Archive

Archive for the ‘Filme premiado’ Category

It Follows – Corrente do Mal

30 de agosto de 2015 2 comentários

itfollows8

Imagine que você é perseguido por algo que não dá para evitar. O terror chega devagar, mas é implacável. Para evitá-lo, a única alternativa é passar a “maldição” adiante e torcer para que as próximas pessoas da lista levem à sério o problema. Do contrário, aquilo que está te perseguindo vai voltar até você. It Follows parte desta premissa da inevitabilidade e do questionamento ético sobre a “salvação” para nos apresentar um filme interessante, envolvente e angustiante na medida certa.

A HISTÓRIA: Uma garota sai de casa desesperada. Com salto alto e roupa de festa, ela corre pela rua, mas logo para. Uma vizinha pergunta se está tudo bem, e o pai também quer saber o que está acontecendo. A garota, que se chama Annie (Bailey Spry), volta para casa, mas logo sai com uma bolsa e o carro. Annie vai para uma praia, aonde atende o pai no celular e diz que o ama. Quando amanhece, a garota está morta na praia de forma macabra. Corta.

Em outra residência, Jay (Maika Monroe) curte a piscina no quintal de casa, assim como a Natureza, até que a irmã dela, Kelly (Lili Sepe) comenta que Paul (Keir Gilchrist) e Yara (Olivia Luccardi) estão em casa para ver um filme. Jay fala que vai sair mais tarde. Ela se encontra com Hugh (Jake Weary) que, ela ainda não desconfia disso, vai mudar a vida dela.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a It Follows): Gosto de filmes com estilo, e It Follows é um destes exemplares. O visual da produção, o estilo da direção e até a trilha sonora fazem um conjunto perfeito e nos remetem a um estilo de filme que não existe mais. Como comentarei lá no final, para quem já assistiu a filmes de terror e suspense dos anos 1970, esta é uma produção com a alma daqueles filmes.

Mas não é apenas a questão conceitual. O roteiro também nos faz lembrar um pouco aqueles filmes. Vejamos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em It Follows, os pais praticamente não aparecem. Eles são secundários e não tem voz. São os jovens, os adolescentes, que protagonizam a história. Mergulhamos no estilo deles, em seus sonhos e medos. Como outras produções dos anos 1970 e 1980. O sexo é um elemento-chave nesta produção, assim como em outras que ajudaram a fazer a história do gênero.

O roteirista e diretor David Robert Mitchell acerta ao não perder tempo na narrativa. Primeiro, com Annie, percebemos que há um mal cruel e que parece ser implacável. Depois, por um breve período, esquecemos isso com o comportamento de Hugh. Ele parece ser apenas mais um sujeito desequilibrado que fará mal para uma garota que ele conseguiu convencer a sair com ele. Mas não. Na sequência do sexo no carro e dela ser amarrada em uma cadeira-de-rodas em um lugar sinistro e abandonado – e como não? – Hugh conta o “segredo”.

Ele foi contaminado por uma outra pessoa com quem ele transou e, agora, está passando a “maldição” para Jay. Para mim, foi inevitável pensar na AIDS e nas pessoas que, propositalmente, infectam as outras – após saber que estão com o vírus. Daí entra uma parte interessante deste filme: você passaria adiante a maldição apenas para sobreviver? Mataria outra pessoa ou, no mínimo, a traumatizaria apenas para se ver livre do problema?

Claro que com a AIDS isso não acontece. Mas é através do sexo, normalmente, que o contágio é feito. No caso do vírus, todos são contaminados. Mas no caso da “maldição” repassada pelo sexo no filme, se você fizer uma corrente bastante grande de pessoas infectadas, em teoria, você vai ficar livre do problema. Tendo que torcer, é claro, para esse grupo de pessoas não morrer antes que você, porque daí o alvo retorna para ti.

Outro acerto do roteiro de Mitchell é que a ameaça é física, realística – apenas o amaldiçoado pode vê-la, mas os efeitos de quem persegue podem ser vistos pelos outros, como uma porta quebrada, por exemplo. Ou seja, não pode atravessar paredes, ou voar. O que dá uma certa chance para quem está sendo perseguido. Ainda que, e este ponto é o mais angustiante da premissa, quem está sendo perseguido sabe que, mais cedo ou mais tarde, a morte vai chegar até ele(a).

O que fazer então? Basicamente, duas alternativas: fugir sempre, sabendo que mais cedo ou mais tarde a ameaça vai chegar e, por isso, estar sempre atento para voltar a fugir; ou passar adiante o problema. E não é simplesmente “contaminar” alguém. Você precisa convencer a pessoa a seguir passando para a frente, do contrário, quando ela morrer, você será perseguido novamente.

Por isso Hugh/Jeff cuidou de explicar para Jay o que ela deveria fazer. Mas ela resiste a passar adiante o problema. Mas acaba fazendo isso. Com um resultado catastrófico e com outro que nunca saberemos – o filme termina, justamente, em uma sequência em que o perigo pode ou não estar se aproximando novamente de Jay e Paul. Interessante a história e o questionamento ético que ela nos apresenta.

Ah sim, há ainda a tentativa do grupo em eliminar a ameaça. Uma tentativa inteligente proposta por Paul, mas provavelmente sem efeito. Como o filme termina “sem final”, não sabemos ao certo. Mas tudo indica que a história vai continuar com o problema da maldição precisando ser resolvido.

Como os pais são ausentes, os jovens tem que resolver tudo sozinhos. Eles viajam, passam uns dias fora e, aparentemente, tudo está certo. Nenhum adulto parece se importar. Os hormônios estão gritando, e a protagonista é desejada por dois amigos: Paul e Greg (Daniel Zovatto) – este segundo atento a todas as demais meninas também. Bacana também o fato do roteiro, na ausência de adultos mais “presentes”, mostrar a união e a amizade entre os personagens jovens – eles é que dão graça para a história. A verdade é que quanto mais simples a premissa, melhor para o filme.

No caso de It Follows, o suspense é garantido por toda e qualquer pessoa que esteja caminhando em linha reta. Afinal, a ameaça nem sempre parece claramente uma pessoa morta. Muitas vezes se parece com alguém comum. O filme tem alguns bons sustos e, certamente, diversos momentos de tensão. Funciona neste sentido. Além do roteiro bem escrito, com a qualidade de ser direto e conciso, Mitchell acerta na direção do filme.

Ele investe em grandes planos, seja nas ruas ou outros ambientes abertos, seja em ambientes fechados e com sequências fluídas e muitas vezes circulares. A sequência na escola em que Hugh/Jeff estudou é um grande exemplar disso. Aliás, algumas vezes é preciso estar bem atento aos detalhes – como a garota que segue andando em linha reta quando eles saem do local e que, por pouco, não chega em Jay a tempo de pegar a garota.

Estas sequências fluídas do diretor, junto com a valorização das interpretações dos atores e dos detalhes da história para dar-lhe tensão são o ponto forte do filme. Apesar deste ser um trabalho bem acabado, não dá para dizer que It Follows reinventa a roda. E nem precisava, não é mesmo? Afinal, o que mais está faltando hoje em dia, são filmes que cumprem o seu papel e ainda nos fazem pensar sobre o que estamos fazendo ou sobre o que faríamos no lugar deste ou daquele personagem. Com duração certa – pouco mais de 1h30 – It Follows consegue fazer tudo isso. Sorte nossa.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vale a pena ficar de olho em David Robert Mitchell. It Follows é apenas o terceiro trabalho dele. Mitchell estreou como roteirista e diretor do curta Virgin, em 2002, e em 2010 escreveu e dirigiu The Myth of the American Sleepover. Não assisti a estas produções, mas achei que ele foi muito bem, com assinatura e estilo neste It Follows. Vale ter ele em mente.

Além do ótimo trabalho de Mitchell, gostei do elenco que ele escolheu para este filme. Todos estão muito bem, mas sem dúvida alguma o destaque vai para a protagonista, interpretada por Maika Monroe. Mas todos os outros estão muito bem, com atenção especial para Keir Gilchrist e Lili Sepe.

Agora, tem cenas que deixam um certo ponto de interrogação. (SPOILER – não leia se você não tiver assistido ao filme). Por exemplo, aquela sequência em que Jay entra na água aparentemente para ir até o barco em que estão três homens. Aparentemente ela fez isso para transar com um ou mais de um deles, certo? Então por que não demora muito para ela voltar a ser perseguida? Ela não falou nada para os homens do que eles deveriam fazer, eles morreram rápido mesmo assim ou ela não chegou a ir até o barco? Perguntas sem resposta. Ainda assim, eu apostaria na terceira opção – afinal, ela volta a ver uma figura a perseguindo logo na sequência.

Como em outros filmes de suspense e terror, o diretor explora bem a questão urbana, as casas americanas parecidas e uma certa “decadência” do cenário. Há uma sequência, inclusive, em que Yara comenta sobre a segregação entre as pessoas da cidade e as do subúrbio. Ou seja, o filme não é descolado da realidade. Aliás, falando em Yara, achei interessante também o “gadget” que ela utiliza e lembra os atuais “kindle” e afins. É em um aparelho destes que ela está lendo O Idiota, de Fiódor Dostoiévski. Ainda que eu não tenha visto nenhum paralelo entre o filme e a obra de Dostoiévski, achei bacana o autor citá-lo na produção – quem sabe alguém que viu o filme acaba lendo o livro?

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma merecem elogios a ótima direção de fotografia de Mike Gioulakis, que nos transporta para os anos 1970; a edição precisa e elegante de Julio Perez IV e a marcante, precisa e equilibrada trilha sonora de Rich Vreeland. Vale também citar, como contribuições importantes para o “clima” do filme, o trabalho de Michael Perry no design de produção, o de Joey Ostrander na direção de arte e o de Kimberly Leitz nos figurinos.

It Follows estreou em maio de 2014 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participaria ainda de outros 38 festivais – um número impressionante, devo dizer. Nesta trajetória, a produção recebeu oito prêmios e foi indicada a outros cinco. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Prêmio do Público no Festival Internacional de Cinema Fantástico Nocturna Madri e para os de Melhor Filme e Melhor Roteiro no Festival Fantástico de Austin.

Esta é uma produção que comprova que um bom roteiro não precisa consumir muito dinheiro. It Follows teria custado apenas US$ 2 milhões. Nas bilheterias dos Estados Unidos o filme conseguiu pouco menos de US$ 14,7 milhões até o dia 21 de junho. Em outros mercados, até abril, o filme tinha acumulado outros US$ 10 milhões. Nada mal para um filme com nomes bastante desconhecidos e que, certamente, fez este sucesso por causa da propaganda boca a boca. Merecido o resultado.

Para quem gosta de saber sobre as locações dos filmes, esta produção foi toda rodada em diferentes locais do Michigan, nos Estados Unidos – incluindo Detroit.

Agora, algumas curiosidades sobre este filme: de acordo com o diretor David Robert Mitchell, a sua maior influência para esta produção foi Creature from the Black Lagoon, filme de 1954 que tem cenas lentas e um monstro bem persistente. Outra grande influência de Mitchell teria sido Night of the Living Dead, de 1968, que traz uma visão palpável e claustrofóbica do mal. A lista de produções que influenciaram bastante o diretor segue: The Shining, de 1980; The Thing, de 1982; Paris, Texas, de 1984; e A Nightmare on Elm Street, de 1984.

Além destas influências do diretor, vale citar o que ele deixa transparecer no filme como citações. No cinema em que Jay e Hugh vão, está passando Charade, de 1963. E na TV da casa de Jay e Kelly passam os filmes Killers from Space, de 1954, e Voyage to the Planet of Prehistoric Women, de 1968.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para o filme, mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos. Eles dedicaram 181 textos positivos e apenas sete negativos para It Follows – o que garante aprovação de 96% para o filme e uma nota média de 8,2. A nota média, em especial, é muito boa se levarmos em conta o padrão do site.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Um filme de terror que te faz lembrar os bons exemplares do gênero dos anos 1970 e 1980. Se você já assistiu a vários filmes deste gênero, inclusive os antigos, vai encontrar em It Follows aquela mesma aura. Este é um dos elementos mais interessantes da produção, junto com o questionamento ético e as saídas criativas para o problema que a protagonista tem que enfrentar. Lembra algumas outras produções, mas também tem originalidade. Um bom exemplar do gênero, e que termina de forma aberta – o que pode incomodar alguns, mas é algo que eu acho acertado dentro da ótica da produção. Vale conferir, mas sem grandes expectativas a respeito – afinal, é um bom filme, mas não revoluciona o gênero.

Gett – The Trial of Viviane Amsalem – O Julgamento de Viviane Amsalem

23 de agosto de 2015 Deixe um comentário

gettthetrialofvivianeamsalem1

Ter liberdade de pensar e sentir por sua própria conta. Decidir a própria vida. Parecem princípios básicos, mas para muitas mulheres em muitas partes do mundo – e inclusive ao nosso lado ou dentro da nossa casa – isso não tem nada de básico. Para estas mulheres, a liberdade é uma palavra fora do dicionário. Por isso mesmo Gett – The Trial of Viviane Amsalem é um filme tão importante, tão vital. Ele mostra o estrago e o absurdo de uma cultura em que a mulher é um ser menor, sempre à mercê da vontade de um homem, especialmente se ela é casada. Com interpretações fantásticas e um roteiro bem construído, este filme é essencial.

A HISTÓRIA: O advogado Carmel Ben Tovim (Menashe Noy) olha fixo por um longo período antes de falar em nome de sua cliente, Viviane Amsalem (a fantástica Ronit Elkabetz). Ele diz que lamenta que o marido de Viviane, Elisha Amsalem (Simon Abkarian), não tenha cooperado nos últimos três anos em se fazer presente no tribunal e nem ao menos em opinar sobre o pedido de divórcio feito pela mulher.

Agora, na frente do juiz rabino Salmion (Eli Gornstein) e de seus dois auxiliares, Elisha diz que não aceita o divórcio e que quer que a esposa volte para casa. Mesmo ela dizendo que não é possível eles voltarem a ficar juntos, o juiz ordena que ela volte por seis meses, tentando a reconciliação. Este é apenas o começo de um longo martírio de Viviane em busca da própria liberdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Gett – The Trial of Viviane Amsalem): É um desafio assistir a este filme. Não porque ele seja longo demais, ou muito arrastado. Pelo contrário. O roteiro dos diretores Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz é tão bem escrito e preciso, com a valorização adequada do trabalho do pequeno grupo de atores envolvidos, que não há sobras ou faltas na ação. A dificuldade em assistir a esse filme sem em algum momento ferver um pouco o sangue é ver o absurdo da situação.

Estamos acostumados, no Brasil, a longos processos judiciais. Mas por aqui, normalmente, questões como o divórcio são resolvidas com grande facilidade. Algumas vezes, concordo, até com facilidade demais. Sou da opinião que as pessoas, depois de casadas, devem fazer um esforço para permanecerem juntas e darem certo naquela união. Afinal, elas deveriam ter pensado bem e escolhido com consciência os seus respectivos cônjuges. Dificuldades aparecem e vão aparecer, mas o casamento não deve terminar por causa delas.

Agora, uma situação muito diferente é vivida pelos personagens centrais desta trama. E é um grande acerto dos roteiristas ir desbravando a intimidade deles lentamente. No início, Viviane e Elisha apenas marcam posição: ela quer o divórcio, ele não. E segundo a cultura e a tradição judaica, é o homem que decide. Sim, e essa é a parte mais marcante desta produção: a mulher não tem direito de escolher, de opinar. Torna-se evidente, assim, a subjugação da mulher, colocada em segundo plano e abaixo do homem.

De arrepiar algo assim. Mas é o que a tradição – aquela mesma questionada por Jesus, condenado à morte e até hoje não aceito pelos judeus – deles prega. Que a mulher deve se submeter e, de preferência, sem questionar. Mas Viviane não é assim. Que brava e maravilhosa essa personagem e também a atriz que a interpreta – e que é uma das roteiristas e diretora, ao lado do irmão.

Agora, voltando para um dos acertos fundamentais desta produção: os roteiristas escreveram a narrativa para ela crescer lentamente. No início, temos apenas a posição firme e contrária dos dois personagens centrais. Depois, pouco a pouco, é que vamos ouvindo outras testemunhas – familiares de Viviane, conhecidos de Elisha e vizinhos do casal. E, na reta final, finalmente marido e mulher dão os seus testemunhos.

Antes destes outros personagens entrarem em cena e do filme ganhar em tensão com os depoimentos das duas partes diretamente interessadas no divórcio, impressiona já o que o roteiro fala nos diálogos e o que ele comunica com a troca de olhares entre os personagens. Os flagrantes e os silêncios expressam tanto ou mais do que os argumentos. Como acontece na nossa vida e, certamente, na casa de Viviane e Elisha – que sempre tiveram grande dificuldade de comunicação.

É verdadeiramente assustador pensar que uma mulher deva ficar durante diversos anos se submetendo a um juizado composto por três ou dois (quando um deles renuncia temporariamente) rabinos para conseguir um direito tão básico quanto o de tomar as rédeas da própria vida. Mas quantas mulheres hoje em dia são prisioneiras de seus próprios namorados e maridos depois de terem sido “sequestradas” por eles – para usar um termo do Padre Fabio de Melo? Seja esse sequestro mais “literal”, com elas sendo mantidas em casa praticamente como prisioneiras, seja de forma mais genérica, com elas capturadas após um longo período de manipulações e de esmagamento do que elas tem de melhor, que é a sua própria independência e auto-estima.

O fantástico deste filme é que ele mostra uma mulher forte, brava, destemida e que respeita a si mesma, em primeiro lugar. Depois de algumas décadas de casamento, quando ajudou a cuidar da sogra e educou os filhos, ela decide se separar. Porque vive uma vida miserável ao lado de Elisha, um homem que não consegue se comunicar com a esposa e que, segundo ela, sempre que pode a critica e a ofende. Ele também se queixa da mulher, dizendo que ela não o respeita, grita com ele e que não age como uma “boa esposa”.

Ora, então por que ele quer insistir naquela vida miserável e infeliz? Ele jura que é porque ama ela. Viviane argumenta que, no fundo, ele a odeia. No fundo, amor e ódio muitas vezes se misturam, e isso fica evidente nas trocas de olhares entre os dois. Além de amor e ódio, é possível ver naqueles olhares pedidos de súplica, perdão, desprezo e competição aberta para saber quem pode mais. Quem será mais forte.

O bacana desta produção é que ela não julga e nem apresenta uma única interpretação sobre o que aquele casal sente e vive. De forma muito natural, Gett – The Trial of Viviane Amsalem nos apresenta uma realidade e nos dá a liberdade – algo tão negado para a protagonista – de fazermos as nossas próprias leituras e interpretações. Característica fundamental de um grande filme, que acerta também na dinâmica da história, ao enclausurar a audiência junto com aqueles personagens em uma sala de audiência e na ante-sala de espera, e também na aposta da interpretação dos atores.

Da minha parte – e você tem, como sempre, todo o direito de discordar -, acredito que Viviane e Elisha tiveram em algum momento amor um pelo outro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas, de fato, ele não dava o divórcio para ela por puro orgulho e porque ele não queria perder o controle sobre a mulher. Na reta final, quando ele cede após ela prometer que não vai se relacionar com mais nenhum homem, fica subentendido que este era o “problema” dele: vê-la em outra relação. Não acredito que seja apenas isso.

Acho sim que ele não admitia que aquela mulher tivesse vida própria. O cotidiano deles tinha virado um inferno? Ele preferia isso e dar o troco para ela sempre que possível do que deixá-la ser feliz longe dele. Homens que vêem as mulheres como objetos, como “coisas” que eles podem possuir, jamais vão respeitar a vontade própria destas mulheres. De fato, e como aquele sistema judaico do qual eles fazem parte, eles acreditam que a mulher é “inferior” e deve se submeter. Me desculpe se você acha isso também, mas este pensamento é repulsivo e totalmente contrário ao que qualquer crença digna possa sugerir.

Além de nos fazer pensar sobre o absurdo de diferentes realidades – e muitas vezes a nossa ou de alguém próximo também pode ser vista como absurda -, este filme nos mostra um exemplo de mulher admirável. Que não sucumbiu ao que o juiz ordenou inicialmente, nem ao desgasta do longo processo ou da condenação de boa parte daquela sociedade em que ela estava inserida.

Ela não estava feliz, tinha uma vida miserável e sabia que não havia salvação para aquela realidade mudar com o marido e, por isso, decidiu recomeçar. O final, que mostra ela caminhando para a liberdade, não poderia ser mais bonito e encorajador. Para todas as mulheres, homens, jovens e adultos que se sentem prisioneiros de algo que lhes faz mal. Belo filme.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Interessante refletir sobre os primeiros minutos desta produção. Logo no início temos o ator Menashe Noy, que interpreta ao advogado Carmel Ben Tovim, em uma cena que parece longa de olhar fixo para baixo, parecendo um pouco constrangido, e ao olhar para alguém que estava em um nível inferior ao dele. Conforme a cena se desenrola e vemos a parte dos outros homens do recinto, percebemos só depois que ele olhava para Viviane Amsalem. Não por acaso ela é a última a ser mostrada. Afinal, naquele cenário, ela está em “posição inferior” a dos homens e é a última a “importar”. Muito inteligente esta sequência que representa bastante da história que veremos em seguida.

Todo o julgamento a que assistimos é absurdo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Logo no início os juízes são informados que a mulher que está pedindo divórcio está há três anos fora de casa, morando com parentes, e que neste período o marido não falou com ela, exceto uma vez – quando ela perdeu um irmão. Isso não significa nada para os rabinos e juízes Salmion (o que preside quase todo o julgamento), Danino (Rami Danon) e Abraham (Roberto Pollack).

Não demora muito para Salmion perguntar para o advogado de Viviane se o marido não lhe dava o essencial, que seria dinheiro e comida. Sério mesmo? Como Carmel mesmo diz, logo no início do julgamento, Viviane é cabeleireira há 20 anos, e foi com o dinheiro de seu trabalho que ela conseguiu se sustentar e aos filhos nos três anos em que viveu fora da casa de Elisha. Então ela não precisa de um marido para lhe dar “dinheiro e comida”. Como se não bastasse esse pensamento ridículo, ainda o juiz diz que a razão dela para querer o divórcio, que é não amar mais ao marido, “não é razão” para se separar. Sem maiores comentários.

Interessante como logo nos primeiros minutos do filme o protagonista diz para a esposa que busca o divórcio: “Jamais, Viviane!”. Claramente, para mim, o orgulho dele fala mais alto. E não há amor ali. Porque quem ama quer ver a outra pessoa feliz. Se esforça para isso. E se, lá pelas tantas, não consegue mais fazer a outra pessoa feliz, vai querer que ela busque a felicidade em outro lugar. Assim de simples. Isso só não funciona para homens machistas que acham que são proprietários das mulheres – tornadas mercadorias.

A atriz Ronit Elkabetz tem uma interpretação digna de muitos prêmios – além do Oscar, de outros tantos mais de respeito mundo afora. Ela dá um show de interpretação neste filme. Depois de diversos anos de um longo julgamento em que ela só pedia pelo direito de recomeçar a vida – mas no qual ela estava sendo julgada -, sem dúvida alguma os grandes momentos da produção são aqueles em que ela tem dois rompantes de desabafo. Mas são momentos inesquecíveis também quando ela e o ator Simon Abkarian, que também faz um grande trabalho, dão os seus próprios testemunhos.

Neste momento, do testemunho deles, muito da relação entre os dois se torna clara e cristalina. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Elisha diz que ama a mulher e que não aceita o divórcio porque ela é o destino dele e os dois estão presos um ao outro. Em seu depoimento, Elisha também deixa claro que nunca tentou agradar a esposa e que ele não é tão coerente assim ao seguir a própria religião – afinal, gosta de coisas que não são “kosher”, como o cinema.

Ela, por sua vez, emociona ao dizer que há 10 anos pensa seriamente em se separar, mas que o primeiro pensamento a esse respeito veio logo depois deles terem se casado. Viviane não demorou para perceber que os dois eram incompatíveis. Perguntada sobre o porquê de ter se casado, ela respondeu o que muitas mulheres, certamente, responderiam sobre as suas próprias escolhas: “porque nós fazemos isso, nos casamos”. É, minha gente, isso é complicado. Algumas vezes as pessoas casam porque é o que a sociedade e as famílias esperam, mas fazem escolhas ruins. O resultado disso sabemos que nunca será bom. Essa história é um bom exemplo.

Além dos dois atores principais, que estão perfeitos em seus papéis, vale destacar o ótimo trabalho de Menashe Noy como o expressivo e sensível advogado de Viviane; Sasson Gabai como o magnético e competente advogado e rabino Shimon, irmão de Elisha e que por boa parte do julgamento atua como advogado dele; além, claro, dos juízes. Outros atores aparecem como testemunhas. Eles fazem um bom trabalho, mas nada que fuja do esperado ou mereça um destaque específico.

Da parte técnica do filme, achei perfeita a direção da dupla Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz. Os irmãos acertam em cheio na dinâmica em cena, no ritmo das câmeras e na atenção constante no trabalho dramático do elenco. O roteiro também é construído com esmero, sem sobras ou faltas. Para estes elementos funcionarem bem, vale destacar o trabalho da diretora de fotografia Jeanne Lapoirie e do editor Joel Alexis.

Gett – The Trial of Viviane Amsalem estreou em maio de 2014 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme passaria ainda por outros 32 festivais e mostras em diversas partes do mundo. Uma trajetória admirável e merecida pelo filme de qualidade.

Em suas andanças por estes festivais, o filme abocanhou 13 prêmios e foi indicado a outros 14. Poderia ter sido mais. Só acho que não foi porque esta produção, apesar de ter uma temática universal, pode cair estranha para o gosto de alguns – que não se interessam e/ou não são interessados pela cultura judaica ou por culturas diferenciadas. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme e Melhor Ator Coadjuvante para Sasson Gabai no Prêmio da Academia de Cinema Israelense; o de Melhor Roteiro no Festival Internacional de Cinema de Chicago; o de Melhor Produção Israeli, Melhor Ator para Menashe Noy e Prêmio da Audiência do Festival de Cinema de Jerusalém; o Prêmio Diretores para Acompanhar no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs; e o prêmio da produção ter figurado na lista do Top 5 de Filmes em Língua Estrangeira do National Board of Review.

Esta produção, indicada oficialmente ao Oscar por Israel, foi nomeada também como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Globo de Ouro 2015. No Oscar o filme não conseguiu chegar entre os finalistas. No Globo de Ouro ele perdeu para Leviathan (com crítica aqui). Da minha parte, gosto de Leviathan. É um filme importante e crítico, mas apreciei mais o debate levantado por Gett – The Trial of Viviane Amsalem. Gostos.

Há poucas informações sobre o desempenho de Gett – The Trial of Viviane Amsalem nas bilheterias. Consegui apurar apenas que o filme teria feito pouco menos de US$ 988 mil nos Estados Unidos.

Não consegui descobrir as locações deste filme, apenas que ele foi rodado no Verão de 2013.

Os usuários do site IMDB deram a nota 7,8 para Gett – The Trial of Viviane Amsalem. Uma avaliação boa para o padrão do site. Mas os críticos que tem os seus textos divulgados no Rotten Tomatoes foram ainda mais efusivos na aprovação do filme. Eles dedicaram 65 críticas positivas, uma rara aprovação de 100% e uma nota média de 8,5. Excelente.

De acordo com este texto do site do Film Society Lincoln Center, Gett – The Trial of Viviane Amsalem é baseado na história real de uma mulher que lutou nos tribunais para conseguir o divórcio em uma comunidade ortodoxa de Israel.

Esta é uma coprodução de Israel com a França e a Alemanha.

Interessante o currículo de Ronit Elkabetz. Nascida em Beershaba em 1964, ela tem 30 trabalhos como atriz, quatro como roteirista e três como diretora. Todos os trabalhos dela na direção foram feitos ao lado do irmão, Shlomi Elkabetz. Ele tem quatro projetos como roteirista e diretor – além dos três feitos com a irmã, ele tem Edut como um trabalho solo. Os dois valem ser acompanhados.

CONCLUSÃO: Um filme com poucos atores e que se passa inteiro em um tribunal. Brilhante justamente por esta escolha. Afinal, a vida de Viviane Amsalem ficou presa e suspensa durante todos aqueles anos em que ela foi julgada por querer ser livre. Algo inadmissível para a cultura machista judaica em que uma mulher deve se submeter sempre aos desejos do marido. Mesmo em culturas que não são aquela os homens esperam que as mulheres estejam sempre aos seus pés.

No Brasil mesmo vivemos em uma sociedade machista em que as mulheres devem ceder o máximo possível frente a homens que se acham superiores. Por tudo isso esse filme é fundamental. Mesmo que você não entenda o que ele quer dizer. Bem pensada para o propósito que ela se dispõe, esta produção acerta na valorização dos atores, dos sentimentos que eles trocam e querem passar e na sensação de clausura. Perfeito na simplicidade.

Qu’est-ce Qu’on a Fait au Bon Dieu? – Que Mal eu Fiz a Deus?

14 de agosto de 2015 Deixe um comentário

questcequonafaitaubondieu1

Apenas o humor é capaz de vencer algumas barreiras, situações e preconceitos. Ou, se não é capaz de vencer, pelo menos de diminuir distâncias e de fazer pensar. Qu’est-ce Qu’on a Fait au Bon Dieu? pode ser um destes filmes que vai te deixar indignado(a) e revoltado(a), mas pode ser também uma forma de vencer barreiras, fazer pensar e analisar de uma forma diferente uma situação plausível na vida real. Claro que, como uma boa comédia, esta produção é exagerada. Mas ela não deixa de ter um pé bem fincado na realidade – da França e de tantas famílias “tradicionais” daquele e de outros países.

A HISTÓRIA: Prefeitura de Chinon, Indre-et-Loire, França. Uma cerimônia oficializa a união de Rachid Abdul Mohamed Benassem (Medi Sadoun) e Isabelle Suzanne Marie Verneuil (Frédérique Bel). Do lado de Rachid, uma grande família. Do lado de Isabelle, os pais Claude (Christian Clavier) e Marie Verneuil (Chantal Lauby) e a as irmãs Odile (Julia Piaton), Ségolène (Emilie Caen) e Laure (Elodie Fontan).

Um ano depois, Odile Huguette Marie Verneuil casa com David Maurice Isaac Benichou (Ary Abittan). E um ano depois, Ségolène Chantal Marie Verneuil se casa com Chao Pierre Paul Ling (Frédéric Chau). Para os pais, que são católicos, é um verdadeiro desafio ver três de suas filhas casando com homens de outras origens e religiões. A última esperança deles é que Laure case com um católico.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Qu’est-ce Qu’on a Fait au Bon Dieu?): Este filme deixa claro a que veio logo no início. De forma divertida e propositalmente exagerada, os roteiristas Philippe de Chauveron (que também dirige o filme) e Guy Laurent mostram três das quatro filhas de um casal católico e tradicional francês casando com três homens de origens diferentes. Fica evidente que os pais das meninas não estão, exatamente, felizes.

Esta impressão é confirmada pouco tempo depois, em uma refeição familiar aonde sobram estranhezas, pré-conceitos e provocações. Temperamental, o pai das meninas, Claude, não deixa barato e sai ofendido. No caminho, ele e a mulher Marie falam de cada um dos genros, debatendo sobre qual é o pior. Como normalmente é típico das mulheres, contudo, Marie começa a procurar explicações para os seus sentimentos.

Primeiro, ela se queixa com o padre local (Loïc Legendre) que, só de ouvir a voz da fiel, já fica arrepiado. Ele sabe por aonde vai o andor da conversa entre eles e da confissão que se segue. O sonho de Marie e de Claude era ter um casamento tradicional, com uma das filhas se casando com um católico. Depois da queixa, ela procura as respostas que comentei antes e, ao falar com o marido, comenta que eles também tem uma parcela de culpa na falta de união familiar, já que demonstraram ter preconceitos com as origens muçulmana, judaica e oriental dos genros. Daí surge a ideia de unir a todos no Natal.

Muito bacana como, mesmo cheio de estereótipos – e que comédia não os têm? – o filme vai avançando na solução para aquele problemão de convivência que passa pelas “maledetas” das expectativas e pela frustração delas. Como a maioria das mulheres, Marie ama a família e, para que eles melhorem a convivência, ela se esforça para preparar uma Ceia de Natal que agrade a todos os paladares. Muito fofa!

Como acontece em diversas situações e com diferentes famílias, todos se esforçaram e cederam um pouco em suas posições e, adivinhem? A sintonia começou a acontecer. Esta é uma das grandes lições de Qu’est-ce Qu’on a Fait au Bon Dieu?: o preconceito e a distância que separa as pessoas só existe porque cada um defende o seu lado e dá mais valor para o que lhe diferencia dos demais, ao invés de procurar o que há de comum e buscar entender a outra ótica. Quando todos cedem um pouco, o diálogo acontece e as pessoas começam a entender e a respeitar umas às outras.

Dá tudo certo no Natal, mas há um detalhe que começa a fugir do controle: os pais de Laure tentam arranjar um pretende católico para ela. Mal eles sabem que ela já está namorando sério e que está pensando em casar. (SPOILER – não leia se você não viu o filme). Sem abrir o jogo totalmente para os pais, Laure diz que está namorando e que quer apresentar o pretendente para eles. Pequeno detalhe: Charles Koffi, com quem ela pretende se casar, é negro.

Até aí, não haveria nenhum problema. Afinal, aparentemente, a lamentação dos pais de Laure é que nenhuma das outras filhas tinham casado com um católico e um francês “clássico”. Há franceses negros e que são católicos. Nesta parte, fica evidente que o preconceito não tem só a ver com religião, ou com raça, mas com cor da pele também. O roteiro brinca com isso, de que agora os pais de Laure terão todas as cores do arco-íris na família.

Interessante como os pais nunca se posicionaram contra nenhum dos casamentos. Eles respeitaram as escolhas das filhas, ainda que, entre eles, lamentassem as suas decisões. As irmãs e os cunhados de Laure, contudo, pressionam a garota de que ela deveria escolher outro rapaz que fosse do agrado dos pais. Ora, que direito eles tinham de fazer isso? Nenhum. Mas não é raro ver o caçula da família tendo que satisfazer os sonhos dos pais que os outros não conseguiram propiciar. Laure e Charles não se fazem de rogados, mas nem tudo será tranquilo até o casamento.

No Natal, enquanto Laure passava a festa com a família, Charles vai visitar a família dele na África e descobre que há preconceito do lado deles também. Mais especificamente o pai dele, André Koffi (o ótimo Pascal N’Zonzi), faz o contraponto para Claude. Ele gostaria que o filho casasse com uma negra e não uma “branquela” de uma família de “brancos exploradores”. Os noivos seguem o plano, mas perto do casamento os desentendimentos entre Claude e Marie e a possibilidade de confronto entre os patriarcas Verneuil e Koffi ameaça o planejado.

O final acaba sendo perfeito. Ao externalizarem as suas próprias opiniões e preconceitos, André e Claude percebem, mais uma vez, como antes tinha acontecido com os Verneuil e os seus genros, que eles tem mais coisas em comum do que poderiam inicialmente admitir. E voilà! Os dois se tornam amigos e tudo acaba fluindo bem, apesar deles terem quase colocado tudo a perder.

Descontados os exageros aqui e ali, este é um filme divertido e que nos faz pensar sobre as nossas próprias convicções e atitudes. Afinal, por que algumas vezes não gostamos de certas pessoas? Ou, visto de outra forma, antipatizamos com colegas de trabalho ou temos dificuldade de lidar com quem age diferente do que consideramos “normal”? Será que também percebemos os nossos problemas e mancadas, ou achamos sempre que o “inferno são os outros”?

No fim das contas, quando paramos para pensar um pouco melhor, percebemos que é possível encontrar pontos em comum com todas as pessoas. Mesmo com aquelas que parecem tão diferentes da gente. Este filme nos faz pensar sobre isso e, apenas por esta razão, ele merece ser visto. Claro que a mesma reflexão poderia ser feita em um filme mais reflexivo, sem tanto preconceito transvestido de comédia.

Mas, talvez, se fosse assim, ele não chegaria tão facilmente nas pessoas nas quais essa história precisa chegar e que preferem rir do que “pensar”. Sim, estou sendo um pouco preconceituosa com este comentário, mas quantas pessoas você conhece que preferem ver filmes “leves” e “engraçados” e ter conversas deste gênero do que pensar sobre os seus próprios sentimentos e atos? Eu conheci várias pessoas assim, e acho que uma comédia, talvez, e só talvez, para elas possa fazer alguma diferença.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A narrativa desta produção é linear e sem reviravoltas, mas com aquelas surpresinhas básicas que toda comédia nos pede. Por exemplo, os diferentes perfis dos personagens. Especialmente os homens que casaram com as filhas do casal Claude e Marie tem as suas histórias mais exploradas. As mulheres deles aparecem pouco e, com exceção da artista da família, sabemos pouco sobre os gostos e perfis das demais. Desta forma, dá para dizer que o roteiro da dupla Laurent e de Chauveron é bem construído e condizente com a proposta deles.

Além de roteirista, como comentei anteriormente, Philippe de Chauveron é também o diretor do filme. Ele faz um bom trabalho, que valoriza o desempenho dos atores e, em certos momentos, também o cenário e as paisagens aonde eles estão inseridos. Gostoso de ver a França urbana, mais comum no cinema, e principalmente o país do interior. Neste quesito, vale destacar também a direção de fotografia de Vincent Mathias, que nos apresenta imagens bem iluminadas e que garantem qualidade na proposta de equilibrar a dinâmica entre os atores e os ambientes.

Em diversos momentos o filme reforça a ideia de que a França é um país miscigenado, com grande mistura de raças, credos e cores. De fato, isso é verdade. Mas também é verdade que parte do país sofre com isso ou tem problemas decorrentes desta mistura. Uma busca por notícias no Google rapidamente vai trazer diversas reportagens sobre conflitos raciais ou de cultura na França. Mas isso quer dizer que o povo francês é mais preconceituoso que outros? Não acho que seja assim.

Acredito que todo país que tem uma grande mistura de raças, de etnias e de credos terá maior probabilidade de conflito do que um país em que isso não acontece. Conta para os problemas também quando há algum tipo de “disputa” em jogo – por território, bens ou serviços. No caso do Brasil, que tem também bastante miscigenação, nos “favorece” quando ela foi feita: há alguns séculos ou décadas.

Agora, quando há uma “invasão” em um espaço curto de tempo e quando o país tem uma desigualdade maior entre regiões e distribuição de renda, daí os conflitos podem aparecer mais. Para mim, isso é o que acontece na França e em tantos outros países da Europa. A forma de enfrentar isso é baixar a guarda – tanto as pessoas nativas quanto aquelas que estão indo morar lá – e tentar encontrar os pontos em comum e a convivência. A França discute muito este tema. Nós por aqui fazemos isso o suficiente?

Todos os atores envolvidos nesta produção fazem um bom trabalho. Mas gostei, especialmente, do desempenho de Chantal Lauby como Marie, uma das personagens mais sensíveis da produção; e do trabalho dos grandes Christian Clavier e Pascal N’Zonzi. Eles parecem ter sido forjados para a comédia, esbanjando em expressões e em trejeitos. Muito bons!

As filhas do casal Claude e Marie são muito bonitas, mas impossível não admirar, em especial, Elodie Fontan. Belíssima atriz. Depois dela, Julie Piaton se destaca. Entre os homens, não achei nenhum muito bonito, mas gostei, em especial, do trabalho de Frédéric Chau. Acho que ele tem uma pegada maior para a comédia.

Da parte técnica do filme, além da direção de fotografia bem iluminada e já comentada, vale destacar o bom trabalho de edição de Sandro Lavezzi e a trilha sonora divertida e “pra cima” de Marc Chouarain. Cécilia Blom também faz um bom trabalho na decoração de set, assim como a equipe envolvida no departamento de som.

Qu’est-ce Qu’on a Fait au Bon Dieu? foi lançado no dia 16 de abril de 2014 na Suíça e na França. No Brasil ele estreou no dia 6 de agosto de 2015. A produção que teria custado US$ 13 milhões faturou, apenas na França, pouco mais de US$ 12,2 milhões. Na Alemanha, ele fez mais US$ 3,8 milhões. Na Espanha, outros US$ 1,16 milhão. Ou seja, se somar todos os países, o filme conseguiu empatar o investimento – com a produção e a distribuição – com o resultado nas bilheterias.

Esta produção ganhou dois prêmios e foi indicado para um terceiro até o momento. Entre os que recebeu está o The Bernhard Wicki Award, entregue no Festival Internacional de Cinema Emden, para Philippe de Chauveron; e o de Melhor Roteiro no Prêmio Lumiere, da França.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. No site Rotten Tomatoes só há uma crítica para o filme, e ela é negativa. Ou seja, este filme não repercutiu praticamente nada e, possivelmente, não será muito apreciado pelo grande público – ele não tem a característica de “bombar” depois de um tempo.

CONCLUSÃO: Este filme não vai revolucionar a sua vida. E nem te mostrar nada muito inovador. Qu’est-ce Qu’on a Fait Au Bon Dieu? é apenas uma comédia que fala sobre assuntos polêmicos e em alta na Europa – e em outras partes. Trata com amor o preconceito e, desta forma, quem sabe, consegue avançar na compreensão de algumas cabeças “fechadas” de que excluir pessoas simplesmente pelo fato delas não serem o que você gostaria é absurdo. Em uma França e em uma Europa com alta dose de miscigenação, com um bocado de conflito cultural e de preconceito, este filme tenta fazer refletir sobre tudo isso com humor. É uma forma de fazer isso. Normalmente, gosto de filmes mais “sérios”, realistas, mas às vezes é bom também “atacar” com outros instrumentos. Esta produção acerta em muitos momentos, inclusive com situações clássicas de casais e seus pais. Vale conferir.

Ilo Ilo – Quando Meus Pais Não Estão em Casa

17 de maio de 2015 Deixe um comentário

iloilo1

Muitas vezes você acha que a sua vida está ok, tudo certo, apesar de um problema aqui e ali. Até que uma pessoa que você não conhecia entra nessa tua vida e você percebe que precisava dela, sem saber. Ilo Ilo é um destes filmes modestos, aparentemente simples, sem “nenhuma grande sacada” de roteiro, mas que, em sua simplicidade e narrativa, nos faz pensar bastante não apenas sobre as nossas próprias vidas, mas também sobre a educação dos filhos dada atualmente, sobre a estrutura familiar e as sociedades modernas em que é vergonhoso não ter um bom emprego ou nas quais alguém sempre explora outra pessoa.

A HISTÓRIA: Jialer (Jialer Koh) está sozinho em uma sala, até que chega o Sr. Tan (Peter Wee) e o garoto faz uma cena, simulando que foi agredido. Na sequência, a escola liga para a mãe do menino, Leng (Yann Yann Yeo). Ela comenta que já pediu para não ligarem para o trabalho dela, pede desculpas pelo filho e desliga. Outras mulheres do escritório trocam olhares de censura entre si. Leng pede para uma colega avisar ao chefe que ela precisou sair para resolver um problema. Ela busca o filho e, ao chegar em casa, é possível perceber que o garoto não obedece a mãe. Indisciplinado, ele reage mal à chegada de Teresa, chamada também de Terry (Angeli Bayani), contratada pela família para ajudar nas tarefas de casa e com o menino.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ilo Ilo): A primeira ideia que veio à minha mente assistindo esse filme: “Que menino infernal!”. Parecia que o jovem protagonista não teria jeito, e que infernizaria a todos até o final. Mas aí vem a primeira mensagem bonita e poderosa deste filme: qualquer pessoa problemática só precisa de alguém que lhe respeite, lhe olhe de verdade e lhe estenda a mão.

Não são poucos os garotos “problemáticos” como Jialer pelo mundo. Não importa se andamos pelo Brasil, por Singapura, país de origem deste filme, ou nos Estados Unidos. Qualquer país tem as suas crianças difíceis. Durante algum tempo do filme, fiquei pensando se aquele garoto não seria autista, ou teria algum outro problema ainda não diagnosticado. Aparentemente não. Ele apenas teve a infelicidade de nascer em uma casa aonde pai e mãe parecem não se sentirem pai e mãe. Os adultos estão um bocado perdidos e muito focados em seus próprios problemas e desejos e o garoto, enquanto isso, vai crescendo sem controle.

Tudo muda quando aparece em cena Terry, uma mulher que também tem os seus próprios dramas – e que não parecem ser pequenos, se analisarmos cada ligação dela para a família nas Filipinas. Mas a diferença que vemos no comportamento de Jialer tem muito a ver com a postura que a nova empregada da família tem com o garoto. Primeiro ela é rejeitada por ele. Depois, é diretamente prejudicada no episódio da papelaria. Mas ela não fraqueja. Age com firmeza quando é necessário, mas com carinho e suavidade sempre que possível.

O efeito no garoto não é imediato, mas vai ocorrendo pouco a pouco. Especialmente a fragilidade que ele assume depois de quebrar o braço, em mais uma rebeldia contra Terry, acaba favorecendo o contato entre os dois. Essa relação entre o menino e a empregada começa a despertar o que o garoto tem de melhor. Até então, parecia, ele não “teria jeito”. Mas Ilo Ilo nos ensina que todos tem jeito, sabendo chegar nas pessoas de uma forma que elas entendam e de uma maneira que faça sentido.

Esta é possivelmente uma das grandes mensagens do filme. Que todos tem jeito. E que aquela pessoa que parece ser indomável e terrível, apenas precisa de amor, carinho e cuidado. Perceber que alguém verdadeiramente se importa com ela. Isso faz toda diferença, e é exatamente isso que Terry faz em relação a Jialer. Além desta contribuição, o filme mostra o outro lado da moeda, o casal Leng e Teck, que tem Jialer e logo vão ser pais de outra criança e, aparentemente, não tem muita vocação para esse negócio de ter uma família.

A mulher simboliza tantas outras mães que estão no mercado do trabalho, ganhando inclusive mais que o marido, e que estão sempre de alerta. Parece que permanentemente em busca de defesa contra qualquer “inimigo” externo – seja ele no ambiente de trabalho ou dentro de casa. Leng não parece ter desenvolvido muito o afeto – ela quer que o marido aja certo, reclama do trabalho que o sogro deu para eles e dos problemas envolvendo o filho, mas não parece capaz de falar com afeto ou mesmo elogiar qualquer um deles.

A postura de Leng em relação a Terry é de desconfiança e de superioridade desde o princípio. E aí entra outro ponto importante do filme: mesmo países que não estão bem desenvolvidos, como Cingapura, conseguem estar à frente e inclusive explorar países ainda menos desenvolvidos, como a Filipinas. Leng trabalha em um escritório, e o marido dela, como vendedor – e depois, em empregos ainda mais simples. Eles parecem ser uma família de classe média e, ainda assim, conseguem oferecer viagem de ida e volta e um salário que compense para Terry sair de seu país e ficar longe de sua família.

Como acontece com tantos outros imigrantes, Terry busca ganhar o máximo de dinheiro no tempo que ela está lá. Acaba desempenhando duas funções, o que não é permitido, mas tudo porque ela tem menos escolhas do que os empregadores de Cingapura. Mesmo em situação menos “privilegiada” financeiramente, Terry está à frente dos empregadores na cultura, na inteligência emocional e no trato social. Leng é competitiva, focada em resultados e no que ela quer. Terry também é focada, mas ela não esquece de olhar para os outros enquanto busca o que é importante para ela e para os seus.

O marido de Leng, Teck, também vive a paranoia dos tempos modernos do trabalho. Ele deve ganhar dinheiro para ser o “homem da casa”, aquele que coloca dinheiro, paga as contas e, por isso, vive a falsa noção de ter poder doméstico. Quando perde o emprego, ele é incapaz de falar para a mulher – porque conhece a peça, sabe o quanto ela é competitiva, e também porque ele sente que tem mais responsabilidades agora. Aí vemos a reprodução daquela história infelizmente já clássica: apesar de demitido, ele segue com a mesma rotina, indo para o trabalho, não apenas para a esposa não perceber nada, mas também para ele continuar se sentindo útil.

Neste contexto, quando o quadro se deteriora um pouco, o que acontece? (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Como sempre, a parte mais frágil é que sofre. Leng e o marido fazem o que parece natural para pessoas com o perfil deles: descartam a nova empregada. Pagam o que lhe é de direito, claro, mas não tem dúvida alguma de enviá-la de volta para casa e todas as dificuldades que ela tem lá.

Não importa o que Terry representa para o filho deles. Ela é despesa e deve voltar. Um retrato perfeito dos tempos atuais em que as pessoas viraram números, cifras, são vistas como despesas ou menos que isso e de fácil descarte. Pessoas tratadas como objetos são “facilmente” descartadas. Esta é outra reflexão importante do filme.

Bem escrito e magistralmente dirigido por Anthony Chen, Ilo Ilo é uma aula de como fazer cinema reflexivo e inteligente sem pirotecnia e com muita simplicidade. Aparentemente, este filme não fala sobre nada. Apenas mostra uma família com os seus problemas. Mas basta ter um olhar um pouco mais cuidadoso para a história, para as relações entre os personagens e, principalmente, para o perfil de cada um deles, que encontramos muita inteligência no trabalho de Chen.

Sem contar que a produção tem um final emocionante, não apenas pelo gesto do garoto, que segue sem saber se expressar direito, ainda meio durão, mas com sentimentos à flor da pele, mas também pelo legado que Terry deixou para ele, simbolizado naquele simples walkman, mas que ia muito além da música que tocava através do aparelho. Muito bacana. Recomendo.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A câmera do diretor Anthony Chen está sempre perto dos atores e dos personagens que eles estão interpretando. Não importa se a cena está sendo rodada dentro de uma residência, empresa, veículo ou na rua. O que interessa para Chen é a reação dos atores e suas expressões. Com esta técnica, o diretor e roteirista aproxima o espectador dos personagens e torna Ilo Ilo ainda mais atrativo porque facilita a empatia – seja ao observar parte daquela realidade na vida do espectador, seja na vida de alguém próximo.

Vale destacar, além do trabalho do diretor e roteirista, o trabalho do diretor de fotografia Benoit Soler. Ele consegue, na maior parte do tempo, bastante luminosidade em cena, o que ressalta ainda mais o realismo da história e também uma mensagem de “esperança” que o filme proporciona – apesar dos pesares.

Outro aspecto técnico que me chamou a atenção, pela qualidade, foi a edição da dupla Hoping Chen e Joanne Cheong. A direção de arte de Michael Wee também é bem acertada, porque nos situa bem naquela realidade dos personagens.

Os atores fazem um bom trabalho, sem exagerar nas interpretações, evitando aquele estilo “mexicano” de incorporar personagens. Combina com o filme. Apesar de todos estarem bem, sem dúvida as duas mulheres que mais aparecem na história são as que se destacam na produção. Angeli Bayani, atriz com 56 trabalhos no currículo e dois prêmios, é o grande nome do filme. Mas rivaliza com ela bem a atriz malaia Yann Yann Yeo, que tem 23 trabalhos no currículo e seis prêmios. As duas são gigantes em cena, ótimas em encarnar papéis muito diferentes entre si.

Ilo Ilo estreou em maio de 2013 no Festival de Cinema de Cannes, na França. De lá para cá, o filme participou de nada menos que 31 festivais de cinema mundo afora. Uma quantidade impressionante! O último festival do qual ele participou foi em agosto de 2014, o Cínemalayà: Festival de Cinema Independente Filipino. Apenas no dia 30 de abril esta produção estreou nos cinemas do Brasil – e de forma limitada, em poucas salas, como sempre acontece com filmes que não são de Hollywood e não tem nenhum grande estúdio por trás.

Não há informações sobre o custo da produção de Ilo Ilo. Mas segundo o site Box Office Mojo, o filme conseguiu pouco mais de US$ 56,7 mil nos Estados Unidos e cerca de US$ 1,1 milhão nos outros mercados em que estreou pelo mundo. Pouco, pois.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, esta é uma produção 100% rodada e produzida em/por Cingapura.

Ilo Ilo foi o filme indicado pela Singapura para concorrer na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2015. Apesar de ter sido indicado pelo país asiático ao Oscar, o filme não chegou a avançar na disputa – não apenas ficou de fora da lista dos cinco indicados finais à estatueta dourada, mas ficou fora da lista prévia com nove filmes também.

Falado em mandarim, tagalog, inglês e hokkien, Ilo Ilo é uma produção 100% da Singapura. De acordo com este artigo da Wikipédia, Singapura é uma cidade-Estado localizada na ponta sul da Península Malaia. País insular, tem 63 ilhas e, em 2014, o melhor IDH entre os países asiáticos e o nono melhor IDH do mundo. República parlamentarista, o país se separou da Malásia em 1965 e tem uma população de cerca de 5,4 milhões de pessoas.

Mesmo não tendo levado o Oscar, Ilo Ilo é um filme de sucesso. Até o momento ele conquistou 23 prêmios e foi indicado a outros 14. Entre os prêmios que recebeu estão o Golden Camera para Anthony Chen no Festival de Cannes e o prêmio Diretores para Ficar de Olho no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs, entre outros.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para a produção, uma avaliação muito boa, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram ainda mais generosos. Eles dedicaram 34 críticas positivas para a produção – e nenhum texto negativo, ou seja, uma rara aprovação de 100%. A nota média entre essas 34 críticas é de 8,1 – ainda melhor que no IMDb. Baita.

Com tantos prêmios para Anthony Chen, fiquei curiosa para saber mais sobre o diretor e roteirista. Ele é novo. Nasceu em Singapura em abril de 1984 – ou seja, acaba de completar 31 anos. Até agora, ele tem sete filmes no currículo como roteirista e diretor, sendo seis deles curtas – Ilo Ilo é a estreia de Chen nos longas. Bela estreia. Realmente ele merece ser acompanhado.

CONCLUSÃO: Este é um daqueles filmes que envolve o espectador, não importa a origem dele. Com uma história simples, mas ao mesmo tempo complexa porque tem diversas nuances que precisam ser percebidas, Ilo Ilo nos faz refletir sobre os tempos atuais. Quando mães não sabem ser mães, pais de família também estão perdidos e, apesar disso, eles tem que preparar uma criança para a vida. Também observamos uma sociedade em crise, em que alguém sempre está “acima” de outra pessoa, podendo explorá-la ou estender uma mão para ela. Prepare-se, porque Ilo Ilo vai fazendo efeito conforme o tempo passa, e as diversas nuances da história vão sendo trabalhadas no momento pós-filme. Bonito, simples e com diversos momentos inspirados, mas sem muita ação ou reviravoltas, é destes filmes “contemplativos” e que provocam a reflexão muito mais que a capacidade de despertar paixões.

Kreuzweg – Stations of the Cross – 14 Estações de Maria

26 de abril de 2015 1 comentário

kreuzweg1

Um filme forte. Não apenas pela mensagem, pela reflexão, mas especialmente pela condução da história. Kreuzweg é uma destas produções que não tem como deixar quem assisti impassível. O filme trata dos perigos do fanatismo e da fé levada até o extremo que a mensagem original jamais desejaria. Ao mesmo tempo, esta produção narra a história de doação e de abnegação de uma menina muito especial. Filme marcante e que faz pensar, especialmente para quem segue o cristianismo.

A HISTÓRIA: Começa com a primeira estação: “Jesus é condenado à morte”. Em uma sala, seis jovens fazem anotações solicitadas pelo padre Weber (Florian Stetter). No próximo domingo, eles serão crismados. Na sequência, o padre faz um repasse sobre os ensinamentos que eles tiveram nas últimas semanas, falando sobre o significado do sacramento e sobre o que a Igreja espera deles: que eles atuem como os soldados de Cristo.

Quando o encontro termina, Maria (Lea van Acken) fica um pouco mais para fazer algumas perguntas para o padre. Ela começa perguntando se pode sacrificar algo por outra pessoa, como alguém que esteja doente. O padre diz que sim, mas que às vezes a doença é uma mensagem de Deus. Maria segue querendo saber sobre sacrifício e, apesar do padre não concordar com ela, a jovem seguirá nesta ideia radical.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Kreuzweg): Gostei muito, para começo de conversa, do roteiro da dupla Dietrich Brüggemann e Anna Brüggemann. Achei o trabalho deles muito corajoso e, ao mesmo tempo, bem construído, com uma dinâmica diferente e profunda. No início do filme, já chama a atenção Kreuzweg se dispor a entrar tão profundamente na religião. E com propriedade.

Boa parte do que o padre ensina para os jovens é o que realmente a Igreja Católica defende. Mas lá pelas tantas o discurso começa a se mostrar mais radical. Especialmente quando o padre fala que a TV, alguns tipos de revistas e músicas devem ser evitadas porque são obras de Satanás. Naquele exato momento o espectador sabe que esta história não será sobre uma corrente do cristianismo qualquer, e sim sobre uma de várias que pregam o radicalismo na forma de enxergar os ensinamentos de Cristo e de entender o que a Bíblia comunica.

Achei interessante também a direção de Dietrich Brüggemann. Os 14 minutos iniciais da produção são filmados com uma câmera estática, em apenas um ambiente e com os atores sem ação além do diálogo. Quer um começo mais fantástico e anti o que o grande público está habituado a assistir? Achei genial. Logo no início o filme mostra, desta forma, ao que se propõe: refletir sobre o conteúdo, e não apostar na forma. Kreuzweg não é um filme de ação, com reviravoltas e momentos de suspense. Não.

O filme segue uma linha do princípio ao fim e, dividido nas passagens do sacrifício supremo de Jesus, reproduzidos aqui na história de Maria, ele nos leva pelas mãos pela angústia e o terror compartilhado entre os dois. O primeiro, o filho de Deus, que deu a sua vida para redimir todos os homens e mulheres. A segunda, filha de uma mulher (Franziska Weisz) fanática e, por isso mesmo, louca. Acreditando ser correta, reta e estar fazendo “o que é certo”, a mãe de Maria não dá espaço para a filha viver. Pelo contrário.

Sempre que pode, a mãe de Maria está subjugando a filha, a pressionando e maltratando. É angustiante ver o que acontece. O pai (Michael Kamp) da garota não quer criar discórdia dentro de casa, por isso ele aceita a mão de ferro da mulher e vê ela exagerando na criação dos filhos. Ele se cala, e acaba assistindo a opressão caseira de camarote.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Maria, por sua conta, tem uma visão equivocada do sacrifício e, apesar de ser uma menina com grande potencial para ter uma vida inspiradora, ela se agarra ao desejo de ver o irmão curado – de uma “doença” que ninguém sabe se existe, já que os pais deles não parecem ser muito adeptos da Medicina – e faz o sacrifício supremo.

Acho importante aqui ponderar como, de forma correta, o padre se posiciona toda vez que Maria sugere sacrificar-se pelo irmão. Ele afirma que este não é o caminho. Mesmo ele sendo de uma corrente mais extremista da Igreja, que prega um certo exagero de isolamento das pessoas – o que algumas vezes leva alguns a tornarem-se fanáticos, algo que a Igreja jamais vai apoiar -, ele não apoia a ideia de Maria. Mas tudo acontece muito rápido, em uma questão de pouco mais de uma semana – a contar pelo primeiro encontro entre o padre e os jovens, o domingo seguinte em que eles vão ser crismados e os acontecimentos posteriores que, aparentemente, ocorrem em poucos dias.

O roteiro, apesar de seguir uma linha temporal previsível, vai crescendo conforme as estações vão ocorrendo. O texto dos Brüggemann e a direção “naturalista” de Dietrich torna o que vemos ainda mais angustiante. Afinal, é impossível não se colocar no lugar de Maria e pensar que uma história destas pode estar acontecendo neste exato momento em algum lugar do mundo. Não faltam, infelizmente, correntes religiosas extremistas e pessoas que embarcam em uma visão fanática e prejudicial da fé. Assim como não faltam mães e pais repressores, que não ensinam valores para os seus filhos, mas que os aprisionam e maltratam por acreditarem de forma equivocada que aquela é a maneira certa de agir.

Agora, o filme não tem apenas esta linha de entendimento. Também há a ótica de Maria. Ela acredita firmemente que veio ao mundo para sacrificar-se pelo irmão mais novo. O desejo fundamental dela é belíssimo. Jesus deu a vida para salvar a toda a Humanidade. E Maria, acreditando que está seguindo os passos de Jesus, decide também entregar a vida pelo irmão. O gesto é lindo, digno de admiração, mas é evidente que ele não era necessário. Ainda assim, e apenas para colocar um pouco mais de pólvora no assunto, os Brüggemann tem o cuidado de fazer o irmão dela falar logo depois da morte de Maria.

O que eles querem com isso? Certamente criar debate. Tenho certeza que alguns vão defender que aquela fala comprova que Maria e a mãe dela estavam certas, de que era necessário o sacrifício para ocorrer um milagre. Da minha parte, não acredito nisso. Se Jesus se sacrificou por todos, Deus não quer que os sacrifícios humanos ou de qualquer outro ser vivo continuem sendo feitos em nome Dele. Muito menos exige isso como moeda de troca para milagres. Houve ali uma coincidência que depois seguiu sendo mal interpretada pela mãe equivocada de Maria.

Como disse antes, em outros textos sobre filmes que falam de religião, o propósito deste blog não é falar de credos ou de fé. Mas como trato de filmes, impossível não interpretar o que os roteiros e histórias estão querendo nos dizer. Você tem todo o direito de interpretar este filme da maneira que achar melhor. Mas, por favor, dentro do possível, perceba a crítica para o fanatismo feita por esta história.

Centrado em poucos atores e com uma direção sem peripécias, mas bem naturalista, Kreuzweg valoriza o roteiro, os diálogos e as relações entre os personagens. Acredito que os realizadores não querem apenas alertar para os prejuízos que o fanatismo pode provocar no seio de uma família, mas para também, através deste exemplo, fazer cada um dos espectadores refletirem sobre as suas próprias crenças e atitudes.

Um filme incrível, ousado, e com ótimos atores. Praticamente perfeito – só não gostei do exagero no simbolismo, com Maria partindo após a última comunhão. Entendo o propósito dos realizadores, mas achei que esta parte acabou sendo teatral demais. Também senti uma revolta especial com a atitude do pai de Maria, que esperou até o final para tomar uma atitude. Tardia, infelizmente. Estes pontos, para mim, não permitem que o filme consiga a nota máxima. Mas pelo restante da obra, ele merece aplausos.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei anteriormente, este é um filme com um grupo de atores reduzido. E deste grupo, duas interpretações se destacam – porque também predominam na telona. Primeiramente, admirável o trabalho de Lea van Acken, que interpreta a Maria. Ela consegue o equilíbrio perfeito entre meiguice, bondade, fragilidade, devoção e inocência que a personagem dela pede. A garota está perfeita, com interpretação irretocável. Interessante saber que este é o primeiro trabalho dela em um filme.

Outra pessoa que está de tirar o chapéu é a atriz Franziska Weisz, que interpreta a mãe de Maria. Ela se mantém firme do início ao fim, em um papel duro, cheio de opressão mas também de nuances de chantagem emocional. Convence, a exemplo de Lea. Para finalizar, outra atriz que se destaca é Lucie Aron, que interpreta a Bernadette, a única em quem Maria confia e em quem ela se espelha. Mesmo não concordando com a decisão da jovem, Bernadette se mantém forte perto e dando apoio para a jovem, um gesto muito bonito.

Entre os coadjuvantes, se sai muito bem Florian Stetter como o padre Weber. Gostei também do garoto Moritz Knapp, que interpreta a Christian – ele também convence bem no papel. Os demais, achei um pouco fracos. Vale citar que a roteirista do filme, Anna Brüggemann, faz uma ponta como uma médica. Outros coadjuvantes: Birge Schade como a professora de educação física, Sven Taddicken como enfermeira, Ramin Yazdani como o médico e Georg Wesch como o pequeno Thomas.

Da parte técnica do filme, além do ótimo roteiro de Dietrich e Anna Brüggemann, gostei muito da direção direta, simplificada e elegante de Dietrich. Também merecem ser citados o editor Vincent Assmann e a dupla Mareike Mohmand e Anke Thot pela maquiagem.

Fiquei interessada no trabalho dos Brüggemann. O diretor alemão Dietrich Brüggemann tem 39 anos e 10 filmes no currículo – incluindo cinco curtas e um episódio de uma série de TV. Anna Brüggemann é uma atriz experiente, com 68 títulos variados no currículo, e apenas três trabalhos além deste Kreuzweg no currículo como roteirista. Natural de Munique, na Alemanha, ela tem 34 anos. Os dois, me parecem, são muito promissores.

Kreuzweg estreou em fevereiro de 2014  no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, a produção participaria de outros 28 festivais. Nesta trajetória, Kreuzweg ganhou sete prêmios e foi indicado a outros cinco. Entre os que recebeu, destaque para o prêmio entregue pelo Júri Ecumênico do Festival de Berlim e para o Urso de Prata como o Melhor Roteiro do mesmo festival. Merecido, diga-se. O filme também ganhou três prêmios no Festival Internacional de Cinema de Valladolid, na Espanha.

Produção 100% alemã, Kreuzweg foi todo rodado na cidade de Berlim.

Uma curiosidade sobre o filme: além do alemão, são falados o francês (língua de origem de Bernadette) e o latim durante a produção.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para Kreuzweg. Uma boa avaliação, considerando as médias do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 13 críticas positivas para o filme – e isso é tudo. Ou seja, Kreuzweg consegue a rara condição de ser uma unanimidade entre os críticos, obtendo 100% de aprovação no Rotten Tomatoes e a nota média de 7,5 – bem parecida com a nota do “público” do IMDb.

CONCLUSÃO: Kreuzweg é um filme diferenciado. Primeiro porque não tem medo de tratar de temas espinhosos. Depois porque faz isso de forma enfática. A produção tem muito conteúdo, bastante texto e vários ensinamentos interessantes, e mesmo quando “exagera” na mensagem, acerta ao revelar que há seguidores de uma certa religião que podem se perder em seus propósitos. Sacrifícios humanos sempre são dignos de admiração, mas a questão central aqui é saber se este sacrifício era necessário. E a quem ele pode interessar. Destas histórias marcantes e que servem para exemplificar caminhos que não devemos seguir. Potente, merece ser visto e debatido.

CitizenFour

21 de fevereiro de 2015 2 comentários

citizenfour1

Vale a pena fazer um trabalho alternativo e que rompe com as regras do jogo para mostrar a verdade por trás dos fatos suavizados pelo mainstream. Tanto isso é verdade que Edward Snowden procurou um blogueiro e uma documentarista alternativos e que vinham fazendo um trabalho sólido de denúncia de abusos do governo dos Estados Unidos para fazer a denúncia que abalou o mundo em 2013. CitizenFour conta os bastidores da boca no trombone de Snowden por uma das duas pessoas escolhidas por ele para falar das espionagens da NSA (National Security Agency, ou Agência de Segurança Nacional): a diretora Laura Poitras.

A HISTÓRIA: Começa com uma explicação da diretora. Ela diz que em 2006 foi colocada em uma lista secreta após ter feito um filme sobre a Guerra do Iraque. Nos anos seguintes, ela foi diversas vezes presa e interrogada nas fronteiras dos Estados Unidos. O filme seguinte dela foi sobre Guantánamo e a guerra contra o terror. Ela comenta que este é o terceiro filme da trilogia sobre a América após o 11/9.

Enquanto vemos a imagem de um túnel escuro com uma luz deslizando pelo teto, ouvimos a diretora narrando um e-mail que recebeu. Nele, um sujeito dizia que era funcionário do governo do mais alto nível da comunidade de inteligência, e que contatar com ela era de alto risco. Sugere que ela tome precauções de segurança antes deles continuarem a conversar. E termina assinando CitizenFour. Na cena seguinte, vemos a Glenn Greenwald no Rio de Janeiro, em sua residência em 2011, entrando ao vivo para falar de um contrassenso do presidente Barack Obama. Em breve, acompanharemos o encontro entre CitizenFour, Greenwald e Laura Poitras em Hong Kong.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já tenha assistido a CitizenFour): A única possibilidade de você nunca ter ouvido falar de Edward Snowden é se você viveu dentro de uma bolha no fundo do mar nos últimos dois anos. Desde que a primeira matéria de Gleen Greenwald sobre a espionagem em massa e global do governo dos Estados Unidos veio à tona, foi inevitável não ouvir falar deste assunto e, depois, de Snowden.

Sendo assim, CitizenFour não apresenta um personagem novo. Pelo contrário. O documentário da corajosa e elogiada diretora Laura Poitras explora parte dos nuances deste nome tão conhecido mundo afora nos últimos anos. Ver Snowden “mais de perto” e em momentos tão decisivos, como quando as primeiras matérias foram publicadas e começaram a repercutir, é o que este filme tem de mais interessante.

O jeito de Laura filmar é “naturalista”, ou seja, ela procura ter o mínimo de interferência possível no que está acontecendo. Mas como bem nos ensinou o diretor brasileiro Eduardo Coutinho, não existe documentário sem interferência de quem está por trás da câmera. Então é apenas uma ilusão a ideia que Laura tenta nos passar que ela está de forma “invisível” acompanhando tudo, sem muitas perguntas ou interferências de outros tipos. Isso fica evidente toda vez que Snowden comenta com Greenwald, especialmente, sobre algo que ele tinha conversado com Laura.

A diretora sabe, contudo, narrar uma história sem grandes interferências. Para isso, ela utiliza diferentes recursos. Lê e-mails que recebeu do CitizenFour, intercala cenas dos dias decisivos em que ela e Greenwald conversaram com Snowden, mostra parte do cotidiano de Greenwald, segue com Snowden mesmo quando o ex-advogado e articulista não estava mais no quarto já famoso de Hong Kong, e tempera tudo isso com cenas de outros personagens, como William Binney, um lendário cripto-matemático da NSA, e Ladar Levinson, fundador do serviço de correio eletrônico criptografado LAVABIT.

O filme perde um pouco porque já sabemos muito sobre as denúncias de Snowden, mas ganha pontos pela forma da narrativa de Laura. Ela vai nos situando sobre como tudo aconteceu. O trabalho que ela fez, assim como Gleen Greenwald, acaba atraindo o interesse de Snowden. Se Laura não tivesse feito os documentários My Country, My Country e The Oath e tivesse sido perseguida pelo governo dos Estados Unidos por causa disso, Snowden não a teria procurado após sentir dificuldade de manter um contato seguro com Greenwald.

Por coincidência, ou não, Laura era amiga de Greenwald. No livro “No Place to Hide” (ou “Sem Lugar para se Esconder”), lançado por Greenwald em 2014, ele conta como recebeu e-mails assinados por Cincinnatus, que dizia ter informações importantes, mas que só poderia manter um contato mais aprofundado se o articulista conseguisse uma conexão segura – o que ele não tinha, e de como acabou conhecendo a pessoa com quem ele se correspondeu desde o final de 2012 em poucas ocasiões por intermédio de Laura.

Isso, infelizmente, não fica claro no filme. Este é um problema de CitizenFour. O documentário não situa o espectador sobre a amizade de Greenwald com Laura e muito menos contextualiza um pouco melhor a importância dele para as denúncias envolvendo os exageros praticados pelo governo dos Estados Unidos especialmente após o 11 de Setembro. Esse é um ponto fraco do filme. A falta de contextualização é sempre um problema, especialmente para documentários.

Mas a narrativa sobre como tudo começou e foi se desenvolvendo é perfeita. Ficamos sabendo as razões de Laura ter sido escolhida por Snowden, acompanhamos o primeiro e-mail entre eles e sabemos, por exemplo, que a conversa entre o delator e Greenwald só não avançou por uma falta de segurança na comunicação. A parte mais interessante e de relevância histórica está nos dias em que o trio se encontrou no hotel de Hong Kong.

O primeiro encontro foi no dia 3 de junho de 2013. Durante oito dias Snowden se encontrou com Laura, Greenwald e durante parte deste tempo, com o jornalista investigativo do The Guardian Ewen MacAskill para tentar esmiuçar para eles os documentos ultra secretos que ele estava divulgando, explicar as suas intenções e motivações.

É fascinante ouvir Snowden falar sobre o desejo dele que a internet voltasse a ser livre, e que as pessoas tivessem a tranquilidade de serem e pensarem o que elas quisessem sem o medo de que algo de ruim poderia acontecer com elas simplesmente porque um determinado governo não quisesse que elas pensassem de determinada forma ou defendessem certas ideias.

Além de documento histórico, CitizenFour nos mostra um lado diferente de Snowden. Fica claro como ele sabia que o pior poderia acontecer com ele, após ele fazer contato com Greenwald e Laura, mas que ele não se importava com isso. Interessante ver como ele é um sujeito comum, apesar de ter uma inteligência fora do comum. Em certo momento, quando se sentiu mais frágil, ele se olhou no espelho e preocupou-se com a aparência. Como qualquer pessoa faria em algum momento da vida.

Também interessante ver como a reação de Snowden muda com o passar do tempo. No início, ele está tranquilo e bem seguro do que está fazendo. Diz que sabe que o pior pode acontecer com ele, mas está confiante de estar fazendo o que é certo – denunciar a vigilância e espionagem global do governo dos Estados Unidos, com potencial de monitorar todas as comunicações e localização de qualquer pessoa mundo afora. Até que as denúncias começam a aparecer, o assunto ganha repercussão, a namorada dele é encurralada, a família questionada, e ele já não está tão seguro assim.

Bacana essa parte. Afinal, nós temos coragem de fazer o que é necessário, mesmo que o pior aconteça com a gente. Mas quando vemos pessoas próximas sendo ameaçadas, essa segurança inicial é abalada. Nos sentimos responsáveis, culpados, e fragilizados por causa disso. Snowden passa por isso. Mas segue em frente. E é especialmente curioso que após o assunto vir à tona, ele percebe a ameaça real e já não está tão tranquilo sobre o que irá acontecer. O que comprova que uma coisa é idealizarmos uma situação, outra bem diferente é vivenciarmos ela.

Laura nos dá um documento importante não apenas por contribuir na narrativa dos fatos, mas também por mostrar um Snowden que ninguém conhecia. Interessante também como ele fez questão das primeiras notícias darem conta dos fatos e não apresentarem ele, o denunciante. Em mais de uma ocasião ele reforça que ele não era a notícia. Mas em certo momento Greenwald e ele falam sobre ele aparecer, ter a história contada, e de como isso poderia ser uma forma de contar os fatos da maneira correta, inclusive protegendo ele – o que não ocorreria se a revelação da identidade dele fosse feita pelo governo dos Estados Unidos, por exemplo.

Desta forma, CitizenFour nos dá algumas boas lições sobre o poder da informação e do jornalismo. Quando um trabalho é feito de forma séria, comprometida, e com as informações sendo dadas sempre em primeira mão, quem está divulgando estes dados tem o poder na mão. Por mais que as pessoas da NSA e do governo dos Estados Unidos seguiram mentindo por bastante tempo, negando a vigilância feita a nível global, os fatos revelados por Snowden comprovavam o contrário. Ele, um sujeito comum, aliado com Greenwald e outros jornalistas, conseguiu mudar o poder de mãos.

Pela forma com que esta produção é narrada, com um pouco de ajuda da trilha sonora marcante que acompanha a história, CitizenFour parece um filme de espiões. E não deixa de ser. Ainda que Snowden nunca trabalhou para governos “inimigos” dos Estados Unidos, mas apenas quis alertar o mundo sobre a vigilância individual e que acaba com a privacidade das pessoas. Do início ao fim o espectador sente que está acompanhando uma história de espionagem e contra-espionagem.

Bem narrado, este filme ajuda a dar um quadro mais amplo sobre as discussões envolvendo os temas levantados por Snowden – a diretora mostra palestras e audiências sobre o tema que ocorreram paralelamente ao interesse de Snowden de colocar a boca no trombone e pouco depois dele ter feito isso. O Brasil aparece em alguma cenas, tanto por causa da residência de Greenwald no Rio quanto por matérias que foram publicadas por aqui e audiências sobre o tema feitas no Congresso. Laura, claro, sempre está acompanhando Greenwald e Snowden, os personagens centrais desta história.

O problema desta produção, além dela não provocar tanta surpresa ou arrebatamento porque já sabemos boa parte da história, é que a diretora nem sempre contextualiza os personagens para o espectador. Além de não sabermos muito sobre Greenwald, não entendemos muito bem a aparição de outras figuras em cena. Como Jeremy Scahill. Quem acompanha o jornalismo norte-americano sabe quem é Scahill. Especializado em assuntos envolvendo a segurança nacional dos Estados Unidos, Scahill é um jornalista investigativo. Conheci ele por causa do filme Dirty Wars (comentado aqui no blog), que foi indicado como Melhor Documentário no ano passado.

Mas se você não assistiu a Dirty Wars ou acompanha as denúncias de Scahill na imprensa norte-americana, não vai entender nada quando ele aparece em cena em CitizenFour. Descontado este e outros pequenos problemas, o filme é marcante e será lembrado no futuro, com certeza. Especialmente pelo conteúdo – ainda que a forma/narrativa também seja interessante.

O mais incrível, e que fica como mensagem nesta história, é como o governo dos Estados Unidos usou como desculpa a segurança nacional para infringir leis do próprio país e leis de consenso mundial. Utilizando a tecnologia, presente em quase todas as partes, o governo norte-americano tem o potencial de vigiar qualquer pessoa, incluindo você e eu.

O mais grave, contudo, é essa vigilância envolver governantes e empresas estratégicas de diferentes países. Parece argumento de ficção científica, mas é real essa invasão de privacidade. Filme importante e que agrega elementos novos sobre a história de Snowden. Envolvente, documento histórico, só peca um pouco pela contextualização.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O primeiro projeto com o qual a diretora Laura Poitras se envolveu foi a série de TV Split Screen, de 1997, quando ela atuou como assistente de direção. Ela atuaria na mesma posição no ano seguinte no documentário Free Tibet, quando ela também se envolveu como produtora associada. Como diretora, o primeiro projeto foi Flag Wars, de 2003, quando Laura atuou como co-diretora. A estreia na direção sozinha foi feita três anos depois, com My Country, My Country, indicado ao Oscar de Melhor Documentário em 2007.

Em 2010, Laura lançou o segundo documentário solo: The Oath. Depois, ela participaria com dois episódios na série de TV P.O.V. – os dois fruto dos documentários anteriores, um exibido em 2006 e, o outro, em 2010. Em 2011 e 2013 ela dirigiu dois curtas, O’Say Can You See e Death of a Prisoner, respectivamente. No ano passado foi a vez dela lançar CitizenFour.

Com o documentário sobre Edward Snowden a diretora chega a segunda indicação ao Oscar. As bolsas de apostas inglesas apontam que, desta vez, ela deve ganhar a estatueta dourada. Veremos. Até o momento, a diretora acumula 26 prêmios recebidos e outras 19 indicações.

Um nome me chamou a atenção logo nos primeiros minutos do filme: Steven Soderbergh. Ele é um dos produtores executivos do filme. A produção propriamente dita é dividida entre Laura Poitras, Dirk Wilutzky e Mathilde Bonnefoy. Mas é bacana ver Soderbergh como um dos apoiadores do projeto. Por estas e por outras que eu gosto dele.

A direção de fotografia de CitizenFour é feita por Laura Poitras – quase todos os documentários tem o diretor como diretor de fotografia também -, Kirsten Johnson, Trevor Paglen e Katy Scoggin. A edição ficou por conta de Mathilde Bonnefoy.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre a NSA, uma introdução pode ser feita por este artigo da Wikipédia. Ao assistir a esse documentário, fiquei pensando: “Não ouvimos mais falar, nos últimos meses, de Snowden. Como ele estará?”. Pois bem, procurando um pouco a respeito, fiquei sabendo que seguem saindo matérias relacionadas com dados que ele divulgou, como esta em que documentos revelados por ele demonstraram que os serviços de informação dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha invadiram a rede de computadores da maior fabricante mundial de chip de celulares, a holandesa Gemalto. Essa notícia é de ontem, dia 20 de fevereiro de 2015. Snowden segue “causando”.

Depois de muita confusão sobre o asilo político para Snowden – inclusive foi feita uma campanha para ele ser aceito pelo Brasil -, ele foi recebido pela Rússia, como bem explica o filme de Laura. Mas a autorização dos russos era por um ano. O que aconteceu depois. Segundo esta matéria, o governo russo autorizou Snowden a permanecer por mais três anos abrigado no país. Como essa permissão foi dada em agosto do ano passado, ele tem pouso garantido por lá pelo menos até 2017. Menos mal que o mundo não tem apenas uma nação predominante. Nestas horas, acho bom China e Rússia, além de outros países, conseguirem colocar um pouco de equilíbrio na geopolítica mundial.

Quais nomes foram fundamentais nas discussões mundo afora nos últimos anos? Para mim, além de Edward Snowden, só mesmo o Papa Francisco. Pois bem, aparentemente os dois vão concorrer ao Nobel da Paz em 2015. Pelo menos é isso o que sinaliza esta reportagem. Se isso realmente for confirmado, vai ser interessante a definição sobre qual dos dois teve mais importância para a Paz mundo afora. O que vocês acham? Se eu tivesse que votar, eu teria sérias dúvidas em quem votar.

CitizenFour estreou em outubro de 2014 no Festival de Cinema de Nova York. Depois, o filme participaria de outros 10 festivais e eventos relacionados com filmes documentários. Nesta trajetória a produção recebeu 39 prêmios e outras 19 indicações – incluindo a indicação de Melhor Documentário no Oscar 2015. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o BAFTA de Melhor Documentário; para o prêmio de melhor direção em documentário dado pelo Directors Guild of America; para o prêmio de Melhor Filme dado pela Associação Internacional de Documentaristas; para o prêmio de Melhor Filme de Não-Ficção dado pelo Sociedade Nacional de Críticos de Cinema dos Estados Unidos; e para o prêmio de “cineasta que faz a diferença” no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

Esta produção foi rodada em Hong Kong, em Berlim, Bruxelas, Londres, Rio de Janeiro, Moscou e nos Estados Unidos. Ou seja, Laura Poitras deu uma boa volta ao mundo para fazer este documentário. E ela migra de um local para o outro com muita suavidade.

Agora, uma curiosidade relacionada com Edward Snowden: ele será interpretado pelo ator Joseph Gordon Levitt na cinebiografia que será dirigida por Oliver Stone – outro diretor com posições políticas bem claras. O que eu admiro.

Não encontrei informações sobre os custos de CitizenFour, mas sim sobre o resultado dele nas bilheterias. De acordo com o site Box Office Mojo, este filme conseguiu pouco mais de US$ 2,6 milhões nos Estados Unidos e cerca de US$ 202,3 mil no restante dos mercados em que já estreou.

Na verdade, o filme estreou de forma limitada (em poucos cinemas) nos Estados Unidos, no Reino Unido, no Canadá e na Austrália, e entrou em cartaz em poucos países, como Alemanha, Dinamarca e Áustria. Ou seja: ele ainda precisa estrear na maioria dos lugares. Isso explica a bilheteria ainda baixa. CitizenFour tem previsão de estrear em março na França e na Espanha. Não há previsão ainda para o Brasil.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para o filme de Laura Poitras. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 120 textos positivos e apenas três negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média de 8,3 – o nível da aprovação e a nota são ótimos levando em conta o padrão do site.

Este filme é uma coprodução da Alemanha com os Estados Unidos. Sendo assim, ele entra na lista de produções pedidas por vocês, caros leitores, aqui no blog.

CONCLUSÃO: A história que Edward Snowden contou, todos conhecem. Mas parte dos bastidores dos contatos dele com os porta-vozes da novidade que ele veio trazer, de que o governo dos Estados Unidos através da NSA armazena informações da comunicação de pessoas do mundo inteiro, incluindo aí líderes de outros países, é apresentada neste CitizenFour. A outra parte da história pode ser conferida no livro de Gleen Greenwald.

Este documentário acerta ao nos mostrar os bastidores de parte das negociações e das entrevistas, assim como ajuda a desmistificar a figura séria de Snowden. Mas ele não chega a arrebatar, ou a nos revelar fatos muito surpreendentes sobre o personagem central. É bom, mas não é excepcional, apesar de ser um documento importante e que fecha uma trilogia da diretora.

PALPITE PARA O OSCAR 2015: Nas bolsas de apostas do Reino Unido, não tem para ninguém. CitizenFour é, disparado, o favorito para ganhar a estatueta dourada na categoria Melhor Documentário este ano. Os mesmos apostadores dão como certa a vitória de Birdman (comentado aqui) como Melhor Filme. Caso eles estejam certos nestas duas categorias, o Oscar vai dar passos largos no caminho da ousadia.

Começando por Birdman: o filme de Iñarritu atira para todos os lados ao fazer uma crítica geral ao mainstream. O filme ataca do cinemão norte-americano – simbolizado pelos filmes de heróis – até a Broadway e a parada de sucessos musical dos Estados Unidos. Ser nove vezes indicado ao Oscar este ano já era um grande feito para o filme. Se ele sair com as estatuetas de Melhor Filme e Melhor Diretor, o feito terá sido memorável.

CitizenFour vai na mesma direção. Primeiro porque o filme trata como herói um dos maiores inimigos dos Estados Unidos dos últimos anos. Edward Snowden escancarou a vigilância dos cidadãos dos Estados Unidos e do resto do mundo, virando um dos principais assuntos de 2013.

Se ganhar como Melhor Documentário, este filme não apenas consagrará ainda mais Snowden, mas também a diretora Laura Poitras que fez outras duas produções corajosas sobre a América após o 11/9. Por tudo isso, acredito que seria justo o filme ganhar. Isso iria coroar o trabalho corajoso da diretora e também a ousadia de Snowden.

Mandariinid – Tangerines

16 de fevereiro de 2015 3 comentários

mandariinid1

Como comentei recentemente por aqui, um filme para ser bom não precisa ser longo. E o mais importante de tudo: pode ser bem simples. Mandariinid é uma produção muito simples, que gira sobre uma proposta interessante: o que pode acontecer quando dois inimigos mortais são “obrigados” a conviver sob o mesmo teto e sob a regra de não se matarem lá dentro? A tensão e a aproximação entre eles é inevitável, e o resultado desta proposta é muito interessante. Um filme simples, curto, e excelente ao revelar-se um grande libelo pela vida e pela paz.

A HISTÓRIA: Começa explicando que aldeias estonianas foram formadas na Abecásia na segunda metade do século 19. A guerra entre Geórgia e Abecásia começou em 1992, alterando a vida dos moradores estonianos. A maioria deles decidiu voltar para a sua terra natal. Isso esvazio as aldeias, aonde poucos resistiram à debandada. Uma destas pessoas é Ivo (o ótimo Lembit Ulfsak), que trabalha em caixas para armazenar e transportar tangerinas, cultivadas por ele e, principalmente, pelo vizinho e amigo Margus (Elmo Nüganen). Mas a vida tranquila dos vizinhos será modificada com a chegada de Ahmed (Giorgi Nakashidze) e a aproximação da guerra.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mandariinid): Que filme maravilhoso! Esse é o primeiro comentário que quero deixar claro por aqui. Focado em poucos personagens e no trabalho de ótimos atores, com um roteiro preciso e bem construído pelo diretor e roteirista Zaza Urushadze.

Como eu disse lá no início, Urushadze parte de uma premissa simples e muito interessante: o que aconteceria se dois inimigos mortais fossem reunidos frente a frente em uma mesa, sem a possibilidade matarem um ao outro? Ora, a resposta é evidente: eles teriam que vencer as próprias resistência e começarem a dialogar. Como bem apresenta Mandariinid, inicialmente a troca entre os dois se resume a farpas e provocações.

Mas para intermediar o conflito, temos o genial Ivo. Um homem com olhar atento, muita sabedoria e que sabe tratar as pessoas da forma justa, na medida certa para que elas o respeitem e para que saibam que ele as respeita. Aliás, a honra e o respeito são dois elementos fundamentais nas relações estabelecidas nesta história. De forma muito acertada, Urushadze decide fazer a história crescer lentamente.

Primeiro, ele dedica aquelas linhas iniciais para situar o espectador no cenário do filme. A produção se passa na Abecásia, região no Caucásio, entre a Ásia e a Europa, que fez parte da extinta União Soviética. A Abecásia é uma república autônoma em busca de independência da Geórgia, que fica ao Sul da Abecásia. É ali que, segundo o diretor, desde o século 19, vivem estonianos em aldeias.

De acordo com este texto da Wikipédia, com o fima da União Soviética em 1991, as tensões étnicas entre abecásios e georgianos cresceram com os movimentos de independência da república da Geórgia. A guerra civil matou milhares de pessoas em 1992 e 1993, até que foi declarado cessar-fogo em 1994. Sem o problema ser resolvido completamente, os conflitos retornaram no local nos anos 2000.

Pois bem, depois daquela breve introdução do problema na Abecásia, Urushadze nos apresenta o protagonista do filme, Ivo, tendo a rotina tranquila interrompida pelo cenário de guerra do país. O mercenário da Chechênia que é pago para lutar ao lado dos abecácios Ahmed pede comida para ele e o seu amigo e companheiro de armas. Não há negociação, e o primeiro pensamento que eu tenho é de “que bom que aquele homem vive ali sozinho e não tem nenhuma mulher em casa”. Sabemos como as guerras são cruéis.

A dupla de chechenos fica pouco tempo na casa de Ivo. Quando eles vão embora, ele não volta para a produção de caixas. Ivo procura o amigo Margus, produtor de tangerinas, e aí se apresenta o segundo drama da história: a luta dos dois vizinhos para continuar com a tradição do plantio e colheita de tangerinas. Os pés estão carregados de frutas, e os dois acham uma pena desperdiçar tudo aquilo. Mas eles tem pouco tempo para colher tudo e transportar a mercadoria – e, para isso, eles contam com a ajuda de homens que estão na luta armada e que prometeram trabalhar para eles por alguns dias.

Em pouco tempo o roteiro de Urushadze nos apresenta dois dramas que, ao mesmo tempo, são muito particulares daquela região do mundo e, também, bastante universais. Afinal, quantos países já contabilizaram guerras e conflitos em sua história? E quantos lugares tem práticas de busca de renda e de preservação das tradições e/ou culturas como aquele simples plantio de tangerinas mostrado no filme?

Não demora muito tempo para que Ivo seja retirado da tranquilidade novamente. E desta vez os fatos vão mudar a rotina dele definitivamente. Ahmed e o amigo entram em conflito com um grupo de georgianos. Aparentemente, apenas Ahmed sobrevive. Mas na hora de enterrar os mortos, Ivo e Margus encontram um georgiano sobrevivente: Niko (Misha Meskhi). Humanista e defensor da vida, Ivo não pensa duas vezes em fazer de tudo para salvar Niko.

Ele não se importa em abrigar sob o mesmo teto os dois inimigos mortais. Pelo contrário. Pelo seu olhar e risada contida, muitas vezes parece que ele acredita que aquela fatalidade foi perfeita. Ele pede para Ahmed que não mate o inimigo sob o seu teto, e o checheno dá a sua palavra. Niko está muito ferido para tentar qualquer vingança. E assim os dois inimigos começam a conviver. No início, chega a ser hilário o conflito entre os dois. Eles parecem duas crianças brigando para saber quem tem direito à terra, quem sabe lutar melhor ou quem é menos ignorante.

A birra um tanto infantil me parece bem calculada por Urushadze. Afinal, toda a guerra é baseada em disputas deste gênero, de quem chegou primeiro ou de quem tem mais direito à propriedade do que o outro. No fim das contas, e Ivo demonstra isso diariamente, sob a compreensão progressiva de Ahmed e Niko, pouco importa quem acredita ter mais direito que o outro. Todos são iguais e merecem viver. Esta é uma das grandes mensagens deste filme. Mas não é a única.

Depois da lição envolvendo os dois inimigos mortais, que pouco a pouco vão notando que não tem reais razões para se odiarem e desejarem a morte um do outro, o filme tem nova reviravolta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na reta final da produção, um grupo de militares pró-independência da Abecásia chegam na propriedade e questionam a origem de Ahmed. Ele diz que é checheno, mas eles não acreditam no que ele fala. Em poucos minutos ocorrem duas mortes.

Elas comprovam e ensinam dois importantes valores: primeiro, que a guerra não poupa ninguém e tira amigos de todos os lados; e segundo, que ela termina com os sonhos e talentos de jovens promissores. Pouco antes, sabemos um pouco mais sobre Niko. Apenas para ver que tipo de pessoa daria a vida para defender os seus protetores. Não importa o quanto uma luta seja justa, ou correta, ela nunca vai nos levar a algo positivo porque significará mortes, perdas irreparáveis.

Para fechar a narrativa, Ivo ainda tem um último gesto maravilhoso. Ficamos sabendo um pouco mais sobre ele, sua perda irreparável e, com isso, o espectador fica ainda mais maravilhado com o gesto de homenagem final para um jovem talento que ele ajudou a salvar, mas que foi morto por uma guerra sem justificativa.

Como ele bem defende nos minutos finais da produção, pouco importa se a pessoa morta era abecasiana, georgiana ou chechena. Ela era filha de alguém e um indivíduo que poderia ter contribuído muito para uma comunidade. A guerra é sempre uma lástima. Essa é a principal mensagem de Mandariinid, um filme simples e fantástico justamente por isso.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um filme não precisa ter um grande elenco, mas é fundamental ter ótimos atores em cena. Pessoas comprometidas com o trabalho e com passar cada pequeno aspecto da personalidade e das reações de seus personagens para o espectador. É isso o que comprova Mandariinid. A produção tem claramente quatro atores como destaque. Os demais, fazem apenas pontas. Por isso mesmo, o primeiro destaque desta produção são os atores Lembit Ulfsak, com especial atenção, porque ele é o protagonista; seguido de Giorgi Nakashidze, Misha Meskhi e Elmo Nüganen.

Outro elemento importante nesta produção é a marcante e muito presente trilha sonora de Niaz Diasamidze. O trabalho dele é vigoroso e nos remete para a tradição daquela região. Outro elemento importante e que funciona bem é a direção de fotografia de Rein Kotov. Ainda que o filme não saia das propriedades de Ivo e Margus, o cuidado com os contrastes e as cores daquele local valoriza as cenas que o espectador confere atentamente. Também muito competente e acertada a edição de Alexander Kuranov.

A equipe é pequena, e todos os envolvidos fazem um bom trabalho. Mas além dos elementos citados acima, acredito que outro elemento fundamental para esta história seja o som. Um bom trabalho do trio Harmo Kallaste, Valter Jakovlev e Ranno Tislar.

Mandariinid estreou em outubro de 2013 no Festival de Cinema de Varsóvia. Depois, o filme participaria ainda de sete festivais – o último deles o Festival Internacional de Cinema de Palm Springs, em janeiro deste ano. Estranhamente ele não participou de nenhum dos grandes festivais. Nesta trajetória, a produção ganhou 10 prêmios e foi indicada a outros sete, incluindo a indicação para Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2015.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para uma menção honrosa na categoria de Melhor Filme no Festival de Cinema de Jerusalém, e para os prêmios de Melhor Filme e Melhor Diretor no Festival Internacional de Cinema de Varsóvia.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Mandariinid foi filmado na cidade de Guria, na Geórgia.

O diretor Zaza Urushadze tem apenas cinco títulos no currículos. Todos longas. A estreia dele como diretor foi feita em 1989 com o filme Mattvis Vints Mamam Miatova. Depois, ele só voltaria a lançar um novo longa em 1998: Ak Tendeba. Fiquei com vontade de assistir aos filmes anteriores do diretor. Natural da Geórgia, em outubro ele completa 50 anos.

Giorgi Nakashidze, que interpreta ao checheno Ahmed, na verdade é georgiano – nacionalidade que ele é pago para matar no filme. Essa foi a única curiosidade desta produção que eu encontrei para comentar aqui.

Para quem quiser saber mais sobre a Abecásia, recomendo este texto da Wikipédia e também esta notícia publicada na revista Exame que registra um acordo firmado pela Rússia com a Abecásia no final de 2014. Como o segundo texto deixa bem claro, a região da Abecásia se separou da Geórgia “mas não teve a sua independência reconhecida internacionalmente”. Enquanto isso, os conflitos continuam. O que faz com que Mandariinid seja um filme ainda mais corajoso – afinal, além de ser um libelo pela paz e contra qualquer guerra, ele ainda fala de um assunto bastante atual e que mexe com muitos brios atualmente.

Não encontrei informações sobre o custo de Mandariinid, mas imagino que ele tenha sido baixo – especialmente se comparado com o padrão de Hollywood. Também não vi notícias sobre a bilheteria do filme, mas para ele ser tão pouco falado, certamente foi pouco assistido nos Estados Unidos e em países importantes para a crítica de cinema.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,7 para esta produção. Uma ótima, estupenda avaliação se levarmos em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes praticamente ignoraram este filme até aqui. O site abriga apenas quatro críticas – todas positivas, o que daria uma aprovação para o filme de 100%. Essa quase ausência de críticas também reforça a minha observação acima, de que esta produção acabou sendo prejudicada porque quase não foi vista – ela teve uma distribuição restrita, aparentemente.

CONCLUSÃO: O essencial sobre a guerra, as divergências entre as pessoas, a busca pela paz e pelo entendimento está neste filme. Todos esses assuntos parecem ser complicados demais para serem resumidos em menos de 1h30 de uma produção, correto? Mas eis mais um ensinamento maravilhoso de Mandariinid: tudo pode ser simplificado até o essencial. Este filme é o contrário de Birdman e, para o meu gosto, mereceria muito mais evidência do que o filme de Inãrritu. Mas como o mundo não é justo e Hollywood está preocupada com os seus próprios filmes, teremos muito mais gente assistindo a Birdman do que a Mandariinid. O que é uma pena. Ainda assim, se puder, por favor, não evite esse filme. Ele é grandioso em sua simplicidade.

PALPITE PARA O OSCAR 2015: Representante do pouco conhecido no Brasil país Estônia, Mandariinid revela como uma história sem complicações e que aposta em uma boa ideia pode ser potente. Infelizmente pouco falado no Oscar 2015, para o qual os holofotes estão sendo direcionados para Ida (comentado aqui) e para Leviathan (com crítica neste link), este filme mexeu mais comigo que os outros dois.

Mas a verdade é que Mandariinid corre por fora na disputa, assim como Relatos Salvajes e Timbuktu. Pelo menos é isso o que sinalizam os burburinhos e as notícias de bastidores da premiação. Surpresas sempre podem acontecer, é verdade, ainda mais em uma categoria aonde a pressão dos grandes estúdios costuma influenciar menos. Mas acho difícil esse filme, o melhor da categoria para mim até agora, levar a estatueta.

De qualquer forma, muito boas e acima da média as três produções que concorrem a Melhor Filme em Língua Estrangeira que eu assisti até agora. O que apenas comprova que esta categoria, colocada em segundo plano no Oscar, sempre é uma das melhores e que tem todos os indicados dignos de serem vistos. Este é mais um grande ano nesta categoria. E ainda que Mandariinid ganhar seria uma grata surpresa, ainda acho que os favoritos são Leviathan e Ida – o primeiro com apelo de crítica à Rússia, e o segundo, aos crimes contra os judeus (grupo que tem grande peso nos Estados Unidos e, consequentemente, em Hollywood).

%d blogueiros gostam disto: