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One Chance – Apenas Uma Chance

11 de agosto de 2014 Deixe um comentário

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Os programas musicais proliferaram nos últimos anos, e alguns demonstraram ser um verdadeiro deleite para quem gosta da boa música. Um dos talentos revelado por um destes programas, o Britains’s Got Talent, virou febre no Reino Unido e ganhou notoriedade. A história deste talento, Paul Potts, é contada no filme One Chance. A produção segue o humor inglês clássico e garante boas risadas. Envolvente, o filme é um bom passatempo.

A HISTÓRIA: Um grupo de garotos canta no coral da Igreja. Um deles se sobressai no gogó muito mais que os outros. Ele se dedica tanto que acaba desmaiando. Ao entrar no hospital, com nove anos de idade, Paul Pott (Christopher Bull aos 9, Ewan Austin aos 14, James Corden na vida adulta) parece ter rompido um tímpano. Acompanhando o menino, os pais dele, Yvonne (Julie Walters) e Roland (Colm Meaney).

A história começa em Port Talbot, cidade de Wales, em 1985. As vistas da cidade mostram como lá predomina o trabalho em fábricas. Na narração, Paul conta que sempre quis cantar, e que a mãe lhe dizia que ele tinha voz para a ópera. Mas logo no início fica claro que ele vive sofrendo bullying (perseguição de um bando de valentões da escola). Ainda assim, ele segue o sonho e chega muito mais longe que o esperado.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a One Chance): Há pessoas que são “zoadas” a vida inteira. E mesmo assim, não desistem dos próprios sonhos. Esta é a parte bonita e que inspira deste filme.

Afinal, One Chance mostra claramente como o protagonista Paul Pott foi zoado a vida inteira – seja pelo nome, parecido com o do carrasco do Camboja, Pol Pot, seja por ele sempre ser gordinho ou, e principalmente, porque ele era o “estranho” que gostava de cantar ópera.

Mas o bacana do filme é que ele mostra como Paul Pott venceu todo o preconceito, dentro e fora de casa – o pai dele, Roland, teve dificuldade em aceitar aquele filho “estranho” -, e seguiu o próprio sonho. E como essa obstinação nunca é simples, ele passou por uma série de dificuldades no caminho. Sem inovar na história, até porque ela é quase um “conto de fadas” de um ganhador de um programa musical, o filme ganha o espectador pelo humor.

O roteiro de Justin Zackham destila o melhor estilo do humor inglês, com tiradas ótimas e muito humor atualmente considerado “politicamente incorreto”. Para os ingleses não é problema tirar sarro de aspectos físicos das pessoas – incluindo gordinhos – e nem dos estereótipos. O filme dirigido por David Frankel funciona por causa disso e também pelo trabalho dos atores, com destaque para o carisma e a sintonia dos protagonistas – James Corden e Alexandra Roach.

A linha narrativa de One Chance é clássica e linear, começando com Paul ainda criança e já soltando a voz no coral da Igreja, e acompanhando ele um pouco mais crescido, e ainda sendo perseguido, até chegar à vida adulta. Inevitável não lembrar de Billy Elliot assistindo a esta nova produção.

O filme de Stephen Daldry mergulha na história de um garoto que foi zoado, repreendido e que teve que enfrentar diversas barreiras para seguir a vocação e o sonho de fazer balé. O mesmo acontece com o protagonista de One Chance em relação à música erudita. Bacana ver a mais uma produção que segue a boa linha do filme de Daldry.

Desta forma, e sendo breve porque estou com pouco tempo para escrever esta crítica, posso afirmar que One Chance é um filme sem inovação, que segue a narrativa linear clássica, mas que tem graça pela narrativa com humor inglês e pelo talento dos intérpretes. E para quem gosta de música ou de programas de TV que valorizam este tipo de talento, esta produção tem um interesse especial, porque há uma boa trilha sonora durante todo o filme. Vale a pena.

NOTA: 9 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Caros leitores, vocês já devem ter percebido que o meu tempo ficou mais escasso. Mas quero ver se a partir desta próxima semana eu consigo deixar esta página mais atualizada. Este filme, assisti há duas semanas, mas só agora consegui escrever este texto rápido sobre ele. Veremos se da próxima vez sobra mais tempo. Obrigada para você que segue me visitando por aqui.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para One Chance. Uma boa avaliação, levando em conta a média do site. Os críticos que tem os textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 23 textos positivos e 11 negativos para a produção – garantindo aprovação de 68% e nota média de 5,5.

Quem não acompanhou a trajetória do Paul Potts original mas, como eu, ficou curioso(a) para saber como o “original” se apresentou no início do programa, neste vídeo no YouTube é possível matar a curiosidade. E neste outro link do site os finalistas do programa e o anúncio do vencedor.:)

Em outro momento falo dos destaques da ficha técnica da produção. Até mais! Agora consegui um tempinho, então vou falar sobre os aspectos técnicos do filme que me chamaram a atenção. Como dito anteriormente, a principal qualidade do filme é o humor inglês do roteiro de Justin Zackham. Esta característica chama mais a atenção que a direção de David Frankel, já que o realizador não ousa na linguagem em momento algum – diferente de outros nomes do cinema inglês que tem inovado na narrativa nos últimos anos.

Mesmo sem ousar, um acerto de Frankel é aproximar a câmera sempre dos atores. É assim que os intérpretes ganham destaque com entregas convincentes – especialmente o inglês James Corden, que está perto de completar 36 anos – no próximo dia 22 – e que tem 47 trabalhos no currículo como ator. Um nome a ser acompanhado e que vale ser visto em outras produções. Corden está bem acompanhado na produção, tendo como “pais” na trama os veteranos Julie Walters e Colm Meaney e a interessante Alexandra Roach, com 20 trabalhos no currículo.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Florian Ballhaus, que sabe diferenciar bem os tempos narrativos da produção utilizando lentes diferenciadas e também, junto com o diretor Frankel, valoriza alguns dos belos cenários pelos quais a trama passa – especialmente Veneza.

Importante também a condução da trilha sonora de Theodore Shapiro, assim como a edição de Wendy Greene Bricmont.

One Chance estreou em setembro de 2013 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme passaria ainda por outros sete festivais. Nesta trajetória ele recebeu um prêmio e foi indicado a outros quatro – incluindo o Globo de Ouro de Melhor Canção Original para Jack Antonoff e Taylor Swift pela música Sweeter than Fiction. O único prêmio que ele recebeu foi o dado pela audiência para David Frankel no Festival Internacional de Cinema de Chicago.

Do elenco de apoio, merece uma menção a atriz Valeria Bilello como Alessandra, com quem Paul faz um dueto em Veneza; e Mackenzie Crook como Braddon, o melhor amigo do protagonista e chefe dele na loja que vende celulares. Stanley Townsend se esforça como Luciano Pavarotti, ídolo supremo de Paul, mas a versão acaba ficando caricatura demais.

One Chance foi rodado quase totalmente no Reino Unido – em locais como Londres, Wales e Surrey -, mas teve algumas sequências produzidas também em Veneza.

Na trilha sonora, peças clássicas de Wolfgang Amadeus Mozart, Giacomo Puccini, Ruggero Leoncavallo, Frederick Chopin e Giuseppe Verdi. Mas predomina, sem dúvida, entre estes compositores, o trabalho de Puccini.

CONCLUSÃO: O cinema inglês normalmente vale o ingresso pelo estilo do roteiro e do humor típico daquela cultura. One Chance confirma a regra. O filme rende algumas boas risadas, ainda que a maioria delas seja bem previsível. Mas o roteiro e os atores principais conseguem envolver bem o espectador em uma história que lembra muito outro filme: Billy Elliot. Enquanto no filme de Stephen Daldry o nosso “herói inusitado” era um garoto que queria fazer balé a qualquer custo, aqui o “peixinho fora do aquário” e/ou pária social é um rapaz gordinho que quer cantar ópera. Os dois filmes são envolventes, contagiam e dão bom exemplo do prêmio que pode vir com a obstinação e o talento. Divertido.

Zwei Leben – Two Lives – Duas Vidas

19 de julho de 2014 4 comentários

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Duas histórias pouco contadas e interessantes em um mesmo pacote. Isso não é fácil de encontrar. Mas Zwei Leiben apresenta esse pacote de forma eficaz, apesar da complexidade do assunto. Para quem gosta de filmes que se debruçam sobre histórias recentes de países importantes no cenário internacional, esta é uma boa pedida. Envolvente, esta produção tem ritmo, drama e suspense em partes bem dosadas.

A HISTÓRIA: Diferentes narradores comentam sobre a queda do Muro de Berlim e a unificação da Alemanha. Um deles afirma que a população, após “28 anos atrás do arame farpado”, não pode acreditar no que está acontecendo. Outra afirma que muitos manifestantes querem que as lições da RDA (República Democrática Alemã, criada em 1949 e sob a influência dos soviéticos) não sejam esquecidas.

Neste cenário, Katrine Evensen Myrdal (Juliane Köhler) caminha com passos firmes pelo aeroporto de Tyskland em novembro de 1990. Ela passa pelo controle do aeroporto e segue até o banheiro, onde coloca uma peruca e troca de roupa. Saindo dali, Katrine pega um trem, depois um táxi, e chega no local em que ela teria morado quando era criança. Dali, ela segue para o arquivo de Leipzig, onde encontra o nome que tanto estava procurando, de Hiltrud Schlömer. Em breve a história daquele orfanato virá à tona.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Zwei Leben): Muito especial a forma com que o roteiro dos diretores Georg Maas e Judith Kaufmann, com a ajuda de Christoph Tölle, Stale Stein Berg e da colaboradora Hannelore Hippe foi construído. Nos primeiros segundos da produção o espectador é imerso no ambiente da história, ouvindo diferentes narradores falando do final do período de divisão alemã. Quem conhece um pouco da história mundial sabe o peso que isso teve para os alemães, para a Europa e para o mundo.

Em seguida, as primeiras cenas gravadas pelos diretores surgem na tela com a presença marcante da trilha sonora de Christoph Kaiser e Julian Maas. O suspense preenche a narrativa com a troca de “personagem” feita pela protagonista. Não entendemos porque ela está se disfarçando, e a primeira impressão é que ela não quer que a família saiba que ela está correndo atrás do próprio passado. Mas então por que ela diz que se a antiga enfermeira do abrigo mantido por nazistas, Hiltrud Schlömer, estiver morta, o problema dela está resolvido?

Com o tempo é que vamos perceber que o problema de Katrine não é tão óbvio assim. E também identificamos que a narrativa não é linear. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Isso fica evidente não apenas com a esclarecedora volta ao passado para explicar a evolução da protagonista como espiã, mas também quando sabemos que os fatos iniciais ocorreram algumas semanas depois do que a narrativa que veremos após aparecer o nome da produção. Ou seja, Katrine se disfarça após a aparição do representante da firma de advogados Hogseth & Co., Sven Solbach (Ken Duken).

A chegada dele quebra em duas partes a farsa de Katrine/Vera. Antes dele aparecer, ela mantinha uma vida muito tranquila nas redondezas de Bergen, a segunda maior cidade da Noruega. Mulher de temperamento forte, Katrine trabalhava e tinha uma família para cuidar. A maior preocupação dela até a chegada de Sven era levar e trazer o neto para ser cuidado pela avó (a mãe de Katrine, Ase Evensen, interpretada pela veterana Liv Ullmann), enquanto a filha, Anne Myrdal (Julia Bache-Wiig) tenta entrar na universidade e criar a filha que ainda é um bebê.

Os problemas familiares de Katrine vão parecer brincadeira de criança quando Sven Solbach aparece para desenterrar o passado. Sim, eis a história clássica de uma mudança radical na narrativa de uma família quando alguém resolve mexer em vespeiros antigos. Mas aí está a graça deste filme. Ele não apenas conta a história de uma garota e de sua mãe que foram separadas quando a menina veio ao mundo por causa de resquícios repressivos da Segunda Guerra Mundial. Há ainda uma importante história de espiões no meio.

E de história de espiões o cinema está cheio. Mas não sob a ótima deste Zwei Leben. Porque aqui o espectador se aproxima da intimidade de uma espiã realista, com uma história fácil de acreditar. Por isso volto a afirmar o que eu comentei lá no início, de que não é fácil um filme ter duas histórias interessantes e complexas em um mesmo pacote. Acho que quem gosta de história, como eu, vai ficar fascinado com estes acontecimentos pós-Segunda Guerra.

Por um lado, temos a uma história de repressão das mulheres de um país invadido – a Noruega – que se relacionaram com soldados invasores – no caso, os alemães nazistas. Estas mulheres foram mantidas em campos na Noruega. O filme esboça esta explicação em um primeiro momento, mas de forma muito acertada o roteiro faz uma parada, mais ou menos no meio da produção, para explicar em detalhes como os alemães criaram clínicas maternais e orfanatos para diminuir o número de abortos e retirar de mães norueguesas os filhos que eles consideravam importantes – por terem os genes alemães – e levaram estas crianças para a Alemanha.

Em orfanatos como onde cresceu Katrine, a organização chamada Lebensborn mantinha as crianças com “sangue nobre alemão”. Representando a firma de advogados, Sven Solbach procura testemunhos para reabrir o caso destas crianças e apresentá-lo para uma comissão em Estrasburgo. A ideia deles é pedir reparação para aquelas famílias através do tribunal europeu dos direitos humanos. Daí ele insiste em contar com os depoimentos de Katrine e da mãe dela, Ase, porque elas seriam um raro caso de reencontro entre mãe e filha.

De forma bem acertada o roteiro de Zwei Leben apresenta esse momento de ruptura da família Evensen Myrdal sem entregar todo o “ouro” logo de cara. Assim, por um tempo, ficamos pensando se a resistência de Katrine se justifica pelos abusos que ela sofreu ou se há algo mais em jogo. Quando ela se encontra de forma misteriosa com Kahlmann (Thomas Lawincky) e explica para ele o que está acontecendo, e que alguém precisa agir para silenciar a testemunha que pode colocar o disfarce dela em risco, tudo vai ficando mais claro. Ela não é, exatamente, a vítima que se previa.

E daí surge a outra história interessante e complicada da trama baseada na novela manuscrita Eiszeiten, de Hannelore Hippe – que contribui com o roteiro de Zwei Leben. A heroína aqui é vilã, porque ela se infiltrou na família da norueguesa Ase Evensen fazendo-se passar pela filha dela que havia sido levada para a Alemanha. Cooptada quando também estava em um orfanato, Vera Freund, o verdadeiro nome da mulher que se passou por Katrine Evensen, trabalhou para o serviço secretor da RDA. Em todas as voltas para o passado, é especialmente interessante ver como ela foi preparada para o serviço.

Depois que o disfarce dela é descoberto e Vera/Katrine é confrontada pela família – especialmente na cena em que a filha lhe questiona na cozinha -, fica mais claro que apesar de ser vilã, ela também é vítima. Mas de uma maneira diferente do que poderíamos imaginar. Algo a destacar, além destas duas histórias interessantes sobre os bastidores de uma Alemanha dividida durante e após a Segunda Guerra Mundial, é a forma humana com que o filme é narrado. Nos aproximamos muito dos personagens principais, nos deliciando com ótimas interpretações e com um roteiro que não perde o ritmo em momento algum. Um grande trabalho da dupla Georg Maas e Judith Kaufmann e sua equipe.

Mas para não dizer que tudo são flores, algo me incomodou no desfecho desta produção. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Uma pessoa como Vera, treinada por muito tempo para assumir um disfarce e, com ele, conseguir informações valiosas para o sistema ao qual ela servia, vai de fato capitular e contar toda a verdade para a família que ela enganou por tanto tempo?

O previsível, para mim, seria ela seguir mentindo, mesmo confrontada com o vídeo da verdadeira Kathrin Lehnhaber, filha de Ase Evensen (interpretada, quando jovem, por Vicky Krieps). Ou se ela resolvesse contar a verdade naquele momento, ela não insistiria em tentar fazer as pazes com aquela família após a casa inteira ter “desmoronado”. A Vera que fez tudo o que ela fez teria seguido naquele avião e escapado.

Apenas esse “desvio” do esperado é que achei um pouco difícil de acreditar, frente a um filme que, até então, era bastante crível. Ainda assim, admito que é bacana a tentativa do roteiro em redimir a personagem. Desta forma, os realizadores apostam que os piores criminosos podem se colocar no lugar dos outros e ter atos de compaixão mesmo após diversos anos de mentira. É bacana pensar desta forma, mas só acho pouco realista. E em um filme que vinha tão bem nesse quesito, seria interessante ver Vera recomeçando outra vez.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além de uma história fascinante, Zwei Leben conta com outro trunfo muito importante: um grande elenco. Todos os atores envolvidos na produção estão muito bem em seus respectivos papeis, mas é preciso tirar o chapéu para a dupla de atrizes que dá vida a Katrine Evensen: Juliane Köhler na fase adulta, quando começamos a acompanhar a sua história, e Klara Manzel nas reconstituições de época de quando ela estava sendo preparada para desenvolver o papel que marcaria a sua trajetória de forma definitiva. Brilhantes as duas atrizes.

Para que elas consigam fazer um bom trabalho, faz falta um elenco de apoio também talentoso. Daí entram em cena figuras como a veterana Liv Ullmann, que interpreta a Ase Evensen e que comunica como poucas apenas pelo olhar; Sven Nordin como Bjarte Myrdal, o homem que passa boa parte da vida ao lado de Katrine Evensen; e o veterano Rainer Bock como Hugo, o “chefão” de Katrine e uma figura sempre misteriosa e perigosa na trama. Mesmo em um papel relativamente pequeno, Vicky Krieps consegue imprimir uma identidade importante e marcante como Kathrin Lehnhaber.

Outros atores com papeis menores merecem ser citados. Dennis Storhoi como o advogado Hogseth, chefe de Sven Solbach; Ursula Werner como Hiltrud Schlömer, testemunha importante da história de Katrine; e Thorbjorn Harr como o jovem Bjarte Myrdal. Eles complementam bem o elenco. Gostei do posicionamento do ator Ken Duken com o personagem Sven, mas não senti a mesma firmeza da atriz Julia Bache-Wiig, que interpreta Anne, filha de Katrine e Bjarte.

Para o filme funcionar tão bem, além do ótimo roteiro e de um elenco afinado, faz falta os outros elementos técnicos funcionarem bem. O primeiro elemento que chama a atenção no filme e que já comentei antes é a trilha sonora marcante da dupla Christoph Kaiser e Julian Maas. Diferente de outras produções recentes que eu assisti, neste filme a música é um elemento narrativo importante – e não complementar, como em outros casos.

Pouco a pouco também vai se destacando a direção de fotografia de Judith Kaufmann que, além de registrar o ambiente de cada cenário, ainda faz uma diferenciação bem marcante dos diferentes “tempos” narrativos. Destaque também para a edição precisa de Hansjörg Weissbrich e, evidentemente, pelo excepcional trabalho dos diretores.

Falando neles, é interessante observar a trajetória de cada um destes diretores alemães. Georg Maas tem sete trabalhos no currículo como diretor, sendo dois deles documentários feitos para a TV e um terceiro um filme produzido também para a TV. Das outras quatro produções, duas são documentários. Além de Zwei Leben, Maas dirigiu apenas outro filme para o cinema: NeuFundLand, lançado em 2003. Depois de Zwei Leben ele lançou um documentário para a TV sobre Liv Ullmann. Judith Kaufmann, por sua vez, tem uma carreira consolidada como diretora de fotografia. Ela tem 46 trabalhos atuando desta maneira. Como diretora, tem apenas Zwei Leben.

Para quem gosta de saber sobre os locais em que os filmes foram rodados, esta produção foi totalmente feita na Alemanha e com algumas cenas na Noruega. As cenas foram rodadas em locais como North Rhine, Leipzig, Halle, Bergen, Bonn, Hamburgo e Schleswig-Holstein.

Zwei Leben estreou em outubro de 2012 na Noruega. Depois, em janeiro de 2013, o filme participaria de seu primeiro festival: o de Palm Springs. A trajetória do filme em festivais somaria outras 11 participações. Neste caminho, Zwei Leben abocanhou sete prêmios e foi indicado a outros cinco. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Filme entregues no Festival de Cinema Biberach e no Festival de Cinema Independente de Biberach. A produção ganhou também dois prêmios da audiência no Festival Internacional de Cinema de Emden e os prêmios de Melhor Elenco e Melhor Edição no Festival de Cinema Alemão.

Este filme, coproduzido pela Alemanha e pela Noruega, foi escolhido para representar a Alemanha como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2014.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para Zwei Leben. Uma boa avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 11 textos positivos e apenas dois negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 85% e uma nota média de 6,5. Achei baixa a nota, apesar do nível de aprovação estar bom.

CONCLUSÃO: Interessante quando um filme parece contar uma história e, depois, ele se revela bem mais complexo. Este é o caso de Zwei Leben. Reforçando uma das escolas de cinema mais propensa a esmiuçar e repensar a própria história, esta produção foca no período imediato após a unificação da Alemanha. Com o fim das divisões do país, vários expurgos do passado foram feitos, e muitas histórias duplas, reveladas. Esta produção de interesse histórico e humano parte de uma história particular para refletir sobre um sentimento mais generalizado. Bem narrado e com ótimos atores, o filme só peca um pouco para a solução final da história. Mas nada que comprometa a boa experiência anterior. Recomendo.

The Grand Budapest Hotel – O Grande Hotel Budapeste

12 de julho de 2014 5 comentários

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Filmes que misturam a fantasia e a realidade e que buscam inovar sem disfarçar a homenagem ao cinema dos primeiros tempo são fascinantes. Muitas vezes mais pela proposta do que pelo resultado final. The Grand Budapest Hotel é uma destas produções que agrada pelo ritmo e pelas diversas referências. O problema é que este título surge após vários outros que traçaram caminhos parecidos e que utilizaram recursos similares para contar histórias cheias de fantasia. Assim, ele parece um tanto “repetitivo” em certa medida.

A HISTÓRIA: Inicia na fronteira europeia mais oriental, a ex-República de Zubrowka, que já foi trono de um Império. Uma garota entra no “antigo cemitério de Lutz”. Ela caminha sobre a neve, passa por alguns homens, e chega até um busto identificado com a inscrição “em memória do nosso tesouro nacional”. Coloca um chaveiro junto a outros pendurados, enquanto a câmera percorre o nome “Autor” e vemos a imagem de um senhor de bigode e óculos. A garota olha para a capa do livro que segura entre as mãos: O Grande Hotel Budapest. Na contracapa, a imagem do Autor (Tom Wilkinson). Corta. Em seguida, o Autor, em 1985, fala sobre a inspiração de escrever antes de explicar a origem da história de seu famoso livro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue lendo quem já assistiu a The Grand Budapest Hotel): Um grande elenco e um grande diretor sempre despertam uma expectativa considerável. Ouvi falar muito bem deste filme, e tendo assistido a ótimos trabalhos do diretor Wes Anderson, incluindo o último Moonrise Kingdom (comentado aqui), admito que eu estava esperando muito de The Grand Budapest Hotel. Infelizmente encontrei bastante “mais do mesmo”, e não consegui ficar impressionante com o resultado final desta produção.

A primeira sensação que eu tive enquanto os minutos da narrativa passavam é que Anderson havia feito mais um filme bem realizado tecnicamente, com bastante estilo e seguindo a linha de produções feitas por ele anteriormente, sabendo convencer um grande elenco para encarnar seus personagens, mas sem inovar muito na entrega. E não sei vocês, mas tenho um pouco de preguiça em ver um realizador repetindo a própria fórmula – algumas vezes, ao variar com ela, ele apena preserva uma assinatura, um estilo, mas quando até os detalhes são repetidos, o espectador fica com a sensação de déjà vu.

Mesmo tendo uma hora e meia de duração – que cada vez mais eu tenho achado perfeita para qualquer história no cinema -, The Grand Budapest Hotel pareceu mais longo que isso para mim. Talvez pelo design de produção burlesco e carregado do filme, ou porque achei a história escrita por Anderson e por Hugo Guinness um pouco carente de novidade… Mas o fato é que não fiquei tão envolvida com a produção quanto eu gostaria.

Achei o design de produção, a direção de fotografia, a direção de arte e os efeitos visuais dignos de aplausos. Mas tudo isso, a exemplo dos doces servidos por Agatha (Saoirse Ronan), me deram a impressão de muito glacê e pouco recheio. A história, que vamos saber apenas no final, foi inspirada nas obras do escritor Stefan Zweig, mistura humor, romance, algumas cenas inspiradas e uma narrativa que corre apressada em vários momentos de muita ação. A salada mista é valorizada por um ótimo elenco, mas só ganha interesse real quando fazemos um paralelo de tudo que vimos com a história de Zweig.

E esse é o ponto fundamental para a nota abaixo. Mais que a qualidade técnica do filme, o que me fez achar The Grand Budapest Hotel interessante foi refletir sobre o que eu tinha visto fazendo um paralelo com o escritor austríaco que decidiu matar-se no Brasil, onde vivia, após ficar desiludido com os rumos que o mundo estava tomando. Daí sim, pensando nisso, este filme passa a ganhar outras tintas.

Quem olha apenas para a cobertura cheia de glacê de The Grand Budapest Hotel vê somente o apuro visual e as interpretações inspiradas do elenco, com destaque para a dobradinha da dupla Ralph Fiennes (como o concierge original do hotel, o Monsier Gustave, ) e Tony Revolori (como o mensageiro, o “lobby boy”, Zero).

Mas a homenagem nos créditos finais fazem a produção ter um outro sabor, escondido por baixo de tanto glacê. Apesar de divertido em muitos momentos, romântico em alguns lampejos e veloz durante os momentos de ação, The Grand Budapest Hotel é um filme sobre princípios e sobre a poesia que resiste em momentos em que a realidade toda parece dominada pela crueldade.

Para começar, fica ainda mais interessante a “introdução” feita pelo Autor que aparece no filme. De fato, Zweig sempre foi inspirado por histórias reais que ele ouviu de outras pessoas e, especialmente, pelas próprias vivências, paisagens e pessoas que ele encontrou pelos diferentes lugares por onde esteve. Quem vive da arte, seja ela escrita, filmada ou cheia de acordes, sabe o quanto a inspiração surge após grande observação, muita audição, sensibilidade nos tratos e trabalho duro. Com Zweig, como com tantos outros, foi assim.

Depois, não por acaso The Grand Budapest Hotel tem como pano de fundo uma história que remonta a uma cidade fictícia no leste europeu no ano de 1932. A manchete de um jornal mostrado no filme pergunta se haverá guerra e noticia a chegada de tanques na fronteira – isso pouco antes de M. Gustave saber da morte da condessa Madame D. (a ótima Tilda Swinton em uma caracterização perfeita) e decidir ir no velório dela.

Apesar da história se passar entre os momentos históricos da Primeira e da Segunda Guerra Mundiais, fica evidente a alusão do roteiro à elas. Especialmente por Zweig, nascido em Viena em 1881, teve a vida definitivamente marcada por estes conflitos. Antes da Primeira Guerra eclodir, o escritor já era conhecido por suas longas viagens e por seus escritos a partir das experiências vividas nelas. Quando estoura o primeiro conflito mundial, ele é pego de surpresa na Bélgica. Consegue voltar para Viena, mas é recrutado como “voluntário” para trabalhar no arquivo de guerra (como bem conta este resumo sobre a vida do autor).

Durante o período de guerra, ele consegue escapar do serviço “voluntário” e compra uma casa na montanha (daí teria surgido a inspiração para o cenário do Hotel Budapeste?), antes de lançar ideias pacifistas no drama Jeremias, de 1917. Judeu, ele se alia a vários autores que defendem a paz, mas acaba sendo perseguido pelos nazistas muito antes da Segunda Guerra Mundial – em 1933, como afirma aquele resumo citado logo acima, os nazistas fazem uma grande queima de livros em Berlim, incluindo obras de Zweig.

Três anos depois, o escritor faz a sua primeira viagem para o Brasil. Pouco antes do início do segundo conflito mundial, Zweig se muda para a cidade de Bath, no sudoeste da Inglaterra, onde ele se casa com Lotte. Conforme a Segunda Guerra vai evoluindo, Zweig fica pouco a pouco mais deprimido. Em 1941, ele e a mulher se mudam para o Brasil, onde cometeriam suicídio um ano depois. Em The Grand Budapest Hotel o horror com a guerra e a presença angustiando da vilania fica evidente.

Claro que o mal, no roteiro de Anderson, não está simbolizado apenas pelos homens de farda que não perdem nenhuma oportunidade em perseguir o imigrante judeu Zero. A maldade está também na cobiça, representada por Dmitri (Adrien Brody), herdeiro de Madame D. e que não aceita repartir nada da riqueza da mulher com M. Gustave; e também na crueldade do capataz de Dmitri, o impassível Jopling (Willem Dafoe em um grande trabalho).

O contexto de invasão militar vai aparecendo aos poucos no filme, até que ele se consolida com a “ocupação” dos homens que lembram os nazistas no hotel. Mas antes e depois deste ponto, em duas sequências no trem, a mensagem de indignação de Zweig ficam muito evidentes.

Primeiro, nas ações do militar Henckels (Edward Norton), que faz lembrar os nazistas, mas que era, na verdade, da “milícia de Lutz”. Ele não deveria aceitar imigrantes, mas abre uma exceção para Zero por causa da amizade com M. Gustave (e sabemos que a amizade contava muito naqueles tempos). E depois, na truculência de um outro militar, desta vez um homem que tinha traços russos, mas que claramente era do grupo que usava uma identificação parecida com a suástica. Ele ignora a permissão dada por Henckels e acaba com a “ousadia” de M. Gustave.

Para mim, Zweig está representado em três personagens: no Autor, em M. Gustave e em Zero. No primeiro, por uma razão evidente: o Autor fala de seu trabalho e é relembrado gerações após gerações. No segundo, por causa da sensibilidade do personagem, um homem que é pacifista e que defende o direito de qualquer pessoa em ter liberdade e ter oportunidades, sendo valorizada conforme se dedica ao trabalho e a melhorar. E no caso de Zero, por ele ser judeu, perseguido, ávido por novidades e por aprender, e por ter uma história bonita de romance com Agatha – a exemplo de Zweig com Lotte. Mas cada um destes personagens pode ter sido apenas inspirado por Zweig, sem a intenção que nenhum deles representasse o autor.

Seja pelo paralelo com o escritor, seja pela bonita intenção de colocar poesia e sensibilidade mesmo em ambientes tão sórdidos e cheios de perseguição, The Grand Budapest Hotel acaba se revelando uma obra mais interessante quando você pensa nela. Durante a vivência do filme, apenas o espetáculo visual sobressai, junto com o trabalho dos atores. Depois, com o tempo, é que vamos degustando o restante dos sabores da produção.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vários aspectos técnicos do filme se sobressaem. Os principais destaques já foram citados acima, mas agora vale dar o nome dos responsáveis. Impecável o design de produção de Adam Stockhausen; belíssima a direção de arte comandada por Stephan O. Gessler e com a ajuda de Gerald Sullivan e Steve Summersgill; bacana a decoração de set de Anna Pinnock e os figurinos de Milena Canonero. Vale destacar, ainda, o excelente trabalho do departamento de maquiagem composto por 25 profissionais e o departamento de arte com dezenas de outros artistas de talento.

Para ajudar na dinâmica do filme, fundamentais as contribuições do editor Barney Pilling, que tem aqui um trabalho meticuloso, e do diretor de fotografia Robert D. Yeoman. O veterano Alexandre Desplat tem um trabalho exemplar com a trilha sonora, que aparece em momentos pontuais, sempre para ressaltar o humor ou o suspense da história.

Este é mais um bom trabalho do estiloso diretor e roteirista Wes Anderson. Nascido no Texas, ele tem filmes muito interessantes no currículo. Vale ter o trabalho acompanhado. Ainda que, espero, ele venha com um pouco mais de ousadia e inovação de uma próxima vez.

The Grand Budapest Hotel estreou no Festival de Berlim em fevereiro deste ano. Depois, o filme participaria ainda de outros quatro festivais. Nesta trajetória, conquistou três prêmios e foi indicado a outros dois. O mais importante que ele recebeu foi o Urso de Prata de Grande Prêmio do Júri para Wes Anderson no Festival de Berlim. A produção também saiu vencedora como Melhor Figurino do prêmio entregue pelo Sindicato Nacional Italiano de Jornalista de Cinema e no prêmio de Melhores Gráficos em um Comercial de TV no Prêmio Golden Trailer.

Este filme foi totalmente rodado na Alemanha e na Polônia. No primeiro país, houve cenas rodadas em diferentes cidades da Saxônia e em Berlim; e no segundo, na Cracóvia.

E uma curiosidade sobre a produção: o nome da fictícia república de Zubrowka foi inspirado na vodca polonesa Zubrowka.

Wes Anderson rodou o filme em três formatos diferentes (1.37, 1.85 e 2.35:1) para demarcar ainda melhor e de forma visual os três períodos diferentes em que a história é ambientada: 1985, 1968 e 1930.

O elenco deste filme impressiona. É um desfile de nomes conhecidos. E ainda que um deles se destaque, o de Ralph Fiennes como M. Gustave, não deixa de ser marcante a forma com que o desconhecido Tony Revolori se destaca em um elenco tão estelar. O rapaz de 18 anos natural de Anaheim, na Califórnia, e que até este filme tinha estrelado principalmente curtas e episódios de séries televisivas, faz um dueto de rara sintonia com Fiennes. Com isso, ele se destaca.

Mas além dos dois, vale citar o ótimo trabalho de F. Murray Abraham como Mr. Moustafa (o Zero envelhecido); Mathieu Amalric como Serge X., empregado de Madame D. e que acaba tendo grande relevância na história por guardar os segredos da mulher assassinada; Adrien Brody como o vilão Dmitri; Willem Dafoe rouba a cena como o sanguinário Jopling; e Jude Law ganha relevância como o escritor quando jovem. Mesmo em papéis menores, vale citar os bons trabalhos de Jeff Goldblum como o advogado perseguido Kovacs; Harvey Keitel como o presidiário Ludwig; e Bill Murray como M. Ivan, da rede de concierges que ajudam M. Gustave. Fazem pontas também Jason Schwartzman, Léa Seydoux, Owen Wilson, Bob Balaban, entre outros.

De acordo com o site Box Office Mojo, The Grand Budapest Hotel teria faturado pouco menos de US$ 58,8 milhões apenas nos Estados Unidos, e outros US$ 108 milhões nos demais mercados em que o filme estreou até o momento. Mesmo sem informações sobre o custo da produção, estes não me parecem resultados ruins.

Esta produção conseguiu uma nota impressionante no site IMDb. Considerando, claro, o padrão normalmente visto naquele banco de dados sobre cinema: 8,3. Essa é uma excelente avaliação! Além disso, os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 205 textos positivos e apenas 19 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média de 8,4.

Ah sim, e antes falei que este filme faz lembrar vários outros… Para começar, basta olhar na própria filmografia de Wes Anderson. E depois, vale conferir clássicos recentes do cinema, como Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain. Mesmo bebendo de várias fontes, é fascinante ver como Anderson utiliza bem a tecnologia moderna e enquadramentos antigos, dos primeiros filmes do cinema, ainda na era preto e branco. Bela homenagem, e com muita propriedade.

Este filme é uma coprodução dos Estados Unidos com a Alemanha. Assim sendo, ele entra na lista de filmes dos Estados Unidos, eleito como um dos países que merecia uma série de críticas aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um indicativo sobre o impacto que um filme teve para mim é a vontade que eu tenho de escrever sobre ele logo após o fim da produção. Quando terminei de ver a The Grand Budapest Hotel, admito que não tive um grande interesse de falar sobre ele por aqui. Sinal de que esta produção não me pareceu tão boa quanto poderia. E essa é a vida. O cinema é feito de percepções, vivência e momentos. Refletindo mais sobre o filme depois, percebi que esta produção é interessante se nos focamos mais na homenagem feita para Stefan Zweig e sua obra. Mas descontada essa reverência, há pouco de novo nesta produção. De qualquer forma, vale dizer que ela é bem acabada, com bons princípios e tem qualidade. Que fica mais evidente quando refletimos no paralelo com Zweig. Vale ser conferido sob esta ótica.

Vic+Flo Ont Vu Un Ours – Vic+Flo Saw a Bear – Vic+Flo Viram Um Urso

22 de junho de 2014 1 comentário

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A história pode ser a mais simples do mundo, mas o cinema francês consegue fazer diferente do que o público normalmente espera. Vic+Flo Ont Vu Un Ours se junta a tantos outros filmes daquele país neste sentido. O ponto central desta produção você já viu algumas vezes, mas nunca com uma narrativa como esta e com a imersão na vivência das protagonistas como é feito neste filme. Aliás, eis mais uma qualidade do cinema francês: mergulhar no cotidiano dos personagens e nas suas relações. Mas fica uma dica para você que ainda não viu ao filme: não leia nada a respeito antes. Isso fará bem para a sua experiência.

A HISTÓRIA: Um garoto se esforça para tocar um trompete. Ao lado dele, outro menino não disfarça a desconfiança sobre a qualidade do que o outro está fazendo. Volta e meia, o garoto maior olha para a mulher que está ao lado. Quando o menino para de tocar, ela pergunta se ele realmente ganha a vida tocando trompete. O garoto diz que sim, e ela comenta que ele deve treinar muito mais antes de pedir dinheiro para alguém por aquilo. Depois, ela segue caminhando com uma mala a tiracolo.

Corta. Na beira da estrada, um garoto brinca com um helicóptero próximo de um velho imóvel em uma cadeira-de-rodas. Em pouco tempo, a mulher com a mala vai se apresentar como Victoria Champagne (Pierrette Robitaille), sobrinha do velho Émile (Georges Molnar), o senhor na cadeira-de-rodas, que é cuidado pelo jovem Charlot (Pier-Luc Funk). A rotina naquela fazenda vai mudar com a chegada de Victoria.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Vic+Flo Ont Vu Un Ours): Repito por aqui o conselho dado antes: procure saber nada sobre esse filme antes de assisti-lo. Fiz isso e não me arrependi. Porque se você souber antes que esta produção aborda um tema bem batido no cinema, talvez isso lhe desestimule a assistir a Vic+Flo. E isso seria uma pena.

O grande trunfo deste filme não é a originalidade da história. Ou, melhor dizendo, da premissa principal. Vejamos. Qual é o núcleo da história contada pelo roteiro do diretor Denis Côté? Basicamente a velha premissa de um ex-presidiário que procura retomar a vida após sair da cadeia e que não consegue fazer isso porque o “passado o persegue/condena”. A diferença aqui é que o personagem central não é um homem, e sim uma mulher – e que também não tem o perfil “básico”, de uma jovem bonita e perigosa, mas se materializa em uma senhora de 61 anos.

Para completar, não é exatamente essa protagonista que tem o passado como problema. Claro que ela não está totalmente livre, mesmo em “liberdade”. Mas o azar de Victoria é que ela ama uma outra ex-presidiária, Florence Richemont (Romane Bohringer). E é ela, mais jovem, atraente e volúvel, que tem um passado que não perdoa. Mas não sabemos nada disso no início. E o roteiro de Côté acerta ao ir contando isso aos poucos, lentamente, cozinhando a fogo baixo as relações que sustentam a trama.

Por que ele acerta? Simples. Porque como não sabemos nada sobre Victoria ou Florence, dedicamos nosso tempo para observar a relação entre elas e o que elas fazem no tempo em que não estão juntas. Pouco a pouco vamos vendo os acertos, os deslizes, as escolhas certas e erradas. Sem pré-julgamentos. Como deveria ser a vida, caso nossa sociedade não estivesse habituada a usar tantas etiquetas para as pessoas.

Além disso, o diretor e roteirista acerta nas escolhas narrativas, quebrando o ritmo em diversos momentos para “aflorar” os nervos dos espectadores. Um exemplo clássico disto ocorre quando Flo chama Vic para uma conversa junto ao lago perto da casa dos Champagne. Elas apenas começam a conversar quando o “assistente de Jackie” (interpretado pelo grandão Ramon Cespedes) começa a tocar violão na parte traseira de um caminhão.

Naquele momento o público não tem a mínima ideia do que a dupla de “vilões” está aprontando e o que eles guardam dentro daquele caminhão. Cheguei até a pensar que seria um urso – por causa do título do filme.:) Mas não. A surpresa maligna tem a ver com um urso, mas não é o animal propriamente dito. Mas isso pouco importa. O que interessa para o funcionamento do filme é que ele quebra as expectativas do público em diversos momentos. E isso faz bem para a história.

O início do filme é ótimo. Um tanto “nonsense” e, ao mesmo tempo, irônico. No começo, quando Vic se apresenta para Charlot, achei que ela estava mentindo e que nem era parente do velho Émile. A personagem tinha feito de tudo antes – pelo menos é o que fica sugerido quando o oficial da Justiça boa-gente Guillaume Perreira-Leduc (Marc-André Grondin comenta que ela tinha sido condenada à prisão perpétua -, mas não parecia disposta a mentir.

Logo de cara me chamaram a atenção diversos elementos que definem a qualidade deste filme. Para começar, as escolhas de ângulos de câmera diferenciadas feitas pelo diretor Denis Côté. Ele imprime ritmo e uma fluência de câmera que normalmente sai de planos mais abertos ou específicos até chegar para o principal da ação em cada momento. Faz escolhas interessantes e inteligentes, garantindo um estilo próprio na na direção e escolha de cenas.

Gostei muito também da direção de fotografia que valoriza os contrastes e a luz feita por Ian Lagarde, assim como da trilha sonora marcante e que imprime o ritmo necessário para a história assinada por Mélissa Lavergne. O trabalho dela aparece em momentos pontuais e para valorizar as emoções que o diretor quer imprimir em diferentes momentos – como tensão, humor, expectativa, e por aí vai.

Estes são os valores que ressaltam aos olhos logo no início. Mas conforme a história vai se desenrolando, o roteiro de Côté valoriza o estilo e as relações das personagens principais, guardando de tempos em tempos pequenas surpresas para o espectador. O roteiro, junto com o estilo de direção dele e a atuação dos protagonistas vai ganhando relevância.

A narrativa tem um bom ritmo, com pequenas surpresas surgindo aos poucos e volta e meia – seja na relação entre Vic e Flo, seja no “risco” da reprovação de Guillaume ou dos vizinhos do casal de mulheres, até a grande surpresa da história introduzida por Marina St-Jean/Jackie (Marie Brassard).

Outro interesse desta história é que a dupla de protagonistas de Vic+Flo não é nada comum. Primeiro, porque elas são duas bandidas em fase de retomada de vida fora da cadeia – atenção, duas mulheres, e não o “tradicional” dois homens ou, pelo menos, um homem e uma mulher. Depois, porque formam um casal lésbico – alguém lembra de outro casal de mulheres que tinham esse perfil de retomada da vida após uma fase de crimes? Eu não.

O terceiro ponto já foi comentado aqui antes: as duas mulheres fogem do perfil de filmes de “suspense” ou ação. Uma tem 61 anos e a outra não é mais tão jovem. A diferença de idade e de interesses afeta a relação das duas – ou assim parece ser. E por mais que Guillaume torça por Victoria, simpatizando com ela – até porque ela lembra a mãe do agente -, ficamos sempre em dúvida sobre o caminho que ela vai tomar quando a história com Flo desandar. E o roteiro vai sugerindo isso pouco a pouco.

A expectativa se mantém forte até o final. Bem escrito, o roteiro faz com que o espectador torça por Vic e por Flo – especialmente pela primeira. Afinal, por não sabermos os crimes que ela cometeu antes – o que é um acerto para a história -, a tendência é que a opinião vá pelo lado de que ela deveria ter o direito a uma segunda chance. De recomeçar a vida, mesmo com um pouco da liberdade cerceada – pela constante presença de Guillaume.

O problema é que, como acontece com tantas outras histórias – dentro e fora dos cinemas -, há pouco espaço para a redenção. Algumas vezes as pessoas tem tempo de refazer a própria vida e oportunidades para isto, mas em tantas outras não é isso que acontece. No caso deste filme, pelo menos Vic e Flo puderam ter o gostinho da liberdade e da felicidade mais uma vez. O que choca é como há pessoas que colocam o preconceito em primeiro lugar – vide o pai de Charlot, Nicolas (Olivier Aubin).

Infelizmente, na vida fora da telona, há muita gente que segue esta linha. Coloca o preconceito em primeiro lugar, antes da solidariedade e da compreensão que todos somos iguais e temos os mesmos direitos à vida e à felicidade, independente dos passos errados ou da nossa parceria na cama. Vic+Flo conta uma história importante, ainda que triste e com um final cruel. E tão boa quanto a história, é a forma com que ela é contada.

A nota abaixo só não é melhor porque achei um tanto desnecessário o “final feliz transcendental” do filme. Ele tenta suavizar a dureza do fim trágico das protagonistas, mas nada apaga que Vic e Flo morreram lentamente, sentindo muitas dores e esvaindo em sangue. Por algum tempo acreditamos que a salvação poderá chegar, mas a aparição do garotinho tocando melhor o seu trompete apenas ressalta a ironia mórbida da história. Não há salvação no horizonte, mesmo com a pegada angelical dos minutos finais. O foco em uma Vic enlameada e conformada com o fim é muito mais decisivo e coerente com o restante da história.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Momento interessante aquele do garoto nos minutos finais da produção. O que realmente aconteceu não fica evidente. Mas tenho a minha teoria. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A primeira versão é que o garotinho realmente apareceu, na expectativa de arrancar uma nova opinião de Victoria, mas que ele não pensou em pedir ajuda para a mulher e sua companheira porque, oras bolas, ele é uma criança e não precisa ter esse “desconfiômetro”. O diálogo deles é tão cômico quanto o que abre o filme, por isso não dá para dizer que apenas aquela troca nonsense entre os personagens é prova de que o novo encontro não aconteceu. A outra versão é que Vic estava tendo uma ilusão perto do fim – tomada pela dor. Particularmente, acredito na segunda hipótese – até porque o garotinho aparece sozinho e não com o amigo inseparável. Mas aqui, como em tantos outros casos, não existe apenas uma resposta possível.

Os destaques do filme já foram comentados antes. Mas do elenco, vale citar ainda alguns outros nomes. Ainda que a cena seja dominada pelas ótimas atrizes Pierrette Robitaille e Romane Bohringer, acompanhadas de perto pela perigosa, singela e enigmática Marie Brassard, há alguns coadjuvantes com presença marcante – o que apenas ressalta a qualidade do diretor e roteirista em introduzir apenas figuras interessantes na história. Vale comentar o bom trabalho de Guy Thauvette como Yvon Champagne, irmão de Victoria; e o de Ted Pluviose como o amante de Florence. E é só.

Vic+Flo Ont Vu Un Ours estreou em fevereiro de 2013 no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Depois, o filme participaria de outros 18 festivais, incluindo um que iniciou hoje, dia 22 de junho de 2014, o Cinema City International Film Festival. Uma bela trajetória que garantiu três prêmios e sete indicações para o filme. Vic+Flo conquistou os prêmios Alfred Bauer do Festival de Berlim para Denis Côté; de melhor atriz para Pierrette Robitaille no Jutra Awards; e de Melhor Diretor para Côté no Festival de Cinema de Philadelphia. Todos muito merecidos.

O canadense Denis Côté tem 40 anos e 10 filmes no currículo como diretor – sendo dois deles de curtas-metragens e três documentários. Gostei do estilo dele. Acho que vale ficar de olho em seus próximos trabalhos.

Vic+Flo foi totalmente rodado na cidade de St-Antoine-sur-Richelieu, na província de Quebec, no Canadá. Aliás, este filme é uma produção 100% canadense.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para Vic+Flo Ont Vu Un Ours. A avaliação não é ruim, mas poderia ter sido melhor. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos: dedicaram 16 textos positivos e dois negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,1.

CONCLUSÃO: Os franceses não aliviam quando o assunto é cinema. É difícil assistir a um filme produzido por eles e que não seja bom e/ou apresente diversas qualidades. Vic+Flo Ont Vu Un Ours não foge desta regra. A história tem um desenvolvimento interessante, que algumas vezes deixa o espectador apreensivo com o que virá em seguida, utilizando daquela preciosa sabedoria de manter o suspense mesmo sem recursos desgastados. O trabalho do elenco é exemplar, assim como a direção. O roteiro surpreende, inclusive por uma inesperada crueldade, mas sem nunca esquecer do olhar sensível. Agora, se você gosta de tudo bem explicado, guarde distância desta produção. Muitos detalhes não são explicados – especialmente o passado das protagonistas. Mas isso não faz nenhuma diferença.

Enemy – O Homem Duplicado

18 de junho de 2014 45 comentários

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Imagine um sujeito que tem uma vida comum, ensinando os mesmos conceitos para estudantes dia após dia, mantendo uma relação morna com a namorada e repetindo os mesmos passos um após o outro. Até que ele quebra um pouco a rotina assistindo a um filme recomendado por um colega de trabalho e vê a própria imagem em um papel secundário na trama. Este é apenas o começo de uma reflexão sobre as escolhas que fazemos sobre a nossa própria vida e sobre as características que nos definem. Enemy trata disso e de muito mais. Um filme difícil de digerir no início, mas que vai ficando melhor conforme pensamos nele.

A HISTÓRIA: Imagens de uma cidade que parece parada. Em uma gravação, a mãe de Adam (Jake Gyllenhaal) agradece por ele ter mostrado para ela o seu novo apartamento. Na sequência ela emenda que está preocupada com ele e afirma que não sabe como o filho consegue viver daquela maneira. Ela pede para ele retornar e diz que o ama. Dentro do carro, Adam olha o movimento passar. Na cama, uma mulher grávida e nua olha para trás. Corta.

Uma frase vaticina: “Caos é a ordem ainda não decifrada”. Adam contempla uma chave que vai levá-lo a um local onde vários homens observam mulheres nuas sentindo prazer. Uma delas flerta com uma aranha. Corta. A cidade encoberta por uma névoa é revelada de perto. E o professor Adam fala para os seus alunos sobre controle. Em breve a vida organizada e controlada dele passará por um grande teste.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Enemy): Eis uma produção pesada. Não apenas nas mensagens, mas principalmente na narrativa e nos recursos “ambientais” (vide trilha sonora e direção de fotografia). Por isso mesmo a primeira sensação quando este filme acaba é de indecisão sobre o que assistimos. Afinal, do que este filme trata? E qual é a versão verdadeira – de algumas possíveis?

Procurando saber um pouco mais sobre a história depois que Enemy terminou, percebi que o roteiro de Javier Gullón foi baseado no livro O Homem Duplicado, do escritor português José Saramago. Lembro bem de quando a obra do português foi lançada. Ela dividiu opiniões e muita gente entendeu o que quis do livro. Então, meus caros, como esperar algo diferente de um filme inspirado em uma obra que já tinha, por essência, o desejo de fazer pensar sobre identidade e com isso, provocar confusão nas leituras a respeito do que foi narrado?

Dito isso, vamos ao que interessa: afinal, do que Enemy trata? (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro de tudo, esta produção aborda o sistema de vida atual de muitas sociedades modernas e urbanas. O protagonista deste filme é um sujeito que leva uma vida sem paixões e com muita rotina. Ainda que ele tenha um relacionamento com Mary (Mélanie Laurent), essa relação parece estar sempre próxima do fim – afinal, poucas vezes eles ficam mais tempos juntos do que na hora da cama. Há pouco diálogo e quase nenhuma convivência.

Quantas pessoas você conhece que vivem assim, cercadas de rotina e pouco sentimento? E mesmo o “antagonista” de Adam, o personagem de Anthony (o mesmo Jake Gyllenhaal), que em teoria tem uma vida bem mais “divertida” – afinal, ele é um ator que já conseguiu algumas pontas interessantes e que está procurando um lugar ao sol enquanto espera o primeiro filho ao lado da mulher Helen (Sarah Gadon) -, não tem uma vida exatamente “feliz”. Se fosse assim, ele não teria uma “vida dupla”.

E essa vida dupla não se manifesta apenas pelo clubinho de pervertidos do qual ele faz parte, mas também pelas traições dele no relacionamento – em certo momento Helen pergunta se ele vai ver a amante outra vez, apesar de ter prometido nunca mais fazer isso. Depois de ficar bem confusa com o filme, fui buscar mais informações sobre a obra de Saramago. E daí descobri que mais do que tratar de clonagem – essa foi a leitura de várias pessoas sobre a obra original -, o autor queria abordar a questão da identidade.

E quando ele trata dela, não está apenas discutindo o que, afinal, nos define ou não, mas também essa estranheza cada vez mais contaminante nos dias de hoje sobre o desconhecido, o diferente. Em uma sociedade individualista, cada vez mais as pessoas são “instruídas” a defender o seu próprio terreno, as opiniões e valores que tem, preservando estes conceitos sempre que se sente “ameaçada” por alguém que apresenta outras opiniões, valores e costumes.

O que você faz quando encontra alguém diferente ou muito parecida com você fala muito sobre a tua própria identidade. E afinal de contas é mais fácil lidar com alguém muito diferente ou muito parecido com a gente? Esta pergunta também aparece neste filme – e na obra de Saramago. Além disso, fica evidente como as duas obras – a cinematográfica e a literária – fazem uma crítica a essa vida “mais ou menos” que vai ocupando grande parte da existência do indivíduo. Ele não está satisfeito com a própria rotina ao mesmo tempo em que não consegue achar uma solução para este “estado das coisas”.

E o curioso do momento de “ruptura” da trama é a forma com que Adam e, principalmente, Anthony, flertam com a mudança radical da própria rotina para abraçar uma vida diferente. Claro que Anthony pensa em fazer isso rapidamente – trair a mulher com Mary e depois voltar para casa como se nada tivesse acontecido. Ele lida com os problemas da própria rotina desta forma, com pequenas escapulidas sem o “perigo” da ruptura radical.

Adam, por outro lado, não deseja mudar nada. Mas, ao mesmo tempo, quando encara a realidade da namorada sendo enganada por Anthony e traindo ele com o sósia egoísta, Adam não consegue ficar impassível. Resolve dar o troco, sem saber exatamente aonde está se enfiando. Ele faz isso mais por automatismo do que por vontade de alterar tudo radicalmente. O problema é que Saramago é um mestre da surpresa. Ele acaba com os planos dos próprios personagens que cria.

Não apenas Anthony tem um final surpreendente como Adam também cai em uma realidade que não tinha planejado. É isso o que acontece quando não pensamos bem a respeito dos nossos próprios atos. Com o acidente fatal de Anthony e Mary – o filme não deixa muito claro que eles morrem no carro, mas o livro de Saramago sim deixa isso claro -, Adam acaba assumindo o lugar do ator. Enemy termina antes do desfecho do livro – falarei dele mais abaixo.

Mas o importante desta produção é que ela mantém estas reflexões da obra original de Saramago. Com algumas pequenas mudanças feitas pelo roteirista Javier Gullón que tornam o filme um artigo independente. Vejamos. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Para começar, durante grande parte do filme o espectador não sabe exatamente o que está acontecendo. Especialmente as falas da mãe de Adam, interpretada pela veterana Isabella Rossellini, colocam dúvidas na cabeça do público.

Primeiro, ela diz que está preocupada com o filho e que não entende como ele consegue levar a vida que está levando. Isso sinaliza que Adam não estaria agindo bem. Mas daí mergulhamos na rotina dele, bastante entediante e “normal”, e parece deslocada aquela preocupação toda da mãe – mas deixamos a leitura sobre isso para depois, porque há mães um pouco “preocupadas demais”, por assim dizer, e aquela sensação de que existe alguma coisa podre no reino da perfeição pode ser apenas uma ilusão.

O tempo passa, Adam vê a “si mesmo” – ou alguém igual a ele, já que aparentemente ele não tem lembrança nenhuma de ter participado de filmes como figurante – em produções pouco conhecidas e daí fica esboçada a ideia de que Anthony é uma cópia perfeita de Adam e não a vida dupla do protagonista. É isso o que o roteiro nos faz acreditar, ainda que aquele sujeito igual a Adam pareça estranho, um pouco difícil de acreditar.

A primeira ideia que tive na cabeça, tentando “matar a charada” antes da hora, é que Anthony fosse a identidade dupla de Adam. E que ao confrontar a própria imagem no filme indicado pelo colega de trabalho (interpretado por Joshua Peace), em uma indicação “cheia de malícia”, ele tem que enfrentar o “transtorno dissociativo de personalidade”, como gostam de chamar os psicólogos. E mesmo o encontro no motel, para mim, não me pareceu definitivo – afinal, alguém que tem este transtorno pode também fantasiar um encontro inexistente.

Ajuda nesta teoria o encontro de Adam com a mãe quando o filme beira quase uma hora de duração. Além dela insistir que Adam é seu filho único e que é impossível ele ter encontrado alguém exatamente igual a ele – deve existir alguma diferença, ela argumenta -, a mãe do protagonista confunde a todos quando diz que ele deve desistir de atuar em filmes de terceira linha. Como mais tarde a mulher de Anthony comenta que achou estranho ele chegar em casa mais cedo porque iria visitar a mãe, algum desavisado pode achar que era o ator que estava falando com a mãe.

O problema é que o filme mostra Anthony perseguindo a namorada de Adam até o trabalho com uma roupa de motociclista e o homem que fala com a mãe em um apartamento estranho está vestido como o professor Adam. Então se aquele homem que fala com a própria mãe é Adam, por que ela comenta que ele deveria desistir de fazer filmes de terceira linha? Ela está apenas fazendo uma piada ou realmente dando um conselho para o filme? E se for o segundo caso, afinal de contas, Anthony nada mais é que a outra personalidade de Adam?

O roteiro de Enemy dá a entender que as traições de Adam e Anthony ocorrem simultaneamente. Enquanto Adam se faz passar por Anthony e se aproxima de Helen, o ator está na cama com Mary e, depois, se acidenta de carro quando Helen decide consumar a traição. A diferença é que Helen sabe o que está fazendo – que Adam não é Anthony – enquanto Mary está sendo enganada. Mas quem nos garante que, de fato, os fatos são simultâneos? Será mesmo que Adam não poderia ter “atuado” como Anthony com Helen primeiro e depois ter “atacado” Mary? As duas mulheres serem loiras e bem parecidas – exceto pela gravidez – também ajudam na confusão – que, sem dúvida, é um dos objetivos da história.

O que contradiz esta teoria de que os dois homens seriam a mesma pessoa são três pequenos detalhes. Primeiro, a questão temporal. Ainda é dia quando Anthony pega Mary para um dia diferente e “romântico” e também é dia quando Adam vai para o apartamento que o ator tem com a mulher grávida. Depois, quando amanhece, Helen ouve no rádio a notícia do acidente que ocorreu na madrugada antes de mudar a estação – dificilmente Adam teria tempo de transar com as duas mulheres e chegar em casa a tempo de Helen não desconfiar. E, finalmente, a questão da marca da aliança. Mary identifica o impostor porque ele tem a marca de uma aliança – algo que Adam nunca teve.

Estes detalhes derrubam a tese de que Adam tinha dupla personalidade. De fato, ele e Anthony eram idênticos, mas dois indivíduos diferentes. E como seria possível algo assim? Para mim, ficou evidente que a mãe de Adam mente. Ainda que ela jure que ele não teve um irmão gêmeo, será isso verdade? E se ele realmente era filho único, em que momento e com que objetivo teriam feito uma cópia perfeita dele? Seria possível uma clonagem sem o conhecimento da mãe de Adam? Acho beeeeeeeeeeem improvável.

Da minha parte, analisando apenas o filme, acredito que Anthony era irmão gêmeo de Adam e que as famílias dos dois não foram francas com eles – por motivos que desconhecemos. Quando Adam vê uma pessoa igual a ele atuando em filmes, fica perturbado. Ele se pergunta quem é ele, quem é o outro? O que define e o que diferencia cada um deles? Fica perturbado, perplexo, mas acaba aceitando essa figura diferente e tão parecida com ele. Com a aparição de Anthony, Adam repensa a própria vida.

O problema é que quando ele está pronto para fazer decisões importantes em sua própria vida, Anthony decide estragar tudo ao pular a cerca com Mary. Para o ator, acostumado a ter uma vida dupla e a enganar a mulher, esta será apenas mais uma traição. Para Adam, o significa do ato de Anthony é muito diferente. Ele não consegue lidar com a ideia de Mary estar na cama com outro homem, e a vida perfeita e ordenada que ele tinha acertado em sua própria cabeça desmorona.

No final, Adam acaba assumindo a posição de Anthony – mesmo antes dele e de Helen saberem do destino trágico de seus parceiros. Essa solução parece um pouco estranha no filme, mas é melhor explicada no livro. Aparentemente, segundo o roteiro de Gullón, Adam não consegue lidar com a traição involuntária de Mary e diz que não pode mais encontrar a namorada. Tendo perdido a amada, para ele parece natural assumir a outra vida já desenhada – de seu “sósia” Anthony. Helen estava farta do marido inconstante e traidor, e vê em Adam uma nova oportunidade de recomeço.

Claro que na vida real estas saídas parecem um tanto improváveis. Mas é bom lembrar que esta é uma ficção.:) Sendo assim, acho sim que aqueles dois sujeitos idênticos eram, de fato, muito diferentes entre si. Ainda que eles tivessem em comum algo fundamental: a facilidade de mudar radicalmente de vida quando tivessem uma oportunidade. De forma simbólica, quando Adam aceita repetir os passos de Anthony e fazer parte daquele clube de homens sádicos, no lugar de Helen ele encontra uma aranha gigante.

Esta aranha, que ocupa todo o quarto, simboliza o mesmo animal que entra dentro da mulher observada por um grupo de homens excitados e silenciosos. Ela provoca prazer e dor na mulher, assim como a vida dupla que Adam começa a assumir vai trazer para ele e para quem estiver próximo dele. Provocações interessantes do roteirista Javier Gullón e do diretor Denis Villeneuve.

Ainda assim, muitas perguntas que Enemy levanta não são respondidas pela produção. E se você, como eu, for atrás do original, do livro O Homem Duplicado de José Saramago, tampouco terá uma resposta esclarecedora. Em sua obra, Saramago deixa claro que Mary e Anthony morreram no acidente de carro. Isso fica esclarecido. Mas o final do livro abre outra pergunta que Enemy não levanta.

Depois de assumir a identidade de Anthony a pedido de Helen, Adam recebe um telefonema em casa. A exemplo do que ele fez antes, agora é um outro homem que está ligando para dizer que ele é igual a Adam (agora na pele de Anthony). Mesmo perplexo, Adam aceita se encontrar com o desconhecido. Mas desta vez ele sai para o encontro armado. Temendo ser substituído da mesma forma com que ele fez com Anthony ele vai encontrar a sua cópia para eliminá-la? Conseguindo isto, por quanto tempo ele continuará seguro? A sensação de risco permanente é outra “praga” contemporânea. Saramago acerta ao tratar disto.

Mas a origem destas cópias não é explicada no livro de Saramago. Seriam elas resultado de clonagem? E se afirmativo, porque esta seria a resposta mais “plausível” (o que por si só já é um bocado absurdo, convenhamos), como estas cópias teriam sido feitas? E quem, afinal de contas, seria cópia de quem? Certamente há muita mentira e segredos espalhados aqui e ali para que aquelas cópias existissem. E a ameaça delas será constante. Assim como na vida real, sem que tenhamos cópias nos ameaçando, são arriscadas as ameaças constantes da vida que nos colocam em xeque a nossa própria identidade. Trabalho inteligente, ainda que o filme seja um pouco confuso demais.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Importante dizer que eu apenas entendi melhor a proposta de Enemy depois que busquei o original de Saramago. E ainda que isso seja interessante – essa ligação que muitas vezes o cinema faz com a literatura -, sou defensora da independência destas duas expressões artísticas. Por isso mesmo, acho ruim quando um filme como este exija do espectador que ele vá atrás da obra original para entender o que aconteceu – acho que ele deveria ser mais autoexplicativo.

Durante a exibição do filme, achei Enemy muito pesado. Não apenas pela história, que é um tanto confusa e tensa, mas também por causa das escolhas feitas pelo diretor de fotografia Nicolas Bolduc e pelos responsáveis pela trilha sonora, sempre densa e pesada, Danny Bensi e Saunder Jurriaans. Estes elementos ajudam no desconforto que a história quer provocar – assim como a obra de Saramago.

Por falar no original, no livro O Homem Duplicado, acho interessante citar o que o autor queria com a própria produção. Nesta entrevista para a Folha de São Paulo em 2002, na época do lançamento do livro, Saramago afirmava que tinha uma preocupação constante pelo outro e que O Homem Duplicado era um livro “engajadíssimo”. Apesar de comentar isso, ele não esclarece de forma clara o que queria com esta obra. Esboça, contudo, que a questão dos nomes tem uma importância menor – para as pessoas é importante dar nomes para tudo, ainda que isso não seja determinante sobre o que as coisas ou as pessoas são.

Gostei do título original do filme. Enemy. Afinal, o “inimigo” é aquele que aparece na vida do protagonista para confrontá-lo, vindo de fora, ou é ele próprio ao tomar as atitudes erradas? Seríamos nós mesmos os nossos maiores inimigos através da nossa consciência? Esta ideia também está, aparentemente, no original de Saramago.

Muito boa e segura a direção de Denis Villeneuve. Depois de dirigir o “fenômeno” Prisoners (comentado aqui), o diretor canadense marca mais uma dentro com Enemy. Novamente ele confunde o público com diversas pistas mas esclarece as dúvidas nos detalhes. Ou, pelo menos, tenta.:) Eis um diretor para ficarmos de olho. Atualmente, ele trabalha na pré-produção de Sicario, previsto para ser lançado no próximo ano e tendo Josh Brolin, Benicio Del Toro e Emily Blunt no elenco; e também em Story of Your Life, previsto para 2016, com Amy Adams. Estaremos de olho.

Este é um filme com um elenco reduzido. A trama gira em torno dos personagens vividos por Jake Gyllenhaal – e por suas duas loiras. Além dos atores já citados, vale citar as pontas dos atores Tim Post, que interpreta o homem que trabalha na recepção do prédio de Anthony e que está louco para conseguir uma nova chave para a “diversão da turma”; e Kedar Brown como o segurança que entrega o envelope com a nova chave para Adam – correspondência destinada para Anthony. Os dois fazem pontas com certa relevância e que imprimem um pouco mais de mistério na história. Mas o grande trabalho fica mesmo com Gyllenhaal, muito bom em diferenciar os dois personagens/personalidades da história.

Da parte técnica do filme, além da trilha sonora e da direção de fotografia pesadas, vale citar o bom trabalho do editor Matthew Hannam e o figurino sutil e fundamental de Renée April.

Enemy estreou em setembro de 2013 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria de outros 21 festivais – uma marca impressionante! Nesta trajetória o filme conseguiu abocanhar sete prêmios e foi indicado a outros seis. Entre os que recebeu, destaque para os de Melhor Fotografia, Melhor Direção, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Atriz Coadjuvante para Sarah Gadon na categoria Canadian Screen Award do Genie Awards, realizado em Ontario, no Canadá, neste ano.

De acordo com o site Box Office Mojo, Enemy teria conseguido pouco mais de US$ 1 milhão nos cinemas dos Estados Unidos. Pouco.

Enemy foi totalmente rodado nas cidades de Toronto e Mississauga, ambas no Canadá.

Agora, algumas curiosidades sobre este filme: o elenco assinou um contrato de confidencialidade que não lhes deixa dar entrevistas ou qualquer explicação sobre o significado das aranhas para a história. Interessante.

O protagonista foi oferecido para Javier Bardem, mas o ator achou que o personagem não “combinava” com ele. Estranho… pensar que alguns personagens não combinam com o ator. Depois, o papel foi oferecido para Christian Bale, que não pode aceitar devido a um conflito de agendas. Acho que ele teria se saído bem – só não sei se melhor que o Jake Gyllenhaal.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para Enemy. Uma boa avaliação, ainda que apenas mediana perto de outros filmes que viraram “sensação”. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 60 textos positivos e 20 negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média de 6,7.

Esta é uma coprodução do Canadá com a Espanha.

CONCLUSÃO: No início, não gostei tanto de Enemy. Achei o filme um pouco arrastado, enquanto a história se desenrolava, e o roteiro também bastante confuso. Mas isso apenas em um primeiro momento. Conforme fui pensando na história e conheci o original de José Saramago, as peças foram se encaixando melhor. Não existe apenas uma forma de entender este filme – ou a obra original que o inspirou. E isso é sempre uma grande qualidade para qualquer história. Enemy carece de um pouco mais de ritmo, mas até essa forma de narrativa ajuda na sensação de incômodo – que é o foco principal desta produção. No fim das contas este filme incomum mexe com nossos conceitos, interpretações, e deixa muitas perguntas no ar. Vale uma conferida por causa disso.

El Médico Alemán – Wakolda – The German Doctor – O Médico Alemão

12 de junho de 2014 3 comentários

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Todos os dias cruzamos com desconhecidos. Pouco a pouco, alguns destes encontros se tornam recorrentes. Mas para uma família com filhos, como garantir que estes desconhecidos não sejam perigosos? Como ter certeza que aquela pessoa para quem estás estendendo uma mão não vai te pedir também o tronco? El Médico Alemán – Wakolda trata de um destes encontros que se aprofunda, e de um perigo constante que parece cercar uma garota de 12 anos e que parece ser mais jovem. Mais uma história interessante apresentada pela diretora Lucía Puenzo.

A HISTÓRIA: Meninas brincam de elástico. Entre elas, está Lilith (Florencia Bado). Um pouco distante, um homem (o talentoso Àlex Brendemühl) observa as meninas com atenção. Não demora muito para Lilith ser chamada pelo irmão, Tomás (Alan Daicz). Em seguida, a menina começa a contar sobre a reação do homem parado sobre ela e a família. Na primeira vez que ele a viu, pensou que Lilith era “um espécime perfeito”, exceto pela altura da menina.

Em seguida, imagens da caderneta do homem, com muitos desenhos perfeitos das pessoas da família de Lilith e outros rascunhos de animais e bebês. A história se passa na Rota do Deserto, que fica na Patagônia, em 1960. O médico alemão está saindo do local quando vê Lilith derrubando uma boneca, que ela chama de Wakolda. A família da menina está saindo para viajar, e o médico alemão pede para segui-los em caravana. Pouco a pouco a relação dele com aquela família vai se aprofundando.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a El Médico Alemán – Wakolda): O nome do protagonista deste filme nunca é falado. Ainda assim, não demora muito para uma pessoa um pouco informada sobre a história pós-Segunda Guerra Mundial matar a charada. Um dos fugitivos mais famosos da caçada para encontrar os nazistas que sobreviveram ao fim da guerra e que migrou entre diversos países da América Latina é o foco desta produção.

Mesmo que ele seja o “perigo constante” da história, El Médico Alemán – Wakolda é narrado sob a ótica de outro personagem: a jovem Lilith. Essa perspectiva infantil justifica a pegada de curiosidade e mistério do filme com direção e roteiro de Lucía Puenzo. Se fosse narrado por um adulto, dificilmente este filme não “mataria a charada” mais cedo. Mas pelo fato da ótica ser de Lilith, a atração da garota pelo médico e o perigo que o olhar dele revela em cada encarada que ele dá na menina ganha relevância.

Foi um acerto Puenzo ter investido nesta ótica. Antes de ficar mais evidente a identidade do médico alemão que insiste em ficar próximo da família de Lilith, a impressão que o espectador pode ter é que aquela figura misteriosa pode ser um tarado sexual. Pelo menos pensei nisso ao observar como ele olhava para Lilith nos primeiros minutos da produção. Nestes detalhes de reproduzir o olhar e o foco da atenção dos personagens que Puenzo ganha pontos.

Mas as anotações no caderno do médico alemão e, principalmente, os vizinhos misteriosos da hospedaria que será resgatada pelo casal Eva (Natalia Oreiro) e Enzo (o ótimo Diego Peretti), com chegada constante de “visitantes” de avião e uma grande estrutura médica, ajudam a matar logo a charada. Mas mesmo sabendo que aquele médico é Mengele, será que ele se aproveitará de Lilith ou mesmo da mãe dela em algum momento?

O olhar de Mengele disseca as pessoas. Mas neste hábito não existe nenhuma conotação sexual. Ainda assim, o perigo é constante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O que ele quer fazer, afinal, com aquelas pessoas? A resposta para esta pergunta está bem clara no final da produção. E por mais que fique claro antes o quanto Mengele experimenta com Lilith, o “toque final” dele com os gêmeos é chocante. Especialmente porque ele estava próximo de fugir e, mesmo sabendo que estava sendo perseguido, ele não quis desperdiçar mais aquela oportunidade de experimentar com humanos.

O roteiro escrito pela diretora também explora a conivência que muitas comunidades na América Latina tiveram com os remanescentes do regime nazista que fugiram para estas bandas. Mesmo não defendendo claramente Mengele, Eva não esconde a alegria por encontrar um alemão de respeito – perto do final sabemos que ela desconfia do passado do médico, mas afirma para o marido que não se importa muito com isso.

Além dela, Mengele tinha muitos fãs em solo argentino – e em outros países pelos quais ele passou para sobreviver à perseguição do governo de Israel que tentou, por muitas décadas, encontrar, julgar e eliminar os inimigos dos judeus. Estes fãs faziam tudo que o médico queria, além de protegê-lo e garantir uma fuga segura após a captura de Adolf Eichmann – político alemão, oficial da SS e um dos responsáveis pela logística de envio de vítimas para os campos de extermínio nazistas – em Buenos Aires.

Segundo este texto da Aventuras na História, a Argentina foi o país da América do Sul que mais recebeu criminosos de guerra: cerca de 300 segundo o historiador argentino Jorge Camarasa. No filme de Puenzo fica clara a rede de apoio a estes fugitivos. É sugerida, mas fica menos evidente, a rede de informantes judeus que ajudaram o Mossad, serviço secreto de Israel, a capturar muitos destes criminosos.

Um acerto deste filme é que ele não se desvia do olhar de Lilith em nenhum momento. Ao aproximar tanto o espectador de uma família comum como aquela comandada pelo casal Enzo e Eva, a diretora e roteirista quer defender a ideia que o encontro com um criminoso de guerra poderia ter ocorrido com qualquer um. Apenas judeus interessados em justiça poderiam, a exemplo de Nora Eldoc (Elena Roger), reconhecer Mengele com certa facilidade.

Para os demais, mesmo para uma descendente de alemães com certa “admiração” pelos nazistas, como era o caso de Eva, não ficava tão evidente a desconfiança ou a suspeita que aquele poderia ser um fugitivo de guerra importante. Interessante também o jogo que o roteiro faz entre a interpretação do que é perfeito e da importância de sermos todos diferentes. Enquanto Mengele defende o uso da genética e de outros recursos da Medicina para procurar cada vez mais o humano perfeito, Enzo defende para a filha Lilith a importância de cada um ser único ao ter suas próprias imperfeições e qualidades.

Em determinado momento da história, como tudo levava a crer, estas duas visões se chocam. Enzo pede pela saída de Mengele, mas tem os planos adiados com o nascimento dos gêmeos que Eva esperava. E aí, mesmo na iminência de ser encontrado pelo Mossad, Mengele revela o seu lado mais cruel e obcecado. No final, apenas imaginamos quantas pessoas de países latinos não serviram de experimento para aquele homem.

Todos os atores deste filme fazem um grande trabalho. Mas o destaque fica mesmo com Àlex Brendemühl. Ele transparece em cada minuto do filme frieza, autocontrole extremo, obsessão por medir pessoas e para manipular quem está perto. Na reta final, apresenta também o seu lado perverso ao torturar psicologicamente a Nora Eldoc.

O olhar de Lilith, em uma ótima interpretação de Florencia Bado, é sempre de curiosidade, nunca de julgamento. Puenzo acerta nesta escolha. Afinal, como uma boa contadora de histórias, ela deve apresentar os fatos com sensibilidade e atenção, deixando o julgamento para quem assiste a sua obra.

Durante e após a Segunda Guerra Mundial muitas pessoas, seja na Alemanha, seja no Brasil ou em outros países pelo mundo, foram coniventes com absurdos cometidos contra gente de carne e osso. Esse passado ainda assombra muita gente. E contar estas histórias é fundamental para o resgate da nossa memória.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: El Médico Alemán – Wakolda tem muitas qualidades. Começando pela direção segura e bem planejada de Lucía Puenzo e pelo ótimo trabalho do diretor de fotografia e irmão da diretora, Nicolás Puenzo. Aliás, eles fazem parte de uma família de cineastas. Lucía e Nicolás são filhos de Luis Puenzo, diretor de La Historia Oficial, ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1986. E os dois trabalham em uma produtora da família com outros irmãos.

Neste último filme de Lucía, a fotografia é fundamental. A Patagônia, uma das partes mais bonitas da Argentina, acaba sendo também um personagem da história. A diretora sabe explorar muito bem os cenários, mas sem deixar em momento algum de valorizar a interpretação dos atores, mantendo a câmera quase sempre perto do rosto deles para capturar todos os detalhes de suas expressões.

Da parte técnica do filme, além da direção de fotografia, vale destacar a edição segura de Hugo Primero e o ótimo resgate de época do início dos anos 1960 na Argentina feito pela direção de arte de Marcelo Chaves, pela decoração de set de Antonella Pasini e pelos figurinos do trio Nora Lia Alaluf, Beatriz de Benedetto e Pilar Gonzalez. Achei perfeito o trabalho da equipe de som – algo que, muitas vezes, os filmes brasileiros não apresentam – liderada por Andrés Perugini. E para fechar a lista de elogios, muito boa a trilha sonora bem pontual de Andrés Goldstein e Daniel Tarrab.

Importante para este filme Lucía Puenzo ter escolhido um grupo diminuto de personagens. Desta maneira fica mais fácil aprofundar nas características de cada um e na tensão das relações entre alguns deles. María Laura Berch acertou na escolha e no preparo do elenco, especialmente nas figuras de Àlex Brendemühl e Diego Peretti, que interpretam respectivamente ao médico alemão e ao patriarca da família e que acabam sendo os antagonistas da história. Os dois atores dão um show. Florencia Bado e Natalia Oreiro, filha e mãe na história, também fazem um trabalho muito seguro e convincente. E o impressionante é que este é o primeiro filme de Florencia.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de alguns coadjuvantes. Se saem bem nesta produção Guillermo Pfening como Klaus, namorado de Nora e que apresenta ela para o médico alemão; e Ana Pauls como a enfermeira que aparece na reta final da produção.

El Médico Alemán – Wakolda estreou no Festival de Cinema Judeu na Austrália no ano passado. Depois, o filme passaria em Cannes e em outros 20 festivais até abril deste ano. Nesta trajetória o filme ganhou 11 prêmios e foi indicado a outros 10. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Diretora no Festival de Cinema de Havana e para 10 premiações dadas pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina, incluindo as de Melhor Filme, Melhor Diretora e Melhor Ator para Àlex Brendemühl.

Interessante que este filme tem dois títulos – além de El Médico Alemán, também Wakolda. Para quem ficou na dúvida sobre o segundo título, Wakolda é o nome que Lilith deu para a sua boneca sem coração e “imperfeita”. Essa boneca não apenas simboliza a própria Lilith, mas todas as crianças e pessoas que deveriam ser adequadas no mundo ou serem eliminadas segundo a filosofia do médico alemão.

Esta produção teria custado US$ 2 milhões e faturado, nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 401 mil. No restante dos mercados em que estreou mundo afora, o filme teria conseguido outros US$ 2,6 milhões de bilheteria. Ou seja, pelo menos está se pagando.

Para quem gosta de saber sobre as locações dos filmes, El Médico Alemán – Wakolda realmente foi rodado em Bariloche e em Buenos Aires, ambas na Argentina.

El Médico Alemán – Wakolda foi a indicação da Argentina para o Oscar deste ano. Mas a produção não chegou a lista final de indicados.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta a média do site. Os críticos que tem o seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 24 textos positivos e 11 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 69% e uma nota média de 6,7.

A diretora Lucía Puenzo tem 37 anos – fará 38 em novembro – e seis produções no currículo como diretora (sendo três longas e três curtas). A estreia dela no cinema foi com o filme XXY, muito interessante e que tem uma crítica no blog aqui. Vale ser visto, e Lucía, certamente, merece ser acompanhada.

Apesar do nome e da cara de alemão, Àlex Brendemühl é espanhol. Pois sim! O ator nasceu em Barcelona em novembro de 1972 e estreou no cinema com o longa Tot Verí em 1996. Ele foi bem reconhecido por seus papéis nos filmes Las Horas del Día e 53 Días de Invierno. Gostei do estilo dele. Também vale ser acompanhado. O “arqui-inimigo” de Brendemühl em El Médico Alemán – Wakolda, o ator argentino Diego Peretti, tem 51 anos e atuou em 37 projetos – incluindo cinema e TV. Bem conhecido em seu país, Peretti tem como trunfos em seu currículo produções como La Señal e Música en Espera.

El Médico Alemán – Wakolda é uma coprodução da Argentina com a Espanha, a Noruega e a França.

CONCLUSÃO: Pouco sabemos sobre as lideranças do regime nazista que fugiram para a América Latina. Esse não é um tema recorrente no cinema. Procurando preencher um pouco esta lacuna, a diretora argentina Lucía Puenzo nos apresenta esta história cercada de suspense e de uma narrativa constantemente tensa. Desde o princípio o espectador espera pelo pior. Por algum ataque ou violência. Por mais que a charada sobre a identidade do protagonista seja facilmente resolvida e muito antes da reta final desta história, o desfecho da produção consegue impactar. Bem dirigido e com atuações convincentes, El Médico Alemán – Wakolda reafirma a qualidade do cinema argentino. Vale pelo resgate histórico.

Kill Your Darlings – Versos de Um Crime

8 de junho de 2014 Deixe um comentário

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Personagens históricos controversos sempre dão pano pra manga. Especialmente quando a história trata de artistas – que sempre terão os seus defensores convictos e seus detratores igualmente “cheios de razão” – e ambos, certamente, corretos.:) Kill Your Darlings se debruça em um episódio importante na vida de autores fundamentais da chamada geração beat. Um crime que iria catapultar os amigos Allen Ginsberg, Lucien Carr, Jack Kerouac e William Burroughs em diferentes direções, rompendo um cotidiano de exageros fundamental para a obra que cada um – exceto Carr – desenvolveria depois.

A HISTÓRIA: Água. Uma música antiga começa a tocar. O corpo de David Kammerer (Michael C. Hall) aparece submerso na água. A ação volta lentamente no tempo, e vemos Kammerer sendo largado na água por um ensanguentado Lucien Carr (Dane DeHaan). Ao fundo, Carr lê o trecho de um escrito de Allen Ginsberg (Daniel Radcliffe) no qual ele fala sobre o poder transformador e destruidor do amor. Corta. Carr aparece lendo o texto, enquanto Ginsberg se aproxima das grades da cela onde o amigo está. Carr diz para Ginsberg que ele não deve mostrar aquele texto para ninguém.

O poeta beat pede para Carr dizer a verdade, mas o amigo contesta que ele não estava no local quando o crime aconteceu. A partir daí, a história volta no tempo e muda de local, mostrando a cidade de Paterson, em New Jersey, no ano de 1943, quando Ginsberg descobre que foi aprovado na Universidade Columbia. É lá que ele irá conhecer Carr e outras pessoas importantes para o surgimento da “geração beat”.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Kill Your Darlings): Admito que fui assistir a este filme desavisada. Não sabia que se tratava da história do encontro das principais figuras da geração beat. Pelo título e pelo pôster da produção, pensei que se tratava de apenas mais uma história de um crime macabro que tivesse acontecido nos Estados Unidos.

Ainda que tenha lido algo feito pelos escritores retratados neste filme, não sou uma profunda conhecedora da obra deles. Acho importante fazer estas duas pequenas observações para contextualizar o leitor sobre a minha postura frente a este filme. Esclarecido estes dois pontos – e acho fundamental especialmente o segundo, por não me colocar nem na seara dos que acham estes nomes brilhantes e nem de quem considera eles dispensáveis -, vamos ao que interessa.

Kill Your Darlings me pareceu um filme feito sob medida para o grupo de pessoas que gosta da geração beat. E que por gostar de Ginsberg, Kerouac e Burroughs, teria um conhecimento prévio sobre a vida deles, a maneria com que eles se encontraram e começaram uma amizade e, claro, sobre o crime praticado por Lucien Carr.

Acredito que para as pessoas deste grupo, este filme parecerá interessante por dramatizar uma visão dos fatos. Sim, porque há um caminhão cheio de controvérsias que cerca o roteiro do escritor Austin Bunn e do diretor John Krokidas. Como o filme segue a linha de pensamento de Ginsberg e a versão dele dos fatos – não por acaso a narrativa inteira está contada sob a ótica deste escritor -, outras visões discordantes ficam de fora da trama.

Como jornalista, sei bem que um fato não tem apenas uma versão. Como ouvi a cantora e compositora Marisa Monte ponderando estes dias em uma entrevista na Globo News, a verdade absoluta é difícil da alcançar. O que costumamos roçar é a verdade diferenciada de cada pessoa. Pois bem, Kill Your Darlings é a verdade de Ginsberg dos fatos.

Sabendo disso, é interessante e bastante corajosa a forma com que ele trata de seu próprio ritual de passagem para a vida adulta. Acompanhamos Ginsberg a partir da saída da casa dos pais – onde tinha uma relação conflituosa com o pai, Louis (David Cross), e de muita atenção e cuidado com a mãe doente, Naomi (Jennifer Jason Leigh) – e até o encontro do jovem com o estimulante ambiente universitário.

Até Ginsberg entrar para a Universidad Columbia, ele era apenas um esboço de escritor. Um jovem talentoso que gostava de ler muito, começava a traçar as primeiras linhas, mas que precisava ser desafiado para romper a casca e sair do ovo. Chegando na universidade, ele fica fascinado com a figura atraente de Carr. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E esse fascínio, logo vamos saber, não fica apenas no plano intelectual. Muito pelo contrário.

Um ponto que parece ser unânime entre as versões daqueles fatos é que Carr era um jovem bonito, muito bonito, e que transbordava energia e vitalidade, o que acabava atraindo muitas atenções. Estiloso e espirituoso, ele aglutinou as figuras principais da geração beat, aproximando o recém-chegado Ginsberg de Burroughs e, pouco depois, Kerouac dos outros dois.

Outro ponto que todos parecem concordar é que Carr tinha uma relação bastante intensa e conflituosa com David Kammerer. E que a proximidade e a relação de Ginsberg e Kerouac com Carr teria desencadeado ainda mais conflitos do jovem com Kammerer, o que terminaria por provocar uma forte discussão dos dois e a morte de Kammerer.

Fora estes dois pontos explorados pelo roteiro de Bunn e Krokidas, todo o restante é controverso. Como vocês podem ver nesta matéria interessante de Mark Judge e publicada no The Daily Caller, com um depoimento forte de um dos filhos de Carr, Caleb, Kill Your Darlings pode ter distorcido totalmente a realidade para afagar o ego de Ginsberg.

Segundo Caleb Carr, o filme segue a ótica de Ginsberg, um gay assumido e militante, para quem todo homem é homossexual – mas nem todo se liberta das próprias amarras para viver esta realidade -, que via na relação de Carr e Kammerer a de dois amantes com diversos conflitos. Segundo esta visão, Carr tinha vergonha de ser gay e, descontrolado pela insistência de “posse” de Kammerer, quando ele, Carr, tinha interesse de ter uma relação com Kerouac, teria preferido matar o professor que se fazia de zelador para ficar perto do “protegido”. Em diversos momentos do filme uma relação sexual entre Carr e Kerouac é insinuada.

O problema fundamental de Kill Your Darlings, segundo Caleb Carr, é que a relação entre o pai dele e Kammerer seria bem diferente. Caleb defende que Lucien era abusado por Kammerer desde os 12 anos de idade, quando Kammerer – 14 anos mais velho – era instrutor de escoteiros e os dois se conheceram em um grupo destes. Como Lucien foi abandonado pelo pai quando era muito jovem, Kammerer teria assumido a figura paterna para o garoto.

O problema é que Kammerer teria aproveitado a autoridade desta presença paterna para abusar sexualmente e psicologicamente de Lucien. Com a conivência da mãe do rapaz, interpretada no filme por Kyra Sedgwick, Kammerer teria feito marcação cerrada contra Lucien. O acosso incluiu uma viagem ao México e chegou até a Universidade de Columbia. A diferença, segundo Caleb, é que no ambiente universitário Kammerer teria tido a concorrência de outras pessoas, especialmente Kerouac – que teria uma postura bastante viril, máscula, assumindo a figura paterna que antes era desempenhada por Kammerer.

Ainda de acordo com o depoimento do filho de Lucien, Ginsberg nunca teria sido correspondido pelo pai dele, por isso esta versão tão distorcida da realidade. Francamente, não sei de que lado está a verdade. Até porque seria compreensível que Caleb, tentando preservar a memória do pai – explorado no filme como um grande manipulador que não tinha talento para a literatura e que vivia jogando com as pessoas -, negasse que ele fosse gay ou bissexual.

O que me chamou a atenção no material da The Daily Caller é que Caleb não apenas nega a história de Kill Your Darlings, mas se expõe de uma maneira tão corajosa quanto o ator Daniel Radcliffe em algumas cenas deste filme (a melhor parte da produção, para mim, foi a entrega do intérprete). Especialmente importante o momento em que ele fala que uma prova de que o pai era abusado por Kammerer e não era amante dele é que Lucien seguiu o padrão de várias pessoas que são abusadas: descontar o que eles sofreram em outras pessoas, especialmente nos filhos, através da violência ou da indiferença.

Caleb é direto em dizer que sofreu violência física do pai. Ora, se ele queria apenas defender a memória de Lucien, parece difícil que ele faça isso dizendo que o pai não era gay, e sim uma figura violenta. Não faz sentido. Por isso mesmo eu desconfio que a versão de Caleb esteja mais próxima da realidade do que o roteiro de Bunn e Krokidas. E se isso for verdade, Kill Your Darlings pinta um pedófilo, que teria abusado sexualmente de um rapaz a partir dos 12 anos, como um sujeito apaixonado e que não queria deixar o amor de sua vida partir.

Essa indefinição sobre o que de fato é verdadeiro atrapalha bastante esta produção. Especialmente porque ela abraça apenas uma versão dos fatos. Além disso, achei o roteiro muito arrastado. Kill Your Darlings, apesar de recorrer ao desgastado recurso de mostrar o final para depois retomar a história desde um princípio relevante, demora para engrenar. Também me pareceu que Bunn e Krokidas quiseram fazer uma homenagem aos autores da geração beat, cuidando para que o retrato deles não fosse denso ou realista demais.

Duvido muito que Ginsberg, Kerouac e Burroughs não escandalizassem muito mais do que o que é visto nesta produção. Pensando em outros filmes que mostraram gente mergulhando fundo nas drogas, Kill Your Darlings parece uma produção quase pueril. Duvido que as figuras retratadas neste filme não mergulharam muito mais em orgias, drogas e bebida do que o que Bunn r Krokidas querem nos contar. Essa vontade de “embelezar” a visão de todos os envolvidos, menos de Carr, torna a espinha dorsal de Kill Your Darlings muito frágil e sem vigor.

O filme também perde força com algumas caricaturas aqui e ali. Por exemplo, a caracterização da mãe de Ginsberg ou a necessidade de Carr subir na mesa da biblioteca na apresentação do local para os novos alunos. Recursos batidos em outras produções e que parecem descolados da narrativa teoricamente “embebida” na realidade.

As interpretações de Daniel Radcliffe e Dane DeHaan são o que o filme tem de melhor. Os dois mergulham em seus respectivos papéis e convencem em cada fala, mesmo quando elas não são bem escritas. Outros atores mais veteranos e normalmente muito bons em seus papéis, como Michael C. Hall e Ben Foster, não conseguem fazer uma entrega tão boa – talvez porque nem eles acreditaram no texto que tinham que interpretar. Jack Huston está bem como Kerouac. Mas o problema envolvendo estes últimos três atores é que os personagens deles não são bem desenvolvidos pelo roteiro. Não ao ponto de convencer o espectador como é o caso dos personagens de Radcliffe e DeHaan.

Mesmo com tantos problemas, Kill Your Darlings ganha certo interesse por contar como Ginsberg, Kerouac e Burroughs se encontraram. O filme faz um resgate interessante – ainda que previsível – do ambiente vivido nos Estados Unidos em 1944 e 1945, e ganha alguns pontos por adicionar, aqui e ali, algo de poesia e do talento dos autores retratados. O melhor daqueles atores, contudo, seria lançado apenas tempos depois – por isso, para a nossa desgraça, não era possível o roteiro deste filme acrescentar mais de suas obras. A nota abaixo é justificada principalmente pelo ótimo trabalho de Radcliffe e DeHaan. O melhor do filme.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Cada um tem os “ídolos” que lhe interessa. Da minha parte, nunca achei interessante esse tipo de artista que tem que afundar em drogas ou álcool para conseguir escrever. Verdade que “estados alterado da mente” fazem alguns criarem melhor. Mas de fato a arte precisa deste tipo de aditivo? É impossível criar algo sublime se não for através do uso massivo de drogas e/ou álcool? Acredito que muitos artistas geniais de diferentes gerações podem servir de contraponto para esta crença.

Talvez pelo comentado no parágrafo acima é que a geração beat nunca tenha “feito a minha cabeça”. Não ao ponto de eu realmente ir atrás de boa parte da obra de Kerouac, Ginsberg ou Burroughs. Mas é claro que respeito quem tenha feito isso. Certamente se você é uma destas pessoas, vai ter uma leitura diferente de Kill Your Darlings. Comente por aqui o que você achou.

E para quem quer ter uma visão “simplificada” da geração beat, esta matéria ligeira do Mundo Estranho pode ser uma boa palhinha.

Apesar de convencerem menos que Radcliffe e DeHaan, o excelente ator Michael C. Hall e Jack Huston se saem bem em seus respectivos papéis. O que faltou para Huston neste filme, a meu ver, foi um pouco de “postura viril”. O que eu li sobre Kerouac me faz acreditar que ele tinha uma presença mais máscula do que Huston consegue imprimir. Ben Foster é o único que realmente ficou apagado na produção – para quem viu o ator em outros papéis, aqui ele parece “fora do tom”.

Falando nos grandes trunfos deste filme, o trabalho de Radcliffe eu já conhecia, e gosto dele, mas quem me chamou a atenção pela surpresa do desempenho foi Dane DeHaan. Esse jovem ator de 27 anos está filmando Tulip Fever, um filme de época do diretor Justin Chadwick (que fez Mandela: Long Walk to Freedom e The Other Boleyn Girl, comentado aqui no blog, entre outros). Com este filme, são 23 trabalhos como ator – incluindo filmes e séries de TV. Uma produção anterior a Tulip Fever que ele fez foi Life, filme no qual ele interpreta James Dean. Se ele conseguiu fazer uma entrega no estilo de Kill Your Darlings, vamos ouvir falar muito dele ainda, tanto por interpretar James Dean como por outros papéis. Vale ficar de olho.

Além dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho de Elizabeth Olsen como Edie Parker, namorada de Kerouac, e John Cullum como o professor Stevens, esforçado em ensinar bons conceitos para figuras “do contra” como Ginsberg. Curioso ver o resgate que o filme faz do ator David Rasche, que interpreta o diretor da Universidade Columbia – ele é uma figura conhecida de quem acompanhou o cinema dos Estados Unidos nos anos 1980.

Da parte técnica do filme, gostei da trilha sonora de Nico Muhly, ainda que ela pareça um pouco carregada em certos momentos; assim como da direção de fotografia de Reed Morano e da edição de Brian A. Kates. Como este é um filme de época, importante o resgate dos anos 1940 feito pelo figurino de Christopher Peterson e, principalmente, pelo design de produção de Stephen H. Carter, pela direção de arte de Alexios Chrysikos e a decoração de set de Sarah E. McMillan.

Kill Your Darlings estreou em janeiro de 2013 no Festival de Sundance. Depois, o filme participaria ainda de outros 18 festivais e semanas de cinema – um número impressionante! Nesta trajetória, o filme conseguiu quatro prêmios e foi indicado a outros seis. Nenhum prêmio de grande relevância.

Esta produção foi filmada totalmente em Nova York – incluindo o campus da Columbia University.

Não há informações sobre o custo de Kill Your Darlings. Há dados apenas sobre a arrecadação do filme nos Estados Unidos: pouco mais de US$ 1,03 milhão. Pouco, muito pouco.

Este é o primeiro longa dirigido por John Krokidas. Sem dúvida ele precisa de mais experiência atrás das câmeras para começar a chamar atenção tanto quanto outros nomes de diretores jovens que estão no mercado e que já apresentaram filmes com um estilo pessoal muito marcante. Krokidas é natural de Massachusetts e tem 40 anos – fará 41 em outubro deste ano. Antes de Kill Your Darlings ele tinha dirigido a dois curtas.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 94 textos positivos e 29 negativos para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 76% e uma nota média de 6,6.

CONCLUSÃO: Eis um filme com algumas ousadias interessantes e certos problemas difíceis de superar. O principal mérito está na interpretação dos atores, especialmente no trabalho corajoso de Daniel Radcliffe e na entrega firme do menos conhecido Dane DeHaan. O problema da produção está no roteiro questionável que embala o resgate histórico cheio de controvérsia. Independente do trabalho ser mais ficcional ou realista – o que lembra a própria obra da geração beat -, ele procura lançar uma luz, mesmo que difusa, em uma época fundamental para aqueles ícones da literatura norte-americana e que tiveram uma influência grande em outros movimentos mundo afora. Vale pela curiosidade, ainda que esta obra exija um bocado de paciência do espectador.

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