheiro. Um tanto extravagante, ele aparentemente faz o que quer e quando quer. Inclusive a ponto de acobertar o neto bandido.

Através do personagem de João, que vende apartamentos, o público de fora do país pode perceber como, de fato, muitas partes do país estão mudando o perfil de suas cidades. O processo de verticalização não é algo isolado em Recife, mas um fenômeno que está ocorrendo em diversas cidades de médio porte – nas de grande ele está se espalhando para bairros onde antes o que predominavam eram residências.

Assim como achei interessante aquele começo cheio de significados e escolhas estratégicas do diretor Kleber Mendonça Filho, gostei dos detalhes dos créditos. Tanto os iniciais quantos os finais fazem lembrar os filmes antigos, especialmente os dos anos 1960. Mas essas referências também criam um problema. Afinal, esses créditos iniciais e o próprio começo da narrativa me fizeram acreditar que veríamos um filme mais denso, que resgataria a tradição de filmes tensos e que contam a história de um mistério que será revelado com uma ou duas reviravoltas no caminho.

O fato do filme ser dividido em três partes também me fez acreditar que teríamos estágios bem marcados, e história praticamente isoladas que conversariam entre si. Que nada. Boa parte de O Som ao Redor fala do vazio cotidiano. Há tédio, insegurança e insatisfação espalhados por diversas partes. João, por exemplo, odeia o próprio trabalho e parece ter dificuldade em manter um relacionamento por muito tempo. O primo dele, Dinho, vive uma vida confortável e pratica pequenos crimes para ter alguma “diversão” frente a falta de vontade de fazer outra coisa.

E há ainda a personagem que ganha atenção de grande parte desta trama. Bia (Maeve Jinkings) é uma dona de casa que fica praticamente o dia inteiro enfurnada dentro de casa. Em um local com grades, portões trancados, ela se mantém trancada tendo como principais passatempos arranjar formas de controlar o cachorro do vizinho que vive latindo, fumar maconha sempre que pode e dar alguma disciplina para o casal de filhos. O marido dela (Dida Maia) aparece pouco e praticamente não tem voz no filme. Bia parece ser incapaz de dar muito afeto, mas também sabemos pouco sobre ela – apesar do espaço enorme que ela tem no roteiro do diretor.

Menos interessante dos personagens da trama, Bia parece ter tanta relevância no filme para nos mostrar que a “nova” classe média brasileira vive aprisionada e sem muitas aspirações além daquela de comprar uma televisão nova, preferencialmente maior que a do vizinho, e de apostar em novidades importadas para resolver os problemas do cotidiano. É a vida ordinária de quem conseguiu algum conforto e faz de tudo para esconder os seus pequenos “pecados” dos demais – vide o aspirador para disfarçar a fumaça e a cortina fechada durante a masturbação com a máquina de lavar.

Mesmo sendo uma crítica interessante da classe média de jovens casais, o espaço que foi dado para Bia e família me pareceu exagerado. Aliás, acho o filme longo demais. Outras histórias, como a dos seguranças que acabam cobrando dos vizinhos uma taxa para manter aquelas ruas mais seguras ou mesmo a de João, Sofia e Francisco, que parecem mais interessantes, acabam perdendo espaço. Assim, sabemos menos do que deveríamos do passado do engenho, por exemplo, ou mesmo sobre a figura de Sofia.

Um elemento presente do início até o fim da trama é a insegurança. E com ela, os artifícios, a maioria deles inútil, aos quais as pessoas recorrem para se sentirem um pouco mais seguras. A primeira parte de O Som ao Redor, intitulada “Cães de guarda”, apresenta a vida dos personagens principais da trama e marca a chegada de Clodoaldo (Irandhir Santos) na vizinhança. Até o início do serviço prestado por ele e seu grupo, as figuras mostradas pela produção viviam na busca por pequenos prazeres enquanto se esquivavam dos contratempos provocados pela violência – seja ela o furto do aparelho de CD de um carro, seja uma agressão aparentemente gratuita de uma vizinha, como Betânia (Mariangela Valença).

Até o começo do serviço da trupe de Clodoaldo, a sugestão do roteiro é que aquela vizinhança ainda vivia uma forma primária de busca de segurança, utilizando cães – como aquele que tira o sono de Bia -, muros e uma ou outra câmera de vigilância para se proteger. Depois de quase uma hora de filme, começa a segunda parte, “Guardas noturnos”, que marca o início do trabalho de Clodoaldo, Fernando (Nivaldo Nascimento), Ronaldo (Albert Tenorio) e sua equipe no trabalho de vigilância da rua da família de Francisco e nas adjacências.

A história evolui pouco entre a primeira e a segunda parte. A grande mudança, sem dúvida, é o trabalho dos vigilantes, e a estranheza que eles despertam em alguns vizinhos. Bia, por exemplo, comenta que acha muito suspeito que dois carros foram arrombados na noite anterior à chegada deles. Nesta segunda parte, há uma sequência muito boa, que é a da reunião dos moradores do condomínio de João. A disputa das pessoas para saber quem é mais “participante” na vida comunitária e a vontade de uns em desmerecer a opinião de outros revela muito desse nosso tempo, quando as pessoas parecem competir umas com as outras a cada oportunidade – mesmo quando é para discutir a demissão de um vigilante.

Finalmente o filme entra na terceira e última parte, após quase uma hora e 20 minutos, titulada “Guarda-costas”. Daí sim, a história começa a ganhar um pouco mais em informação e interesse, com a ida de João e Sofia para as terras do antigo engenhe do avô do rapaz. Os sons daquela antiga casa de “senhor feudal”, especialmente nas dependências dos empregados, e a incursão do jovem casal por locais da cidade do interior, com destaque para a sequência do cinema abandonado, são das melhores partes do filme.

Ao retornar para aquele ambiente e caminhar com os personagens por ali, depois voltando para o centro urbano do Recife, começamos a ver as peças se juntando. Nesta terceira parte, mais que nas duas anteriores, fica ainda mais evidente as diferenças entre as classes sociais, entre os que estão na posição de “chefes” ou “empregados”. A diferença social que existia no tempo dos senhores feudais e donos de engenhos segue repercutindo na sociedade, mesmo com a ascendência da “nova classe média” brasileira.

Mas ninguém parece estar muito interessado pela vida do outro, mas sim bastante centrados em si mesmos. Exemplo disso é a família de Bia – a mãe e os filhos estão muito ocupados consigo mesmos, sem manifestarem carinho ou preocupação verdadeira uns com os outros. E isso se dissemina por quase todos os outros personagens do filme – a família de Francisco, por exemplo, mantém o costume das reuniões familiares, mas vivem cada um bastante centrado em suas próprias rotinas.

O Som ao Redor é um filme que aborda estes aspectos de forma diferente, valorizando os sentidos da audição – através do som e da trilha sonora marcante – e da visão (com sequências muito interessantes e cenas belíssimas pipocadas aqui e ali). Um bom filme, sem dúvida, mas eu esperava mais. Não apenas porque eu tinha visto que ele tinha sido selecionado para o Brasil para representar o país no próximo Oscar, mas porque eu vi que ele foi muito elogiado pela crítica internacional. Aquele começo da produção também me fez acreditar que eu veria um filme cheio de estilo e significados fortes pela frente. O trabalho de Kleber Mendonça Filho tem intenções muito claras e é bem planejado. Mas senti falta de um pouco mais de emoção ou de impacto na história.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Excelente a direção de Kleber Mendonça Filho. Ele forja cada cena com significado, mesmo quando o que ele quer explorar, como roteirista, é o vazio das conversas desinteressantes ou o vazio do cotidiano de atos repetidos. Mas cada ângulo da câmera é bem pensado, e a dinâmica é arrastada, muitas vezes, para reforçar o sentido que Mendonça Filho quer passar. Este é o primeiro longa de ficção da carreira do diretor que, antes, em 2008, lançou o documentário Crítico, que reúne 70 depoimentos de cineastas e críticos sobre o fazer no cinema.

Após a elogiada estreia em longas de ficção com O Som ao Redor, Mendonça Filho está trabalhando no próximo longa, Bacurau, que vai dirigir ao lado de Juliano Dornelles, que atuou como designer de produção em O Som ao Redor. Previsto para ser lançado no ano que vem, o filme será um drama com roteiro dos dois realizadores. Vale acompanhá-los.

Dois elementos da parte técnica do filme são fundamentais para que O Som ao Redor tenha a qualidade que tem: a direção de fotografia de Pedro Sotero, que contou com a codireção de Fabricio Tadeu, e a já comentada trilha sonora de DJ Dolores. Na direção, destaque para as cenas amplas, especialmente nos ambientes abertos e nos ambientes internos quando Mendonça Filho quer dar a noção de amplitude e busca apresentar o ambiente em que vivem as pessoas, e para a valorização do trabalho dos atores nos momentos mais diferentes – de diálogos ou de “satisfação solitária” dos personagens.

Achei um pouco complexo, até pela quantidade relativamente grande de personagens secundários, encontrar o nome dos atores principais desta produção. Os protagonistas já foram citados por aqui. Além deles, vale comentar o trabalho de Lula Terra como Tio Anco, a quem João vai procurar para saber sobre o rádio com CD que foi roubado de Sofia; e de Clara Pinheiro de Oliveira como Fernanda, a filha de Bia. Queria ter identificado o nome do ator que faz o irmão dela, mas não consegui esta proeza.

Neste filme, é fundamental a captação dos diferentes sons ambientais e, claro, dos diálogos entre os atores. E aqui, novamente, percebo um problema que chega a ser costumeiro em muitos filmes nacionais. A captação de sons funcionou bem, mas em muitos momentos achei muito difícil entender o que os atores falavam. Algumas vezes, porque o som estava baixo. Em outras ocasiões porque o sotaque, bastante carregado em alguns casos, impediu a minha compreensão. Quase procurei uma forma de ver o filme com legendas para ter o entendimento de 100% dos diálogos. Mas não gostei dele tanto assim para repetir a dose, admito. :)

Boa parte das minhas atenções, desde o início de outubro, estão voltadas para o próximo Oscar. É que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou no dia 7 do mês passado a lista de 76 filmes que estão concorrendo a uma vaga na lista de indicados na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Na mesma época, mais ou menos, começaram as primeiras apostas sobre fortes concorrentes que podem chegar até a reta final em algumas das principais categorias da premiação mais badalada do cinema mundial. O Som ao Redor, automaticamente, tinha entrado no meu radar.

Não será fácil para esta produção brasileira deixar pelo menos 71 concorrentes para trás – isso porque, normalmente, cinco filmes acabam sendo indicados na categoria para a qual ele está tentando uma vaga. Dos demais concorrentes, assisti apenas ao dinamarquês Jagten – para o qual publiquei esta crítica. Na comparação entre os dois, não tenho dúvidas de que Jagten é superior. Nesta preparação para o próximo Oscar, estou resgatando o tópico abaixo da conclusão, onde falo mais sobre as minhas impressões sobre as chances de cada filme.

O Som ao Redor teria custado aproximadamente R$ 1,86 milhão. Parte destes recursos veio através do apoio financeiro do Fundo Hubert Bals do Festival Internacional de Cinema de Rotterdam. A produção estreou no mesmo festival no dia 1 de fevereiro de 2012. Depois, O Som ao Redor fez um roteiro de festivais, passando por outras 12 premiações.

Neste caminho, conseguiu acumular 12 prêmios e ser indicado a outros cinco. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Roteiro e o Prêmio do Júri do Festival Latino-americano de Cinema de Lleida; o Fipresci entregue pelo Festival Internacional de Cinema de Rotterdam; os de Melhor Longa Brasileiro pela escolha do público, Melhor Som e Melhor Diretor no Festival de Cinema de Gramado; o de Melhor Filme Brasileiro no Festival Internacional de Cinema de São Paulo; e os de Melhor Filme e Melhor Roteiro entregues pelo Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro.

O candidato brasileiro ao próximo Oscar foi filmado totalmente em Pernambuco, nas cidades de Recife, Palmares e Vitória do Santo Antão.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para esta produção. Uma boa avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais efusivos, dedicando 33 críticas positivas e apenas três negativas para O Som ao Redor, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 7,8.

Este filme entra na lista de produções que eu estou comentando aqui no blog para satisfazer dois desejos: o meu de ver ao máximo de filmes indicados ao Oscar 2014, e o de vocês, caros leitores, que votaram em uma enquete aqui no blog pedindo para que eu fizesse mais críticas de filmes brasileiros. A lista está crescendo.

Segundo o site Box Office Mojo, Neighboring Sounds, como foi chamado O Som ao Redor nos Estados Unidos, teria faturado pouco mais de US$ 60,2 mil nas bilheterias do país que vai escolher os melhores do ano no Oscar. Um desempenho fraco, muito fraco.

CONCLUSÃO: A valorização da vida cotidiana e do ordinário ganha com O Som ao Redor uma nova dinâmica. Os desafios, os encontros, a noção de família e as alegrias do dia a dia dão substância para a história. Enquanto nos distraímos com o cotidiano de moradores de uma rua, a maioria inquilina de um velho senhor de engenho, a verdadeira narrativa se transveste em mais um fato ordinário. Assim, de forma bastante sutil, O Som ao Redor nos mostra como as relações de poder seguem fortes, mesmo em tempos de desenvolvimento mais igualitário e após a “evolução” da sociedade, e de que os fatos realmente relevantes muitas vezes são ignorados pelas pessoas em meio a tanto barulho cotidiano.

Um belo exercício de cinema, mas que é prejudicado por alguns detalhes e pela falta de um pouco mais de “alma” na produção. Bem feito tecnicamente, exceto por algumas capturas de diálogos, ele surpreende ao revelar como somos prisioneiros de fatos do passado e do presente. O filme faz refletir na frase “o inferno são os outros”, porque cada personagem está incomodado com o que vem “do lado de fora”, sem perceber que ele próprio também cria incômodo para os demais e para si mesmo. Apesar das reflexões interessantes, o filme não emociona ou provoca impacto como gostaríamos. Claro que o problema está na nossa expectativa e não no filme. Ainda assim, vejo O Som ao Redor como um ótimo exemplo do cinema brasileiro conceitual que dá certo, mas que precisa ainda ser aprimorado para chegar mais longe.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: O Som ao Redor tem alma e estilo. Mas não acredito que tenha a história universal que costuma ser premiada em um Oscar. Claro que espectadores de diversas parte do mundo podem compreender a sensação de insegurança, as desigualdades sociais e até se identificarem com algumas das cenas urbanas mostradas no filme. Mas há outras leituras, como a da continuidade do coronelismo e a emergência de uma nova classe média no Brasil que provavelmente só serão bem compreendidas pelo público local. Isso prejudica o filme no exterior.

Também acho que prejudica esta produção em uma disputa pelo Oscar o fato dela não ser arrebatadora. Ela não emociona, durante a narrativa, o que não é obrigatório, mas também não surpreende com cenas de impacto ou reviravoltas. E um destes pontos sim, vejo como obrigatório para um filme ser bem sucedido no Oscar. Preciso assistir ainda aos outros filmes que estão concorrendo a uma vaga na lista dos finalistas ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para poder opinar definitivamente. Mas acho, desde já, que O Som ao Redor até pode chegar na lista dos cinco, mas não tem potencial para ganhar a estatueta.

Digo isso porque o único filme que eu assisti da lista até agora, Jagten (ou The Hunt), tem os elementos que eu comentei antes – é impactante, emociona e tem reviravolta importante na história. Enquanto Jagten é uma pancada e se revela universal, O Som ao Redor parece ser muito cerebral e arquitetado, sem emoção ou o impacto do concorrente dinamarquês. Sem dúvida vejo muito mais potencial de Jagten. Agora, falta ver aos demais filmes bem cotados.

ATUALIZAÇÃO (21/12/2013): A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou ontem, dia 20 de dezembro, a lista de filmes que avançaram na disputa da categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. O Som ao Redor ficou de fora da lista. Seguem na disputa os seguintes filmes: The Broken Circle Breakdown (Bélgica), An Episode in the Life of an Iron Picker (Bósnia e Herzegovina), The Missing Picture (Camboja), Jagten ou The Hunt (Dinamarca), Two Lives (Alemanha), The Grandmaster (Hong Kong), The Notebook (Hungria), La Grande Bellezza ou The Great Beauty (Itália) e Omar (Palestina).

The Way Way Back – O Verão da Minha Vida

24 de outubro de 2013 1 comentário

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Um filme “bobinho” pode ser bom? Com certeza. The Way Way Back é um destes exemplares de filme sem grandes pretensões que acaba surpreendendo justamente pela suavidade. Ele faz rir menos que o previsto, por tratar-se de um filme de comédia. E ganha pontos ao abordar temas sempre relevantes apesar de não fazer grandes discursos sobre eles – para a nossa sorte. De quebra, ele ainda trata de forma bastante irônica de um tema importante para todo norte-americano (e pra gente também): as férias de Verão, que parece que sempre precisam ser extraordinárias. Se você não está buscando uma comédia escrachada e piadas fáceis, esta pode ser uma boa aposta.

A HISTÓRIA: Trent (Steve Carell) está dirigindo, mas não deixa Duncan (Liam James) em paz. Olhando pelo espelho retrovisor do carro, ele pergunta para o adolescente que nota ele se dá em uma escala de um a dez. O garoto, sentado no fundo do carro, de costas para Trent, responde que não sabe. O motorista não aceita esta resposta e diz porque acha que o jovem, filho da nova namorada dele, Pam (Toni Collette), tem uma nota baixa. Mas ele diz que tem uma boa notícia: que Duncan terá muitas pessoas para conhecer e muitas oportunidades de sair e se divertir na casa de veraneio de Trent, para onde a família está indo. De fato, Duncan terá férias diferentes e marcantes pela frente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Way Way Back): A primeira sensação que eu tive com o começo deste filme foi: será que ele vai seguir a linha de Little Miss Sunshine? Um grande filme, lançado em 2006 e dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris e que também tinha no elenco os atores Toni Collette e Steve Carell. Se você ainda não o assistiu, recomendo. Mas para a nossa sorte, The Way Way Back não é um Little Miss Sunshine 2. Digo para a nossa sorte porque cada vez mais eu acho que o cinema deve buscar uma história nova e não seguir velhas fórmulas.

Com isso, não quero dizer que The Way Way Back seja uma verdadeira revolução. Na verdade, o filme mergulha em um tema que já foi explorado em várias outras produções de Hollywood: as férias de Verão. Mas há muitas maneiras de encarar este assunto. Esta nova produção, dirigida e com roteiro da dupla Nat Faxon e Jim Rash, procura uma abordagem engraçada e ao mesmo tempo dramática desta válvula de escape social.

Não é por acaso, e vamos descobrir isso só depois, conforme o filme se desenvolve, que The Way Way Back começa com aquela conversa cheia de pressão e um aparente rancor entre Trent e Duncan. A rivalidade entre os dois vai pontuar toda esta produção. Como ocorre com tantas outras famílias “modernas”, Duncan sente dificuldade em se adaptar ao novo namorado da mãe. Ele quer viver com o pai, mas acaba tendo que passar as férias com o “desafeto” e a filha que busca sempre ser popular, Steph (Zoe Levin).

Claramente Duncan está deslocado. Aparentemente, não apenas naquela junção de famílias, mas também na vida. Ele não sabe muito bem como se comportar entre jovens de sua idade e nem em outros ambientes. Ele é o rapaz que acaba ficando com os adultos na mesa, mas não sente que aquele é o seu lugar. Um sentimento bastante comum entre muitos adolescentes que não estão na categoria de “populares”.

Não demora muito para que Duncan sinta uma certa sintonia com Susanna (AnnaSophia Robb), que parece não fazer esforço algum para agradar a mãe esfuziante Betty (Allison Janney) ou qualquer outra pessoa. Trent faz parte de uma vizinhança que sempre se encontra no Verão. Todos se conhecem, e todos sabem que “papéis” cada um joga durante as férias. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E elas são sinônimos de excessos, de muita bebida, drogas e de troca de casais.

Esta é a “alma” das férias nos Estados Unidos – e em muitas outras latitudes. Parece que tudo aquilo que você deixou de fazer no resto do ano é liberado durante as férias. Relaxamento total e momento de passar todas as fronteiras – muitas, inclusive, do bom senso. Este é o pano de fundo de The Way Way Back. Sem se encaixar entre os jovens locais e com dificuldade cada vez maior de suportar Trent, Duncan descola uma bicicleta nada masculina. Esta é a primeira válvula de escape do adolescente.

Na busca de Duncan por alguma liberdade e satisfação, ele se encontra com o “eternamente jovem” Owen (Sam Rockwell). Mesmo não sendo mais um adolescente, Owen muitas vezes se comporta com o humor de um jovem. Com uma grande interpretação de Rockwell, o personagem de Owen encarna o “Peter Pan”, mas com o viés de um sujeito com grande generosidade.

Afinal, ele é o único que realmente olha para Duncan e percebe que o garoto só precisa de uma oportunidade. O protagonista deste filme necessita que alguém acredite nele para que ele possa começar a ter confiança e, consequentemente, tenha mais autoestima. Muito bacana o exemplo de Owen e a relação que ele estabelece com Duncan.

Em certo momento fica subentendido que Owen segue trabalhando na Water Wizz para seguir o legado do fundador que era, na verdade, pai do agora administrador do parque aquático. Durante o Verão, ele se solta e aproveita para ser o “rei” daquela parte da cidade. Duncan fica fascinado com o local, e com o próprio Owen. Mas, em certo momento, o herói do garoto comenta que aquele local fica vazio e horrível no Inverno.

Esta aí uma das mensagens de The Way Way Back. Quando adolescentes, podemos achar o máximo determinadas pessoas, épocas ou locais. Mas conforme o tempo passa e vemos tudo de forma mais realista, percebemos que não existem heróis, épocas ou locais perfeitos. Tudo tem pelo menos dois lados e altos e baixos. Mas não devemos desanimar com os momentos ruins, mas ter confiança que o sol vai voltar e apostar nesta “época” para curtir e disseminar o bom humor. A exemplo do que Owen faz com aquele parque e com o Verão.

Falando nesta época do ano, Trent encarna o sujeito que aguarda o Verão para extravasar e “curtir a vida adoidado”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Não demora muito para percebermos que ele é um verdadeiro “garanhão” naquela vizinhança. Por isso, não é uma novidade quando Joan (Amanda Peet) aperta ele contra a parede. Típico “machista” que precisa dar a última palavra em casa, ele segue o padrão de “faço-besteira-e-depois-peço-desculpas-e-tudo-bem”. E, evidentemente, aguarda que os demais lhe desculpem e que tudo volte ao normal, para que depois ele siga fazendo besteiras e falando mais alto.

Além da busca da autoafirmação e de “um lugar no mundo” do adolescente em vias de chegar na vida adulta, tema bastante comum no cinema, e dos outros temas citados neste texto (perfil “Peter Pan”, dificuldade de adaptação dos jovens filhos de pais separados para os novos “arranjos familiares”), The Way Way Back trata de outro tema sensível: a preocupação de mulheres que já passaram dos 40 e que se separaram sobre a possibilidade de ficarem sozinhas.

Não é por acaso que a personagem de Pam encarne o perfil de tantas mulheres que conhecemos na vida real. Não é fácil ver o amor que se acreditava ser para a “vida inteira” terminar. E tão complicado quanto é ver as oportunidades de encontrar um homem digno e interessante caírem drasticamente quando se passa de uma certa faixa etária. Sei que parece lugar-comum dizer que os homens após os 40 estão mais interessados em mulheres jovens, deixando em segundo plano as mulheres da mesma faixa etária, mas é isso o que se vê em muitas partes.

Pressionada por este cenário e não querendo ficar “sozinha”, Pam cai na armadilha de ceder em muito do que acredita e na preocupação com o próprio filho para tentar fazer o relacionamento com Trent dar certo. Afinal, o sujeito parece ter pegada… e, mesmo sendo um cretino, ele é um cara bem cuidado, bronzeado e que procura, aparentemente, sempre agradar à nova amada.

Verdade que é preciso esforço para fazer uma relação dar certo. Mas a que custo? Até onde vale à pena investir em um relacionamento quando nem todos estão satisfeitos – e no caso desta produção, fica claro que Duncan não se sente mais “em casa” desde que Trent entrou na vida daquela pequena família. Verdade também que, muitas vezes, os jovens viram “aborrecentes” e fazem de tudo para uma nova relação da mãe ou do pai não darem certos. Mas é preciso bom senso e atenção para os detalhes, para ver até que ponto pode ser “birra” do jovem que gostaria de ver os pais juntos ou de fato há incompatibilidades importantes e determinantes na nova relação.

The Way Way Back, que deveria ser, essencialmente, uma comédia, trata de todos estes temas. E o melhor: sem discursos. Tudo vai fluindo com muita tranquilidade e com um trabalho muito bom do elenco, especialmente dos atores mais experientes.

Todos estão bem, e o roteiro dos diretores Faxon e Rash mantém o interesse do espectador, ainda que o filme seja um pouco arrastado. Afinal, na maior parte do tempo parece que falta força nas piadas. O humor é ameno, assim como o drama. Por isso mesmo o filme não tem um grande impacto, apesar de ter bons momentos e ser bem feito.

A verdade é que apesar de esforçado, Liam James cansa um pouco como Duncan. Beleza o personagem dele ser um bocado deslocado, mas muitas vezes ele parece quase um autista. E nada indica que ele seja um. No fim das contas, o que parece mesmo é que o ator deu uma exagerada no tom do personagem. E sendo o protagonista, isso não ajuda ao filme.

Eu também esperava mais deste filme no quesito humor. Especialmente quando vi Jim Rash como Lewis, um dos empregados do parque aquático. Na hora lembrei dele na ótima e super recomendada série Community. Quem acompanha a série, uma das melhores de comédia da TV americana, sabe que Rash é um dos destaques da produção. Mas como roteirista, ele escreveu apenas um episódio da série.

Tendo Community como parâmetro, pensei que o filme seria melhor. Com tiradas mais engraçadas, pelo menos. Mas The Way Way Back não tem esta preocupação de fazer rir. Pelo menos não tanto quanto outros filmes do gênero. Por um lado, isso é bom. Porque melhor um roteiro um tanto ingênuo quanto este do que uma produção escatológica – e há muitas em Hollywood ultimamente. Por outro lado, eu esperava mais de um texto de Rash. Assim como esperava mais de Steve Carell – quem assistiu a The Office sabe do que estou falando. Mesmo sendo um pouco entediante, The Way Way Back tem boas intenções e um final bastante acertado.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além de ser louca por ótimos filmes, admito que sou um bocado viciada em séries de TV. Enquanto as novelas são o filé mignon da TV no Brasil, as séries de TV são o que os Estados Unidos sabe fazer de melhor – além de filmes, é claro. Outros países, como o Reino Unido, também são bons nisso. Mas os EUA são mestres. Gosto de assistir de tudo um pouco. Dramas, séries de ação e comédias.

E nesta última categoria, The Office e Community são das melhores que eu já assisti. Sendo assim, não fica difícil de imaginar o quanto eu esperava da união entre Steve Carell e Jim Rash neste The Way Way Back. Infelizmente o resultado não foi tão arrebatador quanto eu esperava, até porque os dois atores, especialmente Rash, tem papéis menores na produção estrelada por James. Ainda assim, este é um bom filme.

Talvez uma razão para o roteiro de The Way Way Back não ser tão bom quanto poderia ser, pelo menos no quesito comédia, seja que falte um pouco mais de experiência para Rash e Faxon. Os dois tem um longo currículo como atores, mas poucos trabalhos como roteiristas. Antes de The Way Way Back, a dupla tinha escrito junto com Alexander Payne o roteiro de The Descendants (que tem este comentário aqui no blog), bastante elogiado e ganhador de um Oscar. Além de The Descendants, Rash e Faxon trabalharam juntos no roteiro do filme feito para a TV Adopted e Rash escreveu um episódio da série Community e outro do programa Saturday Night Live. E só.

Falando de direção, The Way Way Back marca a estreia da dupla. Algo me diz que eles vão longe na parceria. Afinal, ambos tem moral e talento, basta investir mais em projetos que tenham marca própria.

Para mim, as melhores interpretações deste filme estão com os atores experientes. Destaque especial para Sam Rockwell, que rouba a cena sempre que aparece. Toni Collette e Allison Janney também estão muito bem. Além deles, entre os jovens, ganha destaque AnnaSophia Robb.

Além dos atores já citados, tem um certo destaque na história o trabalho de Maya Rudolph como Caitlin, uma funcionária do parque aquático que planejou trabalhar ali por um verão e acabou ficando três anos por causa de Owen; Rob Corddry como Kip, amigo de Trent e namorado/marido de Joan; River Alexander como Peter, o filho caçula e que vive sendo zoado pela mãe Betty; e o diretor Net Faxon como o braço direito de Owen no parque aquático.

Falando nos filhos que são zoados pelos pais… este é um tema importante em The Way Way Back e que vai de encontro totalmente ao tipo de debate que eu gosto de ter. Este não é o primeiro filme que comento aqui no blog e que me faz dizer que nem todo mundo foi feito para ser pai ou mãe. É preciso querer, em primeiro lugar, e é preciso ter “talento” ou vocação para isso. Há pessoas preparadas, e há outras que nunca estarão.

E é uma verdadeira tristeza ver figuras como Trent que, claramente, não foi feito para ser um pai. Ele não sabe estimular Duncan e nem orientar Steph. Na verdade, o que ele queria era ser um eterno lobo solitário, pelo visto. Betty, por mais tresloucada que seja, pelo menos tem afeto verdadeiro pelos filhos. Isso dá para notar. Ainda que ela também não saiba lidar muito bem com eles – especialmente com Peter. Pais desfuncionais, nada pior.

Da parte técnica do filme, gostei do estilo de direção da dupla Nash e Faxon. Eles valorizam o trabalho dos atores e aquela região dos Estados Unidos, colocando o cenário e o estilo de vida dos personagens como elementos centrais da história. O início do filme é muito promissor, com aquele controle exercido por Trent através do espelho do carro – quase que dizendo a Duncan e para o espectador que ele estará sempre “vigilante”, controlador. A disposição dos personagens naquele começo e a figura de Duncan de costas e “acuado” são muito reveladores. Pena que o restante do filme não siga com a mesma escolha acertada de cenas ilustrativas como esta. Há algumas, aqui e ali, mas estão espalhadas e sem a frequência que seria desejada.

Ainda seguindo nos aspectos técnicos, muito boa a direção de fotografia de John Bailey. O filme tem, de fato, cenas muito bonitas, plásticas, e uma predominância de sol fundamental para deixar The Way Way Back ainda mais firme e forte no “tempo” dramático do Verão. Há muita claridade em cena, e um tom “naturalista” importante. Muito bom também o trabalho da editora Tatiana S. Riegel, bastante precisa na função de dar dinâmica e ritmo para o material dos diretores.

Este é um filme de muitos diálogos. Por isso mesmo a trilha sonora de Rob Simonsen é bastante pontual. Aparece para preencher os momentos em que as pessoas não estão dialogando entre si. Mas ela não é apenas um “tapa-buraco”. Em diversos momentos ela tem importância narrativa. E em outros, quando não está tendo significado direto para os personagens, ajuda a explicar pelo que eles estão passando. Um belo trabalho, e bem planejado.

Como o cenário é um elemento importante da história, acho importante comentar onde The Way Way Back foi rodado. Esta produção está ambientada nas cidades de Marshfield, Wareham, Onset, Duxbury e East Wareham (onde fica o parque Water Wizz), todas em Massachusetts, Estados Unidos. Caso alguém quiser fazer um roteiro reconstruindo este filme. :)

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. O diretor e roteirista Jim Rash disse que a inspiração para The Way Way Back foi a sequência inicial do filme, porque ele teve um diálogo parecido com aquele entre Trent e Duncan quando tinha 14 anos e falava com o padrasto.

Como eu imaginava, The Way Way Back foi gravado em um parque aquático real usando frequentadores do local como figurantes. Segundo os produtores, Sam Rockwell costumava improvisar sempre utilizando o auto-falante do local. Em uma certa ocasião ele esqueceu que haviam muitas crianças no local e fez uma piada indecente sobre herpes. Na sequência ele teve que pedir desculpas para o proprietário do parque para que a equipe pudesse seguir trabalhando no filme e no local.

Inicialmente esta produção, com roteiro escrito em 2007, ia levar o nome de The Way Back. Mas os realizadores decidiram mudar o título para que ele não fosse confundido com o filme homônimo lançado em 2010. A ideia do título faz referência ao “way back seat”, uma expressão coloquial dos anos 1970 nos Estados Unidos para o terceiro lugar, espaço muitas vezes oculto no bagageiro de um veículo “station wagon”.

Para economizar dinheiro, os diretores resolveram não alugar trailers para os atores. Ao invés disso, eles alugaram uma casa durante o tempo de filmagens – seis semanas – onde os atores poderiam descansar entre uma gravação e outra. A residência virou ponto de encontro do elenco e da equipe do filme que, muitas vezes, se encontrava no local mesmo nos finais de semana e em dias de folga. Isso explica a sintonia entre as pessoas do elenco.

Inicialmente a personagem de Caitlyn teria pouco espaço no filme. Mas nas versões finais do roteiro ela ganhou a característica de ser mais velha – e não uma adolescente – e de ter mais interações com Owen. Quando Maya Rudolph entrou em cena, os diretores resolveram que ela ganharia importância e deixaram na mão dela e de Sam Rockwell o trabalho para que eles criassem uma dinâmica mais ativa entre os personagens.

Por pouco Steve Carell não pula fora do projeto. Isso porque ele iria passar férias com a família em Massachusetts, como eles fazem todos os Verões. Para a sorte dos realizadores, eles descobriram com o avanço do projeto que o local em que iriam filmar The Way Way Back ficava perto da casa de veraneio dos Carell. Por isso deu certo dele participar do filme.

The Way Way Back teria custado US$ 4,6 milhões, um orçamento bem enxuto para um filme nos Estados Unidos. E o resultado que a produção obteve, até agora, foi excelente. Apenas nas bilheterias dos Estados Unidos ele fez pouco mais de US$ 21,4 milhões. Nos outros mercados em que já estreou, ele acumula outro US$ 1,69 milhão. Um belo lucro.

Este filme estreou no Festival de Sundance em janeiro deste ano. Depois, The Way Way Back participou de outros sete festivais. Neste caminho, recebeu dois prêmios e foi indicado a um terceiro. Ele ganhou os prêmios de Melhor Filme e Melhor Produção dos Estados Unidos no Festival de Cinema de Newport Beach.

Esta é uma produção 100% Estados Unidos. Por isso mesmo ela entra na lista de filmes daquele país que atendem a um pedido de vocês, caros leitores, para que eu comentasse uma série de produções daquela nacionalidade. Sigo na luta! :)

Eu sempre fui do grupo de pessoas que adorava a chegada do Verão para passar as férias na praia. Por isso mesmo, não tenho o “apego sentimental” com o parque aquático mostrado neste filme. Ainda assim, tenho certeza que muita gente vai se identificar com este cenário e relembrar momentos marcantes do passado. E desta forma, The Way Way Back ganhará uns pontos importantes – eu entendo isso, mas não compartilho desta referência sentimental.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para The Way Way Back. Uma avaliação muito boa, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 140 textos positivos e apenas 24 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 85% (muito boa) e uma nota média de 7,3.

Desta vez não achei ruim o título do filme no lançamento no Brasil. Afinal, seria muito complicado traduzir o sentido original. E “O Verão da Minha Vida” combina com a história. Escolha acertada.

CONCLUSÃO: Curioso como o tema da adolescência parece interminável para o cinema. Não se trata apenas da passagem da vida inocente da infância para a vida cheia de responsabilidades dos adultos. Mas o tema da autoafirmação, do autoconhecimento e da busca do próprio caminho estão no centro do picadeiro. Tudo isso acaba sendo importante em The Way Way Back não apenas porque temos um protagonista adolescente, mas porque acompanhamos umas férias de Verão da família dele. E não existe nada mais adolescente que um Verão no litoral – seja ele no hemisfério norte ou na parte sul do globo.

The Way Way Back revela de forma muito honesta como somos cobrados a desempenhar um determinado papel na vida adulta ao mesmo tempo em que muitas pessoas nunca conseguem, aparentemente, crescer. Ao mesmo tempo, há temas sérios em jogo, como a desestruturação familiar, o medo da solidão, o desafio de pertencer a algum lugar e o inevitável e já comentado desafio de um jovem encontrar o seu próprio caminho. Um filme interessante, que acaba não se destacando por elemento algum, mas que entretém e que também faz pensar. Boa diversão, mas sem nenhum grande “achado”.

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