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Out of the Furnace – Tudo por Justiça

21 de março de 2014 3 comentários

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Filmes sobre odisseias de vingança pululam no cinema mundial. Especialmente Hollywood tem vários exemplares do gênero. Para quem já assistiu a uma boa parte destes filmes, Out of the Furnace parece apenas mais do mesmo. Uma pena, porque o filme começa bem, com estilo e foco bem definido. O elenco também é promissor. Pena que o roteiro não mostra força do meio para o final.

A HISTÓRIA: Vários carros parados em frente a um telão. De dentro de um deles, um homem se inclina para vomitar. Ele é Harlan DeGroat (Woody Harrelson), um sujeito violento que fica irritado com a mulher com quem está saindo (Dendrie Taylor) porque ela fica preocupada com a volta para casa e ri depois que ele fala que o carro se dirige sozinho. Depois de agredir a mulher, DeGroat espanca um homem (Carl Ciarfalio) que saiu de outro carro porque ficou incomodado com a situação. E foge dali.

Cenas de uma cidade industrial. É ali que trabalha duro, em uma siderúrgica, Russell Baze (Christian Bale). Tudo está sob controle na vida dele, que tem Lena Taylor (Zoe Saldana) como namorada e vive entre os cuidados com o pai doente (Bingo O’Malley) e o irmão caçula, militar, que gosta de jogar e tem algumas dívidas, Rodney Baze Jr. (Casey Affleck). Tudo parece em ordem, até que um acidente começa a mudar a vida da família Baze.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Out of the Furnace): Belo cartão-de-visitas o diretor Scott Cooper nos apresenta na sequência inicial desta produção. Pena que aquela sacada não se repita em mais momento algum da produção.

As imagens rodadas no drive-in são perfeitas porque jogam com duas perspectivas de planos e sequências de câmera. A primeira está sendo exibida no telão, e a segunda, é a própria dinâmica da câmera que roda Out of the Furnace. Este jogo cria uma perspectiva interessante, a ponto das cenas do telão darem a impressão de “crescerem” conforme a câmera comandada por Cooper ia descendo de um plano superior para o que se aproxima dos carros. Grande sacada!

Em seguida, o filme segue bem ao explorar a característica da cidade industrial onde boa parte do roteiro de Brad Ingelsby e Scott Cooper se desenvolve. Aquele contexto ajuda a explicar a falta de perspectivas de alguns personagens e também o jeito “grosseiro” que eles tem de resolver muitos de seus problemas. Como acontece em tantas cidades dos Estados Unidos e de outros países bem industrializados, há muitas cidades que tem a economia e, consequentemente, o modo de vida de seus cidadãos moldados por determinadas indústrias.

No caso de Out of the Furnace, a siderúrgica em que Russell Baze trabalha tem esta função. A única perspectiva para muitos homens pagarem as suas contas e terem uma vida decente é trabalhar naquela empresa. Que exige sacrifícios, como bem exemplifica o doente patriarca da família. É neste ambiente em que encontramos uma irmandade clássica em filmes em que haverá encrenca: o irmão mais novo de Russell quer escapar desta vida difícil e, para isso, procura a saída em caminhos bem mais fáceis como o mundo das apostas.

Como reza a história clássica dos jogadores no cinema, Rodney só se dá mal e começa a acumular dívidas. A sorte inicial dele é que estas dívidas são contraída com o vilão “bonzinho” John Petty (Willem Dafoe). O proprietário de um bar está acostumado a emprestar dinheiro e também a dever grana. Adepto das lutas ilegais, ele introduz Rodney neste cenário e, mesmo relutante, leva o irmão mais novo de Russell a entrar no mercado barra pesada de disputas que podem levar até a morte.

É neste último cenário em que entra em cena novamente o vilão da história, o violento Harlan DeGroat. Era evidente que, mais cedo ou mais tarde, os lados opostos de Russell e Harlan iriam se chocar. E não apenas esta previsibilidade ajuda a tornar o filme fraco, mas como a escolha sobre a forma do encontro torna esta produção uma obra requentada.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Existem muitas histórias no cinema de irmãos mais novos que colocam os mais velhos e protetores em encrenca. Depois, é clássica a ideia de que o “bom-menino-vítima-do-vilão-desalmado” tinha topado entrar em uma última missão (seja ela um assalto à mão armada, um assassinato ou, no caso deste filme, uma luta no melhor estilo Fight Club) e se deu mal por ter encarado esta tarefa. E daí alguém da família da vítima resolve se vingar e assume as armas.

Ou seja: vários lugares-comum explorados por outras produções são agrupados em Out of the Furnace para envolver o público. Não há surpresas ou inovação neste filme. Exceto por aquela sequência bem filmada, inicial, já comentada anteriormente, e pelo trecho da história “fora da curva” que é aquele em que Russell se acidente e provoca pelo menso uma morte – o filme não deixa claro se mais de uma pessoa morreu naquela batida. Também ficamos sem saber quanto tempo Russell ficou preso – um dado que seria interessante já que, ao sair da prisão, ele nos apresenta uma cidade um pouco mais decadente.

Se o roteiro do diretor Cooper e de Ingelsby é o calcanhar de Aquiles deste filme, a fortaleza da produção é o trabalho dos atores. Aliás, que grande elenco foi escalado para esta produção! Além dos já citados Woody Harrelson, Christian Bale, Casey Affleck, Willem Dafoe e Zoe Saldana, estão em cena também Sam Shepard e Forest Whitaker. Tudo bem que nem todos os personagens destes atores são bem desenvolvidos, mas isso faz parte de um roteiro fraco.

De qualquer forma, Christian Bale e Woody Harrelson estão ótimos. Os papéis deles são os melhores trabalhados – ainda que, no fim das contas, Harrelson se resuma a um vilão cruel e nada mais que isso, já que não sabemos nada sobre a vida pregressa ou mesmo o entorno que o cerca no presente. Mas foi bom ver Harrelson em um papel deste naipe após tanto tempo – impossível não lembrar do ator em Natural Born Killers. Gostei também do trabalho de Casey Affleck. Os demais atores tem que tentar emocionar com poucos argumentos, especialmente Dafoe e Saldana – sem contar Shepard e Whitaker que tem, cada um, praticamente pontas neste filme.

Um outro recurso que Out of the Furnace utiliza e que outras produção já utilizaram é o de mostrar um personagem que não consegue superar as cicatrizes criadas por ter servido à pátria-amada, os Estados Unidos. Desta vez esta figura é encarnada por Affleck. E a verdade é que, ao pensar em Out of the Furnace em perspectiva, o único detalhe que destoa um pouco da história clássica de vingança é este do ex-militar que não tem nada a perder porque não consegue se recuperar do que viu enquanto servia ao Exército no Iraque – por quatro vezes, importante dizer.

Só acho que o personagem de Affleck poderia ter estas cicatrizes melhor exploradas. Afinal, ele parece mais perdido do que traumatizado no filme. Perdido por perdido, há muita gente por aí que não sabe o que quer fazer da vida. Mas ter traumas profundos e achar que não tem nada a perder porque a morte, talvez, seria uma boa solução para esquecer os próprios fantasmas é algo bem diferente. E, pelo visto, o personagem deveria seguir mais a segunda linha. De qualquer forma, mais uma vejo que o problema está mais no roteiro do que no trabalho do ator.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Bem planejadas e executas as sequências de pancadaria no melhor estilo Fight Club. O único problema daquelas sequências é que elas lembra demais o filme de David Fincher de 1999 – e que, este sim, merece ser visto e revisto.

Da parte técnica do filme, vale citar a boa direção de Scott Cooper – ele manja mais deste ofício do que tem talento como roteirista, aparentemente – e o bom trabalho do diretor de fotografia Masanobu Takayanagi. Além deles, vale citar o competente editor David Rosenbloom. E isso é tudo.

Há tempos eu estava curiosa sobre este filme. Não apenas por causa de Christian Bale, de quem gosto, mas porque o cartaz me remetia aos bons filmes policiais. Também porque esta produção chegou a ser cotada na temporada pré-Oscar para aparecer em algumas categorias da premiação. Mas que nada. Out of the Furnace ficou totalmente de fora do prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. E cá entre nós, a ausência não foi injusta.

Out of the Furnace estreou em novembro de 2013 no AFI Fest. Depois, o filme participaria de outros três festivais. Nesta trajetória, recebeu um prêmio e foi indicado a outros cinco. O único que levou para casa foi o prêmio de “melhor estreia e segundo filme” (título estranho, não) para Scott Cooper no Festival de Cinema de Roma.

Por falar no diretor, este é apenas o segundo filme dirigido por Cooper. Antes de Out of the Furnace, ele dirigiu a Crazy Heart (comentado aqui no blog). Para o meu gosto, o filme anterior de Cooper é melhor. Agora, o tira-teima vai ficar com Black Mass, filme estrelado por Johnny Depp, Guy Pearce Benedict Cumberbatch e Joel Edgerton e que está previsto para estrear no próximo ano.

Uma das qualidades de Out of the Furnace, além do bom trabalho dos atores, é a ótima escolha da música Release para dar o tom do começo e do fim da produção. Esta é apenas mais uma das grandes canções da banda Pearl Jam.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Como é de seu feitio, Christian Bale realmente aprendeu a operar um forno siderúrgico para este filme – evitando, assim, o uso de dublês. Algo que o ator costuma fazer nas produções em que decide mergulhar.

Cooper prometeu para Bale que não faria Out of the Furnace sem ele. Essa promessa foi feita em 2011. O diretor teve que esperar até o ano seguinte para que Bale conseguisse um espaço na agenda e para que eles conseguissem concretizar o projeto.

O filme que aparece nas cenas iniciais da produção sendo projetado no drive-in é The Midnight Meat Train, de 2008, dirigido por Ryûhei Kitamura.

Os atores Billy Bob Thorton e Viggo Mortensen chegaram a ser cogitados para o papel de Harlan DeGroat mas, no final, o personagem ficou com Woody Harrelson.

Out of the Furnace foi totalmente rodado nos Estados Unidos, com cenas externas e em estúdios feitas em Moundsville (West Virginia), Burgettstown, Beaver Falls e Braddock (Pensilvânia).

Esta produção teria custado cerca de US$ 22 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 11,4 milhões. Ou seja, falta um bom caminho ainda para o filme começar a dar lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para este filme. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 89 críticas positivas e 81 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 52% – e uma nota média de 5,9.

CONCLUSÃO: Contar uma história de vingança, nos dias atuais, precisa de um pouco de ousadia. E este é um elemento que não faz parte de Out of the Furnace. Então ou este é o primeiro filme do gênero que você assiste, ou ficará inevitável o gosto de comida requentada na sua boca. Não há frescor neste filme, apenas ideias requentadas. Uma pena. Mas se a história deixa a desejar, o elenco está bem escalado e faz um bom trabalho. Há tempos Woody Harrelson nos devia um vilão cruel como o que encontramos neste filme. Fora o bom trabalho dos atores, sobra pouco de interessante neste filme. Assista apenas se já tiver visto todas as opções melhores do cinema antes.

Grand Piano – Toque de Mestre

21 de março de 2014 5 comentários

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Toda a dramaticidade de um concerto de música clássica e de uma trama de ameaça de morte. Grand Piano parte de uma boa e interessante premissa, mas tropeça nos detalhes e na interpretação pouco convincente dos protagonistas. O início do filme tem bons momentos, mas isso é tudo. Assista preferencialmente se gostar muito dos atores ou do diretor. Porque há suspenses melhores no mercado.

A HISTÓRIA: Aplausos nos créditos iniciais. Depois, entra o som da orquestra. Nas imagens, detalhes de um piano. Após os créditos iniciais, começa a história com uma equipe de funcionários de uma empresa de mudanças entrando em uma mansão cheia de objetos antigos. O local parece abandonado há algum tempo. Um dos supervisores aponta o local em que está o piano que será transportado e avisa que o grupo de funcionários tem 20 minutos para agir.

Com pressa de sair dali, os homens derrubam uma fotografia. Nela aparecem o pianista Tom Selznick (Elijah Wood) e seu mestre, o magnata da música Patrick Godureaux. Aquele piano, transportado com todo o cuidado, será uma peça fundamental do concerto que marca o retorno de Selznick para os palcos após uma ausência de cinco anos. Mas o espetáculo terá uma dramaticidade que o músico jamais poderia esperar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Grand Piano): Interessante como uma boa ideia pode render um enredo apenas interessante, mas sem atingir o resultado que se esperava no início. Este é o caso deste Grand Piano.

O filme, que começa devagar, rapidamente abraça o suspense e o drama do protagonista quando o concerto que marca o retorno dele para os palcos ganha corpo. Mas o problema reside na continuidade das ideias iniciais, da provocação que é feita para o espectador que aguarda ansioso o próximo passo do “herói” e do “bandido”.

Antes de falar mais do final, vou retornar um pouco na história de Grand Piano. Uma qualidade fundamental desta produção é misturar a música clássica com o risco eminente de morte. Não há estilo musical criado pela humanidade melhor para representar o risco e a emoção “à flor da pele” do que a música clássica. Ela historicamente sempre embalou os maiores suspenses, dramas e amores, e por isso mesmo a sua escolha foi perfeita para Grand Piano.

Além disso, devo dizer, não deixa de ser corajoso fazer um filme, atualmente, que valorize tanto este estilo de música. Não apenas porque estamos nos habituando a ouvir muito lixo na música, mas principalmente porque 99% das pessoas consideram a música clássica algo ultrapassado, chato, e ignoram que ela não é apenas fundamental para o cinema, mas para a própria música em diferentes gêneros.

A música em Grand Piano não é apenas uma peça fundamental na trama – afinal, o centro das atenções está em um jovem talento da música e no piano histórico que ele está tocando -, mas também a grande condutora do suspense. Apenas na parte inicial do filme isso não ocorre. Nos primeiros 20 minutos da produção, o roteiro de Damien Chazelle nos apresenta não apenas os personagens centrais da produção – exceto os bandidos -, como também explica os interesses e relações que estão em jogo naquele “mise-en-scène”.

Nesta primeira parte da trama, percebemos toda a apreensão e aflição do personagem de Tom Selznick através dos grandes olhos de Elijah Wood. Algo que este ator sabe expressar é, sem dúvida, o medo e a aflição. :) De acordo com o texto de Chazelle, acompanhamos o drama quando ele está prestes do ápice. Depois de vermos ao deslocamento do piano que será um dos astros da noite, assistimos o medo e a insegurança de Selznick quando ele chega em Chicago.

Todo este drama acontece porque o músico, considerado o mais brilhante de sua geração, está há cinco anos sem tocar para o público. Esta ausência se explica porque na última tentativa dele de tocar Selznick travou. Envergonhado, ele desistiu da música até que, no tempo presente do filme, ele retorna para os palcos por insistência da mulher, Emma (Kerry Bishé), considerada uma das melhores e mais bem sucedidas atrizes de sua geração.

O casal é interessante, ainda que pouco crível. Nas raras cenas em que ficam juntos, Tom e Emma não parecem ter a química que deveriam – ou mesmo parece ser muito lógico aquela mulher linda e talentosa dividir a vida com um sujeito tão cheio de inseguranças. Certo que alguém pode argumentar que aquele era apenas um momento complicado para Tom e que ele poderia ser muito mais seguro e atraente fora daquela situação. Verdade. Assim como é verdade que o amor é algo muitas vezes sem lógica. ;)

O drama parece estar posto quando Selznick está prestes a enfrentar o palco. Para alimentar a tensão, no caminho para o espetáculo Selznick não apenas fica sabendo de Emma que não vai encontrar a mulher antes do concerto (o que poderia ter sido um consolo/conforto), como também passa por uma entrevista desastrosa com uma tal Marjorie. Ela entrevista Emma e, em seguida, coloca Tom contra a parede.

É neste momento que ouvimos falar, pela primeira vez, de La Cinquette, uma “obra que não pode ser reproduzida” e que teria ajudado Selznick a travar da última vez. Prestes a subir no palco, Selznick vê que a partitura de La Cinquette faz parte do programa, mas ele a tira dali. O drama está posto, mas ele vai ficar ainda pior quando o protagonista começar a tocar a primeira peça.

Uma nada discreta cor vermelha se destaca em meio às partituras, e nesta primeira sequência de fatos temos o melhor do filme. Cada nova instrução escrita no papel é acompanhada de uma ação importante de Selznick e da expectativa de desastre – que se resume a ele travar e/ou desistir do concerto – por parte de Emma e do restante do público.

A música clássica tocada pela orquestra do maestro Norman Reisinger (Don McManus) e pelo piano de Selznick e a competente edição de José Luis Romeu dão o tom do suspense. Pela primeira vez Selznick esboça não apenas a sua insegurança, mas também uma certa determinação em entender o que está acontecendo e buscar sobreviver – além de salvar Emma.

A ameaça é real, e o músico percebe isso quando tem a luz vermelha de uma arma de longo alcance apontada para ele. Agora, um detalhe, entre muitos outros, que torna a história pouco crível: em certo momento esta luz vermelha chega a deslizar pela partitura que está à frente de Selznick. O atirador está em um camarote no ponto alto do teatro, do lado oposto ao do músico. Impossível aquela luz do alvo deslizar pelo papel que estava posicionado em posição perpendicular.

Essa primeira parte, de ameça “muda”, sem dúvida é a melhor do filme. Porque na sequência Selznick vai até o camarim – um ato muito “excêntrico” para um músico que tinha apenas acabado o primeiro ato do espetáculo – e daí as ameaças passam a ser verbais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início, elas funcionam. Mas depois começam a ficar muito repetitivas. Afinal, o vilão resume grande parte de suas ameaças a “vou estourar os miolos de Emma”. Chazelle deveria saber que repetição no cinema sem novos temperos nunca funciona – especialmente em um suspense, quando se espera que novos fatos sempre alimentem a tensão.

O problema nesta segunda fase do suspense de Grand Piano é que nem sempre a troca de diálogos é interessante. Além de repetitiva, em muitos momentos, parece que falta um pouco de inspiração para Chazelle – diferente da música, que é ótima do início ao fim. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas o problema no roteiro começa mesmo quando Selznick tira o celular do bolso e começa a interagir com o amigo Wayne (Allen Leech). Se até então o vilão da história estava atento a cada mínimo movimento de tom, de verdade mesmo que o roteirista achou que iríamos engolir que ele não notaria aqueles movimentos estranhos do músico mexendo no celular?

Os personagens de Wayne e Ashley (Tamsin Egerton), aliás, são os piores da trama. Não apenas não entendemos muito bem a relação deles com o casal Selznick – seriam amigos? parentes? – como também não fica clara a função deles para a trama. Quer dizer, em certo momento isso fica claro… eles estão ali para morrer de maneira fácil, sem grande suspense. Eis mais um problema no roteiro.

Depois, a razão de toda aquela tensão é explicada. E aí surge outro elemento para encorpar o suspense: Selznick deve tirar de “ouvido” a dificílima La Cinquette. A razão? A partitura que o vilão colocou para Selznick foi destruída e ninguém tinha uma segunda cópia por ali (quanta distração deste bandido!).

Depois de relembrar La Cinquette, Selznick volta para o piano e, finalmente, fica sabendo porque deve tocar esta obra. O mistério está desvendado. E daí para o final, o filme apenas abaixa a tensão e o suspense. Perde fôlego nos 18 minutos finais. É muito tempo para isso acontecer. E o final… sem surpresas ou impacto. Quase brochante.

Apesar do roteiro deste filme ser o seu ponto fraco, a direção de Eugenio Mira é ótima. Ele não apenas escolhe os planos certos, valorizando o teatro, o piano, a orquestra e os atores principais, como também joga com diferentes ângulos e com uma dinâmica de câmera precisa. Em diversos momentos ele me fez lembrar o mestre Alfred Hitchcock. Pena que a história de Grand Piano não soube manter a qualidade inicial.

NOTA: 7,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sei que muitos de vocês vão discordar de mim, mas não posso me eximir de fazer este comentário. Para mim, um dos problemas de Grand Piano é ter um ator apenas regular no papel principal. O melhor da expressividade de Elijah Wood são os seus olhos azuis “saltados”. Além deles, sobra pouco para a interpretação do ator. Talvez a testa franzida em diversos momentos. E só. Mas o papel de Selznick pedia um pouco mais de expressividade do que isso. E como grande parte da trama está centrada nele, temos um problema em cena.

Além de Elijah Wood, ganha um pouco de destaque o trabalho de Kerry Bishé. A atriz, diferente de Wood, encarna muito bem o papel da profissional de sucesso no cinema e que procura ajudar o marido a voltar ao estrelato. Bishé lembra musas do cinema, em especial uma das preferidas de Alfred Hitchcock (algo me diz que não é coincidência): Grace Kelly.

Além de linda, Bishé mostra o estilo de interpretação necessário e justo para Emma. Outra figura que aparece só no final, mas que ajuda a manter certo suspense na produção, é John Cusack como o vilão Clem. Cusack… coitado. Há muito tempo eu não vejo ele convencendo no papel que for. Aqui, novamente, o ator entrega um estereótipo do personagem, em uma interpretação carregada demais.

Entre os coadjuvantes, gostei do trabalho de Don McManus como o maestro – ele encarna não apenas o profissionalismo que aquele posição exige, mas também um bocado de simpatia e de empatia com Selznick. Alex Winter fecha a lista de figuras centrais em uma interpretação condizente com a de “assistente” de vilão. E o competente Allen Leech, mais conhecido como o Tom Branson da série Downton Abbey, acaba sendo eclipsado em um papel bobo e ralo – a exemplo da parceira de cena na maior parte do tempo, Tamsin Egerton.

Agora, uma pequena ponderação sobre o argumento central de Grand Piano. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Será mesmo que esperar pelo aguardado concerto que marcou o retorno de Selznick aos palcos seria a melhor oportunidade para Clem conseguir acessar a chave que lhe daria a fortuna do falecido Godureaux? Não teria sido mais fácil sequestrar Selznick e levá-lo até o casarão abandonado onde estava o piano? Certo que fácil não seria, mas acho que o plano que acabo de comentar seria menos suscetível a problemas do que o de fazer isso no teatro cheio. Tentar forçar Selznick após o concerto seria complicado porque o piano tinha os seus seguranças “particulares” – gente ligada ao seguro do instrumento, aparentemente.

Da parte técnica do filme, além da acertada e competente direção de Eugenio Mira, gostei muito da trilha sonora de Víctor Reyes, da já citada excepcional edição de José Luis Romeu, do design de produção de Javier Alvariño e da edição de som da equipe de Francisco Elías Toro Ramírez.

Logo nos créditos iniciais me chamou a atenção que a maior parte dos recursos deste filme veio da Espanha. Interessante ver como esta produção espanhola nasceu com uma pegada internacional. Não apenas pela escolha do local para a história – Chicago – mas, especialmente, pelos nomes envolvidos no elenco. Por trás das câmeras estão muitos nomes espanhóis, inclusive o diretor Mira, natural de Alicante. O roteirista, contudo, é norte-americano e tem apenas 29 anos de idade.

Grand Piano estreou em setembro de 2013 no Austin Fantastic Fest. Depois, o filme participou ainda de outros quatro festivais. Nesta trajetória, ele recebeu dois prêmios e foi indicado a outros nove. Grand Piano faturou os prêmios de Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora conferidos pelo Cinema Writers Circle da Espanha.

Não há quase informação alguma sobre a grana que circula por Grand Piano. Não encontrei informações sobre o custo da produção e, no site Box Office Mojo, consta apenas US$ 9,89 mil de bilheteria nos Estados Unidos – o filme estreou no dia 7 de março por lá. Até o momento, pois, fica impossível saber se o filme está se saindo bem ou não.

Para quem gosta de saber sobre o local em que os filmes foram rodados, Grand Piano teve cenas feitas em Las Palmas de Gran Canaria, localizada na parte nordeste da Gran Canária, na Espanha; em Barcelona e em Chicago.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6 para Grand Piano. Uma avaliação condizente com o padrão do site, na minha opinião. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 33 críticas positivas e sete negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 83% – e uma nota média 6,8. Alguns críticos, como Stephen Holden do New York Times e Robert Abele do Los Angeles Times, destacam o fato de Grand Piano ser um filme B – ou seja, de baixo orçamento e que se caracteriza por exagerar nos tons de forma proposital. Ambos disseram que o filme diverte, apesar de não inovar.

CONCLUSÃO: Música clássica e clima de suspense sempre combinam. Grand Piano sabe explorar isso muito bem ao escolher uma trilha sonora vigorosa e alguns momentos de tensão. O problema é que a premissa inicial, que poderia render um bom curta-metragem, não sustenta um longa – mesmo que ele tenha apenas 1h30min de duração. Após a tensão inicial, o suspense de Grand Piano fica repetitivo e um tanto previsível. Há diversas sequências pouco críveis, e um final que chega a ser brochante. Mas para quem não tinha grandes expectativas para este filme, como era o meu caso, até que a experiência não foi um desastre. Vale como puro passatempo. Mas, como eu disse no início desta crítica, há outros filmes do gênero melhores no mercado.

Lone Survivor – O Grande Herói

16 de março de 2014 4 comentários

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Muitos filmes de guerra flertam com o patriotismo exagerado. Bom e protegido por Deus é aquele que defende o nosso país, e o mal está do lado do inimigo. Defender bandeiras é algo comum neste gênero. E mesmo sem escapar desta característica, que normalmente eu acho prejudicial, Lone Survivor surpreende pelo realismo, a ótima direção de Peter Berg e uma história que faz homenagens. Não apenas aos combatentes que viram “irmãos” mas, principalmente, ao senso de justiça e de honra. Baita filme, e que mereceu a bilheteria que fez nos Estados Unidos.

A HISTÓRIA: Um soldado é retirado da água fria e lhe perguntam o quanto é seis vezes três. Ele treme. Outro soldado, também tremendo, responde 18. Em seguida, várias cenas de treinamento pesado, muitas que levam os soldados até o esgotamento físico e mental. Há quem veja ali imagens de tortura – especialmente as cenas da técnica “impossível de respirar”. Todos são ensinados a não desistir. Depois, a informação de que a trama que se segue é baseada em uma história verídica. Afeganistão. Pouco a pouco, um helicóptero se aproxima.

Dentro dele, o soldado Marcus Luttrell (Mark Wahlberg) está muito ferido e recebendo atendimento médico. Enquanto a ação se desenrola, ouvimos Luttrell falando da tempestade que cada um carrega dentro de si, sobre a necessidade de cada soldado ser empurrado até o extremo. Em seguida, a ação volta três dias no tempo, quando Luttrell e seus companheiros partem para uma missão arriscada e que vai se mostrar de grande sacrifício.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lone Survivor): As primeiras cenas deste filme me preocuparam. Isso porque elas me pareceram um preâmbulo para dizer que todos os exageros praticados na preparação dos soldados é justificado. Inclusive a polêmica técnica “impossível de respirar”, que leva os soldados a mergulharem em uma piscina totalmente imobilizados, considerada por muitos uma espécie de tortura, poderia fazer parte de um treinamento necessário segundo o filme dá a entender. Conforme a história vai passando, fica evidente que aquelas cenas reais no início da produção fazem parte do conjunto da obra para explicar o que virá. A surpresa não está na justificativa, propriamente, mas no que veremos no decorrer da história.

Como pede a técnica utilizada por muitos roteiristas, Lone Survivor gasta os primeiros minutos da produção para mostrar um pouco da “vida comum” dos Navy SEALs – a elite da Marinha dos Estados Unidos – antes de mergulhar na ação propriamente dita. O primeiro acerto deste filme é que ele não gasta muito tempo com a “introdução trivial”. Há um pouco de humor ali, um pouco de “humanização” dos personagens centrais, mas nada que comprometa muito da narrativa. Afinal, o que realmente importa é a ação.

Logo o espectador é apresentado para os detalhes da missão liderada por Michael Murphy (Taylor Kitsch). Ele vai para a missão de reconhecimento em um terreno íngrime no Afeganistão junto com Matt Axelson (conhecido como Axe, interpretado por Ben Foster), responsável por registrar os alvos; Danny Dietz (Emile Hirsch) responsável pela comunicação com abase; e Marcus Luttrell nos cuidados com os mantimentos/suprimentos.

Funciona muito bem a forma com que o diretor e roteirista Peter Berg apresenta a missão do grupo de quatro Navy SEALs. Isso porque o espectador guarda os indicativos que vão servir para aqueles soldados enviados em uma missão de reconhecimento para identificar os alvos: Ahmad Shah (Yousuf Azami), comandante sênior do Talibã, em primeiro lugar e, como segundo alvo, o braço direito dele, Taraq (Sammy Sheik). Os nomes de marcas de cervejas para marcar os diferentes estágios da missão e o nome do cantor de funk e soul norte-americano Rick James representando Shah são fáceis de lembrar e ajudam o espectador a começar a sua própria torcida.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Ainda que o título original desta produção seja muito sugestivo (Lone Survivor significa, em uma tradução livre, Único Sobrevivente) e que fique subentendido que o personagem de Mark Wahlberg deve ter sido o único sobrevivente daquela missão de reconhecimento, conforme a história vai se desenrolando, o espectador é levado a torcer para aqueles homens incansáveis. E aí, quando naquela missão as coisas começam a dar errado, você aprende o significado da paciência. Afinal de contas, é preciso lutar e esperar pelo próximo golpe antes de revidar já que, não se esqueça, tudo pode piorar.

E neste quesito que Lone Survivor se revela um esplendor de cinema de guerra e de ação. Porque quando a artilharia começa, o espectador é lançado a uma eletrizante sequência de luta que fala muito sobre a persistência do ser humano em tentar sobreviver e atingir os seus objetivos. E no caso daqueles homens, com o objetivo principal tendo se esvanecido – capturar e/ou matar as lideranças do Talibã -, o que passa a ser prioridade é cuidar da vida dos companheiros de farda e tentar sobreviver, voltando para casa assim que possível.

Mas a vida daqueles soldados vira um inferno. E tudo começa porque, caramba!, a comunicação falha. Não adianta o investimento bilionário de todos os anos, há regiões ermas deste mundo em que a tecnologia existente não é capaz de solucionar as limitações provocadas por montanhas de diferentes envergaduras.

Mesmo baseado em uma história real, achei interessante como o roteiro de Berg, inspirado no livro de Marcus Luttrell e Patrick Robinson, não maquia esta “falha de recursos” dos Estados Unidos. E mesmo depois, quando a história está na reta final, Lone Survivor não esconde que o erro de estratégia do comando, ao enviar os helicópteros de apoio para outra missão antes de saber se a equipe de reconhecimento iria passar por algum aperto ou se estava segura. Houve falhas na operação, não há dúvidas, e o roteiro deste filme não as desmente ou encobre.

Para mim, o primeiro grande momento de Lone Survivor é quando Marcus Luttrell, Danny Dietz e Matt Axelson discutem o que eles devem fazer com os pastores de cabras naquela montanha do Afeganistão. A lógica pedia que a recomendação de Dietz e Axe fosse seguida, ou seja, que eles deveriam deixar eles amarrados ou eliminar a ameaça. Caso fizessem isso, a missão prosseguiria e eles estariam seguros – pelo menos, em teoria. Mas Luttrell argumenta diferente, e pede que Michael Murphy respeite as regras da guerra e dos direitos humanos, não importando o que poderia acontecer com eles na sequência. O medo dos soldados, claro, era que aqueles pastores os dedurassem para os inimigos.

Só achei a sequência da discussão um pouco longa e “politicamente correta” demais. Será mesmo que eles ficariam tanto tempo argumentando até que Murphy tomasse a decisão? Acho que uma situação como aquela pediria uma resposta mais rápida. Ainda assim, é um momento decisivo do filme – porque, entre outras coisas, mostra o sentido de honra por parte dos Navy SEALs – eles fazem o correto, apesar de saberem o preço que podem pagar na sequência.

Mesmo que este momento seja importante, para mim o filme começa a impressionar de verdade e a mostrar como ele é diferente de qualquer outro do gênero quando, acuados pela primeira vez, decidem “sair” daquela situação em queda livre. Uau! O que foi aquela sequência? Decisiva para a história e de cair o queixo. Mas ela seria apenas a primeira de muitas cenas que mostraram a bravura, coragem e determinação daqueles soldados. Para eles, não havia dor e nem sentimento de derrota. Eles iriam até o fim, até o ponto em que não pudessem aguentar mais.

Até chegar naquele ponto, tentariam matar ao máximo de inimigos. E fizeram muito estrago. Apesar disso, Lone Survivor não é um filme em que todos os “mocinhos” se saem bem. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E o protagonista mesmo, só sobrevive porque Gulab (Ali Suliman), literalmente, lhe estende a mão. E daí que aprendemos uma outra lição sobre honra. Ensinamento este que será compreendido apenas se você ficou assistindo o que veio após as cenas de ação finais. Lone Survivor mergulha na homenagem aos homens reais que viveram esta história e, só então, explica a razão de Gulab ajudar a Marcus Luttrell – para mim, um grande acerto dos realizadores. Afinal, eles mantém a dúvida dos espectadores até o último minuto, mas não deixam de dar uma explicação para o que havia acontecido.

Mas antes disso tudo acontecer, há uma outra sequência que torna este filme eletrizante e diferenciado. Praticamente derrotados, Marcus e Axe comemoram quando a “cavalaria” chega pelos ares. Eles – e nós por tabela – chegamos a pensar: ufa, a salvação será possível! E aí, meus caros, acontece mais uma surpresa no filme. Imagens realistas, sem dúvida, assim como todas as outras para as quais somos apresentados. Aliás, uma qualidade do trabalho de Berg é dirigir de uma forma com que você se sente um “companheiro” ao lado dos Navy SEALs. Forma muito eficaz de imersão do espectador – e o diretor dá uma aula neste quesito, mantendo a câmera sempre perto dos atores e se movimentando muito com eles.

Na reta final, finalmente, tive o meu temor sobre este filme ser um grande libelo ufanista sobre os combatentes dos Estados Unidos praticamente todo eliminado. Claro que grande parte da produção é para mostrar a entrega deles. Mas o final de Lone Survivor redime qualquer leitura injusta dos “inimigos” ao mostrar que, além dos extremistas, existem pessoas comuns que não querem ver as suas famílias sendo exterminadas por conflitos que eles não concordam.

E a exemplo de Murphy, que decide fazer o certo independente do preço que eles e seus companheiros iriam pagar, Gulab também decide fazer o certo, mesmo sabendo que poderia morrer e que todos em seu vilarejo poderiam ter o mesmo fim. Desta forma, com uma direção eletrizante e competente e uma história que tem algumas surpresas cruciais, Lone Survivor nos ensina um bocado sobre o senso de dever, de fazer o que é certo e justo. Em outras palavras, o senso de honra. Bacanérrimo.

Agora, apesar de todas as qualidades deste filme, ele não recebe a nota máxima porque, de fato, acho que ele justifica demais alguns absurdos na postura dos “heróis norte-americanos”. Ainda que eles busquem fazer o que é certo, dá para perceber um certo controle de “vou matar todos vocês” quase todo o tempo, não importante quem seriam, exatamente, aquele “todos vocês”. E ainda que os soldados sejam levados ao extremo nos treinamentos para estarem preparados para batalhas como aquela vivida pela equipe de Murphy, jamais eu vou achar que a tortura seja justificável. Uma coisa é a hora da batalha, quando as pessoas devem se superar, outra é a de preparação para aquele momento.

De qualquer forma, e descontados os exageros no patriotismo, Lone Survivor nos traz valiosos ensinamentos sobre honra, senso de lealdade, capacidade de superação e de ultrapassar os próprios limites do corpo, da dor e da mente. Inspirador. E faz refletir. Além de ser um ótimo entretenimento, com uma ação muito bem planejada – dando os devidos momentos para a adrenalina e para as sequências lentas e de contemplação/reflexão. Quase irretocável.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei da escolha dos realizadores deste filme por apostarem 90% da produção (ou mais) na dinâmica do grupo de reconhecimento enviado para capturar/matar as lideranças do Talibã. Concentrar a ação naqueles personagens dinamiza a história e torna mais fácil estimular o espectador para torcer pelos atores – que, aliás, fazem um grande trabalho. Ainda assim, acho que faltou um pouco mais de “conteúdo” sobre os bandidos que deviam ser combatidos.

Esta produção me surpreendeu por ter elementos que podem interessar tanto ao público masculino quanto ao feminino. O primeiro é fisgado não apenas pelas ótimas cenas de combate e de ação, mas também pelas piadinhas feitas com o novato Shane Patton (Alexander Ludwig). O segundo público vai gostar das sequências iniciais, quando o belo elenco ainda não está detonado, achará interessante a dancinha de Shane e seguirá com atenção os bonitões em cena – mesmo quando eles estiverem bem destruídos. Como eu gosto de todos os estilos de filme, gostei de Lone Survivor por todos estes quesitos e todos os demais que eu comentei anteriormente. :)

Fiquei impressionada com o trabalho do diretor Peter Berg. Ele dá um show na forma de conduzir a história, dando não apenas realismo para ela, mas também cuidando para não fazer de Lone Survivor apenas mais um filme de guerra cheio de tiroteio. Ainda que haja muitas sequências deste gênero, o diretor também valoriza o trabalho dos atores, da equipe de maquiagem e do diretor de fotografia, adicionando cenas de pura contemplação em diversos momentos.

Por falar na equipe técnica do filme, além do trabalho de Berg, merece uma longa reverência o trabalho do editor Colby Parker Jr., a direção de fotografia de Tobias A. Schliessler e a maquiagem feita pela equipe de nove profissionais liderados por Howard Berger e Geordie Sheffer. Outro ponto importante da produção e que funciona muito bem é a trilha sonora de Explosions in the Sky e Steve Jablonsky. Ainda que o forte do filme seja o som e a edição de som dos momentos de batalha, a trilha sonora entra em situações pontuais e que ajudam a alimentar a tensão/expectativa/torcida.

Lone Survivor estreou no Festival de Cinema da AFI em novembro de 2013. Esta foi a única participação do filme em eventos do gênero. Mesmo assim, a produção recebeu cinco prêmios e foi indicada a outros 12 – incluindo a indicação para dois prêmios no Oscar. Entre os principais estão o de Performance de Ação Marcante de Elenco no Screen Actors Guild Awards; e os de Melhor Filme de Ação e Melhor Ator em Filme de Ação para Mark Wahlberg entregues no Broadcast Film Critics Association Awards.

Para quem gosta de saber sobre o local de gravações dos filmes, Lone Survivor foi totalmente rodado no Novo México – com cenas externas e em estúdio na cidade de Albuquerque.

De acordo com o site Box Office Mojo, Lone Survivor teria custado aproximadamente US$ 40 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 124,6 milhões. Um belo resultado, e que deve ficar ainda melhor quando a produção estrear em outros mercados no mundo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para Lone Survivor. Uma ótima avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 147 textos positivos e 48 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média de 6,6.

Este é um filme com produção 100% dos Estados Unidos – sendo assim, ele entra para a lista de títulos que foram comentados aqui no site, daquele país, após uma votação feita com vocês, meus bons leitores.

Termino o texto inicial por aqui. Assim que possível, vou acrescentar algumas curiosidades sobre esta produção. Até logo!

ATUALIZAÇÃO (10/06): Colocando os links neste texto, algo que não fiz quando o publiquei, é que notei um esquecimento imperdoável. Não citei o bom trabalho do ator Eric Bana como o comandante Erik Kristensen. Falha minha! Mas corrigida agora. Bana está bem no papel, ainda que Kristensen não tenha grande relevância para a história – comparado com os quatro protagonistas.

CONCLUSÃO: Não fique surpreso se, mesmo tendo assistido a diversos filmes sobre guerras e ações promovidas pelos Estados Unidos, você ficar boquiaberto com Lone Survivor. Da minha parte, posso dizer: nunca vi a um filme como este. E isso não apenas porque esta produção é baseada em fatos reais – uma característica marcante dos indicados no último Oscar. Mas principalmente pela honestidade na narrativa. O roteiro é eletrizante, e a direção, exemplar. O filme envolve e surpreende e, apesar do patriotismo ianque – que, cá entre nós, acho cada vez mais justificável e compreensível -, rende a devida “homenagem” ao outro lado. Porque, afinal de contas, nem todos são inimigos no território inimigo. Se você gosta de filmes do gênero, não deve perder este.

Svecenikova Djeca – The Priest’s Children – Os Filhos do Padre

13 de março de 2014 2 comentários

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Os temas sexo e Igreja sempre rendem pano para manga. Especialmente quando eles são juntados em uma mesma história. Com música e início que flertam com a comédia, Svecenikova Djeca aos poucos vai se revelando mais sério do que parece. Este filme croata-sérvio trata de temas contemporâneos muito presentes dentro e fora da Igreja. Irônico, mexe em algumas feridas e também faz pensar.

A HISTÓRIA: Choro de criança. Depois, a imagem de um bebê chorando em um berço. Ao lado dele, outras crianças e, no meio delas, um homem barbudo. Batidas na porta. O capelão Simun (Filip Krizan) entra e cumprimenta o homem deitado na cama – que não tem nenhuma criança ao seu redor. Simun pergunta sobre a operação, e o homem comenta que não haverá nenhum aborto, antes de acender a um cigarro.

Em seguida, pergunta se Simun foi ali para daouvir uma confissão. Apesar da resistência inicial, o homem começa a contar a sua história, desde que ele chegou a uma ilha na Croácia logo após sair do seminário como padre Fabijan (Kresimir Mikic). A partir daí, conhecemos cada passo do padre no lugar, incluindo a missão que ele assume de buscar “empatar” o número de nascimentos com o de mortes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Svecenikova Djeca): Este filme começa com uma premissa inteligente. Um padre, recém-saído do seminário, assume a missão de substituir a um pároco muito popular. Incomodado com o alto número de mortes no local e com o baixo – para não dizer zerado – índice de natalidade, ele resolve agir.

Alguns temas fundamentais para a Igreja fazem parte deste filme. Entre outros, os espinhosos assuntos do sexo fora do casamento, da fidelidade e do pecado dentro da própria Igreja. Além dos assuntos que envolvem o catolicismo, Svecenikova Djeca aborda questões que são relevantes para a Europa, como a disputa entre povos, a imigração, a baixa natalidade e o fascínio que notícias sobre “locais milagrosos” despertam nas pessoas por intermédio da mídia.

A intenção do diretor e roteirista Vinko Bresan, que escreveu Svecenikova Djeca junto com Mate Matisic, claramente, é fazer comédia com estes assuntos. Ou, na melhor da hipótese, tocar nas feridas da Igreja para fazer uma crítica ao “modus operandi” de diversos de seus participantes. Francamente, os realizadores escolheram o caminho fácil, abordando os temas apenas pelo lado da crítica à Igreja.

Por ser formada por pessoas de carne e osso, a Igreja está suscetível a falhas. Não há dúvidas. Mas ela não é apenas isso. Também há muita dedicação, fé, entrega e caridade na Igreja. Mas os problemas é o que costumam ser ressaltados, e não os valores ou as qualidades. Dito isso, falemos do filme que aborda apenas um lado das questões.

Achei interessante a premissa de Svecenikova Djeca. Como o novo pároco de uma comunidade onde são registradas muitas mortes e quase nenhum nascimento deve se portar? Este drama de gente idosa partindo desta vida pra melhor e de pouca renovação na comunidade é vivido por muitas e muitas cidades na Europa. A Igreja, e todos sabem disso, defende a vida em qualquer situação. E nesta defesa, faz parte a premissa de que as mulheres que tem vida sexual ativa devem ter filhos sempre que for “a vontade de Deus”.

Evidentemente que esta ideia vai contra os meios de prevenção da gravidez. Afinal, se é da vontade de Deus, a mulher deve engravidar – e não evitar isso com contraceptivos ou o uso da camisinha. No início de Svecenikova Djeca, o protagonista nos mostra de maneira divertida e bem direta a grande diferença que separava ele do padre que ele deveria suceder, o padre Jakov (Zdenko Botic).

Enquanto o velho pároco estava bem inserido na comunidade e participava das principais atividades da ilha, Fabijan ainda tentava se encaixar. Em diversos momentos isto ficou evidente, como na Páscoa, quando se formou uma grande fila de pessoas querendo se confessar com Jakov e quase ninguém com Fabijan. Com pressa, o empregado de uma banca de jornais que também vendia camisinhas na entrada da cidade, Petar (Niksa Butijer), resolve se confessar com Fabijan. E daí que a história toda começa.

Em dúvida se estava pecando por vender camisinhas e impedir que diversas crianças nascessem, Petar confessa para o padre esta inquietude provocada por comentários de sua mulher, Marija (Marija Skaricic). Daí que Fabijan tem uma brilhante ideia: por que não dar uma “ajudinha” para Deus aumentar o número de nascimentos e casamentos naquela comunidade? E a partir daí que tudo vai se complicando nesta história.

Para mim, parece evidente que o padre protagonista não poderia simplesmente ter feito aquilo. Afinal, mesmo que ele fosse contrário ao uso de contraceptivos, ele jamais poderia atuar para acabar com o livre-arbítrio das pessoas. Isso seria contra o que prevê a própria Igreja. Além disso, não adianta apenas aumentar a natalidade. É preciso também ter sexo e relacionamentos com responsabilidade e com amor – esta é a base do que a Igreja defende, muito mais que simplesmente proibir a camisinha ou outros meios de contracepção.

Mas é claro que Svecenikova Djeca não iria “problematizar” a questão. É mais fácil pegar o tema da “proibição da camisinha” e o do “pecado carnal de padres” e tratá-los de forma ligeira, fazendo piada e crítica sobre eles, do que discutir estas questões mais à fundo. Ainda que o roteiro do filme seja ligeiro demais para o meu gosto, a verdade é que a dinâmica de Svecenikova Djeca se desenvolve muito bem em grande parte do tempo – apenas no final, quando Jure (Goran Bogdan) começa a dar o seu “showzinho de bêbado” é que a história fica um pouco arrastada.

Querendo ou não, o roteiro de Bresan e Matisic mostra criatividade e alguns acertos. A dinâmica é boa, como comentei antes, e há personagens interessantes além dos padres. Por exemplo, a dupla Petar e Marin (Drazen Kuhn), que acaba sendo a grande “aliada” de Fabijan na “missão” de fazer a natalidade da comunidade avançar. Os dois acabam investigando a vida amorosa de todos naquela comunidade. Para isso, utilizam com bastante frequência os seus celulares, produzindo vídeos e fotos como provas. hehehehe. Essa foi uma sacada genial. Afinal, nunca a tecnologia foi uma aliada tão eficaz para acabar com a privacidade das pessoas.

Pouco a pouco o padre Fabijan e seus “comparsas” acabam “ajeitando” a vida pregressa dos casais, ajudando quem fazia sexo sem compromisso a formar suas “famílias”. Claro que a solução não seria esta. Para a Igreja, o sexo deveria vir só depois do casamento. E a união de duas pessoas deveria ser feita por meio do amor e do conhecimento profundo um do outro. O remendo que Fabijan orquestrou naquela ilha não garantia a felicidade dos casais, apenas melhorava a proporção nascimentos/óbitos.

Um acerto de Svecenikova Djeca é a ponderação que o filme faz sobre isso. Na sequência em que Petar observa a mulher com um recém-nascido no colo, fica evidente a intenção dos roteiristas em dizer que ter filho significa trabalho. Além de muitas despesas. Uma criança não deveria ser apenas desejada, mas também planejada. Os pais precisam (ou deveriam) estar preparados, em todos os sentidos. Esta é uma ponderação interessante do filme, ainda que seja explorada em segundo plano na história.

Algo interessante que esta produção explora e que independe do tema principal, que envolve a Igreja, é de como um ato falho leva a outro e assim por diante. Dificilmente alguém que conta uma mentira não precisa contar várias outras para encobrir a primeira. E o mesmo vale quando você toma uma atitude que muda a vida de uma ou mais pessoas. Quando vê, o protagonista desta história está tão perdido nos efeitos de seu ato de furar camisinhas que há pouca chance dele sair ileso daquela situação. E isso acontece na vida real de diferentes formas.

Dentro das críticas que o filme faz à Igreja, vale citar a chegada do bispo (Lazar Ristovski) na comunidade para averiguar uma carta irada escrita por Marija depois que ela encontra uma camisinha nas roupas do padre Fabijan. A preocupação do bispo é se o padre estava usando a camisinha com crianças – especialmente meninos – da paróquia. E chega a comentar que é preferível o padre usar a camisinha e não engravidar alguém como outros “padres irresponsáveis” haviam feito.

A conversa do bispo com Fabijan é, sem dúvida, a parte alta da crítica que Svecenikova Djeca faz à Igreja. Ali, além de citar os casos de pedofilia de sacerdotes de diferentes países e de falar sobre os cuidados que os padres deveriam ter, o bispo ainda joga a ideia de que se Fabijan estivesse indo para o caminho da pedofilia, teria que transferi-lo. É como se o filme dissesse que a Igreja apenas acoberta estas práticas. De fato, houve momentos e locais em que isso foi feito. Mas o Papa Francisco, atualmente, deixa claro que isto não deve mais acontecer.

E quando você acha que o filme já tinha explorado todas as fragilidades da Igreja possíveis… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Daí os roteiristas resolvem pegar pesado e sugerem que o “adorado” padre Jakov era não apenas um explorador de menores – afinal, ele engravidou uma adolescente, Kristina (Lana Huzjak) -, mas que ele também poderia ser um assassino. Não fica claro, no filme, se ele era culpado apenas pela gravidez da menina ou se ele teria agido diretamente para concretizar a morte da jovem. Pesado, não?

De qualquer forma, discutir estes temas não é o propósito deste blog. E ainda que eu costume tratar dos assuntos dos filmes além de falar da qualidade deles, não vou me estender na discussão levantada por Svecenikova Djeca porque ela, afinal de contas, debate a prática de uma religião. E quando isso acontece, cada um vai se apegar no argumento que melhor lhe interessar. Há quem vai enxergar apenas um lado da questão e há quem vai ponderar todos os lados, percebendo que há acertos, lógica, erros e tropeços neste debate.

Falando exclusivamente do filme, Svecenikova Djeca é uma produção que apresenta criatividade e alguns bons momentos. A história flui em uma hora e meia de filme, com uma boa direção de Vinko Bresan e a escolha de bons atores nos papéis centrais. O protagonista, em especial, merece aplausos. Kresimir Mikic faz um ótimo trabalho como o padre Fabijan, apresentando todas as boas intenções e fragilidades do personagem.

Também gostei do cenário escolhido para narrar esta história. Interessante ver os costumes e as paisagens de um pedacinho da Croácia, este país que é tão pouco explorado pelos filmes. Curioso perceber como as características daquele lugarejo se parecem com as de muitos outros lugares do mesmo porte e que estão em diferentes culturas. No fim das contas, o mundo é mesmo um pequeno grão de feijão. Temos mais semelhanças que diferenças para compartilhar.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A história de Svecenikova Djeca segue a linha clássica de mostrar o principal do enredo com um flashback. Depois de vermos ao protagonista internado em uma instituição – sem sabermos, a princípio, se ela é para tratamento de saúde física ou mental -, somos apresentados à sua história com uma volta ao passado. O narrador é também o personagem principal, que está se confessando.

Pela história ter a dinâmica acima, a direção de Vinko Bresan trilha o caminho básico. A câmera dele normalmente fica estática, sem movimentações ou uma grande dinâmica. O foco está nos atores, sem inovação nas cenas – como alguns diretores fazem ao focar em outros elementos que fazem parte do contexto ou em planos diferenciados para quebrar a narrativa e/ou aprofundá-la.

O único recurso diferenciado que Bresan utiliza para quebrar a narrativa são as cenas em um cenário branco que reproduzem a imaginação do padre Fabijan. Criadas como esquetes curtas, estas cenas ajudam a mostrar como o padre tem uma visão esquemática e um tanto “criativa”. :)

Da parte técnica do filme, vale destacar o bom trabalho do diretor de fotografia Mirko Pivcevic e a competente edição de Sandra Botica. A trilha sonora assinada por Mate Matisic acaba sendo um recurso importante para o filme, ainda que ela carregue um pouco demais na ideia de comédia – e em muitas ocasiões este filme não faz rir.

Além dos atores já citados, responsáveis pelos principais momentos do filme, vale citar o nome de uma atriz que aparece menos na produção, mas que acaba ganhando uma relevância maior perto do final: Jadranka Djokic se sai bem como a louca Ana.

Svecenikova Djeca estreou em janeiro de 2013 na Croácia e na Sérvia, países que são responsáveis pela produção. Em julho do ano passado o filme participou de seu primeiro festival, o Karlovy Vary. Depois, o filme participaria ainda de outros seis festivais. Nesta trajetória o filme recebeu dois prêmios e foi indicado a outros dois. Os que recebeu foram o de Melhor Ator Coadjuvante para Niksa Butjer no Festival de Cinema Pula (promovido na Croácia) e um prêmio chamado “A Look at the Balkans Award” para Vinko Bresan no Festival de Cinema de Thessaloniki (realizado na Grécia e mais conhecido que o anterior).

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção. Uma boa avaliação. O site Rotten Tomatoes tem apenas uma crítica sobre o filme – e ela é positiva. Para Ben Sachs, do Chicago Reader, esta coprodução sérvio-croata “começa como um tapinha (embora agradável) de sátira anticlerical antes de ter várias reviravoltas surpreendentes, algumas com assuntos bastante obscuros (uma das piadas mais audaciosas faz alusão à limpeza étnica)”.

O crítico compara o trabalho de Bresan com o do diretor espanhol Alex de la Iglesia afirmando que os dois conseguem preservar o tom brilhante, quase de desenho animado, de seus filmes não importando o que pode acontecer de ruim na história. A crítica original e curta de Sachs pode ser conferida aqui.

Não tratei antes sobre este tema, mas Sachs tem razão ao afirmar que outros temas densos são tratados por Svecenikova Djeca além da questão “crítica à Igreja”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O personagem de Marin se revela um extremista xenófobo e racista. A ponto de ser movido para a missão com o padre pela vontade de encher a ilha de descendentes bósnios e impedir, assim, a “ocupação” de muçulmanos e ortodoxos. Ele é que tem a ideia de mexer com as pílulas anticoncepcionais e diafragmas. Mas ele quase desiste do plano quando os estrangeiros começam a chegar no local – e, claro, Marin é contra os estrangeiros, especialmente sérvios e mouros. Assustador, mas muitos pensam como ele e acham que o ideal seria isolar as suas comunidades desta “gente vinda de fora”. Coitados!

Eu ia terminando estes comentários sem citar algo que, para mim, foi o ponto alto do filme: quando a notícia sobre o aumento da fertilidade da ilha onde se passa esta história ganha as notícias e o local passa a atrair turistas mesmo fora da temporada. Grande ironia! De fato, muita gente é atraída por qualquer superstição para tentar conseguir o que deseja. No caso do filme, muitos casais que tentavam ter um filho e não conseguiam buscaram a “magia” de um lugar como a ilha croata para tentar mudar a própria realidade. E pensar que isso acontece fora do cinema…

CONCLUSÃO: É fácil criar polêmica. Basta pegar temas delicados e fazer comédia com eles. Svecenikova Djeca entra na seara da fertilidade e da postura da Igreja sobre a concepção para fazer rir e também para fazer críticas. De fato, em alguns momentos, o filme consegue o primeiro intento. Mas a respeito do segundo… a leitura que Svecenikova Djeca faz da Igreja é muito, muito rasa. Típica de quem só consegue ver uma face da moeda. Como toda obra artística, este filme tem os seus propósitos e consegue atingi-los. Mas para quem conhece a Igreja um pouco mais de perto, a superficialidade do roteiro chega a incomodar. Nada demais, no fim das contas. Para resumir, eis um filme curioso, carregado de intenções muito evidentes e que enxerga apenas um lado da argumentação, mas que acaba cumprindo o seu papel para o debate e para alguns momentos de diversão.

Pozitia Copilului – Child’s Pose – Instinto Materno

9 de março de 2014 2 comentários

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Por trás de um grande idiota normalmente existe uma sequência de erros. E muitas vezes boa parte destes equívocos tem origem na criação do sujeito. Pozitia Copilului trata de um caso assim. Que poderia ser a história de diversos destes boçais que provocam horrores no trânsito ou em crimes contra as ex-namoradas e que fazem de tudo para sair ilesos. Com um baita roteiro, destes em que não é preciso tirar e nem acrescentar nada, este filme tem nas relações familiares e, especialmente, no domínio de uma mãe o seu argumento principal.

A HISTÓRIA: Sentada em um sofá e com um cigarro na mão direita, Cornelia Keneres (Luminita Gheorghiu) diz que tem vergonha de repetir o que lhe disseram. Mesmo assim, em seguida, ela diz que “estúpida” e “idiota” já viraram xingamentos habituais. Mas o grau desta vez superou em muito este padrão. Olga (Natasa Raab) escuta tudo com atenção e aconselha a irmã a deixar o filho em paz, pede para ela parar de sufocá-lo e esperar que ele a procure. Mas Cornelia não escuta. Ela diz que viu o filho, Barbu (Bogdan Dumitrache) depois de dois meses e meio e que a culpada de tudo é a nova mulher dele, Carmen (Ilinca Goia). Não vai demorar muito para que Barbu sofra um acidente grave que vai acabar testando ainda mais as relações familiares.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Pozitia Copilului): Como é bom assistir a um filme que valoriza o roteiro e o trabalho dos atores! Pozitia Copilului tem como protagonista uma mãe que faz absolutamente tudo para o filho, mesmo que ele esteja constantemente maltratando a mulher. Ser rejeitada pouco importa. Pouco a pouco vamos descobrindo mais sobre a personalidade de Barbu, assim como da protagonista, ao mesmo tempo que vai ficando claro o que aconteceu no acidente provocado pelo rapaz.

O roteiro de Razvan Radulescu com o diretor Calin Peter Netzer é uma pequena preciosidade. Antes de mais nada, porque ele vai entregando o ouro aos poucos. Nas primeiras frases do filme ficamos em dúvida sobre a origem das queixas de Cornelia. A primeira impressão é que ela está falando do marido, mas conforme o diálogo da personagem com a irmã vai se desenvolvendo, percebemos que ela está falando do filho.

O sujeito alvo de tantas críticas vamos conhecer um bocado de tempo depois, e não damos muita bola pra ele. Porque o personagem de Barbu é bem daquele jeito: um sujeito insignificante, sem nenhum grande predicado até que ele começa a abrir a boca e a maltratar a própria mãe. Na delegacia, quando ele está prestando depoimento, mais uma vez é Cornelia que se faz ouvir. O acerto no roteiro deste filme é justamente este de ir revelando sobre os personagens centrais pouco a pouco.

Outra vantagem desta história é que ela tem poucos personagens. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O protagonismo é da mãe, Cornelia, ainda que a história toda gire em torno do filho dela. As revelações sobre estes dois personagens e a dinâmica entre eles é que vai rechear o filme. Me impressionou o realismo de Pozitia Copilului. Digo isso porque não são poucas as mães como Cornelia.

Ela não apenas faz tudo pelo filho e o coloca em primeiro lugar, como faz questão de ter controle sobre tudo – desde o filho até o marido. Cornelia tem o perfil da mulher que sufoca, que não dá espaço para os outros serem – apenas para eles obedecerem e andarem conforme a música que ela compõe. E há ao menos um momento em que ela diz o que pensa com todas as letras: quando afirma que se realiza através de Barbu.

Oras, meus caros amigos e amigas, que desvio de função para um filho é este? De fato um filho ou filha deve ser a extensão dos anseios e desejos dos pais? Que tipo de cobrança e de controle é esse? E o mais assustador é que não é apenas a personagem de Cornelia que pensa assim, mas há muitas mães e pais por aí que tem esta lógica guiando as suas vidas.

Para mim, que ainda não sou mãe e, por isso mesmo, sigo sendo apenas uma filha, uma mãe ou pai nunca podem projetar os seus sonhos e frustrações em seus filhos. Primeiro porque este tipo de cobrança é injusta. Depois, porque um filho deve ser visto como um ser único, particular, para o qual devemos dedicar o nosso melhor, ensinar valores e a fazer o certo, mas que deve ter toda a liberdade para ser o que desejar ser e desenvolver as suas próprias vocações.

Quando uma pessoa assume a postura da personagem da Cornelia, ela passa a ser a carrasca da vida do filho, dizendo o que ele deve ou não fazer, o que deve ou não pensar, sem dar qualquer espaço para a individualidade do sujeito. A excelente atriz que faz Cornelia consegue vivenciar à risca esta personagem controladora, ao mesmo tempo em que transparece todo o amor de uma mulher por seu filho. Este amor materno é imenso e belíssimo, mas deve cuidar para não ser algoz do filho e de quem mais a rodeia por consequência.

Além de ter personagens muito bem desenvolvidos, Pozitia Copilului tem uma história simples e muito bem desenvolvida. Um personagem como Barbu, um sujeito adulto que viveu sendo mimado pelos pais – especialmente pela mãe – e que, desta forma, parece não ter limites para a própria verve de crueldade, normalmente é a criatura por trás de acidentes de trânsito que vitimam o lado mais fraco. No caso do filme – e de tantos casos da vida real -, um jovem adolescente de uma família simples e sem muitos recursos.

Dentro da lógica acertada dos roteiristas Radulescu e Netzer de ir soltando as bombas aos poucos, ficamos sabendo só bem mais tarde os detalhes sobre o acidente provocado por Barbu. Quando Cornelia avança na tarefa de encobrir o crime do filho e procura o outro motorista envolvido no acidente, Dino Laurentiu (Vlad Ivanov), para fazê-lo mudar o depoimento que tinha dado até então para livrar o filho de excesso de velocidade e de imprudência na morte do jovem rapaz vizinho do local do atropelamento, ficamos sabendo que Barbu estava não apenas dirigindo acima da velocidade permitida, mas que também dirigia de forma violenta. Para ser mais precisa, praticamente disputou um racha com Laurentiu – que afirmou que o outro vinha tentando ultrapassá-lo de forma babaca há tempos.

Já vi muitas situações como aquela descrita por Laurentiu no filme. Um sujeito qualquer, um babaca destes que existe aos montes no trânsito, surge de forma virulenta atrás de um outro carro e procura retirá-lo da pista a qualquer custo para ultrapassar em uma velocidade bem acima do permitido. Este comportamento violento, para mim, sempre foi indício de sujeitos desequilibrados. E muitos deles são exatamente como Barbu, adultos que não tiveram e nem tem limites porque sempre foram superprotegidos por mães que mandam e controlam suas famílias ricas e com muitas posses para achar que podem comprar a tudo e a todos.

Quantos equívocos, meu Deus! Não apenas de mães, pais e filhos, mas também de pessoas como Laurentiu que acabam cedendo na convicção de fazer o que é certo e frear esta soberba sem limites para apenas dar razão para os idiotas em um tipo de “corporativismo” dos abastados que acaba apenas dinamitando as nossas sociedades.

Agora, ainda que Cornelia e o marido Domnul Fagarasanu (Florin Zamfirescu), conhecido mais como Relu, sejam culpados pela falta de limites do filho, não dá para ausentar Barbu de sua própria culpa. Ele é um verdadeiro cretino, destes sujeitos desprezíveis e covardes que se fazem de vítimas quando é algo do próprio interesse mas que, por trás da fumaça de ilusões, dão a impressão que são incapazes de alimentar qualquer sentimento benéfico. Eu não sei se figuras como Barbu conseguem sentir – ou que tipo de sentimentos são capazes de alimentar.

E será que este poderia ser o único futuro de um filho criado por uma mãe controladora como Cornelia? Em certo momento ela recorda da época em que Barbu era amoroso, sensível e tudo o mais. Mas os pais se equivocam achando que o filho que eles tem na infância será o mesmo sempre caso ele não aprenda os valores certos.

Me parece evidente que a criança seja “obediente” e/ou “amorosa”, afinal, ela depende dos pais e só conhece aquela realidade – até uma certa idade. Mas depois, quando passa a pensar por sua própria conta, aquele mesmo indivíduo começa a ver as falhas dos pais, começa a discordar de parte da realidade em que vive. Se esta pessoa foi criada com os valores certos, o choque pode ser mais suave. Mas se foi formada com a noção de que pode fazer tudo e que não tem barreiras para nada, certamente o efeito será pior.

Mesmo afirmando isso, evidente que eu não acredito que uma figura como Barbu não poderia ter escolhido outra realidade para si mesma. Por mais trágica ou cruel que seja a nossa formação, temos toda a liberdade para nos curarmos daquele cenário no futuro. Dá trabalho? Com certeza, mas nada é impossível para o ser humano se ele quiser buscar o caminho do bem e superar os seus próprios males.

Agora, em uma realidade como a mostrada em Pozitia Copilului, no fim das contas, qual é o saldo possível daquele cenário e que poderia ser o retrato de qualquer acidente provocado por um sujeito sem limites nas nossas rodovias e estradas reais e mortíferas? Apenas o de perdas, de vítimas provocadas por relações entre pais e filhos nada saudáveis. Não apenas os pais do garoto morto (interpretados por Adrian Titieni e Tania Popa) viraram vítimas de Barbu junto com o filho, mas também Carmen sofreu na pele os destemperos daquele homem com sérios problemas de comportamento.

Mais que um ótimo desenvolvimento no decorrer do filme, com o aprofundamento da história e dos personagens, Pozitia Copilului tem um ótimo final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Quem estava simpatizando com Cornelia até aquele momento, dando razão para a mãe que estava fazendo de tudo para proteger o filho e afastá-lo da prisão – mesmo que isso significasse mentiras, suborno e que fosse errado -, passa a ter esta visão otimista balançada pela reta final da produção. Afinal, como não abominar aquela mulher que vai visitar os pais da vítima e que, mesmo ali, enaltece o filho ao invés de realmente se colocar no lugar dos outros? O egoísmo dela é de mexer com os brios.

E desta forma, com um roteiro inteligente e poucos atores, este filme comprova como tantos outros já fizeram que o cinema não precisa de rios de dinheiro. Basta uma grande ideia na cabeça e uma câmera na mão, praticamente. Com estes recursos é possível fazer pensar e mexer com os sentimentos e as certezas das pessoas, como este Pozitia Copilului faz muito bem.

Agora, para não dizer que o filme é perfeito, em alguns momentos há pequenas falhas na direção de Calin Peter Netzer, com um certo descontrole da câmera – especialmente quando Cornelia e Carmen chegam na casa dos pais do adolescente morto. E alguns devem ficar incomodados com a sequência final, quando Barbu vai falar com o pai do jovem e não sabemos qual é o desabafo do crápula.

Da minha parte, tenho um palpite: acho que ele foi lá pedir desculpas e dizer para o pai do garoto que ele estava disposto a pagar pelo próprio erro, a despeito da mãe superprotetora. Mas como o roteiro não deixa isso comprovado, qualquer outra versão da fala dele também é válida. Daí fica ao gosto do espectador. Muitos não gostam desta fórmula, mas eu acho os finais “abertos” sempre interessantes. Independente do gosto sobre este final, algo é certo: Pozitia Copilului cumpre muito bem o seu papel.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O ponto alto de Pozitia Copilului é, como eu disse antes, o ótimo roteiro da dupla Razvan Radulescu e Calin Peter Netzer. Mas além daquelas linhas bem escritas, com diálogos marcantes e onde não há palavra que sobre, devo destacar também o trabalho de Netzer na direção. Ele assume a postura quase de um documentarista, com uma câmera ligeira e que busca sempre estar próxima dos atores. Esqueça planos abertos e a valorização de paisagens e/ou cenários. O que interessa nesta produção é a interpretação – os gestos e o que é dito.

Este filme, para mim, é mais um exemplo como o Oscar pode ser benéfico para o cinema mundial. Eu estava de olho em Pozitia Copilului não porque o filme tinha recebido este ou aquele prêmio, mas porque era considerado um forte candidato para o Oscar – antes da lista de indicados ser divulgada. No fim das contas ele ficou de fora da reta final da disputa, mas ainda assim ele ganhou uma certa evidência. Os indicados de cada país na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, normalmente, merecem uma conferida. O difícil é arranjar tempo para ver a todos. :)

Fiquei impressionada com o trabalho da atriz Luminita Gheorghiu. Ela está perfeita no papel de Cornelia, em um papel que tem várias camadas de interpretação. Para mim, a qualidade desta atriz é similar ao do trabalho de Paulina García em Gloria (comentado aqui). Mas o curioso é que García foi muito mais badalada que Gheorghiu. Para ver como nem sempre os burburinhos do cinema fazem justiça com todos.

Falando nos atores de Pozitia Copilului, além de Gheorghiu, chamou muito a minha atenção o trabalho de Ilinca Goia como Carmen – ela rouba a cena toda vez que aparece e tem um momento incrível na produção quando faz aquela confissão constrangedora para a mãe de Barbu sobre a intimidade deles. Gostei também da firmeza de Vlad Ivanov no papel do arrogante Dinu Laurentiu – ele aparece pouco, mas tem uma presença marcante.

Da parte técnica do filme, o único destaque além da direção de Netzer é a edição de Dana Bunescu. O restante funciona, mas sem nenhum outro destaque.

Pozitia Copilului estreou em fevereiro de 2013 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme participaria ainda de outros 14 festivais, incluindo os de Karlovy Vary, Toronto, San Sebastián, Londres, São Paulo e Estocolmo. Nesta trajetória ele conseguiu três prêmios e foi indicado a um quarto prêmio. Entre os que recebeu, destaque para o Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim e para o Prêmio FIPRESCI entregue no mesmo evento.

Esta produção teria custado aproximadamente 850 mil euros e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 33,7 mil. Pouco, quase nada, porque estreou em um circuito limitadíssimo. Infelizmente não consegui encontrar informações sobre a bilheteria do filme em outros mercados. Mas eu espero que ele consiga se pagar.

Fiquei curiosa para saber o significado do título original do filme já que, para o meu gosto, “Instinto Materno” me parecia um pouco estranho. A tradução literal de “Pozitia Copilului” é “posição do bebê”. Hummmmm… ainda mais misterioso este título. :) Mas dá para usar a criatividade e fazer uma interpretação dele em relação a história do filme. O título em inglês acompanha o original, apenas a tradução para o mercado brasileiro que leva o título para outra linha.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para este filme. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 46 textos positivos e três negativos, o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média 7,5. Boas avaliações segundo os padrões dos dois sites.

Este é apenas o terceiro longa do diretor Calin Peter Netzer. Ele estreou no cinema com o curta-metragem Zapada Mieilor, de 1998. O primeiro longa veio cinco anos depois: Maria. Entre aquela produção e Pozitia Copilului, houve ainda Medalia de Onoare. Segundo o site IMDb, a melhor avaliação entre estas produções é a de Zapada Mieilor com a nota 7,9.

Pozitia Copilului é uma produção 100% da Romênia. E ela foi indicada por aquele país para representá-lo no Oscar.

CONCLUSÃO: Um filme direto, com um ótimo roteiro e interpretações muito convincentes. Pozitia Copilului é destas produções que não vão te deixar sem reação. Como um legítimo tapa no rosto, este filme pelo menos desperta reflexão, quando não alguma indignação. :) E o mais interessante é que da forma com que ele é construído, bem que ele poderia ser um documentário de imersão na realidade de muitas famílias com boas condições de vida e pouca noção do que é ter relações saudáveis. Como diria o Cazuza, “só as mães são felizes”. Mesmo na infelicidade, assim parece sugerir Pozitia Copilului. Esse amor é impressionante mas, algumas vezes, também bastante destrutivo. Vale assistir, se entregar para a história e refletir sobre o que encontramos por aí.

Saving Mr. Banks – Walt nos Bastidores de Mary Poppins

7 de março de 2014 2 comentários

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As histórias dos bastidores do cinema sempre são fascinantes. Mesmo quando elas se apresentam um pouco confusas. Este é o caso de Saving Mr. Banks. Para quem, como eu, desconhecia a obsessão de Walt Disney pela história de Mary Poppins e todas as dificuldades que ele enfrentou para conseguir adaptar o romance de Pamela Lyndon Travers para o cinema, este filme é um grande achado. Pena que a própria Disney contou esta história exagerando nas doses de açúcar e que o roteiro, algumas vezes, mais confunde do que explica a história para o espectador.

A HISTÓRIA: Começa com a câmera deslizando por um céu com nuvens em vários formatos e colorações. Até que surgem algumas palmeiras e a informação de que estamos em Maryborough, na Austrália, no ano de 1906. Uma mulher caminha empurrando um carrinho, e uma voz fala do vento do leste que traz a magia. Sentada sobre um gramado, uma garotinha aproveita a luz do sol. Corta. Praticamente na mesma posição, mas sentada em uma cadeira em frente à escrivaninha com uma máquina de escrever, vemos a P.L. Travers (Emma Thompson).

No bloco sobre a mesa, vemos a data: 2 de abril de 1961. Entre outros objetos, a foto de uma família. Toca a campainha, e a Sra. Travers se levanta. A escritora recebe o seu empresário, Diarmuid Russell (Ronan Vibert), que luta para fazer com que ela não desista da viagem para Los Angeles, onde vai conversar com Walt Disney (Tom Hanks) em mais uma etapa da longa e dura negociação sobre o livro de maior sucesso da Sra. Travers, Mary Poppins.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Saving Mr. Banks): Uma única cena ajuda o espectador a não ficar confuso neste filme. Admito que a perdi. E por isso, o roteiro de Kelly Marcel e Sue Smith me deixou confusa por boa parte da produção. Se isso aconteceu com você também, não se sinta culpado(a). Saving Mr. Banks não tem, de fato, um primor de texto. Mas isso também faz parte do jogo.

Vejamos. A história começa com duas linhas de tempo correndo em paralelo. Primeiro, aquela que mostra uma família em fase de mudança na Austrália no início do século 20. A outra linha temporal se passa no início dos 1960 em Londres, na Inglaterra. O que une estas duas linhas? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Se você for muito, mas muito atento, vai perceber que a foto que aparece no escritório de P.L. Travers ajuda a explicar tudo. Mas se você, como eu, não der muita importância para aquele retrato, vai ficar em dúvida sobre a origem daquela família australiana.

Outra saída para não haver confusão na leitura destas duas linhas temporais é se você é fã de Travers ou de Disney o suficiente para saber a história de ambos. Porque daí sim vai ficar claro que o que se passa na Austrália tem a ver com a família da escritora e não com a de Walt Disney que, afinal, era originária do Canadá. Como eu não sou tão fã da autora de Mary Poppins e nem do grande empresário do cinema e de parques temáticos, tive sérias dúvidas sobre quem eram aquelas pessoas.

Inicialmente, claro, pensei que a garotinha chamada pelo pai, o bancário alcoólatra Travers Goff (Colin Farrell), como Ginty (Annie Rose Buckley) poderia ser a adulta P.L. Travers. Mas depois eu pensei que a esposa de Goff, Margaret (Ruth Wilson) até poderia ser a escritora – ainda que, neste caso, a conta não batia, já que ela teria que ter quase uns 80 anos de idade na segunda linha do tempo, o que não pareceria ser possível pela caracterização. Finalmente, pensei que aquela família poderia ter alguma relação com Walt Disney… ou que poderia ser apenas a imaginação da autora de Mary Poppins.

Para um filme da Disney que é tão escancarado em suas intenções, achei que este enredo um tanto confuso destoa do restante da produção. O espectador só terá certeza sobre a identidade daquelas pessoas quando a charada é revelada pelo próprio Walt Disney. Claro que muito antes há vários indicativos sobre esta referência – e, como eu disse, aquela foto nos minutos iniciais do filme é suficiente para matar a charada junto com um cálculo simples sobre as duas datas que aparecem na tela.

Mas esta margem que o roteiro abre para a confusão do espectador eu achei desnecessária. Além disso, me incomoda um pouco a forma com que Saving Mr. Banks “floreia” os fatos. Se por um lado é interessante assistir o embate entre Travers e os realizadores da versão cinematográfica de Mary Poppins – incluindo o todo-poderoso Walt Disney -, por outro é difícil de acreditar que tudo ocorreu exatamente daquela forma.

A razão da descrença é simples: ninguém é tão amargo o tempo todo quanto a P.L. Travers que aparece na telona, e ninguém é tão sonhador e obstinado sem cometer exageros e passar por cima de algumas pessoas como o Disney mostrado por esta história. Em outras palavras, incomoda um pouco o quanto os dois personagens centrais são explorados de maneira rasa, com poucas nuances.

Outro detalhe que me deixou um pouco perdida em Saving Mr. Banks é que a produção praticamente não resgata a história de Mary Poppins – nem a versão literária, nem a do cinema. Apenas no finalzinho do filme, quando Travers confere a versão da Disney para a sua história, que relembramos algumas cenas de Mary Poppins. Se você assistiu recentemente ao filme clássico ou seu leu o livro há pouco tempo, este é um problema que já nasce resolvido. Mas se você, como eu, viu este filme há mais de 20 anos, fica difícil lembrar de detalhes da história.

Este é um ponto importante para desfrutar de Saving Mr. Banks. Para o meu gosto, o roteiro da dupla Marcel e Smith deveria facilitar a vida do espectador e não exigir que retomemos o clássico antes de nos lançarmos nesta nova produção. Mas é claro que é do interesse dos produtores que as pessoas voltem para a Mary Poppins lançada em 1964 – afinal, isso significa mais dinheiro para a Disney.

O problema de faltar este link entre a história de Mary Poppins e o que vemos em Saving Mr. Banks poderia ter sido facilmente resolvido. Bastava a dupla de roteirista dar menos espaço para as canções que estavam sendo compostas para o filme de 1964 e permitir que P.L. Travers fizesse o que ela realmente foi fazer em Los Angeles: conferir de perto o roteiro de Don DaGradi (Bradley Whitford). Uma inserção maior de momentos de leitura e de embate entre Travers e DaGradi poderia ajudar a todos nós a nos situar melhor na história de Mary Poppins.

Claro que eu lembro que o filme que rendeu tanta batalha entre Travers e Disney trata de uma babá diferenciada e que surge na família Banks para revolucionar a vida do casal e dos filhos. Também recordo da importância da música no filme, mas é só. Um dos erros de Saving Mr. Banks é que ele inicia com a citação literal de uma parte da obra e, depois, larga este caminho que sempre é interessante (de mergulhar na obra original).

Depois de falar dos problemas principais do filme, falemos de suas qualidades. Antes de mais nada, muito bacana o resgate de uma história que não havia sido explorada antes e que nos ajuda a entender um pouco mais sobre as negociações entre autores e estúdios de cinema. Além disso, Saving Mr. Banks tem uma trilha sonora marcante, muito inspirada, assinada pelo veterano Thomas Newman, e um cuidado técnico que é marcante nas produções Disney.

Entre os atores, sem dúvida o destaque fica com Emma Thompson que, apesar de ter uma personagem um tanto “rasa” dramaticamente – em boa parte do roteiro P.L. Travers se apresenta como uma mulher fechada e “do contra” -, entrega uma interpretação bastante convincente e que emociona no final. O mesmo não pode ser dito de outros dois trabalhos centrais nesta produção: os de Tom Hanks e Colin Farrell.

O primeiro também é prejudicado pela construção um tanto rasa de Walt Disney. No filme, ele aparece como um empresário obstinado e sonhador, que dá a volta por cima na infância dura para seguir o sonho de fazer a alegria de muitas crianças. Certo que este é um perfil do fundador do estúdio e dos parques que levam o nome Disney, mas certamente ele não era apenas aquilo. Hanks aparece menos que Thompson, o que também pode ter prejudicado o trabalho dele.

Farrell, por outro lado, tem um personagem muito mais complexo e aparece com frequência maior. Ainda assim, em vários momentos, a interpretação dele me pareceu exagerada. Diferente da parceira de cena do ator, a jovem Annie Rose Buckley, que dá um show como a principal atriz mirim da produção.

O diretor John Lee Hancock apresenta uma direção segura em um filme onde o roteiro é que se apresenta como a peça chave. Mas Hancock consegue orquestrar bem os atores e produzir algumas cenas muito bonitas, especialmente quando a família Goff se muda para Allora, a 16 horas da cidade de origem de Ginty. Também é bacana ver novamente a um filme com a “alma” da Disney, ou seja, onde a fantasia predomina sobre a realidade.

Porque fica evidente que Saving Mr. Banks “enfeita” a história real. Mesmo antes de ler a alguns textos que vou citar para vocês na sequência, apenas vendo ao filme eu já suspeitava que a dupla Marcel e Smith havia tornado o trabalho de Disney e equipe mais “leve” e bacaninha do que na vida real. E que eles também haviam carregado um pouco demais nas “tintas” de uma P.L. Travers “irredutível” e “do contra”.

De fato, como os textos ajudam a explicar, Saving Mr. Banks fantasia o que aconteceu de fato, tornando Disney mais “bondoso” e bem intencionado do que de fato ele foi. Digo isso porque é evidente que ele queria rodar Mary Poppins não apenas porque fez uma promessa para as filhas, mas porque sabia que iria faturar alto com o filme. E a própria Travers acabou cedendo os direitos da personagem mais por uma questão financeira do que por concordar com o que seria feito.

Sem contar que muito do que ela achou que faria nesta história – como participar da pós-produção, contribuindo para a montagem do filme – acabou não acontecendo. O filme mesmo mostra, mas sem dar muito destaque para este ponto, de como o produto final não agradou a escritora – e não, ela não chorou no lançamento do filme porque ficou emocionada com a homenagem para o pai, e sim porque viu a essência da história de Mary Poppins ser bem alterada pelo estúdio Disney.

Por ser originado deste mesmo estúdio, Saving Mr. Banks presta um serviço interessante de nos apresentar uma história curiosa, mas ele acaba fantasiando muito mais do que resgatando o que aconteceu. Por um lado, isso é bacana – afinal, a vida muitas vezes merece ser fantasiada -, mas, por outro, acho que tanto Travers quanto o próprio cinema (e nele, Walt Disney) mereciam um filme um pouco mais trabalhado, com profundidade e menos leviandade.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Antes dos indicados ao Oscar 2014 serem divulgados, vários especialistas em cinema nos Estados Unidos apontavam Saving Mr. Banks como um possível candidato de diversas categorias. No fim das contas, esta produção acabou conseguindo uma indicação: a de Melhor Trilha Sonora. De fato, nesta produção, o trabalho de Thomas Newman se destaca, sendo um dos carros-chefe do filme. Ainda assim, o compositor perdeu a disputa para Steven Price, responsável pela trilha de Gravity, no último domingo, quando a cerimônia do Oscar foi realizada.

Como comentei antes, Saving Mr. Banks apresenta algumas cenas muito bonitas espalhadas aqui e ali na produção. O mérito principal delas é, além do diretor John Lee Hancock, do diretor de fotografia John Schwartzman. E ainda que eu tenha sentido falta de mais trechos do livro original e/ou do roteiro de Mary Poppins sendo citados/revelados no decorrer desta produção, gostei da homenagem que os realizadores fizeram para a produção da Disney no final de Saving Mr. Banks. Aquela projeção do clássico no cinema, com a surpresa e as reações da escritora na plateia, foram uma boa sacada. Ainda que, como vocês podem conferir nos textos que eu vou indicar abaixo, a escritora não tenha reagido “tão bem” como o que Saving Mr. Banks sugere.

Da parte técnica do filme, também gostei do trabalho do editor Mark Livolsi e do design de produção de Michael Corenblith. O segundo foi o grande responsável, junto com a direção de arte de Lauren E. Polizzi, a decoração de set de Susan Benjamin e os figurinos de Daniel Orlandi, por nos transportar para a Austrália do início do século 20 e para a Los Angeles do início dos anos 1960.

Agora, vejam como são as coisas… O livro Mary Poppins foi publicado em 1934. Walt Disney tentou negociar os direitos para a adaptação da história para o cinema com a autora P.L. Travers durante 20 anos – ele teria começado as conversas com ela em 1938 e conseguido avançar nas negociações apenas em 1958. Mas as negociações avançaram para valer três anos depois, em 1961, quando Travers foi para Los Angeles conferir de perto o roteiro inicial do projeto, uma das condições para as negociações avançarem.

Depois deste passo, Mary Poppins, o filme, foi lançado nos cinemas em 1964 e, apenas dois anos depois, Walt Disney morreria aos 65 anos (10 dias depois de fazer aniversário) vítima de câncer de pulmão (no filme ele aparece se desculpando por fumar). Ou seja: este foi um dos últimos projetos e, talvez o mais difícil, que o empresário conseguiu concretizar antes de morrer.

Uma parte do roteiro de Saving Mr. Banks que eu gostei é aquele em que Marcel e Smith não fogem da responsabilidade de mostrar o quanto Disney era exagerado – ou extravagante? A quantidade de bichos de pelúcia de personagens que ele pede para colocarem no quarto de Travers é assustadora. E os modos dele, achando que poderia ter uma queda-de-braço constante com a escritora, também chamam a atenção. Chega a ser cômico acompanhar ele insistindo em chamar Travers de Pamela – quando ela pedia para ser tratada como Sra. Travers – e ela, por sua vez, chamá-lo de Disney, quando todos o chamavam de Walt. Dois cabeças-dura, sem dúvidas.

Para quem ficou curioso para saber mais sobre o livro e o filme de Mary Poppins, recomendo este texto com pílulas de informação do Blog dos Curiosos. E para comparar as figuras reais e os atores de Saving Mr. Banks, além de saber o quanto o filme se parece ou não com a realidade, recomendo este texto (em inglês) do site History vs. Hollywood.

Algo bacana de Saving Mr. Banks é que o filme valoriza o trabalho de dois grandes compositores que fizeram parte da história dos estúdios Disney: Richard Sherman (interpretado por Jason Schwartzman) e Robert Sherman (vivido pelo ator B.J. Novak). Os dois atores estão bem no filme, com especial destaque para Schwartzman que, de fato, canta e toca piano na produção.

Falando nos atores coadjuvantes deste filme, vale citar o bom trabalho de Ruth Wilson como Margaret Goff, esposa de Travers Goff; Rachel Griffiths quase em uma ponta como Helen Morehead, mais conhecida como tia Ellie, que teria inspirado, em parte, a personagem de Mary Poppins; Bradley Whitford como o roteirista Don DaGradi; e Paul Giamatti como Ralph, o motorista que leva a protagonista de Saving Mr. Banks para cima e para baixo em Los Angeles. Além deles, que tem mais destaque na produção, há outros rostos conhecidos em papéis menores. Exemplo: Kathy Baker como Tommie, secretária de Walt Disney.

Falando em personagens de Saving Mr. Banks, duas curiosidades: primeiro, o fato de que o Travers Goff original, pelo menos segundo aquela foto histórica divulgada pelo History vs. Hollywood, tinha bigode – algo que P.L. Travers não queria que o Mr. Banks, livremente inspirado no pai dela, tivesse em Mary Poppins, e algo que Walt Disney fez questão de acontecer; e, depois, o fato que o personagem de Ralph não existiu de fato. O motorista que Giamatti interpreta é um “compilado” de motoristas que atenderam a escritora na vida real – quiseram reunir todos em uma figura “amável” e que interagisse com Travers para tornar a personagem mais “simpática”.

Chega a ser engraçado ver o parque da Disney mostrado em Saving Mr. Banks. Ele parece um projeto amador perto do que se tornaria, depois, a franquia de parques que leva o nome do empresário. Mas vale lembrar que a primeira Disneylândia foi inaugurada em 1955, apenas seis anos antes da reconstituição de época explorada em Saving Mr. Banks. E, certamente, no início, ela tinha aquela cara de parque de diversões e sem toda a tecnologia e ousadia que passaria a ter conforme os anos foram passando.

Quem quiser saber um pouco mais sobre a vida de Walt Disney, recomendo este texto, publicado quando ele morreu; e também este outro, com 10 curiosidades sobre o empresário.

Saving Mr. Banks estreou em outubro de 2013 no Festival BFI de Cinema de Londres. Depois, o filme passaria ainda por outros quatro festivais. Nesta trajetória, a produção recebeu nove prêmios e foi indicada a outros 44 – incluindo a já citada indicação ao Oscar de Melhor Trilha Sonora. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Atriz para Emma Thompson e por figurar no Top Ten Films da National Board of Review; e para os prêmios de Melhor Atriz para Emma Thompson e para o de Melhor Filme para a Família entregues no Prêmio da Sociedade de Críticos de Cinema de Las Vegas.

Diferente do que Saving Mr. Banks sugere, a escritora P.L. Travers não gostou nada da adaptação feita pela Disney de sua Mary Poppins. A ponto dela proibir qualquer adaptação dos outros livros que ela lançou com a personagem para os cinema e de ter usado o resultado ruim, na opinião dela, da adaptação do cinema como um argumento para dificultar a adaptação da história para os teatros – no fim, ela acabou cedendo, mas após diversas reuniões com o produtor Cameron Mackintosh (responsável por sucessos da Broadway como Cats, Les Misèrables, Oliver!, Miss Saigon, entre outros).

Outra cena que o filme mostra e que, na verdade, não aconteceu, foi aquela visita de Walt Disney a P.L. Travers em Londres. Na vida real os dois só conversaram por telefone – o empresário nunca chegou a ir até a casa da escritora.

Para quem gosta de saber sobre as locações dos filmes, Saving Mr. Banks foi rodado na Disneylândia da Califórnia, nos Estados Unidos; no aeroporto de Ontário, no Canadá; no Pacific Southwest Railway Museum que está na Califórnia; nos estúdios da Universal e em outras locações da Califórnia.

Saving Mr. Banks teria custado US$ 35 milhões e faturado, até o dia 2 de março, pouco mais de US$ 82,8 milhões apenas nos Estados Unidos. Nos outros mercados em que já estreou o filme teria feito outros US$ 23,8 milhões. Passando da barreira dos US$ 100 milhões no acumulado, este filme já pode ser considerado um sucesso.

Alguns pontos que Travers não queria em Mary Poppins e que acabaram aparecendo no filme: animações como na cena dos pinguins; o ator Dick Van Dyke como Bert; Mr. Banks com um bigode; uma certa sugestão de romance entre Mary Poppins e Bert; entre outros pontos. E como falamos da bilheteria de Saving Mr. Banks, vale lembrar que Mary Poppins teria custado US$ 6 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 92,67 milhões. Soma-se a isso cerca de US$ 44 milhões de outros mercados em que o filme estreou e a escritora Travers, que havia fechado um acordo de receber 5% do faturamento do filme, teria embolsado uma pequena fortuna: cerca de US$ 6,8 milhões. Nada mal – mesmo não tendo gostado do resultado final.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para Saving Mr. Banks. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 177 críticas positivas e 43 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 80% e uma nota média 7. Boas avaliações.

Este é um filme com coprodução dos Estados Unidos, Austrália e Reino Unido.

CONCLUSÃO: Volta e meia você encontra um roteiro que mistura o tempo presente com o passado. Muitas vezes esta fórmula dá certo, apesar de já desgastada. Outras vezes, como é o caso deste Saving Mr. Banks, o recurso acaba jogando contra a própria história. Este é um filme interessante como qualquer outro que conta um pouco dos bastidores do cinema para os fãs desta grande arte. Mas ao mesmo tempo ele demora para decolar e se explicar, criando uma quantidade de dúvida no espectador que acaba sendo um desserviço para a história.

Saving Mr. Banks tem todos os elementos de um filme da Disney. A história é recheada de fantasia, tem uma moral edificante e investe em uma trilha sonora marcante. No fim das contas, você pensa sobre o quanto é importante ter aprendido com o amor e com a dor, e tem reafirmada a importância de saber perdoar e seguir em frente. Aprendizados básicos, mas que sempre valem ser recordados. De quebra, sabemos um pouco mais sobre a origem de Mary Poppins. O lado ruim é o exagero no perfil de Walt Disney, que é retratado de maneira unidimensional. O que salva o filme, além de uma reconstituição de época razoável, é a interpretação de Emma Thompson. Vale pela curiosidade, mas não vai mudar a sua vida e nem deve ser levado muito ao pé da letra.

All Is Lost – Até o Fim

2 de março de 2014 4 comentários

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Em condições normais, o ser humano é feito de um material que lhe exige buscar a sobrevivência a todo custo. Quanto mais adversa a situação, mais o indivíduo se desdobra em sobreviver. E algumas vezes, ao invés de gestos desesperados, a sobrevivência significa pequenas atitudes, singelos gestos de inteligência.

All Is Lost é um filme diferente, que exige muita paciência do espectador, mas que trata, exatamente, deste infindável desejo de viver que todos nós temos. Agora, se você ainda não assistiu ao filme, saiba que esta é a história de um homem só, trabalho de um único ator, e que há poucas palavras em jogo. Por isso mesmo, recomendo que você assista ao filme bem desperto(a), preferencialmente na primeira parte do dia – e não no final, quando o sono já pode começar a bater.

A HISTÓRIA: Barulho de água. Seguido da informação de que a história começa a 1.700 milhas náuticas do estreito de Sumatra. No horizonte, apenas mar, até que surge a ponta de contêiner. Uma voz diz que a data é 13 de julho, e a hora, 16h50min. Em seguida, prossegue pedindo desculpas, mas explicando que havia tentado de tudo. Ele fala de seus princípios e tentativas, mas acaba concluindo que não estava certo.

Afirma que tudo estava perdido ali, exceto por seu corpo e alma, e por comida suficiente para metade de um dia. Também afirma que lutou até o fim, ainda que não saiba se valeu a pena. E conclui que sempre esperou mais para todos, e que sentirá falta das pessoas. Daí o filme volta oito dias no tempo, antes daquela declaração, para sabermos o que levou aquele homem (Robert Redford) a escrever aquelas palavras.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a All Is Lost): Este não é um filme fácil, não há dúvidas. Comecei a assisti-lo em um dia, cansada, e depois de 15 minutos eu tive quase certeza que não conseguiria vê-lo até o fim. De fato, não consegui. Deixei os 30 minutos finais para o dia seguinte. E valeu muito a pena ter feito isso.

O melhor de All Is Lost está neta reta final. Mas para você concluir isso, como acontece muitas vezes na nossa própria vida, é preciso ter vivenciado todo o resto. Impressionante pensar que conseguiram um grande astro e o investimento necessário em dinheiro para realizar All Is Lost em Hollywood. Porque este filme é tudo, menos hollywoodiano. Se ele tivesse sido feito por europeus ou russos, seria mais “natural”. O que apenas valoriza ainda mais o trabalho do diretor e roteirista J.C. Chandor.

Talvez o paralelo possa surpreender vocês, mas acho All Is Lost um irmão gêmeo de Gravity (comentado aqui no blog), só que ambientado em outro “universo” (no lugar do espaço sideral, este filme se passa em outra imensidão, a do mar), e a antítese de The Wolf of Wall Street (com crítica neste link). Isso apenas para ficar na comparação de filmes que foram lembrados no Oscar deste ano.

Vejamos melhor estas comparações… All Is Lost trata do desejo infindável da sobrevivência da mesma forma que Gravity. A diferença é a quantidade de ação, de diálogos e de recursos entre uma proposta e a outra. Gravity teve um orçamento aproximado de US$ 100 milhões e investe pesado em inovação tecnológica e efeitos especiais. All Is Lost teria custado cerca de US$ 9 milhões e aposta em recursos espartanos, sem muita inovação – apesar de exigir vários efeitos especiais, ainda que em escala radicalmente menor que Gravity.

No fim das contas, tanto Gravity quanto All Is Lost são estrelados por atores solitários. Tudo bem que Sandra Bullock não fica só o tempo todo – conta com a “companhia” de George Clooney por uma parte considerável do tempo. Ainda assim, o fundamental da história de Gravity se passa na parte solitária da protagonista. All Is Lost é um filme de um único ator, literalmente. Tanto Robert Redford quanto Sandra Bullock se sacrificaram pelos seus papéis e embarcaram em suas respectivas interpretações.

Além disso, os protagonistas dos dois filmes devem enfrentar muitos desafios para tentar sobreviver. Passam, inclusive, por alguns momentos de esperança seguidos de frustração. São testados mais de uma vez. Mas não esmorecem. Em certo momento, parece que vão desistir, mas daí surge uma última chance de viver e eles a abraçam com toda a força que resta. Nos dois casos a história é edificante e carregada de esperança. Apesar de tantas semelhanças, para o meu gosto All Is Lost foi mais emocionante que Gravity – especialmente pelo final de Gravity, um tanto previsível demais enquanto All Is Lost é pura beleza e poesia.

Agora, vejamos a comparação dos extremos: All Is Lost e The Wolf of Wall Street. No caso do primeiro, dá para contar nos dedos as palavras proferidas. Existe quase uma ausência de falas – por pouco All Is Lost não é um filme mudo. The Wolf of Wall Street, por outro lado, apresenta uma verborragia incessante, quase ensurdecedora. Há excesso de diálogos, de palavras. É como se All Is Lost negasse The Wolf e vice-versa.

Sem contar as diferenças de ambiente e de essência. Enquanto em The Wolf sobram recursos, dinheiro e luxúria, em All Is Lost nada disso tem importância. No filme que estamos tratando aqui, a sobrevivência depende de muito pouco. Voltamos para o essencial. Descobrimos, mais uma vez, que precisamos de muito pouco para viver. E mesmo que não tenhamos quase comida ou água, como o que acontece com o personagem de Robert Redford, nos sobra vontade de viver, lembranças para revisitar, esperança para seguir lutando e imaginação para sonhar.

Como bem escreveu o protagonista naquelas linhas iniciais, ainda que quase tudo tivesse terminado, ele ainda tinha o próprio corpo e a alma. Mesmo enfraquecidos, eles estavam ali. Que grande filosofia! E esta é a essência de All Is Lost. Claro que para chegar naquele ponto e no final derradeiro, J.C. Chandor teve que fazer o exercício básico de nos contar como o protagonista chegou naquela carta.

Daí que existem vários momentos de ação, do personagem de Redford lutando contra o acidente que inicia esta história, até o ápice de enfrentar uma grande tempestade. Antes e depois destas cenas, predominam imagens de “vida real” no mar. Descobrimos, quase na prática, como se desenvolve o cotidiano de quem navega sozinho, quais são os recursos que esta pessoa tem disponível e que alternativas ela possui no caso de emergências.

Como eu disse lá no início, esta é uma produção de um único ator. Redford se entregou para o papel, como Sandra Bullock fez em Gravity. Mas em All Is Lost ele está sozinho. A imagem do ator naquela imensidão, revelando toda a sua fraqueza, mortalidade e solidão, é um paralelo interessante sobre a condição humana.

Afinal, não importa onde estejamos ou o que estejamos fazendo, no fundo somos exatamente isso. Seres frágeis, mortais e que passam grande parte da vida sem uma companhia no que isso tem de mais pleno (ou seja, sem a compreensão do outro que seja plena). Quando nos damos conta disso, talvez nos sintamos mais realistas ou, quem sabe, conformados.

Por isso tudo vale vencer o sono que All Is Lost pode nos provocar – especialmente se você tentou assisti-lo no final do dia. Esta é uma produção que trata de alguns dos temas, medos e fortalezas mais caros do ser humano. E não deixa de ser um desafio aprender com um roteiro como este de Chandor.

Digo isso porque, normalmente, queremos ter um contexto para acalmar a nossa curiosidade de saber mais sobre o outro. E no caso do protagonista de All Is Lost, não apenas desconhecemos o passado dele como, depois de acompanhá-lo naquela experiência extenuante, ficamos sem saber o que irá acontecer com ele a partir dali.

A carta que ele escreve e lança no mar sugere que ele tem família, pessoas que ama e que ele teria decepcionado de alguma forma. Mas existe também espaço para interpretar aquela carta como uma mensagem para a humanidade em geral – especialmente porque ele não cita nome algum no texto. Aí a interpretação vai depender do gosto do freguês – ou, neste caso, do espectador. Eis mais uma escolha brilhante de Chandor.

Interessante a coragem dos realizadores de fazer um filme praticamente mudo. Em pouquíssimas ocasiões Robert Redford abre a boca. O que acaba valorizando, ainda mais, quando este gesto é feito. Mais um ponto de reflexão para todos nós que, normalmente, deveríamos nos calar mais e escutar os sons ao redor. O silêncio pode ser mágico e fonte de grande aprendizado. Pena que ele esteja cada vez menos presente no nosso cotidiano.

All Is Lost sabe valorizar aquele silêncio ainda que, no fundo, ele praticamente nunca exista na prática. O filme é recheado por “sons ambientes” (muitas vezes criados para valorizar o que seria o som original) e por uma trilha sonora marcante e fundamental. Mas nada que tire o espaço fundamental dos sons da Natureza que, propositalmente, acaba “falando” alto e dando dinâmica para as cenas.

Apesar de ter tantas qualidades, não dou uma nota maior para All Is Lost porque acho que o filme gasta tempo demais com o passo-a-passo da vida no mar. Para o meu gosto, ele demora tempo demais para embalar. Como eu não tenho um gosto especial por navegação, acho que várias cenas que mostram os aparatos de um iate e as soluções que eles podem trazer poderiam ter sido suprimidas. Talvez sem elas o filme se tornaria mais “digerível” para o grande público, muito acostumado com sequências mais editadas e dinâmicas. Ainda assim, respeito a proposta de Chandor que, evidentemente, era aquela que vemos no filme mesmo.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Há muito tempo eu não via ao ator Robert Redford tão bem. Entregue ao papel e ao projeto, ele dá um banho – sem alusão a trocadilhos. :) Não é nada fácil segurar um filme com pouco mais de uma hora e meia de duração sozinho e convencendo a quem assiste. E com um detalhe importante: sem a “muleta” de diálogos espertos ou de um texto bem escrito. Aqui, Redford tem basicamente a ação de pequenos gestos como recurso cênico. Convencer o público desta forma, só sendo um grande ator. Pena ele não ter sido indicado ao Oscar.

Uma das qualidades marcantes desta produção é a direção de fotografia. Em muitas cenas, especialmente no final, são as belas imagens que embalam os pensamentos do público – que não tem nos diálogos uma válvula de escape. A dupla Frank G. DeMarco e Peter Zuccarini fizeram um belo trabalho em All Is Lost.

Como All Is Lost praticamente não tem diálogos, acaba sendo fundamental o trabalho de “preencher o vazio” feito pelos técnicos de som. Seja na captação de som ambiente ou seja na edição de som posterior, o trabalho destes profissionais acaba sendo vital para a produção. O Departamento de Som do filme contou com 24 profissionais liderados por Steve Boeddeker e Richard Hymns. Um trabalho exemplar. Destaque também para a trilha sonora de Alex Ebert que casa e dialoga perfeitamente com os sons do filme.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: o roteiro inteiro de All Is Lost tem 32 páginas. O que deve ser um recorde de economia no cinema. :) E por falar em recordes, All Is Lost é o primeiro filme que se tem notícia estrelado por um único ator, dirigido e escritor por um único profissional, mas que tem 11 produtores executivos e seis outros produtores.

All Is Lost estreou em maio de 2013 no Festival de Cannes. Depois, o filme participaria de outros 15 festivais. O próximo da lista será o Festival de Cinema de Belgrado que começa amanhã. Nesta trajetória, a produção conquistou três prêmios e foi indicada a outros 21, incluindo a indicação a um Oscar. Entre os prêmios que recebeu está o de Melhor Roteiro Original no Globo de Ouro; Melhor Ator para Robert Redford (e quem mais seria? hehehehe) entregue pelo Prêmio do Círculo de Críticos de Cinema de Nova York; e o terceiro lugar como Melhor Ator para Robert Redford no prêmio da Sociedade Nacional de Críticos de Cinema dos Estados Unidos.

Esta produção teria custado cerca de US$ 9 milhões e arrecadado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 6,3 milhões nas bilheterias. Ainda falta contabilizar o resultado do filme nos outros mercados em que estreou, mas parece que ele terá um pouco de dificuldade para conseguir um grande lucro.

Para quem gosta de saber sobre os locais de gravação dos filmes, All Is Lost foi rodado em diferentes locais de Los Angeles, na Califórnia; nas Bahamas e na Baixa Califórnia, no México.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para All Is Lost. Os críticos que tiveram os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 188 textos positivos e apenas 14 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 7,9.

Figura interessante este J.C. Chandor. Antes de All Is Lost, ele havia dirigido apenas a um filme: Margin Call. A estreia dele como diretor foi com o curta Despacito. Mesmo com um número tão reduzido de trabalhos, ele já tem sete prêmios no currículo e foi indicado a um Oscar – pelo roteiro de Margin Call. Agora, ele está rodando A Most Violent Year, estrelado por Jessica Chastain e com estreia prevista para 2015. Vale acompanhá-lo.

Este é um filme com produção 100% dos Estados Unidos. Por esta razão, ele engrossa a lista de produções daquele país comentada aqui no blog e que atende a uma votação feita por vocês.

Fazia tempo que eu não encontrava tantos cartazes bons de um mesmo filme. Tive um pouco de dificuldade de escolher qual colocar aqui no blog. Mas acho que fiz uma escolha acertada. De qualquer forma, vale dar uma olhada nas outras opções que existem na rede.

CONCLUSÃO: Inicialmente este filme é recomendado apenas para quem gosta muito de mar e de histórias de busca pela sobrevivência. Ou, pelo menos, para quem não se importa com um desenrolar lento da história, na qual a falta de diálogos predomina. Aqui o que importa é a relação do homem com a Natureza e com o seu próprio significado no mundo. Não sabemos nada sobre a vida do protagonista antes de vê-lo sozinho navegando pelo mundo.

Aqui a contextualização pouco importa. Um filme lento, com grande interpretação de Robert Redford, e que testa a paciência do espectador para levá-lo a outro nível. Um estágio em que os diálogos são supérfluos e em que a contemplação e a reflexão é o que importa. Lindo e exigente, All Is Lost exige que o espectador vença o seu sono – especialmente se você tentar assisti-lo no fim de um dia de trabalho -, mas no fim das contas ele se revela muito válido e interessante pelo diferencial que nos apresenta.

PALPITE PARA O OSCAR 2014: Antes da lista de indicados ser divulgada, alguns apostavam que Robert Redford conseguiria uma indicação como Melhor Ator. Mas ele ficou fora da lista – apesar de merecer. O mesmo aconteceu com Tom Hanks. É que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, este ano, resolveu encher a bola de American Hustle – e, consequentemente, de seus atores, incluindo Christian Bale, que foi indicado como Melhor Ator.

Para All Is Lost sobrou uma indicação na categoria Melhor Edição de Som. De fato, em um filme praticamente sem falas, a trilha sonora e o som ambiente e criado em estúdio são os elementos fundamentais em cena. Mesmo que você não perceba com exatidão durante o desenrolar da história, mas o trabalho impecável da equipe liderada por Steve Boeddeker e Richard Hymns é essencial para te transportar para o meio da história e provocar o que é um dos objetivos desta produção: a empatia do espectador com o protagonista solitário desta história.

Sem dúvida Boeddeker e Hymns merecem a estatueta. Mas eles tem pela frente uma tarefa inglória: desbancar o trabalho  fantástico que Glenn Freemantle fez com a edição de som de Gravity. Sem dúvida alguma Freemantle é o favorito. Ainda que a concorrência na categoria esteja pesada – a edição de som em Captain Phillips também é ótima, e mesmo sem ter assistido aos demais concorrentes (a saber: Lone Survivor e The Hobbit: The Desolation of Smaug), imagino que o trabalho de todos seja de primeiríssima linha. All Is Lost, desta forma, pode sair de mãos vazias do Oscar. Não seria uma surpresa.

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