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Selma – Selma: Uma Luta pela Igualdade

27 de janeiro de 2015 4 comentários

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Filme necessário e um dos melhores de 2014. Ainda bem que ele pode ganhar um pouco de visibilidade com o Oscar 2015, ainda que seja um dos menos comentados e badalados da premiação este ano. Selma, que baita filme! Há tempos eu queria assistir a uma produção decente sobre Martin Luther King Jr. e este título, finalmente, cumpre este papel. Para você que quer ouvir discursos inspiradores, sentir uma luta legítima ser desenvolvida com vigor na sua frente, mesmo que em uma obra de cinema, esta é uma ótima oportunidade. Inspirador.

A HISTÓRIA: Martin Luther King Jr. (o ótimo David Oyelowo) se prepara para um discurso de agradecimento. Mas após algumas frases, ele diz para a mulher, Coretta Scott King (Carmen Ejogo) que aquilo não está certo. Ele não se sente bem com a roupa que está usando. Sua cabeça está em outro lugar, nos homens, mulheres, jovens e crianças ainda marginalizados por serem negros. Coretta olha para o marido, eles tem um momento de paz, antes de Luther King Jr. receber o Prêmio Nobel da Paz de 1964.

Em seu discurso, Luther King fala que aceita aquela honra em nome de todos que morreram por serem negros e pelos 20 milhões de homens e mulheres negras que lutam por sua dignidade. Enquanto o discurso dele é ouvido, vemos cenas de um grupo de meninas negras descendo a escadaria de uma Igreja. Este filme conta os bastidores da luta de Luther King e dos negros pelo direito de votar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Selma): Ah, como faz toda a diferença do mundo um ótimo roteiro conduzindo a narrativa. Paul Webb faz um trabalho excepcional com o texto de Selma, sabendo ponderar diversos elementos narrativos nesta história, o que lhe garante ritmo, paixão e muitos elementos históricos.

Para começar, impossível fazer um filme decente sobre Martin Luther King Jr. sem utilizar os seus discursos inspirados. Provavelmente ele foi um dos grandes oradores de todos os tempos. E isso sem acrescentar o famoso e histórico discurso em Washington. Não. Este filme mostra os acontecimentos após a famosa Marcha sobre Washington, quando Luther King proferiu um dos discursos mais lembrados de todos os tempos, conhecido sob o título “Eu tenho um sonho” no dia 28 de agosto de 1963.

Inclusive, no início do filme, quando Luther King é agraciado com o Nobel da Paz, o orador que o apresenta lembra que aquele homem tinha um sonho. Pois bem, Selma fala de outro acontecimento marcante não apenas na vida deste homem genial por ter sido um ferrenho defensor dos direitos humanos, da paz e de igualdade racial. Esta produção aborda as marchas de Selma até Montgomery, cidades no Alabama, durante alguns meses de 1965.

O movimento com base em Selma foi fortemente reprimido pelas forças policiais sob o comando do governador George Wallace (Tim Roth). Houve muita pancadaria e mortes, tudo com cobertura da imprensa, inclusive das TVs. Aqueles eventos foram decisivos para que a opinião pública dos Estados Unidos mudasse e ficasse a favor, pelo menos em sua maioria, da igualdade dos direitos civis.

É emocionante acompanhar o movimento daquele grupo liderado por Luther King. Mas antes, vemos um exemplo prático, com a tentativa Annie Lee Cooper (Oprah Winfrey) em se registrar no cartório eleitoral para poder votar, sobre a problemática que precisava ser combatida. A lei, a Constituição dos Estados Unidos, previa o voto dos negros. Mas Estados como o do Alabama orientavam os responsáveis por fazer o registro dos votantes a não aceitar negros. Isso é mostrado sem firulas logo no início do filme.

Outro momento inteligente da produção, visto logo nos primeiros minutos, é mostrar o desconforto de Luther King em estar tão “alinhado” para receber o Nobel, em seguida ouvir parte do discurso dele enquanto acompanhamos um grupo de meninas inocentes caminhando para a morte em mais um atentado violento contra negros. Claramente o roteirista e a diretora Ava DuVernay quiseram mostrar que apesar do Nobel e dos discursos inspirados, nem Luther King conseguia frear desta forma a violência contra os seus irmãos.

Feita esta introdução, muito bem planejada, mergulhamos na tentativa de negociação de Luther King com o presidente Lyndon B. Johnson (Tom Wilkinson) para que a questão do voto fosse respeitada no país como política clara do Estado. No diálogo, Luther King não conseguiu nada, porque Johnson preferia adiar a decisão sem um prazo para resolver o assunto como forma de se preservar politicamente. Daí começa a ação, já que Luther King resolve reforçar em Selma o movimento que pedia igualdade nas urnas.

A partir daí, o filme não alivia. Ele mostra as articulações para a primeira manifestação em Selma e a forte repressão policial. As cenas de brutalidade policial são desconcertantes. Depois seguem outros atos e a primeira morte, do jovem Jimmie Lee Jackson (Keith Stanfield), morto friamente com um tiro por um policial após ele, a mãe, Viola Lee Jackson (Charity Jordan) e o avô, Cage Lee (Henry G. Sanders) serem perseguidos e covardemente agredidos.

As cenas são impactantes e muito bem filmadas por Ava DuVernay. O interessante do roteiro é que ele foca sempre Luther King, mostrando as reflexões dele, as angústias e a preocupação com as pessoas que poderiam se ferir. Para ajudar, há o texto fantástico e irretocável dos discursos dele, que motivaram as pessoas na época e dificilmente não mexem com quem assiste ao filme hoje em dia. Aliado a isso, ajuda na narrativa os registros feitos pelo FBI na época, quando Luther King e as demais pessoas ao redor dele eram monitoradas e vigiadas.

Os registros do FBI, em especial, dão um toque muito interessante para o filme. Revelam um hábito antigo daquele país de monitorar as pessoas que eles consideravam relevantes para o sistema, especialmente se apresentavam “algum risco”. Especialmente interessante, ainda na parte inicial do filme, um diálogo entre o presidente Lyndon B. Johnson e o chefe do FBI J. Edgar Hoover (Dylan Baker). Inicialmente Hoover sugere que o “problema” Luther King poderia ser resolvido facilmente dando um “fim” na ameaça.

Como Johnson resiste a ideia de eliminar Luther King, a sugestão seguinte de Hoover é de desestabilizar o líder negro ao dinamitar o casamento dele com Coretta que, segundo o FBI, já estaria balançado – e de fato estava. Apesar das ameaças que recebia e da ausência do marido, assim como o risco eminente de morte dele, Coretta se manteve firme ao lado de Luther King. Este apoio é bem mostrado e valorizado no filme.

Com bem explica este texto da Wikipédia, as marchas saindo de Selma foram três. Antes da primeira, houve aquela caminhada pelas ruas de Selma de noite e que acabou sendo conhecido como “domingo sangrento”. Foi quando ocorreu a morte de Jimmie Lee Jackson, em fevereiro de 1965.

A primeira marcha propriamente dita, como bem retrata o filme, ocorrida no início de março, não contou com Martin Luther King Jr. e terminou no confronto na ponte Edmund Pettus. As redes de TV transmitiram o ataque policial e lançaram um movimento de apoio a Marcha de Selma.

A segunda tentativa de fazer o mesmo trajeto teve um apelo muito maior, inclusive com apoio de muitos brancos. Pessoas de diversas parte do país, incluindo Luther King, viajaram até Selma para fazer o mesmo trajeto novamente. Nesta segunda tentativa, eles caminharam até parte do trajeto e retrocederam. No filme, está certo o retrato de muitas pessoas surpresas com a decisão. Mas o roteirista quis sugerir que Luther King deu a ordem para voltar porque teria tido uma “inspiração divina”. Ele até pode ter tido uma, mas ele também tinha uma razão prática.

Antes da marcha acontecer o juiz Frank Minis Johnson (Martin Sheen) havia proibido a manifestação pacífica antes que outras audiências sobre a causa fossem feitas. Luther King já havia avisado aos companheiros que o apoiavam de que eles iriam retroceder. Mas a grande massa realmente não sabia disso previamente, por isso muitos ficaram confusos e perdidos. Mas todos acabaram seguindo o líder Luther King.

Após aquele evento, contudo, quatro membros da Ku-Klux-Kland atacaram três ministros brancos que haviam ido até Selma para apoiar o movimento. Um deles, James Reeb (Jeremy Strong), foi o mais agredido e morreu. Claro que o filme encurta as duas mortes – nenhuma das vítimas morreu na hora, mas após serem atendidas nos hospitais. Essa informação, contudo, não faz falta para a narrativa.

O filme acerta ao mostrar como o presidente Lyndon Johnson chama o governador George Wallace para conversar, mas este se mostra irredutível e não aceita dar espaço para as manifestações e mudar as regras em seu Estado. Depois da morte do manifestante branco, a opinião pública cai de pau no assunto e Johnson de fato encaminha um projeto de lei no Congresso que, depois, se tornaria a Lei dos Direitos ao Voto.

Para fechar o resgate histórico, Luther King e diversas outras pessoas lideraram a terceira e última marcha de Selma até Montgomery, esta sim pacífica e que terminou com o discurso Stars from Freedom do líder negro. Linda toda a sequência final que, inclusive, resgatou cenas verídicas da época. Para finalizar, como é feito com muitos filmes baseados em fatos reais, ficamos sabendo sobre o que aconteceu com alguns dos principais personagens desta produção depois que o discurso de Luther King termina.

Haveria mais uma morte relacionada ao movimento, desta vez de uma mulher branca, e outros fatos ocorreriam na vida daquelas pessoas retratadas no filme. Luther King sobreviveu aos conflitos e à perseguição em Selma, mas ele seria morto, três anos depois, em Memphis. Este filme é uma homenagem muito justa a ele, um homem admirável.

Bem conduzido, bem escrito e com ótimos atores envolvidos no projeto – inclusive em papéis bem secundários -, Selma é um filme marcante e necessário, como comentei lá encima. Para mim, ele foi mais envolvente e impactante que o premiado 12 Years a Slave, que ganhou três Oscar’s, incluindo o de Melhor Filme, em 2014.

Verdade que 12 Years a Slave trazia uma história menos conhecida à tona mas, ainda assim, Selma me pareceu mais interessante especialmente pelos discursos de Luther King. Pena que dois anos seguidos de filmes sobre igualdade e justiça para os negros não emplaca na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Uma pena.

Mas antes de finalizar, queria citar uma parte que me tocou especialmente neste filme. Perto do final, e com a iminência de que Luther King poderia ser morto a qualquer momento – o que tornaria a situação ainda mais complicada -, o emissário do presidente dos Estados Unidos, John Doar (Alessandro Nivola), sugere para que o líder do movimento negro se preserve e não se exponha mais na última marcha.

Luther King, com uma lucidez absurda, comenta que ele não é diferente dos demais, que ele também quer viver muito e ser feliz. Ele diz que poderia se focar no que ele queria, mas que não faria isso porque ele deveria fazer o que Deus queria. Impressionante quando uma pessoa percebe que tem um propósito maior e que ela pode fazer a diferença, mesmo que isso significar a sua morte. Existe exemplo maior de bravura e de honra? Não foi daquela vez que ele morreu, mas ao seguir lutando pelos direitos das pessoas, mais tarde, o fim trágico chegaria.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Impressionante como todos os atores estão bem neste filme. O destaque, evidentemente, é o protagonista. David Oyelowo encarna Martin Luther King Jr. e passa muita emoção, seriedade e compromisso com a causa que o líder negro defendia. Ele emociona, juntamente com o roteiro perfeito de Paul Webb. A diretora Ava DuVernay acerta também na escolha de cada ângulo e das dinâmicas com os atores.

O elenco de Selma está recheado de presenças ilustres, inclusive e especialmente em papéis bem secundários. No elenco principal, dos atores que aparecem mais, há nomes menos conhecidos do grande público, como Carmen Ejogo como Coretta Scott King, mulher de Martin Luther King Jr.; André Holland como Andrew Young e Colman Domingo como Ralph Abernathy, os dois braços direitos do protagonista. Fazem parte do grupo que acompanha Luther King os atores Ruben Santiago-Hudson como Bayard Rustin; Omar J. Dorsey como James Orange; Common como James Bevel; E. Roger Mitchell como Frederick Reese; e Wendell Pierce como o reverendo Hosea Williams.

Entre os moradores de Selma que acabam sendo importantes para o movimento, inclusive por alguns se tornarem vítimas dos absurdos policiais, destaque para Keith Stanfield como Jimmie Lee Jackson; Henry G. Sanders como Cager Lee; Charity Jordan como Viola Lee Jackson; Stephan James como John Lewis e Trai Byers como James Forman, dois estudantes que lideram o movimento negro em Selma e que divergem em diversos pontos das ações nas cidades. Em uma ponta também merece menção Nigel Thatch como Malcolm X.

Comentado os nomes menos conhecidos, vamos aos famosos que entraram no filme para fazer papéis pequenos. Começo com Oprah Winfrey, também produtora do filme, como Annie Lee Cooper, que diversas vezes tinha tentado, em vão, fazer um registro como eleitora e que, no primeiro ato público em Selma, é agredida por policiais. Tom Wilkinson está ótimo como o presidente Lyndonn B. Johnson, assim como Tim Roth que, mesmo aparecendo menos que Wilkinson, tem pelo menos uma cena inesquecível de diálogo com o veterano ator inglês.

Giovanni Ribisi interpreta a Lee White, braço direito do presidente; Dylan Baker se sai bem em um papel pequeno como J. Edgar Hoover, do FBI; Jeremy Strong também faz uma boa participação como James Reeb, primeira vítima branca do movimento; Alessandro Nivola aparece para intermediar as negociações entre o presidente de Luther King; Cuba Gooding Jr. como Fred Gray; e Martin Sheen faz uma super ponta – inclusive não creditada – como o juiz Frank Johnson.

Da parte técnica do filme, destaque para a ótima direção de fotografia de Bradford Young; para a edição de Spencer Averick; para a direção de arte de Kim Jennings; para os figurinos de Ruth E. Carter; e para a trilha sonora, incluindo a excelente canção Glory, interpretada por John Legend e Common.

Selma estreou no Festival AFI em novembro de 2014. Em fevereiro ele está confirmado para o Festival Internacional de Cinema de Berlim. Até o momento, o filme ganhou 27 prêmios e foi indicado a outros 71, incluindo dois Oscar’s. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Canção para Glory, composta por John Legend e Common; e para o prêmio Freedom of Expression Award entregue pela National Board of Review.

Esta produção foi totalmente rodada nos Estados de Georgia e Alabama, nos Estados Unidos. Foram rodadas cenas em cidades como Selma, Montgomery, Marietta, Conyers e Atalanta.

Agora, a seção de curiosidades sobre esta produção. Antes de Ava DuVernay assumir o projeto, Lee Daniels estava escalado como diretor. David Oyelowo lutou durante sete anos para conseguir o papel principal, porque Daniels inicialmente achou que ele não seria o melhor nome para interpretar Luther King. Mas DuVernay apostou nele.

Tim Roth cresceu durante a era de luta dos direitos civis nos Estados Unidos. Ele disse que lembra do governador George Wallace, guardando na memória que ele ficava espantado com as besteiras que saia da boca do político, que ele considerava um “monstro” – e a quem, ironicamente, ele interpretaria agora.

Entre os diretores interessados no roteiro de Selma estavam Steven Spielberg, Stephen Frears, Paul Higgs, Spike Lee e Michael Mann, além do já citado Lee Daniels.

O esquecimento do Oscar de indicar Ava DuVernay como Melhor Diretora e David Oyelowo como Melhor Ator provocou protesto de cinéfilos e pessoas dos bastidores de Hollywood. Os esquecimentos foram creditados à falta de diversidade racial em Hollywood e ao fato do estúdio Paramount não ter conseguido enviar cópias do filme a tempo para todos os membros da Academia conferirem o filme.

Ainda que não tenha recebido o crédito como coautora do roteiro, a diretora Ava DuVerney afirmou que fez alterações em 90% do texto de Paul Webb, incluindo ter dado uma nova versão para os discursos de Luther King – isso foi necessário porque outro estúdio tem os direitos dos originais.

Selma teria custado cerca de US$ 20 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 39,5 milhões. Ainda falta muito para ele começar a dar lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para Selma. Uma avaliação boa mas que, na minha opinião, poderia ter sido melhor. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 157 críticas positivas e apenas duas negativas para a produção, o que lhe garante aprovação de 99% e uma nota média de 8,7.

Selma é uma coprodução dos Estados Unidos com o Reino Unido.

CONCLUSÃO: Um dos homens mais fantásticos de todos os tempos, Martin Luther King, em um momento decisivo não apenas de sua trajetória mas, e principalmente, dos Estados Unidos. Se em Lincoln assistimos a um homem corajoso mudando parte da história, aqui vemos a outro liderando um movimento fundamental para consolidar aquela mudança. Interessante assistir a Selma em 2015, ano em que um negro segue como presidente dos Estados Unidos e batalha para tornar aquele país ainda mais justo. Filme envolvente do início ao fim, com um ótimo roteiro, direção e um ator liderando todo o processo para quem precisamos tirar o chapéu. Vale muito o ingresso.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Indicado apenas em duas categorias, sendo apenas uma realmente relevante, infelizmente as chances de Selma são praticamente zero no Oscar. Quer dizer, ela pode até levar em Melhor Canção. Mas quem realmente se importa com esta categoria? As pessoas que vencem, evidentemente, e quem tem o nome lembrado em uma indicação. Mas é só.

Selma também concorre como Melhor Filme. Mas por ele ter sido indicado apenas a esta categoria e a Melhor Canção, chances zero para o filme. Uma pena. Acho que ele deveria estar competindo lado a lado com Boyhood e The Imitation Game. Para mim, os melhores filmes da lista até o momento.

Da minha parte, meu voto ficaria ainda para Boyhood, mas Selma seria a minha segunda escolha. E não ficaria chateada se ele ganhasse. Depois viria The Imitation Game. E todos os demais… bem, acho inferiores. Assim de simples. Só falta Whiplash para fechar esta minha avaliação. Veremos se ele muda algo.🙂

Mas para resumir a avaliação sobre Selma, infelizmente o filme corre totalmente por fora. Acho que ele deveria ter sido lembrado em pelo menos outras duas categorias: Melhor Roteiro Original e Melhor Ator para o brilhante David Oyelowo. Não foi desta vez. Lástima.

American Sniper – Sniper Americano

25 de janeiro de 2015 6 comentários

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Dois elementos fazem parte do orgulho do povo dos Estados Unidos: a bandeira do país e as mortes em campos de batalha. Ok, nem todos tem orgulho destes dois elementos. Mas acredito que a maioria, me arriscaria a dizer que a população perto da totalidade, tenha. Sou fã de Clint Eastwood, mas acho que ele perdeu uma boa oportunidade de dedicar o talento dele para outra história que não esta de American Sniper. Ainda assim, admito, dá para entender o porquê do filme estar fazendo tanto sucesso em solo americano. Ele fala de “patriotismo” de um herói do país que virou referência em um passado recente. Tudo que eles adoram, junto com muitas cenas de guerra e de virilidade.

A HISTÓRIA: Um tanque avança. Perto dele, outro veículo blindado e homens fardados, bem armados e atentos. Dando cobertura para o avanço da tropa está o franco-atirador Chris Kyle (Bradley Cooper). Ele reclama que o local sobre o que ele e o colega estão está quente demais. Os soldados vão entrando nas casas dando chute nas portas enquanto Chris acompanha tudo sem piscar. Ele vê um homem em um terraço usando o celular, mas não atira.

Só quando uma mulher sai com um menino de uma casa e passa para ele uma granada russa AKG é que ele deve decidir se atira ou não. Corta. Voltamos no tempo e vemos Chris quando ele era um garoto (interpretado por Cole Konis) e estava aprendendo a atirar com o pai, Wayne (Ben Reed). Naquela época é que ele aprende a nunca largar a arma e que ele deveria ser valente para proteger o irmão – e quem mais precisasse. O filme conta a história dele.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a American Sniper): Tem muitos filmes como este que começam promissor e depois… Não sei vocês, mas eu achei o começo de American Sniper muito interessante. Aquele atirador de elite com um menino na mira e tendo que decidir se puxaria o gatilho e não. Era praticamente certo que ele puxaria, e começar o filme assim forte seria interessante.

Mas aí o roteirista Jason Hall decidiu dar uma quebrada na narrativa, e nos explicar mais sobre aquele sujeito que estava com o dedo no gatilho. A ideia de voltar no tempo e fazer isso, vocês sabem, não é nada nova. Aqui, para a nossa sorte, a “contextualização” sobre o protagonista não demora muito para acontecer. Voltamos para a infância, inicialmente, que é quando as pessoas são formadas. Vemos como Chris Kyle foi “treinado”, a exemplo do irmão mais novo, Jeff (interpretado por Luke Sunshine quando criança e por Keir O’Donnell quando adulto), a não ser nem uma ovelha e nem um lobo. Os dois deveriam ser cães pastores.

Essa formação, dada de forma contundente pelo pai dos garotos, Wayne, foi bem aprendida por Chris Kyle. Tanto que o sujeito do interior dos Estados Unidos que gostava da ideia de ser cowboy mudou de ideia quando viu o país dele sendo “atacado” – quando do atentado na embaixada dos Estados Unidos em Nairóbi, no Quênia. Ele fica mexido ao ver aquela notícia na TV e resolve que vai servir ao seu país, defendendo a nação e tudo o que ela representa para ele e para os demais dos inimigos externos.

Saído do Texas, ele vai procurar informações sobre como melhor poderia prestar serviços, e acaba sendo orientado a entrar no “grupo de elite”, os SEALS. Ele faz o duro treinamento, que é mostrado rapidamente – afinal, este não é o foco de Hall ou de Eastwood. Quando termina a preparação, ao comemorar em um bar com os colegas de uniforme, ele encontra Taya (Sienna Miller), com quem ele tem uma troca de diálogos surpreendentemente honesta. Daí que ela contraria a própria regra de namorar um SEAL e os dois acabam se casando.

Em uma bela manhã, destas em que você acorda e nem desconfia que tudo vai mudar por causa de um fato, o casal vê o atentado contra as Torres Gêmeas pela TV. Assim que Chris vai parar no Iraque em sua primeira missão. Bem aquela em que ele deve decidir entre atirar ou não em um menino. A partir daí, meus caros amigos(as), o que se segue são inúmeras missões de combate no Iraque. Como o filme tenta resumir, mas de maneira ligeira e superficial, cada vez que Chris voltou para casa ele não se sentiu totalmente “em casa”.

Como muito bem explorado e de forma mais competente em outras produções, este “herói” de guerra simplesmente não conseguiu desconectar dos tiros e das explosões. Não conseguia encontrar tanta graça na vida familiar, com mulher e dois filhos, quanto no calor da batalha em que ele tinha altas doses de adrenalina todos os dias. E onde ele era considerado “uma lenda”, onde ele era considerado o melhor.

O pequeno problema, pelo menos ao meu ver, nesta filosofia de Chris Kyle, é que ele era o melhor em matar gente. Pessoas que tinham as suas casas e de seus familiares invadidas quando desse na telha dos americanos. Pessoas que viram as suas realidades mudarem brutalmente porque alguns terroristas mataram milhares de americanos em diversos ataques.

Um dos pontos que me deixou mais perplexa na história de Chris é que a forma com que a narrativa é tratada dá a entender que por pouco aquele sujeito não teria sido um baita cowboy, e teria ficado feliz com aquilo. Por acaso ele parou na posição de “sniper” e acabou sendo muito bom naquilo também. Ao invés de montar touros, ele virou o recordista em matar gente – ele é o franco-atirador mais “letal” da história do Exército dos Estados Unidos.

Certo. Enquanto o filme ia avançando, e após aquela primeira cena promissora de impacto sobre a morte do garoto ter esvaziado – a volta atrás na história de Chris acaba tendo este efeito de minimizar a tensão a quase zero -, fiquei o tempo todo esperando que o filme melhorasse. Eu pensava: “ok, em algum momento esta história tem que mostrar a que veio”. Fiquei esperando, acompanhando a narrativa, esperando… e nada.

O filme era aquele mesmo. Uma “cinebiografia” do franco-atirador que mais matou gente na história do Exército americano. Da mesma forma com que o roteiro de The Theory of Everything (comentado aqui) se mostrou raso, este trabalho de Hall também é unidimensional. O protagonista é o herói, e nada pode questionar isso. Nem ninguém. Do início ao fim ele é um “cara comum” do Texas que é “bem criado” a defender os valores do país e cuidar “de seus irmãos” que acaba sendo um ótimo pai de família – depois de vencer a dura tarefa de retornar para a vida comum – e um militar exemplar. Em todas as missões no Iraque ele deu de tudo para proteger os colegas.

Lá pelas tantas, mais na reta final do filme, ele acaba falando para um psicólogo que não se arrepende de nenhuma morte, e sim de não ter protegido mais os seus colegas de Exército. Em American Sniper não existe espaço para dúvida. Nem para refletir se tanta morte nos levou a algum lugar. O mundo está mais seguro hoje? Adiantou Chris ter matado tanta gente no Iraque? Essas são perguntas que passam ao largo deste filme.

Chris é um herói, e o filme mantém e propaga esta ideia. A parte desta limitação do roteiro, Eastwood segue firme na direção. Ele faz um excelente trabalho, especialmente nas cenas de ação. Fora a promissora sequência inicial envolvendo a morte do garoto, gostei muito da sequência final da tempestade de areia. Impossível não ficar tenso ou torcer para o “herói” naquele sprint final. Pura técnica do Sr. Eastwood.

O maior problema mesmo, para mim, é o filme ser tão fiel ao livro de Chris – ele lançou a obra American Sniper em janeiro de 2012. Nela, evidentemente, ele narra não apenas as suas quatro missões, mas também defende aquela visão de mundo de “todas as mortes foram justificadas”. Os Estados Unidos é o melhor país do mundo e vale tudo para defendê-lo. Os outros são os outros.

Complicada essa mensagem, não? Entendo os americanos adorarem o filme. Mas qualquer outra nação ter a mesma leitura é quase impossível. É admirável a autoestima e a valorização dos símbolos e da cultura nacional que os Estados Unidos tem. Mas muitas vezes isso tudo transpassa a barreira do razoável e vira arrogância, soberba, violência não importa contra quem. Estes, para mim, são os problemas deste filme. Não dá para analisar apenas os aspectos técnicos, como ele é bem feito, sem pensar na mensagem. E esta, meus amigos, é muito rasa e incomoda.

Por tudo isso, não consigo enxergar American Sniper como um dos grandes filmes de 2014. Se o meu voto valesse algo, ele não teria sido indicado a Melhor Filme no Oscar. Acredito que a força dos nomes envolvidos no projeto, inclusive os produtores, fez com que ele fosse selecionado. Mas ele está longe de ser o melhor do ano passado ou de ser marcante ao ponto de ser lembrado por muito tempo. Há filmes sobre guerra muito melhores.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além da direção firme de Clint Eastwood, este filme tem pelo menos mais uma qualidade: a entrega de Bradley Cooper. Todas as mulheres, acredito, sempre acharam ele gato. Bem vestido, interessante, sempre com aquele sorriso desconcertante. Mas em American Sniper, pela primeira vez, ele parece ter amadurecido como ator. Esqueça comédias bobocas e filmes em que ele é o galã. Aqui ele tomou corpo – para valer – em todos os sentidos. Ele está mais concentrado, mais focado, e encontrou um papel de adulto, saindo-se muito bem na missão. Para mim, é o papel de amadurecimento do ator. Ainda assim, devo dizer, não acho que era para tanto dele ser indicado ao Oscar. De qualquer forma, como vocês lerão abaixo, acho que ele não tem chances de ganhar.

Por ser um filme com muitas cenas de invasão de casas, tiroteios e ação, claro que diversos aspectos técnicos se destacam. Para começar, um ótimo trabalho o de Tom Stern na direção de fotografia. Depois, destaque para a edição de Joel Cox e Gary Roach; para a maquiagem do grupo de 11 profissionais liderados por Luisa Abel e Patricia DeHaney; para os 33 profissionais envolvidos no departamento de som; para os nove que, coordenados por Brendon O’Dell, responderam pelos efeitos especiais, e para as dezenas de profissionais (cansei de contar a longa lista) responsáveis pelos efeitos visuais.

O destaque do filme é realmente Bradley Cooper. Mas gostei muito, também, da atriz Sienna Miller – ela fica totalmente diferente morena. Nem a reconheci. Mas ela está ótima. Além deles, merecem ser citados, em papéis secundários: Reynaldo Gallegos como Tony; Kevin Lacz como Dauber; Jake McDorman como Biggles; Eric Ladin como Squirrel; Luke Grimes como Mark Lee; Tim Griffin como o coronel Gronski; Luis Jose Lopez como Sanchez; Brian Hallisay como capitão Gillespie; Erik Aude como Thompson – todos desta sequência/listas como colegas de farda de Chris; Sammy Sheik como Mustafa, o franco-atirador do lado inimigo e alvo a ser batido por Chris; Navid Negahban como o sheik Al-Obodi; e Mido Hamada como The Butcher/O Açougueiro.

O roteiro de Jason Hall foi baseado no livro American Sniper escrito por Chris Kyle, Scott McEwen e James Defelice. Neste caso, o roteirista escolheu ficar centrado totalmente no livro, sem adicionar muitas outras informações ou pontos de vista que surgiram após o lançamento da obra.

American Sniper estreou em novembro no AFI Fest. Até o momento esta produção não participou de nenhum festival. Apesar disso, ela tem no currículo seis prêmios e 23 indicações – incluindo seis indicações ao Oscar 2015. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Diretor para Clint Eastwood no National Board of Review, que também colocou American Sniper como um dos 10 melhores filmes de 2014.

Esta produção foi rodada no Marrocos e em diferentes lugares da Califórnia, como Los Angeles, Oceanside (o pier onde Chris anda com Taya na parte inicial do filme) e o O’Malleys Pub, em Seal Beach.

Agora, aquelas curiosidades clássicas sobre o filme. Como dá para suspeitar vendo Bradley Cooper em cena, o ator ganhou 18 quilos para fazer este papel. Para isso, ele chegou a consumir 8.000 calorias por dia. Para ganhar musculatura, ele trabalhou com um treinador quatro horas por dia por diversos meses. A preparação incluiu também aulas duas vezes por dia com um treinador vocal, para que ele falasse parecido com Chris. Para utilizar bem um rifle, ele teve aulas com Kevin Lacz, um Navy SEAL que serviu com Chris e que foi consultor do filme.

Cooper ficou obcecado com parecer fisicamente com o retratado. Tanto que ele passou a levantar peso – aquela cena em que ele trabalha com pesos fortes é real.

Antes de Eastwood ficar com o filme, os diretores David O. Russell e Steven Spielberg foram cogitados para dirigir o projeto.

Durante o filme, tive uma sensação estranha. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Há uma cena em que Chris segura o bebê no colo ao conversar com a mulher e eu pensei: “Essa criança está parecendo demais um boneco? Eles realmente usaram um boneco no filme?”. Pois sim, meus amigos. E isso, aparentemente, rendeu muitos comentários nos Estados Unidos. Os produtores justificaram a cena dizendo que dois bebês tinham sido escalados para aquela gravação, mas um estava doente e o outro não apareceu. Daí eles optaram pelo boneco.

No primeiro final de semana de estreia de American Sniper nos cinemas dos Estados Unidos o filme bateu um recorde para um final de semana de estreia em janeiro, conseguindo US$ 105 milhões. Impressionante.

Bradley Cooper teria falado uma vez com Chris Kyle por telefone antes do ex-militar ser morto. A conversa teria durado dois minutos. Para fazer jus ao “herói” americano, Cooper dedicou oito meses de preparação para o papel.

No melhor estilo “velho oeste”, resgatando a própria tradição de filmes western, Eastwood preparou uma cena de duelo entre os snipers Chris Kyle e Mustafa. Mas ainda editado de maneira que pareça um duelo, na verdade o confronto não teve essa lógica. Afinal, Chris tinha Mustafa na mira, muitos e muitos metros a distância, enquanto o inimigo não tinha a mesma oportunidade/visão.

Clint Eastwood deu uma de Hitchcock em uma breve cena deste filme. Após a cena no bosque, em que Chris ainda criança acerta um veado, o diretor faz uma aparição ao entrar na igreja em que está a família do protagonista. Bonitinho!

O assassino de Chris Kyle justificou o crime porque ele estaria passando por uma grave PTSD (transtorno de estresse postraumático) após ter lutado no Iraque. Mas a viúva de Chris não admite esta justificativa. Segundo este texto do Daily Mail inglês, Eddie Ray Routh, que teria matado Chris em um campo de treino, teria afirmado para a irmã que havia “trocado a sua alma por um caminhão novo”.

American Sniper teria custado US$ 58,8 milhões e faturado, apenas nas bilheterias dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 154 milhões. Nos outros países em que já estreou o filme fez mais US$ 26,5 milhões.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 147 críticas positivas e 56 negativas para o filme, o que lhe garante aprovação de 72% e uma nota média de 6,9.

Fiquei curiosa para saber um pouco mais sobre o protagonista deste filme. Encontrei este artigo interessante de Dorrit Harazim sobre Chris Kyle, que teria matado pelo menos 160 iraquianos – colegas dele estimam algo em torno de 255 mortes. Concordo com ele na leitura de que este herói americano não entendeu nada. Também interessante este texto do Men’s Journal sobre o Chris Kyle controverso, que teve vários atos questionáveis – e não apenas exemplares como o filme quer nos fazer acreditar.

Como dá para imaginar, esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso mesmo, ela entra na lista de filmes deste país que aparecem como resposta a uma votação feita aqui no blog.🙂

CONCLUSÃO: Francamente, eu esperava muito mais de American Sniper. Não apenas porque ele é dirigido pelo veterano Clint Eastwood. Que esse sim entende de cinema. Mas porque acho que desde The Hurt Locker a guerra não deveria mais ser vista da forma tradicional. Aqui, infelizmente, ela é. E isso é frustrante. Para este filme de Clint, existe claramente um lado bom, um lado justo e que faz sentido, enquanto o outro lado não tem voz e nem argumento. Visão simplista, mais uma vez. Uma pena. Minha nota, se fosse outro diretor por trás de American Sniper, seria ainda menor. Mas respeito demais o Clint para dar-lhe menos que 7. De qualquer forma, para mim, este filme está longe de ser um dos melhores de 2014. Bem feito, verdade. Mas tantos outros filmes vazios são bem feitos… Dá para dispensá-lo sem culpa.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Como American Sniper teve fôlego de chegar a ser indicado ao Oscar, eu acreditava que veria algo diferente na telona. Mas não. Antes de assistir ao filme, até achava que ele poderia ter alguma chance aqui e ali. Agora, se ganhar, será muito mais por lobby do que por mérito.

Esta produção está indicada em seis categorias do Oscar: Melhor Filme, Melhor Ator para Bradley Cooper, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som. Sem dúvida alguma que nas três primeiras categorias o filme tem chance alguma. Pelo menos se o Oscar deste ano fizer alguma justiça. Esta não é a melhor produção de 2014, como eu comentei antes. Bradley Cooper também não é páreo para Eddie Redmayne, que acredito ser o favorito, Michael Keaton ou Benedict Cumberbatch, os únicos que podem tirar a estatueta de Redmayne.

Na categoria de Melhor Roteiro Adaptado, sem dúvida The Imitation Game é muito melhor. Mesmo The Theory of Everything, com a sua leitura relativa da história de Stephen Hawking, é um trabalho mais encorpado. Ainda não assisti a Inherent Vice e Whiplash para poder opinar sobre estes dois. As únicas categorias em que American Sniper tem alguma chance seriam nas três técnicas. Mas em Melhor Edição, meu voto ficaria entre Boyhood e The Grand Budapest Hotel. Não é aí que American Sniper ganharia.

Em Melhor Edição de Som, a parada é dura. Não vi a Interstellar, mas imagino que esta deve ser uma qualidade da produção. Das que assisti, acho The Hobbit: The Battle of the Five Armies melhor que American Sniper. E em melhor Mixagem de Som, meu voto iria para Unbroken. Bem, amigos, para os meus critérios, está difícil para o filme de Clint. Para mim, ele é a zebra do ano.

The Imitation Game – O Jogo da Imitação

23 de janeiro de 2015 6 comentários

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Quanto mais o tempo passa, mais percebemos que a História com H maiúsculo que aprendemos na escola está distante da verdade. Evidente que não é possível aprender, no período de 11 anos que incluem o primeiro e o segundo grau, grande parte da história humana com certa profundidade. Ainda assim, eventos inevitáveis de qualquer estudo da História, como a Segunda Guerra Mundial, nos foram ensinados de maneira tradicional, muitas vezes chata. Até que filmes como The Imitation Game nos apresentam a verdade de maneira mais que interessante. Excepcional. Esta produção tem um fundo histórico fortíssimo, mas também histórias de gente inspiradoras.

A HISTÓRIA: Primeiro, o filme deixa claro que o que veremos é baseado em uma história real. 1951, em Manchester, Inglaterra. Alan Turing (Benedict Cumbertbatch) está sentado quieto em uma sala da delegacia local quando chega o detetive Robert Nock (Rory Kinnear). Turing pergunta se ele está prestando atenção, porque o que ele vai contar precisa de atenção total. Voltamos no tempo, e vemos cenas do Serviço de Inteligência (MI6) britânico, que recebe a mensagem de que Turing foi assaltado. Mas o que um professor universitário teria a ver com o Serviço de Inteligência? E quais as razões para ele dizer que, apesar de ter tido a casa invadida, nada foi levada? Pouco a pouco vamos adentrando na história do protagonista e de seus feitos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Imitation Game): Esta é uma produção muito, mas muito diferente de Boyhood. E, ao mesmo tempo, guarda semelhanças com aquele que, até agora, eu tinha achado o melhor filme na disputa pelo Oscar 2015. Enquanto Boyhood (com comentário aqui) acompanha o amadurecimento de um garoto da infância até a ida dele para a universidade com o diferencial de vermos o processo acontecendo na nossa frente, The Imitation Game nos revela o amadurecimento de uma sociedade.

As duas produções também valorizam qualidades como a amizade, o companheirismo e a forma surpreendente com que algumas pessoas podem se revelar melhor do que os outros acreditavam inicialmente. As semelhanças terminam aí. The Imitation Game é um filme de época e que trata de um período chave para a sociedade atual: a Segunda Guerra Mundial e o seu desfecho.

O impressionante da obra, contudo, é que ela não trata apenas deste período histórico, jogando luz no trabalho de descoberta do código de criptografia nazista, fato escondido por cinco décadas e fundamental para a época, mas também, e especialmente, nos apresenta uma história muito humana.

O roteiro de Graham Moore é digno de ser estudo. Ele consegue o equilíbrio perfeito entre o drama histórico e a cinebiografia, adentrando na vida e nas aspirações de Turing ao mesmo tempo em que narra os bastidores da quebra da lógica da Enigma, máquina dos nazistas que todos os dias tinha os códigos alterados para o envio de mensagens fundamentais (ou não) para a guerra.

Verdade que ele não inventa a roda. Moore faz uso daquela técnica já bem conhecida de intercalar diversos tempos narrativos. Então a história começa com Alan Turing na delegacia, prestes a responder por um crime absurdo – e que por não ser considerado mais crime demonstra que, mesmo que lentamente, a Humanidade avança -, depois migra para a fase da Segunda Guerra Mundial para, finalmente, retroceder ainda mais na infância do protagonista. Todas estas “viagens temporais” fazem sentido para a história.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Afinal, como entender a angústia de Turing ao ser preso e depois condenado por “práticas homossexuais” sem saber a importância histórica do personagem – daí a volta para a época da Segunda Guerra -, e como compreender o apreço dele por seu invento e pelo nome de Christopher sem conhecer a amizade e o companheirismo do primeiro amor dele?

A forma com que a história flui nos três tempos narrativos e a condução que o diretor Morten Tyldum faz de cada detalhe da narrativa são dois pontos fortes do filme. Não adianta. Sem um ótimo roteiro e uma direção competente, não há filme que se destaque no cinema atualmente. The Imitation Game tem estes dois elementos e mais um elenco muito afiado, com nomes bem conhecidos do cinema ou da TV dos Estados Unidos e do Reino Unido.

O ótimo Benedict Cumberbatch faz uma interpretação memorável de Alan Turing, este homem brilhante que tinha uma grande dificuldade de se relacionar e dialogar com as pessoas – como muitos dos grandes gênios que a Humanidade já teve, aliás. Em alguns momentos, ele até parece ter um pouco de autismo. Mas conforme a história vai nos mostrando o que Turing passou na escola, entendemos um pouco mais das razões que fizeram ele ser um cientista centrado no próprio trabalho e pouco afeito a atuar em grupo.

Por falar em grupo, que bela escolha de elenco para esta produção! Parabéns para Nina Gold pelo excelente trabalho com esse time de craques. A estrela, claro, é Benedict, mas ele deixa brilharem também Keira Knightley como Joan Clarke, a única mulher no grupo que trabalhou para decifrar a máquina Enigma; Matthew Goode, recente revelação da série The Good Wife, que interpreta a Hugh Alexander; Allen Leech, mais conhecido pelo trabalho em Downtown Abbey, que faz as vezes no filme de John Cairncross; e Matthew Beard, um pouco atrás dos outros na interpretação, que dá vida no filme para Peter Hilton. Esses cinco foram fundamentais para a reviravolta que os Aliados tiveram na última grande guerra de proporções mundiais.

O elenco afiado é um elemento a mais para o filme dar certo junto com o roteiro e a direção. Mas para completar o quadro, os elementos técnicos de The Imitation Game também cumprem o seu papel. Tudo funciona bem. Falarei deles mais detalhadamente abaixo. Voltemos agora um pouco para a história. Por que ela é tão fascinante?

Primeiro porque a narrativa é envolvente e foca em uma história pouco contada no cinema. Nem poderia ser diferente. Apenas no final dos anos 1990 veio a tona o trabalho de Turing e equipe. Sem contar que filmes sobre a Segunda Guerra Mundial que trazem elementos novos para o entendimento daquela época sempre são fascinantes. O mais comum, contudo, é vermos infindáveis cenas de batalha e de heroísmo. The Imitation Game nos revela o trabalho de bastidor de muita gente que atuava em outra frente, a da inteligência, e não da força bruta.

Este novo ângulo por si só é interessante. Agora, adicione a isso um olhar detalhado sobre a trajetória de um cientista menos conhecido mas que, no fim das contas, foi fundamental para que eu estivesse agora escrevendo este texto em um notebook e para que você estivesse lendo estas letras em seu computador ou dispositivo móvel. Este homem, considerado estranho, isolado, pouco afeito a conversas, foi quem idealizou e defendeu em artigos científicos que as máquinas também pudessem pensar.

Em uma das cenas mais bacanas do filme, Turing provoca o policial que o está interrogando a testá-lo para saber se ele é uma máquina ou um humano. A lógica proferida por ele naquele momento é maravilhosa, digna de guardar na memória ou escrever em um quadro. E claro que serve não apenas para refletir sobre as máquinas, mas sobre nós mesmos. Afinal, todos temos formas diferentes de raciocinar, mas todos nós pensamos. Sejamos executivos, empregados, santos ou bandidos.

Como se não bastasse essa reflexão brilhante de Turing e a contribuição que ele deu para o fim do conflito mundial, ainda existe o caráter pessoal da história dele e que faz eco até hoje. Aquela mente brilhante, isolada da sociedade por suas características, foi exposta na sociedade como pervertida, indecente, e condenada por ele não ser tudo isso, e sim por ser homossexual.

Como o filme deixa claro nos créditos finais, entre 1885 e 1967 cerca de 49 mil homens foram condenados por serem homossexuais no Reino Unido – essa orientação sexual era vista como crime. Turing, é verdade, acabou tendo o passado resgatado. Mas nunca saberemos tudo que ele poderia ter feito pela ciência se não tivesse passado por aquela situação.

Para finalizar, um dos pensamentos mais interessantes desta produção, e que é repetido pelo menos três vezes – na infância de Turing, quando ele tenta convencer Joan Clarke a seguir na missão e, depois, quando ele está isolado, solitário e deprimido em casa, quando Joan tenta consolá-lo, é também um resumo do que penso sobre as pessoas. “São as pessoas que ninguém espera nada que fazem as coisas que ninguém consegue imaginar”.

Em outras palavras, todos merecem uma oportunidade de desenvolver-se e mostrar o que a pessoa tem de melhor. Assim como todos merecem respeito. Afinal, muitas vezes, a solução e a salvação virá justamente de quem menos se esperava. Fascinante.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para mim, foi um surpresa ver tanta qualidade em The Imitation Game. E digo isso por uma razão muito simples: ele é um dos filmes menos badalados da fase pré-Oscar e, mesmo agora, quando estamos na reta final para a maior premiação de Hollywood. Muitos rasgam seda para Birdman, outros se derretem por Boyhood ou por The Theory of Everything, mas quase ninguém fala muito sobre esta produção. Por isso mesmo foi uma grata e boa surpresa ver tanta qualidade na obra comandada por Morten Tyldum.

Antes falei dos atores, mas vale comentar os aspectos técnicos impecáveis desta produção. Para começar, grande o trabalho de Alexandre Desplat com a trilha sonora. Não por acaso ele foi indicado ao Oscar. Depois, muito boa a direção e fotografia de Oscar Faura; a edição de William Goldenberg; os figurinos de Sammy Sheldon; a direção de arte de Nick Dent, Rebecca Milton e Marco Anton Restivo; e a decoração de set de Tatiana Macdonald.

Toda esta equipe e todas as outras pessoas envolvidas em efeitos especiais, maquiagem e etc. garantem que vejamos cenas de reconstituição bastante fidedigna do final dos 1920 até o início dos anos 1950, incluindo reconstituições de cenas marcantes da época e o uso de imagens históricas por parte do diretor.

Citei alguns dos atores que fazem o filme fluir com precisão e graça, destacando especialmente a equipe envolvida no trabalho de decifrar o código nazista, mas há outros atores no elenco que merecem ser citados pelo ótimo trabalho realizado. Mark Strong está perfeito como Stewart Menzies, o homem por trás do Serviço Secreto britânico durante a Segunda Guerra e que acaba sendo peça fundamental no jogo de contraespionagem jogado naquela época; e Charles Dance, bem conhecido pela série Game of Thrones, também se sai muito bem como o comandante Denniston.

Também vale citar o trabalho de Alex Lawther como o jovem Alan Turing, e Jack Bannon como o amigo dele na infância, Christopher Morcom. Fazem papéis menores mas um pouco relevantes Ilan Goodman como Keith Furman e Jack Tarlton como Charles Richards, os dois participantes da equipe contratada pelos ingleses para decifrar Enigma e que são demitidos assim que Turing consegue comandar o projeto.

O roteiro de Graham Moore é brilhante, como eu comentei antes. Mas é preciso também comentar que boa parte do mérito dele deve estar no livro Alan Turing: The Enigma, escrito por Andrew Hodges.

The Imitation Game estreou em agosto de 2014 no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme passou por outros 47 festivais – um número impressionante. Nesta trajetória, a produção ganhou 39 prêmios e foi indicada a outros 101, incluindo oito indicações ao Oscar 2015. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os prêmios de Compositor do Ano para Alexander Desplat, Diretor do Ano para Morten Tyldum, Ator do Ano para Benedict Cumberbatch e para Atriz do Ano para Keira Knightley no Festival de Cinema de Hollywood; para o prêmio para o elenco no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs e pela escolha do público por Morten Tyldum como “Mestre” do ano. Esta produção também aparece no Top Ten Film 2014 da National Board of Review.

Esta é uma produção 100% rodada no Reino Unido, em locais como o Parque Bletchley, na cidade de Bletchley; na Sherborne School, a escola onde Turing realmente estudou, em Dorset; e outras diversas cenas em Londres.

No dia 27 de novembro de 2014, antes do filme estrear nos cinemas dos Estados Unidos, o The New York Times reproduziu as palavras-cruzadas publicada originalmente em 1942 no The Daily Telegraph e criada para recrutar decifradores de códigos para trabalhar em Bletchley Park durante a Segunda Guerra Mundial. As pessoas que conseguiram decifrar as palavras-cruzadas no ano passado concorreram a uma viagem para Londres que incluía visitar as instalações de Bletchley Park.

Agora, outras curiosidades sobre o filme: Em uma das cenas finais do filme o ator Benedict Cumberbatch não conseguiu parar de chorar e passou por um colapso. Ele realmente ficou envolvido com a história de Turing e com o que ele sofreu na reta final da vida.

Em diversos momentos do filme Turing aparece correndo. Na vida real ele era um corredor de longa distância de classe mundial, com um tempo de maratona de 2:46:03 conquistada em 1946.

O personagem Stewart Menzies inspirou Ian Fleming, que trabalhou no departamento de espionagem britânico durante a Segunda Guerra Mundial, a criar o personagem M, chefe do personagem James Bond.

Desplat compôs a trilha do filme em duas semanas e meia. Ela foi gravada com a Orquestra Sinfônica de Londres no Abbey Road Studios.

Este é o primeiro roteiro de Graham Moore. Ele queria escrever um roteiro sobre Alan Turing desde que tinha 14 anos de idade.

O terno risca de giz que Mark Strong utiliza durante o filme é um terno autêntico dos anos 1940. Ele foi escolhido para caracterizar o personagem que liderava a operação em Bletchley Park porque lhe dá um ar de “chefe da máfia”.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Durante o filme, o diretor faz referência a como Turing se matou. Quando os policiais vão na casa dele, após a denúncia de assalto, ele está recolhendo pó de cianureto. Em outro momento, ele dá maçãs para os colegas de trabalho. Foi com uma maçã envenenada com cianureto que o cientista se matou.

Este é um destes filmes que nos faz pensar como qualquer conversa pode ser mega importante. E pensar que sem o comentário de Helen (Tuppence Middleton) despretensioso naquele bar, brincando que acreditava que o inimigo que ela acompanhava diariamente tinha uma namorada porque todas as mensagens dele começavam com a palavra Cilly, aquele grupo de cientistas jamais conseguiria decifrar o código do Enigma a tempo, no prazo que o comandante havia dado. Fantástico. Nunca se sabe, realmente, quando uma conversa despretensiosa pode mudar tudo.

Os usuários do site IMDb eram a nota 8,2 para esta produção. Uma avaliação muito boa, considerando o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 200 textos positivos e 22 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 90% e uma nota média de 7,7. Achei baixa a nota, em especial, ainda que gostei do nível de aprovação.

The Imitation Game teria custado cerca de US$ 14 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 52,9 milhões até o dia 21 de janeiro. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele soma outros US$ 50,2 milhões. Fico feliz que ele esteja se saindo bem. De fato, ele merece.

Esta é uma coprodução entre Reino Unido e Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Pessoas indesejadas em determinadas sociedades conseguem feitos fantásticos quando elas tem não apenas a oportunidade de se desenvolver, mas também a chance de empregar bem o seu talento. The Imitation Game é um filme que vai muito além da biografia de Alan Turing e de um feito incrível dos bastidores da Segunda Guerra Mundial. Esta produção nos faz refletir sobre os diversos absurdos de que a Humanidade é capaz ao mesmo tempo que nos mostra o valor da solidariedade, do talento e da amizade. Um filme bem conduzido, perfeitamente escrito e com atores que cumprem bem os seus papéis. Irretocável e envolvente. Um dos grandes de 2014.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Depois de The Grand Budapest Hotel e Birdman, indicados nove vezes no Oscar, The Imitation Game é o filme mais indicado deste ano. Ele está concorrendo em oito categorias. Poderia vencer em várias, ou pode também sair de mãos vazias.

Birdman está sendo muito badalado. Mas acho que Boyhood deve ganhar como Melhor Filme. Depois de Boyhood, para mim, The Imitation Game é o melhor filme de 2014 – pelo menos até agora, ainda falta assistir a três concorrentes da categoria. O filme concorre ainda em Melhor Ator – Benedict Cumberbatch; Melhor Diretor – Morten Tyldum; Melhor Trilha Sonora; Melhor Roteiro Adaptado; Melhor Atriz Coadjuvante – Keira Knightley; Melhor Design de Produção e Melhor Edição.

A parada do filme é dura em todas as categorias. Ele tem qualidade para ganhar, mas também tem fortes concorrentes tão merecedores quanto. Em Melhor Ator, acredito que o favorito é Eddie Redmayne, de The Theory of Everything. Depois, viriam pau a pau Cumberbatch e Michael Keaton. Melhor Diretor, me parece, tem Richard Linklater como favorito pelo trabalho excepcional em Boyhood. Mas não seria uma surpresa se Alejandro González Iñarritu ou Wes Anderson levassem a estatueta para casa.

Melhor Trilha Sonora também é parada dura. The Theory of Everything e The Grand Budapest Hotel são grandes concorrentes, mas The Imitation Game também poderia ganhar. Dos filmes que vi até agora, The Imitation Game poderia ganhar em Melhor Roteiro Adaptado. Prefiro ele que The Theory of Everything. Mas desconfio que este segundo talvez tenha mais lobby que o primeiro para vencer.

Em Melhor Atriz Coadjuvante, me parece, Patricia Arquette é a favorita. Em Melhor Design de Produção, os grandes concorrentes de The Imitation Game são The Grand Budapest Hotel e Interstellar. E para finalizar, em Melhor Edição todos são bons, mas acho que The Grand Budapest Hotel ou Boyhood levam vantagem. Para resumir, a vida de The Imitation Game será difícil no Oscar. Mas vou achar ótimo se ele levar qualquer estatueta. Merece.

Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance) – Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

21 de janeiro de 2015 8 comentários

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Há tempos isso não acontecia comigo. Assistir a um filme e demorar para chegar a conclusão se eu havia gostado do que tinha assistido e, em caso positivo, do quanto. Birdman fez isso comigo não apenas por ser um filme incômodo, muito crítico ao mainstream, mas também porque ele é belo em sua rispidez crítica. Apesar destes elementos, fiquei em dúvida porque me lembrei de outras produções que fizeram o mesmo, e não consegui ver toda aquela inventividade esperada em Birdman. Ainda assim, ficou claro que este é o filme mais ousado do Oscar 2015. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood foi corajosa em indicá-lo a tantos prêmios.

A HISTÓRIA: Um corpo celeste queima ao dar entrada na órbita da Terra. Corta. Dentro de um camarim, Riggan (Michael Keaton) levita enquanto pensa em como ele foi chegar ali. Reggan considera o lugar horrível, e está pensando nisso quando escuta o aviso do Skype. Do outro lado da câmera, Sam (Emma Stone), filha dele, pede ajuda do pai sobre as flores certas que ela deve comprar. Ele pede alquemila, ou outra que cheire bem, menos rosas. Ela diz que odeia aquele emprego, e desliga. Reggan se olha no espelho, e é chamado para o ensaio da peça de teatro que ele está dirigindo e protagonizando. Um dos atores, Ralph (Jeremy Shamos), sofre um acidente e precisa ser substituído. A partir daí, acompanhamos o desafio de Reggan em realizar o sonho de fazer algo sério em sua carreira.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Birdman): Esta produção começa muito bem. O título do filme é promissor, assim como o começo dele com o texto de Late Fragment, de Raymond Carver, e a sequência de imagens icônicas antes de Michael Keaton começar a dar o seu showzinho particular.

Não há dúvidas que o roteiro escrito pelo diretor Alejandro González Iñarritu ao lado de Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris e Armando Bo é o que o filme tem de melhor. Junto com a própria condução fluída de Iñarritu e o equilíbrio perfeito que ele consegue entre a valorização do trabalho dos atores e o foco constante no entorno em que eles estão imersos.

Ainda assim, o principal problema do filme também é o roteiro do quarteto e a sua preocupação em não apenas falar dos bastidores da vida de quem vive entre a arte do teatro e a indústria do cinema, mas também sobre a natureza das aspirações que move a cada indivíduo em cena – ou na plateia. Digo isso porque depois daquele começo tão promissor, somos imersos em um enredo de constante quebra de braços entre egos diferentes e suas motivações.

Para quem é ou foi ator Birdman deve ser uma ironia constante. Não duvido, apesar de nunca ter sido profissional desta área, mas apenas uma interessada e uma jornalista que já acompanhou de perto diversos atores e diretores de teatro, que muito do que vemos em cena acontece na vida real. A insegurança perto de uma estreia, o estresse por fazer sucesso e a libido extremada com constantes mudanças de parceiros sexuais fazem parte do jogo.

O problema, conforme o filme vai avançando, é que Birdman vai se tornando muito afeito a quem vive esta realidade. O grande público, aquele mesmo que gosta de acompanhar determinados atores e diretores mas que, dificilmente, vive em disputa tão acirrada de egos, sente-se pouco tocado pelos bastidores da coxia. Para nossa sorte, contudo, Birdman vai muito além deste cenário e ambiente.

Com bastante ironia e autocrítica para o próprio cinemão dos Estados Unidos, muito lucrativo em sequências algumas vezes infinitas de filmes com heróis em quadrinhos como protagonistas, pouco a pouco Birdman vai entrando na avaliação da própria vida feita por um ator que um dia já teve sucesso, mas que agora só pensa em voltar à cena para ganhar algum respeito. Separado de Sylvia (Amy Ryan), sentindo-se culpado pela filha ter se tornado uma viciada – afinal, ele sempre é acusado de ter sido um pai ausente – e há muito tempo sem fazer um papel de sucesso, o protagonista de Birdman quer renascer das cinzas.

Pena que nem todos nasceram para serem uma Fênix. Mas Riggan se esforça. O problema é que ele encontra um jovem talento, muito badalado por público e crítica, para duelar com ele em sucesso, prestígio e em cena. Mike (Edward Norton) aparece em cena para substituir o desfalque Ralph e parece a salvação da lavoura. Logo que o nome dele é anunciado, a procura pela peça de Riggan ganha novo impulso nas bilheterias.

O que pareceria algo positivo logo se mostra complicado porque Mike encarna o ator-estrela, aquela figura “indomável” que sente que é mais verdadeiro sobre um palco do que na vida real. Ele tem rompantes dos mais variados, o que chega a ser cômico. Mas o efeito para Riggan é devastador. Ele está cansado de tudo aquilo, e ao perceber uma versão mais jovem de si mesmo, talvez, ele avança ainda mais na autocrítica.

O problema de Birdman, para mim, nasce justamente desta clássica oposição entre o “ator em decadência” e o “jovem talento em ascensão”. Ainda que sejam filmes muito diferentes, ao detectar esta característica em Birdman, para mim foi impossível não lembrar do excepcional All About Eve, clássico de 1950 dirigido por Joseph L. Mankiewicz e com um show de interpretação de Bette Davis. A atriz veterana, na interpretação de sua vida, teve em Anne Baxter uma dobradinha perfeita.

Há 65 anos atrás Mankiewicz tratou como um gênio a questão do ego, da disputa pelo holofote, pelo poder e pela aprovação no mainstream. Agora, Iñarritu nos apresenta algo similar, mas com uma linguagem renovada, novos ícones para serem combatidos e pouco mais que isso. É pouco, muito pouco. Ser ácido com a busca do artista e também com o crítico que aparece como uma “estrela frustrada” e amargurada é fácil. Difícil é fazer um clássico para a posteridade como All About Eve.

Mas para não dizer que não falei de flores, vou citar o único aspecto que, para mim, faz o filme ser um pouco salvo. Ou, pelo menos, ser merecedor da nota abaixo. Se toda a discussão sobre a disputa entre egos na arte – ou na tentativa de arte – já é velha conhecida do cinema, o que Birdman traz de interessante é a forma com que o protagonista conversa com o próprio ego e referências a dois símbolos muito interessantes: o mito de Ícaro e a noção de super homem de Nietzsche.

No primeiro caso, o mito de Ícaro, vale citar um pouco da história do personagem segundo a mitologia grega. Antes de falar de Ícaro, interessante comentar feitos do pai dele, Dédalo, que era um grande arquiteto, artista e inventor. Certa vez, a irmã de Dédalo colocou o filho, Perdix, para aprender o ofício com o irmão. Mas o rapaz começou a se sair tão bem que, com inveja, Dédalo aproveitou uma ocasião em que eles estavam no alto de uma torre para empurrar o rapaz de lá. Atena, deusa que favorece o engenho, viu a cena e alterou o destino de Dédalo, fazendo com que ele se transformasse em um pássaro durante a queda.

Em certo momento, Dédalo foi chamado para prestar serviços para o rei Minos, de Creta – incluindo o Palácio de Minos. Ele também construiu o labirinto onde o rei aprisionou o seus inimigos e o temido Minotauro. Lá pelas tantas, Dédalo ajudou a princesa Ariadne a libertar Teseu e, por esta traição, ele foi aprisionado junto com o filho Ícaro no labirinto.

Como escapar a pé do labirinto era muito complicado e o caminho do mar também era controlado pelo rei, Dédalo pensou na alternativa de escapar com o filho pelo ar. Foi aí que ele construiu asas gigantes com galhos de vime e cera, orientando o filho de como fazer para voar e alertando que ele deveria ficar longe do sol. Apesar da advertência, Ícaro ficou empolgado com a sensação de liberdade do voo e subiu cada vez mais alto, até ter as asas destruída, cair no mar e morrer.

Contei essa história de Dédalo e de Ícaro porque é evidente o paralelo com Birdman. Primeiro, porque a inveja fez Dédalo matar a Perdix que, no fim das contas, na queda, virou um pássaro. Depois, que Ícaro foi absorvido pela sensação de liberdade e descuidou da própria segurança. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A visão otimista da história de Birdman pode nos levar por este lado. Riggan também sentiu inveja e, fascinado pela liberdade, no que ela significava o fim de todos os problemas, preocupações e culpas, ele também se lançou no espaço. Iñarritu sugere que, no ato, ele virou um pássaro. Forma poética, é claro.

Outra forma de encarar Birdman é observar a produção dentro do conceito de Nietzsche do super homem. Para mim, não foi à toa aquela cena de um meteoro chegando na terra, ou mesmo os diálogos que Riggan escuta e que seriam de seu próprio ego – plasmado no sucesso que ele viveu como Homem-Pássaro. Aquela cena do meteoro me fez lembrar o personagem do Super-Homem. Mas o que Nietzsche defende como super homem era o modelo ideal para elevar a humanidade, segundo o qual não são todos os indivíduos que vão evoluir, mas apenas os mais dotados e fortes.

Existiria, assim, o homem superior. Aquele que se elevaria acima da mediocridade e que teria uma existência baseada no esforço e na educação, sem contaminar-se com o amor que, no fim das contas, apenas impede o bom senso e o melhoramento constante do indivíduo. O ego de Riggan, que lá pelas tantas se materializa na figura do personagem que ele viveu do Birdman, defende exatamente isso. De que ele é um ser superior e que ele deve voar acima da mediocridade dos outros seres.

Mas o problema de Riggan, para mim, é que ele buscava, a exemplo do que afirmam as frases iniciais de Raymond Carver, apenas o amor. Seja ele prático, em uma vida feliz com a mulher e a filha, seja ele figurado no aplauso das audiências e nas ótimas avaliações dos críticos. No fim das contas ele queria ser aprovado, reconhecido, amado por todos.

Não conseguiu, assim, coincidir estas aspirações com o modelo de super homem de Nietzsche, e que o seu próprio ego defendia. No fim, ele só encontrou a alternativa da fuga. Do salto. De uma admiração impossível de admirar da liberdade dos pássaros.

A reflexão é boa, a sensação de incômodo permanece, mas ainda assim o filme não me convenceu de todo. Talvez porque eu não acredito que o mundo e a realidade sejam tão sem esperanças, tão cínicos, tão sem horizonte. Pessoalmente, e meu julgamento é composto também de meus gostos pessoais, prefiro outro tipo de filme e de reflexão.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O primeiro elemento desta produção que chama a atenção é o trabalho do diretor mexicano Alejandro González Iñarritu. Ele faz a escolha cuidadosa de cada enquadramento de cada sequência, aproveitando muito os corredores e bastidores do teatro para aprofundar-se nas angústia e no habitat do protagonista e dos demais personagens. Outro elemento que logo ganha protagonismo é a trilha sonora de Antonio Sanchez, bem ao estilo de música acidental que, espalhada aqui e ali na produção, cria ainda mais o clima de realismo, sofisticação e angústia.

Vale também destacar, dentro dos aspectos técnicos do filme, a direção de fotografia de Emmanuel Lubezki; a edição de Douglas Crise e Stephen Mirrione; o design de produção de Kevin Thompson e a decoração de set de George DeTitta Jr.

Ainda que centrado em poucos personagens, este filme tem um bom número de atores de peso em papéis secundários. Claro que quem rouba a cena e carrega a produção nas costas é Michael Keaton. Há tempos não vemos o ator em um desempenho tão bom. Mas ele tem ao seu lado uma grata surpresa: Emma Stone em uma interpretação de gente grande. A garota rouba a cena em muitos momentos. Edward Norton e Naomi Watts, ela interpretando a atriz Lesley, para mim, apenas fazem um papel mediano. Nada muito além do que estamos acostumados a ver.

Outra intérprete que tem presença marcante toda vez que aparece em cena é Amy Ryan. Ela está muito bem – ainda que apareça pouco. Zach Galifianakis também está bem no papel de Jake, empresário de Riggan. Para fechar o grupo de atores que ganha mais evidência no filme está Andrea Riseborough que se sai bem como Laura, a outra atriz em cena no teatro e que é namorada do protagonista.

Birdman estreou em agosto de 2014 no Festival de Cinema de Veneza. De lá para cá, a produção participou de outros 22 festivais, incluindo os de Telluride, Zurique, Londres, Viena, Estocolmo, Mar del Plata e Dubai. Nesta trajetória, Birdman conquistou impressionantes 119 prêmios e 148 indicações – incluindo nove indicações ao Oscar. Estes números são realmente impressionantes.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os Globos de Ouro de Melhor Ator – Comédia ou Musical para Michael Keaton e o de Melhor Roteiro; o de Melhor Ator para Keaton no Prêmio Gotham; o de melhor Diretor de Fotografia do ano para Emmanuel Lubezki no Prêmio de Cinema de Hollwyood; o de Melhor Ator para Keaton, Melhor Ator Coadjuvante para Edward Norton e por figurar no Top Ten de 2014 segundo a National Board of Review; e quatro prêmios secundários no Festival de Cinema de Veneza. A maioria dos prêmios recebidos pelo filme até agora foi conferida por associações de críticos de dentro e de fora dos Estados Unidos.

Birdman teria custado cerca de US$ 18 milhões. Para os padrões de Hollywood, uma produção de baixo orçamento. Apenas nas bilheterias dos Estados Unidos o filme somou pouco mais de US$ 28,7 milhões. No restante dos mercados onde o filme já estreou, ele soma outros US$ 13,4 milhões. Está começando a dar lucro, pois. Mas com tantas indicações ao Oscar, é tendência que fora dos Estados Unidos, em especial, ele comece a arrecadar mais dinheiro.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Birdman foi totalmente filmado em Nova York, como a história mesmo sugere.

Agora, aquelas curiosidades clássicas sobre o filme: de acordo com o ator Michael Keaton, Birdman foi o filme mais desafiador que ele já fez. Ele comentou também que o personagem de Riggan é o mais diferente, na comparação consigo mesmo, que ele alguma vez interpretou.

Na entrevista que Riggan dá no camarim para a imprensa que está divulgando a peça dele, o ator comenta que não interpreta a Birdman desde 1992. Foi este ano quando, na vida real, foi lançado Batman Returns, no qual Keaton interpreta ao personagem-título.

Este filme todo foi rodado em menos de um mês. De fato, não era preciso mais que isso – até pela dinâmica da história. Boa parte da produção foi rodada dentro do St. James Theatre na Broadway.

Os atores tiveram que se esforçar para encaixar nos longos takes de filmagens de Iñarritu. Do elenco, Emma Stone foi a que protagonizou o maior número de erros e Zach Galifianakis foi o que errou menos.

Da mesma forma com que o personagem de Keaton é uma certa paródia da trajetória do ator, que protagonizou na carreira um Batman, o personagem de Edward Norton brinca com a reputação dele de ser muito ríspido e difícil de lidar no trabalho.

O tapete que vemos em mais de uma cena nos corredores dos bastidores do teatro é o mesmo que foi usado no clássico de Stanley Kubrick The Shining.

O título complementar do filme, “The Unexpected Virtue of Ignorance”, faz referência ao título do artigo que a crítica Tabitha (Lindsay Duncan) teria escrito elogiando a peça e o desempenho de Riggan.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para esta produção. O que é uma ótima avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 232 textos positivos e apenas 19 negativos para Birdman, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,5.

Esta é uma coprodução dos Estados Unidos com o Canadá.

CONCLUSÃO: O roteiro de Birdman atira para quase todos os lados no terreno da cultura pop dos Estados Unidos. Tipo de críticas que outros filmes menos “sérios” já haviam feito. Mas fora esta camada superficial, o filme de Alejandro González Iñarritu vai mais fundo na fogueira das vaidades e na disputa de egos do cinema e do teatro. Como outros filmes fizeram isso antes, não há muita novidades neste aspecto. O único ponto que esta produção avança é no mal estar que ela provoca, em uma que outra risada que desperta e no questionamento sobre o mito de Ícaro e o conceito de super homem de Nietzsche. É um filme corajoso, mas menos inventivo do que eu esperava. E, sem dúvida, não é o melhor filme do ano passado.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Birdman foi o filme que recebeu o maior número de indicações na premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood junto com The Grand Budapest Hotel. Os dois foram indicados em nove categorias. Não deixa de ser surpreendente esse número de indicações justamente para estas duas produção, já que tanto Birdman quanto The Grand Budapest Hotel são um bocado alternativas. Especialmente a primeira.

Birdman concorre nas categorias Melhor Filme, Melhor Ator para Michael Keaton, Melhor Direção para Alejandro G. Iñarritu, Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia, Melhor Atriz Coadjuvante para Emma Stone, Melhor Ator Coadjuvante para Edward Norton, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som.

Após assistir a esta produção, tenho sérias dúvidas sobre que estatuetas ela poderá levar para casa. Em cada uma destas categorias, para mim, ela tem concorrentes de peso e que levam vantagem pela qualidade. Ou seja, pelo meu critério, Birdman poderá sair de mãos vazias do Oscar. Vejamos.

Na disputa de Melhor Filme, considero Boyhood favorito. Michael Keaton mereceria um Oscar pelo excelente trabalho nesta produção, mas acho muito difícil ele ganhar do favoritíssimo Eddie Redmayne, de The Theory of Everything. Melhor Direção, acredito, irá para Richard Linklater – mas Wes Anderson pode surpreender nesta categoria. Melhor Roteiro Original pode ser uma opção para Birdman, ainda que o meu voto iria para Boyhood.

Esta produção ganhar em Melhor Fotografia seria uma verdadeira zebra. Ida leva franca vantagem, e mesmo Unbroken e The Grand Budapest Hotel são melhores que Birdman nesta categoria. Emma Stone tem praticamente chance alguma – Patricia Arquette deve levar a estatueta para casa.

Edward Norton sempre merece um Oscar, mas o meu voto iria para Ethan Hawke – pelo menos até agora, preciso ainda ver a outros três trabalhos. Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som são duas categorias em que o filme corre por fora, tendo outros fortes candidatos como favoritos – a exemplo de American Sniper, Interstellar e Unbroken. Resumindo, não seria uma total surpresa o recordista de indicações sair de mãos vazias. Mas acredito em uma ou duas estatuetas, mesmo que o gosto do espectador possa preferir outro dos indicados como ganhador.

Indicados ao Oscar 2015 – Lista e Avaliação

15 de janeiro de 2015 5 comentários

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Bom dia, minha gente. Mais uma vez acompanho, junto com vocês, as indicações dos integrantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood para a maior premiação da indústria do cinema mundial, o Oscar.

Neste ano a Academia resolveu inovar de duas maneiras diferentes: transmitindo o evento das indicações ao vivo pelo site da entidade (www.oscars.org/live) e também dividindo a divulgação em duas partes. Na primeira, que começa às 5h30 no horário da Califórnia, nos Estados Unidos, e as 11h30 no horário de Brasília, os diretores Alfonso Cuarón e J.J. Abrams divulgam os indicados em 11 categorias. Depois, às 5h38 no horário da Califórnia e 11h38 no horário de Brasília, o ator Chris Pine e a presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs, divulgam os indicados nas outras 13 categorias do Oscar 2015.

A exemplo do que fiz aqui no ano passado, vou acompanhar essas indicações trazendo a lista que vai nos guiar até fevereiro para assistir aos indicados e também comentários sobre quem chegou na reta final da disputa.

A transmissão direto do Teatro Samuel Goldwyn, em Beverly Hills, começou a ser feita pela internet às 11h28. No horário em que a primeira lista deveria começar a ser divulgada, pediram mais três minutos para a cerimônia começar. #expectativa #cinéfilanervosa🙂

Os diretores J.J. Abrams e Afonso Cuarón começaram a divulgar a lista com um pouco de atraso. Segue as indicações que eles, começando por Abrams e seguindo com Cuarón, trocando sempre quem anunciava, divulgaram:

Melhor Canção Original:

  • Everything Is Awesome, de The Lego Movie
  • Glory, de Selma
  • Grateful, de Beyond the Lights
  • I’m Not Gonna Miss You, de Glen Campbell… I’ll Be Me
  • Lost Stars, de Begin Again

Melhores Efeitos Visuais:

  • Captain America: The Winter Soldier
  • Dawn of the Planet of the Apes
  • Guardians of the Galaxy
  • Interstellar
  • X-Men: Days of Future Past

Avaliação: Aqui não tem como inventar a roda. Todos os anos os filmes de ficção científica e os baseado em heróis da DC Comics, Marvel e afins dominam esta categoria. Alguns dos maiores sucessos de 2014 nestas duas categorias de filmes aparecem na lista. A disputa será boa, não há dúvidas. Como não assisti a nenhuma destas produções, vou tentar conferir o trabalho antes de opinar sobre o favorito.

Melhor Curta Documentário:

  • Crisis Hotline: Veterans Press 1
  • Joanna
  • Our Curse
  • The Reaper (La Parka)
  • White Earth

Melhor Documentário:

  • CitizenFour
  • Finding Vivian Maier
  • Last Days in Vietnam
  • The Salt of the Earth
  • Virunga

Melhor Edição:

Avaliação: Assisti a apenas dois dos filmes da lista. Para mim, Boyhood e The Grand Budapest Hotel tem na edição uma de suas principais qualidades. Então merecem estar aqui. Gostei de American Sniper aparecer, mesmo não tendo assistido ao filme, porque adoro tudo que o Clint Eastwood faz. Mas novamente vou dar o meu pitaco só quando assistir aos outros três concorrentes que eu ainda não vi. Entre Boyhood e The Grand Budapest Hotel, talvez o segundo seja melhor, na edição, mas o meu voto iria para o primeiro – gostei muito mais de Boyhood.

Melhor Edição de Som:

Avaliação: Aqui, mais uma vez, os filmes de guerra, ficção científica e de heróis ganham vantagem na edição de som – e na categoria seguinte também. Das produções listadas, assisti apenas a The Hobbit e Unbroken. De fato os dois filmes tem edições de som primorosas. Mas se fosse votar em um dos dois, ficaria com The Hobbit. De qualquer forma, só assistindo aos três que faltam para poder realmente opinar a respeito.

Melhor Mixagem de Som:

Avaliação: Como eu disse antes, aqui novamente os filmes de guerra, de ficção científica e de heróis ganham vantagem. Como só assisti a Unbroken, produção que será a próxima a ganhar uma crítica aqui no blog, fica difícil opinar. Mas algo é fato: o filme dirigido por Angelina Jolie é ótimo na mixagem de som. Mesmo sem ter assistido aos demais, me parece, contudo, que American Sniper e Interstellar possam ter alguma vantagem sobre os outros concorrentes. Veremos.

Melhor Design de Produção:

Avaliação: Aqui começa a engrossar o número de indicações para The Grand Budapest Hotel – que teve nove, ao total. Sem dúvida o filme é ótimo na parte técnica e o design de produção é um de seus pontos fortes. Ainda assim, pensando na história e no conjunto da obra, esta produção não estaria entre as minhas favoritas do ano. Ainda não assisti aos outros concorrentes desta categoria, para poder opinar com maior propriedade, mas desde já acho que The Grand Budapest Hotel é o concorrente a ser derrotado.

Melhor Curta de Ficção:

  • Aya
  • Boogaloo and Graham
  • Butter Lamp (La Lampe Au Beurre De Yak)
  • Parvaneh
  • The Phone Call

Melhor Curta de Animação:

  • The Bigger Picture
  • The Dam Keeper
  • Feast
  • Me and My Moulton
  • A Single Life

Melhor Animação:

  • Big Hero 6
  • The Boxtrolls
  • How to Train Your Dragon 2
  • Song of the Sea
  • The Tale of the Princess Kaguya

 

Divulgada esta lista, saíram de cena os diretores e, às 11h38, quando deveria começar a divulgação da outra lista, pediram mais três minutos para que entrasse em cena Pine e Boone Isaacs. De fato eles começaram a apresentar a lista com o “filé” da premiação às 11h42. A primeira a falar, claro, foi a presidente da Academia, seguida sempre por Pine. Eles divulgaram os seguintes indicados:

Melhor Ator Coadjuvante:

Avaliação: Agora sim a lista começa a ficar mais interessante. Gostei do equilíbrio entre veteranos e atores de gerações mais novas nesta categoria. Ethan Hawke merecia muito a indicação pelo excelente trabalho em Boyhood. Edward Norton… bem, sempre vou torcer por ele porque, para mim, ele é um dos melhores de sua geração. J.K. Simmons é um veterano que nem sempre foi reconhecido, a exemplo de Robert Duvall. Este último foi indicado seis vezes antes em um Oscar, e ganhou apenas uma estatueta como Melhor Ator por Tender Mercies em 1984. Simmons, por sua vez, nunca tinha sido indicado ao Oscar. Ainda preciso assistir aos filmes deles, mas tenho um fraco por Boyhood. Por isso, inicialmente, minha torcida vai para Hawke.

Melhor Atriz Coadjuvante:

Avaliação: A exemplo de Ethan Hawke, Patricia Arquette também merecia ter uma indicação ao Oscar pelo ótimo trabalho em Boyhood. As demais atrizes, ainda não assisti em seus respectivos papéis, mas gostei de ver, novamente, um equilíbrio entre veteranas e dois nomes de gerações bem mais novas. Fiquei especialmente contente por Keira Knightley ser indicada a seu segundo Oscar – antes ela concorreu também como Melhor Atriz Coadjuvante por Pride & Prejudice. Acho ela competente há muito tempo. Ainda assim, tenho sérias dúvidas se ela tem alguma chance este ano. Acredito que não. Preciso assistir às demais, mas minha torcida já está dividida entre Patricia Arquette e Laura Dern – uma atriz com longa trajetória e nem sempre reconhecida. Ah, e por falar em indicações… Meryl Streep chega a sua 19ª indicação ao Oscar… sendo que destas impressionantes 19 vezes ela abocanhou a estatueta em três ocasiões. Recordista absoluta e, acredito, atriz difícil de ser batida. Preparem-se para piadinhas sobre isso até a cerimônia do Oscar e, claro, durante a entrega do prêmio.

Melhor Maquiagem e Cabelo:

Avaliação: Essa, talvez, seja a única categoria com alguma surpresa. Principalmente por terem fechado a lista com apenas três indicados. Ainda não vi a Into the Woods, mas tenho a impressão que o filme poderia estar aqui. Dos indicados, assisti apenas a The Grand Budapest Hotel. O trabalho de maquiagem e cabelo da produção realmente é muito bem feito. Mas vi algumas fotos de Foxcatcher e acredito que ele é um forte concorrente. De qualquer forma, como nas outras situações, só vou poder me posicionar melhor assistindo a todos os concorrentes.

Melhor Figurino:

Avaliação: Nesta categoria sempre levaram vantagem filmes de época e de ficção científica/fantasia. Dos indicados, assisti apenas a The Grand Budapest Hotel que, novamente, tem nesta categoria técnica um de seus pontos fortes. Merecida a indicação, pois. Ouvi falar muito bem dos figurinos de Maleficent. Sobre os demais, prefiro comentar posteriormente.

Melhor Fotografia:

Avaliação: Quando apareceu Ida no telão dos indicados da Academia, ganhei o meu dia. Essa produção polonesa, também indicada como Melhor Filme em Língua Estrangeira, tem uma fotografia primorosa, daquela que fica na tua lembrança por muito tempo. Muito justa a indicação, pois. The Grand Budapest Hotel também tem na fotografia um de seus pontos fortes, o mesmo com Unbroken – que, aliás, me fez relembrar diversos filmes das décadas de 1950 e 1960. A produção dirigida por Angelina Jolie tem alma na fotografia, um de seus pontos fortes. Os outros filmes ainda preciso assistir, para comentar. Mas, entre os três que eu vi, votaria em Ida.

Melhor Roteiro Adaptado:

Avaliação: Esta categoria, junto com a próxima, está entre as minhas favoritas. Para mim, um roteiro é o ponto-chave de uma produção. Ela é excepcional ou não por causa dele. Pois bem, gostei de ver o filme de Clint Eastwood, Amerian Sniper, indicado. Mesmo sem ter assistido ele ainda.🙂 The Theory of Everything era uma bola cantada nesta categoria, ainda que eu tenha as minhas ressalvas sobre o filme – saiba mais na crítica sobre a produção acessível neste link. Como assisti apenas a The Theory of Everything, não me sinto confortável para opinar ainda sobre esta categoria.

Melhor Roteiro Original:

Avaliação: Esta talvez seja, depois de Melhor Filme e Melhor Filme em Língua Estrangeira, a minha categoria favorita no Oscar. Depois viriam as categorias para os atores e o diretor(a). Gostei muito de Nightcrawler ter sido lembrado e aparecer na lista do Oscar. O filme tem os seus defeitinhos, mas sem dúvida o roteiro é um de seus pontos fortes. E como a produção toca em temas importantes nos dias atuais, muito justo ela aparecer no Oscar e ganhar visibilidade com esta indicação. Boyhood é um dos filmes do ano – ou, talvez, o melhor filme de 2014. Tem um roteiro fantástico e, por isso mesmo, comparando com os outros filmes que eu assisti nesta categoria (acrescento The Grand Budapest Hotel), ele receberia o meu voto. Ainda assim, preciso assistir a Birdman e Foxcatcher antes de bater o martelo – tenho muita curiosidade sobre estas duas produções.

Melhor Trilha Sonora:

Avaliação: Aqui, dois super veteranos e mestres na arte da composição dividem a cena com dois nomes menos conhecidos. O genial, de quem sou ultra fã Alexandre Desplat está indicado duplamente por The Grand Budapest Hotel e The Imitation Game. O anúncio seguido do nome dele duas vezes arrancou risadas da plateia que estava no teatro onde os indicados foram anunciados e também da presidente da Academia. O outro veterano na disputa é o genial Hans Zimmer, indicado por Interstellar. Ele já ganhou um Oscar, por The Lion King, e foi indicado a outras sete vezes antes do Oscar 2015. Desplat e Zimmer dividem espaço com Gary Yershon, de Mr. Turner, e Jóhann Jóhansson de The Theory of Everything. Preciso assistir a três filmes da lista, mas acho que Jóhansson faz um trabalho excepcional em The Theory of Everything. Talvez ele seja o nome a ser batido este ano.

Melhor Filme em Língua Estrangeira:

  • Ida, da Polônia
  • Leviathan, da Rússia
  • Tangerines, da Estônia
  • Timbuktu, da Mauritânia
  • Wild Tales (Relatos Salvajes), da Argentina

Avaliação: Nesta categoria, minha alegria especial por mais uma indicação da Argentina. Nosso país vizinho, volta e meia em crise – e atualmente passando por mais uma -, nos mostra mais uma vez que tem um cinema muito superior ao nosso. E isso não é coisa de “leitura ianque”. De fato o cinema argentino, e isso há muito tempo, mostra muito mais qualidade, na média, que o brasileiro. Gostei de ver mais uma vez uma produção argentina chegar lá. Ida era uma indicação prevista, assim como Leviathan – que ganhou o Globo de Ouro. Interessante ver países pequenos e sem uma tradição forte no cinema, como Estônia e Mauritânia, chegando também. Dos indicados, assisti apenas a Ida e acho que o filme mereceu figurar na lista. Agora, preciso ver aos demais para poder fechar o meu voto.

Melhor Direção:

Avaliação: Fiquei feliz com a indicação de três nomes de diretores que eu admiro muito: Alejandro Iñarritu, Richard Linklater e Wes Anderson. Os outros dois, ainda preciso conhecer melhor. Há tempos tiro o meu chapéu para Inãrritu, diretor mexicano que dá aula de direção e de cinema. Muito bacana vê-lo entre os indicados – e um ano após o conterrâneo dele, o também genial Alfonso Cuarón, ganhar nesta mesma categoria. Isso seria um sinal?🙂 Anderson, ainda que muito competente, não seria o meu voto. Preciso assistir aos outros três trabalhos mas, inicialmente, eu penderia para o genial Richard Linklater que nos entregou a joia rara Boyhood.

Melhor Atriz:

  • Marion Cottilard, por Two Days, One Night
  • Felicity Jones, por The Theory of Everything
  • Julianne Moore, por Still Alice
  • Rosamund Pike, por Gone Girl
  • Reese Witherspoon, por Wild

Avaliação: Nesta e na próxima categoria eu gostei da renovação entre os indicados. Tirando Julianne Moore da lista, temos um grupo de atrizes jovens e que ainda estão em ascensão. Fiquei especialmente feliz pela indicação de Marion Cottilard, indicada apenas uma vez antes no Oscar, em 2008, por La Môme, quando levou a estatueta para casa. Ela deveria ter sido indicada em outras ocasiões e, este ano, aparece novamente no radar da Academia. Entre todas as indicadas, vi apenas o trabalho de Felicity Jones em The Theory of Everything. Ela está bem, mas não acho que o desempenho dela seja digno de um Oscar. Julianne Moore e Reese Witherspoon chegam na disputa após ganharem o Globo de Ouro – a primeira por Drama, a segunda por Comédia ou Musical. Da minha parte, sou sempre adepta de Julianne Moore, que considero uma das melhores atrizes não apenas de sua geração, mas de todos os tempos. De qualquer forma, preciso assistir a todos os desempenhos para então opinar.

Melhor Ator:

Avaliação: Como nas categorias de ator e atriz coadjuvantes, novamente aqui existe um certo equilíbrio entre atores veteranos e nomes que ainda estão em ascensão. De qualquer forma, pela primeira vez em muito tempo, não vi na lista nenhum nome óbvio ou que já seja figura carimbada no Oscar. E isso é bom, muito bom. Promissor para o cinema de Hollywood. Da minha parte, gostei muito de ver os nomes de Steve Carell, Benedict Cumberbatch e Michael Keaton entre os indicados. O primeiro e o terceiros são atores geniais, mas pouco reconhecidos. O segundo está em franca ascensão é um dos favoritos entre os nerds – eu incluída. Preciso assistir aos demais, mas desde já eu opino que este deve ser o ano de Eddie Redmayne. Ele é o nome de The Theory of Everything e tem, realmente, um desempenho primoroso no filme. Sem dúvida, o nome a ser batido este ano.

Melhor Filme:

Avaliação: Lista interessante a deste ano. E que mostra um passo a mais no processo de modernização da Academia. Não existe, no Oscar 2015, um franco favorito e nem uma produção do tipo blockbuster. Há muitos filmes de baixo orçamento e que são ousados na dinâmica, na proposta conceitual e no tema abordado. Ainda preciso assistir à maioria, mas talvez The Theory of Everything seja o mais “politicamente correto” dos filmes concorrentes. Não acho ele um filme que mereceria estar entre os melhores de 2014, assim como não acho isso de The Grand Budapest Hotel. Mas os dois, querendo ou não, apresentam um “conjunto da obra”, especialmente nos elementos técnicos, bem acabado. Fiquei feliz pelo filme de Eastwood estar indicado – apesar de sentir a ausência do diretor na categoria específica -, assim como o inevitável Boyhood. Tenho grande curiosidade para assistir a American Sniper e Birdman. Talvez eles me façam mudar de ideia. Porque, até o momento, o meu voto iria para Boyhood. Ah sim, e ia me esquecendo: interessante também que foram indicados apenas oito filmes este ano. Houve anos com 10 e com nove desde que a lista foi ampliada dos antigos cinco indicados. Não acho que o ano tenha sido fraco para termos apenas oito indicados… talvez isso aconteceu porque poucos filmes concentraram a maioria dos votos. Vai saber… A Academia poderia explicar pra gente, não?

 

Estes são os indicados do ano. Atualizem, como eu farei, a lista de vocês de filmes para assistir. Acredito que não houve nenhuma grande surpresa entre os indicados. Os favoritos estão aparecendo na lista. Muitos correm por fora em suas respectivas categorias. Um dos destaques foi The Grand Budapest Hotel receber nove indicações ao Oscar.

Chamo a atenção que ele não foi indicado em nenhuma categoria de atores. Isso porque é um filme que se destaca pela parte técnica, principalmente, mas não pelo conjunto da obra. Duvido muito que ele seja premiado sem ser em alguma categoria técnica. É o forte candidato a ser o filme bem indicado do ano, mas ficar com quase estatueta alguma.

No mais, gostei da Argentina chegar novamente na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. É um país vizinho ao nosso, quase sempre em crise, mas que tem um cinema muito mais desenvolvido e de qualidade que o nosso, na média. Também gostei de ouvir o nome de Clint Eastwood, meu herói para sempre, entre os produtores indicados em Melhor Filme por American Sniper.

Boyhood chegou em todas as categorias esperadas, e tivemos uma boa renovação nos indicados a Melhor Ator e Melhor Atriz. Enfim, este Oscar está interessante. Será emocionante acompanhá-lo no dia 22 de fevereiro, quando o Oscar será apresentado no Dolby Theatre no Hollywood & Highland Center nos Estados Unidos. A transmissão está marcada para começar às 16h no horário da Califórnia, 21h no horário de Brasília. O Oscar será transmitido este ano para 225 países e apresentado por Neil Patrick Harris, conhecido ator da série How I Met Your Mother.

SALDO GERAL: Os recordistas em indicações este ano são The Grand Budapest Hotel e Birdman que concorrem, cada um, em nove categorias. Seguem atrás e empatados com seis indicações American Sniper e Boyhood. Depois vem, na fila dos filmes com cinco indicações, Foxcatcher, Whiplash, Interstellar e The Theory of Everything. Desconfio que The Grand Budapest Hotel ficará apenas com um, dois e até três estatuetas em categorias técnicas. Concorrendo mais pesado estarão Boyhood, Birdman e American Sniper. The Theory of Everything também levará alguma estatueta – praticamente certa a de Melhor Ator. Para resumir, não acredito em um Oscar que vá premiar com muitas estatuetas apenas um filme. A premiação vai ficar, mais uma vez, um bocado pulverizada. Como nos últimos anos, vou acompanhar a transmissão com vocês aqui no blog. Até lá! E enquanto isso, se possível, acompanhem as críticas que vou fazendo sobre os indicados por aqui.😉 Inté!

ADENDO (21/01): Gente, dormi no ponto ali encima e ninguém me chamou a atenção! Ai, ai, ai! Esqueci de citar outro super indicado deste ano: The Imitation Game. Depois de The Grand Budapest Hotel e Birdman este é o filme mais indicado do ano porque ele concorre em oito categorias. Ainda não o assisti, para dar pitaco, mas pretendo fazer isso em breve. Mas é bom eu fazer este adendo, já que ele é um forte candidato – aparentemente.

The Theory of Everything – A Teoria de Tudo

11 de janeiro de 2015 4 comentários

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Toda vez que um filme tenta contar a história de alguém que de fato existiu e faz isso de maneira extremamente correta, me incomodo. Isso porque ninguém tem uma vida assim. Não acredito em trajetórias floridas, edificantes, sem alguns descontroles aqui e ali – sejam eles da natureza que for. Por isso mesmo, admito, me decepcionei um pouco com The Theory of Everything, o filme baseado em parte da vida do físico mundialmente conhecido Stephen Hawking. Esta produção tem uma grande qualidade, mas vários outros defeitos.

A HISTÓRIA: Cenas um tanto borradas dentro de um palácio. Stephen Hawking (Eddie Redmayne) faz círculos sobre um lindo tapete em sua cadeira de rodas. A imagem faz lembrar um relógio no sentido anti-horário. O tempo volta, e o mesmo círculo vemos na roda de uma bicicleta em Cambridge, na Inglaterra, em 1963. Hawking está em uma bicicleta e o amigo Brian (Harry Lloyd) em outra. Os dois competem para ver quem chega mais rápido em uma festa. É lá que Hawking vê pela primeira vez Jane (Felicity Jones), com quem ele começa a namorar tempos depois. Esta é a história dos dois e de como Hawking surpreendeu o mundo por suas teorias e por seu exemplo de vida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Theory of Everything): O nome deste filme é Eddie Redmayne. Ele dá um banho de interpretação em um papel difícil de ser vivenciado. Entra para a lista de grandes atores que já fizeram isso antes – lembro, assim, de pronto de Mathieu Amalric em Le Scaphandre et le Papillon, de Javier Bardem em Mar Adentro e de Marion Cotillard em De Rouille et d’Os, só para citar algumas interpretações marcantes.

Redmayne estudou certamente em detalhes as aparições de Hawking e tentou emular ao máximo o jeito do físico para repassar para o público da melhor forma possível a evolução dele desde a fase de estudante até a de personalidade inglesa recebida pela rainha da Inglaterra. Ele é o melhor do filme, não há dúvida. Outros pontos dignos de elogios são a direção de fotografia de Benoît Delhomme e a trilha sonora de Jóhann Jóhansson. A edição de Jinx Godfrey também é bastante correta, assim como os figurinos de Steven Noble.

Propositalmente eu quis destacar os pontos positivos antes de falar dos negativos. Até porque acho os segundos mais abundantes. Stephen Hawking é um homem extraordinário, que mudou para sempre a forma com que as pessoas veem a física e a ciência. Com a obra Uma Breve História do Tempo, ele tornou estes dois assuntos foco de um bestseller. Quem diria!

E qualquer pessoa que sabe disso, sabe também que ele escreveu a sua obra-prima em uma cadeira de rodas, praticamente imobilizado. Da minha parte, meu conhecimento dele ia um pouco além disso. Eu sabia também que ele é conhecido pelo bom humor e que havia feito algumas aparições na série The Big Bang Theory – uma de diversas que eu acompanho. Pronto, isso era tudo.

Por isso mesmo quando me mostraram o trailer de The Theory of Everything, fiquei fascinada pela premissa do filme. Segundo aquela pílula da história – que, vocês sabem, costumo evitar -, veríamos nesta produção como o amor foi fundamental para Hawking e, consequentemente, para a ciência. Fiquei interessada em conferir este trabalho não apenas por este viés romântico, mas também por conhecer um pouco mais sobre a doença que fez Hawking deixar de ter uma vida normal e também para saber as circunstância que cercaram o seu trabalho científico.

Imaginem que, por tudo isso, eu tinha um bocado de expectativas sobre esta produção. Daí que começo a assistir a The Theory of Everything, e o que me salta aos olhos é o excelente trabalho de Eddie Redmayne. Conforme a história vai se desenvolvendo, espero também que o roteiro de Anthony McCarten faça jus a Hawking. Ledo engano.

Sem dúvida o principal problema deste filme é o roteiro fraco de McCarten. Enquanto assistia à produção e descontando o trabalho de Redmayne, senti falta de um pouco mais de verossimilhança na história. Afinal, sempre me pergunto, se alguém se deu ao trabalho de fazer um filme inspirado em uma história real, o que custa ser o mais fiel possível à essa história? E não precisei de muito para desconfiar do que eu vi em The Theory of Everything.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A primeira estranheza é que, mesmo considerando que “os tempos eram outros”, parece um pouco forçada a forma com que Jane decide se casar com Stephen mesmo sabendo que ele possivelmente teria apenas dois anos de vida. Certo que ela estava apaixonada por ele, inclusive dizia que o amava, mas me pareceu que a história, pelo menos da forma com que McCarten escreveu, pulou alguns episódios e/ou capítulos. Acho que mais cenas dirigidas por James Marsh deveriam ter mostrado a relação dos dois antes dela tomar uma decisão tão contundente e definitiva.

Depois, é verdade, o prognóstico médico se mostra errôneo, e Hawking não morre após dois anos. Pelo contrário, ele vai piorando pouco a pouco e vive até hoje – no último dia 8 de janeiro, aliás, ele completou 73 anos de vida. Então é louvável a dedicação de Jane para com o marido, mas vai ficando cada vez mais claro que o amor não basta para eles seguirem juntos.

Ela parece ter dificuldade de entender o humor dele, muitas vezes – como na cena em que ele brinca com os filhos -, e certamente eles são filhos de mundos muito diferentes: ele, da ciência, ela, religiosa. Aliás, neste quesito, este filme me fez lembrar a Creation, uma produção bem acabada e que revela um pouco da vida íntima de Charles Darwin – você pode conferir a crítica aqui. Curiosamente, enquanto Darwin também era um homem da ciência, a mulher dele se revelava muito religiosa – e tinha, a exeplo de Jane, dificuldade de entender como o marido não acreditava em Deus. Os dois filmes, por coincidência, tem suas qualidades, mas diversas falhas também.

Mas voltando para The Theory of Everything… Segundo esta produção, é louvável a dedicação de Jane para com o marido. Incentivado por ele, ela acaba entrando no coral comandado por Jonathan Hellyer Jones (o competente Charlie Cox). Logo no início fica evidente uma certa tensão sexual entre os dois, e quando ele passa a frequentar a casa da família, aparentemente sob a anuência de Hawking, esse interesse entre Jane e Jonathan vai ficando mais evidente. Esse é o ponto crucial em que eu desconfiei da história.

Para mim, ficou difícil de acreditar que Hawking decidiu “dar bola” para a enfermeira Elaine Mason (Maxine Peake) como uma forma de terminar com o casamento com Jane para vê-la feliz partindo para uma nova vida com Jonathan. Sério mesmo que depois de Jane trair o marido na noite em que ele foi parar no hospital com pneumonia e os médicos sugerirem que o melhor poderia ser deixar ele morrer que ela iria lutar pela vida de Hawking e imediatamente se distanciar de Jones?

Sim, esse é o conto típico de Hollywood. Ou do cinemão comercial que quer nos contar uma história perfeita, como a dos contos de fada, em que os maus sempre são punidos e nos quais as princesas sempre ficam com os príncipes. A vida real é muito mais complexa que isso. Desta forma, desconfiei do conto de The Theory of Everything. Segundo ele, Jane foi fiel sempre, só pulou a cerca porque foi incentivada por Hawking e, ele sim, tinha uma natureza um tanto “safada” não apenas por não acreditar em Deus, mas porque vivia de risinhos com a enfermeira e porque gostava de revistas de sacanagem.

Oras, meus caros, é preciso ser muito inocente para acreditar nesta fórmula perfeita e de conto de fadas. Desconfiei, não gostei da quase santificação de Jane e nem da história “toda bela” de Hawking. Sempre há algo pode, em algum momento, no reino da Dinamarca. Pois bem, só depois de ver ao filme, que eu resolvi tirar algumas dúvidas a respeito. Foi aí que percebi que The Theory of Everything é baseado no livro Travelling to Infinity: My Life with Stephen escrito por Jane Hawking. Ah sim, daí tudo faz mais sentido.

Se este filme foi baseado no ponto de vista de Jane Hawking, claro que ela deveria parecer uma santa na história, não é mesmo? Evidente. Eu tinha uma vaga lembrança de que o próprio Stephen Hawking havia escrito um livro autobiográfico, e eu fui atrás. Encontrei a obra Minha Breve História (ou My Brief History, do original), lançada em 2013. E lá, meus caros, está o outro lado da moeda.

Hawking dedica um capítulo para os casamentos – porque além de ficar casado grande parte da vida com Jane, ele também se casou com uma de suas enfermeiras, Elaine Mason, no período de 1995 até 2007, quando eles se divorciaram. Desde então, Hawking conta no livro, ele mora sozinho com uma governanta. Pois bem, lá pelas tnatas, ele fala sobre o relacionamento de Jane com Jonathan, e fica sugerido de forma bem clara que os dois tiveram um caso por bastante tempo, com o amante da esposa morando inclusive na casa de Hawking, o que o teria deixado desconfortável lá pelas tantas. Uma versão bem diferente daquela da “santa Jane” que vemos no filme.

Além disso, senti falta de conhecer um Hawking mais brincalhão e menos “abobado”. Sempre soube da ironia refinada dele, mas isso fica bastante à margem da produção. Há falhas graves na história, assim como uma escolha bastante evidente por fazer o “feijão com arroz”, entregar uma história bem filmada, bonitinha, mas sem grandes altos e baixos como a vida de verdade se apresenta. Faltou realidade para um filme que pretende ser autobiográfico. E isso não é nada bom.

ADENDO: Senti, após escrever a crítica do filme e correr para publicá-la ainda no domingo, que faltou falar algo essencial: a história de Stephen Hawking é fantástica. Digna de tirarmos os nossos chapéus e que serve, de fato, como inspiração para muita gente. Em algo The Theory of Everything acerta: em mostrar como esse homem sempre amou a vida e quis/quer vivê-la o máximo possível. Ele, parece, enxerga potencial em todas as pessoas e nos ensina que as nossas dificuldades são fichinhas, na quase totalidade das vezes.

Apesar de vivenciar tantas dificuldades e limitações, ele nunca se sentiu limitado, e sempre guardo um bom sorriso e um olhar generoso. Tudo isso é fantástico e inspirador. O filme mostra um pouco isso, mas senti falta de ser mais legítimo com a história deste gênio. Este desperdício de potencial para fazer um filme verdadeiramente capaz de vencer gerações e continuar sendo importante, como é o caso do homem que inspirou esta produção, é o que acho mais lamentável. Mas a história de Hawking, em si, é digna de aplausos. Só queria acrescentar isso para não ser mal interpretada – não julguei mal o trabalho ou o exemplo de Hawking, mas o filme fraco que fizeram a respeito dele.

NOTA: 7,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: As qualidades técnicas desta produção eu já destaquei acima. Talvez vale acrescentar ainda o bom trabalho de John Paul Kelly no design de produção; e de Claire Nia Richards na decoração de set. Por outro lado, me incomodou um pouco o trabalho dos nove profissionais da equipe de maquiagem. Senti falta dos personagens, especialmente os protagonistas, envelhecerem mais durante o filme – afinal, muitos anos se passaram entre os primeiros e os últimos fatos, incluindo o miolo da história. Faltou vermos isso visualmente no rosto dos atores.

Dos atores em papéis secundários, sem dúvida alguma Harry Lloyd é o que tem o maior destaque como Brian, grande amigo de Stephen Hawking segundo o filme. Também vale destacar o trabalho de Simon McBurney como Frank Hawking, pai de Stephen; Lucy Chappell em micro-pontas como Mary Hawking, mãe do físico; Adam Godley em uma aparição como o médico que dá o diagnóstico catastrófico, lembrando outra aparições no melhor estilo da finada série Lost; e o sempre ótimo David Thewlis como Dennis Sciama, professor e mentor de Stephen Hawking.

Além dos atores já citados, vale comentar as pontas de Tom Prior como Robert Hawking quando o filho do físico tinha 17 anos; de Sophie Perry quando Lucy Hawking tinha 14 anos; e de Finlay Wright-Stephens quando Timothy Hawking tinha oito anos. Eles aparecem brincando no parque quando Hawking recebe as honras da realeza britânica – e quando ele fala uma das frases mais legais da produção, referindo-se ao maior feitos dos dois, que foi ter gerado e criado aqueles três filhos. Este é um dos momentos importantes da produção, assim como o discurso final de Hawking em que ele ressalta que todo o ser tem um propósito e a sua beleza. Esse ponto, assim como o trabalho de Eddie Redmayne, valem a experiência.

The Theory of Everything estreou em setembro no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria ainda de outros cinco festivais. Nesta trajetória, a produção recebeu 12 prêmios e foi indicada a outros 62, incluindo quatro Globos de Ouro. Até o momento – a premiação do Globo de Ouro ainda não chegou na parte boa – o filme recebeu apenas prêmios de menor relevância. Mas ele está indicado aos Globos de Ouro de Melhor Filme – Drama, Melhor Ator – Drama para Eddie Redmayne, Melhor Atriz – Drama para Felicity Jones e Melhor Trilha Sonora. Acredito que apenas Redmayne tem já uma mão na estatueta… veremos se isso se confirma.

De acordo com o site Box Office Mojo, esta produção teria custado cerca de US$ 15 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 25,9 milhões até hoje, dia 11 de janeiro. No restante dos países em que o filme já estreou ele conseguiu outros US$ 20,3 milhões. Ou seja, está conseguindo se pagar.

Este filme foi totalmente rodado no Reino Unido, incluindo Cambridge – outro erro histórico, já que Hawking morou um tempo importante nos Estados Unidos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco menos eufóricos, dedicando 157 críticas positivas e 42 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 79% e uma nota média de 7,3 – ainda assim, um bom patamar se levarmos em conta a exigência dos críticos dos site.

Estou correndo para escrever a crítica deste filme e publicá-la antes do final de domingo. Mas prometo que em breve vou acrescentar mais algumas informações por aqui, como curiosidades da produção e o resultado do Globo de Ouro nas categorias em que esta produção está concorrendo.

Esta é uma produção 100% do Reino Unido.

CONCLUSÃO: Algumas histórias verdadeiras são impressionantes. Poucas tanto quanto a de Stephen Hawking. Por isso mesmo, é um tanto frustrante encontrar um filme que não apenas perde a oportunidade de ser legítimo com a história real mas, principalmente, nem consegue ser melhor que os fatos nos quais deveria se basear. The Theory of Everything é uma produção muito “politicamente correta”. Ela tem um grande ator liderando o trabalho e fazendo a experiência valer a pena, mas é só. O roteiro é fraco e a condução do filme um tanto preguiçosa. Faltou tempero por aqui, algo que Hawking sempre conseguiu colocar em seus escritos e participações na cultura pop das últimas décadas. Perderam a oportunidade de fazer um filme melhor sobre ele.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: The Theory of Everything, como eu disse acima, recebeu quatro indicações ao Globo de Ouro. O prêmio será entregue neste domingo, nos Estados Unidos. Mas independente se o filme vai receber ou não algum Globo de Ouro, o que nos interessa aqui é o Oscar. As indicações do filme ao prêmio máximo da Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood, contudo, pode nos dar uma prévia do que virá aí no próximo dia 15, quando serão conhecidos os indicados ao Oscar.

Para mim, é inevitável a indicação de Eddie Redmayne como Melhor Ator no Oscar 2015. Ele é o que há de melhor nesta produção e, de fato, faz um trabalho memorável, para ser guardado entre os grandes de todos os tempos. Ele será o nome a ser batido este ano – tenho sérias dúvidas se alguém conseguirá fazer isso. Além dele, outras indicações são incertas.

Não me surpreenderia que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood colocasse The Theory of Everything entre os 10 indicados a Melhor Filme do ano. Não acho que o filme mereça, mas sem dúvida é uma forma interessante de reconhecer a figura de Stephen Hawking e, de quebra, agradar aos milhões de fãs dele – incluindo aqueles que seguem a série The Big Bang Theory onde, volta e meia, ele é citado ou faz uma participação. Não seria também surpreendente o filme ser indicado em categorias como Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora.

Para o meu gosto, o único prêmio que esta produção pode merecer é o de Melhor Ator. O restante, seria forçar a barra. Especialmente porque há outros filmes muito melhor acabados e com um desenvolvimento muito mais interessante que este para serem premiados este ano.

Boyhood – Boyhood: Da Infância à Juventude

3 de janeiro de 2015 7 comentários

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Durante a nossa vida, vamos mudando de perspectivas pouco a pouco. O olhar vai se ampliando, e por mais que pareça que muitas vezes surgem mais dúvidas que certezas, é fato que aprendemos muito no caminho. Tudo que vem depois do primeiro passo são erros e acertos, alegrias e tristezas, confirmações e negações, surpresas e previsibilidade. Boyhood é um filme excepcional porque mostra tudo isso com maestria. Há tempos não via um filme tão profundo e inspirador. Sem dúvida alguma, uma produção que deve chegar forte no próximo Oscar.

A HISTÓRIA: Coldplay na vitrola, céu azul com algumas nuvens, e um garoto deitado na grama, Mason (Ellar Coltrane) observa aquele quadro celeste. A mãe dele (Patricia Arquette) aparece e eles vão para casa. Logo que ela chega, ele comenta que acha que sabe de onde vem as moscas. No caminho, ela comenta sobre a reunião que teve com a professora dele. Depois, ele sai para pedalar com o amigo, Tommy (Elijah Smith). A irmã de Maison, Samantha (Lorelei Linklater) surge para chamar o garoto para comer. Acompanhamos essa família e o crescimento dos irmãos até que eles vão para a faculdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Boyhood): Este é um destes filmes que por mais que você tente escrever sobre ele, os comentários sempre vão ficar aquém do que é a produção. Uma de tantas provas de que este filme é brilhante é que ele tem duas horas e quarenta e cinco minutos de duração e, mesmo assim, Boyhood não fica chato em nenhum momento.

Claro que, e é bom você saber isso se ainda não assistiu ao filme, é preciso estar preparado, com paciência – ou melhor, tempo, sem nenhum compromisso imediato – e bem disposto para ver a Boyhood. Não apenas pela duração do filme, mas pela proposta dele de debruçar-se sobre a vida de algumas famílias e mostrar a evolução deles no decorrer de um longo período. Você fica fascinada(o) com aquelas histórias, mesmo elas parecendo, muitas vezes, tão familiares.

Esta é uma das diversas graças de Boyhood. Tenho certeza que o filme, além de nos apresentar uma história de ficção com diversas camadas de leituras, também provoca autorreflexão do espectador. Da minha parte, não tive uma realidade parecida com a dos protagonistas mas, ainda assim, sempre há algum elemento que te faz lembrar da tua própria história. São raros os filmes que conseguem isso. Apresentar uma história interessante e, ao mesmo tempo, despertar empatia dos diferentes públicos.

Você que acompanha esse blog há algum tempo sabe que eu sou avessa à saber sobre os filmes antes de assisti-los. Procuro não assistir a trailer e nem ler nada a respeito. Mas sem querer, ouvi um comentário de que Boyhood tinha sido filmado com os mesmos atores por diversos anos. Depois de ver ao filme confirmei a informação: o genial diretor Richard Linklater, responsável também pelo roteiro desta produção, filmou esta história com os principais atores envolvidos no enredo durante 12 anos.

Então, e isso é inovador, acompanhamos a evolução daqueles personagens não apenas na história, mas fisicamente. E, claro, quando os atores que dão vida para aquelas linhas de roteiro também amadurecem, percebe-se esta evolução de forma muito mais dinâmica e realista do que apenas mudando os atores ou enchendo os adultos de maquiagem para demonstrar a passagem do tempo – que é o que a maioria dos filmes fazem.

A entrega dos atores de Boyhood é, assim, diferenciada. Assim como a capacidade do roteiro em não apenas fazer-se crer, mas também em criar empatia. E que roteiro, meus caros! Linklater acerta a mão em cada detalhe, sendo coerente com as descobertas, questionamentos, problemas e relacionamentos do protagonista e da irmã dele, em especial, que são as figuras que mais dominam a cena.

Neste sentido, esta produção é um libelo filosófico sobre a vida. Além de interessante, é marcante ver a evolução de Mason com o passar dos anos, assim como o esforço dos pais separados dele para dar uma formação decente para o garoto e a irmã. Ao fazer esse exercício de acompanhar Mason e os demais durante 12 anos, Linklater está também contando parte da história de uma geração.

Essa narrativa está presente não apenas na trilha sonora capitaneada por Meghan Currier e Randall Poster e que faz uma boa revisitada em canções marcantes da história recente dos Estados Unidos e do mundo, mas também nas experiências que os irmãos Mason e Samantha passam – como a estreia do filme do Harry Potter. Essa característica do filme faz a história dele ser ainda mais “familiar” para os espectadores.

Fascinante ver como Mason começa com algumas perguntas e descobertas, a exemplo de como surgem as moscas, e termina se questionando sobre o sentido de tudo. E isso porque acompanhamos ele apenas até aquele momento de ruptura quando ele sai da casa materna. Certamente se acompanhássemos ele por ainda mais tempo, entrando na vida universitária e depois adulta dele, outros questionamentos e descobertas surgiriam.

Uma das qualidades bacanas de Boyhood, pra mim, é que o filme trata de uma constituição familiar bastante comum nas últimas décadas, que foi uma mãe solteira tentando cuidar dos filhos enquanto o ex-marido tentava fazer a sua própria vida. Ainda mais bacana é que o pai das crianças, interpretado pelo ótimo Ethan Hawke, nunca se ausentou. Então temos, pelo menos, duas perspectivas distintas na formação destes jovens. O que, de fato, aconteceu em muitos lares reais mundo afora.

Interessante também acompanhar os acertos, os erros, os tropeços e as boas tacadas feitas tanto pela mãe quanto pelo pai de Mason e Samantha. Eles vão evoluindo, junto com os filhos. A mãe, como tantas outras que acaba tendo que cuidar dos filhos praticamente sozinha, tenta outras vezes constituir uma família. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando o filme começa, ela está namorando um sujeito que não se adapta muito bem à rotina de uma mãe que tem dois filhos para cuidar.

Depois, ela acaba se casando duas vezes. Primeiro, com o professor universitário Bill Welbrock (Marco Perella), pai de Mindy (Jamie Howard) e Randy (Andrew Villarreal). Depois, com um sujeito bem mais novo, com bastante experiência em servir o Exército, Jim (Brad Hawkins). Entre o primeiro namorado e o segundo marido, a mãe dos protagonistas muda-se diversas vezes, tanto de cidade quanto de casa. Em cada ocasião, Mason e Samantha tem que se adaptar a novas escolas e fazendo novos amigos.

Muitas famílias sabem o que isso significa. Rupturas, recomeços, dificuldades de diferentes ordens. Mas algo que Boyhood mostra bem é que um laço forte acaba sustentando estas pessoas: o amor. Há diversos conflitos, especialmente entre os irmãos, com gênios bem diferentes, mas todos se gostam e se respeitam. Percebemos no roteiro de Linklater como cada indivíduo, especialmente Mason e Samantha, vão modificando não apenas a forma de ver o que acontece ao redor, mas também a forma com que lidam com as diferentes demandas da vida.

O texto do diretor é brilhante. Ele reserva momentos de pura reflexão e contemplação, ao mesmo tempo que dá espaço para eventos tensos e chocantes. Especialmente as tentativas frustadas da mãe dos protagonistas em formar uma família rendem pano pra manga. E elas reforçaram um pensamento que eu tenho há algum tempo: especialmente complicada e triste a vida de uma mãe solteira que faz de tudo para constituir uma família e, nesta busca algumas vezes desesperada, não observa bem o homem que está colocando dentro de casa.

O professor Bill Welbrock, interpretado com perfeição por Marco Perella, é um exemplo primoroso disto. Aparentemente ele era um sujeito respeitável, equilibrado, admirável. Mas foi só começar a convivência e observar ele mais de perto para ver que haviam muitos problemas ali. A cena dele intimidando e agredindo a família na mesa é o momento mais impactante do filme.

Enquanto isso, o “inconsequente” pai de Mason e Samantha vai trilhando a sua vida pouco a pouco. De um sujeito sem grandes perspectivas, que tentava ser músico ao mesmo tempo que aceitava qualquer emprego para pagar as contas, ele chega a uma versão de si mesmo bem mais responsável. Lá pelas tantas, ele parece desencanar da mãe das crianças e decide formar uma nova família com a simpática Annie (Jenni Tooley).

De família bem católica e tradicional, Annie apresenta para Mason e Samantha uma versão de família que, até então, eles desconheciam. Especialmente significativo o aniversário de Mason em que ele vai passar um tempo com os familiares de Annie, interpretados por Richard Andrew Jones e Karen Jones.

Algo que me chama muito a atenção no trabalho de Linklater é que ele não santifica e nem condena nenhum de seus personagens. Quando alguns podem criticar a mãe, pensando que ela deveria ter sido mais responsável com os homens que ela colocou dentro de casa, ele nos apresenta diversos exemplos dela sendo modelo para pessoas de fora da família.

Primeiro, ele sinaliza nesta direção com alunos dela quando a personagem de Patricia Arquette começa a dar aula na universidade. Depois, ela recebe um elogio inesperado do pai de Mason e Samantha e, para fechar com chave-de-ouro, ficamos sabendo que ela serviu de inspiração para um trabalhador latino investir na própria educação e ascender na vida.

Na verdade, a mãe dos garotos é uma de tantas outras batalhadoras. Porque não é fácil educar dois filhos, tendo ou não o apoio do pai deles por perto – ou em uma família constituída de forma tradicional. Boyhood deixa isso muito claro, e nos faz repassar a nossa própria trajetória. Na reta final da produção, com Mason perto de ir para a universidade, acompanhamos várias descobertas do rapaz. Da primeira namorada até o primeiro emprego, passando pelos primeiros questionamentos sérios deles de vida.

Tudo é aprendizado. As perguntas nunca param, mas a inquietação vai diminuindo. Ou, como disse de forma brilhante o pai de Mason e Samantha perto do final, vamos sentindo menos com o passar do tempo, porque criamos certa resistência. Essa é uma das diversas pérolas do filme. Aliás, todo aquele diálogo entre Mason e o pai é perfeito. O garoto percebe que o tempo passa, mas em muitos sentidos os pais deles seguem perdidos como ele, ainda jovem. Isso é fato, ninguém é tão sábio que não siga com dúvidas ou se equivocando, mesmo velho.

Na reta final da produção, algumas outras lições importantes. A mãe dos garotos começa a sofrer com a síndrome do ninho vazio, percebendo que investiu muito nos filhos e, talvez, pouco nela mesma – ainda que, no caso dela, até sobrou espaço para bastante atitude, desde evoluir na própria formação, fazendo faculdade e mestrado, até ter tido outros relacionamentos. Ainda assim, não é fácil romper com os hábitos e com a vida em comum com os filhos. Eis uma lição pela qual todos os pais passam.

Mas achei brilhante mesmo Mason iniciar a “vida adulta”, morando longe dos pais e em uma república universitária, logo descobrindo que existem muitos amores nesta vida. Respeito quem acha que só existe um grande amor, uma metade da laranja, uma tampa para a nossa panela. Da minha parte, acredito na versão final de Boyhood, na qual novos amores aparecem sempre, basta nos dispormos a encontrá-los. Evidente que, lá pelas tantas, é sempre possível romper com todas as opções e ficar apenas com um amor, constituindo família e recomeçando o ciclo. Mas esta escolha é de cada um. E será, um dia, de Mason e Samantha. Boyhood, por tudo isso, é fantástico.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Impossível não ficar impressionada com o excepcional trabalho do jovem Ellar Coltrane como Mason. Aos 20 anos, ele nos dá uma lição de como assumir um papel com garra e talento. Além de Boyhood, este jovem talento tem apenas outros quatro filmes no currículo. Não assisti a nenhum outro de seus filmes, mas acredito que o mais conhecido deles seja Fast Food Nation, também dirigido e com roteiro de Richard Linklater. Depois do reconhecimento por Boyhood, acho que vale seguir a carreira de Coltrane para ver o que mais ele fará.

Apesar de em Boyhood a atriz Lorelei Linklater interpretar a irmã mais velha de Mason, na vida real ela tem a mesma idade de Ellar Coltrane: 20 anos. Ela é quase três meses mais velha que o parceiro de cena. Além de Boyhood, Lorelei tem apenas outros três filmes no currículo. O primeiro deles, lançado em 2001; o segundo, um curta em vídeo; e o terceiro, em fase de pós-produção. Como o nome dela sugere, ela é filha de Richard Linklater, diretor e roteirista de Boyhood. Acho ela boa, mas não vi tanto talento nela quanto em Ellar Coltrane.

Sempre achei os atores Patricia Arquette e Ethan Hawke diferenciados. Especialmente pelas escolhas que eles fizeram em suas respectivas carreiras – escolhas estas nem sempre óbvia. Pois bem, eles participarem de um projeto diferenciado como Boyhood apenas reforça a minha opinião sobre eles. Poucos atores em Hollywood encarariam uma proposta tão diferente e que apresentasse tanto sacrifício e exposição. Mas estes dois atores, de fato, são diferenciados. Gostei muito do trabalho deles. Acho que os dois brilham com a mesma intensidade que Coltrane.

O foco está nos dois filhos e seus pais. Ainda assim, atores coadjuvantes ajudam a contar essa história e a fazê-la tão boa. Além dos atores já citados, vale citar o trabalho de Libby Villari como a avó dos garotos por parte de mãe; Sam Dillon como Nick, amigo da juventude de Mason; Zoe Graham como Sheena, primeira namorada do protagonista; Richard Robichaux como o primeiro chefe de Mason; e Jessi Mechler como Nicole, uma nova descoberta para o garoto. Há outros coadjuvantes, alguns com aparições bem interessantes, mas que eu não vou citar por terem tido uma importância menor na história.

Linklater deixa clara a sua admiração de bons professores e da formação das crianças e dos jovens. Não por acaso tem uma certa relevância alguns coadjuvantes que aparecem pouco, mas que tem falas inspiradoras na história. É exemplo disso Tom McTigue como Mr. Turlington, que dá aulas de fotografia para Mason; e Mona Lee Fultz como a professora do ensino médio do protagonista e que lhe dá bons conselhos após ele ter algumas fotografias reconhecidas em um concurso.

Da parte técnica do filme, além do excelente roteiro de Linklater, vale destacar a direção de fotografia de Lee Daniel e Shane F. Kelly; a edição perfeita de Sandra Adair; o design de produção – vital, como os elementos seguintes, para nos situar nos diferentes tempos da história – de Rodney Becker e Gay Studebaker; a decoração de set de Melanie Ferguson; e os figurinos de Kari Perkins.

Boyhood estreou em janeiro de 2014 no Festival de Cinema de Sundance. Depois, o filme participaria de outros 28 festivais, incluindo os de Berlim, Karlovy Vary e San Sebastián. Nesta trajetória o filme colecionou 84 prêmios e foi indicado a outros 85 – incluindo cinco indicações ao Globo de Ouro 2015.

Entre os prêmios que recebeu, destaque por ter figurado na lista de 11 filmes considerados “Filme do Ano” pelo AFI Award; por três prêmios no Festival de Berlim, incluindo o de Melhor Diretor; pelo prêmio de Melhor Filme Internacional Independente no British Independent Film Awards; pelo Prêmio da Audiência no Gotham Awards; por figurar na lista dos 10 melhores filmes do ano segundo a National Board of Review; pelo prêmio FIPRESCI de Melhor Filme do Ano no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián; e por diversos outros prêmios entregues pela crítica de dentro e de fora dos Estados Unidos.

Falando em Globo de Ouro, Boyhood está indicado nas categorias Melhor Filme – Drama, Melhor Diretor, Melhor Atriz Coadjuvante para Patricia Arquette, Melhor Ator Coadjuvante para Ethan Hawke e Melhor Roteiro. Todas estas indicações muito merecidas, diga-se.

Gostei do resultado financeiro obtido pelo filme. Afinal, não basta ter um projeto revolucionário, é preciso fazer com que ele dê lucro para quem apostou na produção. Boyhood teria custado cerca de US$ 4 milhões – orçamento baixíssimo para os padrões de Hollywood – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 24,2 milhões. No restante dos mercados em que já estreou, ele soma pouco mais de US$ 19,1 milhões. Ou seja, gerou quase US$ 43,4 milhões de caixa. Sem dúvida ele se pagou e está dando lucro. Que bom!

Agora, uma curiosidade sobre esta produção: ela começou a ser filmada em maio de 2002, ou seja, quando os atores principais tinham sete anos de idade, e terminou de ser rodada em outubro de 2013. Na verdade, 11 anos de filmagens e com lançamento 12 anos depois do filme ter começado a ser rodado.

Para quem, como eu, tem curiosidade sobre as locações dos filmes, comento que Boyhood foi totalmente rodado nos Estados Unidos, em cidades como Austin, San Marcos e Houston, todas no Texas.

Falando em curiosidades da produção, essa eu achei genial: Richard Linklater escalou a filha Lorelei para o papel de Samantha porque a garota estava sempre cantando e dançando ao redor da casa deles e pedindo para participar de um dos filmes do diretor. Pois bem, ele resolveu colocá-la no papel de Samantha, mas pelo terceiro ou quarto ano de filmagens, ela perdeu o interesse na brincadeira e pediu para o papel dela ser eliminado do filme, solicitando que o pai dela matasse Samantha na história. Ele recusou, dizendo que não era um fim trágico destes que ele estava planejando. No fim das contas, a garota voltou a se empolgar com o papel. Ainda bem. De fato não seria a melhor saída Samantha morrer no filme.

Apesar de ter sido rodado entre 2002 e 2013, Boyhood teve apenas 45 dias de filmagens neste período. E outra curiosidade: como nos Estados Unidos é ilegal assinar contratos com mais de sete anos de duração – para filmagens, ao menos -, nenhum dos atores pode assinar um contrato para o compromisso total de 12 anos. Burocracias aqui e lá.🙂

O guitarrista que Mason vai assistir ao lado do pai, na parte final do filme, na verdade é o pai verdadeiro do ator Ellar Coltrane. Bruce Salmon é um músico atuante em Austin, no Texas, onde a cena de Boyhood foi rodada.

Amigos de muito tempo, Linklater e Ethan Hawke cresceram em casas de pais divorciados e tiveram pais que atuaram no ramo de seguros no Texas, e exemplo do personagem do pai de Mason no filme.

Boyhood é o filme favorito de 2014 do presidente Barack Obama.

A trilha sonora também é um elemento à parte nesta produção. Ótima trilha, diga-se. Destaco, entre outras, as músicas Yellow, do Coldplay; Hate to Say I Told You So, do The Hives; Authem Part Two, do Blink 182; Soak Up the Sun, de Sheryl Crow; Island in the Sun, de Weezer; What is Life, de George Harrison; Get Lucky, de Daft Punk com Pharrell Williams; Let It Die, de Foo Fighters; Band on the Run, de Paul McCartney & Wings; Do You Realize, de The Flaming Lips; Could We, de Cat Power; Crazy, de Gnarls Barkley; Hate It Here, de Wilco; One (Blake’s Got a New Face), de Vampire Weekend; 1901, de Phoenix; Lovegame e Telephone, de Lady Gaga; Radioactive, de Kings of Leon; Beyond The Horizon, de Bob Dylan; Suburban War e Deep Blue, de Arcade Fire.

Agora, ainda falando em trilha sonora, interessante algumas músicas escritas e interpretadas por Ethan Hawke, como Split the Difference e Ryan’s Song – esta última que ele apresenta junto com Ellar Coltrane, Lorelei Linklater e Jenni Tooley. Na trilha, ainda, as canções Não Acorde o Neném, Em Todo Lugar Voz Boa e Coisa Boa do brasileiríssimo Moreno Veloso.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para Boyhood. Uma avaliação muito boa, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes revelaram-se ainda mais empolgados ao dedicar 249 críticas positivas e apenas quatro negativas para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média de 9,3.

Este filme, por ser 100% dos Estados Unidos, entra na lista de produções sugeridas em votações no blog – aquelas em que vocês definiam países dos quais eu deveria assistir a alguns filmes e comentar por aqui.

CONCLUSÃO: Conto nos dedos os filmes que falaram profundamente de conceitos que eu acredito e que tiveram, ao mesmo tempo, um olhar sensível sobre a condição humana e seu aprendizado constante. Acertar e errar, frustrar-se e sentir pleno prazer e gratidão, tudo isso faz parte da vida de qualquer pessoa, seja ela da classe social, raça ou latitude que for. Boyhood acompanha a evolução de uma família que não é tradicional por diversos anos, da infância dos filhos até a chegada deles na “vida adulta”. A história se desenvolve de maneira sensível, coerente e dura, em muitos momentos, como a vida mesma. Uma aula de roteiro, de direção e de trabalho dos atores. Lindo. Por tudo isso, altamente recomendado.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Ainda estou começando a ir atrás dos filmes que tem chances na próxima premiação anual da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, mas algo posso dizer desde já: Boyhood tem que aparecer na lista dos finalistas. Pelo menos. Não tenho dúvidas que este é um dos grandes filmes do ano passado e, por isso mesmo, vale estar no Oscar.

Para mim, ele deveria aparecer na lista de Melhor Filme – que permite até 10 títulos – e, se possível, nas categorias Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Ator para Ellar Coltrane, Melhor Ator Coadjuvante para Ethan Hawke e Melhor Atriz para Patricia Arquette. Ainda que eu tenha dúvidas se ela figuraria em Melhor Atriz ou Melhor Atriz Coadjuvante. Só para começar, seriam seis indicações. Mas o filme ainda poderia entrar em alguma categoria técnica – ainda que, aí, eu veja menor possibilidade.

Além das indicações, fica difícil ainda de fazer um prognóstico. Preciso assistir aos outros fortes concorrentes do ano. Mas, inicialmente, eu não acharia injusto ele ganhar como Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Ator. Há tempos eu não assistia a um filme tão competente neste conjunto de quesitos.

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