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The Imitation Game – O Jogo da Imitação

23 de janeiro de 2015 6 comentários

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Quanto mais o tempo passa, mais percebemos que a História com H maiúsculo que aprendemos na escola está distante da verdade. Evidente que não é possível aprender, no período de 11 anos que incluem o primeiro e o segundo grau, grande parte da história humana com certa profundidade. Ainda assim, eventos inevitáveis de qualquer estudo da História, como a Segunda Guerra Mundial, nos foram ensinados de maneira tradicional, muitas vezes chata. Até que filmes como The Imitation Game nos apresentam a verdade de maneira mais que interessante. Excepcional. Esta produção tem um fundo histórico fortíssimo, mas também histórias de gente inspiradoras.

A HISTÓRIA: Primeiro, o filme deixa claro que o que veremos é baseado em uma história real. 1951, em Manchester, Inglaterra. Alan Turing (Benedict Cumbertbatch) está sentado quieto em uma sala da delegacia local quando chega o detetive Robert Nock (Rory Kinnear). Turing pergunta se ele está prestando atenção, porque o que ele vai contar precisa de atenção total. Voltamos no tempo, e vemos cenas do Serviço de Inteligência (MI6) britânico, que recebe a mensagem de que Turing foi assaltado. Mas o que um professor universitário teria a ver com o Serviço de Inteligência? E quais as razões para ele dizer que, apesar de ter tido a casa invadida, nada foi levada? Pouco a pouco vamos adentrando na história do protagonista e de seus feitos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Imitation Game): Esta é uma produção muito, mas muito diferente de Boyhood. E, ao mesmo tempo, guarda semelhanças com aquele que, até agora, eu tinha achado o melhor filme na disputa pelo Oscar 2015. Enquanto Boyhood (com comentário aqui) acompanha o amadurecimento de um garoto da infância até a ida dele para a universidade com o diferencial de vermos o processo acontecendo na nossa frente, The Imitation Game nos revela o amadurecimento de uma sociedade.

As duas produções também valorizam qualidades como a amizade, o companheirismo e a forma surpreendente com que algumas pessoas podem se revelar melhor do que os outros acreditavam inicialmente. As semelhanças terminam aí. The Imitation Game é um filme de época e que trata de um período chave para a sociedade atual: a Segunda Guerra Mundial e o seu desfecho.

O impressionante da obra, contudo, é que ela não trata apenas deste período histórico, jogando luz no trabalho de descoberta do código de criptografia nazista, fato escondido por cinco décadas e fundamental para a época, mas também, e especialmente, nos apresenta uma história muito humana.

O roteiro de Graham Moore é digno de ser estudo. Ele consegue o equilíbrio perfeito entre o drama histórico e a cinebiografia, adentrando na vida e nas aspirações de Turing ao mesmo tempo em que narra os bastidores da quebra da lógica da Enigma, máquina dos nazistas que todos os dias tinha os códigos alterados para o envio de mensagens fundamentais (ou não) para a guerra.

Verdade que ele não inventa a roda. Moore faz uso daquela técnica já bem conhecida de intercalar diversos tempos narrativos. Então a história começa com Alan Turing na delegacia, prestes a responder por um crime absurdo – e que por não ser considerado mais crime demonstra que, mesmo que lentamente, a Humanidade avança -, depois migra para a fase da Segunda Guerra Mundial para, finalmente, retroceder ainda mais na infância do protagonista. Todas estas “viagens temporais” fazem sentido para a história.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, como entender a angústia de Turing ao ser preso e depois condenado por “práticas homossexuais” sem saber a importância histórica do personagem – daí a volta para a época da Segunda Guerra -, e como compreender o apreço dele por seu invento e pelo nome de Christopher sem conhecer a amizade e o companheirismo do primeiro amor dele?

A forma com que a história flui nos três tempos narrativos e a condução que o diretor Morten Tyldum faz de cada detalhe da narrativa são dois pontos fortes do filme. Não adianta. Sem um ótimo roteiro e uma direção competente, não há filme que se destaque no cinema atualmente. The Imitation Game tem estes dois elementos e mais um elenco muito afiado, com nomes bem conhecidos do cinema ou da TV dos Estados Unidos e do Reino Unido.

O ótimo Benedict Cumberbatch faz uma interpretação memorável de Alan Turing, este homem brilhante que tinha uma grande dificuldade de se relacionar e dialogar com as pessoas – como muitos dos grandes gênios que a Humanidade já teve, aliás. Em alguns momentos, ele até parece ter um pouco de autismo. Mas conforme a história vai nos mostrando o que Turing passou na escola, entendemos um pouco mais das razões que fizeram ele ser um cientista centrado no próprio trabalho e pouco afeito a atuar em grupo.

Por falar em grupo, que bela escolha de elenco para esta produção! Parabéns para Nina Gold pelo excelente trabalho com esse time de craques. A estrela, claro, é Benedict, mas ele deixa brilharem também Keira Knightley como Joan Clarke, a única mulher no grupo que trabalhou para decifrar a máquina Enigma; Matthew Goode, recente revelação da série The Good Wife, que interpreta a Hugh Alexander; Allen Leech, mais conhecido pelo trabalho em Downtown Abbey, que faz as vezes no filme de John Cairncross; e Matthew Beard, um pouco atrás dos outros na interpretação, que dá vida no filme para Peter Hilton. Esses cinco foram fundamentais para a reviravolta que os Aliados tiveram na última grande guerra de proporções mundiais.

O elenco afiado é um elemento a mais para o filme dar certo junto com o roteiro e a direção. Mas para completar o quadro, os elementos técnicos de The Imitation Game também cumprem o seu papel. Tudo funciona bem. Falarei deles mais detalhadamente abaixo. Voltemos agora um pouco para a história. Por que ela é tão fascinante?

Primeiro porque a narrativa é envolvente e foca em uma história pouco contada no cinema. Nem poderia ser diferente. Apenas no final dos anos 1990 veio a tona o trabalho de Turing e equipe. Sem contar que filmes sobre a Segunda Guerra Mundial que trazem elementos novos para o entendimento daquela época sempre são fascinantes. O mais comum, contudo, é vermos infindáveis cenas de batalha e de heroísmo. The Imitation Game nos revela o trabalho de bastidor de muita gente que atuava em outra frente, a da inteligência, e não da força bruta.

Este novo ângulo por si só é interessante. Agora, adicione a isso um olhar detalhado sobre a trajetória de um cientista menos conhecido mas que, no fim das contas, foi fundamental para que eu estivesse agora escrevendo este texto em um notebook e para que você estivesse lendo estas letras em seu computador ou dispositivo móvel. Este homem, considerado estranho, isolado, pouco afeito a conversas, foi quem idealizou e defendeu em artigos científicos que as máquinas também pudessem pensar.

Em uma das cenas mais bacanas do filme, Turing provoca o policial que o está interrogando a testá-lo para saber se ele é uma máquina ou um humano. A lógica proferida por ele naquele momento é maravilhosa, digna de guardar na memória ou escrever em um quadro. E claro que serve não apenas para refletir sobre as máquinas, mas sobre nós mesmos. Afinal, todos temos formas diferentes de raciocinar, mas todos nós pensamos. Sejamos executivos, empregados, santos ou bandidos.

Como se não bastasse essa reflexão brilhante de Turing e a contribuição que ele deu para o fim do conflito mundial, ainda existe o caráter pessoal da história dele e que faz eco até hoje. Aquela mente brilhante, isolada da sociedade por suas características, foi exposta na sociedade como pervertida, indecente, e condenada por ele não ser tudo isso, e sim por ser homossexual.

Como o filme deixa claro nos créditos finais, entre 1885 e 1967 cerca de 49 mil homens foram condenados por serem homossexuais no Reino Unido – essa orientação sexual era vista como crime. Turing, é verdade, acabou tendo o passado resgatado. Mas nunca saberemos tudo que ele poderia ter feito pela ciência se não tivesse passado por aquela situação.

Para finalizar, um dos pensamentos mais interessantes desta produção, e que é repetido pelo menos três vezes – na infância de Turing, quando ele tenta convencer Joan Clarke a seguir na missão e, depois, quando ele está isolado, solitário e deprimido em casa, quando Joan tenta consolá-lo, é também um resumo do que penso sobre as pessoas. “São as pessoas que ninguém espera nada que fazem as coisas que ninguém consegue imaginar”.

Em outras palavras, todos merecem uma oportunidade de desenvolver-se e mostrar o que a pessoa tem de melhor. Assim como todos merecem respeito. Afinal, muitas vezes, a solução e a salvação virá justamente de quem menos se esperava. Fascinante.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para mim, foi um surpresa ver tanta qualidade em The Imitation Game. E digo isso por uma razão muito simples: ele é um dos filmes menos badalados da fase pré-Oscar e, mesmo agora, quando estamos na reta final para a maior premiação de Hollywood. Muitos rasgam seda para Birdman, outros se derretem por Boyhood ou por The Theory of Everything, mas quase ninguém fala muito sobre esta produção. Por isso mesmo foi uma grata e boa surpresa ver tanta qualidade na obra comandada por Morten Tyldum.

Antes falei dos atores, mas vale comentar os aspectos técnicos impecáveis desta produção. Para começar, grande o trabalho de Alexandre Desplat com a trilha sonora. Não por acaso ele foi indicado ao Oscar. Depois, muito boa a direção e fotografia de Oscar Faura; a edição de William Goldenberg; os figurinos de Sammy Sheldon; a direção de arte de Nick Dent, Rebecca Milton e Marco Anton Restivo; e a decoração de set de Tatiana Macdonald.

Toda esta equipe e todas as outras pessoas envolvidas em efeitos especiais, maquiagem e etc. garantem que vejamos cenas de reconstituição bastante fidedigna do final dos 1920 até o início dos anos 1950, incluindo reconstituições de cenas marcantes da época e o uso de imagens históricas por parte do diretor.

Citei alguns dos atores que fazem o filme fluir com precisão e graça, destacando especialmente a equipe envolvida no trabalho de decifrar o código nazista, mas há outros atores no elenco que merecem ser citados pelo ótimo trabalho realizado. Mark Strong está perfeito como Stewart Menzies, o homem por trás do Serviço Secreto britânico durante a Segunda Guerra e que acaba sendo peça fundamental no jogo de contraespionagem jogado naquela época; e Charles Dance, bem conhecido pela série Game of Thrones, também se sai muito bem como o comandante Denniston.

Também vale citar o trabalho de Alex Lawther como o jovem Alan Turing, e Jack Bannon como o amigo dele na infância, Christopher Morcom. Fazem papéis menores mas um pouco relevantes Ilan Goodman como Keith Furman e Jack Tarlton como Charles Richards, os dois participantes da equipe contratada pelos ingleses para decifrar Enigma e que são demitidos assim que Turing consegue comandar o projeto.

O roteiro de Graham Moore é brilhante, como eu comentei antes. Mas é preciso também comentar que boa parte do mérito dele deve estar no livro Alan Turing: The Enigma, escrito por Andrew Hodges.

The Imitation Game estreou em agosto de 2014 no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme passou por outros 47 festivais – um número impressionante. Nesta trajetória, a produção ganhou 39 prêmios e foi indicada a outros 101, incluindo oito indicações ao Oscar 2015. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os prêmios de Compositor do Ano para Alexander Desplat, Diretor do Ano para Morten Tyldum, Ator do Ano para Benedict Cumberbatch e para Atriz do Ano para Keira Knightley no Festival de Cinema de Hollywood; para o prêmio para o elenco no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs e pela escolha do público por Morten Tyldum como “Mestre” do ano. Esta produção também aparece no Top Ten Film 2014 da National Board of Review.

Esta é uma produção 100% rodada no Reino Unido, em locais como o Parque Bletchley, na cidade de Bletchley; na Sherborne School, a escola onde Turing realmente estudou, em Dorset; e outras diversas cenas em Londres.

No dia 27 de novembro de 2014, antes do filme estrear nos cinemas dos Estados Unidos, o The New York Times reproduziu as palavras-cruzadas publicada originalmente em 1942 no The Daily Telegraph e criada para recrutar decifradores de códigos para trabalhar em Bletchley Park durante a Segunda Guerra Mundial. As pessoas que conseguiram decifrar as palavras-cruzadas no ano passado concorreram a uma viagem para Londres que incluía visitar as instalações de Bletchley Park.

Agora, outras curiosidades sobre o filme: Em uma das cenas finais do filme o ator Benedict Cumberbatch não conseguiu parar de chorar e passou por um colapso. Ele realmente ficou envolvido com a história de Turing e com o que ele sofreu na reta final da vida.

Em diversos momentos do filme Turing aparece correndo. Na vida real ele era um corredor de longa distância de classe mundial, com um tempo de maratona de 2:46:03 conquistada em 1946.

O personagem Stewart Menzies inspirou Ian Fleming, que trabalhou no departamento de espionagem britânico durante a Segunda Guerra Mundial, a criar o personagem M, chefe do personagem James Bond.

Desplat compôs a trilha do filme em duas semanas e meia. Ela foi gravada com a Orquestra Sinfônica de Londres no Abbey Road Studios.

Este é o primeiro roteiro de Graham Moore. Ele queria escrever um roteiro sobre Alan Turing desde que tinha 14 anos de idade.

O terno risca de giz que Mark Strong utiliza durante o filme é um terno autêntico dos anos 1940. Ele foi escolhido para caracterizar o personagem que liderava a operação em Bletchley Park porque lhe dá um ar de “chefe da máfia”.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Durante o filme, o diretor faz referência a como Turing se matou. Quando os policiais vão na casa dele, após a denúncia de assalto, ele está recolhendo pó de cianureto. Em outro momento, ele dá maçãs para os colegas de trabalho. Foi com uma maçã envenenada com cianureto que o cientista se matou.

Este é um destes filmes que nos faz pensar como qualquer conversa pode ser mega importante. E pensar que sem o comentário de Helen (Tuppence Middleton) despretensioso naquele bar, brincando que acreditava que o inimigo que ela acompanhava diariamente tinha uma namorada porque todas as mensagens dele começavam com a palavra Cilly, aquele grupo de cientistas jamais conseguiria decifrar o código do Enigma a tempo, no prazo que o comandante havia dado. Fantástico. Nunca se sabe, realmente, quando uma conversa despretensiosa pode mudar tudo.

Os usuários do site IMDb eram a nota 8,2 para esta produção. Uma avaliação muito boa, considerando o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 200 textos positivos e 22 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 90% e uma nota média de 7,7. Achei baixa a nota, em especial, ainda que gostei do nível de aprovação.

The Imitation Game teria custado cerca de US$ 14 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 52,9 milhões até o dia 21 de janeiro. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele soma outros US$ 50,2 milhões. Fico feliz que ele esteja se saindo bem. De fato, ele merece.

Esta é uma coprodução entre Reino Unido e Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Pessoas indesejadas em determinadas sociedades conseguem feitos fantásticos quando elas tem não apenas a oportunidade de se desenvolver, mas também a chance de empregar bem o seu talento. The Imitation Game é um filme que vai muito além da biografia de Alan Turing e de um feito incrível dos bastidores da Segunda Guerra Mundial. Esta produção nos faz refletir sobre os diversos absurdos de que a Humanidade é capaz ao mesmo tempo que nos mostra o valor da solidariedade, do talento e da amizade. Um filme bem conduzido, perfeitamente escrito e com atores que cumprem bem os seus papéis. Irretocável e envolvente. Um dos grandes de 2014.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Depois de The Grand Budapest Hotel e Birdman, indicados nove vezes no Oscar, The Imitation Game é o filme mais indicado deste ano. Ele está concorrendo em oito categorias. Poderia vencer em várias, ou pode também sair de mãos vazias.

Birdman está sendo muito badalado. Mas acho que Boyhood deve ganhar como Melhor Filme. Depois de Boyhood, para mim, The Imitation Game é o melhor filme de 2014 – pelo menos até agora, ainda falta assistir a três concorrentes da categoria. O filme concorre ainda em Melhor Ator – Benedict Cumberbatch; Melhor Diretor – Morten Tyldum; Melhor Trilha Sonora; Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Atriz Coadjuvante – Keira Knightley; Melhor Design de Produção e Melhor Edição.

A parada do filme é dura em todas as categorias. Ele tem qualidade para ganhar, mas também tem fortes concorrentes tão merecedores quanto. Em Melhor Ator, acredito que o favorito é Eddie Redmayne, de The Theory of Everything. Depois, viriam pau a pau Cumberbatch e Michael Keaton. Melhor Diretor, me parece, tem Richard Linklater como favorito pelo trabalho excepcional em Boyhood. Mas não seria uma surpresa se Alejandro González Iñarritu ou Wes Anderson levassem a estatueta para casa.

Melhor Trilha Sonora também é parada dura. The Theory of Everything e The Grand Budapest Hotel são grandes concorrentes, mas The Imitation Game também poderia ganhar. Dos filmes que vi até agora, The Imitation Game poderia ganhar em Melhor Roteiro Adaptado. Prefiro ele que The Theory of Everything. Mas desconfio que este segundo talvez tenha mais lobby que o primeiro para vencer.

Em Melhor Atriz Coadjuvante, me parece, Patricia Arquette é a favorita. Em Melhor Design de Produção, os grandes concorrentes de The Imitation Game são The Grand Budapest Hotel e Interstellar. E para finalizar, em Melhor Edição todos são bons, mas acho que The Grand Budapest Hotel ou Boyhood levam vantagem. Para resumir, a vida de The Imitation Game será difícil no Oscar. Mas vou achar ótimo se ele levar qualquer estatueta. Merece.

Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance) – Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

21 de janeiro de 2015 8 comentários

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Há tempos isso não acontecia comigo. Assistir a um filme e demorar para chegar a conclusão se eu havia gostado do que tinha assistido e, em caso positivo, do quanto. Birdman fez isso comigo não apenas por ser um filme incômodo, muito crítico ao mainstream, mas também porque ele é belo em sua rispidez crítica. Apesar destes elementos, fiquei em dúvida porque me lembrei de outras produções que fizeram o mesmo, e não consegui ver toda aquela inventividade esperada em Birdman. Ainda assim, ficou claro que este é o filme mais ousado do Oscar 2015. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood foi corajosa em indicá-lo a tantos prêmios.

A HISTÓRIA: Um corpo celeste queima ao dar entrada na órbita da Terra. Corta. Dentro de um camarim, Riggan (Michael Keaton) levita enquanto pensa em como ele foi chegar ali. Reggan considera o lugar horrível, e está pensando nisso quando escuta o aviso do Skype. Do outro lado da câmera, Sam (Emma Stone), filha dele, pede ajuda do pai sobre as flores certas que ela deve comprar. Ele pede alquemila, ou outra que cheire bem, menos rosas. Ela diz que odeia aquele emprego, e desliga. Reggan se olha no espelho, e é chamado para o ensaio da peça de teatro que ele está dirigindo e protagonizando. Um dos atores, Ralph (Jeremy Shamos), sofre um acidente e precisa ser substituído. A partir daí, acompanhamos o desafio de Reggan em realizar o sonho de fazer algo sério em sua carreira.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Birdman): Esta produção começa muito bem. O título do filme é promissor, assim como o começo dele com o texto de Late Fragment, de Raymond Carver, e a sequência de imagens icônicas antes de Michael Keaton começar a dar o seu showzinho particular.

Não há dúvidas que o roteiro escrito pelo diretor Alejandro González Iñarritu ao lado de Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris e Armando Bo é o que o filme tem de melhor. Junto com a própria condução fluída de Iñarritu e o equilíbrio perfeito que ele consegue entre a valorização do trabalho dos atores e o foco constante no entorno em que eles estão imersos.

Ainda assim, o principal problema do filme também é o roteiro do quarteto e a sua preocupação em não apenas falar dos bastidores da vida de quem vive entre a arte do teatro e a indústria do cinema, mas também sobre a natureza das aspirações que move a cada indivíduo em cena – ou na plateia. Digo isso porque depois daquele começo tão promissor, somos imersos em um enredo de constante quebra de braços entre egos diferentes e suas motivações.

Para quem é ou foi ator Birdman deve ser uma ironia constante. Não duvido, apesar de nunca ter sido profissional desta área, mas apenas uma interessada e uma jornalista que já acompanhou de perto diversos atores e diretores de teatro, que muito do que vemos em cena acontece na vida real. A insegurança perto de uma estreia, o estresse por fazer sucesso e a libido extremada com constantes mudanças de parceiros sexuais fazem parte do jogo.

O problema, conforme o filme vai avançando, é que Birdman vai se tornando muito afeito a quem vive esta realidade. O grande público, aquele mesmo que gosta de acompanhar determinados atores e diretores mas que, dificilmente, vive em disputa tão acirrada de egos, sente-se pouco tocado pelos bastidores da coxia. Para nossa sorte, contudo, Birdman vai muito além deste cenário e ambiente.

Com bastante ironia e autocrítica para o próprio cinemão dos Estados Unidos, muito lucrativo em sequências algumas vezes infinitas de filmes com heróis em quadrinhos como protagonistas, pouco a pouco Birdman vai entrando na avaliação da própria vida feita por um ator que um dia já teve sucesso, mas que agora só pensa em voltar à cena para ganhar algum respeito. Separado de Sylvia (Amy Ryan), sentindo-se culpado pela filha ter se tornado uma viciada – afinal, ele sempre é acusado de ter sido um pai ausente – e há muito tempo sem fazer um papel de sucesso, o protagonista de Birdman quer renascer das cinzas.

Pena que nem todos nasceram para serem uma Fênix. Mas Riggan se esforça. O problema é que ele encontra um jovem talento, muito badalado por público e crítica, para duelar com ele em sucesso, prestígio e em cena. Mike (Edward Norton) aparece em cena para substituir o desfalque Ralph e parece a salvação da lavoura. Logo que o nome dele é anunciado, a procura pela peça de Riggan ganha novo impulso nas bilheterias.

O que pareceria algo positivo logo se mostra complicado porque Mike encarna o ator-estrela, aquela figura “indomável” que sente que é mais verdadeiro sobre um palco do que na vida real. Ele tem rompantes dos mais variados, o que chega a ser cômico. Mas o efeito para Riggan é devastador. Ele está cansado de tudo aquilo, e ao perceber uma versão mais jovem de si mesmo, talvez, ele avança ainda mais na autocrítica.

O problema de Birdman, para mim, nasce justamente desta clássica oposição entre o “ator em decadência” e o “jovem talento em ascensão”. Ainda que sejam filmes muito diferentes, ao detectar esta característica em Birdman, para mim foi impossível não lembrar do excepcional All About Eve, clássico de 1950 dirigido por Joseph L. Mankiewicz e com um show de interpretação de Bette Davis. A atriz veterana, na interpretação de sua vida, teve em Anne Baxter uma dobradinha perfeita.

Há 65 anos atrás Mankiewicz tratou como um gênio a questão do ego, da disputa pelo holofote, pelo poder e pela aprovação no mainstream. Agora, Iñarritu nos apresenta algo similar, mas com uma linguagem renovada, novos ícones para serem combatidos e pouco mais que isso. É pouco, muito pouco. Ser ácido com a busca do artista e também com o crítico que aparece como uma “estrela frustrada” e amargurada é fácil. Difícil é fazer um clássico para a posteridade como All About Eve.

Mas para não dizer que não falei de flores, vou citar o único aspecto que, para mim, faz o filme ser um pouco salvo. Ou, pelo menos, ser merecedor da nota abaixo. Se toda a discussão sobre a disputa entre egos na arte – ou na tentativa de arte – já é velha conhecida do cinema, o que Birdman traz de interessante é a forma com que o protagonista conversa com o próprio ego e referências a dois símbolos muito interessantes: o mito de Ícaro e a noção de super homem de Nietzsche.

No primeiro caso, o mito de Ícaro, vale citar um pouco da história do personagem segundo a mitologia grega. Antes de falar de Ícaro, interessante comentar feitos do pai dele, Dédalo, que era um grande arquiteto, artista e inventor. Certa vez, a irmã de Dédalo colocou o filho, Perdix, para aprender o ofício com o irmão. Mas o rapaz começou a se sair tão bem que, com inveja, Dédalo aproveitou uma ocasião em que eles estavam no alto de uma torre para empurrar o rapaz de lá. Atena, deusa que favorece o engenho, viu a cena e alterou o destino de Dédalo, fazendo com que ele se transformasse em um pássaro durante a queda.

Em certo momento, Dédalo foi chamado para prestar serviços para o rei Minos, de Creta – incluindo o Palácio de Minos. Ele também construiu o labirinto onde o rei aprisionou o seus inimigos e o temido Minotauro. Lá pelas tantas, Dédalo ajudou a princesa Ariadne a libertar Teseu e, por esta traição, ele foi aprisionado junto com o filho Ícaro no labirinto.

Como escapar a pé do labirinto era muito complicado e o caminho do mar também era controlado pelo rei, Dédalo pensou na alternativa de escapar com o filho pelo ar. Foi aí que ele construiu asas gigantes com galhos de vime e cera, orientando o filho de como fazer para voar e alertando que ele deveria ficar longe do sol. Apesar da advertência, Ícaro ficou empolgado com a sensação de liberdade do voo e subiu cada vez mais alto, até ter as asas destruída, cair no mar e morrer.

Contei essa história de Dédalo e de Ícaro porque é evidente o paralelo com Birdman. Primeiro, porque a inveja fez Dédalo matar a Perdix que, no fim das contas, na queda, virou um pássaro. Depois, que Ícaro foi absorvido pela sensação de liberdade e descuidou da própria segurança. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A visão otimista da história de Birdman pode nos levar por este lado. Riggan também sentiu inveja e, fascinado pela liberdade, no que ela significava o fim de todos os problemas, preocupações e culpas, ele também se lançou no espaço. Iñarritu sugere que, no ato, ele virou um pássaro. Forma poética, é claro.

Outra forma de encarar Birdman é observar a produção dentro do conceito de Nietzsche do super homem. Para mim, não foi à toa aquela cena de um meteoro chegando na terra, ou mesmo os diálogos que Riggan escuta e que seriam de seu próprio ego – plasmado no sucesso que ele viveu como Homem-Pássaro. Aquela cena do meteoro me fez lembrar o personagem do Super-Homem. Mas o que Nietzsche defende como super homem era o modelo ideal para elevar a humanidade, segundo o qual não são todos os indivíduos que vão evoluir, mas apenas os mais dotados e fortes.

Existiria, assim, o homem superior. Aquele que se elevaria acima da mediocridade e que teria uma existência baseada no esforço e na educação, sem contaminar-se com o amor que, no fim das contas, apenas impede o bom senso e o melhoramento constante do indivíduo. O ego de Riggan, que lá pelas tantas se materializa na figura do personagem que ele viveu do Birdman, defende exatamente isso. De que ele é um ser superior e que ele deve voar acima da mediocridade dos outros seres.

Mas o problema de Riggan, para mim, é que ele buscava, a exemplo do que afirmam as frases iniciais de Raymond Carver, apenas o amor. Seja ele prático, em uma vida feliz com a mulher e a filha, seja ele figurado no aplauso das audiências e nas ótimas avaliações dos críticos. No fim das contas ele queria ser aprovado, reconhecido, amado por todos.

Não conseguiu, assim, coincidir estas aspirações com o modelo de super homem de Nietzsche, e que o seu próprio ego defendia. No fim, ele só encontrou a alternativa da fuga. Do salto. De uma admiração impossível de admirar da liberdade dos pássaros.

A reflexão é boa, a sensação de incômodo permanece, mas ainda assim o filme não me convenceu de todo. Talvez porque eu não acredito que o mundo e a realidade sejam tão sem esperanças, tão cínicos, tão sem horizonte. Pessoalmente, e meu julgamento é composto também de meus gostos pessoais, prefiro outro tipo de filme e de reflexão.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O primeiro elemento desta produção que chama a atenção é o trabalho do diretor mexicano Alejandro González Iñarritu. Ele faz a escolha cuidadosa de cada enquadramento de cada sequência, aproveitando muito os corredores e bastidores do teatro para aprofundar-se nas angústia e no habitat do protagonista e dos demais personagens. Outro elemento que logo ganha protagonismo é a trilha sonora de Antonio Sanchez, bem ao estilo de música acidental que, espalhada aqui e ali na produção, cria ainda mais o clima de realismo, sofisticação e angústia.

Vale também destacar, dentro dos aspectos técnicos do filme, a direção de fotografia de Emmanuel Lubezki; a edição de Douglas Crise e Stephen Mirrione; o design de produção de Kevin Thompson e a decoração de set de George DeTitta Jr.

Ainda que centrado em poucos personagens, este filme tem um bom número de atores de peso em papéis secundários. Claro que quem rouba a cena e carrega a produção nas costas é Michael Keaton. Há tempos não vemos o ator em um desempenho tão bom. Mas ele tem ao seu lado uma grata surpresa: Emma Stone em uma interpretação de gente grande. A garota rouba a cena em muitos momentos. Edward Norton e Naomi Watts, ela interpretando a atriz Lesley, para mim, apenas fazem um papel mediano. Nada muito além do que estamos acostumados a ver.

Outra intérprete que tem presença marcante toda vez que aparece em cena é Amy Ryan. Ela está muito bem – ainda que apareça pouco. Zach Galifianakis também está bem no papel de Jake, empresário de Riggan. Para fechar o grupo de atores que ganha mais evidência no filme está Andrea Riseborough que se sai bem como Laura, a outra atriz em cena no teatro e que é namorada do protagonista.

Birdman estreou em agosto de 2014 no Festival de Cinema de Veneza. De lá para cá, a produção participou de outros 22 festivais, incluindo os de Telluride, Zurique, Londres, Viena, Estocolmo, Mar del Plata e Dubai. Nesta trajetória, Birdman conquistou impressionantes 119 prêmios e 148 indicações – incluindo nove indicações ao Oscar. Estes números são realmente impressionantes.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os Globos de Ouro de Melhor Ator – Comédia ou Musical para Michael Keaton e o de Melhor Roteiro; o de Melhor Ator para Keaton no Prêmio Gotham; o de melhor Diretor de Fotografia do ano para Emmanuel Lubezki no Prêmio de Cinema de Hollwyood; o de Melhor Ator para Keaton, Melhor Ator Coadjuvante para Edward Norton e por figurar no Top Ten de 2014 segundo a National Board of Review; e quatro prêmios secundários no Festival de Cinema de Veneza. A maioria dos prêmios recebidos pelo filme até agora foi conferida por associações de críticos de dentro e de fora dos Estados Unidos.

Birdman teria custado cerca de US$ 18 milhões. Para os padrões de Hollywood, uma produção de baixo orçamento. Apenas nas bilheterias dos Estados Unidos o filme somou pouco mais de US$ 28,7 milhões. No restante dos mercados onde o filme já estreou, ele soma outros US$ 13,4 milhões. Está começando a dar lucro, pois. Mas com tantas indicações ao Oscar, é tendência que fora dos Estados Unidos, em especial, ele comece a arrecadar mais dinheiro.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Birdman foi totalmente filmado em Nova York, como a história mesmo sugere.

Agora, aquelas curiosidades clássicas sobre o filme: de acordo com o ator Michael Keaton, Birdman foi o filme mais desafiador que ele já fez. Ele comentou também que o personagem de Riggan é o mais diferente, na comparação consigo mesmo, que ele alguma vez interpretou.

Na entrevista que Riggan dá no camarim para a imprensa que está divulgando a peça dele, o ator comenta que não interpreta a Birdman desde 1992. Foi este ano quando, na vida real, foi lançado Batman Returns, no qual Keaton interpreta ao personagem-título.

Este filme todo foi rodado em menos de um mês. De fato, não era preciso mais que isso – até pela dinâmica da história. Boa parte da produção foi rodada dentro do St. James Theatre na Broadway.

Os atores tiveram que se esforçar para encaixar nos longos takes de filmagens de Iñarritu. Do elenco, Emma Stone foi a que protagonizou o maior número de erros e Zach Galifianakis foi o que errou menos.

Da mesma forma com que o personagem de Keaton é uma certa paródia da trajetória do ator, que protagonizou na carreira um Batman, o personagem de Edward Norton brinca com a reputação dele de ser muito ríspido e difícil de lidar no trabalho.

O tapete que vemos em mais de uma cena nos corredores dos bastidores do teatro é o mesmo que foi usado no clássico de Stanley Kubrick The Shining.

O título complementar do filme, “The Unexpected Virtue of Ignorance”, faz referência ao título do artigo que a crítica Tabitha (Lindsay Duncan) teria escrito elogiando a peça e o desempenho de Riggan.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para esta produção. O que é uma ótima avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 232 textos positivos e apenas 19 negativos para Birdman, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,5.

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos com o Canadá.

CONCLUSÃO: O roteiro de Birdman atira para quase todos os lados no terreno da cultura pop dos Estados Unidos. Tipo de críticas que outros filmes menos “sérios” já haviam feito. Mas fora esta camada superficial, o filme de Alejandro González Iñarritu vai mais fundo na fogueira das vaidades e na disputa de egos do cinema e do teatro. Como outros filmes fizeram isso antes, não há muita novidades neste aspecto. O único ponto que esta produção avança é no mal estar que ela provoca, em uma que outra risada que desperta e no questionamento sobre o mito de Ícaro e o conceito de super homem de Nietzsche. É um filme corajoso, mas menos inventivo do que eu esperava. E, sem dúvida, não é o melhor filme do ano passado.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Birdman foi o filme que recebeu o maior número de indicações na premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood junto com The Grand Budapest Hotel. Os dois foram indicados em nove categorias. Não deixa de ser surpreendente esse número de indicações justamente para estas duas produção, já que tanto Birdman quanto The Grand Budapest Hotel são um bocado alternativas. Especialmente a primeira.

Birdman concorre nas categorias Melhor Filme, Melhor Ator para Michael Keaton, Melhor Direção para Alejandro G. Iñarritu, Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia, Melhor Atriz Coadjuvante para Emma Stone, Melhor Ator Coadjuvante para Edward Norton, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som.

Após assistir a esta produção, tenho sérias dúvidas sobre que estatuetas ela poderá levar para casa. Em cada uma destas categorias, para mim, ela tem concorrentes de peso e que levam vantagem pela qualidade. Ou seja, pelo meu critério, Birdman poderá sair de mãos vazias do Oscar. Vejamos.

Na disputa de Melhor Filme, considero Boyhood favorito. Michael Keaton mereceria um Oscar pelo excelente trabalho nesta produção, mas acho muito difícil ele ganhar do favoritíssimo Eddie Redmayne, de The Theory of Everything. Melhor Direção, acredito, irá para Richard Linklater – mas Wes Anderson pode surpreender nesta categoria. Melhor Roteiro Original pode ser uma opção para Birdman, ainda que o meu voto iria para Boyhood.

Esta produção ganhar em Melhor Fotografia seria uma verdadeira zebra. Ida leva franca vantagem, e mesmo Unbroken e The Grand Budapest Hotel são melhores que Birdman nesta categoria. Emma Stone tem praticamente chance alguma – Patricia Arquette deve levar a estatueta para casa.

Edward Norton sempre merece um Oscar, mas o meu voto iria para Ethan Hawke – pelo menos até agora, preciso ainda ver a outros três trabalhos. Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som são duas categorias em que o filme corre por fora, tendo outros fortes candidatos como favoritos – a exemplo de American Sniper, Interstellar e Unbroken. Resumindo, não seria uma total surpresa o recordista de indicações sair de mãos vazias. Mas acredito em uma ou duas estatuetas, mesmo que o gosto do espectador possa preferir outro dos indicados como ganhador.

Indicados ao Oscar 2015 – Lista e Avaliação

15 de janeiro de 2015 5 comentários

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Bom dia, minha gente. Mais uma vez acompanho, junto com vocês, as indicações dos integrantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood para a maior premiação da indústria do cinema mundial, o Oscar.

Neste ano a Academia resolveu inovar de duas maneiras diferentes: transmitindo o evento das indicações ao vivo pelo site da entidade (www.oscars.org/live) e também dividindo a divulgação em duas partes. Na primeira, que começa às 5h30 no horário da Califórnia, nos Estados Unidos, e as 11h30 no horário de Brasília, os diretores Alfonso Cuarón e J.J. Abrams divulgam os indicados em 11 categorias. Depois, às 5h38 no horário da Califórnia e 11h38 no horário de Brasília, o ator Chris Pine e a presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs, divulgam os indicados nas outras 13 categorias do Oscar 2015.

A exemplo do que fiz aqui no ano passado, vou acompanhar essas indicações trazendo a lista que vai nos guiar até fevereiro para assistir aos indicados e também comentários sobre quem chegou na reta final da disputa.

A transmissão direto do Teatro Samuel Goldwyn, em Beverly Hills, começou a ser feita pela internet às 11h28. No horário em que a primeira lista deveria começar a ser divulgada, pediram mais três minutos para a cerimônia começar. #expectativa #cinéfilanervosa:)

Os diretores J.J. Abrams e Afonso Cuarón começaram a divulgar a lista com um pouco de atraso. Segue as indicações que eles, começando por Abrams e seguindo com Cuarón, trocando sempre quem anunciava, divulgaram:

Melhor Canção Original:

  • Everything Is Awesome, de The Lego Movie
  • Glory, de Selma
  • Grateful, de Beyond the Lights
  • I’m Not Gonna Miss You, de Glen Campbell… I’ll Be Me
  • Lost Stars, de Begin Again

Melhores Efeitos Visuais:

  • Captain America: The Winter Soldier
  • Dawn of the Planet of the Apes
  • Guardians of the Galaxy
  • Interstellar
  • X-Men: Days of Future Past

Avaliação: Aqui não tem como inventar a roda. Todos os anos os filmes de ficção científica e os baseado em heróis da DC Comics, Marvel e afins dominam esta categoria. Alguns dos maiores sucessos de 2014 nestas duas categorias de filmes aparecem na lista. A disputa será boa, não há dúvidas. Como não assisti a nenhuma destas produções, vou tentar conferir o trabalho antes de opinar sobre o favorito.

Melhor Curta Documentário:

  • Crisis Hotline: Veterans Press 1
  • Joanna
  • Our Curse
  • The Reaper (La Parka)
  • White Earth

Melhor Documentário:

  • CitizenFour
  • Finding Vivian Maier
  • Last Days in Vietnam
  • The Salt of the Earth
  • Virunga

Melhor Edição:

Avaliação: Assisti a apenas dois dos filmes da lista. Para mim, Boyhood e The Grand Budapest Hotel tem na edição uma de suas principais qualidades. Então merecem estar aqui. Gostei de American Sniper aparecer, mesmo não tendo assistido ao filme, porque adoro tudo que o Clint Eastwood faz. Mas novamente vou dar o meu pitaco só quando assistir aos outros três concorrentes que eu ainda não vi. Entre Boyhood e The Grand Budapest Hotel, talvez o segundo seja melhor, na edição, mas o meu voto iria para o primeiro – gostei muito mais de Boyhood.

Melhor Edição de Som:

Avaliação: Aqui, mais uma vez, os filmes de guerra, ficção científica e de heróis ganham vantagem na edição de som – e na categoria seguinte também. Das produções listadas, assisti apenas a The Hobbit e Unbroken. De fato os dois filmes tem edições de som primorosas. Mas se fosse votar em um dos dois, ficaria com The Hobbit. De qualquer forma, só assistindo aos três que faltam para poder realmente opinar a respeito.

Melhor Mixagem de Som:

Avaliação: Como eu disse antes, aqui novamente os filmes de guerra, de ficção científica e de heróis ganham vantagem. Como só assisti a Unbroken, produção que será a próxima a ganhar uma crítica aqui no blog, fica difícil opinar. Mas algo é fato: o filme dirigido por Angelina Jolie é ótimo na mixagem de som. Mesmo sem ter assistido aos demais, me parece, contudo, que American Sniper e Interstellar possam ter alguma vantagem sobre os outros concorrentes. Veremos.

Melhor Design de Produção:

Avaliação: Aqui começa a engrossar o número de indicações para The Grand Budapest Hotel – que teve nove, ao total. Sem dúvida o filme é ótimo na parte técnica e o design de produção é um de seus pontos fortes. Ainda assim, pensando na história e no conjunto da obra, esta produção não estaria entre as minhas favoritas do ano. Ainda não assisti aos outros concorrentes desta categoria, para poder opinar com maior propriedade, mas desde já acho que The Grand Budapest Hotel é o concorrente a ser derrotado.

Melhor Curta de Ficção:

  • Aya
  • Boogaloo and Graham
  • Butter Lamp (La Lampe Au Beurre De Yak)
  • Parvaneh
  • The Phone Call

Melhor Curta de Animação:

  • The Bigger Picture
  • The Dam Keeper
  • Feast
  • Me and My Moulton
  • A Single Life

Melhor Animação:

  • Big Hero 6
  • The Boxtrolls
  • How to Train Your Dragon 2
  • Song of the Sea
  • The Tale of the Princess Kaguya

 

Divulgada esta lista, saíram de cena os diretores e, às 11h38, quando deveria começar a divulgação da outra lista, pediram mais três minutos para que entrasse em cena Pine e Boone Isaacs. De fato eles começaram a apresentar a lista com o “filé” da premiação às 11h42. A primeira a falar, claro, foi a presidente da Academia, seguida sempre por Pine. Eles divulgaram os seguintes indicados:

Melhor Ator Coadjuvante:

Avaliação: Agora sim a lista começa a ficar mais interessante. Gostei do equilíbrio entre veteranos e atores de gerações mais novas nesta categoria. Ethan Hawke merecia muito a indicação pelo excelente trabalho em Boyhood. Edward Norton… bem, sempre vou torcer por ele porque, para mim, ele é um dos melhores de sua geração. J.K. Simmons é um veterano que nem sempre foi reconhecido, a exemplo de Robert Duvall. Este último foi indicado seis vezes antes em um Oscar, e ganhou apenas uma estatueta como Melhor Ator por Tender Mercies em 1984. Simmons, por sua vez, nunca tinha sido indicado ao Oscar. Ainda preciso assistir aos filmes deles, mas tenho um fraco por Boyhood. Por isso, inicialmente, minha torcida vai para Hawke.

Melhor Atriz Coadjuvante:

Avaliação: A exemplo de Ethan Hawke, Patricia Arquette também merecia ter uma indicação ao Oscar pelo ótimo trabalho em Boyhood. As demais atrizes, ainda não assisti em seus respectivos papéis, mas gostei de ver, novamente, um equilíbrio entre veteranas e dois nomes de gerações bem mais novas. Fiquei especialmente contente por Keira Knightley ser indicada a seu segundo Oscar – antes ela concorreu também como Melhor Atriz Coadjuvante por Pride & Prejudice. Acho ela competente há muito tempo. Ainda assim, tenho sérias dúvidas se ela tem alguma chance este ano. Acredito que não. Preciso assistir às demais, mas minha torcida já está dividida entre Patricia Arquette e Laura Dern – uma atriz com longa trajetória e nem sempre reconhecida. Ah, e por falar em indicações… Meryl Streep chega a sua 19ª indicação ao Oscar… sendo que destas impressionantes 19 vezes ela abocanhou a estatueta em três ocasiões. Recordista absoluta e, acredito, atriz difícil de ser batida. Preparem-se para piadinhas sobre isso até a cerimônia do Oscar e, claro, durante a entrega do prêmio.

Melhor Maquiagem e Cabelo:

Avaliação: Essa, talvez, seja a única categoria com alguma surpresa. Principalmente por terem fechado a lista com apenas três indicados. Ainda não vi a Into the Woods, mas tenho a impressão que o filme poderia estar aqui. Dos indicados, assisti apenas a The Grand Budapest Hotel. O trabalho de maquiagem e cabelo da produção realmente é muito bem feito. Mas vi algumas fotos de Foxcatcher e acredito que ele é um forte concorrente. De qualquer forma, como nas outras situações, só vou poder me posicionar melhor assistindo a todos os concorrentes.

Melhor Figurino:

Avaliação: Nesta categoria sempre levaram vantagem filmes de época e de ficção científica/fantasia. Dos indicados, assisti apenas a The Grand Budapest Hotel que, novamente, tem nesta categoria técnica um de seus pontos fortes. Merecida a indicação, pois. Ouvi falar muito bem dos figurinos de Maleficent. Sobre os demais, prefiro comentar posteriormente.

Melhor Fotografia:

Avaliação: Quando apareceu Ida no telão dos indicados da Academia, ganhei o meu dia. Essa produção polonesa, também indicada como Melhor Filme em Língua Estrangeira, tem uma fotografia primorosa, daquela que fica na tua lembrança por muito tempo. Muito justa a indicação, pois. The Grand Budapest Hotel também tem na fotografia um de seus pontos fortes, o mesmo com Unbroken – que, aliás, me fez relembrar diversos filmes das décadas de 1950 e 1960. A produção dirigida por Angelina Jolie tem alma na fotografia, um de seus pontos fortes. Os outros filmes ainda preciso assistir, para comentar. Mas, entre os três que eu vi, votaria em Ida.

Melhor Roteiro Adaptado:

Avaliação: Esta categoria, junto com a próxima, está entre as minhas favoritas. Para mim, um roteiro é o ponto-chave de uma produção. Ela é excepcional ou não por causa dele. Pois bem, gostei de ver o filme de Clint Eastwood, Amerian Sniper, indicado. Mesmo sem ter assistido ele ainda.:) The Theory of Everything era uma bola cantada nesta categoria, ainda que eu tenha as minhas ressalvas sobre o filme – saiba mais na crítica sobre a produção acessível neste link. Como assisti apenas a The Theory of Everything, não me sinto confortável para opinar ainda sobre esta categoria.

Melhor Roteiro Original:

Avaliação: Esta talvez seja, depois de Melhor Filme e Melhor Filme em Língua Estrangeira, a minha categoria favorita no Oscar. Depois viriam as categorias para os atores e o diretor(a). Gostei muito de Nightcrawler ter sido lembrado e aparecer na lista do Oscar. O filme tem os seus defeitinhos, mas sem dúvida o roteiro é um de seus pontos fortes. E como a produção toca em temas importantes nos dias atuais, muito justo ela aparecer no Oscar e ganhar visibilidade com esta indicação. Boyhood é um dos filmes do ano – ou, talvez, o melhor filme de 2014. Tem um roteiro fantástico e, por isso mesmo, comparando com os outros filmes que eu assisti nesta categoria (acrescento The Grand Budapest Hotel), ele receberia o meu voto. Ainda assim, preciso assistir a Birdman e Foxcatcher antes de bater o martelo – tenho muita curiosidade sobre estas duas produções.

Melhor Trilha Sonora:

Avaliação: Aqui, dois super veteranos e mestres na arte da composição dividem a cena com dois nomes menos conhecidos. O genial, de quem sou ultra fã Alexandre Desplat está indicado duplamente por The Grand Budapest Hotel e The Imitation Game. O anúncio seguido do nome dele duas vezes arrancou risadas da plateia que estava no teatro onde os indicados foram anunciados e também da presidente da Academia. O outro veterano na disputa é o genial Hans Zimmer, indicado por Interstellar. Ele já ganhou um Oscar, por The Lion King, e foi indicado a outras sete vezes antes do Oscar 2015. Desplat e Zimmer dividem espaço com Gary Yershon, de Mr. Turner, e Jóhann Jóhansson de The Theory of Everything. Preciso assistir a três filmes da lista, mas acho que Jóhansson faz um trabalho excepcional em The Theory of Everything. Talvez ele seja o nome a ser batido este ano.

Melhor Filme em Língua Estrangeira:

  • Ida, da Polônia
  • Leviathan, da Rússia
  • Tangerines, da Estônia
  • Timbuktu, da Mauritânia
  • Wild Tales (Relatos Salvajes), da Argentina

Avaliação: Nesta categoria, minha alegria especial por mais uma indicação da Argentina. Nosso país vizinho, volta e meia em crise – e atualmente passando por mais uma -, nos mostra mais uma vez que tem um cinema muito superior ao nosso. E isso não é coisa de “leitura ianque”. De fato o cinema argentino, e isso há muito tempo, mostra muito mais qualidade, na média, que o brasileiro. Gostei de ver mais uma vez uma produção argentina chegar lá. Ida era uma indicação prevista, assim como Leviathan – que ganhou o Globo de Ouro. Interessante ver países pequenos e sem uma tradição forte no cinema, como Estônia e Mauritânia, chegando também. Dos indicados, assisti apenas a Ida e acho que o filme mereceu figurar na lista. Agora, preciso ver aos demais para poder fechar o meu voto.

Melhor Direção:

Avaliação: Fiquei feliz com a indicação de três nomes de diretores que eu admiro muito: Alejandro Iñarritu, Richard Linklater e Wes Anderson. Os outros dois, ainda preciso conhecer melhor. Há tempos tiro o meu chapéu para Inãrritu, diretor mexicano que dá aula de direção e de cinema. Muito bacana vê-lo entre os indicados – e um ano após o conterrâneo dele, o também genial Alfonso Cuarón, ganhar nesta mesma categoria. Isso seria um sinal?:) Anderson, ainda que muito competente, não seria o meu voto. Preciso assistir aos outros três trabalhos mas, inicialmente, eu penderia para o genial Richard Linklater que nos entregou a joia rara Boyhood.

Melhor Atriz:

  • Marion Cottilard, por Two Days, One Night
  • Felicity Jones, por The Theory of Everything
  • Julianne Moore, por Still Alice
  • Rosamund Pike, por Gone Girl
  • Reese Witherspoon, por Wild

Avaliação: Nesta e na próxima categoria eu gostei da renovação entre os indicados. Tirando Julianne Moore da lista, temos um grupo de atrizes jovens e que ainda estão em ascensão. Fiquei especialmente feliz pela indicação de Marion Cottilard, indicada apenas uma vez antes no Oscar, em 2008, por La Môme, quando levou a estatueta para casa. Ela deveria ter sido indicada em outras ocasiões e, este ano, aparece novamente no radar da Academia. Entre todas as indicadas, vi apenas o trabalho de Felicity Jones em The Theory of Everything. Ela está bem, mas não acho que o desempenho dela seja digno de um Oscar. Julianne Moore e Reese Witherspoon chegam na disputa após ganharem o Globo de Ouro – a primeira por Drama, a segunda por Comédia ou Musical. Da minha parte, sou sempre adepta de Julianne Moore, que considero uma das melhores atrizes não apenas de sua geração, mas de todos os tempos. De qualquer forma, preciso assistir a todos os desempenhos para então opinar.

Melhor Ator:

Avaliação: Como nas categorias de ator e atriz coadjuvantes, novamente aqui existe um certo equilíbrio entre atores veteranos e nomes que ainda estão em ascensão. De qualquer forma, pela primeira vez em muito tempo, não vi na lista nenhum nome óbvio ou que já seja figura carimbada no Oscar. E isso é bom, muito bom. Promissor para o cinema de Hollywood. Da minha parte, gostei muito de ver os nomes de Steve Carell, Benedict Cumberbatch e Michael Keaton entre os indicados. O primeiro e o terceiros são atores geniais, mas pouco reconhecidos. O segundo está em franca ascensão é um dos favoritos entre os nerds – eu incluída. Preciso assistir aos demais, mas desde já eu opino que este deve ser o ano de Eddie Redmayne. Ele é o nome de The Theory of Everything e tem, realmente, um desempenho primoroso no filme. Sem dúvida, o nome a ser batido este ano.

Melhor Filme:

Avaliação: Lista interessante a deste ano. E que mostra um passo a mais no processo de modernização da Academia. Não existe, no Oscar 2015, um franco favorito e nem uma produção do tipo blockbuster. Há muitos filmes de baixo orçamento e que são ousados na dinâmica, na proposta conceitual e no tema abordado. Ainda preciso assistir à maioria, mas talvez The Theory of Everything seja o mais “politicamente correto” dos filmes concorrentes. Não acho ele um filme que mereceria estar entre os melhores de 2014, assim como não acho isso de The Grand Budapest Hotel. Mas os dois, querendo ou não, apresentam um “conjunto da obra”, especialmente nos elementos técnicos, bem acabado. Fiquei feliz pelo filme de Eastwood estar indicado – apesar de sentir a ausência do diretor na categoria específica -, assim como o inevitável Boyhood. Tenho grande curiosidade para assistir a American Sniper e Birdman. Talvez eles me façam mudar de ideia. Porque, até o momento, o meu voto iria para Boyhood. Ah sim, e ia me esquecendo: interessante também que foram indicados apenas oito filmes este ano. Houve anos com 10 e com nove desde que a lista foi ampliada dos antigos cinco indicados. Não acho que o ano tenha sido fraco para termos apenas oito indicados… talvez isso aconteceu porque poucos filmes concentraram a maioria dos votos. Vai saber… A Academia poderia explicar pra gente, não?

 

Estes são os indicados do ano. Atualizem, como eu farei, a lista de vocês de filmes para assistir. Acredito que não houve nenhuma grande surpresa entre os indicados. Os favoritos estão aparecendo na lista. Muitos correm por fora em suas respectivas categorias. Um dos destaques foi The Grand Budapest Hotel receber nove indicações ao Oscar.

Chamo a atenção que ele não foi indicado em nenhuma categoria de atores. Isso porque é um filme que se destaca pela parte técnica, principalmente, mas não pelo conjunto da obra. Duvido muito que ele seja premiado sem ser em alguma categoria técnica. É o forte candidato a ser o filme bem indicado do ano, mas ficar com quase estatueta alguma.

No mais, gostei da Argentina chegar novamente na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. É um país vizinho ao nosso, quase sempre em crise, mas que tem um cinema muito mais desenvolvido e de qualidade que o nosso, na média. Também gostei de ouvir o nome de Clint Eastwood, meu herói para sempre, entre os produtores indicados em Melhor Filme por American Sniper.

Boyhood chegou em todas as categorias esperadas, e tivemos uma boa renovação nos indicados a Melhor Ator e Melhor Atriz. Enfim, este Oscar está interessante. Será emocionante acompanhá-lo no dia 22 de fevereiro, quando o Oscar será apresentado no Dolby Theatre no Hollywood & Highland Center nos Estados Unidos. A transmissão está marcada para começar às 16h no horário da Califórnia, 21h no horário de Brasília. O Oscar será transmitido este ano para 225 países e apresentado por Neil Patrick Harris, conhecido ator da série How I Met Your Mother.

SALDO GERAL: Os recordistas em indicações este ano são The Grand Budapest Hotel e Birdman que concorrem, cada um, em nove categorias. Seguem atrás e empatados com seis indicações American Sniper e Boyhood. Depois vem, na fila dos filmes com cinco indicações, Foxcatcher, Whiplash, Interstellar e The Theory of Everything. Desconfio que The Grand Budapest Hotel ficará apenas com um, dois e até três estatuetas em categorias técnicas. Concorrendo mais pesado estarão Boyhood, Birdman e American Sniper. The Theory of Everything também levará alguma estatueta – praticamente certa a de Melhor Ator. Para resumir, não acredito em um Oscar que vá premiar com muitas estatuetas apenas um filme. A premiação vai ficar, mais uma vez, um bocado pulverizada. Como nos últimos anos, vou acompanhar a transmissão com vocês aqui no blog. Até lá! E enquanto isso, se possível, acompanhem as críticas que vou fazendo sobre os indicados por aqui.😉 Inté!

ADENDO (21/01): Gente, dormi no ponto ali encima e ninguém me chamou a atenção! Ai, ai, ai! Esqueci de citar outro super indicado deste ano: The Imitation Game. Depois de The Grand Budapest Hotel e Birdman este é o filme mais indicado do ano porque ele concorre em oito categorias. Ainda não o assisti, para dar pitaco, mas pretendo fazer isso em breve. Mas é bom eu fazer este adendo, já que ele é um forte candidato – aparentemente.

The Theory of Everything – A Teoria de Tudo

11 de janeiro de 2015 4 comentários

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Toda vez que um filme tenta contar a história de alguém que de fato existiu e faz isso de maneira extremamente correta, me incomodo. Isso porque ninguém tem uma vida assim. Não acredito em trajetórias floridas, edificantes, sem alguns descontroles aqui e ali – sejam eles da natureza que for. Por isso mesmo, admito, me decepcionei um pouco com The Theory of Everything, o filme baseado em parte da vida do físico mundialmente conhecido Stephen Hawking. Esta produção tem uma grande qualidade, mas vários outros defeitos.

A HISTÓRIA: Cenas um tanto borradas dentro de um palácio. Stephen Hawking (Eddie Redmayne) faz círculos sobre um lindo tapete em sua cadeira de rodas. A imagem faz lembrar um relógio no sentido anti-horário. O tempo volta, e o mesmo círculo vemos na roda de uma bicicleta em Cambridge, na Inglaterra, em 1963. Hawking está em uma bicicleta e o amigo Brian (Harry Lloyd) em outra. Os dois competem para ver quem chega mais rápido em uma festa. É lá que Hawking vê pela primeira vez Jane (Felicity Jones), com quem ele começa a namorar tempos depois. Esta é a história dos dois e de como Hawking surpreendeu o mundo por suas teorias e por seu exemplo de vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Theory of Everything): O nome deste filme é Eddie Redmayne. Ele dá um banho de interpretação em um papel difícil de ser vivenciado. Entra para a lista de grandes atores que já fizeram isso antes – lembro, assim, de pronto de Mathieu Amalric em Le Scaphandre et le Papillon, de Javier Bardem em Mar Adentro e de Marion Cotillard em De Rouille et d’Os, só para citar algumas interpretações marcantes.

Redmayne estudou certamente em detalhes as aparições de Hawking e tentou emular ao máximo o jeito do físico para repassar para o público da melhor forma possível a evolução dele desde a fase de estudante até a de personalidade inglesa recebida pela rainha da Inglaterra. Ele é o melhor do filme, não há dúvida. Outros pontos dignos de elogios são a direção de fotografia de Benoît Delhomme e a trilha sonora de Jóhann Jóhansson. A edição de Jinx Godfrey também é bastante correta, assim como os figurinos de Steven Noble.

Propositalmente eu quis destacar os pontos positivos antes de falar dos negativos. Até porque acho os segundos mais abundantes. Stephen Hawking é um homem extraordinário, que mudou para sempre a forma com que as pessoas veem a física e a ciência. Com a obra Uma Breve História do Tempo, ele tornou estes dois assuntos foco de um bestseller. Quem diria!

E qualquer pessoa que sabe disso, sabe também que ele escreveu a sua obra-prima em uma cadeira de rodas, praticamente imobilizado. Da minha parte, meu conhecimento dele ia um pouco além disso. Eu sabia também que ele é conhecido pelo bom humor e que havia feito algumas aparições na série The Big Bang Theory – uma de diversas que eu acompanho. Pronto, isso era tudo.

Por isso mesmo quando me mostraram o trailer de The Theory of Everything, fiquei fascinada pela premissa do filme. Segundo aquela pílula da história – que, vocês sabem, costumo evitar -, veríamos nesta produção como o amor foi fundamental para Hawking e, consequentemente, para a ciência. Fiquei interessada em conferir este trabalho não apenas por este viés romântico, mas também por conhecer um pouco mais sobre a doença que fez Hawking deixar de ter uma vida normal e também para saber as circunstância que cercaram o seu trabalho científico.

Imaginem que, por tudo isso, eu tinha um bocado de expectativas sobre esta produção. Daí que começo a assistir a The Theory of Everything, e o que me salta aos olhos é o excelente trabalho de Eddie Redmayne. Conforme a história vai se desenvolvendo, espero também que o roteiro de Anthony McCarten faça jus a Hawking. Ledo engano.

Sem dúvida o principal problema deste filme é o roteiro fraco de McCarten. Enquanto assistia à produção e descontando o trabalho de Redmayne, senti falta de um pouco mais de verossimilhança na história. Afinal, sempre me pergunto, se alguém se deu ao trabalho de fazer um filme inspirado em uma história real, o que custa ser o mais fiel possível à essa história? E não precisei de muito para desconfiar do que eu vi em The Theory of Everything.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A primeira estranheza é que, mesmo considerando que “os tempos eram outros”, parece um pouco forçada a forma com que Jane decide se casar com Stephen mesmo sabendo que ele possivelmente teria apenas dois anos de vida. Certo que ela estava apaixonada por ele, inclusive dizia que o amava, mas me pareceu que a história, pelo menos da forma com que McCarten escreveu, pulou alguns episódios e/ou capítulos. Acho que mais cenas dirigidas por James Marsh deveriam ter mostrado a relação dos dois antes dela tomar uma decisão tão contundente e definitiva.

Depois, é verdade, o prognóstico médico se mostra errôneo, e Hawking não morre após dois anos. Pelo contrário, ele vai piorando pouco a pouco e vive até hoje – no último dia 8 de janeiro, aliás, ele completou 73 anos de vida. Então é louvável a dedicação de Jane para com o marido, mas vai ficando cada vez mais claro que o amor não basta para eles seguirem juntos.

Ela parece ter dificuldade de entender o humor dele, muitas vezes – como na cena em que ele brinca com os filhos -, e certamente eles são filhos de mundos muito diferentes: ele, da ciência, ela, religiosa. Aliás, neste quesito, este filme me fez lembrar a Creation, uma produção bem acabada e que revela um pouco da vida íntima de Charles Darwin – você pode conferir a crítica aqui. Curiosamente, enquanto Darwin também era um homem da ciência, a mulher dele se revelava muito religiosa – e tinha, a exeplo de Jane, dificuldade de entender como o marido não acreditava em Deus. Os dois filmes, por coincidência, tem suas qualidades, mas diversas falhas também.

Mas voltando para The Theory of Everything… Segundo esta produção, é louvável a dedicação de Jane para com o marido. Incentivado por ele, ela acaba entrando no coral comandado por Jonathan Hellyer Jones (o competente Charlie Cox). Logo no início fica evidente uma certa tensão sexual entre os dois, e quando ele passa a frequentar a casa da família, aparentemente sob a anuência de Hawking, esse interesse entre Jane e Jonathan vai ficando mais evidente. Esse é o ponto crucial em que eu desconfiei da história.

Para mim, ficou difícil de acreditar que Hawking decidiu “dar bola” para a enfermeira Elaine Mason (Maxine Peake) como uma forma de terminar com o casamento com Jane para vê-la feliz partindo para uma nova vida com Jonathan. Sério mesmo que depois de Jane trair o marido na noite em que ele foi parar no hospital com pneumonia e os médicos sugerirem que o melhor poderia ser deixar ele morrer que ela iria lutar pela vida de Hawking e imediatamente se distanciar de Jones?

Sim, esse é o conto típico de Hollywood. Ou do cinemão comercial que quer nos contar uma história perfeita, como a dos contos de fada, em que os maus sempre são punidos e nos quais as princesas sempre ficam com os príncipes. A vida real é muito mais complexa que isso. Desta forma, desconfiei do conto de The Theory of Everything. Segundo ele, Jane foi fiel sempre, só pulou a cerca porque foi incentivada por Hawking e, ele sim, tinha uma natureza um tanto “safada” não apenas por não acreditar em Deus, mas porque vivia de risinhos com a enfermeira e porque gostava de revistas de sacanagem.

Oras, meus caros, é preciso ser muito inocente para acreditar nesta fórmula perfeita e de conto de fadas. Desconfiei, não gostei da quase santificação de Jane e nem da história “toda bela” de Hawking. Sempre há algo pode, em algum momento, no reino da Dinamarca. Pois bem, só depois de ver ao filme, que eu resolvi tirar algumas dúvidas a respeito. Foi aí que percebi que The Theory of Everything é baseado no livro Travelling to Infinity: My Life with Stephen escrito por Jane Hawking. Ah sim, daí tudo faz mais sentido.

Se este filme foi baseado no ponto de vista de Jane Hawking, claro que ela deveria parecer uma santa na história, não é mesmo? Evidente. Eu tinha uma vaga lembrança de que o próprio Stephen Hawking havia escrito um livro autobiográfico, e eu fui atrás. Encontrei a obra Minha Breve História (ou My Brief History, do original), lançada em 2013. E lá, meus caros, está o outro lado da moeda.

Hawking dedica um capítulo para os casamentos – porque além de ficar casado grande parte da vida com Jane, ele também se casou com uma de suas enfermeiras, Elaine Mason, no período de 1995 até 2007, quando eles se divorciaram. Desde então, Hawking conta no livro, ele mora sozinho com uma governanta. Pois bem, lá pelas tnatas, ele fala sobre o relacionamento de Jane com Jonathan, e fica sugerido de forma bem clara que os dois tiveram um caso por bastante tempo, com o amante da esposa morando inclusive na casa de Hawking, o que o teria deixado desconfortável lá pelas tantas. Uma versão bem diferente daquela da “santa Jane” que vemos no filme.

Além disso, senti falta de conhecer um Hawking mais brincalhão e menos “abobado”. Sempre soube da ironia refinada dele, mas isso fica bastante à margem da produção. Há falhas graves na história, assim como uma escolha bastante evidente por fazer o “feijão com arroz”, entregar uma história bem filmada, bonitinha, mas sem grandes altos e baixos como a vida de verdade se apresenta. Faltou realidade para um filme que pretende ser autobiográfico. E isso não é nada bom.

ADENDO: Senti, após escrever a crítica do filme e correr para publicá-la ainda no domingo, que faltou falar algo essencial: a história de Stephen Hawking é fantástica. Digna de tirarmos os nossos chapéus e que serve, de fato, como inspiração para muita gente. Em algo The Theory of Everything acerta: em mostrar como esse homem sempre amou a vida e quis/quer vivê-la o máximo possível. Ele, parece, enxerga potencial em todas as pessoas e nos ensina que as nossas dificuldades são fichinhas, na quase totalidade das vezes.

Apesar de vivenciar tantas dificuldades e limitações, ele nunca se sentiu limitado, e sempre guardo um bom sorriso e um olhar generoso. Tudo isso é fantástico e inspirador. O filme mostra um pouco isso, mas senti falta de ser mais legítimo com a história deste gênio. Este desperdício de potencial para fazer um filme verdadeiramente capaz de vencer gerações e continuar sendo importante, como é o caso do homem que inspirou esta produção, é o que acho mais lamentável. Mas a história de Hawking, em si, é digna de aplausos. Só queria acrescentar isso para não ser mal interpretada – não julguei mal o trabalho ou o exemplo de Hawking, mas o filme fraco que fizeram a respeito dele.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: As qualidades técnicas desta produção eu já destaquei acima. Talvez vale acrescentar ainda o bom trabalho de John Paul Kelly no design de produção; e de Claire Nia Richards na decoração de set. Por outro lado, me incomodou um pouco o trabalho dos nove profissionais da equipe de maquiagem. Senti falta dos personagens, especialmente os protagonistas, envelhecerem mais durante o filme – afinal, muitos anos se passaram entre os primeiros e os últimos fatos, incluindo o miolo da história. Faltou vermos isso visualmente no rosto dos atores.

Dos atores em papéis secundários, sem dúvida alguma Harry Lloyd é o que tem o maior destaque como Brian, grande amigo de Stephen Hawking segundo o filme. Também vale destacar o trabalho de Simon McBurney como Frank Hawking, pai de Stephen; Lucy Chappell em micro-pontas como Mary Hawking, mãe do físico; Adam Godley em uma aparição como o médico que dá o diagnóstico catastrófico, lembrando outra aparições no melhor estilo da finada série Lost; e o sempre ótimo David Thewlis como Dennis Sciama, professor e mentor de Stephen Hawking.

Além dos atores já citados, vale comentar as pontas de Tom Prior como Robert Hawking quando o filho do físico tinha 17 anos; de Sophie Perry quando Lucy Hawking tinha 14 anos; e de Finlay Wright-Stephens quando Timothy Hawking tinha oito anos. Eles aparecem brincando no parque quando Hawking recebe as honras da realeza britânica – e quando ele fala uma das frases mais legais da produção, referindo-se ao maior feitos dos dois, que foi ter gerado e criado aqueles três filhos. Este é um dos momentos importantes da produção, assim como o discurso final de Hawking em que ele ressalta que todo o ser tem um propósito e a sua beleza. Esse ponto, assim como o trabalho de Eddie Redmayne, valem a experiência.

The Theory of Everything estreou em setembro no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria ainda de outros cinco festivais. Nesta trajetória, a produção recebeu 12 prêmios e foi indicada a outros 62, incluindo quatro Globos de Ouro. Até o momento – a premiação do Globo de Ouro ainda não chegou na parte boa – o filme recebeu apenas prêmios de menor relevância. Mas ele está indicado aos Globos de Ouro de Melhor Filme – Drama, Melhor Ator – Drama para Eddie Redmayne, Melhor Atriz – Drama para Felicity Jones e Melhor Trilha Sonora. Acredito que apenas Redmayne tem já uma mão na estatueta… veremos se isso se confirma.

De acordo com o site Box Office Mojo, esta produção teria custado cerca de US$ 15 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 25,9 milhões até hoje, dia 11 de janeiro. No restante dos países em que o filme já estreou ele conseguiu outros US$ 20,3 milhões. Ou seja, está conseguindo se pagar.

Este filme foi totalmente rodado no Reino Unido, incluindo Cambridge – outro erro histórico, já que Hawking morou um tempo importante nos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco menos eufóricos, dedicando 157 críticas positivas e 42 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 79% e uma nota média de 7,3 – ainda assim, um bom patamar se levarmos em conta a exigência dos críticos dos site.

Estou correndo para escrever a crítica deste filme e publicá-la antes do final de domingo. Mas prometo que em breve vou acrescentar mais algumas informações por aqui, como curiosidades da produção e o resultado do Globo de Ouro nas categorias em que esta produção está concorrendo.

Esta é uma produção 100% do Reino Unido.

CONCLUSÃO: Algumas histórias verdadeiras são impressionantes. Poucas tanto quanto a de Stephen Hawking. Por isso mesmo, é um tanto frustrante encontrar um filme que não apenas perde a oportunidade de ser legítimo com a história real mas, principalmente, nem consegue ser melhor que os fatos nos quais deveria se basear. The Theory of Everything é uma produção muito “politicamente correta”. Ela tem um grande ator liderando o trabalho e fazendo a experiência valer a pena, mas é só. O roteiro é fraco e a condução do filme um tanto preguiçosa. Faltou tempero por aqui, algo que Hawking sempre conseguiu colocar em seus escritos e participações na cultura pop das últimas décadas. Perderam a oportunidade de fazer um filme melhor sobre ele.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: The Theory of Everything, como eu disse acima, recebeu quatro indicações ao Globo de Ouro. O prêmio será entregue neste domingo, nos Estados Unidos. Mas independente se o filme vai receber ou não algum Globo de Ouro, o que nos interessa aqui é o Oscar. As indicações do filme ao prêmio máximo da Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood, contudo, pode nos dar uma prévia do que virá aí no próximo dia 15, quando serão conhecidos os indicados ao Oscar.

Para mim, é inevitável a indicação de Eddie Redmayne como Melhor Ator no Oscar 2015. Ele é o que há de melhor nesta produção e, de fato, faz um trabalho memorável, para ser guardado entre os grandes de todos os tempos. Ele será o nome a ser batido este ano – tenho sérias dúvidas se alguém conseguirá fazer isso. Além dele, outras indicações são incertas.

Não me surpreenderia que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood colocasse The Theory of Everything entre os 10 indicados a Melhor Filme do ano. Não acho que o filme mereça, mas sem dúvida é uma forma interessante de reconhecer a figura de Stephen Hawking e, de quebra, agradar aos milhões de fãs dele – incluindo aqueles que seguem a série The Big Bang Theory onde, volta e meia, ele é citado ou faz uma participação. Não seria também surpreendente o filme ser indicado em categorias como Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora.

Para o meu gosto, o único prêmio que esta produção pode merecer é o de Melhor Ator. O restante, seria forçar a barra. Especialmente porque há outros filmes muito melhor acabados e com um desenvolvimento muito mais interessante que este para serem premiados este ano.

Boyhood – Boyhood: Da Infância à Juventude

3 de janeiro de 2015 7 comentários

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Durante a nossa vida, vamos mudando de perspectivas pouco a pouco. O olhar vai se ampliando, e por mais que pareça que muitas vezes surgem mais dúvidas que certezas, é fato que aprendemos muito no caminho. Tudo que vem depois do primeiro passo são erros e acertos, alegrias e tristezas, confirmações e negações, surpresas e previsibilidade. Boyhood é um filme excepcional porque mostra tudo isso com maestria. Há tempos não via um filme tão profundo e inspirador. Sem dúvida alguma, uma produção que deve chegar forte no próximo Oscar.

A HISTÓRIA: Coldplay na vitrola, céu azul com algumas nuvens, e um garoto deitado na grama, Mason (Ellar Coltrane) observa aquele quadro celeste. A mãe dele (Patricia Arquette) aparece e eles vão para casa. Logo que ela chega, ele comenta que acha que sabe de onde vem as moscas. No caminho, ela comenta sobre a reunião que teve com a professora dele. Depois, ele sai para pedalar com o amigo, Tommy (Elijah Smith). A irmã de Maison, Samantha (Lorelei Linklater) surge para chamar o garoto para comer. Acompanhamos essa família e o crescimento dos irmãos até que eles vão para a faculdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Boyhood): Este é um destes filmes que por mais que você tente escrever sobre ele, os comentários sempre vão ficar aquém do que é a produção. Uma de tantas provas de que este filme é brilhante é que ele tem duas horas e quarenta e cinco minutos de duração e, mesmo assim, Boyhood não fica chato em nenhum momento.

Claro que, e é bom você saber isso se ainda não assistiu ao filme, é preciso estar preparado, com paciência – ou melhor, tempo, sem nenhum compromisso imediato – e bem disposto para ver a Boyhood. Não apenas pela duração do filme, mas pela proposta dele de debruçar-se sobre a vida de algumas famílias e mostrar a evolução deles no decorrer de um longo período. Você fica fascinada(o) com aquelas histórias, mesmo elas parecendo, muitas vezes, tão familiares.

Esta é uma das diversas graças de Boyhood. Tenho certeza que o filme, além de nos apresentar uma história de ficção com diversas camadas de leituras, também provoca autorreflexão do espectador. Da minha parte, não tive uma realidade parecida com a dos protagonistas mas, ainda assim, sempre há algum elemento que te faz lembrar da tua própria história. São raros os filmes que conseguem isso. Apresentar uma história interessante e, ao mesmo tempo, despertar empatia dos diferentes públicos.

Você que acompanha esse blog há algum tempo sabe que eu sou avessa à saber sobre os filmes antes de assisti-los. Procuro não assistir a trailer e nem ler nada a respeito. Mas sem querer, ouvi um comentário de que Boyhood tinha sido filmado com os mesmos atores por diversos anos. Depois de ver ao filme confirmei a informação: o genial diretor Richard Linklater, responsável também pelo roteiro desta produção, filmou esta história com os principais atores envolvidos no enredo durante 12 anos.

Então, e isso é inovador, acompanhamos a evolução daqueles personagens não apenas na história, mas fisicamente. E, claro, quando os atores que dão vida para aquelas linhas de roteiro também amadurecem, percebe-se esta evolução de forma muito mais dinâmica e realista do que apenas mudando os atores ou enchendo os adultos de maquiagem para demonstrar a passagem do tempo – que é o que a maioria dos filmes fazem.

A entrega dos atores de Boyhood é, assim, diferenciada. Assim como a capacidade do roteiro em não apenas fazer-se crer, mas também em criar empatia. E que roteiro, meus caros! Linklater acerta a mão em cada detalhe, sendo coerente com as descobertas, questionamentos, problemas e relacionamentos do protagonista e da irmã dele, em especial, que são as figuras que mais dominam a cena.

Neste sentido, esta produção é um libelo filosófico sobre a vida. Além de interessante, é marcante ver a evolução de Mason com o passar dos anos, assim como o esforço dos pais separados dele para dar uma formação decente para o garoto e a irmã. Ao fazer esse exercício de acompanhar Mason e os demais durante 12 anos, Linklater está também contando parte da história de uma geração.

Essa narrativa está presente não apenas na trilha sonora capitaneada por Meghan Currier e Randall Poster e que faz uma boa revisitada em canções marcantes da história recente dos Estados Unidos e do mundo, mas também nas experiências que os irmãos Mason e Samantha passam – como a estreia do filme do Harry Potter. Essa característica do filme faz a história dele ser ainda mais “familiar” para os espectadores.

Fascinante ver como Mason começa com algumas perguntas e descobertas, a exemplo de como surgem as moscas, e termina se questionando sobre o sentido de tudo. E isso porque acompanhamos ele apenas até aquele momento de ruptura quando ele sai da casa materna. Certamente se acompanhássemos ele por ainda mais tempo, entrando na vida universitária e depois adulta dele, outros questionamentos e descobertas surgiriam.

Uma das qualidades bacanas de Boyhood, pra mim, é que o filme trata de uma constituição familiar bastante comum nas últimas décadas, que foi uma mãe solteira tentando cuidar dos filhos enquanto o ex-marido tentava fazer a sua própria vida. Ainda mais bacana é que o pai das crianças, interpretado pelo ótimo Ethan Hawke, nunca se ausentou. Então temos, pelo menos, duas perspectivas distintas na formação destes jovens. O que, de fato, aconteceu em muitos lares reais mundo afora.

Interessante também acompanhar os acertos, os erros, os tropeços e as boas tacadas feitas tanto pela mãe quanto pelo pai de Mason e Samantha. Eles vão evoluindo, junto com os filhos. A mãe, como tantas outras que acaba tendo que cuidar dos filhos praticamente sozinha, tenta outras vezes constituir uma família. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando o filme começa, ela está namorando um sujeito que não se adapta muito bem à rotina de uma mãe que tem dois filhos para cuidar.

Depois, ela acaba se casando duas vezes. Primeiro, com o professor universitário Bill Welbrock (Marco Perella), pai de Mindy (Jamie Howard) e Randy (Andrew Villarreal). Depois, com um sujeito bem mais novo, com bastante experiência em servir o Exército, Jim (Brad Hawkins). Entre o primeiro namorado e o segundo marido, a mãe dos protagonistas muda-se diversas vezes, tanto de cidade quanto de casa. Em cada ocasião, Mason e Samantha tem que se adaptar a novas escolas e fazendo novos amigos.

Muitas famílias sabem o que isso significa. Rupturas, recomeços, dificuldades de diferentes ordens. Mas algo que Boyhood mostra bem é que um laço forte acaba sustentando estas pessoas: o amor. Há diversos conflitos, especialmente entre os irmãos, com gênios bem diferentes, mas todos se gostam e se respeitam. Percebemos no roteiro de Linklater como cada indivíduo, especialmente Mason e Samantha, vão modificando não apenas a forma de ver o que acontece ao redor, mas também a forma com que lidam com as diferentes demandas da vida.

O texto do diretor é brilhante. Ele reserva momentos de pura reflexão e contemplação, ao mesmo tempo que dá espaço para eventos tensos e chocantes. Especialmente as tentativas frustadas da mãe dos protagonistas em formar uma família rendem pano pra manga. E elas reforçaram um pensamento que eu tenho há algum tempo: especialmente complicada e triste a vida de uma mãe solteira que faz de tudo para constituir uma família e, nesta busca algumas vezes desesperada, não observa bem o homem que está colocando dentro de casa.

O professor Bill Welbrock, interpretado com perfeição por Marco Perella, é um exemplo primoroso disto. Aparentemente ele era um sujeito respeitável, equilibrado, admirável. Mas foi só começar a convivência e observar ele mais de perto para ver que haviam muitos problemas ali. A cena dele intimidando e agredindo a família na mesa é o momento mais impactante do filme.

Enquanto isso, o “inconsequente” pai de Mason e Samantha vai trilhando a sua vida pouco a pouco. De um sujeito sem grandes perspectivas, que tentava ser músico ao mesmo tempo que aceitava qualquer emprego para pagar as contas, ele chega a uma versão de si mesmo bem mais responsável. Lá pelas tantas, ele parece desencanar da mãe das crianças e decide formar uma nova família com a simpática Annie (Jenni Tooley).

De família bem católica e tradicional, Annie apresenta para Mason e Samantha uma versão de família que, até então, eles desconheciam. Especialmente significativo o aniversário de Mason em que ele vai passar um tempo com os familiares de Annie, interpretados por Richard Andrew Jones e Karen Jones.

Algo que me chama muito a atenção no trabalho de Linklater é que ele não santifica e nem condena nenhum de seus personagens. Quando alguns podem criticar a mãe, pensando que ela deveria ter sido mais responsável com os homens que ela colocou dentro de casa, ele nos apresenta diversos exemplos dela sendo modelo para pessoas de fora da família.

Primeiro, ele sinaliza nesta direção com alunos dela quando a personagem de Patricia Arquette começa a dar aula na universidade. Depois, ela recebe um elogio inesperado do pai de Mason e Samantha e, para fechar com chave-de-ouro, ficamos sabendo que ela serviu de inspiração para um trabalhador latino investir na própria educação e ascender na vida.

Na verdade, a mãe dos garotos é uma de tantas outras batalhadoras. Porque não é fácil educar dois filhos, tendo ou não o apoio do pai deles por perto – ou em uma família constituída de forma tradicional. Boyhood deixa isso muito claro, e nos faz repassar a nossa própria trajetória. Na reta final da produção, com Mason perto de ir para a universidade, acompanhamos várias descobertas do rapaz. Da primeira namorada até o primeiro emprego, passando pelos primeiros questionamentos sérios deles de vida.

Tudo é aprendizado. As perguntas nunca param, mas a inquietação vai diminuindo. Ou, como disse de forma brilhante o pai de Mason e Samantha perto do final, vamos sentindo menos com o passar do tempo, porque criamos certa resistência. Essa é uma das diversas pérolas do filme. Aliás, todo aquele diálogo entre Mason e o pai é perfeito. O garoto percebe que o tempo passa, mas em muitos sentidos os pais deles seguem perdidos como ele, ainda jovem. Isso é fato, ninguém é tão sábio que não siga com dúvidas ou se equivocando, mesmo velho.

Na reta final da produção, algumas outras lições importantes. A mãe dos garotos começa a sofrer com a síndrome do ninho vazio, percebendo que investiu muito nos filhos e, talvez, pouco nela mesma – ainda que, no caso dela, até sobrou espaço para bastante atitude, desde evoluir na própria formação, fazendo faculdade e mestrado, até ter tido outros relacionamentos. Ainda assim, não é fácil romper com os hábitos e com a vida em comum com os filhos. Eis uma lição pela qual todos os pais passam.

Mas achei brilhante mesmo Mason iniciar a “vida adulta”, morando longe dos pais e em uma república universitária, logo descobrindo que existem muitos amores nesta vida. Respeito quem acha que só existe um grande amor, uma metade da laranja, uma tampa para a nossa panela. Da minha parte, acredito na versão final de Boyhood, na qual novos amores aparecem sempre, basta nos dispormos a encontrá-los. Evidente que, lá pelas tantas, é sempre possível romper com todas as opções e ficar apenas com um amor, constituindo família e recomeçando o ciclo. Mas esta escolha é de cada um. E será, um dia, de Mason e Samantha. Boyhood, por tudo isso, é fantástico.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Impossível não ficar impressionada com o excepcional trabalho do jovem Ellar Coltrane como Mason. Aos 20 anos, ele nos dá uma lição de como assumir um papel com garra e talento. Além de Boyhood, este jovem talento tem apenas outros quatro filmes no currículo. Não assisti a nenhum outro de seus filmes, mas acredito que o mais conhecido deles seja Fast Food Nation, também dirigido e com roteiro de Richard Linklater. Depois do reconhecimento por Boyhood, acho que vale seguir a carreira de Coltrane para ver o que mais ele fará.

Apesar de em Boyhood a atriz Lorelei Linklater interpretar a irmã mais velha de Mason, na vida real ela tem a mesma idade de Ellar Coltrane: 20 anos. Ela é quase três meses mais velha que o parceiro de cena. Além de Boyhood, Lorelei tem apenas outros três filmes no currículo. O primeiro deles, lançado em 2001; o segundo, um curta em vídeo; e o terceiro, em fase de pós-produção. Como o nome dela sugere, ela é filha de Richard Linklater, diretor e roteirista de Boyhood. Acho ela boa, mas não vi tanto talento nela quanto em Ellar Coltrane.

Sempre achei os atores Patricia Arquette e Ethan Hawke diferenciados. Especialmente pelas escolhas que eles fizeram em suas respectivas carreiras – escolhas estas nem sempre óbvia. Pois bem, eles participarem de um projeto diferenciado como Boyhood apenas reforça a minha opinião sobre eles. Poucos atores em Hollywood encarariam uma proposta tão diferente e que apresentasse tanto sacrifício e exposição. Mas estes dois atores, de fato, são diferenciados. Gostei muito do trabalho deles. Acho que os dois brilham com a mesma intensidade que Coltrane.

O foco está nos dois filhos e seus pais. Ainda assim, atores coadjuvantes ajudam a contar essa história e a fazê-la tão boa. Além dos atores já citados, vale citar o trabalho de Libby Villari como a avó dos garotos por parte de mãe; Sam Dillon como Nick, amigo da juventude de Mason; Zoe Graham como Sheena, primeira namorada do protagonista; Richard Robichaux como o primeiro chefe de Mason; e Jessi Mechler como Nicole, uma nova descoberta para o garoto. Há outros coadjuvantes, alguns com aparições bem interessantes, mas que eu não vou citar por terem tido uma importância menor na história.

Linklater deixa clara a sua admiração de bons professores e da formação das crianças e dos jovens. Não por acaso tem uma certa relevância alguns coadjuvantes que aparecem pouco, mas que tem falas inspiradoras na história. É exemplo disso Tom McTigue como Mr. Turlington, que dá aulas de fotografia para Mason; e Mona Lee Fultz como a professora do ensino médio do protagonista e que lhe dá bons conselhos após ele ter algumas fotografias reconhecidas em um concurso.

Da parte técnica do filme, além do excelente roteiro de Linklater, vale destacar a direção de fotografia de Lee Daniel e Shane F. Kelly; a edição perfeita de Sandra Adair; o design de produção – vital, como os elementos seguintes, para nos situar nos diferentes tempos da história – de Rodney Becker e Gay Studebaker; a decoração de set de Melanie Ferguson; e os figurinos de Kari Perkins.

Boyhood estreou em janeiro de 2014 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participaria de outros 28 festivais, incluindo os de Berlim, Karlovy Vary e San Sebastián. Nesta trajetória o filme colecionou 84 prêmios e foi indicado a outros 85 – incluindo cinco indicações ao Globo de Ouro 2015.

Entre os prêmios que recebeu, destaque por ter figurado na lista de 11 filmes considerados “Filme do Ano” pelo AFI Award; por três prêmios no Festival de Berlim, incluindo o de Melhor Diretor; pelo prêmio de Melhor Filme Internacional Independente no British Independent Film Awards; pelo Prêmio da Audiência no Gotham Awards; por figurar na lista dos 10 melhores filmes do ano segundo a National Board of Review; pelo prêmio FIPRESCI de Melhor Filme do Ano no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián; e por diversos outros prêmios entregues pela crítica de dentro e de fora dos Estados Unidos.

Falando em Globo de Ouro, Boyhood está indicado nas categorias Melhor Filme – Drama, Melhor Diretor, Melhor Atriz Coadjuvante para Patricia Arquette, Melhor Ator Coadjuvante para Ethan Hawke e Melhor Roteiro. Todas estas indicações muito merecidas, diga-se.

Gostei do resultado financeiro obtido pelo filme. Afinal, não basta ter um projeto revolucionário, é preciso fazer com que ele dê lucro para quem apostou na produção. Boyhood teria custado cerca de US$ 4 milhões – orçamento baixíssimo para os padrões de Hollywood – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 24,2 milhões. No restante dos mercados em que já estreou, ele soma pouco mais de US$ 19,1 milhões. Ou seja, gerou quase US$ 43,4 milhões de caixa. Sem dúvida ele se pagou e está dando lucro. Que bom!

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: ela começou a ser filmada em maio de 2002, ou seja, quando os atores principais tinham sete anos de idade, e terminou de ser rodada em outubro de 2013. Na verdade, 11 anos de filmagens e com lançamento 12 anos depois do filme ter começado a ser rodado.

Para quem, como eu, tem curiosidade sobre as locações dos filmes, comento que Boyhood foi totalmente rodado nos Estados Unidos, em cidades como Austin, San Marcos e Houston, todas no Texas.

Falando em curiosidades da produção, essa eu achei genial: Richard Linklater escalou a filha Lorelei para o papel de Samantha porque a garota estava sempre cantando e dançando ao redor da casa deles e pedindo para participar de um dos filmes do diretor. Pois bem, ele resolveu colocá-la no papel de Samantha, mas pelo terceiro ou quarto ano de filmagens, ela perdeu o interesse na brincadeira e pediu para o papel dela ser eliminado do filme, solicitando que o pai dela matasse Samantha na história. Ele recusou, dizendo que não era um fim trágico destes que ele estava planejando. No fim das contas, a garota voltou a se empolgar com o papel. Ainda bem. De fato não seria a melhor saída Samantha morrer no filme.

Apesar de ter sido rodado entre 2002 e 2013, Boyhood teve apenas 45 dias de filmagens neste período. E outra curiosidade: como nos Estados Unidos é ilegal assinar contratos com mais de sete anos de duração – para filmagens, ao menos -, nenhum dos atores pode assinar um contrato para o compromisso total de 12 anos. Burocracias aqui e lá.:)

O guitarrista que Mason vai assistir ao lado do pai, na parte final do filme, na verdade é o pai verdadeiro do ator Ellar Coltrane. Bruce Salmon é um músico atuante em Austin, no Texas, onde a cena de Boyhood foi rodada.

Amigos de muito tempo, Linklater e Ethan Hawke cresceram em casas de pais divorciados e tiveram pais que atuaram no ramo de seguros no Texas, e exemplo do personagem do pai de Mason no filme.

Boyhood é o filme favorito de 2014 do presidente Barack Obama.

A trilha sonora também é um elemento à parte nesta produção. Ótima trilha, diga-se. Destaco, entre outras, as músicas Yellow, do Coldplay; Hate to Say I Told You So, do The Hives; Authem Part Two, do Blink 182; Soak Up the Sun, de Sheryl Crow; Island in the Sun, de Weezer; What is Life, de George Harrison; Get Lucky, de Daft Punk com Pharrell Williams; Let It Die, de Foo Fighters; Band on the Run, de Paul McCartney & Wings; Do You Realize, de The Flaming Lips; Could We, de Cat Power; Crazy, de Gnarls Barkley; Hate It Here, de Wilco; One (Blake’s Got a New Face), de Vampire Weekend; 1901, de Phoenix; Lovegame e Telephone, de Lady Gaga; Radioactive, de Kings of Leon; Beyond The Horizon, de Bob Dylan; Suburban War e Deep Blue, de Arcade Fire.

Agora, ainda falando em trilha sonora, interessante algumas músicas escritas e interpretadas por Ethan Hawke, como Split the Difference e Ryan’s Song – esta última que ele apresenta junto com Ellar Coltrane, Lorelei Linklater e Jenni Tooley. Na trilha, ainda, as canções Não Acorde o Neném, Em Todo Lugar Voz Boa e Coisa Boa do brasileiríssimo Moreno Veloso.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para Boyhood. Uma avaliação muito boa, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes revelaram-se ainda mais empolgados ao dedicar 249 críticas positivas e apenas quatro negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média de 9,3.

Este filme, por ser 100% dos Estados Unidos, entra na lista de produções sugeridas em votações no blog – aquelas em que vocês definiam países dos quais eu deveria assistir a alguns filmes e comentar por aqui.

CONCLUSÃO: Conto nos dedos os filmes que falaram profundamente de conceitos que eu acredito e que tiveram, ao mesmo tempo, um olhar sensível sobre a condição humana e seu aprendizado constante. Acertar e errar, frustrar-se e sentir pleno prazer e gratidão, tudo isso faz parte da vida de qualquer pessoa, seja ela da classe social, raça ou latitude que for. Boyhood acompanha a evolução de uma família que não é tradicional por diversos anos, da infância dos filhos até a chegada deles na “vida adulta”. A história se desenvolve de maneira sensível, coerente e dura, em muitos momentos, como a vida mesma. Uma aula de roteiro, de direção e de trabalho dos atores. Lindo. Por tudo isso, altamente recomendado.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Ainda estou começando a ir atrás dos filmes que tem chances na próxima premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, mas algo posso dizer desde já: Boyhood tem que aparecer na lista dos finalistas. Pelo menos. Não tenho dúvidas que este é um dos grandes filmes do ano passado e, por isso mesmo, vale estar no Oscar.

Para mim, ele deveria aparecer na lista de Melhor Filme – que permite até 10 títulos – e, se possível, nas categorias Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Ator para Ellar Coltrane, Melhor Ator Coadjuvante para Ethan Hawke e Melhor Atriz para Patricia Arquette. Ainda que eu tenha dúvidas se ela figuraria em Melhor Atriz ou Melhor Atriz Coadjuvante. Só para começar, seriam seis indicações. Mas o filme ainda poderia entrar em alguma categoria técnica – ainda que, aí, eu veja menor possibilidade.

Além das indicações, fica difícil ainda de fazer um prognóstico. Preciso assistir aos outros fortes concorrentes do ano. Mas, inicialmente, eu não acharia injusto ele ganhar como Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Ator. Há tempos eu não assistia a um filme tão competente neste conjunto de quesitos.

Ida

30 de dezembro de 2014 5 comentários

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Desacelere e reflita. Não é com pressa que você vai entender o que aconteceu e o que está acontecendo. Filmes como Ida nos apresentam uma história que tem esta lógica e que, de quebra, também nos faz agir da mesma maneira para não apenas entender o que acabamos de assistir, mas também para entender as nossas próprias escolhas. Ida não é um filme evidente, com leitura simplória. Exige um tempo de reflexão, de contemplação das belas imagens reveladas pela história e também dos sentimentos que ela apresenta. Realmente um fortíssimo – para alguns o favorito – concorrente ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

A HISTÓRIA: Uma freira pinta o rosto de Jesus. Depois ela e outras três freiras levam a imagem para fora, colocando-a em um pedestal em meio à neve. Elas rezam. Depois, inserida em um grupo maior, a primeira freira, Anna (Agata Trzebuchowska), canta antes de alimentar-se. Ela é observada pela madre superiora (Halina Skoczynska) que, depois, comunica para a jovem que ela vai conhecer a uma tia que não quis, quando ela ficou órfã, ficar com a menina. Mesmo relutante, ela vai conhecer essa tia, Wanda Gruz (Agata Kulesza). As duas juntas procuram pelo passado da jovem que está prestes a fazer os seus votos perpétuos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Ida): O primeiro elemento claro de destaque deste filme é a fotografia da produção. Impactante. Belíssima. Exemplar. Palmas para a dupla Ryszard Lenczewski e Lukasz Zal. Mas tão importante quanto a direção de fotografia dos dois é a da direção de Pawel Pawlikowski que, ao lado de Rebecca Lenkiewicz, é responsável pelo roteiro de Ida.

Considero a direção de Pawlikowski fundamental porque, afinal, é ele quem decide os enquadramentos junto com os diretores de fotografia. E a escolha de cada ângulo, do enfoque de cada cena, é o que torna este filme uma joia rara. Não é só isso, evidente. Mas os enquadramentos que valorizam os ambientes e, especialmente, tendem a jogar a visão do espectador para um “plano mais elevado”, significam muito.

Nenhum ângulo, elemento que aparece em cena, fala ou silêncio está em Ida por acaso. Tudo tem um propósito, como estes elementos e tantos outros nas nossas vidas também. Pawel Pawlikowski parece nos dizer constantemente isso. Que por mais que a existência da protagonista seja um mistério para ela mesma, e por mais que ela vai descobrindo elementos novos a cada passo e interação, tudo que aconteceu e o que está acontecendo tem uma finalidade.

Nestes termos Ida tem um significado existencial profundo. Esta produção não se resume apenas na busca de descendentes judias pela verdade em uma cruzada para esclarecer o passado. Ela é também uma reflexão profunda sobre as escolhas cotidianas que nos levam por determinados caminhos, e não por outros, e sobre a necessidade de ampliar o campo de visão antes de focar a mirada e a vida em uma determinada direção.

Mas antes de me largar filosofando sobre esta produção, quero voltar um pouco na história propriamente dita. Sugestivo e bastante acertado o filme começar em um cenário frio, de muita neve, e terminar com os campos descongelados. É como se a busca pelo conhecimento da protagonista limpasse o cenário, tornando ele menos encoberto e gélido e mais fértil e promissor.

Claramente o roteiro de Pawlikowski defende a busca pela verdade e pela reconciliação do presente com o passado, seja ele individual, no caso de Ida (inicialmente Anna) e da tia, Wanda, seja do país Polônia, invadido pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Aliás, este recorte histórico é especialmente interessante – o que torna o filme, de fato, um forte candidato ao Oscar.

Toda vez que uma produção resolve visitar o segundo grande conflito mundial, novos elementos são expostos para o grande público no holofote. Em Ida, a novidade está na parte da população polonesa que, inicialmente, protegeu os judeus perseguidos e, depois, aproveitou-se deles ao eliminá-los da face da Terra. Quem poderia desconfiar da traição, afinal, eles estavam em um país invadido e com inimigos mais evidentes e fortes. Mas os descendentes das vítimas, como Wanda, nunca esqueceram.

Ela própria conseguiu buscar justiça contra muitos algozes do próprio país que eliminaram judeus para ficar com as propriedades deles nos anos 1950. Mas estranhamente, e isso me faz lembrar aquele dito de que “em casa de ferreiro o espeto é de pau”, Wanda não conseguiu fazer as pazes com o próprio passado. Provavelmente porque ela não se sentia preparada ou verdadeiramente forte para isso. Mas quando bate à porta dela a sobrinha que ela fez questão de esquecer até então, Wanda não consegue mais fechar os olhos e anular a consciência.

Inicialmente ela até tenta. Mas volta atrás. E ao fazer isso, tanto a vida dela quanto a de Ida/Anna mudam definitivamente. O que nos faz pensar que também os nossos encontros e aberturas para determinadas pessoas e fatos mudam a nossa trajetória para sempre. Interessante o contraponto entre tia e sobrinha. Como Wanda mesmo comenta, em determinado momento da produção, ela faz as vezes de “puta”, enquanto a sobrinha representa a “santa”.

Mas em cenários como aquele ou em diversos outros em que nós habitamos, quanto fácil pode ser identificar a puta ou a santa? Outro dia saí para celebrar o final de ano com duas amigas, quase na véspera do Natal, e fiquei chocada com o comportamento de garotas jovens em um bar. Todas vestidas com micro-saias e parecendo, para olhos com vontade de julgar, umas “putas”. Mas elas não eram. E me choquei um pouco com garotas tão jovens tendo comportamento de manada e não se dando conta da mensagem que elas estavam passando.

Wanda não conseguiu encarar a própria história durante muito tempo. E buscou, como tantas pessoas que circulam na vida real aqui e ali, maneiras de anestesiar-se. Conseguiu, por muito tempo, até que ela confrontou as suas piores dores ao ter uma convivência rápida com a sobrinha – que, de quebra, lhe fazia lembrar muito a irmã assassinada. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando ela coloca certa música na vitrola, é praticamente uma morte anunciada. Pelo menos eu vislumbrei muito antes da queda que ela teria aquele fim.

Então Ida fala sobre esse passado nacional que, mesmo dolorido, em certo momento precisa ser revisitado. A verdade precisa ser descoberta e as vítimas terem um destino adequado. Esta é a Polônia dos sonhos do diretor Pawlikowski. Aliás, este deveria ser o sonho de todo cidadão de qualquer país que tenha contas a resolver com o próprio passado. Quanto mais transparência e informação sobre abusos e crimes do passado, melhor para o coletivo de uma nação.

O problema é que nem sempre essa verdade consegue ser trabalhada individualmente. Um exemplo disto é a personagem de Wanda. Que passou grande parte da vida tentando buscar justiça ou fuga sem, contudo, resolver o problema internamente. Sem dúvida a culpa pelo “abandono” do filho no passado e a falta de perspectiva inclusive familiar futura foram decisivos para a decisão final da personagem.

Por outro lado, e aí está o lado mais filosófico da produção, a protagonista tem um outro desafio para vencer. Sem esperar, ela encontra uma parente que não sabia que existia, descobre ser judia e é mordida pela ânsia de respostas originada pela tia. Após saber mais sobre os pais mortos e conviver um pouco mais com a tia, Ida sente-se também com oportunidade para dar vazão para instintos reprimidos no convento. Ela está fora da clausura e da proteção daquele ambiente e, desta forma, é “contaminada” com o mundo do pecado.

Interessante a forma muito natural com que Pawlikowski mostra esta jovem em busca de respostas também para os seus desejos e necessidades. Depois de descobrir sobre a história dos antepassados, ela volta para o convento e não se sente preparada para dar os votos de fidelidade eterna para Deus. Sua cabeça está em outro local, no músico Lis (Dawid Ogrodnik), que ela conheceu quando a tia deu uma carona para o rapaz.

Acredito que esta seja a parte mais polêmica da produção. O desejo e o contato da freira até então imaculada com o rapaz que ela mal conheceu. Da minha parte, acho que aí está uma outra reflexão interessante: que só podemos ter uma escolha verdadeiramente lúcida e firme pelas virtudes após conhecer o pecado. Com isso não quero dizer que devemos experimentar tudo para, depois, sermos capazes de abdicar de um pecado determinado.

Mas certamente quem tem mais conhecimento sobre a vida pode fazer escolhas mais lúcidas sobre determinados assuntos – como a castidade ou sobre afastar-se de algumas tentações para buscar uma vida mais virtuosa. Especialmente importante para esta produção o trabalho dos atores principais, com destaque para a força do olhar da atriz Agata Trzebuchowska. Ela nos hipnotiza e convence a cada segundo pelo olhar, muito mais que pelo diálogo. Junto com a direção de fotografia, sem dúvida ela é o ponto forte do filme.

Mesmo destilando tanto elogios para a produção, devo dizer que demorei um bom tempo após o filme terminar para conseguir ter esta leitura tão positiva sobre Ida. Inicialmente, a minha impressão não era tão boa. Então, por isso mesmo, escrevi aquela introdução lá encima. Dê tempo ao tempo em relação a esse filme.

Pouco a pouco as imagens dele vão fazendo mais sentido. Apesar desta ponderação, admito que não dei uma nota melhor para o filme, logo abaixo, porque senti falta dele me emocionar e tocar mais. Ida é uma produção virtuosa, cheia de qualidades, mas que não fisga o espectador como eu gostaria. Ou, pelo menos, da forma com que eu gosto de ser envolvida. Dito isso, confirmo o que vocês já sabem: cinema é uma arte muito pessoal.

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ida é uma prova cabal de que um filme não precisa ser longo para ser bom. Na maioria das vezes, muito pelo contrário. Pois bem, esta produção, caros leitores, tem menos de 1h30 de duração. Perfeito.

Fiquei curiosa para saber um pouco mais sobre os diretores de fotografia desta produção. Ryszard Lenczewski é um polonês de 66 anos que tem 53 trabalhos como diretor de fotografia no currículo e 11 prêmios para apresentar. Lukasz Zal é bem mais novo, tem 33 anos, também é polonês, tem sete títulos como diretor de fotografia mas, por outro lado, apresenta já um bom portfólio de prêmios: sete até o momento. Até Ida, o forte de Zal eram os documentários.

Interessante saber, também, sobre Pawel Pawlikowski. Este polonês de 57 anos começou a carreira de diretor em 1991 com o documentário para a TV From Moscow to Pietushki. Na sequência, ele dirigiu outros três documentários e um curta de documentário, até estrear, em 1998, com o filme não-documental The Stringer. De 2004 para cá ele lançou duas produções: My Summer of Love e La Femme du Vème. Em sua trajetória, Pawlikowski recebeu 36 prêmios e foi indicado a outros 18. Nada mal, hein?

Com poucos personagens, Ida é um filme que depende muitos do desempenho dos poucos atores em cena. Por isso mesmo, palmas para Alina Falana, responsável pelo casting da produção. Ela acertou na mosca com a escolha das duas joias raras, das duas Agatas que protagonizam este filme. Agata Trzebuchowska dá um banho como Anna/Ida, enquanto Agata Kulesza dá o equilíbrio perfeito e propicia a dobradinha necessária com a outra Agata ao interpretar Wanda.

Além destas atrizes e do já citado Dawid Ogrodnik, o outro destaque da produção, vale comentar o trabalho de Jerzy Trela como Szymon; Adam Szyszkowski como Feliks; e Joanna Kulig, com presença marcante e muita beleza como a cantora da banda de Lis. Os outros atores fazem papéis muito pequenos, quase sempre pontas na história.

Ida estreou no Festival de Cinema de Telluride no dia 30 de agosto. Depois, o filme participaria ainda de outros 35 festivais. Uma jornada impressionante! O último previsto, o de número 37, será o Festival Internacional de Cinema de Palm Springs, que vai começar no próximo dia 3 de janeiro. Nesta super trajetória de festivais, Ida conseguiu abocanhar 44 prêmios – número também impressionante – e outras 28 indicações.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme segundo o Público do Prêmio de Cinema Europeu, além dos reconhecimentos de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro e Melhor Direção de Fotografia entregues também por este prêmio.

Ida ganhou ainda como Melhor Filme no Festival de Cinema de Londres; como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Prêmio do Círculo de Críticos de Cinema de Nova York; como Melhor Atriz para Agata Kulesza, Melhor Roteiro, Melhor Design de Produção e Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema de Gijón. O filme ainda está concorrendo como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Globo de Ouro 2015. E deve chegar ao Oscar forte…

Não há informações sobre o custo desta produção, mas ela conseguiu, apenas nos Estados Unidos e em circuito restrito, pouco mais de US$ 3,7 milhões nas bilheterias. Não é desprezível para um filme polonês no concorridíssimo mercado estadunidense.

Esta produção foi totalmente rodada na Polônia, em cidades como Lódz, Pabianice, Mianów e Szczebrzeszyn. Desafio vocês a pronunciarem o nome da última cidade.😉

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: o diretor Pawel Pawlikowski estava com tanta dificuldade para encontrar a atriz para fazer as vezes de protagonista de Ida que ele resolveu recorrer para os amigos. Ele pediu que eles fizessem fotos escondidas de mulheres que fossem interessantes para o papel. Um dos amigos do diretor encontrou Agata Trzebuchowska em um café, fez a foto da garota e a convenceu a fazer o teste para o papel. O resto é história.

A atriz Agata Trzebuchowska é uma ateia devota. Curioso, não? Ela estreou no cinema protagonizando esta produção.

Ida tem um certo tom autobiográfico. O diretor e roteirista Pawel Pawlikowski tinha uma mãe católica e um pai judeu e descobriu, muito mais tarde na vida, que a avó dele tinha morrido no campo de concentração de Auschwitz.

Lendo as notas de bastidores do filme é que fiquei sabendo porque de dois diretores de fotografia. O experiente Ryszard Lenczewski deixou a produção pouco depois dela ter começado. Ele alegou razões médicas, mas o diretor Pawlikowski disse que ele não estava tão engajado no filme quanto o diretor gostaria. Foi aí que entrou em cena Lukasz Zal, até então apenas um operador de câmera na produção.

O compositor dinamarquês Kristian Eidnes Andersen aparece assinando a trilha sonora do filme, ainda que boa parte do trabalho dele foi cortado para dar lugar para uma peça de Bach.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção. Uma boa avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais efusivos, dedicando 110 textos positivos para Ida e apenas cinco negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,4.

Com esta crítica, me despeço de 2014. Um ano excelente, ainda que eu tenha ficado em dívida com você, querido leitor deste blog. Primeiro, porque não atualizei o site como eu deveria e/ou gostaria. Depois, porque estou com as respostas aos comentários feitos por vocês muito atrasadas. Mas deixa… 2015 há de ser melhor. Para todos nós. Apesar do blog ficar um pouco relegado, meu 2014 foi ótimo. Espero que o ano de vocês também. E que 2015 venha ainda melhor, inclusive com muitos filmes ótimos para assistirmos. Agradeço, imensamente, pela companhia e visita de vocês. Sem esta presença constante, este espaço não teria muito sentido. Abraços, beijos, e um 2015 maravilhoso para cada um@ de vocês!

CONCLUSÃO: Este é um daqueles filmes que, no primeiro momento, você pode até não gostar muito. Ou, pelo menos, e o que foi o meu caso, não sentir-se tão afetado pela história. Mas aos poucos Ida vai mostrando toda a sua eficácia. Quanto mais pensamos no que assistimos, mais encontramos nuances de interpretação. Visualmente belíssimo, com uma fotografia em preto-e-branco irretocável, este filme tem contemplação, escolha permanente pela “elevação”, filosofia, religião e mensagens duras pinceladas com maestria e suavidade. Nada de pirotecnia ou daquela forçada de barra para fazer o público chorar no momento certo. Uma pequena joia que precisa, como tantas outras, ser lapidada aos poucos e com cuidado dentro do espectador depois que os créditos terminam.

PALPITE PARA O OSCAR 2015: Ida avançou na disputa por uma estatueta na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. De acordo com um dos boletins da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, Ida é um dos nove pré-selecionados nesta categoria. Como vocês devem saber, no caso de acompanharem o Oscar, normalmente a lista final é anunciada com cinco produções.

Os pré-selecionados foram: Ida (Polônia), Relatos Salvajes (Argentina), Tangerines (Estônia), Corn Island (Geórgia), Timbuktu (Mauritânia), Accused (Holanda), Leviathan (Rússia), Force Majeure (Suécia) e The Liberator (Venezuela). Não assisti aos outros candidatos, mas acredito que Ida deve chegar na lista dos cinco finalistas. Tanto pela qualidade da produção quanto pelas temáticas abordadas – perseguição aos judeus e busca pessoal pela fé. Quanto a receber a estatueta… vou me sentir mais confortável em opinar conforme for assistindo aos outros pré-selecionados.

Nightcrawler – O Abutre

21 de dezembro de 2014 4 comentários

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Figuras estranhas andam pelas noites das grandes cidades. Mas nem todas são tão assustadoras quanto o protagonista deste Nightcrawler. E o detalhe mais importante desta constatação é que ele é tão assustador por ser tão humano. Há centenas, talvez milhares de figuras como ele perambulando por aí. Filme bem escrito e bem conduzido, com um ótimo ator encabeçando a trama, Nightcrawler faz pensar em diversas direções. O que não é exatamente comum, mas certamente muito necessário.

A HISTÓRIA: Um outdoor em branco, desocupado, uma lua cheia fantástica no céu e uma cidade iluminada. Diversas cenas desta cidade e uma trilha sonora melancólica ao fundo. Nada demais parece estar acontecendo, e ao conferirmos a placa de Santa Monica, temos certeza que a cidade em foco é Los Angeles. Alguém corta uma cerca, mas para com a aproximação de um carro.

Confrontado por um vigilante (Michael Papajohn), o homem que roubava as cercas de arame, Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) tenta disfarçar e diz que está perdido. O vigilante pede a identidade do invasor, e antes de mostrar o documento, Louis percebe o relógio caro que o interlocutor está usando. Em seguida, ele agride o vigilante. Depois, vende o produto do roubo. Mas é tentando voltar para casa que ele tem a ideia de uma profissão na qual ele poderá se encaixar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu à Nightcrawler): Há tempos eu admiro o ator Jake Gyllenhaal. Acredito que desde o genial Donnie Darko – que recomendo, caso você não tenha assistido. Sempre que posso, confiro as produções em que ele está envolvido. E novamente, com esta Nightcrawler, ele não me decepcionou.

O protagonista deste filme, e vamos saber isso logo nos primeiros minutos da produção, é um psicopata. Quer dizer, não é logo de cara que sabemos disso. No início, Louis Bloom parece apenas um sujeito que vive de pequenos crimes. E ele também parece desesperado por um emprego e por uma fonte razoavelmente estável de dinheiro. Também percebemos, logo no início, que ele é um sujeito que gosta de estar no controle e que está sempre atento às oportunidades.

O roteiro do diretor Dan Gilroy foi construído para não causar tédio. Desde o início, todas as frases dos diálogos dos atores, todos os gestos deles e todas as cenas de ação tem um propósito e estão perfeitamente encadeadas. Conforme a história vai se desenvolvendo e nos aproximamos mais do protagonista, percebemos todos os ingredientes de um psicopata: Louis é um sujeito que gosta de estar sozinho, absorve informações de todas as partes e tem uma dificuldade crônica de ter um diálogo ou uma relação real com alguém.

Ele repete conceitos e frases feitas que foi aprendendo na internet. E esse é o primeiro acerto desta produção: ela nos faz refletir sobre o perigo que conceitos de gestão, administração, psicologia e outras fontes de certezas podem gerar quando disponíveis livremente para mentes insanas. Isso potencializado pela internet.

Claro que você pode argumentar que esta mesma facilidade existia antes, mas em forma de livros. Verdade. Mas a internet torna o processo ainda mais prático. Qualquer um pode acessar praticamente qualquer informação, conceito, frases feitas e formas de manipular os outros sem sair de casa e com uma sequência de comandos dados por algumas teclas do computador.

O assustador do personagem central deste filme é justamente o quanto há pessoas como Louis por aí. Não apenas psicopatas, mas figuras que apenas reproduzem conceitos sem jamais refletir sobre eles – ou, o que seria o ideal, absorver estes e vários outros conceitos e criar as suas próprias teorias e compreensão dos fatos. Informações boas e até corretas nas mãos de manipuladores são extremamente perigosas.

Além disso, é assustador também o fato de muitas pessoas viverem em busca de seus próprios desejos e o que consideram ser suas necessidades sem se importarem com mais nada ou ninguém. Nem sempre estas pessoas são psicopatas, como o Louis desta produção. Muitas vezes elas são apenas insensíveis e/ou cretinas crônicas. Nightcrawler nos faz pensar sobre isso, sobre figuras com algumas destas características que conhecemos em algum momento da nossa vida.

Depois de comentar isso, inevitável citar a maior crítica desta produção: a imprensa e a fixação de parte dos jornalistas com notícias que possam dar altos índices de audiência. Não conheço profundamente a grade de programação da TV dos Estados Unidos. Por isso, me arrisco a achar que esta produção exagera na crítica. Ainda assim, achei bacana Dan Gilroy fazer esta escolha pelo exagero. No burlesco é que muitas vezes percebemos que o rei está nu.

Sendo jornalista, posso fazer uma autocrítica de que a minha profissão muitas vezes erra na dose, no foco e na mensagem. Vejo sim muitos programas, seja no Brasil, nos Estados Unidos ou em outros países, explorando crimes, violência e sangue. Há mídia impressa além de televisiva que muitas vezes faz isso. A desculpa de quem envereda por estes caminhos é que este tipo de conteúdo é o que o público quer ver. Consequentemente, é o que dá audiência e dinheiro com anunciantes.

Me desculpe quem adota essa teoria, mas acho que o papel do jornalista é servir de instrumento para informações relevantes, interessantes e que prestem serviço para a sociedade. Algumas vezes é possível juntar estes três elementos, outras vezes não. Mas a violência dificilmente se encaixa em um destes tópicos. Ou seja, ela não deveria ser explorada. E se é isso que o público quer ver, faz parte do trabalho do jornalista apresentar outras alternativas de informação inclusive para educar este público. Esta é a minha postura, como cidadã e como profissional da área.

Por isso mesmo, achei especialmente interessante como Nightcrawler questiona esse modelo de comunicação que explora o pior das imagens de atos violentos. O lado mais absurdo do ser humano. O que esse tipo de cobertura está contribuindo para melhorar a vida das pessoas? Interessante que Dan Gilroy coloca o tema no holofote.

Algumas vezes, recentemente e após a morte da Lady Di, questionou-se a atuação dos paparazzi. Mas o que dizer de diversos canais de TV e de outras mídias que recorrem a recursos muito parecidos, alimentando não apenas uma rede de paparazzis, mas especialmente diversos “abutres” que vivem de caçar tragédias para vendê-las para a imprensa depois?

Estes questionamentos levantados pelo filme, assim como pelo menos três grandes sequências da produção – o tiroteio na mansão, a chantagem no restaurante e o desfecho com direito a novo tiroteio e perseguição pelas ruas de Los Angeles -, fazem de Nightcrawler uma produção bem acima da média. Bem escrito, com um mergulho interessante na vida do personagem central e sua busca desenfreada por atingir todas as metas pessoais e comprar tudo o que deseja, este filme é um exemplo de como fazer uma história provocadora, que fomenta o debate e que também prende o espectador com uma boa carga de ação.

Mas para não dizer que Nightcrawler é perfeito, fiquei incomodada com alguns detalhes. Para começar, e espero que isso não pareça contraditório com o que eu disse lá no início, achei que Jake Gyllenhaal não estava tão bem quanto poderia. Não sei, mas algumas vezes achei a interpretação dele exagerada e, em outras ocasiões, senti que estava vendo ele em um dos papéis de Enemy (comentado aqui).

Depois, apesar de terem um propósito, achei que os discursos do protagonista para o ajudante dele, Rick (Riz Ahmed), ficaram um pouco repetidos e algumas sequências poderiam ter sido encurtadas. Nem sempre o filme conseguiu manter o ritmo desejado – teve uma ou duas desaceleradas que poderiam ter sido evitadas. Além disso, infelizmente, parte do desfecho final acaba sendo muito previsível – mais que o desejado. Fora estes detalhes, o filme é ótimo. E há ainda o “pós-final”, aquela cena em que ele discursa para os novos recrutas, que é genial.

NOTA: 9,6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A cada ano que passa e a cada boa decisão de papel que toma, Jake Gyllenhaal vai se firmando como um dos melhores nome de sua geração. Sou fã dele, admito e repito. E acho que ele passa por um risco que acomete, inevitavelmente a todo grande ator: o de se repetir. Neste Nightcrawler eu vi ele repetir recursos, caras e bocas que já vimos em filmes anteriores do ator. E isso é ruim. Espero que ele continue diversificando os papéis e nos apresentando algo novo. Do contrário, não ficará tão divertido acompanhá-lo daqui pra frente.

Inicialmente o nome de Dan Gilroy não me pareceu familiar. E, de fato, este é o primeiro filme dirigido por ele. Por outro lado, Nightcrawler é o oitavo roteiro escrito por ele. Gilroy estreou em 1992 com Freejack, que conta com Mick Jagger no elenco. Tenho impressão que eu assisti a esse filme, mas não tenho muitas lembranças da experiência para ter condições de dizer se gostei ou não – ou se, e isso é mais importante, se o filme é bom ou fraquinho.

Depois, ele escreveu o roteiro de Two For The Money, de 2005, com Al Pacino e Matthew McConaughey. Outra vez, tenho impressão que assisti ao filme, mas não tenho certeza. O que nunca é bom, a meu ver, porque se as produções tivessem sido boas e marcantes, eu lembraria melhor delas.:) Antes de Nightcrawler, Gilroy escreveu o roteiro de The Bourne Legacy que, infelizmente, não assisti. Então eu não ter arquivo mental sobre ele se justifica. De qualquer maneira, acho que é um nome que vale ser acompanhado – até para sabermos se o próximo projeto vai seguir a qualidade desta estreia dele na direção ou se não.

O grande destaque desta produção é o ator Jake Gyllenhaal. Mais do que o talento do ator, pelo fato do roteiro de Dan Gilroy estar centrado no protagonista. Mas há outros nomes interessantes e que tem uma participação importante no filme. Inevitável não citar o retorno interessante e calculadamente decadente dos veteranos Bill Paxton como Joe Loder, um cinegrafista independente e que tem um bom tempo de estrada como “abutre” e que acaba, em uma noite de trabalho, inspirando a nova profissão de Louis Bloom; e Rene Russo como Nina Romina, a produtora de TV que acaba dependendo do trabalho de Bloom para segurar a própria carreira. Russo, em especial, chega a assustar… a idade, de fato, chega para todos. Mais cedo ou mais tarde – isso vai depender de uso de filtro solar, camadas de maquiagem e outros fatores.

Além dos veteranos citados acima, vale comentar a participação do ótimo Riz Ahmed como Rick, o sujeito sem eira nem beira que acaba servindo de ajudante e cúmplice do protagonista. O ator é, sem dúvida, a revelação do filme. Ele está bem em todas as cenas e interpreta de forma perfeita o tipo de personagem planejado por Gilroy. Um ator a ser acompanhado, pois. Aparecem em cena ainda Kevin Rahm como Frank Kruse, chefe de redação e colega de Nina Romina que fica pasmo com o mergulho da profissional cada vez mais no mundo antiético do “tudo pela audiência”; Ann Cusack como Linda; Kiff VandenHeuvel como o editor da televisão que compra os vídeos de Louis; e os atores Michael Hyatt e Price Carson como os detetives Fronteiri e Lieberman, respectivamente.

O filme conseguiu também amealhar alguns nomes da TV dos Estados Unidos. Faz parte da programação televisiva e aparecem interpretando a eles mesmos Kent Shocknek, Pat Harvey, Sharon Tay, Rick Garcia e Bill Seward. Interessante a participação deles no filme.

Da parte técnica da produção, destaco o ótimo trabalho de edição de John Gilroy; a trilha sonora marcante e que ajuda muito na produção do veterano James Newton Howard; e a direção de fotografia de Robert Elswit, que tem o desafio de manter a qualidade em um filme bastante rodado à noite.

Nightcrawler estrou no Festival Internacional de Cinema de Toronto no dia 5 de setembro. Depois, o filme participaria ainda de 14 festivais e eventos de cinema. Nesta trajetória a produção abocanhou cinco prêmios e foi indicado a outros 14, incluindo o Globo de Ouro de Melhor Ator – Drama para Jake Gyllenhaal. Entre os prêmios que recebeu, destaque para ter entrado como uma das 11 produções da lista “Filme do Ano” do respeitado Prêmio AFI; por ter entrado também na lista das 10 melhores produções de 2014 da National Board of Review; e pelo prêmio de excelente atuação por trás das câmeras para Dan Gilroy conferido pela Sociedade de Críticos de Cinema de Phoenix.

Nessa fase pré-Oscar é interessante estar de olho nas escolhas da AFI e da National Board of Review sobre os melhores filmes do ano porque, afinal, muitos deles devem aparecer na lista da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A saber: a lista da AFI cita, além de Nightcrawler, os filmes American Sniper (do genial Clint Eastwood – já estou louca para ver!), Birdman (do excelente Alejandro González Iñarritu, de quem sou fã também), Boyhood, Foxcatcher, The Imitation Game, Interstellar, Into the Woods, Selma, Unbroken (dirigido por Angelina Jolie e com roteiro dos irmãos Coen) e Whiplash. Na lista da NBR, além de American Sniper, Birdman, Boyhood, The Imitation Game, Nightcrawler e Unbroken, aparecem Fury, Gone Girl (dirigido pelo ótimo David Fincher), Inherent Vice (do meu ídolo Paul Thomas Anderson) e The Lego Movie. Filmes que parecem ótimos e que correm um grande risco de estarem no próximo Oscar.

Esta produção, como a história mesma sugere, foi totalmente rodada em Los Angeles – tanto as cenas externas quanto as internas.

Nightcrawler teria custado cerca de US$ 8,5 milhões e faturado, apenas na semana de estreia nos Estados Unidos, cerca de US$ 10,9 milhões. De acordo com o site Box Office Mojo, a produção teria conseguido, até hoje, dia 21 de dezembro, pouco mais de US$ 31,5 milhões nas bilheterias americanas. Nada mal, pois. Pelo contrário. O filme já conseguiu um bom lucro e tende a acumular ainda mais conforme os prêmios forem aparecendo.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção: Jake Gyllenhaal emagreceu 20 quilos para o papel. Essa foi uma sugestão do próprio ator, que pensou no personagem como um “coiote com fome”. Ou seja, magro e sedento. Interessante. Também curioso que na cena em que Louis se descontrola, após perder a história da queda do avião, Gyllenhaal de fato embarcou no personagem e quebrou o espelho, cortando a mão e tendo que ir para o hospital levar alguns pontos.

O ator Riz Ahmend se preparou para o papel neste filme acompanhando “nightcrawlers reais” de Los Angeles, ou seja, presenciando de perto como os cinegrafistas independentes fazem o seu trabalho nas ruas da cidade. Ou seja, de fato existem figuras que ganham a vida desta forma. Assustador.

Rene Russo é a esposa do diretor Dan Gilroy. Essa é para quem curte carrões: o carro vermelho que Gyllenhaal dirige no filme é um Dodge Challenger.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção. Levando em conta o padrão do site, esta é uma ótima avaliação. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 182 avaliações positivas e apenas 10 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média de 8,2. Ambas fantásticas.

CONCLUSÃO: Filme de psicopatas, talvez você já tenha visto alguns. Mas um filme que foca em um sujeito sem culpa e que não gosta de pessoas – ele mesmo admite isso lá pelas tantas em Nightcrawler – e que ainda mergulhar em algumas das realidades mais chocantes do nosso tempo, não é tão comum. Esta produção não apenas trata de um psicopata, mas também mostra como parte da população está entregue a uma curiosidade mórbida por crimes e tragédias que apenas alimenta mais o lado sombrio do mundo e da nossa realidade.

Também faz refletir sobre o perigo que é tornar as informações públicas e acessíveis a qualquer pessoa pela internet. Frases feitas e de impacto podem ser usados nos contextos mais diversos e pelas pessoas mais equivocadas. Baita história que não apenas provoca o espectador a repensar alguns conceitos, mas também mantém o ritmo adequado, sem entediar aqueles que já viram filmes com psicopatas e/ou que analisam a mídia. Com algumas cenas que vão voltar à memória do espectador tempos depois da produção, tem tudo para virar um filme cult com o passar do tempo. E cá entre nós, de forma merecida.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Difícil avaliar as chances de um filme como Nightcrawler na maior premiação do cinema dos Estados Unidos no próximo ano. Isso porque um filme como esse, há 10 anos, não chegaria entre os finalistas. Mas a renovação pela qual a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood passou nos últimos anos muda este cenário.

O Oscar está muito mais ousado agora. Filmes diferentes que antes nunca chegariam lá agora estão sendo indicados. Sendo assim, olhando apenas para a história da premiação, eu diria que Nightcrawler não seria indicado ou, no máximo, chegaria na categoria Melhor Ator para Jake Gyllenhaal. Mas, como os tempos mudaram, não seria uma total surpresa se esta produção fosse indicada também como Melhor Roteiro Original e, o que seria um pouco mais difícil, aparecesse na lista de Melhor Filme – levando em conta que este ano podemos ter, novamente, 10 indicados nesta categoria.

Da minha parte, acho que Nightcrawler até pode ter uma ou três indicações, mas dificilmente levará alguma estatueta para casa. Não que ele não mereça, especialmente Gyllenhaal, mas acho que esta produção foge demais do perfil da Academia. Veremos.

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